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Tribunal de

Justiça
RIO GRANDE DO

NORTE

FL.______________

Poder Judiciário
Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte
Agravo Regimental em Pedido de Suspensão de Liminar n°
2016.002200-5/0001.00
Agravante:

Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Natal - SINSENAT

Advogado:

Gustavo Henrique Freire Barbosa

Agravado:

Município de Natal

Procurador: Carlos Santa Rosa D'Albuquerque Castim
Relator:

Desembargador Cláudio Santos - Presidente

EMENTA:

PROCESSUAL

CIVIL.

AGRAVO

REGIMENTAL. DECISÃO QUE DEFERIU PEDIDO DE
SUSPENSÃO

DE LIMINAR.

IMPOSSIBILIDADE

MATERIAL DO ENTE PÚBLICO EM MANTER O
CALENDÁRIO DE PAGAMENTO DOS SERVIDORES.
SIGNIFICATIVA
GRAVE

FRUSTRAÇÃO

LESÃO

CONFIGURADA.

À

DAS

RECEITAS.

ECONOMIA

PÚBLICA

REALIZAÇÃO

DE

EVENTOS

CULTURAIS PELO MUNICÍPIO. DEMONSTRAÇÃO
DE QUE OS GASTOS FORAM CUSTEADOS COM
RECURSOS

FEDERAIS

PATROCÍNIO PRIVADO.

VINCULADOS

E

AGRAVO REGIMENTAL

CONHECIDO E DESPROVIDO.
ACÓRDÃO

Vistos relatados e discutidos estes autos, acordam os
Desembargadores que integram o Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Rio
Grande do Norte, em sessão plenária, à unanimidade de votos, em conhecer e negar
provimento ao Agravo Regimental, nos termos do voto do Relator, que integra o
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julgado.
RELATÓRIO

Trata-se de Agravo Regimental interposto pelo Sindicato
dos Servidores Públicos Municipais de Natal/RN - SINSENAT, em face da decisão de
fls. 59/72, proferida pela Presidência desta Corte, que deferiu o pedido de suspensão
de liminar requerido pelo Município de Natal, para suspender a decisão prolatada pelo
MM Juiz de Direito da 1ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de Natal, nos autos da
Ação Ordinária nº 0802919-70.2016.8.20.5001, que determinou a realização do
pagamento dos vencimentos dos servidores do Município de Natal até o último dia do
mês de referência.
Nas suas razões recursais, às fls. 74/103, o Sindicato
agravante afirmou que "a decisão agravada contraria de modo frontal e direto o artigo
4º, caput, da Lei n. 8.437/92, visto que despesa corrente e regular não representa
'desordem' à ordem econômica pública", ressaltando que "não configura lesão ou risco
de lesão à ordem ou à economia pública o pagamento de remuneração dos servidores
públicos municipais, na data de vencimento fixada na Lei Orgânica, pois se trata de
despesa corrente, regular e com previsão orçamentária". (destaque do original)
Alegou que "a despesa com pessoal é algo de há muito
regulada pelo Direito das Finanças Públicas, pela Lei de Responsabilidade Fiscal e
pela dinâmica administrativa do Município. A despesa é pré-existente à decisão
liminar do Douto Juízo de Primeiro Grau e, sendo corrente e regular, com data
fixada em Lei, não pode ser considerada critério para caracterizar grave lesão à
ordem e à economia públicas". (destaque do original)

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Aduziu que "a decisão agravada, ao acolher o pedido do
ente municipal, apresentou decisão de mérito da causa, esgotando-o. Isto é, a
decisão agravada representa julgamento já definitivo da situação, mediante critério
que sequer se encontra enumerado no artigo 4º, caput, da Lei n. 8.437/92". (destaquei)
Asseverou que "as alegações vazias – desprovidas de
elementos de prova e de consistência argumentativa minimamente razoável – de que a
decisão causaria lesão à economia pública não se prestam para desnaturar a pretensão
de reforma da decisão". (destaque do original)
Defendeu, ainda, que o argumento de crise financeira
utilizado pelo Município de Natal para justificar a mudança no calendário de
pagamento dos servidores não se sustenta, porque o Município continua realizando
gastos vultosos com festejos, iluminação natalina, etc.
Destacou que "a 'tese da crise' ora acatada deve ser
imediatamente revertida, reformando-se a decisão agravada, uma vez que culmina
numa contradição perigosa ao Estado Democrático de Direito". (destaque do original)
Sustentou que "a mensagem da decisão agravada é de que
os Poderes Executivos municipais podem e devem fazer gastos extraordinários,
despesas incomuns e inesperadas, realizar custeios de supérfluo, inclusive, para
tanto, podem e devem atrasar o pagamento dos salários das pessoas, que são
despesas correntes, regulares e previstas e esperadas para garantir o pão de cada dia
das pessoas". (destaque do original)
Enfatizou que a decisão de fls. 59/72 causa ofensa ao
pacto federativo, ao princípio da separação de poderes, ao princípio da legalidade e à
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autonomia do Município, representando ingerência e intervenção no ente estatal, com
violação à Lei Orgânica municipal.
Concluiu suas razões de recurso afirmando que "a reforma
da decisão monocrática agravada e a consequente manutenção da eficácia da tutela de
urgência deferida pelo juízo de primeiro grau se harmonizam plenamente com um dos
pilares essenciais do ordenamento jurídico pátrio, a saber, a garantia dos direitos
sociais consagrada no caput do artigo 6º, da Lei Maior".
Por fim pugnou pelo conhecimento e provimento do
presente Agravo Regimental, para reformar a decisão agravada, a fim de se determinar
a manutenção dos efeitos da decisão liminar concedida nos autos da Ação Ordinária nº
0802919-70.2016.8.20.5001.
O Município de Natal peticionou, às fls. 116/119,
esclarecendo que "celebrou convênios com o Ministério do Turismo, resultando nos
Convênios Mtur/Município de Natal – RN/nº 821584 e nº 818170/2015. Nos termos
dos referidos instrumentos convencionais, a União (firmado através do Ministério do
Turismo) ficou obrigada a repassar recursos federais vinculados, exclusivamente,
para realização dos eventos 'Festival de Música de Natal 2015' e '416º Aniversário da
Cidade de Natal/RN'. Para tanto, foi editado o Decreto nº 10.926/2015, destinando o
montante de R$ 650.880,00 ) provenientes de recursos federais destes mesmos
convênios) para a Secretaria Municipal de Turismo, a fim de cumprir o plano de
trabalho previamente fixado pelo Ministério do Turismo". (destaque do original)
Asseverou que "para o Carnaval de 2016, a Prefeitura
firmou 'Contratos de Patrocínio' com entidades e empresas privadas. Por estes
instrumentos contratuais, os 'Patrocinadores' transferiram ao Município recursos
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privados voltados à realização de tal evento". (destaque do original)
Disse que os recursos federais e os privados só podem ser
empregados na promoção dos eventos culturais para os quais foram destinados, "não
podendo dar outra destinação. Caso os montantes não forem utilizados, deverão
retornar à União e às empresas patrocinadoras".
Ao final, pugnou pelo improvimento do recurso.
É o relatório.

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VOTO

Presentes os requisitos de admissibilidade, conheço do
recurso.
Conforme já relatado, o Agravo Regimental foi interposto
pelo Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Natal/RN - SINSENAT, em
face da decisão de fls. 59/72, proferida pela Presidência desta Corte, que deferiu o
pedido de suspensão de liminar requerido pelo Município de Natal, para suspender a
decisão prolatada pelo MM Juiz de Direito da 1ª Vara da Fazenda Pública da Comarca
de Natal, nos autos da Ação Ordinária nº 0802919-70.2016.8.20.5001, que determinou
a realização do pagamento dos vencimentos dos servidores do Município de Natal até
o último dia do mês de referência.
Em suas razões recursais, o Sindicato agravante alegou, em
suma, que "a decisão agravada contraria de modo frontal e direto o artigo 4º, caput,
da Lei n. 8.437/92, visto que despesa corrente e regular não representa 'desordem' à
ordem ecônomica pública", ressaltando que "não configura lesão ou risco de lesão à
ordem ou à economia pública o pagamento de remuneração dos servidores públicos
municipais, na data de vencimento fixada na Lei Orgânica, pois se trata de despesa
corrente, regular e com previsão orçamentária", pugnando, assim, pela reforma na
decisão. (destaque do original)
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De início, é válido registrar

que compete a cada ente

político (União, Estados, Município e Distrito Federal) elaborar o Orçamento Público,
por meio da Lei Orçamentária Anual, que deverá conter a discriminação das receitas e
despesas previstas para aquele período.
As despesas do ente público devem corresponder à
estimativa de arrecadação de receitas, atendendo-se ao princípio do equilíbrio
orçamentário, de modo que não é permitido a nenhum ente federativo possuir mais
gastos públicos que a arrecadação de receitas.

A atuação do gestor público, portanto, deve ser pautada na
responsabilidade fiscal,

com vistas à prevenção de riscos e correção de desvios

capazes de afetar o equilíbrio das contas públicas, mediante o cumprimento de metas
de resultados entre receitas e despesas (art. 1º, § 1º, da Lei de Responsabilidade Fiscal
– 101/2000).

Pode ocorrer, entretanto, de a receita prevista ou estimada
para determinado exercício financeiro não se concretizar, de modo que o volume de
recursos que deveria ingressar no patrimônio do ente público, para fazer frente às
despesas previstas na lei orçamentária, restaria frustrado.
Dito isto, constata-se que o cenário econômico do Brasil é
de crise, sendo diariamente noticiado pela impressa nacional o crescimento do
desemprego, o aumento da inflação, o fechamento de empresas e indústrias, e a
consequente queda na arrecadação de impostos, sejam eles federais, estaduais e
municipais1.
1

http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2016-03/arrecadacao-de-impostos-tem-queda-real-de-1153.
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/03/1750059-taxa-de-desemprego-do-brasil-cresce-para-85-na-medi
a-de-2015.shtml

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A situação não é diferente para o Município de Natal. Em
reportagem publicada no jornal Tribuna do Norte, em 26 de abril do corrente ano,
este veículo de comunicação noticia que já são "mais de 500 portas fechadas, seja em
loja de comércio de rua ou shopping. Sejam estabelecimentos em bairros nobres da
Zona Sul e Leste, que antes abrigavam redutos de entretenimento e gastronomia, uma
cena se torna mais comum: em vez de portas abertas e ambientes lotados, placas de
aluguel indicam o fim da atividade comercial. O número de empresas que encerram
formalmente as atividades no Rio Grande do Norte, nos dois primeiros meses de
2016, saltou 86% em relação ao mesmo período do ano passado e já corresponde a
20% do total registrado ao longo 2015 (2.543). São 504 empresas extintas, segundo
dados da Junta Comercial do Rio Grande do Norte, em janeiro e fevereiro de 2016,
frente as 271 do primeiro bimestre do ano passado".
Como se sabe, o encerramento das atividades comerciais de
empresas localizadas no Município de Natal implica na redução da arrecadação de
tributos, causando, por conseguinte, déficit nas contas do Município.

Tal fato, conforme já ressaltado na decisão de fls. 59/72,
acarretou a impossibilidade material do Município de Natal na realização de
pagamento de seus servidores no último dia útil de cada mês, como previsto na Lei
Orgânica Municipal (art. 76, inciso IV).
Logo,

a alteração do calendário de pagamento dos

servidores, com a prorrogação para o quinto dia útil do mês subsequente, representa
medida proporcional e razoável, diante da crise financeira que assola o nosso país.
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/01/1726866-producao-de-veiculos-pesados-e-carros-cai-228-em-20
15.shtml
http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/11/vendas-no-comercio-caem-05-em-setembro-diz-ibge.html

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Neste sentido, há inúmeras decisões proferidas pelo
Supremo Tribunal Federal em Suspensões de Segurança, nas quais restou configurado
o risco de grave lesão à ordem pública decorrente da manutenção de decisões judiciais
determinando que os entes públicos realizassem o pagamento dos servidores nos
termos da Lei Orgânica ou da Constituição Estadual, em detrimento da realidade
financeira do país, e, por conseguinte, do ente político.
No

bojo

das

referidas

decisões,

destaca-se

como

fundamento a ausência de recursos financeiros suficientes para o cumprimento das
obrigações salariais até o último dia útil do mês trabalhado, sem sacrificar verbas
destinadas à saúde, à educação e aos programas sociais. A esse respeito, confira-se:

"(...) O ato da Chefe do Poder Executivo do Estado do Rio
Grande do Sul enquadra-se numa situação excepcional,
em que as finanças públicas estaduais encontram-se em
crise. As garantias constitucionais da irredutibilidade e do
pagamento em dia da remuneração dos servidores públicos
devem

ser

interpretadas,

nesse

contexto

fático

extraordinário, conforme o" pensamento do possível".
Neste juízo sumário de delibação, portanto, entendo que a
medida adotada pela Governadora do Estado do Rio
Grande do Sul não desborda dos parâmetros de
proporcionalidade e razoabilidade, tendo em vista a
situação excepcional em que se encontram as contas
públicas estaduais. Não vislumbro afronta às garantias
constitucionais em

referência

ou ao princípio da

http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/02/cnc-preve-queda-de-39-nas-vendas-do-comercio-em-2016.html

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moralidade pública. Ressalte-se, outrossim, que não há,
no caso, redução de remuneração. Ademais, o Estado do
Rio Grande do Sul não está se recusando a pagar a
remuneração de seus servidores, mas apenas prorrogando
parte desse pagamento até o dia 10 de abril do presente
ano, por absoluta impossibilidade financeira. A medida é
tópica, abrangendo apenas o pagamento da remuneração
atinente ao mês de março de 2007, o que demonstra a sua
adoção num quadro de força maior, de extrema e
excepcional necessidade. Assim, entendo que se encontra
devidamente configurada a ocorrência de grave lesão à
ordem pública, considerada em termos de ordem
administrativa. Está devidamente demonstrada, ainda, a
existência de grave lesão à economia pública estadual, na
medida em que o cumprimento da decisão ora impugnada
gerará o pagamento imediato de aproximadamente
R$(três milhões de reais), conforme informações da
Secretaria de Fazenda do Estado do Rio Grande do Sul.
"(SS 1.836-AgR/RJ, rel. Min. Carlos Velloso, Plenário,
unânime, DJ 11.10.2001), diante da existência de inúmeros
servidores em situação potencialmente idêntica àquela dos
associados da impetrante. Ante o exposto, defiro o pedido
para suspender a execução da liminar deferida pelo
desembargador relator do Mandado de Segurança nº
70019045624.Comunique-se, com urgência. Publique-se.
Brasília, 28 de março de 2007. Ministro GILMAR
MENDES Vice-Presidente (RISTF, art. 37, I) 1 1 (STF SS: 3154 RS, Relator: Min. PRESIDENTE, Data de
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Julgamento: 28/03/2007,

Data de Publicação: DJ

09/04/2007 PP-00017). (destaquei)

"(...) 5. O art. 4º da Lei 4.348/64 autoriza o deferimento do
pedido de suspensão de segurança para evitar grave lesão
à ordem, à saúde, à segurança e à economia públicas. No
presente caso, entendo que se encontra devidamente
demonstrada a ocorrência de grave lesão à ordem
pública, em sua acepção administrativa. Com efeito,
verifico que a Administração Pública estadual não dispõe
de recursos financeiros suficientes para o cumprimento
de todas as suas obrigações salariais até o último dia útil
do mês em que o serviço é prestado, sem sacrificar verbas
destinadas à saúde, à educação e aos programas sociais
mantidos pelo Estado do Rio Grande do Sul, razão por
que a Chefe do Poder Executivo estadual foi forçada a
optar pela medida que entendeu ser a mais razoável para
a solução do problema, sem se furtar à sua obrigação de
pagar os vencimentos, proventos e pensões devidos a seus
servidores ativos, inativos e pensionistas. É que o Estado
do Rio Grande do Sul enfrenta cenário de dificuldades de
conciliação

entre

o

integral

pagamento

de

suas

obrigações salariais até o último dia útil do mês e o
atendimento

das

despesas

estatais

obrigatórias.

Dos

fundamentos

do

essenciais
acórdão

e
ora

impugnado, extraio que o Poder Judiciário estadual, ao
conceder a ordem, substituiu a Administração em seu
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juízo político, elegendo as prioridades do Poder Executivo
estadual,

atividade

para

a

qual foi

soberana

e

democraticamente eleita a Governadora do Estado do Rio
Grande

do

Sul.

No

caso

ora

em

análise,

a

Desembargadora Maria Berenice Dias, ao inaugurar a
divergência em relação ao voto do relator, Desembargador
Araken de Assis, consignou, verbis:"A matéria enseja uma
visão singela. Estamos em sede de mandado de segurança,
no qual o que se examina é a legalidade do ato praticado.
Havendo chancela da nossa Constituição Estadual dando
ensejo a esse não-pagamento, não vejo como, ao menos
nesta

sede,

se

possa

discutir

a

conveniência,

a

oportunidade e a necessidade. Afora isso, temos mais a
decisão do Supremo Tribunal Federal admitindo essa
possibilidade. Então, não vejo como não entender como
uma quase indevida interferência do Poder Judiciário na
atividade da Senhora Governadora, que, ao contrário do
que aqui dito pelo eminente Colega Stefanello, creio, sim,
está implantando um novo jeito de governar, porque está
encarando com muita responsabilidade a obrigação do
Estado. São sabidas as nossas dificuldades, principalmente
porque, antes mesmo de assumir, houve uma redução
injustificada, quase, da receita do Estado, e por isso que
estamos passando por essa circunstância. Temos a
responsabilidade, como Órgão do Estado, de atentarmos a
isso."(Fl. 75) Está devidamente demonstrada, também, a
ocorrência de grave lesão à economia pública estadual,
dado que o cumprimento do acórdão ora impugnado
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implicará o pagamento imediato de R$(cento e oitenta e
dois mil, novecentos e sessenta e cinco reais e vinte e
quatro centavos), segundo informações da Secretaria de
Fazenda do Estado do Rio Grande do Sul, o que
certamente forçará a Administração Pública estadual a
promover uma nova alocação de seus recursos, deixando
de cumprir parte de seus compromissos financeiros.
Assevere-se, ainda, que o Poder Executivo estadual não
deixará de pagar a remuneração de seus servidores ativos,
inativos e pensionistas, pois somente postergou parte desse
pagamento para o dia 10 do mês seguinte, por exaustão
financeira. Constato, ademais, que poderá haver, no
presente caso, o denominado"efeito multiplicador"(SS
1.836-AgR/RJ,

rel.

Min.

Carlos

Velloso,

Plenário,

unânime, DJ 11.10.2001), tendo em vista a existência de
outros servidores ativos, inativos e pensionistas em
situação igual àquela dos associados do impetrante e que
não foram alcançados pela decisão proferida nos autos da
Suspensão de Segurança 3.154/RS. Ressalte-se que o
Ministro Gilmar Mendes, no exercício da Presidência
desta Casa, ao julgar a Suspensão de Segurança 3.154/RS,
DJ 09.4.2007, caso igual ao presente, decidiu, com
fundamento no "pensamento do possível", no sentido de
que a eficácia da norma do art. 35 da Constituição do
Estado do Rio Grande do Sul depende de um estado de
normalidade das finanças públicas estaduais, o que
certamente não ocorre no momento atual. Considero que
as mesmas razões de ordem fática que levaram o Estado
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do Rio Grande do Sul a fracionar, em março deste ano, o
pagamento dos servidores e pensionistas estão presentes
neste novo parcelamento. Vivenciada, lamentavelmente,
mais uma vez, uma nova situação de insuficiência
financeira temporária do Estado do Rio Grande do Sul,
gerada pelo déficit entre os recursos públicos disponíveis
e as suas despesas estatais essenciais e obrigatórias,
entendo não ser vedado à Chefe do Poder Executivo
estadual, sensível a essa dramática circunstância, decidir,
com razoabilidade, por um excepcional parcelamento de
parte dos pagamentos de seus servidores ativos, inativos e
pensionistas , principalmente porque não se atingiu a
grande maioria de seu funcionalismo público, pois
apenas 15,5% (quinze vírgula cinco por cento) dos
servidores e pensionistas terão, neste mês, o seu
pagamento diferido no tempo, segundo noticia o
requerente (fls. 33-36).É de se observar, portanto, que a
Governadora do Estado buscou, por meio de medidas
excepcionais e absolutamente necessárias ao reequilíbrio
financeiro do Estado do Rio Grande do Sul, conformar o
dever do Estado de pagar seus servidores ativos, inativos e
pensionistas com as limitações financeiras temporárias
dos cofres públicos gaúchos, realidade que não pode ser
afastada ou ignorada pelo Poder Judiciário e mesmo por
aqueles que tiveram o pagamento de seus vencimentos,
proventos e pensões desmembrados. 6. Ante o exposto,
defiro o pedido para suspender a execução da segurança
concedida pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça do
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Estado do Rio Grande do Sul nos autos do Mandado de
Segurança nº 70019092733. Comunique-se, com urgência.
Publique-se. Brasília, 30 de novembro de 2007.Ministra
Ellen Gracie Presidente (STF - SS: 3454 RS, Relator: Min.
PRESIDENTE, Data de Julgamento: 30/11/2007, Data de
Publicação: DJe-156 DIVULG 05/12/2007 PUBLIC
06/12/2007 DJ 06/12/2007 PP-00035). (destaquei)
No tocante ao argumento apresentado pelo Sindicato dos
Servidores Públicos Municipais de Natal – SINSENAT, ora agravante, de que o
Município de Natal teria realizado gastos vultosos com despesas não essenciais, como
a contratação de shows e artistas para espetáculos de Natal e Carnaval, constata-se,
por meio dos inúmeros documentos, anexados aos autos pela Município de Natal (fls.
120-232), que os recursos financeiros utilizados para o pagamento dessas despesas
foram repasses de verbas federais obtidas por meio de convênios celebrados com o
Ministério do Turismo (Convênios MTur/Município de Natal – RN/ nº 821584 e nº
818170/2015), e por intermédio de contratos de patrocínio firmados com entidades e
empresas privadas, as quais promoveram o custeio dos eventos culturais na cidade.
Desse modo, os recursos utilizados pelo Município de
Natal não poderiam ter sido empregados para outros fins, senão aqueles previstos nos
convênios e nos contratos de patrocínio firmados, situação que invalida a alegação do
Sindicato agravante.
Convém registrar, por fim, que o servidor público, seja ele
municipal, estadual ou federal não pode ser alheio à realidade que o cerca. O Brasil
vem enfrentando uma crise financeira sem precedentes, com inúmeras fábricas,
empresas, lojas e prestadores de serviços encerrando suas atividades, o que implica no
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aumento do índice de desemprego, que só neste último trimestre, atingiu a
impressionante taxa de 11,3% da população desocupada, segundo dados do IBGE, o
que representa 11,6 milhões de pessoas sem trabalho.
Registre-se, por fim, que a situação do Município de Natal
pode ser configurada como caótica. Com efeito, verifica-se do Relatório produzido
pela Secretaria Municipal de Planejamento – SEMPLA (fls. 235/241) que a Edilidade
tem um déficit, no mês de junho/2016, de R$ 39.317.649,67 (trinta e nove milhões,
trezentos e dezessete mil, seiscentos e quarenta e nove reais e sessenta e sete
centavos).
O mesmo Relatório informa que a despesa com pessoal
representa 53,9% da Receita Corrente Líquida, no primeiro quadrimestre de 2016,
tendo praticamente atingido o limite máximo permitido pela Lei de Responsabilidade
Fiscal (54%).

Quanto à conjuntura econômica, o referido Relatório
demonstra que houve uma frustração de receita no montante de R$ 110.253.000,00
(cento e dez milhões, duzentos e cinquenta e três mil reais), em decorrência do cenário
econômico adverso pelo qual passa o País, com significativa redução das
transferências da União, e aquém da previsão orçamentária quanto as do Estado.
Nesse contexto, o descumprimento do

calendário de

pagamento dos servidores, ao que se evidencia, não representa má gestão da
administração municipal, mas, sim, impossibilidade material para fazer frente às
diversas despesas públicas, tendo em vista a expressiva redução na arrecadação.

Isso posto, conheço e nego provimento ao Agravo
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Regimental, mantendo a decisão agravada por seus próprios fundamentos.

É como voto.
Natal, 10 de agosto de 2016.

Desembargador CLÁUDIO SANTOS
Presidente/Relator

Doutor JOVINO PEREIRA DA COSTA SOBRINHO
Procurador Geral de Justiça em substituição

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