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As paixões em Espinosa

André Gomes do Nascimento Naveca
Espinosa trata das paixões com o mesmo rigor analítico que trata os temas metafísicos
como Deus e a alma. Na parte três da Ética ele começa a falar “Das ações e os apetites
humanos como se tratasse de linhas, de superfícies ou de volumes.”
O homem faz parte do real, por isso ele é um modo da substância que é Deus e não há
liame de ligação entre Deus e os objetos do mundo. Não há transcendência, como se
pode ver na proposição XVIII, Deus é causa imanente de todas as coisas e não causa
transitiva. Só há uma substância que é causa de si mesma, e o homem, um ser finito,
pois só a substância é infinita, sendo o resto atributo ( aquilo que se entende como
sendo a essência da substância). Os modos são afecções da substância, produtos dela
que podem ser em extensão ou produtos mentais. Para Espinosa corpo e mente são
produtos da substância em planos diferentes. Na parte dois da ética, na proposição VII
ele afirma que ”A ordem e a conexão das ideias é o mesmo que a ordem e a conexão
das coisas ”. Ora, há dois atributos; extensão e pensamento. Que são as duas maneiras
pelas quais o homem pode perceber a essência da substância. Os entes finitos, e o
homem, devem ser entendidos como produtos diretos da essência divina, pois em
algum grau eles estão inseridos na natureza e fazem parte de um nexo causal que
remete a Deus como origem da produção. Assim entender o mecanismo das paixões
no homem é entender Deus, no sentido de que o homem faz parte do real e é quando
com ideias adequadas que percebe seu lugar na natureza pode aumentar a sua
potência. Segundo a proposição seis, da parte três, “toda a coisa se esforça, enquanto
está em si, por perseverar no seu ser.” Diferentemente da substância infinita, os modos
da substância entendidos em seus produtos causados por outros produtos têm um
esforço próprio de perseverar em seu ser, característico e diferente da substância única
que é Deus pois estão inseridos no real ao redor de outras coisas produzidas e finitas e
interagindo com elas no seu modo de realização de sua essência particular. Assim o
conatus é ao mesmo tempo modo de realização da substância particular e principio
desse ser que pode assumir diferentes denominações quando referido a alma ou ao
corpo. Quando referido a alma, se chama vontade, quando referido a alma e ao corpo
se chama apetite. E quando o apetite vem acompanhado da consciência de si é
chamado desejo. Os corpos, em suas relações com outros corpos, sofrem
constrangimentos ou expansões de potência que são expressos na mente através das
ideias, segundo a proposição onze, “se uma coisa aumenta ou diminui, facilita ou
reduz a potência de agir do nosso corpo, a ideia dessa mesma coisa aumenta ou
diminui, facilita ou reduz a potência de pensar da nossa alma”
É na Terceira Parte da “Ética” que Espinosa trata da origem e da natureza dos afetos.
As primeiras definições que se colocam então para o filósofo são as de causa
adequada e inadequada. Diz Espinosa: “Chamo de causa adequada aquela cujo efeito
pode ser percebido clara e distintamente por ela mesma. Chamo de causa inadequada
ou parcial, por outro lado, aquela cujo efeito não pode ser compreendido por ela só.”
Causa adequada é aquela que exprime a sua própria natureza nos efeitos que produz.
Assim, o efeito de uma causa adequada não necessita de outros elementos para ser
explicado, pois é a sua causa, e somente ela, que o explica. Já os efeitos de uma causa
inadequada não podem ser explicadas só por ela mesma, é preciso de outras. Quando
somos causa adequada de nossas ações, somos a única causa das mesmas, portanto,

A associação. XIV. e de tristeza. de uma causa inadequada. de seu corpo ou de qualquer parte dele. que também chama de modos do pensar. se presente. uma vez. quando a transição se dá no sentido do aumento de nossa potência. Os afetos são. quando a transição se dá na direção de uma diminuição de potência. e. Se os efeitos produzidos por uma causa adequada se explicam apenas pela natureza de tal causa. Nesse intervalo. além de não agirmos. pois para Espinosa um afeto pode conviver com o outro sem restrições. isto é. ideia pela qual. sendo a primeira o resultado de uma causa adequada. já que somos passivos. a própria mente é determinada a pensar uma coisa em vez de outra”. em nós ou fora de nós. podendo ser os efeitos produzidos em nós. é preciso não cair em uma lógica de simples oposição entre ambas. maior ou menor do que antes. Espinosa aponta a correlação entre os afetos (affectus). ter a sua potência de agir aumentada ou diminuída. não uma imposição externa. estimulada ou refreada. pois embora a tristeza seja o inverso da alegria. ela não é o seu oposto absoluto. . Se a alma foi afetada. a transferência e a identificação são alguns dos mecanismos que compõem a lógica dos afetos.agimos à nossa maneira. ao mesmo tempo. portanto. os mais diversos matizes podem ser encontrados em uma infinidade de relações afetivas possíveis.” Na Segunda Parte da Ética. simultaneamente. a fixação. tristeza e desejo são os três afetos primários enunciados por Espinosa. e as ideias desses afetos (affectio ou afecções) nos indivíduos: um afeto não pode existir separado da ideia deste afeto no indivíduo. as transições a que estamos sujeitos na experiência de contato com a exterioridade. Há. vemos que Espinosa opõe ação a paixão. Em seguida Espinosa fala do poder de afetar e de ser afetado em sua relação com o corpo: “O corpo humano pode ser afetado de muitas maneiras. pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída. conforme a ética proposição 14 a 16 da terceira parte.” Novamente Espinosa está falando sobre a variação de potência e sobre o poder que tem o corpo humano de ser afetado de muitas maneiras. sempre que. “sendo uma “ideia confusa. Espinosa denomina de flutuação de ânimo a convivência entre afetos contrários. Axioma 3. ou fora de nós. os efeitos de nossas ações serão fruto da forma como apreendemos o mundo e dele nos apropriamos. Na Definição geral dos afetos Espinosa define afeto como pathema (paixão) do ânimo. dos quais a nossa natureza é apenas causa parcial. pela qual a mente afirma a força de existir. assim. há uma força externa que nos determina – não vivemos de acordo com a nossa natureza. em maior ou menor intensidade. que pode ser encontrado nos diversos mecanismos a partir dos quais o filósofo descreve as flutuações/transições que sofremos. Alegria. sendo compostos de alegria. ou seja. por duas afecções. A Definição que se segue à de ação e de paixão é a do afeto. agimos quando somos determinados por nossa própria natureza. ou seja. a realidade de seu corpo. enquanto outras tantas não tornam sua potência de agir nem maior nem menor. Em relação à alegria e à tristeza. pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída. somos determinados por uma causa inadequada. sendo esta o mesmo que a dúvida. Quando produzimos efeitos. na filosofia de Espinosa. é através dos afetos que a mente pode afirmar. apenas com uma diferença de grau. quando somos causa inadequada. as idéias dessas afecções. e a segunda. for afetada por uma delas. ou seja. a seguir. A partir dessa Definição. os efeitos de nossa ação serão compreendidos apenas por nossa natureza. padecemos. Por afeto compreendo as afecções do corpo. Assim. nós não somos a única causa dos efeitos que produzimos. um dinamismo afetivo.

pois isso vai contra o principio de conservação do próprio ser. a partir da representação das ideias sobre esses objetos. que são as bases do sistema afetivo. Proposição XV. Apenas porque imaginamos que uma coisa tem algo de semelhante com um objeto que habitualmente afeta a alma de alegria ou de tristeza.será também afetada por uma outra. poderão ser alegres ou tristes em função da compatibilidade dessas coisas e nosso ser. nada pode levar a sua própria destruição. quando afirma que o corpo pode ser afetado pela imagem de uma coisa mesmo que esta não esteja presente. todavia. Espinosa tratará de outros afetos ao explicar como eles se fixam sobre multiplos objetos. Além dos mecanismos citados acima. enquanto que os afetos passionais. Marilena Chauí  Espinosa de Roger Scruton  Francisco Vieira Jordão. por isso os afetos ativos. por acidente. essa coisa ou odiá-la-emos. tristeza e desejo. nossos afetos estão ligados ao conhecimento que o homem pode ter de si. acompanhada da ideia imaginativa de uma causa exterior é o que ele define como sendo o amor. A partir da alegria. Sistema e Interpretação em Espinosa . que é a alegria. assim entender corretamente. Uma coisa qualquer pode ser. por dependerem de coisas exteriores a nós. ter as ideias adequadas e colocar o homem inserido no multiplo encadeamento causal de suas ações é partir para as estruturas epistemológicas e metafísicas que o inserem no mundo e atingir assim a liberdade e que somos parte da natureza e submetidos as leis naturais. Por serem frutos da imaginação em relação com a tristeza. Bibliografia  Espinosa e a afetividade Humana. alegria e vontade. ele define o ódio como uma ideia imaginativa de uma causa exterior que sabemos ser a causa de diminuição de nossa potência. assim toda afetividade ativa será caracterizada pela positividade e alegria. coleção os pensadores  A Nervura do Real. Marcos Gleizer  Ética de Espinosa. Do contrário. O aumento dessa potência. o filósofo também fala de uma projeção temporal da afetividade (temporalização). não podem conduzir a tristeza. de tristeza ou de desejo. As primeiras paixões que nascem tendo um objeto serão assciadas a ideias imaginativas. que são oriundos de nossas ideias adequadas. Seguindo a doutrina do conatus. e embora aquilo por que essa coisa se assemelha a esse objeto não seja a causa eficiente dessas afecções. amaremos. a alma se esforça em imaginar coisas que aumentem ou facilitem a potência de agir do corpo. causa de alegria. Proposição XVI.