O que é a Ação Correta?

Auckland, Nova Zelândia, 1ª palestra 28 de março, 1934.
Amigos, penso que cada um de nós está aprisionado seja num problema religioso seja numa luta social ou num
conflito econômico. Cada um de nós está a sofrer pela falta de compreensão destes variados problemas, e tentamos
resolver cada um deles por si; isto é, se têm um problema religioso, pensam que o vão resolver pondo de lado o
problema econômico ou social e centrando-se inteiramente no problema religioso, ou se têm um problema
econômico pensam que vão resolver esse problema econômico limitando-se inteiramente a esse conflito específico.
Ao passo que eu digo que não podem resolver estes problemas por si sós; não podem resolver o problema religioso
por si só, nem o problema econômico nem o problema social, a menos que vejam a interrelação entre os problemas
religiosos, sociais e econômicos.
Aquilo a que chamamos problemas são meramente sintomas, que aumentam e se multiplicam porque não
agarramos a vida toda como uma coisa só, mas dividimo-la em problemas econômicos, sociais ou religiosos. Se
olharem para todas as variadas soluções que são oferecidas para os vários padecimentos, verão que lidam com os
problemas em separado, em compartimentos estanques, e não tomam os problemas religiosos, sociais e econômicos
compreensivamente como um todo. Ora, é minha intenção mostrar que enquanto lidarmos com estes problemas em
separado apenas aumentamos o desentendimento, e portanto o conflito, e desse modo o sofrimento e a dor; até que
lidemos com o problema social e com os problemas religiosos e econômicos como um todo compreensivo, não
dividido, mas de preferência vendo a ligação delicada e subtil entre aquilo que chamamos problemas religiosos,
sociais ou econômicos – até que vejam esta ligação real, esta ligação íntima e subtil entre os três, seja qual for o
problema que possam ter, não o vão resolver. Apenas incrementarão a luta. Embora possamos pensar que
resolvemos um problema, esse problema surge novamente de uma forma diferente, e assim vamos através da vida
resolvendo problema após problema, luta após luta, sem compreender totalmente o pleno significado do nosso
viver.
Portanto, para compreender esta ligação íntima entre aquilo a que chamamos problemas religiosos, sociais e
econômicos, tem que haver uma completa reorientação do pensamento – isto é, cada indivíduo tem que deixar de
ser uma peça de engrenagem, uma máquina, seja na estrutura social seja na religiosa. Olhem e verão que a maior
parte dos seres humanos são escravos, meras peças de engrenagem nesta máquina. Não são realmente seres
humanos, apenas reagem a um meio estabelecido e por isso não existe verdadeira ação individual, pensamento
individual; e para descobrir essa relação íntima entre todas as nossas ações, religiosas, políticas ou sociais, têm que
pensar como indivíduos, não como um grupo, não como um corpo coletivo; e essa é uma das coisas mais difíceis de
fazer, que os indivíduos saiam da sua estrutura social, ou religiosa, e a examinem com espírito crítico, para
descobrir o que é falso e o que é verdadeiro nessa estrutura. E então verão que já não estão preocupados com um
sintoma, mas estão a tentar descobrir a causa do próprio problema, e não apenas a lidar com os sintomas.
Talvez alguns de vocês digam no fim da minha palestra que nada lhes dei de positivo, nada em que possam
claramente trabalhar, um sistema que possam seguir. Eu não tenho nenhum sistema. Penso que os sistemas são
perniciosos, porque podem de momento aliviar os problemas, mas se simplesmente seguirem um sistema são
escravos dele. Apenas substituem o velho sistema por um novo, o que não origina compreensão. O que origina
compreensão não é procurar um novo sistema, mas sim descobrirem por si próprios, como indivíduos, não como
uma máquina colectiva mas como indivíduos, o que é falso e o que é verdadeiro no sistema existente, e não
substituir o velho sistema por um novo.
Ora, ser capaz de criticar, ser capaz de questionar, é o primeiro requisito essencial para qualquer homem pensante,
para que possa começar a descobrir o que é falso e o que é verdadeiro no sistema existente, e por esse motivo nesse
pensamento há acção, e não mera aceitação. Assim durante esta palestra, se quiserem compreender o que vou dizer,
tem que haver espírito crítico. O espírito crítico é essencial. O questionamento é correto, mas nós fomos treinados
para não questionar, para não criticar, fomos cuidadosamente treinados para nos opormos. Por exemplo, se eu disser
algo que não vão gostar – como o farei, espero – naturalmente começarão a opor-se, porque a oposição é mais fácil
do que descobrir se o que digo tem algum valor. Se descobrirem que o que eu digo tem valor, então há ação, e por

isso terão que alterar toda a vossa atitude perante a vida. Por esse motivo, como não estamos preparados para fazer
isso, criamos uma hábil técnica de oposição. Isto é, se não gostarem de qualquer coisa que estou a dizer, apresentam
todos os vossos preconceitos profundamente enraizados e obstruem-na, e se eu estiver a dizer algo que os possa
magoar, ou que os possa aborrecer emocionalmente, refugiam-se nestes preconceitos, nestas tradições, neste pano
de fundo; e reagem a partir desse pano de fundo, e a essa reação chamam crítica. Para mim não é espírito crítico. É
apenas oposição habilidosa, que não tem valor.
Ora bem, se forem todos Cristãos – e presumivelmente são todos Cristãos – talvez eu vá dizer algo que podem não
compreender, e em vez de tentarem descobrir o que quero transmitir, imediatamente se refugiarão por trás das
tradições, por trás dos preconceitos profundamente enraizados e das autoridades da ordem estabelecida, e a partir
dessa fortaleza, na defensiva, atacarão. Para mim isso não é crítica: isso é uma maneira engenhosa de não atuar, de
evitar a ação plena, completa.
Se quiserem entender o que vou dizer, pedia-lhes que fossem realmente críticos, não habilidosos na vossa oposição.
Ser crítico requer muita inteligência. A crítica não é cepticismo, ou aceitação; isso seria igualmente estúpido. Se
simplesmente dissessem, “Bem, eu sou céptico sobre o que diz”, isso seria tão estúpido como simplesmente aceitar.
Ao passo que a verdadeira crítica consiste, não em transmitir valores, mas em tentar descobrir os verdadeiros
valores. Não é assim? Se conferirem valores às coisas, se a mente conferir valores, então não estão a descobrir o
mérito intrínseco da coisa, e a maior parte das nossas mentes está treinada para conferir valores. O dinheiro, por
exemplo. Abstratamente o dinheiro não tem valor. Tem o valor que lhe damos. Isto é, se quiserem o poder que o
dinheiro dá, então usam o dinheiro para ter poder, portanto estão a dar um valor a algo que inerentemente não tem
valor; assim, da mesma maneira, se descobrirem e compreenderem o que vou dizer, têm que ter esta capacidade de
crítica, que é realmente fácil se quiserem descobrir, se quiserem encontrar, não se disserem, “Bem, não quero ser
atacado. Estou na defensiva. Tenho tudo o que quero, estou perfeitamente satisfeito.” Então, uma tal atitude é
perfeitamente irremediável. Estão então aqui apenas por curiosidade – e a maioria provavelmente está – e o que eu
vou dizer não terá significado, e por isso dirão que é negativo, nada construtivo, nada positivo.
Portanto por favor lembrem-se que esta tarde vamos descobrir, considerar em conjunto, quais são as coisas falsas e
as verdadeiras na situação social e religiosa existente; e para fazer isso por favor não tragam continuamente os
vossos preconceitos, sejam Cristãos, ou de qualquer outra seita, mas tenham antes esta atitude inteligente e crítica,
não só a respeito do que vou dizer, mas com respeito a tudo na vida, o que significa a cessação da procura de novos
sistemas, e não a procura de um novo sistema que, quando encontrado, será de novo pervertido, corrompido. Na
descoberta do falso e do verdadeiro nos sistemas social, religioso e econômico – o falso e o verdadeiro que nós
próprios criamos – nessa descoberta, impediremos as nossas mentes e corações de criar falsos ambientes nos quais
provavelmente a mente será de novo aprisionada.
A maior parte de vocês está à procura de um novo sistema de pensamento, um novo sistema de economia, um novo
sistema de filosofia religiosa. Porque procuram um novo sistema? Vocês dizem, “Estou insatisfeito com o antigo”,
isto é, se estiverem a procurar. Ora eu digo, não procurem um novo sistema, mas em vez disso examinem o próprio
sistema em que estão presos, e então verão que nenhum sistema de nenhuma espécie originará a inteligência
criativa que é essencial para a compreensão da verdade ou Deus ou seja lá qual for o nome que gostam de lhe dar.
Isso significa que não seguindo qualquer sistema vão descobrir a realidade eterna; mas só a vão encontrar quando
vocês, como indivíduos, começarem a compreender o próprio sistema que edificaram através dos séculos, e nesse
sistema descobrirem o que é verdadeiro e o que é falso.
Portanto por favor lembrem-se disso – que não lhes estou a dar um novo sistema de filosofia. Penso que estes
sistemas são gaiolas para manter presa a mente. Não ajudam o homem, são apenas impedimentos. Estes sistemas
são um meio de exploração. Ao passo que se vocês, como indivíduos, começarem a questionar, verão que nesse
questionamento criam conflito, e a partir desse conflito compreenderão – não na mera aceitação de um novo
sistema que é apenas outro soporífero que os adormece e os transforma em mais uma máquina.
Vamos portanto descobrir o falso e o verdadeiro nos sistemas existentes – os sistemas da religião e da sociologia.
Para descobrir o que é falso e o que é verdadeiro, temos de ver em que se baseiam as religiões. Ora, eu falo de

religião como a forma cristalizada de pensamento que se tornou no mais elevado ideal da comunidade. Espero que
acompanhem tudo isto. Isto é, as religiões tal como são, não como vocês gostariam que fossem. Tal como são, em
que se baseiam? Qual é o seu fundamento? Quando olham, quando examinam e pensam realmente com espírito
crítico sobre isso – não trazendo as vossas esperanças e preconceitos, mas quando realmente pensam sobre isso –
verão que se baseiam no conforto, dando-lhes consolo quando estão a sofrer. Isto é, a mente humana está
continuamente à procura de segurança, de uma posição de certeza, seja numa crença ou num ideal ou num conceito,
e portanto estão continuamente a procurar uma certeza, uma segurança, em que a mente se refugie como conforto.
Ora o que acontece quando estão continuamente à procura de segurança, proteção, certeza? Naturalmente isso gera
medo, e quando há medo tem que haver conformidade. Por favor, não tenho tempo de entrar em detalhes. Fá-lo-ei
nas minhas várias palestras, mas nesta quero pôr tudo concisamente, e se estiverem interessados podem ponderar
sobre isto, e depois podemos discuti-lo em reuniões de perguntas e respostas.
Portanto as pretensas religiões conferem o padrão de conformidade à mente que procura segurança nascida do medo
na busca de conforto; e onde há procura de conforto, não há compreensão. As nossas religiões em todo o mundo, no
seu desejo de dar conforto, no seu desejo de os conduzir a um padrão específico, de os moldar, dá-lhes vários
padrões, moldes, seguranças, através daquilo a que chamam fé. Essa é uma das coisas que exigem – fé. Por favor
não interpretem mal. Não se adiantem a mim. Elas exigem fé, e vocês aceitam a fé porque ela lhes proporciona um
refúgio do conflito da existência diária, da luta contínua, das preocupações, dores e sofrimentos. Portanto dessa fé,
que tem que ser uma fé dogmática, nascem as igrejas, e daí são estabelecidas idéias, crenças.
Ora para mim – e por favor lembrem-se disto, quero que critiquem, não que aceitem – para mim todas as crenças,
todos os ideais são um obstáculo porque os impedem de compreender o presente. Vocês dizem que as crenças, os
ideais, a fé, são necessários como um farol que os orientará através da confusão da vida. Isto é, estão mais
interessados em crenças, em tradição, em ideais e na fé, do que em compreender a própria confusão. Para
compreenderem a confusão não podem ter uma crença, um preconceito; têm que olhar para ela completamente,
agarrá-la com uma mente clara, com uma mente não corrompida, não com uma mente que está influenciada por
preconceitos específicos a que chamamos um ideal. Portanto onde há uma procura de conforto, de segurança, tem
que haver um padrão, um molde, no qual nos refugiamos, e por isso a preconceber o que deve ser Deus, e o que
deve ser a verdade.
Ora para mim, existe uma realidade viva. Existe algo que devém eternamente, algo fundamental, real, duradouro,
mas que não pode ser preconcebido; não requer crenças, requer uma mente que não esteja acorrentada a um ideal tal
como um animal está atado a um poste, mas que pelo contrário, requer uma mente que esteja continuamente a
mover-se, a experimentar, nunca permanecendo. Eu afirmo que há uma realidade viva; chamem-lhe Deus, verdade,
o que quiserem, coisa que é de muito pouca importância – e para compreenderem isso, é preciso haver suprema
inteligência, e por isso não pode haver qualquer conformidade, mas antes o questionamento dessas coisas falsas e
verdadeiras em que a mente se encontra aprisionada. E verão que a maior parte das pessoas, a maior parte de vocês
são religiosamente propensos, estão à procura da verdade, e essa mesma procura indica que estão a fugir do conflito
do presente, ou que estão insatisfeitos com a situação presente. Por isso tentam descobrir o que é real; isto é,
deixam a situação que cria conflito e fogem e tentam descobrir o que é Deus, o que é a verdade. Por isso essa
procura é a negação da verdade, porque estão a fugir – há evasão, desejo de conforto, de segurança. Por isso,
quando as religiões se baseiam, como o fazem, na oferta de seguranças, tem que haver exploração; e para mim as
religiões tal como são subsistem em nada mais do que numa séria de explorações. Aquilo a que chamamos os
mediadores entre o nosso presente conflito e essa suposta realidade tornaram-se os nossos exploradores, e eles são
os sacerdotes, os mestres, os professores, os salvadores; porque eu afirmo que só através da compreensão do
conflito presente com todo o seu significado, com todas os seus delicados matizes – só assim podem descobrir o
que é real, e ninguém os pode conduzir a isso.
Se ambos, o inquiridor e o professor, soubessem o que é a verdade, então ambos poderiam ir na sua direcção; mas o
discípulo não pode saber o que é a verdade. Por isso a sua inquirição sobre a verdade só pode existir no conflito,
não longe dele, e assim, para mim, qualquer professor que descreva o que é a verdade, o que é Deus, está a negar
isso mesmo, esse algo incomensurável que não pode ser medido por palavras. A ilusão das palavras não lhes dá
segurança, e a ponte das palavras não os pode conduzir a esse algo. É somente quando vocês, como indivíduos, se

começarem a aperceber no conflito imenso, da causa, e por consequência da falsidade desse conflito, que
descobrirão o que é a verdade. Ali existe a felicidade eterna, a inteligência; mas não nesta coisa espúria chamada
espiritualidade que é apenas uma conformidade, conduzida pela autoridade através do medo. Eu afirmo que existe
algo extremamente real, infinito; mas para o descobrir o homem não deve ser uma máquina imitativa, e as nossas
religiões não são nada mais que isso. E além disso, as nossas religiões em todo o mundo mantêm as pessoas
separadas. Isto é, vocês com os vossos preconceitos específicos, autodenominado-se Cristãos, e os Indianos com as
suas crenças específicas, autodenominando-se Hindus, nunca se encontram. As vossas crenças mantêm-nos
separados. As vossas religiões estão a mantê-los separados. “Mas”, dizem vocês, “se os Hindus pudessem ao menos
tornar-se Cristãos, então haveria uma unidade”, ou os Hindus dizem, “Deixemos que se tornem todos Hindus.”
Mesmo então há divisão, porque a crença necessita de uma divisão, uma distinção, e por esse motivo a exploração e
a luta contínua da diferença de classes.
Dizemos que as religiões unem. Pelo contrário. Olhem para o mundo fracionado em seitas pequenas e tacanhas,
lutando umas contra as outras para aumentar o seu número de membros, a sua riqueza, as suas posições, as suas
autoridades, pensando que elas são a verdade. Só há uma verdade, mas não podem chegar a ela através de nenhuma
seita, através de nenhuma religião. Para descobrir o que é verdade na religião, e o que é falso, não podem ser uma
máquina; não podem aceitar as coisas como elas são. Fá-lo-ão se estiverem satisfeitos, e se estão satisfeitos não me
ouvirão, e a minha palestra será inútil. Mas se estão insatisfeitos ajudá-los-ei a questionar corretamente, e desse
questionamento descobrirão o que é a verdade, e nessa descoberta do que é verdadeiro descobrirão como viver
amplamente, completamente, extaticamente; não com esta constante luta, batalhando contra tudo para vossa própria
segurança, à qual chamam virtude.
Mais uma vez, este medo que é criado através da procura de segurança, procura refúgio na sociedade. A sociedade
nada mais é que a expressão do individual multiplicada por milhares. Afinal, a sociedade não é uma coisa
misteriosa. É o que vocês são. É premente, controladora, dominadora, tortuosa. A sociedade é a expressão do
indivíduo. Esta sociedade oferece segurança através da tradição, a que chamamos opinião pública. Isto é, a opinião
pública diz que possuir, possuir bens, é perfeitamente ético, moral, e dá-lhes distinção neste mundo, confere-lhes
honras; vocês são pessoas notáveis neste mundo. É isso que, tradicionalmente, é aceito. É essa a opinião que
criaram como indivíduos, porque é isso que vocês procuram. Todos vocês querem ser alguém no estado, seja Sir
Qualquer Coisa ou Lord, e todo o resto, como vocês sabem, que se baseia na possessividade, nas posses; e isso
tornou-se moral, verdadeiro, bom, perfeitamente cristão, ou perfeitamente hindu. É a mesma coisa. Ora nós
chamamos a isso moralidade. Chamamos moralidade ao ajustamento a um padrão. Por favor, não estou a pregar o
contrário disso. Estou a mostrar-lhes a falsidade disso, e se quiserem descobrir atuarão, não procurarão o reverso.
Isto é, vocês consideram as posses, já sejam a vossa mulher, os vossos filhos, os vossos bens, vocês consideram isso
perfeitamente moral. Agora suponham que tinha nascido uma outra sociedade em que as posses fossem más, onde
esta idéia de possessividade fosse eticamente proibida – que entrasse na vossa mentalidade como a possessividade
entra agora pelas circunstâncias, pela situação, pela opinião. Então a moralidade perde todo o seu significado, a
moralidade é então uma mera conveniência. Não a percepção correta das coisas, mas o engenhoso ajuste às
circunstâncias – a que chamam moralidade. Suponham que querem, como indivíduos, não ser possessivos, vejam o
que têm que combater! Todo o sistema da sociedade não é senão possessividade. Se o compreendessem e não
fossem levados pelas circunstâncias que não são chamadas morais, então vocês, como indivíduos, teriam que
começar a afastar-se desse sistema voluntariamente, e não teriam que ser levados como cordeiros a aceitar a
moralidade da não-possessividade.
Atualmente são forçados quer gostem quer não, quer pensem que é sensato ou não; são forçados pelas situações,
pelo meio que criaram, porque são ainda possessivos, e agora talvez apareça um outro sistema que os leve ao
oposto – a ser não-possessivos. Certamente não é moralidade; é apenas timidez ser forçado pelo meio a ser
possessivo ou não-possessivo. Ao passo que, para mim, a verdadeira moralidade consiste em compreender
totalmente o absurdo da possessividade e combatê-la voluntariamente; e não ser conduzido de uma maneira ou de
outra.
Agora, se olharem, esta sociedade está baseada na consciência de classes que é mais uma vez a consciência da
segurança. Da mesma maneira que as crenças se tornam em religiões, também as posses se tornam na expressão da

nacionalidade. Da mesma maneira que as crenças separam as pessoas, condicionam as pessoas, mantêm-nas
separadas, também a possessividade, expressando-se como consciência de classes e tornando-se em nacionalidade,
mantém as pessoas separadas. Isto é, toda a nacionalidade se baseia na exploração da maioria pela minoria para seu
próprio benefício através dos meios de produção. Essa nacionalidade, através do instrumento do patriotismo, é um
processo de guerra. Todas as nacionalidades, todos os países soberanos, têm que se preparar para a guerra; é o seu
dever, e não adianta serem pacifistas e ao mesmo tempo falar de patriotismo. Não podem falar de fraternidade, e
depois falar sobre Cristianismo, porque isso nega-a; não mais aqui que na Índia, ou em qualquer outro país. Na
Índia podem falar sobre Hinduísmo e dizer que somos um só, que toda a humanidade é uma só. São apenas palavras
– hipocrisia.
Portanto todas as nacionalidades são um processo de guerra. Quando falava na Índia, disseram-me (presentemente
os Hindus estão a atravessar uma fase dessa doença do nacionalismo), “Olhemos primeiro pelo nosso país porque
há tanta gente a morrer de fome; depois podemos falar sobre a unidade da humanidade”, que é a mesma coisa de
que falam aqui. “Protejámo-nos e depois falaremos sobre unidade, fraternidade, e todo os resto. Ora, se a Índia está
realmente preocupada com o problema da fome, ou se vocês estão realmente preocupados com o problema do
desemprego, não podem lidar apenas com o problema de desemprego da Nova Zelândia; é um problema humano,
não um problema de um grupo específico chamado Nova Zelândia. Não podem resolver o problema da fome como
um problema Indiano, ou como um problema Chinês, ou o problema do desemprego como um problema Inglês, ou
Alemão, ou Americano, ou Australásio, mas têm que lidar como ele como um todo; e só podem lidar com ele como
um todo quando não forem nacionalistas, e não forem explorados através do processo de patriotismo. Vocês não são
patriotas todas as manhãs quando acordam. Só são patriotas quando os papéis dizem que têm que o ser, porque têm
que conquistar o vosso próximo. Somos por isso bárbaros, e não os que invadem o vosso país. O bárbaro é o
patriota. Para ele o seu país é mais importante que a humanidade, que o homem; e eu digo-vos que não resolverão
os vossos problemas, este problema económico e de nacionalidade, enquanto forem Novo Zelandeses. Só o
resolverão quando forem seres humanos verdadeiros, livres dos preconceitos nacionalistas, quando deixarem de ser
possessivos, e quando a vossa mente não estiver dividida pelas crenças. Então poderá haver verdadeira unidade
humana, e então o problema da fome, o problema do desemprego, o problema da guerra, desaparecerá, porque
vocês considerarão a humanidade como um todo e não como algum povo específico que quer explorar outro povo.
Vêem, portanto o que está a dividir o homem, o que está a destruir a verdadeira glória de viver na qual, unicamente,
podem encontrar essa realidade viva, essa imortalidade, esse êxtase; mas para a encontrar têm que ser em primeiro
lugar indivíduos. Isso significa que têm que começar a compreender, e por consequência a agir, para descobrir o que
é falso no sistema existente, e assim, como indivíduos, formarão um núcleo. Não podem alterar as massas. O que
são as massas? Vocês próprios multiplicados. Esperam que as massas atuem, esperando que por algum milagre haja
uma mudança completa do dia para a noite, porque não pensam, não querem agir. Enquanto esta atitude de espera
existir, haverá cada vez maior luta, cada vez mais sofrimento, falta de compreensão; a vida torna-se uma tragédia,
algo sem valor. Ao passo que, se vocês, como indivíduos, agirem voluntariamente porque querem compreender e
descobrir, então tornar-se-ão responsáveis, então não se tornarão reformadores, então haverá uma mudança
completa, não baseada na possessividade, nas distinções, mas na verdadeira humanidade na qual há afecto, há
pensamento, e por isso um êxtase de viver.

Auckland, Nova Zelândia, 1ª palestra nos jardins da Escola de Vasanta
30 de março, 1934.
Amigos, parece-me sem dúvida uma pena que numa manhã agradável como esta devamos falar sobre as variadas
opressões e sobre a cruelade que suportamos todos os dias, e das várias explorações que têm lugar, consciente ou
inconscientemente, em nosso redor; e no entanto sorrimos no meio delas todas e tentámos aguentá-las, levando uma
vida bastante medonha e feia, tentando de uma maneira ou de outra conseguir suportar os males diários e os
infortúnios que cada um enfrenta.
Ora se considerarem o que está a acontecer, verão que embora haja opressão, esta crueldade, esta extraordinária
exploração por indíviduos a outros, apesar disso procuramos continuamente satisfação. Ou vocês como indivíduos
estão satisfeitos em tolerar todas estas coisas, ou vão mudá-las, vão alterá-las. Ás vezes, em momentos de contacto
imediato, há um intenso e ardente desejo de mudar, de extirpar, e de viver decentemente, humanamente,
completamente, e quando esse contacto imediato nos é levado pelos sofrimentos da vida, voltamos a cair na
satisfação. Portanto se estão apenas satisfeitos, isto é, contentes com as coisas como elas estão no mundo, então
nada mais há a ser dito; estou a falar a sério. Se estão realmente satisfeitos, felizes, contentes para continuar como
são, com as coisas a desmoronarem-se, quando há tanta corrupção, exploração e crueldade, verdadeiros horrores a
acontecerem no mundo, se estão realmente satisfeitos com isso, receio que a minha palestra seja absolutamente
inútil. Mas se quiserem alterar as coisas, e se pensam que, como seres humanos, deveríamos ter uma condição
diferente, uma situação diferente, um meio diferente, não só para a minoria escolhida, mas para toda a humanidade,
então consideremos o problema juntos; não que eu queira dogmatizá-los ou empurrá-los numa direcção ou noutra,
influenciado-os a agir de uma determinada maneira, mas sim, através de reflectirmos juntos, chegarmos a uma
conclusão natural a partir da qual tenhamos necessariamente e naturalmente de agir. Há portanto duas coisas
franqueadas a cada indivíduo, ou remendar, reformar, ou originar uma completa orientação do pensamento, uma
mudança completa.
Aquilo a que chamo remendar é a alteração contínua no sistema de pensamento existente, mas mantendo os
alicerces como estão, intactos. Isso é remendar, não é? Manter as coisas essencialmente como estão e alterar as
dificuldades superficiais, estar sempre a mudar as aflições transitórias, mas não procurar resolver as coisas
fundamentais. Ora a um trabalho assim e a um pensamento assim, baseados nesta ideia, eu chamo remendo ou
reforma. É como melhorar os bairros de lata da cidade. Não que seja mau melhorar os bairros de lata da cidade, mas
o problema é que tenha que haver bairros de lata, que tenha que haver pessoas que estão a explorar, que tenha que
haver esta distinção de classes, e não que melhoramentos possamos fazer. Até que reconheçam isso, e enquanto não
houver uma mudança radical, fundamental, lidar apenas com os sintomas não vai fazer nada.
Assim esta manhã quero mostrar que enquanto o pensamento, e por isso a acção, estiver baseado nesta ideia de
auto-engrandecimento, de auto-crescimento, ou de auto-consciência continuamente limitada, tem que haver
problemas a surgir desta consciência limitada. Isto é, se fizerem quaisquer mudanças sociais ou reforma social
enquanto o sistema de pensamento estiver baseado na possessividade, na segurança, nos direitos de propriedade,
etc., tem que haver problemas que só podem ser tratados sintomaticamente, não radicalmente. Isto é, senhores,
suponham que há uma reforma nos bens; vocês continuam a pensar que é perfeitamente correcto que possuam a
vossa pequena parcela de terreno, que toda a gente deve ter parcelas de terreno. Isto é, querem apegar-se aos vossos
bens particulares e deixar que os outros tenham os seus prórpios bens; ao passo que, para mim a própria ideia de
possessividade tem que conduzir ao conflito com o vosso próximo, tem que conduzir a distinções como as
nacionalidades, a consciência de classes, o pretensiosismo; e se estão a corrigir o quanto deveriam possuir ou o
quanto não deveriam possuir, então estão a tratar apenas sintomaticamente, não radicalmente. É como ir ao médico
que trata dos sintomas e não da causa.
Deixem-me tomar um outro exemplo. Tratar dos sintomas é considerar que podem manter-se fiéis à vossa religião
particular e que eu posso manter-me fiel à minha, e vamos ser tolerantes. Ora, conforme expliquei na outra noite,
todo o processo de fundação de uma religião chega através da aderência a uma crença ou dogma específicos. Vocês
dizem que são pessoas religiosas, Cristãos, porque têm certas crenças, certos ideais, certos dogmas, e dizem para
vocês próprios que haverá um mundo perfeito quando toda a gente acreditar como vocês acreditam, ou quando toda

a gente no mundo chegar à vossa forma particular de pensamento; e estamos a tentar remendar, a reformar, com
essa atitude perante a religião. Para mim, a verdadeira reforma, a verdadeira mudança, a verdadeira mudança
radical de pensamento, não reside na obra feita de remendos, na reforma das religiões, mas em ver o absurdo das
religiões. Enquanto tiverem crenças, tem que haver divisões. Enquanto estiverem comprometidos com uma forma
específica de pensamento, naturalmente estão separados de mim, e não há contacto humano. Então, só os
preconceitos se encontram, não a verdadeira compreensão humana.
Portanto enquanto apenas quiserem reformar, isto é, ocasionar mudanças nos sistemas existentes de pensamento, de
cultura, de possessividade, embora momentaneamente possam aliviar o sofrimento, resolver os inúmeros problemas
que surgem, não estão senão a protelar, a pôr de lado no momento a questão fundamental que é se a sociedade ou a
cultura deveriam basear-se no auto-engrandecimento, na possessividade e na exploração.
Portanto vocês, como indivíduos, têm que descobrir o que pretendem fazer, se deverão pertencer a uma sociedade, a
um sistema de pensamento, baseado neste auto-engrandecimento, com todas as suas nuances, com as suas delicadas
subtilizas; ou se, como indivíduos, vêem que enquanto o estado existir tem que haver guerras, tem que haver
crueldades, tem que haver exploração, e por isso vocês, como indivíduos, estão preparados para mudar
completamente e não apenas a tratar sintomaticamente. Como indivíduos, vocês são confrontados com este
problema, com esta pergunta, se tratarão sintomaticamente, se remendam, ou se provocam uma mudança completa
de pensamento, não baseado na possessividade e na auto-importância. Ora necessariamente uma tal atitude
provocará gradualmente uma nova sociedade, um novo estado, uma nova consciência, na qual não pode haver
exploração, não pode haver esta luta incessante para existir, para simplesmente existir. E só tratarão desta questão se
estiverem realmente a prestar atenção, se estiverem realmente preocupados, se estiverem realmente a sofrer, não
apenas sentados a discutir intelectualmente, a observar teoricamente. Portanto cabe a vocês decidir pela razão, e por
isso pela acção, se como indivíduos, pela vossa própria compreensão, originarão uma humanidade na qual há
verdadeira compreensão, ou se continuarão com esta luta incessante.
Deram-me algumas perguntas, e irei respondê-las. Tenciono fazer isto todos os dias.
Pergunta: Alguns dos meus amigos notaram que embora achem os seus ditos intensamente interessantes, preferem
o serviço a demasiada reflexão sobre as questões da verdade. Quais são as suas observações sobre esta opinião?
Krishnamurti: Senhor, o que quer dizer com serviço? Toda a gente quer ajudar. É esse o grito daquelas pessoas que
pensam que estão a servir o mundo. Estão sempre a falar sobre ajudar o mundo, especialmente aquelas pessoas que
pertencem a seitas. É a sua forma particular de doença, porque pensam que fazendo alguma coisa, não importa o
quê, vão ajudar, que servindo as pessoas ajudarão. Quem pode dizer o que é o serviço? Um homem que pertence ao
exército, preparado para matar o bárbaro que entre no seu país, diz que está a servir o país. O homem que mata, o
carniceiro, diz que está a servir a comunidade. O explorador que tem os meios de produção nas mãos,
monopolizados, diz que está a servir a comunidade. O homem que explora as crenças, o sacerdote, diz que está a
servir o país, a comunidade. A quem cabe decidir?
Ou então olhemos a questão de uma forma bastante diferente. Acham que uma flor, uma rosa, está sempre a ter em
consideração de que está a servir a humanidade, que está a ajudar o mundo pela sua existência porque é bonita?
Pelo contrário, porque é bonita, extremamente bela, inconsciente da sua magnificência, é que está a ajudar. Não
como um homem que anda de um lado para o outro a gritar que está a servir o mundo. Isto é, cada um quer usar os
seus meios, ou as suas ideias, para explorar o mundo, não para libertar o mundo. Pessoalmente, se não me
interpretarem mal, esse não é de modo nenhum o meu ponto de vista. Eu não quero ajudar o mundo, como vocês
lhe chamariam. Eu não posso ajudar, isso acontece naturalmente. Isso é serviço. Não desejo fazer com que os outros
se aproximem da minha forma específica de crença ou pedir-lhes que venham para a minha gaiola particular de
pensamento, porque eu afirmo que ter uma crença é uma limitação.
Para servir realmente, tem que se ser extremamente livre da consciência limitada a que chamamos o “eu”, o ego, a
consciência egocêntrica; e enquanto isso existir, não estão relamente a servir o mundo. A menos que realmente
pensem, não podem descobrir se estão verdadeiramente a ajudar o mundo. Portanto não consideremos em primeiro

lugar se estamos a ajudar o mundo, mas antes descubramos se temos a capacidade de pensar e de sentir. Para pensar
realmente, a mente não pode estar amarrada a uma crença. Isso é muito simples, não é? Para realmente pensar
profundamente, francamente, completamente, a vossa mente não deve estar limitada pelo preconceito ou restringida
a uma determinada crença, ou pelo medo, ou por ideias preconcebidas. Para pensar, a mente deve começar outra
vez, de novo, e não com um pano de fundo de tradição. Afinal, a tradição só é valiosa quando os ajuda a pensar, não
quando os subjuga pelo seu peso.
Deixem-me colocar a questão de maneira diferente. Todos queremos ajudar. Quando vêem sofrimento no mundo há
um intenso desejo de ajudar; mas para ajudar verdadeiramente as pessoas têm que ir à causa fundamental das
coisas. Têm que descobrir a causa do sofrimento, e só o podem fazer se houver reflexão profunda. E esta reflexão
não é mero prazer intelectual, mas só pode ter lugar, esta reflexão, na acção.
Pergunta: Afirma-se aqui que só uma ou duas pessoas no mundo podem ter esperança em compreender a
importância da sua mensagem. Por isso o ensinamento secundário da Teosofia moderna é necessário como
substituto para a salvação do mundo. O que tem a dizer?
Krishnamurti: Senhor, em primeiro lugar tem que descobrir o que tenho a dizer antes de dizer que é impossível. É
isto o que quero dizer. Todo o nosso sistema de pensamento e de acção e de vida está baseado no engrandecimento
e no crescimento individuais à custa de outros. Isso é um facto, não é? E enquanto esse facto existir no mundo tem
que haver sofrimento, tem que haver exploração, tem que haver divisão de classes; e nenhuma forma de religião
pode ocasionar a paz, porque elas são a própria criação das ânsias humanas, são meios de exploração. Essa
realidade viva, que eu afirmo que existe – chamem-lhe Deus, verdade, ou qualquer outro nome que quiserem – essa
inteligência suprema que eu afirmo que existe, que eu afirmo ter compreendido, só pode ser encontrada através da
ausência dos obstáculos que criararam através da procura de segurança e conforto, a seguranças das religiões e essa
segurança artificial da possessividade.
Certamente, compreender o que estou a dizer não é muito difícil. A dificuldade reside em pôr em acção o que digo.
Agora, pôr em acção o que digo não precisa de coragem, mas antes de compreensão. A maior parte de nós está à
espera que o mundo mude, mais do que a começar a mudarmo-nos a nós próprios. Estamos à espera que o sistema
mundial altere esta atitude em relação à possessividade, e não estamos a tentar descobrir se podemos, como
indivíduos, estar realmente livres da possessividade. Para compreender isto, esta ausência de possessividade, temos
que descobrir inteligentemente quais são as nossas necessidades. Sabem, quando tiverem descoberto quais são as
vossas necessidades, então não serão possessivos. Cada homem conhecerá as suas necessidades, muito claramente,
muito simplesmente, se abordar a questão inteligentemente; mas não pode haver a descoberta de quais são as suas
necessidades enquanto a mente estiver presa na possessividade, na ganância e na exploração. Portanto, quando
descobrem quais são as vossas necessidades, não se estão a comprometer com as vossas necessidades e com as
condições do mundo que se baseiam na possessividade. Espero estar a esclarecer isto.
O que quero dizer é que não pode haver relações humanas, vitais, nem viver com alegria na plenitude da vida no
presente – que para mim é a única eternidade – enquanto a mente e o coração estiverem estropiados através do
medo; e para dominar esse medo criámos inúmeros obstáculos, tais como as religiões, as crenças, a possessividade,
as seguranças. Por esse motivo, como indivíduos, estamos continuamente a conferir sofrimento, continuamente a
aumentar a luta, o caos do mundo. É certamente muito simples, se vierem a pensar nisso.
Se realmente quiserem descobrir o que estou a dizer, por favor examinem uma das idéias que exponho e ponham-na
em acção; então verão que ela se torna prática, não vaga, teórica, impossível de compreender. Então não quererão
nenhum ensinamento secundário.
Sabem, esta ideia de que as pessoas não compreendem, e por isso têm que lhes dar algo que compreendam, é
realmente uma maneira habilidosa de exploração. É a atitude da classe capitalista. É a atitude do homem que tem
muitas posses. Isto é, ele quer nutrir o mundo, guiar o mundo, guiar os outros homens; ao passo que eu desejo
despertar o outro homem para que ele aja por si. Se eu os puder despertar para a vossa própria força, para a vossa
própria compreensão, para a vossa própria responsabilidade, para a vossa própria acção, então destruirei a diferença

de classes. Então não os mantenho na creche para serem explorados como uma criança por alguém que se supõe
saber mais. É essa a atitude integral das religiões, que nunca possam descobrir o que é a verdade – só uma ou duas
pessoas descobrem – por isso deixem-me, como mediador, ajudá-los; por consequência torno-me um explorador. É
esse todo o processo da religião. É um meio hábil de explorar, sendo implacável em manter as pessoas sob domínio,
tal como a classe capitalista o faz exactamente da mesma maneira – uma classe por meios espirituais, a outra por
meios mundanos. Mas se examinarem isso, ambas são explorações implacáveis. (Ouçam! Ouçam!) Senhores, por
favor não se incomodem em dizer “ouçam, ouçam.” O que é importante é agir, não concordar comigo
intelectualmente. Isso não tem valor. A concordância só pode ter lugar na acção. Quando dizem “ouçam, ouçam”,
isso significa que têm que resistir contra a sociedade, contra os vossos vizinhos, contra a vossa família, contra tudo
o que essa sociedade edificou durante gerações. Isso requer grande percepção, não coragem, não esta atitude
heróica perante a vida, mas percepção, elevada e direta, do que é a verdade.
Ora, para mim, a vida não é para ser uma escola. A vida não é algo de que aprendem, é para ser vivida – para ser
vivida supremamente, inteligentemente e divinamente. Ao passo que, se fizerem dela um constante campo da
batalha, de luta, de esforço contínuo, então a vida torna-se hedionda; e fizeram-na assim porque todo o vosso
pensamento é auto-crescimento, auto-expansão, auto-engrandecimento, e enquanto isso existir, a vida torna-se
numa luta hedionda.
Portanto isso é o que eu quero dizer. Certamente que isso é muito facilmente compreendido. Facilmente
compreendido em certo sentido. Não se pode alcançar todo o seu significado de imediato. Pode-se ver em que
direção reside, e para mudar a própria atitude tem que haver grande aflição, não contentamento, um grande conflito
ardente que os force a descobrir; e Deus sabe que temos conflitos durante todo o dia, mas treinamos a nossa mente
para ser astuta, e portanto para passar ao de leve por estes conflitos, fugir-lhes. Por isso podemos ter conflito após
conflito, problema atrás de problema. A nossa mente aprendeu a ser engenhosa, e por isso a evadir-se.
Pergunta: Poderia por favor explicar em maior detalhe o que quer dizer com a sua declaração de que “os vossos
professores são os vossos destruidores.” Como pode um sacerdote, desde que seja honesto na sua intenção, ser um
destruidor?
Krishnamurti: Senhor, porque é que quer um sacerdote para o manter moralmente correto? É isso? Ou para o
conduzir à verdade? Ou para atuar como intérprete entre Deus e o senhor? Ou apenas para efetuar um rito, uma
cerimônia de casamento ou de funeral, ou de Domingo de manhã? Porque é que querem sacerdotes? Quando
descobrirmos porque é que os necessitamos, então descobriremos que são destruidores.
Se disserem que um sacerdote é necessário para manter a nossa moralidade sã, certamente que então já não são
morais, mesmo embora o sacerdote os possa forçar a ser morais; porque para mim moralidade não é compulsão; é
uma ação voluntária. A moralidade não nasce do medo, condicionada pelas circunstâncias. A verdadeira moralidade
é compreensão voluntária e por isso ação. Por isso para mim não é necessário um sacerdote para manter a vossa
integridade. Ou se disserem que ele é necessário para os conduzir à verdade como um mediador, como um
intérprete, então eu digo que ambos, vocês e o sacerdote, devem saber o que é a verdade. Para serem conduzidos a
algum lado têm que saber para onde vão, e o líder também tem que saber para onde vai; e se sabem onde está a
verdade, então não querem um líder. Por favor, não se trata de habilidade. São apenas fatos.
Mas agora o que é que fizemos? Preconcebemos o que é a verdade como contraste, como uma oposição àquilo que
somos. Dizemos que a verdade é tranquila, que a verdade é sábia, ilimitada. Porque não somos isso, por esse
motivo, transformamo-la num oposto, e queremos alguém que nos ajude a chegar lá. O que significa isso? Alguém
que os ajude a fugir deste conflito para algo que vocês supõem que deve ser a verdade. Por consequência, o
sacerdote ajuda-os a fugir das realidades, dos fatos.
Estava a falar com um sacerdote no outro dia, e ele disse-me que mantinha a sua igreja porque havia muito
desemprego. Ele disse, “Sabe, os desempregados não têm casas, beleza, vida, música, luz, cor, nada – um terror,
uma vida hedionda; e se vierem uma vez por semana à igreja, pelo menos há beleza, há alguma tranquilidade, há
algum perfume, e vão-se embora pacificados para o resto da semana, e voltam outra vez.” Não é essa certamente a

maior forma de exploração? Isto é, este sacerdote específico estava a tentar pacificá-los no seu conflito, a tentar
tranquilizá-los, por outras palavras a drogá-los para não tentarem descobrir a causa real do desemprego.
Agora, se dizem que os sacerdotes são necessários para realizar os ritos, as cerimônias da Cristandade, então vamos
inquirir sobre se esses ritos e cerimônias são necessários. São necessários? Como não assisto a eles, não posso
responder. Não têm valor para mim; mas para vocês que assistem a eles, têm valor? De que maneira tiram proveito
deles? Vão lá ao Domingo de manhã, sentem-se muito devotos, elevados de espírito, ou seja lá o que for, e durante
o resto da semana ou exploram ou são explorados. Continua a haver crueldade e todo o resto. Portanto onde está o
valor, a necessidade de um sacerdote?
Se disserem que é um meio de ganhar dinheiro, então colocaremos a questão numa categoria totalmente diferente.
Se tratam o assunto como uma profissão, como a advogacia, a marinha, o exército, ou qualquer outra profissão,
então é uma coisa totalmente diferente, e a maior parte das religiões com os seus sacerdotes são isso e nada mais
que isso – uma velha profissão.
Portanto se contam para um sacerdote para os orientar como um professor, eu digo que ele é o vosso destruidor ou o
vosso explorador. Por favor, não tenho nada contra os sacerdotes Cristãos ou contra os sacerdotes Hindus – para
mim eles são todos iguais. Afirmo que não são essenciais para a humanidade. E por favor não aceitem o que estou a
dizer como autoridade definitiva para vocês, como uma declaração dogmática. Examinem a questão, ponderam-na.
Se aceitarem o que estou a dizer, também eu me tornarei um sacerdote; e por consequência, tornar-me-ei o vosso
explorador. Ao passo que, se realmente examinarem o assunto na sua totalidade, não durante um momento
passageiro mas completamente, verão que as religiões com todos os seus professores sectários, estão realmente a
manter a humanidade separada. Eles aumentam os horrores da guerra, a diferença de classes, as nacionalidades, e
por isso todas estas coisas levam à guerra e a maiores explorações nas quais não há afeto verdadeiro, amor
verdadeiro, consideração verdadeira.
Pergunta: Existe uma vida futura?
Krishnamurti: Está realmente interessado nela? Suponho que sim senão não tinha colocado a questão. Ora,
esperem aí. Porque inquirem sobre uma vida futura; apenas por divertimento ou curiosidade, ou porque no presente
têm medo e por isso querem descobrir o que é o futuro, ou apenas para informação? Ora vocês sabem que alguns
dos cientistas modernos, alguns dos cientistas mais conhecidos, dizem que há uma vida futura. Dizem que através
dos mediums se pode descobrir que existe uma vida após a morte. Muito bem, admitamos que existe. E se houver
uma vida futura? O que realizaram com a descoberta de que há uma vida futura? Não são mais felizes, mais
inteligentes, mais humanos, ponderados, afetuosos. Estão onde estavam antes. Tudo o que aprenderam foi outro fato
– que existe uma vida depois da morte. Pode ser um consolo; mas mesmo assim, e depois? Vocês dizem, “Isso dáme a certeza de que viverei a próxima vida.” E então? Mesmo embora lhes dê a certeza de que vão viver, têm
exatamente o mesmo problema, as mesmas preocupações, as mesmas alegrias e prazeres transitórios embora haja
uma outra vida. Ao passo que, para mim, embora possa ser um fato, é de muito pouca importância. Senhor, a
imortalidade não está no futuro, a imortalidade ou a eternidade, ou o que lhe quiserem chamar, está presente agora;
e só podem compreender o presente quando a mente está liberta do tempo.
Agora receio ter de ser um pouco metafísico, mas espero que não se importem. Não é realmente metafísico.
Enquanto a mente for escrava do tempo, têm que haver medo da morte, o medo e a esperança de uma vida futura, e
uma interrogação constante dessa questão. Isto é, onde existe o medo existe já uma decadência lenta, uma morte
lenta embora possam estar a viver. A própria interrogação sobre o futuro mostra que já estão a morrer. Para viver
completamente, para viver nessa plenitude do presente, no eterno agora, a mente tem que estar liberta do tempo.
Não é assim? Não estou a usar a palavra tempo como habitualmente a usamos, para conveniência, para apanhar um
barco ou um comboio ou um elétrico, para a próxima reunião, etc., estou a usar a palavra tempo como memória. Se
cada manhã nascessem outra vez, de novo, não com todas as memórias de ontem, com todos os fardos, com todas
as encrustrações do passado, então cada dia seria novo, surgindo pela primeira vez, simples; e ser capaz de viver
assim, é estar livre do tempo. Isto é, a mente tornou-se um armazém de memória, atormentada pelo passado,
sobrecarregada pelas inúmeras experiências que temos tido.

Por favor, espero que pensem comigo em relação a isto, caso contrário não compreenderão totalmente. Portanto,
com o fardo do passado, o fardo de inúmeras memórias, confrontamos, vamos ao encontro de cada experiência –
uma experiência nova, um pensamento novo, um ambiente novo, um dia novo; enfrentamos o presente com o pano
de fundo do passado. Não é assim? Se forem Cristãos, possuem o contexto de uma mente Cristã, os dogmas
Cristãos, as crenças, as tradições, e tentam enfrentar a vida com essas ideias. Ou se forem socialistas, ou qualquer
outra coisa, têm certos preconceitos, certas ideias, certos dogmas bem-definidos, e enfrentam a vida com esse pano
de fundo, com esses óculos. Estão assim a enfrentar continuamente o presente com um pano de fundo do passado, e
por isso não compreendem o presente. Há um processo contínuo de mal-entendidos, que cria a memória; e há por
isso a acumulação, a acentuação desta memória, e por esso motivo o desejo de saber que viverei uma próxima vida.
Ao passo que, se fossem capazes de enfrentar tudo de novo, com uma mente não contagiada, com uma mente que
não está sobrecarregada com a possessividade do passado, ou com a memória de um futuro, então verão que não
existe tal coisa como a morte; que o medo não existe. Então a vida torna-se continuamente num êxtase, não numa
luta temerosa, horrível; mas isso requer uma grande vigilância, consciência de pensamento, de mente e de coração
no presente.
Receio que o interlocutor fique desapontado. Ele quer saber se há ou não há – uma resposta categórica, sim ou não.
Receio que não possa haver uma resposta categórica. Tenham cuidado com as respostas categóricas, “sim” e “não”.
Não é mais importante, realmente, saber como viver do que descobrir o que acontece quando morrem? Somente os
já moribundos querem saber o que acontece após a morte – não os vivos. Portanto interroguemos-nos e
descubramos se podemos viver amplamente, humanamente, completamente, divinamente, em vez de descobrir o
que reside para além disso. Então descobrirão o que está para além, quando souberem viver supremamente,
inteligentemente. Então descobrirão o que está para além. Então, essa descoberta não é uma coisa teórica, é um
fato; então descobrirão que tem muito pouco significado, porque não existe tal coisa como o “para além.” A vida é
um todo completo, sem um princípio nem um fim. Então esse êxtase, essa sabedoria, origina a plenitude de viver no
presente.
Pergunta: A Grã-Bretanha tornar-se-á Fascista, e é esse um movimento progressivo?
Krishnamurti: Nenhum movimento baseado na possessividade, na conservação da diferença de classes, no
encorajamento do medo, pode ser um movimento progressivo ou verdadeiro. Li alguns livros Fascistas, e eles falam
sobre o direito divino da possessividade; da conservação da diferença de classes, da nacionalidade, da delimitação
das fronteiras. Certamente que esse não pode ser um movimento humano. Vocês sabem que estes movimentos são
encorajados ou desencorajados por indivíduos como vocês próprios. Se eles proporcionarem as vossas solicitações,
ou possessividade, se garantirem a vossa fortaleza, os vossos próprios investimentos, espirituais ou mundanos,
vocês encorajam-nos; e desencorajam aqueles que tentam minimizá-los, e ajudam a destruir aqueles que mostram a
falsidade da possessividade. Para mim, não existe tal coisa como a possessividade humana instintiva. Toda a
possessividade é uma coisa artificial, criada por uma sociedade artificial e incorrecta. Instintivamente, os seres
humanos não são possessivos. Foram treinados pelas ciscunstâncias que eles criaram. Portanto se o Fascismo é um
movimento progressivo ou não é de pouca importância. O que é de importância é se vocês, como indivíduos, vêem
que, enquanto existir no mundo, com os seus governos, este contínuo auto-engrandecimento, subtilmente,
consciente ou inconscientemente, enquanto existir esta auto-importância, espiritual ou mundanamente, tem que
haver sofrimento, têm que existir gritos de dor contínuos, tem que haver guerras, tem que haver exploração, e não
haverá verdadeiro amor. Por isso cabe-lhes a vocês como indivíduos pensar de novo, descobrir se toda a vossa base
de pensamento e de acção está baseada nesta auto-consciência limitada.

Auckland, Nova Zelândia, 2ª palestra nos jardins da Escola de Vasanta
31 de março, 1934.
Amigos, a maior parte das pessoas que são pelo menos ponderadas desejam descobrir se há alguma coisa que seja
mais duradoura, na qual a vida seja mais plena, completa, e descrevem essa realidade como Deus, a verdade, ou a
própria vida. Ora, para mim, existe uma realidade assim; uma coisa que é duradoura, completa, eterna, mas como
tenho estado a dizer nas minhas duas últimas palestras, a própria busca da verdade nega-a, porque essa realidade é
para ser uma descoberta, não para ser seguida. Espero que vejam a diferença. Se forem atrás da verdade, dessa
realidade, têm que saber o que é, têm que ter uma ideia pré-concebida, mas se a começarem a descobrir, então essa
descoberta é real e não a procura da verdade, portanto quero na minha breve palestra desta manhã ajudá-los antes a
descobri-la, e não a segui-la.
Em primeiro lugar a verdade, ou essa realidade, não é para ser encontrada correndo atrás dela, porque quando
procuramos alguma coisa isso indica que a nossa mente, todo o nosso ser está a tentar evadir-se desse conflito em
que mente e o coração estão aprisionados. Ao passo que, se nos tornarmos conscientes, conscientes dos muitos
obstáculos que criamos através do medo, e então libertarmos a mente desse medo, desses obstáculos, descobriremos
o que é a vida eterna. Isto é, em vez de tentar descobrir o que é a verdade, descubrámos quais são os obstáculos que
criamos através do medo, e compreendendo a causa do medo e os seus muitos obstáculos descobriremos então o
que é essa coisa que é indescritível.
Não adianta falar sobre liberdade a um prisioneiro, a um homem que está preso; ele saberá o que é a liberdade no
momento em que sair da prisão. Mas a maior parte de nós está desejosa de descobrir o que é a liberdade antes de
estar consciente do que são as prisões; e enquanto estivermos apenas à procura de liberdade, da realidade, da
riqueza da vida, não podemos compreender, ela tem que ser imaginativa, irreal, conformada a partir de uma mente
limitada e intencional. Ao passo que, se pudermos descobrir quais são as paredes da prisão que encerram a mente e
o coração, e depois libertar a mente dos seus obstáculos, com toda a certeza, então, seremos capazes de descobrir
aquilo que é.
Portanto quais são os obstáculos que criamos? Não é em primeiro lugar a autoridade nascida do medo? A mente é
aprisionada por uma qualquer autoridade; conduzida, conformada, moldada por uma qualquer autoridade externa,
seja uma autoridade religiosa ou social, ou então vocês desenvolveram uma autoridade interna. Sabem, em primeiro
lugar aceita-se a autoridade externa, a da religião, a de um professor, a de um sistema social; e depois pensamos que
rejeitamos essa autoridade externa, e desenvolvemos uma autoridade interna, uma lei interna, que é somente a
reacção da externa. Isto é, em vez de descobrirmos qual é a autoridade externa que estabelecemos para ser nossa
guia, rejeitamo-la e pensamos que temos que descobrir uma lei para nós próprios, individualmente, e assim viver de
acordo com essa lei. Isso é o que a maior parte das pessoas faz. Há uma autoridade externa, objectiva, que rejetam
ou compreendem, e desenvolvem uma autoridade interna, uma autoridade subjectiva.
Ora, para mim, a autoridade, seja objectiva ou subjectiva, é a mesma coisa, porque autoridade implica uma
conformação, uma imitação, um controlo, um condicionamento, seja imposto externamente ou pelo esforço e
exercício internos. Portanto, isso, para mim, é o primeiro obstáculo. Um homem que compreende não precisa de
autoridade. Só existe a percepção, e essa percepção não requer a imitação da autoridade. Espero que entendam isto.
Em primeiro lugar é-se escravo de uma autoridade social, de uma autoridade religiosa, e gradualmente vocês
desenvolvem pelo conflito, pelo dissabor, aquilo a que chamam uma autoridade subjectiva, e dizem, “É a minha
compreensão. Tenho que obedecer a essa lei que descobri por mim mesmo.” Enquanto a mente for apenas o
instrumento de obediência, por certo que uma mente assim não pode compreender. A compreensão é percepção, não
uma imposição, seja externamente ou internamente.
Mais uma vez, repetindo a mesma coisa de forma diferente, nós temos ideais externos que nos são impostos através
da educação, através da política, através da influência social, do meio. Depois sentimos que nos confinam, que são
limitativos, controladores, dominadores, que usurpam o nosso pensamento individual, portanto desenvolvemos os
nossos próprios ideais – pensamos que desenvolvemos os nossos próprios ideais, crenças, aos quais tentamos
conformar-nos. Foi isso que fizemos; rejeitamos o externo e estamos a obedecer a um ideal interno que

estabelecemos para nós próprios, e pensamos que fizemos um tremendo progresso. O que fizemos foi apenas
rejeitar o externo, estabelecer as nossas próprias crenças, e estamos a tentar imitar, a tentar seguir essas crenças. Ora
esta ideia de seguimento, de imitação, de ser orientado, controlado, dominado, é, para mim, precisamente o
primeiro obstáculo que impede a percepção clara de qualquer experiência, ou aquela realização em perfeita
compreensão, porque toda a nossa mente, quando está a obedecer, a ser controlada, é dominada pela ideia de
obtenção. Pensamos na sabedoria, na compreensão, na plenitude, em termos de acumulação, não como uma infinita
flexibilidade, e por isso, eterna. Aquilo que é flexível é duradouro, mas aquilo que está sobrecarregado, o resultado
de muitas, muitas acumulações, e por isso susceptível de resistência, é transitório e não pode compreender.
Receio ver pelas vossas caras que há pouca compreensão do que estou a dizer. Esperem um momento, senhores;
receio que ouvindo uma ou duas palestras não vão compreender o que estou a dizer. O que ocasiona a compreensão
não é escutar, apenas escutar, mas antes tentar realizar na ação.
Portanto pondo as coisas de forma diferente, a mente e o coração são o resultado do meio, e então o vosso meio
controla a maneira como pensam e a maneira como sentem. Não digam: “Isso é tudo – mente? Tem que haver mais
qualquer coisa, qualquer coisa que seja mais duradoura.” Eu disse que para descobrir isso, vamos começar pelas
coisas que conhecemos, e pelo princípio – não a partir de uma coisa misteriosa que não conhecemos, sobre a qual
podemos apenas romancear. Portanto a mente e o coração, pensamento e sentimento, são o resultado do meio, e
enquanto forem escravos desse meio, não pode haver compreensão; não podem pois dominar o meio, e dominar o
meio é compreendê-lo.
Isto é, o meio é afinal o sistema social e esse sistema a que chamamos religião, feito de muitas doutrinas, crenças,
dogmas, inúmeros preconceitos, e a mente é escrava desse meio. Por exemplo, se dependerem da mente para a
vossa subsistência, como a maior parte das pessoas depende, como toda a gente tem que depender, vocês são
controlados em grande parte pelas crenças que sustentam. Suponham que são Católicos Romanos, e querem
encontrar um trabalho num local Protestante, ou se são Protestantes, querem encontrar um trabalho numa instituição
ou num escritório Católico Romano; se eles descobrirem as vossas crenças, poderá não ser muito fácil encontrar um
trabalho, portanto vocês põem as vossas crenças de lado ou aceitam momentaneamente o que os outros dizem,
porque desejam ganhar dinheiro, porque têm que ter dinheiro. Através do meio externo, mentalmente, vocês estão
sob controle, portanto as vossas crenças são apenas o resultado do meio, são condicionadas pelo meio; e enquanto
não deitarem abaixo o falso meio da sociedade e da religião, as vossas crenças e os vossos ideais não têm valor,
porque são apenas o resultado do meio nascido do medo.
Portanto para compreender isso que é duradouro, eterno, tem que haver conflito entre o indivíduo e o meio, e
somente nesse conflito podem trespassar as paredes da limitação. Aceitamos irreflectidamente ou
inconscientemente tantas condições impostas pela sociedade ou pela religião, aceitamo-las como sendo verdadeiras.
Tradicionalmente a nossa mente é conduzida a um molde, e nós inconscientemente aceitamos essas coisas, e por
isso somos escravos delas; e é somente pelo questionamento contínuo, pela consciência constante, que podemos
libertar a mente do meio, e por consequência ser senhores do meio.
Pergunta: A virtude não parece ser uma característica proeminente nos seus ensinamentos. Porquê? A vida virtuosa
tem um papel tão pequeno assim na realização da verdade?
Krishnamurti: O que quer dizer com virtude? Com virtude quer referir-se a um contraste ao vício? Isto é, chama à
coragem, à bravura, uma virtude em contraste com o medo? Em primeiro lugar, tem-se medo, e você acha que tem
que desenvolver a idéia de coragem, e portanto procura a coragem; isto é, está fugir do medo, e a este processo de
fugir de medo chama-lhe bravura, coragem, que se torna virtude. Para mim, um homem que procura a virtude já
não é virtuoso; ao passo que, se começar a descobrir o que causa o medo, não a encobri-lo pela idéia do que você
pensa que é a coragem, mas tentar descobrir qual é a causa fundamental do medo, então nessa descoberta da causa
você não é nem corajoso nem temeroso, está livre de ambos os opostos.
Afinal, a virtude é apenas o resultado de um falso meio, não é? Para resistir ao meio, vocês têm que ter, hoje em dia,
um grande carácter. Pelo menos é a isso que chamam carácter. Isto é, a sociedade criou, ou antes nós ajudamos a

criar uma sociedade na qual ser não-possessivo é considerado uma grande virtude. Não é? Estabelecemos uma
sociedade onde a possessividade indica uma luta constante com o próximo, consciente ou inconscientemente, uma
batalha constante, assertividade, um contínuo eliminar de outros; e chamam a um homem que não quer fazer isso
virtuoso, nobre. Para mim isso nada tem a ver com nobreza ou virtude. Se o meio for alterado, se as condições
sociais forem alteradas, então ser possessivo ou não-possessivo é a mesma coisa, então não chamam á
possessividade nem uma virtude nem uma coisa má. Ao passo que, tal como a sociedade está constituída, afastar-se
destes falsos padrões é considerado ou uma virtude ou um pecado. Mas se começarmos a alterar o meio em que a
mente e o coração estão presos, então toda esta idéia de virtude e pecado têm um significado totalmente diferente;
porque, para mim, a virtude não é para ser procurada, para ser obtida, para ser possuída, ou o pecado para ser
execrado ou para se fugir dele – seja o que for que signifique pecado.
Portanto para mim, viver naturalmente exige muita inteligência, não uma vida brutal, selvagem, irreflectida, uma
vida primitiva – não me refiro a isso quando uso a palavra “naturalmente”. Só podem viver uma vida natural, plena,
espontânea, criativa, inteligente quando compreenderem os falsos padrões e os verdadeiros padrões da sociedade e
se tiverem separado deles porque compreenderam o seu significado; em consequência, já não estão limitados por
esta procura do oposto a que chamamos virtude.
Colocando a questão com brevidade, quando têm medo procuram coragem, e chamamos a essa coragem virtude;
mas, realmente, o que estão a fazer? Estão a fugir do medo. Estão a tentar encobrir o medo com uma idéia a que
chamam coragem, mas o medo continuará a existir e a mostrar-se em diferentes formas; ao passo que, se tentarem
descobrir qual é a causa fundamental do medo, então a mente não é aprisionada no conflito dos opostos.
Pergunta: Acha que o método da psicoanálise, trazer os motivos da mente inconsciente ao conhecimento do
consciente, ajudará o indivíduo a libertar a mente dos complexos e das ânsias primitivas e egostistas, e assim
permitirá que o seu pensamento o leve a essa felicidade de que fala?
Krishnamurti: Isto é, a mente tem muitos complexos, e a questão é se pode libertar a mente deles pela autoanálise. Não é essa a questão? A mente e o coração têm muitos bloqueios, obstáculos a que chamamos complexos –
inconscientes, escondidos. Podemos libertá-los; podemos exteirpá-los através de processos de auto-análise, e em
consequência libertar a mente da sua opinião egotista e limitada?
Receio que tenham que acompanhar isto um pouco cuidadosamente, porque pode ser a primeira vez que ouvem
isto, e podem achá-lo bastante complicado, mas não é. Para mim, a mente só se pode libertar desses obstáculos em
plena consciência, quando todo o vosso ser está ativo, consciente. Ora, no processo da auto-análise, o vosso ser
total não está a funcionar; somente essa parte de vocês a que chamam mente, pensamento, intelecto. Com essa
única parte da mente tentam descobrir os complexos escondidos; enquanto que, digo eu, só podem trazer esses
obstáculos escondidos para a ação consciente e plena, quando estiverem plenamente conscientes no presente.
Colocarei a questão de maneira diferente. Ora suponham que têm um complexo de snobismo. Muita gente o tem.
Como vão descobrir? Descobrir, para mim, não reside neste processo de auto-análise; isto é, examinar
intelectualmente as ações que tiveram lugar, e assim descobrir esta idéia de esnobismo. Em primeiro lugar, vocês
querem descobrir se são esnobes ou não. Não querem alterar isso, mas sim descobrir, não é? Esperem um momento,
por favor. Acompanhem isto. Quando o descobrem, então agirão de uma maneira ou de outra. Em primeiro lugar,
têm que descobrir se são esnobes, portanto, como vamos descobri-lo? Somente quando tiverem plena consciência,
quando estiverem completamente conscientes do que estão a dizer e a sentir no momento de o dizer e de o sentir –
não depois que o tenham dito ou sentido. Não é assim? Isto é, se estiverem completamente conscientes do que estão
a dizer e do que estão a pensar, então nessa total consciência descobrirão por vocês próprios se são snobes ou não;
não sentando-se e analisando o acontecimento intelectualmente. Sei que estão a surgir daqui inúmeras questões,
mas não posso respondê-las todas. Mas se pensarem nisso, verão que desta maneira, estando continuamente alerta,
totalmente conscientes do que estão a fazer, trarão o inconsciente, o escondido à consciência total, e assim criarão a
perturbação que é necessária, e por intermédio dessa perturbação libertarão a mente desse complexo, desse
obstáculo.

Pergunta: Parece considerar a persecução de ideais como uma evasão da vida. Não há uma essência da verdade nos
ideais mais elevados?
Krishnamurti: Porque querem ideais? Não digo que não sejam verdades; mas porque os querem? Dizemos que
precisamos deles porque não podemos, sem um padrão, uma medida, um ideal, orientar as nossas vidas através das
batalhas e lutas constantes da vida. Não é isso? Portanto queremos um padrão, uma medição contínua pela qual
julgar as nossas acções na vida diária. O que é que isso indica? Indica que estamos mais interessados no ideal, na
medição, que nos conflitos, nas lutas, nos sofrimentos que nos confrontam. Portanto, como são tão grandes, tão
contraditórias, tão imensas, estas lutas, estabelecemos ideais como um meio de nos evadirmos deles. Ao passo que,
para mim, para compreender o conflito, os infortúnios, os sofrimentos, a mente tem que estar livre para os
compreender como eles são, não com uma medida, não com um padrão. Certamente que, quando estão realmente
em grande conflito, em grande sofrimento, nesse momento não estão a pensar no ideal, no que deveriam ou não
fazer. Estão tão consumidos pelo sofrimento que querem descobrir. Então não estão à procura de um ideal que os
faça sair disso. É somente quando o sofrimento diminui, quando se acalma, que se voltam para um ideal que os
ajude a sair desse sofrimento.
Para mim, todos os ideais têm que ser um meio de alívio do sofrimento, e, por isso, não podem explicar-lhes a razão
do sofrimento. Imaginem uma pessoa típica, e verão que tem inúmeros ideais, crenças, e tenta viver durante todo o
dia de acordo com eles, se é que pensa nisso; portanto ela faz da vida uma batalha contínua entre o que são factos e
o que ela quer ser. Agora, se ela perceber, essencialmente, o que são os factos, e reconhecer o seu significado, então
descobrirá a própria raiz do consolo, e em consequência liberta-se destes falsos padrões, destas falsas medidas, que
estão continuamente a tentar conformar a sua mente a um padrão específico.
Pergunta: Acredita no Comunismo, conforme compreendido pelas massas?
Krishnamurti: Não sei o que as massas compreendem, portanto não o posso explicar. Então o que é isso, afinal?
Vamos olhar para isso, não do ponto de vista de qualquer “ismo”, mas do ponto de vista da condição humana
comum. Como pode existir verdadeira compreensão dos povos quando se consideram Novo Zelandeses, e eu me
considero um Hindu? Como podemos contactar uns com os outros? Como pode haver uma relação vital entre nós,
uma compreensão humana entre nós? Ou, se nos dividirmos por rótulos, vocês denominando-se Cristãos e eu
Hindu, com determinados preconceitos, dogmas, credos, como poderá haver verdadeira fraternidade? Podemos
falar de tolerância, que é uma invenção intelectual para os manter onde estão e para me manter onde estou, e
tentarmos ser amistosos. Isto não significa que eu esteja a falar de uniformidade; agora há uniformidade. Vocês são
todos de uma crença, de um ideal, de um dogma, embora possam variar nessa prisão, pintando cada barra
diferentemente; mas é uma prisão, e vocês querem preservar a vossa prisão com as suas decorações, e os Hindus
querem conservar as suas prisões com as suas decorações, e tentam ser fraternos, e a esta fraternidade chama-se
tolerância. Ao passo que, para mim, toda esta ideia é a própria negação da verdadeira compreensão, da unidade
humana. Portanto através do processo do tempo, podem ser levados, como tantos escravos, a aceitar o Comunismo,
conforme aceitam agora o Capitalismo; e nessa força de serem conduzidos, não pode haver acção voluntária, tal
como agora não pode haver acção voluntária. Portanto, se aceitarem meramente qualquer um dos dois, e viverem
em qualquer um dos dois, certamente que não estão a ser criativamente individuais. São apenas como cordeiros,
sejam cordeiros capitalistas ou cordeiros comunistas, conduzidos pelo meio, pela situação, forçados a aceitar. Com
certeza que uma coisa assim não é moral; uma coisa assim não é rica ou espiritual, verdadeira. E eu afirmo que a
verdadeira condição humana só pode acontecer quando vocês, como indivíduos, fizerem estas coisas
voluntariamente, porque vêem nisto a necessidade, a imensa profundidade – não apenas a excitação superficial.
Então haverá a posibilidade de os indivíduos viverem criativamente, completamente; não quando são conduzidos.
Pergunta: Qual considera ser a causa do desemprego?
Krishnamurti: Vocês sabem que construímos durante muitos séculos, durante muitas gerações, uma estrutura
baseada na competitividade individual, na auto-segurança implacável, onde os mais espertos, os mais astuciosos,
chegam ao topo, e têm todos os meios directivos nas mãos. É óbvio. Vemos isto em todo o lado, e naturalmente,
estando o mundo dividido em nacionalidades, que são a culminação dessa possessividade e da ganância dos

indivíduos, naturalmente tem que haver uma distribuição desigual, e por isso, naturalmente, desemprego. Sabem,
para mim, é muito simples ver isto. Talvez para vocês seja muito complicado, embora possam ser mais instruídos
que eu, embora possam ter lido muito. A causa, para mim, é muito simples. Portanto o que vamos fazer? Isto é,
vocês dir-me-ão: “Porque não fala das condições comuns de trabalho, porque não trabalha para a mudança das
condições económicas, então tudo estaria bem; portanto porque não concentrar toda a sua mente neste assunto
específico, e depois alterá-lo?” Como posso alterar a totalidade da sociedade da qual vocês e eu fazemos parte?
Como podemos alterá-la? Em primeiro lugar tendo uma atitude inteligente, e em consequência uma acção, para
com a totalidade da vida. Isto é, não podem pegar no problema económico em si e dizer, “Resolva isso, e todo o
resto estará resolvido.” O problema económico é apenas um sintoma de todo o problema humano, portanto se
pudermos criar uma opinião inteligente e por isso uma acção inteligente como um todo, relativamente a todos os
seres humanos, então agiremos definitivamente com respeito às condições económicas.
Portanto sinto que o que tenho que fazer é criar uma opinião, não apenas uma opinião intelectual, mas uma opinião
nascida da acção; e então, quando houver tal opinião, então, sendo inteligentes, usarão qualquer sistema, qualquer
sistema inteligente para provocar uma mudança completa no sistema económico.
Pergunta: Não acredita nem na posse nem na exploração; mas sem uma ou sem outra como poderia viajar e dar
conferência ao mundo?
Krishnamurti: Dir-lhes-ei muito simplesmente. Para viver no mundo sem exploração, têm que se retirar para uma
ilha deserta. Tal como é o sistema – como é agora – para viver, se viverem nesse sistema, têm que o explorar.
Compreendamos o que quero dizer com exploração. Ora, para mim, se não descobrirem por vocês próprios
inteligentemente quais são as vossas necessidades, então tornam-se exploradores. Se descobrirem por vocês
próprios, inteligentemente, quais são as vossas necessidades, então não são exploradores; mas isso requer muita
inteligência. Em primeiro lugar, nós temos muitas coisas porque pensamos que pela posse de muitas coisas,
seremos felizes. Portanto para possuir essas muitas coisas temos que explorar; ao passo que, se tiverem realmente
considerado quais são as vossas necessidades essenciais, nisso não há exploração, de facto, se chegarem a pensar
nisso. E eu descobri por mim quais são as minhas necessidades. No que respeita às minhas viagens, os amigos
pedem-me para ir a diferentes lugares, e eu vou. Se não mo pedirem, não viajo; e mesmo que não fale ou ensine,
posso perfeitamente fazer qualquer outra coisa. Agora, se eu quisesse convertê-los a todos a uma forma específica
de pensamento, e se os forçasse, e recebesse fundos para o alterar – a isso chamar-se-ia exploração. Aquilo de que
falo é o inevitável, quer gostem ou não, e o homem inteligente aceita inteligentemente o inevitável. Portanto não
sinto que estou a explorar, e sei que não estou, nem sou possessivo.
Mais uma vez esse sentido de possessividade – para se estar realmente livre de tudo isso, tem que se estar tão alerta,
tão consciente, para não se enganar a si próprio, porque no pensamento de que se está livre da possessividade pode
residir muita auto-ilusão. Pensa-se tantas vezes que se é livre, mas vive-se realmente no manto da auto-ilusão. No
momento em que a vossa necessidade está satisfeita, não se apegam a ela; não sentem direitos de propriedade sobre
ela.
Pergunta: Ficaria surpreendido se o Cristo dos Evangelhos aparecesse de repente, para que todos o vissem?
Krishnamurti: Sabem, a mente quer milagres, ideias românticas, fenómenos sobrenaturais extraordinários. Não
que não haja milagres, não que não haja fenómenos sobrenaturais; mas nós procuramo-los porque as nossas mentes
e corações são tão pobres, tão vazios, tão miseráveis, tão feios, que pensamos que podemos dominar essa pobreza
de espírito e de coração procurando esses milagres, correndo atrás de fenómenos, perseguindo-os. E quanto mais
procurarem fenómenos e milagres, menos ricos serão, menos plenitude de mente terão, menos afecto. Quando
existe plenitude de mente e coração, então haja ou não milagres ou fenómenos suprafísicos, isso terá muito pouca
importância. Ora nós criamos tais divisões, tais distinções entre o físico e o suprafísico, porque o físico é tão
intolerável, tão feio. Queremos fugir, e vocês seguem qualquer pessoa que os possa conduzir ao suprafísico, e
chamam a isso espiritual; mas nada mais é que outra forma de autêntico materialismo grosseiro. Ao passo que a

verdadeira espiritualidade consiste em viver harmoniosamente, com perfeita harmonia no vosso coração e na vossa
mente, porque há compreensão, e nessa compreensão há o prazer de viver.

Auckland, Nova Zelândia, 2ª palestra nos Paços do Concelho 1 de abril, 1934.
Amigos, provavelmente a maior parte de vocês veio porque estão à procura de algo. Pelo menos a maior parte de
vocês está aqui porque esperam encontrar algo assistindo a esta reunião, porque estão à procura de algo que não
conhecem, mas esperam descobrir. Estão aqui porque há um desejo de encontrar felicidade, porque toda a gente, de
uma maneira ou de outra, está a sofrer; há uma tortura constante que prossegue nas nossas mentes e corações,
estamos insatisfeitos, incompletos, interrogantes. São dadas explicações contínuas para os nossos inumeráveis
sofrimentos, e portanto vimos aqui para descobrir se podemos obter algo em troca da nossa busca. Assistindo a esta
palestra, esperam encontrar uma resposta para os vossos problemas, a causa do vosso sofrimento.
Ora, geralmente, o que acontece quando sofrem? Querem um remédio. Quando há um problema, querem uma
solução. Quando há uma dor, querem um remédio. Vão portanto de um remédio para outro. Sofremos e queremos
descobrir qual é o remédio para esse sofrimento, portanto vamos de uma lição, de uma experiência, para outra, de
um remédio para outro ou de uma explicação para outra, de um sistema para outro ou de uma crença para outra,
mudando constantemente as facções – isto é, indo de uma jaula para outra jaula, repetidamente batendo em vão nas
grades para descobrir porque há sofrimento; e durante todo o tempo a mente e o coração apenas procuram um
remédio, uma explicação. Assim, nunca encontrarão a explicação, porque, o que acontece quando estão a sofrer? A
vossa solicitação imediata é que o sofrimento seja aliviado, que a dor seja aliviada, portanto aceitam um remédio
que lhes é dado, sem o examinarem devidamente, sem descobrirem devidamente o seu verdadeiro significado.
Aceitam-no porque, psicologicamente, estabeleceram uma esperança e essa esperança cega, e por isso não há uma
compreensão clara desse remédio. Se reflectirem sobre isto, verão que é um facto. Vocês vão a um médico; ele dálhes um remédio. Nunca lhe perguntam o que é. Tudo o que lhes interessa é que a dor desapareça.
Agora estão aqui nesta reunião com essa mesma atitude de espírito, se estiverem a procurar. Se estão aqui por
curiosidade, bem, receio não ter muito a dizer. Mas se estão aqui para descobrir, se estão à procura de um remédio,
então ficarão despontados, porque eu não dou um remédio, uma explicação; mas considerendo as coisas em
conjunto, raciocinando em conjunto, descobriremos qual é a causa do sofrimento.
Portanto, para descobrir qual é a causa para o sofrimento, não procurem um remédio; mas tentem antes descobrir
qual é a causa do sofrimento, Pode-se tratar superficialmente, sintomaticamente, mas dessa maneira não
descobrirão a causa real, básica, fundamental; e só podem descobrir a causa do sofrimento se não estiverem a criar
uma barreira pela ânsia imediata de se libertarem dessa dor. Por exemplo, se perderem alguém a quem amam muito,
há sofrimento intenso. Então é-lhes oferecido um remédio – de que esse alguém vive no lado de lá, a ideia da
reencarnação, etc. Vocês aceitam esse remédio para o vosso sofrimento, mas essa mágoa permanece. Essa solidão,
esse vazio continua lá, só que o encobriram com uma explicação, um remédio, uma droga superficial. Ao passo que,
se estivessem realmente a tentar descobrir qual é a causa desse sofrimento, então examinariam, tentariam descobrir
o significado total do remédio que lhes foi oferecido, seja a ideia de que esse alguém vive no lado de lá, ou a crença
na reencarnação. Nesse estado de espírito, quando há sofrimento, há agudeza de pensamento, há um intenso
questionamento; e este intenso questionamento é o que realmente causa sofrimento. Não é? Se vivessem com a
vossa mulher, com o vosso irmão, ou com alguém, e esse irmão, ou mulher, ou amigo tivesse morrido, então
estariam cara a cara com a vossa própria solidão, o que cria na vossa mente a atitude de questionamento – a plena
consciência dessa solidão. Esse momento de consciência intensa, de consciência plena, é o momento de descobrir
qual é a causa do sofrimento.
Ora, para mim, para descobrir a causa do sofrimento, tem que haver esse estado intenso de mente e coração que está
à procura, que está a tentar descobrir. Nesse estado, verão que a mente e o coração se tornaram escravos do meio. A
mente, na grande maioria das pessoas, nada mais é que o meio. A mente e o coração são o meio, dependendo do seu
estado; e enquanto a mente for escrava do meio, tem que haver sofrimento, tem que haver conflito contínuo do
indivíduo contra a sociedade; e o indivíduo só se libertará do meio quando, questionando o meio, conquistar a
limitação que lhe foi colocada pelo meio. Isto é, só quando compreendem o verdadeiro significado de cada meio, o
verdadeiro valor do meio que foi colocado em vosso redor pela sociedade, pelas religiões, é que penetram através
da limitação imposta, e em consequência nasce a verdadeira inteligência.

Afinal, é-se infeliz porque não há inteligência, que é compreensão. Quando compreendem uma coisa deixam de
estar em conflito, deixam de estar limitados por aquilo que lhes foi imposto pela autoridade, pela tradição, por
preconceitos profundamente enraizados. Portanto a inteligência é necessária para se ser extremamente feliz e para
despertar essa inteligência a mente tem que estar livre do meio. As inumeráveis encrustações criadas pelas religiões
e pela sociedade, através dos tempos, tornaram-se o nosso meio. Só se podem libertar do meio, que os indivíduos
criaram, quando compreenderem os seus padrões, os seus valores, os seus preconceitos, as suas autoridades. E
então começam a descobrir qual é a causa fundamental do sofrimento, que é a falta de verdadeira inteligência, e
essa inteligência não se descobre por nenhum processo milagroso mas sim estando continuamente conscientes, e
portanto questionando continuamente, tentando descobrir o falso e o verdadeiro no meio colocado em nosso redor.
Deram-me algumas perguntas, e vou tentar respondê-las esta tarde.
Pergunta: Acredita em Deus? É ateu?
Krishnamurti: Suponham que todos vocês acreditam em Deus. Deve ser assim, porque são todos Cristãos, pelo
menos afirmam sê-lo, portanto devem acreditar em Deus.
Ora, porque é que acreditam em Deus? Por favor, vou responder dentro em pouco, portanto não me chamem ateu,
ou teísta. Porque é que acreditam em Deus? O que é uma crença? Vocês não acreditam em algo que é óbvio, como a
luz do sol, como a pessoa que está sentado ao vosso lado; não têm que acreditar. Ao passo que a vossa crença em
Deus não é real. É uma esperança, uma ideia, uma ânsia preconcebida que pode nada ter a ver com a realidade. Se
não acreditarem, mas se se tornarem realmente conscientes dessa realidade na vossa vida, tal como têm consciência
da luz do sol, então toda a vossa conduta de vida seria diferente. Presentemente, a vossa crença nada tem a ver com
a vossa vida diária; portanto, para mim, quer acreditem em Deus quer não é irrelevante, (Aplausos) Por favor não se
incomodem em bater palmas. Há muitas perguntas para responder.
Portanto a vossa crença em Deus, ou a vossa descrença em Deus, para mim é a mesma coisa, porque não tem
realidade. Se estivessem realmente conscientes da verdade, como estão conscientes daquela flor, se estivessem
realmente conscientes dessa verdade como estão conscientes do ar fresco ou da falta desse ar fresco, então toda a
vossa vida, toda a vossa conduta, todo o vosso comportamento, os vossas próprios afectos, os vossos próprios
pensamentoss, seriam diferentes. Quer se denominem crentes ou descrentes, pela vossa conduta não o estão a
mostrar; portanto quer acreditem em Deus quer não acreditem é de muito pouca importância. É apenas uma ideia
superficial imposta pelas situações e pelo meio, através do medo, através da autoridade, através da imitação. Por
isso, quando dizem, “Acredita? É ateu?” eu não posso responder-lhes categoricamente; porque, para vocês, a crença
é muito mais importante que a realidade. Afirmo que há algo imenso, incomensurável, imperscrutável; há uma
inteligência suprema, mas não a podem descrever. Como podem descrever o sabor do sal se nunca o provaram? E
são as pessoas que nunca provaram sal, que nunca estão conscientes desta imensidade nas suas vidas, que começam
a perguntar se eu acredito ou se não acredito, porque a crença para elas é muito mais importante que essa realidade
que podem descobrir se viverem correctamente, se viverem verdadeiramente; e como não querem viver
verdadeiramente pensam que a crença em Deus é algo essencial para se ser verdadeiramente humano.
Portanto, ser um teísta ou um ateu, para mim, ambas as coisas são absurdas. Se soubessem o que é a verdade, o que
é Deus, não seriam nem teístas nem ateus, porque nessa consciência a crença é desnecessária. O homem que não
está consciente, que somente espera e supõe, é que conta com a crença ou com a descrença para o apoiar e para o
levar a agir de uma maneira específica.
Agora, se abordarem o assunto de maneira bastante diferente, descobrirão por vocês próprios, como indivíduos,
algo real que está para além de todas as limitações das crenças, para além da ilusão das palavras. Mas isso – a
descoberta da verdade, ou Deus – requer grande inteligência, que não é a afirmação da crença ou da descrença, mas
o reconhecimento dos obstáculos criados pela falta de inteligência. Portanto para descobrir Deus ou a verdade – e
eu digo que tal coisa existe, eu tive consciência dela – para reconhecer isso, para ter consciência disso, a mente tem
que estar livre de todos os obstáculos que foram criados através dos tempos, baseados na auto-protecção e na
segurança. Não podem libertar-se da segurança dizendo apenas que estão livres. Para penetrarem os muros desses

obstáculos, precisam de muita inteligência, não apenas de intelecto. A inteligência, para mim, é mente e coração em
plena harmonia; e então descobrirão por vocês próprios, sem perguntar a ninguém, o que é essa realidade.
Agora, o que está a acontecer no mundo? Têm um Deus Cristão, Deuses Hindus, Maometanos com o seu conceito
particular de Deus – cada pequena seita com a sua verdade particular; e todas estas verdades estão a tornar-se como
as muitas doenças no mundo, separando as pessoas. Estas verdades, nas mãos de minorias, estão a tornar-se meios
de exploração. Vocês vão a cada uma delas, uma após a outra, provando-as todas, porque começam a perder o
sentido de discriminação, porque estão a sofrer e querem um remédio, e aceitam qualquer remédio que seja
oferecido por qualquer seita, seja Cristã, Hindu, ou qualquer outra. Portanto, o que está a acontecer? Os vossos
deuses estão a dividi-los, as vossas crenças em Deus estão a dividi-los e contudo falam sobre a fraternidade do
homem, da unidade em Deus, e ao mesmo tempo negam precisamente aquilo que querem descobrir, porque se
mantêm fiéis a estas crenças como o meio mais potente de destruir a limitação, que apenas a intensificam.
Estas coisas são tão óbvias. Se forem Protestantes, têm horror aos Católicos Romanos; e se forem Católicos
Romanos, têm horror de todos os outros. Isto acontece em todo o lado, não só aqui. Na Índia, entre os Maometanos,
entre todas as seitas religiosas acontece isto; porque para todos, a crença – essa coisa cruel – é mais vital, mais
importante, que a descoberta da verdade, que é a verdadeira humanidade. Por isso, as pessoas que acreditam tanto
em Deus não estão realmente apaixonadas pela vida. Estão apaixonadas por uma crença, mas não pela vida, e por
isso os seus corações e mentes murcham e se tornam em nada, são vazios, superficiais.
Pergunta: Acredita na reencarnação?
Krishnamurti: Em primeiro lugar, não sei quantos de vocês são versados nesta ideia da reencarnação, explicarlhes-ei brevemente o que significa. Significa que para atingir a perfeição, têm que passar por uma série de vidas,
recolhendo cada vez mais experiência, cada vez mais conhecimento, até chegarem a essa realidade, a essa
perfeição. Sucinta e grosseiramente, sem entrar nas suas subtilezas, é isso a reencarnação: que vocês como o “eu”, a
entidade, o ego, tomem uma série de formas, vida após vida, até que sejam perfeitos.
Agora não vou responder se acredito nela ou não, uma vez que quero demonstrar que a reencarnação é irrelevante.
Não rejeitem imeditamente o que digo. O que é o ego? O que é esta consciência a que chamamos o “eu”? Dir-lhesei o que é, e por favor considerem-no; não o rejeitem. Vocês estão aqui para compreender o que estou a dizer, não
para criar barreiras entre vocês e eu pela vossa crença. O que é o “eu”, esse ponto focal a que chamamos o “eu”,
essa consciência da qual a mente se torna continuamente consciente? Isto é, quando é que estão conscientes do
“eu”? Quando estão conscientes de vocês próprios? Só quando estão frustrados, quando estão impedidos, quando há
uma resistência; caso contrário, são extremamente insconscientes do vosso pequeno ego como “eu”. Não é assim?
Estão realmente conscientes de vocês próprios quando há um conflito. Portanto, como nós não vivemos senão em
conflito, estamos conscientes dele a maior parte do tempo; e, por isso, existe essa consciência, essa ideia, que nasce
do “eu”. O “eu” nesse conflito não é nada mais que a consciência de si como uma forma com um nome, com
determinados preconceitos, com determinadas idiossincrasias, tendências, faculdades, ânsias, frustrações; e isto,
pensam vocês, deve continuar e crescer e atingir a perfeição. Como pode o conflito atingir a perfeição? Como pode
essa consciência limitada atingir a perfeição? Pode expandir-se, pode crescer, mas não será a perfeição, por maior
que seja, com tudo incluído, porque os seus alicerces são o conflito, os desentendimentos, os obstáculos. Portanto
dizem para vocês próprios, “Tenho que viver como uma entidade para além da morte, por isso tenho que voltar a
esta vida até que atinja a perfeição.”
Ora então, dirão, “Se eliminarmos esta ideia do “eu”, qual é o ponto focal na vida?” Espero que estejam a
acompanhar isto. Vocês dizem, “Eliminem, libertem a mente desta consciência de mim como um “eu”, e depois o
que resta?” O que permanece quando são extremamente felizes, criativos? Permanece a felicidade. Quando estão
realmente felizes, ou quando estão muito apaixonados, não há nenhum”eu”. Há esse tremendo sentimento de amor,
ou aquele êxtase. Afirmo que isto é o real. Todo o resto é falso.
Portanto vamos descobrir o que cria estes conflitos, estes obstáculos, este atrito contínuo, descubramos se é
artificial ou real. Se for real, se este atrito estiver destinado a ser o próprio processo da vida, então a consciência do

“eu” tem que ser real. Ora, eu afirmo que este atrito é uma coisa falsa, que não pode existir numa humanidade onde
há um planeamento bem organizado para as necessidades dos seres humanos, onde há verdadeiro afecto. Portanto
descubramos se o “eu” é a criação falsa de um meio falso, uma sociedade falsa, ou se o “eu” é algo permanente,
eterno. Para mim, esta consciência limitada não é eterna. É o resultado de um meio falso de cranças falsas. Se
estivessem a fazer o que realmente quissessem fazer na vida, não sendo forçados a fazer um determinado trabalho
que detestam, se estivessem a seguir a vossa verdadeira vocação, realizando-se na vossa verdadeira vocação, então
o trabalho deixaria de ser atrito. Para um pintor, um poeta, um escritor, um engenheiro, que realmente gosta do seu
trabalho, a vida não é um fardo.
Mas o vosso trabalho não é a vossa vocação. O meio e as condições sociais estão a forçá-los a fazer um certo
trabalho quer gostem dele quer não, portanto vocês criaram já um atrito. Depois, certos padrões morais, certas
autoridades estabeleceram vários ideais como sendo verdadeiros, como sendo falsos, como sendo virtuosos, etc., e
vocês aceitam-nos. Aceitaram esta máscara sem compreender, sem descobrir o seu correcto valor, e por isso criaram
atrito. Assim, gradualmente, toda a vossa mente é deformada e prevertida e está em conflito até que se tenham
tornado conscientes desse “eu” e de nada mais. Portanto, começam com uma causa errada, produzida por um meio
errado, e têm uma resposta errada.
Portanto quer a reencarnação exista ou não, para mim, é irrelevante. O que importa é realizar, que é perfeição. Não
podem realizar num futuro. A realização não é do tempo. A realização está no presente. Portanto o que é que está a
acontecer? Através do atrito, através do conflito contínuo, está a criar-se a memória, memória como o “eu” e o
“meu”, que se torna possessiva. Essa memória tem muitas camadas e constutui essa consciência a que chamamos o
“eu”. E eu afirmo que este “eu” é o resultado falso de um meio falso, e por isso os seus problemas, as suas soluções,
têm que ser inteiramente falsos, ilusórios. Ao passo que se vocês, como indivíduos, começarem a despertar para as
limitações do meio que lhes foram impostas pela sociedade, pelas religiões, pelas condições económicas, e
começarem a questionar, e por isso a criar conflito, então dissiparão essa pequena consciência a que chamam o
“eu”; então saberão o que é essa realização, esse viver criativo no presente.
Colocando as coisas de maneira diferente, muitos cientistas dizem que essa individualidade, essa consciência
limitada, existe depois da morte. Descobriram o ectoplasma e todo o resto, e dizem que a vida existe após a morte.
Terão que acompanhar isto com algum cuidado, como espero tenham acompanhado a outra parte; senão, não a
compreenderão. A individualidade, esta consciência, esta auto-consciência limitada, é um facto na vida. É um facto
na vossa vida, não é? É um facto, mas não tem realidade. Estão constantemente auto-conscientes, e isso é um facto,
mas conforme lhes demonstrei, não tem realidade. É apenas o hábito de séculos de um meio falso que fez um facto
de algo que não é real. E embora esse facto possa existir, e existe, enquanto isso continuar não pode haver
realização. E afirmo que a realização da perfeição não está na acumulação de virtudes, não está na postergação, mas
sim na completa harmonia de viver no presente. Senhores, suponham que agora têm fome e que eu lhes prometo
comida na próxima semana, que valor tem isto? Ou se perderam alguém que amam muito, mesmo embora lhes
possam dizer ou possam saber como sendo um facto que ele vive no outro lado, e daí? O que importa, e o que na
realidade acontece, é que há esse vazio, essa solidão no vosso coração e na vossa mente, esse imenso vácuo; e
pensam que podem afastar-se disso, fugir disso, com o conhecimento de que o vosso irmão, ou a vossa mulher, ou o
vosso marido, continua a viver. Continua a haver morte nessa consciência; continua a haver limitação nessa
consciência; continua a haver um vazio nessa consciência, uma contínua dor de sofrimento. Ao passo que se
libertarem a mente dessa consciência do “eu” descobrindo os valores correctos do meio que ninguém lhes pode
dizer, então conhecerão por vocês próprios essa realização que éá a verdade, que é Deus, ou qualquer outro nome
que gostem de lhe dar. Mas através do desenvolvimento dessa auto-consciência limitada, que é o resultado falso de
uma causa falsa, não descobrirão o que é a verdade, ou o que é Deus, o que é a felicidade, o que é a perfeição;
porque nessa auto-consciência tem que haver conflito contínuo, esforço contínuo, sofrimento contínuo.
Pergunta: O senhor é o Messias?
Krishnamurti: Isso importa muito? Sabem, esta é uma das perguntas que me colocam onde quer que eu vá: por
jornalistas para um artigo; pela audiência porque querem saber, uma vez que pensam que essa autoridade os
convencerá. Ora eu nunca neguei nem reivindiquei que sou o Messias, que sou o Cristo que voltou; isso não

importa. Ninguém lhes pode dizer isso. Mesmo que eu lhes dissesse, isso não teria absolutamente nenhum valor, e
portanto não lhes vou dizer, porque, para mim, isso é tão irrelevante, tão pouco importante, tão inútil. Afinal,
quando vêem uma maravilhosa peça de escultura, ou um quadro maravilhoso, há júbilo; mas receio que a maior
parte de vocês esteja interessada em quem pintou o quadro, que a maior parte de vocês esteja interessada em quem
é o escultor. Não estão realmente interessados na pureza da acção, seja num quadro ou numa estátua, ou no
pensamento; estão interessados em saber quem está a falar. Portanto isso indica que não têm a capacidade de
descobrir o mérito intrínseco de uma ideia, mas estão bastante preocupados com quem fala. E receio que esteja a
cultivar-se cada vez mais um snobismo, um snobismo espiritual, tal como há um snobismo mundano, mas todo o
snobismo é a mesma coisa.
Portanto, amigos, não se aborreçam, mas tentem descobrir se o que digo é verdade; e tentando descobrir se o que
digo é verdade, estarão livres de toda a autoridade, uma coisa perniciosa. Para os seres humanos realmente criativos
e inteligentes não pode haver autoridade. Para descobrir se o que digo é verdade, não o podem abordar pela mera
oposição, ou dizendo, “Disseram-nos isso”, “Foi dito”, “Certos livros dizem isto ou aquilo”, “Os nossos guias
espirituais disseram”. Sabem que isso é a coisa mais recente, “Os nossos guias espirituais disseram isto.” Não sei
porque dão mais importância a esses espíritos que estão mortos que aos vivos. Sabem que os vivos podem sempre
contradizê-los, por isso não lhes prestam atenção, ao passo que os espíritos podem sempre iludir.
Treinámos as nossas mentes, não para apreciar a coisa em si, mas antes para apreciar quem a criou, quem pintou,
quem falou. Assim as nossas mentes e corações tornam-se cada vez mais superficiais, vazios, e nisso não há nem
afecto nem pensamento real, razoável, mas apenas grande quantidade de preconceitos.
Pergunta: O que é a espiritualidade?
Krishnamurti: Eu digo que é o viver harmonioso. Agora esperem um momento. Explicarei o que quero dizer. Não
podem viver harmoniosamente se forem nacionalistas. Como podem fazê-lo? Se têm consciência de raças, ou
consciência de classes, como podem viver inteligentemente, supremamente, livres dessa consciência de classes? Ou
como podem viver harmoniosamente quando são possessivos, quando existe essa ideia de meu e teu? Ou como
podem viver inteligentemente, e por isso harmoniosamente, se estão limitados pelas crenças? Afinal, a crença á
apenas uma evasão do conflito presente. Um homem que está num imenso conflito com a vida, querendo
compreender, não tem crenças, está no processo de experimentação; ele não acredita categoricamente e depois
continua com a sua experiência. Um cientista não começa as suas experiências com uma crença, ele começa a
experimentar. E um homem que estiver limitado pela autoridade, social ou religiosa, certamente não pode viver
harmoniosamente, e por isso espiritualmente, inteligentemente. A autoridade, então, é apenas o processo de
imitação, de falsidade. Um homem que está cheio de pensamento está livre da autoridade, porque a autoridade
apenas o transforma numa máquina imitativa, numa peça de engrenagem – seja numa máquina social ou religiosa.
Por isso um homem assim pode viver harmoniosamente, e nessa harmonia a sua mente e o seu coração são normais,
sãos, plenos, completos, não sobrecarregados com medo.
Pergunta: O estudo da música, da arte em geral, é de valor para aquele que está desejoso de alcançar a realização
de que fala?
Krishnamurti: Quer dizer que vai ouvir música como se fosse obter algo em troca? A música não é de facto
mercadoria para ser vendida. Você vai lá para se divertir, não para ter algo em troca. Não é uma loja. Seguramente
que toda a nossa ideia da realização da verdade ou de viver extaticamente não é a acumulação de coisas, a
acumulação de ideias, a acumulação de sensações. Vocês vão ver um quadro, arquitectura – qualquer uma destas
coisas – porque sentem prazer nelas, não porque vão obter algo em troca. Essa é a verdadeira atitude materialista, a
atitude de troca, de comércio. Essa é a vossa abordagem da realidade, essa é a vossa abordagem de Deus. Dirigemse a Deus com orações, flores, confissões, sacrifícios, porque em troca vão obter qualquer coisa. Portanto os vossos
sacrifícios, orações, implorações, súplicas, não têm valor, porque estão à procura de algo em troca. É como o
homem que é amável porque lhe vão dar alguma coisa, e todo o processo da civilização está baseado nisso. O amor
é uma mercadoria a ser trocada. A espiritualidade, ou a realização da verdade, é algo que vocês procuram em troca
de fazer uma boa acção. Senhor, não é uma acção correcta quando procura algo em troca desse acto bondoso.

Pergunta: Se os sacerdotes e as igrejas, e organizações similares, estão a actuar com o homem no sentido de uma
primeira ajuda para aliviar os sintomas até que o Grande Médico chegue para tratar da causa, isso é errado?
Krishnamurti: Fazem portanto dos sacerdotes e das igrejas o ponto de passagem. É isso? Estão à espera que
alguém venha e lhes revele a causa? Estão a dizer, tanto quanto pude perceber, “Como há tantos sintomas, como
estamos a sofrer superficialmente, isto é, como estamos a lidar com os sintomas, é necessário ter sacerdotes e
igrejas.” É isso o que dizem? Reconhecem isso? Reconhecem e afirmam que as igrejas e os sacerdotes tratam
apenas dos sintomas? Se realmente admitem isso, então descobrirão a causa. Mas não o farão. Vocês não dizem que
os sacerdotes e as igrejas tratam superficialmente, sintomaticamente. Se realmente o dissessem e o sentissem, então
descobririam a causa por vocês próprios imediatamente; mas não o dizem. Dizem que os sacerdotes e as igrejas os
conduzirão para descobrir a causa, portanto a questão não está fielmente colocada. Para a grande maioria das
pessoas, praticamente para toda a gente, as igrejas e os sacerdotes ajudá-los-ão a dirigir-se à realidade da verdade.
Vocês não dizem que eles tratam dos sintomas. Se o fizessem, pô-los-iam de parte imediatamente, já amanhã. Quem
me dera que o fizessem! Então descobririam. Então ninguém precisaria de lhes dizer qual é a causa, porque
estariam a funcionar inteligentemente, porque estariam a começar a questionar, não a aceitar. Então tornar-se-iam
verdadeiros indivíduos, não máquinas conduzidas pelo meio e pelo medo. Então haveria mais consideração, mais
afecto, mais humanidade no mundo, não estas terríveis divisões.
Pergunta: Visto que a sociedade humana tem que ser cooperante e colectiva, que valor pode ter o indivíduo para o
seu sucesso? A liderança suprime a liberdade do indivíduo, e torna a sua singularidade sem valor.
Krishnamurti: “Visto que a sociedade humana tem que ser cooperante e colectiva, que valor pode ter o indivíduo
para o seu sucesso?” Ora descubramos se o indivíduo, ao tornar-se verdadeiramente individual, não cooperará. Isto
é, em vez de ser levado à cooperação tal como vocês o são pelas circunstâncias – não devia dizer levado à
cooperação, vocês não são cooperantes – em vez de serem levados pelas situações a agir por vocês próprios, o que
aliás não é verdade, à cooperação inteligente, é possível cooperar ao tornarem-se verdadeiros indivíduos? Eu digo
que é possível ao tornarem-se verdadeiramente indivíduos, que haverá cooperação verdadeira e natural, sem serem
levados pelas circunstâncias; vamos portanto investigar.
Afinal, vocês são indivíduos, funcionando com a vossa plena volição? Isso é, afinal, o verdadeiro indivíduo, não é?
– o homem que funciona com plena liberdade; caso contrário não são indivíduos, são apenas peças de engrenagem
que estão a ser conduzidas. Portanto posso dizer que só quando forem verdadeiramente indivíduos é que haverá
verdadeira cooperação. Agora, o que é um indivíduo? Não o ser humano que é conduzido à acção pelo meio, pelas
circunstâncias. Eu afirmo que a verdadeira individualidade consiste em libertar a mente do ambiente do falso, e
tornando-se portanto um verdadeiro indivíduo, e portanto tem que haver cooperação.
Por favor, já é tarde, e não posso entrar em detalhes, mas se estiverem interessados reflectirão sobre isto, e verão
que neste mundo, tal como está constituído, cada indivíduo luta com o seu próximo, procurando a sua própria
segurança, protecção, preservação. Não pode haver cooperação. É uma impossibilidade. Só pode haver uma
cooperação que é inteligente, humana, criativa, não egoísta, quando vocês como indivíduos, se tornarem indivíduos
completos. Isto é, quando virem que para ter verdadeira cooperação no mundo, não pode haver procura competitiva
de auto-segurança. Isso significa alterar toda a estrutura da nossa civilização, com os seus interesses próprios, com a
sua possessividade de classes, com as suas nacionalidades, consciência racial, divisão das pessoas pelas religiões.
Quando vocês, como indivíduos, forem realmente livres, quando virem o significado destas coisas e a sua falsidade,
então tornar-se-ão verdadeiramente indivíduos, e serão então capazes de cooperar inteligentemente; isso é
inevitável. O que nos separa é o nosso preconceito, a nossa falta de percepção dos valores correctos, de todos estes
obstáculos que nós, como indivíduos, criámos; e é somente como indivíduos que poderemos deitar abaixo este
sistema. Significa que não podem ter qualquer nacionalidade, que não podem ter o sentido de possessividade,
embora possam ter roupas, casas. Esse sentido de possessividade desaparece quando tiverem descoberto as vossas
necessidades reais, quando toda a vossa atitude não for a de uma consciência de classes possessiva. Quando cada
indivíduo se interessar no bem-estar da comunidade, então pode haver verdadeira cooperação. Agora não há
cooperação porque vocês estão apenas a ser conduzidos como carneiros, numa direcção ou noutra, pelas
circunstâncias, e os vossos líderes subjugam-nos porque vocês não são senão o meio de exploração, e são

explorados porque todo o vosso pensamento, toda a vossa estrutura é de auto-preservação à custa de todos os
outros. E eu afirmo que há verdadeira auto-preservação, verdadeira segurança, no plano do mundo como um todo,
quando vocês, como indivíduos, destruírem essas coisas que mantêm as pessoas separadas, lutando umas com as
outras em guerras contínuas que são o resultado das nacionalidades e dos governos soberanos. E asseguro-lhes que
não terão paz, não terão felicidade, enquanto essas coisas existirem. Elas apenas provocam cada vez mais
contendas, cada vez mais guerras, cada vez mais calamidades, dores e sofrimentos. Foram criadas por indivíduos, e
como indivíduos têm que começar a destruí-las e a libertarem-se delas, e só então compreenderão o êxtase da vida.

Auckland, Nova Zelândia, 3ª palestra nos jardins da Escola de Vasanta 2 de abril, 1934.
Amigos, esta manhã tentarei primeiro responder a algumas das perguntas, e depois tentarei fazer um resumo do que
tenho estado a dizer, no final das minhas respostas.
Pergunta: Para se descobrirem valores duradouros, é necessária a meditação, e, se assim for, qual é o método
correcto de meditação?
Krishnamurti: Pergunto-me o que é que as pessoas querem normalmente dizer com meditação. Tanto quanto posso
perceber, a assim chamada meditação que é apenas concentração, não é meditação nenhuma. Estamos habituados a
esta ideia de que concentrando-nos, fazendo um tremendo esforço para controlar a mente e fixá-la numa
determinada ideia ou conceito, em determinada figura ou imagem, focando a mente num ponto específico, estamos
a meditar.
Ora, o que acontece quando estão a tentar fazer isso? Estão a tentar concentrar a vossa mente numa determinada
ideia e a banir todas as outras ideias, todos os outros conceitos; estão a tentar fixar a mente nessa ideia, a forçar a
mente a limitar-se a isso, seja a um grande pensamento, a uma imagem, ou a um conceito que recolheram num
livro. O que acontece quando estão a fazer isso? Outras ideias se aproximam e vocês tentam bani-las, e assim se
mantém este conflito contínuo. As ideias deslizam para o que vocês não querem, na tentativa de fixar a vossa mente
numa determinada ideia. Estão apenas a criar conflito; a fazer com que a mente se torne mais pequena, a contrair a
mente, a forçar a mente a fixar-se numa determinada ideia; ao passo que, para mim, o regozijo da meditação
consiste, não em forçar a mente, mas em tentar descobrir o significado total de cada pensamento à medida que
surge. Como podem dizer qual é uma ideia melhor ou uma ideia pior, qual é nobre, e qual é ignóbil? Só o podem
dizer quando a mente tiver descoberto os verdadeiros valores das ideias. Portanto, para mim, o regozijo da
meditação consiste neste processo de descobrir o valor correcto de cada pensamento. Descobrem assim por um
processo natural o significado de cada pensamento, e em consequência libertam a mente deste conflito contínuo.
Suponham que estão a tentar concentrar-se numa ideia – pensam no que vão vestir, essa ideia chega à vossa mente,
ou em quem vão ver, ou no que vão almoçar. Completem cada pensamento, não tentem bani-lo; verão então que a
mente já não é um campo de batalha de ideias concorrentes. Assim a vossa meditação não se limita a algumas
horas, ou a alguns momentos durante o dia, mas é uma contínua vigilância da mente e do coração durante todo o
dia; e isso, para mim, é a verdadeira meditação. Há nisso paz. Há nisso uma alegria. Mas a chamada meditação que
vocês praticam como disciplina para obter algo em troca, é, para mim, uma coisa perniciosa, destrói realmente o
pensamento. Porque é que somos forçados a fazer isso? Porque é que nos forçamos a pensar concentradamente
durante alguns momentos durante o dia em coisas que pensamos que gostamos? Porque no resto do dia fazemos
algo que não gostamos, que não é agradável. Por isso dizemos, “Para encontrar, para pensar sobre algo que eu
goste, tenho que meditar.” Estão portanto a dar uma resposta falsa a uma causa falsa. Isto é, o meio – económico,
social, religioso – impede-os de fazer, de realizar aquilo que querem fazer; e como os impede, têm que encontrar
momentos, uma hora ou duas, na qual viver. Portanto, disciplinar a mente, forçá-la a um determinado padrão é,
então, necessário, e daí toda a ideia de disciplina. Ao passo que, se realmente compreendessem a limitação do meio,
e irrompessem por ele com acção, então este processo de disciplinar a mente para agir de uma certa maneira tornarse-ia completamente desnecessário.
Por favor, têm que reflectir sobre isto muito cuidadosamente se quiserem ver o significado de tudo isto; porque uma
mente disciplinada – não uma mente que é disciplinada para levar a cabo uma técnica – é uma mente que foi
treinada ao longo de um certo e determinado padrão, e esse padrão é o resultado de uma falsa sociedade, de falsas
ideias, de falsos conceitos. Ao passo que, se forem capazes de penetrar e ver quais são as coisas que são falsas,
então a mente deixará de ser um campo de batalha de ideias contraditórias; e nisso descobrirão que há verdadeira
contemplação. A alegria do pensamento está então desperta.
Pergunta: Qual é o estado de consciência de que fala? Poderia tratar disso um pouco mais a fundo?

Krishnamurti: Senhores, estamos habituados ao esforço contínuo para fazer qualquer coisa; pensar é fazer um
esforço tremendo. Estamos habituados a este esforço incessante. Agora, quero expor o que, para mim, não é um
esforço mas uma maneira de viver. Quando sabem que algo é um obstáculo, que algo é um veneno, quando todo o
vosso ser se torna consciente de algo que é venenoso, não há esforço para o rejeitar: já se afastaram dele. Quando
sabem que algo é perigoso, venenoso, e quando se tornam totalmente conscientes disso na vossa mente e no vosso
coração, já se libertaram disso. É somente quando não sabem que é veneno, ou quando esse veneno dá prazer e ao
mesmo tempo dor, que então brincamos com ele.
Ora, nós criámos muitos obstáculos, tais como o nacionalismo, o patriotismo, o seguimento imitativo da autoridade,
o submetimento às tradições, a procura contínua de conforto. Tudo isto nós criámos através do medo. Mas, se
soubermos com todo o nosso ser que o patriotismo é realmente uma coisa falsa, uma coisa venenosa, então não
terão que batalhar contra ele. Não têm que se livrar dele. No momento em que sabem que é uma coisa venenosa, ele
já desapareceu. Como vamos descobrir que é uma coisa venenosa? Não nos identificando nem com o patriotismo
nem com o anti-patriotismo. Isto é, vocês querem descobrir se o patriotismo é um veneno; mas se se identificarem
seja com o patriotismo seja com o sentimento de anti-patriotismo, então não podem descobrir o que é verdadeiro.
Não é assim? Querem descobrir se o patriotismo é um veneno. Por isso a primeira coisa é darem-se conta,
tornarem-se conscientes do facto de não-identificação com qualquer um deles. Assim, quando não estão a tentar
identificar-se seja com o patriotismo, seja com o sentimento contra o patriotismo, então começam a ver o
verdadeiro significado de patriotismo. Dão-se então conta do seu verdadeiro valor.
Afinal, o que é o patriotismo? Estou a tentar ajudá-los a darem-se conta agora deste veneno. Não significa que
tenham que aceitar ou rejeitar o que estou a dizer. Consideremos juntos, e vejamos se não é um veneno; e no
momento em que virem que é veneno, não precisam de lutar contra ele. Ele desapareceu. Se virem uma cobra
venenosa, afastam-se dela. Não lutam contra ela. Ao passo que, se não tiverem a certeza que é uma cobra venenosa,
então vão e brincam com ela. Do mesmo modo, tentemos descobrir sem aceitação ou oposição se o patriotismo é ou
não um veneno.
Em primeiro lugar, quando é que são patriotas? Não são patriotas todos os dias. Não mantêm o sentimento patriota.
Vocês estão a ser cuidadosamente treinados para o patriotismo nas escolas, através dos livros de história que dizem
que o vosso país derrotou um outro país, que o vosso país é melhor que qualquer um outro país. Porque é que tem
havido este treino da mente para o patriotismo, que, para mim, é uma coisa anti-natural? Não que não se aprecie a
beleza de um país talvez mais que a dos outros; mas essa apreciação nada tem a ver com patriotismo, é uma
apreciação de beleza. Por exemplo, há algumas partes do mundo onde não existe uma única árvore, onde o sol é
abrasadoramente quente; mas isso tem a sua própria beleza. Certamente que um homem que goste da sombra, da
dança das folhas, não é sem dúvida patriótico. O patriotismo tem sido cultivado, ensinado, como um meio de
exploração. Não é uma coisa instintiva no homem. Aquilo que é instintivo no homem é a apreciação da beleza, e
não dizer “o meu país”. Mas isso foi cultivado por aqueles que desejam procurar mercados estrangeiros para as suas
mercadorias. Isto é, se eu tenho os meios de produção nas minhas mãos, e saturei este país com os meus produtos, e
depois quero expandir-me, tenho que ir a outros países, tenho que conquistar os mercados em outros países. Por isso
tenho que ter meios de conquista. Portanto, digo “o nosso país”, e estimulo toda esta coisa através da imprensa, da
propaganda, da educação, dos livros de história, etc., este sentido de patriotismo, para que num momento de crise
todos saltemos para combater outro país. E é sobre este sentimento de patriotismo que os exploradores jogam até
que vocês sejam tão enganados que estejam prontos para combater pelo país, chamando bárbaros aos outros, e tudo
o mais.
Isto é uma coisa óbvia, não é invenção minha. Podem estudá-lo. É tão óbvio se o virem com uma mente imparcial,
com uma mente que não se quer identificar com um ou com outro, mas que tenta descobrir. O que acontece quando
descobrem que o patriotismo é realmente um obstáculo para a vida completa, plena, real? Não têm que batalhar
contra ele. Ele desapareceu completamente.
Comentário: Estaria contra a lei da nação.

Krishnamurti: A lei da nação! Porque não? Sem dúvida que se vocês estiverem livres do patriotismo e a lei da
nação interferir convosco, e os levar para a guerra e vocês não se sentirem patriotas, então podem tornar-se
objectores de consciência, ou ir para a prisão, e depois têm que combater a lei. A lei é feita pelos seres humanos, e
pode certamente ser infringida pelos seres humanos. (Aplauso) Por favor não se incomodem em bater palmas, é
uma perda de tempo.
Portanto o que é que está a acontecer? O patriotismo, seja do tipo ocidental, seja do tipo oriental, é o mesmo, um
veneno nos seres humanos que está realmente a distorcer o pensamento. Portanto o patriotismo é uma doença, e
quando se começarem a aperceber, a dar-se conta de que é uma doença, então verão como a vossa mente reage a
essa doença. Quando, em tempo de guerra, todo o mundo falar de patriotismo, vocês saberão a falsidade disso, e por
esse motivo agirão como um verdadeiro ser humano.
Da mesma maneira, por exemplo, que a crença é um obstáculo. Isto é, a mente não pode pensar completamente,
totalmente, se estiver amarrada a uma crença. É como um animal que está amarrado a um poste com uma corda.
Não importa que essa corda seja comprida ou curta; está amarrado, por isso não pode deambular plenamente,
livremente, extensivamente, completamente; só o pode fazer dentro do comprimento dessa corda. Por certo que essa
deambulação não é pensar: só se move dentro do círculo limitado de uma crença. Ora, a mente dos homens está
amarrada a uma crença, e por isso são incapazes de pensar. A maior parte das mentes identificaram-se com uma
crença, e por isso o seu pensamento está sempre circunscrito, limitado por essa crença ou ideal; daí a incompletude
do pensamento. As crenças separam as pessoas. Portanto se entenderem isso, se realmente reconhecerem com a
totalidade do vosso ser que a crença está a condicionar o pensamento, então o que acontece? Dão-se conta de que o
vosso pensamento está condicionado, dão-se conta que o vosso pensamento está aprisionado, amarrado a uma
crença. Na chama da consciência reconhecerão o disparate, e em consequência começam a libertar a mente do
condicionamento, e começam por isso a pensar completamente, integralmente.
Por favor experimentem isto, e verão que a vida não é um processo de batalha contínua, batalha contra os padrões
em oposição ao que querem fazer. Não haverá então nem o que querem fazer, nem o padrão, mas sim acção
correcta, sem identificação pessoal.
Peguem noutro exemplo. Têm medo do que o vosso vizinho possa dizer – um medo muito simples. Ora, não adianta
desenvolver o oposto, que é dizer, “Não me importo com o que o vizinho diz”, e fazer algo em reacção a essa
oposição. Mas se realmente se derem conta de porque é que têm medo do vizinho, então o medo cessa totalmente.
Para descobrir esse “porquê”, a sua causa, têm que estar plenamente conscientes nesse momento de medo, e então
verão o que é: têm medo de perder o emprego, podem não casar o vosso filho ou a vossa filha, querem ajustar-se à
sociedade, e todo o resto. Começam assim a descobrir através deste processo de vigilância da mente, desta
consciência contínua; e nessa chama se queima a escória dos falsos padrões. Então a vida não é uma batalha. Então
nada há para ser conquistado.
Podem não aceitar isto. Podem não aceitar o que estou a dizer, mas podem experimentar. Experimentam com estes
três exemplos que lhes dei, o medo, a crença, o patriotismo, e verão como a vossa mente está amarrada,
condicionada, e por isso a vida se torna um conflito. Onde a mente estiver escravizada, condicionada, tem que haver
conflito, tem que haver sofrimento. Porque, afinal, o pensamento é como as águas de um rio. Tem que estar em
contínuo movimento. A eternidade é esse movimento. Se vocês condicionarem esse fluxo livre do pensamento, da
mente e do coração, então têm que ter conflito, e esse conflito então tem que ter um remédio e começa então o
processo: a procura de remédios, os substitutos, e o nunca tentar descobrir a causa desse conflito. Portanto através
do processo de plena vigilância, vocês libertam a mente e o coração dos obstáculos que foram estabelecidos em seu
redor através do meio; e enquanto o meio estiver a condicionar a mente, enquanto a mente não tiver descoberto o
verdadeiro significado do meio, tem que haver conflito, e por isso a falsa resposta que é a auto-disciplina.
Pergunta: Quando se descobriu que cada método de evasão do presente resultou em superficialidade, que mais há
para se fazer?

Krishnamurti: Quando vocês descobrem que estão a evadir-se do conflito, que a vossa mente está a fugir através
dos remédios superficiais, querem saber o que fica. O que permanece? Inteligência, compreensão. Não é assim?
Suponham que têm um sofrimento qualquer, seja o sofrimento da morte, ou um sofrimento momentâneo de
qualquer tipo. Vocês fogem, quando há o sofrimento da morte, através desta crença na reencarnação, ou de que a
vida existe e continua do outro lado. Entrei em pormenores na noite passada, portanto não o farei aqui. Mas quando
reconhecem que é um escape, o que acontece? Então olham para o remédio para descobrir o seu significado, para
descobrir se tem algum valor; e no processo de descoberta, nasce a inteligência, a compreensão; e essa inteligência
suprema é a própria vida. Não querem nada mais. Ou suponham que tem um tipo qualquer de sofrimento
momentâneo, e querem fugir-lhe e tentam divertir-se, tentam esquecê-lo. Tentando esquecer, nunca compreenderão
a causa desse sofrimento. Então aumentam e multiplicam os meios de esquecimento, pode ser um cinema, uma
igreja, ou qualquer coisa. Portanto não se trata do que permanece após terem tentado fugir; mas na tentativa de
descobrir o valor dos escapes que criaram para vocês próprios, há verdadeira inteligência, e essa inteligência é
felicidade criativa, é realização.
Pergunta: Qual é a causa fundamental do medo?
Krishnamurti: Não é a auto-preservação a causa fundamental? A auto-preservação, com todas as suas subtilezas?
Por exemplo, vocês podem ter dinheiro, e por isso não se incomodam com a competição em arranjar um trabalho;
mas têm medo de qualquer outra coisa, medo que a vossa vida possa repentinamente chegar ao fim e de que possa
haver extinção, ou medo da perda de dinheiro. Portanto, se considerarem isso, verão que o medo existirá enquanto a
ideia de auto-preservação continuar, enquanto a mente se mantiver fiel a esta ideia de auto-consciência, ideia essa
que expliquei na noite passada. Enquanto essa consciência do ego permanecer, tem que haver medo; e essa é a
causa fundamental do medo. E também tentei explicar ontem à noite como esta consciência limitada a que
chamamos o “eu” é originada, como é criada através do meio falso, e a luta que é provocada por esse meio. Isto é,
tal como o sistema existe agora, têm que lutar por vocês próprios até para viver, portanto isso gera medo; e depois
tentamos encontrar remédios para nos livrarmos deste medo. Ao passo que, se realmente alterassem a situação que
gera este medo, então não haveria necessidade de remédios; então estariam a atacar a própria fonte, o próprio
criador do medo. Não conseguiremos conceber um estado em que não tenham que lutar pela vossa existência? Não
que não haja outros tipos de medo que trataremos pormenorizadamente mais tarde; mas é esta ideia da
nacionalidade, esta ideia da consciência racial, da consciência de classes, os meios de produção nas mãos de uma
minoria, e portanto o processo de exploração: é isto que os impede de viver naturalmente sem esta luta contínua
pela auto-preservação e segurança, que, afirmo, num estado inteligente é absurdo. Somos na realidade como
animais, embora nos intitulemos de civilizados, cada um lutando por si e pela sua família; e essa é uma das causas
fundamentais do medo. Se realmente compreenderem o meio e a batalha contra ele, então não se importam, e o
medo perde o seu controlo.
Mas há um medo de outro tipo, o medo da pobreza interior. Há o medo da pobreza exterior, e depois há o medo de
ser néscio, de estar vazio, de estar só. Assim, tendo medo, recorremos aos vários remédios na esperança de nos
enriquecermos. Entretanto, o que acontece realmente? Estão apenas a encobrir essa falsidade, essa superficialidade,
com inúmeros remédios. Pode ser o remédio da literatura, lendo muito – não que eu seja contra a leitura. Pode ser
este exagero do desporto, esta pressa contínua de não se separarem a todo o custo, de desenvolverem grande
actividade, de pertencerem a determinados grupos, a determinadas classes, a determinadas sociedades, de estarem
de conluio, entre o grupo dos espertalhões. Vocês sabem, todos nós passamos por isso. Tudo isto apenas mostra o
medo daquela solidão que inevitavelmente têm que enfrentar um dia ou outro. E enquanto esse vazio existir, essa
superficialidade, essa falsidade, esse vácuo, tem que haver medo.
Estar realmente livre desse medo, que é estar livre desse vazio, dessa superficilaidade, não é encobri-lo com
remédios; mas antes reconhecer essa superficialidade, darem-se conta dela, o que lhes confere então a vivacidade de
mente para descobrir os valores e os significados de cada experiência, de cada padrão, de cada meio. Através disso
descobrirão a verdadeira inteligência; e a inteligência é intensa, profunda, ilimitada, e em consequência a
superficilaidade desaparece. É quando tentam encobri-la, tentando ganhar algo para preencher esse vazio, que esse
vazio cresce cada vez mais. Mas, se souberem que estão vazios, não tentem fugir, porque nessa consciência a vossa
mente torna-se muito perspicaz, porque estão a sofrer. No momento em que estão conscientes de que estão vazios,

ocos, há um tremendo conflito que acontece. Nesse momento de conflito descobrem, à medida que prosseguem, o
significado da experiência – os padrões, os valores da sociedade, da religião, das condições que lhes são postas. Em
vez de encobrir o vazio, há uma profundidade de inteligência. Então nunca estarão sós mesmo que que estejam
sozinhos ou com uma grande multidão, então não hverá coisas dessas como vazio, superficialidade.
Pergunta: As pessoas agirão por instinto, ou alguém terá sempre que lhes apontar o caminho?
Krishnamurti: Ora bem, o instinto não é uma coisa em que se confie. É? Porque o instinto tem sido tão pervertido,
tão limitado pela tradição, pela autoridade, pelo meio, que já não podem confiar nele. Isto é, o instinto de
possessividade é uma coisa falsa, uma coisa anti-natural. Explicar-lhes-ei porquê. Foi criado por uma sociedade que
se baseia na segurança individual; e por isso o instinto de possessividade tem sido cuidadosamente cultivado através
das gerações. Dizemos, “Instintivamente sou possessivo. É da natureza humana ser possessivo”, mas se realmente o
examinarem, verão que ele tem sido cultivado por falsas situações, e por isso o instinto de possessividade não é um
instinto verdadeiro. Temos assim muitos instintos que têm sido falsamente encorajados, e se dependerem de alguém
para os fazer sair destes padrões instintivos falsos, irão então para uma outra jaula; criarão um outro conjunto de
padrões que novamentos os perverterão. Ao passo que, se realmente examinarem cada instinto e não tentarem
identificar-se com esse instinto, mas tentarem descobrir o seu significado, então daí advem uma acção natural
espontânea, a verdadeira intuição.
Sabem, têm estado aqui nas minhas palestras, feliz ou infelizmente, durante os últimos quatro ou cinco dias, e
apenas ouvir as minhas palestras não lhes vai fazer nada, não lhes vai dar sabedoria. O que dá sabedoria é a acção.
A sabedoria não é uma coisa que se compre, ou que se obtenha das enciclopédias, ou da leitura de filosofias. Eu
nunca li quaisquer filosofias. É somente no processo da acção que começam a discernir o que é falso e o que é
verdadeiro; e muito poucas pessoas estão alerta, ansiosas por acção. Preferem sentar-se e discutir, ou ir a igrejas,
criar mistérios do nada, porque as suas mentes são indolentes, preguiçosas, e por trás disso existe o medo de ir
contra a sociedade, contra a ordem estabelecida. Portanto escutar as minhas palestras, ou ler o que eu disse, não vai
despertar a inteligência nem conduzi-los à verdade, a esse êxtase da vida que está em contínuo movimento. O que
traz sabedoria é dar-se conta de um destes obstáculos, e agir. Peguem, conforme eu disse, no obstáculo do
patriotismo ou da crença, e comecem a agir, e verão até que profundidade de pensamento os levará. Vão muito mais
além do que qualquer teólogo teórico, do que qualquer filósofo; e nessa acção descobrirão que chega uma altura em
que não procuram um resultado da vossa acção, um fruto da vossa acção, mas a própria acção tem um significado.
Tal como um cientista experimenta, e no processo de experimentação há resultados mas ele continua a
experimentar, assim, da mesma maneira, no processo de experimentação, no processo de libertação da mente e do
coração dos obstáculos, acontecerá a acção, o resultado. Mas o essencial é que exista este movimento contínuo da
mente e do coração. Se toda a acção for realmente a expressão desse movimento, então a acção torna-se a nova
sociedade, o novo meio e em consequência a sociedade não se aproxima de um ideal, mas nessa acção, a sociedade
também se move, nunca fica estática, nunca fica quieta, e a moralidade é então a percepção voluntária, não forçada
pelo medo ou imposta externamente pela sociedade ou pela religião.
Assim, gradualmente, neste processo de libertar a mente do falso, não há substituição do falso pelo verdadeiro, mas
apenas o verdadeiro. Então vocês já não procuram uma substituição, mas no processo de descoberta do falso
libertam a mente para se mover, para viver eternamente, e então a acção torna-se uma coisa espontânea, natural, e
por isso a vida torna-se, não uma escola em que se aprende a competir, a lutar, mas uma coisa a ser vivida
inteligentemente, superiormente, com felicidade. E uma vida assim é a vida de um ser humano consumado.

Auckland, Nova Zelândia, palestra a homens de negócios 6 de abril, 1934.
Amigos, penso que a maior parte de nós acha que o mundo seria maravilhoso se não houvesse verdadeira
exploração, e que seria um mundo esplêndido se cada ser humano tivesse a capacidade de viver naturalmente,
plenamente e humanamente. Mas há muito poucos que querem fazer alguma coisa por isso. Como ideais, como
uma Utopia, como uma coisa de sonho, todos os acarinham, mas muito poucos desejam acção. Não podem
provocar uma Utopia nem pode haver a cessação da exploração sem acção.
Ora, só pode haver acção, acção colectiva, se houver em primeiro lugar cuidadosa consideração individual desse
problema. Cada ser humano, em momentos sensatos, sente o horror da verdadeira exploração, seja pelo sacerdote,
pelo homem de negócios, pelo médico, pelo político, ou por qualquer pessoa. Todos nós sentimos realmente, nos
nossos corações, a crueldade aterradora da exploração, se já tivermos pensado nisso um só instante. E contudo cada
um de nós é apanhado nesta roda, neste sistema de exploração, e esperamos e temos esperança que por algum
milagre nasça um novo sistema. E assim, individualmente, sentimos que apenas temos que esperar, deixar que as
coisas tomem o seu rumo natural, e que por algum meio extraordinário nasça um novo mundo. Sem dúvida que,
para criar uma coisa nova, um novo mundo, uma nova concepção de organização, os indivíduos têm que começar.
Isto é, os homens de negócios, ou alguém em particular, tem que começar a descobrir se a sua acção está realmente
baseada na exploração.
Agora, conforme disse, há a exploração do sacerdote baseada no medo, há a exploração do homem de negócios
baseada no seu próprio engrandecimento, acumulação de riqueza, avidez, formas subtis de egoísmo e segurança; e
como se supõe que todos vocês aqui sejam homens de negócios, certamente que não podem deixar de lado cada
problema humano e preocuparem-se integralmente com os negócios. Afinal, os homens de negócios são seres
humanos, e os seres humanos, enquanto forem explorados, têm que ter em si, continuamente, este espírito rebelde.
É somente quando atingem um determinado nível em que estão razoavelmente seguros que esquecem tudo sobre
esta situação, sobre mudar o mundo, ou ocasionar uma determinada atitude de acção espontânea perante a vida.
Porque atingimos um determinado estádio de segurança, esquecemos, e sentimos que tudo está bem; mas por trás
de tudo isso pode sentir-se que não pode haver felicidade, felicidade humana, enquanto existir realmente
exploração.
Ora, para mim, a exploração nasce quando os indivíduos procuram mais que as suas necessidades essenciais; e
descobrir as vossas necessidades essenciais requer muita inteligência, e não podem ser inteligentes enquanto as
vossas necessidades forem o resultado da procura de segurança, de conforto. Naturalmente, tem que se ter comida,
tecto, roupa, e tudo isso; mas para que isto seja possível para todos, os indivíduos têm que começar a compreender
as suas próprias necessidades, as necessidades que são humanas, e organizar todo o sistema de pensamento e acção
em consequência disso, e só então poderá haver verdadeira felicidade criativa no mundo.
Mas actualmente o que está a acontecer? Lutamos uns contra os outros durante todo o tempo, excluímo-nos uns aos
outros, há competição contínua em que cada um se sente inseguro, e todavia continuamos à deriva, sem tomar
providências definidas. Isto é, em vez de esperarmos que aconteça um milagre para alterar este sistema, é necessária
uma mudança completa e revolucionária, que cada um reconheça.
Embora possamos ter um ligeiro medo da palavra revolução, todos reconhecemos a imensa necessidade de uma
mudança. E contudo, individualmente, somos incapazes de a provocar porque, individualmente, não tomámos em
consideração, individualmente não tentámos descobrir porque deveria haver este contínuo processo de exploração.
Quando os indivíduos forem realmente inteligentes, criarão então uma organização que providenciará as
necessidades essenciais da humanidade, não baseada na exploração. Individualmente não podemos viver separados
da sociedade. A sociedade é o indivíduo e enquanto os indivíduos estiverem apenas a procurar continuamente a sua
própria auto-segurança, para eles próprios ou para a sua família, tem que existir um sistema de exploração.
E não pode haver felicidade no mundo se os indivíduos, como vocês, tratarem dos assuntos do mundo, dos assuntos
humanos, separados do negócio. Isto é, vocês não podem, se me permitem dizê-lo, estar nacionalistamente
inclinados, e contudo falar da liberdade do comércio. Não podem considerar a Nova Zelândia como o país mais

importante, e rejeitar depois todos os outros países, porque sentem, individualmente, a necessidade essencial da
vossa própria segurança. Isto é, senhores, se é que posso pôr as coisas desta maneira, só pode haver verdadeira
liberdade de comércio, desenvolvimento das indústrias, etc., quando não houver nacionalidades no mundo. Penso
que isso é óbvio. Enquanto houver barreiras alfandegárias protegendo cada país tem que haver guerras, confusão e
caos; mas se formos capazes de tratar todo o mundo, não como dividido em nacionalidades, em classes, mas como
uma entidade humana, não dividido por seitas religiosas, pela classe capitalista e pela classe trabalhadora, só nessa
altura haverá a possibilidade de verdadeira liberdade no comércio, na cooperação. Para originar isto não podem
apenas pregar ou assistir a reuniões. Não pode haver apenas o prazer intelectual destas ideias, tem que haver acção;
e para originar a acção temos que começar individualmente, muito embora possamos sofrer por isso. Temos que
começar a criar uma opinião inteligente e desse modo teremos um mundo onde a individualidade não é esmagada,
derrotada por um determinado padrão, mas que se torna um meio de expressão da vida; não a forma duramente
tratada e condicionada a que chamamos seres humanos. A maior parte das pessoas quer e compreende que tem que
haver uma mudança completa. Não vejo qualquer outra maneira que não seja começando como indivíduos, e então
essa opinião individual tornar-se-á a realização da humanidade.
Pergunta: Que significado inteligível, se é que posso perguntar, atribui à ideia de um Deus masculino como
postulado por praticamente todo o clero Cristão, e arbitrariamente imposto às massas durante a Idade Média e até
ao momento presente? Um Deus imaginado em termos de género masculino tem, por todos os cânones sãos e
razoáveis da lógica, que ser pensado, rezado, importunado e adorado em termos de personalidade. E um Deus
pessoal – pessoal como nós seres humanos necessariamente somos – tem que estar limitado no tempo, no espaço,
no poder e na finalidade, e um Deus tão limitado não pode ser um Deus. Precisamente em face desta colossal
imposição, arbitrariamente imposta às massas, é para admirar que encontremos o mundo na sua presente situação
catastrófica? Deus para ser Deus tem, numa realidade soberana e sensata, que ser a totalidade absoluta e infinita de
toda a existência, tanto negativa como positiva. Não é assim?
Krishnamurti: Senhor, porque quer saber se Deus é masculino ou feminino? Porque questionamos? Porque
tentamos descobrir se há um Deus, se é pessoal, se é masculino? Não será porque sentimos a insuficiência de viver?
Sentimos que se pudéssemos descobrir o que é esta imensa realidade, então poderíamos moldar as nossas vidas de
acordo com essa realidade; começamos assim a preconceber o que essa realidade tem que ser ou deve ser, e
moldamos essa realidade de acordo com as nossas fantasias e caprichos, de acordo com os nossos preconceitos e
temperamentos. Então começamos a edificar uma série de contradições e oposições, uma ideia do que pensamos
que Deus deveria ser; e, para mim, um Deus assim não é Deus nenhum. É um meio humano de evasão das
constantes batalhas da vida, desta coisa a que chamamos exploração, das inanidades da vida, da solidão, dos
sofrimentos. O nosso Deus é apenas um meio de escape destas coisas; ao passo que, para mim, há algo muito mais
fundamental, real. Eu afirmo que há algo como Deus; não nos interroguemos sobre o que é. Vocês descobrirão se
começarem realmente a compreender o próprio conflito que está a estropiar a mente e o coração: esta luta contínua
pela auto-segurança, este horror da exploração, as guerras e as nacionalidades, e os absurdos da religião organizada.
Se os enfrentarmos e os compreendermos, então descobriremos o verdadeiro significado em vez de especular; o
verdadeiro significado da vida, o verdadeiro significado de Deus.
Pergunta: Segue Maomé, ou Cristo?
Krishnamurti: Posso perguntar porque é que alguém deve seguir outro? Afinal, a verdade ou Deus não se encontra
imitando outro: nessa altura tornar-nos-emos apenas máquinas. Precisamos de facto, nós, como seres humanos, de
pertencer a qualquer seita, seja o Maometismo, o Cristianismo, o Hinduísmo ou o Budismo? Se instituírem uma
pessoa como vosso Salvador, como vosso guia, então tem que haver exploração; tem que haver uma modelação do
mundo a uma determinada seita tacanha. Ao passo que, se realmente não instituirmos ninguém como autoridade,
mas descobrirmos o que eles dizem, o que qualquer ser humano diz, então compreenderemos algo que é duradouro;
mas apenas seguir outro não nos levará a lado nenhum. Presumo que sejam todos Cristãos, e que dizem que seguem
Cristo. Seguem-no? Os seres humanos, quer pertençam ao Cristianismo ou ao Maometismo ou ao Budismo, seguem
realmente os seus líderes? É impossível. Não o fazem. Portanto porquê chamarem a si próprios nomes diferentes e
separarem-se? Ao passo que, se tivéssemos realmente alterado o meio em que nos tornámos assim escravos, nessa
altura seríamos realmente Deuses em nós mesmos, não seguiríamos ninguém. Pessoalmente, não pertenço a

nenhuma seita, grande ou pequena. Encontrei a verdade, Deus, ou que lhe quiserem chamar, mas não a posso
transmitir a outro. Apenas se pode descobrir através da inteligência consumada, e não através da imitação de certos
princípios, crenças ou personagens.
Pergunta: Existe uma força ou influência exterior conhecida como o mal organizado?
Krishnamurti: Existe? O homem de negócios moderno, o nacionalista, o seguidor da religião – eu chamo males a
estas pessoas, males organizados; porque, senhores, criámos individualmente estes horrores no mundo. Como
nasceram as religiões com o seu poder de explorar implacavelmente as pessoas através do medo? Como se
tornaram nestas formidáveis máquinas? Nós criámo-las individualmente através do nosso medo da outra vida. Não
que não haja outra vida: isso é uma coisa totalmente diferente. Nós criamos essa máquina e estamos aprisionados
nela; e são apenas muito poucos aqueles que se afastam, e a essas pessoas vocês chamam Cristo, Buda, Lenin, ou
X, Y, Z.
Depois há o mal da sociedade como ela é. É uma máquina organizada e opressiva para controlar os seres humanos.
Vocês pensam que se os seres humanos forem libertados tornar-se-ão perigosos, que farão toda a espécie de
horrores; portanto dizem, “Vamos controlá-los socialmente, pela tradição, pela opinião, pela limitação da
moralidade”; e é a mesma coisa economicamente. Assim gradualmente estes males tornam-se aceites como coisas
normais e saudáveis. De facto, é óbvio como através da educação somos compelidos a integrar-nos num sistema em
que nunca se pensa na vocação individual. Vocês são forçados a integrar-se nalgum trabalho; e assim criamos uma
vida dupla, durante todas as nossas vidas, essa do negócio das 10 às 5, ou lá o que é, que nada tem a ver com a
outra, a nossa vida privada, social, caseira. Portanto estamos continuamente a viver em contradição, indo
ocasionalmente, se estiverem interessados, à igreja, para manter a moda, o espectáculo. Investigamos a realidade,
Deus, quando há momentos de conflito, momentos de opressão, momentos em que há uma catástrofe. Dizemos,
“Tem que haver uma realidade. Porque vivemos?” Criamos assim gradualmente nas nossas vidas uma dualidade, e
por isso nos tornamos tão hipócritas.
Portanto, para mim, existe um mal. É o mal da exploração engendrado pelos indivíduos através da sua ânsia de
segurança, de auto-preservação a qualquer custo, independentemente de todos os seres humanos; e não há nisso
afecto, não há verdadeiro amor, mas apenas esta possessividade que classificamos como amor.
Pergunta: Pode dizer-nos como chegou a este grau de compreensão?
Krishnamurti: Receio que fosse demorar muito tempo, e pode ser muito pessoal. Em primeiro lugar, Senhores, eu
não sou um filósofo, não sou um estudante de filosofia. Penso que aquele que seja apenas estudante de filosofia está
já morto. Mas vivi com toda o género de pessoas, e fui criado, como talvez saibam, para levar a cabo uma certa
função, um certo cargo. Mais uma vez, isso significa “explorador”. E era também o dirigente de uma enorme
organização em todo o mundo, para fins espirituais; e vi a falácia disso, porque não se pode conduzir os homens à
verdade. Só se pode torná-los inteligentes através da educação, o que nada tem a ver com sacerdotes e os seus
meios de exploração – as cerimónias. Portanto dissolvi essa organização; e, vivendo com as pessoas, e não tendo
uma ideia fixa sobre a vida, ou uma mente limitada por um determinado contexto tradicional, comecei a descobrir o
que, para mim, é a verdade: verdade para toda a gente – uma vida que se pode viver saudavelmente, sensatamente,
humanamente, não baseada na exploração, mas nas necessidades. Sei o que preciso, e que não é muito, portanto
quer trabalhe para elas escavando um jardim, ou falando, ou escrevendo, isso não é de muita importância.
Em primeiro lugar, para descobrir qualquer coisa, tem que haver um grande descontentamento, um grande
questionamento, infelicidade; e muito poucas pessoas no mundo, quando estão descontentes, desejam acentuar esse
descontentamento, desejam passar por ele para descobrir. Geralmente as pessoas querem o oposto. Se estão
descontentes, querem felicidade, ao passo que, por mim – se me permitem ser pessoal – eu não queria o oposto, eu
queria descobrir; e assim gradualmente através de vários questionamentos e através de um atrito contínuo, cheguei
a compreender isso a que se chama a verdade ou Deus. Espero ter respondido à pergunta.
Pergunta: Diga-nos algo sobre a sua ideia sobre a outra vida.

Krishnamurti: É extraordinário! Supõe-se que isto seja uma reunião para pessoas de negócios, e estamos a falar
sobre a outra vida, Deus, e tudo o mais. Isso indica que não estamos nada interessados nos nossos negócios;
estamos interessados neles apenas como um meio de obter dinheiro para existir; e os nossos interesses humanos
estão separados da nossa vida quotidiana.
Ora bem, com respeito ao que reside na outra vida, talvez tenham lido o que alguns dos maiores cientistas na
Europa dizem: que há uma continuação após a morte. Alguns deles sustentam que há uma continuação individual,
outros com igual ênfase negam-no. É bastante óbvio que existe uma espécie qualquer de continuação, seja a forma
de pensamento da entidade que morre, seja a expressão do pensamento do mundo, etc.
Agora, vamos descobrir, investigar sobre o que chamamos individualidade. Quando fazemos a pergunta, “Existe
uma outra vida?” porque a fazemos? Porque querem saber se continuam como o Sr. X quando morrem; ou querem
saber porque amam muito alguém, e essa pessoa morreu. Portanto vamos descobrir o que é esta coisa a que
chamamos individualidade – isto é, o meu irmão, a minha mulher, o meu filho, ou eu: o que é? Quando falam do Sr.
X, o que é esse Sr. X? Não é uma forma, um nome, determinados preconceitos, uma determinada conta bancária,
determinadas distinções de classe? Isto é, o Sr. X tornou-se o ponto focal deste estado da sociedade.
Espero estar a explicar isto. Colocarei a questão desta maneira. Um indivíduo comum presentemente, tal como é,
nada mais é que o ponto focal do meio, da sociedade, da religião, dos edictos morais e das condições económicas –
como indivíduo comum, é isso que ele é. Não é assim? Esse ponto focal, com as suas contradições, preconceitos,
esperanças, ânsias, medos, gostos e antipatias, constitui esse fardo a que chamamos indivíduo, tal como o Sr. X.
Agora, queremos saber se esse Sr. X viverá na outra vida. Há a possibilidade que ele possa viver, e que viva agora.
Esperem um momento. Isso não tem importância, pois não? Porque o que chamamos indivíduos nada mais são que
o resultado de um meio falso. Este ponto focal do presente estado de individualidade é na realidade falso, não é?
Um homem comum tem que lutar neste mundo para poder viver. Tem que ser competitivo, implacável, e tem que
pertencer a certas classes sociais, Burguesia, Proletariado, Capitalismo; ou pertence a determinadas seitas religiosas
chamadas por vários nomes, Cristianismo, Hinduísmo, Budismo, etc. De facto estes meios são falsos quando tenho
que lutar implacavelmente com o meu próximo para poder viver. Não há qualquer coisa podre num tal estado? Não
há qualquer coisa anormal ao dividirmo-nos em classes? Não há qualquer coisa de rude quando nos autodenominamos Cristão, Hindus, Maometanos ou Budistas? Assim estes meios falsos criam atrito na mente, e a mente
identifica-se como o Sr. X. E então surge a questão, “O que acontece? Viverei, ou não viverei?” Conformo digo, há
uma possibilidade que eles possam viver; mas nesse viver não há felicidade, inteligência criativa, alegria na vida; é
uma batalha contínua. Ao passo que, se compreendermos o verdadeiro significado de todos estes meios colocados
na mente – religioso, social, económico – libertando por isso a mente do conflito, descobriremos que há uma
unidade focal diferente, uma individualidade totalmente diferente; e eu afirmo que essa individualidade é contínua;
não é vossa e minha. Essa individualidade é a expressão eterna da vida em si, e nela não há morte, não há princípio
nem fim; há nela uma mais ampla concepção de vida. Ao passo que, nesta falsa individualidade tem que haver
morte, tem que haver a contínua interrogação de se viverei ou não viverei. Este medo é contínuo, obsessivo,
perseguidor.
Pergunta: Acha que os sistemas sociais do mundo evolucionarão para um estado de fraternidade internacional, ou
ela será ocasionada através de instituições parlamentares, ou pela educação?
Krishnamurti: Tal como a sociedade está organizada, não conseguem ter fraternidade internacional. Não podem
continuam a ser Novo Zelandeses, e eu um Hindu, e falar sobre fraternidade. Como pode haver realmente
fraternidade, se estão restringidos por situações económicas, por este patriotismo que é uma coisa tão falsa? Isto é,
como pode haver fraternidade se vocês continuam a ser Novo Zelandeses, agarrando-se aos vossos preconceitos
específicos, às vossas barreiras alfandegárias, patriotismo, e todo o resto; e eu um Hindu a viver na Índia, com os
meus preconceitos? Podemos falar de tolerância, deixar-nos em paz uns aos outros, ou eu mandar-lhes missionários
e vocês mandarem-me missionários, mas não pode haver fraternidade. Como pode haver fraternidade quando vocês
são Cristãos e eu sou Hindu, quando vocês são dominados pelos sacerdotes e eu sou também dominado pelos
sacerdotes de um modo diferente, quando vocês têm uma forma de adoração e eu tenho outra? – o que não significa
que vocês tenham que chegar à minha forma de adoração ou que eu tenha que chegar à vossa.

Portanto, tal como estão as coisas, elas não resultarão em fraternidade. Pelo contrário, há o nacionalismo, mais
governos soberanos, que não são senão os instrumentos da guerra. Portanto, tal como existem, as instituições
sociais não podem evolucionar para uma coisa magnífica, porque as suas próprias bases, a sua fundação está errada;
e os vossos parlamentos, a vossa educação baseada nestas ideias, não ocasionará a fraternidade. Olhem para todas
as nossas nações. O que são elas? Nada senão instrumentos de guerra. Cada país é melhor que o outro, cada país a
bater o outro, inflamando esta falsa coisa chamada patriotismo. Por favor, vocês gostam de determinados países,
determinados países são mais bonitos que outros, e vocês apreciam-nos. Desfrutam da beleza tal como desfrutam de
um pôr-do-sol, seja aqui, na Europa ou na América. Nada há de nacionalista, nem de sentimento patriótico por trás
disso – vocês desfrutam-na. O patriotismo só chega quando as pessoas começam a usar o vosso prazer para um
objectivo. E como pode haver verdadeira fraternidade, através do patriotismo, quando todas as formas de governo
se baseiam na distinção de classes, quando uma classe que tem tudo governa a outra que nada tem, ou envia
representantes que nada têm para o parlamento? Sem dúvida que esta abordagem ao estado humano, à unidade
humana é impossível. É tão óbvio, que nem necessita de discussão.
Enquanto houver distinções de classe desenvolvendo-se em nacionalidades, baseadas na exploração pela classe
possessiva, ou pela classe que tem os meios de produção nas mãos, tem que haver guerras; e através das guerras não
vão obter fraternidade. Isso é óbvio. Podem ver isso na Europa desde a Guerra: maior sentimento nacional, mais
patriotismo fanático, barreiras alfandegárias mais fortes. Isso, por certo, não vai gerar fraternidade. Pode gerar
fraternidade no sentido de que haverá uma grande catástrofe e as pessoas despertarão e dirão, “Por amor de Deus,
despertemos e sejamos sensatos.” Isso eventualmente poderá gerar fraternidade; mas as nacionalidades não gerarão
fraternidade, não mais que as distinções religiosas, que estão realmente, se chegarem a reflectir sobre isso, baseadas
em refinado egoísmo. Todos queremos estar seguros no céu – seja lá o que for esse lugar – protegidos, seguros,
certos, e portanto criamos instituições, organizações, para produzir a certeza, e chamamos-lhes religiões,
aumentando assim a exploração. Ao passo que, se realmente virmos a falsidade de todas estas coisas, não só
percebendo-as intelectualmente mas realmente sentindo-as completamente com a nossa mente e coração, então há
uma possibilidade de fraternidade. Se o percebermos, então há um acto voluntário, verdadeiro, moral. Quando
percebemos uma coisa completamente e agimos, chamo a isso um verdadeiro acto moral, e não quando somos
forçados pela circunstâncias, ou quando se provoca uma fraternidade forçada pela completa e brutal necessidade da
vida. Isto é, quando as pessoas de negócios, o capitalista, os financeiros, começarem a ver que esta distinção não
compensa, que não podem fazer mais dinheiro, que não podem estar na mesma posição, então produzirão um meio
forçando o indivíduo a tornar-se fraterno; tal como agora somos forçados pelo meio a não ser fraternos, a explorar,
assim serão também forçados a cooperar. Por certo que isso não é fraternidade; é apenas uma acção provocada pela
conveniência, sem inteligência e compreensão humanas.
Assim, para realmente trazer a inteligência humana à acção, os indivíduos têm que agir moralmente e
voluntariamente e então criarão uma organização na qual serão verdadeiros lutadores contra a exploração. Mas isso
requer muita percepção, muita acção inteligente, e só podem começar por vocês mesmos; só podem cuidar do vosso
próprio jardim, não podem olhar pelo do vosso vizinho.
Pergunta: Por favor seja franco. Podemos conhecer a verdade tal como a conhece, parar de explorar, e ainda
continuar com o negócio, ou sugere que o vendámos? Poderia entrar para o comércio e permanecer tal como é?
Krishnamurti: Senhor, por favor, não estou a esquivar-me do problema. Serei perfeitamente franco. Tal como o
sistema está organizado, a menos que se retirem para uma ilha deserta onde cozinhem e façam tudo sozinhos, tem
que haver exploração. Não é assim? É óbvio. Enquanto o sistema estiver baseado na competição individual, na
segurança, na possessividade, como seus alicerces, tem que haver exploração. Mas não se podem libertar desses
alicerces porque não têm medo, porque descobriram quais são as vossas necessidades essenciais, porque são ricos
em vocês mesmos? Assim, embora permaneçam no negócio, descobrem que as vossas necessidades são muito
poucas; ao passo que, se houver pobreza de mente e coração, as vossas necessidades tornam-se colossais. Mas de
novo, a menos que se seja realmente honesto, absolutamente franco, e não se engane subtilmente a si próprio, o que
eu disse pode ser usado para explorar mais. Não me importaria pessoalmente de entrar para o negócio, mas para
mim não teria valor, porque não tenho necessidade de entrar para o negócio. Por isso, de que adiantaria falar
teoricamente? Não que tenha dinheiro; mas faria qualquer coisa razoável, sensata, porque as minhas necessidades

são muito poucas, e não tenho medo de ser destruído. É quando há o medo de perder – o medo da perda de
segurança, preservação – que lutamos. Mas se estiverem preparados para perder tudo porque nada têm – bem, não
há exploração. Isto soa ridículo, absurdo, selvagem, primitivo, mas se realmente pensarem nisso sensatamente, se
lhe concederem alguns minutos do vosso pensamento criativo, verão que não é tão absurdo quanto isso. É o
selvagem quem está continuamente às ordens das suas necessidades, não o homem de inteligência. Ele não se apega
às coisas, porque interiormente ele é extremamente rico; por isso as suas necessidades externas são muito poucas.
Sem dúvida que podemos organizar uma sociedade que se baseie em necessidades, não nesta exploração através da
publicidade. Espero ter respondido à sua pergunta, senhor.
Pergunta: Sem desejar explorar o orador, eu considero-o como um dos maiores de todos os exemplificadores do
altruísmo filosófico, mas gostaria muito que ele dissesse aqui à sua audiência esta tarde que crença tem ele no
derradeiro milénio, que sem dúvida ele e toda a raça humana procuram.
Krishnamurti: Senhor, ter um milénio perfeito significa que o selvagem tem de ser tão inteligente como qualquer
outra pessoa, tem que ter condições tão perfeitas como outra pessoa qualquer. Isto é, todos os seres humanos a viver
no mundo num preciso momento, ao mesmo tempo, têm que ser todos felizes. Certamente que esse é o derradeiro
milénio, não é? Isso é o que queremos dizer quando falamos sobre ele. Muito bem, senhor. Espere um momento. É
possível tal coisa? Por certo que não é possível. Nós pensamos que o milénio é um momento em o ideal nasceu,
quando a civilização atingiu o seu mais alto pináculo. É como um ser humano que molda a sua vida a um
determinado ideal, e atinge o auge. O que acontece a um ser humano assim? Ele quer uma outra coisa, há um ideal
posterior. Por isso, ele nunca alcança a culminação. Mas quando um ser humano vive, não tentando alcançar, não
tentando ser bem sucedido, não tentando atingir o auge, mas vive plenamente, humanamente, durante todo o tempo,
então a sua acção, que tem que se reflectir na sociedade, não atingirá um pináculo. Estará constantemente em
movimento, e por isso continuamente a crescer, e não a procurar arduamente uma culminação.