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As regras de reciprocidade nas relações entre seres da sociedade, da

natureza e da sobrenatureza: um estudo comparativo entre índios e colonos
do Rio Grande do Sul, Brasil.
Mártin César Tempass1
UFPel/Brasil

Os Mbyá-Guarani são uma das parcialidades étnicas dos Guarani e habitam em
centenas de pequenas aldeias distribuídas em um amplo território que compreende parcelas do
Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. Deste vasto território, os Mbyá-Guarani elegem
somente alguns locais específicos para ocupação e constituição de aldeias (tekoá). Esses
lugares eleitos são os que reúnem todas as características ambientais indispensáveis para a
sobrevivência física, espiritual e cultural do grupo.
Os alimentos necessários à sobrevivência dos Mbyá-Guarani são obtidos através das
práticas da caça, da pesca, da coleta e da horticultura. Em cada uma dessas modalidades os
Mbyá-Guarani buscam a obtenção de alimentos específicos, alimentos tradicionais, de acordo
com a sua cultura. E esses alimentos só podem ser obtidos em um contexto ambiental
específico, mediante o acionamento de saberes e práticas tidos como tradicionais. O
conhecimento tradicional é indispensável para a obtenção alimentar. E, como tudo o que os
Mbyá-Guarani precisam vem da natureza, eles acionam os saberes tradicionais para a
preservação do meio ambiente. Eles precisam da natureza, eles são parte da natureza.
Como já observaram vários autores, os grupos indígenas não separam o universo da
cultura do universo da natureza, posto que também consideram os animais e plantas como
sujeitos sociais, mantendo com estes relações de tipo social. “Diferentemente do dualismo
moderno que distribui humanos e não-humanos em dois domínios ontológicos mais ou menos
estanques, as cosmologias amazônicas estabelecem uma diferença de grau, não de natureza,
entre os homens, as plantas e os animais” (DESCOLA, 1998, p. 25).
A própria noção de natureza é uma construção cultural. Cada sociedade tem uma ideia
específica sobre o que é natureza, sendo que o seu recorte é dado pela cultura. Por isso que a
análise antropológica deve trabalhar com os coletivos “natureza-cultura”, ou com os “híbridos
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Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Docente no Programa de
Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas como bolsista DocFix Fapergs/Capes.

esta dicotomização tornou a análise antropológica assimétrica (LATOUR. esses alimentos são de variedades 2 Por muito tempo. enquanto que a cultura seria o diferenciador. estudamos povos diferentes acreditando em uma natureza universal. E todas as “naturezas-culturas”. também entram os seres sobrenaturais. a pesca e a coleta podem ser obtidas em Tempass (2012). Nesse esquema. evitou estudar os objetos da natureza. Assim. festas. Os aliados se ajudam mutuamente. Trocam principalmente gêneros alimentícios e trabalhos relacionados à produção alimentar. trocando bens e trabalhos entre si. 3 A caça. como defende Latour (1994). Informações sobre a reciprocidade na caça. Isto levou – e a Antropologia nasceu disso – a uma dicotomização entre a natureza e a cultura. Segundo este autor. a melancia. igual para todos os seres humanos. por vezes inumana e sempre extra-humana. p. 102). Humanos e animais são “híbridos” de natureza e cultura (LATOUR. antropólogos. mas os limites de espaço deste paper impedem que todas as modalidades sejam descritas e analisadas. as divindades. o feijão. cada uma a seu modo. 1994. Como observa Latour (1994). Todos os seres dos cosmos Mbyá-Guarani mantêm relações sociais entre si. Mas.de natureza e cultura”. etc. a mandioca. O esquema de mutirões é um dos pilares da reciprocidade dos Mbyá-Guarani. Das quatro modalidades de obtenção alimentar escolhi a horticultura por permitir uma comparação mais direta com as concepções e práticas dos colonos que serão apresentados na sequência. não-humanos e sobrenaturais. No plano humano os mutirões são executados frequentemente. para colheitas. para os “modernos” a natureza é a-humana. 1994). como veremos a seguir. nós. o amendoim e o fumo. para a abertura de novos roçados. Os Mbyá-Guarani cultivam uma série de espécies vegetais. Natureza igual. As relações entre estes seres também são construídas com as especificidades de cada “natureza-cultura”. construíram e constroem de forma singular seres humanos. Estando todos sobre uma mesma base natural. “não existem nem culturas – diferentes ou universais – nem uma natureza universal. até bem recentemente. básica. como uma série interminável de mutirões onde todos os seres ajudam e são ajudados. Latour (1994) acaba com as antigas noções de que a humanidade estaria relacionada exclusivamente com a esfera autônoma da cultura. as quais constituem a única base possível para comparações” (LATOUR. Os mutirões tanto podem envolver apenas as pessoas mais próximas quanto também podem envolver indivíduos de várias aldeias. seja para a construção de casas. a abóbora. Segundo Latour. definido as relações sociais mediante o estabelecimento e a manutenção de alianças. a Antropologia. 1994). inclusive de aldeias muito distantes. . que desembocou na divisão entre humanos e não-humanos. enquanto que a animalidade estaria atrelada unicamente ao domínio da natureza2. cientistas. dedicando-se apenas a pesquisar as culturas. Para os objetivos do presente texto vamos nos limitar a analisar apenas a obtenção alimentar mediante a prática da horticultura Mbyá-Guarani3. Existem apenas naturezasculturas. culturas diferentes. E nestas pesquisas se estendia aos “outros” povos (todos os “não modernos”) a “nossa” dicotomização entre natureza e cultura. com destaque para o milho. a pesca e a coleta também envolvem reciprocidades e mutirões. a batata-doce. tendo a reciprocidade como base.

Os Mbyá-Guarani não empregam agrotóxicos e adubos na sua horticultura. 2003). E a interação entre os diferentes seres é a principal fonte de alegria. os animais. 2012). da forma ensinada pelos deuses. não só dos Mbyá-Guarani. Cada planta deve produzir de acordo com a sua natureza. pois proporciona a cada planta uma interação com vários outros seres. bem espaçadas entre si. os roçados que os Mbyá-Guarani abrem em meio à mata têm o seu tamanho definido pela necessidade alimentar do grupo. Eles nem . por exemplo. em meio a uma multidão de outros seres. E isso é um dever de todo Mbyá-Guarani. Creem. todos os cultivares em um mesmo espaço. sagrado. O estar feliz. com as suas características originais atribuídas pelos deuses. as águas. Eles não cultivam roças maiores do que a sua capacidade de consumo e não se preocupam muito em “fazer as plantas render” (como costumam dizer). Os Mbyá-Guarani têm condições e conhecimentos suficientes para produzir excedentes. O milho é cultivado junto à batata-doce. E o primeiro ensinamento dos deuses é a não produção de excedentes. Aliás. Inclusive a construção do ser ocorre mediante a apropriação de propriedades imateriais de outros seres. São alimentos sagrados. E os conhecimentos tradicionais são muito importantes para a promoção da felicidade geral. os Mbyá-Guarani. se for obtido de forma tradicional. é um cuidado para que o mundo continue existindo. A construção dos seres também envolve mutirões. Cada ser é construído a partir dos outros (TEMPASS. o feijão com o aipim. Os homens. E também por tal razão que eles “misturam” as plantas nos roçados. Isso ocorre porque a planta só irá vingar e produzir alimentos se estiver feliz. assim.diferentes das cultivadas e consumidas pelos juruá (brancos). que só os Mbyá-Guarani possuem (como eles sempre afirmam). São os alimentos dos deuses. Assim. isso é válido também para os outros grupos ameríndios (CLASTRES. precisam alegrar as plantas. mas sim. Não há necessidade de produzir excedentes. que foram criadas pelas suas divindades especialmente para que eles possam se alimentar neste mundo. Mas. a terra. em um verdadeiro mutirão da felicidade. que se seguirem corretamente as regras sociais e consumirem os seus alimentos tradicionais eles podem alcançar a perfeição dos seus corpos e de suas almas e. é uma das principais condições de vida. E cada ser precisa alegrar os outros. estar alegre. São variedades tradicionais. o alimento só é perfeito. O plantio consorciado deixa as plantas mais felizes. eles não dispõem as plantas muito próximas umas das outras. É por isso que os Mbyá-Guarani abrem os seus roçados no meio da mata. Não faz sentido produzir mais do que se pode consumir. mas também dos outros seres com os quais eles se relacionam. também se transformarem em divindades. mas não o fazem porque isso não faz sentido na sua concepção de mundo. Assim.

. E os Mbyá-Guarani preferem tudo muito doce (TEMPASS. E por falta de terras propícias para esse modelo horticultor. muitas aldeias Mbyá-Guarani estão distantes do ambiente que consideram ideal. mas também para a mente e o espírito. a produção alimentar do grupo está bastante comprometida. Além disso. São mais gostosos os alimentos de acordo com os preceitos divinos. Além de não separar a natureza da cultura. fazem parte do processo produtivo. Rezando a planta cresce porque as divindades a fazem crescer. o que leva à infelicidade. podemos dizer que em muitas aldeias Mbyá-Guarani prevalece o regime de escassez. Na prática a produção tradicional deixa as plantas menores. então eles precisam negociar com os seres naturais a obtenção alimentar. mesmo consumindo muitos alimentos oriundos da sociedade envolvente. em campo nunca vi um Mbyá-Guarani se queixar da produtividade dos seus roçados tradicionais4. pelo jeito Mbyá-Guarani de cozinhar (TEMPASS. como nos mutirões. 2010). assim. os 4 O problema é que. Ocorre que os alimentos dos juruá (brancos) são trabalhados pela cultura Mbyá-Guarani. em sua tradicionalidade. Isso não é tradicional e vai contra a “natureza” das plantas. O alimento dos Mbyá-Guarani vem da natureza. as práticas tradicionais também conferem mais – muito mais – sabor aos alimentos. Mas. Se eles plantarem da forma como as divindades ensinaram e realizarem determinados rituais as plantas crescerão da forma desejada. 2003). os indígenas também não separam a sobrenatureza da cultura e da natureza. seres naturais e seres sobrenaturais. Assim. maior será a concentração do seu sabor. os Mbyá-Guarani dão um jeito de obter sabores bem próximos aos tradicionais. mantendo também com as divindades relações de tipo social (TEMPASS. Quanto menor a produção de uma planta e o tamanho dos seus frutos. Sem os rituais não se obtêm alimentos. mas sim de abundância (CLASTRES. Só com alimentos abundantes é que se pode fazer a escolha de produzir menos para ter mais sabor. Esse algo em troca consiste basicamente no respeito ao meio ambiente. com menos frutos e estes frutos também são menores. Relações de reciprocidade. Isso atesta que as sociedades indígenas. Mais doces serão os frutos. A não produção de excedentes também está relacionada com o esquema de reciprocidade entre seres humanos. De fato. 2010). que englobam as práticas xamânico-cosmológicas. Nos rituais as plantas são “rezadas”. Para receber algo da natureza. mas são melhores em termos de sabor. os saberes. Temos. atualmente. 2011). Produzir pouco é o melhor.mesmo empregam a irrigação nos seus roçados. E os Mbyá-Guarani não veem utilidade no emprego desses recursos. na manutenção do equilíbrio ecológico. Os alimentos produzidos de forma tradicional são considerados mais saudáveis para os Mbyá-Guarani. Atualmente. não apenas para os seus corpos. proporcionando felicidade. os Mbyá-Guarani precisam dar algo em troca. que no cálculo alimentar Mbyá-Guarani a qualidade é muito mais importante que a quantidade. Então. não vivem em regime de escassez. mesmo não produzindo da forma desejada. A sociedade envolvente ocupou as terras tradicionais deste grupo indígena.

porque isso causaria danos ambientais desnecessários. Por isso. Por exemplo. por exemplo. não caçam nem coletam mais do que precisam. E o papel de presa ou de predador na natureza é correspondente à posição hierárquica do ser sobrenatural que controla cada elemento. . E os Mbyá-Guarani possuem muitas divindades e cada uma delas é responsável por uma determinada espécie que se encontra na natureza. Uma planta só irá crescer se as divindades assim o permitirem. que estão no híbrido de natureza e sociedade. A retribuição geralmente se dá através de rituais de agradecimentos e pelo respeito a normas sociais (que envolvem também a natureza e a sobrenatureza). As relações entre os seres da natureza são análogas às relações entre os seres da sobrenatureza. É preciso um mutirão para que se tenha milho. Mas. Os Mbyá-Guarani negociam os alimentos com as divindades. que principalmente servem para garantir o acesso igualitário aos alimentos e uma alimentação de qualidade. 2012). que podem predar o milho antes do consumo humano. quanto mais sagrado e saudável (as duas categorias se confundem) for um alimento. a natureza é controlada pelos seres sobrenaturais. Inclusive os próprios Mbyá-Guarani. Os alimentos controlados por seres superiores na escala sobrenatural são os mais indicados. É por isso que os MbyáGuarani afirmam que os seus deuses “trabalham” para o fornecimento da alimentação aos humanos. mais delicadas são as negociações para sua obtenção. também são os alimentos que necessitam mais cuidados na obtenção. TEMPASS. E esse trabalho não pode ser desperdiçado. pelo solo. os mais sagrados. águas e até mesmo outros seres humanos (caso do canibalismo) (Cf. no esquema de dar. Grosso modo poderíamos dizer que os seres no topo da hierarquia são “predadores” e os da base da hierarquia são “presas”5. na organização dos elementos naturais percebe-se uma reprodução da estrutura cosmológica dos Mbyá-Guarani. De acordo com esse esquema é que os Mbyá-Guarani definem o que pode e o que não pode ser consumido e o que é mais indicado para a saúde física e espiritual. Desperdiçar um alimento é desperdiçar 5 Outros fatores também entram nessa definição de presa e predador. Mas. Desta forma. que além de plantas e animais. receber e retribuir. os deuses não fazem os alimentos surgirem do nada. pela água e pelo ar e também com os responsáveis pelas outras plantas que compõem o ambiente e até com as divindades que controlam os animais. também envolvem solos. o responsável pelo milho precisa manter boas relações com as divindades responsáveis pela luz. Os seres sobrenaturais também precisam negociar entre eles para fornecer cada alimento. Os deuses possuem a agência. Esses cuidados são formas de demonstrar respeito às divindades que ofertam os alimentos aos Mbyá-Guarani. têm divindades que os controlam. Mas.Mbyá-Guarani. na preparação e no consumo.

os Mbyá-Guarani não produzem mais do que podem consumir porque isso causaria um dano desnecessário à natureza. para se fixarem nas novas terras. Já a categoria “pra venda” é desenvolvida em uma área muito maior. ao passo que estariam excluíndo do circuito de reciprocidade as divindades responsáveis pelos demais alimentos. para realizar a comparação. é o mais sagrado dos alimentos dos Mbyá-Guarani. Estiveram também em contato com os imigrantes que chegaram ao Brasil no século XIX. É também uma forma de equilibrar as relações de reciprocidade. se caracteriza pela monocultura e objetiva a produção de excedentes. Para o presente texto. É desrespeitar os deuses e colocar em risco as relações de reciprocidade. porque estariam sobrecarregando a divindade responsável por este alimento. E isso ocorre num circuito que se retroalimenta constantemente. Os antepassados dos Mbyá-Guarani estiveram em estreito contato com muitos colonizadores desde a chegada dos europeus ao continente. Estes. E os Mbyá-Guarani precisam manter as relações recíprocas com todos os seres do seu cosmos. planta “de tudo um pouco”. porque quem recebe tem a obrigação de retribuir. Hoje as duas categorias coexistem em quase todas as propriedades. Brasil. A diversidade alimentar também é um dos pilares da saúde física e espiritual dos Mbyá-Guarani. em uma área modesta. estado do Rio Grande do Sul. Mais do que isso. 2011). distantes cerca de trinta quilômetros do centro da cidade de Pelotas e formada majoritariamente por descendentes de imigrantes italianos e alemães. As duas colônias selecionadas foram Maciel e São Manoel. o equilíbrio alimentar dos humanos tem respaldo no equilíbrio da natureza e da sobrenatureza. o equilíbrio cosmológico leva ao equilíbrio alimentar e viceversa (TEMPASS. Na região selecionada os principais produtos produzidos “pra venda” são o pêssego. E. O espaço destinado ao cultivo dos alimentos “pro gasto” é marcado pela diversidade de espécies e tem o seu tamanho definido unicamente pelas necessidades da família. não produzindo excedentes. por exemplo. 2012). 2012). Então. Nas colônias estudadas podemos classificar a produção alimentar em duas categorias: “pro gasto” e “pra venda” (MACHADO. Então. acabaram adotando os alimentos e a horticultura indígena (TEMPASS. mas eles não podem viver só comendo milho. A categoria “pro gasto” corresponde aos cultivos destinados ao consumo da própria família que. o tomate e o fumo. curiosamente. Relações com as quais são construídas os seus seres. selecionei dados etnográficos de duas colônias vizinhas no município de Pelotas. Assim. muitas proximidades de conhecimentos e práticas ainda podem ser percebidas entre os colonos e os indígenas. lado a lado.a boa vontade dos deuses. O milho. causaria um dano às relações com as divindades. .

para que se tenha uma renda melhor. é justamente essa preocupação com a saúde dos aplicadores que é considerada no 6 O termo êmico “venenos” designa adubos. Eles contam que não foi nada fácil e que só conseguiram mesmo abandonar os “venenos” porque adotaram uma postura radical. que vivem no ambiente contaminado pelos venenos. as indústrias que compram a produção dos colonos. Pelos relatos colhidos. com agrotóxicos. Ambos relatam que tiveram problemas de saúde e se sentiam muito infelizes quando usavam “venenos”. O primeiro fica na propriedade enquanto que o segundo sai. não é necessário fazê-los render.Os alimentos “pro gasto” e “pra venda” também podem ser diferenciados pelo uso ou não dos “venenos”6. Na opinião deles. associadas a indústrias que produzem e comercializam os adubos e agrotóxicos é que são as grandes vilãs da história. lucrando sobre os outros. pois. Em campo muitos informantes me contaram que produziam muito bem sem o uso dos venenos no passado. Já os cultivos “pra venda” precisam render muito. os outros produtores da região têm vontade de abandonar o uso de agrotóxicos. os de fora. Na região apenas dois produtores já conseguiram romper completamente com as grandes indústrias e abandonar o uso de “venenos”. Entretanto. Agora. Percebe-se em campo que os produtores gostariam de diminuir ou abandonar totalmente o uso de “venenos”. os desconhecidos que compram e consomem os alimentos que foram produzidos de forma prejudicial. com vista à saúde pessoal. Mas. E é em função dessa equação entre saúde versus lucratividade que podemos encontrar na região os dois tipos de produção: “pro gasto” e “pra venda”. mas ainda não têm condições para isso. No passado elas enganaram os colonos para que eles aderissem a “formas mais modernas de produção” e hoje acionam mecanismos que impedem que os colonos abandonem essa forma de produção. agrotóxicos e vacinas. Os alimentos “pro gasto” não levam “venenos”. E. mas também os indivíduos que aplicam os venenos. com o uso de “venenos”. pelo que pude entender. Mas. por outro lado. pontuando também uma forma “agressiva” de plantio que coloca em risco o meio ambiente e os seres humanos. Diante disso podemos pensar que os produtores se importam unicamente com si mesmos e com as suas famílias ao consumirem alimentos sem agrotóxicos. no passado não existia essa divisão. isso não ocorre bem assim. . como eles não visam o lucro. são frequentes as “quebras de safra”. todos querem – e precisam – uma grande produção. ninguém nas colônias Maciel e São Manoel quer consumir alimentos com agrotóxicos. De forma geral. mas que tiveram de mudar a sua forma de produção em função de mudanças nas indústrias e no mercado. mas não podem fazê-lo porque são reféns das indústrias. produções perdidas por pragas e perdas de fertilidade do solo. Isso porque os agrotóxicos não prejudicam apenas os indivíduos que consomem os alimentos.

uma barreira contra a entrada da mosca que danifica os frutos. o posto de saúde e o ginásio também foram construídos em mutirões em que todos os membros da comunidade ajudaram. abandonar ou diminuir o uso de “venenos” não é fácil. e a mão de obra necessária também é dos membros desta. Na produção de pêssego. Eles acabam com o “prazer de trabalhar na terra”. muitos estão adotando armadilhas para capturar a mosca da fruta. pode perceber os danos causados por tais práticas e agora objetivam a abolição e/ou diminuição significativa dos ditos 7 Foi assim que há trinta anos a comunidade se juntou e foi colocando postes e estendendo fios para “buscar” a energia elétrica no município vizinho de Morro Redondo. mas. os salões comunitários. com o uso desses equipamentos. Essa preocupação é atual porque no passado recente o uso de agrotóxicos era incentivado por todos e para todos. penoso. eles “buscaram” as linhas telefônicas no mesmo município. por exemplo. Os relatos de doenças e mortes em função dos venenos são frequentes na região. o poder público quase não “aparece” na região. Os prédios das Igrejas. com igual procedimento. Assim. Passadas algumas décadas. Um ou outro político/gestor público “aparece” nas comunidades apenas nas vésperas das eleições. dessa forma. eles argumentam que o trabalho fica muito mais pesado. Os colonos são unânimes em afirmar que não gostam de usar os equipamentos de proteção pessoal. Como contam os moradores. Em outras palavras. ou no mínimo toleravam o uso indiscriminado de agrotóxicos. . muito forte nas colônias Maciel e São Manoel. as escolas. E também o rendimento do trabalho é menor usando todos os equipamentos. podendo assim empregar menos agrotóxicos.desejo dos produtores de abandonarem os agrotóxicos. E todos objetivam melhorar a comunidade7. Na maioria das vezes os colonos optam por simplesmente usar apenas um pano sobre o nariz para aplicar os agrotóxicos (alguns nem isso usam). Mas. As localidades são pequenas e todos se conhecem e se ajudam reciprocamente. adubos químicos e formas “agressivas” de plantio. desconhecidos. Todavia. a comunidade. como um todo. os equipamentos de proteção são considerados caros e os produtores nem sempre têm condições de mantê-los. para a barreira funcionar eles precisaram aplicar uma dose muito maior de agrotóxicos. materiais de construção e equipamentos são adquiridos com a realização de festas. a preocupação primordial é com eles mesmos. Assim. Anos mais tarde. criando. Máquinas. Eles também realizam a manutenção das estradas e o paisagismo da região. distantes. não atuando em praticamente nada. repetidas vezes. Além disso. Até mesmo as Igrejas incentivavam. muitos produtores da região estão tentando aplicar menos agrotóxicos nos seus cultivares. Uma das principais preocupações atuais da “comunidade” é em relação ao uso de agrotóxicos. não com os consumidores. e cada morador da região conhece dezenas de vizinhos que sofreram complicações pelo uso de agrotóxicos. para pedir votos. vem apoiando as iniciativas. Cientes da dificuldade a comunidade. Eles sabem da necessidade do uso – e muitos até usam –. Alguns estão aplicando os venenos só no contorno da área cultivada. cuja organização envolve toda a comunidade. é a própria comunidade que resolve tudo e também planeja o seu futuro.

A alimentação cotidiana dos antigos era basicamente arroz. como já havia observado Marcel Mauss (1974). com melhores efeitos sobre a saúde das pessoas. Ocorre que.“venenos”. as pessoas se dizem e se sentem mais saudáveis com o consumo destes alimentos novos. como apontado acima. Nesse sentido. outras apontam para a inovação. as formas de preparação dos antigos e as técnicas de produção alimentar daquela época. tomates de vários tipos. aos poucos. que sempre existiu nas propriedades das colônias Maciel e São Manoel. por outro lado. A preocupação não é unicamente com os “venenos”. Já no campo das inovações incorporadas às práticas alimentares está uma série de avanços tecnológicos que diminuem o desperdício e permitem um melhor/maior aproveitamento do alimento. além das espécies que já eram cultivadas “desde antigamente” podem ser encontradas espécies “mais saudáveis”. Segundo o que me informaram. Mas. Percebe-se uma valorização crescente destes quesitos na atualidade e uma vontade coletiva de resgatá-los e preservá-los mediante o uso do tradicional no cotidiano. Segundo os meus interlocutores. inovadores. trazidos de fora. com . couve. antigamente as pessoas “não sabiam o que era bom para a saúde”. hoje os colonos buscam uma alimentação mais variada. de fato. verifica-se um crescimento no cultivo e consumo de alimentos até outrora desconhecidos. alimentos não tradicionais. Agora. A análise do sistema de trocas é fundamental para a compreensão das relações sociais que estabelecem e mantêm a comunidade nas colônias Maciel e São Manoel. polenta. batata-doce. Não apenas as trocas de mudas e sementes. gengibre. espinafre. a horta tradicional. como cenoura. Porém. agrião. através da troca de mudas e sementes entre os vizinhos. Dessa forma. nem muito variada. beterraba. mas trocas de toda ordem. Essas trocas podem ocorrer entre os seres humanos e destes com a natureza e com o sagrado. mas com a saúde dos moradores em geral. frutíferas diversas. E. essa alimentação era melhor porque as comidas não levavam venenos. achavam que a saúde estava nos alimentos que davam maior “sustância” e no abuso de gorduras. temperos e muitos tipos de chás. a dieta não era muito rica. e uma série de alimentos/espécies novos que são considerados mais saudáveis. teve a sua configuração alterada. pimentão. No que tange à tradição percebe-se todo um movimento em direção ao que se consumia em um passado mais distante. Algumas dessas mudanças indicam um retorno à tradição. chicória. alguma carne e pão. na dieta do passado frutas e verduras eram pouco consumidas. alface. que melhoram a saúde das pessoas. Neste sentido. desde as trocas utilitárias até as simbólicas. feijão. E a quantidade destes novos produtos vem crescendo significativamente nos últimos anos. Então. batata. uma grande mudança nas práticas alimentares da população vem sendo pensada e aos poucos sendo posta em prática.

Ocorre que enquanto alguns extencionistas destas agências circulam pelas comunidades incentivando o cultivo de produtos orgânicos. de adubos químicos e de formas “agressivas” de cultivo. Até pães são congelados. O uso das plantas para o preparo de sucos também está em forte crescimento. faz com que as alianças perdurem. as duas correntes de extencionistas são bem vindas em praticamente todas as propriedades. Os cursos. como as sementes de abóbora. quem produz alimentos saudáveis também produz alimentos prejudiciais. base do sistema de reciprocidade. o bagaço de algumas frutas e os talos de diversas hortaliças. Ao esquema proposto por Mauss. Assim. As novidades tecnológicas – e os novos usos das tecnologias mais antigas – também se aliam aos quesitos tradicionais da alimentação. sendo que as relações criadas a partir das alianças são mais importantes do que os bens trocados. além de proporcionar alimentos mais saudáveis. segundo o que me contaram alguns dos meus interlocutores. tornam a produção de alimentos “pro gasto” mais produtiva. Ao mesmo tempo em que os colonos têm . além de constituir as sociedades. Carnes dos animais abatidos nas propriedades são congeladas. E a obrigação de dar. Pimentões são limpos e congelados. nas mesmas localidades. Em toda a região. continuam incentivando o uso de agrotóxicos. outros extencionistas. Boa parte das “novidades” motoras das transformações chega às colônias via agências públicas como a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e a EMATER (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural). saudáveis. Para a transformação de determinados frutos em suco são usadas centrífugas e/ou suqueiras a vapor. na maioria das vezes na forma de suco. os colonos vêm investindo em cursos. palestras e até excursões que visam o aprendizado de novas técnicas de aproveitamento dos alimentos. E. Com isso são empregados como alimento itens que antes eram descartados. receber e retribuir. tanto “pro gasto” quanto “pra venda”. também constituem a natureza e a sobrenatureza. Tomates são transformados em molho e congelados. é possível acrescentar que as trocas. a atuação dessas agências é tanto para o “bem” quanto para o “mal”. Como na região a grande maioria dos proprietários opera nos dois sistemas de produção. das mesmas agências. Os modelos de produção encontrados nas colônias Maciel e São Manoel se encontram em forte transformação. E a transformação em um desses termos implica em transformações/adequações também nos outros termos. palestras e excursões também visam proporcionar um sabor agradável aos novos alimentos. como já visto para os Mbyá-Guarani. Essas novidades. Para não dependerem das estações do ano para o consumo de determinadas frutas estas são congeladas.as trocas são estabelecidas as alianças que constituem as sociedades.

mas nem todos refletem sobre essa questão. os entrevistados que possuem um papel de liderança na comunidade teceram longas e complexas explicações. realizando inúmeras atividades de forma conjunta. se vale do apoio das religiões para alcançar os seus objetivos. Já os moradores que não constituem lideranças comentaram a informação modestamente. os objetivos das colônias estão voltados para a produção saudável. Como me afirmou o líder de uma das Igrejas. de alimentos orgânicos. A comunidade “manda” nas Igrejas e nos seus líderes. Assim. individualismo e capitalismo. na condição de comunidade ampla. Nas colônias Maciel e São Manoel. nem constitui pecado. espécimes e técnicas para esse tipo de cultivo. As Igrejas e seus membros convivem de forma harmoniosa. A explicação acima se faz necessária porque no universo de pesquisa o movimento que leva à valorização dos produtos orgânicos. As reflexões são ainda menos significativas quando questionados no sentido inverso. Todos indicam os alimentos orgânicos como os mais indicados para a vida religiosa. Por outro lado. em detrimento dos produzidos com agrotóxicos. com uma ou outra exceção pontual. me informaram que perante Deus os alimentos mais indicados – ou mais corretos – para o consumo humano seriam os alimentos orgânicos8. sentindo a necessidade de modificar o seu mundo.interesse em conhecer novas técnicas e alimentos orgânicos. apesar da ambiguidade. Mas. A noção de que o orgânico é mais valorizado aos olhos de Deus não se limita ao 8 Sobre essa informação. para fundamentar um novo estilo de vida. eles também querem conhecer novos agrotóxicos. Luterana e Episcopal. divididos em três Igrejas: Católica. de maneira que muitas vezes a separação entre os membros por Igrejas fica imperceptível. a maioria dos meus interlocutores disse que não. Uma das explicações que obtive – a única que me pareceu fruto de uma reflexão anterior – dá conta que . em um primeiro olhar. que congrega as colônias Maciel e São Manoel. a coletividade da região. mas da comunidade ampla. não só das comunidades religiosas. sob a coordenação/orientação das lideranças religiosas. adubos. As lideranças religiosas estão a serviço da comunidade. Pelo que pude entender. Assim. depois de pensar um pouco. Esse fato. Contudo. Meus interlocutores. de forma unânime. a questão da ecologia versus os agrotóxicos também é pensada em termos religiosos. também influencia – igualmente muito – as ações desenvolvidas pelas Igrejas. poderia levar à precipitada conclusão de que as transformações vivenciadas nos últimos tempos é algo orquestrado pelas Igrejas. os próprios fiéis buscam fundamentos religiosos para se ampararem em relação às mudanças. O consumo de alimentos com agrotóxicos não é proibido por Deus. relacionando a comida do seu dia-a-dia com quadros mais amplos de ganância. todos são cristãos. a comunidade. “se chega um padre novo aqui e não agrada o pessoal. se desenvolve principalmente dentro das Igrejas ou nos seus salões. a comunidade manda ele embora logo logo”. sendo que a maioria declarou desconhecer as razões. a religião influencia – e muito – a vida dos colonos. Como já apontado acima. não é isso o que ocorre. Quando questionados se os alimentos com agrotóxicos seriam proibidos ou se o consumo destes constituiria um pecado. sendo que muitos deles procuraram me indicar outras pessoas (pessoas “que sabem mais”) para conversar sobre isso. mesmo as lideranças da comunidade se atrapalharam para fundamentar essa resposta. Nesse sentido.

Então. E. a equação em que operam os moradores das colônias Maciel e São Manoel é entre “fazer nada” e “fazer o bem”. Uma vaca é parte da natureza. Percebe-se o contrário. às questões de saúde e doenças individualizadas. a maioria dos colonos da região é refém de grandes indústrias. o carinho e o cuidado com os recursos naturais é muito recompensador – dizem eles que a natureza recompensa quem cuida dela. propriamente dito. Mas. Essa reciprocidade com a natureza já vem sendo posta em prática na produção “pro gasto”. que a valorização/sacralização do orgânico está finamente encadeada com tudo o que os cerca. mesmo esta natureza sendo transformada pelo homem através das hortas e roçados. posto que. Então. E. Tal entendimento leva a uma integração do ser humano com a natureza. pela relação direta. A concepção anterior era de que com a ajuda de Deus o homem poderia vencer a natureza. Todos meus interlocutores destacaram o papel da comunidade nesta dinâmica. devem ser tratados com “carinho”.alimento em si. O mesmo vale para a terra. como já observado. as formas de cultivo menos “agressivas” seriam as mais indicadas aos olhos de Deus. silvestres e/ou domesticados. A comunidade é a responsável pelas mudanças já observadas na produção “pro gasto” e só com o apoio da comunidade os colonos poderão melhorar as condições da produção “pra venda”. segundo os meus interlocutores. plantas e animais. como os agrotóxicos destroem os recursos naturais. Já ao consumir produtos orgânicos se está “fazendo o bem”. o que é extremamente complicado. o ar e as águas. Em campo percebi que o conceito de natureza dos colonos também engloba as espécies cultivadas/criadas pelo homem. Já o uso excessivo e indiscriminado dos recursos naturais seria um pecado. Assim. Então. A questão é um equilíbrio entre os itens que compõem o que eles consideram natureza. uma reciprocidade sustentável entre homem e natureza só é possível mediante a reciprocidade ao consumir alimentos com agrotóxicos não se está fazendo “o mal”. O homem precisa se “aliar” à “natureza de Deus”. na lógica da reciprocidade. O desafio é estender esse esquema de reciprocidade também para a produção “pra venda”. de forma que os itens que alimentam os homens não atrapalhem a sobrevivência/permanência daqueles que não alimentam. com a visão de mundo dos colonos da região. através de uma síntese entre tradição e inovação. eles são negativamente valorados em termos religiosos. Hortas e pomares estão sob o conceito de natureza. Hoje esse “vencer” a natureza foi substituído por “aliar”. . Esse cuidado. Assim. ao consumir estes produtos não se está “fazendo nada” para melhorar a própria vida e o mundo ao seu redor. Sob o conceito de natureza tem-se uma cadeia de elementos que devem ser preservados para que a humanidade (um dos elos da cadeia) possa sobreviver e se alimentar. Um pé de pêssego é parte da natureza. é agradável e prazeroso. A natureza é de Deus e o homem precisa conservá-la. a ideia de natureza também vem passando por revalorização em direção ao sagrado.

de certa forma. por exemplo. Desperdiçar alimentos enquanto que o próximo passa fome é um pecado grave. A ganância não combina com o ideal da comunidade. A ganância é um dos comportamentos mais condenados nas colônias Maciel e São Manoel. Não tem muitos gananciosos na região estudada – se é que tem algum–. a sorte ou o azar se dão conforme a intenção divina. o cristianismo das Igrejas Católica. só irá vingar e produzir frutos se Deus assim o quiser. mas isso se deve muito ao fato da comunidade acionar mecanismos que impedem ou dificultam as atitudes gananciosas. como me contaram em campo. uniformiza as pessoas. mas simétrica para com Deus e a natureza. para os que pertencem a outras Igrejas ou para os que tiveram vergonha de pegar os alimentos publicamente na missa. Luterana e Episcopal. Também é ganancioso quem. muitas vezes. cimenta a vida e a visão de mundo da comunidade. como um todo. Então. alimentos são distribuídos fora da missa. Nesse esquema a reciprocidade é diferenciada. as doações são incentivadas e organizadas pelas Igrejas. Nas colônias. consequentemente não está se importando com a natureza e com a comunidade. Essa reciprocidade torna a comunidade. Ocorre que dificilmente os alimentos doados aos necessitados serão retribuídos. sem se importar com a natureza e/ou sem se importar com a religiosidade. Que busca o lucro sem se importar com o próximo. assimétrica entre os humanos. Tais atitudes. doar parte dos seus alimentos para quem está necessitado é uma obrigação religiosa. em função de lucros individuais. quanto nas opiniões e comportamentos. nas águas. Nesse sentido a ganância é pecado. Então. que sustenta a comunidade. tanto nos aspectos sociais e econômicos.entre homens. quem não se importa com a religião. deixa de trabalhar para a melhoria da comunidade. favorecem o indivíduo em detrimento da comunidade. é ganancioso quem deixa de participar dos rituais coletivos em que se pede e/ou se agradece a Deus. quem não mantém relações recíprocas com seus vizinhos. etc. Estes três aspectos estão relacionados e não podem ser analisados isoladamente. E também é uma forma de evitar o desperdício. É ganancioso quem não ajuda o próximo. a harmonia da família. Mas. Assim. se uma vaca . é a negação da ideia de comunidade. ele também está nas plantas. mesmo se tomando todos os cuidados para o seu crescimento. além do esquema de dar e receber da comunidade. A saúde ou a doença de um indivíduo dependem da vontade de Deus. O sucesso no trabalho. mas Deus recompensará os doadores por esse ato. sobretudo. nos animais. É considerado ganancioso o indivíduo que busca o lucro a qualquer custo. E se Deus está presente em tudo. E essa união. Deus está acima de tudo. se uma árvore cair sobre uma pessoa. na terra. Uma planta. mais forte. E. Deus controla tudo e Deus está em tudo. E.

de certa forma negociado entre as duas partes. De nada adianta o trabalho na enxada se não houver também trabalho espiritual. mas é como se tivesse dando pra Deus”. adubos químicos e técnicas “agressivas” deveriam ter insucesso. é praticado por todos igualmente na comunidade. de forma a subordinar as demais reciprocidades com os outros elementos do cosmos. Todos são pecadores. Como me informou uma das lideranças religiosas da comunidade: “Deus age através das coisas. Desta forma. Mas. todos negociam com Deus o sucesso na produção alimentar. E o pedir perdão é um dos componentes da reciprocidade com Deus. 9 Pelo exposto. para que obtenham os seus alimentos. uma das hipóteses deste trabalho foi. Esse esquema de reciprocidade com Deus para a obtenção de alimentos. Tratava-se de uma lógica muito praticada no passado. A vontade de Deus para com os homens é algo construído. foi ação de Deus. o dar e receber. ao falarem da sua produção alimentar. que com o avanço científico e tecnológico as pessoas estariam deixando de lado ou diminuindo essa relação de reciprocidade com Deus. em que toda a comunidade participa.der um coice no seu proprietário. Doar alimentos é uma forma de agradecimento. pedirem e conquistarem “o pão nosso de cada dia”. diante das dificuldades de mudança. são parte inseparável do processo produtivo. Encontrar em campo essa forte ênfase na reciprocidade com Deus. frequentemente trazem Deus e a Bíblia para seus discursos. Os moradores da região. O pedir perdão. esperada antes mesmo de se dar início a presente pesquisa. quando os recursos tecnológicos e científicos eram quase nulos nas colônias e a dependência ao sobrenatural era muito mais forte. o pedir perdão em público é um ritual que serve para que o fiel não se esqueça dos ideais sociais. as atividades religiosas como rezar. Frequentam as missas e os cultos religiosos e respeitam os preceitos divinos para agradar a Deus e. desta forma. É que nesse esquema entra mais um fator: o pedir perdão a Deus. frequentar missas/cultos. Desde os produtores “mais ecológicos” até aqueles que usam mais “venenos”. enquanto que os que se valem de agrotóxicos. saber o outro. as ações humanas são sempre pensadas para agradar a Deus. Assim. “se dá ao necessitado. como a cultura é dinâmica. isso não ocorre assim. Porém. Assim. nós temos que saber ler esses sinais. Saber um é. os produtores ecológicos deveriam ter mais sucesso na obtenção alimentar. a obtenção dos alimentos para a sobrevivência humana está fortemente subordinada à ação divina. temos que entender o que Deus quer nos ensinar com cada coisa que acontece”. Deus. mediante relações que devem ser recíprocas. sempre perdoa. mostra para Deus e para a comunidade que o pecador está consciente dos seus erros. Então. já era. . Para que Deus lhes dê algo eles precisam ofertar algo em troca. E como me informaram em campo. tendo Deus a agência sobre tudo. com sua bondade. e vice-versa. Então as pessoas rezam para as plantas crescerem. Todos têm iguais possibilidades de serem abençoados por Deus. pelo que acontece com as pessoas. Vale tanto para os alimentos “pro gasto” quanto “pra venda”9. E também agradecem pelas dádivas alcançadas. de certa forma. Então. consequentemente. Deus dá sinais através das coisas. justamente. As festas da comunidade são uma dessas ocasiões rituais em que graças são pedidas e agradecidas. para pedir e agradecer pela ação divina. principalmente na produção “pra venda”. E existem grandes rituais. participar de procissões. até mesmo publicamente como no caso da procissão. Mostra um desejo de mudar.

MACHADO. MAUSS. A culinária indígena como elo de passagem da “cultura” para a “natureza”: invertendo Lévi-Strauss. Estrutura ou sentimento: a relação com o animal na Amazônia. [2011]. Monografia de Conclusão de Curso (Bacharelado em Geografia) – Universidade Federal de Pelotas. 2 v. Podemos até mesmo cogitar uma base cosmológica comum organizando todos os agrupamentos onde prevalecem os saberes tradicionais. Mas. v. Comida. 91 f. Philippe. 5. Rio de Janeiro: 34.Temos então. jan. 69-101. Simbolismo e Identidade: um olhar sobre a constituição da italianidade nas colônias Maciel e São Manoel – Pelotas (RS). TEMPASS. Atualmente. 23-45. natureza e sobrenatureza não constituem domínios estanques e separados. 2011. Marcel.U. [2010]. LATOUR. “Quanto mais doce. _____.. p. Pierre. n. inclusive com a mesma intensidade – se é que não vem se acentuando nos últimos anos. Revista Mana. 1. São Paulo: Cosac e Naify. a tecnologia “tem pro bem e tem pro mal”. Curitiba: Appris. sem a ciência. melhor”: um estudo antropológico das práticas alimentares da doce sociedade Mbyá-Guarani. Antes. v. 2010. 1994. Espaço Ameríndio. 1./jun. todos os meus interlocutores informaram que continuam pedindo e agradecendo a Deus da mesma forma que faziam antigamente. essa hipótese não foi confirmada em campo. abr. Porto Alegre. que tanto para os Mbyá-Guarani quanto para os moradores das colônias Maciel e São Manoel. Pelo contrário. as relações de reciprocidade tornam esses três segmentos independentes. Pelo contrário. É uma forma de organizar o mundo como um todo. Carmen Janaína Batista. 1998.P. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Bruno. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – UFRGS. Mártin César. 2003. São Paulo: E. A ciência não substituiu a religião e os moradores da região não creem que isso um dia possa acontecer. seja a sociedade. as pragas e o clima seriam mais prejudiciais do que hoje em dia e Deus teria um papel maior na produção alimentar. sociedade. Rio de Janeiro. mas a religião é sempre “pro bem”. Referências bibliográficas CLASTRES. concluindo. Sociologia e Antropologia. 2011. Advogo que – como pretendo verificar em futuras pesquisas – em todas as sociedades onde a ciência está subordinada aos conhecimentos e valores tradicionais prevalece este esquema de reciprocidade que envolve todos os seres do cosmos. E a ideia de reciprocidade traz consigo uma preocupação na preservação dos elementos do sistema. Porque. p. n. A doce cosmologia Mbyá-Guarani: uma etnografia de saberes e sabores. 4. ______. . como me disse vagamente um colono. com a ciência garantindo melhores resultados seria possível a produção sem depender de Deus. a natureza ou a sobrenatureza. 2012. 395 f. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. DESCOLA. 1974.