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Revista  Estudos  Hum(e)anos  

ISSN 2177-1006

Número 4, 2012/01

Nem tudo o que é sólido se desmancha no ar: Zizek e as causas perdidas
Tatiana Rotolo é doutora em Ciência Política pela UNB e leciona no Instituto Federal
de Brasília.
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Resenha do livro:
ZIZEK, Slavoj. Em Defesa das Causas Perdidas. São Paulo, Boitempo, 2007, 480 p.
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Já conhecido do público brasileiro, Slavoj Zizek, filósofo político, marxista e
psicanalista, insere-se entre os grandes pensadores do nosso tempo. A mais recente
publicação de Zizek no Brasil, Em Defesa das Causas Perdidas, é uma grande
provocação aos leitores. Trata-se de um livro que, como seus trabalhos anteriores,
utiliza a psicanálise e a filosofia para interpretar e criticar o mundo contemporâneo,
perdido entre o suposto “fim da história” neoliberal e o que ele chama de “pasmaceira
da esquerda contemporânea”. Tudo com um intuito bem claro: defender uma proposta
emancipatória, de inspiração marxista, para a humanidade. Para Zizek, o marxismo e a
psicanálise são as duas grandes fontes de inspiração para se compreender o mundo
contemporâneo. Isto porque tanto uma como a outra são teorias dialéticas,
eminentemente enraizadas na realidade. A primeira na realidade das sociedades e a
segunda, na realidade da constituição dos sujeitos. Em ambas, esta realidade está
fincada no desenvolvimento social e histórico. Justamente por isto é que elas são chaves
de leitura fundamentais nos dias de hoje: visam compreender o Real em seus recônditos
mais escondidos.
Zizek parte da premissa fundamental de que é a ideologia que move o mundo atual. Tal
como Marx, a ideologia está profundamente imbricada na realidade social e política.
Seu intuito Em Defesa das Causas Perdidas é desvelar como funciona a ideologia no
mundo contemporâneo, isto é, daquilo que fazemos mas não sabemos que fazemos, na
mais fiel filiação à definição de Marx. Isto não através de um tratado teórico ou da
análise exaustiva de um ou mais autores. Ele fala através do cinema, da literatura, dos
objetos de consumo, da teoria social e principalmente dos eventos e experiências
políticas tanto do passado como atuais. Ele traz a tona uma antiga lição que em muitos
momentos a filosofia parece se esquecer: filosofar é, sobretudo, olhar para o presente,
para a realpolitik, a cultura e os fatos do cotidiano. Ou seja, ele desvela a realidade a
partir daquilo que ela apresenta de mais elementar. Neste sentido, o livro do filósofo
esloveno é um lúcido apelo para que não nos deixemos convencer por ideias prontas e
exaustivamente repetidas. Para que não simplesmente adotemos modismos acadêmicos,
alguns aspectos da pós-modernidade e algumas posições políticas de maneira irrefletida.
É por isso que nosso autor faz questão de nadar contra a maré, e ressuscitar um punhado
de ideias tidas como mortas e enterradas. Em outras palavras, o que Zizek faz neste
trabalho é revisitar as teses do passado, com os pés cravados no presente e os olhos
voltados para o futuro.
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fatos e ações grandiosas. que. É justamente este efeito turbulento e devastador. Não se pode condená-las em bloco. numa linguagem repleta de referências atuais e valendo-se de um conceitual contemporâneo. o livro de Zizek se compõe também como um ataque a presença acachapante dessa democracia neoliberal nos modos de pensar e se fazer política hoje. o stalinismo. realizaram. Em defesa das causas perdidas procura. ainda segundo ele. Tal característica. por mais cruéis e anti-democráticas que tivessem sido. refratários ás suas ideias. O centro das críticas de Zizek é um só: as democracias liberais contemporâneas. É nesse sentido que ele vai reler as experiências totalitárias e autoritárias: ao menos nesses momentos houve uma escapatória para a presença quase superior das formas de democracia modernas. que tira as sociedades dos trilhos ditos “normais”. ela continuará perdendo o jogo nas disputas atuais. Dividido em três grandes partes. É um dos motivos que. Ou seja. segundo ele. ele percorre tais reveses visando encontrar ali um ponto de apoio para compreender questões atuais. desde que não se questione a validade das democracias parlamentares sustentadas pelo capitalismo. o partido de vanguarda. Isto é. Seguindo a trilha de seus trabalhos anteriores. enquanto a esquerda não for capaz de responder a altura. retoma-las como experiências que ainda nos tem algo a ensinar. que no mundo contemporâneo são plenamente identificáveis com o a ordem capitalista. o objetivo da luta socialista. 2012/01 Ele endereça seu livro a seus dois adversários recorrentes: o capitalismo neoliberal. a Revolução Chinesa e o terror revolucionário jacobino. como a esquerda atual o fez. implica num grau relativo de “totalitarismo democrático”. no passado e no presente? 63 . Esse é um dos motivos pelos quais Em defesa das causas perdidas é um trabalho instigante e curioso. entendidas como supremas e invioláveis. as causas perdidas a que se refere Zizek são retomadas por ele sob um novo olhar. buscando instaurar uma ordem própria e inteiramente nova. Ao rever experiências e eventos tidos como derrotados. diz nosso autor. mostrar como que aquele punhado de temas e assuntos relegados apenas ao passado. as causas perdidas são para Zizek uma fonte inspiradora na medida em que elas respondem as fraquezas do presente. Assim. de fazer um elo com ideias do passado num contexto e linguagens atuais. apontar caminhos. Mas encontrar os pontos fracos no presente. mas de revê-las. Lições do Passado e O que se há de fazer. e a esquerda atual.Revista  Estudos  Hum(e)anos   ISSN 2177-1006 Número 4. É justamente tendo em vista esses dois alvos principais que o filósofo esloveno evoca as experiências revolucionárias condenadas: o socialismo de Estado. Além disso. discursos antiracistas. O Estado de Coisas. para nosso autor. encontrar nelas não apenas os aspectos negativos pelos quais elas hoje foram condenadas e deixadas de lado. sobretudo. em muitos momentos. multiculturalista. que para Zizek. por outro lado. Não seria exatamente isto. pode-se falar de tudo. insípida e incapaz de construir uma contra-hegemonia robusta o suficiente para combater os desmandos do neoliberalismo. não no intuito que defendê-las a qualquer custo. como desviantes ou totalitários. anti-sexistas. segundo ele. segundo nosso autor. Zizek revê essas experiências fazendo-as dialogar com as ideias pós-modernas e pós-marxistas. É preciso também reconhecer o fato de que elas. tais experiências são válidas: elas romperam de maneira radical com qualquer vestígio de uma lógica burguesa. faz de Zizek um pensador capaz de atrair a atenção de públicos muito diversos e. são ausentes ou carentes nos discursos e práticas da esquerda. é atual e vibrante se reinterpretados a luz dos nossos próprios dilemas. E. capazes de mudar o curso da história. revisitar experiências tão execradas significa para Zizek. Em última análise.

falta à crítica atual a crença arraigada em seus próprios ideais. um dos objetivos de Zizek é também criticar as relações perniciosas entre a produção intelectual e as condições lançadas pelo neoliberalismo. Ou seja. as ideias pós-modernas também se apresentam desta mesma maneira. e. nosso autor resgata a determinação de reformular o mundo a qualquer modo. mesmo que o preço por isto fosse a sua condenação como intelectual. funciona do mesmo modo como as escolas ou as sociedades de cultura burguesa eram aparelhos ideológicos para Althusser. para agir e pensar de qualquer maneira. Zizek defende Heidegger por considerar que ao aderir ao nazismo. Zizek vê em Robespierre um 64 . Ao contrário. Para ele. a segunda parte do livro. Segundo ele a construção das ideias hoje acompanha um capitalismo fragmentado. a exclusão de direitos sociais mínimos de imensas parcelas da população mundial ou a falência da atividade crítica em relação a tal tragédia. o terror revolucionário de Robespierre estão no centro das análises de Zizek. De Robespierre. O Estado das Coisas. Com isso. tal como para Marx a ideologia estava profundamente imbricada na ordem política. ele não errou. sem considerarmos que esta ordem atual também produz. Isto é. sejam eles os campos de refugiados. a expulsão de imigrantes. a ideologia pós-moderna. É por isso que nosso autor discorre sobre filmes como O Código Da Vinci ou A paixão de Cristo de Mel Gibson. tornada inativa por ter sido completamente cooptada pelos mecanismos contemporâneos de transmissão da cultura dominante. O cinema de Hollywood. Para o filósofo esloveno. Em outras palavras. Falta a crítica contemporânea um elemento essencial: radicalidade. Que condições são essas? O mercado global aportado pela ordem neoliberal. por isso. culturalista. Zizek reivindica esta posição: intelectuais têm como missão propor e não justificar a ordem instituída. Ela se volta principalmente para todas as experiências mais condenadas. anti-racista ou a tolerância religiosa.Revista  Estudos  Hum(e)anos   ISSN 2177-1006 Número 4. aceita o discurso emancipatório feminista. é escancarar de vez a preexistência da ideologia sob as condições atuais. neste sentido. o maoismo. Lições do Passado. apenas adaptando-se as condições atuais. mas somente enquanto todas essas formas não coloquem em risco a sua própria existência. econômica e social da vida. que impedem de olhar para algumas experiências do passado sem prejulga-las de antemão como Gulags ou totalitarismo. na primeira parte do livro. para Zizek. seus próprios campos de concentração. é a parte mais instigante do livro. ainda que esses ideais fossem enviesados e tivessem longe de ser emancipatórios. foi coerente e levou suas ideias às últimas consequências. desde que não questionem as estruturas fundamentais em que a sociedade contemporânea se assenta: aquelas do mercado. tanto pelos arautos da democracia parlamentar neoliberal. tal máxima permanece verdadeira. É nesse sentido que nosso autor faz o elogio a Heidegger. em que os sujeitos são livres. São essas mesmas condições. Zizek busca compreender o papel dos intelectuais nesta ordem dominada pela ideologia. Sem considerar propriamente aspectos da filosofia heideggeriana. O mercado. a sua maneira. como principalmente por grande parte da esquerda. nesta ordem mundial. diverso e global. sem questionar muito sem método (que certamente são um tanto questionáveis). O stalisnismo. para Zizek. Seu objetivo. a crítica atual não consegue penetrar no interior da democracia neoliberal porque ela ainda obedece a uma ordem neoliberal. característica presente em Heidegger. com seu vocabulário exótico e com uma volatilidade tão grande como o atual sistema de trocas de mercadorias pelo mundo. e levar essas ideias até o fim. diz Zizek. 2012/01 Assim.

E. fato que deu início a Revolução de 1095. a crítica a Stalin aparecia de maneira subliminar. tal atitude foi fundamental. talvez o mais condenado revolucionário do século XX. Num regime totalitário cruel (e muitas vezes sanguinário). não é condenar o regime stalinista por seus crimes. sem que se proceda apenas por políticas de adaptação. como por exemplo. A verdadeira lição de Robespierre consiste. é que falta a diversos governos de esquerda de hoje. 11. Ou seja. para nosso autor. no sentido de ali erguer estruturas inteiramente novas. para Zizek. esse preço foi o terror. Num projeto de negação da modernidade. Novamente. Essa foi a lição de Shostakovitch. com todas as suas limitações e qualidades. em Robespierre. 10. Zizek parece minimizar os expurgos. mas em realidade faziam o elogio da Revolução de 1905. Para Zizek. 2012/01 revolucionário audacioso e comprometido com o projeto de transformação radical da sociedade. fugir do que é socialmente aceito. há um determinado preço a pagar.Revista  Estudos  Hum(e)anos   ISSN 2177-1006 Número 4. assim como no caso de Robespierre. uma homenagem às vítimas do Domingo Sangrento. este modo de proceder nos ensina a buscar soluções e caminhos alternativos quanto todos os caminhos parecem estar fechados. Naquele que nos coloca a urgência de que uma revolução não se faz através de uma mudança interna nas estruturas vigentes ou do lento processo de tomada de consciência. Zizek vê em Stalin um governante que procurou refazer a história de seu país a partir de dentro. Zizek revê o seu legado de duas perspectivas: a primeira como o responsável não por enterrar todas as conquistas da Revolução de Outubro. é justamente isso que o pensamento crítico carece hoje: sair das amarras do aparentemente óbvio. o foco de Zizek não está nas atrocidades do terror. O que os exemplos de Zizek nos ensinam é a escapar quando todas as saídas se encontram cerradas. Além disso. por devolver ao povo russo suas próprias origens eslavas. as mortes e perseguições procedidas durante seu regime. Segundo o filósofo esloveno. quase imperceptível. a pensar alternativas nos momentos em que não se vislumbra saída alguma. Stalin reconstruiu a Rússia a partir dos meios que ele dispunha sem obedecer a nenhuma fórmula ou projeto imposto de fora para dentro. e. Tal capacidade de se reinventar com base naquilo que se tem no aqui e agora. não declarados. mas sim no outro lado. Shostakovitch encontrou nas suas composições um meio de realizar a crítica ao regime de maneira não declarada. É justamente isso que para Zizek está ausente nos discursos da esquerda: a perspectiva de comprometimento radical com uma causa emancipatória. Shostakovitch encontrou um meio criativo que escapar da dominação: a música clássica. no fato de que para o revolucionário francês não se pode fazer uma “revolução sem revolução”. que faz um retrato de Stalin em seu segundo movimento. se se quer de fato transformar a fundo uma realidade. outra incursão de Zizek sobre o stalinismo se dá a partir das conturbadas relações do compositor russo Dmitri Shostakovitch com Stalin. Stalin negou o projeto ocidentalizante da URSS dos bolcheviques e com isso não bolchevizou a Rússia. Contudo. às vezes radical. se embrenhar por novos rumos 65 . Em suas composições. a Sinfonia n. e a Sinfonia n. uma revolução se constrói pela destruição. Ao contrário. Por fim. a atitude de Shostakovitch nos mostra a capacidade criativa para realizar a crítica por caminhos nem sempre usuais. Mas seu objetivo neste contexto. Mais que isso. de Stalin. Ou seja. mas ao contrário. Isso a própria história se encarregou de fazer. daquilo que existe. Tal fora o grande projeto político stalinista: refazer a Rússia a maneira dos Russos. não obedecendo à perspectiva do “bom é o que vem da Europa ocidental” ou a postura do adotar aquilo que dizem ser o caminho mais eficiente. Suas sinfonias eram endereçadas a Stalin. Ou seja. mas sim a russificou novamente.

numa democracia horizontal. esta obra de Slavoj Zizek. não se dá pelas utopias das sociedades em redes tendo a internet como seu ponto de referência e muito menos ela irá emergir ex-nihilo de acampamentos em praças ou fóruns que propõem outro mundo possível. MARX. Zizek critica as saídas de Antônio Negri. 66 . O trabalho do teórico social. Em Defesa das Causas Perdidas é um livro que nos propõe uma saída na contramão do usual: retomar um projeto socialista radical. cumpre com presteza seu propósito: pôr o dedo na ferida e fazer com que sejamos capazes de rever algumas de nossas teses e opiniões. Tal leitura. mas uma vida capaz de suprir as necessidades mais fundamentais. As portas da revolução. segundo a boa e velha tradição marxista: numa articulação entre intelectuais progressistas e a grande massa de trabalhadores. A saída também não está na democracia eleitoral. Que Fazer? São Paulo. F. & ENGELS. São Paulo. São Paulo. Como Zizek coloca: é mais fácil um intelectual de esquerda de Nova York dialogar com outro a Eslovênia que com a população do Harlem. Hucitec. Zizek nos expõe que a saída é a contrapelo do que acontece nos movimentos de esquerda hoje. que habita a poucos quilômetros de distância. Assim. Falta a essa grande massa a consciência revolucionária capaz de mobilizar a multidão. a última parte do livro. LENIN.Revista  Estudos  Hum(e)anos   ISSN 2177-1006 Número 4. por seu excesso de utopismo na defesa dos movimentos que emergem de baixo para cima. é também mobilizar o passado para questionar o presente. Ela não é auto-gestionada. pois não há linha divisória capaz de definir onde termina o trabalho de um e começa o do outro. Com isso. para o filósofo esloveno. tal massa é distinta dos operários fabris dos tempos da Revolução de 1917. Boitempo. Numa referência declarada à sentença de Lenin. ela está nas favelas e nas periferias dos grandes centros urbanos do mundo. Escritos de Lenin de 1917. por exemplo. fazer com que possamos ver aquilo que ainda não conseguimos. E. Boitempo. 1978. Onde está a saída? Para Zizek ela reside. por outro lado. Zizek faz um elogio declarado a saídas como a de Chavéz ou Morales. Referências Biliográficas: Zizek. São Paulo. Neste sentido. mas adaptado às conjunturas contemporâneas. A saída. V. falta aos intelectuais progressistas a capacidade de reconhecer o potencial emancipatório desta massa. 2005. Porém. Assim. ou filósofo político. embora seja assustadora num primeiro momento. ou pode ser guiada por um Partido (propositalmente grifado por ele com “P” maiúsculo). ______. que padece de desinteresse e de influências nefastas do grande capital. centralizado. Boitempo. O que se há de fazer. K. 2007. Em Defesa das Causas Perdidas. nos ensina que. A Ideologia Alemã. dentre outras coisas. pode também advir de cima para baixo. não devemos jogar muitos eventos na lata de lixo da história. 2011. S. Não uma vida mais democrática. Hoje. propõe uma saída. São estadistas que souberam mobilizar seu próprio povo na direção de uma mudança real de vida. 2012/01 e traçar outros horizontes.