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Sumário

Acaso...........................................................................................................................11
Acontecimento.............................................................................................................13
Acontecimento em Arendt.......................................................................................14
Acontecimento e Tempo da criação: experimentação-vida.....................................14
Acontecimento, neutralidade, contra-efetuação, individuação................................16
Acontecimento, contra-efetuação e sentido.............................................................16
Afeto em Nietzsche.....................................................................................................17
Agenciamento..............................................................................................................18
Agenciamento e desejo a retomar mais a frente......................................................19
Anômalo......................................................................................................................24
Amigo..........................................................................................................................25
Antropofagia................................................................................................................25
Antropofagia e subjetividade em Rolnik.................................................................25
Antropologia................................................................................................................27
Antropologia, humanismo e sentido em tudo X sentido superficial.......................31
Antropologia Foucault e Kant.................................................................................31
Antropologia de Kant: sujeito duplo empírico-transcendental................................33
Antropologia na analítica da finitude......................................................................35
Antropologia e Duplo empírico transcendental:......................................................42
Antropologia: Cogito e impensado..............................................................................46
Antropologia: Recuo e retorno da origem...............................................................49
Antropologia e ciências humanas............................................................................53
antropologia e ciências humanas e norma...............................................................55
antropologia sujeito jurídico, liberdade, responsabilidade......................................56
Antropologia Duas experiências, uma do homem, outra da loucura.......................57
Antropologia, finitude e trágico sem fundamento...................................................59

homem e psicologia se origina do louco:................................................................60
Antropologia, Kant e o sujeito passivo....................................................................61
Arte..............................................................................................................................61
Arte, resistência e fora.............................................................................................61
Arte e fórmula..........................................................................................................61
Arte, vida e seus regimes de infinitização...............................................................63
Arte como construção..............................................................................................64
Arte e Política: paradigma, razão e modelo senso comum..........................................66
Biopoder e biopolítica.................................................................................................71
Biopoder e Nietzsche: capturar o próprio poder da vida.........................................72
Campo transcendental.................................................................................................73
Campo transcendental e síntese disjuntiva..............................................................73
Campo transcendental e imanência.........................................................................74
Campo transcendental a partir de Bergson e Sartre:................................................74
Caos.............................................................................................................................76
Causalidade e totalização............................................................................................76
Clínica construtivista...................................................................................................77
Conceito.......................................................................................................................80
Conceito e componentes..........................................................................................80
Consenso......................................................................................................................80
Contexto......................................................................................................................81
Contingência contingencial, involuntário....................................................................81
Contingência: Involuntário como contingencial:....................................................83
Comunidade.................................................................................................................84
Comunidade desobrada em Nancy..........................................................................84
Comunidade sem nada em comum - Agamben.......................................................91

Comunidade: origem e destino da comunidade como obra e assentada na obra Agamben..................................................................................................................95
Comunidade: Heidegger e a abertura ao Outro. Pode pular....................................96
Comunidade, moral e ética: Bartebly, o possível e a potência................................97
Comunidade, política e passividade........................................................................99
Comunidade e o corpo qualquer............................................................................101
Comunidade, imagem e linguagem: a sociedade do espetáculo............................102
Comunidade, saber e visão....................................................................................104
Comunidade Cidade como espaço administrativo................................................106
Coletivo.....................................................................................................................108
Conceito.....................................................................................................................108
Outrem como exemplo de conceito e seus componentes......................................109
Conceito relativo e absoluto..................................................................................111
Conceito e proposição...........................................................................................112
Corpo em Pankow.....................................................................................................113
Criação.......................................................................................................................114
Criação e subjetividade: O eterno criar-se e destruir-se........................................114
Criação, Criança e espanto, pathos........................................................................115
Criação e Arte inumana.........................................................................................116
Criação e palavra poética: vitalismo da escrita.........................................................117
Crítica em Kant e em Marx.......................................................................................118
Devir..........................................................................................................................119
Devir-mulher..........................................................................................................119
Devir e pathos........................................................................................................120
Disciplina...................................................................................................................120
Disciplina, O acontecimento e a disciplina e a segurança.....................................121
Disciplina Ciências humanas, objetividade...........................................................121

Disciplina, regulação e Problema da antropologia de kant:.................................122
Disciplina, Estatística e segurança............................................................................122
Dispositivo.................................................................................................................124
Dívida e juízo............................................................................................................126
Dois regimes de loucos: poder e dispersão das parcialidades (fragmentar)..............127
Empirismo transcendental.........................................................................................129
Episteme....................................................................................................................130
Enunciado..................................................................................................................131
Enunciado e visibilidades, função sujeito, em Deleuze........................................132
Escritura.....................................................................................................................137
Esgotado....................................................................................................................138
Esquizo......................................................................................................................140
Esquizo e procedimento........................................................................................142
Estados de alma.........................................................................................................145
Estética singularidade................................................................................................147
Estoicos......................................................................................................................148
Estoicismo, outrem, incorporal, proposição..........................................................148
Estrutura....................................................................................................................151
Exclusão....................................................................................................................152
Existência concreta e homem concreto.....................................................................153
Experiência................................................................................................................154
Experiência em Agamben......................................................................................156
Experiência, conhecimento e pesquisa..................................................................156
Experimento..............................................................................................................157
Fora............................................................................................................................157
Fronteira....................................................................................................................163
Função psi..................................................................................................................164

Função psi e cientificidade da psicologia e dos saberes psicológicos...................166
Geopoética:................................................................................................................168
Governo.....................................................................................................................169
Gregário e identidade em Nietzsche e AE.................................................................169
Hecceidades...............................................................................................................171
Heterotopia................................................................................................................171
Homem Superior.......................................................................................................173
Imagem do saber e do conhecimento........................................................................175
Imanência..................................................................................................................176
Impessoal/on..............................................................................................................177
Impossibilia em Didi-Huberman, não relação, espaço como carne e proximidade na
distância.....................................................................................................................178
Individualização........................................................................................................179
Infinitização...............................................................................................................181
Inscrição....................................................................................................................183
Inscrição em Derrida.............................................................................................184
Instituição..................................................................................................................186
Institucionalização.................................................................................................188
Intensidade.................................................................................................................188
Intensidade e profundidade........................................................................................189
Interioridade: alma e infantilização...........................................................................189
Interpretação e avaliação...........................................................................................192
Linguagem.................................................................................................................192
Loucura......................................................................................................................196
Construção do objeto da loucura: Foucault...........................................................197
Loucura como crítica.................................................................................................198
Loucura e a figura psicossocial do doente mental.................................................199

Loucura: Antropologia da diferença: para além da psicopatologia das doenças
mentais e da vida biologicamente tomada no biopoder.........................................201
Loucura experiência trágica: face enigmática e profundidade..............................202
loucura trágica: ambiguidade................................................................................204
Loucura e desrazão clássica: internamento e jardim.............................................205
Loucura trágica como linguagem..........................................................................206
Loucura irredutível:...............................................................................................207
Louc Artaud profundidade em obra.......................................................................209
Loucura e desatino.................................................................................................210
Loucura e transcendental.......................................................................................212
Loucura e alienação: médica e filosófica..............................................................212
Loucura e tratamento moral...................................................................................214
Loucura e monstruosidade.....................................................................................214
Medicalização da sociedade......................................................................................219
Mínimo eu.................................................................................................................220
Modulação/molde......................................................................................................220
Molecular/molar........................................................................................................221
Monstruosidades........................................................................................................222
Moral.........................................................................................................................222
Moral, criação e Pathos da distância:....................................................................225
Não-relação................................................................................................................228
Natureza.....................................................................................................................229
Natureza em Nietzsche e embriaguez....................................................................230
Necessidade...............................................................................................................232
Niilismo e trágico......................................................................................................234
Norma e regra............................................................................................................235
Normatividade vital...............................................................................................239

Normalização estatística e Modelo da varíola.......................................................239
Normalização e governamentalidade:...................................................................241
Outrem.......................................................................................................................241
Pathos........................................................................................................................243
Pathos, vivencia e experiencia: abundancia e trágico...........................................244
Pathos criativo: o real múltiplo, a unidade virtual e atualização...........................247
Pathos e desregramento.........................................................................................251
Pativo.........................................................................................................................252
Patologia pathos.........................................................................................................252
Patologia como visibilidade e apreensão...............................................................252
Patologia e sofrimento...........................................................................................253
Plano de consistência.................................................................................................253
Poder..........................................................................................................................254
Poder resistência e liberdade.................................................................................254
Poder psiquiátrico e captura......................................................................................254
Política.......................................................................................................................257
Política: polis (cidade) e pólemos (guerra)............................................................257
Política: partilha do sensível..................................................................................259
Distribuição do sensível........................................................................................259
Política pública......................................................................................................260
Possível......................................................................................................................260
Possível, impossível e sentido: a operação do acontecimento sobre os entes e os
corpos....................................................................................................................261
Possível corte, Criação e crueldade.......................................................................262
Possível..................................................................................................................263
Possível e proposição e formalização da linguagem.............................................263
Psiquiatria..................................................................................................................265

Psiquiatría, protopsiquiatria e moral......................................................................265
Psiquiatria desde 1860: terapêutica e trabalho......................................................266
Psiquiatria e alienação: involuntário e responsabilidade.......................................267
Psiquiatria e profundidade da moral: exame e periculosidade..............................271
Profundidade e superfície..........................................................................................272
Profundidade e Acontecimento..............................................................................279
Profundidade, superfície e Acontecimento............................................................279
Razão.........................................................................................................................280
Razão, lógica, sentido: Saber geométrico Bachelard............................................284
Razão como solução: dialética e matematização...................................................285
Razão e pensar prático e especulativo...................................................................286
Razão e Pensamento reflexivo e interioridade......................................................286
Razão e linguagem racional e poética Agamben e metafísica...............................288
Resistência.................................................................................................................289
Saber/poder: norma como operador..........................................................................289
Saber e poder: norma e governo............................................................................290
Saber, ciência e objeto...........................................................................................290
Saber como forma de exterioridade em Deleuze: saber, visibilidades e formação
discursiva...............................................................................................................292
Saber e genealogia do objeto – Nietzsche, a Genealogia e a História...................294
Saber-Poder e discursos, forças e resistência........................................................295
Saber e formação discursiva: discurso, enunciado e positividades.......................299
Revolução..................................................................................................................303
Saúde.........................................................................................................................304
Saúde e estabilidade..............................................................................................304
Sentido.......................................................................................................................304
Sentido e valor: avaliar é criar, a loucura como ponto de vista sobre a saúde (pensar
normas)..................................................................................................................305

Sentido e da interpretação.....................................................................................306
Sentido em Deleuze...............................................................................................308
Sentido e neutralidade...........................................................................................312
Sentido, superfície e delimitação dos corpos........................................................313
Sentido e continuidade..........................................................................................314
Sentido, acontecimento e estado de coisas, individuação e anti-adaptação..........315
Sentido a partir de Husserl e Simondon................................................................316
Sentido, Defasagem do ser, individuação e possíveis, ao invés de adaptação......319
Sentido, singularidade, arte e loucura....................................................................321
Sentido, Clínica, liberdade e sujeito de linguagem...............................................323
Sentido, clínica e clinamen: desvio e errância.......................................................323
Sentido: gênese e neutralidade..............................................................................325
Sentido e Individuação..........................................................................................328
Sentido e problemático, vivo e Simondon.............................................................329
Sentido, doação de sentido e significação: subjetividade e objetividade..............333
Sentido, vida e campo transcendental...................................................................336
Vida, caos, resolver, transcendental, heterogênese................................................339
Sentido e proposição, acontecimento e filtragem..................................................341
Sentido e acontecimento transcendental................................................................342
Sentido e esquizo, artifício e acontecimento - Final..............................................344
Sentido, Corte e síntese AE qlínica.......................................................................346
Signo..........................................................................................................................346
Singularidade.............................................................................................................347
Singularidade, identidade e intensidade e síntese disjuntiva.................................348
Singularidade, clínica e distribuição nômade........................................................349
Singularidades, Individuação, metaestabilidade e disparação: o vivido e o vívido,
Organização, classificação, síntese disjuntiva. Intensidade e superfície...............351

Singularidade como estrutura................................................................................357
Singularidade, auto-unificação e eu passivo.........................................................357
Síntese disjuntiva e passiva.......................................................................................358
Social.........................................................................................................................361
Social e transformação do social...........................................................................361
Social e psicossociologia.......................................................................................362
Sujeito subjetividade e monstruosidade....................................................................362
Subjetividade processual e maquínica: produção de modos de existência................365
Subjetividade como prática de transformação com o tempo e o corpo.....................367
Tantum.......................................................................................................................367
Tempo desregrado.....................................................................................................368
Tempo e loucura, civilização, historia, social........................................................368
Terapêutica................................................................................................................370
Território....................................................................................................................371
Território e expressão – transição – justificação do sentido através do
acontecimento........................................................................................................371
Trágico e tragédia......................................................................................................372
Trágico e Tempo desregrado.................................................................................388
Trágico, criação trágica: superfície e parcialidades...............................................389
Trágico, marxismo e subjetividade........................................................................391
Trágico como crivo................................................................................................392
Tragédia contra niilismo, dialética e cristandade: Deleuze lê Nietzsche...............393
Valor..........................................................................................................................394
Verdade......................................................................................................................394
Verdade e veridição...................................................................................................394
Verdade necessária.................................................................................................395
Vida............................................................................................................................395

Vida, necessidade, abundância..............................................................................396
Vitalismo e mecanicismo: Vida Corpo-máquina, vida mecânica e saber geométrico
matematizado.........................................................................................................396
Vida, arte e nomadismo.........................................................................................399
Viver é escolher.....................................................................................................399
Vida, individuação e potencial de diferenciação: o exemplo embriológico..........400
Vida, imanência e clínica.......................................................................................402
Virtual........................................................................................................................404
Virtual e caos.........................................................................................................407
Virtual, atual, duração e sentido em Bergson........................................................407
Zaratustra...................................................................................................................407

Acaso
Rosset (1988, p. 129) o que revela o acaso é um “estado de morte: isto é, um plano de
níveis estritamente equivalentes, onde nada é suscetível de intervir, de tomar relevo”.
Não há fundamento para constituir ou modificar a natureza, o acaso é um estado de
indiferença, sinaliza “o caráter vão de toda empresa”. Paradoxalmente, esse mundo
natimorto é um mundo de festa e renovação – ausência de obra, desobramento,
inoperância celebrada.
A este mundo, Pascal – afirmador de uma natureza perdida a qual quer reencontrar e
inimigo do acaso, portanto – propõe uma “atitude não-jubilatória: viver nele sem tomar
‘parte’ nem ‘gosto’”. Esta atitude de indiferença, pode ser afirmada de duas formas
distintas: como um nada esperar tedioso e como uma atitude festiva de esperar o acaso
com certeza.

Três definições filosóficas: 1) atribui a imprevisibilidade e a indeterminação do evento
casual à ignorância ou à confusão do homem 2) o atribui à mistura e à interseção das
causas (entrecruzar-se de duas ou mais ordens ou séries diversas de causas.) 3) na
interpretação moderna, segundo a qual o acaso é a insuficiência de probabilidades na

previsão. Após citar Kant e Hegel, Abbagnano recorre à Bergson: “Bergson explicou o
A. pela troca, meramente subjetiva, entre a ordem mecânica e a ordem vital ou
espiritual”. 3) O acaso “consiste na equivalência de probabilidades que não dão acesso a
uma previsão positiva”.
Examinando a filosofia kantiana, Deleuze (2003, p. 164) ressalta que
“o indeterminado não é uma simples imperfeição em nosso conhecimento,
nem uma falta no objeto; é uma estrutura objetiva, perfeitamente
positiva, agindo já na percepção como horizonte ou foco. Com efeito, o
objeto indeterminado, o objeto em Idéia, serve-nos para representar
outros objetos (os da experiência), aos quais ele confere um máximo de
unidade sistemática”

Comentando sua admiração pela arte do pintor Francis Bacon Kundera (2013, p.
16) traz algumas entrevistas deste para levantar o papel elementar do acaso em sua
pintura. Nelas, o pintor exalta o acaso ao defender sua pintura primeiro contra a
obstinação de sua adjetivação prévia sob o signo do horror e segundo, da “verborragia
teórica barulhenta e opaca que a impede de entrar em contato direto, não midiatizado,
não pré-interpretado, com aquele que a olha”.
Renegando tanto uma expertise demasiadamente inteligente ou estruturada (que
o pintor pareia a Beckett) sobre seu próprio processo de criação quanto as marcas ali
deixadas como hábito, Bacon localiza o acaso numa mancha de cor fortuitamente
introduzida no quadro que, no entanto, muda totalmente seu tema e a leitura que se pode
dele fazer. Neste fortuito lance de tinta e pincel – análogo ao lance de dados que
Mallarmé pauta na linguagem –, o pintor encontra na noção de jogo o contraponto
elementar da caricaturização de sua pintura como horror.
Se a as ideias de Beckett sobre criação vão impedindo e limpando os hábitos de
sua criação, acabem por deixar “a impressão de que, por querer eliminar, nada havia
ficado e que esse nada definitivo parecia vazio” (BACON apud KUNDERA, 2013, p.
15). A herança, a rotina e o preenchimento por necessidade técnica são parte da criação
e da pintura de Bacon em seu diálogo com a história da pintura. Há entretanto, a busca
de uma profundidade alheia a tais preenchimentos, pois de acordo com Kundera (2013,
p. 17),
quase todos os grandes artistas modernos têm a intenção de suprimir esses
“preenchimentos”, de suprimir tudo aquilo que provém dos hábitos, tudo o
que os impede de abordar direta e exclusivamente, o essencial (o

essencial: aquilo que o próprio artista, só ele, pode dizer).

Arrancando os traços de preenchimento, os clichês técnicos cujo modelo o
escritor tcheco encontra nas tradicionais transições de temas nas sonatas, resta relação
singular do artista com a criação. A relação singular e direta de profundidade, a mesma
que Bacon dedica aos corpos que pinta sobre planos monocromáticos, arquissimples e
chapados. Sobre este fundo, o pintor sobrepõe um primeiro plano desdobrado na
profundidade densa de cores e formas. Sobre o fundo ascético, no qual a beleza
parece estar em dieta reduzida, uma explosão nada purista ou sublimatória de beleza,
pois se trata daquilo que, à despeito do horror dos açougues, pulsa na “grande beleza da
cor da carne”, como nos revela Bacon (apud KUNDERA, 2013, p. 17)
Em seguida, para fechar o ensaio, Kundera (2013, p. 21) tergiversa valendo-se
de falas do próprio Bacon:
O que nos resta quando chegarmos até aqui?
O rosto;
o rosto que esconde “esse tesouro, essa pepita de ouro, esse diamante
escondido” é o “eu” infinitamente frágil, tremendo em um corpo;
o rosto no qual fixo meu olhar a fim de encontrar nele uma razão para viver
este “acidente destituído de sentido” que é a vida.

VER:

Acontecimento
Relativo a um “Materialismo do incorporal” em Foucault OD, p. 57-8
Ou ainda, relacionar o acontecimento em OD, p. 50?.. Com o problema da inversão, a
Nit, Gen Hist onde Foucault (2005, p. 18) pondera
preciso entender por acontecimento não uma decisão, um tratado, um
reino, ou uma batalha, mas uma relação de forças que se inverte, um
poder confiscado, um vocabulário retomado e voltado contra seus
utilizadores, uma dominação que se enfraquece, se distende, se
envenena e uma outra que faz sua entrada, mascarada. As forças que se
encontram em jogo na história não obedecem nem a uma destinação, nem

a uma mecânica, mas ao acaso da luta.

O qual relaciona a Nit G.M., II, 12.

O acontecimento sustenta-se em dois níveis no pensamento de Deleuze:
condição sob a qual o pensamento pensa (encontro com um fora que força
a pensar, corte do caos por um plano de imanência), objetidades
especiais do pensamento (o plano é povoado apenas por acontecimentos
ou devires, cada conceito é a construção de um acontecimento sobre o
plano) (ZOURABICHVILI, 2004, p. 7).

Cada multiplicidade acontece sobre, como ou a partir de um ponto no plano
transcendental.
o acontecimento é inseparável da textura do ser em que ele emerge
“o acontecimento é coextensivo ao devir e o devir, por sua vez, é coextensivo a
linguagem” (LS, p. 9)
O acontecimento é um conjunto de singularidades colocadas em relação
“acontecimento sustenta-se em dois níveis no pensamento de Deleuze: condição sob a
qual o pensamento pensa (encontro com um fora que força a pensar, corte do caos por
um plano de imanência), objetidades especiais do pensamento (o plano é povoado
apenas por acontecimentos ou devires, cada conceito é a construção de um
acontecimento sobre o plano). E se não há maneira de pensar que não seja igualmente
maneira de realizar uma experiência” (ZOURABICHVILI, 2004, p. 7) é a condição para
uma filosofia acontecimental.
Acontecimento em Arendt
Arendt acontecimento: um mínimo de não-tempo entre dois tempos. Trata-se de uma
zona temporária de reconhecimento instaurada pela zona autônoma do acontecimento.
Em Beth Lima, agenda 2010 10 de setembro, mas não sei onde está desenvolvido.
Acontecimento e Tempo da criação: experimentação-vida
Para Foucault (1986, p. 198), o acontecimento configura ruptura no campo dos saberes
constituídos à medida em que se configura como “um acontecimento exterior aos

discursos, cujo efeito de divisão, para pensarmos como se deve, teria de ser
reencontrado em todos os discursos”. Esta aspecto corresponde à primeira etapa da
criação, etapa destrutiva, de abandono ou destruição do que está dado em prol, talvez,
de um por vir.
O tempo da criação e do acontecimento opõe-se ao tempo do encadeamento cronológico
da sucessão, no qual o possível é delimitado por uma resolução antecipadora no
ordenamento do antes ao depois no qual tudo acontece.
“O acontecimento é o que do mundo só subsiste como tal ao se envolver na linguagem,
que ele com isso torna possível. Mas há um segundo paradoxo: "o acontecimento é
sempre um tempo morto, lá onde nada acontece" (QPh,149). Esse tempo morto, que
de certa forma é um nãotempo, batizado também como "entre-tempo", é Aion.”1
O acontecimento não é uma mudança nos estados de coisa, pois ele
“afeta a subjetividade, insere a diferença no próprio sujeito. Se chamarmos
acontecimento a uma mudança na ordem do sentido (o que fazia sentido
até o presente tornou-se indiferente e mesmo opaco para nós, aquilo a que
agora somos sensíveis não fazia sentido antes), convém concluir que o
acontecimento não tem lugar no tempo, uma vez que afeta as condições
mesmas de uma cronologia. Ao contrário, ele marca uma cesura, um corte,
de modo que o tempo se interrompe para retomar sobre um outro plano (daí
a expressão "entre-tempo").” “O acontecimento, como "entre-tempo", por si
próprio não passa, tanto porque é puro instante, ponto de cisão ou de
disjunção de um antes e um depois, como porque a experiência a ele
correspondente é o paradoxo de uma "espera infinita que já é

infinitamente passada, espera e reserva" (QPh, 149)”
O acontecimento não é obra de um indivíduo, a saber, não se trata de passividade ou
atividade de um sujeito, os objetos reais não atuam como causalidade sobre o incorporal
do sentido. Este, por sua vez não é mais que quase-causa dos efeitos de superfície.
Assim, perguntamos: qual é o operador que produz, não o acontecimento em si, mas
que produz efeitos no sujeito a partir de suas fendas, superfícies e dobras? Este
operador que catalisa e atualiza o acontecimento em sua realidade incorporal e
impessoal (DELEUZE, LS) sobre a superfície do vivo.
1 Relativamente a Áion e Chronos, “a compreensão da posição deleuziana supõe a
leitura conjunta de Diferença e repetição (as três sínteses do tempo), de Lógica do
sentido (a oposição de Chronos e Áion) e de A imagem-tempo (a oposição de Chronos e
Cronos, cap. 4 – ver CRISTAL DE TEMPO)”.

O esquecimento, como a morte, são desvios incondicionados. Arrastam à revelia,
à despeito de toda vontade.
Para retomar a superfície objetiva onde o mundo se faz, pois
“uma cumplicidade primeira com o mundo fundaria para nós a possibilidade de falar
dele, nele, de designá-lo e nomeá-lo, de julgá-lo e de conhece-lo finalmente, sob a
forma da verdade” (FOUCAULT, 2011a, p. 48)
A possibilidade de falar do mundo, de falar dentro dele, de o designar e de o
nomear, de o julgar e de finalmente o conhecer na forma da verdade, tudo
isso teria o seu fundamento, para nós, numa cumplicidade primeira com ele.

acontecimento e criação
Querer o acontecimento na plenitude de ser digno do que nos acontece,
pois, exige um outro pathos, um duplo movimento que ultrapassa a mera
“efetuação” da ferida no corpo, da vulgar experimentação do comum que
aprisiona nas malhas conceituais e impede a criação. E aqui tocamos em
nosso problema: denominamos esse pathos precisamente como a arte de
transfigurar.

Deleuze e Parnet (p. 61??) tratam de “experimentação-vida” entra na ordem da
filosofia experimental (NIT FP 1980, 16 (32)), que leva a filosofia para além da
representação, no intuito de buscar outras vias de acesso à vida.
O acesso À vida se dá pela experiência, só ela autoriza (cf. BATTAILE,
ExpInt??).

Acontecimento na Ética de Badiou:

Acontecimento, neutralidade, contra-efetuação, individuação
neutralidade do acontecimento em relação ao
estado de coisas e enfatiza o que vem a ser a contra efetuação. O acontecimento puro
não se efetua por completo: há nele sempre uma parte inefetuada. A contra-efetuação,
da mesma maneira que a realidade pré-individual, não se individua por inteiro; o
indivíduo é sempre contemporâneo de uma realidade pré-individual. Assim,
também, o acontecimento não se efetua por completo.

Acontecimento, contra-efetuação e sentido
“A contra-efetuação do Acontecimento é relacionada ao campo transcendental sem
sujeito, ao plano de imanência, a uma vida; conceitos que aparecem sobretudo em seu
último texto — A imanência: uma vida”
O acontecimento destitui o verbo ser de seu atributo (DELEUZE, 1992), pois apesar de
não existir, ele possui sentido e realidade. Sua realidade incorporal é a de um extraser. Nesta dimensão é que se dão as conexões reais e as conjugações virtuais.
A comunicação entre acontecimentos coloca o sentido fora do âmbito da
representação e da significação.

VER: sentido;

Afeto em Nietzsche

“Ser cruel e inexorável com tudo o que é velho e enfraquecido em nós” (NIETZSCHE,
GC, par 26) pressupõe um mundo que se vai, que deixa de existir, a morte do instituído
para o assentamento do novo, a partir do qual se implanta novos sentidos para a
experiência da loucura.
A escrita como exercício pessoal praticado por si e para si é uma arte da
verdade contrastiva; ou, mais precisamente, uma maneira reflectida de
combinar a autoridade tradicional da coisa já dita com a singularidade da
verdade que nela se afirma e a particularidade das circunstâncias que
determinam o seu uso.

Enunciado articula discursivo, institucional e existencial.

Nietzsche (GC) Gaia Ciência2:
Ainda estou à espera de que um médico filosófico, no sentido excepcional
da palavra - um médico que tenha o problema da saúde geral do povo,
tempo, raça, humanidade, para cuidar -, terá uma vez o ânimo de levar
minha suspeita ao ápice e aventurar a proposição: em todo filosofar até
agora nunca se tratou de ‘verdade’, mas de algo outro, digamos saúde,
futuro, crescimento, potência, vida.

Afeto em Nietzsche
ABM, p 23, 127
P 12 “a alma como estrutura social dos instintos e dos afetos” construção da
inteligência, invenção de causas q não existem,
FragPost 1883-84, p 24 ou 20
A travessia À profundidade é uma viagem vertiginosa (ABM, 23)
FP 1888: Nietzsche opõe o amor, o orgulho,o respeito, o triunfo a voluptuosidade, a
Vontade de poder e a vingança, como afetos que ajudam o indivíduo no domínio e
expansão, na precedência da VP sobre a vida, eles sobressaem aos afetos deprimentes
como a compaixão e o espanto, que servem de purgativos na tragédia grega antiga, elas
são a outra face da frieza e indiferença das estatuas frente à necessária ruptura
deslocadora do afetos.
Por um lado não se deve destruir ou seccionar os afetos, selecionando-os do que
acontece a alguém, não se deve reduzi-los através de análises que os reduzam a
mediocridades particulares. Por outro, não se deve entregar condescendentemente e
passivamente aos afetos, às forças inorgânicas (como Nietzsche critica Goethe em
ABM).
Há que proceder por direcionamento
Em outros termos, método para o manejo das forças intensivas.
2 De fato, a afirmação da vida como valor maior está presente desde os primeiros
escritos nietzschianos. Porém, como aponta Mendonça (?? Ver trágica), tal afirmação
ganha contorno e argumento cada vez mais orientado para a valorização da experiência
artística das superfícies e das aparências, que para o estudo das ciências e saberes de sua
época. Movimento de valorização das artes para afirmação da vida que ganha sua
expressão mais acabado, segundo a comentadora, em A Gaia Ciência e que, não
obstante, pode ser acompanhado no volumoso apanhado de notas que integram a edição
dos Volumes Póstumos.

então. entrevista do mesmo ano. Agenciamento e desejo a retomar mais a frente Último cap de Kafka. para além do sujeito e da estrutura. que remetem a agenciamentos maquínicos. razão e consciência. de “linhas de articulação ou de segmentação. Reverter o teatro da representação na ordem da produção desejante: a tarefa por excelência da esquizoanálise. se desfazendo das noções de sujeito. recortado pelos agenciamentos maquínicos de figuras discretas e descontínuas” na aula de 15 de Fevereiro de 1973. Ele parte do instinto. da vontade de potência e do eterno retorno – assim como afeto. desejo. isto é. Usar a corporalidade e os instintos para entender o pensamento.) por agentes colectivos. Deleuze assinalava a possibilidade de pensar a linguagem. Grande para Nietzsche é possuir força e vontade anímica.A magia e o encanto de Klossowski é que soube interpretar Nietzsche através dele mesmo. Agenciamento de agenciamento aqui em sentido deleuzeano.. estratos. dispositivo. que Foucault assimila ao de agenciamento. dá-se uma discussão entre Richard Pinhas e Lyotard em torno do «dispositivo analítico». 9). como um “sistema de fluxos contínuos de conteúdo e expressão. ainda. as exigências fisiológicas para um modo de vida. AE: explicitamente a ideia de “agenciamento maquínico”: “Substituir o sujeito privado da castração (. 1980. territorialidades” (Deleuze e Guattari.. Trieb). impulso (pulsão. e pelo menos .

é uma alternativa conceptual ao sujeito e à estrutura. e contornando toda a teoria da linguagem e dos signos (do significante) de Saussure”12. dispositivos de segurança. determinada patologia.. dispositivos de poder.desde a aula de 12 de Fevereiro de 1973 é frequente que Deleuze fale de «agenciamentos» e de «agenciamentos maquínicos de dispositivo disciplinar. p. mas também determinado estilo. que fazem com que determinado povo. um delírio patológico. dispositivo de subjectividade. dispositivo carcerário. ainda que certamente faça do agenciamento um uso muito restrito (1 ocorrência em Surveiller et punir. Tentamos construir mapas de regimes de signos: podemos mudá-los de posição. algumas de suas dimensões. dispositivo de aliança. Só em La volonté de savoir.. O que é um agenciamento? Em princípio. Porque Foucault fala indistintamente de agenciamento e dispositivo. que permite a Deleuze – as palavras são de Philippe Mengue – “refundar uma teoria da expressão. etc. relacionando os fluxos semióticos . reter algumas de suas coordenadas.. etc. etc. dispositivo de verdade. determinado modo. 59) afirmarem tacitamente: não fazemos evolucionismo. “agenciamento político da vida”10. um acontecimento histórico. teremos uma formação social. dispositivos de saber. 4 em La volonté de savoir). dispositivo estratégico de relações de poder. dispositivo de sexualidade. e. Foucault. etc. As semióticas dependem de agenciamentos. determinado momento ou determinada língua. determinado evento minúsculo em uma situação restrita possam assegurar a predominância de uma ou de outra. Como funciona? Basicamente. eliminando qualquer traça «representativa» na função de expressão. encontramos 70 ocorrências “agenciamento panóptico”9. dependendo do caso. nem mesmo história. Pensando sobre questões de método Deleuze e Guattari (2005.

. O que me permitiria responder de . uma estratificação mais ou menos dura (digamos. mas por outro compreende pontas desterritorialização.) A enunciação precede o enunciado. regida pela abstracção de uma lei transcendente” (Kaf. de representante a representado: trata-se de uma relação de implicação recíproca entre a forma do conteúdo (regime de corpos ou maquínico) e a forma da expressão (regime de signos ou de enunciação). para além das relações de significante a significado. não há agenciamento social de desejo que não seja agenciamento colectivo de enunciação (. mas os agenciamentos de desejo que propagariam formações de poder seguindo uma das suas dimensões. de desejo e de territorialidade ou de reterritorialização. não seriam os dispositivos de poder que agenciariam. não em função de um sujeito que o produziria. ele é em si mesmo agenciamento de enunciação num processo que não permite que nenhum sujeito seja atribuído. Há outra característica fundamental dos agenciamentos: qualquer agenciamento apresenta. diz Deleuze15). qualquer agenciamento tem duas caras: “Não há agenciamento maquínico que não seja agenciamento social de desejo. junto com as outras engrenagens que vão tomando o seu lugar paralelamente13. Para delezue em Desir et plasir Mas os agenciamentos comportariam também pontas de desterritorialização. Deleuze diz: “uma concreção de poder. Neste sentido..com os fluxos extra-semióticos e as práticas extra-discursivas. os dispositivos de poder. por um lado. mas que permite por isto mesmo marcar com maior ênfase a natureza e a função dos enunciados. (. nem como produtos). uma vez que estes não existem senão como engrenagens de um agenciamento semelhante (não como efeitos. linhas de fuga por onde se desarticula e se metamorfoseia (“onde se liberta o desejo de todas as suas concreções e abstracções”. 153fr).) E não basta dizer que o agenciamento produz o enunciado como o faria um sujeito.. nem seriam constituintes. Em suma. mas em função de um agenciamento que converte a enunciação na sua primeira engrenagem..

" (Dial. espécie de esquema kantiano que estrutura puras relações de forças. 111fr) Só há desejo agenciado ou maquinado. Deleuze (F. o poder é uma afecção do desejo” Resistência: os processos de subjectivação como dobra das relações de força dos dispositivos de poder. Ora Deleuze fala indiferentemente de dispositivos e agenciamentos. Trata-se da constituição de modos de existência. mas em si mesmo é instável relação consigo mesmo como foco de resistência. seguindo regras facultativas.à questão. o conceito de diagrama desaparece por completo. e do qual derivam os dispositivos do poder e do saber.115). mas que deve ser ele próprio construído. Isso é insistir mais uma vez na exterioridade (e não na exteriorização) inerente ao desejo . mesmo se o saber intenta penetrá-las e o poder de reapropriar-se delas. capazes de resistir ao poder como de furtar-se ao saber. Vocês não podem apreender ou conceber um desejo fora de um agenciamento determinado. o certo é que o campo social deixou de estar composto apenas por formações isoladas e imutáveis: só as estratificações do saber e do poder lhe proporcionam alguma estabilidade. da invenção de possibilidades de vida. Deleuze põe no centro a noção de diagrama. que Foucault utiliza apenas em duas VP qu’un dispositif?». De qualquer modo. ora introduz um terceiro termo – o diagrama. trata-os como sinónimos29. para mim. sobre um plano que não preexiste. 86. agenciando as formas irredutíveis da receptividade (o enunciável) e da espontaneidade (o dizível). sobrevivendo todas as suas propriedades na nova e definitiva definição de dispositivo. em 89. desnecessária para Michel: como é que o poder pode ser desejado? A primeira diferença seria então que. necessária para mim. da criação de territórios existenciais.

58) a narrativa inscreve a criação na estrutura do tempo narrado (Imagem-tempo). Uma verdade eterna dada pela voz enquanto presença do ser a si mesmo. Aqui como em outra parte. e daquilo de que o enunciado fala. de modo a extrair um sentido . peças e engrenagens dos agenciamentos (cf. destrói-se o agenciamento” (DELEUZE & PARNET. na produção de enunciados. em relação com um devir. Dial). um levantar. “Assim que o desejo agencia alguma coisa.como Kairos – do tempo infinito de Cronos. Os enunciados que neste caso. São como variáveis da função. Dial. dessaterradora cuja promessa ou a ameaça de se levar a um outro ponto não pode ser confundida com falta ou reduzida a uma espécie de imprinting que o aloca na ordem das trocas afetivas.agenciamento o nome que lhe cabe. mas estados maquínicos. não há sujeito. 63) em sua agenciamento é. em relação com um de Fora. um desfazer. a um só tempo. de código e de fuga. mas sempre agentes coletivos. na estruturação desejante do ser do sujeito. Vemos assim que uma metafísica desejante transcendental que visa restaurar a verdade. Correspondem a formalizações não-paralelas de expressão e conteúdo que agenciam signos e corpos como peças heterogêneas de uma máquina não-essencial. p. agenciamento maquínico de efetuação e agenciamento coletivo de enunciação. com seus elementos significantes e a-significantes: codificação e descodificação. “a narrativa representa o tempo indiretamente”. universal e sempre acessível dos estados da alma na estrutura. como sentido interno ao ser e sua verdade ao que opomos a instauração de uma inscrição que é primeira (AE) à dinâmica intersubjetiva das trocas . é o conjunto dos afetos que se transformam e circulam em um agenciamento de simbiose definida pelo co-funcionamento de suas partes heterogêneas. Na enunciação. o desejo inscreve a carne e a realidade com seu devir sem termo. Antes. "desejo"? Aqui o desejo torna-se feudal. por isso. Eis o duplo movimento do desejo colocado em jogo nas cadeias significantes. etc. não se encontrará objetos. que funciona sempre nos limiares. (Dial. nas pontas de desterritorialização. ou melhor. Assim. DELEUZE & PARNET. que entrecruzam continuamente seus valores ou seus segmentos. numa metafísica intersubjetiva simbólica. se deseja no infinitivo: trata-se de um querer. não se confundem com estados de coisas ou com a descrição destes. p. Se instaura territórios é sob um fundo e uma lógica desterritorializante.

com o exemplo do agenciamento feudal). a gênese recíproca das duas formas remete à instância do "diagrama" ou da "máquina abstrata". tida como derivada.afetivas que alicerçam o desejo enquanto desejo do outro sob a égide de um Outro magnificente. Mil platós concerne ao plano em que se articulam as duas séries. O resultado é que cada um de nós combina concretamente os dois tipos de agenciamentos em graus variáveis. com isso. que ligava a série das misturas de corpos à série das proposições. e a questão . Decorre daí uma concepção da linguagem que se opõe à lingüística e à psicanálise.” ZOURA VD “conceito de agenciamento é enriquecer a concepção do desejo com uma problemática do enunciado. 109-15. a expressão refere-se ao conteúdo sem.” VER: dispositivo. “elaboração involuntária e tateante de agenciamentos próprios que "descodificam" ou "fazem fugir" o agenciamento estratificado: esse é o pólo máquina abstrata (entre os quais é preciso incluir os agenciamentos artísticos). uma vez que remete em última instância ao campo de desejo sobre o qual se constitui. agenciamentos musicais (MP4. . mas a correlação de duas faces inseparáveis. Acrescentemos que a forma de expressão não é necessariamente linguageira: há por exemplo. redefinidos como duas formas independentes. assinalando-se pelo primado do enunciado sobre a proposição (MP2. Todo agenciamento.a das relações de forças concretas entre os tipos (ver LINHA DE FUGA). descrevê-lo nem representa-lo: ela "intervém" nele (MP. como ainda há pouco. o limite sendo a esquizofrenia como processo (decodificação ou desterritorialização absoluta). não obstante tomadas numa relação de pressuposição recíproca e relançando-se uma à outra. retomando as coisas no ponto em que a Lógica do sentido as deixara: toda produção de sentido ali tinha como condição a articulação de duas séries heterogêneas mediante uma instância paradoxal. platô 4). é afetado por um certo desequilíbrio. 363-80 – devir intenso. e supunha-se em geral que a linguagem não funcionasse senão em virtude do estatuto paradoxal do acontecimento. Ao contrário da relação significante-significado. Não é mais uma oscilação entre dois pólos. platô 10)... atribuindo um alcance inédito à dualidade estóica das misturas de corpos e das transformações incorporais: uma relação complexa se tece entre "conteúdo" (ou "agenciamento maquínico") e "expressão" (ou "agenciamento coletivo de enunciação").

onde se dá os processos autopoieticos. por que este movimento involutivo! Deligny (deleuze) o humano como comum da espécie. nao p frente. Voltar a sopa prebiotica. . nao é evolução. catastrofe. proteina fervendo. q é moby dick (Devir intenso MP!!) quebra o sensorio motor no ImaMov. algo morre. p. Em torno de um esforço de memória. q nos destaca do comum como se dele tivéssemos dele evoluido. 9) Blanchot L’Amitié e diálogo dos dois cansados em A conversa infinita. nao mais nas etapas da evoluçao. e no caso é o anomalo. do conhecimento. tem extase. aniquilamento. Extrair o termo. Amigo Abertura de O que é a filosofia?. a variavel menor. dimensao das indiscernibildiades. Isso soa diretrizes. Amigo traz uma “intimidade competente. ecologia. Tá mais proximo da involução. por que nao é o alemão mas o grego. q é uam superaçao pra tras. Que seria para além do homem? o homem superior tenta superar-se a partir disto. nem o ezquizo vive isso. É uma presença intrínseca que condiciona o próprio pensamento como um vívido do vívido. ato falho. é o nascimento. tenho distinçao sem separaçao. a mais absoluta comunidade. e aí a moral vai pro ralo. nao mais a partir da logica de classes. sonho. tragedia.Anômalo um termo menor extraido do menor. a caida não é a morte. o neo-comunismo. um vivido transcendental como colocam Deleuze e Guattari (2008. O fio de ariadne ajudando teseu era o fio da moral. como se no fundo a FilDif procurasse uma etologia. uma espécie de gosto material e uma potencialidade”. Tem chiste. Mascolo.

. destinação são dados na imanência ao processo. não se trata em absoluto de convencimento ou colonização. de conexão a elementos alienígenas. Não tomamos sistema de valor em si. 3 – anti colonial. como postula Rolnik () Nuam formula ética que absorve ideias alienígenas na química da alma perante uma linguagem capaz de compor um hibrido atuante. sem valor a priori no modode subjetivação atnropofagico: A – plasticiadade na mistura. sem estrutura ou evolução previamente estipuladas nos seus estados da alma. não resolvidos não resolutivos (combate entre. Nuam justaposição que não aplaca mas instala e enaltece tensão ente mundos.. roteiro perante paradoxos (como o sentido. Não há investimento na totalidade. etc). no qual o caminho é caminhamar é imprevisível. desindios desafro. o édipo. o devir imperceptível. permanetenemtne reestruturado. masna justa medidade de sua articulação funcionante com elementos. explicar ou explicar para revelar verdades” 97 mas é um mapa de sentido que participa da construção do próprio território q ele representa. que nos inscreve como deseutorpeus. “o quanto permite passar intensidades e produzir sentidos” 97 não tomando um sistema como um todo. mas de uma permeabilidade das bordas.Antropofagia Antropofagia e subjetividade em Rolnik Se postulamos uma subjetidade antropofágica. não imputar jogos ou regimes ( como a falta. Três que são quatro estratégias caratrsiticas da antropofagia: 1 – descentrada: já q todo mundo (o subjetivo) não é mais que um “coagulo provisório de linguagem.95). fronteira e rostidade. Transformaçeos no comportamento-contexto. imprescindível a eles LS) entre heterogenesos. não é arvore. mas somente e na medida em que ele funciona. de outros sistemas ou engendrados nos encontros 2 – criar uma cultura não se presta “a significar. como imagem do pensamento são dissuadidas 4 – um mundo é uam linha de fuga. capta o invisível.) não unificados nem unificáveis à totalidade monstruosa da qual emana osentido. a desvalia. tampouco se trata de uam apologia. Nos diferentes vetores de força . mas uam pragmática desta (pankow) ou mlehor no seu processo produtivo. para além da logia de front das fornteiras. acordos sem termo ou mediação. mulher. destinos. selecionado em um processo experimental e singular de criação de sentido” (p. uam monstruosidade (polack).

das formas e das forças.. eternidade” 102 nos estados da alam. o corpo louco desarrazoado da loucura que sofre é pático. na inalienável errância que opera toda possibilidade de consistência subjetiva. Caracterizado pela não adesão (Rosset) plasticidade e improvisação Há um polo ativo e outro reativo da (atualização narxisica) da atualização ética. querer vem o a singularidades em jogo no outro.. De transcendnecializaçao do desejo e seus caracters imanentes.. A antropofagia é governada “por um deus de caravana metamorfoseado em deus de caravela” Oswald (manifesto antropofacio 1928).. Lei orientada pelas intensidades. o outro do outro. As conexões se orientam pela vibração a vida como fator de avaliação Sentimento ofico. A isto se chama pulsação vital B – vetor ativo de um certo estado de corpo. que institui e é pautado pelos códigos (mutantes). estabilidade. D – se constitui uma subjetividade instituída pela singularidade impessoal. A lei transcendente é operada pela mentem sua consistenicia na qual o ego atua num regime de eficácia da força (bataille) buscando “completude. não instalada na transcendência inxerta produto na produção. ou com ele. Conhecimento por vibração e contaminaçao. como sitema aberto de múltiplas conexões queu emerge entre os mundos agenciados sem medo de se perder de si. Foucault (1975) ainda no começo de seus trabalhos em Doença .. governo das forças ativas ou reativas.Na exposição a alteridade. o fora. semtranscendencia ou ateísmo. lei imamente. “estado de arte sem arte” Lygia clarck C – este vetor mais ativo ligap ara formar território. Antropologia Para engendrar a doença mental se faz imprescindível um campo de apreensão do homem e de sua vida. atravessa aí sua instalação modulando e sendo modulado pelas forças intensivas. nas curvatoreas que as forças que os constituem exercem sobre eles mesmos. da casa vazia e das singularidades imanentes a ela.

necessita de antrop. O conhecimento da positividade do homem se dá pela loucura. A doença mental é a forma e a expressão que a loucura adquire enquanto variabilidade da forma homem. responsável e senhor da razão e vontade próprias inscrito num sistema de totalização. relação ética com o mundo e consigo . Ver As quatro fórmulas poéticas que Deleuze (2011) usa para definir a filosofia kantiana. . o campo das ciências humanas acopla toda experiência moderna a um sistema que instaura e coloca o homem (tal como definido pelos cânones modernos) como origem e fim de toda experiência. vemos na antropologia a condição e a expressão da totalização da vida e da experiência existencial dos indivíduos. além disso. no estatuto da constituição ontológica do sujeito. Entre a analítica da finitude que confere a positividade do homem como ser finito. seu parâmetro de conversão é antropológico. cinco] da loucura em doença mental. enquanto desconhecimento de si mesmo. Sujeito agente de execução da ação nit 2006. Tampona o sentimento abismal 1968/1985. se desenlaça o campo das ciências humanas. sujeito substancialmente único. do trabalho e da linguagem. Assim. que se dedicam às empiricidades da vida. Operador da regulamentação em torno de normas e funções. definido e limitado por várias finitudes anteriores a ele e o que Foucault (2000) chama de ciências empíricas. o homem encontra seu limite na loucura. Este sujeito é o fundamento ético de uma forma natural que inscreve a experiência humana numa formação específica e num funcionamento delimitado Apenas tomando a antropologia moderna como ponto de ancoragem e referência é que se realiza a captura da vida e da experiência concreta sob a forma da norma e a regulação do comportamento e atitude. A especificidade da doença mental em comparação às demais doenças consiste no fato de que esta dispensa um correspondente orgânico. Def naturza é imporante mas insuficiente.Mental e Psicologia já destaca a imprescindibilidade de uma antropologia para que a conversão [ver categorias.

estudado pela biologia. de seu desejo e da atividade que responde a ele. não é possível conferir valor transcendental aos conteúdos empíricos nem deslocá-los para o lado de uma subjetividade constituinte. . de seus limites e da verdade específica e em geral. 342) A antropologia serve para conferir uma valoração apriorística aos conteúdos empíricos e remetê-los a um sujeito. mais profundamente. isto é. (FOUCAULT. p. eles devem passar pela finitude da consciência do homem que trabalha. a existência concreta individual apenas acessa a vida através de seu próprio corpo vivo. pode-se dizer que o conhecimento do homem. na análise mitológica e na literatura. Na era clássica. vive e fala. mesmo sob sua forma mais indecisa. A antropologia é o fundamento que conduz o pensamento ocidental moderno de acordo com Foucault (2000). dá lugar aos juízos necessários e validos. conseqüentemente. na sociologia. a natureza ordenada divina. tais como elas se dão precisamente nesse mesmo saber empírico. 2000. ao menos silenciosamente. inscrito sob a economia moderna e de sua linguagem. de todo saber empírico) são ao mesmo tempo as formas concretas da existência. objetivada pela filologia. diferentemente das ciências da natureza. Segundo As palavras e as coisas. 2000. o erro e a ilusão. a uma antropologia. a éticas ou a políticas. é desta dobra que nascem as ciências humanas – apontadas na psicologia. o pensamento moderno avança naquela direção em que o outro do homem deve tornar-se o Mesmo que ele (FOUCAULT. a um modo de pensamento em que os limites de direito do conhecimento (e. Superficialmente.A noção de homem da antropologia moderna é o índice de captura da vivência concreta e da formação e movimento dos indivíduos Homem: a antropologia como condição de apreensão da vida e fundamento empírico da norma A soberania do cogito cartesiano não assegura mais as sínteses empíricas na modernidade. sem dar lugar. O sonho antropológico refere-se à dobra empírico-transcendental que faz com que todo conteúdo e conhecimento empíricos sirvam como campo de determinação filosófica do fundamento do conhecimento. Os limites do conhecimento são formas de existência. 453). conjura a loucura. Sem dúvida. está sempre ligado. p.

o adverso e o inverso [ver DR. se refazem. o espaço inerte e sombrio da empiricidade. tipicamente moderno. com sua rede imperiosa.Ver Sujeito como conflito entre absolutos em Badiou (2015. inversamente. não mais o do Dogmatismo. Consequentemente. dif e diverso] de nossa cultura sob o custo de cortar as diferenças que os definem e caracterizam. mas o da Antropologia” (FOUCAULT. Analítica da finitude e dinâmica das ciências humanas – como consequências de se pensar o finito a partir das finitudes e não mais uma metafísica do infinito desdobrada nas formas de representação. período evocado no capítulo sobre O círculo antropológico em História da loucura (FOUCAULT. E eis que nessa Dobra a filosofia adormeceu num sono novo. Nela. 1979). erguem-se e são logo subsumidos num discurso que leva longe sua presunção transcendental. o louco é inscrito num sistema antropológico referido a determinada formação normativa. tornando-a coextensiva ao homem normal e. 471) Ver também Deleuze F2 Esta corresponde ao movimento que se desenha sobretudo a partir do século XIX. 58) Qual a dobra? Fazer valer o homem da natureza. de apreender o diverso. Dela advém a concepção humanizada que converte a loucura em doença mental sob a insígnia da alienação. “a função transcendental vem cobrir. (a reintrodução da linguagem nas artes e na psicanálise indicam o atual inadequação do conceito de homem) Neste sentido. 148) contemporiza que . surge o homem sobre os cacos da linguagem em fragmentos. portanto. p. os conteúdos empíricos se animam. p. da atividade e do discurso o fundamento de sua própria finitude. 2000. potencialmente reversível. p. Foucault (1979. A antropologia ali expressa o intuito. A análise da essência (natural e de direito) do homem é convertida na analítica em extensão do que pode vir a ser a experiência do homem. Quando o esquema representativo que assegura a linguagem e a ordem do mundo clássico se estilhaça.

se colocando ao lado de Lévi-Strauss . A ciência "positiva" das doenças mentais e esses sentimentos humanitários que promoveram o louco à categoria de ser humano só foram possíveis uma vez solidamente estabelecida essa síntese. e a destituição de sujeito de direito. Mesmo Lombroso parece assentar a frenologia sobre uma antropologia. cauciona um sistema capaz de identificar e alocar o sujeito em seu lugar. p. esse homem normal é uma criação. otra pasión: la pasión por el concepto de lo que yo llamaría el ‘sistema‘. inserindo-o numa certa antropologia moderna pelo lado da negatividade. un reflejo. lo que nos sostenía en el tiempo y en el espacio. Na verdade. 2008. era el sistema. nos mostraron que el ‘sentido’ tan solo era probablemente una especie de efecto superficial. y Lacan. Pero nosotros nos hemos descubierto otra cosa. (Eribon. mas também existencial. por conseguinte. 194) Antropologia. en cuanto a las sociedades. 473) salienta que “a Antropologia constitui talvez a disposição fundamental que comandou e conduziu o pensamento filosófico desde Kant até nós”. lo que ya estaba antes de nosotros. ela atua entre e articulando o internamento. (…) Sartre trató al contrario de mostrar que había sentido en todo. Primeiro. Conseguintemente. mas num sistema que identifique o socius ao sujeito de direito. desta maneira. Foucault (2000. Observamos. p.a psicopatologia do século XIX (e talvez ainda a nossa) acredita situar-se e tomar suas medidas com referência num homo natura ou num homem normal considerado como dado anterior a toda experiência da doença. que a naturalização se desdobra em duas frentes de objetivação e sujeição do louco. una espuma. (…) El punto de ruptura está situado en el día en que Lévi-Strauss. 1992: 217-218) A paixão é pelo sistema. e. por la existencia. não é num espaço natural. sobre um conhecimento do homem À nível de justificativa (cf. correspondente à operação prático-terapêutica que funda a psiquiatria e a loucura modernas. FOUCAULT. De algum modo ela constitui o a priori concreto de toda a nossa psicopatologia com pretensões científicas. en cuanto al inconsciente. E se é preciso situá-lo. y que lo que nos impregnaba profundamente. o louco não é reconhecido como tal pelo fato de a doença tê-lo afastado para as margens do normal. humanismo e sentido em tudo X sentido superficial Hemos percibido la generación de Sartre como una generación ciertamente valiente y generosa que sentía pasión por la vida. mas sim porque nossa cultura situou-o no ponto de encontro entre o decreto social do internamento e o conhecimento jurídico que discerne a capacidade dos sujeitos de direito. por la política. institucional.

manifestado primeiro sob a forma do indefinido como contingência do empírico. existe una analítica de la finitud que oscila entre lo positivo y lo fundamental. Uma metafisica do homem. Foucault (2011b) traz o questionamento. aspecto central da episteme moderna. à medida que não pergunta por seus limites e anuncia. Mas ela não se restringe a um limite externo. Evidencia que o pensamento clássico é metafísico. A finitude se dá la finitud se da en los objetos de la experiencia y en la experiencia de los objetos. planteia. Foucault (2000) trata da historicidade fundamental que fundamenta antropologicamente as ciências humanas não deixando de perguntar sobre a verdade e os modos com que ela aparece dentro da formação histórica dos saberes do homem. a partir de Kant se pensa a finitude desde o finito. O conhecimento deixa de condizer unicamente aos objetos e se volta para o sujeito que conhece. se anuncia a finitude do homem. assentada na pergunta “que é o homem?” A pergunta pelo fundamento da representação nos faz ver e constatar que esta se assenta sobre o fundamento do homem. assim. A modernidade não descobre ou inventa a finitude. mas a um fundamento do próprio ser do homem. . uma nova metafisica. incorporado por Kant. Dái se forma o duplo empírico transcendental que caracteriza a positividade das ciências humanas. Foucault había identificado el fundamento del saber sobre el hombre con la figura de un sujeto verdadero postulado ahistóricamente. Na mesma positividade do saber.Retira o homem do centro do pensamento. As palavras e as coisas elucida as condições que fazem do homem fundamento de conhecimento. GRÓS) Localização do problema do homem frente À loucura: sus primeros escritos sobre psicología y psicopatología. Logo. Este hecho constituye el nudo de la crítica que Foucault formulará a Kant y a la modernidad. da verdade por parte das ciências humanas (DÁVILA. Antropologia Foucault e Kant Sobre kant e foucault [[Orellana]] Filosofia como exp dos limites. Na era clássica ela era definida negativamente pelo infinito de Deus.

sino que avanza en el olvido de las determinaciones que desmienten la figura del sujeto constituyente. 49es). al mismo tiempo. numa ruptura radical que traz o homem como figura inventada que fundamenta o pensamento moderno e a analítica da finitude. el desequilibrio que habita y condiciona históricamente a la analítica de la finitud como pensamiento que intenta hacer valer lo empírico al nivel de lo trascendental pensamiento. dialética e analítica transcendental) demuestran hasta qué punto éste se encuentra comprometido con una analítica de la finitud o. desde Kant en adelante. en los propios límites de su conocimiento encuentra el fundamento positivo del saber. estas tres derivas kantianas del pensamiento moderno (estética. ela é convertida em fundamento do porpio ser (DREYFUS & RABINOW.p. pero éste. La finitud de los objetos manifiesta la finitude del sujeto. Foucault retorna a Kant para comprender la totalidad del pensamiento moderno como una deriva de su apuesta filosófica y para anunciar la definitiva ruptura del pensamiento crítico con respecto al recurso antropológico. E que conduz à morte do homem como experiência de pensamento do vazio do homem desaparecido desde as contraciências huamanas el psicoanálisis. 53]. .Além da finitude se disolver em sua radical negatividade. un fundamento de todo conocimiento. Dentro de ese movimiento. el pensamiento no se detiene en la afirmación de los límites. a su vez. lo que es lo mismo. Así. La finitud va y viene de lo positivo a lo fundamental. p. de la finitud que se da en el corazón de mi experiencia a la finitud que encuentro en el espacio de la reflexión y que responde al modo de ser del hombre. giraría sobre sí mismo en la dificultad de cruzar dos caminos: el estudio empírico del hombre como hecho entre hechos y el estudio del hombre como condición trascendental de posibilidad de todo conocimiento [Dreyfus y Rabinow (1988). En síntesis. se despliega una experiencia de la finitud en que ésta se responde a sí misma O que mostra que a modernidade gira repetida e circularmente sobre o pensamento do Mesmo. ?? . la etnología y la lingüística) y en la literatura moderna (Bataille. Blanchot o Roussel) Foucault pretende legitimar un proceso histórico que conduce al pensamiento más allá de Kant y del “sueño antropológico” de una modernidad que quiere hacer de lo humano un medio de acceso a la verdad y. con un discurso antropológico o único modo de sair ao positivismo e a escatologia é dinamitar a antropologia.

224) ele se dedica às relações das representações entre si. uma força infinita.. Kant. de resto. por aquela) se reuniram nessas disciplinas da interpretação” “a crítica se desloca e se destaca do solo onde nascera. (2000. Enquanto Hume fazia do problema da causalidade um caso de interrogação geral sobre as semelhanças. isolando a causalidade. Talvez porque o homem-que-somos se enxerga como figura global. Kant seria. de outro lado. marca da Modernidade.Antropologia de Kant: sujeito duplo empírico-transcendental Se História da loucura (FOUCAULT. fato que caracteriza o surgimento das ciências humanas. não obstante. 101-2) “após a crítica kantiana e tudo o que se passou na cultura ocidental do fim do século XVIII. p. com sua análise da finitude. abriu as portas à era do pensamento antropológico e das ciências humanas. lá onde se tratava de estabelecer as relações de identidade e de distinção sobre o fundo contínuo das similitudes. Ele se atenta ás condições para toda e qualquer representação seja estabelecida. como critica Deligny (2015). o sujeito consciente de suas forças finitas se dedica a um projeto de totalização da experiência que incute seu conhecimento e domínio e exige. constituindo uma apofântica e uma ontologia. ele faz surgir o problema inverso da síntese do diverso” (2000. Sobre as ruínas do discurso metafísico. . a história e a semiologia (esta absorvida. por detrás de perigosa fachada de um saber de validez universal. o nome de Kant aparece em As Palavras e as Coisas (ibid. Nessas. é ela que até nossos dias reinou sobre as disciplinas formais. cai numa forma antropocêntrica de conhecimento. Cogito moderno Kant reinterpreta as limitações da capacidade finita do conhecimento nas condições transcendentais de um conhecimento que avança em direção ao infinito. opera uma força disciplinada e dissimulada de pura vontade que deseja ser o poder do conhecimento. cujo fundamento e justificação não estão no nível representativo. P. inverte a questão. pois. Para Foucault. o primeiro crítico do conhecimento que. o sujeito. 1979) aparece recheado de citações oportunas que ligam o pensamento hegeliano ao pensamento moderno e especialmente à dinâmica da alienação. a máthêsis se reagrupou. uma divisão de um novo tipo se instaurou: de um lado. sobrecarregado. 2000) como o primeiro filósofo a apontar que a forma do conhecimento é caracterizada pela prescrição do sujeito cognoscente a si mesmo. ele tenha a insidiosa mania de tentar compreender o mundo como figuração simbólica.

Até onde pode ir o sistema representativo? Retira o sabe e o pensamento do campo representativo. mais exatamente. filosofias que se dão por tarefa unicamente a observação daquilo mesmo que é dado a um conhecimento positivo. mas do cogito moderno.. P. não mais do caráter não-fundado das teorias filosóficas em face da ciência. a questão da atitude se tornou mais fundamental que a análise das representações (já não podendo esta ser senão derivada em relação àquela)” (2000. Vê-se de que modo os dois termos dessa oposição se dão apoio e se reforçam um ao outro. é no tesouro dos conhecimentos positivos (e sobretudo daqueles que a biologia. a partir da crítica — ou. p. mas da retomada.Interroga a representação não desde suas possíveis combinações dentro do quadro ordenação do mundo clássico. e. mas do homem. só assim ele encontra seu ser na profundidade podendo então conhecer a si mesmo. (. tratava-se de trazer à luz o pensamento como a forma mais geral de todos esses [pág. 340) pondera que “o saber não pode mais desenvolverse sobre o fundo unificado e unificador de uma máthêsis” Sob o triângulo crítica-positivismo-metafísica do objeto é que se ordena todo conhecimento ocidental desde o início do século XIX “Instaura-se assim. 337). numa consciência filosófica clara. p. a economia ou a filologia podem liberar) que as metafísicas dos “fundos” ou dos “transcendentais” objetivos encontrarão seu ponto de investida. de que o kantismo é a primeira constatação filosófica — uma correlação fundamental: de um lado. Foucault (2000. do outro. Desloca-se a questão transcendental para e que reativa a questão do cogito.. antes. não mais da natureza. 352). mas do ser. inversamente. metafísicas desse fundo jamais objetivável donde vêm os objetos ao nosso conhecimento superficial. Atitude que convoca o homem a conhecer o não-conhecido. desde Kant. mas desde seus limites de direito. é na divisão entre o fundo incognoscível e a racionalidade do cognoscível que os positivismos encontrarão sua justificação” (FOUCAULT.) É que. não mais da possibilidade de um conhecimento. mas daquela de um desconhecimento primeiro. Questão de ética e atitude se assenta sobre a evidência que o homem “é um ser finito: e assim como. Desde Kant. 446] pensamentos que são o erro ou a ilusão. 2000. para Descartes. a partir desse desnível do ser em relação à representação. de todo esse domínio de experiências não-fundadas em que o homem não se reconhece. e. desdobrado da ordem divina infinita. Quádruplo deslocamento em relação à questão kantiana. metafísicas do objeto. não mais como se apresentara para Descartes. pois que se trata não mais da verdade. de maneira a conjurar-lhes o .

na sua maior dimensão. a saída que caracteriza a Aufklärung concerne a um processo que nos resgata do estado de menoridade. tratase. Assim. no entanto. o trabalho e a linguagem são anteriores e determinam o homem. a súbita descoberta iluminadora de que todo o pensamento é pensado. ao contrário. Uma vez que a existência concreta individual apenas acessa a vida através de seu próprio corpo. separa e religa o pensamento presente a si. ele precisa (e é por isso que ele é menos uma evidência descoberta que uma tarefa incessante a ser sempre retomada) percorrer. em torno dele. com aquilo que. uma intransponível exterioridade. de explicálos e de propor então o método para evitá-los. a articulação do pensamento com o que nele. A finitude deste é decalcada da finitização daquelas instâncias a ele superior. a um tempo. como pode ele ser sob as espécies do não-pensante. A proposta kantiana se furta a compreender o presente a partir de uma totalidade ou de um acabamento já dado ou futuro para buscar a atualidade desde a diferença: a atualidade é uma diferença em relação ao ontem. como contém o erro e a ilusão. do pensamento. mas a interrogação sempre recomeçada para saber como o pensamento habita fora daqui. portanto. A vida. 445-6) Ao passo que para Descartes é o pensamento que reduz e contém a loucura. Ele não reconduz todo o ser das coisas ao pensamento sem ramificar o ser do pensamento até na nervura inerte do que não pensa. estado no qual a vontade é sujeitada à autoridade e condução nos domínios que devem convir à razão. debaixo dele. Sob essa forma. a distância que. mas que nem por isso lhe é estranho. não é pensamento.perigo. o cogito não será. o mais próximo de si mesmo. A finitude se apresenta sob a roupa do indefinido. designando saída ou resultado. Assim como o homem acessa as determinações produtivas . frente ao dado. ao ontem. Antropologia na analítica da finitude É a analítica da finitude. A atualidade concerne à autonomia e às práticas de libertação do sujeito. e. No cogito moderno. re-duplicar e reativar. p. de deixar valer. segundo uma irredutível. se enraíza no não-pensado. Já no texto O que são as luzes? Foucault (1984/2007a) destaca a definição negativa conferida por Kant para Aufklärung como Ausgang. sob uma forma explícita. com o risco de reencontrá-los no final de sua tentativa. (2000.

grupos e indivíduos na escala hierárquica que igualmente se transforma. a um tempo. entre B) cogito e impensado. A) O ser do homem deve ter em mãos tudo o que torna possível o conhecimento. O jogo entre A) o empírico e o transcendental. p. A atitude proeminentemente moderna de pensar o finito em relação às finitudes experienciáveis e não em contraste com o infinito metafisico divino dá margem a três aspectos de reflexão para Foucault (2000) em relação ao fundamental e ao positivo. ao pronuncia-las na sua fala. e articular a história possível de uma cultura com a espessura semântica que. Revirar este solo para antecipar a verdade em estado embrionário ou de desenvolvimento é próprio do que Foucault (2000. Já a verdade histórica elenca uma série de ilusões com as quais um mesmo elemento é distintamente apreendido sob as mais variadas condições de formação e funcionamento. sociais e econômicas do conhecimento trazem uma dialética transcendental na qual se alternam classes. entre C) retrocesso e retorno à origem. 443) encontra a articulação e “a objetividade possível de um conhecimento da natureza com a experiência originária que se esboça através do corpo. do desejo e da fala. Verdade dada como desdobramento de operações empíricas sobre um objeto fundamentado em sua natureza própria que dá margem a um saber positivista. 441) denomina “análise escatológica”. do trabalho e das línguas à finitude concreta do corpo. A verdade de um objeto é a verdade natural. O estudo das condições corpóreas (percepção. a verdade do corpo e de suas leis de formação e funcionamento. Como empreita de unificação destes dois está na análise da experiência vivida. A segunda ordem de finitude concretamente experimentada pelos indivíduos dá a realidade da primeira.mediante seus desejos e a materialidade histórica das línguas. se esconde e se mostra na experiência vivida” . Já o estudo das condições históricas. A analítica da finitude designa e articula a finitude das empiricidades da vida. na qual Foucault (2000. p. sentidos e inteligência) levam a uma “estética transcendental” relativa à natureza própria do conhecimento. tal como se articulam com a noção moderna de homem.

voltando-se para a figura conceitual do homem como fundamento da experiência com o mundo que parte de um desconhecimento primeiro e para a retomada de uma consciência filosófica em relação às lacunas da experiência em que o homem não se reconhece. diferentemente do cartesiano. Não há mais origem profunda ao homem moderno. o conhecimento do homem. mas ao ser do homem – e pode retomar o impensado do homem e a possibilidade de seu enlouquecimento como objetos de reflexão. O homem é conhecido somente na superfície de objetivação. 2000. diferentemente das ciências da natureza. O cogito moderno sobressalta a separação e a ligação entre o pensamento como experiência de si mesmo (pensamento reflexivo) e o impensado. Sua origem e fundamento está na fina superfície repleta de mediações que liga seu ser à vida. a éticas ou a políticas. a origem é buscada sempre como origem da representação. A historicidade própria e autônoma faz brotar a necessidade de uma origem simultaneamente interna e estranha que propicia a busca da natureza do homem em contraste com o louco. está sempre ligado. p. Assim como não se dedica à natureza geral das coisas. sua . mesmo sob sua forma mais indecisa. correlato da analítica da finitude e do cogito moderno. ao trabalho historicamente institucionalizado e à impossibilidade de alcançar a palavra primeira a partir da qual a linguagem se desenrola.B) O cogito moderno. não se dedica à verdade da loucura. relativa a uma vida independente e anterior à ele. às possibilidades de se conhecer ou à falta de fundamento das teorias filosóficas. Historicidade independente do homem mesmo. Desta maneira. 453) C) Se no pensamento clássico. a razão. elucidado em seu silêncio como a verdade implícita e oculta a ser buscada no homem. não se dedica a uma forma geral de pensamento. mais profundamente. o trabalho e a linguagem ganham historicidade própria. o pensamento moderno avança naquela direção em que o outro do homem deve tornar-se o Mesmo que ele (FOUCUALT. A missão e o ensejo da razão moderna é retomar a consciência do impensado. ao trabalho e à história – às empiricidades que constituem as ciências empíricas e as ligam com as exatas e as humanas. na modernidade a vida.

de la alienación y de las formas simbólicas. . y entre la analítica de la finitud y las ciencias empíricas encontramos las filosofías que tematizan los objetos de éstas como a priori objetivos: las filosofías de la vida. a economia e a linguagem possibilitando. sino en el espacio definido por las relaciones que mantienen con cada uno de ellos. 255 Analítica da finitude: É no abandono da Mathesis Universalis que o homem é tornado representação de si mesmo desde a biologia. A matematização do qualitativo não é exclusiva às ciências humanas. de toda maneira inacessível – ao ser do homem. no fio que liga toda uma cronologia a partir da qual se pode plantear a questão da origem. Foucault denomina el triedro de saberes de la episteme moderna está formado por las ciencias llamadas exactas (cuyo ideal es la concatenación deductiva y lineal de las proposiciones evidentes a partir de axiomas). Por un lado. pero las relaciones entre la matemática y las ciencias humanas son las menos importantes por dos razones. F2 252. la vida y el lenguaje– procuran establecer las leyes constantes de sus fenómenos) y la analítica de la finitud. que para cada uno de sus respectivos objetos –el trabajo. entre las ciencias exactas y las ciencias empíricas existe un espacio común definido por la aplicación de los modelos matemáticos a los fenómenos cualitativos. por ejemplo. o homem é condição para a instauração do tempo na duração. Por um lado. a partir desta figura global da soma representativa pode ser convertido em objeto de estudo. A investigação autorreflexão sobre as representações da vida. Algunos de sus procedimientos y varios de sus resultados pueden ser formalizados siguiendo el modelo matemático. entre la analítica de la finitud y la matemática encontramos todos los esfuerzos del formalismo. Cada una de estas tres dimensiones está en contacto con las otras dos. Por outro. la sociología. Surgen de este modo los modelos matemáticos. a origem das coisas escapa – é maior ou anterior. do trabalho e da linguagem. 2011). las ciencias empíricas (la economía. la biología y la lingüística.profundidade é deslocada do âmbito existencial para as profundezas de seu organismo como esclarecido em O nascimento da clínica (FOUCAULT. Por otro lado. Las ciencias humanas –la psicología. lingüísticos. biológicos y económicos. las teorías de la literatura y de los mitos– no se ubican en ninguno de estos tres dominios.

na profundidade de seu ser. do mesmo modo. só se desvela a seus próprios olhos sob a forma de um ser que. numa espessura necessariamente subjacente. na profundidade histórica das línguas. os primeiros filólogos haviam buscado. a representação deixou de valer para os seres vivos. A representação pertence À ordem das coisas mesmas e de sua lei interior. CX Candiotto.” (432) trabalho leis q lhe escapam.” “só se pode ter acesso a ele através de suas palavras. como se conhecem a anatomia do cérebro. A representação não é mais o lugar da origem a partir da qual se desdobra o quadro de sua ordenação.. vivo que. “o homem aparece com sua posição ambígua de objeto para um saber e de sujeito que conhece: soberano submisso. língua q já está aí.) A finitude do homem se anuncia — e de uma forma imperiosa — na positividade do saber. .Na era clássica o ser e a representação encontram em um lugar-comum. o homem se anuncia como ser indefinido. Ricardo havia requerido ao trabalho as condições de possibilidade da troca. não como aquilo que determina do exterior a realidade do mundo. como seu lugar de origem e a sede primitiva de sua verdade.. é já um ser vivo. (. o mecanismo dos custos de produção ou o sistema da conjugação indoeuropéia.. A louc não mais mal. dos objetos que ele fabrica — como se eles primeiramente (e somente eles talvez) detivessem a verdade. A positividade do homem é anunciada na positividade do saber. as condições [pág. do finito limitado por Deus. adivinha-se como que em branco tudo o que elas tornam impossível. para as necessidades e para as palavras. Por isso. 430] de possibilidade do ser vivo. O que determina o homem? A vida a linguagem e o trabalho a ele exteriores. de seu organismo. pela filigrana de todas essas figuras sólidas. E estes lhe escapam. a possibilidade do discurso e da gramática. um veículo para palavras que lhe preexistem. Todos os conteúdos empíricos do homem só têm positividade no espaço do saber. ou. sabese que o homem é finito. um instrumento de produção. antes. e ele próprio. do lucro e da produção. positivas e plenas. 430) Dissipação decorrente de um nova relacionamento entre as palavras e as coisas e sua ordem. percebem-se a finitude e os limites que elas impõem.. desde que pensa. espectador olhado” (2000. Por isso mesmo. “Cuvier e seus contemporâneos haviam requerido à vida que ela mesma definisse. do conhecimento possível. ligado À sua finitude. p. numa irredutível anterioridade.

ordenar e determinação (divina). o homem não é mais apneas um lugar privilegiado. Porque o limitado do homem é limitado pelo infinito de deus ele não pode conhecer imediatamente o que lhe define e determina. mas no coração . 434] responde a si mesma. Remete toda diferença À identidade. mas o próprio ordenador de todo o conjunto do real (mesmo se não em termos de evolução. A analítica da finitude lança as bases para a repetição do positivo sobre o fundamental. A experiência que se forma no começo do século XIX aloja a descoberta da finitude não mais no interior do pensamento do infinito. O limite funda a existneica dos corpos. a partir das finitudes que determinam de cima e do exteior o homem é que o transcendental repete o empírico. ela é. circulação) do corpo. torna impossível conhece-los em absoluto. circulação) do corpo. a identidade e a diferença das positividades e de seu fundamento”. por sua vez.Qual o fundamento das positividades empíricas? A finitude marcada pela espacialidade (regras e normas. que se entende no tempo de uma linguagem como narratividade. a possibilidade de produzir desejos e respostas para estes desejos (AE??). pela espacialidade (dada segundo regras e normas. A finitude e o fundamento das positividades empíricas é demarcada. Na representação clássica se manifesta identidade dos seres. nomear. DELEUZE & GUATTARI. Pensamento do mesmo: “De um extremo ao outro da experiência. 2011). Relaçao entre nome. o cogito repete o impensado assim como o retorno da origem repete seu recuo. pela possibilidade de produzir desejos e respostas para estes desejos (cf. das necessidades e das palaveas ao mesmo tempo em que lhe priva o acesso direto. ou q usa a linguagem para se definir. a representação é necessa ´ria para que se conheça os conteúdos empíricos. a finitude [pág. na figura do Mesmo.ele está no termo final de uma longa série). Como a represrntação fazia rebater o mesmo sobre o quadro clássico. ou que usufrui da linguagem para se definir. que se entende no tempo de uma linguagem como narratividade.

o homem moderno — esse homem determinável em sua existência corporal. os limites da ação humana. como sua correlação negativa.. o trabalho e a linguagem se dão em sua positividade. sua historicidade e suas leis próprias) funda. até onde pode ir o conhecimento. (2000. Daí o jogo interminável de uma referência reduplicada: se o saber do homem é finito. na armadura de seus membros e em meio a toda a nervura de sua fisiologia. se a vida. até a psicologia científica nasce dos laboratórios medindo os limites e propriedades da percepção e da sensibilidade. e inversamente. etc. ao nível arqueológico. como as formas concretas da existência finita. laboriosa e falante — só é possível a título de figura da finitude A delimitação do homem pela vivência da empiricidades é precisamente o alvo de uma analítica da finitude. do trabalho e da vida. inversamente. a modernidade começa quando o ser humano começa a existir no interior de seu organismo. elas devem passar pela finitude da consciência do homem que vive. 436 a positividade da vida. é porque ele está preso. reanimadas. sem liberação possível. ao nível das aparências. os limites do conhecimento fundam positivamente a possibilidade de saber. e. mas a que serve a analítica da finitude? Como se pensa o homem enquanto ser finito a partir da própria finitude e não como finito limitado negativamente pelo infinito que é Deus? Uma vez que a soberania do cogito cartesiano não assegura mais as sínteses empíricas. etc. trabalha . quando aloja seu pensamento nas dobras de uma linguagem. o caráter limitado do conhecimento. por um saber finito. pela insistência de sua palavra (438) a finitude é sempre designada a partir do homem concreto e das formas empíricas que se podem atribuir à sua existência. p. tão mais velha que ele não pode dominar-lhe as significações. é porque o conhecimento tem formas finitas 2000. nos conteúdos positivos da linguagem. mas numa experiência sempre limitada. que descobre o a priori histórico e geral de cada um dos saberes. 436) Limites positivos. contudo. quando ele começa a existir no coração de um trabalho cujo princípio o domina e cujo produto lhe escapa. Tentações. p. na concha de sua cabeça.mesmo desses conteúdos que são dados. as capacidades de resposta e os limiares de dor. o trabalho e a linguagem.. da produção e do trabalho (que têm sua existência. o que são a vida.

porquanto é um ser tal que nele se tomará conhecimento do que torna possível todo conhecimento” 2000. por direito. as condições que os tornaram [pág. o homem moderno se anuncia como ser indefinido. a própria positividade do sujeito sobre o qual se articula o discurso é decorrente da definição positivada das finitudes que lhe faz inacessíveis a realidade e as regras de sua constituição. uma vez que buscam a realidade da loucura nos autos de polícia. a instauração de uma analítica da finitude expressa a necessidade de se pensar o homem desde o que ele experimenta concretamente em sua vida e não sobre um discurso filosófico ou teológico que carregue consigo a verdade da ontologia. o homem não se pode dar na transparência imediata e soberana de um cogito. não se trata. Para Foucault (2000). Por isso. os dois livros citados são exemplares. Por isso. nos decretos administrativos e nos tratados de medicina da época num caso. 444] possíveis. de encontrar em Descartes uma determinação definitiva do que se pensa e se vive na era clássica. se furtam aos grandes autores ou filósofos para especificar os campos de empiricidades que estuda. mas tampouco pode ele residir na inércia objetiva daquilo que. Pelo contrário. Para Foucault (2000). este sistema de finitização define a positividade dos saberes que conferem a positividade do homem ao mesmo tempo em que sua realidade e suas regras lhe escapam. não acede e jamais acederá à consciência de si “estranho duplo empíricotranscendental. trabalho e linguagem são anteriores e determinam o homem. tornando homem. Antropologia e Duplo empírico transcendental: essa figura paradoxal em que os conteúdos empíricos do conhecimento liberam. parece que Derrida (2001) exagera na importância da leitura que Foucault (1979) realiza das Meditações de Descartes (1987) na História da loucura. Por isso. aliás. Neste âmbito. 439 3 Como de fato. A obra e os escritos de Descartes sinalizam na análise de Foucault (1979.e fala pois vida. ou de fazer da leitura foucaultiana dele mais do que é 3. mas a partir de si. . 2000) apenas um dentre uma variedade de saberes menores que definem a era clássica mais e melhor que os grandes pensadores em História da loucura e As palavras e as coisas. o homem moderno se anuncia como ser indefinido. enquanto noutro.

40). E que conduz à morte do homem como experiência de pensamento do vazio do homem desaparecido desde as contraciências huamanas el psicoanálisis. En este caso. ser-lhe manifestada nos seus próprios conteúdos empíricos” (FOUCAULT. numa ruptura radical que traz o homem como figura inventada que fundamenta o pensamento moderno e a analítica da finitude. p. Diz sobre as condições anatomofisiológicas e da natureza do conhecimento humano que “lhe determinava as formas e que podia. sociais e econômicas do conhecimento que se forma no seio de relações entre homens e da possibilidade de abertura do ser finito a novos horizontes. y el . 2000. 336) confere a coerência. p. Já a análise dialética transcendental (2000. la etnología y la lingüística) y en la literatura moderna (Bataille. a condições do conhecimento determinadas pelos saberes empíricos e que. estética trascendental e implica el reconocimiento tácito de que las formas de nuestra sensibilidad proporcionan las condiciones de posibilidad del conocimiento. Blanchot o Roussel) De um lado. não obstante. formular un discurso verdadero de la naturaleza y de la historia. la verdad emerge como la promesa de un discurso escatológico que intenta asimilar lo trascendental a lo histórico. ser finito estabelecido sob parâmetros necessários e universais de percepção e sensibilidade que se dão no espaço do corpo. enfim. desde allí. surge o sujeito. Ela condiz às condições históricas. ao mesmo tempo. a ordem e o liame daquilo que se pode conhecer desde as multiplicidades empíricas. prescrevem suas formas. lo que es lo mismo. Dialéctica trascendental y donde se articulan todas aquellas filosofías que buscan las condiciones de posibilidad del conocimiento en la cultura y en la historia. alçado ao nível de organismo.estas tres derivas kantianas del pensamiento moderno (estética. como foco da análise estética transcendental. Se refere. se halla la filosofía positivista y su pretensión de alcanzar la verdad del objeto para. Ambas obedecem a una similar lógica epistémica El positivismo salta de la constatación de la imperfección del conocimiento a la configuración de un saber estable. dialética e analítica transcendental) demuestran hasta qué punto éste se encuentra comprometido con una analítica de la finitud o. Dentro de este primer enfoque. con un discurso antropológico o único modo de sair ao positivismo e a escatologia é dinamitar a antropologia.

que sustetan sobre o discuro a natureza. que falha ao se empenhar numa reflexão sobre o vivido e o vivível. o alvo da análise de Foucault (2000) parece ser a filosofia moderna sob sua versão fenomenológica. Disgingue ainda uma divisão dentro da própria ordem da veridição. 437) a tentação de refazer uma metafísica sobre cada um destes objetos. opina Foucault. A preocupação em definir o sujeito articula a filosofia com seu exterior na lateralidade dos saberes empíricos que a limitam e impõem regimes empíricos de finitude ao sujeito constituinte. Sem nos delongarmos nesta discussão de base filosófica. Distingue: O conhecimento em suas formas estáveis e definitivas. o homem é especificado a partir destes saberes empíricos. Psotivismo e escatologia ver CX candiotto e texto antigo As ciências empíricas dão base para a formação das ciências humanas: a psicologia. a sociologia e a análise literária e dos mitos. Ela serve de eixo desde o qual se desenvolvem as ciências humanas. mesmo se arbitrarias.discurso escatológico pasa de la crítica al saber ilusorio – como busca em Kant. Así. no lugar da metafísica da representação que convive com a análise do vivo. A crítica vem de uma série de divisões elucidadas. sobre uma subjetividade constituinte. concernentes ao empírico. Com efeito. ambos enfoques son incapaces de superar el carácter repetitivo de la analítica de la finitud. Antes e exteriormente à sua concepção como sujeito constituinte da filosofia. VER TEXTO. assim como em suas condiç~eos nautrais. deseja e trabalha. advém a analítica da finitude e da existência do homem e com ela. puesto que no logran separar y confunden lo empírico y lo trascendental. sinaliza Foucault (2000. através do corpo e da percepção. p. como verdade do objeto. Ao passo que a analítica da finitude condiz aos limites exteriores a partir do qual se define o homem a partir das exterioridades. “discurso que permitisse analisar o homem como sujeito. a qual ela se põe a definir e especificar. ou conhecimento uma linguagem considerada verdadeira. isto é. como lugar de conhecimentos empíricos mas reconduzidos o mais próximo . A verdade da ilusão. a la fundamentación de una ciencia de la historia. dos desejos e das palavras. contudo. assentados. como ser vivo que fala. de uam verdade da ordem do discurso.

possível do que os torna possíveis. cuyo proyecto sería la articulación de una ciencia con carácter trascendental y contenido empírico. que tenha pretendido conjurar o discurso ingênuo de uma verdade reduzida ao empírico. que tenha tentado restaurar a dimensão esquecida do transcendental. termina confirmándolo. é o espaço onde todos os conteúdos empíricos são dados à experiência. En suma. la fenomenología no puede escapar a las trampas del duplicado empírico-trascendental y al final.” Crítica À fenomenologia [[ ver começo do texto]]. Um papel tão complexo. pela análise do vivido. com efeito. que pretensamente “contestação radical do positivismo e da escatologia. a fenomenologia ocupa o posto de analítica transcendental como teoria do sujeito. na verdade. como las tradiciones anteriores. e como forma pura imediatamente presente nesses conteúdos. ) analise do vivido acaba prisionero de la doble exigencia de hacer valer lo empírico por lo trascendental y viceversa. sin confundir ambos niveles. ao mesmo tempo. no pensamento moderno. a experiência do corpo e a da cultura. um discurso. O que faz da fenomenología demasiada retirada ou demaisada concreta para se alocar num positivismo ou numa escatología. e o discurso profético que ingenuamente promete o advento à experiência de um homem” Na busca de um modelo que supere o positivismo e o discurso escatológico da estética e da dialética transcendentais. O vivido. distancia del positivismo y de la escatología. ao mesmo tempo. capaz de dar cuenta del sujeto como fuente de las significaciones históricas y culturales [Dreyfus y Rabinow. ele estabelece. 1988). Na tentativa de fazer uma filosofía de “aquello que se da en la experiencia” y de “aquello que hace posible la experiencia” supone una oscilación que condena al análisis a la inestabilidad y al proyecto a permanecer incompleto. p. que desempenhasse em relação à quase-estética e à quase-dialética o papel de uma analítica que. intenta restaurar la dimensión auténtica de lo transcendental conjurando “el discurso ingenuo de una verdad reducida a lo empírico y el discurso profético que al fin promete ingenuamente la venida a la experiencia de un hombre” (2000. as fundasse numa teoria do sujeito e lhes permitisse talvez articular-se com esse termo terceiro e intermediário em que se enraizariam. . comunicação entre o espaço do corpo e o tempo da cultura. tão superdeterminado e tão necessário foi desempenhado. em suma. “análisis de lo vivido” de Merleau-Ponty. p. é também a forma originária que os torna em geral possíveis e designa seu enraizamento primeiro. 54 [[ colocar em nota??]].

Porém há de se ater mais que ao vivido. mas alocado nas múltiplas vivencias possivelmente decalcadas do atravessamento das singularidades) e o passado contato (a memória é a liberdade do passado).fenomenologia pretensamente surge como uma experiência o homem fundada no vivido. como fra vivido. e que. mas indefinidamente percorrida. as condições que os tornaram [pág. o homem não se pode dar na transparência imediata e soberana de um cogito. o empírico pelo transcendental. inversamente. ela volta Fenomenologia tenta fazer valer no homem. O homem é um modo de ser tal que nele se funda esta dimensão sempre aberta. . mas tampouco pode ele residir na inércia objetiva daquilo que. de uma parte dele mesmo que ele não reflete num cogito. o homem se alicerça numa dimensão fundamental de desconhecido. a todo o horizonte silencioso do que se dá na extensão movediça do nãopensamento porque é duplo. e articular a história possível de uma cultura com a espessura semântica que. que vai. ao desvio das experiências que escapam a si mesmas. ao que se pode conhecer. a verdade transcendental do homem. Ele pode então. Ela parte de uma redução do cogito. Tenta fazer do vivido. dimensão de seu ser que lhe transborda o pensamento. mas a partir de si. modo de ser do homem e sua relação com o impensado. ao ato de pensamento pelo qual a capta. se interpelar a si mesmo a partir daquilo que o escapa. que escapa à sua apreensão e a seu pensamento. da questão do ser. vai desta pura captação ao atravanca-mento empírico. 444] possíveis. porém retoma a questão ontológica. No entender de Foucault (2000). subsumindo-o ao conhecimento. a um tempo. à ascensão desordenada dos conteúdos. se esconde e se mostra na experiência vivida” Na mesma época estudando a fenomenologia de Husserl Deleuze (2000) Antropologia: Cogito e impensado Duplo empírico transcendental: essa figura paradoxal em que os conteúdos empíricos do conhecimento liberam. ao vívido em sua relação com o vivível (não reduzido ao futuro e suas promessas. volta a discutir o ser. não acede e jamais acederá à consciência de si. A fenomenologia consiste numa interrogação sobre o modo do ser. por direito. jamais delimitada de uma vez por todas. “Ela procura articular a objetividade possível de um conhecimento da natureza com a experiência originária que se esboça através do corpo.

por uma espécie de movimento rijo. o modelo clássico de síntese é dado sob um saber universal pautado. porque se assenta no pensamento de Deus e sua ordem infinita. que Jaspers (1970) – juntamente à Kierkegaard – encontra na filosofia com a autorreflexão que se refere ao juízo de Deus. emular a infinitude divina como desdobramento. não mais da natureza. emana de Deus e atua. portanto.Pode se interpelar acerca desta liberdade não objetivável. habite o que lhe escapa sob a forma de uma ocupação muda. 10) quando ele propõe na quarta das Regras para a direção do espírito que “deve haver uma ciência geral que explique tudo o que se pode investigar acerca da ordem e da medida”. Ela coloca todos os elementos do mundo sob uma ordem matematizada nas grades do quadro representativo cuja hierarquia. segundo a tese de Foucault (2000). não mais do caráter não-fundado das teorias . deste modo. que a era clássica não pode pensar o homem. à liberdade que não se deixa objetificar. não mais da possibilidade de um conhecimento. Quádruplo deslocamento em relação à questão kantiana. não mais como se apresentara para Descartes. mas do ser. p. Discurso filosófico responde a isso. mas do cogito moderno. por exemplo. anime. Assim sendo. essa figura dele mesmo que se lhe apresenta sob a forma de uma exterioridade obstinada?” 445 Desloca-se a questão transcendental para e que reativa a questão do cogito. O conhecimento deve. Percebemos. conforme postulado na primeira regra. Questão da era clássica até kant: como a expereicnia da natureza pode dar lugar a juízos necessários? A questão do do cogito moderno é: “como pode ocorrer que o homem pense o que ele não pensa. desta forma. pois que se trata não mais da verdade. mas daquela de um desconhecimento primeiro. na direção da formação e da aquisição pelo espírito de uma atitude que sustente os juízos sólidos e verdadeiros sobre tudo aquilo que se apresente ao sujeito. que tudo contém. É porque comporta e tem esse desconhecido em si é que se torna necessária uma reflexão transcendental – não mais como ponto de apoio para a ciência da natureza como servia em Kant contra a incerteza dos filósofos – mas para responder à existência muda do desconhecido em nós. sendo capaz de explicar tudo o que diz respeito à quantidade e à ordem na verdade é a Mathesis Universalis. Esta ciência geral. em Descartes (s/d. mas do homem.

a um tempo. em torno dele. trata-se. No cogito moderno. com aquilo que. re-duplicar e reativar. não obstante. o erro. como o sonho.filosóficas em face da ciência. ao contrário. formam a paisagem nebulosa do que é colocado sob a sombra e a insígnia do inconsciente. segundo uma irredutível. não-pensa. então. mas da retomada. a distância que. debaixo dele. ele precisa (e é por isso que ele é menos uma evidência descoberta que uma tarefa incessante a ser sempre retomada) percorrer. de todo esse domínio de experiências não-fundadas em que o homem não se reconhece. do pensamento. categoricamente e de direito. de deixar valer. separa e religa o pensamento presente a si. obscuros em sua inquietante familiaridade. a articulação do pensamento com o que nele. O homem e o desconhecido são contemporâneos. a ilusão e a própria loucura. que pensa a si mesmo a partir do próprio pensar – penso. inclusive. 446 Para conduzir o ser das coisas ao pensamento. instalando-os como não-pensamento. uma intransponível exterioridade. . logo existo. se enraíza no nãopensado. mas que nem por isso lhe é estranho. este é o Outro daquele. a mancha. seu sistema (produtivo) lhe escapa e seu sentido é inacessível pelas palavras (regime de linguagem) que dispõe. é que instala a loucura na continuidade com o ser do sujeito fundado na natureza humana. Deste modo. ou melhor. Ao percorrer a totalidade do homem. desde a qual se torna possível conhecê-lo. o pensamento objetivo acaba por se deparar com esta esfera do desconhecido inacessível à consciência e à reflexão. Ele não pode ser o sujeito de uma linguagem que se formou sem ele. síntese passiva do pensamento autorreflexivo. Ele é definido como objeto. Mesmo no cogito clássico Descartes descobre. determinações sem figura que. não obstante. sob uma forma explícita. não é pensamento. postula o cogito em contraste com as experiências de pensamento não fundado. numa consciência filosófica clara. o cogito moderno deve estender o ser até aquilo que. porém extrapola as barreiras objetivas desta formulação como objeto. O aparecimento da figura positiva do sujeito no campo do saber é incompatível com o primado do pensamento reflexivo passivo. na sua maior dimensão. O desconhecido é a sombra e a liberdade projetada a partir do sujeito. São mecanismos estranhos. O homem transborda a experiência que lhe é dada.

ele libera e submete. pois se volta para o impensado. sua ética consiste em capturar o outro. aproximando-se de si mesmo. surdo e ininterrupto. esclarecer o fundo imediato e desarmado onde se dá sua experiência. mas que desempenha igualmente o papel de base prévia a partir da qual o homem deve reunir-se a si mesmo e se interpelar até sua verdade” (2000. a ética moderna não tem fundamento algum. privado de qualidade e reflexão próprias.Duplo insistente. Ele ganha o nome invertido e a forma complementar daquilo frente ao qual é pautado. O pensamento moderno é sempre político. por ela pautado. Desalienar reconciliando o homem À sua essência. absorver seu silencio. constituindo com ele o solo de nossa própria experiência. Por isso. se voltar para o desconhecido. perigosamente de seu ser de homem. desnudá-lo. Deixar falar o impensado para dele se apropriar. desde o seulo XIX o pensamento já sai de si mesmo. Fazer do em-si a relfexao do para-si. se dedica a reanimar as formas do inerte. 451). Submetendo-o ao conhecido. o desconhecido nunca fora pensado nele mesmo e por ele mesmo. p. os saberes empíricos sobre a vida. ela tem um modo de ação. O pensamento deve colocar o desconhecido na esteira de seu próprio ser. drenar sua densidade. tirar seu véu. Isso não significa que a moral moderna se resuma em pura especulação. Antropologia: Recuo e retorno da origem Duplicação do empírico no trnascendnetal condiz ao rebatimento das condições empíricas do vivido sobre o vívido transcendental. transformando-o no Mesmo que ele. modificação no modo de ser daquele que reflete. Por isso. escutar seu murmúrio inconstante e indefinido sob tutela. na modernidade. o trabalho e a . decifrar o inconsciente. frente ao terreno conhecido (via discurso filosófico e finitudes) do homem. deia de ser teoria. o homem duplo empírico-transcendental deve ser a figura do saber e da reflexão ao mesmo tempo em que encarna a transformação das formas do saber e do modo de reflexão. Ele é “o inesgotável duplo que se oferece ao saber refletido como a projeção confusa do que é o homem na sua verdade. O homem só pode ir em direção. Origem e história Se o pensamento clássico busca a origem fundamental como origem da representação.

. aquele que não tem contato consigo mesmo e com sua natureza de homem. a origem das coisas escapa – é maior ou anterior. Historicidade independente da objetivação do homem como sujeito. reencontrar a origem implica colcoar-se mais perto da reduplicação da representação divina. a um nível de interpenetração. o conhecimento é a sequencialmente perfeito. Não se trata. Neste sentido. O não-louco se define assim em contraste com aquele que tem a razão alienada. no espaço comum em que a subjetividade do louco diz sobre o próprio homem: nível (formativo) da antropologia. nível (de operacionalização) da noção de homem como objeto e sujeito de conhecimento. A historicidade própria e autônoma faz brotar a necessidade de uma origem simultaneamente interna e estranha que propicia a busca da natureza e da verdade do homem nas empiricidades da vida. Até o século XVIII. Mesmo o desenvolvimento cronológico se vê concatenado neste quadro.. Kant e a natureza vem de Deus. não há mais origem profunda ao homem moderno. linear e puro das representações. como houvera anteriormente. de toda maneira inacessível – ao ser do homem. . cujo ponto de origem está fora e dentro do tempo real 4 Note-se que não se trata de uma dialética ente razão e loucura.linguagem ganham historicidade própria. ao trabalho e à história – às empiricidades que constituem as ciências empíricas e as ligam com aos demais saberes. de trânsito entre razão e não-razão. mas de uma constituição dialética comparativa. relativa a uma vida livre e anterior à ele. Por um lado. mas da objetivação da liberdade na sujeição a um sistema antropológico. Desta forma. Por outro. no fio que liga toda uma cronologia a partir da qual se pode plantear a questão da origem – das coisas do mudo e do próprio homem. do trabalho da linguagem de acordo com Foucault (2000) e em contraste dialético com a loucura4. em suma. Sua origem e fundamento está na fina superfície repleta de mediações que liga seu ser à vida.. etc Natureza como ordem cerrada e trama contínua. o homem é condição para a instauração do tempo na duração. ao trabalho historicamente institucionalizado e à impossibilidade de alcançar a palavra primeira a partir da qual a linguagem se desenrola. a objetivação se torna forma ativa de sujeição – e também a um nível mais sutil.

p. com todas essas coisas envolvidas sobre si mesmas e indicando. pois. em sua ordem qualitativa. Diferentemente. com o poder. simultaneamente interna e estranha a ela. Assim o homem. A historicidade que clama e funda a necessidade de origem. o homem é. do trabalho e da linguagem que escapa ao próprio homem e a seu ser. que tenta colocar o . embora sempre mais próxima. a identidade inacessível de sua origem. através de seu desdobramento. como o vértice virtual de um cone onde todas as diferenças. jamais realizável de chegar à origem. O pensamento da modernidade é cravado numa relação dúbia com a origem das coisas e do homem. pois. todas as coisas são ao homem recuadas pois são inapreensíveis em seu ponto zero – assim como a loucura não pode ter um ponto zero como parece querer sugerir Foucault (1961/1999) no primeiro prefácio de sua tese de doutoramento. de explodir sobre si e de tornar-se outra. Frustra ao mesmo tempo a empreitada do positivismo. a vida. p. O homem constitui. no pensamento moderno. a vida. mesmo se o antecedem e o excedem. da vida. Mais do que objeto de saber. “O homem está separado da origem. Na ordem empírica do real. O homem é o tempo que gira ao redor de si mesmo e da promessa. que o tornaria contemporâneo de sua existência” (2000. O recuo da origem se refere ao recuo da origem das coisas. todas as dispersões. (FOUCAULT. 2000. como busca da origem das coisas para contestá-las e fundá-las colocando-as na temporalidade do homem. etc. então. a impalpável figura do Mesmo. 458). a abertura. O homem constituiu-se no começo do século XIX em correlação com essas historicidades. A origem dá lugar à história – daí história natural. entretanto. analise das riquezas. o recuo em relação ao qual o recuo das coisas é engolfado. todas as descontinuidades fossem estreitadas até formarem não mais que um ponto de identidade. mas por suas leis próprias. A tarefa do pensamento se desenha.simultaneamente. Porém. o trabalho e a linguagem tem seu começo nele. 455). o trabalho e a linguagem têm historicidade própria e não podem enunciar sua própria origem. sujeito transcendental sem origem nem começo a partir da qual tudo tem início.

este originário restitui o pensamento do Mesmo. Tal movimento instala o psicologismo como a ciência geral do mundo. No mundo moderno. os dois alemães encontram um mundo no qual reina a vontade do fazer humano. quando se forja uma origem no lugar em que não há nenhuma origem. A instituição do domínio do originário articula a experiência humana com a história e com o tempo da natureza e da vida a fim de reencontrar o fundamento do homem sobre sua identidade essencial. por um início das coisas capaz de justificar e definir a experiência por e nele mesmo. uma brecha e um tremor de terra incessante que progressiva e irreversivelmente libera a origem à medida mesma em que se dá seu recuo. somente a rachadura. naquilo que a sustenta ou no recuo que a possibilita. ele se desenvolve e se aprofunda na direção deste recuo buscando a origem na própria experiência. eles vem a reencontrar o início perdido no extremo recuo da origem. De fato. e a tentativa de inscrever as coisas na história do homem. e sob a sombra de seu silêncio não há nem curva nem fechamento da experiência. à despeito disso. se fecha e se curva. Entre a loucura e a criação. ao invés disso. os deuses se esvaíram. Se Deus é o infinito desde o qual se propaga e se garante. se encontra uma manifestação memorial do tempo sem lembrança das coisas sobre o tempo sem começo do homem.tempo do homem dentro da ordem e da lógica do tempo das coisas. o pensamento moderno toma para si a tarefa de restituir a origem da experiência. seja ela a plenitude ou o nada que o caracteriza e define. Seja na realização das plenitudes acabadas. Esta tentativa de alinhar a experiência que o homem tem das coisas com o tempo do homem é frustrada neste recuo da origem. psicologizar todo o conhecimento ou. onde o deserto cresce na sombra volumosa da ausência de deuses. pautar uma espécie de metafísica da experiência alçada como origem incontornável que a salvaguarda de toda objetivação positivista. mas onde. De um modo ou de outro. Neste âmbito é que brilham as estrelas de Hölderlin e de Nietzsche. a experiência clássica. seja ao restituir o vazio da origem desencravado com o recuo incessantemente conduzido em sua direção. Frente à dificuldade de instalar a origem – pelo menos diretamente – sobre o homem. As tentações de reinstalar a metafísica no seio do pensamento moderno ocorrem quando se faz advir certa camada de originário. Não . A grande preocupação da origem e de seu retorno revela a sede da modernidade pelo recomeço.

Destarte. Se o homem não encontra sua origem na manhã eterna das coisas. eles forçam a pensar o ser naquilo mesmo que ele é. a distância da origem se impõe à experiência fundamental. nesta tarefa infinita de pensar a origem o mais perto e o mais longe de si. Assim. o tema do tempo se articula com finitude do homem. Na experiência moderna. Antes. ora. o quadro garante o conhecimento sob uma compreensão eterna capaz de abarcar em suas séries a totalidade da experiência clássica limitada pelo infinito divina. Desta forma. o homem está no cerne de um sistema de poder que o define a partir de um campo de dispersão que o afasta de sua origem ao mesmo tempo em que promete com ela uma imanência absoluta e contudo jamais encontrada. pois então a origem seria efetivamente dada.. que cintila e se manifesta positivamente na origem. pelo trabalho e pela linguagem. o conhecimento pode ser disposto num quadro representativo. Na tarefa de pensar a origem. esse poder não lhe é estranho. o pensamento evidencia o descompasso. esse poder é aquele de seu ser próprio. pensando a origem em relação a seu ser e à experiência com as coisas do mundo. a paixão pelo recomeço toma conta da experiência uma vez dada o descompasso do homem com seu ser. a finitude se torna num nível mais fundamental “a relação insuperável do ser com o tempo. trabalho e fala – se deem em sua própria temporalidade. o afasta para longe de sua própria origem. e todavia lha promete numa iminência que será talvez sempre furtada. o desencontro entre o homem e aquilo que o constitui como ser.) o pensamento moderno . o pensamento descobre que o homem não é contemporâneo do que o faz ser — ou daquilo a partir do qual ele é. mas que está preso no interior de um poder que o dispersa. Tendo isto em vista. origem da representação. mesmo tornados obsoletos. o que propicia com que as coisas empíricas – a vida. o homem encontra apenas um reiterado campo de dispersão que O tempo da representação dispersa a própria representação numa sucessão linear criando uma imagem que reduplica a si mesma retomando o tempo integralmente sobre a origem desde a qual a representação emana e desde a qual.. Desta maneira. (. tampouco se produz a si mesmo no amanhã prometido de uma imanência absoluta pois ele é atravessado pela vivência do empírico que o antecede e limita. O tempo — mas esse tempo que é ele próprio — tanto o aparta da manhã donde ele emergiu quanto daquela que lhe é anunciada. não reside fora dele na serenidade das origens eternas e incessantemente recomeçadas.obstante a história e o tempo sejam prontamente colocados de lado. Dada no domínio deste pela vida.

desde o século XIX. a reflexão busca assentar filosoficamente a possibilidade do saber. Como funcionário da história. que.remata o grande quadrilátero que começou a desenhar quando toda a epistémê ocidental se abalou no fim do século XVIII: o liame das positividades com a finitude. a relação perpétua do cogito com o impensado. Por fim. como duplicação das ciências empíricas. seu desejo e sua fala. 2000. A função designa as formas com as quais a vida e os movimentos dos vivos podem ser representados. a reduplicação do empírico no transcendental. . É na análise desse modo de ser. o homem estabelece para si tal tarefa política como moral humanista que torna todo saber simultaneamente modificação. aplicam um paradigma normal sobre o corpo do indivíduo. e não mais na da representação. o distanciamento e o retorno da origem definem para nós o modo de ser do homem. 463).” (FOUCAULT. Ao passo que a norma institui os modos com os quais as funções instalam (inconscientemente na maior parte das vezes) suas próprias regras. Antropologia e ciências humanas As ciências humanas são definidas por Foucault em torno de suas relações com a analítica da finitude (como explicitação e desenvolvimento desta) e com as ciências empíricas (como duplicação delas) na busca da positividade do homem na vida. Em decorrência disso se erige o paradigma da ciência ativa e a fé na razão como força melhoradora de si mesmo e do mundo sob as insígnias ressaltadas por Foucault (2000) de “pensar o impensado”. Neste sentido é que a disciplina e o biopoder. Redescobrindo a finitude na relação com o tempo desde a interrogação pela origem. como reflexão e transformação daquele que conhece. a biologia aparece como desdobramento do par constitutivo da função e da norma. ao tomarem a vida sob um ponto de vista biológico. o homem como sujeito e objeto de conhecimento deve se fazer responsável pelo destino ocidental. Consequentemente. p. “reanimar o que parece inerte”. “elucidar o que está silencioso e oculto no mundo”. no trabalho e na linguagem e na investigação de como ele pode conhecê-las na modernidade através de seu corpo. Elas se debruçam sobre o largo terreno que vai da economia à biologia e delas à filologia e destacam o homem como condição de possibilidade para estas empiricidades. tendo em vistas o funcionamento regular e a boa formação. “tomar consciência das coisas”.

de hacer creer que el individuo jurídico tiene por contenido concreto. lo viviente y lo inerte). 121) É a possibilidade de controle que faz nascer uma ideia de fim. el pensamiento no-dialéctico del siglo XX se caracteriza por su referencia al saber (DE1. p. profesor Foucault?) (1967/???) . A instauração do homem no campo do saber é possível com a sujeição realizada pela disciplina e pelas tecnologias de normalização num âmbito mais amplo ao mesmo tempo em que esta torna possível o saber sobre o homem. se controla seu funcionamento. todo um corpo de processos e de saber. 542. professeur Foucault?»”) (¿Quién es usted. cria também as formas de justificar tal controle. A disciplina nasce de “uma observação minuciosa do detalhe. lo que ha sido recortado y constituido por la tecnología política como individuo disciplinario. real. natural. para controle e utilização dos homens. e ao mesmo tempo um enfoque político dessas pequenas coisas. levando consigo todo um conjunto de técnicas.la razón analítica del siglo XVII se caracteriza por su referencia a la naturaleza. sobem através da era clássica. DE1 619 (Che cos’è Lei Professor Foucault? («“Qui êtes-vous.. la conciencia y la historia. la praxis y la vida. Mas a humanidade não tem fim e. que por sua vez a justifica. de receitas e dados” (1977. Aquela condiciona este.O homem está morto? (1966/???) as ciências humanas têm por função por función gemelar. y la razón dialéctica del siglo XIX por su referencia a la existencia (las relaciones entre el individuo y la sociedad. é na medida exata que o controle é possível que a se pode estabelecer finalidades para o processo. acopla este individuo jurídico [el individuo tal como aparece en las teorías filosóficas y jurídicas] y este individuo disciplinario. el sentido y el nosentido. A normalização e noção humanista de homem se implicam uma na outra. de descrições.

no lapso entre o sujeito de direito e o sujeito disciplinar da norma ou da psicologia. y el hecho de que la instancia normalizadora distribuyera. Actuel) (Más allá del bien y del mal ) antropologia e ciências humanas e norma Através da projeção da norma e da aplicação de mecanismos e tecnologias de normalização na alma do indivíduo é que seu corpo somático adquire a função sujeito. dicen las ciencias humanas (psicológicas. e com referência a ele se pode falar. todos os procedimentos que fixam o poder político ao corpo. p. 2006. Devido ao fato de que seu corpo foi “subjetivado” – isto é. y de hecho. o homem pode ser soberano. a função sujeito se fixou nele -. no leque. p. que faz (ou exige) do sujeito soberania interior sobre si mesmo e conivência exterior com usa situação e seu destino. que foi psicologizado. excluyera y retomara sin cesar ese cuerpo – psique sirvió para caracterizarlo. Mesmo que não exerça o poder e quanto mais renunciar ao desejo e à vontade de poder. se pode tentar fundar ciências (FOUCAULT. sociológicas. sobre o qual afirmam ter a verdade subterrânea. 80) No conflito. 78) As ciências humanas são mecanismos e procedimentos disciplinares: individuo se constituyó en la medida en que la vigilancia ininterrumpida.) y encontraréis a cierto hombre. (2006. o indivíduo enquanto sujeito de direitos – submetido às leis da natureza e às regras sociais – e por fim a liberdade individual fundamental. etc. “raspad al individuo jurídico. a consciência que determina o reino do juízo desde que se submeta à verdade. la escritura continua y el castigo virtual dieron marco a ese cuerpo así sojuzgado y le extrajeron una psique. 226 1971/???) Par-delà le bien et le mal (Entretien. lo que presentan como el hombre es el individuo disciplinario” (2006. o indivíduo é o resultado de algo que lhe é anterior: o mecanismo. se produz um indivíduo que é “desde o começo y por obra de . submetendo-se ao que lhe é imposto. se podem emitir discursos.O humanismo levanta a bandeira de toda sujeição do homem. que foi normalizado. p. É o que faz Foucault afirmar que no coração do humanismo está o sujeito (DE2. 77) Elas vêm à tona sob os auspícios de um sujeito jurídico. Do humanismo vêm as pequenas soberanias permitidas àqueles que se sujeitam: a alma que deve imperar sobre o corpo ao passo em que se curva perante a ordem divina ou normativa em vigência. é que se tornou possível a aparição do indivíduo.

liberdade. sociológicas. (FOUCUALT. 536) “apostar que o homem se desvaneceria.esos mecanismos. “de esa oscilación entre el poder que se reivindica y el poder que se ejerce. Discurso das ciências humanas (clínica médica. En esta discusión. como. p. 2006. de manera que si se le devuelven sus derechos se encontrará al individuo filosófico – jurídico como su forma originaria. No entanto. etc. que sirvió como instrumento de reivindicación del poder de la burguesía. por consiguiente. gue es el resultado de la tecnología urilizada por esa misma burguesía para conscituir al. objetivação dura e simplória) X discurso humanista (discurso do sujeito autônomo). na . y d individuo disciplinario. Onde está a antropologia?? As ciências humanas individuo jurídico con el disciplinario. y el individuo disciplinario. estas forças de conservação e compreensão do homem não são reguladas pelas categorias privilegiadas pelo humanismo. en los siglos XIX y XX es la imagen de la oscilación entre el individuo jurídico. Al contrario. lo que presentan como el hombre es el individuo disciplinario”50. pretendiendo mostrar que el contenido concreto. La desindividualización va a la par con estas o eras tres operaciones que les menciono. que fue sin duda el instrumento mediante el cual la burguesía reivindicó el poder en su discurso. p. la desnormalización. de forma que o ápice deste movimento enquanto política cognitiva o conduz a seu próprio desvanecimento. la despsicologiz~lción. la desubjerivación. responsabilidade. 80) antropologia sujeito jurídico. Foucault señala que lo que se denomina hombre.) y encontraréis a cierto hombre. que fue moldeado por esa misma burguesía para utilizarlo como fuerza política y económica. “raspad al individuo jurídico. Fato que permite a Foucault (2000.” 78-9 Artaud…. el discurso humanista señala que el individuo disciplinario es alienado e inauténtico. y de hecho. sujeto psicologicamente normal. nacieron la ilusión y la realidad que llamamos Hombre”51. dicen las ciencias humanas (psicológicas. su jera normal. O sono dogmático moderno e o círculo antropológico formado em torno da noção de sujeito dão sequência à dinastia do eu pensante cartesiano que inaugura a era clássica. y. real y natural del primero es el segundo. Y lo que en los siglos XIX y XX se llama Hombre no es otra cosa que una especie de imagen remanente de esa oscilación corre el individuo jurídico. individuo en el campo de las fuerzas productivas y políticas. in1plican necesariameme !a destrucción del individuo como tal.

só pode estabelecer-se sobre um tal silêncio” (1961/1999. . que é o monologo da razão sobre a loucura. O que queremos destacar aqui é que partir do estabelecimento da loucura como doença mental no início da era moderna. ora balbuciante. antes. a relação Razão-Desrazao constitui para a cultura ocidental uma das dimensões de sua originalidade. que remete o sentido da existência às origens Se na era clássica não há espaço para a realização da figura antropológica do homem. o fundamento sobre o qual está alicerçada toda uma concepção de vida. que não se comunica com a loucura relegando ao médico esta função. Na mesma entrevista (1965/1999 – “fil e psico”). esta se dá com o regime de finitização imposto pela finitude da vida.orla do mar. 141) e prossegue. do trabalho e da linguagem na aurora da modernidade. p. no final do século XVIII. a partir de uma ética de conservação. o autor. de uma política de restituição e de uma estética do mesmo e da identidade que a loucura antecede os saberes psi. um rosto de areia”. Michel Foucault “A linguagem da psiquiatria. Se rompe então o diálogo entre o homem e a loucura. Se Foucault (1965/1999 – “fil e psico”) questiona a filiação e a subsunção da filosofia e do discurso filosófico sobre o homem a certa antropologia. O objeto pré-existente Antropologia Duas experiências. A política de restituição do homem. e há a experiência do homem da loucura que se relaciona com uma razão abstrata. se esvaziam as formas de apreensão modernas da loucura. a experiência do homem. de linguagem e de atividade estremece e com sua falta de estabilidade. 142). Depreende-se. mais especificamente no final do século XVIII. que mediavam as trocas entre a razão e a loucura. p. outra da loucura Homem X exp loucura mod Na modernidade se estabelecem duas experiências. “Em todo caso. ora sem sintaxe fixa. se perdeu o diálogo. “não quis fazer a história dessa linguagem. a arqueologia desse silêncio”. ela já a acompanhava muito antes de Jheronimus Bosch e a seguirá bem depois de Nietzsche e Artaud” (1961/1999. O problema do signo e do sentido mina por dentro o homem. uma do homem. em seguida. que não pode ser a dele mas da qual ele é a língua ao mesmo tempo.

Conforme Foucault. p. por isso. que coloca sua finitude (sobre a qual dissertam os saberes) sob a sombra do não-pensamento. “absorve as determinações empíricas. já a arqueologia. pois não se sabe se é a verdade do objeto que prescreve a verdade do discurso. que permite situar sobre a natureza ou sobre a história uma linguagem reconhecida como verdadeira. a verdade do discurso filosófico é que define e promete a verdade do objeto. principalmente na sua versão fenomenológica. 2000.Prefácio (1961/1999) Mediante sua coexistência com as coisas e os demais elementos do mundo. prescindem de teoria do sujeito e de crítica. Foucault (2000. que. uma vez que ele é definido frente a um recuo da origem. Verdade do discurso. ambiguidade. p. ao passo que a dialética faz o mesmo com a história.” O círculo antropológico desloca os conteúdos empíricos em direção do sujeito transcendental. A arqueologia se vale da seguinte estratégia: em vez de pensar o exterior (o domínio dos saberes empíricos) como dobra do interior (do pensamento filosófico). se pelo contrário. ela situa o interior como dobra do exterior. Todo saber sobre o homem é ambíguo. que se manifesta pelo corpo e pelos rudimentos da percepção. situa a interioridade como prega . As antropologias. seja a natureza ou a história (discurso escatológico). por sua vez tem como tarefa descrever sua formação na natureza ou na história (discurso positivista). Como afirma Candiotto (??arq em PC). 466) encontra o homem numa “distância incontornável do tempo”. Nenhuma das duas são ao mesmo tempo forma e conteúdo do saber e. em favor de um sujeito constituinte que se transforma em condição e fundamento daquelas determinações. ou que se esboça após a dissipação das ilusões e a desalienação da história. anteriores e exteriores ao homem como objeto. tendem a ver a exterioridade como dobra da interioridade. uma perspectiva positivista atribui valor transcendental À natureza. a analítica do vivido de Merleau-Ponty elevou o homem de “lugar de conhecimentos empíricos” à condição do que os torna possíveis e “forma pura imediatamente presente nesses conteúdos” (FOUCAULT. 442). ou. “Verdade do objeto.

consequentemente. Estes saberes evidenciam a anterioridade e a exterioridade do ser empírico do homem em relação a qualquer consciência transcendental. 136): “Para perceber a épistémè. sem referi-lo ao próprio vivente.” . G. foi preciso desafiar a especialização dos especialistas e tentar converter-se num especialista. A fenomenologia pensa o vivido. a qual ela se põe a definir e especificar. que falha ao se empenhar numa reflexão sobre o vivido e o vivível. As empiricidades apontam. concernentes ao empírico. para a historicidade e a fugacidade do sujeito transcendental que operaria as sínteses do conhecimento. Antes e exteriormente à sua concepção como sujeito constituinte da filosofia.da exterioridade. do trabalho e da linguagem. Assim. Sem nos delongarmos nesta discussão de base filosófica. sobre uma subjetividade constituinte. as ciências humanas se constituem sobre o frágil fundamento deste homem. responsável capaz de assegurar o bem-pensar e a não-loucura. deslocando-o na direção do sujeito constituinte.” assim a questão do sujeito (constituinte) é tornada uma questão de segunda ordem. As ciências empíricas dão base para a formação das ciências humanas: a psicologia. contudo. o homem é especificado a partir destes saberes empíricos. o alvo da análise de Foucault (2000) parece ser a filosofia moderna sob sua versão fenomenológica. A preocupação em definir o sujeito articula a filosofia com seu exterior na lateralidade dos saberes empíricos que a limitam e impõem regimes empíricos de finitude ao sujeito constituinte. não da generalidade. foi preciso sair de uma ciência e de uma história da ciência. constituindo uma figura livre. mas da inter-regionalidade. Canguilhem (1970. mas sob um campo de dispersão constitutiva nas ciências da vida. A determinação empírica não passa de implícito explicitado e constituído indefinidamente pelo sujeito. objeto sujeitado suposta e pretensamente considerado constituinte. A arqueologia de Foucault (2000) encontra a verdade do homem não sob uma identidade. a sociologia e a análise literária e dos mitos. assentados. de sedimentação dos saberes já. autônoma. p.

e quase que temos Perdido toda a língua na Estranheza Mesmo quando acerca dos humanos. e com força Rumam luas. finitude e trágico sem fundamento A problematização da finitude é a tarefa apregoada pela crítica kantiana ao pensamento moderno. A cultura ocidental é a cultura do Mesmo desdobrado segundo cada época em equivalência. e sem sentido Feitos de dor. 144-5). [[Schmid ver]] Embora Heidegger ressalte o aspecto fáctico. O mesmo se dá na historia da medicina com a patologia que é anterior à fisiologia – mas cria-se a ilusão do contrario que viabiliza a normatividade ideal. mas historicamente ela é primeira. mesmo quando o conhecimento racional que tomamos da loucura a reduza e a desarme conferindo-lhe o frágil status de acidente patológico” (1961/1999.. “Na reconstituição dessa experiência da loucura. no jogo da vida com a morte. onde o poeta diz: Um signo somos nós. . é lapidar o nome de Hölderlin em As palavras e as coisas de Foucault (2000). São Paulo.Antropologia. que é a do doente. Iluminuras. sobre o tema. 1994. A loucura é secundária ontologicamente. No céu uma pendência se levanta. Própria fundação da psicologia vai ser possível pelo advento da loucura. este não aparece em sua teoria centrada. o homem aparece como signo sem interpretação. como signo sem sentido em sua busca acompanhar a gênese do sentido. p.34. em contraponto à habitual. Cf. 147). que não é nada mais que o acontecimento de viver e morrer: o próprio campo problemático. identidade e natureza Propriamente. uma história das condições de possibilidade da psicologia escreveu-se como que por si própria” (1961/1999. Ele cita o poema de Hölderlin. tal também discursa o Mar e devem seu caminho. Mnemosyne. p. Canto do destino e outros cantos. homem e psicologia se origina do louco: “não pode haver na nossa cultura razão sem loucura. p. tradução Antonio Medina de Rodrigues. semelhança. Hölderlin. isto sim.

pratica-la.Antropologia. pensa-la. fazê-la curvar-se sobre si mesma num retorno em que um feixe de força afeta si mesmo. no limiar da invenção de possíveis para além da monotonia do doente mental reduzido à sua institucionalização. Ou seja. linha mortífera do fora se avizinha de um lado da criação e de outro das mais ferozes formas de captura. Não obstante isto. seja através da morte. como explicitado acima. temos de dobrá-la. Neste sentido. Kant e o sujeito passivo A diferença transcendental kantiana marca a constituição deleuzeana do sujeito perante duas formas irredutíveis em que ele é receptivo. resistência e fora A que a arte resiste? Ver artigo Rancière in Lins Usura do tempo e ao conceito Mediante isto. . Trata-se do homem como duplo empírico-transcendental para Foucault (2000)? Ver: gregário Arte “A arte faz existir entidades espirituais” ressaltam Deleuze e Guattari (2008. afetado ao mesmo tempo que determinante e espontâneo. a alienação psicossocial não é outra coisa que um efeito terciário do sequestro das potências disruptivas e contingenciais do fora. Arte. medicamentosa ou manicomial. Desta maneira o sujeito pode habitar a linha tênue do fora. tornando-a uma arte de viver. p. o pensamento vem da linha do fora e a ela retorna para enfrenta-la transpondo-a para que se possa vive-la. para habitar esta linha sedenta e mortífera. 11). familiar ou psicossocial. seja na sobrecodificação dos fluxos desterritorializados do desejo nas malhas de regime determinísticos de circulação.

Arte e fórmula Se podemos conceber uma composição artística segundo Deleuze (CC). Desta maneira. a escrita não vem a significar algo que não está ali. de intensidades e forças afetivas. ela remete a uma fórmula. do bom senso e do senso comum. Uma vez que a narrativa só relata a si mesma. etc. que não se restringe à sua aplicação mecânica sobre a vida. LPV) a composição condiz a um manejo com o intensivo. a composição resiste à determinabilidade do conceito e aquilo que produz. Produzindo saúde nas intermitências com suas próprias vicissitudes. mas a desorganiza de fio a pavio à medida que desestabiliza seus ordenamentos e suas hierarquias. para além de sua efetivação cronológica. produzindo singularidades capazes de atravessar as pessoalidades e o transcorrer do tempo. Depreende o contato com as instancias erráticas do fora as possibilidades da loucura se deslocar para além de si mesma. dado com o sentir e o operar no plano impessoal de imanência. ela produz sentido. Áion. I would prefer not to é a fórmula que repete o desarrazoado escrivão Bartebly tem efeito de catástrofe para o bom senso e a ordem causal do advogado que tenta desafortunadamente persuadi-lo a tomar outro rumo que a sua atordoante inação. Ademais. mas ela maquina algo. Com a fórmula. a casa. transitando por espaços outrora interditados: os palcos. ela se performa emperrando a divisão entre latente e manifesto. Sobre o tempo da loucura e do engendramento. . Neste ponto. a cozinha. à usura do tempo (QF?). assim como as relações de causa e efeito que as instituem. Tempo do se aconteceu e do que está para acontecer e tempo do se se passa na fria e imóvel de uam presença de estado da alma. atuando no entrecruzamento das séries corporais com as enunciativas mediante a instância paradoxal inarticulada que as organiza na interpenetração de singularidades. cronificada na figura psicossocial do louco. o próprio acontecer daquilo que relata (BLANCHOT. Neste intuito nos interessa as condições tecnológicas de manejo clínico da criação através da busca do tempo da idealidade acontecimental. opera passagens e cortes de maneira a tornar obsoleto o afã de buscar algo oculto por traz do que é narrado. a fórmula se desenha como operação material no texto que o lança longe dos meandros da história e do simbólico. A fórmula é performática.

gênio louco ao que lhe inspira os versos d’O Uivo Ah. pois. Como o pensamento.Movimento de abertura presente na elucubração poética de Allen Ginsberg (??. Os exemplos foucaultianos fazem questão de desvencilhar este ser da linguagem de sua efetuação sobre uma superfície lógica: em Artaud. p. profunda e chocante do grito do corpo . 126139). mudos e inteligentes e trêmulos de vergonha.. na experimentação daquilo que ocorre fora-de-si. p. no acontecer do pensamento e da linguagem. no campo transcendental. vida e seus regimes de infinitização Uma corrente de vida. tocado pela experiência no asilo na qual conhece Carl. enquanto você não estiver a salvo eu não estarei a salvo e agora você está inteiramente mergulhado no caldo animal total do tempo — e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados por um súbito clarão da alquimia do uso da elipse do catálogo do metro & do plano vibratório que sonharam e abriram brechas encamadas no Tempo & Espaço através de imagens justapostas e capturaram o arranjo da alma entre imagens visuais e reuniram os verbos elementares e juntaram o substantivo e o choque de consciência saltando numa sensação de Pater Omnipotens Aeterni Deus. Evidenciando as formas fundamentais da finitude da forma homem. Foucault (2000. vida e linguagem não se subordinam a esses limites. 400) lança mão de um ser da linguagem. nos encontramos imiscuídos e em contiguidade a este fluxo incessante ilimitado.) com o coração absoluto do poema da vida arrancado para fora dos seus corpos bom para comer por mais mil anos. os fluxos incessantes de pensamento. deslocando-se do campo da linguística para o da literatura em As palavras e as coisas. as linhas desterritorializantes do pensamento e da linguagem constituem um fluxo incessante que ultrapassa os limite que nos configura subjetiva e objetivamente. ela é a obsolescência da função representativa e significante da superfície linguageira do discurso em prol da violência plástica. Ora.. Embora o eu seja fixado e definido por seus limites subjetivos e objetivos. O acontecer da vida se desdobra. Carl. a literatura tende ao ser da linguagem. rejeitados todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo do pensamento na sua cabeça nua e infinita (. para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa humana e ficaram parados à sua frente. Arte. linguagem e vida (capacidade normativa) constituem um regime de infinitização? No intuito de pensar os processos de subjetivação para além do sujeito epistêmico. entre nós e o mundo. pensamento e linguagem nos constitui e atravessa como seres vivos no mundo e. há o puro acontecer[[por que tem o acto puro aqui?]]. Assim.

libera a linguagem da significação e da representação. Arte como construção . Alheia à superfície lógica. Pois “esse pensamento que se mantém fora de toda subjetividade” é qualificado por Foucault (1966/2001. à força em Nietzsche. correspondente ao que Deleuze (2000) considera como plano transcendental.222) como pensamento do fora. pareada por Foucault (2000) ao desejo em Sade. a presença do fora (BLANCHOT. próprio ao ser da linguagem em sua exterioridade como fora. Neste espaço descoberto. leva ao fora alheio aos domínios fronteiriços da finitude. Atração que se dá no campo transcendental. à materialidade em Artaud e à transgressão para Bataille. Ser atraído para além da superfície lógica para experimentar no vazio denso. levar a linguagem ao infinito sob uma força de atração (postulada desde Blanchot) fim de fazer implodir toda interioridade do sujeito. Nesta época parece de suma importância a Foucault (1963/2001b) levar a linguagem a seus limites. Blanchot e Kafka. como pativo. Tal como a experiência trágica da loucura. 2013) – e a obra foucaultiana encontra Bataille. impessoal. leva. etc. sufocado no campo transcendental. é que se dá o enlouquecimento da linguagem – conforme trabalhado em A voz do silêncio (PRADO. A provação das formas de finitude acabam desatando a loucura. pois leva ao que está aquém da superfície lógica. com Roussel. a literatura desenvolve uma linguagem redobrada sobre si. a atração não remete tão simplesmente de abertura do ser. que traz o fora para além de toda interioridade e exterioridade já dadas ao implodir a interioridade que condiciona e possibilita o pensamento lógico-reflexivo.. um ir-se. alheio e incompatível. como um levar-se. A atração não tem nada mais a oferecer que um vazio que se abre infinitamente – “um pouco de possível senão eu sufoco”. a qualquer fechamento. mas a um regime infinitização dado contato com um campo transcendental infinito. ao reino informe e não-significante do fora que. pois. é encontrada na linguagem fractal do acaso e da repetição da morte. entretanto. 2012). p.. pois. A valorização da literatura nos interessa desde que constitui a capacidade de acesso da linguagem a um espaço vazio. O ser da linguagem como linguagem ao infinito é perfeitamente apreciável nos contos A biblioteca de Babel assim como em O livro de areia de Jorge Luis Borges.torturado e da materialidade do pensamento. a-subjetivo. Em Blanchot a atração consiste na própria experiência do fora.

cuja testemunha fundamental é o homem..A arte como construção é uma concepção que emana da convergência entre os meios materiais intrínsecos a ela. ao diagnosticar os sintomas do mundo presente. ao mesmo tempo se constitui como crítica da sociedade e da cultura que exclui a loucura. segundo a visão nietzschiana que compartilhamos. correndo o risco de deslizar de um papel descritivo ou interpretativo para um âmbito normativo problemático. daí a categoria central de sua análise ser o belo. como criar um mundo para viver. de outro homem. seus mecanismos naturais. Estado sem dor. A loucura como criação de um novo mundo e invenção. uma vez que se debruça sobre a arte como uma práxis. O contraponto é Stendhal que entende o belo como uma promessa de felicidade. Como pletora de vivencias fortes e singulares numa dimensão não mais que contemplativa. Inclui apenas o espectador no belo.. 154??) critica Kant na Genealogia da moral apontando que este encara o problema estético meramente da posição de espectador e não na de artista criador. para quem a beleza é uma promessa de felicidade. assim como perceber corresponde já à criação de um mundo) – liberava da escravidão da vontade e do interesse sexual. e a liberdade humana. para quem a contemplação artística – o estado de arte com arte (pois contemplar. O belo kantiano agrada ao espectador mesmo tendo em conta seu desinteresse – assim como os mestres do desinteresse (GC??). sem tormenta e sem querer que Schopenhauer louva na terceira seção de O mundo como vontade e representação. Aforisma 6 da terceira dissetação GM Recorrendo a Stendhal. Em suma. sem vontade.fr p. Stendhal concebe uma exacerbação da . seu outro. está sempre na berlinda. como um por vir – dirá Blanchot –. Nietzsche critica Schopenhauer a tiracolo. A crítica de Nietzsche à Kant leva em conta que este a olha do ponto devista do espectador que a coloca ao lado do conhecimento assentado na noção de belo e da universalidade daquilo que se entende como belo. A abordagem problemática da estética. entendemos que a estética. Não obstante. encontra eco em Heidegger (??) que ao tomar a estética como “a ciência do comportamento sensível e afetivo do homem e daquilo que o determina” tendo a noção de beleza – passível à natureza e à arte – como determinante. Nietzsche (GM. à tiracolo.

que aqui chamaremos de "senso comum" sempre que ele aparecer sob um tal ângulo. da imanência da obra (a sua produção. ensejando daí os fenômenos da compreensão e da criticidade. mais ligada à dimensão da criação. tem-se com eles o "quadro normativo" de que fala o título do ensaio. Weber (1789) Entendimento do componente sensorial da arte — a aísthesis — como potência de sedução e de "desvio" do receptor quanto ao "estado ideal" de atenção e mobilização ético-política postulado pela filosofia. Porém há uma posição trágica afirmativa da vida e do pathos. uma outra concepção da arte. Disso advém a histórica ambigüidade do pensamento filosófico quanto à potência de deslocamento própria à arte. A dimensão afetiva é obliterada à medida de sua associação imediata e sem recuo com a desgraça do sofrimento. VER: sentido. experiência do receptor é marcada pelo trânsito constante entre momentos de abertura sensorial e momentos de distanciamento do evento estético em que a ação da consciência ocupa a cena.vontade e do interesse ao passo que o ideal ascético serve para livrar do pathos. e o seu entrelaçamento complexo entre a semântica e a sensorialidade) e das atividades crítica e judicativa. – [[Como o pathos. Concebido como tortura. e então . Em sua somatória. a homogeneização da ação do receptor médio. razão e modelo senso comum A mutua implicação entre ambas e a interação entre elas se dá (ou pode se dar) nos planos da ação do receptor. inimigo do pensamento aistesis]] Se essa força de deslocamento pudesse ser apreendida. por fim. a sua carga semântica. a noção de que cada obra carrega em si uma valência política passível de ser determinada objetivamente pela inteligência filosófica — e portanto externamente à interação entre obra e receptor. proposição Arte e Política: paradigma.

ela aparece como inimiga do conhecimento. a aísthesis passa a prestar contas à organização e à autoprodução da sociedade. mutatis mutandis. abafada sob a idéia de que a arte é capaz de exercer uma influência direta sobre o receptor. analisadas individualmente em função dos seus potenciais "perigos" para a "formação política do cidadão". ela poderia ser manejada pelo pensamento. utilidade – Wilde fala da arte inútil. em linhas gerais. 2) a conseqüente desconfiança quanto à imprevisibilidade própria ao jogo entre as duas instâncias. movimento de Erasmo ao submeter a loucura ao discurso: controlar a aísthesis. e. podem e devem ser teorizados com base na sua suposta homogeneidade. entende-se a desconfiança que dela terá o pensamento logocêntrico (que aqui não é sumariamente identificado à filosofia). temos os mestres da pureza e do desinteresse.. inimiga da razão e dos saberes. por Schiller (quando interpreta. nesta condição. Estética X razão: 1) o divórcio entre aísthesis e reflexão. afetando tanto a sua consciência quanto a sua .. para as quais os indivíduos surgem como átomos que. Submeter a arte a paradigmas a ela exteriores. Como esse não é o caso — como a sua incognoscibilidade é paralela à sua existência empírica e à sua evidência fática —. retirada do silêncio imediato do seu puro acontecer. a estetização como decadência da cultura). como potência do "engano" ou do "enfraquecimento da subjetividade". que tão cedo passou a caracterizá-la — ou ao menos parte dele assim o fez —. por Rousseau (quando condena a estetização por afastar os homens da concentração nas necessidades pragmáticas do Estado). Nessa linha. Nlz adaptação utilirarismo. assim como Rousseau. este foi o movimento empreendido por Platão (quando condena a mímesis por mentir aos cidadãos através da sedução).conhecida. por Adorno — ao desconfiar do prazer como desguarnecimento da criticidade.

4) a confusão entre a descrição e a prescrição (entre a afirmação do que a arte é e do que ela deve ser). Nossa proposta se assenta sobre uma possibilidade epistemológica aberta apenas .. ponto em que a filosofia da arte abraça o distanciamento u-tópico freqüentemente característico — e necessário — da filosofia política.. denunciar o próprio recurso à aísthesis como digno de desconfiança.. nada mais é do que o hábito filosófico de homogeneizar a ação do receptor em seu contato com a obra de arte. novamente pela suposta predisposição da mediania a mimetizar o estado contemplativo como regra para o comportamento cotidiano. não recebendo uma abordagem individualizada. sendo portanto dotada do poder de diminuir a sua capacidade crítica e/ou a sua disposição para o "fazer pragmático" (i. 3) o julgamento sumário do receptor. senso comum" é uma categoria constituída performaticamente pelo próprio discurso. em detrimento do "estado ativo" indispensável à saúde e ao progresso do Estado.sensibilidade para as coisas do mundo. procedimento tão corriqueiro quanto caro — diríamos indispensável — às filosofias normativas a tragédia [enquanto modo de apresentação e afirmação da presença de algo no mundo] veiculava idéias sem apelar explicitamente ao logos.e. de Rousseau. o fazer considerado indispensável à continuidade ou ao melhoramento da sociedade). No "Discurso sobre as ciências e as artes". mas sim o seu impacto no socius: por causa dele Platão julgava necessário denunciar o desequilíbrio que a aísthesis impunha à absorção do conteúdo semântico e à disposição psíquica do público — em última análise. pela consequente desconfiança quanto à sua capacidade de posicionamento crítico diante da ameaça de "desvio". em detrimento de uma possível "ciência" da arte. não importa sob qual parâmetro valorativo (positivo ou negativo). A concentração no utilitarismo descarta o estético como corruptor. apesar de servir como base para a armadura conceitual. e assim "ludibriando" a defesa racional contra a impostura... escamoteando a apresentação das idéias como tais. o perigo não era a mímesis em si.

a indefinição quanto ao estatuto social do objeto levou à tentativa desenfreada de teorizá-lo com vistas a "estabilizá-lo" — ou seja. levando-o para fora do quadro normativo.recentemente (com o termo "epistemológica" nos referimos ao aparato conceitual do qual dispomos para falar sobre um determinado assunto): formular-se modos não-normativos para a apreciação ético-política da literatura e da arte. Isso implica recusar 1) o julgamento a priori do "senso comum". que saibam respeitar a sua flutuação recepcional sem se abster de exercer uma faculdade crítica que. 104. 4) o pleno delineamento do conceito de ficção em sua distinção quanto à mentira. ao engano e ao desvario. . In: Corpo e forma. remeterá a arte a instâncias que lhe são heterogêneas. Patologias do sistema da literatura. "É como se a impossibilidade de afirmar um programa operacional para o sistema literário. p. Gumbrecht (1998) entende que a literatura tenha sido objeto de uma vontade intensa de teorização em razão da sua função social de produção de realidades alternativas à realidade cotidiana. qual?? 2) ela é obra do gênio e então admitir-se-ia a autonomia completa da subjetividade autoral. A partir daí. tivesse intensificado os esforços destinados a formular o programa [operacional] ou a unidade do conceito de 'literatura'". 3) a pressuposição de uma razão completamente despragmatizada. entendemos sua potência de perspectivizar a realidade social. a legitimação de tal função ocorrre nstes ou pela soma de caminhos: 1) a arte deve a sua existência a uma disposição antropológica elementar. programa esse capaz de assegurar normas para a produção literária e sua recepção. conforme sabemos de antemão. a dotá-lo de um território delineado de vigência e de influência na sociedade objetivo é o de preservar a observação do político. combinada à indefinição do seu estatuto social (por tratar-se de um objeto cuja carência de uma necessidade autoevidente não compromete sua produção e seu consumo). GUMBRECHT.

paradigmas se subdividiriam em três modalidade interconectadas: o paradigma-teoria (estilema teórico predominante e determinante em cada paradigma). e os últimos. O modelo elaborado e empregado por eles seria o rizoma. os primeiros referem-se a teorias que pautam a relação das proposições científicas com os seus objetos de estudo. experiência estética tensiona a semântica e prescinde da atenção da ação consciente paradigmas X "modelos" Grosso modo.2) a prática judicativa que pretende decretar a valência política — seja ela "nociva" ou "positiva" — da obra de arte em sua imanência ("imanência" aqui significa: em seu isolamento quanto à sua própria recepção). assim como sua influencia. uma relação de "afinidade eletiva"). 3) e a dotação da arte de qualquer potência ou status político a priori: apenas no seu acontecimento pode a arte politizar-se dentro de uma relação particular com um receptor individual (e apenas ocasionalmente com o público em larga escala). ou a modificação. e o paradigma-disciplina é a arte. quanto pela precariedade da comprovação factual da influência da arte na formação ético-política do homem e dos processos sociais. a diferença. o paradigma-objeto é o movimento. e há que se precaver contra a incapacidade da sua "boa fruição" através de uma "educação para o belo" . na verdade o conceito que.hierarquia de valores é o gesto normativo por excelência. orientou as suas análises dos temas . mas também entender que a sua participação na constituição da valência política de cada indivíduo se dá em uma interação dinâmica com uma pletora incontrolável de elementos. o paradigma-objeto (o objeto de estudo preferencial de cada paradigma) e o paradigma-disciplina (a disciplina a que cada teoria confere proeminência ou com a qual estabelece. fruto da somatória do poder diretivo da razão e a pretensão à universalidade mas a arte é aleatória. A conceitualização de Schiller do "estado estético" é na verdade uma utopia sobre o que seria o impacto de uma aísthesis proporcionada pelo belo sobre um receptor-cidadão adequadamente educado para a sua experiência (pois o belo em si nada garante. entender que a relação entre obra e receptor como uma interação dinâmica. paradigma-teoria é a contingência. a partir de 1976. às metodologias utilizadas para o seu estudo efetivo. no arbítrio. por assim dizer.

que forçam a axiomática social a complicar-se cada vez mais. que é em si uma alteração do próprio dado. forçosamente reservados aos especialistas. é desviar da rotina). ou seja. mas elas fazem passar pelo socius fluxos cada vez mais descodificados e desterritorializados. antes referindo-se à potência arracional do desejo [[pathos]]. e que tem na arte um "correlato objetivo": Uma conspiração que conjugue a arte e a ciência supõe uma ruptura de todas as nossas instituições e uma subversão total dos meios de produção (488). pois escapa à estabilização do significado. 502) toda diferença é imediatamente política. a arte e a ciência têm uma potencialidade revolucionária e nada mais. dominado pela semantização — pela atribuição de significado às coisas —. arte tem o poder de desterritorialização. movimento é político por si só. pois para os dois autores o politicum efetivo reside na alteração da relação com o dado. ela é o paradigma-disciplina em Deleuze e Guattari por emblematizar a dimensão poiética própria à interação das pessoas e das coisas dentro da realidade. p.abordados. O desejo é que entra em . fluxos sensíveis a todo mundo. a saturar-se ainda mais. provoca a irrupção da diferença. a segurança do território familiar. a idéia de potência implica a de diferenciação imanente. O empírico é o campo em que os encontros se dão. ou de um significante. a tal ponto que o artista e o cientista podem ser determinados a se juntarem a uma situação objetiva revolucionária como reação às planificações autoritárias de um Estado essencialmente incompetente e sobretudo castrador (DELEUZE & GUATTARI. corresponde a aumentos de diminuições ou diferenças no desenvolver-se daquilo que está em pauta A arte desterritorializa ao bloquear a continuidade do fluxo. Em Deleuze. e que [455] esta potencialidade aparece tanto mais quanto menos se pergunta pelo que elas querem dizer do ponto de vista de significados. ao permitir um instante de quebra da continuidade. realizando-se em graus. já que toda potência. um movimento a-subjetivo que. 2011. e pela correlata estabilização do sentido O elemento poiético da metafísica deleuziana é o agenciamento. de colocar em movimento o que era estático (desterritorializar é impedir o sedentarismo. para Deleuze e Guattari (2008).

o corpo dos indivíduos é essencialmente a superficie de inscrição de suplícios e de penas. corrigido. que só pode ser obra da contingência. biológico.. de modo que a forma social de produção exerce uma repressão essencial sobre a produção desejante. A contingência. existe apenas o acontecimento revolucionário. reformado. qualificar-se como corpo capaz de trabalhar.. 2006. fazendo com que o tempo dos homens. A primeira função do sequestro era de extrair o tempo. 2008a). ele não é mais o que deve ser supliciado. A função de transformação do corpo em força de trabalho responde à função de transformação do tempo em tempo de . receber um certo número de qualidades. O corpo individual e o da população são os verdadeiros objetos da política moderna. e a produção desejante (um "verdadeiro" desejo) pode potencialmente fazer a forma social ir pelos ares”. o tempo de sua vida. mas o que deve ser formado. Sua segunda função consiste em fazer com que o corpo dos homens se torne força de trabalho. é absoluta Não existe obra ou indivíduo revolucionário. 1988. O corpo existe através de uma sistematização política mais que de um artigo material. Biopoder e biopolítica A vida biologicamente considerada. Já nas instâncias de controle que surgem a partir do século XIX. o que deve adquirir aptidões. Toma uam disciplina do corpo e uma biopolítica de gestão das populações.). Ele aparece como problema político. se transformasse em tempo de trabalho. Se fizéssemos uma história do controle social do corpo. o corpo era feito para ser supliciado e castigado. até o século XVIII inclusive. Apoiam-se nas disciplinas e têm efeito sobre as populações. 2002. Vemos aparecer assim claramente a segunda função. “Identidade de natureza da produção social e da produção desejante e a sua diferença de regimes. então. o alvo não é o corpo social como um todo. o corpo adquire uma significação totalmente diferente. poderíamos mostrar que.ação ao se ver colocado diante da pura facticidade da arte e da ciência (do seu puro colocar-se à mostra). Nas tecnologias modernas. mas o corpo múltiplo da população (2002 216fr aula. (FOUCUALT.

sua salvação. a normatividade vital é colocada de lado em prol da normalização que captura as forças de produção da vida e as capitaliza para si. Deve ser uma necessidade de primeira ordem. tornando-os dóceis e úteis. nux. A cisão entre a vida e seu processo produtivo se quer cindida.para . lux [cruz. na perda voluntária. valendo-nos desta perspectiva. mas da vida mesma. aqui se faz a tentativa de usar a força para estancar a fonte da força. Crux. com e sobre valores afirmativos. nesta imagem de êxtase e tormento ele reconheceu sua luz mais intensa. da vontade de potência com a vida concreta. Usar a força para calar e estancar a fonte de força. Qual a forma de poder que se exerce nestas instituições? Um poder polimorfo. mais profundas e fundamentais. A expressão maior. 118 119 A terceira função destas instituições de sequestro consiste na criação de um novo e curioso tipo de poder. neste enigma de sedução. enquanto se experimenta e se busca satisfação no malogro. contra o florescimento fisiológico mesmo. Há. denuncia o filósofo alemão em uma série de passagens de sua obra. Com efeito. no fenecimento. observamos um movimento contraditório que coloca a vida contra a vida mesma. Tudo isso é paradoxal no mais alto grau: estamos aqui diante de uma desarmonia que se quer desarmônica. um poder econômico. a alegria. que é recalcar a força política da população. por um lado. noz. e torna-se inclusive mais triunfante e confiante à medida que diminui o seu pressuposto. em um certo número de casos. na negação de si. em especial contra a sua expressão. no feio. e triunfa mais à medida em que separa a vida material e concreta dos seus processos produtivos. não de algo da vida. a vitalidade fisiológica. A normalização prospera no seio desta dissociação das forças produtivas. mesmo uma moral que vise dominar e escravizar para Nietzsche (2009) na Genealogia da moral. polivalente. que um tipo tão contraditório não se extinga. autoflagelação e autosacrifício. na desventura. aqui o olhar se volta. a que faz sempre crescer e medrar essa espécie hostil à vida deve ser interesse da vida mesma. que frui a si mesma neste sofrimento. Tal qual uma moral é instituída por. rancoroso e pérfido. aquele de um insaciado instinto e vontade de poder que deseja senhorearse. "O triunfo na agonia derradeira": sob este signo superlativo lutou desde sempre o ideal ascético. podemos observar que o biopoder é o movimento que visa apoderar-se da vida mesma. de suas condições maiores. submissão da vida a valores superiores. luz] . Pois uma vida ascética é uma contradição: aqui domina um ressentimento ímpar. a beleza e alegria da vida são recalcadas. sua vitória final. para propósitos exteriores à vida.trabalho. a beleza. AVFJ 2001 Biopoder e Nietzsche: capturar o próprio poder da vida.

p. o conceito assinado entre todos. e segundo os quais ela se produz. certa lógica irracional que se furte.. Seu ofício é construir os objetos lógicos capazes de dar conta dessa produção e levar assim a questão crítica a seu mais alto ponto de paradoxo: ali onde são focalizadas condições que não são "maiores que o condicionado" (esse programa conduz diretamente ao conceito de disjunção inclusa).. 107-8). como sinalizado em Prospectos e conceitos (DELEUZE & GUATTARI. medicalização. . Deleuze (2009. 57 e 2004a). mas que não se rebata e reconduza à razão. 2009. Esta passagem configura a nova imagem do pensamento realizada desde seus primeiros textos até Imanência: uma vida. entretanto à confusão do irracionalismo e do ilogismo. campo de intensidades diferenciais e acontecimentos transcendentais que opera por sínteses disjuntivas. VER: disciplina. clama um novo paradigma de lógica. podemos definir o campo transcendental a partir de Deleuze (2000) como campo de singularidades díspares entre si.) O pensador é antes de tudo clínico. A síntese disjuntiva (ou disjunção inclusa) é o operador principal da filosofia de Deleuze. uma lógica extrema e plena. norma Campo transcendental Suscintamente. Contra a redução do pensamento aos dois princípios de não-contradição e ao terceiro excluído. p. Campo transcendental e imanência O plano de imanência é caracterizado pela potência genética do campo transcendental. 2011). a síntese disjuntiva é o próprio fundamento da lógica deleuzeana na não redução do pensar à recognição conforme assinalado por Zourabichvili (2004. Ou 1999 conferir comentários e conferir citação em ambos.ele são uma só coisa (NIETZSCHE. (. Campo transcendental e síntese disjuntiva O que pode parecer uma aberração aos olhos da lógica convencional. decifrador sensível e paciente dos regimes de signos produzidos pela existência. Proceder heterogenético no qual a dispersão inclui a diferença para a instauração do pululante campo problemático do campo transcendental. 2008).

transcendental.Em oposição À tanscendncia do sujeito transcendental ou do objeto (em si. ao mesmo tempo movimento infinito de uma matéria que não pára de se propagar e a imagem de um pensamento. um modo de vida. Neste âmbito. Bergson e Sartre. Campo transcendental a partir de Bergson e Sartre: primeiro capítulo de Matéria e memória (Seleção das Imagens). escrito em 1985. dizia recentemente que somos ao mesmo tempo a infância. livro em que não se pode encontrar ainda qualquer referência à idéia de plano de imanência. portanto. nem tampouco à de campo transcendental. a maturidade: é totalmente bergsoniano. Deleuze dedica os artigos “Bergson” e “A concepção da diferença em Bergson”. Este livro toma como referência o campo prévio das imagens de Matéria e Memória — primeiro sistema de imagens em que elas agem e reagem entre si sem se reportarem a um centro fixo ou sem que apareça ali qualquer intervalo. Em Conversações (??. e como pensadoras da imanência sem a colocarem como imanente a algo mais. Fellini. seu segundo livro sobre cinema “A imagemtempo”. p. Ele não coloca mais o movimento do lado da duração. que não pára de fazer proliferar por toda a parte uma pura consciência de direito . Nesse trabalho. descobre um tempo que é a coexistência de todos os níveis de duração (a matéria sendo o nível mais inferior). extraordinário na obra de Bergson. Bergson acusava o cinema de produzir uma ilusão de movimento através de cortes fixos no tempo. portanto as núpcias de um puro espiritualismo com um materialismo radical. Em Matéria e memória há. inacessível). No ano seguinte. que em 1983 se tornará tema em seu primeiro livro sobre filosofia e cinema: “A imagemmovimento”. a velhice. Deleuze já aplica o termo plano de imanência para tratar desse sistema de percepção pura ou da matéria em movimento. Nesse primeiro livro sobre filosofia e cinema. mas por um lado estabelece uma identidade absoluta entre movimento-matériaimagem. produzidos em 1956. e. por outro. publica o Bergsonismo. publicado em 1907. 63-4) Deleuze aponta que Matéria e memória que é um livro único. os elogios deleuzeanos são para primeiro para Spinoza. QF?: Matéria e memória traça um plano que corta o caos. Ambos passa do status transcendente pra a produção imanente coloca-os na relação entre pensamento e vida: o pensar é criação e configura. Deleuze observa que no capítulo IV da Evolução criadora. Deleuze estuda o cinema a partir do terceiro capítulo de Matéria e memória “Sobrevivência das imagens”.

2000) da figura psicossocial do doente mental e do são que são . O acontecimento não remete ao vivido a um sujeito transcendente = Eu. ou entre muitos instantes. são as funções organizadoras e determinantes (cf. mas remete ao sobrevôo imanente de um campo sem sujeito (DELEUZE & GUATTARI. de qualquer maneira. que se atualiza no estado de coisas. uma vez que possui uma relação diferente com o tempo – relação aionica de velocidade infinita. Mas. É por isso que. o acontecimento. o acontecimento “não se preocupa com o lugar em que está. entre a não-loucura e o surto psicótico. como um tempo entre dois instantes.) O que impede esta tese de desenvolver todas as suas conseqüências em Sartre é que o campo transcendental impessoal é ainda determinado como o de uma consciência que deve então unificar-se por si mesma e sem eu através de um jogo de intencionalidades ou retenções puras O acontecimento é colocado e pensado como sobrevôo sobre os estados de coisas e os corpos que ele envolve e paira. ele não apresenta um fluxo de vivido imanente a um sujeito. é sempre um tempo morto. podem apreendê-lo melhor que a ciência”. 65-6??) (DELEUZE & GUATTARI. de modo que a arte. há sempre tempo. 2008. e entre a doença mental cronificada e a criação. tempo do imediatamente passado e do quase futuro. Um tal plano é talvez um empirismo radical. p. De acordo com os termos familiares. é devir. p. exuberante. 203-204??) “Um sistema atual. e pouco se importa em saber desde quando ele existe”. que se pôde emprestar de um cientista. Ele não apresenta senão acontecimentos. O acontecimento é um entretempo que condiz ao aspecto transbordante.. O entretempo. O que que transborda na vivência? De fato. se definem. uma espera infinita que já passou infinitamente. e mesmo a filosofia. 2008. quando nos voltamos para a virtualidade. p. isto é mundo possíveis enquanto conceitos. onde não temos mais de cuidar do que ocorre de um ponto a outro. Não é mais o tempo que está entre dois instantes. mas também não é tempo. lá onde nada se passa. 101) propõe um campo transcendental que responderia as questões que Sartre punha em seu artigo de 1937: um campo transcendental impessoal não tendo a forma de uma consciência pessoal sintética. por mais próximos que sejam. um estado de coisas ou um domínio de função. descobrimos uma realidade inteiramente diferente. excessivo que repousa entre um instante e outro. quando Bergson diz que entre dois instantes. espera e reserva”. e que se individualiza no que pertence a um eu. de um instante a outro. porque ela transborda toda função possível. ao contrário sendo sempre constituído (. ele ainda não sai do domínio das funções e somente introduz nele um pouco de vivido. a de uma identidade subjetiva – o sujeito.. é o acontecimento que é um entre-tempo: o entre-tempo não é eterno. quando subimos para o virtual. e outrem. como expressões de mundos possíveis e personagens conceituais.A partir de Sartre é que Deleuze (2000. FOUCAULT. entre um estado de coisas e outro.

p. mas à determinação de singularidades como “pura imanência”. ou à queda no vazio abismal do indeterminado.potencialmente passiveis de serem desestabilizadas mais que com a vivência e efetuação do acontecimento.. ligado ao entretempo do acontecimento em seu caráter ínfimo e desregrado não passa pela vontade. um “estar à espreita” [ver ref Deleuze e Blanchot]. como aumento e diminuição de potência (qualidade virtual) (DELEUZE. Caos Há algo importante a ser extraído do caos. o campo transcendental é caracterizado pelo movimento sem início nem fim do devir. O plano de imanência condiciona o sentido. mais que interpretar. e que ocasiona. problematizar. consciência préreflexiva e impessoal. Ora. 41). Sob a perspectiva do empirismo transcendental. o campo transcendental é articulado (desde o) ao plano de imanência definido então como “uma vida”. Aquém das querelas sujeito-objeto. já que a sensação não passa de um corte na corrente da consciência absoluta. “De que natureza é o plano? Ele apresenta obrigatoriamente duas faces.) Não é o elemento da sensação (o empirismo simples). Por isso. indeterminada (sem essência) e inespecífica (sem nome) como o embrião. plano de natureza. neste texto. duração qualitativa da consciência sem eu (. na passagem de uma vivência a outra aumento ou diminuição da potência e da diferenciação. não corresponde porém à pura indeterminação. mas como uma espera. por mais próximas que se encontrem duas sensações. Cabe-nos enquanto clínicos. 1995/2007. o campo transcendental é definido a partir de dados imediatos como pura corrente de consciência a-subjetiva. da passagem. melhor dizendo. Uma vida. p. não entre conceitos ou ideias. antes no modo de uma problemática do que no de uma interpretação (ZOURABICHVILI. “falta-nos um plano que recupere o caos. Trata-se. pois "o . cada uma sendo o espelho da outra: plano de pensamento. porém.. com sua contra-efetuação num devir. 347). o caos sendo o não-sentido que é o fundo da vida. Movimento que se dá entre sensações. este processo de criação. condições que nos permitam ligar esses dados e neles encontrar sentido. 2000. indefinida (sem limites ou contornos estabelecidos). da passagem de uma à outra como um devir.

por fatores internos de privação de alimento ou bebida) e melancólicos (ligado ao vício) (ibid. uma potencialização da dimensão disruptiva das forças que conjugam o sujeito. Uma nova ordem da racionalidade se anuncia no horizonte com a distinção entre lunáticos (ligado a mudanças da lua. 15). 20 impressa Na suspensão da natureza e da unidade total e própria ao sujeito. 41)” (Zoura. 41) “a matéria é o acaso: modo de existência não somente independente das produções humanas. p. a clínica não deixa de ser uma atividade construtivista que. em parte presume um desconstrutivismo. 1979). 1977).2 p. Totalização que reflete a indexação de operadores materiais de dominação a um sistema global de poder e sujeição interessado na tecnologia destes (micro)poderes aplicados e na possibilidade de deles extrair um lucro político e uma utilidade econômica dos corpos tornados dóceis e úteis (FOUCUALT. Bergsonismo]] Causalidade e totalização Voltada para a colonização da experiência através da especificação de uma natureza e de um sistema de causalidades a norma social tende a se acoplar à norma orgânica na distribuição do real sobre um campo repleto de saberes normativos. mas indiferente a todo princípio e a toda lei” Rosset (1988a. VER: Clínica construtivista Estava no 1. insanos (determinado pelo nascimento. [[Sobrer isso ressoa Bergson tb EC. .. Pois a desintegração do mundo dos objetos e da temporalidade objetal complica qualquer pretensão à objetividade. fatores externos). 2000. p.movimento não é imagem do pensamento sem ser também matéria do ser" (QPh.

mediante a indecidibilidade. não é mais que efeito da multiplicidade de forças que atravessa e constitui a existência (DELEUZE & GUATTARI. Aposta que se traduz em termos de um construtivismo que ao invés de lutar contra o caos. afirmando o fluir e o destruir da vida e. uma vez que toda subjetivação.para nos valermos do termo de Ronald Laing (1977) -. o trágico se afirma pela reiteração de uma aposta nos termos de Blanchot (2007). a desconstrução é essencial para fazer sobressair o múltiplo substantivo. Ela abre as relações a um campo imiscível (de forças) que por via das sensações impessoais e dos sentimentos. mas se agenciar a ele como criação estética. Portanto. a ausência de fundamento e a impossibilidade de determinação positiva ou negativa da dimensão factual da vida. a vida é a manifestação de potências absurdas e sem objetivo e.Por um lado. Une o relativo ao absoluto. ao mesmo tempo. frente ao pathos das forças que combatem entre si para impor a decisão das vias e caminhos. não há soluções ou respostas originais ou últimas frente ao excessivo da vida. Antes. a ele se agencia em torno de algo que podemos reconhecer como criação estética. mais que necessidade e auto-conservação. Logo. as quais ganham consistência sob o assédio do fogo prometeico que vaporiza e desfaz as unidades e as totalidades. Por outro. sob qualquer instância total ou unitária. mais e antes que a inadaptação cognitiva. o construtivismo acompanha o caos da desconstrução na sustentação de um paradoxo que só pode existir no plano das multiplicidades. 2008). Fazer a clinica construtivista em cima da inf=dividuação. caracteriza o deslocamento existencial que a experiência clínica interpela. a ideação ou a torção do plano da “realidade social” . que trazem o místico junto ao destemperado. como nas imagens trágicas às quais nos referimos acima. o estranho e o questionável da existência. Pois o construtivismo desenlaça sobretudo um plano em que a existência segue por uma rota autônoma. mas que é também criação de possíveis para a existência diante da . em sua liberdade essencial. o intempestivo. não lutar contra o caos. nosso foco consiste na constatação de que. como a vida algo que não se resolve?? Prontamente. trata-se de dizer Sim mesmo ao sofrimento. o constitutivo inseparável da loucura. Como aposta para Blanchot (2007). não se deixa resolver.

saber como funciona. mas o sujeito e o sistema teórico ou conceitual com o qual ele se identifica. Uma clínica construtivista que tensiona as explorações sociais e afetivas operando na ordem das micropolíticas ao questionar nossas próprias ações. À insônia mais que ao sonho. são efeito emergente de um plano de constituição que não se pode dizer ter a unidade e homogeneidade de uma disciplina ou do campo científico. desconstruindo modelos de representação e ativando a potência revolucionária do desejo. com o fora além da interioridade. Pois não só o objeto é construído.profusão de forças transbordantes da vida. já que é composto de materiais heteróclitos. inócuo entre a passividade corporal que impossibilita e inviabiliza a intervenção real. eles também. a dimensão construtivista da clínica objeto do conhecimento é histórica e regionalmente constituído. Assim o clínico pode emprestar o corpo para fazer contato com a dimensão múltipla. Ausencia de obra: Como aquilo que não encontra legitimidade em hipótese alguma e que não pode habitar o solo de nossa cultura sem estremecê-la em sues pressupostos basais e que. forças que excedem o especificamente humano. perspectiva “Esquizo” é um processo de análise dos modos de subjetivação de sujeitos e grupos em suas relações com instituições e o mundo. Potência inventiva do inconsciente. que o limita e o situa. . Para Rauter (2015). no qual o clínico é catalizador de processos . em decorrência disto. deve ser desbaratada para longe de toda comunidade. A exclusão é um forma de separação que se dá nos limites bem definidos da superfície. a clínica construtivista se apoia num sentido vital e político. Para Benevides e Passos (2000). mais que o que é ou o que fundamenta coloca a clínica ao lado da criação. Uma clínica da construção.

impulsionando seu mecanismo de produção de realidade. 1990. partindo das conotações semânticas do termo ‘enação’ que sugerem o fazer emergir mediante a manipulação concreta” Produção de realidade como individuação é a “resolução parcial e relativa que se manifesta em um sistema que encerra potenciais e mantém uma certa incompatibilidade por relação a si mesmo. éticos.de diferentes gêneros. Plano de imanência 2008. devemos aceitar que este ato é sem fundamento “mundo não é algo que nos é dado. Eis o que chamo de cognição como enação. 12). econômicos. MP4 invenção” dos procedimentos de verdade e objetividade das ciências naturais (Stengers. 1993. mas é alguma coisa em que temos parte graças ao modo como nos movemos. respiramos e comemos. Conceito Conceito: . idealismo (fundamento no sujeito cognoscente) ou no realismo (fundamento no objeto do conhecimento). incompatibilidade feita de forças de tensão como também de impossibilidade de uma interação entre termos de dimensões extremas” (A indiv. Latour. Pois se o ato de conhecer engendra os pólos de sua relação. Há componentes teóricos e tecnológicos. políticos e afetivos que se atravessam neste plano. 1991/1994). seja ela objetiva ou subjetiva. tocamos. Psíquica e coletiva fr simonon p. mas também estéticos.

11). não na medida em que ela tem necessariamente de dar de algum modo a idéia da experiência original única e absolutamente singular a que deve o seu surgimento. mas quando lhe é necessário aplicar-se simultaneamente a um sem-número de casos mais ou menos semelhantes. p. Pensemos ainda uma vez. o pesquisador. o filósofo. como aquilo que determina a opinião pública. Destarte. Ver esses dois textos e Gentili e Garelli. a partir do século XIX. ou seja. mas à adaptação a casos mais ou menos similares. A gênese da linguagem não segue em todos os casos uma via lógica. 2001. na superfície objetiva do campo conceitual. cria-se a mídia. e o conjunto de materiais que é por conseguinte aquilo sobre o que e com a ajuda de quem o homem da verdade. como aquilo que funda a opinião pública. 1999a). se não provém de Sírius. Nietzsche (2001) ata o pensamento discursivo ao engano. Pois a instauração de um conceito consiste e se refere não a um regresso a sua experiência originária de formação – não que isso justificasse sua transposição a outros contextos –. (NIETZSCHE. Todo conceito surge da postulação da identidade do não-idêntico. a casos que jamais são idênticos estritamente falando. Contexto . 29. o diferente acaba por ser equiparado ao igual. particularmente. Ver: *produção da locuura Conceito e componentes Consenso Consenso (que depende da multiplicação do discurso da opinião). jamais provém em todo caso da essência das coisas. portanto a casos totalmente diferentes.No texto sobre A verdade e a mentira no sentido extra-moral. p. a imprensa. Música como verdade fisiológica e como expressão universal do sentimento nas Considerações extemporâneas (NIETZSCHE. trabalha e constrói. na formação dos conceitos: toda palavra se torna imediatamente conceito.

VER: meio. Assim. 84 . o acaso não está inscrito na ordem das causas e tampouco na das determinações e de suas respectivas exceções. carece da noção de natureza e ordem das coisas para ser pensado. Ele nunca é completamente determinado.. Ora. 94 O acaso precede a ideia de natureza e a engendra.p. (KENNY. assim também a neve. do mesmo modo como não está subsumido. O contingencial sinaliza a imprevisibilidade dos encontros com as forças do mundo. 62) O que é necessário é.. mas também nada que traga consigo um oposto admitirá o oposto daquilo que traz consigo. o imprevisível se desdobra em não-necessário. Aqui. já o contingente escapa a esta necessidade. tem que ser. real Contingência contingencial. ideia que se refere e se contrapõe à necessidade. Sócrates generaliza: não só os opostos não admitem os seus opostos. involuntário Os seres humanos podem ou não ser altos. que é necessariamente fria. A contingência se dá em simultaneidade e no seio da necessidade. a noção de Contexto. mas ser alto entra como contingente? Para elucidar sua noção de acaso. mas o número três não pode deixar de ser ímpar e a neve de ser fria — estas coisas têm estas propriedades necessariamente e não apenas contingentemente. sua determinação pela linguagem nunca é esgotável. tal como o frio se pode transformar em calor. Segundo Rosset (1988) a leitura filosófica leva a uma concepção abstrata da contingência como nãonecessidade. não pode permanecer onde está e tornar-se neve quente. encontro e contingência. sempre sobre algo a mais. não podendo ser definido nas formas com que aparece sob as noções de sorte.Derrida contesta em Limited Inc. assim. Rosset (1988) a toma como um anticonceito derivado da somatória de definições excludentes. tem ou de se afastar ou de perecer à aproximação do calor.

que o verdadeiro conceito vá até a coisa. por que estas antes que outras?189 Por que tal tensão da duração?190 De fato. portanto. MM. que Bergson coloca sempre. p. a ciência pode e deve continuar a tratar o vivo como tratava o inerte.179] Finalmente. quanta mais se embrenha nas profundezas da vida. Indeterminação. o ser é o passado. de dois tempos na mesma duração. Mas será entendido que. ao invés de suprimi-los. de fato e não de direito. o produto é que não é e o movimento é que já era. o ser era (MatM. um sob o outro e não um depois do outro (1999. 101) coloca que o que Bergson recusa é uma distribuição que põe a razão no gênero ou na categoria e que deixa o indivíduo na contingência. mas o presente é útil. Bergson nos mostra isso em seu livro mais difícil: não é o presente que é e o passado que não é mais. E nesse sentido e nessa medida que se deve tomar a ciência por convencional. [1417. [1394. Por que isto antes que aquilo. III) veremos que essa tese funda o imprevisível e o contingente. ou seja. incomensurabilidade entre o que precede e o que se segue. que a compreensão chegue até o "isto". no espaço. 261 EC. Na vida psíquica não há acidentes191: a nuança é a essência. É preciso que a razão vá até ao indivíduo. p. p. [1300. o passado e o presente. 32 outr ver Se a ciência deve estender nossa ação sobre as coisas e se só podemos agir tendo a matéria inerte como instrumento.208] 191 PM. 189 PM. p. de dois sentidos de um único e mesmo movimento. a ciencia . MM 217 a ciencia. 61. p. 255] De outra maneira. imprevisibilidade. mas o carater convencional e. p. Bergson substituiu a distinção de dois mundos pela distinção de dois movimentos. enfim. Em um passo de Aquiles. duração. Em principia. 179.61] 190 PM. contingência. p. 208. tanto mais o conhecimento que nos fornece se torna simbólico. que ele soube conceber como coexistentes justamente porque eles estavam na mesma duração. par assim dizer. 128). os instantes e os pontos não são segmentados. há contingência radical no progresso. Por que uma percepção vai evocar tal lembrança antes que uma outra?188 Por que a percepção vai "colher" certas freqüências. p. eis a questão da diferença.Ainda nessa mesma linha que define a contingência a partir de uma lógica dos encontros Deleuze (1999. liberdade significam sempre uma independência em relação às causas: é neste sentido que Bergson enaltece o impulso vital com muitas contingências (1999. Bergson traz o contingencial da escolha. não pensamos tampouco que a indeterminação seja um conceito vago. 255. 123). relativo às contingencias da ação. e relativa à ordem contingente na qual os problemas foram postos sucessivamente. [710-711. o espírito e a matéria. em seu conjunto. é preciso que a razão seja razão disso que Bergson denomina nuança.

esta e tomada par contingente. aquela que porá a nu a implacável verdade do Inferno. 249. nessa desordem. 567). p. assim que se procura fun dar a ordem. encontra a sombria necessidade do mundo. perfila-se aquilo que será a crueldade do fim (FOUCAULT. o animal que assombra seus pesadelos e suas noites de privação é sua própria natureza. . p. desde que nao saia de seu dominio proprio que e a materia inerte. onde contingência significa liberdade na relação do homem com o mundo assentada no fato de ela. a reparti~ao da natureza em objetos e em fatos ja tern algo de contingente e de convencional. Afirmação do contingencial frente à necessidade instaurada desde o interior dos muros da cidade medieval renascentista. 225 nossa ciência seja contingente. loucura como contingencial frente à necessidade de sustentação dos muros e das fronteiras medievais e renascentistas. 1979. insubordinado e não-necessário da experiência é capturado através da especificação de uma natureza e de um sistema de sucessão que dá margem à inscrição em outro nível de sistema. seja bem sucedida 239 a escolha das grandezas variaveis. pelo menos aos olhos do espirito: de alga que não fosse julgado contingente nao se pediria explicac. Acidental em kant Kenny (2009) O contingencial. não obstante. relativa a ordem na qual pês sucessivamente os problemas e que. relativa as variáveis que escolheu. a liberdade. Contingência: Involuntário como contingencial: Quando o homem desdobra o arbitrário de sua loucura. isto é. de interpretação da natureza em termos espirituais de liberdade e de finalidade. o das causalidades.22). e já. senão nas coisas. "não poder não existir" {1'être et le néant. nesse universo enlouquecido.positiva versa sabre a propria realidade. As vãs imagens da parvoíce cega são o grande saber do mundo. de convenção simplesmente.ao algurna 152 O contingente como signo de liberdade de do possível aparece em Bergson – A Evolução Criadora – como signo do indeterminismo. Igualmente em Sartre.

b r / l a b o r e / o f i cina_ bioetica_p10. Labore-UERJ. u e r j .S. comunidade “é em nome da saúde de todos. necessidade. singularidade qualquer e a comunidade que vem”. S. não À do homem. formas de visibilidade e disposição é uma questão estético-política Presenciamos a simultânea dissolução e conflagração da comunidade humana que se assenta na divisão social voltada para a dominação e a servidão tecno-políticas – como a sociedade disciplinar esboçada por Michel Foucault (1977) se assenta na produção de corpos dóceis e úteis. p.htm. da vitalidade da espécie. o louco é atado à necessidade do mundo. (2003). p. 40-4) Comunidade desobrada em Nancy Ver Rancière (2005. disponível em h t t p : / / w w w 2 . In: Polêmica – Revista eletrônica. D. (2002). “Que pode o corpo social: Deleuze e a comunidade”. VER: natureza. e Gadelha. In: Lins. do controle das doenças e da antecipação dos perigos que a biopolítica pode multiplicar os espaços médicos de intervenção social” (CAPONI. 24) VER Bauman prefacio Sociedade individualziada Gentili e Garelli (2015. signo. uteis na medida de sua docilidade. 19-26) recorte sensível do comum da comunidade. servis na medida . T. Comunidade Ver: THEMUDO.na Renascença. p. 2012. “Individuação impessoal. Nietzsche e Deleuze: que pode o corpo. Rio de Janeiro: Relume Dumará.

Ela propicia e tolera inclusive . 2000). pois a crítica deste autor ao que conservamos no texto sob o nome de comunidade humana. Neste esquema. p. no entanto. 15). toda operacionalização e sistematização comunitária está profundamente submetida ao objetivo da comunidade humana. homem que se produz e se conhece a si mesmo como duplo empírico transcendental (FOUCAULT. num âmbito fazendo do “homem considerado como o ser imanente por excelência. pensadores como Nancy (2001) e Agamben (1993) apontam a expropriação comunitária da capacidade comunicativa. mas como um emblema desta dominação e servidão. sua potência política – o Biós que Agamben (2010) distingue da Zoé. isto é. Uma imanência absoluta do homem ao homem – um humanismo – e da comunidade à comunidade – um comunismo caracterizam. Assim. A comunidade humana é construída sobre o privilégio do homem e. Em certa medida. apreendida pelo biopoder – e em sua capacidade comunicativa. a comunidade serve às produções identificatórias individuais e coletivas. p. Bataille (1993) aponta a traição que todo Estado incorre perante a revolução que o instaura. por sua produção (identitária. da liberdade implicada na comunicabilidade e no próprio ato de fala. política e comunicativa somadas à do trabalho) e pela comunidade que se assenta na produção de sua própria identidade. produzem precisamente esta essência como comunidade. O problema fundamental da comunidade assentada no homem definido (enquanto ser adequado e em bom funcionamento) reside no aspecto e na característica imanente do homem a si mesmo. o homem é definido por aquilo que obra. acaba submetendo-o em sua existência e naquilo que o reúne aos demais num extrato comum: sua força produtiva.em que são dominados e submetidos positivamente à normalização tecno-política. Seu paradoxal problema é que ela aplaca e trai a imanência do homem ao homem. e que além disso. ao objetivo da comunidade dos seres que produzem por essência sua própria essência como sua obra. O problema da traição é que ela complica o próprio ideal comunista que define o homem. Colocando a análise do tema da comunidade para além da expropriação da capacidade produtiva e política dos indivíduos. desta captura e apreensão dos indivíduos numa gramática comunitária. a vida nua. 16). De acordo com Nancy (2001. 2001. em sua obra e seu obrar. o que constitui uma dificuldade para o pensamento da comunidade” (NANCY. necessariamente definido. Neste âmbito é que o primeiro toma comunismo não como um conceito. como produtor de sua própria essência em seu trabalho.

É uma figura simétrica da imanência: o para-si absolutamente solto. é que se exclui o tema da comunidade de toda metafísica do sujeito. Por sua natureza – como seu nome indica. Somente desvencilhando-se de si é que ele pode produzir obra. possível e alcançável semente na e pela execução de sua obra. Esta inclinação do indivíduo sobre a comunidade. pois o indivíduo não é mais que o resíduo da experiência de dissolução da comunidade. O filósofo francês conclui que o individualismo é cego ao fato de que o que está em questão no átomo é um mundo e que. Seu “totalitarismo” – que para Nancy (2001) é antes um imanentismo – provém de sua ideia reguladora de que tudo é passível de ser modelado pelo homem. 17) aponta para a ideia de que a comunidade produz o indivíduo como resíduo de sua dissolução. a comunidade não é feita apenas de átomos.projetos contrários a seu projeto comunitário em vigor desde que estejam submetidos ao humanismo fortalecido. aceita seu destino e sua vocação passageira desde que o horizonte aponte para a figura humana. tomado como origem e certeza. Nancy (2001. Em compensação. O tema da comunidade só vem à tona mediante uma concretude e . pelo menos – efetuar e fortalecer sua essência. consiste. Longe de experimentar a origem ou a certeza. Esta é a forma que o indivíduo é declinado na comunidade. não se observando isto. que é o homem. de toda maneira. um declive ou uma declinação do indivíduo na comunidade. A comunidade deve – ou deveria. entretanto. Enquanto resultado abstrato de um processo de decomposição é que o indivíduo pode ser colocado como origem do socius. A imortalidade do indivíduo. porém. portanto. A comunidade pretende um governo total porque supõe que tudo é passível de modelagem humana. p. em sua própria alienação. é o átomo. É imprescindível um clinamen. não se resume aos indivíduos. o que o indivíduo passa em nossa cultura é a derrocada do liame de sua morte – como aparece na ética da modernidade que Foucault (2000) encontra na figura paradigmática de Hölderlin. o leva ao fora de si que é seu ser-em-comum. O comunismo suporta outros projetos de comunidade. o indivisível – o indivíduo revela ser o resultado abstrato de uma decomposição. na própria distinção de projetos concorrentes e no estabelecimento comunitário de instâncias de dentro e fora. Pois o homem compromete e condiciona as bases de todo comunitarismo e de todo comunismo que por sua vez fortalece a figura definida e estabelecida do homem. Como os demais elementos do mundo.

18) sustenta que a relação do absoluto “é aquilo que desfaz em seu princípio – e sobre sua clausura ou sobre seu limite – a autarquia da imanência absoluta”. que deve regulada coletivamente na órbita de um comunismo. que coincide com o da comunidade humana. para por fim ser integrada à finalidade última do saber absoluto. Se seguimos a trilha do saber hegeliano é impossível não nos depararmos com algo incognoscível por sua própria natureza. que desfaz o caráter absoluto (fechado e sem relação) do elemento absoluto. o homem como aquilo que se faz a si mesmo e se separa dos demais na separação que se fecha sobre um território. e o converter-se em todo (converter-se em Deus) deste ipse que completa o saber (e assim destrói a particularidade nele. perfeitamente solto e distinto no mundo (sujeito. a comunidade é aquilo que desfaz desde o princípio a todo fechamento e individualidade absolutos. Em contraposição. Aproximando a ponto de fazê-la equivaler à comunidade. Enquanto figura imanente. p. Nancy (2001. e se converte no saber absoluto).ou à relação entre absolutos. Neste sentido. Este projeto de realização individual do homem deve ser totalizada. Estado) e sua lógica essencial e intrínseca de rechaço e exclusão. obra. em nome. sem relação.materialidade do sujeito. O paradoxal neste esquema é que “a lógica do absoluto violenta o absoluto. completa então a negação de si-mesmo. Este limite se dá no encontro entre o todo – enquanto totalidade das coisas – e o ser. Assim. O implica numa relação que exclui e rechaça por essência” no seio da qual as opções se resumem a uma existência absolutamente só e absoluta no mundo – princípio da imanência absoluta . incluída na comunidade humana. Fica a questão: este ser-em-comum. que é o fora-de-si é apreensível? A crítica de Nancy (2001) recai sobre todo ser ab-soluto fechado. p. . observamos que o projeto humanista moderno depende da imanência do homem a si mesmo numa progressão de iluminação que avança segundo graus de consciência de si. por causa e em prol do qual o todo. 19) recorre a Bataille que assevera que a Fenomenologia do espírito compõe dois movimentos essenciais que completam um circulo: é o acabamento por graus de consciência de si (do ipse humano). Nancy (2001. Esta discussão nos diz respeito na medida em que humanismo moderno tem como meta a encarnação (e a justificação de tal encarnação) do homem como este ser absoluto tal como aparece no projeto hegeliano ao lado da necessidade.

do ser em nome do que é. porém se deve dizer que o êxtase (a comunidade) sucede ao ser singular” (NANCY. são divisíveis e se estabelecem em relação por vasos e canais de comunicação. encarna a possibilidade de escape da dialética. Ou seja. ela passa ao êxtase. pois ela “tem lugar no plano do clinamen. A relação com o inapreensível extrapola a . A singularidade se distingue radicalmente de todo absoluto (da não-relação) assim como da individualidade das identidades identificáveis ou apreensíveis segundo sua unidade atômica e/ou seu pertencimento essencial-elementar. de relação e comunidade. BADIOU. 2001. 20) coloca as discussão em termos heideggerianos de uma ontologia inscrita no todo das coisas que são que rivaliza com a dimensão ôntica. Está associada ao êxtase: não se poderia dizer com propriedade que o ser singular é o sujeito do êxtase. 2001. 22). onde o único termo propriamente absoluto é a relação. p. e fazem a partição. Destarte. 20). A comunidade humana se assente sobre o consenso (cf. se temos o relacionamento do ser absoluto em sua individualidade com o absoluto da totalidade. ou à impossibilidade ‘absoluta’ da imanência acabada” (NANCY. Elas se fazem na partição. à relação com o inapreensível. como ser intervalar. Sobre o extase ver Gentili e Garelli. 2000) A singularidade é o que está em questão em um corpo. denegado radicalmente na lógica do indivíduo absoluto e por um comunismo absoluto. p. um rosto. p. que responde “à impossibilidade da absolutez do absoluto. As singularidades que nos chegam em blocos de experimentação e sensação são a contrapartida de todo absoluto. p. uma morte. inidentificável. Sobre o extase ver Gentili e Garelli. no lugar de ser apreendida. 2003) e seu sentido sobre o bom senso e o senso comum (DELEUZE. a mediação que a totalidade exerce para apreender os elementos individuais do mundo na ordem do saber absoluto. que coloca o absurdo em relação com seu próprio ser. no encontro do sujeito com os elementos do mundo. 31 Nancy (2001. porque este não tem ‘sujeito’. 31 A singularidade aparece na relação elementar.a totalidade é. p. O incognoscível entre o absoluto do ser e da totalidade é o êxtase. temos uma relação absoluta. é o próprio ser que passa a ser definido como não-absoluto. Tal êxtase. uma voz e uma escritura. consigo e com o outro.

harmoniosos e incorruptíveis. numa nova soberania do sujeito. Ambos igualmente são fundamentados na partição. da consciência de uma ruptura de uma comunidade perdida como questão para a sociedade. Ela é “o . a exigência comunista. a soberania encontrada na criação artística faz com que a arte se veja às voltas com a questão da comunidade. Nancy (2001) encontra em Rousseau o primeiro pensador da comunidade. a comunidade dos filhos de Deus (que toma lugar em nossa cultura a partir da comunhão da transubstancialização do corpo místico de Cristo) percebe a loucura sob uma perspectiva trágica na qual paira a incerteza se o desatinado é o mais próximo ou mais longínquo de Deus para capturá-la em seguida no jardim das espécies de males. Esta soberania desvencilhada do eu e da identidade coloca em xeque toda pertencimento mútuo entre obra e comunidade. na difusão e na impregnação de identidades sobre uma pluralidade de identificações possíveis com o corpo vivo da comunidade. assentado na divisão dos direitos e deveres. seja da necessidade. À despeito da crença sugestivamente inculcada no caráter apolítico da arte. se articula com o fato de que se deve ir além de todo horizonte. e o da soberania.desembaraçado do homem e da necessidade – no qual o comunismo já não é o horizonte insuperável da política.exigência comunista de regulação coletiva da necessidade para dando vasão ao excedente de força na esfera da arte e da inventividade. Um modelo de fraternidade. no qual a desrazão não é outra coisa que o erro da razão ou um mal essencial (cf. A comunidade requer uma nova distribuição do espaço . enquanto exigência de um ser-emcomum. além de todo limite. próxima à noção de vida artista em Foucault (???). seja do homem. seja como arte que serve a um viés política ou política que beneficia certo tipo de arte. Em seguida. 1979). apoiado na distribuição da força e da precariedade. Em realidade. mais especificamente. FOUCAULT. A comunidade é o pensamento acerca do homem que entra na imanência pura: produz a si mesma e a seus elementos de maneira suficiente e não-relacional. Ambos tem como fundo uma suposta era de ouro ou uma comunidade perdida que deve ser reencontrada e reconstituída em seus vínculos estritos. Assim. seja como comunidade que se efetua como obra ou no absoluto da obra. identifica basicamente dois modelos de comunidade erigidos na modernidade a partir da degradação de uma intimidade comunitária e comunicativa frente à qual o indivíduo absoluto se estabelece como cidadão livre de uma comunidade soberana.

A comunidade revela o ser-junto. na hierarquização e na nãocomunhão que faz dela uma recapitulação e uma reutilização do divino. Observamos. Porém. Nancy (2001.limite do humano tanto como do divino. membro da comunidade humana é reabsorvida em prol do homem. suprimiria a comunicação e a própria comunidade (assentada na capacidade comunicativa de seus membros). Seu regime de imanência depende de que o homem produza a si mesmo como indivíduo e como homem comunitário ao mesmo tempo em que produz a figura do homem da comunidade. se a imanência operasse no rigor de próprios termos. pelo ser em comum que é a declinação do indivíduo na comunidade. O homem realizado do humanismo. Nancy ressalta que não há relevo para estas mortes que poderíamos chamar de mortes comunitárias. A morte de cada pessoa concreta. a uma comunhão que seria seu porvir. do homem convertido em igual a si mesmo ou a Deus. o ser-com pela morte. fundamento e condicionante. desta forma. ato da substancia imanente comunicada – é o que tem sido definitivamente retirado da comunidade” (NANCY. individualista ou comunista. se não há relevo destas mortes comunitárias. trata-se de um processo entrópico que leva ao colapso da morte. é o homem morto”. 2001. à natureza e a suas próprias obras. Porém. 32) afirma que “a comunidade da imanência humana. que a comunidade se assenta ainda na separação. é a comunidade de morte – ou de mortos. da ausência de diferenciação – pois a vida é seu poder de errância. a comunhão – substancia e ato. Para o francês. a morte é o cumprimento infinito da vida imanente. p. e não aquilo que excede a finitude de maneira indomável. Toda política orientada para a imanência absoluta atende à verdade da morte. uma tal imanência tem a morte como modelo assentado na igualdade presente na identidade contínua dos átomos. movimento que reabsorve a morte – o silêncio da ausência de diferença –. Com Deus e com os deuses. tampouco há dialética que as restitua. a cristalização da comunidade em . de um projeto de governo ou de nação. a comunidade se revela através da morte e esta através da primeira como Nancy (2001) justifica com as obras (notadamente as de Freud e Heidegger) que se preocupam com o tema entre a Primeira e a Segunda grande guerra. Por isso. A comunidade humana tem a imanência do homem ao homem como prérequisito. 28). De fato. Se o homem produz de maneira imanente a si mesmo e à figura comunitária do homem que deve ser distendida e aplicada aos demais. nenhuma salvação as reconduzem a outra imanência que a da morte. Assim. p.

. que é o que lhe é mais próprio. 29). encontra-o na fonte das ações políticas mais fecundas que têm tomado corpo atualmente. De modo que a comunidade. o da comunidade desobrada. leve Heidegger a uma ontologia fundamental. é o que nos sucede – pergunta.Agamben Nancy (2001) toma a inoperância.. longe de ser o que a sociedade havia quebrado ou perdido. a questão da comunidade não é nostalgia. [[[[[[[ A sociedade não foi feita sobre a ruína de uma comunidade. O Dasein. de acordo com a qual a abertura para o mundo é dada não pela consciência. e aponta para outro horizonte. Foi feita na desaparição ou na conservação daquilo que – tribos ou impérios – não tinha talvez mais relações com o que chamamos de “comunidade” que com o que chamamos “sociedade”. Se não há nada perdido. A crítica de Nancy (2001) à compreensão essencialista da comunidade tem como alvo a colocação do elemento identitário como seu fundamento último a partir do . acontecimento. sob a qual são formatadas e convertidas experiências e subjetividades em torno de um princípio de identidade que subjaz a ele. imperativo – a partir da sociedade. mas é o próprio Ser se abrindo no homem. p. da imanência.torno da morte de seus membros e da perda. carência ou problema. antes. [. Ainda nos termos heideggerianos. O ideário político tradicional da comunidade não pode escapar de certo regime de violência intrínseco a sua unificação enquanto coletividade. o sentido do ser. impossibilita que se tome as questões em termos de socialidade ou intersubjetividade. 2001. o desobramento que é o limite da comunidade não como falta. espera. o sujeito se distingue do eu que morre e desaparece em sua própria morte.] O que está “perdido” de uma comunidade – a imanência e a intimidade de uma comunhão – só está perdido no sentido em que uma tal “perda” é constitutiva da própria “comunidade” (NANCY. que em realidade é a impossibilidade. Comunidade sem nada em comum .

que aplica o uso do poder e o dispêndio de força unicamente com fins de lucro político – isto é. Paralelamente. a qual se realiza apenas na intrínseca relação entre proliferação e segredo próprios ao discurso [[VER PIGLIA sobre segredo]]. uma comunidade inoperante em suas estruturas basais de identificação. pois. à raça. Neste intuito é que ele propõe uma comunidade desobrada5. Blanchot (2002) retoma o pensamento de Bataille (1994) para apresentar a comunidade inconfessável. Frente à experiência.qual se estabelece uma diversidade de formas de captura. Sua proposta frente a esta comunidade abandonada à qual se subtrai toda essência e todo essencialismo dos parâmetros comuns de identificação. é uma comunidade em que a vida se desenrole em comum sem apreensões identificatórias (como aqueles ligados À identificação ao território. . Relacionando a política à metafísica. etc. La communauté désouevrée não tem correspondente dicionarizado em português. Bataille (1994) pondera que nossa cultura procede por certa lógica militar. O espaço aberto para a experiência oblitera qualquer projeto comunitário de realização plena. para o inacabamento e a insuficiência próprios à experiência. se usa da força para agregar mais força. Comunidade assentada. Comunidade que abre mão das estratégias de captura inteligível e apreensão com fins de inscrição num sistema de previsão estrita e abre espaço. portanto. a comunidade se desenvolve no intimidade 5 O título original da obra. à religião. la comunauté inavouable. 2013). Optamos por uma tradução direta para não perder o nexo com a obra e o caráter constitutivo da operatividade sobre a qual está assentada a definição de comunidade e certa concepção de homem conforme esclarecemos em A voz do silêncio (PRADO. desmobilizada e desorientada em seus pressupostos básicos aponta para a incompletude na inviabilidade de fixação de identidades. controle e reutilização da diferença a partir de sua instrumentalização em prol do fortalecimento do sistema em voga. ao gênero. na incomunicabilidade. sua produção e atividade. aos distintos modos de funcionamento psíquico. exclusão. Nancy (2001) traça um paralelo entre a unificação em torno da fixação da identidade fixa e do primado necessário da consciência que caracteriza fundamentais do sujeito à busca de um elemento fixo e comum que salvaguarde o campo político. engendramento e formatação de modos de ser e estar no mundo. Esta comunidade desativada.). a qual não se pode estabelecer códigos de transferência e correspondência.

partindo de tal diversificação que devém capacidade de outramento. aquém de toda determinação universal ou individual. se constituir em redor de seu segredo inconfessável como inacabamento. O qualquer.inconfessável do silêncio na constatação de que a comunicação não apenas porta focos de não-comunicação. Isto significa que nela não se fixam identidades porque seus elementos – radicalmente abertos para o outro – não são apreensíveis em representações e dispositivos identitários com os quais são colocados em funcionamento as tecnologias de normalização e produção positiva de subjetividades. mas busca validar a diversidade insubordinada que pode ocorrer ao ser. FOUCAULT. 11) utiliza o qualquer para apontar o impensado inapreensível que condiciona os modos de entendimento e não uma indiferença perante as determinações e apreensões. tendências e funcionamentos forjando certa coesão e constrangimento sociais. Assentada sobre um ethos político – uma vez que entendemos política como jogo de forças – de outramento. Recorrendo à etimologia do termo qualunque. a comunidade inacabada se constitui fundamentalmente como comunidade irrepresentável. ele é “o . como é propriamente realizada a partir destes vacúolos identificados por Blanchot (2002) ao segredo. p. Já Agamben (1993. Agamben (1993. a comunidade parte dos discursos que nela se proliferam para. “o ser que vem é o ser qualquer”. 2002). p. 11) contribui para esta discussão afirmando na primeira frase do livro que para A comunidade que vem. derivado do latim quolibet. O índice de indeterminação sinalizado com o qualquer condiz não a uma indiferença ou desinteresse em relação aos descaminhos e rotas existenciais. em seus modos e singularidades. Em sua proposta. escapa a toda determinação gregária enquanto elemento do corpo populacional capturado pelos mecanismos do biopoder ou enquanto unidade somática individualizada pelos mecanismos de disciplinares e de controle que regem nossa cultura (cf. em sua indeterminação e inoperatividade.

permanecendo impensado em cada um. desde logo. não é indiferente». por outro lado. O filósofo italiano distingue a lógica do pertencimento da propriedade para afirmar que a singularidade coloca em causa a 6 Desenvolvendo seu raciocínio. qualquer ser». posição síntese do paradigma ético da alteridade levantado pelos três autores que aqui nos valemos para o estudo da comunidade desobrada e inconfessável que vem. algo que remete para vontade (libet). . Cada ser já é uma espécie e institui reiteradamente seus modos de pertença a si mesmo enquanto forma de ser e estar no mundo única e irredutível. Não nos apressemos contudo. mas à pura afirmação do ser – enquanto ser-qual em suas palavras. As operações de inscrição estabelecem relações pertença através apreensão de cada elemento numa ordem esquemática de captura referenciada. condiciona o significado de todos os outros”6. seja como for. Uma vez especificado e individualizado perante esta norma referencial ou a uma rede de inscrições e apreensões é que se autoriza a engendrar modos de ser e estar atados a modelos e normas hegemônicos em cada elemento da comunidade. Entretanto. mas «o ser que. a singularidade não se limita ou se reduz à presença ou ausência de determinada propriedade que cauciona a pertença ou não pertença a um conjunto gregário qualquer. o ser-qual. Ali. se guia pela capacidade de outramento. Agamben (1993. Em adição. A comunidade irrepresentável. p. o ser qual-quer estabelece uma relação original com o desejo”.termo que. perante a qual cada elemento é tomado com todos seus predicados. operada em torno de uma norma hegemonicamente instituída. pois não se trata. o qualquer corresponde ao ser. de suas arestas e incongruências frente a um sistema de inscrição identitária de pertencimento. Escapando ao inexprimível do indivíduo e à captura inteligível do universal. na gaveta dos sem classe. passa-se a prescindir de qualquer propriedade ou condição em prol de um suposto comum genérico ou de uma generalização das condições de ingresso e inscrição em certa comunidade. porém de colocar o qualquer em outra classe. não corresponde ou sequer se identifica a um predicado real. 11) inscreve a distinção em termos de vontade e desejo ao destacar que “quodlibet ens não é «o ser. figura do qualquer que descreve Agamben (1993). considerado independentemente de suas propriedades. enquanto qualquer irredutível à relação de pertença. ele contém.

própria lógica do pertencimento. embora sejam inqualificáveis em seus termos e segundo sua gramática. um homem. antes. elas são imprescindíveis à medida em que conferem consistência a generalidade abstrata que representa a partir de usa inscrição num sistema de codificação. Ele recorre à teoria dos conjuntos para destacar que trata-se. este homem. que aglutina singularidades. E a comunidade que lhes corresponde só pode ser uma comunidade sem nenhuma identidade comum. Esta vida é a vida puramente linguística. Exemplar é aquilo que não é definido por nenhuma propriedade. não é o ser-Jakob. Não é o ser-vermelho. No esquema montado pelo italiano. Só a vida na palavra é inqualificável e inesquecível. as singularidades habitam o Limbo. Porque o lugar próprio do exemplo é sempre ao lado de si próprio. Agamben (1993) identifica a singularidade com a exemplificação e não à propriedade ou como designativo de atributos gerais. vamos colocar e uma singularidade. e não têm consciência de estarem privadas do bem comunitário. p. Como Bartebly ao final do conto de Melville. elas vivem no puro abandono do ser. O ser exemplar é o ser puramente linguístico. no espaço vazio em que se desenrola a sua vida inqualificável e inesquecível. Ao demonstrar a especificidade singular daquilo que designa. mas o ser-dito-Jakob que define o exemplo (AGAMBEN. de um nominalismo. Assim. a suas regras e denominações. o exemplo esclarece a possibilidade que funda todo pertencimento pois o ser-dito é aquilo radical e efetivamente comum que. alheias ao destino comunitário dos bem-aventurados e ao destino de condenação dos excluídos. excepto o ser-dito. Logo. de uma filiação linguística a um conjunto gregário. 1993. . mas o serdito-vermelho. de homens. 16). no entanto. rompe com a exigência comunitária da equivalência. O que é efetivamente comum é partilhar miríades de singularidades que se comunicam no lugar vazio do ser-dito do exemplo. embora não caiba neste o pertencimento a uma identidade comum. As singularidades correspondem a esta experiência-limite. Embora as singularidades sejam irredutíveis ao conjunto. mas como certo modo de encarnar um objeto singular num caso real. o exemplo não é outra coisa que o ser-dito capaz de mostrar linguisticamente a singularidade. a singularidade somática do corpo é a fonte e o alvo do poder investido pelas instituições sociais. O ser linguístico do homem tem um duplo aspecto relacionado à duplicidade própria ao signo. Ele integra um conjunto.

por supuesto. como inoperancia que se resiste a ser obra. como estar singular plural. se trata aquí de las formas inmanentes de comunidad. Porque não está consignada a nada. sino el espacio mismo. ni comunión perdida. entre origem e destino que toma a comunidade como obra a ser realizada para redefini-la não como valor supremo em si ou como busca de uma essência lhe seja própria mas a partir de sua inoperância. ya que se efectúan como su propia obra o se realizan como la finalización de la esencia auto producida. en aspiración europea de los siglos XVIII y XIX de producirse colectivamente como la última y más grande obra de la humanidad. el hombre (es) definido como productor (podría decirse también: el hombre definido. o quien hizo de la manera más aguda. Bataille es «es sin duda el primero en hacer. Nancy concibe la comunidad. afirmada e defendida como estado absoluto e valor supremo acima de todos. a secas).Agamben A ética desta comunidade desobrada e inoperante se assenta na esquiva à realização de toda e qualquer essência. [La comunidad inoperante. 20] El fracaso del comunismo no resulta del hecho de que el hombre se forme. cabe aos indivíduos lutarem pela realização do destino histórico da comunidade inscrita já em sua origem. La communauté désoeuvrée. 13. níveis a serem atingidos. pois entende que se o homem se reduz a qualquer realização ou destinação prevista de antemão. Nancy. Este é o toque de pedra desta concepção de comunidade que bate de frente com a compreensão tradicional mais corrente de comunidade como propriedade de seus membros que deve ser plenamente realizada. la experiencia moderna de la comunidad: ni obra que producir. Agamben (1993) visa desterritorializar esta vínculo naturalizado entre arché e télos. y fundamentalmente como productor de su propia esencia bajo las especies de su trabajo o de sus obras». a comunidade não tem arbítrio sobre o que é ou o que viria a ser segundo um projeto ou um destino preestabelecido.8 Dicho de otra manera. Encontramos la misma inmanencia. histórica ou espiritual. vocação ou destino biológico. y se forme en común –porque no hay otra opción como bien lo vio el comunismo– sino del hecho suplementario que se forma como obra a fin de determinarse y formarse como proyecto: Para Nancy.Comunidade: origem e destino da comunidade como obra e assentada na obra . Nessa ótica. a nenhum fim e a nenhum sentido original. y el . não há possibilidade da ética. mas apenas tarefas a serem cumpridas.

agarrar-se a ser o que é. Aquí es donde se constituyen mutuamente la experiencia de la comunidad y del estar.21 Comunidade: Heidegger e a abertura ao Outro. Ao contrário. o Mitsein é um existencial que remete a uma estrutura prévia do Dasein enquanto ser-no-mundo que significa uma abertura para o Outro. a comunidade aqui só pode ser inautêntica em sua constituição. 7 Según Nancy. del fuera-de-sí» 7. . como dice Bataille. há um tipo de existência fragmentária e outra de posse de seu verdadeiro ser. a pesar de sus méritos. Pode pular Sem fundamento prévio. a abertura para o Outro não se dá no horizonte da existência autêntica. El giro de Nancy consiste. Enquanto doação. ao passo que como impropriedade. colocam Heidegger como pensador do novo comunitarismo e a noção de Mitsein em Ser e Tempo como uma das formulações mais radicais no que concerne à abertura ao Outro. a nivel ontológico. en una radical renuncia del pensamiento del sujeto en favor de un pensamiento de la comunidad. contentando-se com o resto de igualdade como aquilo presumidamente imperdível. o italiano se afasta do pensamento heideggeriano que toma a partir da decisão o sentido da existência própria. Agamben (1993) alude ao abandono do ser heideggeriano para definir a comunidade em torno de um Es gibt. mas como aquele que desde sempre vem ao encontro em um mundo previamente aberto. en éxtasis). porque. En este sentido la comunidad queda[reste] fuera del sujeto y mantiene la oposición entre interioridad y exterioridad que debe ser cuestionada si se quiere pensar la primacía de la comunidad. o Dasein não se relaciona com o Mitdasein como um acréscimo. es la experiencia de estar expuesto a lo otro. antes dáse como uma doação que acontece em sua impropriedade essencial. descrita por Bataille bajo el título ligeramente engañoso de La experiencia interior.espaciamiento de la experiencia del afuera. no piensa suficientemente la comunidad. A concepção de que o Dasein pode se apropriar de sua possibilidade mais própria. como algo que se dá. consolo metafísico. Enquanto abertura. a saber. Esposito e Nancy. a comunidade não cumpre um destino ou um projeto. «cada ser es. Na perspectiva da Comunidade que vem. según creo. Bataille. incapaz por sí solo de ir hasta el límite del ser». o ser que é a cada vez é meu. La razón de esto sería que Bataille no ve el éxtasis del sujeto ni de la comunidad misma. ao sair da fragmentação e indeterminação do Man. de estar fuera de sí (como lo dice Bataille. Esta experiencia específicamente moderna de la comunidad.

numa luta que é por vezes luta violenta. 98-9) considera que “para Heidegger o ser-com é apenas abordado em relação com o Ser porque. a ética aqui ligada à comunidade implica que o homem não sendo uma essência. O ser qualquer em seu aspecto possível e potencial independe de sua efetivação em algo específico (ou já especificado).. Como veremos no tópico seguinte. por vezes violência apaziguada no discurso” Comunidade. Já Blanchot (2011. aqui. desvencilhada deste destino referencial já determinado e de um projeto dado na realidade. ao cotidiano. O discurso perde toda função normativa [[Orwell]] na ausência de referências A ética aparece então como questão de produção de possíveis para a experiência. de quodlibet. O “sujeito” ético. moral e ética: Bartebly. qualquer seja ela. mas como possibilidade. entre potência e possibilidade – enquanto dimensões que se distinguem do que se apresenta como dado na realidade – subjaz uma forma irredutível de qualquer. princípio de ação e da força humana por excelência) anular a ambiguidade (e a aparente simetria entre ser e não ser) que faz a potência oscilar entre . sendo. é antes de mais nada. igual ao eu e procurando ser reconhecido por mim como Eu (assim como por ele). Tampouco o qualquer se define pela incapacidade (pela carência de potência) ou por uma potência absoluta de efetivação toda-poderosa que se realiza indiferentemente de todas as condições.) [que quando se preocupa] com o Outro. sustenta a questão do Ser (. colocando-se em um elemento puramente relacional.. este não passa de um outro eu mesmo. Ora. Agamben (1993) traça o percurso da moralidade inerente à noção de vocação ou destino comunitário a partir da distinção aristotélica entre ato e potência na qual se visa (pela vontade. o aspecto afirmativo do ser em sua apresentação. p. no melhor dos casos. inessencial. desfeito de sua unidade fixa e entregue verdadeiramente à dimensão da alteridade. encontra no simples fato de sua existência como possibilidade e potência. o possível e a potência Alheio a toda vocação a dimensão ética da comunidade desobrada não se assenta numa moral decalcada de um suposto trajeto de desenvolvimento que visa cumprir um destino original ou teleológico.A filosofia deve ser entregue ao mar da impropriedade. à sua maneira.

o escrivão do escritório de advocacia em Wall Street no conto de Melville (2005). segundo Agamben (1993. escreve a sua própria passividade” (AGAMBEN. 35). ele se desvaneceria no ato. restando inferior ao próprio objeto. 35) retoma a definição kantiana da possibilidade como capacidade de determinação representativa de algo para encontrar o modelo ético da comunidade desobrada em Bartebly. 1993. “Na potência que se pensa a si própria. sua tabula rasa que é a própria potência de não pensar. p. p. 33) são os modos com os quais a potência passa ao ato pois “na potência de ser. o pensador italiano articula a singularidade não como aquilo que é ou deixa de ser. A inoperância reside na potência que pode a potência e a impotência. a escrita emerge não da potência de escrever. O que está em jogo para Agamben (1993. O pensamento pensa não tanto um objeto. Porém ele é potência pura. Esta inoperância da escrita é a mesma ausência de obra com a qual se depara Artaud quando escreve que a escrita é porcaria em O pesa nervos. acção e paixão identificam-se e a tábua de escrever escreve-se por si ou. a potência de não-ser nunca passa ao ato. O exemplo que o filósofo italiano levanta é o de Glenn Gould que. potência de não pensar e se virar para si próprio e sua própria potência: pensamento do pensamento que faz o intelecto possível ou material gerar sua própria tábula rasa. como uma tendência explicada a partir da enigmática e desconcertante sentença I would prefer not to de Bartebly. 2007a). o “escrivão que não deixa simplesmente . um ser-em-ato. a potência tem por objecto um certo acto”. mas do desdobramento da impotência de escrever que se volta para si própria como realização de um ato puro. de modo que este ser-em-ato condiz necessariamente a uma determinada atividade enquanto a potência que não se efetiva como passagem ao é tida (por Schelling) como cega. p. podendo não não-tocar. como sua própria passividade. entre aquilo que é ou que pode não ser. mas com a possibilidade. Por sua vez. pois é potência que toma a própria potência como objeto. sua maestria conserva e exerce a potência de não tocar colocando enfim a superioridade da potência positiva sobre o ato (de tocar). antes. Por isso.potência absoluta e impotência. toca com a potência de não-tocar – no ato. Agamben (1993. Deste modo. e que não acredita numa sociedade escrita. transportando ou salvaguardando esta última no trânsito para o ato. Se o pensamento se resumisse à potência de pensar os objetos inteligíveis. Assim.

parece na escrita não a de um ato ou de uam escrita específica. consequentemente. Não há sociedade das singularidades quaisquer porque não há rastro de determinação possível que parta delas. é a potência do não.. que pode tanto a potência como a impotência de escrever. Deformação ativa é o correspondente a este pensamento do pensamento em sua passividade que o faz pensar a si mesmo a partir do modelo do preferiria não fazêlo de Bartebly. porém não que ela se resume a uma simples comunidade negativa. Entretanto. Mediada pela própria pertença – como pensamento do pensamento. A potência da singularidade. as singularidades quaisquer não dispõem de nenhum vínculo ou fresta do que possa se tornar uma relação de filiação. elas não são sintetizáveis em uma posição política concreta.de escrever. (.. mas em sua potencial e abarcável impotência que toma a própria potência como objeto de modo a se tornar assim potência suprema desvencilhada de quaisquer ação e vontade. A figura do estranho escrivão evoca o poder teológico (de criação) da potência suprema. A singularidade que co. Nesta perspectiva em que não existe compromisso histórico algum a ser realizado – e tampouco conflito ou ação de instauração de regimes e programas –. Isto quer dizer que a comunidade desobrada prescinde de mediações condicionantes de pertencimento. de não ser: sua impotência.) [e] não escreve outra coisa do que a sua potência de não escrever”. A potência da singularidade não está no trânsito para a (necessária) efetividade do ato. pertença ou reconhecimento que fundamente uma sociedade. política e passividade A passividade rejeita todo paradigma humanista de ascendência da vontade sobre a potência como força de decisão capaz de estancar a ambiguidade da potência na sua conversão em ato. o horizonte ético da política passa a ser a passividade que a desvencilha de todo apelo a condicionantes de pertencimento. dobra sobre si mesma – a comunidade inoperante se torna bastião da política da singularidade qualquer. Comunidade. Embora a lógica estatal comporte a concorrência de outras ordens estatais ou estatuárias . mas «prefere não». mas mas de ter como objeto a potência e de se virar para ela mesmo enquanto impotência e inoperância. sem condições.

Desembaraçada do afã identitário de pertencimento e reconhecimento. p. A representabilidade (apreensão na ordem discursiva e inteligível do mundo) de grupos e pautas. senão o espaço mesmo. a política da nova comunidade se define pela pertença à própria singularidade. o filósofo italiano recupera a noção de Estado para Badiou (2004). Neste sentido é que Agamben (1993. mendigos e andarilhos sem documentos e inscrição nos sistemas estadísticos de poder e assistência. logo. Agamben (1993. ela é incompatível com uma comunidade de singularidades que prescinde de traços identitários apreensíveis. nela nos deparamos com “a relativa ausência de conteúdos determinados de reivindicação (democracia e liberdade são noções demasiado genéricas e difusas para constituírem o obcjeto real de um conflito”. a singularidade qualquer abdica de todo vínculo condicionante de pertencimento. 66) encontra o paradigma da política que vem no espaço intervalar indefinido das manifestações da Praça Celestial em Pequim no começo dos anos 1990. 67) pondera que o definidor da “política que vem é que não será já a luta pela conquista ou o controle do Estado. 41) encontra no pensamento de Bataille que não determina “nem obra que produzir. o que interessa não são as singularidades que fundam e instituem a . A política da comunidade desobrada é a política que emerge das ruas e dos movimentos multitudinários. p. mas a dissolução deste. que não se conformam e cuja loucura não se submete ao confinamento no interior do exterior. identificação e reconhecimento para se estabelecer como a grande ameaça à ordem estatal e estadística.interiores ao Estado constituído (a Palestina e as diversas insurreições ordenadas na forma de terrorismo ou povo sem nação dão o testemunho disso). Ou seja. do fora-de-si”. a representação de uma condição ordenamento é indispensável ao jogo macropolítico. política que vem dos que não pertencem à comunidade dos homens: loucos desatinados. Destarte. nem comunhão perdida. o espaçamento da experiência do fora. ao se apropriar de sua própria pertença enquanto ser-na-linguagem. própria à experiência comunitária moderna cujos termos Jean-Luc Nancy (2001. sua grande ameaça e força é precisamente a retomada do qualquer sem nenhuma identidade. mas luta entre o Estado e o não-Estado (a humanidade). disjunção irremediável entre as singularidades quaisquer e a organização estatal”. Política do fora. p. que não é a expressão de um laço social que subjaz em sua fundação.

mesmo não podendo ser sacrificado. uma comunidade impolítica que não cabe nos termos políticos tradicionais de Estado. tradições que articulam e sustentam as identidades colocar as pessoas concretas enfim em sua dimensão de impropriedade. adequado e procedente ou inviável. podemos afirmar que a inaptidão das singularidades quaisquer para a conformação em uma posição política concreta faz da comunidade dos qualquer. Nesta ótica. . podemos sintetizar que a política do qualquer tensiona com a ordem Estado e sua violência identitária a partir da apropriação das singularidades de sua própria pertença enquanto singularidades no seio na linguagem. em contato com sua singularidade qualquer. Em consonância com tal caráter impolítico podemos inferir juntamente a Agamben (1993) que a perda dos valores identitários que ocasional ou historicamente caracterizam esta ou aquela identidade. nação ou partido. 68) retoma o qualquer como caráter ou dimensão sagrada do homem. p. a política deve estar junta à ética enquanto conjunto de valores dados e inteligíveis – identitários e reconhecíveis – que regem normativamente um corpo social ou individual em termos de juízo – bom ou ruim. é lícito matar sem cometer homicídio”. Comunidade e o corpo qualquer Agamben sustenta que a singularidade qualquer atinge seu ápice com os processos de manipulação e transfiguração do corpo atravessado e controlado pelo discurso publicitário e pela pornografia. mas sua apreensão em formas identitárias. pode escapar ao niilismo para. Se nos valemos dos escritos de Roberto Esposito (2003). Como recurso elucidativo de ilustração da conversão e transfiguração do corpo em corpo qualquer. Agamben (1993. Para Badiou (2004). de confusão e de singularidade. aquele que “foi excluído do mundo dos homens e que. Agamben (1993. na dissolvência das crenças.comunidade. Retomando os termos da discussão. 40) se vale de um comercial publicitário na qual jovens mulheres sorriem enquanto são filmadas dançando primeiro separadamente e depois reunidas numa montagem de forma a fazer saltar aos olhos do espectador “a especial impressão de sincronia e de dissonância. em pautas de reconhecimento e reivindicação que possam ser (re)capitalizadas e colonizadas pela ordem estatal. de comunicação e de estranheza que emanava do corpo das dançarinas sorridentes”. p. sob a figura do homem sacer do direito romano.

“Libertando-se da dupla cadeia do destino biológico e da biografia individual. propicia a maciça manipulação técnica como peça publicitária e produto mercantilizável. ou seja. que a acompanham ao túmulo como carpideiras. “Nem genérico nem individual. Neste âmbito. p. o corpo tornava-se agora verdadeiramente qualquer” (AGAMBEN. Comunidade. cuja physis é a semelhança . 41).Sob o mesmo collant barato. sua imagem. Agamben (1993. A publicidade e a pornografia. forjado nele. capaz de cooptação irrestrita – potência de afirmação irrestrita. Logo. O ponto chave analisado a partir do comercial é que o corpo qualquer se afirma na semelhança aos outros corpos através de um processo de tecnificação não da materialidade encarnada do corpo mas da sua imagem – dimensão a partir da qual opera a noção estética de semelhança. nem imagem da divindade nem forma animal. a diferença quase nula dos movimentos e a unificação invisível da trilha sonora o comercial pinta um quadro de promessa de felicidade a partir do corpo. Sem modelo ou arquétipo algum. 43) pretende “fazer com que imagem e corpo se penetrem mutuamente num espaço em que não possam mais ser separados e obter assim. integralmente iluminado” (1993. p. o qualquer é a semelhança desembaraçada. são as inconscientes parteiras deste novo corpo da humanidade”. o corpo qualquer. 1993. Guy Débord (1997) retoma o caráter de fetiche da mercadoria para ponderar que – tal qual ilustrado no comercial dos Collants Dim – ela se constitui como feixe de acumulação de . o corpo atravessado pela técnica corresponde à figura humana emulada inalienavelmente em seu corpo que enfim se desvencilha de seu fundamento teológico. p. 41) num processo que coincide com as massivas propagação das imagens pornográficas (desde o século XIX) e mercantilização do corpo na análise do italiano. o corpo é finalmente desvinculado do destino biológico e do projeto biográfico individual. imagem e linguagem: a sociedade do espetáculo Em sua análise do capitalismo sob a ótica da Sociedade do espetáculo.tal é o bem que a humanidade deve saber arrancar à mercadoria no declínio. concluímos que se a tecnicização da dimensão imaterial do corpo. ele abandonava quer o grito inarticulado do corpo trágico quer o mutismo do corpo cómico e surgia pela primeira vez perfeitamente comunicável. Massificado e instituído como valor de troca.

p. identidades e comunidades”. Valendo-se. Num contexto em que o mundo é convertido em imagens e as imagens em realidade. os homens podem experimentar a essência mesma da própria linguagem e do fato de falar. a autonomização da linguagem na sociedade tem um viés positivo que gostaríamos de enaltecer e atua contra a lógica do espetáculo. Entretanto. o espetáculo encarna a pura da separação entre o sujeito reduzido a sua representatividade dentro do jogo de imagens e sua potência política. Agamben (1993) desloca a noção de espetáculo para o âmbito da linguagem e da comunicabilidade que caracterizam o homem. quem pode se usar da linguagem? Todo indivíduo. O espetáculo para Débord (1997) é o modelo de relação interpessoal intrínseca ao capitalismo tardio no qual as representações individuais interagem via mediação de imagens (capitalizadas num sistema de valor e hierarquia).espetáculos. ideologias e religiões. ao mesmo tempo em que são alienados de sua natureza linguística. O comum da linguagem que une os homens os separam na sociedade do espetáculo. Desvencilhando os sujeitos de sua potência política. não só os mediacratas. a vida social é subordinada a economia mercantil onde a forma desta e do Estado se interpenetram e se desenvolvem inseparavelmente. que em todo o planeta desarticula e esvazia tradições e crenças. Baseado nisso. uma tal conversão da vida política e social – tratado por outros pensadores como Lasch (1983) a nível do ocaso da esfera pública da sociedade – não tem outro resultado que a cisão dos sujeitos de sua potência prática e política. Em sua releitura. . uma ordem de relação entre representações de pessoas no âmbito da imagem na qual o valor do bom é acoplado a seu aparecimento na superfície espetacularizada dos meios de comunicação em massa. Agamben (1993) busca pistas e as bases de uma nova política do corpo na apropriação das transformações que a natureza humana sofre no decorrer da história e que são diminuídas pelo capitalismo à ordem do espetáculo. 65) sentencia que “a política contemporânea é este devastador experimentum linguae. A sociedade do espetáculo expropria hoje não apenas da força de atividade produtiva mas também o próprio poder de comunicação da linguagem. Agamben (1993. O argumento de Débord (1997) é essencial para elaborar a questão dos Collants dim. onde o experiencial é subordinado ao primado do que é representado. O capital atinge tal grau de acumulação que esta só pode se encarnar imaterialmente na forma de imagem. o comum que atravessa a humanidade. desta análise. A percepção coletiva e a comunicação social são reduzidas à ordem do espetáculo. pois. No vocabulário marxista de Débord (1997).

Assim. ao pertencimento enquanto tal. mas para a própria linguagem. que pertence a si mesma. Pois o corpo qualquer – cuja phýsis é a semelhança – surge como resíduo do processo de separação do homem de sua potência política. Somos seres de linguagem e a operação de uma política que vem deve recuperar esta dimensão que faz dela não um projeto definido ligado a conteúdos específicos. o escritor. o que caracteriza o comum da linguagem não é aquilo que ela pode ou de fato revela ou esconde. consequentemente. o comum que nos atravessa e conduz à singularidade. de sua potência política. o artista em seu isolamento. a singularidade enquanto potência se volta não para um conteúdo linguístico determinado ou outro. . Esta política de engendramento de potência política difusa e variada é mediada [averiguar acima] pela própria linguagem. isto é. a aposta política está na linguagem. Pois a conversão do universo humano na imagem promove não somente a perda de contato com a capacidade produtiva e política. mas a própria possibilidade da revelação. A materialidade do corpo da nova política provém da imaterialidade decalcada da lógica mercantilista – corpo que habita territórios de passagem e incerteza. para o fato de que se fala. O corpo é investido pelo biopoder justamente na medida em que ele é fonte de resistência e. a própria política por vir habita já o corpo da vida nua enquanto em A comunidade que vem. Neste sentido. em sua solidão essencial encontra o ser-em-comum não na assimilação identitária a outros homens mas na própria natureza da linguagem. O desenvolvimento dos estudos de Agamben (2010) o levam a considerar que diminuído da Bios.daquilo que se apresenta como espetacularizável. condiciona toda possibilidade de comunicação. mas igualmente de nossa natureza linguística. mais que um meio de comunicação. a existência humana é reduzida e objetivada nas grades do biopoder como Zoe – daí o termo e o argumento do Homo Sacer. A linguagem porém. Destarte. pesquisador. de todo modo indiferentes aos processos de inclusão e exclusão essenciais à comunidade de pertencimento. Trata-se de um elogio do artifício assentado no artifício da imagem do corpo. mas uma pura potência.

Michel. aos ditames da razão prospectiva. 1559) ao assegurar que “se não houvesse resistência. tal qual a posiciona Foucault (FOUCAULT. ela transgride as leis. por onde não é vista. suas correlações identitárias (ZAMBRANO. Neste sentido é que se associa a poesia à possibilidade mesma de a liberdade suplantar o poder. guerra e loucura. nem nunca será vista. saber e visão A comunidade se assenta sob uma ordem panóptico-racional na qual todo elemento deve ser julgado pela instância da justiça\ser sob a imposição da espacialidade e da mensurabilidade no primado do ver sobre o falar e sua sombra essencial conforme pontuado por Blanchot (2011). p. de desvio e erro. não haveria relações de poder”. naquilo que subverte a visão. a poesia dá abo à desarticulação da razão como paradigma hegemônico. p. 2008) que depõe contra o ser. sua distribuição e sua espacialidade. “A palavra é. (1976-1988). Insubordinada à necessidade do pensamento reflexivo. 66). revelando sua inoperância (AGAMBEN. A terrível palavra ultrapassa todo limite e. Dits et écrits II.Comunidade. ela desorienta” segundo Blanchot (2011. a poesia se constitui em sua errância essencial como dimensão própria da liberdade materializada na fala. o ilimitado do todo: ela toma a coisa por onde não se a toma. E. Nesta perspectiva o tempo se torna naturalmente desregrado. e Derrida. a arte faz da revolução congênita da linguagem um ponto de resistência em face dos saberes e da mecanização utilitarista da vida. Ao redimir o erro e a aparência. 1987) e a justiça da comunidade. Por que a palavra poética é a transgressão da lei? Porque a poesia cinde as palavras e sua suposta correspondência com as coisas. liberta-se da orientação. Excesso de justiça tal qual expõe Benjamin no ensaio Para uma crítica da violência. até. malgrado o assédio e a imposição do discurso. à ambição de totalidade promulgada e propagada sob a política da identidade. desterritorializando e bloqueando os elementos que condicionam a imposição mítica do direito conforme Derrida (2010). A palavra poética é desinvestida do poder de coerção em favor desta liberdade que a resistência primeira. seu poder de fuga. A poesia instaura outros valores que destituem a restituição das origens e sua dinâmica identitária. . em Força de lei ao fazer uma releitura deste mesmo ensaio benjaminiano. para o olhar.

uma não-relação que supõe a inarticulação e a separação infinita. 2011. a cidade se caracterizava por um encerramento dentro de um espaço murado e denso. p. E. uma série de problemas aos quais era necessário ressituar a cidade numa ordem de circulação. uma parte de noite. de vertente dialética que prospecta a identificação do outro. Em segundo lugar. na verdade. por fim. no qual a função militar nem de longe era a única. e também da ontologia. Inoperância: O homem não pôde desenhar-se como uma configuração na epistémê. uma mediata. 107). Comunidade Cidade como espaço administrativo STP. 17) coloca que entre os séculos XVIII e XIX a cidade se define “por urna especificidade juridica e administrativa que a isolava ou a marcava de urna maneira bastante singular em relação as outras extensões e espaços do território. e uma segunda que. A experiência literária de Blanchot se associa com a fratura exposta por Agamben (2005) e as inter-relações seriam pautadas pelo conteúdo eminentemente diferencial entre os homens. 107 e 122). Há dois tipos de relações unificantes. Reagindo a ambas é que Blanchot pensa uma relação de terceiro tipo. . Foucault (2008a. daquelas pelo menos que subordinam a justiça à verdade” (BLANCHOT. Entre o encerramento espacial e em sua forma jurídica e administrativa e as diferenças sociais. ela se caracterizava por urna heterogeneidade econômica e social muito acentuada em relação ao campo”. p. e inclusive. sem que o pensamento simultaneamente descobrisse. de quase todas as filosofias ocidentais. nas suas margens mas igualmente entrecruzados com sua própria trama. por sua incomunicabilidade. p. ainda sobre a esperança de unificação vê na relação a unidade imediata.A palavra poética “poderia levar-nos à denúncia de todos os sistemas dialéticos. Não-relação (porque não relacionada a um referente qualquer ao qual se submete a fim de totalizar) que não é pensada “nem mesmo como uma distância”. uma espessura aparentemente inerte em que ele está imbricado. p. 2000. ao mesmo tempo em si e fora de si. mas em que do mesmo modo se acha preso (FOUCAULT. mas “antes como uma interrupção” para Blanchot (2011. um impensado que ele contém de ponta a ponta. 450).

Salvo certo número de temas residuais. suas regularidades de acidentes. por seus deslocamentos. a arte de governar não podia ser pensada senão a partir do modelo família. o que vai aparecer nesse momento é a família como elemento no interior da população e como apoio fundamental para governar esta. a família como modelo do governo vai desaparecer. seu número de doentes. no desbloqueio da arte de governar. que podem perfeitamente temas morais e religiosos.Comunidade e estatística Os conhecimentos e instrumentos estatísticos não deixam de ser “um conjunto de princípios doutrinais quanto à maneira de aumentar o poder e a riqueza do Estado” (2008a. A estatística ao possibilitar a quantificação dos fenômenos próprios da população. p. Em outras palavras. (FOUCAULT.138) Assim. de seus saberes e preocupações de manipulação das massas e do povo em prol do soberano e seu fortalecimento. por sua atividade. por seus modos de agir. Em compensação. A família não é mais o modelo da arte de governar. 2008a. [[A noção de produtividade passa a orientar as políticas governamentais. a partir da economia entendida como gestão da família. necessário porém não o mais determinante para a política e a política econômica. é que se ultrapassa a soberania como forma política de governo. mas um elemento privilegiado à medida em que se busca nela as . faz aparecer em sua especificidade irredutível [ao] pequeno âmbito da família. o desenvolvimento de uma ciência do governo e o deslocamento da economia do eixo da família. A estatística mostra igualmente que a população comporta efeitos próprios da sua agregação e que esses fenômenos são irredutíveis aos da família: serão as grandes epidemias.]] A estatística descobre e mostra pouco a pouco que a população tem suas regularidades próprias: seu número de morros. as expansões epidêmicas. a população tem efeitos econômicos específicos. possibilitam a emergência da noção de população e o reordenamento da produção dentro dos preceitos da realidade econômica. A estatística que funciona em proveito da forma soberana de administração monárquica induz sua derrocada. Frente a uma série de processos gerais como a expansão demográfica e a abundância monetária do século XVIII e especialmente o problema da população. até o surgimento da problemática da população. a família aparece como elemento de fundo. 134) somente formulados a partir da organização do grande aparelho administrativo da monarquia. A estatística mostra [também] que. a espiral do trabalho e da riqueza. p. Assim.

140). 2008a) em relação à população. sua saúde” (FOUCAULT. pela medicina (2006. sequer a somatória de um número deles. Conceito . Consciência razão Como nos valemos da loucura para uma crítica à crítica da dissociação. ao consumo e ao comportamento sexual dos indivíduos. “mas melhorar a sorte das populações. assim como aquém da pessoa. e toda uma série ampla de dados demográficos que vão do número de filhos. entende o coletivo como “multiplicidade que se desenvolve para além do indivíduo. Coletivo não é mais um grupo de indivíduos. 20. junto a intensidades pré-verbais. p. A família é instrumentalizada pela estatística.ordens de degeneração. sua duração de vida. derivando de uma lógica dos afetos mais do que de uma lógica de conjuntos bem circunscritos” (1992. aumentar suas riquezas. p. 2008. numa órbita transpessoal. 2008a. hereditariedade. mas sobretudo ao desmanche do sujeito. por sua vez. VER: necessidade Coletivo Guattari em Caosmose. junto ao socius. coletivo aqui é atravessado pelos indivíduos e pelo socius. estatística e população A população é a meta final do governo. que almeja. p. Comunidade. 20). Uma lógica produtiva que não remete a sujeitos ou subjetividades.

cada componente empresta uma rostidade. especificando zonas de vizinhança e limites de indiscernibilidade com os demais. A consistência interna do conceito concerne. a qual se transforma perdendo ou ganhando componentes. Estas zonas e devires de indiscernibilidade constituem a própria consistência. suscita um Acontecimento que nos sobrevoa” (DELEZUE & GUATTARI. Se tomamos Outrem como exemplo. Tal inseparabilidade confere consistência ao conceito à medida em que cada componente apresenta recobrimentos parciais. mais uma vez conferem a ele . denuncia seu esvanecimento naquela forma criticada. o conceito funciona como um acorde. E a crítica a um conceito refere-se sempre ao caráter transitório deste. seu mundo possível se expressa numa rostidade. Outrem como exemplo de conceito e seus componentes Os componentes de um conceito são distintos e heterogêneos.Os conceitos só podem ser avaliados em função dos problemas aos quais ele responde e ao plano o qual ocorrem. condensação e acumulação de seus componentes. Neste âmbito. dele se distinguindo como expressado e expressão contudo. algo passa entre um componente e outro. Quando um conceito se associa a outros conceitos que se encontram no mesmo plano. O rosto é uma quase atualização. ou pelo menos a consistência interna do conceito. Em suma. Ele tem a verdade que advém das suas condições de criação. 36). regimes de trânsito que. Mantendo sua distinção fundamental. Por isso. que ressoa harmônicos de cada componente. mas numa zona na qual os componentes se tornam indiscerníveis. não mais que sugerida ou esboçada no campo perceptivo. “Se um conceito e ‘melhor’ que o precedente. embora nele inseparáveis. há regimes de passagem e comunicação indecidíveis entre um e outro que formam zonas de vizinhança e ressonância na qual não se está mais propriamente na zona de um componente nem em outro. constitui pontes. opera recortes insólitos. e porque ele faz ouvir novas variações e ressonâncias desconhecidas. traços e características que definem o conceito em suas correlações internas e externas. aquilo com que se desenha uma expressão possível de um mundo efetivamente atualizado. é preciso fazer os planos e colocar os problemas para criar os conceitos em relação a nossos problemas. pois. 2008. O rosto permite uma aproximação das palavras. aos pontos de coincidência. devires e história. p.

consistência. por sua vez. um mundo possível. Pois os componentes funcionam. suja ou enlameada –. Se nas relações de contiguidade que se estabelecem num mesmo plano de consistência com os demais conceitos se desenham zonas de vizinhança e limite. . cores e posturas que fazem da espécie científica mero detalhe quase desimportante.. rio. contudo se particularizar ou ser generalizada de acordo com os usos conceituais. cachoeira. torneira ou enxurrada – e se associa – fria. vertical e transversal de maneira processual e jamais demasiadamente discernível. como traços intensivos. a ressignificações e reordenamentos de ordem extensiva.. Um conceito e uma heterogênese. o conceito está em estado de sobrevoo com relação a seus componentes. os trânsitos e as interrelações conceituais constituem a dimensão extensiva do conceito em seu plano de consistência. mas puras e simples variações ordenadas segundo sua vizinhança. pelo modo como ela se apresenta – como ela corre ou permanece. um opus com sua cifra. 28-9). que é menos uma sinestesia que uma sineidesia. O conceito e um incorporal.. lago. – que pode. Esta consistência externa do conceito.) algo de indiscernível. uma ordenação de seus componentes por zonas de vizinhança. quente. portanto. no cerne do conceito há apenas ordenamento de modos intensivos. mas somente de ordenação. Não cessando de percorrê-los segundo uma ordem sem distância. O que significa afirmar que a definição do conceito não atende uma definição determinística mas processual e modal? Ora. com e a partir de seu plano de consistência de sua produção ordena seus limite e junturas. suas conexões e suas dobradiças funcionando em ato e abertas. p. Em sua constituição interna operam variabilidades colocadas em associação horizontal. Os limites e vizinhanças. passa e repassa por eles: é um ritornelo. ou ainda o exemplo que dão Deleuze e Guattari (2008) do pássaro com seus cantos. 2008. um rosto. mar. definida menos por sua fórmula. Elas são processuais. Eles operam como puras singularidades no conceito sob um regime de finitude não especificada – trata-se de uma vida. modulares. (. É ordinal. para averiguar esta distinção basta tomarmos como exemplo a água. e os componentes do conceito não são nem constantes nem variáveis.. é uma intensão presente em todos os traços que o compõem. As relações no conceito não são nem de compreensão nem de extensão. Ele é imediatamente copresente sem nenhuma distância de todos os seus componentes ou variações. que se organiza no. algumas palavras. que pela cor. isto e. aquém de toda ordem geral ou particular. embora se encarne ou se efetue nos corpos (DELEUZE & GUATTARI.

o pensamento operando em velocidade infinita (embora maior ou menor) (DELEUZE & GUATTARI. O conceito é bem ato de pensamento neste sentido. forjada com eidos (forma. Ele faz passar intensidades e não energia. é um sobrevoo sobre seus componentes – como um pássaro que se diz em seu canto e em suas cores agudos e contínuos sopros com mais ou menos volume. 29). dos limites e das pontes. e não uma hierarquização congelada e congelante calcada na distância preestabelecida ou no distanciamento premeditado e preordenado. essência) em vez de aisthesis (percepção. presença e passagem da multiplicidade de componentes justifica o pareamento que Deleuze e Guattari (2008) fazem do conceito com o ritornelo. A constituição do conceito parte de um ordenamento que visa os movimentos internos e externos do conceito (relações e limites entre seus componentes e com outros conceitos no plano). mas determina uma efetuação nos corpos a partir de ordenadas intensivas. O conceito refere-se ao acontecimento. sensação). o conceito se mostra relativo com relação a seus componentes. mais que passível. palavra derivada do grego análoga à sinestesia. uma ressonância de formas em detrimento de uma associação sensorial-perceptiva. O que faz de sua determinação fluida. p. É um acontecimento puro e uma hecceidade. embora sejam os infinitos maiores ou menores segundo a cifra dos componentes. pois o conceito define-se pela inseparabilidade de um número finito de componentes heterogêneos percorridos por um ponto em sobrevoo absoluto. Trata-se de um modo de priorização da forma. 2008. propensa . Esta ressonância entre diferentes formas é própria à formação constitutiva do conceito na heterogeneidade de seus componentes. Os conceitos são "superfícies ou volumes absolutos". a velocidade infinita. que é a forma e consumação anulatória da intensidade na extensão. Por isso também. formas que não tem outro objeto senão a inseparabilidade de variações distintas. no qual ele se encontra ao mesmo tempo presente e em passagem sobre seus componentes. O "sobrevoo" e o estado do conceito ou sua infinitude própria. o conceito é um incorporal que não se confunde com o estado de coisas ou com a localização espaço-temporal no qual encontra efetuação (individual). sobre o que é. Conceito relativo e absoluto Em sua constituição e funcionamento. um verdejar e um vermelhar – e não um discurso sobre a essência. Tal característica de simultânea retomada.Os autores tomam como estratégia de composição a sineidesia (synéidésie no original). O conceito constitui esta espécie de sobrevoo sobre seus componentes.

O discurso se organiza pelas proposições segundo uma independência das variáveis. Por isso. a distensão dos elementos num quadro de ordenamento espaço-temporal e lineal de correspondência que dá margem e condição à própria discursividade. a constelação de um acontecimento por vir”. condições deste estado de coisas. As variáveis extensivas – espaço-temporais. pois atua na e sobre a realidade das coisas embora não seja plena ou devidamente atual. pois ele funda a própria referência em si. é autorreferencial à medida em que se cria pondo-se a si mesmo e a seu objeto de forma imanente.são independentes ao passo . A outra face condiz à seu caráter absoluto em relação ao todo com o qual ele se constitui ontologicamente. fora-dentro.ao remanejamento e aos esquecimentos dos filósofos que os mudam e reinventam ao sabor dos ventos e dos problemas que emergem frente a ele. por sua vez. pedagógica. relativo a um estado de coisas e às condições destas relações extensivas. e infinito no sobrevoo sobre eles em velocidade absoluta. etc. O conceito se constitui ontologicamente como absoluto frente ao todo. 42) afirmarem que “o conceito é o contorno. Seu estatuto pedagógico remete à multiplicidade e à autorreferência que opera a partir de variações intensivas inseparáveis como regime de vizinhança sobre o qual o conceito faz um sobrevoo. que passa ao largo da intensidade e do acontecimento e funciona ao redor de um campo ou de um ponto referencial. face fragmentária. temos uma face relativa do conceito. ele não parte de um campo referencial. esta se volta para sua autoposição no plano real no qual ele opera. Trocando em miúdos. p. Ela condiciona as operações e o trânsito de formas e conteúdos extensivos sempre em relação com um estado de coisas e de corpos (individuais). a proposição propicia o enquadre. útil à transmissão do conceito. Por isso. . embora não se atualize. voltada para seus componentes num plano ideal. embora absoluto com relação ao todo. Finito com relação ao contorno derivado de seus componentes e da relação com eles. Conceito e proposição Enfim temos a proposição (âmbito da ciência e do saber mais formalizado). Por isso. frente à condensação sobre o plano no qual ele ocupa um lugar impondo condições aos problemas que aborda. Sua consistência emerge precisamente deste caráter pedagógico e fragmentário de sua criação ideal embora não abstrata. embora não abstrato. a configuração. assim como à sua criação. possibilitando Deleuze e Guattari (2008. Relativo enquanto fragmentário. contraponto da inseparabilidade das variações própria ao conceito. engendrado da fragmentação na distinção de seus componentes. é real.

se determinam. pois. Não há continuidade ou encaixe perfeitos frente a estas totalidades fragmentarias que são os conceitos. Sob um primeiro aspecto. A vida humana só pode ser tomada por uma razão geométrica (BACHELARD. e que constitui sua consistência. Porém. como problema de razão de cálculo quando se toma o campo incontornavelmente problemático da vida e do sentido como derivado da proposição. 2008. os nomes próprios não são mais que máscaras para outros devires que borbulham já no cerne de cada conceito. e certo que as proposições científicas e seus correlatos não são menos assinadas ou criadas que os conceitos filosóficos (DELEUZE & GUATTARI. . agora vemos claramente. 2005). mas ela permanece exterior à proposição. p.que o conceito atua na inseparabilidade da vibração. O caráter ressonante faz com tenhamos diferentes conceitos que. Cada qual em sua especificidade temos lado a lado os conceitos filosóficos fragmentários (que não são ideias gerais ou abstratas) e as proposições científicas parciais (que não se confundem com juízos). já que este não tem outro objeto senão a inseparabilidade dos componentes pelos quais ele próprio passa e repassa. mas em erigir um acontecimento que acaba por sobrevoar o vivido. toda enunciação é enunciação de posição. 32). que formam muros de pedras secas. as variáveis que os constituem. a enunciação de posição é estritamente imanente ao conceito. não as fazem corresponder ou seguir. não talhadas à perfeição do encaixe que não deixa frestas por onde se entrevê o outro lado do plano de consistência do conceito. Quanto ao outro aspecto. de acordo com certa sensibilia. ao estado de coisas e seus condicionantes. Já Deleuze (2000) propõe e provoca um deslocamento do sentido de verdadeiro e falso da esfera da proposição para o campo do problemático. ou como personagens conceituais intrínsecos que impregnam a um plano de consistência. Ressoam. Funcionam como observadores parciais extrínsecos para as proposições. ocultam quase que ludicamente a efervescência de singularidades e outras derivas no próprio enunciado do conceito ou da proposição. enunciação de criação ou de assinatura. ressoando-as em bloco. definidos cientificamente em concordância com as referências escolhidas. porque tem por objeto um estado de coisas como referente. Ao contrário. frente a problemáticas similares ou valendo-se dos mesmos componentes. O conceito não se refere ao vivido. e por condições as referências que constituem valores de verdade (mesmo se estas condições em si mesmas são interiores ao objeto).

a fim de puxar a fala para si e “pôr no mundo algo incompreensível” (idem. sua eterna fecundidade e retorno. 446). 1978. 2008. mesmo na dilaceração dos membros dispersos de Dioniso” (FEREZ in NIETZSCHE. 1999. reencontra os deuses ausentes. a afirmação do devir e do múltiplo. torna-se responsável dela. & GUATTARI. p. p. de um lado. 1999. o testemunho contra a vida e o empreendimento de vingança que consiste em negar a vida. MP5. 31) Criação e subjetividade: O eterno criar-se e destruir-se (NIETZSCHE. a vontade de aniquilamento” (NIETZSCHE. 397) “A vida mesma. a destruição. § 1066. p. Criação “Toda criação é singular” (DELEUZE. p 40). Friedrich. Trad. . "O eterno retorno". condiciona o tormento.Obras incompletas. mas um processo terapêutico moralizador que guarda enormes semelhanças com os ritos de purificação religiosos pré-modernos. Abril. . assume-lhe o risco e sustentalhe o favor” (BLANCHOT. “Quem sonda o verso escapa ao ser como certeza. o escritor necessita não ter o controle da língua. ver Polack Relacionar com Foucault (2006) Ao corpo ausente do louco não lhe corresponde um processo terapêutico de restituição do corpo que falta. In: Nietzsche . vive na intimidade dessa ausência. p.Corpo em Pankow Criar um corpo. 13) Nela. “a verdadeira oposição é a que contrapõe. ser um estrangeiro em sua própria língua. Rubens Rodrigues Torres Filho. 12). 2011b. de outro. São Paulo. p.

nessa igualdade de suas trilhas e anos. como jogo de forças e ondas de força. que não se consome. abençoando a si próprio como aquilo que eternamente tem de retornar. que não se torna maior.A saúde está sempre às margens com a doença. sem início. um mar de forças tempestuando e ondulando em si próprias. aqui acumulando-se e ao mesmo tempo ali minguando. mas também sem acréscimo. mais frio. se um anel não tem boa vontade consigo mesmo -. ou rendimentos. nada de infinitamente extenso. e não em um espaço que em alguma parte estivesse ‘vazio’. quereis um nome para esse mundo? Uma solução para todos os seus enigmas? Uma luz também para vós. sem alvo. “E sabeis sequer o que é para mim o "mundo"? Devo mostrá-lo avós em meu espelho? Este mundo: uma monstruosidade de força. inalteravelmente grande em seu todo. mas apenas se transmuda. sem vontade. mais selvagem. os mais intrépidos. e depois outra vez voltando da plenitude ao simples. nenhum cansaço -: esse meu mundo dionisíaco do eternamente-criar-a-si-próprio. Pois a saúde é inseparável da dimensão processual do esquizo. O fora é também um indício e uma pista para se pesquisar a imanência. nem menor. esse mundo secreto da dupla volúpia. vós. se na felicidade do círculo não está um alvo. ao mais ardente. os mais da meia-noite? .e nada além disso! O reino das singularidades é o reino dionisíaco da vontade de potência. brônzea grandeza de força. como forma de ligação e comunicação que não passa pela unidade. que torna imprescindível a dissolução do eu. do eternamente-destruir-a-sipróprio. de desperdiçado. como um vir-a-ser que não conhece nenhuma saciedade. esse meu "para além de bem e mal". do mais quieto. os mais escondidos. os mais fortes. nenhum fastio. com descomunais anos de retorno. uma firme. nada de evanescente. mais rígido. eternamente recorrentes.e nada além disso! E também vós próprios sois essa vontade de potência . mas como força determinada posta em um determinado espaço. uma economia sem despesas e perdas. partindo das mais simples às mais múltiplas. sem fim. cercada de ‘nada’ como de seu limite. ao mesmo tempo um e múltiplo. com uma vazante e enchente de suas configurações. do jogo de contradições de volta ao prazer da consonância. mais contraditório consigo mesmo. afirmando ainda a si próprio.Esse mundo é a vontade de potência . O fora seria um extrato comunicacional mais apto à concepção imanente O plano de imanência é ao mesmo tempo o que deve ser pensado e o . eternamente mudando. mas antes como força por toda parte.

O espanto como a paixão. o início da filosofia como seu princípio. que só pode viver de sua própria impossibilidade de criar forma. impele ao amor pelo conhecimento. sua arché. o pathos inerente à filosofia. É a base de todos os planos. não é nada de ‘infinito’” (NIETZSCHE. 439) Criação. Criança e espanto.que não pode ser pensado. e todavia o fora absoluto. desenvolvendose perifericamente. 105). 40): “desmoronamento central. 73) Força: “A medida da força é determinada. o gosto pelo preciosismo mascarando o vazio de essências com a aparência de pseudo-essencialidade. o refúgio na descrição precisa e minuciosa. a fascinação pelas tetéias e por tudo que é tido como objeto frívolo. [em relação à criação. apenas pondo em relevo os traços de expressão num material. de circunstâncias não interiorizáveis”. 1988a. logos de pretensões formalizadoras totalizantes e universalizantes . em função de singularidades não universalizáveis. o exterior tornado intrusao que sufoca e a inversao de um e de outro" (QF?. mas como vinculação aos impulsos vitais (JASPERS. Logo. a não razão expressa] a busca sistemática do irrisório. E o mais íntimo no pensamento. Deleuze e Guattari (2003. porque ele e um dentro mais profundo que todo mundo interior: e a imanencia. certa experiência qualitativa da loucura. Vimos que a desrazão se mantém ainda. A filosofia pode reencontrar seu fundamento mais elementar e seu impulso inicial no espanto que leva à investigação do mundo. p. ao invés da desrazão expressar um pensamento que só poderia ser ilusionista e ilusório. pathos Os três tempos da lei – Alain-Didier Weill da criança como capacidade de espanto. Ele seria o não-pensado no pensamento. Um fora mais longínquo que todo mundo exterior. não submetido à necessidade. p. à conservação ou à imortalidade. 1999. O espanto nos leva à filos-sofia. num puro meio de exterioridade. indiferente ao eventual sentido do que descreve (ROSSET. p. "a intimidade como Fora. p. . Artaud e Kleist. imanente a cada plano pensável que não chega a pensa-lo. 1980).

o mesmo que ressoa na loucura desarrazoada dos poemas Artaud desarticulação da necessidade de fazer corresponder a linguagem ao pensamento ou às próprias regras espaço não-qualificado: oposições binárias –mina sua lógica. e mesmo em suas aparentes vitórias. 35). em sua concordância discordante. pois nunca se repete. 1979. de modulação de sentido para a experiência humana em geral. ABC. na obra da razão. através dela. DELEUZE & GUATTARI. 217). criação: “A loucura é um momento difícil. Criação e Arte inumana A arte não tem nada de humano (DELEUZE.o narrar é uma traição. p. seja de saúde. QF?). Com seu canto ou sua urina. para a razão. seu habitat. a razão se manifesta e triunfa. uma poiesis. mistura profanadora. simbolicamente. advém uma experiência insubordinada da loucura sensível. Pois o plano da vitalidade diz menos a idiossincrasia das funções orgânicas ou (adaptativa. de enlouquecimento e mesmo e sobretudo aquela de produção de saúde que nos vem ao caso. simpática os sons inarticulados Loucura trágica e obra. sensibilia que deixam de ser unicamente funcionais e se tornam traços de expressão. o trânsito entre razão e loucura. porém essencial. tornando possível uma transformação das funções” (DELEUZE & GUATTARI. O manejo com o inorgânico das forças posto em jogo com a arte tem poderes de reverberação sobre o humano. A loucura é. com suas pegadas ou com o eriçar dos pelos eles não apenas demarcam uma relação com o mundo como transformam funções orgânicas. Isto porque “o território implica na emergência de qualidades sensíveis puras. sua força viva e secreta” (FOUCAULT. p. QF?. jamais se reproduz à fidelidade estrita o pathos da loucura trágica renascentista é o pathos do desmoronamento. adequadamente) psíquicas . O animal já recorta um território e faz dele sua casa.

Perante isto. (1972. o entendimento de uma clínica do acontecimento.. QF e CI1.)" "As lembranças são necessárias. Octavio en El arco y la lira." "Kafka.. Esta operaciones de carácter analítico y no se realiza sin violencia [. compreendemos que o real basta e a ele nada falta. assentada no real em sua inevitável singularidade. para que nesse esquecimento.) A escrita automática tendia a suprimir as limitações. Experiência significa. sentiu que escrever é entregar-se ao incessante (. en cambio. é o ponto onde o infinito coincide com lugar nenhum. a expensas de los otros: al pan. mais suscetíveis de se espantar coa vida." "É verdade que muitos criadores parecem mais fracos do que os outros homens.. punha em contato a mão que escreve com algo de original (. jamás atenta contra la ambigüedad del vocablo” Ver: longínquo. “En la prosa la palabra tiende a identificarse con uno de sus posibles significados. renovação do eu nesse contato uma prova. a rejeitar toda mediação.." "(. Criação e palavra poética: vitalismo da escrita PAZ. mas para serem esquecidas. 21). nasça finalmente uma palavra. talvez sem o saber. no silêncio de uma profunda metamorfose. mesmo e sobretudo sob o princípio de incerteza que o governa desde suas mais recônditas entranhas. neste ponto: contato com o ser. pan. y al vino.. menos capazes de viver e. razão e linguagem Blanchot (2011b) em EL “Esse ponto.)" . Ninguém escreve se não produzir a linguagem apropriada para manter ou suscitar o contato com esse ponto... a suspender os intermediários." "O poeta é aquele que ouve uma linguagem sem entendimento.. Escrever é encontrar esse ponto. donde as vemos irredutíveis. pretendemos com a aproximação da produção artística com a intervenção clínica.] El poeta. p. Pois assentados em Rosset (1989a). coloca-nos no infinito. mas que permanece indeterminada. a primeira palavra de um verso. vino. por conseguinte.

inacabada. não o poema." "O poema denomina o sagrado. na inquietação que a furta a toda a apreensão. pelo seu sacrifício. É uma operação muito diferente. esse dom seria o encantamento e a compreensão de um certo gosto." "O poema é a ausência de resposta. 138) Nordhold: o mundo não desaparece na escritura. Há um vitalismo da escrita. O poeta é aquele que. onde reina a profundidade da dissimulação. mantém em sua obra a questão aberta. provém dessa profunda distância da obra em relação a si mesma. tornar-se cúmplice das infinitas variações do devir. mas o vazio.)" "O errante não tem sua pátria na verdade mas no exílio.. morre-se fiel. Mas o poema denomina o sagrado como o inominável. “a secreta paixão liquida." "Pois esse movimento é também encorajado pela própria natureza da obra de arte. Essa chave seria o 'dom'. 136 morte como intensidade e maximização da vida. As regras estão sempre dadas e evidentes. assim como é o deserto. pela qual esta escapa sempre ao que é. dissimulado no véu do canto (. por causa disso. aquém. essa obscuridade elementar que não o deixa conviver com ninguém e. é o assustador.."A música pintura. o que diz em si o indizível. mantém-se de fora. p. mas se torna o outro de todos os mundos. é o sagrado que os homens escutam. p. e de uma só vez diz o verdadeiro e o deixa inexpresso” EL. essa palavra que não pertence nem ao dia nem à noite. envolto. e é. o espaço do exilio. à margem. “o excesso À vista do qual o cheio ainda está em falta” (p. parece definitivamente feita e. mas sempre se pronuncia entre a noite e o dia. não escondidas. . para se apossar da vida e da morte. que é o fora." "Holderlin tinha formulado assim o dever da palavra poética. se aproximar e admitir o pavoroso da vida para se apropriar das potencias indizíveis. a errância. Transbordar não é plenitude. parece. Transbordar um pathos líquido. aquela que não conhece medida”. são mundos em que penetra aquele que possui a chave para eles. Crítica em Kant e em Marx Analisando a arqueologia foucaultiana Deleuze (2014. é extrair as regras às quais obedece tal tipo de enunciado”. 47) considera que “criticar não é extrair um segredo. no entanto.

emocionais. 84). 611). 2000. a autora se detém no problema da imaginação feminina entre os séculos XVI e XVIII. Rethinking Hystory. O que é ambíguo é que se coisifica cada consciência como função do processo social e por outro lado visa a liberação da consciência de mistificações. a pesar de todo. indica que a individualidade é a máscara da função de classe na crítica marxista. a mulher não é engraçada. p. máscaras de carácter del capital” (CRC??. culturais e filosóficos. A crítica kantiana cresce à medida em que sua concepção de empiria é diminuta. Maternal imagination: reconceiving first impressions. não há mulheres-bufas. Seu olhar. Tudo o que ultrapassa o empírico tem que esgotar suas forças de acordo com a natureza. do show business atual. Um rápido exame do mundo dos cômicos profissionais.Sloterdijk – crítica da razão cínica p. Mesmo vestida de homem. num. 243-260. 3. personificaciones de intereses lucrativos. p. “Son humanos sólo en cuanto enmascaramientos individuales de inhumanidad social. p. Numa mirada feminista. que em obra de fôlego sobre a “História do riso e do escárnio”. A juzgar por su ser social. recorre a Eugene Dupréel para dizer que “a feminilidade exclui o cômico”: Não há mulheres-palhaças. ao passo . É consubstancial querer mais do que se pode. Ao superar Kant. 4. M. reduzida à fisicalidade. Femninismo: Georges Minois (2003. siguen siendo. toma corpo uma concepção da crítica coextensiva aos fenômenos reflexivos. lhe dá razão [a Dupréel]. A concepção da imaginação materna como causa da monstruosidade e a percepção da natureza feminina como essencialmente débil física e moralmente a torna mais propensa a conceber em seu seio o irracional. simbólicos. vol. Devir Devir-mulher Margrit SHILDRICK. Versão anti-humanista da Ilustração proletária de Marx se completa com a superação da sociedade de classes. 79 a ilustração kantiana mostra que a garantia e salvaguarda da razão são condicionadas pelo conhecimento empírico.

justamente aquela que perdeu a feminilidade. a disciplina é mecanismo de poder.que o homem vestido de mulher faz rir. o desvale de suas potências políticas de afetação e engendramento. eliminando assim minha subjetividade”. Simone de Beauvoir Devir e pathos Foucault (1979. o riso supre a ausência do charme. A disciplina desarticula e recompõe estrategicamente o corpo. e a mulher ainda mais que o homem. pode fazer rir. “Algumas vezes. fez do dia a noite. na fabricação dos corpo sujeitados (PP 47fr) . No jogo da sedução. irritei-me ao escutar os homens me dizerem: “Você pensa isso porque é mulher”. A disciplina tem como objetivo a conversão da singularidade somática do corpo individual em uma relação de poder pautada na individualização. (VP 140fr) Além de anatomia política. e da noite o dia…” elas são seres de natureza e não de ciência. durante discussões abstratas. A disciplina não é outra coisa que esta eficácia da anatomia política do corpo tornado útil na medida de sua docilidade. p. E eu sabia que a minha única defesa era responder: “Eu o penso porque é verdadeiro”. 367) fala: “o homem moderno. Só a mulher velha. submetendo-o ao paradigma da reprodução social através das normas que adaptam e forjam um corpo apto à ser explorado. por isso são mais afeitas e candidatas ao enlouquecimento – o que explode em histeria e doença dos nervos nas mulheres. Disciplina Terceira parte de Vigiar e punir (1977) coloca a disciplina em relação com as ciências humanas enquanto conjunto de técnicas de individualização assentadas na observação do corpo nos detalhes de sua organização interna visando o aumento de sua força econômica e e a diminuição de sua força política.

estudo da loucura. Disciplina Ciências humanas. 1975. Já na disciplina. da pena e da sex. y además. As disciplinas são forças que atuam de maneira local. ordem Disciplinar NBP 17Jan formas de veridição. Desde o estabelecimento de um padrão ideal de forma e funcionamento até o uso do cálculo geral e da estatística . ao se debruçar sobre cadáveres. y en general. de todo gesto y comportamiento. o poder carcome e forja as individualidades livres. móvel e transitória. soberano e disciplina Na era clássica. es esencialmente un cuerpo. el tiempo. Ahora bien. objetividade Assim como da experiência da loucura surge a possibilidade de uma psicologia de pretensões científicas (FOUCAULT. 1979). soberanas e sujeitadas desde as profundezas do próprio corpo social. es disimétrico en cuanto constituye una relación no recíproca de poder. Neste estudo. uma ciência aparentemente neutra como a fisiologia se revela enquanto tecnologia de normatização do corpo. parte de uma estruturação valorativa que guia a racionalidade clínica por meio de um padrão de objetividade apoiado em dispositivos de mensuração. PP Disciplina. o poder emana radialmente de um ponto superior único encarnado na figura do soberano para lutar contra todo mal que pode assolar a estabilidade desta ordem soberana. el médico. de redução quantitativa e de abstração. se torna possível uma ampla gama de saberes sobre o homem enquanto indivíduo – da medicina às chamadas ciências humanas como aponta Foucault (2011) em O Nascimento da Clínica. este orden disciplinario está atravesado íntegramente por la instancia médica que opera como una fuente de poder a partir de la cual se organiza el control disciplinario exhaustivo del cuerpo. El espacio asilar está marcado por este poder médico que es ilimitado pues nada debe ni puede resistírsele. instancia fundamental del sistema de poder. O acontecimento e a disciplina e a segurança Primeiras aulas de SegTPop Clássica. buscando na morte as senhas segredos do corpo vivo.Disciplina: Poder médico.

ou seja. e não constitutivo. duplo empíricotranscendental. onde tal objetivação não é por si mesma constitutiva. esta. a Física prática é a aplicação da Física teórica. como pôde a loucura. por um lado. pois. mas não de conhecimento. Kant elucida que dentre as representações que constituem uma experiência. A síntese disjuntiva se opõe às sínteses a priori do conhecimento resquícios do hilemorfismo. encontrava sua determinação fora do domínio psicológico. ser reduzida à objetividade por meio de um saber? Esse questionamento norteia a História da Loucura e aparece já nos escritos da década de 1950 9. A objetivação é parte da regulação destes estranhos saberes que colocam o homem. a fim de tornar tal natureza mais harmônica. passível apenas de pensamento. ao retomar a Antropologia. que as especifica no campo científico. da aplicação. diz Kant. 2000). Foucault refletia a impossibilidade da atitude teórica generalizada. se. Foucault sugere que a naturalização científica encontra-se mais a favor do conceito e contra a existência do homem No que concerne aos saberes sobre a loucura. A matéria do empírico é a sensação. mas reguladora. Desse modo.para a determinação do que vem a ser normal. Deleuze diverge terminantemente de Kant e sua formulação de que a experiência só é possível por intermédio de sínteses que derivam a priori do entendimento. Com o empirismo transcendental. as ciências da vida padecem deste padrão de objetividade. Entretanto. o que fica evidente quando vemos sua preocupação em mostrar que existe a matéria da experiência e a forma do entendimento. como parte integrante e conflituosa da natureza humana. para depois exercer a teorização como justificativa a Psicologia formalizou o pensamento sobre parte integrante e conflituosa da natureza humana. como conhecedor e objeto de seu próprio conhecimento (FOUCAULT. pois. A objetivação e a formalização são convertidas automaticamente em conhecimento nas ciências naturais. em um primeiro momento. a Psicologia parte. quase todas derivam da sensibilidade. por outro lado. em razão de tal determinação estar em problemáticas e exigências históricas e sociais. O mesmo não acontece com as ciências humanas. momento no qual Foucault voltava sua atenção à Psicologia. a exigência prática se impõe como primeira à frente das concatenações críticas e da sua própria fundamentação teórica. a sensação quando relacionada à consciência chama-se percepção. regulação e Problema da antropologia de kant: se a natureza humana tem seu aspecto regulador. exceto uma: a do composto . que têm objeto definido e definidor. Disciplina. assim como a Psiquiatria.

“a correlação entre a técnica de segurança e a população. em suma. como na peste. todo um problema que já não é o da exclusão. mas da realidade da população” (STP??. de fazer funcionar. não se trata unicamente de disciplinar. as velhas estruturas da lei e da disciplina. São quatro características dos dispositivos de segurança: espaços de segurança. depois segurança. quais os efeitos. como na lepra. Este saber se orienta pelos efeitos estatísticos sobre a população em geral. que vai ser o problema das epidemias e das campanhas médicas por meio das quais se tentam jugular os fenômenos. 15) . a normalização própria da segurança que não se confunde com a disciplinar. ao mesmo tempo como objeto e sujeito desses mecanismos de segurança. os índices e a amplitude da moralidade. por sinal. A estatística organiza um vasto campo de intervenções sociais que vão da clara ação de controle social (como na exclusão. tanto os epidémicos quanto os endémicos. 14). (STP??. não trata não de impô-la. p. E por fim. é um saber estatístico que se organiza em torno do número de pessoas atingidas. Estatística e segurança STP: Estudando as práticas de inoculação da varíola a partir do século XVIII. tratamento aleatório. A economia geral de poder se torna uma gestão de segurança. além dos mecanismos propriamente de segurança. que já não é o da quarentena.VER: Disciplina. Foucault (STP??) ressalta que embora a disciplina seja convocada como auxílio. A segurança é uma certa maneira de acrescentar. na reclusão e na penalidade) aos mecanismos de controle do destino biológico da população. basta ver o conjunto legislativo. das lesões e sequelas que ela pode gerar. Aqui também. p. isto é. e na especificação de sua ação sobre o corpo coletivo da população naquilo que caracteriza sua situação na população como idade com que acomete. as obrigações disciplinares que os mecanismos de segurança modernos incluem. depois disciplina. Antes. a emergência não apenas da noção. para ver que não há urna sucessão: lei. gerir os riscos e os anormais.

A disciplina tenta submeter a multiplicidade da população. e não algo que. Na verdade. a seguranca só podem lidar com multiplicidades. que é o que lhe confere seu caráter singular. a soberania se exerce nos limites do território. é claro. construiria em seguida urna espécie de edifício de elementos múltiplos. E. a soberania se assenta sobre um território. medicalização. o indivíduo é muito mais uma determinada maneira de recortar a multiplicidade do que a matéria-prima a partir da qual ela é construída. ao saber e à teoria política. que é mais discursiva. e a segurança? VER: contingencial.A segurança é uma reorganização moderna em relação ao funcionamento político. Há multiplicidade na soberania. a partir dos indivíduos trabalhados primeiramente a título individual. seja como multiplicidade de sujeitos. ao mirarmos o problema da multiplicidade. Entretanto. VER: biopoder. de estabelecer seus pontos de implantação. afinal. as trajetórias laterais ou horizontais. para uma disciplina. enquanto a disciplina foca a repartição espacial sob uma ótica temporal (corpos úteis na medida de sua docilidade). seja na de um povo. segurança. as coordenações. a soberania. A disciplina é um modo de individualização das multiplicidades. a disciplina. por assim dizer. Como forma de administrar espacialmente a multiplicidade. de organizá-la. toda disciplina não passa de uma maneira de administrar a multiplicidade. a hierarquia. A um primeiro olhar. como também. as trajetórias verticais e piramidais. Foucault reitera sua crença na historicidade do dizer verdadeiro. Ele é mais geral que a episteme. Portanto. presente na soberania e motor da disciplina. . Com a noção de dispositivo. etc. norma Dispositivo O dispositivo O dispositivo é o objeto de descrição da genealogia na obra de Michel Foucault. a disciplina no corpo individual e a segurança no corpo da população.

ilusão ou ideologia. o que está em jogo é: como ele se constitui? A que estratégia ele objetiva? Ele se mantém. engendra o falso e o verdadeiro. essas regras não se impõem do exterior aos elementos que elas correlacionam. p. etc). ele persevera porque exerce sobredeterminação funcional. acima dos acontecimentos. Em resumo. e se não se modificam com o menor dentre eles. ciência. filosofia. por exemplo a meta-normalidade das pessoas sob as camisas de força químicas. Ela não existe mas está inscrita no real através de práticas específicas e de um regime de verdade. a medicalização não existe. O dispositivo é dado pela sua gênese (isso vc faz qd remonta à origem dos medicamentos e da construção da noção de depressão. O discurso. por isso. O a priori das positividades não é somente o sistema de uma dispersão temporal. estão inseridas no que ligam. arquitetura. que aparece (ou se impõe – e se impõe mais como dispersão que como estrutura. 1986. etc) e ele estabelece o tipo de ligação entre estes elementos. e com eles se transformam em certos limiares decisivos. Assim a questão parece ser: como a medicalização da depressão entra num dispositivo que faz dela a realidade do tratamento dos transtornos psíquicos. curso de 78. Logo no comecinho do Nascimento da biopolítica. de verdades que são fabricadas institucional e socialmente. O a priori não escapa à historicidade: não constitui. uma estrutura intemporal. uma vez instalado. ele próprio é um conjunto transformável (FOUCAULT. Ele tem uma função estratégica. apesar de ser determinado pelo devir da história. nem é. é o que define o regime de veridição. define-se como o conjunto das regras que caracterizam uma prática discursiva: ora. leis.O dispositivo é uma rede de elementos heterogêneos (discursos. administração. os modificam. 145). moral. e em um universo inalterável. pois sua natureza impositiva sobressai à percepção ou compreesnao que possamos dele ter) como a-priori histórico. . se auto engendra. Foucault fala que o dispositivo é resultado do acoplamento de uma série de práticas a um regime de verdade.

Logo. controle e repressão na organização da experiência. exceto . Assim que. Subjetivação é o processo pelo qual o sujeito livre não é entendido pelo viés da soberania. produz efeitos. Vínculo entre as formas de sujeição e o sujeito cerebral. O dispositivo faz do eu um sujeito. são constituídos ao mesmo tempo em que a relação de poder se exerce. O poder (disciplinar. tem sua eficácia e resultados no socius (palavra q Foucault praticamente nunca dirá). ele é algo do mais corriqueiro e partilhado. PP medicalização é um dispositivo VER: medicalização. O sujeito livre é constituído por isso que Foucault chama de processo de subjetivação. e mais ianda o de controle – ver post-scriptum) induz os comportamentos sem tocá-los. Enquanto o discurso age com persuasão. O sujeito é constituído pelo dispositivo e pelo discurso em interação com as reações da sua liberdade individual e eventuais estetizações. contestar um discurso pode ajudar a minar o dispositivo de efetuação de suas verdades no real. Pedras onham britadeiras e pó na mina na fragmentação que objetiva o corpo.Cuidado! Não demonize o poder. cada ser sonha a sua própria objetivação. o dispositivo atua com nós mesmos. Importante: O poder é a relação intrincada na qual sujeito e objeto são coermergentes. antes. Dívida e juízo Na doutrina do juízo. o dispositivo é ativo. sempre utópico. o dispositivo não é uma não malvada que atua de fora.

. longa canção da dívida infinita: AE. que por sua vez remete À finitude e À limitação da experiência de maneira que este sistema se refere a um significante superior. liberdade e determinismo biopsiquico. Em suma.quando objetivado na experiência especular. ou quando se faz amor no belo texto de Foucault (CorpUt) O implexo germinativo remete a um agregado casual em torno do qual a noção de posição e de situação não tem sentido algum (Rosset. desdobradas infinitamente – louco e não-louco. o dinheiro. a abolição das dívidas ou sua transformação contábil inaugura um interminável serviço de Estado interminável. O credor infinito. 262 VER: moral. a circulação do dinheiro. que subordina a si todas as alianças primitivas (problema da dívida). é o meio de tornar a dívida infinita. autonomia arrebatamento das forças do involuntário. responsável e perigoso. homem superior Dois regimes de loucos: poder e dispersão das parcialidades (fragmentar) Poder paranoico. LP).. Cada signo encontra duplicação. o crédito infinito substituiu os blocos de dívida móveis e finitos. ao passo que o devedor não para de pagar. mas emprestar é uma faculdade: como na canção de Lewis Carroll. na morte. dívida da existência dos próprios sujeitos. Eis o que os dois atos do Estado escondem: a residência ou territorialidade do Estado inaugura o grande movimento de desterritorialização que subordina todas as filiações primitivas à máquina despótica (problema agrário). despótico. doente e saudável. imperial: um signo remete a outro signo e este a outros num sistema infinito de irradiação e circularidade que cresce (como um. Há sempre um monoteísmo no horizonte do despotismo: a dívida devém dívida de existência. porque pagar é um dever. p. a doença mental se liga À própria noção de homem. Vem o tempo em que o credor nada emprestou ainda. Esta análise é sensível Às análises estruturalistas já que articulam um sistema biunívoco de binaridades.nome animal que cresce sem fim??) sem parar. .

Mas o célebre fragmento 206 do Athenäum enuncia que o fragmento “tem de ser (. fixação do significado. Fragmental Nancy Lacoue labarthe o fragmento funciona simultaneamente como resto de individualidade e como individualidade – o que explica também que ele não seja nunca definido. Ao invés de passar a uma outra linha. Mais na periferia dos sistema. O segundo dos dois regimes de loucos descrito por Deleuze (1974/2007) constitui uma espécie de rede lineal no qual um signo não remete a outros signos. Schlegel anota “os aforismas são fragmentos coerentes”. Quando F. ou que estas aproximações de definição possam ser contraditórias. Na verdade. se submete ao significante e se segue a interpretação. pouco importa se batizamos um regime de signos com um nome clínico ou histórico. loucos e outsiders. porém a alternativa é seguir o vetor louco. mas a um sujeito. como o regime paranoico que remte incessantemente um signo a outros. onde se torna o louco perigoso) embora seus signos não se apresentem senão de maneira muito sutil. o significado devolve a significação” fazendo com que o círculo se amplie cada vez mais.15 ele indica que uma propriedade do fragmento é a falta de unidade e de completude.. neste regime passional as linhas são seguidas até o fim. é um delírio de ação mais que de ideias”. Esse é o delírio passional. de modo que “o delírio se constrói de maneira focalizada. O filósofo francês atribui o fracasso da psiquiatria ao entrecruzamento destes dois regimes de loucos: o paranoico. cuja loucura se manifesta inequivocamente em acessos bruscos e excessivos da ação (como no assassinato. apresenta os signos da loucura sendo passível de ser internado e o passional.Etc. linhas de fuga.. onde a identidade fundamental se perde entre a fumaça do vivido e a brisa de promessa do vivível. marginais. que embora tenha o raciocínio coerente.) acabado em si mesmo como um porcoespinho” . a tangente de desterritorialização que nomadiza o sistema a partri das linahs defuga. Sempre há lugares onde os regimes totalitários e suas binaridades se desfazem. Que fecha o sujeito sobre o sujeito. interpretação “ao chegar a seu limite. seguindo parcialidades assignificantes.

nas gavetas: de repente encontro ali partes de mim: risos. *Ferreira Gullar . em seu olfato. vértebras. Ah. a chamar-me. em seu corpo. onde durmo feito aroma ou voz que também não fala. Estou disperso nos vivos. se o que está fora está dentro como num círculo cuja periferia é o centro? Estou disperso nas coisas. onde acabo. nas pessoas. que sou eu mesmo. esta sala. Extraviei-me no tempo. Estou desfeito nas nuvens: vejo do alto a cidade e em cada esquina um menino.Onde começo. ser somente o presente: esta manhã. Onde estarão meus pedaços? Muito se foi com os amigos que já não ouvem nem falam.

. como a voz do silêncio. ora a prega da finitude que dá uma curvatura ao lado de fora e constitui o lado de dentro” (DELEUZE. num acontecimento que é simultaneamente sentido. ora reduzido à consciência. do fatídico vivido nos fatos e das coisas em si mesmas. apenas uma das semióticas que Guattari (1992) enxerga como produtoras de realidade e de subjetividades. este pode se inscrever em um processo mais amplo. Em A concepção de diferença em Bergson.Empirismo transcendental Além da alçada factual. do entre no qual toda vida se constitui. entretanto. Por isso. quando expresso pela linguagem ou em normatividades vitais. como um “exterior do interior”. Porém. 104) Podemos considerar a teoria deleuzeana do sentido como filosofia anarcôntica. propomos e nos valemos do empirismo transcendental como instrumento teórico para trabalhar com a experiência intervalar do vazio. devido à consciência deste vazio é que a obra foucaultiana e a deleuzeana são repletas de imagens e evocações a esta espécie de vazio interior. O sentido se dá no mundo sem doação de instância transcendente qualquer. Deleuze (1956/ID??) indica nele um empirismo superior apoiado na construção de conceitos móveis para acompanhar o fluxo da duração. ora à linguagem. Afinal. p. sem esse deserto. encontramos uma constante redução do sentido. Uma vez que o sentido do mundo não está nem é doado pelo homem. “Ora é a dobra do infinito. Seu ponto de partida são as singularidades. fatos – os possíveis. Pois não há vida que se constitua sem esse hiato. todo sentido. assim como a linguagem é uma das suas dimensões. os imagináveis e os reais – não são mais que uma dimensão do problemático. 2005. que é a própria vida. uma vez que ela escapa à busca de fundamentos capazes de explicar o mundo e seus sentidos. onde Deleuze o relacionava ao uso discordante das faculdades em Kant ou propriamente à gênese das faculdades. empírica ou transcendentalmente. coisas. A vida não consiste em outra coisa que neste meio que é a imanência. como um “dentro do fora”. sem essa aridez que nos separa e possibilita. o campo transcendental apresenta problemas de ordem distinta daqueles que caracterizam as coisas e os fatos. empirismo transcendental já tinha aparecido em Diferença e Repetição. que não se confundem com os indivíduos.

elucida. aunque opuestas. Evidencia que o pensamento clássico é metafísico. Sobre ese suelo. a fratura na ordem taxonômica clássica que acaba por evidenciar a alteridade. Kant é chamado aí. respecto al cual Foucault pretende hacer su historia desde el Renacimiento a la modernidad. existe una estructura o episteme que explica el hecho de que las mismas se produzcan. o outro deste sistema. seu fora. O empirismo transcendental abre para a zona intervalar de novidade e indeterminação entre percepção e ação no campo das imagens prévias. así como su eventual transformación. à medida que não pergunta por seus limites e anuncia. onde surge a duração e as multiplicidades. Uma metafisica do homem. pois ele testa. tal qual Bergson (???) traz em Matéria e memória. pois o condicionamento é sempre transcendente ao condicionado. Se trataría de un a priori. Antes de las palabras. uma nova metafisica. comparten una raíz común en cuanto a aquellas condiciones que determinan su discursividad. de las prácticas y de las ideas. (2000) Questionamento que escancara. el suelo de positividad en que se asientan los códigos fundamentales de una cultura. não existiria mais uma relação de condicionante para condicionado (o empirismo superior pensa a experiência real e não apenas às condições da experiência possível!). Para testar e averiguar a legitimidade da representação. así como las teorías científicas y filosóficas que pretenden explicar tales códigos. assentada na pergunta “que é o homem?” Enunciado O enunciado não é uma estrutura que coloca elementos variáveis em relação. condicionante transcendental. p. longe do condicionado. luchan ideas e interpretaciones que. assim. Em Empirismo e subjetividade o sujeito se constitui na experiência.Neste empirismo. en lo que Foucault también denominará “experiencia desnuda del orden” [Foucault (1968). mas uma função de existência que assinala um conjunto de signos que “‘fazem sentido’ ou . Episteme episteme aquello que posibilita los conocimientos y las teorías. 6]. com sua filosofia crítica as condições de validade da representação clássica dos séculos XVII e XVIII.

DREYFUS & RABINOW. Quando vistos do interior de uma formação discursiva. isolado e objetivado. porém somente na medida em que são eles. no cerne de um discurso de uma episteme. 1986. a função enunciativa. Destacamos a exterioridade das formas e regras de apreensão pois elas marcam a especificidade e a radicalidade da análise foucaultiana. pela análise ou pela intuição. entretanto e paradoxalmente. e a partir da qual se pode decidir. o arqueólogo pode simplesmente estudar. afetam e influem diretamente sobre as práticas desde onde se formam as funções enunciativas que fundam enunciados e objetos dos saberes. cada saber. 1995. . cada domínio. 1986. 98). Cada discurso. “Foucault considera o caráter puramente linguístico do sujeito e afirma a autonomia do campo de estabilidade e do campo de uso.não” a partir de regras externas de sucessão e justaposição (FOUCAULT. exclusivamente. sem entrar no sistema de crença e objetividade de tal ou qual episteme. O enunciado é uma função de existência que pertence. segundo que regra se sucedem ou se justapõem. 1995). Somente quando têm como horizonte as práticas que lhes conferem a própria realidade de seus objetos é que os enunciados são levados a sério. em seguida. se eles "fazem sentido" ou não. que escapa à análise interna aos objetos assim como da análise hermenêutica e da consciência (via sujeito transcendental) (cf. O que confere seriedade aos atos discursivos tornando-os enunciados é seu lugar na rede de outros atos discursivos” DREYFUS & RABINOW. do exterior. Sem recurso algum à interioridade do sujeito ou do objeto em sua análise. 65). acessar seus atos discursivos sérios. advém frente e confrontados com um fundamento feito de práticas discursivas e não discursivas. e que espécie de ato se encontra realizado por sua formulação (oral ou escrita) (FOUCAULT. Ele pode. Exatamente porque os atos discursivos sérios formam um sistema. 98). os enunciados parecem sérios – o exemplo é o da cura de histeria com série de banhos em O nascimento da clínica -. tem sua ordem propriamente autônoma. aos signos. p. do exterior. p. enfim. de que são signos. os enunciados são colocados em análise numa exterioridade que os torna um domínio autônomo das formas de efetivação que. p. os enunciados. Os atos discursivos só podem ser realmente considerados (em termos de seriedade sentido) mediante a rede de ato cujas condições de realidade e veridição – o que faz com que se considere que algo exista e seja verdadeiro – estejam dadas.

60). não é sgd. em Deleuze Direito penal = campo de dizibilidade. com sua paixão (cf. práticas não-discursivas de visibilidades”. 59). “Há apenas práticas. Por isso também o visível é determinado. Qualquer um que convive com loucos tem claro que a experiência com a loucura transcende o que se diz à nível científico. 59) é entretanto irredutível aos enunciados. “O saber é um agenciamento prático. um ‘dispositivo’ de enunciados e visibilidades” (p. É preciso pois. “O enunciado só tem primado porque o visível tem suas próprias leis e autonomia que o põe em relação com o dominante” (p. um estado de coisas. O enunciado se parece mais com uma composição musical que com a dinâmica do significante. O mesmo deve ser feito com o conteúdo que. com seu pathos. ela é uma combinação do visível ao enunciável em cada estrato. judicial ou de senso comum a seu respeito. Porém não existe loucura antes do saber. o que configura o panoptismo Em AS o primado é do enunciado e o não-discursivo aparece de maneira complementar. O enunciado é uma função que cruza uma variedade de elementos combinando-os num estrato. só se faz valer à medida em que se exerce sobre este irredutível. assim como o enunciado não é sgt. ou positividades. O que fez foucualt romper com o subtítulo de AS. 2005. isto é. embora não redutível ou menor que o discursivo. o que faz da Delinquência = enunciados Prisão = local de visibilidade. arqueologia do olhar. DEL. A visibilidade. O conteúdo não é um referente. O primado do enunciável só é valido. especificado (ver grade) sem ser redutível ao enunciado.Enunciado e visibilidades. rachar as proposições – como fazia Roussel com seus procedimentos – para analisar. constitutivas do saber: práticas discursivas de enunciados. Numa imagem estratificada acerca da loucura. com o primado enunciável com o qual ele pode então romper. p. função sujeito. .

As visibilidades são as formas objetivadas. Final “Q é um autor?” [Blanchot. É a fenomenologia. e não formas naturais essências previamente existentes na realidade. uma cumplicidade primeira do mundo que abre a possibilidade de falar dele tomando o visível. Manet – Foucault A luz é uma forma (de exterioridade). Cézanne quebra a fruteira e os cubistas a recolam. Tampouco são algo obscuro cuja verdade se revela quando banhada com a luz do saber. começo “OD”. Não há entretanto. Os objetos são formas de luminosidade. AS analisa a função-sujeito como lugar que varia segundo o tipo do enunciado. B – o sgt como direção ou organização interna da linguagem. Não obstante. Abrir as frases e os objetos é a dupla tarefa da arqueologia. ver influencia Blanchot nessa concepção no curso deleueze 2014 F1] . Não coisa em si pois a coisa é inseparável das formas com as quais ela acaba sendo apreendida em cada situação. engendra suas próprias formas e movimentos. Sujeito do enunciado: ASfr 121-126 Grande murmúrio. este é “um conjunto de variáveis do enunciado” (p. A esta ele sempre opõe o on. os discursos. a terceira pessoa impessoal. a este opõe os enunciados como direcionamento já dado “exteriormente”. a análise foucaultiana da linguagem esquiva da ideia de um começo da linguagem em três tempos. um zumbido anônimo primordial do qual se formam os sujeitos. o conteúdo como base do discurso. Logo. São modos de resplandecer que se relacionam com outras luminosidades e respondem (passiva ou resistentemente) aos atravessamentos dos saberes. primeiro é um “diz-se”. 64). ele se opõe a três tipos de organização da linguagem: A – como começo pela pessoa. um sujeito que antecede o enunciado. mesmo que seja uma pessoa linguística. instauradas por processos de objetivação. C – experiência originária.

Nunca exatamente ocultos. entretanto. A descrição dos enunciados se dirige. Retomando uma correspondência de Magritte ao pensador da arqueologia. Daí um paradoxo: ela não tenta contornar as performances verbais para descobrir. O a priori dos enunciados é histórico. ou sob sua superfície aparente. Deleuze (2005) precisa que as visibilidades não são definidas estritamente pela visão. segundo uma dimensão de certa forma vertical. “a linguagem é dada por inteiro ou não é dada” (p. o enunciado não é imediatamente visível. um elemento oculto. e. Só há uma inscrição. Se não há nada para se ver atrás da cortina. um sentido secreto que nelas se esconde. ou que através delas aparece sem dizê-lo. Deleuze (F??) sugere que nos atentemos ao pedestal e à própria cortina em nossas análises. Pois o que pode ser descrito visualmente já é uma imagem capturada no pensamento. seus condicionantes. às condições de existência dos diferentes conjuntos significantes. mas como complexos multissensoriais que implicam pathos (de paixões) e ação. os enunciados muitas vezes não são legíveis ou dizíveis. os enunciados só se tornam dizíveis ou legíveis em conjugação com aquilo que os condiciona e determina inscrevendo-o na ordem do mundo. atrás delas. não se apresenta de forma tão manifesta quanto uma estrutura gramatical . Pois não há uma inscrição oculta e outra aparente. Ambos são a prioris indivisíveis que trazem as formas da visibilidade e do enunciado à percepção e à audição como o tangível traz outro nível de visão ao visível. 65) e sua condição é sua produção impessoal. O ser de luz torna as visibilidades perceptíveis e o ser de linguagem torna os enunciados inteligíveis e audíveis. A experiência vem em bloco. o enunciado aparece mais próximo a um arranjo a um trecho musical que à ordem do significante. acima. Ao contrário. E ela abarca o enunciado junto ao pedestal e à cortina. Por isso. o que Foucault (2000) chama “ser da linguagem” e que é irredutível à quaisquer formas ou direções tomadas pelo discurso.

não designa um estado de coisas ou uma visibilidade como nos faz crer a lógica tradicional. não se trata de aleatoriedade entre visível e dizível. 144). p. essa forma de positividade (e as condições de exercício da função enunciativa) define um campo em que. Ou. continuidades temáticas. 1986. e por mais que se faça ver o que é dito por imagens. p. mais exatamente. metáforas e . no qual todo o que pode fazer é ser visto e ser falado. como visão muda e fala cega. Não há correlação de encadeamento entre visível e enunciável. O enunciado tem seu objeto particular. podem ser desenvolvidos identidades formais.ou lógica (mesmo se esta não estiver inteiramente clara. “O texto [de Pierre R] não relata o gesto. esta não-relação? P. eventualmente. a positividade desempenha o papel do que se poderia chamar um a priori histórico (FOUCAULT. não visível e não oculto. “O arquivo. mas de um a outro há toda uma trama de relações” 266fr. Todos os objetos do saber comunicam pela forma de positividade de seus discursos. 123-4). 74 O limite que as separa. jogos polêmicos. embora o que é visto não caiba no dito. O enunciado é. O primado do enunciado pode ser resumido em: se diz o que se vê. mas um reencadeamento sobre a ruptura irracional ou o interstício entre ambos para formar um estrato cujo cerne não deixa de ser uma fissura incomunicável entre ambos. translações de conceitos. as liga por outro lado. O que faz este reencadeamento. Tampouco o visível é um sentido mudo. mesmo se for muito difícil de elucidar). Por isso há de abrir o aparente bloco gregário das palavras e das coisas para lançar a visão e a audição aos a priori. exprimível na linguagem como quer a fenomenologia. Assim. por definição. já que caracteriza as modalidades de existência próprias de um conjunto de signos efetivamente produzidos (FOUCAULT. ao mesmo tempo. 1986. 74). Não oculto. Não há correspondência ou conformidade entre visível e enunciável. o audiovisual é disjuntivo” (p. mas uma disjunção primordial que faz com que um não se aloje no outro.).

75). mesmo que não seguindo as mesmas regras. (. homologia ou um comum dado de antemão entre ambos.) Ainda mais. 25fr).comparações. 48. o visível é definido negativamente como não-discursivo nas muitas relações estabelecidas entre ambas as formas. o torna determinante enquanto a receptividade da luz é o determinável. Não há isomorfismo. condição do enunciado. .. 2005. “é que as duas formas heterogêneas comportam uma condição e um condicionado. É. mas o ordenamento. É entre o enunciado e sua condição que as visibilidades se insinuam como em Roussel. nos parece que a multiplicação e inflação dos discursos sobre a doença mental tem como efeito a sobrecodificação. existem mútuos atravessamentos como em coisas adversárias. há “duas formas que se insinuam uma na outra. são os enunciados e as visibilidades que se atracam diretamente como lutadores. p. Em AS. que não abre as palavras sem fazer surgir o visível (e também não abre as coisas sem fazer surgir o enunciado). Entre palavras e coisas. a sobredeterminação e a redução da loucura. Daí Foucault (RR??. Embora de naturezas distintas. capítulo 7) assinalar na obra de Roussel a multiplicação dos enunciados como exercício de determinação infinita sobre o visível. 147) é o que constitui cada estrato. Como sobredeterminação. p. batalhas de solapamento e destruição (INPipe?? 30. ela o dá num espaço de disseminação. p. a linguagem e os enunciados. e se dá a si mesma como uma forma de exterioridade. Se transformam ao mesmo tempo. a determinação vem do enunciado. De maneira análoga. (DELEUZE. mas a condição não “contém” o condicionado. como numa batalha” (p. como entre os dois cachimbos de Magritte. a luz e as visibilidades. O enunciados são determinantes porque fazem ver o louco como doente mental muito embora a figura que ela faz ver não corresponda à figura forjada em seus enunciados. tais imagens não resplandecem num descortinar dos olhos mas na organização sintática que as definem (2000. se combatem e se capturam. consistindo a cada vez a verdade”. entre o visível e sua condição que os enunciados se infiltram um no outro. a maneira como engendramos o olhar sobre aquilo que vemos. muito embora não se fala do que se vê e não se veja o que se fala.. 75) “falar e dar a ver no mesmo movimento” (RR??. então. 50 em duas espécies de texto). A espontaneidade da linguagem. O que define o que é visto não é a revelação visual.

sob o primado do enunciado. em oposição ao caráter "natural" da substância fônica e como mero instrumento de fixação. imagem e representação espacial da temporização* da fala. capturas e pressuposição recíproca. Ela permite a articulação da fala e da escrita no sentido corrente. p. audível ou visível. O que faz do enfrentamento um “não-lugar”. Como em Klee (FOUCAULT. 156fr). O fora de si Fedro de Platão. INPipe??. différancé*. pois obviamente as formas não pertencem ao mesmo espaço (NGH??. A oposição dentro/fora é tomada pela metafísica como matriz de uma cadeia de oposições que comanda os conceitos de fala e de escritura e que pressupõe a laia — dentro/ inteligível /essência/verdadeiro —e a escritura como fora/sensível/aparência/falso. constitui a origem da Filosofia como episteme. grama. Escritura Antes de ser uma derivação.. a escritura — traço. O rebaixamento da escritura como traço. différance. grama — não depende de nenhuma plenitude sensível. expressão do logos como origem* da verdade — afirmou um conceito de escritura como técnica artificial. da fala cuja "essência" é interna.Assim ambas são heterogêneas (são formas diferentes). O combate entre as duas formas implica numa “distância” para lançarem suas flechas e suas ameaças. 40fr) os signos da escritura e as figuras combinam numa dimensão outra que a de suas respectivas formas. no espaço exterior. Não-relação. onde se afirma que o conhecimento filosófico . com distintas naturezas que operam em combates. "originária" e reveladora de uma consciência plena. O centramento na phoné (fala) — considerada como linguagem natural. Tal terceira dimensão informe dá conta de ambas as faces da estratificação e salvaguarda o primado do enunciável. p. fonica ou gráfica.

não . Laço entre escrita e o fora Blanchot (VV. não-presença e técnica de persuasão a serviço dos sofistas. filho bastardo. Considerada por Sócrates como significante secundário e exterior. différance. différance. suplemento*. de fora de um algo condensando-se em tal ou qual coisa. um rébus. brisura (brisure). apóia-se em Freud. uam escrita sem vínculo.| Nesse ponto. como arrombamento (effraction). "significante de significante". articulação. A exterioridade do significante em relação ao significado ou ao significante fônico é a condição da exterioridade da escritura. a escritura. ‘Não é um simples cansaço. como escritura não-fonética1. que mantém com esta "uma relação de proximidade essencial e imediata". 77) assinala que “assim como a escrita se lê sob a forma de algo. o exterior [o fora] tampouco se lê como uma escrita. JDêTrida afirma a escritura não-fonética como possibilidade da língiia^ o^adyento da escritura é o advento do jogo* na linguagem". Derrida tenta demonstrar que não existe signo lingüístico anterior à escritura. a escritura é deslocada pela fala.só pode efetuar-sê através da phoné e da presença* viva dó ser no presente de seu discurso. grama. não para designa-la. irrupção do fora no dentro. A escritura é configurada numa cadeia de substituições: arquitraço. p. que fala do inconsciente como um hieróglifo. mas para inscrever-se ali no movimento de ondas das palavras itinerantes. . Jamais através da escritura (pharmakon). traço. "símbolo do estado de alma". sempre já fora de si mesma: Grama” Esgotado “O esgotado é muito mais que o cansado. reserva.

’ O cansado não dispõe mais do que qualquer possibilidade (subjetiva) – não pode. projetos e preferências: calça sapatos para sair e chinelos para ficar em casa. portas e abrem as relações. mas o esgotado não pode mais possibilitar. ações. As emoções. x Marselle. Recomeçar. sem tomar café. Mas esta permanece. apesar da subida. O possivel só se realiza no derivado. por exemplo. mas o faz preparando-o para uma realização. novos fontes de subpartituras.estou simplesmente cansado. é em função de certos objetivos. a proposta era retormar o começo.” Lembro do Grotovski me sussurrando alguma coisa sobre exaustão… Nesta hora me ecoa o David novamente. enquanto que se está esgotado antes de nascer. Me emocionei várias vezes com a sincronia-sintonia que encontrei com David. à qual o dia só serve como ocasião. Segue. pois ele espera saber o que pretendo fazer do dia: vou sair porque é dia… A linguagem enuncia o possível. o impossível… Hoje teríamos um ensaio do Devir. Rolamentos. Deleze continua: “Deus é o originário ou o conjunto de toda possibilidade. sem dúvida. Eu estava com energia suficiente para caminhar a distância entre B. Hoje encontrei mais um aliado interessante que com certeza irei investigar no meu caminho. Quando falo. O cansado não pode mais realizar. ele é até mesmo criado à medida que é realizado. Por que foi possível. porque nunca se realiza todo o possível. CNPJ! As emoções são chaves. texto. falando da energia. O trabalho de permitir os encontros foram em bolinhas. O cansado apenas esgotou a realização. que mais me poderiam pedir” Bem. realizar a mínima possibilidade (objetiva). no cansaço. Sim. Elas podem gerar associações! Salve Jorge. pegando o caminho “indireto”. muito bem. antes de se realizar ou de realizar qualquer coisa (renunciei antes de nascer). quando digo. Mesmo de última hora conseguimos organizar um trabalho bacana. arrastado. portanto. E nós tornamos isso possível. paradas de mão. Deus que me livre! Falando nisso. bolas e bolões. Eu não podia parar. emoções. posso utilizar o dia para ficar em casa.M. ou posso ficar em casa graças a um outro possível (é noite) (…) não diz o que é. buscar novas ações. mas chegando e não perdendo tempo. não é porque seja dia… [mas] porque tenho alguma coisa para realizar. ‘Peçam-me o impossível. o homem: “Quando se realiza um possível. e alguém lhe responde no campo: é possível. o interlocutor responde: ‘é possível…’. pretexto ou argumento” E que pretexto para acordar bem cedo!! Nos dipormos. diz o que pode ser… Você diz que está trovejando. enquanto o esgotado esgota todo o possível. . E. pode ser… Quando digo que é dia. Foi lindo e eu tive uma amiga que se emocionou e morreu. As emoções sim podem gerar ações. Mas esta energia chegou caminhando até aqui e fui pego de surpresa! O que deixou tudo muito mais emocionante. Elas abrem caminhos. nos foi pedido muita coisa nestes dois dias. relações. Recomeçar o improviso. ‘é dia’.

dia do renascimento desses alguns atores. Regressar à raiz é reinvertar-se pois somente na raiz que podemos viver o re-nascer. O exaustivo e o exasuto. ora com outros. afirmando. O encontro entre tempos. não somos capazer de dizer o que já somos o que está por vir. segurar e correr. Hoje não só rompemos a plascenta. nós nos renovamos. preferência. do velho-novo conhecimento. nos ressignificamos. finalidade ou significação. (…) A combinatória é a arte ou a ciência de esgotar o possível. Da raiz. falar. O que conta para ele é em que ordem fazer o que deve e segundo quais combinações fazer duas coisas ao mesmo tempo. virar. Nascer sempre é um processo doloroso. pois renunciou a toda necessidade. confunde-se com Nada. se É. do qual cada coisa é uma modificação. Então eu sigo citando o Deleuze pois me faltam melhores termos para dizer o que realmente gostaria: “A disjunção torna-se inlcusa. quando isso se rompe. arrastar. sendo que você cresceu muito mais do que aquela película pode aguentar e de repente. mas registramos em cartório. Esse é a meta de nosso devir imperceptível. só por fazer. Mudamos nossos sentidos. Isso dói. não nos definimos. E chora-se pela dor e delícia de reconhecermos que agora Somos. Me dizendo. (…) A combinatória esgota seu objetivo. levantar. bastante escrupuloso. renasce também o nosso registro oficial. Cansar-me do esgotamento. por disjunções inclusas. mas porque seu sujeito está esgotado. cair. No momento em que se Nasce.Encontros bolinhas que se deram entre os seres e sua própria condição de ser. Ele é forçado a subistituir os projetos por tabelas e programas sem sentido. O encontro bolão é o tempo que foi e voltou. você é obrigado colocar ar nos pulmões que antes estavam encharcados. quando ainda necessário. ‘Simples brincadeiras do tempo com o espaço. Esgotar-me ao cansaço. engatinhar. . [não foi isso que fizemos no exercício prático?] Mas apenas o esgotado pode esgotar todo o possível. Para todos os efeitos.resurreição. Meu sono está por vir. ora com uns brinquedos. chorar. hoje. o tempo que vai se desencontrar. Não nos vemos. Exaurir as possibilidades e reconhecer-me no percurso do devir involutivo. e Deus. ouvir ondas sonoras sem a reverberação líquida. Renascer. Essa combinatória de elementos que formam a dor de ser ator ser incluída no rol das dores mais prezerosas do ser. O nosso trabalho nos faz devir animal capaz de planejarmos o caminho e esgotar os cálculos. caminhar. tudo se divide – mas em si mesmo -.” Meus músculos estão exaustos. Buscamos nosso estado itinerante de nos pertencermos. O encontro bola destes seres artistas desta geração que aprendeu muito com a geração que roeu o osso para chegarmos mordendo uma carninha. Pela primeira vez ver a luz. o tempo de viver o agora entre a descoberta do Eu e o Outro. Apenas o esgotado é bastante desinteressado. o re-surgir . o conjunto do possível. Um real sonho de pertencer á uma companhia teatral de fato. Agora eu sinto mais uma porta aberta para um devir intenso. Imagina você ter ficado tanto tempo dentro de uma “atmosfera” líquida. (salve dan!). que é esse é o meu ofício. batizamos e matriculamos na escola. selados.

Mais um verbo.3) O pensamento reflexivo que busca totalidades em unidades e na sua busca forja objetos completos. To be or not to be? Estar ou não Estar? Star or não Star? Ser ou não Ser? Mais uma questão. (AE. potencia da vida: O esquizo está presente e ausente simultaneamente.3) IV. intensidades e passagens. Sem dúvida. nos limites da reprodução edipiana. global e específico das sínteses conectivas. Ou ainda quando o processo é forçado a tomar-se por meta. Afinal precisamos sempre buscar melhores questões… não é verdade? Onde que é vai dá? Esquizo Há uma experiência esquizofrênica. fechando-se sobre si próprio até fazer calar as máquinas da produção desterritorializada do desejo sobre a forma catatônica desterritorializada. II. formadas respectivamente por projeção e interiorização de tais movimentos páticos. Ambos são metabolizações secundárias da dimensão pática dos devires. imagens globais e um Eu específico.3. Conversão operada pelo uso transcendente. (AE. formação de territórios artificiais sob o qual os contrainvestimentos sociais que produzem o esquizofrênico são alocados sob o modo producente da perversão. são conversões realizadas com a injeção de um transcendental psicológico e reflexivo do pensamento. Na continuação do processo no vazio.9 – a esquizofrenia é processo. Pélbart: Poder sobre a vida. ele . I. Devires e passagens são gradações de força que atravessam as formas sujeito. da intensidade em estado puro.3. e se desdobra enquanto patologia perante uma parada forçada do processo. sem figura nem forma. na qual o limite da produção é deslocada para caber na neurotização. não formações imanentes ao inconsciente e ao campo social enquanto prática e inscrição do produto na produção.5. Um pathos que confere à alucinação a expressão de um objeto e ao delírio seu conteúdo. todas estas formações existem.

Há de transformá-lo em procedimento literário. Wolfson parece habitar ainda a profundidade da língua materna. da família. corrói o próprio campo e assim resiste às injunções dominantes. de liberação dos fluxos. O nômade. pois.. da cidade. sempre está dentro e fora. Ele ocupa um território mas ao mesmo tempo o desmancha. Crises e estases psicóticas. 217). Esquizo e procedimento O procedimento linguístico de Wolfson permanece um protocolo. da economia. profunda: por um lado. A escrita do caosmótica dando margem a um princípio de crueldade. por isso ele desliza. não aceita a dialética da oposição. escorrega. Entre vida e saber. A figura conceitual do esquizo trata do elogio dos processos de descodificação. da linguagem. entre as palavras estrangeiras de transformação e as fórmulas ou combinações atômicas instáveis”. seu território em mutação. sua vida fica ao lado dos processos de profundidade ainda. “a equivalência é. que repousa no que distinguimos então como procedimento literário. p. A transformação se dá na superfície. dificilmente ele entra em confronto direto com aquilo que recusa. como aponta Machado (p. por outro. Como? O que há de impossível na linguagem é seu fora.. há de se implicar a literatura e a vida na superfície do vivo. 11 e 90). como o esquizo. da cultura. a esquizofrenia aparece como processo para Deleuze e Guattari (2011. improdutivo. entre as palavras maternas insuportáveis e os alimentos venenosos ou contaminados. é o desterritorializado por excelência. O delírio da língua é condição de saúde como aponta ainda Deleuze (2011) em A literatura e a vida. 26).está na tua frente e ao mesmo tempo te escapa. Nele. [[ fazer da própria deriva seu fundamento. que sabe submetida de antemão ao campo do adversário. recusa o jogo ou subverte-lhe o sentido. . assinala Deleuze (2011. da conversa. Ele faz da própria desterritorialização um território subjetivo. p. aquele que foge e faz tudo fugir.

não como retrato congelado de fluxograma que remonta ao que aconteceu ou ao perigo naquilo que Foucault (1979. dificilmente é apreendido sob formas da psicose ou da neurose. Elas correspondem a estados de coisa somente designáveis nos atravancamentos e interrupções do processo. um abandono irremediável da caosmose existencial. As estases funcionam colapsando o sentido em discursividades a-significantes e engendrando um ponto propicio às mutações ontológicas de onde deve ser pensado o próprio processo subjetivo. isto é. experimentação ontológica em que consiste estas estases caósmicas. 2006) identifica muito precocemente como cerne do sequestro da figura do louco. No esquizo. . grau eminentemente extremo de intensificação do processo subjetivo. Se as forças do fora prosseguem em proliferação e propagação mediante agenciamentos. se o esquizo segue se agenciando. malucobeleza. AE 14 prod consumo registro 26 sint disj 33 atraçao repulsão 37 suj é contorno 81 retorno do mito como exprss 102 82 ics orfao 150 ics prod 86 castaçao faz retornar 101 trans e falta mediados pelo faloe lei q isntitui a cadeia da sigcaçao e introduz as exlucsoes 117 esquizo viagm Esquizo e Fora Comum ao fora e à norma = esquizo. O esquizo implica certo relacionar-se com a dimensão irremediavelmente processual do fora. o não-senso segue trilha quente como fluxo. comuns ao esquizo e aos processos de criação.o vaivém desnorteador entre uma complexidade proliferante de sentido e uma total vacuidade. no criador trágico.

Deleuze (Conv. desterritorializado”. dizem respeito à dimensão microfísica de interação de singularidades. dando lugar a outro composto emaranhado de forças no remanejamento dos afetos e energias impessoais. enquanto personagem conceitual. postulado por Deleuze e Guattari (AE). de arrastamento e fuga de forças . 35) salienta que trata-se de “liberar os fluxos. O esquizo – como uma flor ou uma semente. escorre por todos os lados. se desenha na contrapartida à concepção de delírio em Freud (1915/ics) – mesmo quando este a pareia à filosofia. Tanto a figura do esquizo quanto os processos de criação. Atentamos para a sutileza do termo descodificação. na qual se dão ligações à distância. Dimensão em que se organizam as sínteses disjuntivas e os movimentos tendenciais. aos processos de inscrição sobrecodificante dos complexos saber/poder. De modo que vemos neste uma política cognitiva correspondente a um modo de produção não redutível e jamais exclusivo ao esquizofrênico ou à esquizofrenia. comuns ao esquizo e aos processos de criação. O esquizo. associações entre de ordens diferentes. que ao lançar suas esporas morre para dar vida ao novo – lança singularidades plenas de potenciais de invenção para em seguida morrer enquanto forma. que refere o esquizo não a uma entidade clínica hospitalizada. movimento intensivo de parada e dinamismo. ir cada vez mais longe no artificio: o esquizo é alguém descodificado. Pelbart (2007) ressalta a profunda distinção entre o esquizo enquanto relação fundamental com o fora e as apreensões da loucura como clausura do fora. entendida então como uma visão de mundo – e da psicose em Lacan (Sem3??) – mesmo quando este se mostra sensível ao surrealismo – para se encontrar com a definição de Guattari (CO) das estases caósmicas: modulações intensivas pela alteridade. Trabalho de espalhar o que já está morto ou quase morto para o que é vivo crescer. vida e Abundância O esquizo é testemunha de que a vida.O que interessa sobretudo no esquizo. mas à desestabilização das estruturas. é como ele faz passar fluxos e linhas de intensidade que escapam à formalização. a escritura e o esquizo. ao embaralhamento dos códigos donde podemos toma-lo como processo de dissolução do eu. Esquizo. p. enquanto proliferação das forças do fora. escapando mesmo à separação entre interior e exterior para encontrar uma política do contrassenso. Tal transbordamento Entendemos um laço fundamental entre o signo.

o grito ou o murmúrio abre uma fresta no momento sobrecodificante que emite uma impressão gregária sobre o paciente.. ou.. entretanto. 370). fluxos e objetos parciais que já não são tributários dos grandes números. já que a vida constitui a sua própria essência a alma é o horizonte de tudo aquilo que pode um corpo e mais. DF. entendida como introspecção ou reflexão sobre si mesmo. tomando-o como grupo sujeitado (GUATTARI. ondas e corpúsculos. Desse modo. isto é. p. AE 371 VER: estatística. 29) . da sensibilidade e das atividades espirituais. 399 d) e por isso é imortal. Estados de alma Alma é a entidade simples e indivisível que constitui o princípio autônomo e irredutível da vida. vazio. o próprio princípio ordenador e governador do mundo causa imortal da vida (Crat. às vezes. RM) inserindo-o num fenômeno de massa tipo DSM que rebate um investimento paranoico (do tipo “você é assim”). convém olhar para si mesmo e retirar-se na própria interioridade. alvo de sobrecodificação no qual reside. a realidade mais alta ou última. ou reflexão interior.fluidas “que já não obedecem às leis estatísticas. linhas de fuga infinitesimais em vez de perspectivas de grandes conjuntos” (DELEUZE & GUATTARI. toda possibilidade de saída. começa a superar a noção de A. p. gregário. Sua substancialidade garante a estabilidade e a permanência desses valores. paulatina ou escandalosa. a noção de consciência. Dimensão na qual se dá a captura. é preciso retirar-lhe tudo o que lhe é estranho. dimensão a ser capturada nas tramas de um regime de poder. AE. O silêncio ou o ruído. de tudo aquilo que lhe acontece. de fazer fugir na invenção. “para examinar-se o que é a Alma. grupo. de novos possíveis. graças a Plotino. já que a própria alma é reduzida ao movimento de introspecção (ABBAGNANO. função de viver e de pensar é a realização da capacidade própria de um corpo orgânico.

diferente da experiência sensível ou externa "Não saias de ti. e. c): a A. Esse mecanismo que estrutura a escrita impede qualquer determinação do contexto ou fechamento de sistema. Para Hegel (FE1). poder funcionar na ausência radical de todo destinatário empiricamente determinado em geral. ela é o fundamento de toda individualização do espírito. congela no interior da alma um momento ideal de expressão plena da coisa Toda escrita deve. Verdde da matéria. no interior do homem mora a verdade. toda autoridade ou soberania em . p. 1990/1991. é uma ruptura da presença. a pureza intocada da expressão estaria na vida solitária da alma. liberta-se fazendo-se objetividade. íntima e silenciosa. o espírito em seu aspecto individual. § 39). para ser o que ela é. Expressão pura dada num presente absolutamente vivo e pleno que só se dá no interior do sujeito. a reflexão sobre a própria interioridade: consciência experiência interna. tem seu acesso mais límpido pela voz. a “morte” ou a possibilidade da “morte” do destinatário inscrita na estrutura da marca” (Derrida. Incomunicável por natureza.da interioridade espiritual como via de acesso privilegiada à realidade própria da alma. pois. volta-te para ti mesmo. A força da noção de alma deve-se ao às garantias que fornece ou parece fornecer a determinados valores. por meio de sua atividade. se achares mutável a tua natureza. C. Essa via de acesso é a experiência interior. Hegel retomou. e a razão. De vera rei. transcende-te a ti mesmo" (Santo Agostinho.19). na esteira contrária à formulação blanchotiana. E essa ausência não é uma modificação contínua da presença. bela é uma consciência que "vive na ânsia de manchar com a ação e com o existir a honestidade do seu interior" consciência desperta. a consciência coloca-se como razão que desperta assim que toma ciência de si. a existência de um dentro e de um fora absolutos cuja relação condiciona a presença do ser no presente dos estados de alma. como lugar da verdade sobre o Objeto. E pressupõe. consciência do seu objeto" A expressão no interior da alma. a autoconsciência. a alma corresponde ao primeiro grau do desenvolvimento do Espírito.o em Fenomenologia do espírito (VI.

por isso. visto que o autor está presente para responder pelo seu “querer-dizer”. a fala é mais próxima do logos. pelo “sentido” que deseja “expressar”. uma im/perfeição]. encenação. simulacro (Farmácia de Platão) Sócrates não escreve porque a grafia (distanciada da origem) mata o logos. “uma boa e uma má escritura: boa e natural. Já o logos presente na fala é como um “ser vivo” e.segue seu fluxo na e pela linguagem e através dela vivemos. a escrita no sentido corrente é oposta à escritura da verdade na alma o escritor de discursos é o homem da não-presença e da não-verdade. libido . assinala Derrida. à diferença da escrita. um logos que é vivo porque tem um pai presente com a fala. “a escritura já é. o problema da deriva (e da indeterminação do sentido) se apaga. Isto porque. p 21) . uma vez que a voz é aquilo que está mais próximo do significado das coisas. repetição. uma inconclusibilidade. de representação [cuja essência é portar um enigma. o lugar privilegiado da dialética. a inscrição divina no coração e na alma. exilada na exterioridade do corpo” (GRA. morte da memória. Os estados da alma são equiparados à própria coisa. A partir daí e por toda a tradição subsequente. segue reiniciando a vida e seu mistério”. conseqüentemente. vontade. artifício. máscara. (a escrita derridiana) No Fedro. a fala para garantir a presença do sentido. A escritura é acusada de artificialidade. acaso.relação ao saber é desmantelada e o que resta é a “deriva essencial” do signo “O devir é a própria pulsão na medida em que não existe pulsão desatrelada de linguagem e. na sua iterabilidade. . a técnica. do saber e da Verdade. portanto. O signo. No ser humano essa força – potência. perversa e artificiosa.

Ela provém do sopro. do coração. “sua natureza não é gramatológica. artificiosa. p. Nesse sentido. p. 141): “Só desde o seu surgimento [de Schelling] tornou-se possívelum sistema da estética. 19) a escritura natural encontra-se imediatamente unida à voz que se ouve ao se entrar em si. O devir dá um ponto final à representação” (ULPIANO . p. p. A interpretação é aforística e a avaliação. a escritura natural da modernidade (“A natureza está escrita em linguagem matemática” “natural. na presença plena do sentimento interior. Esta seria a escritura da verdade na alma de Platão. nem Mímesis. Estética singularidade “A estética: a fuga da forma em favor da zona de vizinhança. 152). Nem identificação. 2013. uma vez que ele retomou primeiro o ponto de vista da idéia”. ela é prescritiva como uma lei natural. 22) VER: Estética Estética: Staiger (apud SZONDI. um procedimento humano que traz consigo o risco da corrupção do sentido. Supressão do platonismo e abertura para os simulacros. da phonè. o sistema da verdade significada. de desvio do verdadeiro querer-dizer. mas pneumatológica”. seguindo a esteira nietzschiana de Deleuze (). cuja continuidade Derrida ressalta. poética. por outro lado. uma arquifala que apenas pode ser ouvida na intimidade da presença a si “a essência formal do significado é a presença. que é reconhecida na sua dignidade” (GRA. . a escritura divina da Idade Média. nem imitação. apesar das diversas metáforas utilizadas para designá-la.“a escrita sensível. 2004. eterna e universal. existe uma escrita inteligível e intemporal. finita. e o privilégio de sua proximidade ao logos como phonè é o privilégio da presença” (GRA.

outrem. Atenas é na Grécia. Os lugares-comuns são. Acontece que a definição mínima dos estóicos para o «se» é a mais útil para o desenvolvimento técnico da 8 Deleuze (2003. ou pelos sábios". preso à ilusão filosófica. Acontece que. a ética. visando modelar a forma dos problemas sobre a forma de possibilidade das proposições. ao contrário. Atenas é na Grécia. os lugares que permitem estabelecê-los ou refutá-los numa discussão. ao gênero. para avaliar um problema. vem desta vez do esforço. Ao passo que a Analítica nos dá o meio de resolver um problema já dado. seu caráter técnico. ao passo que as variáveis dos estóicos representavam frases inteiras. sua única tarefa efetiva: a arte dos problemas e das questões. Logo. A Analítica estuda o processo pelo qual o silogismo conclui necessariamente. que assinalava à dialética sua tarefa real. como forma de negar que Atenas se situa na Turquia. a física e a lógica. . porque concebeu mal a realização desta tarefa. ou de responder a uma questão. a dos estóicos formaliza aquilo a que chamamos «lógica proposicional»8 Na lógica estóica. quando dizemos «Se Atenas é na Turquia. mas. a definição de Fílon — por exemplo. será considerado falso problema todo aquele cuja proposição correspondente contenha um vício lógico concernente ao acidente. Platão está morto. Já é esteo caso em Aristóteles. 156) assinala que “a figura nova da ilusão. isto é. da possibilidade lógica de receber uma solução (as próprias proposições designando casos de soluções possíveis)”. a prova do próprio senso comum. Se a dialética aparece desvalorizada em Aristóteles. reduzida às simples verossimilhanças da opinião ou da doxa. ele decalca os problemas sobre as proposições do senso comum. A silogística aristotélica formaliza aquilo que hoje em dia poderíamos chamar «lógica de predicados». não é porque ele tenha compreendido mal sua tarefa essencial. eu sou holandês». ele faz com que a verdade dos problemas dependa de lugares-comuns.Estoicos Estoicismo. para referi-los a pontos de vista gerais (predicáveis) e formar. as variáveis de Aristóteles representavam termos (sujeitos e predicados). mas a Dialética inventa os temas de silogismos (que Aristóteles chama precisamente "problemas") e engendra os elementos de silogismo concernentes a um tema ("proposições"). Aristóteles nos convida a considerar "as opiniões que são recebidas por todos os homens ou pela maior parte deles. Preso à ilusão natural. proposição Estoicismo nasceu de Zenão como articulação dos três âmbitos da filosofia na época. pois. assim. incorporal. a Dialética deve mostrar como se estabelece legitimamente a questão. a validade do argumento não depende do conteúdo das frases individuais Se Platão está morto. ao próprio ou à definição. p.

e então o ciclo da sua história repetir-se-á uma e outra vez. ao passo que a física estóica apenas reconhece a existência aos corpos. As coisas significantes eram classificadas como voz. a forma era também corpórea — um corpo delicado e subtil a que chamavam «sopro» (pneuma). não poderiam agir sobre o mundo material. do qual emergiram gradualmente os restantes elementos e os acessórios habituais do universo. e é essa que os lógicos utilizam actualmente. Neste sentido. A alma e a mente humanas eram feitas deste pneuma. Os estóicos pensavam que. As coisas significadas podiam ser corpos ou afirmações (lekta). mas aquilo que é dito na frase. tal como Deus. mas sim uma afirmação sobre um corpo. cosmos este que. argumentavam os estóicos. Se digo «Díon caminha». o mundo regressará ao fogo numa conflagração universal. há um choque entre a lógica e a física estóicas: as afirmações da lógica estóica são entidades não corpóreas.lógica proposicional. A lógica proposicional dos estóicos é hoje entendida como o elemento básico da lógica. e o fim da nossa vida deveria ser viver de acordo com a Natureza. Já que todas as coisas são determinadas. No futuro. que estudava tanto as coisas significantes como as significadas. Se Deus e a alma não fossem eles próprios corpóreos. é um animal racional. Possuíam uma sofisticada teoria dos signos. a palavra «Díon» significa o corpo que vejo. os estóicos investigaram também a filosofia da linguagem. fala ou discurso. mas aquilo que quero dizer com a frase não é um corpo. em tempos. sobre o qual a lógica de predicados de Aristóteles se constrói como uma superstrutura. . Por afirmações entende-se não a frase. no seu todo. que é a alma do cosmos. O sistema divinamente concebido é a chamada Natureza. nada pode escapar às leis da Natureza. Sob a designação de «lógica». existia apenas o fogo .

aquilo que significa e aquilo que é. e consideravam o estudo dos discursos ou dos logoi uma disciplina filosófica especial: a lógica. “João adoece” (e não “João é doente”). ou seja. cabendo à lógica duas tarefas: 1. sendo um sopro sutil e invisível. expressas pelos verbos. Nossa memória guarda a recordação dessa representação e de muitas outras. expresso por um substantivo ou por um pronome. temos nessa palavra aquilo que o significado significa – alguém . sobre elas formulamos os juízos e os exprimimos em proposições verdadeiras ou falsas. não existem corpos universais. somente o verbo é predicado). a ação e a paixão. os estóicos afirmavam. a qualidade. e 2. como conseqüência. noções comuns. determinar os critérios pelos quais uma proposição pode ser considerada verdadeira ou falsa. isto é. Entre os incorporais colocavam o exprimível . Afirmavam também que há certas coisas que não existem propriamente. As coisas singulares se imprimem em nós por meio da percepção ou da representação. o raciocínio como ligação entre proposições singulares. se eu disser “Sócrates”. Uma outra inovação importante trazida pelos estóicos refere-se à proposição. os estóicos concebem a lógica como uma disciplina que se ocupa dos significados. como era para Aristóteles. sendo incorporais. estabelecer as condições para o encadeamento verdadeiro de proposições. mas reduzidas a apenas quatro: 1. a atribuição de um predicado ao sujeito (S é P). o pneuma). uma vez que os universais não têm existência. 3.Os estóicos afirmavam que só existem corpos (mesmo a alma era corporal. formando a experiência. buscando. só há coisas singulares. Por meio da percepção temos a representação direta de uma realidade. Da experiência nascem noções gerais sobre as coisas. está claro” (e não “O dia é claro”). Por afirmarem que somente os corpos existem. Por exemplo. A lógica se refere à relação entre as noções comuns gerais e as representações particulares. que se estabelece entre as três primeiras categorias. que os juízos e as proposições só poderiam referirse ao particular ou ao singular. As noções comuns gerais correspondem ao que Aristóteles chamou de categorias. Esta não é. 4. o sujeito ou substância. por meio deles. a linguagem ou o discurso. mas é um acontecimento expresso por palavras: o predicado é um verbo que indica algo que acontece ou aconteceu com o sujeito: “Pedro morre” (e não “Pedro é mortal”). Como conseqüência das inovações (só há corpos. expressa por adjetivos. mas apenas singulares. “É dia. só há quatro categorias. isto é. a relação. 2. mas subsistem por meio de outras. que são antecipações sobre as coisas singulares de que temos ou teremos percepções.

É o sentido. a coisa real significada pela palavra Sócrates. VER: outrem. Existem cinco tipos de ligações entre as proposições. “Sócrates anda”. e nela temos também o próprio Sócrates. que exprime o mais (ou maior) e o menos (ou menor). proposição Estrutura Em Deleuze (ID): . há fumaça. há trevas”. que exprime a causa do acontecimento. dominando suas paixões e suportando os sofrimentos da vida cotidiana. Por exemplo: “Está menos escuro quando é mais dia”. raciocínio disjuntivo. Em suma. do tipo Se… então… Por exemplo: “Se há fumaça. ou “É dia e está claro”. 5. então há fogo. Por exemplo: “Ou é dia ou é noite”. de modo que somente um deles seja verdadeiro. para os estóicos. contrapondo-a à atribuição aristotélica. o mais importante e do qual derivam as demais. “Se é noite. A lógica contemporânea irá buscar nos estóicos a idéia de relação. portanto. é noite. que simplesmente justapõe os acontecimentos. raciocínio relativo. raciocínio causal. que é aquilo que é. há fogo”. O significado é. “Sócrates senta-se”). portanto. Uma proposição. 3. Por exemplo: “Visto que está claro. ou seja. 2.chamado Sócrates -. O significado estabelece a relação entre a palavra Sócrates e o homem real Sócrates. incorporal. a representação mental ou o conceito ou a noção que formamos de Sócrates e a relação entre essa representação e o ser real de Sócrates. A lógica estóica opera com o sentido ou com o significado. então há trevas. até alcançar a mais completa indiferença e impassibilidade diante dos aconteci-mentos. o significado é o que permite estabelecer a relação entre uma palavra e um ser. Por exemplo: “É dia. raciocínio hipotético. pela mediação da representação mental que possuímos desse ser. raciocínio conjuntivo. portanto. ao mesmo tempo. formando cinco tipos de raciocínios: 1. sábio consiste em viver cm perfeito acordo e em total harmonia com a natureza. ele exprime uma relação entre um antecedente e um conseqüente. que separa os enunciados. é sempre um enunciado simples sobre um acontecimento referente a um significado (“Sócrates escreve”. que estabelece a inclusão do predicado no sujeito. 4. está claro”. é dia”.

a metáfora e a metonímia constituem ações propositivas sobre o real e o imaginário à medida que abarcam simultaneamente o próprio e o figurado. antes. A elas contrapomos as noções de deslocamento. pré-extensivo. a estrutura funciona com a seriação). nem inteligibilidade por detrás das aparências” (ID. p. p.As operações e funções estruturais. Os seis critérios com os quais se define o estruturalismo para Deleuze (ID. um sentido ordinal e não uma significação na extensão” (DELEUZE. “Nada que ver. topológico. o diferenciador ou diferenciação. enfim. o diferencial e o singular. 215) A estrutura. nem modelo funcional hipotético. a estruturação. Aquilo que é estrutural é o espaço. o serial (a outra metade que coloca a estrutura para funcionar. por isto. aos sistemas formais ao passo que o simbólico corresponde à própria produção do objeto teórico e especifico forjado em seu cerne. o lugar ou a posição. A interiorização e ao domínio da loucura coincidem com o horror ao pathos. 2006) são o simbólico. essencial. VF. em que a noção de vizinhança tem precisamente. nem significação. ausência e indeterminação sob uma lógica do pior. “O implícito não pertence à essência do discurso” (DERRIDA. Os elementos simbólicos de uma estrutura carecem de designação extrínseca (tal como o real conceitual. corresponde à suas teorias. nem representação. cuja significação é imputada do exterior) e de significação intrínseca (de algum conteúdo imaginário). mas um espaço inextenso. com uma essência. o implícito. porque se trata de uma combinatória referente a elementos formais que. isto e. original. ou melhor. o sentido oculto é. puro spatium constituído cada vez mais como ordem de vizinhança. não tem nem forma. 44). em si mesmos. “eles tem tão-somente um sentido: um sentido que é necessária e unicamente de ‘posição’” “locais e de lugares num espaço propriamente estrutural. ID. retirada do sistema. . nem realidade empírica dada. como a retórica. um efeito de uma dobra que os mecanismos de saber/poder exercem sobre o material que objetificam a fim de lhe extrair uma verdade fundamental. antes. nem conteúdo. p. 216). a casa vazia.

VER: Existência concreta e homem concreto Homem concreto é o que Foucault (1954/1999) encontra na obra de Binswangen por exemplo. antes que topológica. 150). ela não existe fora das formas de repulsa que a excluem ou a capturam” (p.a leva para o interior para subsumir. A loucura “só existe em uma sociedade. de síntese passiva. enquanto o extensivo. A diferença de uma clínica antropoemica . mentirosa Influência de Dumézil numa linguagem geométrica. da internação ela sucumbe ao silêncio.) metabolização dialética . ela passa a ser derrisória. Na Idade Média ela está presente no cotidiano como fato estético. nem que seja mediante supressão em rede significante toda diferença. etc. dentro. Abbagnano: Bergson contrapôs constantemente . Direto ao ponto que se articulam as formas e condições de existência.O intensivo remete a um campo de combate agonístico interno. seus desdobramentos e atravessamentos históricos. limite. mas por fora. pois não leva o concorrente como tal.para uma antropofágica. Seu largo comentário parece culminar para o elogio da abordagem de Binswagen que vai direto à existência concreta. sob um cálculo racional da eficácia. a partir do século XVII. por isso a categoria de deslocamento ativo. combate contra. Não incorre por aproximações. quer subsumir. que é a da exclusão social. mediante uma (suposta. mas como elemento submisso. situação. Exclusão apoiou em Dumézil para descobrir a forma estruturada da experiência da loucura.

o procedimento da ciência que se vale de conceitos ou símbolos. 3. Jaspers (1970. Mediante a incapacidade de determinar a totalidade do ser do homem. o filósofo postula a questão de onde encontrar uma direção para ele. à despeito da sua objetivação como doença mental. Experiência Ver artigo Groppa de Jorge do ó . ex. na acepção de Deligny (??). o ser do homem é incerto e esta constitui sua mais marcante característica na visão do filósofo alemão. sob a figura psicossocial do louco. Logo. a experiência concreta é passível também À loucura. O indivíduo enquanto liberdade se liga ao impensado para Foucault (2000) e mesmo Deleuze (2002) entende como movimento de individuação. dos saberes empíricos e das ciências humanas) e não é capaz de apreender sua totalidade.. A existência concreta é vivenciada pelo humano que reside. Assim. 56) entende que “ao homem lhe é dado manejar com liberdade sua existência. como se fosse um material”. p. enquanto liberdade que não se deixa objetivar. p. De fato. da responsabilidade. Em contato com esta dimensão que dispensa o querer e a vontade. persiste em nós à despeito do homem-que-somos.. assim como seus correlatos desdobrados e imediatos da consciência. p. VER: Jaspers (1970) entende o homem como objeto e como liberdade que não se deixa objetivar. de "idéias abstratas ou gerais". 210). O primeiro corresponde ao indivíduo sujeitado como objeto dos saberes (da vida. ao procedimento intuitivo ou simpático da filosofia (cf. sua vida não se desenrola como a dos animais. Lapenséeet le mouvant. etc.. Esta existência material é a vivência concreta que cada indivíduo tem de si apenas enquanto parcialidades. de modo geral.o tempo "concreto" da consciência ao tempo "abstrato" da ciência e. na simples sucessão e encadeamento de repetições idênticas submetida às leis naturais.ed. 1934. isto é.

Apoiado em Nietzsche.. a primeira palavra de um verso. Experiência significa. no silêncio de uma profunda metamorfose.. Foucault traz um conceito de experiência próximo à fenomenologia existencial (como olhar reflexivo sobre o vivido ou objeto que tenta superar ou passar ao largo de sua natureza transitória para buscar significações) como lugar em que se descobre as significações originárias. mas como índice de dessubjetivação. (Converzacione com Michel Foucault 1978/2010) . Exp-limite. para que nesse esquecimento.. Blanchot (2011b) lembra Rilke dizendo que versos são experiências e não sentimentos. a noção de experiência alça o mais próximo possível do não-vivível – e não partilhável da loucura – que requer o máximo de intensidade e de impossibilidade – daí criar possíveis. Esse referencial procura desdobrar todo o vivível e possível da exp cotidiana.. uma variedade. Eles são como que uma vivência (Ebhrenis.) Nit Viess. No texto a Binswanger (1954/1999??) e no prefácio a HL (1961/1999) ao tratar do grau zero da loucura como exp indiferenciada.No capítulo A morte possível d’O espaço literário. mas que permanece indeterminada. A poesia e o escrever torna o poeta “incerto de si mesmo e como que inexistente”. uma vez que as lembranças são necessárias. a exp aparece não como aquilo que funda o sujeito. A experiência arranca o sujeito de si mesmo levando-o à aniquilação e dissolução. um conjunto heterogêneos de sentidos que regulam (norma) a existência em sua possível vivência nas condições da situação presente. Busca a significação da exp cotidiana para colocar o sujeito como fundador desta exp e de suas significações. neste ponto: contato com o ser.uma prova. Outro da cultura. Posteriormente. renovação do eu nesse contato . Experiência: um acúmulo. mas para serem esquecidas. nasça finalmente uma palavra. Bataille e Blanchot. pois para escrever um verso é condição não suficiente ter muita vivência. Voc: De início.

A experiência é uma ficção que se fabrica para si mesmo num momento datado tendo
como horizonte um conjunto de práticas e discursos.
Por fim, experiência recebe a definição de forma histórica de subjetivação.
No projeto de Prefácio à História da Sexualidade, Foucault (1984/2014) entende que o
estudo das formas da experiência é o eixo atravessa seus escritos e que o conduz a
pensar a historicidade própria às formas de experiência.
condições em que uma experiência se forma, se desenvolve e se transforma frente a
certo jogo do verdadeiro e do falso (correspondente às formas em que algo pode
emergir à superfície do saber), à constituição do homem como sujeito de conhecimento
(aprovada ou rechaçada) e à determinação de relações específicas de poder
(condizentes à experiência com as forças num âmbito de interioridade e exterioridade)
que se articulam aos modos de relacionar-se consigo mesmo e com os outros.
A partir da leitura da entrevista com Rabinow (FOUCUALT, 1984/2004) Polêmica,
política e problematizações, podemos afirmar que se trata da constituição de
objetividades, da formação de um política de cognição e intervenção sobre o mundo e
das relações éticas no governo e práticas de si.

Desvinculado da suposição de lugar originário, indiferenciado e cru, a experiência se
pauta como possibilidade e estratégia de dessubjetivação baseada na transitoriedade
das distintas formas de existência e aparição da loucura na história. De modo que
pautamos nossa pesquisa partindo do privilégio da experiência trágica da loucura como
modo de articulação a partir do qual a loucura pode deixar de ser loucura. Entendemos,
pois, que sob tal perspectiva, a experiência da loucura pode ultrapassar o erro, o mal e a
doença para devir na invenção de novos possíveis para a existência enquanto estratégia
de produção de saúde.
pretendemos afirmar a doença como um modo de vida – um pathos, sobre o qual se
produz e se modula mundos – que deve ser olhada do ponto de vista pático no qual o
sofrer aparece próximo ao experimentar. Esta dimensão pática é acentuada na crise,
onde nada mais parece possível e no qual se cruzam as transformações. A crise,

entendida não como resultado, mas como um novo amanhecer, começa um espaço e
um tempo próprios, desvinculados do mundo objetivo, ôntico e cotidiano. Daí ela
aparecer como construção de superfícies propicia às mutações da experiência e nos
possíveis – tomados na autenticidade positiva do ainda-não, no experimentalismo de
um procedimento ético - que esta abre mediante uma dinâmica intensiva de forças no
esgotamento e na criação artísticas.
Experiência em Agamben
http://revistacult.uol.com.br/home/2013/09/o-lugar-da-poesia/
http://unisinos.br/blogs/ihu/invencao/poesia-e-linguagem-em-giorgio-agamben/
Experiência, conhecimento e pesquisa
Foucault (1978/2010) esclarece em entrevista que não se vale de métodos prescritivos
ou generalizáveis me suas pesquisas. Ao contrário, ele forja a metodologias singulares
sob medida para cada problema ao qual se dedica. Problema e método se implicam
mutuamente.
“o conhecimento do homem, diferentemente das ciências da natureza, está sempre
ligado, mesmo sob sua forma mais indecisa, a éticas ou políticas” (FOUCAULT, 2000,
p. 453)
“o que se pode fazer transcorrer e transmitir nos estudos da subjetividade não é a
certeza de um experimento, mas a irrequieta e incômoda passagem política e
metodológica de uma experiência” (MIZOGUCHI, 2015, p. 202).
Inacabamento
A experiência seria o ponto onde se busca as significações originárias.
VER:

Experimento
Ver FRENCH no pc

Fora
Ver tedesco 2007 147; afuera
É o “outro de todos os mundos” em PF 28 ou 81errados ed antiga
a dimensão irredutivelmente alteritária expressa por Blanchot (1997, 2011b, p. 144)
como condição da escrita literária que nos instala do outro lado, numa espécie de pura
“relação, fora de si, na própria coisa e não numa representação da coisa”.
Nordholt observa que o mundo em que vivemos jamais se perde nessa
experiência, mas se desdobra (dédouble) no outro de todos os mundos. Para
Nordholt, o essencial “nos fala dos seres e das coisas, mas na medida em
que eles estão desdobrados (…). Ela nos fala do mundo invertido: o mesmo
mundo, mas com outro signo” (1995, p.113). Neste aspecto, o essencial nos
remete a um processo de desdobramento, movimento de negação e
exteriorização no qual, como sugere Nordholt, o mundo só pode ser
encontrado “turned inside out” (virado de dentro pra fora).
A negação é o recurso essencial da literatura para Blanchot, pois ela se
traduz na morte, e, a morte é “a substância mais secreta da ausência, a
profundidade do vazio, o fora eterno (dehors éternel).” 237 É na literatura
que o universo imaginário, ao mesmo tempo que se constrói, desboroa-se
na constituição do mundo material, da realidade das personagens, do
enredo. Assim o espaço da morte é o espaço da palavra, 238 porque a
palavra nega o real para construir-se paradoxalmente como irrealidade e
como ficção. A literatura nega o mundo para construí-lo nessa exata
medida. Ela esfacela o sujeito para fazer-se aparecer. Ao negar-se, ao
reconhecer e se reconciliar com esse não-ser do mundo ela imediatamente
o constitui, desdobrando-se, desplissando-se na superficialidade de seu
tecido, de sua escritura. Ela se nega para poder experimentar o “outro de
todos os mundos”, ou outro possível na sua impossibilidade. A morte,
todavia, ao mesmo tempo que ó “quarto vazio”, o “silêncio puro”, a “noite”,
a “substância do nada”, e, portanto, a negação de tudo, é também o lugar
da criação, o recurso que procura Mallarmé em Igitur “criar pela sua própria
morte.” 239 É pela morte que o personagem se torna adolescente.
237 BLANCHOT, Maurice. L’espace littéraire. Paris: Gallimard, 1955, p. 113.
238 BLANCHOT, Maurice. L’espace littéraire …, p. 144. 239 BLANCHOT,
Maurice. L’espace littéraire …, p. 112.

estranhamento remete-nos a Blanchot e Deleuze, quando estes escrevem
sobre a experiência do Fora l3 e a literatura. Comecemos por Blanchot
(1997), que nos diz: "a literatura tem um privilégio: ela ultrapassa o lugar e
o momento atuais para se colocar na periferia do mundo e como no fim dos
tempos, e é dali que fala das coisas e se ocupa dos homens" (p. 325). Ou
então: "o livro, coisa escrita, entra no mundo, onde cumpre sua obra de
transformação e negação" (p. 303). Para ele, a palavra literária se constitui
como fundadora de sua própria realidade, ou seja, ao nomear, realiza a si
própria, apresentando não o mundo, mas o outro de todos os mundos.
Dessa forma, a obra é sempre ausência e o leitor se vê lançado em um
mundo de estranhamento, onde não é mais possível o reconhecimento.

Especial, viagem tragica trajeto, aquém do labirinto arquitetonico:
a relação se dá entre a distância e a proximidade. Oposições
aparentemente intransponíveis, porém, se praticadas, colocam em
evidência maneiras de ver e de estar no mundo. Ver o (in)comum é
habitar o (in)comum, é um como-ver-se, uma maneira de ver que comove.
Essas transformações (re)configuram um espaço que acreditamos nos
pertencer mas que, de um instante a outro, pode tornar-se estranho,
(ir)reconhecível, o outro de todos os mundos, um fora eterno.
(BLANCHOT: 2011: 81). Ultrapassa-se assim a noção de um simples
deslocamento espacial, de um percurso por entre a disposição concreta de
certos elementos em um espaço, para uma experiência sensível desse
espaço. Intensiva?
Em vez de designar o sentido da viagem apenas como uma mudança de
localização e de espaço, ela é aqui pensada como uma situ-ação que
engaja outro tempo, esse não tributário da rotina. Uma abertura na qual
se alojaria a nossa experiência sensível do espaço e comporia uma
situação-em-paisagem.

“uma experiência que, ilusória ou não, aparece como um meio de descoberta e de um
esforço, não para expressar o que sabemos, mas para sentir o que não sabemos” (PF,
81).
Outro de todos os mundos = imaginário sem narcisismo Guattari.
À ausência real de um objeto ele não dá a substituição de sua presença
ideal. “Suave” e musicalmente, por certo não são caminhos para uma
afirmação intelectual. Pelo contrário, como vemos, estamos novamente em
contato com a realidade, porém uma realidade mais evasiva, que se
apresenta e evapora, que é ouvida e desaparece, feita de reminiscências,
de alusões, de modo que, se por um lado é abolida, por outro reaparece em
sua forma mais sensível, como uma sucessão de nuanças fugidias e
instáveis, justamente no lugar do sentido abstrato cujo vazio ela pretende
preencher.

À primeira vista, o interesse da linguagem é, portanto, destruir com seu
poder abstrato a realidade material das coisas, e destruir com seu poder
de evocação sensível das palavras esse valor abstrato” PF??, p. 53

A linguagem começa como abstrata para alcançar poder real e efetivamente concreto
para então, se desfazer da característica abstrata eliminando e sobrepujando-a.
Reminiscências do não vivido, “a lembrança é a liberdade da memória” EL, p. 21-2
Presença musical, sensitiva, olfativa, colorante, que não está mais colada
ao objeto e nem indica a presença do objeto real, mas funda um outro lugar,
o outro de todo lugar, onde as palavras são e não mais representam.
Em Un coupe de dés, Stéphane Mallarmé, no fim do século XIX, faz
aproximações do texto às constelações, onde um céu estrelado percorre o
preto das letras e o branco da página.

ver Levy, 25-6, o estrangeiro, o outro e sua sombra, em Maldonado: “raízes errantes” no
ggoglobooks
A falta constitui uma realidade imaginária, um espaço solitário e fascinante
onde tudo são imagens. É o movimento de desdobramento de que fala
Blanchot: a literatura apresenta o “outro de todo o mundo”. E como aí o
que aparecem são imagens, a coisa literária é “convertida no inapreensível,
inatual, impassível, não a mesma coisa distanciada mas essa coisa como
distanciamento, a coisa presente em sua ausência” (EL,257.. errado)
N’A falta, a voz narrativa, entregue ao fascínio da busca de uma mãe
perdida, perde-se também, e o que sentimos, ao penetrar na obra, é a força
de uma linguagem que se realiza em si mesma, rompendo com o
processo mimético e apresentando o que Blanchot chama de o outro de
todos os mundos, sua própria realidade.

um outro de todos os mundos: “a arte é real na obra. A obra é real no
mundo, porque aí se realiza (de acordo com ele, mesmo no abalo e na
ruptura), porque ela ajuda a sua realização e só terá sentido, só terá
repouso, no mundo onde o homem será por excelência” (BLANCHOT, 2011b,
p. 231).
obra não remete a alguém que a teria feito, a um sujeito autoral do qual
deveríamos conhecer a vida para entendê-la. O autor não é mais o dono da
verdade, nem a literatura é a expressão de um eu interior. Nela quem
escreve já se perdeu, está fora de si e do mundo. A respeito disso diz
Blanchot:
“quando ignoramos todas as circunstâncias que a preparam, desde a
história de sua criação até o nome daquele que a tornou possível, é
justamente quando ela mais se aproxima de si mesma” (BLANCHOT: el, 21
errad).

Diego:
A experiência essencial das palavras tem o poder de nos colocar em contato
com a irrealidade da obra, com o mundo imaginário que toda narrativa
sugere. E é por isso que o essencial, ao invés de representar o mundo,
apresenta o que Blanchot denomina “o outro de todos os mundos”
(1997, p.28). Dessa maneira, pode-se afirmar que o caráter essencial da
linguagem não se refere a um objeto ausente, pois evoca o objeto em
seu esplendor, em sua realidade plena. É justamente em seu uso que o
essencial revela sua força na linguagem, isto é a potência de criar e
fundar mundos (diego)
...Nordhold: “se o termo „escrita‟ surge somente na Nota que abre A
Conversa Infinita, portanto em torno de 1969, a busca de Blanchot está
desde sempre centrada sobre „esse jogo insensato de escrever‟. A fórmula
de Mallarmé mostra bem que a escrita deve ser entendida como verbo, não
como substantivo: trata-se da escrita como movimento, caminho, pesquisa”
(1995 p.11-12).
Para Blanchot, O fora designa essa prática de pesquisa – ou, como dissemos
antes, essa estratégia do pensamento – que escava, em meio à
realidade instituída, uma região de refluxo a fim de fundar a sua própria
realidade. O fora é exatamente o procedimento pelo qual somos colocados
em relação com o mundo desobrado. Dito de outro modo, o fora é o outro
de todos os mundos ostentado pelo jogo da experiência essencial na escrita.
No entanto, salientamos que quando estamos em relação com o fora, não
falamos de um mundo que está além do nosso. Como dissemos antes, falase precisamente deste mundo, porém desobrado em seu outro. Neste
sentido, a experiência do pensamento afirmada pela noção do fora não é
uma via para acessar um além-mundo evocado pela escrita, mas uma
prática, um modo de relação no/com este mundo, que tem por
especificidade nos colocar em contato com o outro de todo e qualquer
mundo e, por conseguinte, com a possibilidade de diferir.
... Se a escrita se afirma dessa forma como uma prática tão radical e
soberana, que chega a enfrentar o mundo, a transformá-lo e até mesmo
a destruí-lo para se colocar fora de tudo que se poderia dizer através
dela, como a experiência do essencial pode tornar sensível na linguagem o
outro de todos os mundos que se cria nesse processo? Como a linguagem
pode constituir a antimatéria do mundo e, neste processo, fazer aparecer
que “tudo desapareceu”?
Pensar o fora como um exercício de escrita/pensamento que nos coloca em
contato com o mundo desobrado exige atenção à noção blanchotiana de
imaginário. Em diversos dos seus textos (BLANCHOT, 2005; 1997; 2011b),
pode-se perceber como a noção de fora está fortemente atrelada à
determinada concepção de imagem. Em O Espaço Literário, Blanchot se
preocupa em delimitar como a escrita pode constituir a experiência de uma
realidade imaginária por excelência.
.... “O poema é exílio, e o poeta que lhe pertence, pertence à insatisfação do
exílio, está sempre fora de si mesmo, fora do seu lugar natal, pertence ao

estrangeiro, ao que é o exterior sem intimidade e sem limite. Esse exílio é
que faz do poeta o errante” (BLANCHOT, 2011b, p.238).
Estar no exílio é, portanto, ingressar no lado de fora, errar numa região
totalmente livre de intimidade. Errar implica em não permanecer onde
estamos, significa não pertencer a lugar nenhum, mas a todos os lugares. O
errante só encontra seu lugar na passagem, espaço vago em que também
se afirma o outro de todos os mundos. O escritor, ao fazer do exílio a sua
morada, torna-se um exilado em sua própria cultura, em sua própria
comunidade (BLANCHOT, 2011b, p.259). Ao mesmo tempo em que está no
mundo, está também no seu outro, pois precisa acessar este plano de
alteridade para introduzir em suas palavras a dimensão disruptiva do fora.

O fora cava refluxos no movimento de instituição da superfície objetiva para fundar
outras superfícies não desde uma profundidade, mas desde uma superfície outra, uma
superfície transcendental.
“A literatura se edifica sobre suas ruínas” (PF,292) desobramento
O pathos, que Blanchot (2011b, p. 107) encontra na figura de Kleist sob a forma de uma
“paixão sem objetivo, despropositada e vã”, que reflete a passividade da morte, alheia à
seara da vontade e da decisão.
Parada do processo é a doença e a morte, como Nerval, que “vagueava pelas ruas antes
de enforcar-se, mas vaguear já é a morte, a desorientação mortal que cumpre, enfim,
interromper fixando-se” (BLANCHOT, 2011b, p. 107)

O conceito de "fora" é pensado de formas diferentes em cada um destes
autores, embora haja pontos convergentes. Na presente discussão não nos
deteremos nisto, mas sim na possibilidade da arte como ruptura,
transgressão, resistência. Entretanto, cabe colocar aqui que Levy (2003), ao
analisar o conceito do "fora", assinala que a literatura não se constitui
como uma explicação do mundo, mas a possibilidade de vislumbrar o
outro do mundo, inaugurando uma experiência de como as coisas
ainda não são. A experiência do "fora", ao colocar o leitor fora de si e do
mundo, aponta para o porvir, para a impossibilidade. E é a impossibilidade,
a paixão do "fora", que possibilita que a literatura escape às relações de
poder. Citando Deleuze, Levy pontua que, uma vez que o lado de "fora" é
a dimensão onde as singularidades não têm forma e na qual a
pluralidade de forças circula, a resistência, ao estabelecer uma relação

direta – não mediada - com o Fora, tem o primado sobre o poder. Por isto,
Deleuze (1992) considera que Foucault acrescenta uma terceira dimensão
às dimensões do poder e do saber - os modos de subjetivação -, visto que
há necessidade de linhas de fuga – dimensão ética das linhas de fuga,
pensar! -, de forma a não ficarmos enclausurados nas relações de poder.
LEVY, Tatiana Salem. A experiência do Fora: Blanchot, Foucault e Deleuze.
[Conexões.] Rio de Janeiro: Delume/Dumará, 2003.

Blanchot
o

interpretação da literatura após o realismo (Mallarmé, Kafka e
Proust)

o

Fora é uma prática, não tanto um conceito

o

palavra literária diferente de palavra usual

o

funda a sua própria realidade

é baseada na própria impossibilidade

palavra e coisa se fundem

negar o real é o ponto de partida para se construir a ficção ie.
fazer as coisas desaparecerem é revelar a presença deste
desaparecimento.

ausência da obra: criando uma realidade própria, a obra
desaparece como não-realidade

o

desdobrar: não é explicar o mundo, mas indicar o “outro de
todos os mundos”

o

imaginação: outra possibilidade do ser; sem separação clássica
entre real e imaginário

o

impossibilidade: literatura é o Fora; sujeito é substituído pelo
Fora da linguagem: o neutro, o deserto, a impossibilidade

o

tempo imediato: “não está além do mundo, mas também não é
o mundo: é a presença das coisas antes que o mundo o seja, a
perseverança das coisas depois que o mundo desapareceu, a
teimosia que resta quando tudo desaparece e o estupor do que
aparece quando não há nada”

o

neutro: anonimato, fim de toda idéia de interiorização

não existe dualidade exterior/interior

“Construir o Fora, colocar-se fora do mundo, fora do eu e
fora de si é exatamente esse ‘desdobrar-se’, esse
‘deixar-se’ vir à tona, à superfície.”

sujeito autoral é desimportante para a compreensão da
obra

trânsito do eu ao ele: o outro


o

discurso sem eu é discurso de todos

relação de terceiro tipo: “o ele não forma comigo nem uma
dualidade, nem uma unidade”: é intervalo

“Concordamos igualmente com o que Foucault, a propósito de Blanchot,
denominou ‘o pensamento do fora’. Fórmula que não deve ser entendida
nem como genitivo objetivo (o fora não é aqui o tema do pensamento), nem
como genitivo subjetivo (não se poderia pretender que o fora pensa), mas
como o pensamento que efetua a passagem ao fora, que faz que o sujeito
passe para fora de si mesmo, torne-se estrangeiro a si mesmo, sem
esperança de redenção dialética. Pensamento que se mantém, então, no
fora, como uma força exterior a toda subjetividade.” (Nordholt, citado por
Levy).
O que leva o pensamento a pensar
O pensamento do Fora é uma tentativa de explicar o pensamento não como
uma faculdade inata do ser humano, mas como um processo disparado por
fatores externos estranhos e opacos ao reconhecimento e à ordenação. É
uma noção materialista de pensamento, uma crítica ao ideal socráticoplatônico, à relação objeto → modelo → imagem, na qual se agrega a noção
do estranhamento, da diferença.
Nessa noção, pensar contradiz qualquer racionalidade; pensar é alcançar o
não pensado. “Pensar não é mais conhecer a verdade, mas produzi-la.”
Uma conseqüência, para a arte, dessa noção deleuziana é que ela deixa de
ser representação para ser real, funcionando como veículo para retomar o
vínculo rompido do homem com o mundo. Outra é a desmistificação do
papel da subjetividade na criação. Se a origem está Fora, a criação é
impessoal.
Um aspecto interessante tratado pela autora é a definição da montagem
descontínua do cinema contemporâneo como uma espoleta para o
pensamento: a descontinuidade produz um Entre que, substituindo a
simples associação das imagens, nos permite vislumbrar o tempo “em
pessoa”.
Outras correlações importantes são possíveis. A noção de pensamento do
Fora pode subsidiar boas discussões sobre a sensação de impossibilidade de
ruptura na contemporânea, tendo como ponto de partida uma dissecação
do processo criativo segundo a ótica da exterioridade impessoal.

Fronteira
Mia: palavra vem de front de guerra.
Gil Monstros e fronteiras
Práticas de fronteira podem ser marcadas por "relações de boa vizinhança",
na feliz expressão de Robert Darnton em O beijo de Lamourette (1990), mas
também, e com freqüência, são palco de litígio. O espaço para a verificação
de limites e para a demarcação de parte a parte nem sempre é objeto de

Dentro do projeto humanista de LéviStrauss cabia à Etnologia o inventário das diferenças. Porta de entrada para estruturas mais profundas. Não é. ambos do mesmo ano de 1949. porém. Na delimitação da divisão geográfica. e a busca de modelos invariantes e universais. a presenca ou ausencia de comunicacao nao pode ser definida de maneira absoluta. de limiares. reconhecer essa abrangência seria mesmo abrir mão de sua etnologia.consenso. a afirmação de uma relação de complementaridade. as justificativas são sempre múltiplas. a pesquisa deve restringir-se a uma pequena região. o xamã carrega o mito e o doente o opera. e as comparações não poderão ser estendidas para além da área escolhida como objeto de estudo (LÉVISTRAUSS. Voltemos ao último capítulo de O pensamento selvagem: "A história é um método ao qual não corresponde um objeto distinto. Para ser legítima. na qual — como diz Ginzburg — a verdadeira partida se realiza na fronteira entre estrutura e história. os critérios diferem. Schwarcz Os artigos que completam a coletânea cobrem outras áreas de fronteira. Para Lévi-Strauss. mas antes no consenso. na eficácia simbólica do consenso. O médico ouve o mito e o traduz em uma história que é sua. Essa situação é suficientemente significativa para que a populacao (tanto fora como dentro) dela tome consciencia. Em vez de fronteiras rigidas. o feiticeiro dispunha dos desejos universais da cura. 19). marcados por um enfraquecimento ou uma deformacao da comunicação. falam do casamento com a lingüística e explicitam domínios. com fronteiras claramente definidas. 321) pondera que uma sociedade é feita de individuos e de grupos que se comunicam entre si. dois lados distintos da postura de Lévi-Strauss. Lévi-Strauss (1996. . nos quais ela nao desaparece. assim como na separação de disciplinas e de objetos. 1996. Contudo. apesar de suas manifestações e conteúdos particulares. trata-se. evento e acontecimento. assim como é nesse local que se estabelece o jogo da alteridade. A comunicacao nao cessa nos limites da sociedade. mas atinge seu nivel minimo. Terminemos com suas palavras que. antes. Sobretudo nos ensaios "O feiticeiro e sua magia" e "A eficácia simbólica". portanto o último refúgio de um humanismo transcendental" (1976: 307). Tratando daa Estética social e das estruturas de comunicação. p. retomam um debate: A "história levaria a tudo com a condição de se sair dela". na afirmação disciplinar a História aparecia bem no meio do caminho. como sempre. p. De outro. De um lado. Não era nos cânticos ou poções do xamã que se devia procurar pela eficácia. Lévi-Strauss elucida seus novos caminhos.

Função psi Aula dia 9 janeiro PP. 224). como intensifica o poder. mas também que todo poder que se exerce nunca é outra coisa que um efeito ótico. p. especificamente. Assim. p. o asilo deve ser concebido à semelhança do corpo prototípico do psiquaitra. 2006. das idiotas. A neuropatologia entra a partir do questionamento da seriedade de uma patologia sem lesão anatômica correspondente – a histeria como resistência. sua consistência é correlativa a seu exercício (À relação entre forças). qualifica o médico como agente de cura. p. Suscintamente. “O panóptico quer dizer duas coisas: que tudo se vê todo o tempo. como realidade – processo levado a cabo inicialmente com a normalização das crianças anormais. aprisionado no espaço asilar. Uma vez que o poder não é localizável. O poder carece de materialidade” (2006. que não é outra coisa que operabilidade das visibilidades e a efetividade das normas que engendra e administra. direção e a função psi com a neurologia Poder psiquiátrico como técnica de sujeição do corpos individuais (2006. sinaliza simultaneamente um poder que individualiza e um saber sobre os indivíduos. Pois a instituição psiquiátrica não é mais que o conjunto de regulações exercida pelo corpo do psiquiatra sobre o corpo do doente mental. o saber psiquiátrico. 101??). Não apenas ela atua intensificando a realidade. podemos aferir que o poder disciplinar corresponde ao olhar contínuo (daí tamanho investimento no . Final da Aula 28 de novembro de 1973 de PP. Ele é um aparelho que conhece e individualiza. a ele e a seus efeitos. À diferença do que se passa com a medicina com Bichat – que adquire uma especificidade muito própria e singular –. que começam a ser diferenciadas dos adultos e das demais situações psíquicas na década de 1830. 225) A função psicológica descende historicamente do poder psiquiátrico. fazendo valer. A mera presença de seu corpo em gestos e vontade é capaz de curar (FOUCAULT. O corpo do psiquiatra sobrevoa. A lei da identidade pesa sobre o indivíduo submetido à anamnese clínica. independentemente de seu conteúdo.

certamente. constituição de séries e sucessões. do outro lado da família. esse momento em que as ciências do homem se tornaram possíveis é aquele em que foram postas em cena uma nova tecnologia do poder e uma outra anatomia política do corpo (FOUCAULT. ela logo se espalha pela rede de instituições disciplinares (escola. que vocês veem surgir o que chamarei de função-psi. isto é. p. A psicologia. fábrica. nesta perspectiva. entendo não apenas o discurso. “Com organização dos substitutos disciplinares da família. com referência familiar. do lado da psiquiatria. senão ser os agentes da organização de um dispositivo disciplinar que vai ligar. . psicoterapeutas. Ela articula a coerção disciplinar à verdade que só pode vir de uma origem familiar. o próprio indivíduo psicológico. inscrição de individualidades numa centralidade ao mesmo tempo unificadora e totalizadora – o “duplo documental” a que alude Foucault (2006. psicopatológica . presidio. p. Neste âmbito. criminologistas. psicanalítica etc. O momento em que passamos de mecanismos histórico-rituais de formação das individualidades a mecanismos científicos-disciplinares. 110). psicocriminológica. “A função psi nasceu. análises ou práticas com radical “psico” têm seu lugar nessa troca histórica de processos de individualização. E quando digo “função” .) para se tornar efetivamente o discurso e a forma de controlar desta rede no início do século XX. 110). 2006. A falha da família se traduz no caráter indisciplinável que pode adquirir um ou outro indivíduo. etc. psicanalistas etc. substituindo assim as individualidades do homem memorável pela do homem calculável. E creio que é essa a função desses psicólogos. os profissionais técnicos da função-psi não podem deixar de agir como agentes disciplinadores cuja atuação se destina a preencher a lacuna da soberania familiar.. p. Se a função-psi atua primeiro e privilegiadamente em torno da família. em que o normal tomou o lugar do ancestral e a medida o lugar do status. dá conta institucionalmente do discurso e da produção e captura do corpo individual do sujeito.empreendimento dos campos de visibilidade) e às suas sucessivas atividades mesquinhas de transcrição e codificação do comportamento individual com vistas à fabricação de um saber permanente de um indivíduo fixado a um espaço existencial. 101). mas a instituição. vale apontar que se originou no princípio do século XIX. como se se tratasse de sua contraface” (2006. a função psiquiátrica. Todas as ciências. se precipitar onde se produz um hiato na soberania familiar?” (FOUCAULT. qual é ela. Em outras palavras: acumulação do saber.

e produzida para ser apreendida. às vezes submetendo o paciente à submissão obrigatória imposta pela família. Duas instâncias funcionalmente incompatíveis articuladas pela função-psi que maquina o discurso.. Função psi e cientificidade da psicologia e dos saberes psicológicos Ver Discursos selvagens-disciplinados E “Resposta ao círculo de Epist” (aqui tem sobre saber e positividades . Em psiquiatria. mandamentos) que tenta fazer com que um membro seja bem comportado e obediente. condicionante.1977. Ela assegura a pertença da soberania familiar dentro da ordem disciplinar. 161) VP A função-psi trabalha. por meio das questões que a evolução interna dos seus dizeres – temporal e criticamente – venham a suscitar. a individualização. 160. a norma é o que reúne (costurando seus sentidos) as regras de conduta à regularidade funcional. De maneira que é pela norma que a psiquiatria se institui ao lado da medicina orgânica através do modelo da neurologia (FOUCAULT.p. dos discursos psicológicos – passa a ser considerada científica pelo mero fato de ser reconhecida aprioristicamente como tal. DE) e “resposta uma questão (p. a institucional. para fins de captura pelos dispositivos de normalização. Se trabalhamos a questão do discurso e. O psicólogo é como uma extensão da família (e isso tem muito de concepções religiosas sobre mãe. p. nos cabe refletir sobre a categoria de homem moderno. propiciando que o anormal em condutas (o desordeiro. necessária. Para Foucault não é suficiente ou consistente a ideia de que a simples apropriação de um vocabulário – da medicina ou da biologia – garantam o limiar de cientificidade À . 60-70)” Ou seja. o excêntrico) seja referido ao anormal do corpo do indivíduo (que decorre em mau funcionamento ou patologia). entre seus pares. em parte. pai. a normalização e a sujeição de todos os indivíduos ao sistema coercitivo de normas e regras sociais. 2001). filho. desta maneira. 2005 ed. a instituição e o sujeito psicológico (próprio e condicionado pelo pensamento reflexivo). a produção – no que nos interessa mais diretamente..

É uma ciência que se afirma na genealogia de sua própria história sem questionar os pressupostos discursivos que garantiriam o objeto de saber. mas do ponto de vista arqueológico. é “ilusão supor que a ciência se enraíza na plenitude de uma experiência concreta e vivida” (p. por si só (como é o caso da matemática). estatística ou interpretativa) dos fatos de opinião” (p. inerente a uma doxologia que.psicologia praticada numa variedade de lugares como. se aparentam fazer ciência. o enunciado da psicologia do . o que não determina a transmutação do saber psicológico. instituições. como vimos. não a partir de um rigor formal que. 116). clínicas. é a mera “descrição (sociológica ou linguística. Foucault (1968/2005) denomina de ilusão formalizadora. a psique. ao se apropriarem de métodos e discursos científicos. para Foucault. já apresentados e debatidos no artigo Discursos Selvagem-disciplinados. linguagem solene e formalmente rigorosa não faz com que a psicologia preencha os pressupostos dos limiares de cientificidade e de formalização. 114) que. na verdade. qualitativos e empíricos. a ilusão formalizadora da psicologia advém do fato de sustentar sua pretensa cientificidade na experiência das subdisciplinas que a constitui. mesmo que todas não preencham plenamente os pressupostos que se esperam de uma ciência. em ciência psicológica. imprecisão epistêmica da psicologia. equivocadamente considera bastar para seu reconhecimento científico. A linguagem empolada. como científico ou não. laboratórios. o que está em jogo é a sustentação da psicologia como ciência. Mas a psicologia surge enquanto conjunto de discursos sobre a psique humana que se legitimam ao se remeterem mutuamente aos contrapontos de suas próprias abordagens. Para Foucault. não o são.

mistura confusa do idêntico e do novo) pela análise das transformações na sua especificidade” (p.sujeito não se aplica apenas à dinâmica interna dos saberes psicológicos enquanto estudos sobre o indivíduo. pressupõe que o sujeito psicológico seja apreendido como espontânea emergência de uma história universal contínua e linear do homem enquanto ser naturalizado. estruturais e a-históricas. constituiriam nossos corpos e almas. em articulação à abordagem psicologizante de um eu soberano. reafirmando a . mas também enquanto pressuposição psicologizadora. por sua vez. referida ao processo de produção do próprio campo epistêmico da psicologia como um todo. elemento abstrato. De maneira geral. White declara que este é um grande movimento para os fundamentos da existência do homem sobre terra. sob a ótica de Foucault. produtor das verdades psis. os quais. Esse modo de pensar-e-estar-no-mundo é o que nos instiga na geografia. levando um tempo.. mas sim. O pensamento whitiano é mesmo de unidade fundamental entre o ser e matéria. Foucault (1968/1972) nos ensina que não podemos reduzir a produção dos saberes em geral ao tema de um “devir (forma geral. causa primeira e efeito universal. os saberes psis. 1994. [. Juntos. visibilidades produzidas pelos discursos em geral. não submetido à história dos discursos. Destacamos que estes. 62). Com ele caminho para extrair das paisagens e dos lugares a essência da geográfica. No texto inaugural da geopoética. não seriam materialidades também naturais. dentre eles. O poeta escocês nas suas caminhadas extrai das paisagens e dos lugares a essência da geopoética. no sentido pleno da palavra” (WHITE. VER: Geopoética: “A vida do nômade é o intermezzo” “relação sensível e inteligente com a terra”..] O trabalho geopoetico visa explorar caminhos desta relação sensível e inteligente com a terra. “Um mundo é o que surge da relação entre o ser humano e a terra. 25). p. talvez uma cultura. Esta geografia que se põe a sair para explorar o mundo pelo pensamento poético. Esta geografia que vê o mundo como uma poética – uma poética do mundo. Não há natureza do homem natural.

etc. que se tornam o objetivo do governo como tal. O estado governamental emergiu não como uma nova face para a incessante luta entre o poder e a autodeterminação. Gregário e identidade em Nietzsche e AE Ver livro de Klossowski e dicionário nit . Com esta revelação (de geopoeta) encerro esta escrita (de geógrafo) em vista de uma aproximação desta “ciência-arte” chamada geopoética (WHITE. O espírito nomada. (FOUCAULT. entre “a autoridade e a agência”. mas como um amálgama circunstancialmente específico de instrumentos políticos que sustentavam objetivos altamente particulares para o exercício do domínio. p. pois. mas uma maquinaria historicamente específica de administração social que emergiu na Europa nos séculos XVII e XVIII. que o povo tenha os meios suficientes de subsistência.kilibro. p. mas a um fim que é “conveniente” para cada uma das coisas que devem ser governadas. 95)” governo não é uma instância de poder em geral. o governo terá que assegurar que a maior quantidade possível de riqueza seja produzida. 1994. p. http://www. como pretenderiam os textos dos juristas. 1997. Há toda uma série de finalidades específicas. Nomadismo Geopoetico e intelectual compartilha um propósito tanto existencial e intelectual: “O desenvolvimento de um pensamento que vem do contato profundo com o mundo à nossa volta” (WHITE. A “governamentaldiade” em inglês. 86.com/books/9729250251/o-espirito-nomada Governo “O governo é definido como a forma correta de dispor das coisas de modo a levar não à forma do bem comum. Isto implica uma pluralidade de objetivos específicos: por exemplo. que a população seja capaz de se multiplicar. 197).geopoética com o pensamento nômade.

mediocre? (KLOSSOWSKI. es decir. pois é impessoal). em prol da conservação da espécie em torno de um determinado estado de coisas ao qual é imprescindível a retomada de signos específicos no indivíduo – sua codificação identitária. VER: . O que permanece incomunicável (organicamente. temos os sintomas de morbidez junto aos signos gregarismo. ele é irreversível) é colocado de lado pela norma. O gregarismo instaura a comunicabilidade na equivalência (codificação despótica) e o jugo da expressão linguageira em prol da duração do rebanho. ¿O acaso la sumisión a esa norma es el resultado de un proceso de debilitamiento de lo singular.A conformação. 83) Perguntamos que tipo de experiência dá acesso às singularidades e ao plano de forças constitutivo? De um lado. já o mundo é infinito em sua causa (que é Deus) e constitui a prova cosmológica da existencia de Deus. Deus é o que garante a identidade do homem com seu projeto divino e consigo mesmo. sob a forma do gregário. una lenta equiparación de fuerzas excedentes hasta que su disminución culmina en un compromiso que conformará el tipo representativo medio. Fazem com que o real da vida concreta seja desatualizado da sua dimensão singular. A natureza aparece no lugar de deus. a boa formação gregária somente é possível àquele que é são e soberano sobre si. Deus é o infinito por si mesmo. a prova físico teleológica corresponde aos homens e Àscoisas do mundo. O instinto gregário é condição que dá corpo à boa formação. NCV??. não-moldável (em sua característica qualitativa. a saúde como produto do atravessamento das singularidades. infinitamente perfeito em si memso. cuja finitude é dada na realidade de sua exitencia entre limites DELEUZE F3. é prova ontologicamente sua própria existência. p. A inteligibilidade é uma exigência das instituições gregárias. de outro.

em verbos infinitivos que não são indiferenciados. É a hecceidade que tem necessidade desse tipo de enunciação. a diferença. afetos ativos e passivos. elabora o conceito de heterotopia para mostrar que o espaço do outro foi esquecido pela cultura ocidental. HECCEIDADE = ACONTECIMENTO. Já a palavra topia significa lugar. Heterotopia. p. o empreendimento filosófico de Foucault foi . intensidades. ele é aquilo.. Em seu passeio. a multiplicidade. viver dessa maneira. considerada por Duns Scot como a realidade última. mas constituem devires ou processos. ele é isso. em nomes próprios que não designam pessoas. Então. ou. Em busca do uno. É uma questão de vida. às quais correspondem um poder de afetar e ser afetado. mas marcam acontecimentos. do universal e do mesmo. compreende o indivíduo como detentor de uma essência singular irredutível à essência universal e específica “As hecceidades são apenas graus de potência que se compõem. heterotopia significa o espaço do outro. no texto Outros Espaços. a heroína de Virginia Woolf estende-se como uma lâmina através de todas as coisas. e. antes. olha de fora. A palavra heterotopia é composta do prefixo heteros que tem origem do grego e significa o diferente e está ligada a palavra alter (o outro)..Hecceidades hecceidade: A hecceidade. mas não indeterminados. com a impressão de que é perigoso viver até mesmo um único dia ("nunca mais direi: sou isso ou aquilo. sobre tal plano:” (Conv. a razão ocidental afastou o outro."). segundo tal plano. espaço. Mas o próprio passeio é uma hecceidade. Deste modo. 75) VER: Heterotopia Michel Foucault. São as hecceidades que se exprimem nos artigos e pronomes indefinidos. no entanto.

se refere a lugares reais. in: Ditos e escritos III . Já a segunda. do fundo desse espaço virtual que está do outro lado do espelho. o espelho funciona como uma heterotopia no sentido que ele torna esse lugar que ocupo. etc. para ser percebida. a sociedade produz heterotopias. 416) "Acredito que entre as utopias e estes posicionamentos absolutamente outros. Ainda. que seria o espelho. haveria. p. menos como uma grande via que se desenvolveria através dos tempos do que como uma rede que religa pontos e que entrecruza sua trama”. pois é um lugar sem lugar. o corpo. é uma utopia. No texto. p. São nestes espaços que para Foucault estão contidos os conflitos e tensões que se exercem pelas relações de poder de uma sociedade determinada. as heterotopias. eu estou lá longe. “essas heterotopias de crise hoje desaparecem e são substituídas. a escola.Estética: Literatura e pintura. […] Estamos em um momento em que o mundo se experimenta. sem lugar fixo. uma espécie de efeito retroativo. 415. ou seja. Mas é igualmente uma heterotopia. mas que estão fora dos lugares aceitos (o mesmo). e absolutamente irreal. estudou espaços onde se exerciam relações de poder com vistas a objetivação do mesmo. em relação com todo o espaço que o envolve. sem dúvida. ao mesmo tempo absolutamente real. onde a vida é comandada por espaços sacralizados. é a partir do espelho que me descubro ausente no lugar em que estou porque eu me vejo lá longe. Michel. e que tem. no lugar que ocupo. afinal. No livro As Palavras e as Coisas. Também. em um espaço irreal que se abre virtualmente atrás da superfície. eu retorno a mim mesmo e a me constituir ali onde estou. aqueles comportamentos que estão fora do que a sociedade aceita e impõe as condutas. a passar por aquele ponto virtual que está lá longe. Michel Foucault apresenta a noção de . música e cinema. O espelho. acredito.resgatar os espaços do outro. uma espécie de experiência mista. A partir desse olhar que de qualquer forma se dirige para mim. a sexualidade. lá onde não estou. como: as prisões. A primeira. eu me vejo lá onde não estou. No espelho. no momento em que me olho no espelho. as clínicas psiquiátricas” (1984/2001. Foucault pensa o espaço como uma forma de relação de posições. chama estes outros lugares com a denominação de heterotopia de desvio. mediana." FOUCAULT. Rio de Janeiro: Forense Universitária. São as casas de repouso. acredito. que me permite me olhar lá onde estou ausente: utopia do espelho. Para o autor. diz respeito a lugares que não são reais. onde o exercício do poder pela racionalidade ocidental buscou suprimir pela busca do espaço do mesmo. "Outros espaços". na medida em que o espelho existe realmente. 2001. a loucura. diferencia utopia de heterotopia. Por isso. “A época atual seria talvez de preferência a época do espaço. por heterotopias que se poderia chamar de desvio: aquela na qual se localiza os indivíduos cujo comportamento desvia em relação à média ou à norma exigida. uma espécie de sombra que me dá a mim mesmo minha própria visibilidade. já que ela é obrigada.

desde a raiz. menos manifesta. porque impedem de nomear isto e aquilo. emaranham a superfície objetiva da linguagem e desorganizam as relações entre as palavras e as coisas. criado para habitar um mundo. mas um espaço outro. o argentino Macedonio Fernández (1874-1952) e o uruguaio Felisberto Hernández (1902. para trazer à tona a discussão sobre elementos caros à modernidade que experimentavam. contestam. estancam as palavras nelas próprias. o lugar nenhum da experiência do vivo –. algumas vezes. toda possibilidade de gramática. ou o limbo. XIII) É como a terceira margem. porém. 2000.) as heterotopias (encontradas tão freqüentemente em Borges) dessecam o propósito. das noções. e não somente aquela que constrói as frases — aquela. não a morte – não-lugar. sem dúvida porque solapam secretamente a linguagem. desfazem os mitos e imprimem esterilidade ao lirismo das frases. Sua especificidade consiste em provocar a inquietação a partir do deslizamento intencional dos nomes em relação às coisas nomeadas. que autoriza “manter juntos” (ao lado e em frente umas das outras) as palavras e as coisas. o que o indivíduo passa em nossa cultura é a derrocada do liame de sua morte – como aparece na ética da modernidade que Foucault (2000) encontra na figura paradigmática de Hölderlin.O??) Hölderlin Longe de experimentar a origem ou a certeza. insólita. (. As heterotopias. As heterotopias inquietam. porque fracionam os nomes comuns ou os emaranham. quanto à de distopia. (FOUCAULT. O pai enlouqueceu? Ver: PC sobre a desordem que abre para outras ordens mil RESUMO OUTROS ESPAÇOS...1964). ao mesmo tempo. Partindo dessa noção apresentada por Foucault – e posteriormente trabalhada por Jacques Rancière em A Partilha do Sensível – propõe-se a abordagem dos textos literários de dois autores do Rio da Prata. deslize que possibilita a organização ou reorganização inusitada e. A análise dos textos literários pretende mostrar como esses dois escritores do início do século XX lançaram mão de artifícios heterotópicos para reclamar pela autonomia da linguagem poética e. p. Albuquerque (2013 M. redenção do sofrimento e da contradição da vida . segundo Foucault.heterotopia como um fenômeno da linguagem cujo efeito se contrapõe tanto à ideia de utopia. porque arruínam de antemão a “sintaxe”.

A linguagem solta. como signo sem sentido em sua busca acompanhar a gênese do sentido. 147). mientras que por efecto de la Amistad. todo es destruido y dividido. p. J. 92) Artigo Gali sobe Hölderlin (Édipo em mim: uma discussão sobre a subjetivação nos limites do trágico): excesso. p. Uma outra experiência que não a do homem moderno se aproxima com Hölderlin. onde a tékhnê instalou a denominação de sua vontade. livre e desbaratada das regras de representação. é por excelência o religioso (Courtine. onde cresce o deserto. 1974. Acolher o paradoxo e o fragmentário. é lapidar o nome de Hölderlin em As palavras e as coisas de Foucault (2000). de maneira que não se trata aí de um fechamento nem de uma curva. ao mesmo tempo liberadas num gesto que. que descobre o vazio do tempo puro e. p. Entre o orgânico e o inorgânico. Corte profundo com a função significativa e representativa da linguagem. acolhimento em si de partes antagônicas. [[Schmid ver]] Ética trágica: mas somente em Hölderlin. 146) “«por efecto del Odio. das pretensões de equivalência. Hölderlin via nesta forma do tempo a essência do trágico ou a aventura de Édipo como um instinto de morte com figuras complementares (DELEUZE. lá onde os deuses se evadiram. Homem Superior . p. há a questão da oposição entre o amor e o ódio como instâncias de constituição e dissolução das mesclas. mas antes dessa brecha incessante que libera a origem na medida mesma de seu recuo. 60).No nome de Hölderlin aparece ao lado da autonomia da linguagem que forma como que um contradiscurso em Foucault (2000. nesse vazio. para um Hölderlin. (2000 o homem aparece como signo sem interpretação. das misturas em Rosset (1974. o extremo é então o mais próximo (2000. conflito. o afastamento contínuo do divino. retoma aquilo que ficara oculto desde o século XVI. relação com tragicômico. 2002. sobre o tema. a rachadura prolongada do Eu e a paixão constitutiva do Eu. todo se reúne bajo la acción de un deseo recíproco»” (HÖLDERLIN apud ROSSET. p.-F. 461).

de plenos poderes. ali onde os territorios tremem au as arquiteturas desmoronam. ao acabamento. atinge o maior grau de elevação. mas se são constrangidos a fazê-lo. 137) Trata-se do espírito de pesadume contra o qual brada Zaratustra (NIETZSCHE. dispor e traduzir em realidade as suas criações. onde se desprende urn poderoso can to da Ter~a. Figuram-se as coisas necessárias como um dever. da necessidade de vigilância (por isso o fio). os seus sentimentos de liberdade. superar as alienações. ABB??. como algo lépido. “Dioniso ensina a leveza que torna evidente que as supostas afirmações do homem superior são resultados do ressentimento. 115) em O mistério de Ariadne. transformação. realizar o homem total. Os artistas neste sentido já têm o faro mais aguçado. Este homem não afirma nada. considera a vida como ligeireza. e afim à dança. cujo modelo é Teseu. que asseguram a viagem e a conquista da saída do labirinto. o homem do conhecimento. “Para que a musica se libere sera preciso passar para 0 outro lad0. de penoso e freqüentemente "digno do suor de homens melhores" mas jamais. onde as etas se misturam. o artista. divino. CC??. 0 grande ritornelo que transmuta todas as . p. fazer do homem uma potência que afirma e que se afirma” (DELEUZE. de doentio. de refinamento. Pretende recuperar todas as propriedades do homem. desapego. não é grego ““Prólogo” de A gaia ciência: amantes das dobras. risco. a necessidade se confunde numa única coisa com o "livre arbítrio". em resumo. pôr o homem no lugar de Deus. quando não podem fazer algo. de predispor. à qual se é constrangido necessariamente e o próprio pensar aparece como algo de lento. como argumentação penosa. s/d) ao propor fazer a terra leve e alçar a pesadume do homem superior ao voo da ave que ama a si mesma (e não busca ou leva o amor para fora de si) e a seu destino e à mão leve do louco que borra e rabisca. p. sabem precisamente quando algo não está à sua altura. Vontade de domínio e de conquista que se opõe a Dioniso. das superfície” Teseu conhece mapas e fios. (NIEZTCHE.“O homem superior pretende levar a humanidade à perfeição. da pele. O homem superior é pleno em ressentimento (o peso que carrega pesadamente como um fardo). da má consciência” O homem superior. ao entusiasmo juvenil! "Pensar" e tomar algo a "sério" com "gravidade" para aqueles é uma única coisa e isto lhes é ensinado pela própria experiência.

VER: moral. até mesmo nas margens. Os homens superiores são decadentes. embora tenham sabido experimentar “a grande náusea”: o adivinho. o feiticeiro. esses homens superiores fugirão frente ao signo do leão (Nietzsche.toadas que leva consigo e faz retornarl5. antropologia Imagem do saber e do conhecimento Enfim. como discípulos. até mesmo localmente. 244). O inverso é também interessante: como o pensamento pode abalar seu modelo. ao final da obra. mas. p. fazer brotar sua grama. Dioniso já não conhece outra arquitetura senão a dos percursos e trajetos” homens superiores aparecem na quarta parte de Assim falou Zaratustra. “o consciencioso do espírito”. En última consecuencia. A partir de Humano. Lo que me estorba es mi enemigo: el que es mi enemigo debe ser estorbado para que no estorbe. 325-328) e revelar-se-ão incapazes de rir.. um arremedo do Jesus histórico o homem é incapaz de dessubjetivação. o mendigo voluntário. imperceptivelmente: . p. pregador da doutrina que diz “Tudo é igual. o impessoal lhe aterroriza. e são aqueles que “sabem” da morte de Deus e o que ela significa. é a imagem do saber – como lugar de verdade e a verdade como sancionando respostas ou soluções para questões e problemas supostamente "dados". entonces transforma el mundo rigurosamente en un campo para sus luchas de supervivencia. Por isso. o Papa. o mundo não tem sentido” (Idem. Combate contra: Sloterdijk (CRC. depreciadores das democracias. p../d. tão parecido com Wagner. modo de ser do cientista superespecializado. os dois reis. ibid. demasiado humano. Zaratustra põe suas esperanças neles. s. nada vale a pena. esta voluntad de protección significa la disposición a aniquilar a los otros o a «lo otro». 506) “Si a priori el sujetó es lo que no puede morir. aposentado depois da morte de Deus. a qual é atribuída ao “mais feio dos homens”. o humanismo é alvo da crítica nietzschiana.

Deleuze desarrolla una filosofía de la diferencia. a tolice. cada faculdade ao limite de sua discordância com as outras. 4º) que não tivessem que lutar contra o erro. ao contrário. 3º) que não se fechassem sobre a recognição. ou como aquilo que interior ou próprio ao sujeito o envolve Para Husserl a chamada percepção imanente consiste na percepção que a consciência é capaz a respeito das próprias experiências vividas: imanente à medida em que o objeto pertence à mesma corrente de consciência a que pertence a percepção . una realidad trascendente explicativo. mas se abrissem a encontros e se definissem sempre em função de um De fora. mas que viessem de uma violência sofrida pelo pensamento. o cuidado de "colocar" questões ou de "criar" problemas [[por que filosofia da diferença?? Deleuze (1968) se hace cargo en Diferencia y repetición. donde se precedió a la diferencia y se opondría a la verdad absoluta.” Como espírito. apoyados por la perspectiva de identidad. destacando el problema de las multiplicidades y singularidades. e que não deixassem a ninguém. sí. 5º) que se definissem no movimento de aprender e não no resultado de saber. mas tivessem que se livrar de um inimigo mais interior e mais poderoso. esa diferencia no depende de los conceptos de una filosofía de la representación. atividade que tem fim em si mesma em seu próprio campo. 2º) que não se exercessem em uma concórdia das faculdades.1º) Pensamentos que não procedessem de uma boa natureza e de uma boa vontade. Imanência O ser imanente surge de suas próprias forças e produz seu próprio campo. como una crítica a impasse estructuralismo que se refiere a la imagen representativa del pensamiento. Que permanece no agente. fazendo parte da-substância de uma coisa. es decir. mas levassem. não subsiste fora dessa coisa. una serie de cuestiones que son producidos por el plan del pensamiento estructuralista. a poder algum. “de imanente como tudo que.

” (ZOURABICHVILI. 50) (. Tornou-se indiferente falar em um ou outro estilo: a ontologia do virtual ou das singularidade não é nada mais que a ferramenta de descrição da experiência "real". podemos dizer que sim. atribui ao adjetivo "imanente" a característica do idealismo absoluto. de que o sujeito. Dialética. significa limitação do emprego de certos princípios ao domínio da experiência possível. é evidente a analogia desse significado com o de Spinoza. 8390. para o qual nada existe fora do Eu.) simplesmente a imanência é oriunda das fronteiras do sujeito. produção imanente que surge em suas próprias forças e produz seu próprio campo. Intr. e renúncia a estendê-los além dele. 110. ali produção e o próprio sentido acontecem independente e anteriormente a qualquer consciência. ai. Contudo. o campo transcendental é a superfície inconsciente de produção imanente de sentido. 28) . “Deleuze pode então voltar a Bergson e ler o início do primeiro capítulo de Materia e memória como a instauração de tal plano de imanência (IM. I. derivado e nômade. Schelling. percorre os graus (lógica da disjunção inclusa . Deleuze (1985) em define o plano de imanência em A imagem-movimento como o plano do movimento. ver PLANO DE IMANÊNCIA).Kant faz do adjetivo. R.. é a inclusão de toda a realidade no Eu (ou Absoluto ou Consciência) “Ora.sobre essa conversão.. § 40). QPh. Prol. para quem a ação de Deus é imanente porque não vai além de Deus. O movimento seria inconsciente? Mais que no modo substantivo empregado com originalidade nos escritos freudianos além da negação da consciência. p. mundo e linguagem são constituídos por singularidades e se distinguem na e pela superfície que é imanência. permanecendo como agente numa atividade que envolve a si mesma e a seu próprio campo. I. IT. Nesse sentido. contrapondose.. aos princípios "transcendentes".” O sentido se dá de maneira imanente ao plano transcendental. chamando de imanentes "os princípios cuja aplicação se tem em tudo e por tudo dentro dos limites da experiência possível". cf. 2004. portanto. Pura. que ultrapassam esses limites (Crít. Nesse sentido. enquanto o em-si não é senão aquele da diferença. e sobre a intuição.

tantum. La comunidade desobrada). O homem se faz na colateralidade (ser-com) as forças do fora. [como uma dobra que se efetua no real e em sua materialidade] exemplificada pelo desconcertante I ´d prefer not to que repete o escrivão Bartebly. Na abertura desta fenda é que se revela natureza humana patível e compatível à ordem desterradora do acontecimento. coordenar e impor direção] Para além da aliança remota e abstrata de indivíduos numa sociedade. de afetação pelas singularidades. “Nesse sentido.Impessoal/on O on. ser afetado. 2000. um homo natural. à beira da fenda. o humano é dinamis e potência articulada necessariamente com as forças inorgânicas. NANCY. numa comunidade. do abismo” (SCHERÉR. om. 2011). visto que . quando a linguagem falta ou quando um vazio se abre nele e a gente – On – se mantém no limite. não-humanas que o constituem – constituem inclusive ao sujeito da modernidade (DELEUZE. p. O louco reflete um caos inarticulado somente perante a imutabilidade. resistir. [o sujeito só pode ser-com o acontecimento. a não-plasticidade (seria mais preciso) das normas sociais e linguísticas e do capital substancial do homem. 35). tal como se desenha em nossa cultura (cf. na associação com estas forças que não são outra cosia que as forças do fora. O on impessoal (como caracteriza Deleuze e que coincide com nós de Deligny) se distingue racialmente da conjugação de indivíduos em uma consciência coletiva ou em uma cultura – instâncias que escorraçam a loucura para fora de seus limites. 2014). A experimentação de tal natureza humana em constante devir funciona como as experiências limite que Deleuze encontra na literatura norte-americana. para além da generalização pronominal alça a um sentido implicado que extrapola o pronominal para alcançar a dimensão humana impessoal – Homo. há de fato uma natureza humana. No entanto. dobrar – agregar. on. afetar. como uma vida em devir. e inflexibilidade. tal como tomado como paradigma de existência desde a modernidade. do conto de Melville (DELEUZE. Sentido implicado com o quê? Fundamentalmente com um “ser-com” [dimensão pática.

Persistindo no recurso de examinar as páginas de um atlas. 479 Talvez seja esse o sentido da palavra anteojo. p. Discordando da verdade tautológica dos minimalistas.1904. é a partir deste problema que Didi-Hubermann articula a legibilidade da imagem como algo que se impõe um diante e um dentro da relação corpo-espaço. mas que também aparece como um encontro. anteojo diria Borges problematizando o visível. neste item comparece a coletânea de contos publicada por Virgílio Várzea no mesmo ano da morte materna. reconhecendo na literatura um espaço de afecções e impossibilias. 246) em A inelutável cisão do ver. espaço como carne e proximidade na distância a clave da substância artística como da subjetividade sedentária. (SCHERÉR. Em todo o caso. reconhecendo a temática da perda e da ausência como uma questão de lugar Ocorre que a impossibilidade de Hemingway é também uma questão de impossibilia ou adynata. posto que proximidade é também distância. questão do que atravessa o olhar e que se coloca entre diante e dentro da relação corpo-espaço. os latinos chamavam adynata a figura de retórica cujo sentido remetia também ao de impossibilia. quando as distâncias objetivas sucumbem. O desconcerto se deve ao caráter inumano da singularidade de Bartebly que descentra nossas instituições demasiadamente humanas. . o que nos olha. o acontecimento não se encontra nas malhas da causalidade. isto é. não relação. In: O que vemos. o historiador francês afirma o espaço menos como uma categoria ideal de entendimento e mais como algo que portamos diretamente na carne. figura de linguagem que remete ao desejo e à impossibilidade de dizer.este não tem sujeito ou agente. que não só constitui o mundo. como diria Didi-Huberman (1998. descentrando a linguagem de seu papel de regulador das relações humanas. Homo Tantum) CC – “O que dizem as crianças”: crítica ao familiarismo VER Deleuze 1976 E Blanchot (Parte do fogo) artigo sobre kafka Impossibilia em Didi-Huberman. Ali a comunicação que precede a coesão e a conjugação em torno de uma cultura e uma linguagem partilhada se encontra descentrada. usada por Borges em diversos de seus textos. ] O desconcerto se deve ao fato desta simples sentença desativar os atos de fala.

por uma seriação deles. Produção de ind em ´serie. a individualização consiste (FOUCAULT. FUERZAS E INCONSCIENTE DEL TIEMPO 9 2 LA TRAGEDL'\ DE LA CULTURA: WARBURG CON NIE17.l.SCUf•: 127 COREOGRAfÍA DK LAS INTENSIDADES: LA NINFA. loucura provém do fato de estar alienado a forças que muito embora internas a ele mesmo. Da qual se retira a qualitativa. EL DEBATE 224 CONrRUCCIONES EN L'\ LOCURA 328 Individualização Ver voc Foucault (1990) trata a individualização: a partir da racionalidade politica moderna se assenta num eixoindividualizante (poder pastoral – norma ideal. cada saber-poder tem sua especificidade. como deve ser) e noutro totalizante (razão de estado – estatística) Longe de se opor ao poder. Constitui a gramatica moderna produzir corpos dóceis e úteis. desencadeiam um pathos patológico – .. DRSEO. Em outras palavras. F. 1974/2012) Individualização:>> visa gestão pop Controle e Aumento da potência produtiva assentadas na observação do corpo nos detalhes de sua organização interna visando o aumento de sua força econômica e a diminuição de sua força política desterritorializa o dionisíaco como força formatação apolínea. dominam suas ações e pensamentos. trata-se de produzir por seriação e individualização sujeitos normalizados na individualização das técnicas. compartimentação. Seriação é isso.FORMAS. de subsunção do fragmentário e transbordante.

mas mediante a inscrição mesma do sujeito em seus laços lá no final: mecanizada . o poder se exerce sobre a alma do sujeito. FOUCAULT. Não mais um ind no corpo do soberano. individualização sob os auspícios da sujeição às normas sociais Associando a vigilância piramidal dos olhares ao controle individualizante naquilo que a atividade psiquiátrica se resume basicamente em administrar os indivíduos e centralizar a individulização sob a autoridade sistemática do médico (FOUCAULT. que é secundária. Em seu seio. Contra e frente o multiplicidade constitutivamente qualitativa. 1977. que se assenta sobre os bons usos da liberdade poder global investe o individualizante. mas vários ind sobre os quais são aplicados o poder. -----// Referindo-se à legislação penal e à penalidade em geral. A disciplina não é outra coisa que esta eficácia da anatomia política do corpo tornado útil na medida de sua docilidade. determinação gregária enquanto elemento do corpo populacional capturado pelos mecanismos do biopoder ou enquanto unidade somática individualizada pelos mecanismos de disciplinares e de controle que regem nossa cultura (cf. suas vidas investidas (1977) -Terceira parte de Vigiar e punir (1977) coloca a disciplina em relação com as ciências humanas enquanto conjunto de técnicas de individualização assentadas na observação do corpo nos detalhes de sua organização interna visando o aumento de sua força econômica e e a diminuição de sua força política. institucional e tecnológica além da ressocialização do indivíduo – sua reinscrição no sistema econômico-produtivo –. o pensador francês de Vigiar e punir enaltece o investimento individualizante do sistema ortopédico centralizado de correção.paixões e imaginação desregradas – e embaçam as condições constitutivas e cognitivas adequadas à individualização moderna. No interior familiar – instância especializada de individualização através não tanto da vigilância. endereçando-o com uma instituição em particular e com um tipo específico de tecnologia normalizadora. 2006). atendem efetivamente aos desígnios de vigilância e controle relativamente permanente do indivíduo. Ambas as instâncias. 2002).

em relação ao tempo. pois. Monstro-acaso p. além disso. trata-se aqui de observar a maneira como ela experimenta a proximidade das coisas. entidade negada. ao projeto de escrever uma história da loucura na idade clássica. na história da loucura. a locuura como distanciamento da natureza. Produz monstros que não estão inscritos na natureza. pelo menos. [... convenção e instituição – a sobreposição da filosofia da physis pela do nomos – marca indelevelmente nossa cultura desde os século XVII. na virada do século XIX. ela tem. muito precisamente. ora. o limiar de uma modernidade de que ainda não saímos. definir é determinar uma natureza. também ela. “O que existe" é. mas essa alguma coisa não é nada. Nem o homem. sem nenhuma exceção. como ela estabelece o quadro de seus parentescos e a ordem segundo a qual é preciso percorrê-los. Ulisses é ninguém. Enquanto. nem a pedra. 165) o reino da infinitude e do acaso da subnatureza que produz eventualmente seus monstros. passados e por vir. tomando como seu ponto de partida o fim do Renascimento e encontrando. A substituição da ideia de natureza pela de costume. uma vez excluídos da existência todos os seres designados pelas palavras? Existe "alguma coisa". nenhuma natureza é. do que figura em todos os dicionários presentes.] A história da loucura seria a história do . como em eco. O estranho de freud. Nomear é definir. não se prende ao nome. Do igual (???) Vê-se que esta investigação responde um pouco. eu sou ninguém. Ulisses vencido é nada e ninguém vencido. Mas o que resta. nem a planta. nem o branco. se interrogava a maneira como uma cultura pôde colocar sob a forma maciça e geral a diferença que a limita. 166 era clássica reverbrando cultria antiga: Platão diz que se é sofista se deve negar tudo o que tem nome. as mesmas articulações. para ornar o ser. eu é nada. nem o odor são. .HL hsit diferente MC hist. nada.Infinitização Rosset (p.

p. menos ainda curar-se a si mesmo. “Tomei a mim mesmo em mãos. provoca um dilaceramento sem reconciliação onde o mundo é obrigado a interrogar-se” (FOUCAULT. uma questão sem resposta. 2000. a ser portanto excluído (para conjurar-lhe o perigo interior). p. e pressagiando o macabro. “A bela retidão que conduz o pensamento racional à análise da loucura como doença mental deve ser reinterpretada numa dimensão vertical. para alguém . muito mais que autorizados a questioná-la.Outro – daquilo que. o insano o desarma” infinitização Infinit Loucura crítica e vazio A obra de Artaud “uma obra abre um vazio. com suas viagens em busca do sol. para uma cultura. p. colocanos como responsáveis. com sua carta aos médicos-chefes dos asilos de loucos. Um ser tipicamente mórbido não pode ficar são. porque sem razão que delimite tal obra: “Saibamos portanto que somos responsáveis diante dela. um tempo de silêncio. p. Foucault (2000) utiliza o poeta alemão para designar o abismo. XXI-XXII). 1979. 21) assinala que “mas o que existe no riso do louco é que ele ri antes do riso da morte. a ser portanto distinguido por marcas e recolhido em identidades (Foucault. porque sem conhecimentos necessários. a vida abismal que se abre com a experimentação da loucura. com as imagens terríveis que lhe saltam aos olhos em Sierra Tarahumara. Vida e obra de Artaud se intercomunicam. 2000. encerrando-o porém (para reduzir-lhe a alteridade).. curei a mim mesmo: a condição para isso — qualquer fisiólogo admitirá — é ser no fundo sadio. Foucault (1979. de Artaud. p. 5. a objetivá-la ou a pedir-lhe as contas” (DERRIDA. é ao mesmo tempo disperso e aparentado. 1979. para uma cultura é ao mesmo tempo interior e estranho. p. Território correspondente ao personagem conceitual de Hölderlin em As palavras e as coisas. 8 devir louco o ilimitado sobe À superfície]]. LS. com seu questionamento ao uso do eletrochoque. e neste caso verifica-se que sob cada uma de suas formas ela oculta de uma maneira mais completa e também mais perigosa essa experiência trágica que tal retidão não conseguiu reduzir” (FOUCAULT. 67).). Responsáveis. com seus gritos lancinantes para acabar de vez com o julgamento de Deus. 1994. a história da ordem das coisas seria a história do Mesmo – daquilo que. Responsáveis. com suas análises acerca da obra de Van Gogh (suicidado pela sociedade). O que tem de ser capturado e colocado sob reclusão corresponde aos regimes de infinitização na modernidade [[ver Deleuze..

tipicamente são. Segundo o autor. EH??. Bataille invade a cena erótica associada ao sagrado. Ele e Bataile aparecem. Ação da síntese disjuntiva de registro que age sobre as forças conectivas de produção (a libido) sob a forma de . POLACK & SIVADON. Esta linguagem circular que a produz remete a ela mesma lançando-a até seus limites. segundo Foucault. essa morte “significou o desaparecimento de critérios ou princípios universais externos a que a linguagem deveria se adequar. de vida.. legitimamente como monstruosidades (cf. Sade surge como o primeiro literato a criar uma linguagem transgressora. se faz e se desfaz no excesso que a transgride” (PrefTR p. saboreei todas as boas e mesmo pequenas coisas. De fato. mas a um mundo que se desencadeia na experiência do limite. ela. p. assim me aparece agora aquele longo tempo de doença: descobri a vida e a mim mesmo como que de novo. A transgressão não vem do exterior. mais do que da sua identidade. 142).” história dos limites da cultura. Roberto lê em Foucault a relação entre esse limite e a transgressão. O capítulo “A morte” trata ainda das conseqüências da morte de Deus para a experiência da linguagem. incidir sobre uma superfície na qual se registra algo. e o mal é interpretado como possibilidade de fundamentação. 31). “não nos restitui a um mundo limitado e positivo. Inscrição Em AE é como um assentamento que se faz inscrever. depois da morte de Deus (Nietzsche). pois. da linguagem filosófica. sob o que ela define e relega como exterior a ela. ela reside no fora que se desenrola no próprio fluir da experiência. “Interrogar um cultura sobre suas experiências-limites é questioná-la.. nos confins da história. [[PrefTr) No capítulo “A morte”. como outros não as teriam sabido saborear — fiz da minha vontade de saúde. o estar enfermo pode ser até um enérgico estimulante ao viver. ao mais-viver. Neste 2º capítulo. a minha filosofia (NIETZSCHE. sobre um dilaceramento que é como o nascimento mesmo de sua história” (p. como autores representativos da experiência entre transgressão e linguagem. superfície que deve ser engendrada para que nela se inscrevam os sujeitos. ??) ou ilegitimamente sob a égide identitária. ao contrário. ressaltando o limite da morte e o da linguagem sem mediação divina. 15) limite no desvairar da linguagem.

constituindo um sistema de diferenças na totalidade dos traços neuronais (FCE). A síntese disjuntiva de registro vem.. o processo se prolonga em procedimento como procedimento de inscrição. O fonologismo não pode elucidá-lo Assim o diferir é alçado a operador fundamental da cena do psiquismo como cena de escritura responsável pela distribuição e produção de signos no campo da diferança. . p. marcada por traços diferenciais e portanto. não há salvaguarda para a natureza da inscrição que pode inscrever no tecido do real uma máquina paranoica edipianizada ou uma figura psiquiatrizada real do louco incapaz e doente. São os traços produzidos que constituem o psiquismo. De maneira que os estados de coisas não estão presentes num neurônio ou numa rede deles.. isto é. Como nada garante o uso legítimo da síntese. mas são espalhados e disseminados no psiquismo segundo uma rede complexa. através das redes neuronais. devemos dizer que uma parte dessa energia se transforma em energia de inscrição disjuntiva (Numen) (AE. Inscrição em Derrida A inscrição é o elemento gráfico de um sistema real. os trilhamentos e grades de contato constituem sistemas de diferança a partir da articulação entre a excitação que dissemina e as resistências que essas encontram para a descarga Toda inscrição é coletiva e contextual. de registro. uma injunção.”. 26). a constituição e produção de sentido são definidas pela rede de marcas escriturais (FCE) Derrida (este coloca a dimensão escriturária do ics em primeiro plano) se opõe ao Lacan de “Função e campo da fala. se denominarmos libido o “trabalho” conectivo da produção desejante. independentemente de seu uso legítimo. rede aberta e complexa de traços diferenciais. pois a psicanálise seria para este o campo da fala e da linguagem (se inscrevendo pela fala na tradição metafísica da voz). Inconsciente como um texto. pode ser que haja inscrições limitativas por exclusão. uma vontade espiritual.Numen. recobrir as sínteses conectivas de produção. portanto. Em última instância. O tecido da memória é que inscreve. Como processo de produção. de codificação. A alçada disjuntiva do registro inscreve a realidade. a inscrição como sinônimo de território. Ou melhor.

pcs e cs torna o aparelho psíquico não somente uma escritura. mas o coloca num processo permanente de reinscrição dos signos. pelo ics. que inscreve e dispõe os traços no espaço produzido pelo processos de diferir. Logo. A oposição sentido-força. Um signo que se inscreve na cena da escritura é transcrito e traduzido para outros registros. O espaço aí é coemergente ao traço. Freud associa a tradução à interpretação nuança de logocentrismo a ideia de presença permanece na fixidez do sentido a ser traduzido. o processo de diferir constitui redes de traços inscrevendo continua e simultaneamente os traços em diferentes registros. Logo. assim como int-ext é oriunda do logocentrismo (FCE e GRA pt. O espaçamento indica a temporalidade. Ali. . Os traços do psiquismo são construídos a partir do jogo das forças disseminadas e das resistências entre os âmbitos da força e do sentido (FCE). O que distingue o processo da escritura psíquica. sua especificidade. A trajetória do signo de percepção. O qual é a constituição da espacialidade e a disposição dos traços que ai se inscrevem. a temporalização se faz fundamental ao processo da posterioridade (FCE). Os processos do diferir e do engendramento de diferenças são produzidos pelo espaçamento.Os traços são forjados pelas forças que se disseminam e pelas resistências que encontram para circularem e se instaurarem e inscreverem na rede neuronal. O processo de diferir é constituído na textura dos espaçamentos e é produzida pela temporalização pautada pela posterioridade. Visto que o espaço se constitui e se realiza pela mediação do tempo A escritura é basicamente espaçamento. na operação do diferir (FCE). 1 cap 2 e 3). o sentido é constituído pelas diferenças e pelo diferir forjados entre as forças que se disseminam articuladas com as resistências que encontram na rede neuronal. é esta reinscrição permanente. constituindo assim outros espaçamentos incessantemente.

os homens instituem um mundo original entre suas pulsões. não raro como potência indiferenciada. frente à qual entendem e justificam sua existência e atuação enquanto ação civilizatória inaugurada e assentada sobre a força de limitação do contrato social. isto é. o sujeito retira os elementos de satisfação de suas tendências do meio respondendo naturalmente. como organismo e animal que é.VER: signo Instituição Num texto sobre Instintos e instituições. em contraponto. 20). a estímulos externos. Enquanto estes colocam o positivo fora do social (direitos naturais) e o social no negativo (limitação contratual). a instituição atua de forma a modular este corpo de acordo com suas normas e regulações. as instituições constituem sistemas organizados de meios colocados em funcionamento para satisfazer as necessidades e tendências. 1955/2006. No mundo específico de seus instintos e necessidades. p. . Outras vezes. e o meio exterior. Isto significa que os sistemas de leis há uma tendência natural positiva identificada como força perigosa e disruptiva e. elas instituem modelos positivos de ação ao passo que os sistemas de lei se restringem ao constrangimento e à limitação de ações. Este mundo institucionalizado é caracterizado pela produção de meios de satisfação artificiais que descontextualizam o organismo de uma natureza primeira ao introduzir a pulsão ou a tendência em um novo meio transformando-a de maneira essencial. a teoria da instituição põe o negativo fora do social (necessidades) para apresentar a sociedade como essencialmente positiva. Inflacionadas desde a modernidade. Deleuze (1955/2006) estabelece como condição para toda experiência subjetiva individual a existência prévia de um meio específico ou institucional no qual ela toma corpo para colocar a instituição ao lado do instinto como procedimentos de satisfação. suas tendências. localiza o negativo na necessidade como algo originariamente exterior ao social embora seja por ele transformada em potência positiva na invenção de meios de satisfação para estas formas então institucionalmente convertidas de necessidade. inventiva (meios originais de satisfação) (DELEUZE. Se recorrermos a Foucault (1977) podemos conjeturar que enquanto a lei atua diretamente sobre o corpo do homem (na forma de punição e no suplício). A instituição. Em nossa cultura.

mais ele se deixa reduzir unicamente ao jogo de fatores individuais internos e de circunstâncias exteriores. Quanto mais e ele perfectível.. Seu funcionamento não pode ser explicado pela tendência. ela nunca é satisfeita sem ser. Assim. A tendência deve ser transformada para ser indiretamente satisfeita no seio da instituição. entre hormônios e especificidade.” (DELEUZE. igualmente. uma vez que esta é transformada no curso da inscrição e tampouco por uma justificativa de utilidade. ao mesmo tempo. mais está ele submetido à variação. [. elas passam a integrar os fatores internos ao indivíduo de forma a modular e regrar as tendências. sublimadas pela modulação que fazem a apreensão institucional objetiva do sujeito.. quanto mais ele pertence a espécie. 1955/2006. A tendência é satisfeita por meios que não dependem dela. As tendências são . a instituição não se explica pela tendência. A atividade social da instituição engendra positivamente modos de circulação. p. imperfeito. Esta modulação do corpo do sujeito (em suas tendências e pulsões) condiciona os processos nos quais a instituição satisfaz as tendência. nem o geral explica o particular [. visto que a utilidade humana é derivada do próprio esquema de institucionalização.]Eis o paradoxo da sociedade: nos falamos de instituições quando nos encontramos diante de processos de satisfação que não são desencadeados e nem determinados pela tendência que neles está em vias de se satisfazer – assim como não são eles explicados pelas características da espécie. e transformada. Uma vez regrados os fatores individuais. à indecisão. portanto. regulações e. dobradas. onde ela convive com interdições e coerções. necessariamente transformadas. p. 22) se pergunta acerca dos modos de relacionamento e satisfação entre uma tendência e seu objeto para assegurar que quanto mais o instinto é perfeito em seu domínio. No cruzamento entre fatores fisiológicos que atuam a nível individual e a procriação da espécie. irredutível. Já a síntese própria às instituições inscreve as tendências num regime social a fim de antecipá-las. No caso.] Nem o negativo explica o positivo. coagida ou maltratada. da (trans)formação de tendências e pulsões partir da inscrição dos sujeitos em sua ordem.. este sistema sobrepõe suas instituições sobre os ditames da espécie. 1955/2006. Deleuze (DELEUZE.“Mas. sublimada. coagidas. a – mais ele dá lugar à inteligência e demais fatores de especificação individuais como hábito e reflexo. 21). Da mesma forma. e. mais ele parece constituir uma potência de síntese original. o instinto parece satisfazer de forma mais direta a tendência. existência e satisfação a partir de normas. se e verdade que a tendência se satisfaz na instituição..

subsunção da formação mais tenra da subjetividade à imagem seguido por um movimento que atraca o imaginário ao narcisismo. tais estruturas institucionais conferem um regime de inteligibilidade e previsão. a urgência da fome devém reivindicação de ter pão. Institucionalização Institucionalização: totalização por redução da loucura. de captura e apreensão dos sujeitos e sua ação no mundo. o instinto traduziria as urgências do animal. sequestro das potências produtivas Alienação: a pulsão de vida. Toda instituição impõe ao nosso corpo. Enquanto o instinto urge. as disjunções permanecem disjunções. abre-se sobre séries disjuntas. porque as séries não estão submetidas à condição da identidade de um conceito em geral e muito menos à instância que as percorre está submetida à identidade de um eu como indivíduo. a . mas somente meios sociais de satisfazer as tendências. a comunidade humana exige na forma de suas instituições. Reencontramos a seguinte conclusão: o homem não tem instintos. Não há tendências sociais. sendo já diferença em si. [[Problema da tradução-transformação em MP]] É neste sentido que Deleuze (1955/2006. ele faz instituições homem e um animal em vias de despojar-se da espécie. e a instituição as exigências do homem: no homem. Despotencialização. energia de ligação e união é recalcada Intensidade Intensidade A intensidade. p. ao contrário. mesmo em suas estruturas involuntárias. mas sua síntese deixa de ser exclusiva ou negativa para assumir. uma série de modelos. em suma. formação e funcionamento das quais não temos governo ou sequer consciência. 22-3) arremata ponderando que As instituições instituem meios sociais originais de satisfação das tendências moldando estruturas de resposta. como se um fosse a contrapartida necessária do outro. Em última instância. Entretanto. uma possibilidade de prever e de projetar. Do mesmo modo. meios que são originais porque eles são sociais. e dão a nossa inteligência um saber. instalando o indeterminado como inengendrado (ROUSSET). precisamente. VER: necessidade. divergentes. um sentido afirmativo pelo qual a instância móvel passa por todas as séries disjuntas. Mas.transformadas pelas instituições para que estas possam satisfazê-las segundo sua própria gramática e regulação.

Tem ela também o caráter paradoxal deste limite: ela é o insensível. a profundidade e a intensidade são o Mesmo. Uma pedagogia dos sentidos volta-se para este objetivo e integra o "transcendentalismo". 2000. a singularidade. O verdadeiro sujeito do eterno retorno e a intensidade. É a intensidade. porque está sempre recoberta por uma qualidade que a aliena ou que a «contraria". sem cessar de formar com elas disjunções. ao mesmo tempo. na medida em que ela faz sentir e. aquilo que só pode ser sentido. é a diferença na intensidade que constitui o limite próprio da sensibilidade. Apreender a intensidade. p. reflexão que o trai ao explicá-lo no extenso. o que não pode ser sentido. aquilo que define o exercício transcendente da sensibilidade. de uma outra maneira. ela é o que só pode ser sentido. desde que a singularidade se apreende como pré-individual. esta profundidade em si. como fortuita. ou experiências físicas como as da vertigem. 219) A intensidade é o insensível e. distribuída num extenso que a reverte e a anula. p. aquilo que só pode ser percebido (é neste sentido que Paliard disse ser ela. Intensidade e profundidade Deleuze (2002. ao invés de reparti-los em exclusões (DELEUZE. ao mesmo tempo. a do Ser consigo próprio na diferença. Mas. ao mesmo tempo. fora da identidade de um eu. condicionante e condicionada. mostrando também a existência de uma relação complementar inversa entre a distância como existência ideal e a distância como existência visual). o caráter dilacerante da intensidade. aproximam-se disso: elas nos revelam esta diferença em si. No ser. visto ser ela aquilo que faz sentir e que define o limite próprio da sensibilidade? A profundidade é o imperceptível e. desperta a memória e forca o pensamento. aliança que coloca cada faculdade diante de seu próprio limite e só deixa que as faculdades se comuniquem no extremo de suas respectivas solidões. isto é. Experiências farmacodinâmicas. daí a relação entre o eterno retorno como intencionalidade efetuada e a vontade de potência como intensidade aberta.divergência e a disjunção tornam-se objeto de afirmação como tais. . por isso. Da intensidade à profundidade já se trava a mais estranha aliança. esta intensidade em si no momento original em que ela não é mais qualificada nem extensa. independentemente do extenso ou antes da qualidade nos quais ela se desenvolve. A contrariedade qualitativa é apenas a reflexão do intenso. ela se comunica com todas as outras singularidades. mas passando por todos os termos disjuntos que afirma simultaneamente. 307-8). por mais frágil que seja seu grau. Então. Ora. independentemente das qualidades que a recobrem e do extenso em que ela se reparte? Mas como seria ela outra coisa que não "sentida". é o objeto de uma distorção dos sentidos. Como seria ela sentida por si mesma.

qual é essa sujeição que produz o homem e a alma. que é ela mesma uma peça no domínio exercido pelo poder sobre o corpo. valorizaram-se as reivindicacoes morais do humanismo. mas nasce antes de procedimentos de punição. diferentemente da alma representada pela teologia crista. a alma. O homem de que nos falam e que nos convidam a liberar já e em si mesmo o efeito de uma sujeição bem mais profunda que ele. Referindo-se ao século XIX. de vigilância. Questão das origens PC. os colonizados. Mas não devemos nos enganar: a alma.. 28-9). não nasce faltosa e merecedora de castigo. Já que não é a alma que produz o homem. p. p. sobre ela tecnicas e discursos cientificos foram edificados. de reflexao filosofica ou de intervencao tecnica. objeto de saber. 225). 2002. não foi substituída por um homem real. que. a engrenagem pela qual as relações de poder dão lugar a um saber possível. efeito e instrumento de uma anatomia política. Realidade histórica dessa alma.restitui-lhe seu verdadeiro sentido: não antecipação da percepção. vários conceitos foram construidos e campos de analise foram demarcados: psique. sobre os que são fixados a um aparelho de produção e controlados durante toda a existência. Sobre essa realidade-referência. mas limite próprio da sensibilidade. as crianças. Interioridade: alma e infantilização Não se deveria dizer que a alma e uma ilusão. é o elemento onde se articulam os efeitos de um certo tipo de poder e a referência de um saber. p. de castigo e de coacao. no interior do corpo pelo funcionamento de um poder que se exerce sobre os que são punidos de uma maneira mais geral sobre os que são vigiados. os escolares. etc. consciência. prisão do corpo (FOUCAULT. mas a confusão no interior de um regime moral único cujas técnicas tinham algumas um caráter de precaução social e outras um caráter de estratégia médica. Esta alma real e incorpórea não é absolutamente substância. mas afirmar que ela existe. 58) aponta que o essencial é que o asilo fundado na época de Pinel para o internamento não representa a "medicalização" de um espaço social de exclusão. . ilusão dos teólogos. na superfície. 1977. a partir dela. e o saber reconduz e reforça os efeitos de poder. Uma "alma" o habita e o leva à existência. ou um efeito ideológico. em torno. que é produzida permanentemente. do ponto de vista de um exercício transcendente (DELEUZE. A alma. sobre os loucos. subjetividade. personalidade. qual essa profundidade? É um poder que se exerce sobre o corpo – individualização. treinados e corrigidos. Foucault (1975. que tem uma realidade.

A constituição do homem moderno como duplo empírico-transcendental passa pela postulação da loucura. estrutura e significação psicológicos. de um lado a paralisia geral e de outro. O homem só se torna natureza para si mesmo na medida em que é capaz de loucura. se toda a psicopatologia — a que começa com Esquirol. p. ela inscreve-se doravante na dimensão da interioridade. mas a nossa também. pela primeira vez. e por isso. é a partir deste momento que a loucura deixou de ser considerada um fenômeno global relativo. encontra-se incontestavelmente aparentado com a criança. for comandada por estes três temas que definem sua problemática: relações da liberdade com o automatismo. a loucura tornou-se um fato que concerne essencialmente a alma humana. Ao passo que a primeira condiz à realidade profunda da loucura localizada no corpo. Desde Castro (2009. a insanidade moral (moral insanity) cumprindo papel preponderante na psiquiatria da primeira metade do século XIX. conseqüentemente. 286). como meio e instrumento de conhecimento da realidade e da verdade do homem. por intermédio da imaginação e do delíri o.Ora. 570). Ela está encerrada num sistema punitivo onde o louco. a loucura vai receber status. a segunda corresponde a uma loucura que se desenrola ao nível dos comportamentos irresponsáveis e violentos e não como comprometimento da razão e do entendimento. culpabilizada. pautam. sua culpa e liberdade. Assim a loucura se torna condição de objetivação do homem. ao mesmo tempo. Ambas desaguam na inculcam. acha-se originariamente ligada ao erro. enclaustram. o cérebro). A loucura é a forma mais pura. temos. O paradoxo da psicologia ‘positiva’ do século XIX é o de só ter sido possível a partir do momento da negatividade: psicologia da personalidade por uma . Não nos surpreendamos. p. numa lesão de um órgão (no caso. Esta. 1979. minorizado. e onde a loucura. agressão e culpa. é momento constitutivo no devir-objeto do homem (FOUCAULT. neste mundo da moral que castiga. No novo mundo asilar. como passagem espontânea para a objetividade. no mundo ocidental. fenômenos de regressão e estrutura infantil das condutas. Mas esta psicologização é apenas a conseqüência superficial de uma operação mais surda e situada num nível mais profundo — uma operação através da qual a loucura encontra-se inserida no sistema dos valores e das repressões morais. pontuam uma interioridade subjetiva desde uma forma de exterioridade. a forma principal e primeira do movimento com o qual a verdade do homem passa para o lado do objeto e se torna acessível a uma percepção científica. ao corpo e a alma.

518). Involuntário. ao qual se está preso por uma condição de compreensão da própria formação. Daí a constatação de Foucault (2006. p. ela só se manifesta quando já se tornou outra coisa que não ela mesma (FOUCAULT. a escritura contínua e o castigo virtual deram forma a esse corpo assim subjugado e extraíram dele uma psique. 1986). da linguagem pelas afasias. psicologia da memória pelas amnésias. sempre parcial e fragmentário relativo a um fenômeno. (2006. A verdade do homem só é dita no momento de seu desaparecimento. mais que formas de exterioridade Interpretação e avaliação A descoberta do verdadeiro é a empreitada nietzschiana que leva a cabo a interpretação e a avaliação como aponta Deleuze (1994. e o fato da instância normalizadora distribuir. excluir e retomar sem cessar esse corpo-psique serviu para caracterizá-lo. o subscreve sob a linguagem antropológica. recognição e a submissão o inscreve.análise do desdobramento. Posto isso. p. Os saberes não são. à sua subjetividade que Às correntes que trancavam o desarrazoado. 78) de que o indivíduo se constituiu na medida em que a vigilância ininterrupta. da inteligência pela debilidade mental. p. 78) Se forja uma interioridade. O saber são formas de exterioridade. Atividade do fisiólogo. Exercício de personalização e individualização de singularidades nômades. é hora de ressaltarmos que todo este capítulo trata tão somente das formas de apreensão e captura e dos saberes sobre a loucura. pois. 17) A interpretação fixa o sentido. Atividade do artista Interpretação: referir os discursos a outra coisa (FOUCAULT. assentadas na finitude. . o louco se vê mais densamente acorrentado a sua interioridade. médico. é o resultado desta dobra que tem como produto uma interioridade. [(Marton)]. sempre é um recorte de uma faixa do real. 1979. Ao passo que a avaliação determina o valor na hierarquia dos sentidos de modo a produzir e dar o efeito de totalização dos fragmentos. Considerar-se indivíduo prescinde do trabalho de uma consciência sobre si mesma. p.

No primeiro caso. o problema da linguagem se distende sobre a variedade de seus usos. 2015. decifrar os enigmas postos pelo relato ausente ou pelas ausências no relato. Assim o narrador se constitui como ser da passagem entre a morada e a aventura ou da passagem da ignorância ao conhecimento. . a lógica da ação e da vontade se impõem para tomar como chave o que acontece.. uma existência precária de forasteiro ou exilado na nostalgia de que algo foi perdido no seu isolamento.PC:fazer a linguagem falar por debaixo de si mesma. Ele pretende preencher as lacunas. Ver: Nietzsche e deleuze (nit) Linguagem Tradicionalmente assentado sobre o problema da significação a partir do uso cotidiano e da capacidade quase absurda de decifração de sentido.. “Poderíamos ver a história da narração como uma história da subjetividade. como a história da construção de um sujeito que se pensa a si mesmo a partir de um relato [. cujo protótipo podemos encontrar em Ulisses) ou como aquele que sabe narrar o que não está presente ou o incompreensível (o investigador ou adivinho prototípico de Tirésias). narrador da viagem. 248). ligar os pontos freudianamente. em sua errância. O narrador viajante é o nômade que está longe de casa e leva. Fazendo uma inflexão etimológica Piglia (2015) define o narrador desde sal designação como aquele que conhece outras dimensões e outros lugares. p. ao passo que para o narrador da investigação é a pergunta que estrutura sua investigação. Adorno (Dialética do iluminismo) aponta que a debilidade de Ulisses se soma À sua capacidade de defesa frente ao desconhecido. Já o narrador investigaor parte de um relato perdido ao qual toma como como tarefa reconstruir. porque já esteve neles (narrador de viagens.] A história da narração é também a história de como se construiu certa ideia de identidade” (PIGLIA.

a um projeto ou destino histórico. ela é contada como narrativa a cada vez que somos interpelados a apresentar-nos como sujeitos. vividas de modo único e transmitidas através da narração. A rota existencial do homem. podemos afirmar que a subjetivação tende à partilha da experiência singular do sujeito com alguma instância a ele exterior – uma instituição. Não há fundamento ou justificativa na viagem existencial. 243). p. transpostos a outra linguagem: não se trata de converter a experiência em língua individual à língua coletiva. a narratividade. ou uma variedade de coletividades quaisquer. ou a linguagem poética não é somente ter experienciado algo. Mediada pela linguagem. geralmente se partilha a subjetividade com um feixe de instâncias. sem restituição ou fidelidade ao vivido. Está sempre ameaçada pelo excesso de informação. Se consideramos a subjetividade um modo narrativo. Porém.[[Agamben. pela possibilidade de comunicar e de comunicação]] Não se trata de uma tradução ou uma transmissão de códigos. pois. corresponde. Ricardo Piglia (2015. corresponde à partilha das singularidades. como subjetividade constituída.dá um efeito de já dado. mas poder transmitir em forma de narratividade o experienciado e o experienciável que reside nas lacunas . Contar o que se vive em outro canto da existência. Viagem intensiva ao outro mundo na qual se lê signos (produzidos no encontro) para reconstruir (o re.A narração é um modo de partilha de experiências. 244) aproxima o uso poético da linguagem ao uso das ruas – no fora. outro indivíduo. biológico ou comunitário da existência. Apoiando-nos em Piglia (2015. onde se comunicam “modos de narrar que são comuns e estão simultaneamente presentes na alta literatura e na tradição popular” – onde a linguagem encontra o espaço e a paixão para criar uma língua a partir da experiência e da experimentação de singularidades vivenciais. mediada pela própria propriedade de falar. Viver a subjetividade do outro como algo pessoal consiste no que chamamos de implicação: estar implicado no relato e na subjetividade do outro na partilha da narração. “a narração é o contrário da simples informação. ser de sentido. p. a uma viagem trágica. podemos inferir que enquanto modo ligado à subjetivação. Não deixa de ser sugestivo que o escritor argentino coloque a viagem como uma das estruturas centrais da narração. porque a narração nos ajuda a incorporar a história em nossa própria vida e a vivê-la como algo pessoal”. não mais que efeito) uma realidade ausente. esta partilha já é irremediável e inegavelmente institucionalizada: não comunica uma experiência indiferenciada ou puramente individual.

o destino individual ou o projeto biográfico que expressa as singularidades. não uma apreensão esquadrinha a realidade. mais que isso. por isso a subjetividade é sempre provisória e inapreensível. o demonstrado. não se trata de conteúdos ou do que está sendo contado. de implicação na narração [[canto das sereias. do excesso de informação que sobrecodificação sobre a massa informe da experiência nos termos de Deleuze e Guattari (2011). Dimensão de construção da subjetividade como aquilo que se mostra. Destarte. . “Quem conta dá forma ao que narra. A sobrecodificação pode incorrer sobre a loucura na variedade de discursos a visam capturar e apreender. mas uma cartografia que se anti-define numa dinâmica processual cartográfica. os modos de trânsito e relacionamento instituídos e instituíveis. que é a aplicação de um código. 2015. não julga. A subjetividade narrativa encadeia os acontecimentos estabelecendo ordens e relações de causalidades. p. A maneira como se narra uma existência como dão as chaves dos modos de ser e coabitar o mundo. 244). Um olhar que cria realidade deixando lacunas com as quais os homens se implicam. Mostra e não diz”. nunca diz de maneira direta qual é o sentido e aí se define sua forma” (PIGLIA. A narração alude e desloca. Piglia (2015) coloca a questão em termos literários: a narração como colisão das histórias visíveis e das histórias que circulam com sentido múltiplo. não fecha a significação. é o modo que tem a narração de responder À realidade. A lógica da demonstração é distinta da informação. mas os modos de narrar. Um sujeito é apreendido diferentemente nas inúmeras instâncias e instituições nas quais transita. Piglia (2015. ela não constitui a fotografia de um mapa. porque está aberto. 245) ressalta que “em todo caso. p. não é o vivido. A narração é um modo de demonstração não de decifração. o artista como aquele que viu algo demasiado grande]]. O que é demonstrado? A dimensão monstruosa da confecção de nossa subjetividade a que fazem referência Jean-Claude Polack e Danielle Sivadon (2013). é um olhar. Como se vive as singularidades existenciais numa subjetividade enquanto narração? Ora.engendradoras de empatia e entrada e. A narração articula e encadeia algo que não está dado.

In: MONTEIRO. Toda língua permite – desde que seu vocabulário seja suficientemente grande – a expressão dos pensamentos mais claros e mais confusos. Conforme diz Malmberg: ‘Uma língua não é em si mesma nem mais clara. 241) aos quais somos convidados a narrar. mais abstratos e mais concretos'". em termos científicos.. embora seja inegável o fato de que seja atravessada de maneira determinante por eles em nossa cultura. Há. Na realidade.[[intro]]Não obstante. por exemplo. p. que o francês se distingue pela clareza ou que os textos de natureza filosófica são mais facilmente produzidos em alemão. Tudo isto é completamente absurdo: em termos científicos nada há que possa fundamentar a superioridade ou inferioridade de uma forma de falar em relação a outras. a linguagem é o eixo comum que atravessa todos os discursos de captura e apreensão da loucura. linguisticamente falando. não se pode afirmar. De modo análogo. Para compreender Labov. 2015. isto é apenas um julgamento social. Dobra da linguagem: VER o Quixote de Cervantes. Todos os dialetos são estruturados. pois não passam de preconceitos baseados em conotações que um traço particular possa ter. complexos. que são “registros vitais de nossa experiência” (PIGLIA. tais impressões parecem não ter fundamento. O que não significa que a loucura não passe de uma mera construção discursiva. certas crenças populares de que o português do Maranhão é o mais correto ou de que a pronúncia de uma determinada região é errada. Por conseguinte. Se o falar do campo é visto como errado ou inferior face à norma dita culta ou língua-padrão. mais lógico e mais estúpidos. nem mais abstrata que outra. José Lemos.. a esse propósito. . Pois a subjetividade é uma instância narrativa: condiz aos modos com que o sujeito. motivado por preconceitos. conforme explica Trudgil (1979). uma variedade não pode ser considerada melhor que a outra. gbooks net. governados por um sistema de regras e adequados às necessidades do falante. Costuma-se dizer. os outros e as instituições o narram. que uma língua seja superior ou inferior a outras. são completamente arbitrários. nem mais lógica. O que ocorre é que os julgamentos relativos à correção e pureza são mais sociais do que linguísticos.) não faz nenhum sentido supor que um determinado dialeto seja linguisticamente inferior ou superior aos demais. VER *subjetividade maquínica: como a linguagem cria mundos “(. pontuando sua existência e suas experiências nestes relatos. Na realidade.

Compreendem porque foi precisa a assistência da loucura? De qualquer coisa que fosse tão terrível e tão incalculável. desde há muito íntima amiga do Diabo. quando trata da parte dos seminários dele na década de 80.) não havia outra coisa a fazer. de uma superstição venerada. que se fez o elogio. do marasmo. elogio da individualização].. p. para o animal e para a loucura. se confundem numa rigidez de morte” [tomar algo que é passageiro e fugaz como absoluto]. “A loucura é rara nos indivíduos – mas é a regra nos grupos. Pensamentos como estes desarmam a norma e instilam a dúvida no formatado mentol: há um grão de razão na loucura – ora é dela. por vezes.. que rompe a proclamação de um costume. da loucura. de qualquer coisa que fosse.). esconde um saber fatal e "demasiado certo". na voz e na atitude. ou ainda “Em quase toda a parte. como os caprichos demoníacos da tempestade e do mar e. nas épocas” [individualismo. para o sonho. Dezembro. ou “E.Loucura Sobre o aprisionamento da loucura na ordem do corpo. nos povos. Loucura: A irracionalidade remete para o inconsciente. 15): A loucura não passa de uma máscara que esconde alguma coisa.. tem as suas posições sobre o tema. não da estultícia – como Erasmo. a própria loucura é uma máscara que esconde um saber fatal e demasiado seguro” [a loucura sabe muito ou se apega Às suas ideias desarrazoadas (FEREZ. pascal também]. Este é o corte epistemológico - . por consequência. ver Guattari acerca do funcionamento maquínico da produção inconsciente que se diferencia de uma ordem corporal que é mais arraigada ou seria mais arraigada ao eu. Faz-se aqui o recenseamento de algumas sugestivas: por exemplo. in Heurética. Em Dosse (Biografia cruzada).]. quando eles não eram verdadeiramente loucos. ou “A loucura indica o momento em que as máscaras. cessando de comunicar e de deslocar-se. 1999. (. é a loucura que aplana o caminho da ideia nova. 2006 Construção do objeto da loucura: Foucault Aula Birman 24 do 06 2013 ufrj A construção do objeto da ciência passa Senso comum – Ideologia (obj construído) -» discurso da ciência – Epistemologia (obj natural). digna de receio e respeito?” [ambiguidade em relação ao que a louc pode ou faz] e “(. nos partidos. A filosofia.. ao mesmo título. senão vir a sê-lo ou a simular loucura” [trágico Brandt = todos estão na deriva.

Este aspecto. O modelo clássico é o da demência. está em Kant. mas ele tem sua razão alienada. No final do século XVIII para o XIX: há a criação de um espaço para os crimonosos e delinquentes. 2) representação (há uma ruptura entre palavras e coisas. não é que o sujeito não tenha razão. o hospital psiquiátrico ficava na periferia. a referência à coisa dá acesso a uma origem) 3) história (há disjunção entre palavras e coisas. a razão está no cerne da formação do espírito subjetivo em oposição ao espírito objetivo. Foucault mantém este pressuposto da descontinuidade. 2) idade Clássica (XVII e XVIII). Não por coincidência. tal qual no classicismo. Hegel enxerga nas práticas do asilo psiquiátrico. a prisão e outro para os loucos o asilo psiquiátrico. a linguagem remete a ela própria. aí ele retoma seu sentido de um deposito de loucos. uma vez perdida a razão não se recupera mais. . Foucault trabalha o discurso do saber (e aqui não importa se o discurso é científico ou ideológico) e não da ciência. mundo das coisas tem valor de palavras e vice-versa).. agente fala mais do que deve. longe do coração da cidade. e da construção do objeto.. Trabalha com aquilo que historiadores chamam de história dos longos períodos. como uma forma de serem desalienados. Enquanto para Hegel. no entanto é deixado de lado. que o obj não é natural. Modernidade (final do XVIII e XIX). quando o manicómio deixa de ser terapêutico. numa empreitada de pensamento da construção do saber europeu que se faz a partir do 1) Renascimento (XVI). O primeiro pressuposto do tratamento moral é a internação. a idade média. nesta cartografia simbólica traz a proximidade da loucura (alienação neste . no tratamento moral. Há uma equivalência entre certos discursos. no discurso. porque perdemos a referência à ideia de origem). Após a antiguidade. Fica focado na linguagem. isto vai ser retomado ao tratar da psicanálise. o cristianismo… que são discursividades. tirar o doente do âmbito da família e inscrevê-lo no espaço médico. enquanto as palavras representam as coisas. As categorias organizadoras são 1) semelhança (similaridade entre palavras e coisas. A modernidade é caracterizada pela perda da origem. Tem um aspecto de reversibilidade.Na arqueologia e na genealogia. há autonomia da linguagem. Aí entra a ideia de alienação (tematizada por Hegel).

. o tratamento moral é apenas cortar a cabeça do rei. O rei que ficou gago. O riso adquire status filosófico sob as funções de dissolvência dos valores anteriores [primeiro como tragedia.tempo) à natureza. o louco. A paranóia é o máximo da posição soberana e da certeza. barbárie. zizek. como sociedade disciplinar. A pirâmide tem o médico no topo seguidos pelos guardas e depois os enfermeiros mais próximos enfim aos internados. e assim não dialogaria com o outro. depois como comédia. rousset. Ela é anti-soberana e anti-hierárquica. O louco não seria permeável às argumentações dos outros. em Poder Psiquiátrico retoma a sociedade de consenso. Assim. O louco tem certeza demais dele mesmo.. com seu excesso de certeza quer ser soberano. o louco pode então respirar melhor o ar das florestas… o louco seria marcado pela adesão aferrada excessivamente à seu sistema de crenças. Na oposição homem-animal. [ aquilo que niezetsche no crep dos idolos (2006) coloca como moral de consideração e constituição fraca. há a identificação do louco com a soberania. . o riso como desconstrução e como subsequente vontade de construção. o George VI faz parte da mesma dinastia… Até o final do século XVIII o Hospital geral não é um espaço médico. melhor que os outros. ele teria que passar para a dúvida. fazer derrubar o louco da posição da certeza e da soberania. A ideia de certeza excessiva do louco teria de ser quebrada seja com o trataemnto moral. deleuze – nos nit e a repetição do trágico]. não há nem rei nem deus na verticalidade. ele acredita que pode viver acima dos outros. o tipico sujeito moderno. não-civilização. Loucura como crítica A loucura é crítica porque é indócil. numa teimosia atávica. aí cria-se o espaço segregado do asilo psiquiátrico é um espaço medicalizado. ele é o soberano. Assim . . seja com a hipnose.

CRAGNOLINI. inspetor de saúde mental. atemporal. G. p.RD Laing. Ela habita a ligeireza das superfícies. especificamente... que enuncia. A pessoa rotulada é iniciada não só no papel. 1989. ela é invadida como ser humano. como fato social. . impõe definições e consequências à pessoa rotulada. II. e que exprime. impossibilitada de reter seus próprios bens. é rebaixada de seu pleno status existencial e legal como agente humano e pessoa responsável.Mais completa e radicalmente que em qualquer outro setor da nossa sociedade. as legalmente sancionadas. pela ação combinada de uma coalizão (uma 'conspiração') de família. outros pacientes..O riso quebra com o monoteísmo da filosofia e da clínica. In: CRAGNOLINI. Transformação. A pessoa 'internada' rotulada como paciente e. M. Esse evento político. A Politica da Experiencia Loucura e a figura psicossocial do doente mental enquanto a desrazão é a experiência percebida como inumana. p. uma verdade do mundo. Nietzsche actual e inactual. 99122." Dr. a loucura remete à experiência temporal de um tipo social excluído. Ela habita o inumano. 1996. impedida de exercer seu discernimento para decidir com quem se relaciona e o que quer fazer. 61-2). É uma prescrição social que racionaliza um conjunto de ações sociais por cujo intermédio a pessoa rotulada é anexada por outras. ocorrendo na ordem cívica da sociedade. KAMINSKY. Buenos Aires: Oficina de Publicaciones del CBC. psiquiatras.B. Vol. a verdade do homem (PELBART. assistentes sociais psiquiátricos e. despojada de sua própria definição de eu. mas apenas como rótulo de um fato social e. O papel social do esquizofrênico: "A 'esquizofrenia' não existe como 'condição'. M. no excesso de suas paixões. Seu tempo já não lhe pertence e o espaço que ocupa não é o de sua própria escolha. De la risa disolvente a la risa constructiva: una indagación nietzscheana. enfermeiras. mas também numa carreira de paciente. com frequência. como 'esquizofrênica'. riso e desapego são as características do dionisíaco. no silêncio ou na desforra. é um evento político. médico assistente. imaginária e onipresente. investidas de poderes médicos e moralmente obrigadas a responsabilizar-se pela pessoa rotulada.

o plano de consistência é dado por outrem. 2013). tira-se dele sua potência de alterização e de produção. típico da psicose. pela apreensão que fazemos – enquanto cultura – da loucura. enfim. entendemos que não podemos restringir nossas práticas clínicas e terapêuticas à dispositivos de contenção deste processo. A loucura fica então confinada a um não-lugar em nossa cultura. da família. Daí sua constituição como alienado à liberdade do psiquiatra. para além de sua efetivação cronológica. Há processo sem dúvida estacionários. Pois de acordo com Foucault (1979. ao silêncio calado em prol do monólogo da razão e perante ao qual cunhamos a noção de produção da loucura para resgatar esta voz do silêncio (cf. para Deleuze (LS). Áion. isto é. na fundamentação do próprio campo de consistência. Com prudência. Se um Outro sem falta remete a um Outro gozador. cronificada na figura psicossocial do louco. ele acaba tendo sequestrados autonomia e expressão jurídica na objetivação de sua liberdade. 2011). o campo de imanência. de modo que a alteridade não necessariamente remete a uma figura externa. A respeito da temporalidade. PRADO. o louco é entendido como indivíduo desde a modernidade.A figura psicossocial do doente mental é progressivamente construída sob procedimentos sucessivos de desterritorialização e sobrecodificação. quase-sujeito. porém ele é desterritorializado em sua situação de loucura. o louco é codificado como indivíduo. a produção da loucura almeja se ligar ao tempo da idealidade acontecimental. A doença não é outra coisa que a interrupção do processo produtivo do psiquismo (DELEUZE & GUATTARI. com fins de apreensão e captura. Privado de território próprio. O que não quer dizer que a patologia mental seja causada unicamente. há de se construir estratégias psicoterapêuticas capazes de não reduzir o louco e sua loucura a este processo estacionário de parada forçada a que se referem Deleuze e Guattari (2011). Porém. nada falta a outrem. 2006). é obvio. . momentos e movimentos de derrocada intrínsecos à rota existencial sem rumo de loucos e sãos. de alguém que se responsabilize dele e por ele. não pelo mesmo ou numa dialética que envolve o outro para fazer (re)tornar o sujeito ao que ele é.

Tal apelo ao dionisíaco fundamenta a ontologia que faz .O. o desemprego e a escassez são associados pejorativamente ao talento que ambos mostram com o pandeiro ou o repique nas mãos. um bairro de baixa renda da cidade) Cap 2 metrificação. seja da história da cidade. nesta transição de códigos entre a loucura tal como se dá enquanto processo psicossocial de apreensão e captura e a produção da loucura enquanto estratégia de cuidado. da escola de samba da V. subsumindo questões sociais que gritam na vida de uma pessoa a uma inadequação.Outro já é a apreensão da percepção da loucura como outro modo da existência. 1200) consiste em amar a diferença na estranheza de seu encontro com o ser. como ‘resultado’ de um processo de ‘construção de si mesmo’”. que patologiza a pobreza e a miséria sob o signo dos maus costumes. uma vez que “Dioniso está mais próximo da figura do ultra-homem. já é sua margilnalização. (Vila Operária. 198) A vida deve ser considerada em seus limiares e seus potenciais Os estranhos ensinamentos a que se refere Cragnolini (EE??. Assim. sobrecodificação. a farmacologia já transformou a sala dos agitados em grandes aquários mornos” (1964/1999. neutralização nesta espécie de tradução. Enquanto outrem é o rosto da efetividade da efetuação de sua potência de diferenciação. não há por que duvidar. em que ‘chegar a ser o que se é’ não supõe nenhuma idéia de ‘formação’ (Bildung). Traços atuais de uma política patologização e internamento irrestrito. A memória de resgatar sambas e marchinhas seja do domínio popular. pois “esta. via entrar em um espaço técnico de controle cada vez melhor: nos hospitais. p. p. o cuidado proporciona um meio de propagação e extensão para a loucura Loucura: Antropologia da diferença: para além da psicopatologia das doenças mentais e da vida biologicamente tomada no biopoder Foucault pondera que é interessante estrategicamente à razão que a loucura – seu outro – seja mantido sob a alcunha de doença mental.

nos quais formação e funcionamento não estão dissociados. da boa formação. com a imagem de fim de mundo. com a tragédia. e de como deve ser seu funcionamento e sua forma normal. visto que se desembaraça de qualquer antropologia. já no prólogo. se desata o estranho ensinamento do “perigoso talvez” nietzschiano que não se prende a nada. é que a clínica deve ser capaz de suportar a desfiguração ou melhor. p. restituição e retorno à identidade. Amo de todo o meu coração os que desaparecem. s/d. de qualquer ideia de homem.fugir o tema do Bildung. A não-conservação de si é patente em todo o ensinamento de Zaratustra. Ali. Zaratustra (NIETZSCHE. 10??) . porque são esses os que atravessam de um para outro lado” (NIETZSCHE. NIETZSCHE. p. 197??) ressalta o caráter fragmentário. O talvez nietzschiano é perigoso porque nos faz deparar com o insondável encontro do eu com os muitos eus que nos habitam concomitante e desordenadamente. porque passam para o outro lado”9. de se agenciar com a catástrofe. s/d. como indivíduo ou como espécie. ABB??). Não se trata. anunciara Zaratustra: “eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo. porém de um mero impulso à autodestruição. Ética que propicia a entrada de uma outra política para a clínica. Não havendo um télos. O desaparecer ou a catástrofe é o cerne em que pululam os deviresimperceptíveis (Pelbart?? MP??) 9 Igualmente. Em Das antigas e das novas tábuas. uma identidade ou um objetivo final a que se deva tomar como parâmetro normativo para a formação ou o progresso do homem. vemos se abrir então o campo para uma clínica da deriva. nem às próprias virtudes que são ainda caraterísticas da identidade (cf. A fim de desbaratar-se de toda antropologia que rege e fundamenta as estratégias clínicas normalizadoras de conservação. Fazendo escapar a antropologia como sustentação que deve fixar forma e funcionamento é que a clínica comporta a dissolvência e a desarticulação como momentos fundamentais de transformação. ao mesmo tempo desbaratada e crítica às estratégias de normalização. O posicionamento ético de minar a (auto)conservação reverbera o fato de que não há essência humana a qual se possa restituir. fugaz e a potência de autoconstrução dos indivíduos “que se não querem conservar.

(1979. deixava-se que corressem pelos campos distantes. nesta obra que deveria propor. enfim. 19). encontros e sonhos que narra. . Foi ela que as últimas palavras de Nietzsche e as últimas visões de Van Gogh despertaram. se ele prestasse atenção. É sem dúvida ela que Freud.. no ponto mais extremo de sua trajetória. e a menos suscetível de deixar o questionador escapar à vertigem. intermezzos não lineares para enfim. os dilaceramentos em que se realiza incessantemente a "vida e morte de Satã. 34-5). abrir-se à outridade que nos habita e que produzimos. no encontro com a diferença. começou a pressentir: são seus grandes dilaceramentos que ele quis simbolizar através da luta mitológica entre a libido e o instinto de morte. ao pensamento do século XX. fazendo livros que são máquinas de guerra. que veio a exprimir-se na obra de Artaud. Loucura experiência trágica: face enigmática. 1979. Sua epopeia não coroa a restituição (prometida ou esperada) no retorno. p. As cidades escorraçavamnos de seus muros. A ambiguidade da face enigmática da loucura se deve a uma “conversão fundamental do mundo das imagens: a coação de um sentido multiplicado o libera do ordenamento das formas. a mais urgente das questões. p. espelho e profundidade “Os loucos tinham então uma existência facilmente errante. 9) Sobre a experiência trágica da loucura. VS?? HH2??). o Fogo" (FOUCAULT. Como em O viajante e sua sombra (NIETZSCHE. O ensinamento de Zaratustra consiste em bailar com a pena. É ela.. E seu poder não é mais o do ensinamento mas o do fascínio. essa consciência. p.À figura do grande romance de formação – que tem como figura primordial o Wilhem Meister de Goethe – Zaratustra não narra grandes feitos. mas o eterno caminhar dos acasos. Tantas significações diversas se inserem sob a superfície da imagem que ela passa a apresentar apenas uma face enigmática. trajetos nômades entre um ponto e outro. nesta obra que não deixou de proclamar que nossa cultura havia perdido seu berço trágico desde o dia em que expulsou para fora de si a grande loucura solar do mundo. quando não eram confiados a grupos de mercadores e peregrinos” (1979.

. Analisando As tentações do Santo Antônio de Bosch. No quadro que retrata Santo Antônio sobre uma árvore. que subiram de um sonho e ali permanecem. Foucault (1979. 1979. para aquele que nele se contempla. Foucault (1979. de seus sonhos e os fantasmas de sua loucura têm. P. 19-20) salienta que o que assalta a tranqüilidade do ermitão não são os objetos do desejo. P. num silêncio habitado apenas pelo bulício imundo que os cerca. de inumano. p. salienta que de um lado. encerradas num segredo. que parecem fazer parte de seus trajes. Nesta adesão imaginária a si mesmo. A liberdade. O tema da loucura como noite e como espelho mantém uma proximidade nada gratuita em HL. p. a natureza secreta do homem é expressa em figuras de animais impossíveis e igualmente nos demônios que o assolam. sob uma forma satírica. mais poderes de atração que a realidade desejável da carne. justamente. refletindo-se indefinidamente e dando a esse par simples uma repentina profundidade que envolve. refletiria secretamente. 1979. . Refletindo sobre O sobrinho de Rameau de Denis Diderot (1979). O símbolo da loucura será doravante este espelho que. são essas formas dementes. toda a vida do homem e sua morte (FOUCAULT. p. dia e noite dispõem-se como num espelho. 245). O grylle não mais lembra ao homem. São as parcialidades e o fragmentário que o tomam de assalto na solidão de sua fé e de sua penitencia. tudo que nele indica a contranatureza e o formigamento de uma presença insana ao résdo-chão. é ela que fascina o olhar do asceta — permanecendo uma e outro prisioneiros de uma espécie de interrogação no espelho. de fantástico. nada refletindo de real. o sonho de sua presunção (FOUCAULT. (.A loucura trágica tem uma profundidade própria e “as imagens fantásticas que ela faz surgir não são aparências fugidias que logo desaparecem da superfície das coisas” (1979. à superfície de um mundo.. o desatino é que existe de mais imediatamente perto do ser. 345-6). ainda que apavorante. 22). a permanecer indefinidamente sem resposta. num único gesto. 25). para o homem do século XV. O pensador francês ainda destaca que provavelmente a cabeça com pernas é um autorretrato do pintor flamengo. silenciosas e furtivas. é que lhe atribui seu estranho poder. A analogia do espelho do humano e do não-humano com a tragédia é clara: Na tragédia clássica. sua vocação espiritual esquecida na loucura de seu desejo. o homem faz surgir sua loucura como uma miragem. É a loucura transformada em Tentação: tudo que nele existe de impossível. tudo isso.) esta silhueta de pesadelo que é simultaneamente o sujeito e o objeto da tentação.

ele pula. uma força primitiva de revelação: revelação de que o onírico é real. ser o vazio absoluto dessa absoluta plenitude pela qual se é fascinado do exterior. se arrasta. pelo interesse.) o desatino é entregue ao não-ser da ilusão e esgota-se na noite. esse egoísmo sem recurso nem divisão e esse fascínio por aquilo que há de mais exterior no não-essencial. Do outro lado. realizar-se como coisa e como coisa ilusória. na unidade profunda da loucura. a imediata necessidade e a indefinida reflexão do espelho. e que o brilho instantâneo da imagem deixa o mundo às voltas com figuras inquietantes que se eternizam em suas . essa comédia. o desatino é. o sentido do Neveu de Rameau. abrindo. ele mesmo. que profere no meio do século XVIII. após a época de Bosch (XV) e Erasmo (XVI).. e mesmo toda mediação. (. entre paisagens que falam da estranha alquimia dos saberes. o que você chama [[346]] de pantomima dos patifes é o grande abalo da terra!"765 Ser. haverá uma Nau dos Loucos que constitui. esse espetáculo. um vazio que não mais será preenchido. rasteja. e como experiência total do mundo: "Pelos céus. Se se reduz. das surdas ameaças da bestialidade e do fim dos tempos. torna puro e mais veemente o ser por ele manifestado. passa a vida a assumir e executar posições”764. a ponto de efetuar-se em plena consciência. essa extravagância levada. (. ser assim não apenas coisa. haverá uma Nau dos Loucos cheia de rostos furiosos que aos poucos mergulha na noite do mundo. essa música. num único movimento. todo Voltaire ou todo Hume. o elemento trágico e o elemento crítico irão doravante separar-se cada vez mais. esse barulho. O Neveu de Rameau é essa própria simultaneidade. entre as duas formas de experiência da loucura. A princípios do século XVII. ao que há de mais imediato no ser. mas vazio e nada.) a loucura tem. uma lição bem mais anticartesiana do que todo Locke. e sê-lo ao mesmo tempo até o aniquilamento total de uma consciência escrava e até a suprema glorificação de uma consciência soberana — tal é. “O pior é a postura obrigatória em que a necessidade nos mantém. menos consistente na aparência. todo recuo desse ser.de mais enraizado nele: tudo o que ele pode sacrificar ou abolir de sabedoria.. de que a delgada superfície da ilusão se abre sobre uma profundeza irrecusável. se contorce. ser enfim a vertigem desse nada e desse ser em seu círculo volúvel. a Odisséia exemplar e didática dos defeitos humanos. sem dúvida. mais frágil. e bem antes de ser plenamente ouvida a palavra de Descartes. Todo atraso. observamos que apesar de tantas interferências ainda visíveis.. lhe são insuportáveis: "Gosto mais de ser. e mesmo de ser um impertinente raciocinador. nesses elementos. de verdade e de razão. O homem necessitado não caminha como qualquer outro. do que não ser". para os prudentes. ele mima igualmente o que há de mais distante.. Rigor da necessidade e imitação do inútil. De um lado. a divisão já está feita. numa vontade sistemática de delírio. É ao mesmo tempo a urgência do ser e a pantomima do não-ser. a distância não mais deixará de aumentar. As figuras da visão cósmica e os movimentos da reflexão moral.

) Nada há que não esteja mergulhado na imediata contradição. nesse momento mediano do ser e do nada que é o delírio da destruição pura. por vontade própria. como sendo a trágica loucura do mundo. nada que não incite o homem a aderir. [28] na pintura do século XV. ao mesmo tempo em que servira didaticamente como espelho dos defeitos e da prudência humanos. aparências e desrazão “Todas as coisas têm duas faces.. comparada com a verdade das essências e de Deus. 31). porém sobre ele o silêncio e a noite ainda não se abateram inteiramente. VER: (ROSSET. porque Deus resolveu opor-se ao mundo. Toda e “qualquer referência feita a conceitos na História da loucura está intimamente relacionada com formas de intervenção. 1979. A loucura é alocada como antinatureza. [diz Sébastien Franck]. (FOUCAULT. É por isso que todas as coisas são o contrário do que parecem ser no mundo: um Sileno invertido” O abismo da loucura em que estão mergulhados os homens é tal que a aparência de verdade que nele se encontra é simultaneamente sua rigorosa contradição. a sua própria loucura.noites. depois novamente na direção daquilo que contesta e renega essa negação. Simulacro. Entre a profundidade da loucura que se abre. ele vacila num último clarão. Mas há mais ainda: esta contradição entre aparência e verdade já está presente no próprio interior da aparência. contranatureza das aparências contra a essência divina das coisas inscritas na ordem do mundo. formas de . não terá direção única nem termo preestabelecido. É nesta imagem logo abolida que se vem perder a verdade do mundo. de que toda a realidade do mundo será reabsorvida um dia na Imagem fantástica. 104). o mundo não existe mais. e revelação inversa. p. 1988a. p. pois se a aparência fosse coerente consigo mesma. Toda esta trama do visível e do secreto. no ponto extremo da desordem que precede imediatamente a ordem monótona da realização. 1979. deixar a aparência a este e tomar para si mesmo a verdade e a essência das coisas. entrevemos o esboço de uma experiência ambígua: a Nau fora lugar da bestialidade e dos estranhos saberes da noite. mas da aparência em direção dessa outra que a nega. a partir desse momento. da imagem imediata e do enigma reservado desenvolve-se. de modo que o movimento não se detém nunca (. (FOUCAULT... É nas próprias coisas que se deve descobrir essa inversão — inversão que. p. não da aparência em direção à verdade. ela seria pelo menos uma alusão à verdade e como que sua forma vazia.. 27-8). A noite é aquilo que faz desaparecer. toda a ordem humana é apenas uma loucura. mas igualmente dolorosa.

organização do espaço de reclusão. Esta é a clareza que cega e o labor do saber leva à estupidez Loucura e desrazão clássica: internamento e jardim . Se chamamos de monstros ou milagres coisas a que nossa razão não consegue chegar. p. Montaigne (2010. se nos fossem apresentadas pela primeira vez. entre paisagens que falam da estranha alquimia dos saberes. e que essas coisas. 1979. Noite. Foucault (1979..)força primitiva de revelação: revelação de que o onírico é real. (.22). uma coisa por ser falsa e impossível é pretender ter na cabeça as fronteiras e os limites da vontade de Deus e do poder de nossa mãe natureza. das surdas ameaças da bestialidade e do fim dos tempos. um dos Ensaios de Montaigne (2010). p. haverá uma Nau dos Loucos cheia de rostos furiosos que aos poucos mergulha na noite do mundo. real e profundidade da loucura trágica se coabitam. a Odisséia exemplar e didática dos defeitos humanos (. e que não há no mundo loucura mais notável do que reduzi-los à medida de nossa capacidade e competência. Do outro lado. 1988. resolutamente. 35) destaca no ensaísta essa dinâmica de trânsito e bifurcação entre loucura e razão no ponto em que o exercício e a apreensão da razão fazem perder a razão. quantos deles se apresentam continuamente aos nossos olhos? Consideremos como é em meio de brumas e às apalpadelas que somos levados ao conhecimento da maioria das coisas que temos em mãos: sem dúvida. as acharíamos tão ou mais inacreditáveis que quaisquer outras.) Seria loucura fiar-vos em vós mesmos se não sabeis vos governar. haverá uma Nau dos Loucos que constitui. pondera precisamente que É loucura atribuir o verdadeiro e o falso à nossa competência. Como paradigma do espaço ambíguo entre loucura e razão no Renascimento. para os prudentes. p. loucura trágica: ambiguidade De um lado. descobriremos que é mais o hábito do que a ciência que nos retira a estranheza delas. 145) a razão ensinou-me que condenar assim. p.. formas de relação de autoridade entre médico e doente” (Chaves.. (FOUCAULT.15). de que a delgada superfície da ilusão se abre sobre uma profundeza irrecusável..

são testemunhos disso (1979. Porém. “Suas práticas e suas regras constituíram um domínio de experiência que teve sua unidade. aquela que une o destino à providência. 106)” Por um lado rompe a unidade trágica na qual razão e desrazão se encontram na intimidade indissociável de trânsito constante. 94 . dissociada pela divisão decisiva entre a razão e o destino. Esta unidade vai agora desaparecer. além da divisão entre o Bem e o Mal. sua coerência e sua função. p. que até à Renascença o mundo ético. “Pode-se dizer. objeto do Grande internamento. é desfeita pela separação decisiva entre razão e desrazão como extensão da luta ética do bem contra o mal que na cultura renascentista estavam subordinados às formas transcendentais aludidas acima. Deste modo. Ele aproximou. assegurava seu equilíbrio numa unidade trágica que era a do destino ou da previdência e predileção divina. Foucault (1979. e à predileção divina. percebemos que o internamento é a manifestação superficial de uma operação mais profunda que estende a divisão ética entre Bem e Mal na instauração da separação decisiva entre razão e desrazão. de modo aproximado. reúne sob uma unidade forjada um conjunto indeterminável de figuras que dá corpo à desrazão clássica. que duplica a grande luta entre o Bem e o Mal com o conflito irreconciliável entre a razão e o desatino. num campo unitário. multiplicando assim as figuras do dilaceramento: Sade e Nietzsche. 105) faz questão de salientar que o desatino se torna objeto de conhecimento sob a condição de ter sido preliminarmente objeto de excomunhão. Internamento: negativo exclusão e positivo de organização.O grande internamento circunscreve a loucura ao mundo correcional ao estabelecer um parentesco forçado entre as diversos modos do desatino à medida em que a própria prática do internamento circunscreve uma objetividade – que serve de castigo para os desatinados – de acordo com os valores negativos do banimento e da exclusão. pelo menos. Consequentemente. Começa uma crise do mundo ético. personagens e valores entre os quais as culturas anteriores não tinham percebido nenhuma semelhança” p. p. Por outro. A unidade trágica da própria ao Renascimento e ao desatino. loucura e razão clássicas nascem do espaço ético da decisão e da vontade.

Ambiguidade sentida na reflexão de Calvino (apud FOUCAULT. 30) que pondera que “se começarmos a elevar nossos pensamentos a Deus. como saber na ignorância ou ainda como a morte que e mostra na face exterior e a vida no interior. que julga e domina toda loucura. A Nau dos Loucos atravessa uma paisagem de delícias onde tudo se oferece ao desejo. sobre-humanas talvez. mas uma diminuição do homem?”. Primeiro. prediz ao mesmo tempo o reino de Satã e o fim do mundo. uma vez que nela o homem não mais conhece nem o sofrimento nem a necessidade. a razão é loucura]]. Consequentemente.. p.Com efeito. e o Humanismo da Renascença não foi um engrandecimento. para Foucault.. como riqueza da indigência. Mas o que se passa com o pensamento e sua relação com a loucura durante o século XVI? Foucault (1979) aponta duas mudanças fundamentais. p. 1979. mas naturais. O exemplo paradigmático desta virada pode ser encontrado n‘O Elogio da loucura de Erasmo de Roterdã (1988). . sempre patente de inversão. revelando sua verdade irrisória ao passo em que as duas servem de referência e fundamento recíproco uma à outra. 1979. uma espécie de Paraíso renovado. aquilo que nos causava prazer sob o título de sabedoria se revelará apenas loucura. observamos o estabelecimento de uma dialética de reversibilidade entre ambas que. a loucura paulatinamente se torna uma forma relativa à razão. este texto destaca as duas faces de cada coisa simultânea e inversamente determinada como a beleza que recobre a feiura. (1979. passa a privilegiar de uma forma ou de outra a razão. p. e aquilo que tinha um belo rosto de virtude revelará ser apenas debilidade”. o homem adere a sua própria loucura que é tão somente uma loucura comparada à verdade das essências e de Deus. [como em Deleuze (1976). ele é culpado de ser louco. entretanto. como infâmia da glória. a última felicidade e o castigo supremo. Se tudo está mergulhado na mais imediata contradição. por isso. o todo-poder sobre a terra e a queda infernal. 30) faz do Renascimento quando pondera que “a Renascença do século XVI rompeu com uma realidade que tinha suas leis. A desrazão negativizada começa no Renascimento. daimen. O escritor francês toma a crítica que Artaud (apud FOUCAULT. Publicado originalmente em 1511. 21) o saber dos loucos é o saber proibido. anthropoi ethos.

a razão do homem não passava de loucura. como uma manifestação parcial dessa ou como uma de suas figuras. e o abismo da loucura fundamental nada é. como ciência que faz perder a razão e leva à estupidez na contradição intrínseca à própria racionalidade conforme os exemplos que Foucault (1979. 34). uma clareza que cega. em pequena escala. a Razão de Deus é considerada no movimento essencial da Loucura. tudo não passa de Loucura..) Ela é considerada no ciclo indefinido que a liga à razão.. (.. p. “sub-repticiamente. Caso contrário. Deste modo. 35) colhe dos Ensaios de Montaigne (2010). Em grande escala. pois esta só é o que é em virtude da frágil razão dos homens. a desrazão é nela acolhida e assentada como uma vivacidade mortífera. em relação à estreita sabedoria dos homens. que as perde uma pela a outra enquanto as salva uma com a outra (FOUCAULT. a loucura não é nada: a loucura dos homens não é nada diante da razão suprema que é a única a deter o ser. a loucura apenas alcança um sentido e um valor próprios contida no campo da razão.Frente à ambiguidade e à reversibilidade. a loucura não é mais que uma fase difícil e contudo. 32-3). Pois é através da loucura – mesmo mediante seus aparentes trunfos. A loucura não tem mais uma existência absoluta na noite do mundo: existe apenas relativamente à razão. se fecha o grande círculo indefinido que liga a razão à loucura Agora o grande círculo fechou-se. vemos a loucura ser engolfada pelo campo da razão e se tornar uma de suas formas sendo a ela integrada como uma espécie de força secreta. Esta cegueira é a própria desrazão manifestada na incapacidade de reconhecer a miséria e a fraqueza que a mantém aprisionada longe da verdade e do bem. elas se afirmam e se negam uma à outra. delimita-a. pela própria acolhida que ela lhe faz. como uma paradoxal necessidade. Em relação à Sabedoria. na não aceitação do círculo contínuo da sabedoria e da loucura. o próprio Todo é Loucura. a razão assume a loucura. toma consciência dela e pode situá-la” (FOUCAULT. o desarrazoado se vê eternamente privado do uso razoável da razão. .. em direção à razão.) Num certo sentido. Em decorrência disso. p. à despeito dos quais ela se vê desarmada e deslocada – que se manifesta e triunfa a razão. essencial a seu desenrolar. p. em sua simultânea reciprocidade e impossibilidade de partilha. De todo modo. Ao passo em que a razão se desenlaça como círculo contínuo que tudo abarca. (. de momento ou de movimento necessário em direção à consciência de si mesma. 1979. 1979. Uma vez investida pela razão.

finalmente. ela é uma via única. Associa com o barroco: Talvez seja esse o segredo de sua múltipla presença na literatura do fim do século XVI e no começo do XVII. Concomitantemente. cerca-a e avança sobre ela para. Como uma espécie de ensimesmamento. Cerceada pela razão desde a última fase do Renascimento. um momento ou um movimento da razão de todo modo por esta contida. mesmo sob o preço de disseminar e semear um pouco de loucura sobre a terreno da razão e tornar cada um de nós. que encarnam valores de outras épocas. mas sim. a loucura desenha ainda uma experiência qualitativa.Na época que vai de Erasmo até Montaigne. que contudo começa a ser borrada em prol de uma figura unificada da ordem racionalizada. Shakespeare e Cervantes e o final do século XVI. sem consistência própria no silenciamento de sua linguagem disruptiva ao passo em que faz da desrazão uma parte. Em ambos os literatos. de sua loucura. de uma mão só. Ela não é um castigo real. irreversível e incontornável. a loucura clássica assume a forma da presunção e da entrega às complacências do imaginário em Cervantes. Jogos de uma era barroca (p. apenas. quando a loucura passa ao papel de intermediário. surge então uma ideia forte e duradoura – que perdura até o século XVIII – segundo a qual se enlouquece pela identificação romanesca com a literatura. em seu esforço por dominar esta razão que se procura. a desrazão assume a forma da paixão desesperada nas peças de Shakespeare (p. uma figura. uma arte que. onde ela aparece próxima à morte. reconhece a presença da loucura. no dilaceramento absoluto que a abre para um outro mundo. uma força. Até o século XVII. mas a imagem do . pelo menos em parte loucos]]. Como caminho sem volta. a loucura começa a ser cerceada por uma consciência crítica que avança sobre ela sob essas duas formas: tornando-a uma forma relativa à razão. uma necessidade. VER: PASCAL [[A imagem deste leviatã da razão deve necessariamente englobar a desrazão. outra arte e outra moral que não as aceitas e cultivadas no seio da cultura clássica ocidental. 36). triunfar. ela autoriza a manifestação da verdade e o retorno apaziguado da razão. na ironia de suas ilusões. rumo ao dilaceramento e à morte. a loucura não tem recurso nem volta. instrumento de transmissão das quimeras. É que ela não mais é considerada em sua realidade trágica. 38).

mobilidade da razão (1979. 44). a lógica do grande internamento e as regras do bem pensar apontados pela filosofia de Descartes (1979) por outro. Conforme apontamos em A voz do silêncio (PRADO.. como sinaliza Yazbek (2013. que vêem nelas somente o erro e a ilusão de um mundo profano e errático. depuradas de toda obscuridade.. 127). as figuras de Bosch não inquietam mais os homens. De fato. onde só se lida com faltas supostas. agitação irrisória na sociedade. 2013). signo irônico que embaralha as referências do verdadeiro e do quimérico. p. desaparecimentos destinados aos reencontros. Não nos lembramos de como sentimos a presença da contradição em nosso próprio juízo? (.. por um lado. O elogio da loucura não é mais que uma etapa de passagem para essa nova ordem: o elogio da razão. o pensamento. uma vez que o internamento é a (con)sequência lógica e necessária do embarque. mas a preocupação em garantir e assegurar o bem na unidade da razão. o começo e o fim das tramas que se resolvem quando se elucida o erro e a ilusão das loucuras e se faz revolver o destino trágico destinando-o à felicidade reencontrada na ordem da natureza divina das coisas. Ela ali está presente. No lugar em que já não há mais a Nau dos Insensatos. contradição e confusão entretanto cabíveis ao juízo na perspectiva de Montaigne (2010). Só pode ser relacionada com a aparência de um crime ou com a ilusão de uma morte. assassinatos ilusórios.) A loucura é despojada de sua seriedade dramática: ela só é castigo ou desespero na dimensão do erro. uma aparência falsa. mal guardando a lembrança das grandes ameaças trágicas — vida mais perturbada que inquietante. a loucura desarrazoada é hospedada de com tranquilidade e bom grado no seio da razão. (.) Se o homem pode sempre ser louco. Como movimento da razão. p. o Hospital Geral surge concomitantemente ao elogio racionalista clássico que rege. . no coração das coisas e dos homens. há em História da loucura uma oposição entre o racionalismo cartesiano que toma a razão como exercício de um sujeito soberano que almeja à verdade das ideias claras e distintas.castigo: portanto. (p. Na distância segura da consciência crítica. surge o Hospital Geral e neste não há experiência de deriva. Se apaga a sombra do dilaceramento e da contranatureza trágica A loucura se torna o quiproquó. Sua função dramática só subsiste na medida em que se trata de um falso drama: é uma forma quimérica. Não há mais o mal absoluto e sem termo que ameaça das múltiplas figuras desatinadas.. Esse mundo do começo do século XVII é estranhamente hospitaleiro para com a loucura. 40).

??).. o internamento gera a alienação com o período dos proto-psiquiatras alienistas. pode-se dizer que esse gesto foi criador de alienação” (idem. Ora.. p. Como e onde a desrazão subsiste subterraneamente obscuramente. e através dela a experiência moderna da loucura. 1979. 47) Entre Montaigne e Descartes algo se passou: algo que diz respeito ao advento de uma ratio (. já marcados previamente pela percepção social e cultural do desvio. em si.. à sua verdade .81). sem dúvida. ainda assim era um espaço indeterminado À medida em que suscitava o estrangeiro tal como coloca Macherey (??). Resumindo. banimento e clausura -. “ele não isolava estranhos desconhecidos. de modo a aplicar uma série de ações repressivas sobre aqueles indivíduos já interditados. durante muito tempo evitados pelo hábito” Os desatinados e sua loucura são frequentados na íntima proximidade O gesto de internamento foi. o grande internamento é um gesto não isolava estranhos desconhecidos. refazer a história desse processo de banimento é fazer a arqueologia de uma alienação” (1979. que finalmente chegaria. Tanto é que posteriormente.82). p.)movimento com o qual o Desatino mergulhou em nosso solo a fim de nele se perder. Tem em comum uma parte que diz sobre o engendramento de realidade na superfície objetiva. era um gesto que produzia.). Pelo contrário. Segundo Foucault. A experiência trágica e cósmica da loucura viu-se mascarada pelos privilégios exclusivos de uma consciência crítica.como exercício de soberania de um sujeito que se atribui o dever de perceber o verdadeiro..81). ela se interpenetra no bojo dos processos de criação e instauração de realidade. Rompia a trama. não pode ser considerada como uma figura total. desfazia familiaridades (. por esse caminho. um regime de passagem muito importante. gesto concreto e simbólico do internamento não era só um gesto de negação – ainda que essa o definisse fundamentalmente na medida em que era interdição. e aquilo que se teve no século XVI foi não uma destruição radical mas apenas uma ocultação. o gesto do internamento “criava-os. 48). alterando rostos familiares da paisagem social a fim de fazer deles figuras bizarras que ninguém reconhecia mais” (idem. p. mas também de nele lançar raízes (p. uma revolução c(l)ínica. não pode ser insensato (p. um gesto criador de alienação. “Nesse sentido. a norma produz vida e comportamentos. É por isso que a experiência clássica. essa experiência trágica subsiste nas noites do pensamento e dos sonhos. Segundo Foucault: “Suscitava o Estrangeiro ali mesmo onde ninguém o pressentira. durante muito tempo evitados pelo hábito” (1979. engendra formas de visibilidade e discursividade também. p.

judicativa a partir de um valor considerado positivo (MACHADO. sufocada. por tudo aquilo que o oculta. 96). 85) que é o ponto de vista da experiência trágica da loucura. novas linhas de divisão entre o bem e o mal. como desordens terrena. Gradativamente mais próximos À locuura. Sob a consciência crítica da loucura e suas formas filosóficas ou científicas. se apresenta como exaustiva. a desrazão. ou da desrazão. seria possível estabelecer três níveis de sentido . Foucault faz uma história da “percepção” e do “conhecimento” e não uma história da “experiência” da loucura. a magia passa ao terreno das intenções maléficas. a partir da divisão entre desrazão social e loucura médica. Hölderlin. p. O mal é assimilado ao pecado a partir da intenção deliberada de pecar. Nerval. Artaud etc. da má vontade. isto é. Desrazão X loucura Ver Pelbart (1989. intenção deliberada de enganar e se inscreve no erro. Van Gogh. 2007. P. sem dúvida atravessada pela razão contra a qual ela luta. Nietzsche. Hospeda os que se sujeitam à correção (cf. p. má vontade. figura de alteridade fundamental. é um conjunto desequilibrado por tudo aquilo de que carece. 289). Sob o signo da ambiguidade. p. 110 sem poder sacro. uma história crítica. lógica das intenções que contraria a lógica divina. p. não como uma forma de negação clássica da loucura. O que lhe interessa é realizar uma história negativa da loucura. a magia deixa de ser profanação (não tem mais poderes obscuros e transcendentais) para se tornar ilusão. foi portanto calada. essência primitiva. mas como resistência ameaçadora. p. isto é. mas não se deixa calar nem dominar por ela. 62-3) e Gros Segundo explica Gros (2000. Realidade originária. ainda. uma abafada consciência trágica não deixou de ficar em vigília (1979. embora ainda subsista. o reconhecido e o condenado. é uma figura fragmentária que. morais ou médicas. limitando-se a afirmar que ela continuou se expressando em personagens como Goya. Uma reorganização do mundo ético.positiva.46). normativa. e o estabelecimento de novas normas na integração social Hospital geral recebe os “estragados” que devem pagar sua falta com a moral pública para voltar à comunidade dos homens de bem da qual fora excomungado. problema do corpo e do coração. Deixa de ser julgada como profanação para ser julgada como insensatez. sagrado ou de sacrilégio. não mais como um mal sob a perspectiva de um destino do mundo. de modo abusivo.

no uso. efeito da emergência e do domínio da linguagem representativa – propriamente clássica (FOUCAULT. remete a uma experiência primária e imemorial (situada na raiz mesma da divisão entre razão e loucura) e que encontra quase sempre sua superfície de aparição na imaginação. A grande questão é que somente a partir do registro moral repressivo do internamento (não médico) – que encadeou práticas vinculadas à sensibilidade social e à percepção dos loucos – que a loucura pode se tornar objeto de conhecimento (médico). nos muros do internamento. apenas um discurso preto no branco. Trata-se.45). a experiência da desrazão a nível da sensibilidade social. Essa é A voz do silêncio. Essa percepção ou sensibilidade (loucura do insensato internado). e como. a partir da Idade Clássica. por fim. e formam uma “arqueologia da alienação” . desatino) e médica (loucura). é o seu encontro no espaço do asilo que determina as condições de possibilidade de uma experiência moderna da loucura como doença mental. Não há mais o espaço cinza da troca e da partilha. se opõem. espaço de exclusão traçado pela divisão ética que reúne todos os desregramentos do espírito e dos costumes. designa a experiência propriamente clássica da loucura. isto é. dessa “experiência central e fundamental da Idade Clássica”. p. o monólogo da razão sobre a loucura. por sua vez.62) identificou como sendo “percepção”. 2000) – que acaba solapando a linguagem própria da loucura. segundo a qual a loucura aparece como “paradoxal manifestação de não ser. É sobre o silêncio e o aprisionamento moral do desatinado que se assenta o conhecimento sobre o louco. privação ou ausência de razão. o desatino. 2) “Desrazão clássica”: como termo da alternativa razão/desrazão. Tratase da categoria que orientará o internamento classicista. da partição. nesse nível. ou seja. ou a própria loucura entendida como uma experiência de linguagem. entre a desrazão (como objeto de uma percepção social ou ainda uma experiência mais originária) e a loucura (como objeto de uma analítica médica) – que Foucault poderá mostrar como o período classicista é marcado por essas duas experiências paralelas: moral (desrazão. espaço inexistente também com a internação dos asilos. que são práticas de exclusão que operam ao nível mais baixo da história. p. É desse silêncio e dessa alienação que Foucault propõe fazer a arqueologia. ‘negatividade vazia da razão’” (Gros. do termo desrazão [sinrazón]. à loucura como objeto de enunciados (loucura médica e filosófica dos enunciados teóricos) a partir dessa última distinção – ou seja. por Foucault. 2000. 3) “Desrazão moral”: este termo designa a vertente prática da experiência clássica. a saber: 1) “Desrazão trágica”: em oposição à loucura. Trata-se de algo próximo àquilo que Machado (2007. a desrazão como manifestação positiva de uma negatividade da razão.

p. identificáveis e condenados. de onde emergirá aos poucos a nova face da loucura (PELBART. levada a cabo pelo banimento e redução ao silêncio.82??). O fato de o homem ocidental ter vivido durante dois mil anos sobre sua definição de animal racional — por que razão esse fato deveria significar necessariamente que ele reconheceu a possibilidade de uma ordem comum à razão e à animalidade? Por que teria ele de ter designado nessa definição a . “Se esse decreto tem um sentido.(1979). Essa profundidade que preexiste à loucura-objeto é que serve de crivo para as práticas A desrazão. não era enquanto tipos sociais concretos. outra coisa é a "desrazão positiva que vai servir de princípio de julgamento da psiquiatria e da racionalidade clássica que lhe preexiste e é por ela reprimida". "que é um produto do Grande Enclausuramento. mas símbolos do mal sob sua forma universal. 91??) nos tira da confusão e nos devolve à trilha inicial. Se também antes a desrazão se encarnava em figuras. através do qual o homem moderno designou no louco sua própria verdade alienada. O que antes perambulava por todos os cantos do mundo numa estranha e ameaçadora familiaridade inumana — a désrazão — agora é confinado a um universo social restrito — os desarrazoados. Ele lembra que na História da Loucura o termo desrazão é utilizado em pelo menos duas acepções diferentes: uma coisa é a desrazão clássica. antes inumana e onipresente. a sabedoria positiva da natureza. Roberto Machado (2005. para aquele que o observar bem. diz ele. p. Loucura como animalidade contranatural De fato. bem antes de o homem apoderar-se dele e simbolizá-lo. 59). A obra de Lautréamont é um testemunho disso. esse campo da alienação onde o louco se vê banido. e a maneira como foi formado deve indicar-nos como se constituiu a experiência da loucura” (1979. por seu furor. p. e portanto um objeto construído". a uma negatividade que ameaça a ordem e põe em perigo. agora não passa de uma galeria de tipos desviantes. Esse campo foi realmente circunscrito pelo espaço do internamento. torna-se claro que o animal pertence antes à contranatureza. 1989. E que tem como ponto de partida o decreto do internamento. por exemplo os expatriados na Nau dos Insensatos. entre tantas outras figuras que para nós [olhando hoje] não mais têm parentesco com ele. é na medida em que se constituiu.

mas em relação à imaginação — volta que afasta da vida do homem e de seus prazeres tudo o que é artificial. Esta partilha sem recursos faz da era clássica uma era de entendimento para a existência da loucura. p. Entregar a loucura à natureza seria. "é mais feliz. da qual sua loucura é apenas uma das manifestações. 1979. observando-a de mais perto. ele escapa à lei do trabalho que a própria natureza lhe impõe. no silêncio. que ele impõe a sua arte e a seus artifícios que a natureza desdobra uma atividade que é exatamente recíproca da renúncia. as práticas reais que dizem respeito aos insanos são testemunhos suficientes de que a loucura era ainda considerada na violência contranatural da animalidade (FOUCAULT. levam uma vida de animal carnívoro. . em troca. A loucura na era clássica resulta como vimos. procura inscrever-se nesse mecanismo natural. irreal.) Na era clássica. A cura da loucura pressupõe portanto uma volta àquilo que é imediato não em relação ao desejo. mergulha no mundo do artifício e da contranatureza. Do lado do selvagem. Não há possibilidade alguma de qualquer diálogo. do que a do homem mundano". imaginário. das ameaças da bestialidade — uma bestialidade dominada inteiramente pela predação e pelo instinto de assassinato.maneira pela qual se insere na positividade natural? (. "Os Selvagens. por uma inversão não dominada. É toda a diferença entre o Selvagem e o Trabalhador. ??). sem coação. na natureza. o desejo imediato. As terapêuticas pelo mergulho refletido no imediato pressupõem secretamente a mediação de uma sabedoria que divide. aquilo que procede da violência e o que procede da verdade... de qualquer confronto entre uma prática que domina a contranatureza e a reduz ao silêncio e um conhecimento que tenta decifrar as verdades da natureza É na passividade do homem em relação a si mesmo. se é verdade que a análise científica e médica da loucura. e não a do ser racional. quando o homem se entrega ao medicamento. Pois. essa passividade do homem é atividade real." A vida do Trabalhador. de fato. abandoná-la a essa raiva da contranatureza... como veremos mais adiante. sem disciplina.

visando o não-contato entre as pessoas que vão para além das fronteiras. do lado do trabalhador. Nesse "Hospital". 43). numa ordem perfeita. o equívoco do real e da ilusão. o prazer sem mediação. figura já precária dessa época barroca (1979. Todo esse mundo de desordem. pronuncia. Ela se torna presença constante na literatura e no teatro da época. todos os jogos da aparência. sempre rompida. por sua vez. acaso No final da Idade Média. superfície das coisas e à luz do dia. desrazão clássica: Delimitação e localização da loucura na desrazão clássica: Através apenas do movimento do internamento. sem excitação nem realização imaginária. Sob controle. sempre retomada. Shakespeare. sem solicitação vã. profundidade. é luz e sombra. Jardim. e sobre elas recai uma desqualificação jurídica e política (não necessariamente moral nesta época). isto é. a loucura mantém todas as aparências de seu império. Toma-se agora um recuo necessário a fim de que a insanidade se torne objeto da percepção. A desrazão é definida em relação às forças da natureza e em contraposição à razão. p. toda essa trama indefinida. Doravante. estas pessoas se encontram excluídas.sem moralidade real. que une e separa ao mesmo tempo a verdade e o parecer. Ela cintila: figura central e indulgente. ela faz parte das medidas da razão e do trabalho da verdade. . Ela representa. Ela oculta e manifesta. Deixa de ser um objeto fantasmático confuso na medida mesma em que perde seu poder de encanto e de ameaça. o Elogio da Razão. o internamento é uma seqüência do embarque. VER HL: sentido superfície. etc. exiladas no exterior da sociedade num espaço indeterminado. o desatino se vê libertado: libertado das paisagens nas quais estava presente por toda parte — e ei-lo por conseguinte localizado — mas libertado também de suas ambigüidades dialéticas e nessa medida delimitado em sua presença concreta. a loucura é organizada segundo o modelo da lepra seguindo uma separação estrita. diz a verdade e a mentira.

98 Modernidade: Verdade se esconde abaixo da superfície dos seres e das coisas que ganham verticalidade e profundidade. Olho nas sombras e desvãos a verdade que lhe escapa e se esconde até descobrir que o próprio olho não é senão negror e vazio. Trata-se de uma tecnologia positiva de poder na qual se lança mão de uma lógica de controle distinta.Logo. . 288 Freud só é elogiado em HL qd aloca a loucra na linguagem. mas ainda não-nomeável. 2008) Ver aula Birman Clássica PC: Predomínio do visível – representável – sobre o invisível. E. deixassem pois de fazer parte de mesma unidade antropológica. a busca pela negativização da loucura. onde elas mesmas determinam o código pelo qual são lidas. Ou então não será surpresa alguma que o enlace entre loucura e doença mental se desfaça com o desaparecimento do homem. e perto da linguagem. MO. > grande superfície = quadro geral > verdade na epiderme do mundo. p. a loucura como linguagem é uma concepção trágica.. Loucura trágica como linguagem Foucault 1979. Freud coloca a loucura num lugar perigoso. obscura e indecifrável. p. longe do patológico. o acolhimento da escuta atenta é apenas o outro lado da rejeição da loucura na palavra. Já ele é criticado quando faz qualquer teoria da loucura (tipo 3 ensaios). 360?? Elogia freud pela realização da “violência soberana de um retorno”. Olho contempla a diversidade das formas MO p. a loucura se efetuaria em uma dobra de algo visível. o modelo de pura exclusão da lepra é substituído pelo da peste. A escuta desenvolvida é a busca da verdade inerente ao homem. Ver aula Birman. O que retorna é a voz da loucura. que inclui e individualiza os sujeitos (FOUCUALT. Escuta da psicanaise. sua linguagem polissêmica. freud: (1964/1999) Entre a exclusão do louco e sua inclusão no saber pela razão que incide sobre ele. numa zona transgressiva na qual as palavras se sobre-implicam.. portanto.

porque o médico continua sendo a chave da desalienação. na era clássica da literatura da loucura. no movimento pelo qual chega à verdade. Sua verdade só podia ser envolvida num discurso que lhe permanecia exterior. torna impossível o lirismo do desatino. sobre ela. 1979. p. Há muito tempo se havia calado essa linguagem de si mesma sobre si mesma que entoava seu elogio. Mas. a síntese de sua linguagem e da verdade. fazer o quê. Mas ela não tinha o poder de operar por si mesma. porque é uma prova a contrario daquilo que é. São sem dúvida inúmeros os textos dos séculos XVII e XVIII onde se aborda a loucura: mas neles ela é citada como exemplo. ela é a do desatino prisionada pelo discurso médico. "são loucos . A loucura clássica pertencia às regiões do silêncio. isto é. " Descartes. entre tantos propósitos inúteis e na gramática insensata de seus paradoxos. Dimensão improdutiva da loucura. e depois dele todo um modo literário. O desatino não pode ser contudo expressado na psicanálise. uma possibilidade de que ela pudesse manter uma linguagem que fosse verdadeira. p. em sua natureza positiva. discursos verdadeiros. a loucura volta a dizer algo de sua própria verdade. em sua dimensão negativa. apenas com Hölderlin. no sentido em que não há para a loucura uma linguagem autônoma. de uma linguagem onde lhe era permitido falar na primeira pessoa e enunciar.. aquilo que Le Neveu de Rameau já indicava. Seu sentido só pode aparecer diante do médico e do filósofo. . Reaparecimento da linguagem da loucura: no sobrinho de Rameau. Reconhecia-se a linguagem secreta do delírio.. é considerada obliquamente. Em si mesma. 560-1). a loucura e o desatino ainda estão juntos Linguagem dura: rica em suas promessas e irônica em sua redução. inútil gramática insensata. etc. é coisa muda: não existe. é o reaparecimento da loucura no domínio da linguagem. a razão.. daqueles que são capazes de conhecer sua natureza profunda. Linguagem da loucura pela primeira vez reencontrada depois da Renascença. alguma coisa que tivesse uma relação essencial com a verdade (FOUCAULT. 554) Freud abre uma fenda de linguagem entre o louco e o não-louco. Ouçamos suas primeiras palavras. dominá-la em seu nãoser e de ultrapassá-la na direção da verdade.. e só pdoe fazer isto porque A alienação se torna desalienante. por um direito primitivo e por sua própria virtude. Ora. Não há essência nenhuma da loucura.(1979. faziam-se. a título de espécie médica ou porque ela ilustra a verdade abafada do erro.

a loucura (1964/1999): “Talvez. e seria esta separação ritual do mal. Um limite que é construído A experiência qualitativa irredutível da loucura trágica aparece na arte. algo persistiria. no contato com o fora. Esses rastros mesmos. um dia. se ocupa das formas de exclusão.Loucura qualitativa e irredutível: A dimensão qualitativa da loucura consiste em realidade em sua antinatureza contranatural.” (p. na arte de Goya. Nerval. sem dúvida por antífrase. como o fez com a lepra e a tuberculose ainda restaria ao homem os fantasmas do seu outro. Foucault (1979. Por isso. resistindo com sua força própria a esse gigantesco aprisionamento moral que se está acostumado a chamar. 554-5) sinaliza que desde o fim do século XVIII. advinda de um decreto administrativo que separa ritualmente os bons dos maus. Mesmo que a loucura deixasse de ser doença mental – por um superdesenvolvimento dos tratamentos. o insubordinado que pulsa sob o ser profundo daquilo que se constitui como Outro da cultura. Como sinaliza Blanchot (2012). contato que se dá nos limites da cultura. 190) Mesmo se a medicina erradicasse a loucura. A relação da sociedade com aquilo que ela exclui. a vida do desatino só se manifesta na fulguração de obras como as de Hölderlin. não saibamos mais muito bem o que pode ter sido a loucura.. Foucault se vale da figura de Artaud para ilustrar que a loucura se dá como limite das formas constitutivas de nossa sociedade. Nietzsche ou Artaud — indefinidamente irredutíveis a essas alienações que curam. estas obras devem servir de aprametro para medir as práticas e as teorias que tangem a loucura. As influências para HL vêm da literatura e da presença da loucura nela (1961/1999a). seriam eles outra coisa. que passa a ser naturalizada com a era clássica. não permitindo mais decifrar os rastros que ela terá deixado. de a libertação dos . por exemplo. p. Van Gogh e Artaud. onde ela se desenvolve e se expande. Sua figura terá se fechado sobre ela própria. no caso. da farmacologia e das técnicas de incidência sobre a loucura –. HL trata apenas indiretamente da loucura..

Ela sinaliza o tempo desregrado. que consiste em sujeitar o louco. fora dos gonzos. a experiência trágica persiste nas manifestações transgressoras dos artistas desarrazoados que resistem à (captura sob a forma de) alienação e doença mental a partir do século XVIII. ao esperado. ampliou-os ao máximo. Criou a situação psicanalítica. A relação com o fora fora caracterizado por Nietzsche (?? VP?) como transbordamento. da própria loucura e. a loucra é um sol para Artaud (onde??) Alienação no médico e crítica à Freud Freud fez deslizar na direção do médico todas as estruturas que Pinel e Tuke haviam organizado no internamento. Sade. ela se torna sujeito. da experiência humana. torna seu legado e sua vitória evidentes. 34-5) sobre a exp trágica despertada nas últimas palavras de Nietzsche e Van Gogh e Artaud falando sobre o berço trágico da cultura perdido desde a expulsão do sol da loucura. O contato com o fora que se dá na arte propicia uma linha de escape da locuura Às determinações históricas de seu tempo. Nietzsche. Ela sai dos aprioris históricos [[Voc]] que caracterizam e determinam pensamento e experiência de uma época segundo Foucault. no médico. Como força que tende ao além das bordas do pensável e do permitido que acaba por colocar em xeque os limites da cultura. p. mais que isso. Subterraneamente. A alienação é o fio que atravessa e transpassa do louco ao médico e possibilita a cura. torna-lo sujeito a partir de sua objetivação. por um curto-circuito genial. ligando-os nas mãos do médico. a alienação torna-se desalienante porque. Goya transgredem as fronteiras do pensamento ao persistirem com uma verdade qualitativa que insiste no fundo da desrazão fazendo frente à apropriação médica e psiquiátrica. ao já dado. Ver citação Foucault (1979. Ele de fato libertou o doente dessa existência asilar na qual o tinham alienado seus "libertadores". Ao nível artístico. Como se dá esta sujeição a partir da objetivação do olhar e da prática médica? . Nietzsche (2008a) brada que escreve para o futuro e o fato de hoje discutimos suas ideias. o valor está no que escapa ao clichê.alienados por Pinel e Tuke. Mas não o libertou daquilo que havia de essencial nessa existência. onde. agrupou os poderes dela.

A profundidade de um escrito como o de Artaud – podemos tomar mesmo Para dar fim ao juízo de Deus – que transpassa e coabita simultaneamente vairos extratos. num paroxismo de plurivocidade de sua falsa claridade. 66) energa em Lawrence como desdobramento de um devir em uma consciência sensível que manifestadamente se opõe “ao fechamento da consciência moral na ideia fixa alegórica”. O médico continua a ser a chave e a possibilidade mesma da desalienação com Freud. Profundidade que faz saltar aos olhos o impossível da criação. De ceta maneira. Louc Artaud profundidade em obra Ver: derrida. algo próximo da filosofia. Assim como os livros de Blanchot.. nem ficção.Mais que o internamento.. em que trata de Hölderlin e Artaud usando Blanchot e Foucault. não penetramos senão na sua fundura superficial. Artaud procede pelo aprofundamento que Deleuze (2011. Artaud liga. De fato. mas não ainda. através do dispositivo da transferência. Ele escreve sobre sua incapacidade de escrever. atravessando a especificidade de cada um desses extratos misturando-os bastardamente fazendo aflorar um outro substrato.. Gaguejar é reencontrar esta própria profundidade na língua (os afetos). nuam performance radiofônica. ontologia num poema. . O símbolo desta revolta reúne os sentidos contra a visão distanciada da alegoria psiquiátrica. 2011). p. o papel do médico é inflacionado. Ao mergulhar na profundidade. nem propriamente teoria ou crítica literária. A esceritura a diferença: a palavra soprada. e talvez de toda criação. faz ao mesmo tempo crítica literária. podemos sentir a gravidade de seu grito profundo.. nas cartas e denúncias que Artaud esbraveja contra a alegoria moral psiquiátrica. na profundidade de sua obra e de seu delírio. a noite obscura da desrazão (negativa ainda como a doença) à claridade luminosa do que se chama loucura – propositiva e afirmativa como um modo de vida que ressoa após a negação da negação como o brilho do fio de Ariadne (DELEUZE.

Se situa na confluência de grandes inspirações. Depois a loucura vai ser algo à parte ao desatino.Loucura e desatino: o sobrinho de Rameau Loucura e desatino. é o MEU louco”. a loucura e o desatino ainda estão juntos. arquitetura e estruturação. o desatino se torna loucura na ilusão. de zombaria do rei para alçar ás formas modernas do desatino. construindo os duplos entre algo humano e o que está fora dela. Enlouquece-se porque se afasta da sua natureza. como ela ganha vida própria. Final e meados sec XVIII O Sobrinho de Rameau: Diálogo entre ele e eu. Nietzsche e Artaud. desrazão 3ra pt HL retorno profundidade desatino Ali se explicitam problemas de organização. Como se equilibra o desatino dentro da razão. através das forças penetrantes que mudam o sujeito. P342: por que o desatino faz um retorno á profundidade do século XVI. A loucura passa ser algo produzido pelo meio. de Diderot. O sobrinho do Rameau marca esta separação. Pega a categoria do delírio para fazer a diferenciação. Num relâmpago perfaz a grande linha interrompida entre a nau dos loucos até as ultimas palavras de nietzsche e ás vociferações de artaud. A questão é como a loucura se separa do desatino. marca algo importante (que é o acontecimento para Foucault). imaginativo. Nerval. e muitas outras. Forças negativas que têm sua positividade no meio. Uma sátira dessa duplicação. Isso leva ao grande medo no séc XVIII. Loucura como um problema da liberdade do homem. Pega esta obra para tomar o fora no contato com a loucura desde Diderot a nietzsche a Freud. . Nele. “ele não é um louco. Um perfil de bufonaria. A emergência deste personagem é uma representação do imaginário social que dura um relâmpago mas é algo importante. diferente do nervoso que temos hoje. de Nietzsche a Artaud passando pela fala do sobrinho de Rameau. O Sobrinho de Rameau separa a loucura do desatino definitivamente. e depois esse duplo passa pelo nervoso pictórico. do bufão em seu poder de irrisão. a ciência e a sensibilidade (artes) o afastam do sensível. O delírio é a necessidade de um eterno vazio. o desatino vai ficar guardada.

retomando um lugar na ordem geral e com isso esquecer a loucura que é o momento da subjetividade pura.. Existia uma autoridade interior na idade clássica. entregar-se à sua sabedoria. Por que não é possível ficar no desatino? Qual é o poder que petrifica os que encararam de frente e que condena á loucura àqueles que enfrentaram de frente o desatino? A literatura é aquilo que resgata o desatino clássico. lembrar Bartleby. nessas curas pelo movimento é possível reconhecer um tema moral simétrico. (. em contraposição à tradição psiquiátrica. justamente por . formado na propositividade.O desatino fica latente para aparecer a loucura. é o único. mas invertido em relação ao primeiro: voltar ao mundo. que é o mundo propositivo. de vontade de poder. O discurso médico é uma forma nova de governo da autoridade. Uma vez desatinado. da mesma forma que o bobo da corte na experiência renascentista.) A figura do bufão do desatinado é a representação da exp da loucura como crítica da crítica. da ablução e do segundo nascimento. que não é um homem de suposições. dar a medida do bom uso da liberdade. Diferente também da possibilidade de conversão do louco aos bons usos da liberdade… O que está em jogo é um uso da liberdade. desatinado para sempre. (pensar na Célia falando da Suzane Richtophem – um sopro da poesia do real) – louc crítica]]. mas de preferências. (fundado na proposição.) Erro e falta. enquanto crítica da crítica. não havia projeto restaurador para nenhum dos personagens da desrazão… aquilo era um imperativo da soberania. que queria simplesmente excluir quen ao tinha projeto de restauração ou conversão que se identifica com o projeto terapêutico que visa desalienar o alienado que é o objetivo da psiquiatrai. quase religiosas. sou eu. que ele vai contar a história. bem ou mal. mas é também. não há transformação (diferentemente do q está em prefacio à transgressão q a questão é como diferir)…. O bobo é associado a nietzsche a artaud ressalta a positividade do desatino.. ela é um afastamento do mundo e da verdade. que não ocrresponde ao poder soberano. a loucura é ao mesmo tempo impureza e solidez. Loucura e transcendental Se é fato que nas técnicas da imersão se ocultam sempre as lembranças éticas.

e totalmente impura. o não-ser do erro. até em seus símbolos físicos mais carregados de intensidade imaginária — consolidação e recolocação em movimento de um lado. (FOUCAULT. . O meio nas deixa o homem ouvir seus desejos. 355-6) A cura da loucura passa por se lembrar do mundo e se esquivar da subjetividade pura. A técnica de cura. ele não é a positividade da natureza como ela se apresenta ao mundo. é o não-ser do mal. Loucura e alienação: médica e filosófica Tem a alienação do médico e do filósofo que ainda apareciam como duas coisas separadas. pois nada é a não ser o ponto evanescente de uma subjetividade à qual foi subtraída toda presença da verdade. aniquilar o não-ser que o aliena de si mesmo e reabri-lo para a plenitude do mundo exterior. no vazio e na aparência colorida de seu delírio. Seu duplo nada é o de ser a forma visível desse não-ser que é o mal e de proferir. 1979. p. Ela é totalmente pura. para a sólida verdade do ser. uma vez que esse nada que ela é. Foucault desenha uma modificação entre a alienação para a psiquiatria entre a lei de 1938 até 1875. mas aquilo que afasta o homem de sua natureza. Trata-se ao mesmo tempo de devolver o indivíduo à sua pureza inicial e de subtraí-lo à sua pura subjetividade para iniciá-lo no mundo. purificação e imersão do outro — ordena-se secretamente em relação a esses dois temas fundamentais.isso. prisioneira do mal.

p. a internação é mantida). AN. completa. “Não se trata mais. da saúde (de fato. Hegel (apud FOUCAULT. eventualmente. Esse tratamento humano. a médica e a judiciária em torno da correção dos indivíduos. Com a mudança de paradigma do alienismo para a psiquiatria a questão colocada em jogo não é mais se perante os sinais positivos de demência. nem do lado da inteligência. pelo que ele pode compreender ou ainda pelo que ele pode conscientemente querer. a internação por solicitação da família. . assim como a doença física não é uma perda abstrata. O anormal é um monstro pálido. dos estigmas da incapacidade no nível da consciência. nem do lado da vontade e de sua responsabilidade. Estes tipos de intermento. comete ou pelo que pode decorrer involuntariamente em seu comportamento. mas um simples desarranjo do espírito. estabelecer punição cabível ou não. 524) aponta que o verdadeiro tratamento psíquico apega-se à concepção de que a loucura não é uma perda abstrata da razão. mas uma contradição dentro desta. uma contradição na razão que ainda existe. a internação psiquiátrica por solicitação da administração pública (ela que estabelece o vínculo loucura-perigo) e que abre caminho para a internação voluntária. tão benevolente quanto razoável da loucura. não são condicionados por eles (isto significa que mesmo que os médicos não atestem alienação. p. 178). embora acompanhados por atestados médicos. a alienação médica se conflui com a alienação filosófica esboçada na filosofia hegeliana enquanto erro subjacente primeiro ao pensamento e conseguintemente ao comportamento.. mudo e discreto que aparece cujo fundamento é a noção de instinto. 10 O marco de referência para a transformação da psiquiatria para Foucault (AN) é a lei de 1838 que define a internação ex officio. 1979.Até 183810. alienação ou delírio o sujeito é incapaz como sujeito jurídico de direito. Nesta âmbito. coemergente à psiquiatria e ordem penal e que funciona em ambos e a partir de ambas as esferas médica e jurídica. mas pelo que ele faz. portanto. mas interroga-se sobre a desordem e o nível de periculosidade do indivíduo. isto é. pressupõe que o doente é razoável e encontra aí um sólido ponto para abordá-lo desse lado. A questão não passa mais pelo que o indivíduo pensa. precede-se pelo mergulho nos interesses subjacentes a fim de se compreender o crime e.. são uma decisão extramédica que amarra duas instâncias de saber-poder. mas dos focos de perigo no nível do comportamento” (FOUCAULT. isto é. isso seria a morte).

pois enquanto ele não reconhecer sua doença. outra ordem natural e um outro imediatismo são colocada em jogo com a alienação e a psiquiatria Um imediato onde a violência é isolada da verdade. mais constrangedores para a loucura. no espaço do internamento. podia irromper no homem. Enquanto verdade. Desse sistema é preciso libertar a loucura para que. o ponto último da existência natural era ao mesmo tempo o ponto de exaltação da contranatureza — sendo a natureza humana. a selvageria posta ao lado da liberdade. como metáforas. reduz a contranatureza e todos os fantasmas do imaginário. HL uma outra natureza. agora carregado de eficácia positiva.Obediência: O louco que não tem consciência da sua prorpia doença é incurável… isto é o corolário de todos os livros de psiquiatria. um imediato onde a natureza é mediatizada pela moral. como separação entre a razão e o desatino. ao velho regime. em sua ira. não é suprimido. na abafada presença do animal. ela seja livre para despojar-se de sua selvagem liberdade e acolher as exigências da natureza que são para ela ao mesmo tempo verdade e lei. o espaço por ele ocupado deixa transparecer poderes naturais. ele deve permanecer atado. Enquanto lei. o ponto pelo qual a loucura. Em suma. ela mesma e . Por isso pinel não acaba com todo o acorrentamento. Antes havia. o ponto mais profundo. a natureza coage a violência do desejo. mas. os acorrentados vão permanecer submetidos. onde a natureza deixa de poder reconhecer-se nas figuras fantásticas da contranatureza. mais adequados para submetê-la em sua essência que todo o velho sistema limitativo e repressivo. HL o meio representa um papel mais ou menos simétrico e inverso àquele que outrora representava a animalidade. O internamento. no próprio interior de seus propósitos.

o Juiz que pune e recompensa no juízo que não condescende nem mesmo com a linguagem. ampliou suas virtudes de taumaturgo. todos os poderes que estavam divididos na existência coletiva do asilo. fez dele o espelho no qual a loucura. sobre essa presença única. tal como ele se constitui ao final do século XVIII: é a apoteose da personagem do médico” (p. ao reconhecimento pelo espelho. e é escapando à vida imediata do animal. O sujeito ser consciente pela sua doença é ser responsável por ela. Foucault usa o termo “neutralidade” apontando para o dispositivo psicanalítico. numa ausência que é também presença total. fez com que se calassem as instâncias da condenação. sua própria contranatureza. 496). se enamora e se afasta de si mesma (p. quer como a lesão de uma faculdade superior quase humana]] Loucura e tratamento moral Três eixos que organizam o tratamento moral: Silêncio. aí pôde então ter doença mental. O animal não pode ser louco. Ao final do século XVIII. 502). Freud X lógica asilar alienista clássica Freud desmistificou todas as outras estruturas do asilo: aboliu o silêncio e o olhar. ou pelo menos nele não é a animalidade que veicula a loucura46 [[XVIII A loucura dos animais é concebida quer como um efeito da domesticação e da vida em sociedade (melancolia dos cães privados de seus donos). condição sem a qual o tratamento não é possível… por isso a psiquiatria toda converge para Freud. a esse eterno julgamento. apagou o reconhecimento da loucura por ela mesma no espelho de seu próprio espetáculo. “Ao silêncio. no momento em que ele constitui para si um meio. Fez dele o Olhar absoluto. a tranqüilidade animal pertence inteiramente à felicidade da natureza. seria preciso acrescentar uma quarta estrutura própria do mundo asilar. . oculta atrás do doente e acima dele.imediatamente. preparando para sua onipotência um estatuto quase divino. Trouxe para ele. reconhecimento especular e o julgamento perpetuo. que o homem se abre à possibilidade da contranatureza e se expõe ao perigo da loucura. o Silêncio puro e sempre contido. Desbobrados nas p. em compensação. enqt herdeiro deste sistema. num movimento quase imóvel. 490-3 A ordem de pura clausura física do internamento clássico dura e se arrasta até o médico assumir o asilo. Mas em compensação explorou a estrutura que envolve a personagem do médico.

é projetada sobre os outros. mas à exceção desse olhar direto. A loucura. expressando-se sempre "com o tom do comando e da autoridade suprema".quando o médico (sem guardas nem algemas) assume de vez toda a autoridade do tratamento (no dispositivo alienista isto já estava lá sob a figura do taumaturgo. e se sabia visto. visa calar a loucura. torna-se desmistificador. ora outro. mas as potencias criativas…. Um dia em que estava mais calmo. pelo contrário. Ora ele é um. Toda vez que a psicanálise tenta fazer uam teoria sobre opsiquismo (tipo 3 ensaios). que em compensação não lhe permitia apreender a si mesmo a não ser obliquamente. É nesse momento que o espelho. o vigilante se aproxima e lhe pergunta como. do pai). Tratamento moral e (Re)conhecimento: reconhecimento especular: A loucura passa a ser reconhecida na figura do louco voltada sobre si mesma a partir dos alienistas. será vista por si mesma — simultaneamente como objeto de espetáculo e sujeito absoluto (FOUCAULT. 491). Com Pinel. mas agora se abole a possibilidade de obra. dando essência (quando ele faz uam teoria sobre a loucura) À loiucura. como simples delírio. acaba com a relação entre obra e loucura Não se ve mais nenhuma virtualidade de obra… O não-reconhecimento de obra se dava antes. Freud oscila entre estas duas colocações de Freud. não punha ele um fim à sua detenção e por que era confundido com os alienados de todo tipo. ele é trágico. o louco era olhado. ela é inteiramente assumida. “aos poucos ele lhe faz ver o ridículo de suas pretensões exageradas. Com esta camisa de força você apaga a existência da obra da loucura. Um outro doente de Bicêtre também se acredita rei. de deus. A camisa-de-força bioquímica é um processo que possibilita ao louco viver na sociedade. p. do juiz. com o reconhecimento pelo espelho. se ele era mesmo soberano. “recalcar” não somente os sintomas. Retomando seu discurso nos dias seguintes. No Retiro. sem superfície ou limites externos. agora quando Freud localiza a loucura na linguagem. Ela se verá a si mesma. A tese inicial é a interiorização da loucura em seu rebatimento de base com a questão d liberdade. . como perfeita inconsciência. como cúmplice. o olhar só será exercido no interior do espaço definido pela loucura. foucualt critica Freud porque ele está reduzindo. a loucura não exercia um domínio imediato sobre si. 1979.

Assim o objetivo de Pinel é sempre moral. e a seguir põe em dúvida seu título de soberano. de início. p. o essencial de sua liberdade. no renascimento os siameses.aponta-lhe um outro alienado também convencido há muito tempo de que estava revestido do poder supremo e que se tornara objeto de troça. O manicômio dispõe de espelhos e de uma lógica especular tem como fim o autorreconhecimento do louco enquanto tal. e. O maníaco se sente. Loucura e monstruosidade Ver Vermeren (p. onde não há consciência. ela se torna responsável por aquilo que ela sabe sobre sua verdade. 493). p. 191) em A monstruosidade e o monstro. pois sinaliza a entrada na ordem das forças. que é a liberdade da exaltação solitária. libertada das correntes que dela faziam um puro objeto olhado. Essa revolução moral tão inesperada ocorreu em quinze dias. esse pai respeitoso foi devolvido a sua família”60 Portanto. 1979. o louco se reconhece como num espelho nessa loucura cuja ridícula pretensão ele mesmo denunciou. humilhar para que o louco se reconheça louco. é chegada a fase da humilhação: identificado presunçosamente com o objeto de seu delírio. Porém podemos por que este autorreconhecimento do louco enquanto louco é tão importante. e finalmente reconhece a natureza de suas quimeras. ele se reconhece como objetivamente louco. Renascimento AN 22 01 75 Foucault (2008) explora como o monstro aparece na história do ocidente: na idade Média. 1979. (FOUCAULT. o homem bestial na fronteira com o animal. A loucura é a perfeita inconsciência de si mesma. aprisiona-se em seu olhar indefinidamente remetido a si mesma. de maneira paradoxal. Deste modo. após alguns meses de provação. 14) E Canguilhem (2012. p. a loucura perde. mesmo na surpresa e contra sua vontade. 492). Sua sólida soberania de sujeito se esboroa nesse objeto que ele desmistificou ao assumi-la. E no silêncio daqueles que representam a razão. Ele é agora impiedosamente encarado por si mesmo. assim como a analogia do sujeito com uma cabeça e dois corpos ou dois corpos e uma . e que apenas seguraram o espelho perigoso. É finalmente acorrentada à humilhação de ser objeto para si própria (FOUCAULT. abalado.

A partir do XVII. Como o caso de 1599 da página 84. o hermafrodita ganha terreno. testemunhado ( evoquemos Goya. 2000b. Num amplo olhar que cobre desde as crônicas prodigiosas . p . ele vem a servir de base para o monstro do século XVIII e do XIX. e será sempre não só pressentido como ainda. apenas se se faz uso (ilegal) do sexo anexo. do povo francês. adequados à função de complemento inverso e simétrico da humanidade do homem "fascínio do trágico". 3 9 1 ) . Nietzsche. Marie ou Marin Lemarcis é condenado à morte não sem ser antes torturado em frente á esposa 85 Transformação que sofre a monstruosidade na Renascença: o interesse pelos nascimentos monstruosos impõe-se totalmente. A primeira categoria. não se é condenado por ser hermafordita. uma batizada e a outra morta antes. Segue uma analise de alguns casos de hermafroditismo. assim como a sua representação e o seu modo de viver o espaço e o tempo (GIL. Van Gogh Canguilhem (2012. 175). É o próprio corpo do homem que muda. referente às entidades que povoam o imaginário são decalcadas da existência do monstruoso que habita a experiência dessa época sob um vínculo polissêmico que vai da celebração à identificação do monstruoso ao delito temperado com o diabólico. a imagem do monstro se compunha de elementos repulsivos. da Antiguidade a Descartes. de tempos em tempos. e que representa. a divisão da França. entre aqueles salvos pelo batismo (e a tradição católica) e os condenados à danação. Sade. O hermafrodita de Rouen em 1601. apagando as raças fabulosas. p. A homosexualidade é rastreada e passível de ser punida sob pena de vida. através de um caso paradigmático de um batismo de duas crianças siamesas. subsiste mesmo na obscuridade. como que "nas noites dos pensamentos e dos sonhos" ( 4. 193) encontra na “teratologia da Idade Média e do Renascimento apenas um recenseamento das monstruosidades e mais uma celebração do monstruoso”. Na idade clássica.cabeça com a cristandade dividida em duas comunidades religiosas (episteme da semelhança – método da analogia).

didático. Por que. documental. pleno de sentido aqui. À medida que não tem significação fixa. místico devoto ou herege. Ora.até mesmo a teratologia com fins médico-etiológico. a África produz mais monstros do que as outras regiões? “Porque todas as espécies de animais. Precisamente como as personagens da loucura medieval que figuram nas embarcações de Brant e Bosch. Nela. Noutras. A consciência renascentista da loucura oscila. entretanto. consequência de um . o epistemólogo encontra uma justaposição entre as duas figuras. Os produtos animais interespecíficos são o resultado de cruzamentos violando a regra de endogamia. nem entre o absurdo e o monstruoso que habita sem distinção os motivos das catedrais e as cosmografias. ali copulam geralmente sem discrição de espécie”. de uniões sem observância de similitude [[como o quer Polack]]. tratados como crianças e cumprindo tarefas subalternas. mas a enriquece com uma referência ao diabólico. A monstruosidade. dando-lhes de comer para deixá-los à deriva das águas que os levem embora e purifiquem seu desatino. A monstruosidade é menos a consequência da contingência da vida do que da licença dos viventes. portanto. o louco e o monstro por vezes vêm a se juntar ao sãos para viver em sociedade nas cidades medievais. termo ambíguo. A Idade Média conserva a identificação do monstruoso com o delituoso. que o monstruoso medieval não tem significação fixa: serve de recurso simbólico. sintomática da ausência de juízo e de determinação estável acerca dela. os atiramos fora dos muros da cidade. juntandose perto das águas para beber. A ambiguidade de Bosch. entre a flutuação na experiência sem significação e uma obsessão imaginária. indistintamente. aparentemente tão positivo e descritivo. pergunta Scipion du Pleix. do monstruoso e da monstruosidade. Vemos a monstruosidade sobrevir por falta de discrição. da hibridação à monstruosidade a passagem é fácil. O próprio termo “híbrido”. as imagens do Apocalipse e os bestiários assim como as gravuras burlescas e engraçadas – como próprio tema da Nau dos insensatos pode ser aí inserido – e as compilações de presságios e prognósticos. O monstro é a um só tempo o efeito de uma infração à regra de segregação sexual específica e o indício de uma vontade de perversão do quadro das criaturas. uma variedade de monstros que vão dos cefalópodes (grylles) de múltiplas cabeças Antiguidade e a Idade Média tenham considerado a monstruosidade como efeito do monstruoso. não há delimitação ou fronteira estável entre organismos e utensílios. faz crer isso em sua etimologia. repousa na polêmica da polissemia sustentada pela confusão das fronteiras em sua pintura. Nalgumas até eles passam a viver na aldeia.

Modernidade “Depois que. a "consciência enunciativa" e a consciência analítica" ( 3 a. o gesto prático que exige o afas tamento. cada figura histórica da loucura implica a simultaneidade dessas quatro formas de consciência — ao mesmo tempo o conflito obscuro entre elas e sua unidade incessantemente desfeita” 189 ?? A desrazão clássica não é uma razão desarrazoada. por o utro.carnaval dos animais. as formas dramáticas da cisão". desapareceu a experiência trágica do insano. Modernidade agrupa a "consciência crítica" e a "consciência prática" ( l a. é que com ela alterou-se a geografia da loucura" (PELBART.41). Grécia e Roma os sacrifica. não se inscreve na continuidade. 1989. a responsabilidade eclipsa a causalidade. ao silêncio da exclusão. forma) . e 4a. forrnas) . através da reclusão asilar. a respeito dessa inversão. p. A questão do ilícito eclipsa a do irregular. forrnas) numa forma institucionalizada que é o internamento a oposição entre razão e loucura. a reclusão de tudo o que pode significar a quele perigo (2a. com a Renascença. é a redução da loucura à SUa forma "neg�tiva". oposição reversível e por isto perigosa (1 a. e 2a. Se o Oriente diviniza os monstros. contrariamente à época moderna. o mínimo que podemos dizer. depois de beber! Mais ainda do que no caso dos animais. tratando-se do homem. "se é verdade que a Antiguidade grega manteve com o louco uma proximidade de fato e uma distância absoluta de direito. . forrna) e. Clássica Percepção de um simulacro tem os mesmos efeitos que a percepção de um objeto real. a aparição da monstruosidade é uma assinatura. esta última corresponde na realidade à alienação. no outro. em que a identidade é de direito e a distância é de fato.

Apenas inscrito numa série orgânica. “Não há monstro mineral. uma reflexão sobre si mesma no momento em que acredita designar ou o estranho ou aquilo que nela existe de mais estranho. 187). 170) Os monstros questionam de maneira imediata com sua existência a capacidade de ordenamento intrínseca à vida. corno "rnodo de presença positiva no mundo" (4. no fundo. é um espelho (como no Neveu de Rameau) ou lembrança (como em Nerval ou Artaud) — é sempre. um desvio morfológico se figura como aquilo que poderia ter nos atingido ou à loucura que pode advir por meio de nós. era seu segredo mais profundo. 2012. p. o que ela põe à distância. "o ciclo do conhecirnento" Consciência analítica: A terceira não pertence à ordem do conhecimento. A ambiguidade do gigantismo: . mas do reconhecimento. ela reconhece sem o saber a familiaridade de sua dor (FOUCAULT. Qual a diferença fundamental à respeito do vivente? A vida se define por estruturas e regras de coesão interna traduzidas como medida. p. 188 ) . 188) articula o problema do monstruoso com a norma estritamente métrica que faz do gigantismo e da pequenez formas distintas de monstros: a enormidade tende para a monstruosidade. p. p. 1979. nessa descoberta inteiramente perceptiva. frente às quais o desvio se caracteriza como monstruoso. na vida biologicamente considerada e funcionalmente definida. Assim. forma e modelo. Canguilhem (2012. Loucura como infinitização: Citando a crítica kantiana do juízo. em sua enunciação imediata. e nessa existência simples e não na da loucura. Basta um pequeno desvio morfológico para que se abale a confiança e a compreensão que temos da vida com seus movimentos de ordenação. é que reconhecemos monstros. p. Não há monstro mecânico” (CANGUILHEM. 1 8 8 ) .reconhecimento e conhecedora de consciência da loucura) é a busca da verdade da loucura que se rnanifesta fenornenalment e tentando "dizer sua verdade" ( 4 . que está presente como coisa oferecida e desarmada.

compreender. no segredo. curiosidade até a fascinação. aliás. Por um lado. o louco é tornado diminuto para ser melhor pareado ao homem. escapa das limitações do homem não é mais um homem. pânico. o monstro tem valor de contraste. ele inquieta: a vida é menos segura dela mesma do que havíamos podido pensar. maravilhoso. Temor. 189). Sua existência compromete a estabilidade que creditamos à vida. das funções. de um lado. a negação do vivente pelo não vivente. O louco grande demais ou a loucura que se exacerba comprometem a própria definição do homem a partir de sua finitude e limitações. Juggernaut só pode ser vilão. . A qualidade é tanto melhor preservada quanto menos exposta. então. Nesta linha de raciocínio. dissemos. Mas também. Boa formação ligada à loucura como monstruosidade. à regularidade morfológica. p. mas. é o sentimento confuso da importância do monstro para uma apreciação correta e completa dos valores da vida que fundamenta a atitude ambivalente da consciência humana a seu respeito. Se o homem se define por uma certa limitação das forças. a negação do vivente pelo não viável. Certamente. mais que a morte. A preocupação e a desconfiança com relação À vida são típicas da modernidade. O monstruoso é o maravilhoso ao revés. 2012. O monstro não deixa de ser uma maior liberdade de exercício. e até mesmo terror. Por outro. Dizer que ele não é mais é dizer. A morte é a ameaça permanente e incondicional de decomposição do organismo. que é a limitação pelo exterior – na esteira de Bichat. seguindo a semiótica simbólica moderna que a aproxima do monstro. ao sucesso da estruturação” que acostumamos a atribuir à vida em regularidade. uma transgressão espontânea dos próprios hábitos. assim como Hulk é um herói indomável]]. é a limitação pelo exterior. Ao contrário. (CANGUILHEM. o homem que. que ele ainda o é. A monstruosidade se impõe assim como contravalor vital. Mas a monstruosidade é a ameaça acidental e condicional de inacabamento ou de distorção na formação da forma. todos os seus sucessos são fracassos evitados. que toma a vida como excentricidade na dissociação das ideias clássicas que ligava a reprodução à representação e à necessária repetição. o louco monstruoso serve de contraste para com o homem. é a limitação pelo interior. somado ao valor negativo. apesar de tudo. na definição do monstro sua natureza de vivente. portanto.um gigante é enorme ou monstruoso? O gigante mitológico é prodígio. O monstro é o vivente de valor negativo. Devemos. ele valoriza: já que a vida é capaz de fracassos. Porém. Ele é uma afronta e uma contingência “à repetição específica. por sua grandeza. [[A um nível semiótico contemporâneo. de outro lado. a pequenez parece conter a qualidade da coisa na intimidade. quer dizer que sua grandeza “aniquila o fim que constitui seu conceito”.

menos o mundo. A verdade da loucura é aquilo que ela é. a própria Razão. A loucura coisificada é decorrente de sua gênese. afirmando. Ela se protege dele. E. O que existe de inalienável no homem é. menos a contranatureza. Essa verdade da loucura é o próprio homem naquilo que ele pode ter de mais primitivamente inalienável. com uma insistência sempre maior com o tempo. e a essência da loucura tal como ela vai ser implicitamente transmitida ao século XIX: 1. o louco se oferece como objeto de conhecimento dado em suas determinações mais exteriores e como tema de reconhecimento. a Natureza. que leis e ações espalhadas não têm mais controle sobre o perigo urbano sozinhas. menos a sociedade. num único e mesmo movimento. assim 'refratado à superfície da objetividade. ao mesmo tempo. ao mesmo tempo o procedimento imaginário da cura. sob essa especulação séria. ao contrário da experiência lírica.A partir de sua entrada no círculo antropológico. em troca investindo aquele que o apreende com todas as familiaridades insidiosas de sua verdade comum. e coisa médica. tal como obscuramente se supõe que seja. Mas não nos enganemos. 2. o conteúdo imediato desse reconhecimento se dispersa numa multidão de antinomias. 4. a uma natureza que é natureza da doença e natureza serena do mundo. 5. O papel do internamento é o de reduzir a loucura à sua verdade. mas que se deve produzir mecanismos de controle dos cidadãos. a Verdade e a Moral. HL Medicalização da sociedade “começa a intervir em tudo. Mas a reflexão não quer acolher esse reconhecimento. aquilo de que se trata é bem do relacionamento entre o homem e o louco e desse estranho rosto — durante tanto tempo estranho — que agora assume as virtudes de espelho. 3. sem fronteiras. no mito do Retiro. que o louco não passa de uma coisa. isto é. tornando-os . É por conduzir a loucura a uma verdade que é ao mesmo tempo verdade da loucura e verdade do homem. que o Retiro recebe seu poder de curar. do aprontamento social.

a relação conceito-objeto subsiste não como moldagem. ela se reconfigura como modulação. O mínimo eu condiciona a língua menor do artista.produtivos e inofensivos. p. Operação contraposta por Deleuze (2011. Rimbaud (2006. a generalização da farmacologia no tratamento das doenças mentais pôs fim à nosografia oriunda de Emil Kraepelin* e à abordagem freudo-bleuleriana. e à formalização. ao contrário. está o artista. no seu objetivo de criar uma sociedade sadia. Entre o afásico e a criança. a clínica pelo diagnóstico comportamental e a escuta do sujeito pela “tecnologização” dos corpos. o conceito não se restringe à forma. Modulação/molde Entre o molde e a modulação. mas aquilo a que todos os objetos se reportam como à variação contínua de seus próprios estados sucessivos e à modulação infinita de seus graus no instante. Em Kant. 155-7) acrescenta: “Azar da maneira que se descobre violino (. e o Eu não é um objeto. VER: Mínimo eu Ver anotações Ligya Clark e piglia (2015.. não é por culpa”. assim como o objeto não é mero material. de 1960. assim como é a última que adquire a criança. o Eu não é um conceito. quer transformar indivíduos desviantes em seres normais. o médico deverá ser institucionalizado e o alternativo chamado de charlatão e repreendido pelo Estado. mas o objeto uma matéria somente em potência. mostra que a medicina. É um molde. 87) A função estruturante eu é a última que perde o afásico.. substituindo o manicômio pela camisa-de-força química. Para Kant. uma moldagem. p. mas a representação que acompanha todo conceito. Destarte.” MACHADO Danação da norma. 44) que considera que não mais o conceito é uma forma em ato. p. para isso. uma vez duplicada pela relação Eu-Eu que se dá no tempo como afetação do espírito sobre si mesmo.) se o cobre desperta clarim. passa- . Entre ambos.

nem com a flor nem com a merda. por oposição aos conjuntos e às pessoas. cit. neste sentido. dados a partir da modulação dos fenômenos no espaço clínico. (…)Todo investimento é coletivo. todo fantasma é de grupo e. que constituam outros tipos de relação entre o eu impessoal transcendental e o Eu subjetivado na superfície física) visando alterar a produção subjetiva e objetiva na resultante de novos materiais. um ato de criação supõe certa “fecundação estéril” entre “autores” adotam a fórmula de Hjelmslev de acordo com a qual o signo se desdobra em formas de conteúdo e em formas de expressão 29 Gilles Deleuze e Félix Guattari. A molecularidade restringe a homossexualidade à fecundação. pois. Mas os dois tipos de investimento distinguem-se radicalmente (…) Um é investimento de grupo sujeitado. tanto na forma de soberania quanto nas formações coloniais do conjunto gregário.”[29] O Charlus molecular está feito de incessantes devires: devir-mulher. mas de modulação no transito entre profundidade e as superfícies. devir-flor. entre a homossexualidade-identidade e a homossexualidade-transversal: “Trata-se. devir por um instante fluxo que entra e sai do ânus. Ver texto Simondon sobre metalurgia no blog. 370.. o outro é investimento de grupo sujeito nas multiplicidades transversais portadoras do desejo como fenômeno molecular. objetos parciais e fluxos.se a buscar novas relações formais (outras temporalidades. Molecular/molar a distinção entre o Charlus molar e o Charlus molecular aparece mais clara. fecunda. op. O Anti-Édipo. Charlus é molecular porque quando dá o cu. entre a paranoia e a esquizofrenia. mas não se identifica nem com a mulher nem com o inseto. inspirado em Derrames. devir-animal. da diferença entre dois tipos de coleções ou de populações: os grandes conjuntos e as micromultiplicidades. sobretudo. que reprime e recalca o desejo das pessoas. à geração e à criatividade.[30] Nesse sentido. p. de significação transcendental ou conversão de um essência das alturas. posição de realidade. isto é. Não se trata. .

Monstruosidades
Ao promover a capacidade pática do paciente, visamos o acesso ao âmbito das
sensações, reiteradamente recalcado, silenciado, sufocado por um movimento conjunto
de enrijecimento medicamentoso, institucional, infantilizante e existencial de toda
ordem a que o doente mental é frequentemente submetido, à despeito de todas as boas
intenções. Tal procedimento se refere, como apontam Deleuze e Guattari (2011), não à
satisfação, indireta, simbólica de um desejo, mas ao reconhecimento de uma
maquinação intensiva a ser relançada sobre uma superfície não dada de antemão. Tal
reconhecer, tal signo remonta à dimensão produtiva do psiquismo no real.

Moral
dicNit: tragi viagem suj
Toda origem da moral é crítica Nit C.I., Razões da Filosofia
NIT GEN HIST
Ver voc Foucault:
A moral é, a um só tempo, saber e poder, código moral e conjunto de regras coercitivas,
obrigatórias, transcendentes, que julgam a vida
Tripé: razão, verdade e moral da experiência moderna
Todo universal e tudo o que é universalizante remete a este tripé fundante e
fundamental de nossa sociedade ocidental.
Moral como sintoma de decadência
Os efeitos de tal medicina moral são totalmente indiferentes aos sujeitos por ela
sujeitados. Com efeito, Nietzsche (2014, p. 138) parece até estar se referindo ao
tratamento moral psiquiátrico quando tata da moral de seu tempo:
Una moral puede haber nacido muy bien de un error; esta constatación ni
siquiera ha abordado el problema de su valor. Nadie hasta ahora ha
examinado, entonces, el valor de la más famosa de las medicinas,
llamada moral. Esto exigiría ante todo decidirse a poner en cuestión este
valor. ¡Pues bien! ¡En esto precisamente consiste nuestra empresa!

Dic Nit:
A moral é objeto da ética.
Nit inverte o ponto de partida convencional com que tradicionalmente se pensa a moral.
Não se reflexiona sobre a moral como na filosofia ética clássica, mas partindo de um
pensamento moralmente fundamentado e concebido. O pensamento que se
fundamenta em uma moral (já dada) não pode fundar uma moral, restando a
submissão a valores estabelecidos, ele não há como criar valores para sua própria
existência.
Como funciona este pensamento moralmente orientado e fundamentado? Em (MBB??,
187al) Nietzsche ressalta que ele nasce da organização de uma linguagem dos signos
dos afetos. A crítica nietzschiana se dedica à descodificação destas semióticas de
signos sobre os afetos. [ interioridade e ext da norma, a vida bio considerada em função
do Estado (BATAILLE e SCHMID 230...)
Em lugar da adesão normativa a um fundamento, a estratégia nietzschiana é instaurar
várias genealogias da moral, interpor e evidenciar a variedade de fundamentos.
Visa deslegitimar os conceitos “convertida em dominante” distanciando-se dela para
fundar, enfim outros regimes de moral.
No Nascimento da tragédia, Nietzsche (1992) acede a crítica da moral como
decorrência da “ciência estética” que toma lugar da ontologia e de uma teoria do
conhecimento.
Sua desconfiança com relação à moral se articula com o fato dela ser um produto de
um processo e não um fator determinante nos processos. A moral é um fenômeno em
O nascimento da tragédia. Aproximando ética de estética, o filósofo alemão sugere que
o sustento primeiro da moral são percepções criadas de modo artístico. Não obstante, ao
colocar em jogo a valoração vital e a percepção fenomênica não deixa de ser um
movimento afirmativo desde o ponto de vista de sua gênese, embora exerça uma
colonização cujos efeitos são a diligência e a submissão aos valores normativos
exteriores à vitalidade positiva ou negativa para a existência concreta do indivíduo.
Neste âmbito, tomando-a autonomamente como objeto filosófico desde Humano
demasiado humano, Nietzsche (HH??) questiona a vontade e a intencionalidade do
sujeito epistêmico (FOUCAULT, ???).
De fato, a moral se torna tema autônomo e um dos objetos principais da filosofia de Nietzsche (2000)
desde Humano, demasiado humano. A partir do qual se põe a explorar a psicologia dos motivos egoístas
por trás de toda moral de desinteresse; a utilidade do sentimento e da ação moral, sob aspectos tanto

históricos quanto darwinistas, que leva-o a salientar as origens amorais de toda moral além de colocar sob
esta perspectiva questionando seus pressupostos e seus conceitos.

Se a quinta parte de Além do bem e do mal (idem, ABB??) é dedicada a uma
história natural da moral, na Genealogia da moral, Nietzsche (GM??) a complementa
com uma história cultural. Tomando como ponto de partida o diagnóstico de que a
objetivação das pessoas concretas em termos calculáveis (quantitativos – tal qual a vida
biologicamente considerada) e de responsabilidade condiciona toda operação
civilizatória ocidental, a Genealogia nietzschiana aprofunda e radicaliza a crítica ao
sistema ascético que instaura percepções e pensamento moral fundamentado num ideal
europeu-cristão. Somente submetidas a uma matematizável razão de cálculo 11 que os
indivíduos são objetivados pelas dinâmicas de poder sob um viés ascético.
Ali, ele propõe uma teoria dos tipos da moral a partir das maneiras de se
valorar a fim de criticar a “ciência filosófica da moral”, que a fundamenta e legitima
formas morais dominantes.
(GM??) A distinção bom e mau se origina com a ascensão de uma nobreza. Trata-se de
uma classe que a fins de delimitação – inocente e irrefletida –, se afirmam como bons e,
assumindo a responsabilidade por isso alcunha os excluídos e maus [A norma afirmada
como boa]. A impotência frente ao domínio faz dos fracos, uma moral de escravo
ressentida. Esta reação passiva e reflexiva é tida pelo filósofo da Genealogia como a
verdadeira origem da moral. [Como aqueles que não podem conter o mal radical dos
canibais e dos incestuosos, ver curso Foucault (AN ou PP...)].
A moral de escravos nega a valoração irrefletida dos nobres por processos reativos se
autoafirmando na negação se apropriando secundariamente da moral – tornada moral
superior – para instaurar, em decorrência de tal superioridade, as religiões.
“Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a
moral escrava diz Não a um "fora", um "outro", um "não-eu" - e este Não é seu ato
criador” (GM??, p. 10)
Enquanto a moral de escravo se assenta na oposição que funda sua negatividade sob um
movimento reativo, a valoração nobre é vitalista, nasce de uma ação afirmadora da
11 Ainda em Genealogia da moral, Nietzsche (GM??) entende que a calculabilidade do
homem como decalque dos procedimentos autoimpostos de castigo, que funciona como
domínio do pathos e dos afetos para que advenha a razão.

vida. Seu ato, age e cresce espontaneamente e “busca seu oposto apenas para dizer Sim
a si mesmo com ainda maior júbilo e gratidão - seu conceito negativo, o "baixo",
"comum", "ruim", é apenas uma imagem de contraste, pálida e posterior, em relação ao
conceito básico, positivo, inteiramente perpassado de vida e paixão” (??gm??)
Valendo-se de exemplos históricos como Napoleão e César, Nietzsche (GM??, p.
19) propõe uma ética da capacidade de dobrar os movimentos de normalização para
propor o “indivíduo soberano igual somente a si mesmo” no “autêntico trabalho do
homem em si próprio”. Para além de toda constância, fiabilidade e responsabilidade (no
sentido de soberania civil) a autenticidade exclui a moral de rebanho, a normalização.
Assim como em Além do bem e do mal (210, 211, 227,-8, 203, 258) propõe o
espírito livre como figura do filosofo do futuro, criador de valores.
Quando se luta, se luta pelo poder (CI??, Incur, 14) pois a vida é caracterizada pela
exuberância e abundância.

É preciso uma cultura da incondicionaldiade moral para fazer surgir a “vontade de
verdade*”.
O ideal ascético toma a forma sutil do conhecimento objetivo e incondicionado,
desinteressado.
A nobreza, por fim, individualiza, distancia e distingue, dando cabo ao “pathos da
distância*”, ela renuncia enfim à moral alheia e a sua própria para viver sem
ressentimento.

Deleuze DF??, 2002, p. 131
Quando Nietzsche se interroga pressupostos mais gerais da Filosofia, diz
serem eles essencialmente morais, pois só a Moral é capaz de nos
persuadir de que o pensamento tem uma boa natureza, o pensador,
uma boa vontade, e só o Bem pode fundar a suposta afinidade do
pensamento com o Verdadeiro.

Quando a clínica tem como pressuposto os conflitos. Menos aqueles de ordem gregária,
individual e (inter)pessoal, mas os conflitos entre singularidades que atravessam os
corpos na sua impessoalidade.

Moral, criação e Pathos da distância:
Citado cinco vezes na obra escrita:
Argumentando que as novas formas de homem vêm da nobreza que diferencia os
valores de homem a homem e acaba escravizando outra classe, Nietzsche (ABB??, p.
193) pontua que
Sem o "pathos" da distância que nasce de decisiva diferença de classe,
do constante olhar ao redor de si e sob si das classes dominantes sobre
pessoas e instrumentos, e de seu constante exercício no obedecer e no
comandar, em manter os outros opressos e distantes, não seria nem mesmo
possível o outro misterioso "pathos", o desejo de sempre novas
expansões das distâncias entre a própria alma, o desenvolvimento de
estados sempre mais elevados, mais variados, distantes, maiores,
tendentes a alturas ignotas, logo à elevação do tipo "homem", o
incessante triunfo do homem sobre si mesmo para adotar em sentido
supermoral uma fórmula moral.

O olhar ao redor de si evidencia uma situação ética de relação com o mundo, com os
outros e consigo próprio necessária para fundar uma nova ética a partir de um novo
pathos. Uma vez que o “pathos da distância” condiciona o próprio pathos da
transformação.
- (GM??, 2009, p. 6)
Foram os "bons" mesmos, isto é, os nobres, poderosos, superiores em
posição e pensamento, que sentiram e estabeleceram a si e a seus atos
como bons, ou seja, de primeira ordem, em oposição a tudo que era baixo,
de pensamento baixo, e vulgar e plebeu. Desse pathos da distância é que
eles tomaram para si o direito de criar valores, cunhar nomes para os
valores: que lhes importava a utilidade! Esse ponto de vista da utilidade é o
mais estranho e inadequado

(GM??, p. 50)
o superior não deve rebaixar-se a instrumento do inferior, o pathos da
distância deve manter também as tarefas eternamente afastadas! Seu
direito de ser o privilégio do sino de plena ressonância diante daquele falho,
dissonante, é afinal mil vezes maior: eles somente são os fiadores do
futuro, eles somente estão comprometidos com o futuro do homem.

- (AC??, p. LXIII)
Atualmente ninguém mais possui coragem para os privilégios, para o direito
de dominar, para os sentimentos de veneração por si e seus iguais – para o
pathos da distância... Nossa política está debilitada por essa falta de
coragem! – Os sentimentos aristocráticos foram subterraneamente
carcomidos pela mentira da igualdade das almas;

(AC??, p. LVII)

“O mundo é perfeito” – assim fala o instinto dos mais intelectuais, o
instinto do homem que diz sim à vida. “A imperfeição, tudo que é inferior a
nós, a distância, o pathos da distância, os próprios chandala, são parte
dessa perfeição”. Os homens mais inteligentes, sendo os mais fortes,
encontram sua felicidade onde outros encontrariam apenas desastre:
no labirinto, na dureza para consigo e para com os outros, no
esforço; seu prazer está na auto-superação; neles o ascetismo torna-se
uma segunda natureza, uma necessidade, um instinto. Consideram tarefas
difíceis como um privilégio; para eles é um entretenimento lidar com fardos
que esmagariam todos os outros... Conhecimento – uma forma de
ascetismo.

Face trágica da afirmação do mundo como é e da proposição da auto-superação como
otimismo do desastre.
Pois o dizer sim a si mesmo é a raiz da moral nobre afirmativa.
Ascetismo no sentido foucaultiano de exercício de sobre si mesmo (cf. SCHMID??).
(CI??, p. 55) aforisma 37
A “igualdade”, um certo assemelhamento real que acha expressão apenas
na teoria de “direitos iguais”, é essencialmente própria do declínio: o fosso
entre um ser humano e outro, entre uma classe e outra, a
multiplicidade de tipos, a vontade de ser si próprio, de destacar-se,
isso que denomino páthos da distância é característico de toda época
forte. A tensão, a distância entre os extremos torna-se hoje cada vez menor
— por fim, os próprios extremos se apagam até atingir a semelhança...
Todas as nossas teorias e constituições de Estado, sem excluir
absolutamente o “Reich” alemão, são decorrências, conseqüências
necessárias do declínio; o inconsciente efeito da décadence assenhorou-se
até dos ideais de ciências particulares.

Com efeito, o pathos da distância condiz não a um tipo sociológico, mas a certa
constituição psíquica que se refere a um modo de ser e a uma postura aristocrática,
assim como à adequação da vida à formação da própria existência, isto é, fazer de seu
trajeto de vida a construção, a formação permanente de seu viver.
Ele pontua a separação entre o indivíduo (singular) e a generalidade (massificação).
generalidade presenta dos grandes ordenes: el cualítativo de las semejanzas y el
cuantítativo de las equivalencias. Los términos os resultan intercambiable entre sí y
mutuamente sustituibles y determinam uma conduta. A repetição do mesmo, ou a
variação, por exemplo.

La repetición como conducta y como punto de vista afecta a una singularidad
inintercambiable, insustituible. Los reflejos, los ecos, los dobles, las almas no
pertenecen al dominio de la similitud ni al de la equivalencia;
Pathos é a paixão dionisíaca desbordante enquanto a distância é um elemento
propriamente apolíneo, num ethos (conduta para a vida) reflexivo de plasticidade.
Qual a ética colocada em jogo na distância, neste distanciamento?
Trata de poder conter-se, reunir energias e manter-se à parte da apoderação do mundo e
de um juízo rápido – o que só é alcançável quando o distanciamento atinge ou se torna
um pathos.
[pathos da distancia] apreenao é antes valorativa q racional. o primado é da distancia. é
da relaçao. Ideia q se repete na fil dif, o primado é da relaçao, havendo a relaçao, tenho
tão somente a distância, tenho q jogar. Posso então dizer: sou homem, sqn. A potencia
do falso. sqn é a possibildiade de criar um intervalo ultimo q me permite ser outra coisa,
para nao ficar presa na posição q o jogo A ou B me coloca. Se fico preso no jogo,
embora a delicia, isso vira um horror!
mas tb nao posso me furtar a fazer o jogo, a delicia é a indicação de q posso me
aprisionar no jogo, o amor é sempre a indicação de q posso me aprisionar no jogo, pq
ele dá vontade de repetir o mesmo.
VER: medicalização;

Não-relação
Comentando Magritte, Foucault (DE3?? INC??, 47 fr onde Foucault retoma o termo
blanchotiano da não-relação) ressalta “a pequena faixa incolor e neutra” que separa
texto e figura, tal como quando mostra que o Hospital geral, forma do conteúdo, lugar
de visibilidade da loucura tem origem na polícia e não na medicina, esta, como forma de
expressão dos enunciados sobre a desrazão (exterior, portanto, à ordem asilar)
contrabandeia ou transloca seu discurso, diagnósticos e tratamentos para fora do
hospital. Segundo Blanchot (FTCI?? VVO??), reside neste ponto a diferença e o
enfrentamento entre desrazão e loucura. uma...

“Falar não é ver” é o traço de Blanchot (CI1??, p. 42fr; EL??, p. 266-277fr) seguido
por Foucault. Enquanto para Blanchot a (não-)relação (mais cartesiana) é entre o
determinável e o indeterminado puro. Para o segundo, mais kantianamente, a
(não-)relação é entre as formas do determinável e da determinação.
O irredutível do visível é o determinável. comassim???
O sonho e o isomorfismo em NC 108-117fr, sobre caligrama INP p. 19-25
Em Magritte vem a ideia de não oculto, porém não imediatamente visível, talvez:
A exterioridade, tão visível em Magritte, do grafismo e da plástica, é
simbolizada pela não-relação - ou, de qualquer maneira, pela relação
bastante complexa e problemática entre o quadro e seu título. Essa tão
longa distância - que impede que se possa ser, simultânea e
imediatamente, leitor e espectador - assegura a emergência abrupta da
imagem acima da horizontalidade das palavras. “Os títulos são escolhidos
de tal maneira que eles impedem situar meus quadros em uma região
familiar que o automatismo do pensamento não deixaria de suscitar a fim
de se subtrair à inquietude.” Magritte nomeia seus quadros (um pouco
como a mão anônima que designou o cachimbo pelo enunciado “Isto não é
um cachimbo") a fim de chamar a atenção para a denominação
(FOUCUALT, 1968/2001, p. 257).

Deleuze se pergunta como a Não-relação pode ser mais profunda que uma relação? p.
72
“A relação (ou a não-relação) com um autor e as diferentes formas dessa relação
constituem - e de uma maneira bastante visível – uma dessas propriedades discursivas”
(QéAutor? 1969/2001, p. 286).
Ver: Blanchot CI1, p. 89. Pelbart

Natureza
Concepções da natureza em Rosset (1989a)
1) clássico e que conquistou uma certa hegemonia na história do
pensamento ocidental – o conceito de natureza foi forjado a partir dos
interesses de uma ciência prescritiva e normativa que contribuiu para a
criação da ilusão de que as formas de artifício, dentre elas a linguagem,
seriam capazes de decifrar o mundo sensível. Que a cópia era
expressão da coisa, que a representação era expressão do

representado. De que, portanto, o conceito de natureza seria capaz de
traduzir fielmente o mundo.
2) marginal e que só circunstancialmente conquistou ares hegemônicos – a
natureza foi tomada como potência inapreensível pelo homem. Nesta
tradição do pensamento, por mais que a natureza seja o objeto da
ciência, a representação construída é tão somente uma pálida e
desfigurada lembrança daquilo que insiste em nos escapar. Nascia,
assim, a idéia de que todo o conhecimento nada mais é que artifício, de
que, portanto, a própria ciência deveria Ter consciência de seu grau de
ilusão.

Naturalizar
Naturalizar é condição da atuação daqueles que Foucault (1977, p. 244)
alcunha em Vigiar e punir de “técnicos do comportamento: engenheiros da conduta,
ortopedistas da individualidade”. Ao sujeitar as existências coletivas e individuais às
leis de funcionamento próprias de um fato social é que se torna possível submete-las ao
controle e à adaptação tornando viável, à tiracolo, a ressocialização do indivíduo
insubordinado.
Não fortuitamente, na mesma obra o pensador francês localiza o surgimento das
ciências da natureza no final da Idade Média como desdobramento das práticas de
inquérito e dos conhecimentos empíricos. Isto significa que as raízes da naturalização
da experiência humana, de seu método de descrição e estabelecimento factual,
estão situadas no modelo operatório da Inquisição 12. O que leva entender as ciências
naturais – base de uma série de objetivações dos saberes disciplinares – vêm, pelo
menos em parte, a ocupar e espaço da fogueira inquisitória enquanto mecanismo de
extração e produção da verdade. Correlato das operações de extração dos enunciados
e das visibilidades de acordo com Deleuze (2014).
12 “Ora, o que esse inquérito político-jurídico, administrativo e criminal, religioso e
leigo foi para as ciências da natureza, a análise disciplinar foi para as ciências do
homem. Essas ciências com que nossa ‘humanidade’ se encanta há mais de um século
têm sua matriz técnica na minúcia tateante e maldosa das disciplinas e de suas
investigações. Estas são talvez para a psicologia, a pedagogia, a psiquiatria, a
criminologia, e para tantos outros estranhos conhecimentos, o que foi o terrível poder de
inquérito para o saber calmo dos animais, das plantas ou da terra. Outro poder, outro
saber” (FOUCUALT, 1977, p. 186).

voltadas para a questão da administração da diferença e da produção humanas.Ao deixarmos para trás era clássica com a fogueira inquisitória como tentativa irrevogável e radical de controle e submissão do pensamento e da experiência. Natureza em Nietzsche e embriaguez Os pensamentos nietzschianos aceca da natureza oscilam entre um romantismo (de transfiguração. como é típico a pensadores do Iluminismo. “508. filiamo-nos à normalização como submissão. porque ela não tem opinião alguma sobre nós” (HH??. isto é. Em plena natureza. analisadas em conjunto podem parecer contraditórias entre si. a natureza para o filósofo alemão é uma força imanente de afirmação da vida e. — Gostamos muito de estar em plena natureza. uma metafísica do orgânico e do inorgânico e um olhar materialista e positivista. 176): . 23). bem à la século XIX). codificação e aplicação de normas para a intervenção na experiência humana moderna. de sua ilógica relação fundamental com todas as coisas” (HH??. a natureza qualificada é já uma segunda natureza como aponta Nietzsche em Aurora (AU??. Ambas. entretanto. Desbaratadas de agente e vontade as forças da natureza são livres como a tormenta e o relâmpago (ver simbologia nietzschiana). 152). A natureza das forças inorgânicas não tem juízo algum sobre o vivido e a vida. p. Nietzsche (CS??HH) pressente as forças cósmicas na natureza num sentimento de unidade com o universo como “desdobramento da natureza” numa familiaridade aterradora. Por isso. Basicamente. Em O caminhante e sua sombra. ela não passa de projeção histórico-cultural de nosso sentimentos humanos. ela serve de ideal e contraste crítico para a racionalidade civilizatória. novamente da natureza. p. de tempo em tempo. Se identificamos uma natureza má. Ela é associada ao mito e à embriaguez como contraposição ao conformismo representativo. O desassossego e a neutralidade da natureza espantam e fascinam Tal afetação estética de repulsão e atração A natureza surge para compensar a racionalidade com seu necessário aspecto ilógico: “mesmo o homem mais racional precisa. p.

animais de rapina. que quiseram possuir um canto a que não chegasse o homem e seu tormento: inventaram a “natureza boa” (AU??. maiores de idade. Depois veio a época em que novamente se imaginaram fora da natureza. o gérmen dela ressecou. .Tal como agora nos educam. entendemos que a moral criticada por Nietzsche (CI??) é a moral que bate de frente com a natureza enquanto domínio de forças constitutivas e indomáveis. a época de Rousseau: estavam tão fartos uns dos outros. Na maioria. nossa violentação 13 Embora a tradução brasileira de O crepúsculo dos ídolos opte por A moral antinatural. logo optamos por moral contra-natureza. alheia à noção de natureza. sua base não é uma filosofia humanística ou romantizada. Nat e Moral contranatural A moral contranatural13 destacada por Nietzsche (CI??. venerada e pregada. 17) Longe do ideal harmônico rousseaniano. p. 24) desvaloriza as forças vitais e o movimento insubmisso da vida. árvores e plantas: naquele tempo inventaram a “natureza má”. [[produção de signos NC]] Além disso. Trata-se de uma visão desnaturalizada da existência humana concreta. Mesmo até porque levantamos neste escrito uma discussão acerca da antinatureza da existência humana sob o ponto de vista trágico. ora ruidosa e insolente. sob seu invólucro. como se estivessem escondidas entre nuvens. adquirimos primeiro uma segunda natureza: e a temos quando o mundo nos considera maduros. volta-se. sua primeira natureza tornou-se madura. Nietzsche (2006FP??) critica o cristianismo como desnaturalização. a natureza é guerra e conflito. temporais. Os juízos transformam os instintos de maneira que o que deles apreendemos não é senão uma segunda natureza. Alguns poucos são cobras o bastante para um dia desfazer-se dessa pele: quando. isto é. Primeiro os homens projetaram-se na natureza: em toda parte viram a si mesmos e seus iguais. pelo contrário. “quase toda moral até hoje ensinada. desmobilização das forças constitutivas inorgânicas da natureza. Nela tomam corpo bom e mau. ora secreta. utilizáveis. No mesmo sentido. Híbris é hoje nossa atitude para com a natureza. desses instintos”. todo caráter instintual só é atribuído no encontro com uma valoração pré-estabelecida. mas o darwinismo e os conhecimentos concretos que dispunha o filósofo alemão a seu tempo. suas características más e caprichosas. justamente contra os instintos da vida — é uma condenação. num fragmento póstumo. p.

A natureza do inorgânico. ainda mais instrutivo que estar são . atividade que constitui a existência como labor artístico. para com uma presumível aranha de propósito e mora lida de por trás da grande tela e teia da causalidade podemos dizer. NIETZSCHE. Como se a desvinculação entre necessidade e realidade fosse condição de possibilidade para o aparecimento de uma reflexão sobre a técnica. em luta com Luís XI:13 "je combats l'universelle araignée" [eu combato a aranha universal] -.os que tornam doente nos parecem mesmo mais necessários do que homens de medicina e "salvadores" (GM??. como num fragmento póstumo de 1882. das forças inorgânicas é condicionante da viagem. o Temerário. como Carlos. aponta Canguilhem. É por isso que para uma filosofia que identifica natureza e Deus. "renunciando a fazer da necessidade virtude. conclui Canguilhem: . p. VER: Necessidade conversão moral. com elas e partindo delas é que se cria mundos. quero dizer. a técnica só pode ser uma atividade supérflua. é o movimento pelo qual. híbris é nossa atitude para com Deus. p. não temos dúvida. criando os meios para seguir a viagem. e alegres e curiosos vivisseccionamos nossa alma: que nos importa ainda a "salvação" da alma! Depois curamos a nós mesmos: estar doente é instrutivo. híbris é nossa atitude para com nós mesmos. Nelas. Descartes se propõe e nos propõe converter em poder o conhecimento da necessidade" (1996. devemos reterritorializar a rota existencial. causalidade e matéria não são fenômenos de nossa intuição. 44) Espaço. mesmo quando as sensações e as forças insubmissas acabam por dissolver o sujeito (cf. Com suas forças desterritorializantes e territorializantes. Aliás. toda matéria porta – pelo menos em gérmen – forma subjetiva. tempo. ou formas subjetivas desta. A realidade só aparece nas sensações. pois fazemos conosco experimentos que não nos permitiríamos fazer com nenhum animal. Cosmos e Logos. pois. 2006).da natureza com ajuda das máquinas e da tão irrefletida inventividade dos engenheiros e técnicos. 94).

94). pp.. p.. Descartes et la technique. como naquela dos atomistas. Se Descartes pôde constituir uma reflexão sobre a técnica é porque ele rejeitou a finalidade natural do mundo e a presença de uma qualidade determinante da matéria. Cahiers philosophiques. p. Como observa Canguilhem: Na doutrina de Descartes. n° 69. como Aristóteles. sempre assim foi e sempre assim será. . ou mesmo «verdadeiras na sua maior parte». a condição de uma teoria mecânica da natureza e de uma teoria mecanicista da arte (1996. Opõem-se-lhes as verdades contingentes. déc. para Se p é conhecida.] as verdades necessárias não se restringem às verdades da lógica e da matemática. [. 1996.“Toda filosofia que identifica realidade e finalidade deve estabilizar os atributos humanos num sistema hierárquico de qualidades e de essências. G. 94). algo que poderia ter acontecido de outro modo. que aquilo que é conhecido tem de ser necessário: não será que podemos ter também conhecimento de factos contingentes da experiência. mas incluem todas as proposições universalmente verdadeiras. na filosofia de Descartes. tais como o de Sócrates ter bebido a cicuta? Houve quem julgasse que Aristóteles estava a argumentar. termina com o conhecimento intelectual. falaciosamente. Parece estranho afirmar. É a negação cartesiana de uma concepção teleológica da realidade que Canguilhem entende se manifestar de maneira privilegiada na tese metafísica da livre criação por Deus das verdades eternas. que Aristóteles vê como possuindo um carácter especial de necessidade. p é necessariamente verdadeira. se p é conhecida. CANGUILHEM. partindo da verdade Necessariamente. tais como a verdade de os gregos terem vencido uma grande batalha naval em Salamina. A enérgica negação da finalidade natural é. 93-100. um universo sem hierarquia teleológica são as razões metafísicas da fé na eficácia criadora da técnica. donde toda possibilidade de correção ou de rearranjo está excluída como devendo levar à queda de todo o edifício” (1996. uma matéria sem qualidades reais. As verdades necessárias são como as verdades imutáveis da aritmética: dois mais dois são quatro. p é verdadeira. Se a ciência começa com a percepção sensorial.

. a sua existência é uma revelação 306 La tarea de la filosofía según Nietzsche: «Perjudicar a la necedad». (KENNY. os seres contingentes e corruptíveis devem depender de um ser necessário independente e incorruptível. ??) "Man hat s�:n Lüstchen für den Tag und sein Lütschen für die Nacht. p. que apenas a veracidade de Deus poderia mostrar que o nosso conhecimento empírico do mundo externo não era enganador. aber man ehrt die esundhell . Mas. comunidade. moral. os diversos graus de realidade e bondade do mundo devem ser aproximações a um máximo de realidade e bondade subsistente. (/oc. (KENNY. Aristóteles distingue quatro tipos de causas ou explicações. o conhecimento empírico do mundo externo não existe. natureza. pois. a série de causas eficientes no mundo devem conduzir a uma causa sem causa. técnica Niilismo e trágico Saúde extensiva como horizonte del humanismo tecnológico “Uno tiene su pequeño placer (Lüstchen) para el día y su pequeño placer para la noche : pero se rinde culto a la salud" (DUQUE. 285) . a teleologia normal de agentes não conscientes no universo implica a existência de um Orientador universal inteligente. só é explicável se existir um primeiro motor imóvel. argumenta Tomás de Aquino.. ??.]A ciência é. empírica. No léxico filosófico incluído na sua Metafísica. 204) a análise aquiniana parte de fatos contingentes da natureza. parágrafo 328. nosso conhecimento da história contingente dos corpos materiais e mutáveis provém directamente de Deus. VER: contingência. CJt. é também explicativa. para Malebranche. . Descartes considerava.[. p. La Gaya Ciencia. no sentido em que é uma procura de causas. evidentemente. 113) verdadeiras na maior parte do tempo>> estatística O movimento no mundo. Schlechta II.

STP). não se crê no progresso da humanidade. No niilismo passivo. Assim. afirmativa ou negativa. O maior perigo é a ampliação do niilismo. tudo é igual. é a vida em nós q avalia. O niilismo condiz a valores superiores.Ahora que sabemos que el hombre es lo más importante para el hombre O hiato entre o imperativo. Eternidade prometida numa concepção extensiva de saúde O homem moderno. Negação dos valores superiores em nome do progresso. É a desvalorizaçao da vida em prol destes valores superiores. O tempo é a imagem móvel da eternidade. valores que julgam a vida de um ponto de vista superior à própria vida. o saber me sufoca” e o deserto cresce. Ao que se sucede um niilismo passivo. A normalização. . tudo é vazio. território e população (FOUCAULT. entre a moral e o homem pe o corpo. Negação de toda e qualquer esperança. que é superior à vida. É a vida em ´última instancia que avalia. do século XVIII-XIX. nada vale a pena. ela que expressa a avaliação O niilismo negativo (cria do platonismo enquanto filosofia conceitual e da religiosidade cristã ). VER: trágico. o homem não tem mais amor. tudo foi. que avalia. Norma e regra Foucault (2000) entende a noção de norma junto à de função como forjadoras do conceito moderno de homem. É a nossa vontade de potência. desejo ou esperança. o que é inaceitável do ponto de vista nieztcheano. traz o niilismo reativo na crítica dos valores eternos. o tempo é uam imitação móvel e etérea da eternidade. causado pela impossibilidade de suportar que não haverá um aperfeiçoamento do homem. aula de 25 de Janeiro de 1978 de Segurança. “inútil foi todo trabalho.

FOUCAULT. 50. 1977) – e positivas – como a sexualidade (idem. SIMONDON. com vistas ao controle da sociedade.) Saúde. 1958). ex.. MILLS. pois. que a norma constitui positivamente categorias negativas – como a loucura e a delinquência (cf. considerados concordantes ou unificados.Estado de polícia. a norma tem um caráter produtivo imanente. subordinada ao normal.polícia. Esse é o conceito de Tecnocracia que se encontra nos escritores mais qualificados (p.PP 73-4 AN 74-5 EDS 75-6 STP 77-8 NBP 78-9 A normalização dá cabo à esfera da tecnocracia “Uso da técnica como instrumento de poder por parte de dirigentes econômicos. The Power Elite. que permite defini-la como "a filosofia autocrática das técnicas" (G. HS1??).. ele quer um estado ideal sem conflito. regulação interna (NasBP 10 Jan) A saúde surge como questão à medida em que os corpos individuais são convertidos em força produtiva e ela condiciona cotidianamente (e não apenas no contexto de uma grande epidemia) a mecânica desta produção. Comte está pensando mais na ordem e progresso social que no corpo biológico. Ver Le blanc: A homogeneidade qualitativa entre normal e patológico é derivada de sua heterogeneidade quantitativa. 1956). Deleuze (2004. C. \V. A produção positiva das normas é dada então na conjunção da aplicação sistemática dos saberes com a determinação um campo de verdades específico. e assim a doença aparece como sem gramatica própria. militares e políticos. em defesa de seus interesses. Estatística 15 de Março de 1978. 29 março . /)// monde dexistencedes objeta teçlmiques. . 1979. STP. p.. O fundo é um mundo sem aleatoriedade como bem salientado por Macherey (FN??). Elucidamos.

pesquisa e demais técnicas e aparelhos de veridição criados no âmbito disciplinar dão corpo a um poder global que age na sociedade investindo e se apropriando de técnicas de sujeição e observação. Neste sentido é que Foucault (EDS??. mas é estrategicamente levado a alimentar uma matriz ou sede global. Todo um instrumental de saber é colocado em marcha para que o poder opere seus mecanismos finos. Isto significa que a partir do momento em que a exclusão dos loucos passa a gerar um lucro político e certa utilidade econômica eles são aderidos e investidos pelo sistema burguês global. mas pelo poder que incide sobre os loucos.Norma e regra EDS 14 Jan História e constituição 11Fev EDS Norma e biopoder 17Mar EDS Foucault (EDS??) na aula de 14 de Janeiro 1976 do curso Em defesa da sociedade sugere que se parta dos mecanismos infinitesimalmente pequenos de poder que são deslocados. mas para os operadores materiais de dominação.. A burguesia ascende ao poder nos séculos XVI e XVII e o corpo humano é convertido e avaliado essencialmente como força produtiva. por essa razão. pelo sistema do Estado inteiro [. A regra jurídica decalcada do sistema de soberania dá lugar à regra natural. de gestão e avaliação do corpo individual e do coletivo humano. de sujeição. Não mais . A norma no lugar da regra enquanto da vontade do soberano. E o poder moderno se move entre ao direito público da soberania e a mecânica polimorfa da disciplina. finalmente. à norma. Em tese. os procedimentos de investigação. certa utilidade política e. A passagem do código de leis para a normalização caracteriza modernidade.. se viram naturalmente colonizados e sustentados por mecanismos globais e. investidos e anexados por fenômenos globais. Daí a norma estatística e o tipo ideal aparecerem como instrumentos privilegiados de governo. por isso ela se interessa menos no fato da exclusão em si que na micromecânica de tal exclusão. 39) sustenta que os mecanismos de exclusão da loucura assim como a vigilância e a medicalização da sociedade passam a produzir certo lucro econômico. O poder não irradia de um centro. p. modificados. das conexões e utilizações dos dispositivos de poder.] A burguesia não se interessa pelos loucos. a análise foucaultiana do poder se volta não para a soberania. nas suas técnicas e procedimentos. estendidos. os métodos de observação e registro. Ao contrário dos teóricos da ideologia.

para essas disciplinas. de formação de si mesmo. 1977). uma instituição ou uma potência que privilegia determinado corpo e outro não. Ao passo que o problema clínico da formação (da própria ideia de boa formação ou formação adequada) está na alçada da subordinação. As disciplinas “definirão um código que será aquele. 4. A face mais visível deste processo é a medicalização geral da sociedade. O poder não é uma estrutura. dando cabo existências normalizadas em corpos úteis e dóceis (FOUCAULT.. O que se passa é que a normalização confunde ou pareia indevidamente os desvios ou o estar fora de formação com estar fora da rota. ??). Já na aula de 25 de Janeiro de 1978 de Segurança. 105) dá uma resolução relativamente simples para o imbróglio: “se a formação está realmente fora da rota.os indivíduos de acordo com as normas socialmente dominantes. O poder é mais que tudo um nome. Ao nível prático.direito. “um nome que se dá a uma complexa situação estratégica em uma sociedade” (FOUCAULT. tampouco deve ser colocado como solução ao fato de estar fora de formação o retorno a uma unidade autônoma do sujeito. 1988. STP). recorre a Kelsen para explicitar que a inextrincável relação entre um sistema de leis e um de normas que configura a sociedade de normalização. Ou cuja liberdade deve ser alienada à vontade do médico. A normalização invade e coloniza o âmbito a lei. Deve seguir na desterritorialização para reterritorializar em outros porvires. A questão existencial da rota é notadamente uma questão ética. do direito. território e população (FOUCAULT.forma e distribui . com um problema para o sujeito enquanto questão existencial. ele organiza . Por . Se por um lado.). mas da normalização. e elas se referirão necessariamente a um horizonte teórico que não será o edifício do direito. p. mas ciências humanas na jurisprudência da clínica. Da normalização dos corpos. p. será a de um saber clinico” (EDS??. E sua jurisprudência. estar “fora da formação” não garante estar mais ligado à rota (ao caminho existencial que seguir). Laing (1977. ao sujeito desalienado. p. dos comportamentos e dos discursos. então o homem que está a ponto de entrar na rota deve abandonar a formação”. mas o campo das ciências humanas. não da lei..

as operações” (STP??. A operação fundamental da lei consiste na codificação da norma. 2008a. portanto. 72). o momento primeiro e fundamental do movimento de normalização das disciplinas que leva dela (da norma) à estipulação do que é normal ou não. está interessado em “como. Logo. Normatividade vital A normatividade vital consiste na força que atravessa a experiência como tendência à individuação que emana e provém do campo transcendental. p. e anormal o que não se sujeita a tal conformidade. que “analisa. decompõe os indivíduos. a norma é a pedra de toque. nos servimos dela como parâmetro de avaliação do vivo. para percebê-los e modificá-los. os atos. p. 77) STP – é que se passa a pensar fenômenos com instrumentos estatísticos em termos de cálculo de riscos e . precisamente porque ela é consiste numa instância fora do vivo. os organiza e classifica para pôr em marcha objetivos específicos para coordenar os atos e sequências. de ter uma boa formação segundo a norma. por isso. 74) em cinco tempos. os lugares.outro lado. p. da normalização disciplinar. Isto significa que a normalização é a operação que visa colocar os sujeitos e suas ações na conformidade de um modelo erigido. os tempos. que ilustra aspecto normativo próprio ao sistema de leis. os gestos. que é o da norma: sendo normal o que aquele capaz de se conformar. Foucault (STP??. por sua vez. ressalta que uma normatividade que é fundadora da lei e que não pode ser confundida ou reduzida à normalização. FOUCAULT. decompõe. Normalização estatística e Modelo da varíola Dadas as características generalizáveis da vacinação e da varíola – enquanto mecanismos de segurança (cf. Em quarto lugar. mais até do que isto. nas margens e talvez até mesmo na contramão de um sistema da lei se desenvolvem técnicas de normalização”. que faz o contato direto com o campo de imanência inatingível da própria vida. ela adestra progressivamente sob um regime de controle incessante que por fim demarca o normal do anormal. a partir e abaixo. Em seguida. Primeiro num processo de redução e decomposição sumamente necessário para compreender os objetos e. É distinta.

302). que parte de uma norma ideal erigida ao qual deve se submeter. Foucault (STP??) destaca. cuja aplicação é estendida e distendida numa disciplina dos corpos e na regulamentação de uma população. STP??. o elemento comum é a norma. . que é de tipo ideal.) que se dá entre o século XVI e o XVIII. na aula de 5 de Abril de 1978 um fundo de disciplinarização geral na regulamentação dos indivíduos e dos territórios do Estado ironizando o grande desejo disciplinar da polícia de transformar a cidade num convento e o reino numa cidade. Serve. que é o regulamento” (FOUCAULT. com a variolização e a subsequente vacinação Coloca a norma em jogo no cerne de um sistema de normalidades diferenciais. VER: variola Epistemologicamente. p. permanente e detalhado.probabilidades. Ressalta uma lógica policial. 458) Regulamentação da população e disciplina dos indivíduos. estatística refere-se ao conhecimento do Estado moderno. Saber necessário e útil. Procedimento no qual o normal é primeiro e dá forma à norma. Aqui. Em meio à profusa proliferação das disciplinas (ou do que podemos localizar como instituições disciplinares: escola. pois. Entre um e outro. à manutenção de um certo estado de coisas. exército. Normalização estatística é o que Foucault (STP??) distingue da normalização. etc. Eles se beneficiam de um suporte matemático que os integra mais facilmente ao campo racionalizável da época. àquele que governa enquanto forma de manutenção da força (ou pelo menos da força relativa) do Estado. Primeiro tem-se o normal e a partir dele se deduz uma norma. o pensador francês recorre ao exemplo epidêmico-epidemiológico da varíola. p. não mais assentado nas leis que o regem e na sua aplicação como para o soberano da era clássica trata-se de um conhecimento técnico daquilo que o Estado dispõe. portanto. das forças e recursos que caracterizam sua própria realidade. dele deduzida. A norma é o que pode tanto se aplicar a um corpo que se quer disciplinar quanta a uma população que se quer regulamentar” (EDS??. O “elemento que circula entre um e outro é a ‘norma’. na forma jurídica “da lei em seu funcionamento móvel.

a norma da disciplina e a norma da regulamenta9ao. VER: instituição Outrem Outrem é um outro sujeito – ou melhor. solicitado e requerido sob a prerrogativa da segurança e do controle dos riscos. desenvolve uma variedade de aparelhos específicos e de conjunto de saberes que lhe servem. 171) faz uma rápida definição daquilo que chama governamentalidade como conjunto constituído pelas instituições. 2008. hegemônica sobre os outros modelos. do corpo it popula9ao. adaptar com um viés produtivista. de outra. um regime de alterização subjetiva – que implica a criação de possíveis para a existência à medida em que decorre de um mundo possível. 25). Dizer que 0 poder. no século XIX. 302) poder que se ocupa do corpo individual e da vida da população. p. procedimentos. para servir ao modelo econômico por meio do controle. um rostidade almejada ou pelo menos entrevista e uma linguagem real e efetiva (cf. mediante 0 jogo duplo das tecnologias de disciplina. e das tecnologias de regulamenta9ao. como a soberania e a disciplina. tomou posse da vida.” (EDS??. p. no seculo XIX. e dizer que ele conseguiu cobrir toda a superficie que se estende do orgilnico ao biologico. Foucault (1979. dizer pelo menos que 0 poder. . A tipologia de poder chamada governo. que tem por alvo a população. análises e reflexões.“A sociedade de normaliza9ao e urna sociedade em que se cruzam. conforme uma articula9ao ortogonal. incumbiu-se da vida. talvez. Visa objetivar biopoliticamente os corpos individuais e coletivo. DELEUZE & GUATTARI. por forma principal de saber a economia política e por instrumentos técnicos essenciais os dispositivos de segurança. de urna parte. Normalização e governamentalidade: Na Microfísica do poder. p. cálculos e táticas que permitem exercer esta forma bastante específica e complexa de poder.

não mais que apensas sugerido. com tais componentes vai levar a criação de um novo conceito de espaço perceptivo. por uma espécie de ponte: a criação de um conceito de Outrem. se passa de um conceito a um outro.. os possíveis existem no mundo real. e o "eu" nada designa senão um mundo passado ("eu estava tranquilo. p."). Faz a passagem do sofrimento psíquico propriamente vivenciado como determinação da apreensão tutelada do indivíduo forjado sob a imagem da figura psicossocial do doente mental a outro mundo possível. há vários sujeitos porque há outrem. a determinar (não se chocar. e inversamente. Antes. Ou ao menos.. com outros componentes.Mas outrem não é sujeito nem objeto. entretanto. etc. para os outros como para nós. apreensão e tutela. pelo menos quase acabada. a passagem a um outro mundo. as transições e as inversões se tornariam incompreensíveis. uma profundidade possível no espaço. de cada plano determinado e especificado. por isso. a tal ponto que. ao invés de um fechamento do louco num espaço de simultânea exclusão integrante. uma modulação dos termos de um quadro pintado por um usuário do hospital Nise da Silveira que. seria necessário encontrar uma outra razão pela qual nós não nos chocamos. Outrem basta para fazer. e não cessaríamos de nos chocar contra as coisas. Por exemplo. p. se este conceito não funcionasse no campo perceptivo. o possível tendo desaparecido. Outrem aparece como a possibilidade de um assustador mundo possível. ele e a condição de toda percepção. E assim que. de existir. fará parte de seus componentes) (DELEUZE & GUATTARI. mas. entre a criação artística e a produção de subjetividade e dessubjetivação. Neste sentido é que a produção da loucura condiciona uma nova percepção da loucura. um outro trato que. extensão e intensidade. Outrem é sempre percebido como um outro. A passagem de um mundo a outro pode ser uma saturação. entre uma linha e outra do quadro. de todo comprimento. O mundo possível não existe atualizado na realidade comum partilhada. fazendo de cada pintura. Pois outrem é a expressão de um campo perceptivo que aparece como rostidade e como linguagem na realidade comum redistribuindo e redimensionando as relações espaço-temporais ordenadas básicas de fundo e figura. colore os . Outrem faz o mundo passar. ele preenche os espaços. ainda não real mas que não deixa. propicia uma grande abertura. a partir de um plano determinável. em seu conceito. filosoficamente. preenche todos os espaços. É a condição sob a qual passamos de um mundo a outro. fato que não tira nada da realidade de outrem. prefigurado talvez.. 2008. com a diferença que para Deleuze e Guattari (2008. 25). 26).. Entre cada linha. ou não se chocar demais. de um ponto a outro. A história do conceito de outrem remete à ideia de Leibniz da (centro de visão ou ponto de vista) a como expressão de um mundo possível. centro e margem.

brancos e inunda de linhas horizontais os espaços verticais. p. a partir desse ponto. mesmo sob o preço de disseminar e semear um pouco de loucura sobre a terreno da razão e tornar cada um de nós. de modo mais verdadeiro do que através de uma obstinada recusa sempre vencida de . 138) que nos serve epigrafe – “os homens são tão necessariamente loucos que seria ser louco (outro tipo de loucura) não ser louco” – sintetiza o movimento reflexivo que insere a loucura na própria natureza da razão. duplica-a. Outrem tem no rosto – na rostidade estruturante da percepção (DELEUZE. ouve-a. 36) percebe-se no decorrer do século XVI a sintonia entre esta reflexão e o Elogio da loucura de Erasmo (1988) enquanto movimento de descoberta de uma loucura imanente à razão. Neste sentido. [vemos um] desdobramento: de um lado. p. Foucault (1979. conceito. uma "loucura louca" que recusa essa loucura própria da razão e que. assim como a produção da loucura convoca uma multiplicidade de figuras de louco. transversalizando-os como uma nova dobra em cada pintura: um testemunho vivo do caráter produtivo do psiquismo (ver livros de Nise da Silveira e Lula Wanderley). por outro lado. rejeitando-a. 2009) de uma alteridade encarnada independentemente da efetivação de um processo de individuação – um de seus componentes. reconhece seus direitos de cidadania e se deixa penetrar por suas forças vivas. depois. Buscar comentário sobre Michel Tournier A paz Mal secreto Efêmera VER: possível. Pascal A imagem deste leviatã da razão deve necessariamente englobar a desrazão. Com sagacidade. e nesse desdobramento cai na mais simples. na mais fechada. na mais imediata das loucuras. desembaraçadas de suas apreensões. pelo menos em parte loucos. a citação de Pascal (1973. uma "loucura sábia" que acolhe a loucura da razão. com isso protegendo-se da loucura. [[ao passo que enxerga o homem na inseparabilidade do pensamento]].

antemão. mas alterado em seu sentido e como que invertido. pés. eles que vivem neste mundo: Jesus crucificado. apesar do jansenismo e de Pascal. foi o escândalo do mundo e surgiu como ignorância e loucura aos olhos do século (1979. que a Renascença sentia de modo ainda bem próximo. Pascal: Descartes X Montaigne (pascal tb? Porque vê a contradição no seio na razão) Yazbek (2013. uma força e como que uma necessidade momentânea a fim de melhor certificar-se de si mesma (FOUCAULT. 148): A loucura tornou-se algo para ser visto: não mais um monstro no fundo de si mesmo. e seus escândalos devem desaparecer. bestialidade da qual o homem. está abolido. o desatino em seu sentido mais amplo não traz mais nenhum ensinamento. começa a desaparecer no século XVII. é apenas para humilhar uma falsa razão e fazer jorrar a luz eterna da verdadeira razão.36) Associação com a animalidade. graças e pela necessariedade do pensamento no homem. p. Homem sempre tem pensamentos para Pascal. Em PP. é apenas uma sabedoria que os homens desatinados não reconhecem.. ser uma de suas figuras. 173dig). há muito tempo. vê-se desenhar a curva da reflexão de Pascal” Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco significaria ser louco de um outro tipo de loucura99. O grande tema da loucura da Cruz que pertencera de modo tão estreito à experiência cristã da Renascença. mas animal de estranhos mecanismos. 154-5x concepción de Port-Royal de la proposición y el juicio .. a bestialidade e monstruosidade se dá através. Esta perigosa reversibilidade da razão. cabeça (pois é apenas a experiência que nos ensina que a cabeça é mais necessária que os pés). ele subsiste. p. 1979. “Posso muito bem conceber um homem sem mãos. Mas não posso conceber o homem sem pensamentos: seria uma pedra ou uma besta” A partir do século XVII. Não se trata mais de exigir da razão humana o abandono de seu orgulho e de suas certezas a fim que ela se perca no grande desatino do sacrifício. a loucura de Deus constitui o homem. p. deve ser olvidada. É que agora a verdade da loucura faz uma só e mesma coisa com a vitória da razão e seu definitivo domínio. citado por Foucault (1979. “nesse movimento de inserção da loucura na própria natureza da razão. Quando o cristianismo clássico fala da loucura da Cruz. 127) MO HL pascal está na mesma linha de Erasmo. p. pois a verdade da loucura é ser interior à razão. Ou melhor.

O pathos circula tangencialmente pelo territórios constituídos. Lo que sólo puede ser sentido. que nos enfrenta no con tal cualidad sensible de un objeto. 15) considera a “repetição não só uma potência própria da linguagem e do pensamento. p. racha. sempre recriado Rompe com o que todo mundo sabe.Pathos Frente à evidencia que não há unilateralidade do ser. o concebido-el ejercicio extremo de una facultad. ou natureza. A intempestividade do pensar (contra um pensamento que se resume na recognição. o imaginado. o recordado. até o existencialismo e a psicanálise para mostrar que pensar incute em pensar um pressuposto. pensar a partir de um fundamento. Contra este tempo. Deleuze (2002) faz um longe recorrido desde o kantismo. Lo que nos fuerza a pensar es precisamente aquello que es inaplicable a un objeto. neste sentido o pathos é uma patologia superior. Onde ficam os objetos exteriores a tal sistema? Deleuze (2002. su exceso específico. Assunção do sem lugar deslocado. é capaz de provocar fissuras. o pathos complexifica a natureza e complica a explicação natural. O paradoxo é o pathos da filosofia. e a filosofia da repetição é a patologia”. 275) “a repetição é o pathos. abre uma fenda no territorialidade constituída e estável. por isso. o pathos corresponde à atividade radical de pensar sem fundamento. disfarçado. Ou ainda (p. Diz respeito aos fenômenos discordantes de toda lógica e todo conceito. a favor de um tempo que virá. um pathos e uma patologia superior”. pois mais profunda que o tempo e a eternidade. no con un ser sensible. sino con el ser de lo sensible.] . sino con un signo de la sensibilidad. modificado. o pensamento moderno surge do fracasso da representação e da identidade que a fundamentam) é. não há sujeito transcendente e logo. o sistema sujeito-percepção-objeto se vê desestruturado. É a capacidade de sofrer uma força.

vivencia e experiencia: abundancia e trágico O trágico consiste. mas que constroi no homem uma abundancia de vida. são conquistados. (. 162). de modo que ‘tornar-se’ se converte em um imenso processo de experimentacao essencialmente fluido. em fazer o que há de terrível e inquietante. a vivencia e um contra-conceito da razão e. Vivenciar é atravessar patheticamente uma trajetoria. mas só posso chegar até sua borda”. Neste caso. p. 18) O ‘grande desprendimento’. porém. pois tao logo a racionalizamos ou comunicamos. bem como cada um dos flagelos de doença e saude atravessados pelos espiritos livres sao as condições . O excesso e a abundância não estão dados. porem. para Nietzsche (2014. Pathos. mais que interpretada ou se ater à superfície objetiva seus sistemas de codificação. la definición clásica del pathos. como tal. investigo o abismo. tal es.) patheticamente. desagregar como no desmoronamento central posto em marcha de modo deturpar ao mesmo tempo “a lógica e a inteligibilidade conceitual da existência” Sua superabundância é capaz de fazer do deserto um terreno fértil. e compreendida como pathos. acontece unicamente na vida e precisamente atraves das Erlebnisse. ‘Tornar-se o que se e’.. cujo movimento e realizado para alem da intencionalidade. deixa de ser uma vivencia. Além da racionalidade estéril ou das categorias de consolo para a vida. Citação Nise: “não sou filantropa. nunca estamos conscientes da vivência quando ainda a atravessamos. e sim cientista. Vivencia e experiência: abundância e pathos Vivência (Erlebnis) significa estar ainda presente na vida quando algo acontece.El pathos será entonces el reconocimiento del objeto El pathos se construye y se constituye básicamente a través de tres elementos: El sentido de la idea (sentimiento) el concepto puesto por el sujeto trascendente en acción de flexión e inflexión por sobre el exterior y la representación del cuerpo por sobre el plano geométrico.. A vida precisa ser criada. Como traz Viesenteniner (2009. não pode ser conceitualmente sistematizada e nem sequer comunicada através de signos linguisticos. p.

Como pathos. como essa tensão forma o invisível em visível. aquilo que não cabe nos conceitos e ideias com e a partir dos quais operam os saberes. Toda travessia simplesmente se impõe patheticamente e sem que tenhamos escolha. ele nos escapa. Ver arte. isto é. extingui-lo quando bem quiser. Como contrarrazão. como Nietzsche (2014.sumariamente importantes a conquista de um excesso perdulario de vida. demasiado Humano ate A Gaia Ciência: ciencia como propedeutica – aquela que esvazia os erros ilusorios da razao e da ordenacao moral do mundo – e como paixao do conhecimento – aquela em que o espirito livre aprende a considerar a si mesmo e o mundo esteticamente. por exemplo. de certo modo. O pathos é inapreensível ao âmbito da racionalidade ou mesmo da partilha própria à comunicação. liberdade suficiente para dar estilo ao carater. que é sua liberdade frente à racionalidade e suas formas de apreensão. 2009) Crítica do saber sobre a vida e sobre a loucura O pathos é o inapreensível mesmo sobre uma mirada retorspectiva. Enquanto vivemos o pathos. pois so se e pobre. em uma praxis efetiva de auto-formação. padecimento ou trajetória através de algo (sensível) (VIESENTEINER. bem como imprimir em si mesmo as mais variadas formas. prisioneira de sua própria viagem. sobretudo a partir de Humano. Aa Experimento como dimensão ético-estética de se tornar o que se é parte do papel que a ciencia ocupa em sua dupla variacao semantica. de modo que não é possivel tambem especificar que tipo de vivencia precisamos atravessar. . Trata-se da abundância que capacita o homem a amar a superficie. de modo intencional ou racionalmente sistematizada. o pathos se aproxima. ao impulso. porque ja esteve por muito tempo nas profundezas. 121) traz neste aforisma 317 d’A Gaia Ciência: “Raras vez tomamos consciência do pathos próprio de cada período da vida enquanto estamos imersos nele”. Dimensão de travessia. ao preço de ser suficientemente rico. ou o sofrimento da abundancia de vida que dá ao espirito livre a prerrogativa da pobreza dos que são os mais ricos. p. Não vivenciamos uma crise. nos e impossivel vivenciar algo como um ‘querer vivenciar’. É dessa dimensão que trata a loucura trágica. porem. podendo tambem. Esta travessia pathetica por uma vivencia fornece ao homem liberdade suficiente para nao ter que dar satisfacoes nem sequer a si proprio. para nos tornarmos o que somos. inclusive. O pathos contudo tem uma dimensão de tensão interna que Viesenteiner (2009) trabalha sobre a inversão da compreensibilidade.

. no ápice. em trechos como o aforisma 381 d’A Gaia Ciência em que afirma que escreve para ser compreendido. nas quais o caráter musical fundamental do ditirambo dionisíaco ressoava (NIETZSCHE. . 31) As tragédias têm muitos momentos líricos. Mas o que caracteriza a tragédia. mas. na qual aparece] o pathos diluído em paixões ligadas a objetos de paixão determinados: a paixão pela amada. o que torna a viagem de que se é prisioneiro. é. ao contrário. sem chegar jamais à in-tensidade de todo pathos na representação da pura Vontade. em certa medida pré-conceitual. que foi sempre uma apropriação de todo mito grego para descobrir nele o vislumbre do núcleo originário de dor na Vontade. em outras palavras: ser prisioneiro da própria viagem. na ópera a música ainda estava escravizada pela palavra e pelo sentido representativo do discurso Sofrer. Esta capacidade sintética da obra de arte trágica foi assegurada pelo mito trágico. a individuação humana chega à sua possibilidade mais elevada. em que o pathos da Vontade se manifesta em sua força arrebatadora. O efeito da tragédia antiga nunca repousou na tensão. mais que passividade perante o que nos atravessa que sinaliza uma ação de ser afetado. é a unidade de uma obra toda voltada para o momento trágico. com o gênio trágico: a de criar a imagem lenitiva mais apropriada da Vontade: o que se dá sobretudo pela música trágica. [Em contraposição à ópera. podemos entrever igualmente a questão do pathos em relação a uma linguagem fora da razão. p. naquelas grandes cenas carregadas de patos e amplamente estruturadas. p. Assim. a paixão pela liberdade. 2006a. Com o voltar-se para o Uno-originário da Vontade enquanto pura dor. em que tem ensejo a música trágica. de sua sublimidade. pela natureza. certa receptividade. em que a Vontade se apresenta no ápice de sua força arrebatadora.Nietzsche (2006a. como exposto com A visão dionisíaca de mundo (NIETZSCHE. musical – visto que a música acarreta um acesso muito mais direto ao pathos que a linguagem. sem partilha. portanto. pela justiça etc. A obra de arte trágica. assim a representação mais acabada da Vontade. mas também para não ser compreendido. segundo Nietzsche. 2006a). condição inarticulável pelas palavra. que sempre rondou a humanidade grega desde o titanismo [[final cap 9 Nascimento Tragédia]]. Mas o que assegurou à obra de arte trágica o poder catártico que ela teve para a humanidade helênica foi em grande parte a sua capacidade sintética de todo o sentido da civilização grega em função do devir na Vontade. e o prazer extático que ela veicula é superior a toda outra qualquer possibilidade artística. 170) remonta pathos a uma relação complexa com a vontade ou mesmo à não-intencionalidade. ditirâmbica. 2014. Nessa afirmação. na estimulante incerteza sobre o que acontecerá no próximo momento.

a fim de fazê-lo um criador. p. 52). esse recorte. Problema de complexo de percepção como uma espécie de recordação futura. da superfície de objetivação. O poder de existir corresponde a um poder de ser afetado. que é múltiplo. uma espécie de futuro anterior. Na obra bergsoniana. 20). 1999. mas passa a ter um papel ativo e produtivo. Já Deleuze parece preocupado com a organização da multiplicidade do atual. Recoupement é uma maneira bergsoniana de expressar o principio escolástico de que o ser é unívoco. “o real não é somente o que se divide segundo articulações naturais ou diferenças de natureza. que descreve a própria dinâmica da atualização. porque o todo da realidade pode ser novamente tratado ao longo de caminhos convergentes para um ponto virtual único. p. Por isso. podemos verificar que o ser é sempre e em todo lugar dito da mesma maneira. de um] pathos criativo. A sensibilidade que corresponde. a unidade virtual e atualização Refletindo sobre organização criativa das condições de atualização. O pathos criativo libera. tal como elucida Hardt (1996. portanto. dependendo de a afecção resultar de uma causa externa ou . ou do nível a que pertence. Destarte. Porém. segundo Hardt (1996. o homem do plano. de Bergson. quer dizer. embora a univocidade implique em uma igualdade geral e em uma comunalidade do ser. adequado a todo movimento da criação?” (. mas dessa vez é uma nova memória.Pathos criativo: o real múltiplo. Essa teoria da univocidade opõe-se a uma teoria da analogia do ser. p.. na terminologia espinosista. uma comunidade de criadores ativos que ultrapassa o plano da natureza e dos seres humanos. 1996. a unidade aparece apenas no campo virtual. 54) essa produção original de sociabilidade pela emoção criativa nos traz de volta ao plano da unidade na memória. enfim. emoção produtiva.) [Trata-se. que atualiza todos os níveis ao mesmo tempo. O pathos não corresponde a uma pura passividade do sentir. pode ser uma ação ou uma paixão. Tal como se pode complementar a partir de Bergson. mas simplesmente como um processo que trata as linhas das articulações naturais de volta ao ponto de partida original [a unidade]. que libera o homem do plano. no movimento que vai da multiplicidade ao engendramento de unidade parte do real. senão precisamente uma Memória cósmica.. “É o que e essa emoção criativa. assim o é apenas no plano virtual (HARDT. se articula à intuição como dinâmica positiva do ser originada da emoção criativa. 122) a uma afecção. O que nos importa aqui é que. p. mas é também o que se reúne segundo vias que convergem para um mesmo ponto ideal ou virtual” (DELEUZE. não é um processo criativo que organiza um novo ponto de unidade virtual.

ou por afecções explicadas pela própria essência do modo (chamadas afecções ativas)". que forma uma máquina de guerra? Um pensamento às voltas com forças exteriores em vez de ser recolhido numa forma interior. um pensamento-acontecimento. de intensidade pura. Ele opõe a isso um pensamento como litígio e processo. um pensamento que faz apelo a um povo em vez de se tomar por um ministério. o fato de pensar só pode ser perturbador. desenvolvendo-se perifericamente. trazendo [[]cit diluída abaixo] dois textos patéticos. a fim de puxar a fala para si e "pôr no mundo algo incompreensível". a potência de existir de um modo sempre corresponde a um poder de ser afetado. 39-40) se põem a explicar o que entendem por pathos. em vez de um pensamento-sujeito. da língua. onde um fala antes de saber. E também o texto de Kleist. no sentido em que o pensamento é verdadeiramente um pathos (um antilogos e um antimuthos). alongo os termos de transição. a plenitude do ser é encontrada no poder de ser afetado. Necessidade de não ter o controle da língua. no pensamento. e esse poder de ser afetado "é sempre preenchido. que só pode viver de sua própria impossibilidade de criar forma. Deleuze e Guattari (2003. apenas pondo em relevo os traços de expressão num material. correspondente à potência do próprio existir na plenitude das afecções ativas e passivas. que aquilo que existe para ser pensado é. Logo. antes de ter compreendido: é o pensamento do Gemüt. o devir-mulher do pensador. que procede como um general deveria fazê-lo numa máquina de guerra. operando por revezamento em vez de formar uma imagem. explicando que o pensamento se exerce a partir de um desmoronamento central. ou esperar. "Eu misturo sons inarticulados. ou como um corpo que se carrega de eletricidade." Ganhar tempo. utilizo igualmente aposições justo onde não seriam necessárias. das circunstâncias e até do acaso. "A propósito da elaboração progressiva dos pensamentos ao falar-se": Kleist aí denuncia a interioridade central do conceito como meio de controle. e depois talvez renunciar. Seria essa forma de exterioridade. a relação entre o irmão e a irmã. hecceidade. um pensamento-problema no lugar de um pensamento-essência ou teorema. mas também controle dos afectos. Assim. um anti-diálogo entre o irmão e a irmã. de circunstâncias não interiorizáveis. No Tratado de nomadologia. um bizarro diálogo anti-platônico. e o outro já revezou. o devir-pensamento da mulher: o Gemüt. num puro meio de exterioridade. e nele se exaure inesgotavelmente. Trata-se do texto de Artaud em suas cartas a Jacques Rivière. controle da fala. de ser um estrangeiro em sua própria língua. p. que já não se deixa controlar. o que dele se afasta. seja por afecções produzidas por coisas externas (chamadas de afecções passivas). diz Kleist. em função de singularidades não universalizáveis.interna. que sofrer e pensar estão ligados de uma maneira .

Afirmação do contingencial frente à necessidade instaurada desde o interior dos muros da cidade medieval e renascentista. Nega ao mesmo tempo o que garante o Sujeito e o Ser de acordo com os autores franceses. como um mero reproduzir histórias que estrutura a ficção a partir de Platão (2004). O muthos é o que cauciona a mimese. com o pensamento. Lugar e circulação confusas. não deixa de ser. pois nunca se repete. daí o trânsito entre razão e loucura. 2005. Muthos traz um pouco o sentido da fábula. em certo sentido. 56) O pathos é antimuthos. na contraface da constituição da razão do mundo. como modo de investigação e de representação do ser. pendência ou desconhecido. Contra o bem dizer e o bem pensar. Assim. que trazem uma arbitrariedade de oposições. Por isso. poiesis em sua concordância discordante. mina sua lógica –. reconciliação. quando se torna extremo. A relação entre fala e os sons inarticulados. Será que o extremo pensamento e o extremo sofrimento abrem o mesmo horizonte? Será que sofrer é. Estranhas relações. o pathos da loucura trágica renascentista desdobra esse desmoronamento contra o bem dizer e bem pensar a que Jaques Rivière recomenda a Artaud (1972) através do trabalho. no tempo. muthos e o logos – os modos de investigação sobre o ser – não há. Espaços híbridos. p. se reproduz à fidelidade estrita. e Transições demasiadamente delongadas. contudo. pensar? (BLANCHOT. destruindo sempre à frente dele mesmo. ele aparece como uma espécie de contestação da demanda. na desarticulação das necessidades. o pathos – definido nesta linha como antilogos e antimuthos segundo Deleuze e Guattari (2003) – resiste aos modos de controle dos conceitos com os quais operam os diversos saberes sob o âmbito de interioridades. podemos afirmar que ele cresce perifericamente. desfaz as oposições binárias – ou pelo menos.secreta. incapaz de sustentar forma alguma. Associado ao pensamento em Kleist (2008). pois se o sofrimento. Entre ambos. se regozija em dar relevo de expressão a um material. Consequentemente. contestação da própria ordem da necessidade sob a forma de conflito de interesses. O pathos se desenvolve na contraposição de uma reprodução do que está dado na ordem das coisas e do logos. intrusão do estrangeiro na língua vernacular para nela lançar o . contenda. talvez. espaço e língua nãoqualificados. como um “desmoronamento central” que. finalmente. é tal que destrói o poder de sofrer. o tempo em que ele poderia ser retomado e acabado como sofrimento. antilogos. o mesmo acontece.

Mediante aquilo que não pode ser compreendido. e o tornam comparável. ao invés de formar uma imagem fixa.desconhecido e o incompreensível. É o que acontece quando os buracos negros distribuídos num rizoma se põem a ressoar juntos. ou então quando os caules formam segmentos que esfriam o espaço em todos os sentidos. dar cabo àquilo que só se manifesta como menor e escorraçado em nossa cultura. estepe ou mar. mas povoados por multiplicidades de segunda espécie (as matemáticas e a música foram muito longe na elaboração dessa teoria das multiplicidades). (. Com efeito. a distinção dos dois tipos não impede sua imanência. divisível. cada um "saindo" do outro à sua maneira. que por sua vez reage sobre o espaço estriado.) todo um alisamento do espaço. homogêneo (isto foi visto especialmente no caso do Rosto). ela passa entre os contornos. não de classes. se conjugam sobre pontos de acumulação ou de parada que os segmentam e os retificam. p.. etc. É também o que sucede quando os movimentos de "massa". Do ponto de vista da pragmática. multiplicidades de devir. todavia. estas são multiplicidades de massas ou de maltas. como a loucura. pensamento do fora. Por isso. e não mais exatos. Deleuze e Guattari (2003) trabalham dois tipos de multiplicidade. as coisas e os pontos. numerada e por isso submetida ao Uno. ou de transformações. Ou então a linguagem: as árvores da linguagem são sacudidas por germinações e rizomas. cada linha de força determina singularidades que traçam contornos. Mais do que multiplicidades arborescentes e outras que não o são. Segundo Deleuze e Guattari (2003. A relação entre pathos e pensamento alterna o trânsito. Mesmo e sobretudo os territórios são agitados por esses profundos movimentos. os fluxos moleculares. é a psicose e sobretudo a esquizofrenia que exprimem essas multiplicidades. figurativos ou não. libera as diagonais. 194-5). sobre as coisas. Na multiplicidade numérica. ela abre esquizas e fendas embora seu plano não tenha mais dimensões que as por ele percorridas. Não basta. Multiplicidade consistente por e em si só. há uma arborificação das multiplicidades. é a bruxaria que as maneja. substituir a oposição entre o Uno e o múltiplo por uma distinção entre os dois tipos de multiplicidade. Do ponto de vista da teoria. não são desprovidos de povo ou despovoados. as linhas de . a multiplicidade que podemos entender como multiplicidade do acaso. multiplicidades anômalas e nômades e não mais normais e legais. e já não de elementos numeráveis e relações ordenadas. Porém. Do ponto de vista do pathos. o estatuto das multiplicidades é correlativo ao dos espaços e inversamente: é que os espaços lisos do tipo deserto.. para romper e serpentear os contornos. Ao invés de fazê-los. conjuntos vagos.

HARDT p. p. Pathos e desregramento Desregramento: associar louc trágica. Já não é a estetica da Critica da razao pura. que considerava o sensível . e as linhas de fuga 8 ou de ruptura que as arrastam. somos feitos de três linhas. 97 “a vontade de potência se manifesta como poder de ser afetado”). por último. O afã integrador totalizante do hegelianismo se desdobra em uma asserção de tradutibilidade entre linguagens num nível que aplana e neutraliza o poder do pathos. deve ser depurado nos segundos discursos. p. que as segmentarizam e até as estratificam. das obras artísticas. cuja totalidade é encontrada somente à luz do espírito Absoluto. Portanto. que já carreiam seus micro-buracos negros. mas cada espécie de linha tem seus perigos. 47-8) traz com Kant e Rimbaud. discursos da moral (Sittlichkeit). religiosas ou metafísicas para nestes encontrar transposição calcada na reflexividade conceitual capaz de assegurar-lhe uma inteligibilidade tranquilizadora. Pois o o pathos (chamêmo-lo assim. imenso e raciocinado desregramento de todos as sentidos" – carta Rimbaud (p. também as linhas moleculares. devido a sua propriedade de afecção) fala. Não só as linhas de segmentos que nos cortam. eles estão desde o início subsumidos à ordem operacionalizante metafísica do espírito. 155-6). São limites que têm de falar. as próprias linhas de fuga. Ou seja. é a reflexão que determina o ser. que sempre ameaçam abandonar suas potencialidades criadoras para transformar-se em linha de morte. "Chegar ao desconhecido pelo desregramento de todos os sentidos [···] um longo. Neste âmbito. amante do desconhecido.rizoma oscilam entre as linhas de árvore. em linha de destruição pura e simples (fascismo). mesmo quando parte do puro sentir ou do desejo puro. prisioneiro da viagem. desregramento como Deleuze (2011. a capacidade de afecção das diferenças reiteradas na própria tradutibilidade ao partir sempre da linguagem racional. entrando num domínio outro que o do puro pathos (cf. 2006. e nos impõem as estrias de um espaço homogêneo. o puro sentir e o puro desejo são limites não sustentáveis pelo homem. Em relação a Hegel e sua Fenomenologia do espírito.

Já não é o Afecto da Critica da razao pura. p. onde o sensível vale por si mesmo e se desdobra num pathos para além de toda lógica.como qualidade reporravel a urn objeto no espayo e no tempo.” (CANGUILHEM. Já não é a determinayao do Eu que deve juntar-se a determinabilidade do Eu para constituir 0 conhecimento. A utilidade do patologico tá na sua . 37: Em la estética de lo sublime [Lyotard]. 2002. nao e uma l6gica do sensivel. É uma estética do Belo e do Sublime.Malaise dans l’esthétique p. Pathos é desregramento das coisas regidas na e pela necessidade. sentimento direto e concreto de sofrimento e de impotência. sentimento de vida contrariada. el espacio-tiempo de un encuentro pasivo con lo heterogéneo pone en conflicto dos regímenes de sensibilidad Patologia pathos “diversidade não é doença. "formas arbitrarias de intuições possíveis". agora é a unidade indeterminada de todas as faculdades (Alma) que nos faz entrar no desconhecido. que apreendera o tempo no seu jorro. 53) Patologia como visibilidade e apreensão Concepção de doença como visibilidade e apreensão Canguilhem o valor experimental e diádico do mórbido põe em relevo processos e estruturas que no estado normal repousam imperceptiveis. A alma é a dimensão ao mesmo tempo invisível e sensível que nos faz entrar nos espaço não-qualificado e sem garantias do desconhecido do sentir e da sensibilidade (VER: GIL. nem sequer urn novo logos que seria o tempo. e sim urn Pathos que os deixa evoluir livremente para formar estranhas combinac. Pativo Rancière Rancière . indo até a origem de seu fio e de sua vertigem. que reportava o Eu ao Eu numa relayao ainda regulada segundo a ordem do tempo. Patológico implica pathos. ??).oes enquanto fontes do tempo. O anormal não é o patológico.

impulsos dominados por el organismo. “monstruosidade. 2004.. anomalia e enfermeida da filtrados. [[ polack – monstruosidade]] “a saúde é o silencio dos órgãos” revela o escândalo do patologico.aç como versao abreviada deste.espetacularidade. como aquilo que resiste. p. o seccionamento em partes. . singular >> escandalo >> visibilidade total.. como desvio ou dertençao.. prod. liberado o segredo de causas e leis a anomalia parece obrigada a dar explição sobreo normal. convertidos en rivales: los que dependen de mí contra los que se me escapan” (KLOSSOWSKI. Patologia e sofrimento “Yo estoy enfermo en un cuerpo que no me pertenece: mi sufrimiento no es sino interpretación de la lucha de las funciones. na sua sobrevisibilidade que facilita a apreensão. 52) O sentido do viver e da existência é dado na não restituição. o patológico é o normal desviado” CV 180fr a med mod tem suas condiçoes de possibildiade de dedobramento numa vontade de finitude que aspira um conhecimento ttoal e integral da vida a partir de usa descomplexização a partir das 3 lentes da moonstro. em virtude da falta a monstruosidade pode servir para apreender o (normal??) mpr. qu dá lugar à ilusão de desnudez e objetividade asceptica.. a partir do XVIII um regime de visibildiade total é constituido para dar uma finitude ilusória que faz do homem e do vivo e de sua exp entidades abarcavies e cognosciveis na sua totalidade. daí a eternidade do sentido. como na arte. NC. a anormalidade é vista na perspectiva medica como o que não alcança a complexidade e completude do normal.

na fundamentação do próprio campo de consistência. Poder e sujeição psíquica e Sobre o corpo social como espaço de resistência. de modo que a alteridade não necessariamente remete a uma figura externa. como determinação. partindo de um contraste com as estratégias de restauração do sentido enquanto presença dos estados da alma. para Deleuze (LS). como boa cópia. Poder Ver C.br/books?id=OcJ36N- 5imkC&pg=PA210&lpg=PA210&dq=PEIXOTO+JUNIOR.Plano de consistência Pra baixo Logo. tornada perpétua à medida que impõe um regime de cálculo às forças que formam toda produção. visamos fundamentar a qlínica. Peixoto.+A.google.com. com aquilo que só pode ser compreendido nas grades do conhecimento como ausência devido a seu caráter indeterminado e contingencial. o plano de consistência é dado por outrem. Este contingencial instaura uma política nômade de cortes e conexões de deriva que contraria uma política disjuntiva divina. não pelo mesmo ou numa dialética que envolve o outro para fazer (re)tornar o sujeito ao que ele é. nada falta a outrem. Se um Outro sem falta remete a um Outro gozador. típico da psicose. A perspectiva do lote instaura uma dívida.%20Singularidade%20e%20subjetiva %C3%A7%C3%A3o%3A%20ensaios%20sobre%20cl%C3%ADnica%20e %20cultura&f=false . +Singularidade+e+subjetiva%C3%A7%C3%A3o:+ensaios+sobre+cl %C3%ADnica+e+cultura&source=bl&ots=2zzIf3E9om&sig=fp80linX1ARp39SgKwFDc07uns&hl=ptBR&sa=X&ved=0ahUKEwiz__7R3__LAhVJj5AKHfstCqAQ6AEIHTAA#v=onepage &q=PEIXOTO%20JUNIOR%2C%20C. Tendo este sistema como horizonte. o campo de imanência. isto é. inclusive ela mesma. a significação pelo lugar. Em: https://books. pela atribuição de um lote. A. ou melhor. com a ausência.%20A.+C.

naturalistas. ??). Consequentemente. Não é mais o clausura (pura e simples) e a violência como em HL – onde a preocupação é com imagens e modelos (botânicos. 1995. mas o estabelecimento e a circulação das relações de poder que instauram enunciados e visibilidades e determinam o exercício planejado da violência e da força... 244-5) VER Subjetividades maquínicas CX. verdade e poder. p. o pensador francês parra para a articulação de uma heterogeneidade de elementos – que vão do hospital e da anatomopatologia ao nascimento da clínica – que definem o poder psiquiátrico como forma específica de manejo. não se desenha sem o pressuposto da liberdade. p. castigo. encontra-se a recalcitrância do querer e a intransitividade da liberdade. portanto. ser separadas. da família. A relação de poder e a insubmissão da liberdade não podem. médicos) acerca da loucura –. recompensa que visa corrigir e moldar indivíduos e população. 90. HS1. seus procedimentos se fazem micropolíticos no afã de incidir sobre a política formativa da vida. de incitação recíproca e de luta. da centralidade e regularidade das instituições do asilo. Quando tratamos de poder. tratamos de uma relação de poder a qual. Mais do que um “antagonismo” essencial. precisamente por seu caráter relacional. “provocando-a” incessantemente. trata-se. a normalização se desdobra em dispositivos de controle assíduos (post-scrip DELEUZE. então. seria melhor falar de um “agonismo” – de uma relação que é. Sua instalação propicia o aparecimento de uma ordem paranoica sobre o solo da disciplina moderna que tem como modelo a arquitetura panóptica de vigilância. administração e dominação da loucura (ORELLANA. menos de uma oposição de termos que se bloqueiam mutuamente do que de uma provocação permanente ((FOUCAULT.Poder resistência e liberdade Poder e liberdade são indissociáveis. Contemporaneamente. O problema central do poder não é o da “servidão voluntária” (como poderíamos desejar ser escravos?): no centro da relação de poder. tratamos de algo indubitavelmente relacional. a normalização incide sobre uma política de fluxos. Poder psiquiátrico e captura Captura Articulação entre saber. Atualmente. etc. ao mesmo tempo. Conv) que instauram a noção de finalidade no cerne de processos de modulação sem .

Poder psiquiátrico. Ao colocar ambos frente à frente num contexto de combate contra (cf. 195). Se o alienista libera as correntes do louco é para contê-lo na interioridade anatomopolítica de sua verdade de homem num gesto c(l)ínico de falso humanismo. somente manobras. nos regimes de fluxos que os constituem. este é o solo de conversão da loucura em alienação e doença mental . Articulando os efeitos formativos da imagem à dominação. Pinel. a imposição de uma identidade estatutária com a qual o doente deve se reconhecer. táticas para submeter o alienado ao alienista. dissimetria. num âmbito de conflito e embate entre médico e doente. Foucault (2006) remonta a uma entrevista em que Pinel especifica a terapêutica da loucura como arte de subjugar e dominar o alienado colocando-o sob o a dependência de outro homem cujas qualidades físicas e morais exercem um irresistível domínio sobre ele. a supressão do caráter hedonista da loucura” (2006. o uso imperativo da linguagem. A transformação se dá desde o interior dos indivíduos. avhinfames. CC) típico aos procedimentos asilares. p. A superfície corporal dos gestos e condutas nas descrições de Pinel ou a superfície forjada no corpo anatomobiologico do segundo Ver bleuler superfície A ausência de interesse em uma teoria ou mesmo uma explicação da cura (2006. a dobradiça entre a História da loucura e o Poder Psiquiátrico é tem a figura de Pinel como ponto de chegada do primeiro na inscrição de um novo problema. fazendo-a aparecer perceptivamente em sua verdade para apaziguá-la sob seu domínio. atuando.termo. dominar a loucura pela imposição da realidade por diversos modos Complementos ao poder asilar como “a dissimetria disciplinar. DELEUZE. alienação. pois. à vitória e submissão. é chegado momento de fazer ver e fazer falar a loucura e os homens infames (FOUCAULT. alça-se esta ao posto de mestre da loucura. que a desencadeia. p. vassalagem domesticação e servidão do doente ao médico. 196). O ponto de passagem. HL) no bojo do sono antropológico do século XIX. punitivos e morais de subordinação. Encerrada a era de silenciamento. o aproveitamento da penúria e das necessidades. o do poder psiquiátrico.

não lhe peço que estabeleça a teoria do que faço. Questiono-a sobre as posições que assume e sobre os motivos que oferece. tudo é fruto da distribuição de corpos. de energia. Diferença de potencial. para falar do poder. . sempre procurei questionar a política naquilo que tinha a dizer sobre os problemas com que se havia confrontado. a neutralidade. que levanta uma questão moral. etc. Clínica incorporadora. como relação de base. que encorpora o social 1ª aula 7 de janeiro 1976 de Em defesa da sociedade: O curso versará sobre a guerra como princípio histórico de funcionamento do poder. Não se trata mais de corrigir os erros da razão. Sauvagnargues (2007) vê na arte uma politica de variação sobre a vida. não de indivíduos. em Polêmica. a ordem e a lei reina. Os corpos são parasitados nesta ordem. a partir desta dissimetria é que começa a psiquiatria. No XIX. política e problematizações: Nunca procurei analisar nada do ponto de vista da política. nem defensor no marxismo. A condição do saber médico e asilar dependem da ordem disciplinar. pois o indivíduo é formado justamente pela ação do poder sobre os corpos. E a questão passa a ser dobrar esta força que o leva à mania. A constituição do saber médico. por isso pode haver mania sem delírio. primeira ao saber psiquiátrico. Política Foucualt (1984/2004). Não sou nem adversário. é a metáfora que Foucault usa. a questão é a força e a vontade. Num primeiro olhar o corpo é uma presença de imposição física e moral do alienista. e o instrumento pra isto é o tratamento moral. A partir do olhar é que o psiquiatra consegue a objetividade. elas se centram nas categorias de análise do instinto (que funda a psicologia) e da vontade.Aula birman 08-01-2014 Descrição do asilo idela de Fodéré parece uma descrição sadeana. ela corrige os maus usos da liberdade. interrogo-o sobre o que tem a dizer a respeito de experiências que lhe apresentam interrogações.

por sua vez nascida na distância desta sua origem embora essencial à política.e sujeitos a constante redefinições. pela sanção e pela recondução do desequilíbrio da guerra. rivalizam. isto é. o pretendente e o rival num atletismo generalizado do agôn que Deleuze e Guattari (2008. Em todos as acepções. enquanto entidade exercida.a política é que é uma continuação da guerra. Onde se faz aliados e concorrentes na disputa por sentido e preponderância sobre o existir. à vida em sociedade. Esposito (1999) em A origem da política. um disfarce da desigualdade e do descompasso descontinuo de forças inerente à vida entre os homens. coloca esta entre a cidade e a guerra. Enquanto pólemos. entre polis e pólemos. portanto. Revista Psicologia política: O espaço público se refere ao âmbito do político. A política nasce deste processo agonístico de disputa de sentido entre o amigo. polis e pólemos se opõem: cidade X guerra. p. Entretanto. . São profundamente imbricados – basta lembrar como entre nós o público constantemente é privatizado e como o privado está crescentemente sujeito ao controle público . A política seria então apenas um simulacro. contrapondo-se ao espaço privado. não coincide com a pólis. o aliado. os espaços privado e público não podem ser entendidos como espaços já dados.EDS Política: polis (cidade) e pólemos (guerra) A política nasce nas cidades da Grécia fruto de sua organização como sociedade de iguais que entretanto. Relações de força. Assim. poder X violência. o poder. 10) encontram nos modelos estudados por Detienne e Vernant. Estatística . seria o arbítrio final e resolutivo das relações humanas e dos humanos com suas instituições. enquanto conflito originário. A guerra – seguindo as indicações de Arendt. Ur-teiling – de Troia divide a realidade da ordem do mundo em duas partes radicalmente diferentes ao mesmo tempo interna e externa à cidade onde ela se gera.

por isso a loucura. A política ressalta a dimensão teatral da existência humana. se atualiza nos modos de apresentação. não somente fenomenológico. Da guerra – pólemos – à cidade (polis). Na cena política. Aparecer é existir sob o olhar dos outros. Arendt (apud ESPOSITO. o incoativo da impossibilidade de “ser” na presença – que não se pode representar. no sentido de revelação ou epifania. mas ela funda. a polis assume o combate como modalidade não só legítima. que se efetiva. deve ser nela e por ela silenciada. por isso o aparecer é ontológico. aparece como com-parecer. Esta é a máxima continuidade entre guerra e política. fundar ou ampliar o poder. Embora a violência e a coação são meios de proteger. Por isso. onde um domina absolutamente. Não trata de representação. p. são especialmente visíveis.Com efeito. Por outro lado. Os heróis são seres atuantes pela autonomásia. eles não são em si políticos para a filósofa. o qual. nada tendo a ver com uma simulação ou impostura. mas ao âmbito da pura apresentação: parúsia. não mais que marginalmente. mas necessária a sua constituição interna. de modo a incluir aí. 46) entende que “o poder e a violência são opostos. “Arendt insiste tanto na aparência da realidade como na realidade da aparência” (ESPOSITO. o tetro é a arte política no qual o sujeito faz sua aparição. o aparecer. 49). O homem só existe se apresentando. Homero e os demais combatentes merecem tornar à cidade. Desde Heidegger. pelo menos. essa exclusão funda a política na exterioridade da guerra – após esta. o agente é sempre a voz do ator. pois a própria realidade só existe e opera enquanto tal porque é fenomênica e diz respeito aos fenômenos. . no sentido de deixar algo para trás quando a essência ou a origem está em outro lado. as armas dão lugar Às palavras. enquanto outro de nossa cultura. A contraposição não exclui a proximidade e as consequências da separação: a violência em si não é política. Apesar disto. p. às formas com as quais as coisas nela aparecem e se dão. tutela e amplia sua extensão. O ato mental se apoia na capacidade do espírito em fazer presente em si mesmo aquilo que está ausente nos sentidos. à polis. por onde os seres se apresentam e comparecem na cena política. falta o outro”. Isso demonstra seu ethos agonístico – o impulso de mostra o eu medindo-o frente ao outro.

. 37-8 Esta distribución y redistribución de los lugares y las identidades. antitabagismo.Malaise dans l’esthétique p. Este trabajo de creación de disensos constituye una estética de la política Política pública Política pública é o assunta que trata de reformar as instituições – escola. saúde. este cortar y recortar de los espacios y los tiempos. justiça – e de planejar políticas para a população – habitação. de lo visible y de lo invisible. La política consiste en reconfigurar la repartición de lo sensible que define lo común de una comunidad y que introduce los sujetos y los objetos nuevos. etc. constituyen lo que yo llamo la repartición de lo sensible. Trata das condições em que o Estado atua ações públicas e os atores envolvidos sob distintos níveis de atuação. en hacer visible lo que no lo era y en hacer escuchar como hablantes a aquellos que solamente eran percibidos como animales ruidosos. por la manera mediante la cual corta este tiempo y puebla ese espacio Rancière . por el tipo de tiempo y de espacio que instituye.Política: partilha do sensível Distribuição do sensível Es político por la distancia misma que toma en relación con esas funciones. del ruido y de la palabra.

na realização dos possíveis que nos habitam seguindo algumas preferências. que está inscrito na dialética do trabalho. Zourabichivili (DP) aponta para esta mudança no estatuto do possível tomando-o na autenticidade positiva do ainda-não. como respirar sem oxigénio em LS p. a categoria. assim como a crise é o acontecimento a partir do qual um processo se inicia. sensação. p. de um campo já-lá. a certeza clara de esgotamento faz a passagem do “nada é possível” para o “tudo é possível”. isto é. O esgotamento é diferente do cansaço. É o acontecimento que abre um campo de possíveis e não o possível que dá margem ao acontecimento. Daí a distância entre o possível realizável e a criação de novos possíveis. Já o possível como novidade emergente irrompe no real em decorrência do acontecimento para instalar novas realidades. no experimentalismo de um procedimento ético e não em projeção ou na promessa de um futuro dado. É a partir do acontecimento que novas existências são engendradas. o sonho e o ideal em Para dar fim ao juízo para encontra-lo na coextensividade do real. 329. .VER: Dortier Possível O possível se dá na superfície? Ver Blanchot EL. criador de possíveis. Conclusão que nos leva à perversão de Deleuze: é esgotando o possível que criamos outros possíveis. O primeiro subentende uma realidade acabada preexistente. 230 sobre o artista. In Pelbart (2014) fichamento: Desalojar e deslocar o possível da série formada pela imaginação. qual contém e é simultaneamente contida no possível previamente dado que se realiza mecanicamente tal qual as regras sintáticas ou gramaticais de um sistema linguístico qualquer.

e o que é transposto? Provisoriamente. que brilha e reluz a vida em sua aparição na superfície do mundo. mas ao mais profundo deste mundo que é o campo desterritorializado das forças. podemos reiterar o caráter anti-predicativo do acontecimento para além ou aquém de todos os entes. De fato. Empiria das forças que empresta sua expressão ao plano de imanência. . somente alcançáveis através do princípio de não-contradição. pode bradar: “ver-me a mim próprio. os condiciona a ambos. enquanto ser vivo. deserto densamente habitado de singularidades pré-individuais. Paradoxalmente. é precisamente porque não se confunde com os entes é que o acontecimento coexiste com eles.Possível Criação de possíveis Uma vez se que chega ao transcendente ao final do processo de criação. p. e até as minhas estrelas. s/d. vazio potencial. Aliás. o acontecimento coexiste com os entes. fugidio e contraditório por sua própria natureza gerúndica – o acontecimento é aquilo que acabou de se dar ou que está prestes a se dar num inelutável sendo. em sua viagem mais solitária. O transcendental não corresponde a outro mundo. ensejamos que seja o vivido e o vivível. Possível. 140). Plano imanente a si mesmo. No fora se operam as disjunções inclusivas mediante instâncias paradoxais insustentáveis. mas aos acontecimentos em sua inextrincável idealidade e potência. impossível e sentido: a operação do acontecimento sobre os entes e os corpos O impossível não é derivado do possível e do real visto que. e não como Ser. o fora corresponde à dimensão transcendental necessariamente impessoal e imanente. Por isso. em realidade. fora absoluto que nos arrasta a partir da profundidade mais recôndita – o campo de singularidades pré-individuais – até a superfície inalcançável. Terra de ninguém. plano de consistência que remete não ao fluxo do vivido que se individualiza num Eu. Isto porque o sentido se dá desde o acontecimento. com o sujeito. mais que como indivíduo. o conceito e os estados da alma dados de antemão. à despeito da qual sempre se perde algo na efetivação. ao cume do alto do qual Zaratustra (NIETZSCHE. olhando para baixo!” – a isto chamamos a criação de novos possíveis.

afetos e efeitos [[pensar Blanchot e a relação com o que se vê]]. seus gestos. p. assim como o invisível tem seus cheiros. a adjetivação substancializante sucedem na fina película acontecimental que envolve os corpos. não como processo dirigido. Ideia que o filósofo francês exemplifica ao apontar que tanto o verdejar da árvore quanto o brilhar da faca são efeitos na superfície dos corpos físicos. Criação e crueldade A criação prescinde igualmente do corte. Segmentação dentro de um regime de aposta trágica como propõe Blanchot (CI2) Na instabilidade do fora. em Deleuze (2000) o impossível se relaciona ao estatuto problemático do sentido. CC). O corte diz sobre a captação. imaginativa. agonística de um combate interior. de lembrança ou de representação” (DELEUZE. parece que a categoria de impossível é obnubilada ou preterida por Deleuze (2000) em prol de uma superfície na qual pululam os possíveis com e a partir da separação e da filtragem entre o indivíduo e o meio. . 2000. porém. infinitamente livre. 22) que o exprime. DELEUZE. os atributos. Possível corte. Ao lado do campo transcendental. entretanto. Na Inalienavelmente atado à proposição que o exprime.O impossível não existe. o atributo noemático tem sua consistência e sua existência restritos à superfície da “proposição perceptiva. não apenas ligação. não-ligadas se encontram num permanente combate entre. Deste modo. possui sentido. que se dá entre as próprias partes (cf. Considerados a partir da lógica do acontecimento. entre o homem e o mundo. ao contentamento (contente ou não) com uma fatia do caos que permanece. as singularidades não-ordenadas. precisamente como acontece com o viver e a vivência sobre a superfície da vida. as superfícies dos corpos são diferenças que expressam efeitos: aí o sujeito não passa de um acontecimento na superfície da vida. Assim como pensamento e a linguagem.

Por lo tanto. um rostidade almejada ou pelo menos entrevista e uma linguagem real e efetiva (cf. de una producción continua de sí mismo en la cual orden y desorden actúan juntos. sua realização corresponde a aventura ou falha da normatização. mas. que ela está ligada à essência da vida e da vontade de poder” (Estados da alma da psicanálise. 1993. como o Nietzsche de a Genealogia da Moral. DELEUZE & GUATTARI. porém. ele seria o caráter daquilo que não pode ser . garante a realização dos possíveis engendrados. p. como se supõe que a condição guarde uma extensão maior que o condicionado. não deixa de continuar sendo uma proposição dotada de sentido.Freud pensa. Possível e proposição e formalização da linguagem remite proposición a la formalización del lenguaje. 2013 cap 3). Com a abertura. 74). Lo social también es capaz de morfogénesis imprevisibles. no obligada a distinguir lo posible de lo real. 61) Outrem implica a criação de possíveis para a existência à medida em que decorre de um mundo possível. o sentido não funda a verdade sem também tornar o erro possível. A primeiridade icônica (de semelhança corresponde à categoria do possível quando este já não se define mais por um real previamente dado (ULPIANO. que a crueldade não tem contrário. p. de un acrecentamiento de la complejidad multiplicador de los posibles y. 2008. Uma proposição falsa. portanto. Possível Nada. p. es un factor de improbabilidad (BALANDIER. por consiguiente. 25). La proposición cuenta siempre con un referente o una intencionalidad que constituye su constante intrínseca. Quanto ao não-sentido. La tipología de las proposiciones remite a la abstracción. de lo inédito. Define-se o sentido como a condição do verdadeiro.

Neste ponto surge o sentido como acontecimento. a do verdadeiro e do falso. têm sentido. E ainda: como conciliar a fugacidade de um objeto e a eternidade de seu sentido? Como fazer. 150-1). anexa-se aos valores clássicos do verdadeiro e do falso um novo valor. enquanto o fundamento permanece maior que o fundado. Mas. 2003) passa a tratar o sentido a partir de um campo problemático ao se deparar com o problema do sentido dos objetos impossíveis ou inexistentes – objetos contraditórios e sem significação em si mesmos. de acordo com a qual a proposição enuncia. porque a procura de um fundamento forma o essencial de uma "crítica". esta crítica serve somente para justificar as maneiras de pensar tradicionais. invocou-se um simples fantasma..nem verdadeiro nem falso. privado de seu poder de gênese (DELEUZE. O verdadeiro e o falso seriam um caso de designação (. concernente não mais que à significação. Assim o sentido deixa de ser uma questão meramente linguística. enfim. Uma seria a dimensão do sentido. independentemente da condição que se lhes consigna ou do novo valor que se lhes acrescenta. para escapar do jogo de espelho: uma proposição deve ser verdadeira porque seu exprimível é verdadeiro. à despeito de não terem existência concreta. Sendo preciso. p. o do não-sentido ou do absurdo. após um dos mais potentes esforços da Lógica. de acordo com a qual ela indica. 153) . mas ele é remetido apenas a um faro psicológico ou a um formalismo lógico. ou objetos não condicionados num campo de representação como a questão aparece em diferença e repetição – que. o sentido não fundaria a verdade de uma proposição sem permanecer indiferente ao que ele funda.) descobre-se o domínio do sentido. tais como eram. isto é. mas que têm sentido.. Diz-se muito ou muito pouco: muito. 2003. exprime alguma coisa de ideal. ela designa objetos aos quais se aplica o enunciado ou o exprimido. 2003. a da designação. estéril incorpóreo. p. que deveria inspirar-nos novas maneiras de pensar. o sentido é apenas um vapor movendo-se no limite das coisas e das palavras. mas o exprimível só é verdadeiro quando a proposição é ela mesma verdadeira? Todas estas dificuldades têm uma origem comum: extraindo um duplo da proposição. Assim definido. Mas supõe-se que o verdadeiro e o falso continuem a existir no mesmo estado que antes. muito pouco. assim. a outra. O sentido aparece aqui. para se tornar de fato um problema filosófico. Distinguem-se duas dimensões numa proposição: a da expressão. Deleuze (2000. porque. Supõe-se que o verdadeiro e o falso permaneçam não afetados pela condição que só funda um tornando o outro possível (DELEUZE. mas como o Ineficaz.

sobre todo.con la familia. 119) que o asilo deve ser isolado e alheio à influência de elementos externos e da família. p. libertinos. Ele hiperbolizou a figura central que é o do médico. a partir disto. vagabundos. vão se reportar diretamente ao médico. Philippe Pinel. escândalo moral que é suscitado pela presença aviltante do louco em meio aos outros indivíduos internados. que serão definidoras da psiquiatria em seu surgimento. protopsiquiatria e moral protopsiquiatría se ubica entre finales del siglo XVIII y las primeras tres décadas del siglo XIX en Francia. ao longo da Idade Clássica ela não representa uma confusão. onde Pinel e Tuke encontrarão os loucos misturados a criminosos. pois com frequência a causa moral da alienação está no seio da família. Creo que debemos partir del asilo sin familia. François Fodéré y Jean Étienne Esquirol Protopsiquiatria começa quando o manicômio rompe com a família. (p. 173) “Esquirol consideraba que este . mas a unidade perceptiva formulada ao longo da Idade Clássica deu lugar à confusão Psiquiatría. el asilo que rompe -y que rompe a la vez de manera violenta y explícita. no internamento. la situación que encontramos en esa procopsiquiarría cuyos representames y fundadores fueron Pinel y. ainda relativamente distanciada do mundo das práticas efetivas sobre os insanos. 126). para Pinel e Tuke. criando a situação psicanalítica centrada na transferência. es anterior a la fundación del asilo psiquiátrico que data del año 1838. De forma que os pacientes. a correção. Tal es la situación inicial. salienta (2006 p. centralizado. presos políticos. sobretudo. mas. a punição e a pedagogia. motivo de escândalo. Começo da psiquiatria a clausura. Fodéré y más aún Esquirol (FOUCAULT. Ele criou a situação psicanalítica pedindo que os pacientes loucos se dirigissem diretamente a ele. muito mais do que a medicina a elas contemporânea. uma espécie de percepção coerente e organizada. pelo contrário. 2006. Se esta mistura é.Psiquiatria Foucault (2006) PP ressalta que Freud sacou que todo aquele dispositivo da pirâmide estava centrado no médico. Esquirol. Esquirol ainda pauta o isolamento e a individualização aos moldes de Bentham (p. Deveria ter um chefe. 114).

deseable. 213) ao passo que associa a loucura ao sonho (p. El cara a cara con ellas. que podía perfecramenre ser inasible porque no se expresaba en ningún delirio. o pensador. en rigor. la locura. voluntad trastornada. si se libra de la manera adecuada. 49) salienta que Pinel não fala jamais em prol de um conhecimento da loucura. era el gran operador de h curación asilar:” (p. producirán dos efectos: la voluntad enferma. diz serem eles essencialmente morais. Deleuze (2014. Deleuze DF??. orden dada y orden obedecida. p. 2006) aponta que o discurso pineliano de filantropia guarda as evidências imediatas de que o olhar vigilante e a o juízo do médico atam de maneira mais eficaz que as correntes que ele rompe. 2002. e só o Bem pode fundar a suposta afinidade do pensamento com o Verdadeiro. 387 Pero más aún que un ámbito de develamicnto. por otra parte. sacará a plena luz del día su mal en vinud de la resistencia que ha de oponer a la volumad recta del médico. num ponto destacado por Deleuze e Guattari (2011).sistema d~ orden. 327) p. [[louc crítica]]. al rcnunciamiemo de b voluntad trastornada. pois só a Moral é capaz de nos persuadir de que o pensamento tem uma boa natureza. pasión pervertida. igualmente. . el hospital cuyo modelo propuso Esquirol es un lugar de afrontamiento. a psiquiatria do século converge toda para a psicanalise e seu modelo familiarista. Pinel encontra. Por isso. el choque inevitable y. 131 Quando Nietzsche se interroga pressupostos mais gerais da Filosofia. mas fala em noma da moral. uma responsabilidade que é mais profunda e mais importante que culpar o louco por sua loucura. uma boa vontade. 180) Faz confundir a maquinaria do asilo com o organismo e o corpo do psiquiatra (p. Foucault (1979. Esta responsabilidade é colocada em jogo quando e se o louco atenta contra a ordem social e moral. [[cs analítica falha em prol da prática??]]. llevar a la victoria de la voluntad recta y a la sumisión. debe: toparse en él con una voluntad recca y pasiones ortodoxas. orden como mandato y orden como regularidad.. p. Pinel rompe os grilhões com sua revolução c(l)ínica para atar os loucos ao modelo familiar. la lucha que se enrabia a partir de ese momenm deber:í. O psiquiatra ocupa o lugar do pai.

de manera muy curiosa. sólo sirve. de hacerlo. (. p. la práctica psiquiátrica individual. al contrario. só será imposto a título de regra moral pura.\tricas perfeccionadas por la psiquiatría de la época. tão somente à distribuição do trabalho entre os doentes como sinaliza Foucault (2006. una práctica psiqui:ícric:1 que es la obligación de trab:tjnr de los enfermos. O trabalho. Mais eficaz ainda que o trabalho. pero no de la posibilidad de curación de la gente o de la forma de traramicnro que debe aplicársele. Y en medio de todo esto. se utilizan de hecho aquí. En efecto. 528-9): O trabalho regular deve ser preferido. el gra"do cero de la inrervención psiquiár. Psiquiatria desde 1860: terapêutica e trabalho Psiquiatría a partir de 1860 a classificação das doenças não tem fins terapêuticos. medo do sistema de coerção sob o qual ele pode cair. . las categor(as psiqui. o trabalho será despojado de todo valor de produção.. Segundo. e não nós termos medo dele como até a era clássica. Y tercero. é aquilo que existe de mais agradável para o doente. pois. limitação da liberdade. a partir de Esquirol -a cuyo respecto trataré de mostrarles que no ii1fluyen en absoluto sobre la propia terapia-.ica: el encierro liso y llano dentro del asilo. por decirlo así. e o que há de mais oposto às ilusões da doença. sua obrigatoriedade na forma de ergoterapia. Uno es. con el pretexto de su curación: ergoterapia. el elemento más importante y característico es. hay tres tipos de intervención o marüpulaclón psiquiátrica. para definir la utilización posible de los individuos en los trabajos que se les proponen.. destinada a los pensionistas. la clasificación nosológica no está ligada a ninguna prescripción terapéutica. ..É preciso que o louco tenha medo. como clasificación. o olhar dos outros. p.) No asilo. !a articulación del saber y el tratamiento psiquiátricos con la obligación de trabajar de los pensionistas que son capace. visam. 1979. Toda regulamentação da locuura no asilo é sobre um sistema de sanções. tanto do ponto de vista físico quanto moral. quando os tatavamos como animais. aquilo que Tuke chama de "a necessidade de estima”. visa engajar o louco num sistema de responsabilidade como pondera Tuke (apud FOUCAULT. sin duda. porque os temíamos.. muy claramente. 150): Para terminar. individualizadora y de mosielo familiar. correspondientes también a esos tres niveles. engajamento da responsabilidade com o fim único de desalienar o espírito perdido nos excessos de uma liberdade que a coação física só limita aparentemente. submissão à ordem.

dando uma medida À liberdade. p. 425). das tradições contra o novo humanismo. de forma a entender que o anormal aglutina e prolifera as condutas patológicas que constituem a doença mental. 1979. como num espelho. doença — recaíram no domínio privado. Esse lugar é o da reclusão no interior da subjetividade psicológica. Foucault inverte o postulado da patologia clássica que afirma que primeiro é o anormal em estado puro – cristaliza condutas patológicas – constituem a doença mental – desembocam na alteração da personalidade – produz a alienação mental. precisamente. 1979. numa situação mais enclausurante que a correntes. adequar. Foucault propõe que primeiro vem a alienação. libertinagem. Num espaço social inteiramente reestruturado. Mas a função comum e a forma mista desses dois tipos de confinamento ainda não foram descobertas. para por fim se definir o anormal. na época em que seus velhos companheiros — pobreza. uma imagem invertida da sociedade: vício. como formas de adestrar.)Não é a luta entre filantropia e barbárie. . em seu microcosmo independente. e colocálos numa estrutura carcerária. mas a matemática e as ciências naturais. Psiquiatria e alienação: involuntário e responsabilidade A patologia mental clássica encontra a origem do mórbido e do patológico no anormal (em estado puro).O inglês ainda associa às formas terapêuticas de lidar e reduzir a liberdade desmedida do insensato. Foucault (1975) propõe uma inversão de raciocínio ao ponderar que a alienação (mental ou histórica) é primeira.. ou tratá-los como doentes fora da situação familiar e constituir à volta deles uma quase-família? Veremos de que modo. refletindo assim a virtude.. as quais formariam. É o tatear desajeitado na direção de uma definição da loucura que toda uma sociedade procura novamente exorcizar. não somente o trabalho. Em Doença mental e personalidade.. Na época do humanismo filantropo de Pinel e Tuke é que são pensadas aquela espécie de casas de correção ideias. ao definir o arquétipo do asilo moderno. p. 424-5). objetivando-a. [[ continuar vendo a necessidade de estima. (. a loucura deve encontrar um lugar (FOUCAULT. Tuke e Pinel procederam. coação e castigo.. bem como a liberdade e as recompensas que constituem a alegria dos homens (FOUCAULT. disciplinar a liberdade desmedida.]] Será então o caso de tratar os loucos como outros prisioneiros.

Desenvolvimento acompanhado em dois artigos de Baillarger analisados por Foucault aque o considera o primeiro psiquiatra da França. que têm em Esquirol o último representante de peso na formação da questão da loucura na busca pela verdade do sujeito. (. Com a lei de 1838 a relayao da familia com as autoridades psiquiátricas e judiciarias muda de natureza e de regras. Um artigo de 1845 e outro de 1847. Ao passo que a partir de História da loucura (FOUCAULT. Foucault combina análises e registros históricos. que vai levar a generalização desse elemento do instinto e a generalizayao do poder e do saber psiquiatricos: a inscriyao da psiquiatria num novo regime administrativo. 0 outro processo que explica essa generalização e a reorganizayao do requerimento familiar. 183). mas nele despossui-se de sua vontade entregando-se a processos involuntários. os psiquiatras tomam o lugar dos alienistas.. a perturbação entre o voluntário e o involuntário é que engendra toda loucura. mas pelos modos espontâneos do comportamento no eixo do voluntário e do involuntário. vemos que em Doença mental e personalidade. A psiquiatria se torna a ciência de todas as condutas. Os psiquiatras se debruçam sobre outra ordem de problemas. ele se desloca para as práticas de saber e poder para afirmar que a alienação mental não condiz à alienação do espírito ou da mente. Em segundo lugar. 1979) e em sua obra posterior. Nao e mais necessaria a familia para obter uma intemayao. do delírio e da alienação para . 29). do involuntário e do voluntário. 2008. Aula Joel 10 12 14 AN 12 02 e 19 02 A psiquiatria interroga não pelo conteúdo formal do pensamento.. ela prescinde da demência. a teoria ou a medicina da alienação mental. nao se tem mais os dois meios que ela tinha outrora. Noutro. mas da pessoa reconhecida como doente mental e de sua liberdade.Se seguimos as indicações de Pierre Macherey (1985) e Edgardo Castro (2009.) primeiro processo. Trata-se da dobradiça entre o poder médico-jurídico. p. no fundo. p. sociológicos e psicológicos para pautar a alienação como “produto das alienações históricas da sociedade”. do instintivo e do automatismo (como o SemCR). Neste ínterim. associada à protopsiquiatria que era. no primeiro a loucura é comparada ao sonho não como erro da verdade. como esta questão aparece em Os anormais (FOUCAULT. Aqui tambem precisamos nos referir a lei de 1838.

o louco é culpado não por ter caído na loucura. pois são inúteis. Aqui. O espaço puramente moral. eles se sentiriam feridos com isso. a qual pode levar o sujeito alienado a perturbar a ordem moral e social. Não seja triste com os melancólicos. culpar apenas a si mesmo pelos castigos e punições implicados no tratamento moral. Leuret afirma:] Não utilize as consolações. Muito sangue-frio e. podendo psiquiatrizar qualquer comportamento independentemente da alienação. severidade. vigiado e julgado em termos de visibilidade e enunciado. dá as medidas exatas dessa interioridade psicológica em que o homem moderno procura tanto sua profundidade quanto sua verdade. não assuma com eles um ar alegre. a cura do determinismo inocente. Pinel inocenta o louco. é responsável pelas ameaças. entrevemos a objetivação da liberdade do louco que. por vezes. Uma única corda vibra ainda neles. não recorra aos raciocínios. sentido. sem necessidade de referência à verdade e a um núcleo delirante da loucura. porém não a loucura. enquanto louco. 361) salienta que a distinção entre o físico e o moral só se tornou um conceito prático na medicina do espírito no momento em que a problemática da loucura se deslocou para uma interrogação do sujeito responsável. A psicologia. . sua tristeza acarretará a deles. 1979. a da dor. e no interior dessa doença da qual não é mais culpado. ela atenua o sofrimento no rigor de uma necessidade moral. se não é culpado por sua situação de loucura. Por isso. tenha coragem suficiente para tocá-la. que culpa a escolha moral pela desrazão. portanto. p. então definido. Que sua razão seja a regra de conduta deles. na primeira metade do século XIX. A terapêutica física tende a tornar-se. organiza-se doravante ao redor da punição. A responsabilidade. p. Antes de procurar tranqüilizar. perigos e danos que incute para a moral e a sociedade e deve. o louco. deve sentir-se responsável por tudo aquilo que pode perturbar a moral e a sociedade e deve acusar a si mesmo pelos castigos que receber. Deste modo. Não se trata mais da busca pelo mal dos séculos XVI e XVII.funcionar. a da liberdade falível. Foucault (1979. p. 527). quando necessário. é estendida à família. pois eles não convencem. [Neste. e o tratamento moral. A designação da culpabilidade não é mais o modo de relacionamento que se instaura entre o louco e o homem razoável em sua generalidade (FOUCAULT. como meio de cura. Deleuze (2014. 48) aponta que para Pinel o louco deve ser constantemtne visto.

na medida mesma em que resulta de um determinismo objetivo. Mas. No louco. segredo. juntas. essência da loucura. incansavelmente. deve justificar-se diante dela. o menos livre da natureza. 565). A noite do louco moderno não é mais a noite onírica em que se levanta e chameja a falsa verdade das imagens. nascem e se realizam a obra e a loucura. de Artaud (584). 559) Na reflexão sobre a loucura. uma vez que em seu esforço e em seus debates ele se mede por obras desmedidas como a de Nietzsche. mas da liberdade em suas determinações reais: o desejo e o querer. a tradução. assinatura. 479). então. a “irresponsabilidade é assunto de apreciação médica. como de Reil a Freud ou de Tuke a Jackson. Foucault (1979. p.) se a irresponsabilidade se identifica com a ausência de liberdade. aquilo que impedir legitimamente seu uso deve necessariamente ter alterado as formas naturais que ela assume no homem. de Van Gogh. essa suspensão da liberdade pertencia apenas à esfera das conseqüências jurídicas. No instante em que. a liberdade tornou-se uma natureza para o homem. em termos jurídicos. Ela incute um determinismo que calha na . isto é. não será nada além de um estado de fato. (. De Esquirol a Janet.. justificá-la através da psicologia. e até na análise médica que dela se faz. tratarse-á não do erro e do não-ser. torna-se fundamento. Artifício e novo triunfo da loucura: esse mundo que acredita avaliá-la. não há verdade para a psicologia que não seja ao mesmo tempo alienação para o homem. p. não há determinismo psicológico que não possa inocentar.O alienado já perdera sua liberdade para a alienação. As velhas concepções jurídicas que liberavam o louco de sua responsabilidade penal e o privavam de seus direitos civis não constituíam uma psicologia da loucura. Ver nexo entre obra e responsabilidade. A loucura de um ato se mede pelo número de razões que o determinaram” (1979. a loucura do século XIX.. relatará as peripécias da liberdade. de conseqüência que era. temse o começo do tempo em que o mundo se vê determinado por essa obra e responsável por aquilo que existe diante dela.. O desaparecimento da liberdade. é a noite que traz consigo desejos impossíveis e a selvageria de um querer. o determinismo e a responsabilidade. (FOUCAULT. de uma abolição da liberdade já conquistada em nível psicológico. com Cabanis. O internamento do louco. o automático e o espontâneo. 1979. perde-la na materializadade do corpo não é mais que uma consequência desta perda originária. p..

impossibilidade de fazer uso da vontade (p. 572). Gesto não sendo determinado por
nada, não pode ser responsabilizado.
Resolver com VocF alienação e anomalia, talvez loucura.
analogia com a alienação da faculdade de julgar e como oposição à razão
submissão da inteligência e das paixões. Concepção humanizada p reverter, não é q
não tem razão, como na desrazão, mas tem a razão alienada. Teimosia atávica, animal,
criança primitivo. Alienado a alguém que se responsabilize juridicamente por ele.
Sec XVIII, não há obra.
o individuo disciplinado é alienado e inautêntico (2006)
efeito dos sequestro das forças do fora. É psicossocial.
Na institucionalização, : Despotencialização, sequestro das potências produtivas
Alienação: a pulsão de vida, energia de ligação e união é recalcada
A primeira ideia psiquiátrica é a loucura como alienação mental. Como uma
transformação da própria razão. A potencialidade da razão pode se alienar e se
desalienar.
Psiquiatria e profundidade da moral: exame e periculosidade
Profundidade médica na moral: O exame não está vinvulado nem ao saber jurídico
nem ao médico especificamente, seriam pelos peritos, pessoas desqualificadas
academicamente, os peritos seriam os ubuescos, mas parecem superpostos aos
renomados psiquiatras. Parecem que se confluem os peritos e os renomados psiquiatras.
A legitimação do alienismo (e como instência decisiva no plano jurídico penitenciário)
como discurso médico se faz sobre a questão da periculosidade, a perícia dá início ao
alienista, é o que garante um olhar médico sobre o campo específico da loucura. Os
Anormais. É sobre a periculosidade que se distingue os pobres dignos dos indignos, da
produtividade. Aquele que pode produzir com segurança.
Uma nova leitura da pobreza no XVIII, diferente do século XVII.
O louco passa a ser o resto improdutivo do trabalho. O trabalho é a definição do homem
na modernidade. A loucura resiste a isto, ao trabalho. O louco humanizado é o
trabalhador.
A manipulação da liberdade no asilo moderno:

A positividade dos saberes e dos operadores normativos confere o ser da loucura
moderna.
Se a psiquiatria é o monólogo da razão sobre a loucura (cf. FOUCAULT, 1961/1999),
ela propicia a não-relação entre médicos e enfermos, à medida em que trata não do
encontro clínico entre duas pessoas, mas da “relação da razão com aquilo de que ela
fala: a loucura” (cf. ÉRIBON, 1990, p. 11). De fato, a racionalidade médica se ocupa
daquilo a que ela se ocupa em capturar e forjar: o doente mental e sua loucura, o louco e
sua doença.

Profundidade e superfície
Profundidade, homem do subsolo Chestov, 1.4 tese trágico
A posição estruturalista, que afirma ser o sentido produzido pelo nãosentido, dá a Deleuze condições de afirmar que quando o não-sentido
deixa de produzir sentido, trata-se de um caso clínico. Já a crítica é a parte
da lógica do sentido que diz respeito à superfície, portanto, ao não-sentido
que traz a possibilidade de freqüentarmos a superfície com sentido.

O trágico é a profundidade do sem fundamento. A mais profundo é a pele, que
dispõe de uma energia potencial vital propriamente superficial. E, da
mesma forma com os acontecimentos da ocupam a superfície, mas a
frequentam, a energia superficial não está localizada na superfície, mas
ligada a sua formação e reformação. Gilbert Simondon diz muito bem: “o
vivo vive no limite de si mesmo, sobre seu limite... A polaridade
característica da vida está ao níve1 da membrana; e neste terreno que a
vida existe de maneira essencial, como um aspecto de uma tipologia
dinâmica que mantém ela própria a metaestabilidade pela qual ela existe
(DELEUZE, 2000,p. 106).

o problema é o da clínica, isto é, do deslize de uma organização para outra
ou da formação de uma desorganização progressiva e criadora. O problema
é também o da crítica, isto é, da determinação dos níveis diferenciais em
que o não-senso muda de figura, a palavra-valise de natureza, a linguagem
inteira de dimensão (DELEUZE, 2000, p. 86).

Caroll atua nos paradoxos, na superfície de sentido, incorporal.
AE privilegia a linguagem da profundidade de Artaud.

A linguagem do perverso atravessa e “desliza sobre a superfície perde por completo a
fronteira que separa as palavras e as coisas; as proposições e os acontecimentos. O
sentido incorporal, o acontecimento, foi perdido”
A perda da superfície é a queda no abismo indiferenciado, possibilitada pelo campo
transcendental?
O esquizofrênico perde a superfície em seu mergulho nas profundidades inomináveis
das formas vazias e puras do tempo. Sua linguagem é a dos acontecimentos. Nela, as
palavras queimam porque são sentidas como coisas.
A física dos corpos, seus limites e tensões é sentida pela via das palavras em Artaud.
Sua escato-ontologia afirma a fecalidade e o excremencial que habita o ser [[ver
pensamento de Gil sobre Artaud]].
Na trajetória de Deleuze (1995/2007), trata-se do contágio do evenemencial pelo
excremencial, a superfície metafísica é impregnada pela imanência como apontado em
A imanência: uma vida...uma vida singular independente da subjetividade (atualização
de atravessamentos inúmeros) e da objetividade (dos saberes em sua exterioridade
essencial).
Quando a vida de Artaud perde seu sentido de superfície, sua linguagem é
experimentação e ele sente apenas a profundidade em suas misturas inomináveis dando
elementos para a construção do empirismo transcendental.
Como então Artaud deixa de ser louco pelo infra-sentido? Por um não sentido que não
produz sentido, um signo desprovido de sentido como quer Hölderlin (inorgânico?).
Deleuze observa que na escrita do esquizofrênico aparece algo como a
ação e a paixão, tal como se dá na física pré-socrática e estóica. Os corpos
com seus limites e tensões agem e padecem, e os incorporais são
ilimitados e impassíveis. Deleuze observa que na linguagem
esquizofrênica aparecem dois tipos de linguagem: uma que remete para a
ação e a outra para a paixão. A fonética e a tônica aparecerão como
indícios desses regimes de linguagem. A palavra-paixão explode as
ligações fonéticas e a palavra-ação liga valores tônicos inarticulados.
Deleuze assinala como em Artaud aparece a inarticulação dos sons onde
palavras são formadas sem nenhum sentido, onde a fronteira entre corpo e
palavra já desapareceu.

Ação e paixão do corpo, seu pathos está inexoravelmente ligado às proposições e o
discurso parece impossível.
Nada mais impede as proposições de se abaterem sobre os corpos e de
confundir seus elementos sonoros com as afecções do corpo, olfativas,
gustativas, digestivas. Não somente não há mais sentido, mas não há mais

gramática ou sintaxe e, em última instância, nem mesmo elementos
silábicos, literais ou fonéticos articulados (DELEUZE, 2000, p. 94).

“o acontecimento é submetido a uma dupla causalidade que, de um
lado, remete para as misturas dos corpos da profundidade, que são
suas causas; e de outro para os acontecimentos, que são suas quasecausas. O problema da clinica aparece aí, nessa perda de superfície”.

A frágil superfície do sentido não é mantida pela intenção ou pela vontade.
LS passa da esterilidade à gênese do sentido.
O campo transcendental organiza superfícies, o vivo aparece nas dobras que
envolvem o organismo, que entretanto aprisiona a vida e seu poder de errância em suas
dobras determinantes.

Efetuação consistem em:
singularidades se efetuam ao mesmo tempo em um mundo e nos indivíduos
que fazem parte deste mundo. Efetuar-se ou ser efetuado significa:
prolongar-se sobre uma série de pontos ordinários; ser selecionado segundo
uma regra de convergência; encarnar-se em um corpo, tornar-se estado de
um corpo; reformar-se localmente para novas efetuações e novos
prolongamentos limitados. Nenhuma destas características pertence às
singularidades como tais, mas somente ao mundo individuado e aos
indivíduos mundanos que os envolvem; eis por que a efetuação é sempre ao
mesmo tempo coletiva e individual, interior e exterior etc.
Efetuar-se é também ser expresso (...) O mundo expresso e feito de
relações diferenciais e de singularidades adjacentes. Ele forma
precisamente um mundo na medida em que as séries que dependem de
cada singularidade convergem com aquelas que dependem das outras: é
esta convergência que define a "compossibilidade" como regra de uma
síntese de mundo. Lá onde as séries divergem começa um outro mundo
(DELEUZE, 2000, p. 114)

o campo transcendental real e feito desta topologia de superfície,
destas singularidades nômades, impessoais e pré-individuais. Como o
indivíduo deriva daí para fora do campo, constitui a primeira etapa da
gênese. O indivíduo não é separável de um mundo (DELEUZE, 2000, p. 113).

O sentido da transcendência do mundo objetivo se dá desde o organismo, ele é
a referência, aquilo que há de comum enquanto sucessão de fases – pois, como

apontado por Husserl nas Meditações cartesianas e por Deleuze (2000) na proposição
sobre a gênese estática ontológica, o organismo corresponde à ordenação de fases
sucessivas –, e que não obstante, se soma ao que há de comum entre meu corpo e o dos
outros, o comportamento, que se dá de forma semelhante em todos os organismos.
Deleuze (2000) nega Husserl precisamente na medida em que sua tese pressupõe
um mundo já individuado no qual as singularidades aparecem necessariamente
ordenadas em séries convergentes e presas a tal organização que determina os
indivíduos. Em oposição a este mundo pré-estipulado no qual as singularidades do
indivíduo estão fixadas naquilo que os define, é que o pensador francês pensa o campo
transcendental como problemático. Ao passo que Husserl toma o mundo objetivo como
acabado, Deleuze (2000) se volta para Leibniz esquivando-se, com efeito, do bom senso
e do senso comum para pensar o sentido preferencialmente em torno dos signos
ambíguos e dos pontos aleatórios.
Entre ambos, é na superfície que se ordenam os possíveis – ponto Deleuze
(2000) busca em Leibniz, à despeito da crítica que este faz dos uso negativo que ele faz
da divergência – a partir dos mundos incompossíveis que contrastam com um mundo
(supostamente) pleno e acabado que situa os indivíduos. [[Ver: incompossibilidade e
incompossíveis em LS]]. A crítica de Deleuze (2000) aos estoicos se deve ao fato deles
sucumbirem à causalidade física, de onde aparece então Leibniz como o teórico do
acontecimento, por considerar que aquilo que este denomina compossível e
incompossível não se deixaria reduzir ao idêntico e ao contraditório. “Através de
Leibniz, Deleuze pensará os indivíduos habitando diferentes mundos possíveis, onde
os predicados analíticos aparecem como acontecimentos que os envolvem.
Entretanto, não deixará de criticar Leibniz por fazer um uso negativo e limitativo da
divergência, o que resultará numa visão mutilada acerca das sínteses disjuntivas. O que
Deleuze observa em Husserl é sempre o recuo diante dos elementos paradoxais”.
Retomando o problemático, ele é comum à Gênese Estática Ontologia tanto
quanto à Gênese Estática Lógica. Ele diz respeito à gênese do indivíduo em relação e
imiscuído ao campo transcendental na primeira, e ao problema do sentido, tanto
quanto ao sentido tomado como problema em sua relação com a proposição na
segunda. O desdobramento da questão genética nos coloca frente a um paradoxo: como
o sentido é capaz de produzir os estado de coisas nos quais ele é encarnado ao mesmo
tempo em que ele, o sentido, é produzido por estes (ou por um) estados de coisas dado
nas ações e paixões de corpos (como que por uma imaculada concepção)? Os corpos e

suas misturas produzem sentido através da profundidade indiferenciada que pulsa
sem medida. A profundidade opera como organizador de superfícies ao mesmo
tempo em que nelas se envolve.
As singularidades se distribuem num campo problemático e emergem como
acontecimentos topológicos sem direção (cf. DELEUZE, 2000, p. 107)
As singularidades são da ordem da profundidade ou da superfície? Me parece que
são da profundidade em seu campo transcendental. Porém elas habitam um campo de
superfície em lateralidade também, sua força vem da profundidade, mas ela já é uma
singularidade acontecimento no campo transcendental e opra como singularidade
numa superfície de sentido.
O enquanto o fluxo esquizo da criação arrasta coisas e elementos em todas as direções
incessantemente dragando e regurgitando formas e forças em sua profundidade, a
obra, o livro é construído na superfície como atualização de singularidades e misturas
que se advém da profundeza corporal. Sua superfície se constitui nas retenções,
propiciando e se valendo de ressonâncias e precipitações.
Como clínico Guattari – em entrevista junto a Deleuze (2002, p. 25) – já sinaliza a
necessidade de “interpretar a neurose a partir da esquizofrenia”
Não-senso de profundidade é diferente de não-senso de superfície. Ver proposição
Do esquizofrênico e da menina, onde Deleuze (2000) diferencia dois tipos de não-senso.
No final do artigo sobre Lewis Caroll, Deleuze (2011, p. 35) pondera que
Não que a superfície tenha menos não-senso do que a profundidade.
Mas não é o mesmo não-senso. O da superfície é como a ‘Cintilância’ dos
acontecimentos puros, entidades que nunca terminam de chegar nem de
retirar-se. Os acontecimentos puros e sem mistura brilham acima dos corpos
misturados, acima de suas ações e paixões emaranhadas. Como um vapor
da terra, desprendem na superfície um incorpóreo, um puro ‘expresso’ das
profundezas: não a espada, mas o brilho da espada, o brilho sem espada
como o sorriso sem gato. Coube a Carroll ter feito com que nada passasse
pelo sentido, apostando tudo no não-senso, já que a diversidade dos nãosensos é suficiente para dar conta do universo inteiro, de seus terrores
como de suas glórias: a profundidade, a superfície, o volume ou superfície
enrolada.

O campo transcendental é o da emissão das singularidades numa superfície
inconsciente. Deleuze (2000, p.) afirma que ele é “impessoal e pré-individual, que não
se parece com os campos empíricos correspondentes e que não se confunde, entretanto,
com uma profundidade indiferenciada. Este campo não pode ser determinado como o de
uma consciência”.
A singularidade concerne a um acontecimento transcendental insubordinado,
ao passo que a consciência apenas adquire intencionalidade com os processos de
subjetivação, a individuação dita psíquica. Este é o ponto de partida da fenomenologia,
o estudo do fenômeno da consciência desde uma purificação, caucionado pela
depuração da consciência dos conteúdos psicológicos empíricos, considerados
produtos (secundários) desta intencionalidade consciente. Podemos encontrar em
Edmund Husserl14 (1975) tal definição da fenomenologia desde o estudo dos fenômenos
transcendentalmente reduzidos. A ideia é clara: pouco importa o que há no
transcendental, o ponto de partida é centrado na consciência.
Em contrapartida, em Deleuze (2000), a consciência intencional se volta para a
resolução no campo problemático em sua potência genética; assim, diferentemente de
Husserl, a pesquisa deleuzeana do sentido busca precisamente o campo do
transcendental em seu desdobramento. Conclusão: antes de ser constituinte, o fenômeno
psíquico (a consciência) é constituído desde uma vida inespecífica, ele é condicionado
por um campo transcendental sem sujeito – nisto consiste a crítica deleuzeana à
fenomenologia, em específico à de Edmund Husserl.
“São as emissões de singularidades enquanto se fazem sobre uma
superfície inconsciente e gozam de um princípio móvel imanente de

14 A redução fenomenológica dos atos à consciência é justificada pela e na própria
colocação com que o problema é abordado. Partindo da pergunta se significação deriva
de atos delimitados Husserl (1975, p. 19) salienta que “todo ato é exprimível, mas sua
expressão se encontrará, respectivamente, numa forma da fala que (supondo-se uma
linguagem suficientemente desenvolvida) lhe seja propriamente adaptada (...) o
expressar da fala não está, pois, nas meras palavras, mas nos atos que exprimem”. Uma
vez que se disponha de palavras e de expressões que estejam ao nível do pensamento - a
suposição de uma “linguagem suficientemente desenvolvida” aparece na sequência no
texto – os atos criam expressão que estão ao nível do pensamento, tido como primeiro e
já dado.

auto-unificação por distribuição nômade, que se distingue radicalmente
das distribuições fixas e sedentárias como condições das sínteses de
consciência. As singularidades são os verdadeiros acontecimentos
transcendentais” (DELEUZE, 2000, p. 105).

Nem pessoais, nem individuais, elas formam a gênese das pessoas (consciência,
(re)cognição) e dos indivíduos (corpos). As singularidades determináveis são
potenciais, que não supõem nem estão aprisionadas ego individual nem eu pessoal, mas
os atualiza e os efetua. Para além da síntese da pessoa e da análise do indivíduo.
uma teoria radical do inconsciente enquanto pensamento puro, que faz
dele um elemento subversivo, absolutamente desvinculado de qualquer
formação consciente, e que possibilita pensar em formas de subjetivação
também radicalmente estranhas à normalidade (Peixoto Junior, 2003, p. 2).

em AE a autounificação tem sua sede no CsO, ao passo que a energia potencial, energia
do acontecimento puro que distribui as singularidades nômades em AE torna-se
a energia das quantidades intensivas que percorrem o corpo sem órgãos
e se distribuem à volta de órgãos segundo limiares de intensidade. Toda a
descrição do campo transcendental é retomada no AE, mas tendo o CsO
como “superfície”, o desejo como princípio de unificação e de distribuição
das singularidades, e os devires como princípio de sua diferenciação e
movimento (GIL, 2000, p. 81).

Toda esta conversão sintetiza a ideia de tomar por operações físicas (superfície física)
as operação lógicas (superfície metafísica). Não tendo o ics como superficie, mas o
CsO, enquanto superfície de intensidades, o CsO serve para formular a experiência sem
medida, que ultrapassa o sujeito e a consciência,

Profundidade > campo transcendental (superfície ics, efetuação já?) > superfície de
sentido
A representação geométrica do campo do saber associa e confunde a individuação –
que perde sua consistência e autonomia enquanto processo – a um Eu e a sua matéria.

Assim, “o Eu assume a forma da individuação superior e torna-se princípio de
identificação e recognição para qualquer juízo de individualidade que incida sobre as
coisas.”
Para a representação, é preciso que toda individualidade seja pessoal (EU)
e que toda singularidade seja individual (Eu). Logo, onde se pára de dizer
Eu, pára também a individuação; e onde pára a individuação, pára também
toda singularidade possível. Então, forçosamente, o sem-fundo é
representado como sendo desprovido de toda diferença, visto não
apresentar individualidade nem singularidade. Isto é ainda visível em
Schelling, em Schopenhauer ou mesmo no primeiro Dioniso, o do
Nascimento da Tragédia: seu sem-fundo não suporta a diferença (DELEUZE,
2002, p. 263).

Esta passagem nos dá a anatomia da apreensão, enquanto processo de normalização.
Se toda singularidade deve ser remetida a uma individualidade – a uma corporeidade, a
um ser individual – e toda individualidade deve ser identificada a uma pessoalidade, só
pode haver individuação onde há sujeito previamente capaz de ordenar e se
responsabilizar por este processo.

Toda consciência depende de uma síntese de unificação que se dá a partir de uma
forma de Eu (transcendental) ou ponto de vista da individualidade (mônada). No
plano da superfície objetiva há comunicação entre as pessoas sob a condição e
mediante a recognição, onde reina a identidade, a semelhança e os limites bem
definidos. Ao passo que no campo transcendental das singularidades impessoais e préindividuais que lhe serve de base, tudo se comunica com tudo, assim como na vida
não-orgânica que envolve todos os indivíduos e pessoas, que por sua vez somente se
comunicam por recognição constituindo campos de exclusão; no limite bolsões de
miséria e holocaustos diários.
Profundidade e Acontecimento
O acontecimento não existe apenas por si mesmo, mas como resultados puros
dos movimentos do corpo e da matéria. Ou seja, o acontecimento é um puro efeito
da profundidade, isto é, das ações e das paixões dos corpos de acordo com nota de
Deleuze (2000, p. 7) na proposição Dos Efeitos de Superfície.

da profundidade. molar-molecular etc. 11-28 e MP. Articular Nietzsche na citação de Marton a “os estóicos indagam sobre a unidade do vivo eles afirmam que a força que dá coesão as partes do vivo também limita a forma exterior do ser”. com o conceito de ritornelo. embora o concreto seja encontrado entre duas multiplicidades – daí as dualidades Chronos-Aion. (cf. A condição de engendramento da profundidade a articula com o território naquilo que ele traz “um ter mais profundo que o ser” (MP. Liso e estriado). O CsO opera na profundidade para trabalhar a superfície do sentido na qual se mantêm distintas as palavras da natureza das coisas como trabalhada nas 13 e 27 séries da Lógica do sentido (2000). de um lado a atualização de formas e de outro a involução que destina o mundo a redistribuições incessantes? (Esse problema será enfrentado uma terceira vez. para além de Bergson. na leitura da tese??] Para Deleuze (2000) a realidade concreta é da ordem dos corpos. superfície e Acontecimento Ponto comum à articulação metafísica e da filosofia transcendental é a elaboração da profundidade como fundo indiferenciado. [As figuras na superfície geométrica são cortadas por acontecimentos que são efeitos de superfície de movimentos duplos. [Acontecimento é quando algo irrompe da profundidade para a superfície. A noção estoica de acontecimento permite a Deleuze (2000) a formulação de campo geométrico no qual as figuras são cortadas por acontecimentos. não-ser informe. Porém. só os corporais se encontram na ordem das formas gerais e do . sem fundo. 15): como. Bergsonismo. articular as duas dinâmicas inversas e não obstante complementares da existência. A ideia de CsO é retrabalhada em AE sobre o material clínico da ideia de máquinas desejantes. 387fr). segundo Zourabichvili (2000. com ele Deleuze enfrenta sua grande questão. abismo sem diferenças e sem propriedades.) Problema que se desdobra ainda na profundidade da terra natal frente ao espaço liso do nomadismo em Mil Platôs. p.] O campo transcendental (profundidade) é inseparável dos efeitos de superfície. p. 593. espaço estriado-espaço liso.Profundidade.

de toda sensibilidade entendida como passiva e corruptível sob uma razão instrumentalizada pela lógica como pensamento puro. do outro lado. Por que a razão. atuando pelas mesmas vias a razão deve ser capaz de capturar e compreender a vida. Esta não comunhão com os fenômenos e as situações concretas da vida. Não obstante. embora o habite e o transborde. Isto é. a razão se torna a norma. p. Nietzsche (FET??) localiza a emergência problemática da racionalidade com Anaxágoras e especialmente com Parmênides. além da lógica e da ontologia da substância aristotélicas numa linha que se segue com o cogito de Descartes que exclui a loucura do pensamento e de sua respectiva experiência e culmina com a reflexão kantiana. 34).acontecimento em sua superfície. sentido Razão Em A filosofia na época trágica dos gregos. instrumentalizada com a lógica se torna perigosa para a vida? Dissertando sobre A “razão” na filosofia no Crepúsculo dos ídolos. Nietzsche (FET??) enumera como sequência e decorrência do golpe parmenídico a dialética socrática. a torna perigosa para a vida desde a época trágica dos gregos. Este monumento filosófico-transcendental é o fundamento da experiência de pensamento moderno à qual o filosofo do martelo responde com sua crítica. O primeiro coloca que as qualidades que podemos aceder são essências eternas e o segundo. o espírito ao lado das aventuras "cristalinas" do plano de imanência ou do corpo sem órgãos (FB-LS. Com eles já tem início a paradigmática exclusão e subordinação de todo pathos sensível. as aponta como fantasmas de nossos sentidos. Nietzsche (2006. em hipótese alguma o virtual transcende o atual ou existe fora dele. a teoria das ideias platônica. não importa a situação e o contexto concreto. Em seguida. a regra de acesso à verdade ontológica do ser sob uma suposta universalidade e validez atemporal e ilimitada. 16) destaca que a lógica obedece heuristicamente à necessidade e nada diz . VER: acontecimento.

situacional e momentâneo. identidade. O restante é aborto e ciência-ainda-não: isto é. a uma característica acessória. do terceiro excluído e de não-contradição designa em realidade. Nelas a realidade não aparece. vemo-nos enredados de certo modo no erro. teologia. um falseamento utilitário da realidade no qual se recalca a transformação e a transitoriedade temporal que caracterizam. apenas da concepção “Eu” se segue. no caráter substancial e na subsequente coisificação que reduz a transitoriedade em seu caráter local. ser.. à conservação de um estado de coisas determinado pela heurística do que “deve ser”. No início está o enorme e fatídico erro de que a vontade é algo que atua — de que vontade é uma faculdade. A conformidade com as leis básicas do pensamento calcada os princípios de identidade. Logo. teoria do conhecimento. causa. 19). como derivado. e tampouco a questão de que valor tem uma tal convenção de signos como a lógica. a (trans)formação. acredita no “Eu”. introduzido furtivamente. pensá-los até o fim. hoje. Em toda parte o ser é acrescentado pelo pensamento como causa. isto é. a vida. 18) O filósofo alemão coloca em pauta a fé na gramática e na estrutura dos idiomas indogermânicos centrados nos substantivos. uma vez que a própria ciência vem dos sentidos: nós possuímos ciência. substância. no entanto. forçados ao erro” (2006. duração. psicologia. no Eu como substância. materialidade. exatamente na medida em que resolvemos aceitar o testemunho dos sentidos — em que aprendemos a ainda aguçálos.. no Eu como ser. metafísica. enfim. a lógica não serve à verdade concreta da existência. Hoje sabemos que é apenas uma palavra” . p. mas à manutenção de certa forma de vida. Ou ciência formal. nem mesmo como problema. Toda a razão aparece condicionada por tais esquemas numa superfície de significação linguageira que fazem do pensar racional um tipo de interpretação que obedece a esquemas normativos aos quais não se pode se desprender. e projeta a crença no Eu-substância em todas as coisas — apenas então cria o conceito de “coisa”.. É isso que em toda parte vê agentes e atos: acredita na vontade como causa. o conceito de “ser”. p. da razão. teoria dos signos: como a lógica e essa lógica aplicada que é a matemática. estes são “os pressupostos básicos da metafísica da linguagem. Vida estaria naquilo que Simondon chama de estruturas internas? “justamente na medida em que o preconceito da razão nos obriga a estipular unidade.. expressada nos conjugações verbais.. armá-los.. Nas palavras do próprio Nietzsche (2006.sobre a realidade concreta e os valores que ela opera e aplica.

no contato deste com os sentidos e as sensações. p. A noção empática secularizada de espírito o conecta com suas raízes semânticas – comuns às tradições judia. Na revisão que faz de sua própria obra. Ela aparece em Dos que desprezam o corpo. Há mais razão no teu corpo do que . Instrumento do teu corpo é também a tua razão pequena. GM??) de que a razão é. há um senhor mais poderoso. a alma é apenas nome de qualquer coisa do corpo". No entanto. mas: procede como Eu. Nietzsche (EH??. Tu dizes "Eu" e orgulhas−te dessa palavra. na interpretação genealógica que abre as portas para o perspectivismo. do jogo de causa e efeito que se desenha nas superfícies. como um elo de ligação entre a grande razão do corpo e a pequena razão de superfície a ela subordinada. (.. um rebanho e um pastor. de valorações.A causalidade tem como fundamento a vontade que impregna de atos e agentes todo nosso olhar. Com este olhar. grega e latina – como respirar que coloca a vida em marcha. em realidade. Ele não diz Eu.)Por detrás dos teus pensamentos e sentimentos. Havia no teu corpo. Chama−se "eu sou". ???) da boca de Zaratustra "Tudo é corpo e nada mais. podemos entrever um tripé que motiva o paradigma nietzschiano no conceito empático de espírito. Porém ele não atira a razão por água abaixo em prol de um irracionalismo.. Aliás. de pensamento e percepções sobre a vida concreta. O corpo é uma razão em ponto grande. a própria causalidade necessária colocação de postos de objetividade e de sujeito de conhecimento advém da gramática da superfície. é o teu corpo. p. nos termos de Guattari (2012???) sistemas semióticos na adequação e superposição da realidade ou de camadas de saber. uma multiplicidade com um só sentido. objetivamos (“coisificamos”) causalmente os fenômenos do mundo. 43) reencontra n’O nascimento da tragédia uma das chaves de sua filosofia: assumir o dionisíaco como pathos filosófico na “afirmação do fluir e do destruir”. Uma vez que o conhecimento vem sobretudo do corpo. de signos. uma “metafísica da linguagem” – que opera. um guia desconhecido. Esta crítica do logocentrismo metafísico abre o campo para a proposição de outra forma de atuar e entender o mundo. a que chamas espírito: um instrumentozinho e um pequeno brinquedo da tua razão grande. maior − coisa que tu não queres crer − é o teu corpo e a tua razão grande. Ressalta Nietzsche (Z??. uma guerra e uma paz. A heurística deste sistema lógico é base para o argumento de Nietzsche (CP??. meu irmão. s/d.

Pois a transitoriedade exige sempre uma definição fluida e capaz de se desfazer de si mesma. definível é apenas aquilo que não tem história” (NIETZSCHE. o método genealógico se assenta no caráter transitório daquilo que é para proceder neste contínua transmutação e síntese de sentidos. não são mais que momentos do corpo. O próprio pensamento é impulsionado a se superar a si mesmo à medida em que é convertido em movimento vivo ao lado da instabilidade dos conceitos de que lança mão. fatos. Logo. Ao retomar e reconstruir as condições cambiantes produzimos o efeito de desconstrução da coisa dependente daquelas. . razão ou consciência. aquele que combina e toma rumos. O espírito condiz ao movimento vital no qual a vida se direciona a si mesma no vivo. 99??) O ponto de partida da genealogia nietzschiana consiste em enxergar um mundo formado sobretudo por interpretações no qual todas as coisas. 29).na tua melhor sabedoria. Isto exige que conceitos e categorias evidenciem seu caráter provisório de abreviatura na qual “todos os conceitos em que um processo inteiro se condensa semioticamente se subtraem à definição. sujeitos e objetos são formas interpretadas. GM??. pois muito embora sentidos e espírito se queiram soberbos. portanto. como o seu mesmo sofrimento aumenta o seu saber” (NIETZSCHE. Z?? s/d. Não se trata de empirismo ou idealismo. o verdadeiro ser. Síntese que (diferentemente da síntese kantiana que reitera um sistema unitário e total agrupado em torno de um conjunto de regras) opera como processo descontínuo de superposições e entrepões sob condições flutuantes. p. p. O espírito não como aquilo que conduz a uma unificação superior ou que se encaminha paulatinamente para sua realização – como em Hegel (FE??) – mas como contínua superação de si mesmo que Os sábios celebres não compreendem pois “o espírito é a vida que clarifica a própria vida. estados de coisas. aquele que destrói e inventa selecionando fluxos e forças à despeito de toda vontade. Definição genealógica.

soubermos utilizar para essa coisa. tanto mais completo será nosso "conceito" dela. “para Frege. Com efeito. lógica. uma vez que o conteúdo não pertence especificamente a sujeito algum. Nietzsche (GM??) lança mão de uma espécie de perspectivismo plural que assimila a impossibilidade de uma análise interpretativa fechada e final junto à delimitação de fronteiras segundo as condições de emergência. A diferença para Deleuze (2000) é que no lugar desta lógica racional e matematizada está o campo transcendental a-subjetivo. Ele parte do pressuposto que todo e qualquer homem é capaz de captar um pensamento considerado válido e verdadeiro conforme os padrões lógicos e matemáticos. para articulá-lo sobre a lógica.. Cabe à lógica. e somente a ela. 1992. GM??. com o jogo de lentes que o engendra. 27).Ao largo de todo relativismo e considerar a razão de um ponto de vista absoluto. De modo que tomamos para nós o perspectivismo da sabedoria trágica nietzschiana que consiste em saber utilizar em prol do conhecimento a diversidade de perspectivas e interpretações afetivas (. sentido: Saber geométrico Bachelard Frege pensa o sentido fora do psicologismo desvinculado do sujeito. o que torna o sentido indissociável de sua produção em meio a um campo problemático. Frege chama esse conteúdo objetivo de pensamento (Gedanke) ‘e o que um lógico hoje em dia denomina de proposição” (LACOSTE. sustentação e derrisão articuladas em consonância com o ponto de vista. a demonstração da validade dos argumentos assim como a evidenciação que não há um conteúdo particular de um pensamento verdadeiro. apenas um "conhecer" perspectivo. Em seu artigo Sobre o sentido e referência Frege (2011) pondera que todo sujeito é capaz de capturar o sentido das expressões . nossa "objetividade" (NIEZTCHE. Frege considera que uma verdade objetiva é independente do sujeito. submetido à lógica. o acontecimento é independente em relação à consciência. quanto mais olhos. p. uma frase tem um sentido que pode ser captado por várias pessoas. e quanto mais afetos permitirmos falar sobre uma coisa. tal definição leva às múltiplas dimensões de uma “coisa” que se enriquecem mutuamente em favor dela.) Existe apenas uma visão perspectiva.. assim como para Deleuze (2000). 47) Razão. diferentes olhos. p. sobre uma consciência racional transcendente. O sentido se distancia igualmente de todo estado de coisas e de toda coisa.

sem mesmo saber de sua referência. basta falar. 10) afirmar na quarta regra que deve haver uma ciência geral que explique tudo o que se pode investigar acerca da ordem e da medida. Este principio de exoreferencia. p. Somos pedagogicamente ensinados a crer que o ato de pensar. Razão como solução: dialética e matematização é o que faz Descartes (s/d. Deleuze faz uma afirmação decisiva sobre o assunto: “É o destino da imagem dogmática do pensamento apoiar-se sempre em . que mide las conexiones geométricas y geográficas del ente es el principio de lectura del ser. na direção da formação ou da aquisição pelo espírito de uma atitude que sustente "juízos sólidos e verdadeiros sobre tudo aquilo que a ele se apresente" (Regra 1) A dialética. A consequência disso tudo é que nos fazem crer que os problemas são dados prontos e que desaparecem nas respostas ou nas soluções. sem saber do que se trata. el siglo y el estilo de vida que establece la producción cultural. al interior del coléctivo sufre una referenciación geométrico geográfica. do que se pensa e se tal referência é verdadeira ou falsa. assim como o verdadeiro e o falso só concernem às soluções. material y literario filosófica. para tanto. porque esta contém tudo o que contribui para que as outras ciências se chamem partes da Matemática. muitos outros. se desnatura. não pelo vocábulo suposto. Ver Definicion del pathos em filosofia El comportamiento del individuo por sobre el coléctivo o. capaz de explicar tudo o que diz respeito à quantidade e à ordem. Quanto a Matemática universal sobrepuja em utilidade e facilidade as outras ciências que lhe estão subordinadas. quando decalca os problemas nas proposições. sem as aplicar a uma matéria especial: esta ciência designa-se. El aspecto geométrico de esta referenciación es el de la elevación de la potencia de tres a nueve o de cuatro a ocho según la división correspondiente al circulo. Trata-se de uma ciência geral. além disso. vê-se perfeitamente no fato de abarcar os mesmos objetos que estas últimas e. como arte das questões e problemas. mas pelo vocábulo já antigo e aceite pelo uso de Matemática universal. El aspecto geográfico refiere a la ley material a la que se subsume el coléctivo según la epoca.

na conservação de um fundamento essencial da experiência. lo que está en estado disyunción remite a una relación de exterioridad” (DELEUZE. os casos de respostas ou de soluções) para prejulgar o que deveria ser o mais elevado no pensamento. Dispersão são as formas do saber. isto é. é o que acrescenta uma afirmação ou negação sobre o que é percebido. o pensar especulativo. por sua vez. As interioridades não passam de ilusões aparentes. Só há exterior. e dobras do fora que formam interioridades provisórias. os casos de proposições simples. 6). 2003. O pensamento reflexivo tende a sobrepor uma interioridade reinante a experiência do fora na conservação de um eu. O pensamento reflexivo denunciado por Foucault desde Blanchot (?? Refe ver Microfisica fouc) propicia e coage a fixação ontológica como uma espécie de paralisia do fluxo incessante. e o problema tem sempre a solução que merece de acordo com sua própria verdade ou falsidade. p. de acordo com seu sentido (DELEUZE. socialmente reacionários (os casos de recognição. 155). Da anima Aristóteles. Da Interpretação. Capítulo I. Razão e pensar prático e especulativo O pensar prático é aquele que remete a um objeto existente. e quem formula o juízo não é a percepção. a gênese do ato de pensar e o sentido do verdadeiro e do falso” (DELEUZE. por exemplo: a percepção de uma casa e o pensamento de ampliá-la construindo um segundo andar sobre a mesma. 2015. isto é. p. relacionando-o a uma ação sobre o mesmo como. na restituição de suas bases e origens. Esta temporalidade cronificada condiz ao movimento do Mesmo que propicia um fechamento do sujeito num movimento de reflexão no interior de seus limites. 155). Uma solução tem sempre a verdade que merece de acordo com o problema a que ela corresponde. os casos de erro. 3 Razão e Pensamento reflexivo e interioridade “Lo que está en estado de dispersión remite a una forma de exterioridad. mas sim o intelecto. p. 2003. . engendrando uma temporalidade restrita no fechamento do espaço.exemplos psicologicamente pueris.

O pensamento reflexivo é associado à consciência na busca obstinada por um sentido interno. e de considerar as regras da Lógica como "leis do pensamento" Reflexão: “ato ou o processo por meio do qual o homem considera suas próprias ações. acompanhar também as primeiras categorias da lógica hegeliana (ser e essência) tendência combatida pela Lógica hodierna. aí passa a esfera do cuidado de si. as figuras e as estruturas da Lógica como formações. sobre o eu ou sobre o corpo? Eu acho q é sobre o eu. mas ainda tenazmente persistente. seja trabalho sobre aquilo que está em nós. Pura. dos Princ)” Arregimenta e forja inter-relações entre os elementos e uma unidade fundamental que os unifica e os transcende. R. de considerar as formas. "Mente pura" o pensamento reflexo ou consciente. representações e operações mentais (psicológicas). o sujeito se obnubila daquilo que se passa nas superfícies. Ação reflexiva: “resposta mecânica (involuntária).]] Saber é externo porque no máximo ele é saber sobre um sujeito. 2) como consciência. a não ser que seja saber de um sujeito. uniforme e adaptada. do organismo a um estímulo externo ou interno” Arco reflexo: como esquema explicativo causal da vida psíquica “é o dispositivo anatomofisiológico destinado a pôr o reflexo em ação. . pelo nervo eferente ou centrífugo que produz o movimento e por uma conexão entre esses dois nervos”. Para Kant. Luz. É uma abstração.Fechado. é o estado de espírito em que começamos a dispor-nos a descobrir as condições subjetivas que nos permitem chegar aos conceitos. Quer seja fonte autônoma de conhecimento ou não. Ela é a consciência da relação entre as representações dadas e as várias fontes de conhecimento (Crít. cujo objeto é o universal. porque leva a separar o objeto do Eu do próprio Eu. 3) como abstração. Tal dispositivo é formado pelo nervo aferente ou centrípeto que sofre o estímulo. Seja trabalho sobre as ideias. só pode entender o particular refletindo sobre si mesmo e considerando aquilo de que abstrai o universal” (ABBAGNANO). o “intelecto.” 1) conhecimento que o intelecto tem de si mesmo. alma. [[mas o fechamento é sobre a sueprficie física. Anal.

Agamben (2007) critica a adivinhação e solucionismo de Édipo frente ao enigma pois o paradoxo proponente da presentificação da fratura não se resolve com o simples arbítrio de um significado instaurado que captura os significantes. ou seja. sendo esta experiência uma subjacente infância. Essa separação entre ato e produto. por conseguinte. a linguagem humana é sem exterior: é um lugar fechado” onde tudo é texto e tradução. “para uma fenomenologia da verdadeira realidade. em vez disso. A ciência procede por um reducionismo das diferenças. eu a chamo. a aparência é antes aquilo que aponta a direcção em que se encontra o ser verdadeiro e último da coisa. de um caminho) para o conhecimento. o objeto não passa de produto do Eu.enquanto. p. no plano metafísico. no plano da reflexão e do saber. Razão e linguagem racional e poética Agamben e metafísica Barthes (2013. na potência do diferir. é absolutamente indispensável a fenomenologia da fútil aparência” (Ideias). pois. Enquanto a experiência científica é de fato a construção de uma via certa (de uma méthodos. Os saberes e o logos almejam a superação da palavra em prol da perfectibilidade comunicacional do matema que desvincula o saber da experiência. p. Assim. 14-5). no esplendor de uma revolução permanente da linguagem. 10) em Aula. nos cabe a trapaça “logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder. chama-se abstração. A diferença deve preservar sua imprecisão. 2005. na subserviência desta àquele. Em consonância. como diz Husserl. A reflexão se caracteriza pela separação entre conceito e realidade ao mesmo tempo. no uso ordinário cia linguagem. à descoberta do lugar especial deste ser dentro da totalidade. a aparência é o caminho que pode conduzir ao sentido do ser examinado. o reconhecimento de que a ausência de via (a aporia) é a única experiência possível para o homem (AGAMBEN. Frente a isso. prossegue Barthes (2013. em que aparece como fundamento da razão caracterizada pela identidade entre conceito e realidade. que se consolida com o abandono da experiência. “infelizmente. p. profere: “chamo discurso de poder todo discurso que engendra o erro e. a culpabilidade daquele que o recebe”. 38). na realidade. isto é. A . quanto a mim: literatura”. a quête é.

] está em condições. (NIETZSCHE. p. São Paulo: Companhia das letras. Friedrich. como em PP. 2005. em sua “inabalável fé de que o pensar [. O nascimento da tragédia. em AN se dedica a seus efeitos de normalização. efeitos obtidos pela normalização e não na sua mecânica. 2007. na medicia e na produção fabril. mas pelo papel de exigência e coerção que a norma exerce. em “do social ao vital” In: Normal e Patológico.) Ao passo que a palavra poética se vale dessa duplicidade. 247). 44. p. Pois “só como fenômeno estético podem a existência e o mundo justificar-se eternamente”. PP. subsumir e converter a potência da desrazão para a produção social. (Ver textos de Foucault. Norma a partir da qual certo exercício do poder encontra sua justificação. Canguilhem [[onde??]] normalização politica e técnica na educação. AN (2008) 62 aula 15 de janeiro 1975 A norma não se define como lei natural. mas de corrigi-lo”. p.linguagem científica se vale da ilusão metafísica “ilusão de uma presença plena e originária [. Vicentin Saber/poder: norma como operador Em PP trata da mecânica dos aparelhos disciplinares.. Uma multiplicação dos seus efeitos de produção..] que toma corpo na estrutura dupla do signo” (AGAMBEN.. Do pnto de vista da inclusão.. não só de conhecê-lo. . Tal confiança no saber é encontrada por Nietzsche (NT?? 1992. que deve ser maximizada. Foco é os efeitos da normalização. 91) na figura socrática como protótipo do homem científico. a escancara e assenta sua produção sobre ela. temos formas de incluisao e captura. Blanchot e talvez Deleuze sobre o duplo da linguagem) Resistência Ver resistência-dor Corpos em rebelião e o sofrimento-resistência Adolescentes em conflito com a lei Maria Cristina G. Da percepção da loucura. temos a exlcusao HL.

NORMA E PODER: Por fim. Entendendo-se governo por: uma teoria jurídico-política do poder. isto é. dos loucos. Foucault explora distintos modelos para chegar ao modelo contemporâneo de aplicação do poder. ele é efeito e condição de funcionamento.O século XVIII. somente secundariamente. 65 O poder aqui não é de superestrutura. ele é intergrado ao jogo. mas como sendo ele. etc. enquanto conjunto de enunciados coerentes e institucionalizados a partir de modelos científicos ensinado como ciência. do pobres. inventa a positividade técnica e política da normalização como poder produtivo. na distribuição. Poder que somente funciona mediante a formação de um saber. Saber e poder: norma e governo A época clássica inventa a arte de governar. estratégia e eficácia das forças. Em seguida. que liga este poder normativo à técnicas políticas e positivas de intervenção e transformação. 2008). sendo a repressão não mais que um efeito colateral secundário frente aos mecanismos que criam e fabricam. Daí “governo” das crianças. O poder é não somente de controle e produção. A arqueologia foucaultiana condiz aos diversos saberes que não são a contrapartida pretérita de uma ciência institucional . distingue saber e ciência enquanto disciplina científica. não é repressivo. mas um papel positivo. à alienação. ciência e objeto N’A arqueologia dos saberes. O poder só pode funcionar. compreensão de um conjunto diverso de instituições que funcionam contra a representatividade anterior e ainda assim constituem sua condição de existência. efeito de uma série de mecanismos que visam à formação e acumulação de saber (FOUCUALT. que aliena a vontade dos cidadãos e transfere-a à representação no aparelho governamental. o poder. perante os saberes. na qual o poder é ligado não ao desconhecimento. dinâmica. o poder da norma consiste em seus princípios de qualificação e de correção. Foucault (1986) destaca que os saberes constituem o objeto da arqueologia. Saber.

O saber não é o canteiro epistemológico que desapareceria na ciência que o realiza. porventura. uma forma de objetivação. O exemplo que consta neste livro – que nos remete. 2011) – refere o saber da medicina clínica como fonte a partir da qual derivam uma variedade de disciplinas cientificas. Terceiro. o saber se refere à superfície objetiva na qual os saberes são definidos. que posteriormente complexifica e lança novas bases e regras para o próprio saber clínico. que também passavam por conhecimento científico das doenças mentais. p. Do mesmo modo. desempenharam um papel muito diferente e bem mais importante no saber da loucura (papel de modelo e de instância de decisão). era considerado como conhecimento médico das doenças da mente ocupava. 206-7). Nem sequer a relação de anterioridade ou de generalidade constitui a base da relação entre saber e disciplina. igualmente. Primeiro. condiz. modificados – campo das proposições e dos enunciados. o saber consiste numa delimitação das relações entre quatro dimensões que se interpenetram. casuística. à posição que o sujeito pode ou deve se colocar para objetivar seus objetos. aplicados e. Condiz. 1986. que varia conforme as diferentes formações discursivas e que se modifica de acordo com suas mutações. ao problema da utilização e da apropriação dos discursos. o saber se refere às formas de aplicação dos conceitos nesta superfície. Formação de positividades . o saber condiz ao domínio dos objetos. àquilo que se pode falar numa prática de discurso que define uma relação objetiva. portanto. pois. em compensação.). o discurso científico (ou supostamente científico) não garante a mesma função no saber econômico do século XVII e no do século XIX (FOUCAULT. as análises psicopatológicas do século XIX. De fato. dentre elas. A anatomia patológica não reduziu nem reconduziu às normas da cientificidade a positividade da medicina clínica.hoje formalizada e tampouco garante o desenvolvimento de uma ciência sobre as bases que lança. um lugar muito limitado: não era mais que uma de suas superfícies de afloramento entre muitas outras (jurisprudência. Princípio de descontinuidade. regulamentação policial etc. na época clássica. Por fim. Aquilo que. O saber se forma a partir de 1) 2) 3) 4) Relação objetiva Colocação subjetiva Proposição enunciativa que forma uma superfície de apreensão Formas e modos de aplicação de operações nesta superfície. A ciência (ou o que passa por tal) localiza-se em um campo de saber e nele tem um papel. no saber da loucura. contudo às análises d’O nascimento da clínica (FOUCAULT. a anatomia patológica.

processos econômicos e sociais. e essas relações não estão presentes no objeto. A partir desta perspectiva arqueológica dos saberes. sua irredutibilidade (FOUCAULT. A positividade dos saberes acerca da loucura dependem da alocação desta no campo da negatividade. o conhecimento está sempre submetido à parâmetros e provas de exatidão e verdade dentro de um próprio saber. 50). técnicas. por fim. (. formas de comportamentos. Positividade o saber é diferente de definição positiva. Estas relações são estabelecidas entre instituições. o pensador francês postula o saber. estas relações preparam e dão as condições de emergência dos objetos no campo de exterioridade. é engendrado positivamente mediante condições de possibilidade e um feixe complexo de relações. situar-se em relação a eles. portanto. p. O objeto não preexiste a ele mesmo. Embora estas relações não sejam capazes de definir. elas marcam o gabarito de sua singularidade e de sua heterogeneidade. podemos entrever o jogo das verdades do exterior. sistemas de normas. Não como verdade inscrita no campo da história das ciências. mas colocada em relação aos diferentes tipos de objeto e de saber. tipos distintos de formulação e formalização de conceitos assim como escolhas e atitudes teóricas. definir sua diferença. tipos de classificação. formalizados e sistematizados sobre um objeto.Respondendo ao círculo de epistemologia sobre a relação de sua obra com a ciência. um objeto.. Em suma. 1986. Foucault (1968/2007) ressalta que o saber não consiste na soma dos conhecimentos acumulados. Portanto. mas o que lhe permite aparecer. Ao contrário. modos de caracterização. visibilidades e formação discursiva .) Elas não definem a constituição interna do objeto. assim como às formas de subjetividade que aparecem com elas. Saber como forma de exterioridade em Deleuze: saber. nelas e por elas mesmas. como como manifestação sob uma unidade discursiva de uma série formada por um sistema de positividades que inclui relações de objetivação. justapor-se a outros objetos. São várias as condições de aparecimento de um objeto de discurso..

Desse modo. suas próprias determinações. 2014a pod) c2 Saber condiz sempre a formas de exterioridade (DELEUZE. "Em defesa da sociedade". Assim como. Sua combinação define e constitui o eixo do saber. aqui os enunciados. Assim. "História da loucura: na idade clássica". Nunca existe segredo. é possível entender que é a partir da composição de uma formação discursiva que se produz um modo específico de ver e de fazer ver. para produzirem seu regime de luz específico. faz ver. As curvas de visibilidade são irredutíveis ao regime do enunciado. arregimentadas em um diagrama de forças . "A história da loucura: a vontade de saber". suas próprias regras. encaixa com o visível e o solidifica ou o dilui. Território e População". o produz e o legitima num determinado limiar histórico. se produz também uma determinada maneira de dizer. assim como diz tudo o que pode em função de suas condições de enunciado. sua própria lógica. p. que. Um dispositivo tem sua visibilidade em função desse jogo de forças operacionalizado. os dispositivos são positivados pelos eixos do saber e do poder. em função de suas condições de visibilidade. as curvas de enunciação se constituem pelos dizeres que entram na ordem dos discursos aceitos em dada época. p. "Segurança. Cada época e cada livro testificando dispositivos próprios de enunciados e de visibilidades. (DELEUZE. E.66). 2002. Desse modo. concentra-o ou dispersa-o. pois. que tem seu próprio modo de existência. F??. Nesse sentido. lá as visibilidades. 68).o poder como exercício e o saber como regulamento. se disseminam. embora nada seja imediatamente visível. O que se pode concluir é que cada formação histórica vê e faz ver tudo o que pode. As linhas de luz que compõem as curvas de visibilidade estão atreladas às relações de força e de saber que constituem o objeto em questão. visível e enunciável funcionam numa relação de sustentação e suporte. o objeto é também uma fabricação. e "Nascimento da biopolítica". as condições não se reúnem na interioridade de uma consciência ou de um sujeito. "Vigiar e Punir". nem diretamente legível. assim como não compõe um Mesmo: são duas formas de exterioridade nas quais se dispersam. de certa forma o constitui. que se dispersam e se disseminam. Entretanto. O discurso. aquilo . Nesse viés. não saímos desdobramento do composto ao infinito na superfície (DELEUZE.” (Larossa. ver e dizer estão atrelados na constituição de uma dada formação discursiva o que torna possível falar e olhar o objeto discursivo de acordo com as próprias regras de formação que o produzem. de um lado e de outro. 2014).Se ficamos só nas formas compostas. formas de exterioridade.

etc). é justamente o que compõe este conceito de percepção que possibilitará que Foucault reintegre a obra ao projeto genealógico: “investigar como louco se tornou presença concreta. da psiquiatria. 85) “Se há uma historicidade dos dispositivos. Saber e genealogia do objeto – Nietzsche. e é nelas que se enraíza todo discurso e todo objeto de conhecimento possível. a insanidade objeto de percepção (Cf. em seu livro Ciência e saber sugere que a História da loucura teria empreendido uma “arqueologia da percepção”. São as práticas extradiscursivas que ocupam lugar central. a Genealogia e a História o objeto não espera nos limbos a ordem que vai liberá-lo e permitir-lhe que se encarne em uma visível e loquaz objetividade. instituições. retido por algum obstáculo aos primeiros contornos da luz. p. 2005a. nesse registro. práticas que podem ser não discursivas e cristalizadas nas mais diferentes produções sociais. E. nessa análise. 50). ela é a dos regimes de luz – mas é também a dos regimes de enunciado. certa autonomia ao discurso e às práticas discursivas. p.” Dessa forma. Trata-se. mas são considerados necessários e produtivos. Daí a importância conferida ao aspecto da análise sociológica das diferentes instituições. do discurso científico entendido como “conhecimento”. p. é possível dizer que a tarefa central dessa arqueologia é investigar as práticas estabelecidas em relação ao louco. ele não preexiste a si mesmo.que se diz só é possível de dizer e fazer dizer porque atende às regras e aos limites discursivos considerados válidos e verdadeiros. como veremos. de estudar historicamente os dispositivos (que são agenciamentos complexos e heterogêneos entre práticas. concedendo. História da loucura. as curvas de enunciação produzem uma determinada maneira de enunciar sobre o objeto em questão. discursos. arquitetura. Segundo Deleuze (2005a. marcada pela ênfase nas práticas sociais vinculadas ao poder e suas estratégias. conceitos. a genealogia é. Dimensão produtiva da norma. Daí a importância . os muros e as cercas do internamento (ou posteriormente. Foucault analisa os discursos e os saberes – segundo Dreyfus e Rabinow (?) -. 1986. como a exclusão institucional Para a arqueologia. precisam ser constantemente repetidos e atualizados. bem como nas instituições. e do saber na verdade. Machado (2007. por exemplo. o espaço das casernas. por sua vez. Esses dizeres não estão interditados e proibidos. p. mas existe sob as condições positivas de um feixe complexo de relações (FOUCAULT. das fábricas. Desse modo.103-105” mais importante que as teorias médicas. como algo que sustenta (ou torna possíveis) os discursos e saberes segundo relações sociais efetivas. ou da torre do panóptico). 85??).

. e o louco como objeto de um exercício do poder. mais do que da necessidade da produção de um saber que possa dizer a verdade sobre o homem. é muito mais definidora do conceito moderno de loucura.). sequestro e coação de determinados atores sociais em uma experiência histórica e institucional singular. Tais práticas sociais efetivas – e a “percepção” que constituem – são vistas como as condições de possibilidade do saber. p. de sua objetividade e do campo de ação da medicina mental do que toda a densa rede conceitual médica. Foucault (2005. a loucura em registro correcional.. aprisionamento. ou do conhecimento experiência institucional. p. podemos afirmar que é o discurso jurídico ou aquele do poder soberano.“tanto do papel da instituição (como é o caso do ‘Hospital Geral’ para a consideração da loucura como ‘desrazão na Idade Clássica e do Asilo em relação ao estatuto de doença mental (.. Foucault aborda as formas de exercício do poder e a forma como se articulam as instituições sobre a figura do insano. o papel do desemprego definindo. p. que vem fundamentalmente de fora dos muros do internamento. por exemplo. 1981 2007??. na superfície.. 16) já assevera que toda “emergência se produz sempre em um determinado estado das forças”. Nessa dimensão na qual localizamos tal prefiguração genealógica. E se aqui um discurso é definidor. elaboradas. e que este só pode afirmar sua objetividade no estabelecimento de uma ciência positiva.62). de certa maneira. a função do “Hospital Geral”) e políticas (as posições do “Antigo Regime” e da “Revolução Francesa”) na definição dos tipos de intervenção sobre o louco” (Chaves. do que as práticas sociais efetivas de exclusão. apoiando-se em práticas que o antecedem – e a tais práticas podemos chamar “percepção Percepção é a “relação com o louco não ditada por regras do conhecimento científico ou pseudocientífico. as condições de objetividade desse objeto (sobre o qual o saber médico-psi incide) vêm de fora desse mesmo saber. às formas de exterioridade que o instalam no sensível. suas condições discursivas de enunciação ou os discursos que o constituem. maneira de considerar o louco intimamente ligada ao modo de agir sobre ele”. sistematizadas (.. Cada objeto não preexiste aos enunciados. percepção do indivíduo enquanto ser social.) na Modernidade) como o das condições econômicas (na Idade Clássica. formulação no âmbito das práticas e das instituições (Machado. 1988. afirma Foucault. análise foucaultiana do internamento é menos a análise de um saber. que não seja informada por condições teóricas explícitas.12).

1961/1999. Entretanto. por pouco histórico que seja.M. PRADO. ao contrário. e. ela fragmenta o que se pensava unido. em uma idéia ou um sentimento as características gerais que permitem assimilá−los a outros − e de dizer: isto é grego ou isto é inglês. 14) Genealogia é a arte de encontrar fendas nos edifícios de nossa cultura. subindividuais que podem se entrecruzar nele e formar uma rede difícil de desembaraçar. os ínfimos desvios − ou ao contrário as inversões completas − os erros. a Genealogia e a História. A noção de Herkunft condiz às relações de pertencimento. manter o que se passou na dispersão que lhe é própria: é demarcar os acidentes. para colocá−las a parte. singulares. essa herança não é uma aquisição. ameaçam o frágil herdeiro: "a injustiça e a instabilidade no espírito de alguns homens. 2013) – mas as relações de pertencimento e ligação. ou uma experiência indiferenciada da loucura (cf. os maus cálculos que deram nascimento ao que existe e tem valor para nós. do interior ou de baixo. o genealogista parte em busca do começo − dos começos inumeráveis que deixam esta suspeita de cor. tal origem permite ordenar. lá onde o Eu inventa para si uma identidade ou uma coerência. mil acontecimentos agora perdidos A genealogia segue o filão complexo da proveniência é. p. ela mostra a heterogeneidade do que se imaginava em conformidade consigo mesmo”. Lá onde a alma pretende se unificar. esta marca quase apagada que não saberia enganar um olho. de camadas heterogêneas que a tornam instável. em suma.como um grau zero. todas as marcas diferentes (p. a análise da proveniência permite dissociar o Eu e fazer pulular nos lugares e recantos de sua síntese vazia.Em Nietzsche. de fissuras. 15) assevera que não se trata de buscar a origem (Ursprung) . III. mas de descobrir todas as marcas sutis. não se trata de modo algum de reencontrar em um indivíduo. A herança da proveniência que a genealogia aborda. um bem que se acumula e se solidifica: é antes um conjunto de falhas. ligação e proveniência que põe em jogo o tipo social. as falhas na apreciação. FOUCAULT. Foucault (2005.. Abkunft do sentimento depressivo). longe de ser uma categoria da semelhança. a proveniência (Herkunft) que “agita o que se percebia imóvel. mas a exterioridade do acidente (ver G. 17. é descobrir que na raiz daquilo que nós conhecemos e daquilo que nós somos − não existem a verdade e o ser. sua desordem e sua .

como análise da proveniência. volume em perpétua pulverização. de conclusões apressadas de que seus ancestrais se tornaram culpados" Aurora.. a alimentação. Só a análise filosófica que os separa em categorias heterogêneas. forças e resistência Ora. em sua vida e em sua morte. O corpo − e tudo o que diz respeito ao corpo. Foucault pressupõe o poder nos saberes. § 247. que por usa vez.Gaia. os desfalecimentos e os erros nele também eles se atam e de repente se exprimem. até Vigiar e punir ele está implícito como uma concepção de focos de poder necessária à sua teoria . Por isso. de falta de profundidade. lugar de dissociação do Eu (que supõe a quimera de uma unidade substancial). Na primeira parte de sua obra. se apagam uns aosoutros e continuam seu insuperável conflito. mas nele também eles se desatam. em sua força e em sua fraqueza. 15).falta de medida são as últimas conseqüências de inumeráveis inexatidões lógicas.C. Saber-Poder e discursos.. a experiência concreta que temos das relações saber-poder é que elas nos chegam em bloco. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo (p. condiz ao corpo [["Der Mensch aus einen Auflôsungszeitalters. § 348 e 349. o clima. o solo − é olugar da Herkunft: sobre o corpo se encontra o estigma dos acontecimentos passados do mesmo modo que dele nascem os desejos. Nit fala de fisiologia. está portanto no ponto de articulação do corpo com a história. O plano da experiência concreta se distende e se organiza de acordo com o eixo das abcissas no qual encontramos o saber e as formas de hierarquização nele implícitas e supostas e o das coordenadas no qual se desenrolam as relações de poder.. como um bloco misto de saber-poder. A genealogia.). que dão corpo a distintos exercícios de poder. Mestres do desinteresse e pura objetividade . O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto que a linguagem os marca e as idéias os dissolvem). der dei Erbschaft einer vielfaltigere Herkunft im Leite hat" (Gaia Ciencia §200)]]. A genealogia condiz À proveniência. a sanção de todo erro e de toda verdade como ele traz consigo também e inversamente sua origem – proveniência” (. “O corpo traz consigo. entram em luta..

O poder é informal. que efeitos recíprocos de poder e saber . de modo que tanto a força dominada quanto a força dominante. dada a separação abstrata entre poder e saber. a mobilização e organização de formas. 2014. 1988. 2005). podemos analisar as correlações de forças codificadas. não a formas de poder. atravessada de fio a pavio. Para Foucault. integram igualmente o poder. isto é. Entre dominação e afetação – poder de afetar e ser afetado – ele é constituído por relações de forças. Deleuze (2014a. Consequentemente. ou melhor. pontos que fazem do poder uma instância repartição e distribuição de pontos singulares. sua produtividade tática. o ponto de interseção entre saber e poder. Os afetos são os pontos singulares que o poder mobiliza. vai de um ponto a outro uma vez que condiz tão somente a pontos e repartições de pontos (FOUCAULT. a linguagem e a luz. o discurso é o limite. o primeiro condiz – na leitura da obra foucaultiana que realiza Deleuze (2005. Logo. Porém saber e poder têm naturezas distintas que podem ser reunidas sob três aspectos. Cabe ao saber. que são pontos de dominação que dão corpo a tal ou qual modo de partilha. 117fr??). o poder condiz somente às forças. inconcebível sem a resistência. sempre no plural como poder de afetar e de ser afetado por outras forças. Por fim. respectivamente formas do enunciável e do visível. “Nos discursos. fundamentalmente formal e formalizador. As relações de força que constituem o poder não se confundem com as relações de forma que constituem o saber que são o ver e o falar. força não é outra coisa que o nome genérico e abstrato para uma multiplicidade. É justamente neles que poder e saber se articulam. divisão do sensível nos termos de Rancière (1996. sempre no plural à medida em que não se separa a força das relações que trava com as outras forças.do enunciado como elucida Deleuze (2014) na terceira aula “Como extraer enunciados” do curso sobre o saber. p. diagonal e multifocalmente pelos poderes. 2014a) – às matérias não formadas e às funções não-formalizadas ao passo que o segundo diz respeito às matérias formadas e às funções formalizáveis num registro apresentável e inscritível numa superfície. 169) estudando o poder O saber é a superficie de contato entre rzao e loucura. O que interessa na análise do discurso é questionar. Primeiro. p. por um lado. tanto o poder de ser afetado quanto o poder de afetar fazem parte. o poder mobiliza pontos ou afetos.

suscitam reagrupamentos. tentando responder à questão do "porquê" dos saberes. pelo caráter estritamente relacional das correlações de força. p. lá. da "origem" de sua existência e de suas transformações. 1994. o papel de adversário. Estes pontos perpassam toda a rede de poder (PORTOCARRERO. Da mesma forma que a rede das relações de poder acaba formando um tecido espesso que atravessa os aparelhos e as instituições. lei pura do revolucionário. um lugar de revolta. há resistência e. "elas são o outro termo nas relações de poder".. a se fecharem. a serem tomadas como fechadas. situando-os como peças de relações de poder ou como dispositivo político de natureza essencialmente estratégica. por outro. Aliás. 91).proporciona. São pontos móveis e transitórios que rompem unidades. mas que tendem. no plural. por isto mesmo).) Esses pontos de resistência estão presentes em toda a rede de poder. 60). nas relações de poder. uma forma sobre a qual o poder atua com suas forças. do mesmo modo que a rede de relações de poder atravessa os aparelhos e as instituições. interessadas ou fadadas ao sacrifício. de alvo.. foco de todas as rebeliões. espontâneas. hospital etc. sua integração estratégica. não existe. HS1??.” (PORTOCARRERO. no entanto (ou melhor. irreconciliáveis. igreja. mas multiplicidade de resistências. conforme são objetivadas por mecanismos saber-poder. ou melhor. solitárias. 1994. A arqueologia responde à questão "como?" os saberes emergem e se transformam. um lugar da grande recusa alma da revolta. planejadas. “Não há um foco de rebelião. sem se . um feixe ou um bloco de real. esta nunca se encontra em posição de exterioridade em relação ao poder (. violentas. onde há poder. arrastadas. o poder engendra essas formas mais ou menos fechadas. As resistências não são simples reações à dominação. de apoio. que são casos únicos: possíveis. a partir da constituição de novos saberes. improváveis. são seu interlocutor irredutível (Foucault. que só existem em função de uma multiplicidade de pontos de resistência que representam. que conjuntura e que correlações de forças tornam necessária sua utilização nos confrontos produzidos na vida concreta. com respeito ao poder. Os focos de resistência criam uma imagem. O poder se define pelos mecanismos de resistência. justiça. Portanto. que são casos únicos. diferentes entre si. A genealogia completará esta análise. Mas sim resistências. necessárias. 1977a:91). prontas ao compromisso. presentes em toda a rede de poder”. p. ou seja. por definição não podem existir a não ser no campo estratégico das relações de poder (Foucault. privilegiando as inter-relações discursivas e sua articulação com as práticas institucionais família. selvagens. p. formando um tecido que atravessa as estratificações sociais. 52). percorrem os próprios indivíduos e as estratificações sociais. de saliência.

por esse zumbido incessante e desordenado do discurso” (FOUCAULT. p. mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. abertura.localizar exatamente neles. Certamente os discursos são feitos de signos. sem interioridade nem promessa” (FOUCUALT. de desordem. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato da fala. os mecanismos de poder são colocados em marcha num processo político de distribuição e engendramento do sensível. indiferente. uma dimensão ética. 1977a:91). 2005) entende o poder não como uma entidade reificada ou pela via de leis que definem uma posse. uma vez que elas engajam processos de subjetivação. mas pelo exercício que se revela como investimento – atravessamento e aplicação de forças – na materialidade do real. dessa massa de coisas ditas. onde se encontram certa rebeldia. de acordo com Foucault (1988). Abre-se. mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. as relações de poder e as estratégias de luta não podem ser reduzidas ou resumidas às relações de forças objetivas. e de perigoso. devemos ter em vista que é através das múltiplas correlações de força que. 1986. p. 2011a. 244) [[]] [Jaspers. p. “liberando à análise um espaço branco. 1995. uma “recalcitrância do querer e a intransitividade da liberdade” (FOUCAULT. Para além da noção fácil que coloca a loucura como dominada à razão dominante. transgressão. de o que neles pode haver de violento. Foucault (1986. O poder deriva da linguagem enquanto prática: Escapando da ótica estruturalista. também a pulverização dos pontos de resistência atravessa as estratificações sociais e as unidades individuais (Foucault. do surgir de todos esses enunciados. 44). Se esquivar de uma busca ou um retorno às origens. de descontínuo. Foucault (1977. 55) se recusa a tratar os discursos como conjuntos de signos (elementos significantes que remetem a conteúdos ou a representações). p. 50). não objetivável. É esse "mais" que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever” há em nossa cultura esta “espécie de temor surdo desses acontecimentos. também. Porém.] O poder . de combativo.

contudo. que não pode. à medida que as coisas e acontecimentos são engolfados pelo discurso Saber e formação discursiva: discurso. p. ele os investe. escolhas temáticas). não é senão um discurso já pronunciado. modalidade de enunciação. Isto. Servem à manutenção das coisas mesmas em seu lugar. de manutenção. creio eu. diremos. apesar da aparência. passa por eles e através deles. de modificação e de desaparecimento) em uma dada repartição discursiva (FOUCAULT. é o discurso ele próprio que se situa no centro da especulação. enunciados. os tipos de enunciação. 489). Uma formação discursiva corresponde . uma formação discursiva define o campo e o regime das dispersões. Formação discursiva não é nada diferente que a regularidade e a correspondência entre os tipos de objeto. apoiam-se por sua vez nos pontos em que ele os alcança (FOUCAULT. p. as escolhas temáticas. enunciado e positividades um certo número de enunciados. 2011a. 1986. em seu estado já dado. e no caso em que entre os objetos. Sobre conceito. 43). De fato. transformações). em sua luta contra esse poder. são as coisas mesmas e os acontecimentos que se tornam insensivelmente discurso. uma maneira de elidir a realidade do discurso. os conceitos. correlações. Mas este logos. conceitos e as articulações tecidas entre eles em determinada época. que ao encontrar em toda a parte o movimento de um logos que eleva as singularidades até o conceito e que permite à consciência imediata revelar. aos que "não tem". semelhante sistema de dispersão. conceitos. posições e funcionamentos. por convenção. 1977. o tema da mediação universal é ainda. finalmente. na verdade. ou. 26). apreensão universal. apoiase neles.não se aplica pura e simplesmente como uma obrigação ou uma proibição. à primeira vista. que se trata de uma formação discursiva [a qual determina como] regras de formação as condições a que estão submetidos os elementos dessa repartição (objetos. p. ser sintetizado como um construção dedutiva progressiva ou como um inventário de formas e leis de relação. se puder definir uma regularidade (uma ordem. manifestando o segredo da sua própria essência (FOUCAULT. toda a racionalidade do mundo. em antes. Pois parece. do mesmo modo que eles. As regras de formação são condições de existência (mas também de coexistência.

o lugar institucional. Sistema de dispersão que individualiza um conjunto de regras por seu caráter sistemático. o ponto essencial da pesquisa era a maneira pela qual se modificaram. Por exemplo: Na Histoire de la folie. em sua especificidade. tratei de uma formação discursiva cujos pontos de escolha teóricos eram bastante fáceis de ser demarcados. ou para a das escolhas teóricas. dos conceitos. Cada formação discursiva é dada ou se organiza desde a definição de um sistema de estratégias sistemáticas que derivam do mesmo jogo de relações. Ela é dá o nome a um esquema de correspondência entre séries temporais diversas. cada vez. a situação e os modos de inserção do sujeito falante. se cada formação discursiva não se organiza como um imenso livro em que estão dadas ou pré-estipuladas de antemão todas as possibilidades de formação de objetos. Isto é. 72) se põe a “definir. cujos sistemas conceituais eram relativamente pouco numerosos e sem complexidade. o que faz dela essencialmente lacunar. no fim do século XVIII e início do XIX. a formação desses objetos para demarcar. Cada uma articula estrategicamente a ativação de temas incompatíveis ou a interpenetração entre os diferentes temas. era bastante homogêneo e monótono. das modalidades enunciativas. Por isso. Foucault (1986. antes de tudo. as formas de enunciação do discurso médico. pontos nos quais percebemos relações de incompatibilidade ou de equivalência em cada discurso. p. havia-se voltado menos para a formação dos sistemas conceituais. nos seus trabalhos. a análise. as regras de formação dos objetos. enfim. Trata da rede de conceitos. enunciações e conceitos. o conjunto do discurso psiquiátrico. determinando . então. o problema era a emergência de todo um conjunto de objetos muito enredados e complexos. p. do que para o status. Na Naissance de la clinique. A formação discursiva corresponde a certo princípio de determinação que integra.às formas de repartição que Foucault (1986. tratava-se de descrever. e das regras formação – se são iguais em cada estrato ou se – e como – mudam. em compensação. posições assinaláveis em um espaço comum. das escolhas teóricas”. funcionamento recíproco. transformações ligadas e hierarquizadas”. resultando em pontos de difração. há lacunas entre aquilo que pode ser ordenado no cerne de cada uma. porque não é sintetizável ou compilável. 42) destaca em A arqueologia dos saberes na capacidade de organizar e determinar “uma ordem em seu aparecimento sucessivo. admite ou exclui enunciados de cada discurso. correlações em sua simultaneidade. cujo regime enunciativo.

a positividade desempenha o papel do que se poderia chamar um a priori histórico. mas nos determos nas raridades. essa forma de positividade (e as condições de exercício da função enunciativa) define um campo em que. fora dos atravessamentos mundanos). transformações. Assim. penitenciário. e uma história específica que não o reconduz às leis de um devir estranho.) A priori. Tampouco estas relações definem a constituição interna do . em todas as [lacunas e] falhas abertas por sua não-coerência. ele não corresponde senão a um conjunto de enunciados que se apoiam sobre a mesma formação discursiva. (FOUCAULT. é porque cada conjunto de enunciados deriva de um mesmo sistema de formação. nos atermos não numa definição ou a um fundamento transcendental (o que é a loucura em sua essência. Porém. mutações e processos. p. mas à descrição das relações de exterioridade. translações de conceitos.. continuidades temáticas. em sua simultaneidade que não pode ser unificada e em sua sucessão que não é dedutível.regularidades próprias a cada época e os princípios articulação entre os enunciados e o que se passa como acontecimentos. etc. da mesma formação discursiva que define os regimes de dispersão e repartição. um discurso apenas é fixado sobre o solo de uma formação discursiva. analisar o que se acumula. Logo. psicológico. Eles tratam de determinada história cujos efeitos de fato se apresentam à experiência Buscar não totalidades no campo referente às condições de possibilidade. mas aquém delas. mais exatamente. assim como as regras da formação de positividades. mas uma história. tem de dar conta do fato de que o discurso não tem apenas um sentido ou uma verdade. Se as obras foucaultianas tratam de um discurso clínico. em sua superposição e substituição recíproca. eventualmente. mas de uma história determinada. podem ser desenvolvidos identidades formais. já que é a das coisas efetivamente ditas. (.. A razão para se usar esse termo um pouco impróprio é que esse a priori deve dar conta dos enunciados em sua dispersão. nem realmente apresentadas à experiência. Ou. Cada formação discursiva reúne elementos. 144).. em suma. Não é através da análise conceitual interna a um objeto ou campo de saber que se chega às condições ao espaço de relações capaz de definir a existência efetiva do objeto para sujeito e discurso. práticas e discursos sob o crivo da forma de positividade discursiva. Procurar. 1986. não de verdades que poderiam nunca ser ditas.ao melhor estilo kantiano – que poderiam ou não se efetivarem. estes a priori históricos com os quais a arqueologia foucaultiana opera não trata de condições de possibilidade . não as origens. jogos polêmicos.

enfim. não à totalidade da significação ou à interioridade de um sujeito. a constância das mentalidades. por laços psicológicos (seja a identidade das formas de consciência. no nível das formulações. FOUCAULT. apenas sua colocação num campo de exterioridade (cf. sempre determinadas no tempo e no espaço. no nível das proposições. p. por laços lógicos (de coerência formal ou encadeamentos conceituais). o sistema de seus referenciais. a distribuição possível das posições subjetivas e o sistema que os define e os prescreve. ela determina um conjunto de regras anônimas. observamos a referência dos discursos não a uma origem ou a uma finalidade. 1986. no nível das frases. os saberes ressoam (em sua positividade) os valores de cada cultura e reiteram os jogos de força que mantêm o estado de coisas e o status de cada coisa. que tampouco estão ligados. que se defina o regime geral ao qual obedecem os diferentes modos de enunciação. de repetição de que todos são suscetíveis. por laços gramaticais (sintáticos ou semânticos). conjuntos de performances verbais que não estão ligadas entre si. enquanto outro de nossa cultura. No atentando À positividade. as condições de exercício da função enunciativa (FOUCAULT. mas que estão ligados no nível dos enunciados. entre si. a forma de dispersão que reparte regularmente aquilo de que falam. isto é. Não obstante. as formas de sucessão. Por isso. mas À dispersão e à exterioridade. não alcança sequer uma definição ou uma linguagem próprias (FOUCAULT. Isso supõe que se possa definir o regime geral a que obedecem seus objetos. em uma dada época e para uma determinada área social. históricas. p. A formação discursiva determina os regimes enunciativos de cada época. 133). 50-1). que definiram. que se defina o regime comum a todos os seus domínios associados.objeto. Às formas de exterioridade e os modos de acumulação discursiva que se cristalizam e se fossilizam em torno delas. Enquanto prática discursiva. os enunciados. definir o regime geral a que está submetido o status desses . 1986. a loucura. ou a repetição de um projeto). econômica. que se possa. todos esses campos de coexistência. que não estão ligados entre si. 1975. Positividade do saber é diferente de definição positiva. geográfica ou linguística. e o sistema que liga. de simultaneidade. 1979). observamos que a positividade dos saberes acerca da loucura dependem da alocação desta no campo da negatividade.

uma totalidade em desenvolvimento. formação dos conceitos. ainda. analisar as condições nas quais se exerce essa função. os enunciados são definidos mais por seu modo de existir. e já que os enunciados. mas uma distribuição de lacunas. de recortes (FOUCAULT. p. linguístico. mas por uma dispersão de fato. o que ela não mais diz. o ambiente de trabalho –. combinados entre si.enunciados. Trata-se da criação de superfícies de emergência – a família. de vazios. elementos para uma estratégia. em um discurso não formulado. já que ela é para os enunciados não uma condição de possibilidade. reutilizados. o modo segundo o qual se tornam objetos de apropriação. tendo seu dinamismo próprio ou sua inércia particular. ainda. não é uma rica e difícil germinação. a maneira pela qual são institucionalizados. carregando consigo. um grupo social. já que ele obedece. O que foi definido como "formação discursiva" escande o plano geral das coisas ditas no nível específico dos enunciados. A formação discursiva não é. Se um enunciado pertence a uma formação discursiva como uma frase ao texto pertence. 1986. instrumentos para o desejo ou interesse. empregados. mas uma lei de coexistência. p. ou. Diferentemente das frases e da linguagem que padece de uma reversibilidade em usa natureza. onde as diferenças individuais são designadas. As quatro direções em que a analisamos (formação dos objetos. e segundo suas outras dimensões. formação das escolhas estratégicas) correspondem aos quatro domínios em que se exerce a função enunciativa (FOUCAULT. 1986. psicológico. ou o que a contradiz no momento. descritas e . mas conjuntos caracterizados por sua modalidade de existência (FOUCAULT. ainda não diz. por como aparecem e vêm a se relacionar com os demais elementos que pelo que significa. 131). descrever a função enunciativa de que são portadores. p. porém na direção inversa: a formação discursiva é o sistema enunciativo geral ao qual obedece um grupo de performances verbais sistema que não o rege sozinho. a formação discursiva se caracteriza não por princípios de construção. Mais interessante que determinar um objeto único e permanente. percorrer os diferentes domínios que ela pressupõe e a maneira pela qual se articulam é tentar revelar o que se poderá individualizar como formação discursiva. cabe à análise dos saberes estabelecer as regras de determinação do espaço no qual os objetos são forjados. apresentados e transformados. 1986. em troca. 132). a mesma coisa. pois. formação das posições subjetivas. Descrever enunciados. de limites. 135). aos sistemas lógico. recebidos. de ausências. não são elementos intercambiáveis.

Saúde e estabilidade “Ninguna organización. com a menor violência possível. Saúde A Saúde. Somente existe a complexidade. que é a força estatal. As paroquias e os hospitais gerais tomavam conta da pobreza no antigo regime. 1990. “¡Adiós revoluciones para siempre! Ya no cabe en Europa más que lo contrario: el golpe de Estado”*.analisadas segundo os termos de cada época. podem garantir o controle das forças sociais. todas son producto de las circunstancias y se encuentran a merced de las circunstancias” (PRIGOGINE & STENGERS. birman 20 08 2013 O plano de saúde é uma capitalização do campo da vida e da morte. com o excesso do poder público. José. com maior facilidade. esquizofrenia. a força que o Estado possui para reprimir o levante social. ou seja. Afirmação que gira em torno do Estado e da sociedade em relação à complexidade e que nos serve para pensar a saúde. 2956). ela estava submetida à ordens morais e religiosas. é muito superior às forças sociais. p. (*) ORTEGA Y GASSET. A secularização da assistência aos pobres é moderna. Para ele. neurose-psicose. Assim. toda . etc. organismos de produção de mais-valia. 84. o poder público. ninguna se impone en derecho. La Rebelión de las Masas. garantía o legitima. anormalidade. de tal modo que a revolução tornou-se impossível. o devir. en cuanto tal. doença. Uma troca de figuras comandantes. Revolução Ortega y Gasset pensou a revolução como o transbordamento das forças sociais sobre o “poder público”. O comando do poder público passa para as mãos daqueles que. as únicas variações possíveis nos regimes políticos ocorrem por meio de golpes de Estado. P. pelo menos na Europa. ninguna estabilidad es. atualmente (ele escrevia em 1927).

a loucura como ponto de vista sobre a saúde (pensar normas) Tese: do pensamento trágico à nova imagem do pensa em Nit Deleuze (1976. portanto. a circunscrevê-las. Avaliar é necessariamente criar. “o material do sentido” caderno ney nit Em Entre eu e o si ou a questão do humano na filosofia de Nietzsche Alberto Onate (??. p. O empecilho dos filósofos tradicionais estava focado em dizer o que é o homem. a representá-las. O problema crítico é o valor dos valores. o que é Deus e não intervir decisivamente na produção desses horizontes de sentido. 1) aponta desde o pensamento nietzschiano que a verdadeira questão da crítica dos valores deve mirar o valor dos valores: por um lado. a avaliação da qual procede o valor deles. p. a avaliação supõe valores.inteligibilidade é uma redução ao apreensível em determinado campo expressivo mesmo que isso não signifique necessariamente uma simplificação. está a poética. ‘pontos de vista de apreciação’ dos quais deriva seu próprio valor. CP]]. Desenlaça o obscuro do mundo. Por outro lado e mais profundamente.) Para além de toda reversibilidade da linguagem. confere uma prognostico para ação. a partir dos quais aprecia os fenômenos. na transvaloração dos valores. Sentido e valor: avaliar é criar. o problema da sua criação. eis o leitmotiv da obra nietzschiana e o ponto nevrálgico de seu cumprimento encontra-se precisamente na questão das valorações e dos valores ou. de modo mais direto. Sentido O sentido é uma direção de uma força que é inscrito na materialidade do que é dito ou escrito [[está em Derrida. ela se limitou a descrevê-las. (Leva a uma interpretação. Saltar da dedução para a produção. . mesmo que isso complexifique ainda mais análise e abra novas dimensões naquilo que é analisado. o que é o mundo. são os valores que supõem avaliações. 249) A atividade filosófica esteve sempre marcada pelo desconhecimento de seu próprio papel: ao invés de criar e dispor perspectivas.

A loucura como ponto de vista sobre a saúde. 1). A genealogia aparece como o elemento diferencial dos valores das quais estes caracteres decorre. Cada avaliação. Com cada avaliação cria-se. dái o tema do sentido e da interpretação. instauração normativa. apoderar. um modo de ser. portanto. assim como o relativo e o utilitário dos valores são colocados em cheque com a elucidação desta operação. desde essa apreciação (louco. O caráter absoluto. Trata-se da origem. a reação ou o ressentimento. Modos com os quais se julga algo e que servem. 1976. por exemplo) fundamos um outro mundo. como princípios originais aos próprios valores. 2).e filósofo criador ao mesmo tempo. do engendramento de novos valores. operadas pelos valores. Sentido e da interpretação Encontrar o sentido de algo é encontrar a força que naquele momento foi capaz de se apropriar.As avaliações se relacionam. GM I 2. BM 211. mas deve buscar a fonte criadora desde onde emanam os próprios valores. o filósofo alemão leva à cabo sua genealogia. seu ofício é o do martelo que destrói e forja. EH I 6-7]] A arte da filosofia é pesar os valores. por isso. Pathos da distância.que fundam os valores . p. Uma norma (valor) exerce uma apreciação.são porosos e vulneráveis à dinâmica das avaliações. ou explorá-la. Criticar é avaliar. onde entra? Aqui?]] A verdadeira crítica não deve se contentar em referir as coisas aos valores. Cria-se o quê? Modos de ser. porém não são a leis redutíveis. Interpretação condiz ao regime de forças colocado em jogo. são relativas aos valores. Deste modo. “eis o essencial: o alto e o baixo. mas representam o elemento diferencial do qual deriva o valor dos próprios valores” (DELEUZE. [[ZA III De passagem. Sentido condiz à força que dele se apropria ou nele se exprime. O alto e o baixo . que por sua vez é criar. a qual significa simultaneamente a pesquisa do valor da origem e da origem dos valores. . do nascimento. mas a partir da diferença ou distância na origem. [[anômalo?. Assim. Os valores levam às avaliações que portam a potência da criação. não obstante. utilitaristas BM IV part. com potência de criação das próprias normas. Concomitantemente ao papel crítico – que é “a expressão ativa de um modo de existência ativo: o ataque e não a vingança” (1976. o nobre e o vil não são valores. p.

juntamente com as resistências que a cada vez encontram. seu sentido está. Logo. o fenômeno não se resume à aparição. tomar aquilo que não é seu como próprio e operar com isso (VER Rivera). A dualidade metafísica da aparência e da essência e. e toda a história de uma "coisa".Fenômeno (aparição numa superfície) e sentido substituem causa e efeito. a relação científica do efeito e da causa são substituídas por Nietzsche pela correlação entre fenômeno e sentido. 3). uma variedade e coabitação de campos de forças coexistentes que envolvem os fenômenos. uma semiologia. todas as utilidades são apenas indícios de que urna vontade de poder se assenhoreou de algo menos poderoso e lhe imprimiu o sentido de uma função. 28) Involução: Mesmo no interior de cada organismo não é diferente: a cada crescimento essencial do todo muda também o "sentido" dos órgãos individuais . Em suma. A filosofia inteira é uma sintomatologia. mais ou menos profundos. p. As ciências são um sistema sintomatológico e semiológico. as metamorfoses tentadas com o fim de defesa e reação. Toda força é apropriação. obtido com um dispêndio mínimo de forças mas sim a sucessão de processos de subjugamento que nela ocorrem. [[GM II 12]] No aforisma 12 da segunda dissertação da Genealogia da moral. é tudo menos o seu progressus em direção a uma meta. menos ainda um progressus lógico e rápido. muda de sentido conforme a força relacionada. ele é expressão de um “signo. por exemplo) pode ser . p. mais ou menos interdependentes. e também os resultados de ações contrárias bem sucedidas. deriva. o "sentido" é mais ainda (NIETZSCHE. p. a sua diminuição em número (pela destruição dos componentes intermediários. dominação. Se a forma é fluida. pode desse modo ser uma ininterrupta cadeia de signos de sempre novas interpretações e ajustes. Para aquém da metafísica da aparência e da essência e da ciência de causa e efeito. cujas causas nem precisam estar relacionadas entre si. 3). Nietzsche (2009. mas todos os fins. um sintoma que encontra seu sentido numa força atual” (1976. exploração de uma quantidade da realidade (1976. a história da loucura é a sucessão de forças capazes de se apropriar dela.em certas circunstâncias a sua ruína parcial. 28) se dedica à origem e finalidade do castigo para criticar o método que insiste em colocar uma finalidade – vingança. um órgão. ele é multidimensional. advém de uma força que se atualiza como estado de coisas numa superfície. o "desenvolvimento" de uma coisa. A história é precisamente a variação dos sentidos. 2009. um órgão. p. Consequentemente. um mesmo objeto. um uso. por isso. um uso. esta não sua única dimensão. antes podendo se suceder e substituir de maneira meramente casual. também. Há superfícies distintas além da profundidade. expiação ou intimidação – como causa da origem.

A magnitude de um "avanço". a morte. sentido é plural. Logo. plural: a morte de Deus é um acontecimento cujo sentido é múltiplo.isto seria um avanço (NIETZSCHE. Eis porque Nietzsche não acredita nos grandes acontecimentos ruidosos. se mede pela massa daquilo que teve de lhe ser sacrificado. grandes actos. por mais ruidoso que seja. 2009. Tão mais complexo conforme a multiplicidade de sucessões ou variações que os cerca. em suma. que toda e qualquer elemento ou fenômeno mundano encontrase ladeado de um campo de forças complexo. p. equivale a uma interpretação nova’ (p. ela mesma. está entre as condições para o verdadeiro progressus. toda dominação. D&G tratam disso em MP acho. P. mas na pluralidade silenciosa dos sentidos de cada acontecimento. não tomasse emprestada a aparência das forças precedentes contra as quais luta. inclusive.um signo de crescente força e perfeição. (p. ela é ressignificada: Uma coisa tem tantos sentidos quantas forem forças capazes de se apoderar dela. não haver deus: III Dos tranfugas] Só há sentido único sob a lógica da ordem dominante. 3) a morte deste Deus que se dizia único é. 4) – [por isso foucualt acha a essência da louc na ausencia de obra] Uma força não sobreviveria se. chamar-se-á essência. conforme a coexistência de forças ali presentes “que faz da interpretação uma arte. divindade. entre todos os sentidos de uma coisa. que sobressai e se impõe. II. Quero dizer que também a inutilização parcial. Schreber] . Há forças que só podem se apoderar de alguma coisa dando-lhe um sentido restritivo e um valor negativo. a atrofia e degeneração. 4 [disc menor À despeito do maior] [Qual afinidade da locuura com as forças que dela se apoderam? Seu caráter ditatorial. e é sempre imposto à custa de inúmeros poderes menores. 3) [ZA. a perda de sentido e propósito. Ao contrário. a humanidade enquanto massa sacrificada ao flores cimento de uma mais forte espécie de homem . Não se perde totalmente a essência. 28). Nietzsche não crê no sentido único. aquele que lhe dá a força que apresenta mais afinidade com ela (p. Mas a própria coisa não é neutra e se acha mais ou menos em afinidade com a força que se apodera dela atualmente. o qual sempre aparece em forma de vontade e via de maior poder. O que não significa q deva ser ignorado. inicialmente. ‘toda subjugação.

ou qualquer outro aspecto redutor. ao passo que “as singularidades que compõem o campo transcendental são os verdadeiros acontecimentos transcendentais”. Os estóicos admitem que no limite dos corpos e das coisas ocorrem . O livro se aproxima da tese de Meiong sobre o objev. Sentido em Deleuze Concepção deleuzeana do sentido o desvencilha da significação – uma vez que o entendimento do sentido não depende de extraí-lo ou obtê-lo a partir das coisas. “O objetiv estaria para os juízos e suposições assim como os objetos estão para as representações”. Sua força anti-religiosa. Porém. é que o pensamento pode alçar o ilógico e irracional. Ele pensa o acontecer do mundo. cujo sentido é independente de qualquer sujeito humano transcendental ou empírico. não pensa o acontecimento relacionando-o necessariamente com a causalidade física. em que o pensamento e o acontecimento brota. além de possibilitar uma distinção entre sentido e significação. o exprimível. Deleuze se preocupa com os paradoxos e os problemas que causam para a lógica formal. Interpretar é romper máscaras. diferentemente destes. o vazio. Ao lado dos incorporais estoicos. o lugar e o tempo. porém dele se distingue por elaborar um campo transcendental. Deleuze (2000) pensa o sentido através dos incorporais da filosofia de superfície dos estoicos – primeiros a formularem o sentido como problema. do mundo e de seus elementos – para tomá-lo a partir de um campo transcendental neutro de potência genética. não religar a uma essência – política das origens.Interpretar e avaliar é pesar. colocando. assim. Sua tese de filosofia transcendental se distingue da metafísica por pensar o sentido ao invés da essência. [ ligação politica religião atual. o sentido (pensado como produtividade genética) como entidade não-existente. Na dimensão plana do sentido-acontecimento. A obra lógica de Caroll se distingue de sua obra fantástica pelo trato do sentido. devolver restituir o governo dos homens aos predestinados da palavra divina]. pois o acontecimento e o sentido envolvem todas as coisas.

A realidade lógica se dá no exprimível. O plano da lógica diz respeito aos incorporais. como algo que se furta à ideia) parte do entendimento que no limite dos corpos se dão os acontecimentos. Por isso. que como incorporal não está sujeito à lei de não-contradição. conceitos que aparecem sobretudo em seu último texto — A imanência: uma vida” O acontecimento destitui o verbo ser de seu atributo (DELEUZE. envolvendo as coisas e os estados de coisas”. a parte não atualizada do acontecimento como a obra deleuzeana. aos acontecimentos e aos laços dos efeitos entre si. em seus limites e tensões agindo lateralmente como causas de efeitos de superfície. um outrar. ou seja. expressos por proposições. Ulpiano (1998) entende o extra-ser. ele possui sentido e realidade. o tempo dos incorporais é Aion. pois apesar de não existir. 1992). a uma vida. É no plano da física que se encontram os corpos com seus limites e tensões internas. Sua realidade incorporal é a de um extraser.efeitos de superfície. Os corpos são causas uns para os outros de certos efeitos de superfície. com seus verbos no infinitivo – um fazer. Este é o plano de operação da lógica. é o que nos permite falar dos acontecimentos que ocorrem no mundo. O sentido aparece mais diretamente na fronteira entre as proposições e as coisas. em que ressoa (a fenomenologia e a filosofia analítica) X a neutralidade e a potência genética do campo transcendental. etc – enquanto o presente pertence aos corpos. que vai contra ambas. Dois modos de pensar o sentido: Com o paradoxo das representações sem objeto. na linguagem. “O exprimível é tratado com um estatuto “positivo”. “A contra-efetuação do Acontecimento é relacionada ao campo transcendental sem sujeito. substantivos ancorados em Cronos. Trata-se do jogo da superfície física que coloca os corpos lado a lado. ao plano de imanência. A comunicação entre acontecimentos coloca o sentido fora do âmbito da representação e da significação. . A positivação do sentido como incorporal (contra a negatividade platônica do simulacro. do plano de imanência. Nesta dimensão é que se dão as conexões reais e as conjugações virtuais.

Ao contrário. que não será nem formal nem informe. Bergson se confronta com os argumentos dos psicólogos e fisiologistas. p. está pressuposto desde o instante primeiro da fala do eu e elucida a impotência deste frente . é colocado por Bergson como verdadeiro problema. mas o aformal puro. desorganizando o plano sensório-motor. mas desde dentro. ao bom senso e ao eu pessoal. A própria percepção consciente aparece no intervalo entre percepção e ação e tal intervalo implica duração numa temporalidade e o problema.O pensamento deleuzeano visa destituir o sujeito fundante (cf. o meu corpo é uma imagem privilegiada em relação às demais porque diferentemente das outras imagens. ao perguntar: como nascem nossas representações de mundo? Sua tese desconcertante é que a percepção é estreitamente vinculada à ação do mesmo modo que o cérebro se situa no organismo e este depende inteiramente do mundo. segundo Bergson. O sentido está para a significação assim como o problemático está para a proposição. Entrar como nota? Em O pensamento e o movente Bergson distingue os verdadeiros e os falsos problemas pautando os verdadeiros problemas como colocados mais em relação ao tempo que ao espaço. Frente ao conjunto de imagens que constitui o mundo é um. pré-subjetivo e pré-objetivo capaz de produzir sujeitos e objetos. assim como ao senso comum. que unifica uma síntese prévia da experiência em prol de um campo transcendental a-subjetivo. Para fazer aparecer o eu dissolvido – um conjunto de eus larvares contraentes e contemplativos. 32) parece retomar a distinção bergsoniana entre problemas falsos e verdadeiros para elucidar a autonomia do sentido à respeito e à despeito da significação e apontam que “não vamos dos sons as imagens e das imagens ao sentido: instalamo-nos logo ‘de saída’ em pleno sentido”. sim. 34). Pois ele. alguma coisa que não é nem individual nem pessoal. será. LEBRUN. Liberar as singularidades nômades das individualidades fixas e do sujeito finito – rompendo com o equívoco de considerar que esta prática conduziria a um abismo indiferenciado. Já no primeiro capítulo de Matéria e memória. Seu pensamento escapa a suas possibilidades abstratas. Deleuze (2000. não a conheço apenas de fora.. mediante afecções. o sentido. É a renovação da filosofia quando o transcendental perde a forma da consciência e expande a sua aventura involuntária (PRADO JR. via percepções. p. 1988) representativo assentado na identidade. desse modo. 2000.

Tal fato pode ocorrer. não podemos ver claramente o que liga a linguagem ao mundo. se este estado de coisas se encontra realizado a proposição ser considerada verdadeira. Para Deleuze não há sujeito como fundante. isto é. ele se resume em sua neutralidade. Na superfície. o acontecimento se dá na superfície das coisas e dos estados de coisas. Primeiro a dinâmica do sentido tem que funcionar de acordo com um espaço lógico que determina estados de coisas. o sentido na superfície. o sentido. antes de tudo. no mundo. para somente então. muito embora o que de fato acontece não seja um corpo ou uma coisa. para que uma proposição seja verdadeira ou falsa é necessário que ela seja. É a relação entre o mundo e a linguagem que permitirá esta distinção. uma vez que a proposição somente pode ser verdadeira ou falsa quando for significativa. a distinção entre condição de sentido e condição de verdade. A contingência dos fatos. A proposição é indiferente ao sentido. marca portanto a condição da verdade das proposições no que concerne ao seu valor de verdade. em última instância. Ela é dita verdadeira quando indica um estado de coisa realizado. ou não. Para Deleuze (2000). não expõe. Embora o sentido atravesse o campo transcendental no trânsito entre a profundidade e o que acontece na superfície das coisas. significativa. embora intimamente ligado à proposição. no mundo. A bipolaridade da proposição depende da contingência dos fatos. mas mero efeito de superfície. não indica. o acontecimento não é como algo que aparece na superfície do mundo como coisa. a ordem harmônica do mundo com seus limites e separações. ele é inseparável dos estados de coisas. não é uma construção que dependa exclusivamente dela. por assim dizer. mesmo a proposição significativa não delimita. um fato. Porém. nem passivo. esta ligação que garante estruturalmente. . Uma proposição é considerada significativa quando indica estados de coisas possíveis dentro de um espaço lógico. Logo. Logo. Condicionado pelo campo transcendental. A condição de verdade de uma proposição pressupõe a sua condição de sentido.à potência da linguagem nesta regressão infinita conforme descrito na Quinta Série: Do Sentido. como doador de sentido ou mesmo situado no limite do mundo. que envolve as coisas e estados de coisas. nem ativo.

Sentido e neutralidade Deleuze (2000) se afasta de Husserl à respeito da neutralidade e da potência genética do sentido. “que remete para a organização de superfícies através da pulsação da profundidade indiferenciada. [O sentido pertence ao campo transcendental. de divisão sensível em suas bordas e fronteiras. uma vez que não existe nenhum corpo sem superfície”. sem o fundamento de um sujeito transcendental ou da consciência como em Husserl. 1990) em suas tensões. [decalcada da metaestabilidade??]. todo corpo tem superfície passível de segmentação. o sentido é expresso pela proposição sem . a vida trata de disputa de sentido (cf. Em sua superfície que os corpos “entram em misturas formando estado de coisas. quebrar o círculo da proposição para pensa-lo fora da significação. como resultante das ações e paixões dos corpos. MARTON. contudo. sem que a ela pertença. que delimita os corpos. é frequentada por uma energia potencial que não lhe pertence. A superfície que é formada por de maneira pativa. mais ou menos porosas. o aspecto transcendental se revela por inteiro. que condiciona a superfície onde aparecem as proposições]. Ou seja. A neutralidade do sentido está ligada à potência genética justamente pelo sentido ser produzido por causas corporais e ser neutro em relação às proposições que o expressam. das ações e paixões dos corpos. A superfície se mantém nas tensões que a sustentam “sobrevoando a si mesma de modo impassível. mas está condicionando a proposição. o sentido pode ser pensado como produção problemática a partir dos estados de coisas. O sentido seria a base acontecimental não exatamente anterior à proposição. na superfície. O sentido só é alcançado diretamente ao se fender. Destarte. À nível de superfície. numa espécie de flutuação do sentido sustentado por uma energia potencial. superfície e delimitação dos corpos A disparação das singularidades condiciona previamente toda individuação assim como a o sentido frequenta a proposição sem. O sentido como acontecimento dá-se nas superfícies dos corpos”. pertencer à proposição. Sentido. rachar. O sentido produz os corpos e estados de coisas e ao mesmo tempo é produzido por estes”. nem ativa. nem passiva. A superfície se mantem num sobrevoo sobre si mesma. “Do mesmo modo que a superfície. pois ele não é dado de antemão. o sobrevôo se mantém devido à energia potencial que a frequenta.

Com efeito. uma vez que não há superfície. só que o forro não significa mais uma semelhança evanescente e desencarnada. podemos admitir agora que o sentido se desenrola numa superfície mantida pelas pulsações e misturas inomináveis da profundidade dos corpos e dos estados de coisas.. nem dos estados de coisas aos quais ele ocorre e que são designados pela proposição (. a doação de sentido não passa pela consciência constituinte. No caos e na ruína desta fissura. temos que nos desvencilhar de toda semelhança que provenha de algum cogito – uma vez que Deleuze (2000) expurga e cancela toda semelhança e correspondência possível entre empírico e transcendental – ou a consciência. p. o sentido tem potência de gênese em sua configuração transcendental.lhe pertencer: o problemático é neutralidade e potência genética ao mesmo tempo”. 128) escreve literalmente: O sentido é neutro. Assim como a neutralidade não é um duplo nem uma sombra. Deleuze (2000. O que organiza a superfície de sentido são antes as pulsações indiferenciadas da profundidade que a liga ao organismo. da clínica e de toda linguagem centrada no indivíduo e na pessoa. uma imagem esvaziada de carne . Embora estéril. Situação que traz a ruína da própria comunicabilidade. Sentido e continuidade sentido é um forro. onde palavras e afecções se tornam indiscerníveis. como o filósofo reconhece na fenomenologia de Husserl (1975). Disso decorre que o sentido não é condicionado e para chegar diretamente a ele mais que não nos ater. no cerne da qual não há contato com o sentido e. diz Deleuze. Em contrapartida. a falência da superfície não corresponde a outra situação que a irrupção das forças da profundidade.) para permanecer fiel a esta exigência é preciso dispor de um incondicionado como síntese heterogênea da condição em uma figura autônoma. mas não é nunca o duplo das proposições que o exprimem. ele é neutro e não o duplo de uma disjunção da consciência ou das proposições que o exprimem ou condicionado pelos estados de coisas designados pelas proposições nos quais ele se dá. Superfície mantida pela energia potencial que atravessa o campo transcendental.. que reúne em si a neutralidade e a potência genética”. mesmo o não-sentido deixa de produzi-lo. Pelbart (2014) identifica uma variedade de imagens de fim do mundo.

o comportamento não é mais que a ordenação das sucessivas fases do organismo. do mesmo modo. a saída do solipsismo. que significa. as bordas e limites dos e entre os corpos –. O sentido se dá necessariamente na dobra entre as séries do mundo e da linguagem e a própria linguagem só se torna possível com a superfície na qual se distingue coisas e proposições. resultando em não-sentido. Da mesma maneira e simultaneamente. que o sentido na superfície se distribui dos dois lados ao mesmo tempo: como expresso subsistindo nas proposições e como acontecimento sobrevindo aos estados de coisas. tal como a superfície do vivo não sintetiza a vida. o filósofo francês vai ainda mais além ao estabelecer a continuidade como princípio de ordenação das superfícies caucionada pela dobra entre coisas e proposições. assim como a significação e as demais dimensões da proposição. O sentido é a dobra. a continuidade estabelecida na ordem das superfícies assegura o que é expresso nas proposições e o sequenciamento dos estados de coisas. a mesma superfície que desnorteia a língua. orienta. Ou seja. A mesma linguagem que não se confunde com a superfície do mundo. a superfície física do mundo não resume todas as dimensões da linguagem. pois a vida tem sua realidade na superfície das membranas. dá sentido à e pela via linguageira. Se valendo das ideias de Husserl. nele se manifestando. P. entre as séries do mundo e da linguagem. Logo. a arte de instaurar essa continuidade. De tal modo. no ocaso tanto do solipsismo quanto do isomorfismo e da semelhança. da pele e da terra . Entretanto. o sentido salvaguarda a continuidade do mundo objetivo. Consequentemente. a continuidade do avesso e do direito. o pensador francês parece colocar em pauta é que a vida assim como o sentido são operações limiares. Deleuze (2000) entende que o organismo nos confere o senso e o sentido do mundo objetivo uma vez que está implicado como profundidade na dinâmica da produção de sentido. embora esta se manifeste privilegiadamente nela. Isto significa que elas se dão nos limites. se orienta nela com sentido. da comunicação e do trânsito entre a profundidade do corpo e a superfície da experiência compartilhada. A organização de superfície corresponde à instauração dessa continuidade que cauciona o desdobramento do sentido como efeito neutro e como potência genética capaz de produzir a individuação dos corpos – a separação.como um sorriso sem gato. Qual seria a dimensão linguagem subterrânea? Sua dimensão agramatical? Independentemente disto. a dobra entre a profundidade e a superfície. 102 Tratando da continuidade.

p. abarca a dimensão transcendental da vida e se diferencia do estado de coisas pela posição e situação em relação ao campo transcendental cujos efeitos constituem a superfície física dos estados de coisas ao passo em que ele é profundamente colocado em jogo no acontecimento. da pele e da terra. ligado ao que acontece a sua volta. o homem. Partindo da pergunta se significação deriva de atos delimitados Husserl (1975. é inconsciente. Consequentemente. deve-se ter em vista aquilo que distingue o estado de coisas. Sentido a partir de Husserl e Simondon A redução fenomenológica dos atos à consciência é justificada pela e na própria colocação com que o problema é abordado. A remissão da linguagem aos estados de coisas e às coisas se dá acompanhada pelo acontecimento vida na superfície do vivo. enquanto arranjo formal e estagnado das forças constituintes do acontecimento. As proposições somente se dão na superfície (na boca) daquele que fala. 19) salienta que “todo ato é exprimível. orienta-se com sentido nesta mesma superfície. acontecimento e estado de coisas. individuação e antiadaptação Para pensar qualquer continuidade que se dá entre profundidade e superfície no âmbito do sentido. Ora. Sentido. A remissão da linguagem à superfície do mundo ocorre concomitante à frequência da vida na superfície do vivo. ao passo que o sentido é articulado nas proposições que se dão na superfície daquele que fala. uma vez individuado na superfície do mundo. não percebe ou sequer tem noção do acontecimento vida que perpassa sua individuação simultânea na produção processual do si como indivíduo e sujeito. no entanto. Este. A linguagem difere da superfície do mundo e.onde estabelece trânsito entre o que está provisoriamente no interior e o que está estrategicamente no exterior. mas sua . do mesmo modo que a vida se dá na superfície das membranas. O acontecimento ocorre na superfície e se distingue dos corpos e dos estados de coisas. não é isso que Deleuze (2000) sinaliza desde o início com a Quarta Série: Das Dualidades onde separa a boca que fala (distinguida pela linguagem) da boca que come? A especificação fundamental que distingue profundidade de superfície prepara a remissão da linguagem às coisas e aos estados de coisas na concomitância do acontecimento da vida na superfície do vivo.

20). A fenomenologia submete o significar aos juízos ou às modificações dos moldes representativos. p. a própria significação “é nominal ou é proposicional. deve ser compreendido como ato posicionante qualquer. 1975. Uma vez que se disponha de palavras e de expressões que estejam ao nível do pensamento . Ela seria o corpo do pensamento.a suposição de uma “linguagem suficientemente desenvolvida” aparece na sequência no texto – os atos criam expressão que estão ao nível do pensamento. pois. As proposições enunciativas são aqui proposições predicativas” (HUSSERL. p.) o expressar da fala não está. 320). redenção e aplicação do pensamento desdobrando-se como existência ideal ao adquirir valor intersubjetivo. MERLEAU-PONTY. a um campo paradoxal que. ou... o pensamento adquire através da fala. de recobrir os objetos. [[está em nota]] Deleuze (2000. 1975. Logo. tido como primeiro e já dado. sem o qual eles estariam relegados a sua disposição num solipsismo inócuo de fenômeno privado. respectivamente. A gênese de sentido deve ser remetida. cada uma delas é a significação de uma proposição enunciativa inteira ou uma parte possível de tal significação. nas meras palavras. A suposição da “linguagem suficientemente desenvolvida” Vemos assim que Husserl entende a linguagem como forma original de lançar um olhar. mas nos atos que exprimem”. O juízo. Logo. Retorno ao sujeito falante. metafísica da presença. mantém a neutralidade do sertido.expressão se encontrará. mais que ato predicativo. 100) aponta o equívoco de Husserl ao pensar a gênese de sentido como doação desde uma faculdade originária de senso comum responsável pelo processo de identificação de todo e qualquer objeto ao infinito. pois. para dizer melhor. p. ascensão intersubjetiva constituinte. . capacidade de fundar sujeitos (cf. a linguagem aparece como justificativa. numa forma da fala que (supondo-se uma linguagem suficientemente desenvolvida) lhe seja propriamente adaptada (. Em outros termos. mesmo sob o preço de não ser identificável ao faltar à sua própria identidade e à sua própria origem.

Todavia. A fenomenologia quando pensa o acontecimento deixa que os vestígios de uma forma primitiva de crença na identidade e numa única direção do tempo subsistam e por isso o acontecimento não é nunca pensado como sentido. sem a intermediação de um sujeito ou consciência transcendental. uma segunda vez como transcendência privilegiada de um mundo intersubjetivo povoado de outros eus. podemos valorizar uma apropriação A consciência em Husserl não remete a uma interioridade. um movimento para fora.Husserl é criticado posteriormente em O que é a filosofia? por conceber a imanência sobre uma subjetividade transcendental entendida como fluxo de vivido. Deleuze não critica a posição de irrealidade do noema. a consciência é um esvaziar-se. . pelo contrário. toda e qualquer consciência humana possui vivências e o que caracteriza a consciência é ser consciência de alguma coisa. há mundo com sentido devido à consciência transcendental: no limite. Porém. mesmo assim encontramos uma subjetividade. para o mundo. em direção ao mundo. um eu transcendental sem o qual os atos intencionais não teriam sentido. ao se preocupar com o sentido noemático. Deleuze deixa muito bem assinalado que não existe uma faculdade que formula juízos acerca do mundo. O que acontece no mundo torna-se sentido na proposição. uma gênese da intencionalidade no devir da consciência. mas sim como um advento ou aparecimento de um fenômeno no mundo vivência muito importante para Husserl por estar ligado à consciência. há um devir da consciência no devir do indivíduo87 ao ego transcendental — o eu puro. uma terceira vez como transcendência objetiva de um mundo povoado de formações culturais e pela comunidade dos homens. Deleuze (2000) crítica à intencionalidade. mas sua dependência em relação à consciência. nem muito menos uma consciência intencional que lhe doa sentido. uma vez sob a forma de uma “transcendência imanente ou primordial” de um mundo povoado de objetos intencionais. A partir de Husserl. Essa crítica se deve justamente à falta de autonomia do sentido face à consciência. Por outro lado. Este vivido. entretanto não pertence inteiramente ao eu que o representa para si e nas regiões onde ele não pertence é que ele se manifesta como transcendência.

as sensações. não só se adaptando. comparável a uma fabricação. só possuem sentido através de uma camada expressiva que os animam. diz Deleuze. diz Husserl. ser sujeito ou objeto de ação. mas multiplicidades de mundos que se constituem em meio às singularidades que se autounificam. justamente por não possuírem efetividade. em suas análises. do vivido psicológico. Em Husserl. Simondon No vivo há uma individuação pelo indivíduo e não apenas um funcionamento resultante de uma individuação já efetuada. diz os acontecimentos que ocorrem no mundo. pura aparência: a árvore real pode queimar. o sentido e o acontecimento aparecem imbricados. um incorporal. Tais dados materiais possuem sentido pelo elemento formal que é justamente a intencionalidade Deleuze aproxima noema e acontecimento quando nos indica que as interrogações em relação ao ”noema perceptivo” ou “sentido perceptivo” nos revela que o noema se distingue dos objetos físicos. sem existência física nem mental. sentido fenomenologicamente reduzido. puro resultado. o noema – o sentido da percepção da árvore – não queima por não ter elementos físico-químicos. enquanto os caracteres de crença remetem aos atos noéticos relacionados à consciência transcendental. que não age nem padece. nem muito menos forças e nem propriedades reais. o noema é o componente irreal ou intencional da vivência. . o necessário e o possível aparecem como caracteres que remetem ao noema. a vivência – composta por sensações. que são os componentes reais das vivências. entrar em misturas. Não vemos. que permite às vivências possuírem múltiplos sentidos através de seus noemas enquanto objetos intencionais. o vivo resolve problemas. efetuações de singularidades? – aparece em seu caráter de atravessamento. impressões de cores. O mundo não é mais um mundo acabado. de uma certa maneira está próximo do que Deleuze pensa sobre o acontecimento. Husserl. não o noema da árvore. mas coisas coloridas. expressando-os com sentido. intencionais). Não há sujeito constituído. mas a canção da cantora. apenas processos de individuação e subjetivação em meio ao campo problemático.as vivências possuem componentes reais e imanentes (irreais. os dados hyléticos não possuiriam a possibilidade formal de se tornarem plenos de sentido. 14 série. Mais do que como conteúdo da consciência. Os dados hyléticos. A linguagem. através de proposições. O noema. não ouço impressões de sons. isto é. Por si mesmos. apresenta o noema como um impassível. o sentido do noema é um componente irreal da vivência. Husserl. Das Singularidades. das representações mentais e dos conceitos lógicos. o ser provável.

O pensar não se dá como aprofundamento de camadas. inventando novas estruturas internas. uma fase determinada do ser e do processo de individuação.9 e tb ver A gênese do indivíduo. das fases psíquicas da individuação e não é de uma consciência localizada no fundo de um sujeito. Deleuze (2003. p. começam a aparecer as fases da individuação. Gilbert Simondon. A realidade pré-individual é o campo transcendental. assim como a linguagem não se constitui como profundidade. destituímos a interioridade de uma consciência intencional constituinte localizada no fundo de um sujeito.modificando sua relação com o meio (como uma máquina pode fazer). o pensamento. como algo pensado fora do sujeito. O indivíduo e sua gênese fisico-biológica. podemos observar que a individuação faz aparecer mais que o indivíduo. ao trazer o sentido para a superfície. A individuação consiste na realidade pré-individual a partir da qual o indivíduo vem a existir. onde o ser defasado se dá. 158) pondera que “resolver é sempre engendrar as descontinuidades sobre fundo de uma continuidade funcionando como Idéia”. se liga a individuação ao sentido. o indivíduo não é mais que uma realidade relativa. p. nem mesmo das camadas profundas da consciência. constituído e caucionado pela realidade pré-individual do campo transcendental. indivíduo-mundo. temos a superfície como plano no qual linguagem. O indivíduo constitui uma separação na superfície física. . Logo. aconteca na superfície. e deste modo. no cmapo transcendental. Ele. mas modificando-se a si próprio. a partir a individuação. mundo e pensamento se distinguem. Em Diferença e repetição. tradução Ivana Medeiros. A própria consciência é forjada. linguagem e acontecimento. produzida desde essa realidade pré-individual que é o campo transcendental – plano inconsciente. introduzindo-se completamente na axiomática dos sistemas vitais. no prelo. a separação indivíduo-meio. Este processo sem fases. Por isso. Entre pensamento. criada. superfície metafisica – para Deleuze (2000) e o terreno próprio à individuação tal qual pensada por Simondon (???). o processo de individuação que é contemporâneo do indivíduo é o devir do indivíduo emerge justamente quando no campo problemático.

mas antes.” Neste âmbito. A ontogênese para Simondon (??) se refere ao devir enquanto este corresponde à capacidade de defasagem que o ser conserva em relação a si mesmo como estratégia para se resolver. Deleuze (2003. Os possíveis se dão na superfície como efeitos de superfície. Trata-se de voltar-se para os modos como devém aquilo é. Em outras palavras. 2015) ao mesmo tempo que nos permite pensar e dizer o mundo como resolução de tensões de um Ser problemático.[[fim cap1]] Cada forma de um indivíduo – seja a forma-corpórea. ao invés de adaptação Neste âmbito é que faz sentido Simondon (??) tratar de ontogênese mais que como gênese do indivíduo em seu caráter sumamente individual – distinto. Em Diferença e repetição. Este regime de amarração de singularidades propicia o domínio das formas no qual podemos dizer meu corpo. etc – é um pacote de singularidades que não se confundem com o indivíduo. a forma-moral. por isso não são desmerecidos como falta de profundidade. Resolução do ser por individuação fora da adaptação como defasagem em relação às suas próprias estruturas e a seu repertório de ação e percepção do mundo e não como mera modificação adaptativa de sua relação externa com o mundo. como ser sem substância essencialmente fundamental ou fundante. Ambos. 158) pondera que “resolver é sempre engendrar as descontinuidades sobre fundo de uma continuidade funcionando como Idéia. minha alma ou eu. nem são propriamente dele. DELEUZE. enaltecidos como vastidão dimensional. p. O sentido que se dá na superfície corresponde ao campo foucaultiano do saber (cf. mas a uma dimensão própria ao ser. por exemplo – como devir do ser. individuação e possíveis. a individuação corresponde à invenção de resoluções dadas na repartição do ser em fases desde o devir que consiste não num quadro ordenador ou determinante do vir a ser. de potenciais transformados e em possíveis para e na experiência. que somente nele acontecem. mas que apenas nele se dão. da gênese da espécie. individuação e devir dão base a criação de modos de resolução da individualidade progressiva frente a uma incompatibilidade inicial plena. a individuação correspondente à seriação em fases. portanto. Felina só pode ser um invólucro . Defasagem do ser. entretanto.Sentido. a forma-psíquica. é caucionada pelo motor do campo transcendental pré-individual no qual não existe fases.

ou seja. falas inspiradas e telas. Não se trata da forma animal. Mas com isto se desconhece a essência da vida. interpretações e direções.o seu "niilismo administrativo": mas trata-se de bem mais que de mera "administração". Nietzsche (2009. uma reatividade. no próprio organismo. criadoras de novas formas. 28) critica que se coloque em primeiro plano a "adaptação". O acontecimento é que faz a transição transformadora dos gritos e ecos confusos da profundidade ruidosa para a superfície mediante a qual a distinção entre corpos.. p. da alma – mas de certo maneira de ser afetada pelo e no seu encontro com o mundo. Isto não significa que ela se comporte como um felino. agressivas. arte e loucura Ora. com isto não se percebe a primazia fundamental das forças espontâneas. e não pelo estado de coisas. uma atividade de segunda ordem. . como escritos. mas de um devir que a atravessa. a vida é expressa pelo acontecimento em seu aspecto transcendental. a sua vontade de poder. forças cuja ação necessariamente precede a "adaptação". o devir-felino se faz presente no tecido de singularidades e tem como efeito produtos como a marchinha Adaptação: tira-se da vida e do estudo da vida a noção de atividade. que a faz modular a maneira como ela se expressa. como Felina produz atravessamentos no mundo.de um número finito corpos estranhos uns aos outros.. mundo e linguagem são constituídos por singularidades e se distinguem na e pela superfície que é imanência. cada vez mais apropriada. Logo. expansivas. vida e campo transcendental Sentido. VER: Sentido. manifestar corpos ou significar sujeitos. músicas. Entre um e outro. a circunstâncias externas (Herbert Spencer). com isto se nega. a vida se qualifica como processo de produção imanente que surge com suas forças próprias na capacidade de produzir seu próprio campo envolvendo a si mesma. afetos e palavras torna a proposição capaz de designar qualidades. aqueles nos quais a vontade de vida aparece ativa e conformadora. singularidade. ou que imite um gato. Trata-se de singularidade. de um conjunto de singularidades que não dizem respeito à natureza das formas – do corpo. o papel dominante dos mais altos funcionários. Enquanto processo de produção imanente. chegou-se mesmo a definir a vida como urna adaptação interna. Recorde-se o que Huxley criticou em Spencer .

palavra se torna corpo. uma transição modificante de acordo com o modelo de tradução-transformação proposto no platô sobre O liso e o estriado (DELEUZE & GUATTARI. artaudiana. Ambas alternam estratégica e insubordinadamente e. 2006). Este é o aspecto clínico ressaltado por Deleuze (2000) no trânsito entre os diferentes níveis. 1979. contudo. sobrecodificação. o cuidado proporciona um meio de propagação e extensão para a loucura. Mediante esta falência. 2003). Apropriando-nos desta indicação. Trata-se de buscar as vias de fazer da loucura profunda do corpo um impulso de extensão. o acontecimento opera.Entre o mundo da profundidade corporal e suas misturas inomináveis e a superfície da extensão do sentido. problema de queda e derrocada ou de criação e instauração de outros possíveis entre profundidade e superfície física. De certa maneira. nesta transição de códigos entre a loucura tal como se dá enquanto processo psicossocial de apreensão e captura e a produção da loucura enquanto estratégia de cuidado. Tendo em vista que a loucura é geralmente desvencilhada da vivência e das singularidades que a atravessam em sua concretude. [[fim cap 2]] Por outro lado. Associando-se à arte enquanto movimento de engendramento de territórios existenciais. buscam maneiras de se retroalimentar. a produção de loucura consiste numa atividade de estriamento deste espaço liso no qual se tornara a loucura objetivada pelos saberes psi sob um necessário movimento de desterritorialização. a estratégia de cuidado visa à construção de um território para a loucura. e a superfície (física e metafísica) de sentido. postulamos um . em cada passagem. Destarte. O fundo do poço do sentido não remete a outra coisa que à falência da produção de sentido. Muito embora haja metrificação. a loucura é efetivamente convertida em doença quando a superfície do sentido fale. refração e renovação de seus próprios modos de vida. mais que uma transposição. DELEUZE & GUATTARI. almejamos um ethos clínico que preze pela retomada da dimensão essencialmente produtiva do psiquismo (cf. fundo oculto do mundo ou da linguagem. 2011). uma tradução ou uma conversão. FOUCAULT. no sequestro da autonomia e na objetivação da liberdade do sujeito (cf. ao invés de apreender a loucura sobre a ordem do silêncio num movimento de captura que a desterritorializa para em seguida sobrecodificá-la como doença mental. afeto e coisa numa profundidade que não é. neutralização nesta espécie de tradução. podemos pensar que não há na produção da loucura privilégio entre uma profundidade por assim dizer.

Fora do sistema da causalidade. Livre da amarra causal. o sugestionismo. a causalidade em séries atômicas de acordo com sua especificidade desviante. manejo. Pois. outra na exterioridade dos acontecimentos como laço dos efeitos” como continua logo na sequência o filósofo francês. contudo. a clínica do clinamen opera por esta causalidade sem destino. Além do Bem e do Mal.método acerca deste aspecto inventivo do psiquismo ao propor um procedimento da produção da loucura (cf. PRADO. de uma superfície metafisica. liberdade e sujeito de linguagem Se a clínica se põe a trabalhar o sentido. Clínica. os incorporais não são mais que quasecausas dos efeitos incorporais (do sentido) – consequentemente. mas salvaguardar ou garantir ou estimular a própria produção de sentido. §59 Sentido. Este posicionamento é sustentado pela filosofia estoica que mantém causa e efeito num campo homogêneo separando. nos limites e nas porosidades determinantes que se dão entre cada superfície. enquanto incorporal. assim como a hipnose não têm muito o que colaborar com a clínica. p. Nos cabe agora desenvolver este “método de enlouquecimento” a partir da construção. seu clinamen. funcionamento de um campo transcendental. Dissociação que traz a importância da linguagem – somos seres feitos de linguagem na linha de raciocínio que segue . 7) aponta que os incorporais operam “segundo leis que exprimem talvez em cada caso a unidade relativa ou a mistura dos corpos de que dependem como de suas causas reais”. os incorporais atuam localmente na provisoriedade de cada unidade relativa e nas interfaces. “Tanto que a liberdade se vê salva de duas maneiras complementares: uma vez na interioridade do destino como ligação das causas. não é no intuito de emparelhar ou sequenciar sentidos. 2013). Fuganti Quem observou o mundo em profundidade. Decidir p onde vamos [][ Plano de consistência é a coesão não do poder. mas do campo transcendental. percebe quanta sabedoria existe no fato de os homens serem superficiais” – Nietzsche. liga os fatos de maneira não determinística e confere um novo paradigma de liberdade dissociando as relações de causalidade. de fato. Logo. Deleuze (2000.

ameaçava subtrair a especificidade do problema colocado e o nível característico da arqueologia”. Ali onde a clínica se inclina não para sobrepujar com sua curiosidade e sede de saber sobre o corpo doente ou o cadáver – como no capítulo Abram alguns cadáveres d’O nascimento da clínica15 de Michel Foucault (2011) ou na famosa Lição de anatomia do doutor Tulp de Rembrandt16 – mas para produzir um desvio. p. Nicolaes Tulp. uma variedade de elementos díspares formam um saber. o pensador francês parece reiterar a análise é bem mais complexa e que. Em suma. Sentido. Signos e casos. Foucault (2011) destaca a tese da medicina anatomopatológica que condiciona o acesso a seu fundamento científico a se abrir e se debruçar sobre os cadáveres. 2011) trata especificamente: o espaço. uma pintura a óleo sobre tela em estilo barroco encomendado pela Associação de Cirurgiões de Amsterdã e pintada em 1632. 16 Trata-se do clássico De Anatomische les van Dr. também conhecido por Aris Kint. ela não assegura imetiadamente a formação de uma medicina clínica. Ver e saber. condenado à morte por assalto a mão armada no dia anterior à lição. Se atendo ao caráter errático e desviante da vida é que clínica do clinamen se faz como uma causalidade sem destino. Foucault (1986. e os capítulos antecedentes. No capítulo citado. Mais que uma simples retratação revisionista. . tentado várias vezes. 18) aponta que “o recurso à análise estrutural. esclarecem que à despeito de haver abertura de cadáveres a muito tempo – sob mais ou menos clandestinidade –. dadas por doutores anatomistas. corpos são abertos bem antes da anatomoclínica se constiuir como paragima moderno da medicina. o arqueólogo elucida o ponto da chave da medicina anatomopatológica articulado sobre a necessidade de conhecer o morto para 15 Neste ponto d’O nascimento da clínica. a linguagem e o olhar médicos. o clinamen sinaliza esta dimensão pática e de afetação da clínica. Sabidamente. Este quadro nos é importante pois sinaliza que desde o século XVII. clínica e clinamen: desvio e errância De fato. o corpo retratado no quadro é de Adriaan Adriaans. naquilo que O nascimento da clínica (FOUCAULT. lições de anatomia realmente existiam e aconteciam em anfiteatros. por exemplo. Comentando posteriormente esta obra.pensadores tão distintos desde Heidegger a Derrida e Preciado – de um lado como declinação das causas e de outro como conjugação dos efeitos. ainda mais um saber tão complexo e amplo como o da medicina ocidental. A obra retrata uma aula de anatomia do doutor Nicolaes Tulp.

pelo expresso na linguagem. p. Neste ponto. da Lição de anatomia do doutor Tulp ao trabalho de Bichat. ao exame clínico e da reorganização das instituições disciplinares. a dobra que permite que os gritos e murmúrios das profundidades corporais se separem das proposições. o cadáver não repousa mais na tranquilidade e no respeito global sobre o direito de apodrecer para se tornar a figura de revelação dos segredos do corpo vivo. uma clínica orientada na noção de clinamen e desvio esquiva-se desta determinação da realidade da vida pela organização do corpo morto dada na transformação fundamental do lugar social do cadáver. tendo sua matéria violada em nome da construção do saber sobre a vida. Entre os séculos XVII e o XIX. 215) se apoia na teoria Pulsional freudiana para pensar como esta energia indomável não-canalizável da profundidade corporal é. Esta é o forro.compreender o vivo. ou pelo . Deleuze (2000. Logo. A anatomopatologia se torna a mais profunda razão que funda e recobre o espírito médico do século XVIII a nível da análise dos fenômenos reduzidos a sua dimensão fisiológica. ação projetada e querida em sua efetuação e uma superfície metafísica (que é o campo transcendental). Todavia. Ver clinamen no apêndice sobre lucrecio LS [[[[]]]]] Deleuze (2000) coloca lado a lado uma superfície física em que a ação é imagem da ação. pelo menos como exigência científica. A compreensão da vida pelo paradigma da morte é justificado sob a lógica de causalidade determinística remete os sintomas a lesões fazendo da clínica uma derivação da anatomia patológica. desde a escola ao hospital (que começa a passar da esfera religiosa para a médicocientífica). a abertura de cadáveres deve preceder a observação positiva dos pacientes (vivos).

reinvestida sobre uma superfície metafísica17 ou como puro pensamento. buscamos fundar nosso próprio posicionamento. O que separa falar e comer torna a palavra possível. DELEUZE. 2000. Estabelecer correspondência. fora-de-si. "A linguagem é tornada possível pelo que a distingue. p. não se adequa à especificidade da noção tal como aparece em Freud (??) como “conversão a uma atividade socialmente aceita”. Dizer que o transcendental tem a imagem e a semelhança do empírico que viria a engendrar.108). a partir dos exprimíveis. uma outra perspectiva que. Sua neutralidade se deve à lógica empírica das proposições (cf. só há o abismo indiferenciado. Visa se esquivar de um Ego transcendental e de consciência constituinte para não aprisionar as singularidades num Ego individual (Moi) supremo ou em um Eu pessoal (Je) superior (cf. 17 De fato. Este reordenamento responde à alternativa da filosofia transcendental kantiana. ou a psiquiatria de Pinel. como a teoria da degenerescência. p. 191) Sentido: gênese e neutralidade Deleuze faz filosofia transcendental ao pensar o sentido como entidade nãoexistente que possui realidade. pode-se estranhar a ausência da noção de sublimação em uma tese em psicologia clínica que se propõe a trabalhar com arte. Ver conversão 3 imagens fil. segundo a qual fora da individualidade da pessoa. Com efeito. O que separa os sons e os corpos faz dos sons os elementos para uma linguagem. que supõe uma mente (transcendental) alienada para um sujeito alienado. em contraponto à lógica aristotélica dos termos. Confusão instalada pelo decalque do transcendental do empírico. mesmo trabalhando com a ideia de reinvestimento das forças profundas do corpo sobre um campo transcendental. o que separa as palavras e as coisas torna as proposições possíveis. operação superficie e normalização.menos pode ser. DELEUZE. 2000. A produtividade genética advém de sua ligação ao campo transcendental como pleno de singularidades. 108). . p. O que torna possível é a superfície e o que se passa na superfície: o acontecimento como expresso" (2000.

significação e sentido. A neutralidade do sentido o distingue da significação. Por outro lado. A potência genética vem da capacidade do plano transcendental de engendrar e organizar superfícies e ambos. a-subjetivo e pré-objetivo funda toda consciência. manifestação. a Deleuze encontra as condições de elaboração de uma teoria das singularidades que ultrapassa a síntese da pessoa e a análise do indivíduo tais como elas são ou se fazem na consciência. O campo transcendental. É a partir desta potência genética que a consciência será pensada como constituída e não mais como constituinte. A ontologia do objetiv serve para trazer o transcendental além de qualquer consciência. manifestação e significação traz o sentido como essa quarta dimensão da proposição. e não o contrário. as singularidades são acontecimentos transcendentais que através de um princípio móvel de auto-unificação presidem a gênese dos indivíduos e pessoas. a neutralidade pensada em relação à designação. que por sua vez possibilita a linguagem. Omo ordenar então as relações entre acontecimento X sentido X linguagem? A linguagem não detém o sentido. Não pertencendo a ela. ela não comporta ele. reflexiva ou não. na consideração sobre os efeitos de superfície estão na imanência do ser vivo. O que resta saber é como se dá este princípio móvel de autounificação. Com Simondon. remete ao acontecimento puro e a potência genética ao campo transcendental pré-individual e impessoal. Um certo vitalismo se expressa como . e de onde vem sua neutralidade e potência genética? A neutralidade. A renovação trata o sentido como acontecimento.O sentido é produzido e não dado ou determinado de antemão nas condições que o submetem a um condicionado. o sentido aparece como um acontecimento que envolve os estados de coisas. Deleuze desenvolve a idéia do sentido como extra-ser. Sua teoria das singularidades para pensar o campo transcendental como possuidor de acontecimentos. remetem o ser e o sujeito de volta às profundezas das misturas inomináveis – onde palavras são coisas. o sentido simplesmente aparece na linguagem. O campo transcendental é formado por singularidades impessoais e pré-individuais (Simondon) que levam a cabo os acontecimentos transcendentais. potência e plano. São determinados pelo próprio viver. quando falem. Com Meinong. A proposição é formada então por designação. O que importa nesta questão do sentido é: há sentido. As misturas inomináveis da profundidade do corpo produzem. como já vimos. engendram as tênues superfícies de sentido que. são determinados pelas singularidades.

ela consiste no aparecimento de fases no sistema metaestável. como um estado de dissimetria. a partir das emissões de singularidades. A singularidade é anti-generalidade e traz os limites do vivo..) pois o metaestável. 83) explica-nos o que é o sistema metaestável” como: a existência de uma “disparação”. ele o é à medida que. p. Deleuze (2000) recorre ao pensamento de Simondon para articular o campo transcendental sem sujeito. aleatório parcial em LS Os paradoxos dissolvem o bom senso e o senso comum. instituídos na superfície. nele. as interioridades são sempre forjadas ao sabor das circunstâncias pois em realidade. os destituem e os contrapõem. “A individuação seria o aparecimento de fases no ser defasado. Ver: acaso. uma diferença fundamental. O plano transcendental é correlacionado a um sistema de metaestabildiade no qual correm ordens de grandeza díspares como assinalado por Deleuze (1966/2006) em Gilbert Simondon. Deleuze (1966/2006. é perfeitamente provido de singularidades que correspondem à existência e à repartição dos potenciais. devém das formas de exterioridade. p. Seriam estas grandezas dispares as singularidades? Ao pensar a individuação como processo.. como diferença de potencial repartida em tais ou quais limites. portanto. dos contornos e seus limites. O paradoxal corresponde à disparation (disparação) das singularidades. entre as quais não existe ainda comunicação interativa. definido como ser pré-individual. ao passo que o problemático é característica do campo transcendental. a diferença existe como energia potencial. Todavia. 2000. Pois não se reparte uma interioridade. não a partir de um eu ou uma consciência dada de antemão. 78). [[averiguar se metaestabilidade pode ser casada à dimensão polarizada e normativa da vida em Cang]] . Ele implica. O devir do ser é o surgimento de fases neste sistema díspar. sem fases que é a condição da individuação. se ele é sistema. “Os paradoxos de sentido são essencialmente a subdivisão ao infinito (sempre passado-futuro e jamais presente) e a distribuição nômade (repartir-se em um espaço aberto ao invés de repartir espaço fechado)” (DELEUZE. de duas escalas de realidade díspares. ao menos de duas ordens de grandeza.potência genética do sentido. os verdadeiros acontecimentos transcendentais que se fazem sobre uma superfície inconsciente sob o princípio de auto-unificação por distribuição nômade. (. o indivíduo e sua gênese físico-biológica.

As singularidades correspondem à repartição dos potenciais que vão levar a cabo a individuação. a disparação entre singularidades? Desde a ressonância interna. como no domínio físico. por conseqüência. conforme o modelo fundamental do devir: o vivo conserva em si uma atividade permanente. o princípio de auto-unificação aparece em meio às ordens de grandeza díspares. como a do indivíduo físico. mas a individuação não se produz mais. que exige comunicação permanente e mantém uma metaestabilidade (SIMONDON. o meio empobrecido do indivíduo que ele não é. mas é acompanhada de uma individuação perpétua que é a própria vida. tornar a individuação do vivo similar à do físico. deixando atrás de si uma dualidade do meio e do indivíduo. como origem absoluta. e o indivíduo não tendo mais a dimensão do meio” (SIMONDON. 104) Que é condição da própria vida. e o indivíduo não tendo mais a dimensão do meio.Se o sistema metaestável é a condição para a individualidade e sua formação. brusca e definitiva. apenas de maneira instantânea. ele não só é resultado de individuação. p. sistema metaestável e energia potencial. A atividade do vivo. Sem dúvida. 2003) No domínio do vivo. Entre eles. quântica. 2003. Simondon mostra-nos que existe diferença entre a individuação do físico e do vivo. . tal individuação existe também para o vivo. Deleuze pensa “o princípio de auto-unificação entre as emissões de singularidades: o ponto aleatório que aparece em meio ao ser sem fases e que começa por se individuar. existe nele um regime mais completo de ressonância interna. condição e uma espécie de suporte para a individuação. como o cristal ou a molécula. o meio sendo empobrecido do indivíduo que não é. A normalização almeja. deixando atrás de si a dualidade meio e indivíduo. a singularidade se encontra finalmente desvencilhada dela. O processo de individuação é pensado por Simondon como culminando num coletivo transindividual o qual permitirá que os problemas. “domínio físico. quântica. pois seu campo transcendental é antes. a mesma noção de metaestabilidade pode ser utilizada para caracterizar a individuação. Deleuze ressalta os conceitos de “disparação”. não está toda concentrada em seu limite. que as fases sucessivas da individuação biológica e psíquica não conseguiram resolver. suas estratégias consistem enquanto política cognitiva. mas também teatro de individuação. sejam solucionadas”. A ressonância interna é a relação entre energias díspares. brusca e definitiva. apenas de maneira instantânea.

o primeiro momento préindividual. p. do virtual que se atualiza. Como a individuação atua desde sua condição de possibilidade no campo transcendental. 107) ela estabelece uma comunicação interativa entre as ordens díspares de grandeza ou de realidade. ao mesmo tempo possuir uma potência genética a ponto de gerar indivíduos? O indivíduo é inseparável do pré-individual. Deleuze (2000. ressonância interna e a do problemático)? De acordo com Deleuze (1966/2006. do controle. o âmbito virtual consiste em extrair. 109) afirma que o “sentido tem por estatuto o problemático: as singularidades se distribuem em um campo propriamente problemático e advém neste campo como acontecimentos topológicos aos quais não está ligada nenhuma direção”. mas acontece nos interstícios. organizando uma dimensão nova na qual eles formam um conjunto único de grau superior (por exemplo. No pensamento de Simondon. aos indivíduos). uma estrutura de coexistência pré-existente aos seres (de lugares que antecedem aos ocupantes.Sentido e Individuação Para além da individuação biológica. O campo . das singularidades que se atualizam em individualidades e estas que se desingularizam em virtualidades. Deleuze parte de outro pressuposto. ou que ela atualiza a energia potencial ou integra as singularidades. implica num topos mutante. Seu pensamento instaura uma nova topologia transcendental que. impessoal e pré-individual (com suas características de energia potencial. justamente por estar provida de um sentido objetivo: com efeito. Como o sentido pode ser neutro em relação às proposições e às coisas e. a categoria do “problemático” ganha uma grande importância. p. Sentido e problemático. as casas ou as cadeiras. vivo e Simondon Assim. a apreensão no biopoder. nos não-lugares. primeiro se montam os lugares. Ser e não-ser caminham juntos inalienavelmente. No estruturalismo. de um domínio. e depois a virtualidade está no movimento das peças sobre as casas. a individuação transindividual escapa à normalização. ela já não mais designa um estado provisório do nosso conhecimento. que não se fixa em lugares. a profundidade no caso das imagens retinianas). mas um momento do ser. um conceito subjetivo indeterminado. e a psíquica. nômade. ou que ela resolve o problema posto pelos dispares. embora conserve a idéia de coexistência virtual das multiplicidades. ali.

A criação de lugares. da contração muscular ou da assimilação. quando nenhuma formação particular materializa o limite. A energia potencial do vivo é dada pelo próprio caráter assimétrico da permeabilidade celular que propicia o trânsito e a passagem de substâncias acarretando a despolarização celular. O vivo pode ser colocado no espaço euclidiano como um topos ao lado de outros. um quase-acontecer que é um quase-nada pode configurar este acontecimento. anatômica ou apenas funcionalmente diferenciada. Assim. um estranhamento. crítica aos lugares prévios do estruturalismo. O vivo produz um tipo particular de espaço que não obedece às relações físicas e energéticas habituais. A membrana viva. deixando passar tal corpo no sentido centrípeto ou centrífugo.transcendental constitui esta topologia de superfícies e de singularidades nômades. a ressonância interna e a disparação. é a energia potencial que atravessa a célula que permite este fenômeno. tornando o sistema metaestável e avalizando a aproximação que Deleuze (1966/2006) faz entre a energia potencial em jogo na dinâmica celular e o campo transcendental sem sujeito. somente podem ser pensados na especificidade dos problemas que lhe concernem e definem suas condições. Dentro deste esquema. . caracteriza-se por aquilo que separa uma região de interioridade de uma região de exterioridade: a membrana é polarizada. opondo-se a passagem de tal outro (SIMONDON. um abalo. 1964. mas sim que os acontecimentos são indissociáveis. um questionamento existencial. é o caráter assimétrico da permeabilidade celular. quer se trate da condução do influxo nervoso. porém sua constituição carece de profundidade. um ressentimento. O vivo produz um campo transcendental no qual se põem em relação a energia potencial. são a criação de condições de possibilidade. fenômeno que ocorre como se houvesse uma bomba de sódio e potássio que o disparasse. Porém. Afirmar que o modo do acontecimento é o problemático não quer dizer que ele é em si problemático. uma das propriedades encontradas na base de todas as funções. pré-individuais e impessoais. L’individu et sa genese physico-bioligique). Uma crise psicótica. Simondon (1964) exalta a repolarização da membrana.

“Em Platão. pois o lugar é um incorporal. no pensamento íntimo dos Estóicos. 2000. enquanto nos estóicos os limites e as forças causais se singularizam. A filosofia platônica das alturas articula a Ideia às coisas sensíveis que se desdobram sobre um espaço euclidiano sob a forma de ideias gerais ao passo que a superfície dos estoicos opera os vínculos entre os seres e o limite. o platonismo localiza as causas no incorporal da Ideia. 106). a geração do semelhante pelo semelhante. Os corporais se organizam ao redor de um campo referencial que opera os limites móveis numa topologia das singularidades e da biologia que trabalha a diferença dos seres. especificamente os seres corporais (enquanto essência afirmativa particular de um conjunto de particularidades) têm limites. O próprio mineral com a coesão de suas . Mesmo no caso contrário. o devir e a corrupção. p. p. À diferença dos estoicos. o vivo vive no limite de si mesmo no sistema de metaestabilidade. os outros seres são. são os limites do provisório e do permanente – distinguindo o fenômeno e o eterno. suas capacidades latentes”. privilegiando a diferença em vez da semelhança” (ULPIANO. similares ao vivo.27). como não-lugar) fora das categorias aristotélicas de continente e conteúdo (de onde deriva o problema do contingencial?). que limita a estátua através de um ponto exterior a ela. porém não é produzido como no afazer do escultor. Deleuze (2000) pode articular o plano transcendental sobre as singularidades impessoais pré-individuais. O limite é crucial no pensamento estoico que opera com a topologia ontológica e não com a geometria da ordem classificatória das alturas platônicas que compreende a realidade em termos de cópia e modelo. mas sim como um gérmen que se desenvolve até um certo ponto do espaço.Desembaraçado dos condicionantes kantianos da percepção e do sujeito transcendental. segundo Sextus. alguns fatos onde eles concluíam que existiam causas: a semente e o desenvolvimento de uma planta. 1998. a vida e a morte. não os incorporais. Para Simondon (1964 in DELEUZE. na relação do copo com as causas: Ora é aí que está situado para os Estóicos o problema das causas. 4-5) encontra nos estoicos o gérmen do vitalismo numa filosofia voltada para a vida. desde as ações e paixões do corpo engendram efeitos de superfície e sua própria superfície. mais que sua classificação. Eis. Os limites são dados desde as tensões internas. e apenas até este ponto. Os exemplos são quase todos recebidos dos seres vivos. o governo do mundo. “Tal limite. Brehier (1980. Assim o limite é pensado como lugar (ou melhor. p.

significa que ele não é. Que o problema não exista fora das proposições que o exprimem como seu sentido. Como a vida só pode estar no vivo. (. como no vivo. A neutralidade é um efeito. unidade sempre móvel.” . Assim. O problemático aparece na série do mundo e da linguagem como neutro. quando dizem que o prazer não é um bem. porque eles dizem: ocorre a certo prazer não ser um bem. p.. subsiste ou persiste nas proposições e se confunde com este extra-ser que encontramos precedentemente. as causas corporais só podem estar nos elementos corporais. como a vida só pode estar no vivo. Em todos os casos. o que consiste em pôr o que ocorre a este prazer. ou almas nos animais. falando-se propriamente: ele insiste. elas denegam um objeto de alguma coisa.. unidade de um recipiente? Como as partes do ser são reunidas de maneira a persistir? Será. destituímos o prazer da qualidade de bem. como sistema diferencial ao qual corresponde uma emissão de singularidades. Assim o dado a explicar-se é a mudança do ser. 127). que é sempre análoga a evolução do vivo. Mas este não-ser não e o ser do negativo. quer chamemos esta força Exis nos minerais.. impassível e estéril. 18 Citando Apuleu. possui uma unidade análoga a de um vivo.partes.. é o ser do problemático (DELEUZE. A articulação do vivo com alguma forma de estrutura aparece na definição de vida da biologia do conhecimento contemporânea (ver concurso Campos). p. natureza nas plantas. de dobra na superfície operada pelas causas corporais. é indispensável que ela esteja no próprio ser do qual constitui a causa. por uma força interna que os mantêm. Deleuze (2000.) Qual é a natureza desta unidade do vivo. o campo transcendental se encarrega da topologia do posicionamento de acordo com a realidade pululante das singularidades que o habitam com sua ação de pôr e depor18.independentemente se é afirmativa ou negativa – do problemático é caucionada pelas proposições que o exprimem como sentido correspondente à sua posição como problema. Em sua ordem paradoxal. Isto é: a manifestação neutra e positiva . 128) aponta que “certas proposições são depositivas (abdicativae): elas destituem. Mas os Estoicos estimam que mesmo esta proposição é positiva (dedicativa). 2000.

MP?? Sentido e o problema não é a proposição: Por não ver que o sentido ou o problema é extra-proposicional. Mas a dialética perde seu poder próprio . Linha de fuga está ao lado do indiscernível e da disjunção inclusiva. começa a história de sua longa desnaturação. perde-se o essencial. Todavia. então. O sentido é constituído no tema complexo. p. Normalização dos corpos e normalização psíquica. potência de gênese desde a qual subjetividade e objetividade são viabilizadas.Passagem da codificação para a axiomática corresponde nos dois volumes de Capitalismo e Esquizofrenia à passagem sinalizada por Deleuze (1992) da disciplina ao controle. o uso das faculdades. e a combinatória é o cálculo dos problemas enquanto tais. mas o tema complexo é o conjunto de problema e de questões em relação a que as proposições servem de elementos de resposta e de casos de solução. por natureza. de toda proposição. 2003.quando ela se contenta em decalcar os problemas sobre as proposições (DELEUZE. sem mesmo a segurança de que ter qualquer significação. a gênese do ato de pensar. o campo transcendental problemático não deixa de apresentar. que servem ou podem servir de respostas (DELEUZE. contudo. que faz com que ela caia sob a potência do negativo . loucura em DR Sentido. Em outras palavras.e. as teorias da significação privilegia tudo aquilo que é passível de existir. doação de sentido e significação: subjetividade e objetividade Tradicionalmente. Sentido e problema O sentido está no próprio problema. 2003. que ele difere. p. 154). A dialética é a arte dos problemas e das questões. 154). sem se perguntar pelo sentido do que acontece entre as vidas: o sentido que sustenta toda e qualquer significação Sem significação assegurável. Ver: Simondon em LS. esta definição exige que nos desembaracemos de uma ilusão própria da imagem dogmática do pensamento: é preciso parar de decalcar os problemas e as questões sobre proposições correspondentes. a condição de instauração da consciência e da significação do mundo – .

mas como deriva trágica (sem fundamento) do devir do ser ou. em si pleno de sentido na leve desobrigação com toda e qualquer significação. a qual. para tomar mesmo antagonista que Deleuze (2000) na Lógica do sentido. como o aparecimento de fases no ser sem fases. movimento de individuação produzido sobre uma superfície capaz de delimitar instâncias de dentro e fora. linguagem e mundo. 1995/2007) se organiza na composição com o acontecimento transcendental. a produção de sentido é dada no e pelo campo transcendental que. visto que homem e mundo aparecem necessariamente envolvidos por acontecimentos que os transbordam. a tarefa deleuzeana de ampliação da metafísica pela introdução de objetos impossíveis e pela interposição de um campo transcendental pré-subjetivo e pré- . Destarte. nos termos de Gilbert Simondon (2003). 1966/2006. assim como o encontro e o contato entre os sujeitos e o mundo. na simultaneidade e co-emergência de consciência. como terceiro termos do manejo das forças. nos termos nos quais estamos levando a discussão. a individuação propicia a constituição subjetiva não como processo guiado de rota existencial. se dá como acontecimento transcendental. a inventividade é tomada por criação de possíveis. Condicionada fundamentalmente pelo campo transcendental. Pois é desde o campo transcendental a-subjetivo e pré-objetivo que se nos constituímos como sujeitos. sem fundamento nem telos garantido ou antecipável. Por conseguinte. não é dado de antemão. Escapando tanto à subjetividade quanto à objetividade. Deste modo. a produção de sentido não configura um processo teleológico como a doação de sentido que na fenomenologia de Husserl (1975). aparece como doação ora da consciência ora da linguagem. Sob este aspecto. embora a-subjetivo e pré-objetivo. e tanto indivíduo quanto meio têm o acontecimento transcendental como base e fundamento. como capacidade de dobra e redobra das forças. Entre sujeito e mundo. mas engendrado no embate agonístico das forças constituintes. a produção de sentido se constitui como processo inventivo insubordinado. Não tendo como origem ou fundamento nem a subjetividade nem a objetividade. a ontologia de Gilles Deleuze (2000.para usar os termos com os quais os problemas da subjetividade e da objetividade são abordados pela fenomenologia – na superfície física é a potência genética intrínseca ao campo transcendental. Independentemente de qualquer significação deste campo transcendental. ele é que confere as formas que constituem o sujeito. subjetividade e objetividade.

Mundo e sujeito. aparece na superfície que. biológica.objetivo ganha um valioso intercessor na proposta de entendimento ontológico de Simondon. salvaguardar ou impor um direcionamento seguro de sentido. psíquica e coletiva. a significação e a designação aparecem a posteriori. comunicação entre ordens de grandeza e estabilização”. a manifestação. a manifestação da vida que cada indivíduo humano efetiva consigo. A indivíduo humana se faz sobre um campo transcendental povoado de singularidades. que transcende sua constituição enquanto organismo material. com os demais e consigo mesmo é inseparável deste aspecto singular da vida transcendental que inalienavelmente o constitui. por sua vez. FOUCAULT. Ele aparece numa superfície como continuum incorporal caucionando a distinção entre cada corpo individual. Frente a isto é que Simondon (2003. Campo neutro. objetividade e subjetividade não possuem sentido por si mesmos. a vida bilogicamente considerada na captura pelo biopoder (cf. num campo transcendental. logo. Entre sujeito e o mundo é que aparece o campo das significações. 20???). O sujeito. p. filtra. é transcendental e sua relação com o mundo. O modo de individuação do homem coincide com a individuação sobre o campo transcendental. Deleuze (2000) enfatiza que a gênese do sentido é concomitante à individuação. portanto. A individuação físico-biológica do humano se dá. seleciona de alguma maneira o que o que atravessa a superfície constitutiva do sujeito. que geralmente supõe dualidade original das ordens de grandeza e ausência inicial de comunicação interativa entre elas. resultante do processo de individuação do vivo. Simondon (2003. o que faz da vida singular transcendental. 104) assinala que “o verdadeiro princípio de individuação é mediação. uma vez que a individuação físico-biológica do humano se distingue da individuação física do mundo e de seus objetos por sua múltipla composicionabilidade que implica a simultaneidade da individuação física. Uma vida. 2009) distingue ambos de acordo com diferentes princípios de individuação. potência genética de engendramento de sentido que é concomitante ao processo de individuação. Entretanto. num movimento secundário em relação ao que o campo transcendental estabelece como puro sentido na concomitância a sua vida singular. em seguida. não podem conferir. Podemos sintetizar que a questão da preferência concerne a esta superfície e designa a normatividade vital .

Logo. e o efeito subjetivo é a loucura capturada na ordem profunda do corpo. que faz as passagens entre as superfícies física e transcendental e a profundidade corporal. não se sabe mais o que se é. já que os termos de escolha nem sempre são claros. Ela corresponde à dimensão intersubjetiva na qual o psiquismo constitui o traço distintivo entre o Eu (Je) e os outros eus – dados desde seu potencial de mudança no tempo como eu impessoal (Moi) conforme Deleuze (2011) – que coabitam o mundo. uma opção que muitas vezes não é por aquilo que se escolhe viver. A dissociação entre ambos ocasiona a falência. a rota existencial de cada um é construída paralelamente à relação entre indivíduo e meio. Nesta dimensão da superfície é que os indivíduos se distinguem por conta do psiquismo. . tampouco como subjetivação absoluta. conscientes ou objetivos”. 2013. confusão corporal esquizofrênica – situação de terror na qual a loucura é capturada na ordem do corpo. Portanto. Viver é fundamental e intrinsecamente escolher. por rasgo ou explosão da superfície de sentido. perpassando aquilo que fora estabelecido como dentro e fora na individuação físico-biológica do sujeito19. constituído como superfície física de limites dentro/fora no mundo é indissociável do eu impessoal constituinte. 73). o que chamamos sujeito se dá nesta superfície subjetiva sustentada na filtragem do material bruto da profundidade dos corpos. enquanto ação fundamental da vida. apontando que “todo exercício de normatividade. fechada sobre si mesma. dos gritos. mais apuradamente. A falência desta superfície causa a perda do sentido e subsequentemente da significação existencial. preferir e excluir pois a própria normatividade vital característica à manifestação da vida no vivo é um processo de escolha. na qual ela se transforma sim em 19 Ressaltamos o que consideramos uma veia nietzschiana do pensamento de Canguilhem (2002. 2005) no texto de A voz do silêncio (PRADO.positiva e negativa a partir do que passa na membrana. como viver aquilo a que a vida relega. a significação da existência individual. presume uma escolha de fundo. Consequentemente. Tal distinção é dada nos distintos modos de individuação assentada sobre um campo transcendental pré-objetivo e sem sujeito. Pois o meio não é nada menos que o mundo no cerne do qual o indivíduo é individuado num processo inseparável de sua realidade pré-individual. não como processo teleológico adaptativo no qual se determina de antemão o sentido desta rota a partir das forças do meio. o Eu pessoal. mas. p. ruídos e sussurros abismais que não se confundem com as proposições da superfície.

das forças constitutivas que atravessam a existência. ressonância interna das séries. (Posteriormente elas se auto-comunicam. Ela não se resume à sua manifestação na superfície do vivo. não submetido a um Eu.) A fim de operar seu pensamento fora do âmbito do princípio de não-contradição sem lançar mão. visto que sua . 2011). A partir de Simondon. não raro. ora no hospício. onde se reproduz o possível e se forja o impossível assim como as capacidades de sua efetivação. Artaud parece habitar (in)constantemente o limiar deste rasgão. nem se submete ao princípio de não-contradição. destas energias potenciais que não se comunicam. mas da energia potencial. dada por não um elemento transcendente qualquer – nem sequer como consciência nem como Eu transcendental – mas por um plano de imanência no qual as singularidades se distribuem em um campo propriamente problemático mediante diferenças de potencial. portanto. formando singularidades que atravessam os indivíduos. organização do sentido. Não há estrutura que dê conta. superfície topológica das membranas. da entrada numa organização de superfície. ou que descreva o acontecimento. toda significação depende. de instâncias transcendentes. Sentido. vida e campo transcendental Deleuze (2000) enumera cinco características do campo transcendental – energia potencial do campo. ora na obra. Deleuze (2000) se volta para a vida. O impossível aparece quando sentido é desvencilhado do condicionante da não-contradição. O sentido aparece na proposição que repousa na superfície. entretanto. mas enquanto instância ou campo transcendental imanente. em ambos padecendo do juízo sobre uma profundidade atroz na qual reinam horror e não-senso (DELEUZE. A potência genética deste plano de imanência produz dobras e superfícies desde onde podemos então pensar o pensável e o impensável. como um Eu ou uma origem superiores.doença. que não portam sentido em si. ele propõe a noção de disparação como modo de repartição das forças. Neste âmbito. estatuto do problemático – para afirmar que a superfície é o lugar do sentido. uma vez que é o sentido que se dá a partir do próprio acontecimento. Mais que dos signos. Deleuze (2000) pensa o campo transcendental fora da ordem da estruturação.

de engendramento de sentido. que do poder não se escapa. pois.. Distinto dos estados de coisas da superfície. A produção da loucura é o acesso e o manejo deste campo transcendental? O que quer dizer que a vida manifesta sua errância na superfície do vivo? Ora. cada existência humana é uma vida (DELEUZE. ao campo transcendental. uma ideia muito simples de consequências profundas: significa que cada ser acontece na vida de modo diferente de outros seres vivos. De acordo com Deleuze (2000). o acontecimento condiciona a própria existência mesma da linguagem. Tampouco o processo de individuação não é estruturado como um caminho que leva do não-sentido a um sentido previsível. e a imanência como uma vida sem sujeito e sem objeto: acontecimento singular que se dá na superfície do mundo e da pele. a vegetais.. Em seu último texto — A imanência: uma vida — ele insiste sobre o aspecto transcendental como imanência. à construção deste plano de imanência como uma superfície metafísica de produção de sentido. se a vida frequenta a superfície. que ele está em todos os lugares. vida de sentido?]] Mesmo onde não há significação. biologicamente considerada e seus desejos e pensares. ela é inseparável do sentido. 1995/2007). assim como sua própria vida. Como se articula a vida em seu aspecto transcendental então? A vida transcendental não se submete. não se restringe. Neste aspecto é que podemos traçar linhas de fuga à apreensão totalizante do poder. Uma vida é uma vida de sentido. esta que faz Foucault (??) afirmar na Microfísica do poder. aos estado de coisas não existentes. A vida transcendental condiz menos ao vivido que ao vívido que pulsa como acontecimento insubordinado. ela se liga. logo.. Consequentemente. Destarte. a filosofia do acontecimento é uma filosofia da . de funcionamento e individuação. [[Nancy. há sentido na contraposição do princípio de não-contradição. a animais. como na fenomenologia. nenhum sujeito como fundamento transcendente que lhe garanta. entretanto. A vida transcendental se liga à própria potência de engendramento subjetivo. não acaba na finitude estritamente material. em relação a outros humanos. biopolíticos e de controle que capturam os movimentos e o tempo dos indivíduos. transcendentais. uma vez que está relacionado aos impossibilia.força vital é força de errância e diferenciação. um acontecimento dentro da vida e do acontecer do viver. a vida transcendental não tem. Ela não se submete à apreensão totalizante que os poderes exercem sob dispositivos disciplinares.

antes de tudo.imanência. conforme pensada por Duns Escoto enquanto desdobramento do problema aristotélico da individuação que parte da inefabilidade própria ao indivíduo. não se confunde com seu possíveis resultados. a diferenciação formal dos indivíduos entre si é atribuída a tal campo pleno de singularidades. Deleuze acabará denominando de empirismo transcendental o sentido do acontecimento viver. embora não possa ser reduzida à esfera da subjetividade. nem mesmo como regra de estruturação processual como elo que liga a origem (archké) a um destino. Uma vez que a individuação se dá como operação própria ao campo transcendental. com as pessoas em sua forma global e gregária. se manifesta de distintos modos em cada um. A vida. O sentido que se dá em uma vida predica. A singularidade. a um fim (telos) que indique ou salvaguarde suas resultantes. na ausência de todo fundamento. constituído por e nas singularidades nômades. resulta na contra-efetuação dos processos de subjetivação. separação. por sua vez. será denominada uma vida. a vivência. ela se distingue da objetivação do indivíduo especificado como corpo biológico sob a matéria de seu substrato natural. Embora uma vida corresponda ao campo transcendental não sendo guiada. assim como o sentido e o . Esta dinâmica transcendental do acontecimento coexiste e coabita a experiência subjetiva de cada pessoa concreta. Assim. em suma. O ponto chave é que o pensador francês retoma a individuação ligada ao sentido. é um acontecimento (incorporal e impessoal) que coexiste com o homem e sua experiência subjetiva. como uma vida singular. de um sujeito autônomo ou mesmo à consciência individualizada. à constituição pessoal de cada um. esta dinâmica processual. confere predicados. Antes. seu procedimento. porém. o sentido é o acontecer incorporal que envolve os entes. O viver. aos corpos particulares. Deleuze evita o idealismo transcendental justamente por não se ater à subjetividade transcendental pensada por Husserl a pessoa e o indivíduo são modos de vida. se dá como individuação sobre um campo transcendental problemático cujo processo desagua. distinção e não-contradição. O indivíduo e a pessoa são pensados. Com essa noção de empirismo transcendental. os corpos dos indivíduos em seus processos de subjetivação. formando sujeitos singulares. Onde entra o sentido neste processo? Se ele não é dado de antemão. O debate filosófico levantado por Deleuze (??) em vários momentos de sua obra coloca este problema ao lado da hecceidade.

como horizonte de uma subjetividade transcendental. não será no interior de uma subjetividade constituinte.acontecimento. um campo de experiência transcendental. seu sentido incorporal. resolver. A heterogênese se desdobra a partir de um plano caosmótico como aponta Guattari (1992). 158) pondera que “resolver é sempre engendrar as descontinuidades sobre fundo de uma continuidade funcionando como Idéia.” A subjetividade nasce deste campo transcendental de individuação. pelo contrário. De acordo com Bento Prado Jr. caos. plano em que o caos é tomado não como abismo indiferenciado a ser abolido em seu horror essencial. como imanência e potência de engendramento. os agenciamentos do campo transcendental. 145-6) a perspectiva bergsoniana sobre a experiência transcendental se desvencilha da subjetividade: A redução fenomenológica. ao transformar o mundo em sistemas de fenômenos ou de noemas. Frente a esta característica da predicação. heterogênese Porque funcionam como quase-causa. [[Predicação predicados. p. via de regra. a seu lado que se desenrola a individuação como campo problemático pois sob a lógica bergsoniana ou canguilhemiana. abre o campo da experiência transcendental. no interior do campo transcendental. o caos é interpelado em sua dimensão problemática. contudo. é com o caos. o problema aparece como o elemento que tensiona a questão. Em Diferença e repetição. De certo modo. Deleuze (2003. Ver sentido e vida [Nancy]] Vida. um organismo ou psiquismo qualquer constituídos. em especial da filosofia deleuzeana do sentido. De alguma maneira. pelo princípio de distinção e não-contradição da superfície física. a predicação sobre os entes e os corpos é regulada por estes princípios nesta dimensão superficial da significação. da diferença irredutível à similitude de qualquer filiação. transcendental. é a partir da noção de indeterminação ou de introdução de novidade que assistiremos. Se a redução bergsoniana instaura. p. entre o psiquismo e outros psiquismos. pela e sobre resolução de problemas – problemas entre o vivo e o meio. o acontecimento é pleno de sentido. etc. ao nascimento da própria subjetividade. dentro do campo do sentido. constituem propriamente uma heterogênese. também como veremos. ou que sua designação seja impraticável. (1988. a criação do que é distinto. podemos . mesmo que careça de significação.

enclausurada na doença do corpo e sua vivência determinada por um enlace psicossocial que a relega às formas historicamente de se experimentar uma constituição diferente e insubordinada aos modos de existência padrão. as condições de possibilidade de um espectador em geral. Assim. não implica necessária ou unicamente revelações ou vivências interiores de uma consciência que podemos experimentar como mais profunda. Tal qual em Simondon (??) a individuação é a resolução de problemas sem um sujeito de base. mas ele não é dado de antemão. Desvencilhada de ser pensada como generalidade ou sob o signo de uma totalidade. O transcendental é o que cauciona a superfície de sentido. De fato. Assim. na superfície do vivo. ?? ÉTICA OU ENSAIOS). a vida se manifesta deveras materialmente na distribuição singular entre os indivíduos. . uma vida transcendental não se reduz a sua manifestação nos vivos e apresenta uma variedade de aspectos que inviabilizam a redução dos sentidos dados por e neste campo transcendental aos problemas de significação. tornando-se possível o espetáculo. ela incorpora um espectro problemático mais amplo. Decalcar o transcendental do empírico corresponde a reduzir o problemático à proposição (exposta no enunciado) ou o sentido da significação. Zourabichvili (2004. a elisão do aspecto neutro e a inibição da potência genética do acontecimento. uma vez que é construído a partir da realidade profunda do corpo animal (cf BADIOU. a loucura é de fato restringida ao vivido. criam-se. A novidade e a indeterminação brotam no seio do problemático campo transcendental. toda produção de sentido e de individuação se passa sem um sujeito de calção. Mais precisamente ele é o lugar onde. A experiência transcendental. 2004a) entende que a ideia de gênese em Deleuze se articula com e sobre a de devir. O apelo empírico de tal redução tem como efeito imediato a coibição. O sentido se esquiva da significação precisamente pelo campo transcendental se estabelecer como um meio no qual se dá a gênese de sentido. ao mesmo tempo.dizer que o sistema de imagens corresponde à idéia de um espetáculo sem espectador.

a proposição é independente tanto de linguagem e pensamento quanto estes o são de enunciados e juízos. . aquém do princípio de não-contradição. pois ela diz respeito somente à superfície física. Sentido e proposição. Porém. Retirandoo do solipsismo e da paralisia frente às coisas é que se lança o pensamento a uma experiência transcendental. podemos aproximar algo como proposição em si ao incorporal exprimível dos estoicos. acontecimento e filtragem Por um lado. p. 27). Ontologicamente anterior à ordenação e separação dos indivíduos e de sua operacionalização enquanto sujeitos pessoais. valendo-nos da leitura de Cauquelin (2008. ou com um ato intencional como em Husserl. Por isso. Entre comer e falar. tempo e vazio muito próximas à existência sensível dos corpos. Por outro. é contemporâneo à significação. a dinâmica descritiva da proposição é a que mais se parece com a dos corpos à despeito dela não possuir existência corporal no espaço e no tempo. proposição tem seus limites alocados na remissão a sua ocorrência restrita ao espaço lógico dos estados de coisas. e se torna proposição na superfície da boca de quem a pronuncia. das coisas e da vida. Deleuze (2000) conclui então que o acontecimento é a condição para o pensamento. mas como efeito de um acontecimento. linguagem. ao qual é incutida noções como lugar.Tendo em vista a realocação do sentido como acontecimento na superfície do mundo. enunciados e juízos. de fato. esta voz de sentido se sobrepõe aos ruídos não pela via da consciência de um eu transcendental. manifestação e designação embora logicamente anterior a eles. a relação profundidadesuperfície leva a boca à linguagem no ponto em que sua voz se distinta dos gritos e murmúrios da profundidade corporal. Livre de pensamento. efetuado como um estado de coisas que se sustenta num espaço lógico. Uma vez que o campo transcendental constitutivo é concomitante à existência individual da pessoa. o campo transcendental é ainda contemporâneo ao indivíduo e à pessoa concreta. ser do sensível que dá base ao ser do fenômeno. pensar – que é pensar o impensável como ressalta o ensaio de Zourabichvili (2014a) sobre o pensar acontecimental deleuzeano. como gênese estática lógica. efeito de filtragem do que vem da profundidade. Ao que lhe interessa. podemos concluir que o sentido. podemos então redefinir a vida humana fora de uma essência subjetiva fundamental – ego transcendental (como unidade sintética de apercepção) ou mônada (centro de visão ou ponto de vista) – e a partir do próprio ser problemático do campo transcendental.

é o acontecimento que filtra? Não. Onde está a locurua e a criação artística? O que acontece no mundo torna-se sentido na proposição. Doação de um sentido q está transcendental e é operado numa superficie. Se por um lado a experiência de si coexiste com a experiência do mundo. o sentido não é a efetuação de algo que está noutro plano. é a superficie. a proposição expressa o acontecimento. sentido e acontecimento se agenciam como uma Gestalt que não se resume à soma dos termos. Ele passa pela filtragem da sueprficie corporal do vivo e pelo acontecimento. pois a sentido da proposição não está na simples combinação de palavras. é. não se trata de significação. de fato uma experiência transcendente em relação ao mundo e a nós mesmos muito embora a experiência de si mesmo. de maneira que o próprio sentir. ou a experiência imanente. Consequentemente. que é a vida??? A vivencia? Insubordinada? Trágica. por outro. a proposição em si está próxima ao acontecimento pensado como incorporal por Deleuze (2000) uma vez que nela reside o sentido de toda proposição pensada. sem a intermediação de um sujeito ou consciência transcendental. Com efeito. mas um incorporal. . possibilitando as inversões na linguagem e os paradoxos no tempo que caracterizam as sínteses disjuntivas na irredutível diferença do tempo em relação às coisas. concomitante à do mundo. a aparição dos acontecimentos no mundo evidenciam que sujeito e mundo estão por eles envolvidas. pelo tempo desregrado. seja.Assim como se aproxima do exprimível. o snrtido é efeito simultâneo de um acontecimento e da filgtagem da superfície. escrita ou pronunciada. sem fndamento?? Já que o acontecimento não é uma coisa. proposição. insubordinado. Duas series paralelas mediante uma instancia paradoxal. por sua vez. o próprio sentir perceber e o próprio sentir pensar dão-se ao modo de acontecimentos. ele não é significação. Sentido e acontecimento transcendental O acontecimento é transcendental em relação à superfície física (empíricomaterial) sobre a qual efetuamos nossa experiência. mas no que exprime certa combinação de palavras no instante em que se dá.

Os acontecimentos conferem sentido às esferas da subjetividade e da objetividade ao envolverem-nas em suas superfícies. “eu é um outro” (RIMBAUD. afirmar que eu é um outro implica deslocar a dimensão pensante do sujeito retirando-a do centro da significação ontológico-subjetiva. à despeito dos limites objetivos e subjetivos que nos separam dos outros e das coisas na superfície física. ver Filordi. de sua inteligência. caracterizando-se mais pela representação da atividade que faz para si que por uma ação ativa. Isto quer dizer que o Eu é um paradoxo do sentido íntimo. Quanto ao o sentido e aos acontecimentos. o tempo acontecimental é o tempo da velocidade absoluta.Os acontecimentos se dão desde a superfície transcendental. da determinação seus modos nem delimitação de seu ser tendo em vista que o Eu pensante é necessariamente . vivida como Outro nele: logo. A passividade do Eu (eu impessoal ligado ao campo transcendental) condiz à sensibilidade de seu pensamento. 157). pois sujeito e objeto são necessariamente pensados e sentidos na inseparabilidade do que acontece em sua superfície. como atividade ou passividade[[. como instante sem expressão em contraste a presença absoluta do presente do tempo em Cronos. p. mundo e objetos configuram-se na sustentação de certa superfície que mantém seus limites mais ou menos estáveis e especificados. Acontecimento e dessubjetivação. 2006. nos encontramos a eles conectados. Tempo Áion. sujeito. Nesta dimensão. aquilo que condiciona que se diga Eu (e se realize como Eu pensante). Ora. como um eu pativo]]. a cronologia dos limites superficiais faz do presente o único preenchimento. Portanto. A velocidade absoluta se materializa como tempo vazio. Contiguamente a este plano de imanência. capaz de envolver todos os elementos do mundo. ação e afetação se dão fora da alçada da vontade. O “Eu passivo” não coincide com o pativo. Deleuze (2011) ressalta que uma das Quatro fórmulas poéticas que poderiam resumir a filosofia de Kant é “eu é um outro” de Rimbaud. de nada adiantaria. porém. numa dimensão na qual. Enquanto passado e futuro coexistem no acontecimento. o único estofo e a própria espessura do tempo. que ficassem restritos ao plano transcendental. mas como pativo. A atividade do pensamento constituinte do Eu (Je) consiste precisamente em aplicar-se como ser receptivo – como um eu impessoal (Moi) –.

Final os efeitos de superfícies que possuem uma natureza diferente da dos corpos. Os acontecimentos têm suas diferenças para com os estados de coisas. Além da alçada do puramente objetivo e do meramente subjetivo. como a existência de um eu [moi] passivo. É o fracasso da temporalidade que sustenta a superfície objetiva que arrasta a subjetividade à profundidade indiferenciada das misturas inomináveis. p. mas como a de um eu passivo que representa para si o Eu. na distância temporal que que o separa e o articula por sínteses ao eu impessoal forçando este eu impessoal e passivo a vivenciar a experiência como representação para si da determinação de um Outro. Assim. artifício e acontecimento . ações e paixões que emanam de suas profundidades. ou antes. o eu impessoal é “aquilo a que todos os objetos se reportam como à variação contínua de seus próprios estados sucessivos e à modulação infinita de seus graus no instante” (DELEUZE. 2011. Embora o Eu pensante não defina a integral experiência subjetiva de um indivíduo. não . separados pela linha do tempo que os reporta um ao outro sob a condição de uma diferença fundamental. mas só pode determina-la no tempo. receptivo e cambiante que representa para si tão somente a atividade de seu próprio pensamento. impassíveis. p. ele interfere. Antes. que experimenta as mudanças no tempo. “Eu penso” e “Eu sou” devem ser complementados por este aspecto passivo do eu impessoal (Moi) o Eu [Moi] está no tempo e não para de mudar: é um eu passivo. pois. Os corpos possuem limites em seus contornos. 2011. fora do acerto articular entre o Eu pensante constituído e o eu impessoal constituinte. isto é. que a subjetivação se constitui como processo pativo. Já os incorporais são ilimitados. justamente por não apresentarem as características das coisas. O Eu e o Eu estão. ao passo que o eu impessoal não é mero objeto passivo das relações de forças. O Eu [Je] é um ato (eu penso) que determina ativamente minha existência (eu sou). enfim. Minha existência jamais pode ser determinada como a de um ser ativo e espontâneo. efeitos que acontecem na superfície dos corpos. 43) O Eu pensante não se confunde com o ser do sujeito. mas o acompanha. podemos elucidar. 44). como um Outro que o afeta ("paradoxo do sentido íntimo") (DELEUZE. para além da passividade e da atividade do sujeito.articulado sobre uma passividade coetânea e simultânea à atividade. [][] Sentido e esquizo. porém. receptivo. Por isso a loucura é o tempo fora dos gonzos em Hamlet. a espontaneidade da determinação.

embora não seja propriamente do sujeito e tampouco seja o próprio sujeito. O “precursor sombrio” (ver Villani no que o simulacro o precede) em DifRep 2do cap. Ora. p. a grande síntese disjuntiva cujas somas transfinitas remetem à dimensão indecidível. tampouco se refere ao que o exprime ou mesmo à sua expressão. nem passivo. mas antes subsistem ou insistem nas coisas. não leva ou não condiz a um estado de coisas (que é individual. . No cerne desta dupla causalidade. um encontro numa superfície inconsciente impessoal de singularidades submetidas a “um princípio móvel imanente de auto-unificação por distribuição nômade. Os acontecimentos ocorrem às coisas e são expressos pelas proposições. é um artifício sem relação com origem alguma e. o sentido mostra sua fragilidade (DELEUZE. O esquizo destaca e arrasta a novas plurivocidades estes elementos ao mesmo tempo componentes e objetos de decomposição fazendo da síntese passiva o signo plurívoco. A fim de retomar a linha de nosso raciocínio.existem. mas é uma tendência. Criatura criadora. que se distingue radicalmente das distribuições fixas e sedentárias como condições das sínteses de consciência. é irredutível ao dizível ou visível. O corte é a síntese. 105) e delas se formam. Questão de transversalidade: deformação ativa (PRADO. colocando num embate o princípio lógico do sentido e o transcendental da verdade. no entanto. as pessoas. além dos estados de coisas. o acontecimento passa da esterilidade à gênese ao se injetar como produto na produção. Exp: o traço que traça o caminho do raio antes dele estourar. corte fluxo . LS. na lógica do sentido a dupla causalidade. ele constitui paradoxalmente a potência de gênese do expresso e do estado de coisas. 2013) ou a síntese passiva trata sobretudo de singularidades. p. nas séries. se expressa num corpo específico). o sentido enquanto acontecimento. LS) de semblante na sua impassibilidade. As singularidades são os verdadeiros acontecimentos transcendentais” (DELEUZE. Nem ativo. recapitulamos: o sentido emerge no seio do acontecimento. explicitamos acima que a singularidade acontece no sujeito. 60 e 61.

Ou bem ela remonta a uma remontagem dos aparatos restaurativos do sentido enquanto verdade dos estados da alma. p. sempre concluído destes estados como uma parte feita de partes” conforme apontam Deleuze e Guattari (AE.Sentido. Corte e síntese AE qlínica Em AE.” A semiologia clássica entende: 1 . Ou bem ela se volta para a experiência acontecimental – atemporal não no sentido de uma referenciação às origens." A voz e o fenômeno 26 “"O signo representa o presente em sua ausência. mas no sentido disruptivo e impessoal – em sua idealidade. pois “o sujeito consome os estados pelos quais passa. ou melhor. extendida ao âmbito processual impessoal da desrazão. A qlínica se coloca na encruzilhada perante a qual ela se desdobra em dois caminhos. não tendo em si verdade. Signo “O signo é aquilo que. 60).signo como "unidade de uma heterogeneidade" reúne um significado cuja "essência formal" é a presença e um significante que "expressa" um significado. uma r>resença que se encontra em um certo dentro . O que é cortado não sinaliza que algo falta ao sujeito. mas a máquina que opera cortes e segmenta. Esse conceito encontra-se submetido aos princípios de arché e telos. o corte mesmo não é faltoso. 2 . o substitui.conceito de signo como representante de uma presença que se busca reapropriar. o que fazemos com o que somos? “as sínteses são o que esquadrinham as…” é um problema ético.defasagem entre significante e significado 3 . e nasce destes estados. provocando divisões nesta operação que consiste a síntese. Não é a análise. sinaliza apenas que a ele são designadas partes ao que lhe refere. condiciona o movimento e o conceito da verdade.

[[pensar neutro em Blanchot . em seu uso negativo e limitador. dispensando toda consciência ou subjetividade transcendental para sua unificação em sínteses que garantam a formação de unidades. 2002. de modo disjuntivo. isto é. Uma vez habitando o campo transcendental – aquém.” NP CANGUILHEM. Em suma. Deleuze (ID) pondera que a linguagem silenciosa dos signos é recalcada numa concepção linguageira de estrutura. que nele se auto-unificam. . 53 Um campo transcendental é neutro.. AE DR talvez. o princípio leibnitziano dos indiscerníveis. e passa à potência genética de sentido a partir de sua coabitação por singularidades. p. a distinção entre os corpos na superfície –. na ordem biológica.Ver cita ROSSET AntNat sobre insubstituível e único]].. sob outros princípios que os encontros entre os corpos da superfície física (DELEUZE.e como disjunção e diferenciação de singularidades nômades (DELEUZE &GUATTARI. inclusivo. 2011). as singularidades-acontecimentos operam através de um princípio imanente e móvel de auto-unificação nesta superfície inconsciente sob uma distribuição nômade. as singularidades se comunicam. só tendo cada termo como presença o traço a que ele se reduz. As singularidades infinitamente díspares entre si se auto-unificam mediante seu encontro aleatório [[ver aleat LS.o signo só pode ser pensado a partir do pensamento do traço (como différance*). do princípio de não-contradição. das disjunções exclusivas que caracterizam. 2000). Singularidade “A anomalia é a conseqüência de variação individual que impede dois seres de poderem se substituir um ao outro de modo completo. "origem absoluta do sentido" (o que eqüivale a dizer que não há origem do sentido em geral) que permite a articulação dos signos. simulacro de uma presença. em GIL]] em sínteses disjuntivas condensadas na conjunção e. Ilustra. pois.

constituindo puros acontecimentos. O plano onde se produz o sentido é assim povoado de singularidades nômades e não hierarquizadas. independentemente da regra de convergência que o apropria a um eventual sujeito. nem com a personalidade daquele que se exprime em um discurso. Nas condições da representação. pontos sensíveis como se diz. Elas são um acontecimento ideal que se efetiva em algo como aponta Deleuze (2000. Com efeito. atribuíveis a sujeitos. de doença e de saúde. identidade e intensidade e síntese disjuntiva As singularidades são os verdadeiros acontecimentos transcendentais. antes de ser tornar a propriedade possível de uma coisa. centros. ‘ser verde’). Zoura: A elaboração do conceito de singularidade procede de uma radicalização da interrogação crítica ou transcendental: o indivíduo não é o primeiro na ordem do sentido. uma vez que esta já implica o princípio de exclusão que governa a individualidade: elas só se comunicam por sua diferença ou . devendo ser engendrado no pensamento (problemática da individuação). p. o sentido é o espaço da distribuição nômade. Ela é completamente indiferente ao individual e ao coletivo. Ora. A singularidade faz parte de uma outra dimensão diferente das dimensões da designação. ao particular e ao geral – e às suas oposições. pontos de choro e de alegria. o sentido é por si mesmo indiferente à predicação (‘verdejar’ é um acontecimento como tal. apenas passível de conversão em diferença extensivamente efetivada. Essas singularidades têm entre si relações de divergência ou de disjunção certamente não de convergência. nem com a generalidade ou a universalidade de um conceito significado pela figura ou a curva. o indivíduo supõe a convergência de certo número de singularidades. de inflexão etc. de ebulição etc. de pontos singulares que caracterizam uma curva matemática. Ela é neutra. nem com a individualidade de um estado de coisas designado por uma proposição. ou melhor: é um conjunto de singularidades. uma pessoa psicológica e moral. Diferença de intensidade. entretanto. as singularidades são desde logo predicados. Tais singularidades não se confundem. ao pessoal e ao impessoal. desfiladeiros. não existe partilha originária das significações (problemática da produção de sentido). nós. pontos de fusão. de esperança e de angústia. A singularidade é essencialmente pré-individual. por conseguinte. núcleos. um estado de coisa físico. 55). de condensação.Singularidade. aconceitual.. embora à primeira vista pareça a última realidade tanto para a linguagem como para a representação em geral. não pessoal. não é ordinária: o singular se opõe ao ordinário. São pontos de retrocessos.. determinando uma condição de fechamento sob a qual se define uma identidade: o fato de que certos predicados sejam escolhidos implica que outros sejam excluídos. Em compensação. da manifestação ou da significação. comunica-se de direito com qualquer outro acontecimento.

[[]Seria o tempo não pulsado o tempo fora ods gonzos? A infinitização?] Em termos clínicos trata-se da distinção entre dividir o território múltiplo que constitui uma pessoa estriando o espaço tomado e reaplicado como interioridade – uma análise nos termos químicos de separação de elementos para a manipulação – e uma análise de conjuntura. O sujeito sai transformado desta experiência com o campo transcendental. Singularidade. Sua individualidade composta de acoplamentos e disparidades se abre às singularidades indiferentemente à predicação ou efetuação destas. resistente à individuação e suas vicissitudes e. sua identidade como conceito e como eu”. à diferenciação que lhe sucede. presando o dimensão ética dos campos e jogos de força em causa em cada relação constituinte. As singularidades bloqueiam o perigo do abismo indiferenciado. Esta segunda opera mais próximo ao exemplo dado pelos autores da distribuição de um povo tal qual a distribuição das tribos nômades no deserto. os nômades se valem de um olhar háptico. não reatam com esse jogo do sentido sem fazer a experiência da mobilidade de suas fronteiras.sua distância. que conhece apenas acoplamentos e disparidades. vem a perda da identidade. Na experimentação das parcialidades. ou “síntese disjuntiva”. campo transcendental completamente impessoal e inconsciente. A esse nível. clínica e distribuição nômade A distinção e a relação entre o liso e o estriado assim como o tempo não pulsado aparecem para Deleuze e Guattari (2003) como desdobramento da noção de distribuição nômade. isto é. elas re-sistem. análise institucional. cada coisa não é mais ela mesma senão uma singularidade que ‘se abre ao infinito dos predicados pelos quais ela passa. e o livre jogo do sentido e de sua produção reside precisamente no percurso dessas múltiplas distâncias. derivando desse campo nomádico de individuação. Para habitar e se agenciar com este espaço liso. Assim como os nômades se distribuem no espaço liso do deserto. re-existem como pano de fundo. Os indivíduos que somos. assim como os esquimós . capaz de detectar e distinguir as singularidades em estado germinal nas diversas tonalidades que compõem o branco das areias do deserto. consequentemente. ao mesmo tempo em que perde seu centro. a superfície é o espaço liso no qual as singularidades se distribuem de maneira nômade.

no reboliço das singularidades sobre a superfície metafísica na qual acaso e ramificação se efetivam em capacidade de gênese e de desdobramento. 63) opõe de certa maneira o sujeito da superfície e a comunidade humana a este “mundo como obra de arte”. nômades e esquimós habitam uma experiência constitutiva na realidade mínima do pequeno gesto e da materialidade das relação de forças em jogo. este insensato jogo se opõe como ressonância nietzschiana à normalização que age sobre a subjetividade e a loucura para dividir. irrefreada e constantemente na vivência singular de cada um. por isso. a clínica. Do mesmo modo. Portanto. o “inconsciente do pensamento puro” e da criação. olhar das quase-coisas. p. dominar e ganhar – desterritorializar as parcialidades constituintes para submetê-las a um telos determinado e se aplicar como Mesmo sobre a diferença insubordinada. seu resultado é como uma obra de arte. De modo distinto do que se vê na superfície física com seus limites e distinções. pois mesmo que só se jogue no pensamento. no cerne do qual. tal como um estado de arte sem arte (CLARCK. a clínica há de se valer de um olhar háptico. dos processos de individualização e sujeição normalizadores que rebatem em distribuições . habitam os possiveis de cada processo de subjetivação. para a qual têm uma variedade de nomes. se redistribuir naquela realidade. Atentos à composicionabilidade das singularidades que dão corpo ao gelo e à areia. das quase-causas. a dimensão transcendental corresponde a um jogo artístico. os vetores instituintes e institucionalizantes que os atravessam simultânea. Deleuze (2000. do jogo ideal. Ao que nos interessa. mais que se ater aos estados de coisa. Nele não se aplica a lógica militar que Bataille (1994) diagnostica como chave da nossa cultura. apenas pensável como não-senso. posto que “só o pensamento pode afirmar todo o acaso. Um jogo sem regras nem responsabilidades se dá. cada pessoa habita uma multiplicidade de mundos em si. Para além da constituição da subjetividade. saber jogar este insensato jogo da anarquia coroada – para usar uma figura nietzschiana repetias vezes homenageada na escrita deleuzeana – implica na afirmação do acaso e de sua ramificação. deve analisar as instituições que atravessam os sujeitos. ??). pois.vivenciam de muitas maneiras a neve. mundo de inocência. fazer do acaso um objeto de afirmação”. de fato não realizável pelo homem. para acessar a visita ao plano transcendental como campo liso.

p. ao contrário. pré-individuais. Aparece. os grupúsculos que constituem os indivíduos não deixam de ser incidente e altamente problemáticos. isto é. p. Neste jogo. o campo do transcendental. pisamos. 235) aponta que Gilbert Simondon mostrou recentemente que a individuação supõe. síntese disjuntiva. metaestabilidade e disparação: o vivido e o vívido.. Deleuze (2003. Esse estado pré-individual não carece. Individuação. as singularidades correspondem ao neutro. deste modo. em primeiro lugar. um estado metaestável. entre as quais os potenciais se repartem. Organização. a existência de uma "disparação" como duas ordens de grandeza ou duas escalas de realidade heterogêneas.sedentárias e em fixação de postos as condições de síntese que devem. impessoais. Singularidades. de singularidades: os pontos relevantes ou singulares são definidos pela existência e pela repartição dos potenciais. 105-6) assinala que o que não é nem individual nem pessoal. todavia. que se distingue radicalmente das distribuições fixas e sedentárias como condições das sínteses de consciência. afinal. As singularidades são os verdadeiros acontecimentos transcendentais (. assim. à quarta pessoa do singular. pois. A individuação surge como o ato de solução de um tal . tal qual a formação de um grupo qualquer. são as emissões de singularidades enquanto se fazem sobre uma superfície inconsciente e gozam de um princípio móvel imanente de auto-unificação por distribuição nômade. de natureza impessoal e não individual. um campo "problemático" objetivo. Deleuze (2000. uma vez que são as próprias singularidades que constituem individualidades e pessoalidades. um emaranhado de singularidades que coexistem e coabitam um ser em seus modos díspares do mesmo modo que se nos atemos às ideias de Guattari (grupos??). determinado pela distância entre ordens heterogêneas. classificação. pelo menos.. os indivíduos que compõem um grupo são como singularidades que compõem a forma gregária grupo ao entrarem em relação e. Intensidade e superfície O que chamamos de indivíduo é. pela consciência.) Quando se abre o mundo pululante das singularidades anônimas e nômades. Analisando O indivíduo e sua gênese psico-biológica de Simondon.

mas um descanso para o que não tem jeito nem nunca terá. entre. A individuação atualiza os potenciais em estados de coisas encarnando a diferença sob sínteses disjuntivas inclusivas (DELEUZE & GUATTARI. Ela não consiste. O indivíduo encontra-se. um outro lado. assim como a Idéia respondia às questões quanto?. porém. é verdade. um fora que se constitui como campo transcendental de singularidades. pois. entretanto. Ela trabalha com intensidade e não somente num campo extensivo do regime das formas de exterioridade.problema ou. acreditamos que a individuação é essencialmente intensiva e que o campo pré-individual é ideal-virtual ou feito de relações diferenciais. abaixo. nas qualidades e nos extensos que ela cria A individuação supõe a metaestabilidade que é dada no cruzamento de duas realidades heterogêneas. nas fendas e por todo lado onde lhe escape. Uma é o corpo individuado. de acordo com linhas de diferenciação. com os limites e condicionantes que definem sua situação numa superfície de distribuição da realidade objetiva. as quais consistem na diferença e na repartição dos potenciais diferenciadores. mas em integrar os elementos da disparação num estado de acoplamento que lhe assegura a ressonância interna. 2011) num processo inegavelmente heterogenético. que não é o impessoal. Sobre este campo objetivo. Entre a manifestação do ser numa superfície física e objetiva de limites e condições lentificantes e o campo problemático disparação de singularidades nômades e sua potência de gênese de sentido e de diferenciação latente sob velocidade infinita. mas das relações com o fora. A individuação é o ato da intensidade as relações diferenciais a se atualizarem.. o que dá a mesma. Sob todos estes aspectos. como a atualização do potencial e o estabelecimento de comunicação entre os disparates. não se confunde com adaptação. Por isso. capaz de criar e transformar suas estruturas internas. que delimita um estado de ser e de coisas. A individuação é diferenciação na atualização das singularidades virtuais como possíveis vivíveis. . ela acopla as diferenças irredutíveis de modo criar um espaço de ressonância interno.. mas antes o reservatório de suas singularidades. acima. reunido a uma metade pré-individual. como? Quem? é sempre uma intensidade. O ato de individuação não consiste em suprimir o problema. reside. É a individuação que responde à questão Quem?. Uma solução sempre provisória e construtivista. na supressão do caráter problemático da existência. a individuação surge como resolução destes embates de força.

construído. Em termos filosóficos. Então. o campo transcendental é produto-produtor. A qualificação e a especificação já supõem indivíduos a serem qualificados. em suma. ele se efetiva como produção de realidade à medida em que ele próprio é construção O indivíduo não é uma qualidade nem uma extensão. a espécie e as partes de um indivíduo. Entretanto. relativas aos seus limites e predicados – relativas à superfície física objetiva – só podem apreender as pulsações intensivas da individuação sob a forma de sua redução estática no tempo. Além da diferença de natureza entre individuação e diferenciação. É sob a ação do campo transcendental. p. 236) elucida sob termos bergsonianos como organização “na intuição segundo linhas diferenciadas em relação a outras linhas. nem uma especificação nem uma organização. sob esta condição. e não previamente dado de individuação que se desdobram as diferenciações como atualização das singularidades. O indivíduo não é uma species íntima. e as partes extensivas são relativas a um indivíduo. Elas supõem desde o início uma forma gregária regida de forma identitária como figura global. noções. não o inverso. As interpretações qualitativas ou extensivas da individuação continuam incapazes de fixar uma razão pela qual uma qualidade deixaria de ser geral ou pela qual uma síntese de extenso começaria aqui e acabaria ali. Processo que Deleuze (2003. particularidades e especificações extensivas advêm de um indivíduo. assim como as qualitativas. 2014) constitutivas do saber reduzem deste modo a dinâmica ontológica problemática do campo da individuação a uma relação de causalidade e especificação resumida à superfície objetiva. no que esta supõe e necessita um campo intensivo de individuação para tomar corpo. Esta dimensão das formas de exterioridade (cf. A individuação não é uma qualificação nem uma partição. a primeira é necessariamente anterior à diferenciação. . 2011). DELEUZE. assim como não é um composto de partes. eles formam a qualidade e o número.[[em 1. sua generalidade”. Partes. não o contrário. colocam um possível resultado como ponto de partida e se furtam da construção do campo transcendental ao instalar a transcendência numa instância transcendente colocada no início como aquilo que salvaguarda a direção do processo. O transcendente é instalado na origem como aquilo que liga arché ao telos determinando a rota existencial segundo a sobrecodificação da diferenciação mecanicamente programada ou sob uma captura da própria capacidade de (des)codificação sob uma ordem axiomática (DELEUZE & GUATTARI.3 a desrazão é uma perspectiva qualitativa]] As noções extensivas.

Assim. Porém. espécies e partes não são ontologicamente primeiras. são inoculadas nos indivíduos por processos de captura e cristalização da intensidade. Não há controversa ou contradição entre a atribuição de uma continuidade entre os seres vivos e sua classificação. seu campo transcendental é a instauração de limites e pode ser mais propriamente definido sob o signo do que Foucault (1963/2001) chama de transgressão – nem uma complicação da diferenciação. a um corte no devir daquilo que é no mundo – se complementam. um plano movente em que as diferenças individuantes são dadas como diferenças de intensidade nos processos de individuação. Em suma. a individuação não é um limite – antes. a individuação não constitui um prolongamento da especificação em uma natureza distinta ou sob outros meios. Com efeito. o fato dos indivíduos portarem em si as diferenças. Nem sequer servindo para limitar ou matizar uma à outra. Aquém da superfície das diferenciações repousa seu estrato condicionante. faz a crítica deste paradigma de corte na continuidade estabelecida entre o normal e o patológico. Preocupado em afirmar certa positividade ontológica da doença. cuja natureza é livre no mundo: energia livre insubordinada. daquilo que se configura como erro ou como outro da ordem social. continuidade e classificação – que como instrumento de saber corresponde a uma secção. não significa que estas são individuais. a classificação da loucura como desrazão a coloca sob o signo de uma marginalidade generalizada. O virtual condiz ao plano transcendental ao passo que o possível repousa sobre a superfície física objetiva. Canguilhem (2002). que toma como pressuposto uma diferença essencial como origem que a transcende. assim como formas e matérias.De fato. por sua vez. Não se pode confundir o virtual com o possível. pois a primeira é condição para segunda. desde a inclusão da loucura no jardim das doenças é que Foucault (1979) detecta o afã da era clássica em especificar a desrazão para excluí-la da ordem social. As qualidades extensivas. desvencilhado da normalidade (em suas várias . 2003 236). sinaliza Deleuze (2003). Indubitavelmente. assim como “as classificações vegetais ou animais mostram que as diferenças são ordenadas somente com a condição de haver uma rede múltipla de continuidade de semelhança” (DELEUZE. conforme trabalhado no primeiro capítulo. uma das razões que se faz pensar a diferença como ou necessariamente a partir do individual é a razão de ordenação classificatória. condiz a seus limites e condicionantes de efetivação. O intuito de toda classificação não é outro que o de ordenar as diferenças.

aboje. p. a quer dizer animal. deba. (. 76-7). P