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Poemas

O CHORO DA ÁFRICA

O choro durante séculos nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas nos batuques
choro de África nos sorrisos
choro de África nos sarcasmos no trabalho
choro de África
Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal meu irmão Nguxi
e amigo Mussundano círculo das violências mesmo na magia poderosa da
terra e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas e
das hemorragias dos ritmos das feridas de África
e mesmo na morte do sangue ao contato com o chão mesmo no florir
aromatizado da floresta mesmo na folhano frutona agilidade da zebrana
secura do deserto na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens o choro de séculos
inventado na servidão em histórias de dramas negros almas brancas
preguiças e espíritos infantis de África as mentiras choros verdadeiros nas
suas bocas o choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro da desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados inimiga da vida fechada em estreitos
cérebros de máquinas de contar na violência .
O choro de África é um sintoma
Nós temos em nossas mãos outras vidas e alegrias desmentidas nos
lamentos falsos de suas bocas - por nós!
E amore os olhos secos.
(Agostinho Neto - Poemas, 1961)

Acorda Brasil. Teu filho negro é quem te fala: _ Não transforme o coração do mundo Em uma grande e fria senzala! (José Carlos Vaz Souza Miranda) O LAMENTO DE UM NEGRO VELHO . Só a angústia. Menino Nasceu negro Na favela do mundo… Menino negro Não teve pai pra lhe sustentar Não conheceu os carinhos de uma mãe: Só arranhões.MENINO NEGRO Menino negro Que tem cor de noite escura E nessa noite em brumas Um abrigo procura. com a força de seus braços. no corpo desnudado. Os olhares na rua Atestam que o preconceito não morreu E vive entranhado na sociedade Condenando aquele menino A ser réu sem liberdade Menino negro Não entrou na roda Mas. Fez a roda girar. no coração a sangrar.

Sofri no eito. Quanta dô em meu peito! Veio a liberdade. sofri. sob a chuva no eito.Poesia. Sofri na senzala. ao mundo voltei. De dor. favorita de Julio de Agonjú. Quanta dô em meu peito! Chorei. É o continuar do meu lamento! DECELSO . Ouço queixa e sofrimento Em todos os terreiros. chorei. lágrima. Negro é assim. Quanta dô em meu peito! Morto. derramei. Ainda assim eu chorei. PRETO VELHO I . Apanhei de todo o jeito De sofrer quase morri Quanta dô em meu peito! Suor. não tem jeito. de saudade. De alegria é verdade. Sob o sol. A tristeza não deixei.

. Morreram logo.. as pombas rolas.. VI Na Mina. III Cantaram os sabiás e os canários. o Preto Velho.. II Trôpego e curvado e Preto Velho Sentou-se no banco tosco à sombra amiga De uma árvore Cheia de flor. VIII .A leva de escravos ia passando Sob o sol inclemente de verão. humilde obedeceu. Alguns coitados.. Do velho escravo Sem temor... gemeu o velho tronco De pavor. tantos foram os maus tratos Que um dia. V O Preto Velho... IV Levanta. ao chicote do capataz. Fugiu a passarada.. Preto Velho! Terás que caminhar ainda de um sol a outro P’ras minas de ouro do senhor. Nos ombros já curvados. levanta. Sob a chibata Do feitor. VII Seus irmãos de côr logo enterraram Seu corpo inerente e frio À sombra amiga da árvore Cheia de flor. tombou sem vida. De calor. Pousaram...

E. quando o sol se abrasa O viajante que passa Sob a árvore antiga Vê o Preto Velho Se abrigando Do calor.Gemeram os sabiás e os canários. PRECONCEITO O sangue que corre . Preto Velho contará A história triste De sua dor. Sofreu o tosco banco. dominando o medo se aproxima Sentando-se ao seu lado.. de dor IX Ainda hoje... Teve lágrimas E ais. X Se. até a velha árvore.

No imenso Brasil!!! ... Trabalha e que chora. meu irmão.. Não vês o valor Dos músculos de aço. Amigo e patriota. Que importa a côr dele.. Na terra adorada. Do riso tão franco? Deixa o preconceito. É filho valente Da Pátria querida. Nasceu como tu. Febril coração? Sua alma difere Acaso da tua? . Como os brancos o são. No berço querido. Do olhar altaneiro. .Nas veias do negro. Não tem diferença Do teu. Esse homem que luta. O orgulho de lado Que embota tua alma.. Se no peito lhe bate.

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