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Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo - SP – 05 a 09/09/2016

Sharon Needles como tensionamento disciplinar:
Uma análise de RuPaul's Drag Race a partir da ótica de Michel Foucault 1
Lívia PEREIRA2 / Maddie Killa
Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, PB
Thiago SOARES3
Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE

Resumo
A partir de um debate em torno dos sistemas disciplinadores e do corpo dócil propostos por
Michel Foucault (2014), este paper debate o reality show “Ru Paul's Drag Race” (2009, Logo
TV) como um sistema disciplinante dentro da cultura drag. Postula-se que o formato do
programa consagra determinadas formas culturais hegemônicas dentro da cultura drag, sem
também apontar contradições dentro destas identidades. Verticalizamos o debate ao
analisarmos a performance da drag Sharon Needles, que a partir de um conjunto de
referências performáticas e tensivas (nazismo, black face) politiza seu corpo e aciona uma
reflexão em torno dos acionamentos de rupturas nos sistemas disciplinares.
Palavras-chave: RuPaul’s Drag Race; corpos dóceis; drag queen; cultura pop; Michel
Foucault.

Disciplinar é o ato de controlar, instruir e moldar algo ou alguém, geralmente ligado
a moral e costumes. No campo militar, a disciplina é a observância do cumprimento das
regras e ordenamentos da profissão. O que torna um soldado um bom soldado é o quão
adestrado seu corpo está dentro do sistema, o quão “dócil” ele é às instâncias superiores. Ser
um soldado, entretanto, só era considerado natural ou orgânico até meados do século XVIII,
quando se torna algo fabricado (FOUCAULT, 2014); a disciplina se torna uma condição
produzida e fabricada pela vigilância e, em caso de não obediência às regras, punição. Ainda
militarmente falando, o soldado possui um tempo de adequação, onde é submetido a
constantes provas para que, ao final do treinamento, seja útil ao sistema que está inserido e
aproveitado. Caso contrário, é mais um corpo indisciplinar e descartável.
Na tentativa de fazer um paralelo entre o sistema militar de fabricação de corpos
úteis e a sociedade civil, buscamos neste artigo aporte teórico em Michel Foucault (2014), ao

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Trabalho apresentado na Divisão Temática de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, da Intercom Júnior – XII Jornada
de Iniciação Científica em Comunicação, evento componente do XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.
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Estudante de Graduação 8º. semestre do Curso de Jornalismo da UFPB, email: liviamariadp@gmail.com

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Orientador do trabalho. Professor do Curso de Jornalismo da UFPE, email: thikos@gmail.com
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SP – 05 a 09/09/2016 contar por meio de estudos historiográficos e documentais a história dos corpos. os corpos dóceis são corpos que tiveram suas forças aumentadas (treinadas) para utilidades 2 . 167). podemos reconhecer que reality shows. “mas para que operem como se quer. Historicamente a sexualidade foi sempre alvo de constante vigilância e repressão quando expressada de forma desviante às normas sociais. parecem operacionalizar sob a égide da consagração e também da punição por determinadas condutas. costura. sobrar três participantes que compõe o “TOP 3” e irão à grande final do programa. Usualmente. o exame. corpos ‘dóceis’. o poder disciplinar produz corpos não apenas para que se faça o que se quer. parece trabalhar sob a lógica da vigilância e punição em torno dos corpos disciplinados. Um dos campos de produção de saber e conhecimento corporal e performático mais evidente dentro das lógicas e normas sociais é a sexualidade. que podem ser inclusivas ou excludentes. recai sobre “RuPaul’s Drag Race”. ao final da temporada. adequação e punição para pensarmos um atrativo de entretenimento televisivo que. Diante das dinâmicas sociais. percebemos que somos constantemente condicionados a nos portar de maneiras. a sanção normalizadora e sua combinação num procedimento que lhe é específico. um reality show norte-americano que estreou em 2009 no canal de TV à cabo Logo TV. O objeto de análise neste artigo. a depender dos contextos e situações comunicacionais. dança. talento e personalidade. mas podem tornar o sujeito vigilante de suas próprias atitudes. numa primeira hipótese desenhada neste trabalho. p. Num primeiro olhar. 135).” Desta forma. suas formas de dominação. Se verticalizarmos e observarmos mais atentamente “Ru Paul's Drags Race” observaremos singularidades desta narrativa que debateremos ao longo deste texto. portanto. sugerindo normas e premissas que. lógicas performáticas que fazem parte de um quadro que Ervin Goffman já apontou como uma espécie de “invenção do eu na vida cotidiana”. o programa se manteve com a mesma fórmula: semanalmente. segundo a rapidez e a eficácia que se determina. p. revelam afastamentos e desvios de sujeitos dentro de aparatos sociais. As punições não aparecem (sempre) de forma física. a disciplina se torna um poder que carece de três instrumentos: “o olhar hierárquico. Para Foucault (2014. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados. O programa seleciona artistas drag queen para competir pelo título da próxima “drag superstar” dos Estados Unidos. de “ser algo” ou “existir” de alguma forma que se encaixe em padrões. onde são testadas suas habilidades em canto.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo . humor. Estes ditames performáticos conduzem ações sociais.” Segundo o autor (2014. com as técnicas. a cada episódio uma drag é eliminada para. Durante as nove temporadas. as competidoras participam de desafios orientadas por RuPaul. em sentido amplo.

11). 2009). uma característica particular da modernidade é o que Hall chama de “forma altamente reflexiva de vida”. são o que podemos chamar de disciplinas. se faz necessário entender como se dá a (des)construção das identidades pós-modernas. p. mas ao mesmo tempo diminuídas nas questões políticas de obediência. Como aponta Hall (2006). [.] As disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos XVII e XVIII fórmulas gerais de dominação. Para Foucault os métodos disciplinares permitem o controle minucioso das operações do corpo. RuPaul’s Drag Race (LOGO TV. entra em colapso como consequência das mudanças “estruturais e institucionais” as quais Hall (2006) se refere. a partir de então.SP – 05 a 09/09/2016 econômicas. O sujeito cultural inscrito nessa 4 Para Martel (2012. 38. APONTAMENTOS SOBRE IDENTIDADES E GÊNERO NA PÓS-MODERNIDADE Para entender como é possível larga audiência de um reality show sobre a drag queens no cenário da cultura atual..Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo . p. (FOUCAULT.] Têm como fim principal um aumento do domínio de cada um sobre seu próprio corpo.. que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidadeutilidade. Diferentes da escravidão. tradução nossa) Essas transformações ocorridas no contexto social produz o sujeito pós-moderno. que já tendo vivido uma identidade estável. é até a elegância da disciplina dispensar essa relação custosa e violenta obtendo efeitos de utilidade pelo menos igualmente grandes. Num primeiro momento.. mais aberto para a diferença dentro de um contexto mais amplo e a produção de drag queens que são úteis (e higienizadas) para se tornarem produtos de consumo aceitáveis dentro da cultura pop mainstream4. com amparo em textos de Marx e Engels (1973). 2014. Além disso. mainstream é “a produção de bens culturais criados sob a égide do capitalismo tardio e cognitivo que ocupa lugar de destaque dentro dos circuitos de consumo midiático”. 3 . 135) O debate que aqui propomos se direciona para a reflexão em torno de um reality show televisivo que substancialmente agendou a “cultura drag” de maneira midiática.” (GIDDENS. 1990.. pois não se fundamentam numa relação de apropriação dos corpos. a descentração do sujeito e sua fluidez entre gênero e sexualidade. onde “as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz das informações recebidas sobre estas mesmas práticas. debateremos a questão das identidades pós-modernas como atenuações de um discurso vigilante e. a principal diferença entre as sociedades “modernas” e as “tradicionais” são que as primeiras estão sempre em mudança constante e de forma rápida. [. p.

como forma de oposição à heteronormatividade compulsória. como as igrejas. 39).” (LOURO. p. explicitamente. entretanto. citado por Louro (2013). A palavra queer pode ser traduzida como estranho.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo . O discurso da drag perturba o conceito do gênero como natural a determinados corpos. ele subverte as marcas do corpo que designariam um gênero e/ou sexo e expõe a natureza cultural de ambos. p. Como explica Louro (2013. sujeitos que escapam da norma. aponta que esses trabalhos se apoiam fortemente na “teoria pós-estruturalista francesa e na desconstrução como um método de crítica literária e social. ou seja. vestimentas culturalmente identificadas como femininas.” A teoria queer abre espaço para a discussão do que Butler (2016) chama de corpos abjetos. A drag propositalmente exagera os traços convencionais do feminino. multifacetado “composto não só de uma única. um grupo de intelectuais passou a utilizar o termo para designar seus trabalhos e o conjunto de produção teórica bastante diversificada. escolas e mídia para que não sejam subvertidas. esconde. p. com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente. 12). 13) Ampliando as discussões de gênero e identidade na pós-modernidade. Seidman (1995). Entretanto. exorbita e acentua marcas corporais. expõe. agrega. A partir dos anos 1990. leis. comportamentos. p. especialmente no que diz respeito à teoria queer. O teórico explica que isso se dá também porque à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam. somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis. 2006. As normas que garantem essa sucessão necessitam. indica um desejo pode ser negada a qualquer momento. que fabrica seu corpo.SP – 05 a 09/09/2016 nova realidade é. o termo foi assimilado e ressignificado por uma vertente dos movimentos homossexuais para “caracterizar sua perspectiva de oposição e contestação. ela intervém. 88). de esforços constantes das instâncias de poder social e cultural. no caso de drag kings) dentro do sistema binário heteronormativo. A premissa de que de um sexo biológico decorre um gênero e este. porém com bases similares. portanto. 2013. atitudes. 2006. a drag assume. excêntrico. além de ter se tornado uma forma pejorativa de denominar os homossexuais. famílias. por sua vez. ultrapassar os limites de gênero e parodiar a ideia de um gênero original feminino (ou masculino. (HALL. mas de várias identidades” (HALL. A drag queen dentro da teoria queer desempenha esse papel de subverter. 4 . recaímos sobre o conceito de queer.

34-46). televisivas. primeiro é importante ressaltar o valor do que se entende como cultura pop hoje. dentro da indústria da cultura.” (CASTRO. musicais etc. 2015) Pensado sob o prisma de produtos de alto alcance e. ou seja. outrora escondida nas tessituras de uma cena cultural marginalizada nas boates e bares. ou grande público.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo . destacando seu “papel como cultura dinâmica. 2015). Nesse contexto. uma cultura do bubble gum (chicletes) e da pop corn. para as massas. o pop foi associado ao que “pipoca”. portanto populares midiáticos. RuPaul leva essa cultura. 2015) Quando o reality show televisivo “RuPaul’s Drag Race” estreia. (JANOTTI. Nesse contexto.SP – 05 a 09/09/2016 Dessa forma. Passamos então a compreender a drag como um produto midiático a partir do momento que se torna agente dentro da cultura de entretenimento com 5 . a drag pode ser considerada como uma paródia de gênero. SER DRAG É POP: DRAG QUEENS E A CULTURA MIDIÁTICA Para entender o papel que a presença das drag queens na cultura pop midiática tem dentro das tessituras das identidades pós-modernas de gêneros e sexualidade. guloseimas que se confundem com a fruição e o entretenimento pop. ele passa a possibilitar e dar visibilidade a cultura drag. Neste texto vamos trabalhar a cultura pop com seu significado voltado para o consumo midiático. produtora de novos significados e de novas sociabilidades. O poder crítico da paródia reside no fato de que essa apropriação dos códigos é capaz de nos fazer “repensar ou problematizar a ideia de originalidade ou de autenticidade” refletindo sobre seu caráter construído. que passa então a habitar o cenário e imaginário da cultura pop midiática. seria o folk) (SOARES. 2006. ao que não se consegue parar de mastigar. a cultura midiática se apropria da drag queen como produto para satisfazer os desejos do sujeito pós-moderno que tem sua identidade de gênero descentralizada e fluida. são consideradas “pop” produções cinematográficas. abalada por inúmeros movimentos e revoluções socioculturais do século XX (HALL. para as culturas de massas. p. em 2009. Na língua portuguesa. criando um novo público consumidor para as drag queens. O termo pop é a abreviação da palavra inglesa “popular” que designa produtos produzidos para serem populares. devido a “supostos” artifícios das indústrias culturais. o termo adquire um significa para além do “popular midiático”. podendo ser usado quando nos referimos à cultura popular ligada ao folclórico (que em inglês. entretanto.

onde mulheres biológicas passavam por extremas transformações no estilo drag queen. RuPaul. A drag surge como um agente que empurra em diferentes direções nossas identidades já confrontadas pela multiplicidade de “sistemas de significação e representação cultural.logotv. Para o professor e autor do livro “Gaga Feminism: Sex. porém acabaram não ganhando o grande prêmio. entretanto.N.nytimes.com/2013/01/10/fashion/generation-lgbtqia.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo . onde ex-participantes do programa original ajudavam a fazer transformações em mulheres biológicas. para se tornar uma surperestrela a drag deve possuir quatro características fundamentais: carisma. visto que anualmente era coroada uma nova drag superstar. O programa. considerada mais inclusiva por contemplar as identidades queer. nerve e talent. 6 Drag U foi uma série spin-off de RuPaul’s Drag Race. 6 . Apresentado por uma das drag queens mais famosas do mundo. Acesso em: 12 maio 2016.U. o programa era uma “escola para garotas.html?_r=0>.” (HALL. “Quando você vê um temo como LGBTQIA é porque as pessoas estão percebendo todas as coisas que fogem do binarismo e exigindo que elas sejam nomeadas”. retorno financeiro e do que Martel (2012) chama de mainstream. o programa buscava a sucessora da apresentadora no posto da drag superestrela dos Estados Unidos.SP – 05 a 09/09/2016 orientações econômicas marcadas pela lógica do capital. duas séries derivadas – Drag U6 e RuPaul’s Drag Race All Stars7 – e um programa paralelo que mostra as competidoras interagindo nos bastidores do episódio principal de cada temporada. A primeira temporada foi exibida em 2012 e a segunda temporada já foi anunciada para estrear em agosto de 2016. não era esperado que o reality show “RuPaul’s Drag Race” tivesse vida longa. que vem ganhando espaço nas ciências sociais e discussões de gênero. 2006. charisma. Disponível em: < http://www. constantemente abreviadas no programa pela sigla C.” (tradução nossa).). Embora tenha mantido praticamente o mesmo formato8 com o passar das temporadas o objetivo inicial de encontrar a sucessora de RuPaul acabou perdendo o sentindo. 7 RuPaul’s Drag Race All Stars é um reality que mantém a mesma estrutura do programa original onde as participantes são ex-competidoras que se destacaram no original.T. há na nova geração muitas pessoas com diferentes concepções de gênero e sexualidade. a cultura drag potencializada e vendida pelo reality “RuPaul’s Drag Race” atinge os sujeitos já desconstruídos em suas identidades – sujeitos fluidos – que encontram na arte drag uma forma de exprimir suas vivências de gênero e sexualidades. uniqueness. coragem e talento (ou em inglês.com/shows/rupauls-drag-u>. Disponível em: <http://www. Segundo o site da LOGO TV. logo se tornou sucesso do canal de TV voltado para o público LGBTQIA5 Logo TV e hoje acumula oito temporadas. O reality então passou a adotar o conceito de “reinado” anual para cada uma 5 Variação para a sigla LGBT. Gender and the End of Normal”. intersexual e assexual. Como produto mainstream. Acesso em: 21 jun 2016. p 13) RUPAUL’S DRAG RACE: DRAG QUEENS COMO PRODUTO POP Quando estreou em 2009. que teve o ponto alto de sua carreira nos anos 1990. Jack Halberstam. Segundo ela. singularidade. (Tradução minha).

que hoje emplacam suas carreiras como cantoras drags e lotam boates com suas apresentações mundo afora. Acesso em: 03 jul.com/artist/6604293/alaska-thunderfuck/chart?f=322>. estilos e possibilidades que pode assumir. sendo que no ano seguinte o legado deixado por ela era passado para sua sucessora. da marca canadense M.C. estabelecendo um recorde entre as cantoras drag que tinham entrado para as listas até 2014. que “o termo franquia começou a assumir um significado cultural e passou a ser usado para descrever tanto os processos de propriedade intelectual corporativa quanto à gestão das formas culturais serializados que dela resultam (linhas de produtos como a franquia Star Trek ou a franquia Star Wars. com potencial para se tornar uma superestrela. Disponível em: <http://www. adotamos neste artigo a franquia pop como uma marca que se torna rentável mercadologicamente.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo . Acesso em: 03 jul.SP – 05 a 09/09/2016 das campeãs. foi a partir da década de 1980. da mesma forma que ela se tornara nos anos 1990 quando assumiu o título supermodelo ao ser a primeira drag a estrelar uma campanha mainstream de cosméticos. 9 Partindo do conceito proposto por Jenkins (2008. com as diferentes vertentes. transformado em franquia pop9. por exemplo).”. Para julgar o desempenho das competidoras. 10 O álbum de estreia de Adore Delano “Till Death Do Us a Party” chegou ao 3º lugar na categoria de “Dance/eletronic Albums”.billboard. Disponível em: <http://www. saídas do próprio programa. Sharon Needles11 e Alaska Thunderfuck12. Seu segundo álbum “After Party”. 45) de franquia como “empenho coordenado em imprimir uma marca e um mercado a conteúdos ficcionais”. 2016. capaz de produzir diversos produtos (sendo eles midiáticos ou não) e gerar engajamento de um grupo de pessoas em torno deste nome. ficou em 1º lugar na mesma lista em 2016. p. De acordo com Massarolo e Alvarenga (2010). 11 Sharon Needles lançou seu primeiro álbum “PG-13” em 2013 e chegou a ficar em 9º lugar na lista de Dance/Eletronic Albums. RuPaul estabelece padrões baseados em sua visão do que é ser uma drag completa.A. Adore Delano 10.billboard. 7 . A partir do encantamento gerado. Entretanto. a exemplo das americanas.com/artist/6114465/adore-delano/chart?f=322>.billboard. O sucesso do programa. ao longo das oito temporadas do reality é perceptível observar o que chamaremos de higienização e padronização da arte drag através das escolhas das vencedoras dos desafios propostos nos episódios. percebemos o aumento exponencial de outros artistas drags que começam a fazer sucesso na cultura midática. visibiliza a cena drag em todo o mundo e gera adeptos para uma nova geração de consumidores desta cultura. ao mesmo tempo em que o programa se propõe a apresentar a cultura drag ao mundo mainstream. 2016. Seu segundo lançamento “Taxidermy”. Disponível em: <http://www. 12 Alaska Thunderfuck emplacou na lista “Dance/Eletronic Albums” da Billboard em 3º lugar. Acesso em: 03 jul. com o seu debut “Anus” em 2015.com/artist/6114465/adoredelano/chart?f=322>. chegou ao 11º lugar em 2015. 2016.

A. O desempenho fraco no desafio principal daquela semana a levou ao “lipsync for your life” contra a outra participante com desempenho inferior no desafio. 2). a drag com o pior histórico na altura do seu episódio fatal. mostrando que não é apenas o desempenho individual do episódio exibido que conta. porém não era. Acid foi eliminada. como os grupos nas redes sociais como Facebook e WhatsApp. participante da oitava temporada. e mesmo com dublagem e histórico superiores à concorrente direta. Acid foi eliminada. o programa cai em contradição em alguns casos. O desempenho de Acid até aquele momento contabilizava três "high". nem de longe. possuía três “safe” e um “high” em um desafio de grupo (Fig. e controversos para o fandom13 é o da eliminação de Acid Betty (Jamin Ruhren). Naomi Smalls (Davis Heppenstall). nos fazendo perguntar até que ponto a noção de drag como produto mercadológico entra nos critérios de julgamento de RuPaul.SP – 05 a 09/09/2016 Fig 1. sendo estes casos mais comuns nas temporadas mais recentes. ou um desempenho regular. por outro lado. quando participantes são eliminadas mesmo com bons históricos na competição.) 8 . Acesso em: 10 jul.reddit. Também é possível citar fórums online como o Reddit “oficial” de fãs de RuPaul’s Drag Race (Disponível em: http://www. Entretanto. Um dos casos mais recentes. 13 Assumimos aqui o termo “fandom” para nos referir às comunidades online de fãs. 2016.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo . Naomi. durante da 8ª temporada do reality. Campanha estrelada pela drag queen RuPaul para a marca de cosméticos M.com/r/rupaulsdragrace/. que na linguagem do programa significa que a concorrente obteve um bom desempenho.C em 1994 As regras do programa sugerem que a evolução durante os desafios de cada participante é levada em consideração para sua eliminação ou permanência na competição. e um “safe”.

As razões dessa mudança? Algumas são econômicas: tornar útil cada indivíduo e rentável a formação.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo . 2014) Antes de entrar para o reality show. portanto. 9 . é utilizado para definir as drag queens que não performam feminilidade da forma usualmente esperada. um máximo de eficiência. dos objetivos do programa. (FOUCAULT. ambas julgadas com os piores desempenhos no 7º episódio da 8ª temporada de “RuPaul’s Drag Race”. 15 O termo “club kids” foi usado para nomear um grupo de jovens personalidades da noite de Nova Iorque no final dos 1980 e início dos anos 1990. assistindo sua trajetória dentro do programa. onde RuPaul e sua visão se tornam o resultado específico a ser buscado. Os membros do grupo logo se tornaram celebridades locais e até nacionais. fugindo do padrão de feminilidade esperado pelo estilo fishy14 de drag. A unidade torna-se uma espécie de máquina de peças múltiplas que se deslocam em relação umas às outras para chegar a uma configuração e obter um resultado específico. como RuPaul e Amanda Lepore. James. 14 Dentro da cultura drag. sua eliminação era algo a se esperar: Acid Betty não se submeteu ao que semanalmente os juízes da competição lhe pediam – sua arte não aceitou ser disciplinada. Esses fatores destacavam Acid Bety dentro do elenco da 8ª temporada de RuPaul’s Drag Race e seu trabalho visual considerado exemplar a colocava na lista de favoritas para chegar à final. no qual as queens tentam fidedignamente mimetizar o dito gênero feminino. James St. unidade preciosa. inútil para os propósitos mercadológicos intrínsecos ao título drag superstar almejada por RuPaul. Tabela de comparação do desempenho das drag queens Naomi Smalls e Acid Betty. dar a cada soldado.SP – 05 a 09/09/2016 Fig 2. a manutenção. Entretanto. Acid Betty não é um corpo dócil e. Atualmente. conhecidas por suas roupas e maquiagens extravagantes. Tal percepção nos leva a pensar no formato do programa como um poder disciplinar dos corpos drag queen. “fishy” é uma drag queen extremamente feminina ao ponto que poderia ser confundida com uma mulher real. e aproximando-se do visual club kid15 e um nome de referência dentro do seu estilo. na cultura drag. liderado principalmente por Michel Alig. Acid Betty já era conhecida na cena drag norteamericana por suas “montações” excêntricas. o armamento das tropas. mas que criam personagens excêntricos e que vão além da atuação do feminino. Foucault (2014) explica que este fenômeno é possível a partir de transformações técnicas – no caso apresentado do reality.

Penso no programa RuPaul’s Drag Race como a “cerca” a qual Foucault (2014. 3. Sharon passou por 12 desafios. dominar e utilizar” os corpos e suas habilidades para que se tornem úteis a um sistema maior e superior. Apesar da desobediência ao poder 10 . Alguns dos looks apresentados pela drag queen Acid Betty durante sua participação no reality show RuPaul’s Drag Race. 142) SHARON NEEDLES: UM CASO (NEM TÃO) DESVIANTE Apesar do caso Acid Betty não ser o único no curso das temporadas de RuPaul’s Drag Race a nos fazer questionar os critérios para a eliminação de uma participante. muito preto. Sharon foi corada a drag superstar com looks exóticos. p. 139) se refere como necessária para aplicar uma disciplina. lentes de contato brancas e tendo seu talento e mérito questionados pelas próprias participantes do programa. 2014. mas também articular essa distribuição sobre um aparelho de produção que tem suas exigências próprias. (FOUCAULT. Durante sua trajetória. Sharon se manteve fiel ao seu estilo “horripilante”. Aparentemente sem docilizar seu corpo. É preciso ligar a distribuição dos corpos. Sharon Needles (Aaron Coady) participou da 4ª temporada do reality show e é um caso desviante dentro da narrativa disciplinar construída ao longo da história do programa. cada um com seu papel. Importa distribuir os indivíduos num espaço onde se possa isolá-los e localizá-los. muitas vezes parecendo uma personagem saída de um filme de terror ou uma adolescente de uma festa de Halloween. p.SP – 05 a 09/09/2016 Fig. O programa é o ambiente heterogêneo fechado para que seja possível vigiar o comportamento e “conhecer. uma drag queen se destaca por ser visualmente o oposto da disciplina proposta por RuPaul e sua equipe e ter tido uma trajetória de sucesso no programa. sangue falso.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo . a arrumação espacial do aparelho de produção e as diversas formas de atividade na distribuição dos “postos”. ganhou 4 e dublou “pela sua vida” apenas uma vez.

sendo aquela a primeira final do reality a ser gravada em um novo formato e considerando a mobilização dos fãs nas redes sociais. Então eu acho que por causa do sucesso de Lady Gaga as pessoas realmente gostaram de mim. Fame Monster16 tinha acabado de sair e o mundo gay estava realmente interessado em deixar seu lado esquisito livre.SP – 05 a 09/09/2016 disciplinatório. a decisão não estava nas mãos de um único sensor todo poderoso e o público aparentemente tinha voz ativa para decidir a vencedora. Qual é o contexto que uma drag queen cujo nome é uma brincadeira com com as palavras “share” (compartilhar) e “needles” (agulhas). Alguns dos looks “fora da caixa” trazidos por Sharon Needles durante a 4ª temporada de RuPaul’s Drag Race. em 2012. em se expressar visualmente. fazendo alusão ao uso de drogas e a uma das principais formas de contágio do vírus HIV poderia se tornar o ideal da “America’s Next Drag Superstar”? A própria Sharon explicou em entrevista que acha que seu sucesso com os fãs do reality show se deve ao sucesso da cantora pop Lady Gaga com a comunidade LGBTQIA e o fato de ter conseguido empatia dos fãs através das suas experiências pessoais. lançado em 2009. Todo mundo estava muito interessado em aceitar uns aos outros. Para falar da exceção de Sharon é preciso. 4.. 11 . Pela primeira vez. A narrativa da personagem de Sharon dentro do programa ganhou a empatia de milhares de fãs..Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo . contextualizar o momento vivido dentro da cultura pop especialmente voltada para o público LGBTQIA no ano da sua coroação. Não é 16 Álbum da cantora Lady Gaga. Fig. entretanto. E eu acho que eles se identificaram com a minha história. Sharon foi inteligente ao compartilhar sua vida pessoal – na época ela namorada a drag queen Alaska Thunderfuck (Justin Honard) e explicitou que o maior sonho do parceiro era entrar no programa – e histórias sobre bullying durante o período escolar.

5. exibido <https://www. Sharon Needles foi acusada de racismo por performances usando suástica nazista e black face. esclareceu alguns pontos sobre o grupo emu ma nota escrita em 2012 em sua página oficial no Facebook.youtube. Como o rosto de uma grande franquia de cultura pop. tradução nossa)17 Apesar de ser um “caso de sucesso” entre as drag queens com estilo diferente.com/notes/alaska-thunderfuck/just-who-did-create-the-haus-of-haunt/10151277868246224/>. Bastante emblemático e problemático. no entanto. (NEEDLES. Disponível em: < https://www. A Haus of Haunt era conhecida pelas performances chocantes e controversas e talvez um pouco disso tenha sido mostrado por Sharon durante sua participação em RuPaul’s Drag Race. era preciso dar o que o público queria – o que significa potencializar ou amenizar disposições discursivas e performáticas. Fig. Sharon precisava mais do que a empatia do público para ganhar dinheiro como drag queen. “Just who did creat the Haus of Haunt?”. Disponível em: 18 Alaska Thunderfuck. ela fazia parte de um grupo de drag queens locais. no YouTube. porém. 2016. bagunçadas e com muito talento”. é possível encontrar Sharon em performances que vão além de utilizar elementos de horror – é fácil encontrar uma Sharon Needles usando uma suástica nazista e se utilizando de maquiagem para fazer black face. 12 . Acesso em 04 jul.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo . coroada em plena ascensão do próprio reality show e constantemente na mídia. mas foi pedido que eu contasse a verdade e então eu fiz. Sharon se refere como sendo um grupo de “gente esquisita. 2016. 2016. Sempre que cita a Haus of Haunt18. punk rock.SP – 05 a 09/09/2016 como se eu tivesse sido a única pessoa a sofrer bullying. Acesso em: 04 jul. que também participava da Haus of Haunt. No período anterior ao reality show. Sharon precisou adaptar rapidamente seu visual e apresentações chocantes os quais a tornaram conhecida na cidade americana de Pittsburgh (Pensilvânia). é a espectatorialidade pop 17 Sharon Needles em entrevista ao talk show Hey Qween. Fora do programa.com/watch?v=M9wxgHmZDDE>.facebook.

2014. p. “o poder disciplinar é. adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. Sharon – a sobrevivente esquisitona das regras – necessita ser lapidada para que se torne palatável ao público mainstream. sutilmente.” (FOUCAULT. se disciplinar para que se tornasse útil.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo . pode-se também se referir ao processo de Sharon pós-RuPaul como uma ruptura de padrões disciplinares impostos: Foucault (2014. Por sua trajetória bem sucedida ao se adaptar.SP – 05 a 09/09/2016 mainstream assistindo ao show de uma drag queen com símbolos nazistas. p. mas como parte indissociável da cultura pop drag viabilizada pelo programa. É preciso sobreviver na “vida real” e como profissão a drag queen precisa se tornar rentável e obediente à ordem econômica. em vez de se apropriar e de retirar. afinal. um poder que. 6. mas o transformou em algo que pudesse ser aproveitado pelo sistema. 157) explica que as técnicas administrativas e econômicas de controle acabam manifestando. tem como função maior “adestrar”. Fig. 167) Sharon não abandonou o seu estilo. no futuro. foi obrigada a.” Sharon pode não ter se mostrando um corpo dócil durante sua passagem no reality show. com efeito. a “descoberta de uma evolução em termos de ‘progresso’. O que temos visto desde a sua coroação é uma Sharon que constantemente precisa se adequar e obedecer a uma disciplina que vai muito além da visão de arte drag de RuPaul e as regras de um programa televisivo. Evolução: Sharon Needles de volta a passarela do reality show na 8ª temporada em versão mais “clean” 13 .

Mainstream: a guerra global das mídias e das culturas. (Orgs. Franquia Transmídia: O Futuro da Economia Audiovisual nas Mídias Sociais. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.org. A. LOURO. In: CARREIRO. G. 2008. S. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. J. 2014. Cambridge: Polity Press. 14 . A identidade cultural na pós-modernidade. L. R. MASSAROLO. SÁ. Anais. (Orgs. 2012. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. 2015. BUTLER. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.SP – 05 a 09/09/2016 Referências ALVARENGA. CASTRO. R. SOARES. MARTEL.. 10. Salvador: EDUFBA. V.). ed.). T. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. F. 2013... J. Rio de Janeiro: DP&A Editora. ed. 2016. Cultura Pop.. The Consequences of Modernity. S. M. 2. J. S. 2015.). 42.). SEIDMAN. 2010. Cambridge: Cambridge University Pres. FERRAZ. GIDDENS. Caxias do Sul. ed. 2010. Acesso em: 21 jun 2016.org/theglam/campaignhistory>.. R. (Orgs. R. SEIDMAN.. R. In: CARREIRO. Petrópolis: Vozes. FERRAZ. Disponível em: <http://www. Deconstructing Queer Theory or the Under-Theorization of the Social Ethical. Acesso em: 10 jul. 2006.macaidsfund. Intercom. Cultura da convergência. S. 33. 1995.pdf>. T. H. SÁ.. Cultura Pop: entre o popular e a distinção. Percursos para estudos sobre música pop. C. FOUCAULT. FERRAZ. de. In: CARREIRO.br/papers/nacionais/2010/resumos/R5-3023-1. São Paulo: Aleph. SÁ.intercom. M. Social Postmodernism: beyond identity politics.Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo . S. In: NICHOLSON. HALL. F. 2016. São Paulo. Belo Horizonte: Autêntica Editora. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. (Orgs. S. Cultura Pop. R. Disponível em: < http://www. JENKINS. MAC AIDS FUND. Salvador: EDUFBA. Salvador: EDUFBA. JANOTTI. 1990. F. Cultura Pop. L. 2015. Temporalidade e quotidianidade do pop.