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CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS A PARTIR DA FORMULAÇÃO DE

UMA QUESTÃO PARA PESQUISAi
Barbara E. B. Cabral1
Henriette T. P. Morato2
RESUMO
Este artigo apresenta considerações metodológicas, a partir de uma perspectiva fenomenológica
existencial, com base na experiência de elaboração de uma pesquisa em torno da ação desenvolvida por
equipes de profissionais de saúde em um determinado território de atuação, ou seja, da ação territorial em
saúde como intervenção em saúde pública. Neste sentido, delineia a produção da metodologia em
consonância com a questão de pesquisa, considerada como bússola, ressaltando-se a experiência desta
produção como um aspecto fundamental da pesquisa de base fenomenológica existencial.
Palavras-chaves: metodologia; perspectiva fenomenológica existencial; ação territorial em saúde

1. Apresentação
Pergunto-me: qual o mérito de uma questão? Imagino que toda questão mereça
ao menos uma tentativa de resposta. O fato de uma questão qualquer se apresentar,
tomando conta do sujeito, justifica por si só a necessidade de busca de “soluções”. As
questões trazem a possibilidade de por em movimento o ser, no sentido da busca de
sentido, da busca da sensação de conforto que, ilusoriamente, pensamos poder encontrar
a partir de uma resposta suficientemente convincente.
Entretanto, qualquer tentativa de resposta que se descubra para a questão, que
nos colocou em movimento, imediatamente irá produzir novas indagações. O inquietarse é característico do ser humano. Lançar-se em uma caçada constante para encontrar
outros sentidos, outras configurações, outros horizontes, outras descobertas, parece ser
tarefa fundamental de quem percebe a própria condição de incompletude como marca
do humano.

1

Mestre em Psicologia Clínica.
Professora Doutora do Instituto de Psicologia da USP e Professora Colaboradora do Mestrado em
Psicologia Clínica da UNICAP.
2

Encarar, olhar de frente a mobilização produzida em nós por algo que nos escapa
à compreensão é a atitude básica de quem, além de ser espectador da vida, assume o
desafio de dela se fazer participante, enquanto sujeito que acolhe a possibilidade,
própria da condição humana, de tecer sentido, de fabricar conhecimento. Ao aceitar essa
condição de artesão de sentido, de produtor de conhecimento e de vida, o ser humano
passa a se nutrir de seus questionamentos, de suas inquietações, de sua falta de respostas
e de sentido, de seu desalojamento diante do ineditismo da existência, para produzir-se
por ato transformador, ou seja, por em ação sua capacidade de criar.
Pesquisar é uma das infinitas maneiras possíveis de exercitar essa possibilidade
criativa tão característica do humano. Toda pesquisa se origina a partir de uma questão.
Questões são próprias do humano, enquanto produtor de sentido, por sua condição de
ser comunicacional. É nessa perspectiva que as inquietações experimentadas pelo
sujeito se referem a algum ponto de sua existência, refletindo um não saber(-se) por
inteiro: o sujeito se mobiliza por questões que o colocam diante da impossibilidade
(ainda que momentânea) de compreender algo que lhe diz respeito ou que o implica de
alguma forma. Dito de outro modo, acontecimentos ou fenômenos, que se apresentam
ao sujeito, demandam-lhe um posicionamento ou um situar-se em relação ao que a ele
se mostra. Outra característica do humano: sua condição relacional consigo mesmo e
com o que o envolve.
Nesse sentido, pesquisar é tão somente construir uma forma de olhar para algo,
de tentar compreender alguma situação que se apresenta a alguém como enigmática.
Cada questão comporta diversos pontos de vista e pode provocar diferentes modos de
pesquisa. De qualquer maneira, a questão que brota como crucial para um sujeito em
determinado momento tem um caráter próprio que se relaciona com aquele sujeito em
particular.

abordando aspectos metodológicos orientados a partir da questão de pesquisa. considerou-se necessário problematizar o sentido da ação territorial como intervenção em saúde pública... Ele é tecido a partir da experiência do pesquisador. a questão pode se revelar como a bússola da pesquisa. Todo o trabalho de pesquisa. análise. recorre-se à experiência de elaboração de uma pesquisa em torno da ação territorial em saúde desenvolvida através do Programa Saúde da Família (PSF). dessa maneira compreendido. trabalho de campo. com base nos . elaboração da metodologia. parece se apresentar aquilo que é fundante para nortear o trabalho de pesquisa. é uma experiência propriamente dita.Explicitar uma questão vai depender de uma relação extremamente singular entre o sujeito e a questão. Um trabalho de pesquisa. Para ilustrar esse modo de pensar. Tal problematização exigia uma compreensão de como esse profissionais estão se apropriando dessa estratégia de ação territorial. definição de objetivos. passando pela pesquisa bibliográfica. essa é uma maneira fenomenológica possível de compreender e realizar pesquisa. através do Programa Saúde da Família. engajados em estratégias de ação no território. sente-se compelido a buscar sentido para aquilo que fez vibrar sua curiosidade. –. Assim. O sujeito. cujo cenário é a condição de ser-no-mundo-com-outros. a partir da experiência de profissionais nela envolvidos. partindo da compreensão e experiência destes profissionais? Em busca dessa reflexão. Dito de outro modo. tendo sido captado pela inquietação. é necessariamente autoral. Como bússola. como geradora de um sentido ético e político. configurou-se a seguinte questão: como poder refletir acerca da prática de profissionais de saúde pública. Quando se reconhece a questão movente – e isto ocorre apenas com uma clareza relativa. desde o polimento da questão. visto ser a questão escorregadia e multifacetada. até a escrita final do que vai sendo desvelado.

Assim. A fenomenologia existencial de Heidegger fundamenta a analítica do sentido. Assim. aproxima-se de um modo pertinente de compreender tanto o homem . Considera-se que a interdependência entre o homem e o mundo. Em relação à fenomenologia. além de um mapeamento do sentido que eles dão à sua prática nesse modelo de intervenção em saúde pública. sendo. torna-se importante destacar que há diversas articulações metodológicas possíveis. e a narrativa. em elementos do pensamento de Hannah Arendt. optou-se por um caminho. esta autora se baseia. ainda. enquanto uma articulação metodológica possível ao se optar por uma atitude fenomenológica. Ser pode ser referido enquanto expressão verbal. Além daquele autor. no sentido de que há diferentes compreensões e métodos possíveis que se enquadram em uma postura fenomenológica. sendo conjugado de modo singular a partir da existência de cada homem. baseando-se na interpretação de que ser é condição ontológica do homem. é a partir de Critelli que são elaboradas as reflexões que seguem. portanto. não podendo ser substantivado. A bússola conduzindo ao caminho Na tentativa de olhar mais profundamente a inquietação que deu partida à pesquisa. filósofa discípula de Heidegger. A seguir. que coloca à disposição dois utensílios principais: a fenomenologia existencial. entificado. fundamental deixar clara a referência teórica que está sendo utilizada. Talvez não seja exagerado afirmar que existem “fenomenologias”. apresenta-se o motivo dessa escolha. Esta corresponde a uma visão de mundo específica. buscou-se engendrar uma articulação do sentido mapeado com a possibilidade de um sentido ético e político no âmbito da atuação em saúde pública. elaborada e apresentada por Critelli (1996). 2. pautada no pensamento de Heidegger.relatos de suas experiências. apontada pela fenomenologia.

vir-a-ser. se é preconizada uma ruptura enquanto condição para a possibilidade de um conhecimento “limpo e verdadeiro”. A compreensão do homem em sua condição ontológica de coexistência o coloca como fabricador do sentido mesmo de ser.quanto o mundo. as quais são assumidas. O homem não precisa ser prisioneiro das diversas tramas em que é colocado ao vir ao mundo. serão escolhas possíveis. ao nascer. ao longo desse existir. Tal compreensão indica uma diferença radical e constitutiva em relação ao que se denomina. ou não. de modo tradicional de construção do conhecimento. corre-se o risco de perder tanto o homem quanto o mundo. o sentido não é dado. mas não precisam ser determinantes da existência do homem. aqui. Como seria possível eliminar o homem e os fenômenos da subjetividade do processo de construção do conhecimento? A proposta de assumir que o sujeito – enquanto ser singular e plural – e os seus estados de ânimo constituem peça fundamental na engrenagem que produz conhecimento e ciência está implicada na atitude fenomenológica. calcado no ideal científico. Dar um norte à existência é um empreendimento. as heranças não podem ser negadas. portanto. ser é um problema. Desta forma. cunhado na Idade Moderna por Descartes. no sentido de ser jogado em uma trama já configurada. Fugir ou mesmo aceitar tudo o que já está posto como imposição de um “destino”. pleno de possibilidades. Os sentidos que vão sendo dados a esse existir são de responsabilidade do próprio . em um cenário específico. para ele. fornecido. Ainda que. uma destinação à sua existência. baseado em dualismos e dominante até hoje. cabe a ele dar um norte. o homem seja “enredado”. O homem é abertura ao ser e. Obviamente. O existir do homem é ir-sendo. entendido com caráter de fatalismo. O homem deve responder à tarefa existencial de imprimir um sentido à sua vida. O homem é mundo e.

não pode se prender a concepções deterministas ou redutoras na explicação dos fenômenos. O mundo não pode ser compreendido como uma realidade objetiva. e sim como uma interpretação do real. o qual – não se deve esquecer – está inserido em uma teia de relações. claro está que também o mundo é fruto dessa construção. como mero objeto. e. sendo necessário produzi-lo continuamente. não se pode escapar a esse movimento de busca de sentido para o existir. pela sua condição ontológica de existência. A compreensão de que o sentido inexiste enquanto totalidade ideal. constitui tarefa intransferível. Não é difícil perceber que não há regularidades no campo da existência humana. como já dito. Dar destinação ao ser. Disto pode ser depreendida a importância de atitudes não arrogantes. coexistência.homem. uma realização desse real. aguçada por se saber o único capaz de dar algum sentido ao ser. cuja particularidade no humano se refere a um cuidar de ser. tornando-se propriamente o que se é. Estas posições parecem abrir possibilidades interessantes para a compreensão da dinâmica da vida neste mundo e da existência. ou melhor. que não existe independente do nosso interagir. lançado diante do sujeito para ser conhecido por este. Isto porque. Se ao homem cabe essa construção do sentido da existência. o qual se mostra como um universo de possibilidades. sendo ser-com-outros. na perspectiva de que . Há uma articulação entre todas as coisas e as relações prioritárias são as que acontecem entre os homens. O homem existe cuidando de existir. no mundo. a maneira como o homem se coloca no mundo é dando sentido a esse mundo. Diante da diversidade e da mutabilidade do mundo e da vida. pois estes são os produtores de sentido. ou seja. Cada explicação não pode ser tomada em si como verdade. por que não dizer. a ele próprio e aos outros. Do nascimento à morte. remete a uma angústia existencial. separada do homem.

os paradoxos e as incongruências. sendo mundo com outros. indicados abaixo: O pesquisador precisa tentar se aproximar dos seus conhecimentos prévios em relação ao problema em questão. o seu olhar só se constitui enquanto olhar a partir do que ele olha. em uma teia de relações que é mutante. criando sentido. Desse modo. sendo importante que nas conversas eles possam expressar as suas percepções. para dar conta dessa proposta. que é construída por todos os envolvidos. exercitando um auto-esclarecimento. sendo parte do mundo. Na análise dos registros. uma teia de nexos. Neste emaranhado. Implica num fazer e refletir em ação. pois neles a trama se revela melhor. Segundo Critelli (2002)ii. inclusive das sensações do pesquisador durante todas as fases da pesquisa. tal método abrange aspectos específicos. Todas as verdades são relativas. mostrase também pelo que ele faz como trabalho em ação. que é efetivamente construído por atores/autores envolvidos em determinada situação. é importante observar atentamente os conflitos. É importante que haja um registro das impressões. a atitude fenomenológica apresenta-se no humano por nunca poder ser neutro no mundo. É dessa perspectiva que se opta pelo modo fenomenológico de compreender e realizar pesquisa. afeta e é afetado. ou. O sentido buscado não se aprisiona nas diversas formas de seu registro. Assim. O homem. e o que ele olha só se constitui enquanto algo olhado a partir do seu olhar.não se pode pretender atingir uma verdade que dê conta de todos os fenômenos e que possa ser referenciada por todas as pessoas. o que o humano realiza como sendo essa sua tarefa de busca de sentido. Os sujeitos são interlocutores. . um contexto. pode perder sua particularidade se inserido em outros contextos. O problema em questão sempre está em uma trama. para além disto. sendo ele invariavelmente mutável. Cada sentido. visto que o sendo aí é que torna possível a produção de sentido.

o processo de conhecimento não prescinde de uma fusão entre sujeito e objeto para nascer. ao menos. Todos esses aspectos se apresentam como centrais no desenvolvimento de um trabalho de pesquisa dentro de uma perspectiva fenomenológica existencial. O olhar precisa se voltar para a diversidade. 1989). remete a ir com. o sentido em si. Qualquer teoria que se construa a respeito de coisas do mundo é tão somente uma maneira de ver. Tudo importa – o que aparece e como aparece – pois o sentido pode se revelar através de qualquer coisa. etimologicamente. assim. como indica o sentido originário da palavra. provocando a impossibilidade de uma objetividade neutra ou de uma subjetividade anulada. a partir da relação entre cognoscere (nascer com) e coire (coito). O pesquisador precisa tentar desvelar o que está escondido. sendo mais importante o modo. não havendo como prever desfechos ou resultados. De acordo com Tellesiii (1979 apud MORATO. O real é compreendido como fenômeno em realização e não como representação. de modo que sua interpretação é uma busca de compreensão. a realidade não é algo que pode ser apreendido a partir de um recorte de pesquisa. não apreendendo. fundamenta um modo mais flexível diante do processo de construção do conhecimento. O pesquisador precisa tentar conhecer os nexos (sentidos). é importante ter clareza da intenção. Por outro lado. O pesquisador também é participante.A construção de sentidos é infindável. novas destinações podem ser impressas ou. e À medida que vai sendo desvendada a trama. A intrínseca relação apontada entre o sujeito que pesquisa e o seu objeto. Conhecer. apontadas. caracterizando-se uma relação de conhecimento com penetrabilidade. Independentemente do instrumento. É uma ilusão acreditar que se possa estar neutralmente em uma situação. O que é .

da construção da trama do mundo. pergunta-se: que modo seria mais próprio para se aproximar dos interlocutores a fim de. próprias da condição humana. contando de seu fazer.factível ao pesquisador é uma interpretação do real. Já a escolha do modo de cuidar do modo de cuidar remete ao âmbito do . como vai cuidar e como vai cuidar do cuidar mesmo. Um espaço de fala. a partir da compreensão de que tudo se forma e transforma na relação sujeito-mundo. Retornando à pesquisa ilustrativa. como indica Critelli (1996:136). empreendidos hegemônica e uniformemente por todos. disponíveis a todos. que se constitui como uma forma de cuidar de quem cuida. ou seja. conduzir a questão que deu origem à pesquisa? Considera-se ser adequada a utilização da metodologia de relatos orais como via de acesso ao modo como esses profissionais se situam em sua prática. sujeito-objeto. tarefa humana por excelência. de quem toma o cuidado do outro como sua principal atribuição. cumplicemente. da interpenetração. nesse particular. mas uma possibilidade de compreensão”. que “não é uma façanha lógicoconceitual. mas da mútua afetação. A escolha do de que cuidar e do modo de cuidar são mais culturais. a adoção de um modo fenomenológico existencial de pesquisar permite essa flexibilidade. possam refletir a respeito de seu papel enquanto cuidadores. Assim. não a partir da lógica das polaridades. a partir da experiência de profissionais dessa área envolvidos com tal forma de intervenção. se a proposta é refletir sobre o sentido da ação territorial em saúde pública. cuidar de ser. e não meros técnicos de saúde. Isso significa que será proporcionado um espaço para que esses profissionais. se estrutura sobre uma escolha com tríplice aspecto: a pessoa escolhe do que vai cuidar. Segundo Critelli (1996). remetendo ao âmbito da significação. Tal relação é compreendida.

o viajante. A autora discute que os relatos que um sujeito faz de sua experiência adquirem o estatuto de registro dessa experiência e são. ou seja. Em seu texto “O Narrador” (1985). Benjamin faz uma articulação entre narrativa e experiência através da análise da figura do narrador. baseada nas reflexões de Walter Benjamin. momentos de elaboração e de transmissão de experiência. condição que possibilita uma singularização. que a questão se lança. Esse sentido se manifesta originariamente através dos estados de ânimo. falem de sua prática. o sedentário. É atrás desse sentido de cuidar. Criar um espaço para que esses profissionais se contem. este autor chama a atenção para a ambigüidade que sustenta a elaboração de experiência e que acontece a partir de dois pólos: o aventurar-se e sair pelo mundo. pode se re-velar como uma oportunidade para que se reflita sobre o cuidado com a forma de cuidar. nas emoções. condição que possibilita atualizar o passado e construir o sentimento de pertença coletiva. ou seja. Destacando o caráter artesanal da narrativa enquanto forma de comunicação. perspectivando a possibilidade de construção de um fazer com sentido ético e político. e o conhecer sua própria história. . Segundo Schmidt. O sentido que ser faz se apresenta nos humores. de sua experiência nesse cuidar do outro. pela sedimentação e incorporação constantes do diverso e do plural que compõem a vida de um indivíduo e a narrativa é a forma de expressão afinada com a pluralidade de conteúdos e a constante mutação no tempo características dessa elaboração (1997: 68). na prática de profissionais de saúde engajados em uma ação desenvolvida no território.sentido. no tempo. a experiência reporta a uma elaboração do fluxo do vivido que ocorre. a um só tempo. no próprio lugar em que se está. A metodologia de relatos orais se sintoniza com uma concepção de narrativa adotada nesta pesquisa.

visando a articulação disto com um sentido ético e político para esse fazer. é forma. 3. mais importante que chegar a um certo lugar é o próprio caminhar. 2001).. ou seja. as dificuldades da lida diária possam ser comunicadas. algo pelo qual já se passou. por um lado. enfim. histórias de vida são nada mais que atos de uma narrativa que não se deixam aprisionar por estes conteúdos. de elaboração da experiência. trata-se de uma pesquisa-ação ou pesquisa interventiva (LÉVY. A fim de tornar isto mais explícito: depoimentos. Uma metodologia assim proposta acaba se configurando como espaço promotor de experiência. é sentido e pode ser acessada em diferentes atos. Refere-se a um espaço em que as histórias da prática cotidiana possam ser contadas. Dessa maneira. como o modo de apresentar uma experiência. o caminho iluminado? O caminho nunca se oferece inteiro ao viajante. uma oportunidade para que o sentido do que fazem possa ser dito e re-criado. mas sim. pautada na intervenção no território. através de diversos conteúdos. Enfim. Ele se mostra e se constrói na medida em que é trilhado. como momento do próprio desenrolar da experiência.. ela assume o caráter de forma de comunicação. propiciando que esse cuidador reflita sobre sua forma de cuidar. Nessa perspectiva. No entanto. algo que foi vivenciado e sobre o que se pôde elaborar. gerando sentido para esse seu fazer.Se a narrativa pode ser considerada. O pesquisador-viajante não . relatos. Apresenta-se como uma possibilidade de cuidar de quem cuida. Narrativa é ação. com base no objetivo que é perseguido. as conquistas possam ser faladas. podem se revelar por e através deles. reflete-se que a construção de um espaço para que profissionais de saúde possam comunicar a experiência da sua prática pode ser um caminho possível para o que se busca: compreender o sentido dessa prática. por outro. Essa é uma lição rica na produção de uma pesquisa fenomenológica existencial. e.

Após a escolha do lugariv. impulsionada a partir de uma questão de pesquisa. a partir do recorte do trabalho. em grupo. ou seja. pois o cenário é complexo. Mas. surgiu a idéia de criar uma metodologia que contemplasse a narrativa da experiência desses profissionais. Ainda mais. Nessa direção. se o interesse dirigia-se a um tipo de prática. No caso da pesquisa ilustrativa. A configuração da questão indicou uma alternativa que pareceu interessante para abordar a prática de profissionais de saúde engajados nessa estratégia. constituindo-se de diversos personagens/atores. Assim. e a como ocorre sua realização. Dessa reflexão. imaginou-se que seria significativo criar uma oportunidade de encontro em grupo com esses profissionais. tendo como eixo o trabalho em equipe. era necessário deles aproximar-se. que poderiam ser contemplados na formação do grupo. como poderia ser constituído esse grupo? Os interlocutores seriam solicitados a historicizar. antes. pensou-se que se a proposta seria compreender como esses profissionais encontram sentido para o que fazem.pode se deixar capturar pela ânsia de chegar ou de ter bem determinado o caminho a percorrer. essa experiência por meio da narrativa. Nessa direção. é a abordagem escolhida para uma aproximação do fenômeno a ser compreendido. o fenômeno que desperta o interesse é a ação territorial em saúde através do PSF. como o da ação territorial em saúde através do PSF. via grupo. de cada aspecto da paisagem. apenas um aspecto do problema estava encaminhado. cada ponto da trajetória que se delineia está intimamente conectado com a questão que o mobilizou originalmente. considerou-se fundamental constituir um grupo com garantia de . Um aspecto crucial para a investigação. ouvindo-os contar como é essa experiência na lida diária da prática que exercem. precisa se apropriar de cada passo do caminho.

a quantidade de profissionais seria grande. como escolher esses profissionais? Apenas considerando o contingente de equipes do PSF no lugar. Com a sensação de estar diante de um jogo de quebra-cabeças. foram selecionadas. O primeiro critério levado em conta para composição do grupo foi o da exemplariedade do grupo de pesquisa em relação à constituição do PSF no local escolhido e à existência de equipes com propostas de assessoria. implicando no re-conhecimento dos diversos programas e personagens em articulação neste campo. Para tanto. sucessivamente. foi estabelecida uma primeira correspondência: como existiam quatro áreas de supervisão do PSF no local e são quatro categorias profissionais na equipe original do PSF. foi realizada uma cartografia dessa ação territorial em saúde. no lugar escolhido. Isso foi feito considerando a ordem como comumente estas categorias são referidas nos documentos oficiais do PSF. suporte e/ou supervisão ao PSF. A partir disso. relacionando-se a primeira categoria mencionada com a área de supervisão 1. de cada área participaria apenas uma determinada categoria profissional. as duas que pertenceriam a equipes com acompanhamento de saúde mental e as duas que . Através de sorteio. Em relação à representatividade da equipe original de PSF. três critérios foram considerados para a escolha dos profissionais: a área de supervisão em que a equipe se localiza. apresentando-se algumas possibilidades. dentre as categorias profissionais. o pertencimento a equipes de PSF acompanhadas por um trabalho da equipe de saúde mentalv e o tempo de engajamento do profissional no PSF do lugar. considerando as diferentes formas de inserção de cada grupo de profissionais. começou-se a brincar com as peças. a segunda com a área de supervisão 2 e. assim.representatividade dos atores/autores principais da ação territorial. Mas.

a constituição desse grupo acabou assumindo a característica de um mosaico. Em relação à equipe de saúde bucal. foi realizado um sorteio entre as três categorias profissionais possíveis e. Da mesma forma. foram sorteadas as duas categorias que deveriam ter maior tempo de serviço no PSF do lugar e as duas com menor tempo. a partir daí. Esse modo foi pensado como um espaço possível para expressão do singular . O convite para a participação na pesquisa foi feito. foi solicitado a cada grupo que escolhesse um participante para garantir a representatividade da proposta do projeto na constituição do grupo de pesquisa. inicialmente. um outro sorteio entre as duas equipes de saúde bucal do PSF que continham a categoria sorteada. mas que se interrelacionavam por um objetivo comum: operacionalizar um trabalho a partir de uma ação territorial em saúde. em que. diretamente a cada um desses profissionais sorteados ou indicados como representantes no grupo de pesquisa. Em seguida. seria brevemente exposto o problema de pesquisa – buscar compreender o sentido da ação territorial em saúde pública a partir do PSF. para definir de qual delas seria o profissional participante. deixando.não teriam esse acompanhamento. descritos a seguir: • uma discussão coletiva com 9 profissionais de saúde pública. então. tendo o Programa Saúde da Família como eixo. Dessa maneira. que a discussão fluísse. Em relação aos grupos que realizavam uma atuação sistemática junto às equipes de PSF. A colheita das narrativas dos interlocutores foi delineada de forma a acontecer e contemplar dois momentos. seria apresentada a pergunta disparadora: “Poderiam me contar como tem sido a experiência de vocês na prática dirigida à ação territorial em saúde através do PSF?”. como eram menores em tamanho. posteriormente. pela junção de atores/autores de equipes distintas.

Considera-se que na medida em que se abre espaço para que se conte uma experiência. Ao longo da discussão. próprio do modo de agir da prática psicológica clínica. Esse momento se caracterizaria como a possibilidade de autenticação daquilo que foi construído no grupo. ele mesmo. você teria algo a acrescentar?”. Por outro lado. o que poderia ficar comprometido só com o recurso do áudio. As discussões no grupo seriam registradas em áudio e vídeo. para que se pudesse identificar o momento de fala de cada um. ainda nesse primeiro momento. era necessário atentar para esclarecer o que fosse dito e. recorrendo-se à seguinte pergunta: “Em relação ao que foi dito na discussão grupal da prática em saúde. oferecendo-lhes a oportunidade de acrescentar ou modificar algo dito por eles no grupo. não ocorrendo essa mesma situação nas entrevistas individuais. poderia lançar-se mão de mais um encontro grupal. com os profissionais que participaram do momento coletivo. • uma entrevista individual.no coletivo. especialmente ao se tratar de um campo tão central na vida do sujeito como o do seu trabalho cotidiano. Caso necessário. podendo constituir-se como oportunidade para pensar o coletivo e expressar o singular. para propiciar que os interlocutores pudessem expressar a maneira como compreendem saúde. É importante perceber que esse caminho metodológico permite se evidenciar. principalmente. aí mesmo ocorre a oportunidade para uma elaboração em torno desse fazer. elas seriam apenas gravadas em áudio. para que todos tivessem a oportunidade de contar sua experiência com este tipo de intervenção em saúde. No momento da realização da . com um caráter interventivo.

discussão grupal. foi prevista a participação de duas outras psicólogas: uma para auxiliar na facilitação do grupo e outra para dar o suporte da filmagem. Nessa mesma direção. tratam de uma pesquisa qualitativamente diferente implica em escapar da polaridade qualitativo versus quantitativo tal como freqüentemente é retomada. 4. . que apontaria para a necessidade de medição concreta e explícita para a comparação e/ou obtenção dos fenômenos pesquisados. Referir que as considerações em torno da construção de uma metodologia a partir de uma questão. pode-se compreender metodologia como a construção de um caminho possível para a realização de um estudo. não cabendo a definição ou aplicação de um método padronizado ou préconfigurado. Reflexões sobre a confecção do caminho Assim se delineou o caminho. respaldada em uma perspectiva fenomenológica existencial. Dentro da perspectiva fenomenológica existencial. A produção da metodologia precisou respeitar o tempo de esclarecimento da questão. Quantidade e qualidade não se diferem apenas pela questão do conteúdo numericamente presente. Sendo assim. a melhor forma será encontrada a partir do aprofundamento em cada recorte de pesquisa ou tema sobre o qual se queira debruçar o pesquisador. à medida que ia sendo apontado pela questão de pesquisa. Compreende-se que o que marca uma diferença é a origem do modo de pesquisar e o sentido para onde tal modo aponta. revelando a necessidade da própria cartografia do território vivo em que a ação de interesse ocorria. o objetivo de qualquer pesquisa em uma tal perspectiva é empreender uma compreensão qualitativamente diferente (outra) de algum fenômeno.

então. percorre a trilha do sentido e não do conteúdo. compreendido como um modo de pensar para encontrar uma franja do real e não um modo de pensar por raciocínio. 1958. pautando-se pelo modo de pensar fenomenológico como bússola pertinente àquela questão. aquilo que se mostra (fenômeno). busca-se a verdade e o conhecimento.Partindo-se de uma perspectiva de apreensão do real (enquanto universal) pela sua representação via razão. pro-move-se outra aproximação à situação na qual o fenômeno desvelou-se como franja. Revelado “o que merece ser interrogado” (Heidegger. assim. Desse modo. meditação. dessa forma. Uma tal compreensão seria uma forma possível de se atentar ao alerta de Heidegger (1958) de que “a situação que domina o ser da ciência. tais óticas acabam se aproximando. 20). como pensar. qualitativamente outra seria uma perspectiva de conhecer. isto é. Método seria. para. É por essa re-leitura da analítica do sentido que se aproxima Critelli (1996) para sugerir possibilidades metodológicas. A questão do desvelamento do real que se oculta. para que desse momento/situação entre fenômeno e pesquisador brote uma possibilidade de revelação como questão. independentemente de uma perspectiva qualitativa ou quantitativa. permitindo-se marcar pelo estranhamento (interrogação) que ele pro-voca. pela reflexão. Implica em inclinar-se ao fenômeno. que é constantemente desconsiderado” (p. apresentada como origem do pensar a partir do contato com o que se apresenta. conduz a outras possibilidades de um rigor metodológico (modo de pensar). Contudo. pensamento. p. é o Incontornável inacessível. pois se balizam pela mesma origem de fundamentação. um modo fenomenológico existencial. a fim de .19). formular uma questão a ser interrogada por essa reflexão e. da teoria do real. cálculo ou categorização de conteúdo para achar o real em si. Por essa compreensão.

pelos meandros de conhecer o incontornável como alethéia. Ciência e meditação. ou seja. 1958. São Paulo: Brasiliense. André. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. . 1989. 1996. CRITELLI. REFERÊNCIAS BENJAMIN. ou seja. por esse rigor meditativo. como verdade do que se mostra para ser conhecido (interrogado). Obras Escolhidas. P. 2001. de representação do que se apresenta. Magia e técnica. abrem-se possibilidades de outro modo de reflexão/pensamento/meditação para uma autenticação da franja desvelada como expressão de um modo de se aproximar do real incontornável. Walter. Universidade de São Paulo. FUMEC. Assim. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. Mantem-se aberta. HEIDEGGER. Por este caminho. LÉVY. Belo Horizonte: Autêntica. Tese (Doutorado) – Instituto de Psicologia. v. Eu-supervisão: em cena uma ação buscando significado sentido. o modo de pensar com rigor empreendido pela perspectiva fenomenológica existencial se conduz respeitando a historicidade do humano.pro-vocar um testemunho e uma vericização por um modo de pensar a partir da compreensão que esse testemunho demanda. 266 p. Dulce M. Martin. In: HEIDEGGER. São Paulo: EDUC. Henriette T. Ciências clínicas e organizações sociais: sentido e crise do sentido. São Paulo. Éssais et conférences. e não em busca de veritas. a possibilidade a outras franjas que merecem ser interrogadas para situar o homem em sua existência inquietantemente finita: um conhecimento por vir. Brasiliense. In: BENJAMIN. Walter. Martin. 1985. Paris: Galimardi. um modo de pensar verdadeiro. 1. MORATO. Analítica do sentido: uma aproximação e interpretação do real de orientação fenomenológica.

n. 1997. Boletim de Psicologia. 106. 47. Identidade. p. 57-72. São Paulo. pluralidade e diferença: notas sobre psicologia social.SCHMIDT. Maria Luisa Sandoval. v. NOTAS .

integrado a equipe de saúde mental do município escolhido. iii TELLES.i Esse artigo corresponde a um fragmento da dissertação de Mestrado da autora principal apresentada ao Programa de Mestrado em Psicologia Clínica da UNICAP. ministrado por Dulce Critelli. Vera Stela. . Metáfora. anteriormente. Recife-PE. na Universidade Católica de Pernambuco. sob o título “Cartografia de uma ação territorial em saúde: transitando pelo Programa saúde da Família”. 179p. Dissertação de Mestrado. cuja proposta de intervenção incluía uma assessoria/suporte às equipes do Programa Saúde da Família. ii Anotações do Seminário “O método fenomenológico como investigação: a Analítica do Sentido”. diante do que se pretendia compreender e do lugar onde a prática da autora principal se situou por pouco mais de quatro anos. envolvidos na estratégia de ação territorial em saúde a partir do Programa Saúde da Família. São Paulo. v A autora principal havia. FFLCH-USP. iv Pareceu apropriado. transferência: a constituição do campo psicanalítico. definir que esses interlocutores fossem profissionais de saúde pública do município do Cabo de Santo Agostinho . 1979.PE. em abril de 2002.