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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Disciplina: História Econômica do Brasil
Professor: Marcus Dezemone
Alunos: Thiago Silvestre e Yasmin Abreu
RESENHA COMPARATIVA:
Texto-base: FLORENTINO, Manolo. O comércio negreiro e os historiadores. In: ____. Em costas
negras: história do tráfico atlântico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e
XIX). Rio de Janeiro: Cia das Letras, 1997. P. 24-33.
Texto comparativo: ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Vida privada e ordem privada no Império. In:
NOVAIS, Fernando; _____. História da vida privada no Brasil: Império. Vol. 2. Rio de Janeiro: Cia
das Letras, 1997. P. 11-93.

Manolo Florentino inicia o primeiro capítulo do livro Em costas negras atentando para o
grande número de escravos africanos que desembarcaram no Brasil entre os séculos XVI e XIX em
comparação a outras colônias americanas, como o Caribe, que recebeu menos da metade do
contigente populacional recebido pelo Brasil. Tais números corroboram aquilo que Florentino de
uma “organicidade ímpar” entre Brasil e África, porque no Brasil “possuir escravos significava
basicamente conviver com africanos” (FLORENTINO, 1997: 23).
Buscando entender o tráfico de escravos sob a lógica dos empresários traficantes para daí
compreender as ligações estruturais entre esses e a economia e sociedade escravistas, Florentino
adianta que o tráfico de escravos era “o item de maior peso nas importações coloniais” (Idem).
Contudo, não é sobre a importância do tráfico que reside o ponto de discordância de Florentino em
relação a estudos clássicos da historiografia brasileira a respeito desta temática. São as múltiplas
ideias do tráfico que tiveram os historiadores o assunto abordado na primeira parte do capítulo
intitulado “O tráfico e os historiadores”.
Florentino argumenta que, malgrado as diferenças metodológicas dos principais modelos
explicativos da economia colonial, há uma convergência quando se considera o tráfico de escravos
como “variável central” para a continuidade do sistema escravista. O autor cita Caio Prado Jr.,
Celso Furtado, Fernando Novais, Ciro Cardoso e Jacob Gorender, como representantes desses
modelos explicativos clássicos da economia colonial e destaca três pontos de convergência entre

Ele nos conta que nos clássicos o tráficos de escravos surge como uma consequência direta da falta de nativos para o trabalho na lavoura. fruto de uma “visão de curta prazo” dos empresários que superexploravam a mão-de-obra escrava visto que podiam ser substituídos a baixo custo através do tráfico. como é o caso de Celso Furtado. Contudo. o aumento do número de escravos em meio urbano. diferente de Florentino que analisa o período anterior. Do outro lado o autor situa Fernando Novais que. Na segunda parte intitulada “Uma sociedade dependente da importação de homens: Rio de Janeiro (1790-1830)” Florentino aponta para a forte concentração de escravos em plantations. o que tornava o tráfico um elemento estrutural” (Ibid. é possível identificar a predominância de adultos sobre as crianças e os idosos. Desse modo.. 1997: 25). Caio Prado Jr.). o autor chama para a centralidade do tráfico para a continuidade do sistema escravista através dos dados de faixa etária de escravos extraídos de inventários Post. Florentino também atenta para a maneira como o tema da gênese do tráfico negreiro no Brasil foi desenvolvido nos modelos explicativos clássicos. Além disso. No entanto. E Ciro Cardoso. A análise de Alencastro. o que indicaria uma alta taxa de mortalidade e uma baixa taxa de fundidade. Florentino chama atenção para o fato desses modelos explicativos clássicos só entenderem o tráficos de escravo como “variável central” em periodos de expansão econômica e não também em períodos de retração. porém. grandes propriedades com mais de 50 escravos.eles na análise do tráfico negreiro: o tráfico é sempre variável econômica. se concentra sobre o Período Imperial. Alencastro atenta para o crescimento da máquina administrativa ocorrido com a chegada a família Real em 1808. . Entretanto.Mortem. Alencastro nos mostra que o tráfico não era apenas um “herança colonial”. de modo que ele demonstra como esse incremento da burocracia gerou novos postos de trabalho no Rio de Janeiro e. encara a adoção do tráfico negreiro como consequência da sua alta lucratividade. mas um fator de continuidade do sistema escravista no Império. o que corrobora a tese de que o tráfico de escravos era imprescindível para a continuidade do sistema colonial. consequentemente. “o exercício da lógica empresarial implicava um aparente desperdício de força de trabalho. fluxo demográfico negócio. O aumento de população escrava nesse período de 1790 e 1830 do qual nos fala Florentino também foi abordado por Luiz Felipe de Alencastro no capítulo intitulado “Vida privada e ordem privada no Império”. Florentino confronta esses dados com outros dados demográficos que indicam o aumento da população absoluta de escravos no mesmo período. A partir desses dados. por sua vez. Florentino afirma o mérito desses modelos explicativos clássicos porque trazem a ligação direta entre o tráfico e a reprodução física da força de trabalho. como é o caso de Fernando Novais que o autor diz “não se dá conta de que o próprio tráfico podia minorar o problemar” (Ibid.

dentro de um país independente. 1997: 17). como um compromisso para o futuro: o Império retoma e reconstrói a escravidão no quadro do direito moderno. como um vínculo com o passado que o presente oitocentista se encarregaria de dissolver. . Apresenta-se. até mesmo pela pressão internacional de parceiros econômicos como a Inglaterra: O escravismo não se apresenta como uma herança colonial.Neste sentido. (ALENCASTRO. o Império reinsere o escravismo sob moldes jurídicos mais modernos. isto sim. projetando-a sobre a contemporaneidade.