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Ilya Prigogine e Isabelle Stengers

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Título original: La Nouvelle alliance; métamorphose de la science
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Impresso no Brasil
PRIMEIRA EDIÇÃO: 1984
SEGUNDA EDIÇÃO: 1991
TERCEIRA EDIÇÃO: 1997
EDITORES
CÉLIA LADEIRA, LÚCIO REINER, MANUEL MONTENEGRO DA CRUZ E
MARIA BAPTISTA DUTRA
CONTROLADORES DE TEXTO
ALFREDO HENRIQUE PACHECO HENNING, PATRICIA MARIA SILVA DE
ASSIS E VERALÚCIA PIMENTA DE MOURA
SUPERVISÃO GRÁFICA
ELMANO RODRIGUES PINHEIRO
CAPA
FORMATO DESIGN E INFORMÁTICA
ISBN: 85-230-0149-2

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central
da Universidade de Brasília

Prigogine, Ilya
A nova aliança: metamorfose da ciência, por Ilya Prigogine e Isabelle Stengers. Tradução de Miguel Faria e Maria Joaquina Machado
Trincheira. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1997. 247p.

a teoria da propagação do calor não teve como efeito o abandono das tentativas de unir o campo dos conhecimentos e a afirmação da especificidade . James Watt trabalhava no aperfeiçoamento da máquina a vapor”. quer dizer. ela foi o ponto de partida de histórias diferentes cujos prolongamentos chegam até nos. e absolutamente estranha ao mundo newtoniano. a propagando do calor entre dois corpos de temperaturas diferentes é um fenômeno sui generis que seria gratuito e ilusório querer reduzir as interações dinâmicas entre massas vizinhas. inaugural. do equilíbrio. se dilatarem. permite ao combustível queimar com grandes desprendimentos de calor e de chamas. O calor e a gravitação. Era uma novidade técnica. Lagrange e seus discípulos. o positivismo formulará uma classificação das ciências. pode fazer girar um motor103. o barão Jean-Joseph Fourier. Rival da Gravitação “Ignis mutat res”: este saber sem idade invocado pela divisa dos antigos químicos fazia da química. o malogro do sonho laplaciano encorajou a compartimentação positivista da ciência que Michel Serres analisou recentemente em diversos textos105. Todo corpo tem uma certa massa e se encontra. quer dizer. sofreu um primeiro fracasso: uma teoria física passa a existir. por mais que reunissem suas forças para criticar a nova teoria. Apresentemos um testemunho anedótico102: “Adam Smith trabalhava em Riqueza das Nações. em interação gravitacional com todos os outros corpos do Universo. evidentemente. O sonho laplaciano. se fundirem ou se evaporarem e. Nesse ano. Trata-se de saber em que condições o calor produz “energia mecânica”. na mesma universidade onde. as máquinas térmicas que. são em sua maioria as únicas fontes concebíveis da força motriz de que a indústria tem cada vez mais necessidade. Na Franca. reunia os dados sobre as perspectivas e as determinantes do desenvolvimento industrial. pode produzir um efeito mecânico. mas todo corpo é igualmente capaz de receber. submetidas ao signo comum da ordem. de fato. no momento da sua maior gloria. matematicamente tão rigorosa como as leis mecânicas do movimento. como tal. e o calor pode provocar uma variação de volume. no interior da ciência moderna. Calor. antes de provocar. determina mudanças de estado. De tudo isso. O Fogo transforma as coisas. Contudo. portanto. a água e os animas. quer dizer. obtém o premio da Academia pelo seu estudo teórico da propagação do calor nos sólidos. escolher um evento simbólico. nessa altura. permite aos corpos entrarem em reação química. desde a sua origem. dois universais. A questão da qual nasceu a termodinâmica não concerne à natureza do calor. Adam Smith não imagina para o carvão outra utilidade que não fosse a de aquecer os operários. desde então. como vai reconhecer Augusto Comte. acumular e transmitir calor e. tiveram que ceder104. que o fluxo de calor entre dois corpos é proporcional ao gradiente de temperatura entre esses dois corpos. quer dizer. influente e referenciável da abertura de um novo campo de possíveis. o século XIX vai selecionar isto: a combustão liberta calor. são antagônicos: a gravitação exerce-se sobre uma massa inerte que a sofre sem ser afetada de outra maneira que não seja pelo movimento que recebe ou transmite. O fogo é capaz de fazer girar máquinas de um gênero novo. o equilíbrio térmico. mas à utilização dessa ação. por outro lado. em 1811. A formulação das leis da difusão do calor teve um sentido mais do que simbólico: tanto na Franca como na Inglaterra. a primeira manifestação efetiva. modificações de propriedades intrínsecas. enuncia. Ao equilíbrio dinâmico entre forças se junta. e ás vezes útil.83 Capítulo IV A ENERGIA E A ERA INDUSTRIAL 1. ou da sua ação sobre os corpos. Esta ciência do fogo foi reconhecida como ciência experimental durante o século XVIII. o retorno do que esta negava em nome das calmas trajetórias da dinâmica: a irreversibilidade e a complexidade. de uma simplicidade elegante. No que concerne à ciência da complexidade. dado que a propagação do calor tende sempre a estabelecer uma distribuição homogênea das temperaturas no corpo onde ela se produz. o vento. Como o próprio Fourier proclamava. fazem surgir a sociedade industrial. que todos sabem e sabiam. e as máquinas simples que eles fazem funcionar. a física matemática e a ciência newtoniana deixaram de ser sinônimas. não hesitamos 84 Ilya Prigogine e Isabelle Stengers em a fazer “começar”. no seu livro. nessa época. o calor transforma a matéria. Com base nessa oposição. Laplace. Como relacionar esse processo de propagação com as forças e as acelerações dinâmicas? Mas. se dissolveram. Na Inglaterra. é a sede do conjunto dos processos ligados à acumulação e a propagação do calor. Sua lei. No século XVIII. pior ainda. A difusão rápida das máquinas térmicas inglesas é acompanhada duma nova questão científica. administrador civil do departamento do Isère. É sempre tentador. que retoma alguns dos temas de protesto dos químicos antinewtonianos do século XVIII e de todos os que haviam sublinhado a diferença entre o comportamento puramente espaço-temporal atribuído a massa e a atividade específica da matéria. a ciência do fogo. coexistem em física e. em que os laplacianos triunfam e dominam na ciência européia. trata-se de uma lei tão geral como as leis newtonianas: ela descreve um fenômeno tão universal como o da gravitação. nesse sentido. duma nova colocação do problema das transformações que o calor faz os corpos sofrer.

experimentação de laboratório. ela ia constituir o ponto de partida de uma interrogação sobre a irreversibilidade que. portanto. por trocas caloríficas. é-nos necessário retomar o desenvolvimento da ciência do calor e o estudo das diferentes fontes que a alimentaram: métodos de física matemática. Para compreender a maneira como essa ligação foi reconhecida e integrada pela física. Esses parâmetros definem a composição do sistema e também (condições aos limites) suas relações com o resto do mundo desde logo definido como “meio”. pela posição e velocidade dos seus constituintes (há cerca de 1023 moléculas num volume de gás ou fragmento de sólido da ordem do cm3). o que implica. não deixou de perturbar as compartimentações e classificações106. para que a capacidade do sistema de produzir movimento a partir do calor seja restaurada. cada qual fundada sobre fatos irredutíveis. a energia potencial que uma precedente interação com o mundo lhe conferiu: a causa e o efeito são da mesma natureza e idealmente equivalentes. Por outro lado. cedendo calor ao exterior. simultaneamente equivalente e inverso do primeiro. de uma transformação intrínseca do sistema e não de uma simples transmissão de movimento. sob a forma de trabalho. ela descreve o estabelecimento progressivo de um equilíbrio térmico: a propagação do calor tem por efeito nivelar progressivamente e de forma monótona a distribuição de temperatura até a homogeneidade final. de prever suas reações a uma modificação imposta. dá-se ao sistema uma quantidade determinada de calor mantendo o volume constante. foi a nova unificação da física pelo principio de conservação da energia. desenvolvimento tecnológico. ele produz movimento107. permitir fixar a pressão ou o volume do sistema). O problema do rendimento dos motores térmicos. da relação entre o trabalho produzido e o calor que é preciso dar ao sistema para os dois processos que se compensam. mas por um conjunto de parâmetros macroscópicos. O trabalho mecânico. Mas. para falar com propriedade. em cujos termos as propriedades mais gerais dos sistemas materiais podem ser definidas. de a prever calculando o efeito das interações entre elementos do sistema. ulna segunda mudança de estado que compense a mudança produtora de movimento. . com toda certeza. projetos metafísicos. Estudar o comportamento físico ligado ao calor é definir um sistema não como na dinâmica. o motor térmico não é um dispositivo passivo. a uma temperatura determinada). Trata-se de agir sobre o sistema. sobre a maneira como a variação dum parâmetro influi sobre o valor de todos os outros. Todos sabiam que essa lei é irreversível no sentido de que o calor tem a propriedade fundamental. a ciência do calor implica. de nunca se concentrar e criar espontaneamente diferenças de temperatura. ao mesmo tempo. uma mudança de estado. A seguir mostraremos a importância da lei de Fourier e do contexto cultural técnico.A Nova Aliança 85 das disciplinas. relativamente ao objeto dinâmico. exercer sobre um sistema material uma ação mecânica (um dispositivo a êmbolo pode. as trocas de calor com o exterior provocam por um dado sistema material. é possível. o movimento do êmbolo. uma alteração das propriedades mecânicas: dilatação ou contração. Num motor térmico. um ponto de vista novo sobre as transformações físicas. mantendo quer o volume quer a pressão a um valor constante. modificam-se algumas mantendo os outros invariantes. ou ainda uma ação química (fluxo de reagentes e de produtos de reação entre o sistema e o meio). mas deixando variar livremente a pressão. resulta. é o ponto que procuramos. este segundo processo. desde então. é um resfriamento que permite ao sistema recuperar sua temperatura. é preciso prever um segundo processo que reconduza o sistema ao seu estado inicial. Todos sabiam que. O calor específico permite prever como reagirá o sistema a essa interação com o meio. se a lei de Fourier se aplica a um corpo isolado. que desempenhou o papel decisivo. no caso. o objeto termodinâmico implica. uma das propriedades fundamentais de todo sistema físico-químico. por outras palavras. por intermédio das condições aos limites. neste episodio crucial. sob o ponto de vista da transformação do sistema motor. volume. Já não se trata de observar uma evolução. um motor mecânico limita-se a restituir. Tomemos o exemplo do calor específico. composição química. entre outras. de sempre se “propagar”. A ciência dos fenômenos complexos que põe em jogo a interação de um imenso número de partículas e a assimetria temporal se encontravam assim de fato ligadas desde a origem. Pelo contrario. Assim. Da mesma forma que a mecânica. uma concepção do objeto físico e uma definição dos motores. se nivelar. por exemplo. onde a noção de processo irreversível se introduziu em física. Num motor térmico. uma identificação da causa do efeito num modo particular de produção de trabalho mecânico. caracterizado por uma distribuição não homogênea de temperaturas. segundo a expressão empregada por Boerhaave. ou levá-lo. Coloquemos em evidencia esta dupla especificidade. Pressão. térmica (é 86 Ilya Prigogine e Isabelle Stengers possível ceder ou tirar ao sistema uma quantidade determinada de calor. Para estudar o calor específico a volume constante. A descrição incide sobre as mudanças sofridas pelo estado macroscópico como tal. opera-se sobre o sistema por intermédio das suas condições aos limites. O calor específico mede a quantidade de calor a fornecer a um sistema de composição química determinada para elevar sua temperatura de um grau. Nisso está a origem do novo problema posto pelo cálculo do seu rendimento: depois de uma mudança de estado produtora de movimento. De maneira geral. Assim. temperatura e quantidade de calor constituem os parâmetros físico-químicos clássicos. pressão e volume iniciais. A termodinâmica é a ciência das variações correlatas dessas propriedades.

esses processos isolados. a natureza inteira se encontram submetidas a uma equivalência fundamental. Mayer e Liebig — pertencendo todos três a uma cultura onde o tipo de argumento de Joule era rejeitado em nome de uma prática estritamente positiva — é ainda mais chocante. joule define um equivalente geral das transformações físico-químicas que fornece o meio de medir a grandeza que se conserva e que será mais tarde identificada109 como “energia”. E Mayer. Galvani fez a experiência sem premeditação dessa conexão dos diferentes campos. Em 1800. e vai constituir o fio condutor que permitirá explorar de maneira coerente a multiplicidade dos processos naturais. no sentido preciso do termo. Ao contrário. pode concluir-se que o passado filosófico da Alemanha os havia realmente “impregnado” de uma idéia estranhíssima ao conhecimento estritamente positivo que pretendiam praticar: a idéia de que a natureza. portanto. embora. do valor da energia potencial. Joule traduz essa convicção no contexto cultural próprio da Inglaterra. e a conclusão impôs-se: dado que nos trópicos faz mais calor. mas toda a maquinaria. e. No momento da sua descoberta. efeitos. vai desde então ser colocada na base do que podemos 88 Ilya Prigogine e Isabelle Stengers chamar de a ciência do complexo. químicos ou vitais. Faraday põe em evidencia a produção de corrente induzida por efeitos magnéticos. E preciso esclarecer que. se haviam constituído há multo em disciplina. Enfim. a partir dai. elabora um balanço entre. a energia. noutras palavras. “a roda possa estar no meio da roda”. funciona com calma e harmonia. Seebeck estabelece que. era. e aqueles que. A conversão generaliza o que se produz no decurso dos movimentos mecânicos: através de todos os fenômenos estudados em laboratório postula-se que “alguma coisa” se conserva quantitativamente e muda de forma qualitativa. o magnetismo e a biologia é interpretada como uma conversão. em laboratório constituíam uma verdadeira rede que conectou finalmente uns aos outros todos os diferentes campos experimentais que recentemente haviam proliferado na física. ávidos de participar na construção de uma ciência positiva. o que se traduz na cor vermelho-vivo do sangue. E é assim que a ordem do Universo é mantida — nada é perturbado. “Com efeito. doutro lado. A historia de Mayer é a mais espetacular 111 : jovem médico nas colônias holandesas de Java observou o vermelho-vivo do sangue venoso de um dos seus pacientes. nunca se perde nada. e Peltier. Volta reconheceria nas contrações “galvânicas” da rã o efeito da passagem de uma corrente elétrica. logo a seguir. Em 1847. Galvani criou. os eletricistas só conheciam as cargas elétricas imóveis. os habitantes têm necessidade de queimar menos oxigênio para manter a temperatura do corpo. a que chamaríamos fonte de energia. A ciência quantitativa dos processos físico-químicos é. trabalho muscular. na confusão e embaraço aparentes de uma diversidade quase sem fim de causas. através das transformações que os sistemas físicos. Mas a corrente também leva à produção de Luz e calor e. A evolução dinâmica modifica somente a importância respectiva das duas energias. querem sejam mecânicos. libertação de calor. os fenômenos naturais. nenhum desses três investigadores era físico.A Nova Aliança 87 2. Em 1822. com o corpo de uma rã. conversões e ajustamentos. mostra como arrefecer um corpo graças à eletricidade. os consumos ligados à manutenção . O Principio de Conservação da Energia Já referimos o papel essencial desempenhado pela energia na dinâmica: o hamiltoniano. está unificada por uma legalidade geral. em 1820. Não é de admirar que o princípio de conservação da energia haja tomado uma importância extrema aos olhos dos físicos do século XIX. Para definir as relações entre essas formas qualitativas.circuito elétrico experimental logo a seguir. da força viva (NB. Particularmente o movimento era capaz de provocar cada um dos fenômenos estudados no decurso dessas experiências. o consumo de oxigênio. energia cinética) e do calor de uns sobre os outros. a mais perfeita regularidade é preservada —. é a natureza inteira que se encontra assim unificada. por mais complicada que seja. Efetivamente. Volta faz funcionar uma pilha química: as reações químicas podem produzir eletricidade. e não somente os diferentes campos experimentais. consistem quase exclusivamente numa conversão da atração através do espaço. dum lado. Oersted mostra que ela tem efeitos magnéticos. E. soma das energias cinética e potencial expressas em variáveis canônicas. A conservação de uma grandeza física. por um principio de causalidade único. Até então. o primeiro. em 1831. desde Lavoisier. provocar reações químicas. reconhecida na sua unidade. ao invés. químicos e biológicos podem sofrer. todos eles tinham-se ocupado da fisiologia da respiração. a fisiologia da respiração constituía um problema-modelo. O caso dos alemães Helmholtz. primeiramente a respiração e. Para muitos de entre eles. como a mecânica. em 1834. a eletricidade. o calor pode produzir corrente. é dado finalmente um passo decisivo por Joule: a conexão entre a química.. o tipo exato de problema que devia atrair os fisiólogos e os químicos hostis às especulações românticas. Entretanto. Estabelece á primeira equivalência medindo o trabalho mecânico necessário para elevar de um grau a temperatura de uma dada quantidade de água. a ciência do calor. gera a evolução dessas variáveis conservando-se ele próprio no decurso desse movimento. Depois vem a eletrólise: a corrente elétrica pode modificar as afinidades químicas. partindo dai. sendo o todo governado pela soberana vontade de Deus”110. e cada coisa possa parecer complicada e enredada. em sua totalidade absoluta. o primeiro em que o funcionamento do ser vivo se encontrava descrito em termos físicos e químicos — combustão do oxigênio. como na terrível visão de Ezequiel. No começo do século XIX 108 produziu-se uma efervescência experimental sem precedentes: “efeitos novos” foram descobertos em grande número em laboratório e impuseram aos físicos a idéia de que o movimento não produz somente modificações da disposição espacial dos corpos. ao ler a maneira como esses três investigadores “saltaram” para a conclusão de que.

a criação de uma outra diferença. onde a natureza produtora é dominada. graças às quais os processos particulares da natureza podem ser remetidos a leis gerais e delas deduzidos. em si mesmo. evocar a fornalha crepitante das máquinas a vapor. Essa convicção de que a natureza não é um sistema ordenado.. por exemplo. mostrou num texto recentemente publicado a que ponto ela era constitutiva da teoria freudiana115). variáveis ou invariáveis. percebiam o eco abafado duma natureza criadora e destruidora. tanto as novas máquinas como as antigas. produzir os mesmos efeitos invariáveis em todos os casos em que as condições exteriores sejam as mesmas. o coroamento definitivo da física e de toda a ciência positiva. Mas o balanço em si apenas constitui a primeira generalização. que ratificou a forma sistemática assumida pela física matemática durante o século XVIII. A meta final das ciências teóricas da natureza é. do mesmo modo que uma outra idéia de cestos fisiólogos. mas das máquinas industriais que. As causas próximas para as quais se remetem os fenômenos podem ser. o mais representativo dos homens de ciência que participaram nessa renovação.. apenas do ponto de vista da equivalência e do rendimento ideal. reconheceu. irresistivelmente. Muitos pensam que a ciência da energia retoma as diferentes teorias físicas e as engloba como outros tantos casos particulares no seio de uma concepção que é a 90 Ilya Prigogine e Isabelle Stengers verdade final da física. A ressonância cultural foi também ela imensa: nova concepção do homem como máquina energética (Jacques Lacan. vento e força animal ou humana. portanto. postos frente a frente numa luta pela supremacia e dominação. e sua descoberta constituí. essa influencia114. porém. Contudo. nova concepção da própria natureza como “energia”. dado que Mayer “salta” para a conclusão de que há nisso tão somente uma manifestação particular da presença duma forca única e indestrutível. admitir que só a diferença pode ser produtora de efeitos. no interior da física. Para ele. que sejam por sua vez diferenças117. é notável que a essa distância a física. outros. deve. poder de criação e de produção de diferenças qualitativas. aliás muito claramente. mas também quanto à imagem da ciência. movidas a água. uma forma de kantismo. “O problema das ciências e. tranqüila e controlável. a busca de leis. que inspiraram a ciência clássica118. não é. quer dizer. uma das raízes da renovação da física no decurso do século XIX113. a efervescência das transformações num reator químico. Deste ponto de vista. da caldeira afogueada das locomotivas onde o carvão queima sem recuperação para que seja produzido movimento. Impõe-se a idéia de uma nova idade de ouro da física. haviam produzido efeitos sem comparação com as máquinas simples. O principio de conservação da energia teve uma importância enorme não somente no que concerne às teorias científicas. e ao trabalho manual. não dos aparelhos de laboratório. submetida a uma equivalência preestabelecida. como Nietzsche. por conseguinte. haja admitido poder ignorá-la e descrever. ultrapassa já largamente a observação inicial: a cor do sangue bem que poderia estar ligada á “preguiça” do paciente de Mayer. Este procedimento é justificado e mesmo tomado coercível pela convicção de que cada mudança na natureza deve ter uma causa suficiente. outras experimentações onde se expande o seu poder criador e destruidor. nova concepção da sociedade como motor — reportemo-nos a análise consagrada por Serres116 á obra de Zola. 3. Bergson não se enganava por nada ver de verdadeiramente novo na ciência da energia. a ciência da energia revela e dissimula ao mesmo tempo e sob formas tradicionais o poder da natureza. o espetáculo das máquinas térmicas. a vida e a morte dos indivíduos e das espécies. inicialmente. estabelece a mais intransponível distancia entre os espíritos clássicos e a cultura do século XIX. cujo poder para sufocar os bramidos a ciência se vira constrangida a reconhecer. descobrir as causas últimas e imutáveis dos fenômenos naturais. como nos é permitido pensar. que são invariáveis e devem. o principio de conservação da energia não era mais do que a encarnação. em menos de um século. dum remate e duma generalização última do tipo de raciocínio que havia feito o sucesso da mecânica. é preciso. que está na base de todos os fenômenos da natureza animada e inanimada112. apesar das perdas térmicas. antes de mais. a convicção em questão força-nos a procurar causas que justifiquem essa variação. Nesse sentido. Essa “predisposição” para reconhecer nas transformações naturais o produto de uma realidade subjacente que se mantém idêntica a si própria através de suas transformações evoca. em si mesmas. contudo. da exigência geral de inteligibilidade da natureza que é preliminar a toda a ciência: o postulado de uma invariância fundamental para além das transformações naturais.” Tal é a forma assumida por um cerco kantismo do século XIX: a conservação da energia cumpre o que é exigido por todo o conhecimento racional. nesse sentido. o objeto da fisiologia nem por isso deixa de ser meramente físico-químico. para compreendê-la.A Nova Aliança 89 da temperatura. Das Máquinas Térmicas à Flecha do Tempo Mas se. Vê-se como foi possível fazer do kantismo. no primeiro caso. para além da impotência a que a descrição científica havia reduzido a natureza. e negligenciar o fato novo de que aquilo que é consumido pelas . mas a eterna expansão duma força produtora de efeitos antagônicos. interdito escutar igualmente o ruído das máquinas. Antes do dispositivo experimental. A conversão da energia não é mais que a destruição de uma diferença. e isto até chegarmos á causas finais. A ciência. à qual faremos apenas alusão: ainda que uma força “vital” se encontre na base do funcionamento dos seres vivos. Nesta perspectiva. Esse balanço. alias. tem por certo ressonâncias e raízes filosóficas. ambíguo: a natureza que descreve parece econômica. bem articulada. o próprio princípio é. que descreve as transformações da energia sob o signo da equivalência. Helmholtz. apresenta-se como submetida e reduzida as equivalências experimentais.

conservado em quantidade constante através de todas as transformações que provoca. constitui uma perda integral de rendimento. regidos por balanços reversíveis. segunda etapa isotérmica. pois. sem recuperação concebível.A Nova Aliança 91 máquinas a vapor desaparece sem recuperação. de maneira bem clássica. dum corpo à temperatura quente. se dissipe. E Carnot põe a questão de seu pai119 : qual a máquina que dará o rendimento ideal? Quais são as fontes de perdas? Quais os processos que têm por conseqüência que o calor flua sem produzir trabalho? Lázaro Carnot concluíra que. 92 Ilya Prigogine e Isabelle Stengers térmica ideal. neste caso. que. As duas fases isotérmicas são conectadas entre si por duas fases onde o sistema e isolado das fontes: o calor não entra nem sai mais do sistema. Em 1850. O ciclo ideal de Carnot realiza. havia produzido a primeira e mais influente das descrições sistemáticas. ciclo de Carnot no novo quadro da conservação . Dar-se (ou admitir) duas fontes. Entre c e d. etapa isotérmica. nascida em 1824 com o trabalho de Sadi Carnot sobre a força motriz do fogo. embora conservando-se. e de um outro à temperatura fria. de dilatação ou de contração. a temperatura da qual se mantém. a dilatação do sistema pode empurrar um êmbolo. o sistema está em contato com uma das duas fontes térmicas. essa obsessão da física da conservação: o mundo queima como uma fornalha. por seu turno. a força dos animais ou a água dos rios. ameaçada de esgotamento a prazo. a termodinâmica. é preciso. pois. Tal é a situação nova onde se enraíza. é simplesmente negligenciar o processo pelo qual a combustão química liberta calor. portanto. prosseguindo sua dilatação. A alteração do volume prossegue até que o sistema haja passado da temperatura de uma forte a de outra (fig. O conceito de irreversibilidade física traduz. dum só golpe. o sistema mantido à temperatura tA absorve calor e dilata-se. o paradoxo de um transporte global de calor entre duas fontes de temperaturas diferentes sem fluxo algum direto de calor. absorverá o calórico cedido pela primeira. Esse gesto fundador era mais fácil para Sadi Carnot na medida em que. O funcionamento das máquinas simples pressupõe o movimento como dado: limita-se a transformá-lo e a transferi-lo para outros corpos. Dai tirava as conclusões da física do sou tempo: só os fenômenos contínuos são conservativos. o sistema é comprimido e cede calor à fonte fria. mas este varia de temperatura a seguir a uma compressão e a uma dilatação. funcionando entre duas fontes de temperaturas tA e tB. tal como a água que caí entre dois níveis diferentes pode fazer mover um moinho. entre as duas fontes de temperaturas diferentes. A máquina Ciclo de Carnot. a partir de então. fará girar o motor. O ciclo será concebido de tal sorte que nenhuma alteração de temperatura resulte dum fluxo direto de calor entre dois corpos de temperaturas diferentes: um tal fluxo. com a esmagadora maioria dos cientistas do seu tempo. 2). Assim. é comprimido até que sua temperatura volte à da forte quente. pois. em todo caso. que a energia. enquanto aos olhos de todos. Assim. Divide-se em quatro fases. o sistema isolado arrefece até a temperatura tB. Entre a e b. pai de Sadi. supomos. absorve calor e dilata-se. das quais o próprio Lázaro Carnot. uma fria e outra quente. tinha conseguido reduzir o estudo das máquinas térmicas ao modelo das clássicas. Clausius descrevia o. evitará todo o contato de corpos de temperaturas diferentes. para uma máquina mecânica ter melhor rendimento e preciso que sua construção e seu regime de funcionamento sejam tais que os choques. identificava o calor como um fluido. o sistema isolado de novo. Entre d e a. no seio de um sistema motor. No decurso de cada uma das duas fases isotérmicas. Sejam. de temperatura diferente. Entre b e c. Estas duas etapas são motrizes. Em contato com a forte quente. sendo o movimento do calórico através do motor. Máquina térmica nenhuma restituirá ao mundo o carvão que devorou. a ciência fez calar as fornalhas. em vez de evitar todo o contato de corpos de velocidades diferentes. não tendo qualquer efeito mecânico. força motriz do fogo. respectivamente. só o efeito da combustão lhe interessa: a manutenção. sem o estabelecimento de contato entre corpos de temperaturas diferentes. ela se tornara reservatório de máquinas. tudo o que resulte do contato brusco de corpus de velocidades diferentes – sejam evitados ao máximo. duas fontes: uma cederá calórico ao sistema motor. fricções. Do mesmo modo. Carnot filho “se dará” o fluxo de calor: duas fontes de temperaturas dadas. perde calor e comprime-se. a outra. todas as mudanças bruscas de movimento determinam uma perda sem recuperação da “força viva”. a ulterior transformação da física. mudanças bruscas de velocidade – em suma. Tudo começara. em contato com a forte fria. a ciência da energia ia começar a descrever a própria natureza como um conjunto de dispositivos de conversão. e é mantido à temperatura dessa fonte. da mesma maneira que um construtor de máquinas simples ignora de onde vem o vento.

A interpretação de Clausius reveste uma significação multo profunda. o trabalho produzido paga-se com um fluxo de calor que diminuí a diferença de temperatura das fontes. sinônima de perda de rendimento. tomar-se-á. alguma coisa mudou no estatuto das idealizações. tal como Carnot. Por um lado. ele se limitava aparentemente a repetir suas antigas conclusões. Esta questão pode ser por nós evocada sob dois pontos de vista diferentes. tendência para a desagregação universal da energia mecânica. mas nós não podemos dispor dessa energia sem condições. das linguagens. um reservatório inesgotável de energia e. Nem todos os processos que conservam energia são possíveis. do gosto. mas abre também uma nova questão. O ciclo de Carnot. fundada sobre o princípio de conservação da energia. no século XIX. não mais o ciclo ideal. associada a descrição das perdas por condução que diminuem o rendimento de um motor térmico. deve poder ser descrito. onde a irreversibilidade faz intrusão na física: como descrever – já que tudo. William Thomson. Por outro lado pode decerto afirmar-se que a forma específica pela qual o tempo se introduz na física. provavelmente por conhecer e venerar a obra de Fourier. vai ser o primeiro a ter condições de transformar essa questão em afirmação e de enunciar o segundo principio da termodinâmica. sem dúvida. de uma dissipação inútil de uma certa quantidade de calor. Na verdade.A Nova Aliança 93 da energia. Diferença alguma de energia pode ser criada sem destruição de uma diferença ao menos equivalente. As diferenças produtoras de efeitos não cessam de diminuir no seio da natureza. pode restaurar a diferença inicial. desde então. como já assinalamos. acima de tudo. novas relações de equivalência entre os dois processos. de energia térmica. O trabalho mecânico produzido e a diminuição da diferença de temperatura estão ligados idealmente por uma equivalência irreversível: a mesma maquina. Parece que em todos os campos se descobre o caráter essencial do tempo: evoluções das formações geológicas. doravante. das espécies. o arrefecimento por contato com uma forte fria) que restitua o motor ao seu estado mecânico e térmico inicial. mas numa linguagem nova. pelo menos a mesma importância. qual seja. de conversão em conversão. e dado que a propagação irreversível do calor é. Deste ponto de vista. o mundo. mas encarna também as conseqüências da propagação irreversível do calor num mundo onde a energia se conserva. admite-se geralmente que o tema do tempo tomou uma importância singular. Entretanto. cujos efeitos se compensam do ponto de vista do estado físico-químico do sistema. transforma-se assim no ponto de encontro das duas “universalidades” descobertas pelo século XIX: a da conversão da energia e a da propagação do calor. Essa linguagem devia fazer aparecer mais claramente a problemática na que nasceu a termodinâmica. em 1865. consumindo o trabalho produzido. ciência dos motores. acabamos de explicar a formulação do segundo principio: conservação da energia. desde e o século XVIII. Com efeito. não se interessa ainda diretamente. mas só o ideal é objeto de ciência. Como a cosmologia de Thomson não é somente a imagem da nova máquina térmica ideal. Clausius realizava a passagem característica entre tecnologia e cosmologia. que terá repercussões importantes: a natureza é. esgota suas diferenças e se dirige para o estado final definido por Fourier. numa descrição dos motores ideais. Às relações de balanços exprimindo a conversão da energia juntam-se. da moral. a ciência nova. O mundo laplaciano era um mundo conservativo e eterno. 94 Ilya Prigogine e Isabelle Stengers A lei de Fourier encontrava-se. No ciclo de Carnot. fluxo de calor entre as fontes e conversão de calor em trabalho. lei de Fourier. na matéria. a dissociação entre os conceitos de conservação e . à imagem da máquina simples ideal. não pretende mais descrever uma idealização. o estatuto da idealização é o mesmo do das máquinas mecânicas descritas por Lázaro Carnot: todos os balanços reais são deficitários. é precisamente o fenômeno universal de propagação do calor que Carnot havia identificado como origem das perdas de potencia do motor térmico. a transformação rápida do modo técnico de inserção na natureza e o progresso que se acelera no século XIX levantam uma inquietação que ainda hoje é testemunhada pelo sucesso de proposições como “limites ao crescimento” ou “crescimento zero”. em 1850. Daí este novo problema. Clausius. esse mundo será descrito como uma máquina no seio da qual a conversão do calor em movimento não pode fazer-se senão à custa de um desperdício irreversível. mas todo ciclo real. Contudo. fundada sobre a conservação e a compensação. em 1852. neste contexto. Contudo. Descobria que a necessidade das duas fontes e a fórmu1a do rendimento ideal enunciada por Carnot traduzem o problema específico dos motores térmicos: a obrigação de um processo compensador da conversão (aqui. Thomson executou assim o salto vertiginoso da tecnologia dos motores para a cosmologia. A obsessão do esgotamento dos estoques e da paragem dos motores e a idéia de um declínio irreversível traduzem certamente essa angústia própria do mundo moderno. o estado de equilíbrio térmico onde não subsiste mais diferença alguma que pudesse produzir um efeito. e não mais somente idealizações – o que se passa na máquina real? Qual é a natureza das perturbações irreversíveis que diminuem o rendimento? A questão tecnológica posta por Carnot e Clausius desemboca. Assim nasceu a termodinâmica. Evocando o contexto propriamente científico. Mas as repercussões culturais da mutação social e econômica da época podem igualmente ser reveladas. das sociedades. Por seu lado. é especialmente claro que o papel do contexto cultural teve. pois. a da dissipação da energia. centralizada em tomo do conceito de entropia. inclusive as “perdas”. pelas perdas que acarretam para todo motor real um rendimento inferior ao ideal previsto pela teoria. mas a própria natureza. funcionando ao contrario. ressoa com arquétipos míticos e religiosos muito antigos. designadamente a evolução para a homogeneidade e a morte. pois.

pois que. dos fluxos que uma inversão do sentido de funcionamento do ciclo não pode reconduzir à fonte quente. o futuro é a direção na qual a entropia aumenta. as quais. quer seja ideal quer não. era cômodo introduzir uma “função de estado”. De fato. progresso algum foi realizado mas. “Die Energie der Welt ist konstant. função de estado do sistema. Num sistema isolado. e os fluxos “dissipados”. Antes de mais. quer dizer. No caso da energia. e a entropia do sistema não pode. conhecemos já essa função de estado. o segundo só pode fazer aumentar a entropia no decurso do tempo ou deixá-la constante. que descreve essas transformações. os que uma inversão do funcionamento do sistema não poderia reconduzir à fonte quente. E. pois que seu sinal depende somente do sentido das trocas com o meio. Não se trata mais aqui das transformações irreversíveis enquanto aproximações de transformações reversíveis: o crescimento da entropia designa uma evolução espontânea do sistema. são irreversíveis: são as que provocam uma diminuição de rendimento no ciclo de Carnot. Clausius dá aos dois princípios da termodinâmica um enunciado cosmológico que desde então ficou famoso. Em 1865. Mas é somente no caso de um ciclo ideal que a variação da entropia dS. mas somente uma transferência de um lugar para outro do espaço. segundo as circunstâncias. de propriedades diferentes. temperatura e quantidade de calor no sistema) que permitem descrever o estado do sistema120. mas não basta caracterizar a passagem entre dois estados dum sistema pela variação de energia. A propósito da “produção de entropia”. ultrapassa largamente o problema tecnológico posto na origem da termodinâmica. por definição. quer em mecânica quer na ciência dos motores térmicos. que podem ser anuladas por uma inversão desses fluxos. a que chamaremos deS. após o fluxo e a conversão de calor se terem compensado. Para esse efeito. esta quantidade pode variar em conseqüência de uma aplicação ou produção de hidrogênio determinada por reações químicas no interior do recipiente. Claro que poderíamos escrever que dE é igual a soma de um termo ligado as trocas e de um termo ligado a produção interior. O caráter único do enunciado do segundo princípio reside no fato de o termo da produção ser sempre positivo. Mas que sistema poderia ser melhor isolado do que o Universo inteiro? E que importa que a evolução do Universo não possa ser definida de maneira fisicamente precisa. deS descreve o “fluxo” de entropia entre meio e sistema. a soma de dois termos deS e diS. se pensamos numa grandeza não conservada. deixar de aumentar ou permanecer constante. por sua vez. Na aparência. após completado o ciclo. mas o principio da conservação da energia 96 Ilya Prigogine e Isabelle Stengers exprime precisamente que não existe “produção” de energia. que não troca nada com o meio. a deE. É que. só uma parte de dS. onde os ideais de reversibilidade e de conservação coincidem. perdidos. a situação é radicalmente diferente. A variação dE da energia reduz-se. produzir ou destruir hidrogênio. neste caso. a distinção entre fluxo e produção de entropia pode sempre fazer-se. Mas. embora não podendo ser invertida. é sempre positivo ou nulo: uma inversão das trocas com o meio não muda seu sinal. o fluxo de entropia é nulo. Mas as trocas com o meio provocam outras transformações no interior do sistema. Evocamos por diversas vezes o problema das “perdas”. A variação de entropia dS é. se passarmos do ciclo de Carnot a qualquer outro sistema termodinâmico. No caso dos ciclos não ideais.” Mesmo que se abandone o contexto cosmológico. A termodinâmica de Clausius não dá uma significação física precisa senão as transformações reversíveis. volume. Por outro lado. ou da difusão do calor descrita por Fourier. o desvio entre o ideal reversível e a transformação real que nunca o é totalmente. para Clausius. é preciso ir além do simples princípio de conservação da energia e achar o meio de exprimir. E é somente neste caso que uma inversão do sentido das trocas entre sistema e meio se traduz por uma inversão do sinal da variação da entropia. mas somente afirmar sua existência. Pois. quando a descrição física privilegia as transformações naturais que podem ser idealizadas como reversíveis. de fato. A entropia toma-se assim um “indicador de evolução” e traduz a existência na física de uma “flecha do tempo”. Depois de cada ciclo. uma função que não depende senão do valor dos parâmetros (pressão. justamente a termodinâmica de Clausius não procura definir os processos irreversíveis. pois. a distinção entre os fluxos “úteis aqueles que compensam exatamente uma conversão no decorrer do ciclo. O aumento de entropia não é . Die Entropie der Welt strebt einem Maximum zu. pode ser definida por uma relação de equivalência entre essa variação e as trocas com o meio que a provocam. A produção de entropia traduz uma evolução irreversível do sistema. por exemplo a quantidade de hidrogênio num recipiente. Só subsiste o termo de produção. subsistem para fazer lembrar no interior da física que a maior parte das evoluções naturais são intrinsecamente irreversíveis. O termo diS. Para todo o sistema isolado. em que o movimento se converte em calor. possui essas propriedades. retoma seu valor inicial.A Nova Aliança 95 de reversibilidade: contrariamente às transformações mecânicas. por isso. Tal é o caso do atrito. a entropia. ela limita-se a afirmar a existência da desigualdade diS/dt≥0. Notemos imediatamente o caráter único da decomposição da variação de entropia. a entropia121. uma transformação físico-química pode conservar a energia. Podemos. pois. o enunciado: a entropia de um sistema isolado aumenta até um máximo. o conjunto das transformações do sistema determinadas pelos fluxos de intercambio com o meio. a energia. tratava-se apenas de exprimir de uma forma nova a exigência que define todo o sistema motor: o seu retomo ao estado inicial. o primeiro é independente da direção do tempo. só as “perdas”. durante o tempo dt. Tal é o papel da função de estado S. durante um espaço de tempo muito curto dt. só essa definição vai permitir ir além da problemática das perdas do rendimento. o sinal do termo “produção” não é dado.

O objeto termodinâmico. De fato. que simplifica enormemente o estudo dos estados físicos da matéria. e a termodinâmica. esqueceu a maneira como foi preparado. e até mesmo que. nos processos irreversíveis que fazem baixar o rendimento. o equilíbrio aparece como um verdadeiro “atrativo” dos estados de não-equilíbrio e nós podemos generalizar nosso primeiro enunciado dizendo que a evolução para um estado atrativo é diferente de qualquer outra evolução e. A relação dS = deS + diS significa. da evolução que vai dum estado atrativo para um outro estado atrativo. existir processo cujo estado final fosse um objeto de atração menor para a natureza do que o estado inicial. nunca é controlado senão parcialmente. de o controlar. (É. pelo menos. que a evolução espontânea para o equilíbrio é de natureza diferente da evolução determinada e controlada por uma alteração das condições aos limites (tais como a temperatura ambiente). uma propriedade que distingue essencialmente os sistemas da dinâmica clássica dos da termodinâmica: o objeto termodinâmico. quer a pressão. a resposta a esta última questão aparecia como negativa para a maior parte dos investigadores: os dois princípios de termodinâmica constituíam leis fundamentais novas. Chegado ao equilíbrio. precisamos de sistemas formados de um número imenso de partículas 123 . aplicável ao mundo das massas em movimento. escreve Planck. por sua vez. uma circunstancia feliz. não pode. a oposição entre atrativo e lei do movimento abre o problema da articulação entre as duas descrições. e guarda eternamente a lembrança do seu ponto de partida (pois que as condições iniciais determinam definitivamente a trajetória). no fim. a irreversibilidade é definida negativamente. passa por uma série de estados de equilíbrio e a inversão da manipulação provoca. . pode lhe acontecer “escapar-se” numa evolução espontânea porque. alias. estado onde a entropia é máxima e onde nenhum processo produtor de entropia pode mais se produzir. do que pode ser idealizado e reduzido a transformações irreversíveis. idealmente. o sistema evolui sobre uma trajetória dada uma vez por todas. dada a infinita variedade de estados e de comportamentos dinâmicos realizáveis num sistema de 1023 partículas. descreve a aproximação do sistema em relação a um estado que o “atrai”. Mas Max Planck sublinhou claramente a diferença entre esses dois modos de evolução natural e a singularidade de certos estados que essa diferença revela. encontra-se ligado aos processos naturais de que o sistema é sede e que invariavelmente o levam para o equilíbrio. retrospectivamente. de compressibilidade. Mas este ponto de vista pode ser invertido e ver-se. e da possibilidade de passagem de uma a outra124. o toma possível. portanto. ou seja. 4. no sentido de que elas definem a possibilidade de agir sobre um sistema. é por isso que a passagem de um ao outro é possível. Estes. Tal era. num motor. põe-se infalivelmente a questão: como articular essas descrições? E um problema que não parou de ser discutido desde a formulação das leis da termodinâmica. é intrinsecamente irreversível. medir a natureza do gesto com o qual Carnot fundou a termodinâmica e fez silenciar as fornalhas. perante essa dualidade. base de uma ciência nova. pelo mesmo conjunto de propriedades. As mudanças reversíveis são um caso limite no qual a natureza tem tanta propensão para o estado inicial como para o estado final. Aqui. de maneira negativa. Do ponto de vista dinâmico. Mas. que era impossível reduzir à física tradicional.) Chegamos assim a duas descrições fundamentalmente diferentes: a dinâmica. portanto. o derradeiro trato que possa subsistir da atividade espontânea e intrínseca da matéria numa situação em que as manipulações conseguem canalizá-la. o processo de combustão produtor de movimento. a tese que os “energetistas” opunham aos “atomistas”. Pode-se. é controlável por suas condições aos limites: um sistema em equilíbrio termodinâmico do qual se mude muito progressivamente quer a temperatura. o calor específico ou a compressibilidade de um sistema em equilíbrio são propriedades características independentes da maneira como preparamos um sistema. que a natureza “privilegia” certos estados. Como esta linguagem é estranha a da dinâmica! Ali. A distancia entre o rendimento ideal e o rendimento real traduz então. era preciso aceitar como axiomas a diversidade qualitativa da energia e sua tendência a degradação. está praticamente excluído que um estado possa ser reproduzido. Neste quadro. o crescimento 98 Ilya Prigogine e Isabelle Stengers irreversível da entropia. quando definido em termos de suas transformações reversíveis. O objeto dinâmico era controlável por intermédio de suas condições iniciais: uma preparação adequada do sistema provoca a evolução desejada para este ou aquele estado predeterminado. ao contrario. contrariamente ao objeto dinâmico. ao dar-se as “dual fontes”. As transformações reversíveis pertencem à ciência clássica. No fim do século XIX. quando o sistema é compelido a evoluir. o sistema esqueceu suas condições iniciais. nos dois sentidos122. O que conta é a “bacia atrativa”: todos os sistemas com um estado pertencente a essa bacia se dirigem para o mesmo estado final. Parece. diS/dt. para que possamos falar de calor específico. nem todas as evoluções se equivalem. para ele. O caráter reversível da evolução e a submissão ao controle pelas condições aos limites são inteiramente solidários. “Colocando-se neste ponto de vista. que ela prefere e do qual não se afastará espontaneamente: aproximação irreversível. O Principio de Ordem de Boltzmann Como acabamos de ver. o retomo ao estado inicial. caracterizado pelo mesmo comportamento.A Nova Aliança 97 mais sinônimo de perdas. e só aparece como uma evolução “incontrolada” que se produz cada vez que o sistema escapa ao domínio. particularmente. todos os sistemas em estado de não-equilíbrio evoluem para o mesmo estado de equilíbrio. separava o que. Para um sistema isolado. base da ciência do complexo. Assim. quer o volume.

O principio de ordem de Boltzmann implica que o estado mais provavelmente acessível a um sistema é aquele em que os acontecimentos em tropel que se produzem simultaneamente nesse sistema compensam estatisticamente seus efeitos. Uma população de N partículas está dentro de uma caixa dividida em dois compartimentos iguais. como veremos adiante. Tomemos um exemplo simples da aplicação do conceito de probabilidade em física. Esse estado porá fim a evolução macroscópica irreversível do sistema: claro que as partículas não cessarão de passar duma metade á outra. ele acabará por chegar a um dos estados microscópicos que correspondem ao estado macroscópico máximo de desordem e de simetria. quanto maior for N. Para os N da ordem de 1023 dos sistemas macroscópicos.(n—1). pelo fato de ser formado de uma população numerosa. em mostrar que novo comportamento um sistema pode adaptar. em identificar essencialmente a entropia com o número de complexões. Pela primeira vez. a partir de agora. compreender a singularidade dos estados atrativos que são estudados pela termodinâmica de equilíbrio. Para retomar o exemplo de partida. encontrar conceitos físicos novos para ampliar a física das trajetórias as situações descritas pela termodinâmica. A inovação consistia em introduzir a probabilidade em física. ao contrario. mas sua fecundidade é desde já brilhante. mas realmente como principio explicativo. e pela mesma razão. do esquecimento progressivo de toda a dissimetria inicial. A idéia de Boltzmann consistiu. todo o estado diferente da equi-repartição pode. Para uma dada população. A questão que se põe é a de conhecer a probabilidade das diversas repartições possíveis das partículas entre os compartimentos. A análise combinatória permite calcular o número de maneiras como cada repartição diferente das N partículas pode ser efetuada. Estamos. e a repartição igual das oito partículas entre as duas metades pode ser realizada de 8!/4!4!=70 maneiras diferentes (em que n!=1. Esse esquecimento deriva do fato de que. Acabamos de analisar o caso de um sistema isolado: não somente o número de partículas mas a energia total do sistema são fixados pelas condições aos limites. o conjunto das partículas reunidas numa sub-região do sistema. N2)= N!/N1!N2!. mas como passarão. e não cessará de flutuar em volta do estado atrativo. 100 Ilya Prigogine e Isabelle Stengers Foi Boltzmann quem primeiro fez notar que se podia interpretar o crescimento irreversível da entropia como expressão do crescimento da desordem molecular. pois. N2. julgava ele. Claro que o estatuto dessa explicação continua problemático. Boltzmann foi o primeiro a enfrentar esse desafio: era preciso. a evolução do sistema acabará por levá-lo a equi-repartição N1 = N2. a entropia caracteriza cada estado microscópico pela medida do número de formas diferentes de realizar esse estado125. que Maxwell se inspirou na obra de Quételet.n). ou então a distribuição das velocidades que resulta da mistura de dois gases a temperaturas diferentes). o qual inventou o “homem médio” em sociologia. aliás.. ser qualificado de muito improvável. o número de complexões é tanto mais elevado quanto menor for a diferença entre N1 e N2 : será máximo quando a população estiver igualmente repartida entre as duas metades. O raciocínio de Boltzmann pode ser generalizado aos sistemas fechados e abertos que admitem um estado de equilíbrio. o estado macroscópico realizado pela quase totalidade de estados microscópicos nos quais se pode encontrar o sistema.2. P.3. portanto. A interpretação probabilista de Boltzmann permite. no conceito de probabilidade. mais se acentua a diferença entre os números de complexões correspondentes aos diversos modos de repartição. a esmagadora maioria dos estados microscópicos possíveis realizara esse estado. de uma fecundidade extraordinária para todo o desenvolvimento da física. P(N1. Assim. A importante fórmula de Boltzmann faz da evolução termodinâmica irreversível uma evolução para estados de probabilidade crescente. qualquer que seja N. Não era propriamente uma novidade o fato de a probabilidade intervir como auxiliar na descrição de um fenômeno complexo. se N = 8. O fator de proporcionalidade k é uma constante universal chamada constante de Boltzmann. em média e em cada instante. e as sete outras na segunda. Parece. porque toda dissimetria é improvável em relação ao estado correspondente ao número máximo de complexões.A Nova Aliança 99 recusavam renunciar ao que consideravam ser a própria ambição da física: reduzir a complexidade dos fenômenos naturais à simplicidade de comportamentos elementares. continuas. tanto numa direção como na outra. partículas no primeiro compartimento (e N2=N-N1. dando o número de maneira de realizar uma repartição particular N1. seja qual for a repartição inicial. e. no segundo). a esmagadora maioria das repetições particulares possíveis realizara a repartição N1 = N2 = N/2. A probabilidade chega para explicar o esquecimento de toda a dissimetria inicial. há uma única maneira de colocar as 8 partículas numa só metade. É de notar que. qualquer que seja a evolução particular do sistema. seguindo Maxwell. Para os sistemas compostos dum grande número de partículas. já existem oito maneiras diferentes de colocar uma partícula numa das metades.. pode definir-se um número de complexões. do estado atrativo. S = k Ln P. o sistema não se afastará desse estado senão por tempo e distancias muito curtos. e isto não a título de instrumento de aproximação. De fato. Esta inova0o conceptual foi procurá-la Boltzmann. a probabilidade de encontrar N. a questão da passagem entre os níveis microscópicos e macroscópicos ia revelar-se. porém pequenas e votadas a uma regressão rápida em volta de N1 = N2. inevitáveis. Uma vez nele. de toda a repartição particular (por exemplo. com efeito. um conceito físico foi explicado em termos de probabilidade. seus movimentos já só poderão provocar flutuações. No caso dum sistema fechado que as trocas . por conseguinte. muito longe de Newton. De maneira similar. quer dizer.

E a propriedade das coisas: ao que é natural. interage com seus vizinhos. quer examinemos uma célula ou uma cidade. mas pelo mínimo de uma função análoga. por sua vez. cada molécula. Elas são. o equilíbrio é um estado raro e precário. Antes de mais. a evolução para o equilíbrio. É importante precisar que as estruturas de equilíbrio constituem estruturas definidas á escala molecular. Contudo. F= E–TS. pode-se perguntar se as estruturas de equilíbrio bastam para interpretar os diversos fenômenos de estruturação que encontramos na natureza. morrem rapidamente. entre os fluxos que entram e saem. Está excluído que uma cidade. A hidrodinâmica. pelo menos sob dois pontos de vista. A termodinâmica de equilíbrio traz uma resposta satisfatória no que concerne a um número imenso de fenômenos físico-químicos. que até aqui permanece como nação estranha a discrição dinâmica e suas trajetórias deterministas. como os cristais: no seio de tais estruturas. na alta temperatura. Chegamos assim ao estado líquido. podem ser isoladas e manter-se indefinidamente. cada átomo. pois são parte integram-te do mundo que as nutre. Não vemos mesmo como aplicar o principio de ordem de Boltzmann a tais situações. Ao contrario. enfim. é necessário protege-lo dos fluxos que constituem a natureza. Para conseguir um sistema em equilíbrio. a energia domina. inertes a nível global. estreita-me no teu seio com ternura. em equilíbrio. se está assente que o equilíbrio constituí. o mesmo acontecerá a fortiori com a vida. as extrapolações tentadas a partir das . elas são igualmente 102 Ilya Prigogine e Isabelle Stengers imortais: uma vez formadas. a rigor. resta saber como justificar a introdução da própria probabilidade. Ora. que o vidro pode quebrar-se. A entropia S para um sistema isolado e a energia livre F para um sistema a temperatura T fixada são exemplos de “potenciais termodinâmicos”. é preciso “pô-lo numa redoma” — ou numa garrafa. Durante muito tempo. como vivem de sua abertura. E não é somente a natureza viva que é radicalmente estranha aos modelos da termodinâmica de equilíbrio. portanto. quando as “diferenças” criadas pelas condições iniciais são esquecidas. a ciência dos fluxos e das turbulências. de um alcance da ordem de cerca de 10-8cm (angstrom). uma cooperação de um número imenso de moléculas: é um estado privilegiado ao qual não pode corresponder senão um número de complexões relativamente pequeno. desprovidas de atividade macroscópica. é a entropia que é dominante e. e depois ao estado gasoso. com ela. Este é o ponto que aqui iremos estudar. Desde então. formam-se então estruturas ordenadas (entropia fraca) e baixa energia. As estruturas de equilíbrio resultam da compensação estatística da atividade da multidão de constituintes elementares. por seu turno. o que é artificial reclama um espaço fechado”. O extremo dum potencial termodinâmico define o estado atrativo para o qual tende espontaneamente todo o sistema cujas condições aos limites correspondam a definição desse potencial. podemos isolar um cristal. não é uma propriedade intrínseca da estrutura. pertence a fase cristalina. o número de complexões será maior. se a convecção e um “milagre”. Por outro lado. os físicos acreditaram poder definir a ordem inerte dos cristais como a única ordem física previsível e reprodutível. a meteorologia e a ciência da organização instável das massas de ar em função dos fluxos de matéria e de calor descrevem a natureza inanimada como a sede de fluxos incessantes que a constituem como ativa e organizada. Que um sistema se uniformize no decorrer do tempo. não pelo máximo da entropia. a energia livre. Mas que um movimento de convecção se produza espontaneamente. Num sentido. no Segundo Fausto de Goethe. se corresponde ao estado de probabilidade máxima dadas as condições aos limites. mal chega o Universo. separadas do seu meio. e a resposta é claramente negativa. mas não com força demasiada. uma noção estatística. a mesma constatação se impõe: não somente esses sistemas são abertos. evolua para uma compensação mútua. No mundo que conhecemos. e a evolução para a desordem e a inércia como a única evolução dedutível das leis fundamentais da física. onde E representa a energia do sistema. a desordem molecular. e as energias cinéticas são bastante pequenas para que essas forças de interação mantenham as partículas praticamente imóveis. que o principio de ordem de Boltzmann permite assim prever a formação de estruturas físicas ordenadas e descrever a coexistência de fases no seio de um sistema em equilíbrio: assim é o equilíbrio entre um produto cristalizado e esse mesmo produto em solução. Se assim o decidimos. constituem uma espécie de encarnação. mas a cidade e a célula. será certamente impossível de compreender desse ponto de vista.A Nova Aliança 101 térmicas com o meio mantém a uma temperatura T invariante. ser mesmo invertida. mas onde o não-equilíbrio seja a regra: um mundo “tépido”. local e singular. podemos compreendê-lo em termos de complexões — no estado uniforme. são as interações entre as moléculas. ela traduz somente a quantidade de matéria que. dos fluxos que elas não cessam de transformar. essa resposta fica incompleta. ou uma célula viva. o equilíbrio e definido. A questão da pertinência dos modelos de equilíbrio poderia. A dimensão do cristal. alimentam-se do fluxo de matéria e de energia que lhes vêm do mundo exterior. todavia. um equilíbrio. como o homúnculo frágil e artificial que. porque a torrente de convecção exige uma coerência. A estrutura desta fórmula traduz o fato de o equilíbrio resultar aqui de uma competição entre os fatores energéticos e entrópicos. sem ter mais necessidade de qualquer intercambio com o meio. E. implica um mundo suficientemente afastado do sol para que o isolamento dum sistema parcial seja concebível (não há “redoma” que resista à temperatura do sol). diz ao alquimista que o criou: “Vera. E a temperatura que determina os pesos relativos dos dois fatores: na baixa temperatura. que estabilizam o edifício cristalino e lhe conferem suas propriedades macroscópicas. Sublinhemos.

B. 110 JOULE. era estranha as preocupações do século XIX. 2. diante das degradações implacáveis do fogo. E. ou quase. ou ciclo falho. Como articular. 1975. CLAGETT. Minuit. 1975. 2.. e publicado em KUHN. evolução para a desordem. assim. quando o romance aparece. W. 1976. esquecimento das condições iniciais. eterno e valorizado. ed. p. LINDSAY. p. The Essential Tension. 273). no mundo em desordem crescente da termodinâmica? Que relação haverá entre o tempo termodinâmico da aproximação do equilíbrio e o tempo do devenir complexo.F. em La Distribution (Paris. Londres.90-91. The Conflict between Atomism and Conservation Theory. The transmission of Physics from France to Britain. nota 85 e BENTON. 11. 113 Ver referências no capítulo III. 106 106. 1978. Estes dois autores permitem entender a coincidência entre as exigências determinadas pela urgência industrial e a simplificação positivista dos problemas acumulados pelo século XVIII. 1975. ou absolutamente nada? 104 Ilya Prigogine e Isabelle Stengers 108 Para o que segue.cit. ciência das trajetórias eternas e reversíveis. 1948. 1978. das suas sociedades. 17-48. bem ao contrário. em The British Journal for the Philosophy of Science. La Civilisation de puissance. 1976. 293-319. Hutchinson and Ross. 1973. 1970. Heinemann. Matter. CARDWELL. 105 Citemos designadamente a introdução à Philosophie première de Auguste Comte (Paris. de Ostwald. pp. the Man and the Physicist. E. G. p. 104 HERIVEL. Séminaire II. pp. a tradução inglesa dos dois grandes artigos de Mayer. ao contrário do que se passa em mecânica. 107 Isso foi particularmente acentuado por Michel Serres. 321-354). M. em The Scientific Papers of James Prescott Joule. a cosmologia do sol. seleção estatística de acontecimentos raros. 1970 pp. com suas referências posteriores a Koyré. pp. não é qualquer situação de um sistema termodinâmico que constitui um estado desse sistema. sonha-se. B. 120 Foi preciso compreender designadamente que. I. irreversível. Nesta biografia. o nicho onde se podia dormir em paz. Quando a dinâmica. Dowden. que voltaram por outra porta. Paris. assim como o notável artigo de Thomas Kuhn. Paris. histórico e desvalorizado. reversível. e CROSLAND. no mundo inerte e submisso da dinâmica?”. Chicago. a primeira resposta dada pela física ao problema da complexidade da natureza. 1800-1840. Hermann. pp. Daí o dilema.. P. Herivel dá-nos um detalhe curioso: Fourier teria trazido do Egito uma doença que lhe acarretaria uma perda contínua de calor. pp. seres sensíveis e organizados. The University Press. Paris. uma cosmogonia. mediante a aplicação da doutrina energética e tendo em conta a ameaça de esgotamento e colapso nervoso no balanço de todo esforço intenso. Há um século que nossa cultura é dilacerada por esta questão nova: o que é a evolução dos seres vivos. isto é certo: então os arcaísmos culturais. 48-55. 1954-1955.S. 114 HELMHOLTZ. analisa os múltiplos mal-entendidos de Thomson e Tait perante a entropia de Clausius. Taylor and Francis. pp. 111 Ver este relato em Les grands hommes. 1974. Daub. pelas ciências da sociedade e da cultura: complexidade crescente. The Discovery of the Conservation of Energy.L. 112 Encontra-se-á em Energy: Historical Development of the Concept. Grasset.. a evolução darwiniana. em Studies in History and Philosophy of Science.A Nova Aliança 103 descrições termodinâmicas iam definir como rara e imprevisível a evolução típica descrita pelas ciências biológicas. Living Force and Heat. quando Carnot e outros quebraram para sempre a caixa. M. Lacan (L'Évolution psychiatrique. perdendo sua diferença. Bench-mark Papers on Energy. sem resíduos. Sonha-se com Laplace. das suas espécies.72. por exemplo.L. vol. SMITH.. W. 117 DELEUZE. de toda a configuração rara que Boltzmann descreve? Pergunta com justiça Roger Caillois126: “Podem Carnot e Darwin ter razão ao mesmo tempo?” A termodinâmica de equilíbrio constitui. para descobrir as condições de um rendimento ótimo da parte deles. Essa resposta formula-se como dissipação da energia. vol 5. em Historical Studies in the Physical Sciences. Pennsylvania. braseiro purificante ou fogo maligno?" 119 A filiação intelectual é sublinhada por CARDWELL (From Watt to Clausius) e SCOTT. vol. positivo e selvagem: ciclo perfeito. J. H. R. fasc. On the Forces of Inorganic Nature e The Motions of Organisms and their Relation to Metabolism. eber die Erhaltung der Kraft.109). na verdade. ed. um conceito como o da pressão encontrar-se-á desde então definido pelo protocolo experimental que permite medi-la. 1975): Auguste Comte autotraduit dans L'encyclopédie. uma termogonia do fogo que se deve apagar ou destruir. T. amplificação de inovações. ver ELKANA. Assinalemos a intrépida leitura dada por J.. Londres. 1977). . 103 Acerca da novidade da questão físico-química. 116 Feux et signaux de brume. abriu-se sobre a estabilidade real do sistema solar e está agora cheio de angústia. 72). 263-298). 109 Elkana dedicou-se a seguir a lenta precipitação do conceito de energia (ver Helmholtz's Kraft: an Illustration of Concepts in Flux. The Conflict between Atomism and Conservation Theory. de. o livro baseia-se na análise biográfica de homens de ciência conhecidos do século XIX. C. vol. 9. From Watt to Clausius. escreve: "O século que se acaba. Fayard. para a história dos progressos da ciência do calor no contexto da idade industrial. 1884. isto numa óptica meyersoniana perfeitamente coerente. 1971. 265-276 (citação p. livro II. esse tempo que Bergson dizia ser invenção. E esse ponto de vista é o da degradação e da morte. e isto sem falta. Natural Philosophy and Thermodynamics: William Thomson and the Dynamical Theory of Heat. convém precisar. vol. a termodinâmica de equilíbrio foi capaz de opor ao ponto de vista das outras ciências o seu próprio ponto de vista acerca do tempo. Vitalism in the I\ ineteenth Century Scientific Though: A Typology and Reassesment. Notas 102 JOUVENEL. em Historical Studies em the Physical Sciences. 118 Michel Serres. por outra abertura da mesma porta. pp. e. Nietzsche et la philosophie. com a desaparição estatística de toda a particularidade. em La Traduction (Paris. vol. Já na sua tese (1932). reativam-se poderosamente: chama imortal. Y. antes que suas propriedades de função de estado sejam bem compreendidas. 1-61. II. ver SCOTT. Zola. Le Moi dans la théorie de Freud et dans la technique de psychanalyse. Lacan sublinhava o caráter essencial do conceito de energia. J. Paris. Minuit. op. Oxford Clarendon Press. em Entropy and Dissipation (Historical Studies in the Physical Sciences. 9. e o belíssimo "Turner traduit Carnot" (em La Traduction). J. 1977). no seu estudo sobre o Docteur Pascal de Zola (Feux et signaux de brume. Já Diderot colocava a questão: “Que somos nós. 1974) e a seção Nuage.L. Energy Conservation as an Example of Simultaneous Discovery (publicado originalmente em Critical Problems in the History of Science. D.. p. Seuil. Joseph Fourier. ver referências citadas na nota 105.U. 115 LACAN. I.

Paris. mas viram na conservação das diferenças de energia (necessária a toda transformação porque só uma diferença de energia pode produzir uma outra diferença) um caso "apenas ideal. Albin Michel. 123 Introduziu-se. encontrado uma posição muito próxima daquela que reconhecemos em Lagrange. mas que seria a única suscetível de um tratamento rigoroso. Paris. Paris. Este número é da ordem de 6. na conservação da energia uma propriedade apenas de casos idéias. 1941. assim. na química física. R.A Nova Aliança 105 121 PLANCK. queriam dar o mesmo estatuto a todas as energias. 1973. pp.1023. como este. como Ostwald. 18-19. M. Initiations à la physique. Os energistas. em Cohérences aventureuses. Em lugar de ver. eles fizeram da conservação da energia uma propriedade de toda transformação físico-química. a queda de um corpo entre dois níveis de altitude constituía a aplicação de uma diferença produtora essencialmente da mesma natureza da passagem de calor entre dois corpos de temperaturas diferentes: essa assimilação eliminava a distinção entre um processo idealmente reversível. mas que só ele pode ser objeto de ciência rigorosa". sendo essa a ordem de grandeza característica do número de partículas que constituem os sistemas regidos pelas leis da termodinâmica clássica. enquanto que os números de complexões são multiplicativos (P1+2 = P1 . Procedimento. (Autobiographie Scientifique. p. 122 PLANCK. de fato. 125 A relação logarítmica traduz o fato de a entropia ser uma grandeza aditiva (S1+2 = S1 + S2). M. 1960) lembra quão isolado estava quando sublinhou a singularidade do calor e recordou que é a conversão de calor numa outra energia que suscita problemas. e um processo intrinsecamente irreversível. . como um movimento mecânico. Gallimard. 1927). e concluiu mostrando que Boltzmann resolveu o problema identificando energia utilizável e (como veremos) estado improvável. número de moléculas num "mol" de matéria (todo "mol" contém o mesmo número de partículas: o número de átomos de hidrogênio num grama). como a difusão do calor. 198. o número de Avogadro. P2). 126 CAILLOIS. Flammarion. Abel Rey relatou todos os esforços despendidos pelos físicos do século XIX para escapar a uma definição pragmatista da irreversibilidade (dissipação da energia utilizável). 124 Em Le Retour éternel et la philosophie de la physique (Paris. Para eles. collection Idées. Flammarion. La dissymétrie. os energistas tinham.