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Restos 1 cap

Sumário
Restos 1 cap...................................................................................................................1
Antropologia..................................................................................................................3
[[antropologia Boa formação:....................................................................................4
1.1

– A loucura como experiência e a política dos saberes sobre a loucura..........5

1.2 saber e loucura: arq fde ext..................................................................................7
1.3: louc trágica embarcada aguas desatino..............................................................8
1.4: O trágico e a ausência de fundamento................................................................9
1.5 - Apreensão da loucura: o fundamento do jardim da razão.................................9
1.6: O novo solo da loucura ancorada na natureza humana......................................9
1.7: O círculo antropológico ou homem como medida da loucura.............................10
1.8: Sobre origem e finitude do homem..................................................................13
1.9 – Cogito e duplicação do transcendental...........................................................15
O avanço do cogito sobre o impensado; duplicação do empírico sobre o
transcendental..........................................................................................................15
Paradigma do conhecimento pela morte: Domar o infinito.....................................15
Natureza como passagem transitória.......................................................................16
Alienismo e Ordem coercitiva.................................................................................16
A revolução c(l)ínica de Pinel.................................................................................17
comunidade, sujeito e produção..............................................................................18
[[final para antrop....................................................................................................20
loucura presa a uma profundidade...........................................................................20
Loucura XVIII afastamento da natureza.................................................................22
Verdade e superfície objetiva...................................................................................22
Gregário...................................................................................................................23
Interioridade – em CX já:........................................................................................23

Trabalho e liberdade, captura e boa formação.........................................................24
Disciplina e biopoder...............................................................................................26
1.12 – Adaptação e produção de signos numa perspectiva clínica..............................27
Negatividade e continuidade...................................................................................28
[[ polícia médica controle administrativo, sócio-produção.....................................30
[[asilo moderno e liberdade.....................................................................................32
Final e transição para o cap 2......................................................................................34
Território e expressão – transição – justificação do sentido através do
acontecimento..........................................................................................................34
Administração, Adaptação, ortopedia social e naturalização da experiência humana 36
[[adaptação..............................................................................................................37
[[condição p disciplina, objeto natural, corpo-máquina..........................................42
Administração, alienação e terapêutica.......................................................................44
[[ terapêutica med e psiq..........................................................................................48
Objetivação, vida e loucura: o insubordinado calado e medido - Negatividade
fundadora e positividade dos saberes: objetivação e sujeição da loucura...................53
[[discipl e dissimetria]]............................................................................................55
[[ responsabilidade e direitos: individualização jurídica.........................................55
Signo, morte, medicina............................................................................................57
[[primitivo, comunidade, loucura involução...........................................................59
[[negatividade, forças inorgânicas...........................................................................60
[[origem negativa dos saberes.................................................................................63
[[vida indomável e insubordinada...........................................................................63
[[clínica e causalidade.............................................................................................64
Tecnologias Normalização e humanização: terapêutica e moral.............................64
[[dissimetria alienação e desalienação.....................................................................65
Três dimensões de Normalização................................................................................67
[[isolamento e estatística.........................................................................................70

Pensamento reflexivo:.............................................................................................71
a interioridade condiz por um lado à consciência psicológica e por outro em um
domínio constitutivo transcendental........................................................................74
Resistência : pathos próprio da linguagem de descentramento...............................76
Norma de estilo........................................................................................................78
Encerrar com isto e partir para uma outra visão da loucura....................................80
Artaud e os fluxos desterritorializados........................................................................81
Loucura literatura e descentramento.......................................................................84
Artaud:.........................................................................................................................86

O louco não se liga à finitude de sua esfera existencial e de ação, por isso se trata de um
problema de função específica (falha nas faculdades), e de comportamento desejável, o
louco persiste no regime de infinitização.
Punição psicologia como tratamento, procurar pun: ref à falha no sistema das
faculdades racionais que ligam sua individualidade à responsabilidade por seus atos e
por sua obra no e frente ao mundo social em que vive, sua liberdade é sequestrada,
alienada e submetida à outrem. (1977)

Antropologia
Qualidade do homem:
Obra, homem com consciência, deposição jurídica responsabilidade – ligada a
liberdade, política ligada à importância da sustentação econômica da sociedade –
produtividade.
A boa formação, não diz respeito direta ou tão somente À adequação ao mundo
exterior, mas a um funcionamento interno passível de ser acoplado, adaptado ao
funcionamento e exigências exteriores, de um individualização econômica politica e
jurídica.

p. de um individualização econômica política e jurídica. 13. é a limitação pelo exterior. enfim. com um fim bem demarcado: o homem constituído como sujeito moderno A domesticação das forças que atravessam o homem levou a uma concepção de homem morno. A morte é a ameaça permanente e incondicional de decomposição do organismo. adaptado ao funcionamento e exigências exteriores. 2012. Boa formação ligada à loucura como monstruosidade. ao menos afirmador de vida” 13. Formação: verdade e a realidade são parâmetros para a definição de uma formação normativa e de um funcionamento regular regulamentação via internalização das normas pelo próprio processo de formação divisão binária. não diz respeito direta ou tão somente à adequação ao mundo exterior. uma espessura interna que fundamenta a subjetividade como lugar da verdade a partir do século XIX. a negação do vivente pelo não viável (CANGUILHEM. Por fim. homem se reduz a qualquer realização ou destinação prevista de antemão tarefas a serem cumpridas. mas a um funcionamento interno passível de ser acoplado. mais que a morte. . 12). que nossa cultura cede. A boa formação. “ao menos capaz de vida. a negação do vivente pelo não vivente. Mas a monstruosidade é a ameaça acidental e condicional de inacabamento ou de distorção na formação da forma. individualizante da boa formação. níveis a serem atingidos. que presume um roteiro de evolução com um telos. Aqueles que no cerne de nossa cultura “desfrutam a liberdade de toda coerção social” (NIT GM. seus “"instrumentos da cultura" são uma vergonha para o homem”. 189).[[antropologia Boa formação: A monstruosidade se impõe assim como contravalor vital. que é a limitação pelo exterior – na esteira de Bichat. p. o que leva o filósofo do martelo a asseverar que “nós sofremos do homem” p. requentado na interioridade psicológica. uma profundidade. é a limitação pelo interior.

tudo o que era dado ao olhar. logicas. Cuvier libertou de sua função taxinômica a subordinação dos caracteres para fazê-la entrar. Que articula a desrazão como escolha moral pelo mal. estruturas. porcentagens. 1986). assume doravante um modo novo de ser (FOUCAULT.” O espaço dos seres vivos gira em torno dessa noção e tudo o que até então pudera aparecer através do quadriculado da história natural (gêneros. estabelecendo as condições gramaticais. FOUCAULT. isto é. cifras.116). p.Nossa sociedade acumula um banco de dados que relaciona padrões e traços biológicos aos efeitos de cura psicológica e de verdade na vida. 2001. Foucault (2000) encontra em Cuvier a definição de biologia moderna e o modo como a noção de vida passa a operar privilegiadamente desde então a partir de seu vínculo com a nascente ideia de função. suscetível de formas numerosas. no sentido que Deleuze (1992b. linguísticas do discurso sobre a loucura (cf. é normal que o conceito de normalização tenha se tornado o equivalente usual do conceito de racionalização (MNHT.” Só pode ser interrompida pela proposição dos princípios de individuação (Simondon) Nlz e racionalização em Canguilhem: Se é verdade que a razão sempre foi considerada pelos racionalistas como a norma das normas. dados. indivíduos. dizendo: “A organização torna-se um ser abstrato. índices. p. órgãos). A noção de identidade biopsicossocial articula a interioridade psicológica à exterioridade da vida da vida biologicamente apreendida. Nem interpretação. a tendência dos (in)divíduos a serem dividuais. nem formalização. espécies. O liame interno que faz as estruturas dependerem umas das outras não está mais situado no nível apenas das freqüências. aquém de toda classificação eventual.. 362-3). qd surge o profundo com a biologia de Cuvier (ver D F2). 2000.. torna-se o fundamento mesmo das correlações. p. nos diversos planos de organização dos seres vivos. PC e ID> o homem só é possivel na queda da rep. A passagem da individualização para os dividuais “da segunda metade do século XX. 222) conferia a este termo. . referindo a linguagem da loucura a uma instância a ela exterior ou pretensamente superior. É esse desnível e essa inversão que Geofrroy Saint-Hilaire devia um dia traduzir. fluxos.

e ali onde ela se decide. mais do que da sua identidade (1961/1999. 1961/1999 . 1961/1999. de conhecimento (relação de causalidade. ou de doença.história dos limites da cultura. mas cuja sede é em seus confins.esta primeira parte da “arqueologia responde à questão "como?" os saberes emergem e se transformam. p.questão para os saberes. constitui o objeto deste estudo” (1961/1999. 142). que residem no desatino circulando pelos campos. fazemos o estudo estrutural das condições de separação (mas também de ligação) entre razão e loucura. 140). e de suj-obj) e de reconhecimento. rios e até mesmo por vezes. no interior das cidades medievais. e de longe” (FOUCAULT. dele ela deriva. ontologia da superfície.pós “grau zero” Já que não se pode restituir ao ponto básico zero da loucura.analisar onde tem (re)conhecimento e associar aos dois níveis.1 – apresentação c1 . que é inteiramente da história. p. 1. de falha. Como o fora . p.loucura outro: yasbek (2013. no silêncio da desrazão clássica e reemerge clandestinamente nas obras de arte e na experiência moderna da linguagem dos pacientes da psicanalise.1 – A loucura como experiência e a política dos saberes sobre a loucura . seu objeto é a “estrutura da experiência da loucura.louc trágica como crivo: confrontamento das dialéticas da história – osmodos como ela muda -com as estruturas imóveis do trágico – estruturas do trágico que a atravessam. 126) M-O . . a cultura rejeita a loucura como algo a ela exterior. a loucura enquanto forma deriva da apreensão que dela exerce os saberes e o poder da razão sobre ela: “Quanto ao poder que a razão exerce sobre a não-razão para lhe arrancar sua verdade de loucura. Mediante isso. entre sentido e insensato. Na sua tese. possibilidade de existência. sob o que ela define e relega como exterior a ela. p. privilegiando as inter-relações discursivas e sua articulação com as práticas institucionais” . A história é precisamente a variação dos sentidos NitFil CX “Sentido e interpr” . 145). a partir da constituição de novos saberes.

atentamos ao âmbito dos regimes de normalização institucional que delimitam um nome e instalam uma objetividade determinada na borda ou no seio da família. da igreja. mais ou menos formalizados acerca da loucura. Atentamos aos modos como a superfície de emergência confere uma realidade específica e uma figura objetiva para cada concernente a cada forma de apreender a experiência da loucura. No que concerne aos saberes sobre a loucura. nomeia e descreve em cada caso . da psicologia ou dos demais saberes mais ou menos institucionalizados. Mediante a impossibilidade de definir um objeto único. . da medicina. a exigência prática [[agto interesse]] se impõe como primeira à frente das concatenações críticas e da sua própria fundamentação teórica.Há uma discrepância entre as formas de apreensão da loucura e uma experiência fundamental ou essencial da loucura. de conferir um território e um espaço propriamente qualificado à loucura. da psiquiatria. econômicas. Por fim. que advêm de outras instâncias.ver medida comum em AE?? . nos voltamos para as grades de especificação que agrupam e separam para delas derivarem os estratos de apreensão do saber sobre a loucura. o que não quer dizer que possamos objetivar ou sequer apreender esta. etc. sociais. do judiciário. e não de uma realidade interior ao objeto ou de um movimento de aprimoramento dos saberes.apreender da loucura é o conjunto heteromorfo de enunciados que a recorta. entre eles e nas relações entre diferentes instâncias. assim como às transformações neles. Ademais. Relações externas de classificação e determinação dentro/fora sobre os objetos. que singularizam cada experiência distinta da loucura. seguimos as pistas deixadas por Foucault (1986) ao nos atentarmos às regras que especificam e determinam a formação do espaço de qualificação que dão corpo às próprias condições de objetivação da loucura. Especificação que condiz às práticas e discursos.

Quem pode enunciar. Formação discursiva: campo e regime de um sistemático de dispersão de enunciados em correspondência e regularidade (ordem. Cond de instauração no sensível: ordenmaneto. dos conceitos. e unidade positiva e objeto inteligível e a própria existência e operacionalidade real. prática e efetiva dos saberes 1) Objetivo . das modalidades enunciativas. ciência. regras de formação > como se formam os saberes == formação discursiva > formas de exterioridade q objetivam. 2) Sujeito . O solo são sup sobrepostas. func. ressignificar prática e pressupostos. regime institucional. ciência e saber se interpenetram na formação discursiva contemporânea e mod. Lacunas: que levam a def as regras de formação dos objetos. Cada Época = olhar distinto (rel louc X cult) 4 pts regras do saber: que formam ciência.2 saber e loucura: arq fde ext Sup obj distribui o sensível. parâmetros e provas de exatidão e verdade dentro de um próprio campo de saber. variedade formas ver e dizer. saber.Posição para o suj objetivar . posição. posições. formalização vdd legitimada.1]). transf) > regras de formação: cond de existencia.Regras de determinação do espaço de determinação das formas de apreensão (sup emergência. Forma ext. vem da loucura]. aplicados e modificados – proposições enunciados . das escolhas teóricas. Formas de ext> sup objetiva> modos e regras qualificação. saber = real obj Saber: audiovisual heterodoxa.Especificado pelas modalidades enunciativas. ele se apoia e define o homem [negativamente. homem. o solo são as formas do saber que atuam por regras – ordem divina.Saber = forma objetivação .Sup objetiva: conceitos são formados. grades especificação [c1.1. correlações. lugar institucional (privilegio razão) 3) Conceitos .

(.mediante condições de existência exteriores: objeto é constituído externamente e não está dado na natureza instituições. modos de caracterização..aplicação de escolhas teóricas para o engendramento de uma superfície define certa unidade temática. mas sua singularidade e de sua heterogeneidade . processos econômicos e sociais. permanência e a transformação de conceitos. mas o que lhe permite aparecer. translações de conceitos. equivalência e enganche.domínio associado dos conceitos. tipos de classificação. continuidades temáticas. Elas são um a priori histórico ditam as cond existencia na realdiade da experiencia = desc rel ext> raridades Objeto é engendrado positivamente – não feito do nada. atravessam os saberes a partir das formações discursivas conferem os modos de cada aparição da loucura na superfície dos saberes e a transmutação das formas e práticas experiência trágica serve de crivo saber = manifestação sob uma unidade discursiva de uma série formada por um sistema de positividades que inclui relações de objetivação –disposição do objeto/posição estratégica do sujeito–. regrado por axiomas >> formas de sucessão.. escolhas e atitudes teóricas. de coexistência. modos como cada formação discursiva interage com outra. Porque combinações possíveis não efetivam. e essas relações não estão presentes no objeto. jogos. Nela: identidades formais. mas à dispersão e à exterioridade e acumulação discursiva – distribuição sensível. 4 formas. formas de comportamentos. situar-se . técnicas. tipos formulação de conceitos. Contorno se transformam. sistemas de normas. articula o papel de um enunciado em tal ou qual discurso (como olhamos para enunciados que nos parecem de outro tempo e outro mundo) > definir a função do discurso em relação às práticas não-discursivas. justapor-se a outros objetos. Positividades: não a totalidade da significação ou à interioridade de um sujeito. > incompatibilidade.) Elas não definem a constituição interna do objeto.. os procedimentos de intervenção 4) Articulação sistemática .Utilização apropriação dos disc .

Reinscrever os regimes de práticas contrastamos a perspectiva trágica da loucura com os saberes para fazer frente às práticas determinantes dos regimes enunciativos que definem os contornos que a loucura adquire em nossa cultura. já que sempre se exerce mediante uma relação de forças. nas práticas não discursivas.discursos da razão sobre a loucura . . seria rigorosa mente absurdo pensar a força no singular. Eis o princípio da filosofia da natureza em Nietzsche: uma pluralidade de forças agindo e sofrendo à distância. Como se fixam lugares de exclusão – mesmo quando se inclui a loucura na linha do homem. a menoridade da loucura frente ao bem e à razão divinos e do homem. mas é também o objeto sobre o qual uma dominação se exerce.verdades desde o exterior em relação aos diferentes tipos de objeto e de saber. assim como às formas de subjetividade .práticas simbolicamente institucionais de distinção e separação . Como se narra o triunfo da razão sobre a natureza e a loucura. onde a distância é o elemento diferencial compreendido em cada força e pelo qual cada uma se relaciona com as outras O discurso é não apenas o ponto de interseção e articulação entre saber e poder.linguagem própria da loucura. . o poder deve ser interrogado ao nível tático-estratégico de suas operações. resiste na arte. devido à sal condição menor. Por isto. já que através dele se dão os efeitos recíprocos e a integração estratégica entre ambas as instâncias. Uma força é dominação. é para coloca-la num âmbito de domínio e assujeitamento.apropriação – usar o que é do outro como se fosse seu. 5): O ser da força é o plural. Como se organizam técnicas de enclausuramento e de fazer valer na experiência concreta. Ver Rivera. p. ---[[]]Problema das forças: Deleuze (1976.

exp da loucura. bufão Experiência da loucura como apreensão E) Prática: experiência de circulação e trânsito entre desrazão e razão . superfície objetiva: . possuído Articulação: insubordinado mesmo a esses conceitos. nlz institucional regimes: . Louc trágica: Formação discursiva – saberes.poder. 47-8) traz com Kant e Rimbaud.3: louc trágica embarcada aguas desatino Pq a linguagem. como é visto de fora: A) B) C) D) Objeto: confuso.0 tirar essa parte de prisioneiros?? Pq já é uma apreensao renascentista? Mas essa apreensão a coloca numa heterotopia. Lapoujade. como chegam as formas de exterioridade. p. jocker. que escancaram a arbitrariedade de oposições terror exp trag: perigosa reversibilidade da razão a loucura como desafogo social e alivio das tensões internas: tem a ver com poder tomar outros rumos p a existência. para fazer outras interioridades. Ver pt verde no 1. num espaço não-qualificado.rel da louc com ela mesmo. tomamos outros rumos. a gramática? Ela instaura a norma Cang Exp renascentista: ver louc na hist. e com os loucos. prat. pathos da loucura trágica é da ordem dos espaços híbridos e das transições demasiadamente delongadas. qd o interno fale. ambiguidade.1. amante do desconhecido. transformação: O acaso se torna contingencial. disc. possessão. outras dobras. Vemerem Sales disert -Verdade. desregramento como Deleuze (2011. desatino Sujeito: indefinido Conceitos: arrebatamento. prisioneiro da viagem. como contingencial]] mas essa apreensão constitui o solo da exp trágica.

reagrupadas ou derivadas as diversas experiências da loucura objetivada pelos saberes sob a sombra do dualismo alma-corpo ou da determinabilidade da história de vida do indivíduo .a desnaturalização é liberação.F) Discurso: apreendida por pintores. instituição. . Nós ocuparmos mais espaço da exp trágica é um modo de marcar nosso ponto de preferencia. interior-exterior: sem instituição além da barca que circula J) Relação ética consigo. calcada na agua. p. Saber-poder H) Vdd. capaz de abrir fissuras e fendas no solo de constituição de nossa cultura à medida que por ele circula tangencialmente . “corpo”?) X prof loucura trágica relevo: indeterminação . indefinido. contingencial = cultura trágica em Rosset (1989ª.Alteridade profunda . com outros: pathos da loucura trágica é da ordem dos espaços híbridos e das transições demasiadamente delongadas. 126): Grécia antiga e Renascimento 1 grades de especificação a partir da qual são separadas. senso comum [[]][“categoria constituída performaticamente pelo próprio discurso” CX arte e pol] I) Poder. que escancaram a arbitrariedade de oposições Regras de formação do espaço de qualificação K) Superfície emergência: poemas.4: O trágico e a ausência de fundamento = profundidade do homem (finitude. 1. ambíguo (religiosidade) deslocamento. circulação livre pelo mundo – coabita com exclusão.lugar e função do tempo na divisão do sensível. que libera o sujeito (da sujeição) ao acaso. no mar simbólico. Navis como tecnologia de exclusão M) Grades especificação1: trânsito. que complica o resto Solo de apreensão se constitui. superfície objetiva de saber: pintura e artes. L) Regimes normalização institucional: embarcação-interior muros cidade. afetação. poetas e senso comum G) Linguagem loucura: pathos.

ausência de fundamento. dominação.louc trágica: disruptivo e contingencia.Não-lugar: da loucura trágica é sinalizada na série aquática por foucualt (1979) [[louc na hist]] ausência de fundamento e solo do homem X>> Sem lugar: porosidade. perdição. deriva e flutação X limitação lógica e oposições reais (divina e do corpo antropológico) . >>encontrar o sentido. buscando a força capaz se apropriar . cega e arbitrária das forças . não-ser. deriva > tornar ao solo estável.loucura trágica: condição humana da deriva existencial (experiência mista)> separam e contêm a loucura . variação dos sentidos: forma é fluida. estado de morte = acaso ou trágico. protege do arrebatamento das forças . contato com as forças de arrebatamento> trânsito e a fruição da separação + pensar e intervir de outro modo com a loucura. fenômeno: campo e um jogo de força atual apropriação.objeto (práticas e enunciados). muda de sentido.na ausência de fundamento e das formas > aderência ao irreal > loucura trágica > miragem .. Não há fundamento da experiência ou sequer uma figura de loucura anterior às formas de exterioridade . espelhamento que aproxima o humano do não-humano: embate de forças: destruição. exploração de uma quantidade da realidade + matéria do ser . seu sentido é plural.Realidade alteritária: outro.contingência em simultaneidade e no seio da necessidade > ordem das coisas . .dimensão contingencial das forças>> os modos e as formas com as quais um fenômeno aparece na superfície objetiva do mundo. perda.e de um sistema de sucessão: indeterminado dado na imprevisibilidade dos encontros com as forças e os elementos do mundo. heterotopia.HL: sucessão de forças em superfícies distintas coexistentes> objeto..ausência de fundamento>> trágico valor positivo capaz de avaliar as teorias e as práticas históricas sobre a loucura (bem e mal e verdade e ilusão religioso clássico da transcendência. impensável X estrutura e a organização .mod: modernidade. trânsito. profundidade e finitude sobre prat e teoria loucura . fundamento sujeito moderno e autônomo (Natureza) = Profundidade> forças de finitude = contorno à deriva existencial e desdobramento infinito dos saberes clássicos) . desnaturalização. >> loucura: necessidade parva.

experiência trágica da loucura: real imiscuído e indiscernível ao onírica> desatino na cultura. trânsito. sendo ele mesmo) .viagem existencial: errância e abismal :ausência de finalidade. corte: trajeto fixo individual e da natureza> dá domínio da existência e dos seus limites >> abre fendas no fundamento da existência. legitimação da alteridade > aprovação incondicional > exaltação trágica da dor e da derrocada . -dionisíaco energia devoradora e engendradora. exclusão aberta (sem mastro.loucura como antinatureza (desrazão clássica. desconstrução deuses e eu > excesso. “um horror antinatural. . . p. deriva. sem finalidade nem garantia.alteridade do não-humano X humano: desmedida. >> Absurdo: falta de sentido. fendas> transformação = fogo prometeico => desvia a natureza da ordem das coisas do mundo extrapolando os limites da forma e da figuração apolíneas . trânsito das forças de passagem e separação). trajeto fixo ou lei natural) == experiência humana (fundamento de si. a unidade e a sistemática totalizante da natureza. antinatureza.sabedoria dionisíaca: horror antinatural > exp destruição da nat em si. Vazio. forças > outro de nós. exclusão aberta. de fundamento natural. valemo-nos daquilo que Nietzsche (1992. limites as leis. deserto = método de criação =acolhimento do paradoxal e do fragmentário X homem é um signo sem interpretação -viagem trágica >> limites. ausência de finalidade . a criação e a potencialização da vida X figuração apolínea individualizada forma historicamente pontuada.. identidade > torna-se outro do que é. conflito e incerteza > abismo. no recurso à experiência trágica da loucura a fim de fundamentar nossa perspectiva trágica da clínica. encarnado na loucura. Errância. > forças poéticas e mágicas > temporal. crônica. 65) denomina como “sabedoria dionisíaca”.ausência de uma fundamento = próprio humano < outro.jogo indecidível e obscura = renascimento: embarcar. sujeita ao trânsito das forças de passagem e separação .trágico: ausência de fundamento. de lei e de trajeto fixo >> experiência humana = trágica da loucura.forças dionisíacas. espelho da experiência trágica da loucura >> experiência humana é desnaturalizada = ausência de fundamento. que aquele que por seu saber precipita a natureza no abismo da destruição há de experimentar também em si próprio a desintegração da natureza”. una e total . sem natureza __ apagado: Logo. partir e busca . passagem e separação 2 mundos.

no 1. etc Antinatureza. > agonística do pensamento > conflito dos contrários > devir >>> sentido > persistência na busca vital. [[]] agenda . etc..raízes religiosas >sentido político purgação >embriaguez dionisíaca (sofrimentos de Dioniso) = sentimento de aumento de forças -teatral antiga > filosófico do trágico: diz sobre o ser. sofrimento. a totalidade do que existe > dá voz às forças silenciadas da existência >> criar-se e destruir-se = vida aniquilamento + afirmação do devir e do múltiplo. da própria constituição do mundo.À medida em que a experiência loucura trágica se aproxima do humano sob seus aspectos da ausência de fundamento e da deriva dos trajetos existenciais. ambiguidade.. flutuante sem lugar. Colocar toda a discussão deleuzeana do trágico como fenômeno estético.]] .tragédia.trágico-dionisíaco> afirmação do devir X ordem lógica e natural do mundo >> antinatureza.... selvagens e insubordinadas que residem no homem > .4 Ambas as versões corroboram aquilo que Deleuze (1976) encontra na filosofia de Nietzsche (1992) como aversão grega do niilismo que conta Como dos deuses que enlouquecem os homens e como . [[ Saiu: Ver vernand em Deleuze AE DR. agonística do pensamento. Klossowski LS. contrários..TRÁGICO mítico-religioso e racional: jogo agônico. VER: Ver duplicidade.contrários mito X polis = simetria sintática do ethos anthropoi daimon: ordem divina (pujança das forças divinas) X polis (razão e na vontade) > coexistência = tragédia . é que ela serve de crivo para avaliar as práticas e teorias acerca da loucura. adestramento e debilitação das tendências inumanas. heterotopia = impossibilidade prévia de todo dado (enquanto natureza constituída) lógica do pensamento (descobrindo-se incapaz . fronteiras. teatro elementos literários > trágico: dilemas do homem moderno. arrebatamento. dor. no encontro com o jogo intempestivo das forças não humanas >> “identidade dos contrários” = identidade anti-essencial >> devir> . opostos.

pensar nas bordas do impensável. dor = lei universal = natureza> utilitarismo.pathos intempestivo profundo da loucura: infinitização sem lugar nem forma>> deslocado transformações. de trânsito que não pertence a ninguém > acesso ao outro. lógica do mundo >> queda (feita fundamento e destino) = paixão. . o trânsito e as misturas entre os seres e as forças) + humanista: finitudes limites saberes. . necessidade auto-conservação X Sim: fluir e o destruir da vida. limites e lugares. o estranho e o questionável. capaz de julgá-la . (formas finitude e limites X preencher a profundidade e o vazio) . oculto ou superior.sentido não fixado nem esgotado. nd exterior ou superior à vida.de pensar um mundo X pessimismo dionisíaco pessimista determinística = dado de fato. > duplicado >> espaço da existência é. incessante recriação >> má vontade.ordenamento superior do mundo. deuses X existência =embate de forças > homem como um ser de sentido =afetados pelo pathos. por um lado. ao outro radical na intimidade de si mesmo trágico Deriva X contradição> necessidade -trágica da loucura >> homem como ser de sentido = aderir à deriva existencial como modo de busca de sentido num movimento perpétuo que aparece sob a forma do absurdo num sentimento abismal sem fundamento X sentido velado. exterior e superior .>trágico: conjugação das forças indomáveis e com uma dinâmica de ligação. com forças de agregação. um lugar sem fundamento. o intempestivo. o pathos (circula tangencialmente) capaz de provocar fissuras > inaplicável a um objeto > extremo das faculdades racionais.pathos: potência absurda do embate constitutivo de forças X objetivada. recriação: formas. nem suprimida) = tragédia uma interrogação que não admite resposta . coordenação e direcionamento numa atitude de respeito integral . deslocado. a ambiguidade ingênua X tragédia as ambiguidades pulsam na contradição = tensão (não aceita. violência e a desmedida >forças que nos atravessam e nos afetam nos constituemmito. felicidade.louc trag > profundidade sem fundo da existência X ordem natural: fundamento infinito de Deus (desdobramento infinito das séries divinas X conter a deriva dos sentidos da existência.

experiência trágica: fato estético >pathos da profundidade trágica .institucional. ontológico e produtivo ordem social: muros asilares. 19 Ver CX chestov au fund . indeterminado.às forças vivas.pathos da profundidade trágica. alteridade e profundidade X desterritorializante: sem singularidade própria > negativo da desrazão ou doença = transcendência ou profundidade . ontológico e produtivo) nas formas de apreensão (práticas e discursos X linguagem própria da loucura) -loucura excluída ordem social. interioridade psicológica .transcendência divina e profundidade da opacidade do corpo natural X inviabilizam o pathos da profundidade trágica > o homem = desatinado >> deriva existencial experienciando a ausência de fundamento em seu corpo. questionadores. recluída muros asilares e interioridade psicológica de um indivíduo >> doença mental = ilegítima (lógica e à razão que fundamentam a comunidade na partição do comum) X habitar o solo estremecê-la pressupostos basais .separação pelo silenciamento: erro e desvio contranaturais >> razão natural divina (inscrição da loucura como fato natural) manifestação do mal (bem original)>> espaço indeterminado circunscrito no quadro (cobre todo espaço da existência) > fato natural contranatureza >> desdobramento da natureza divina no jardim = aprisionamento disruptivos.ausência de fundamento >valor positivo da loucura: desterritorialização. >> loucura “só existe em uma sociedade (formas de repulsa que a excluem ou a capturam) .circulação e produção da loucura em profundidade >> enclausurada (institucional. de jogo e fenômeno estético heracl>nit>Deleuze p. ausência de fundamento X loucura na sociedade = formas excluem ou a capturam = fato estético presente no cotidiano >> silêncio do internamento =circulação e a produção . ao universo múltiplo e polivalente >>> experiência humana: busca de sentido. contingencial das paixões . forças de deriva. rumos afirmação da vida. e antiprodutivos >>paradigma de avaliação das práticas e teorias sobre a loucura ?? [[]] caráter inocente da vida.

e antiprodutivos >>paradigma de avaliação das práticas e teorias sobre a loucura . e antiprodutivos cujo aprisionamento a era clássica tenta levar À cabo.separação pelo silenciamento: erro e desvio contranaturais >> razão natural divina (inscrição da loucura como fato natural) manifestação do mal (bem original)>> espaço indeterminado circunscrito no quadro (cobre todo espaço da existência) > fato natural contranatureza >> desdobramento da natureza divina no jardim = aprisionamento disruptivos. uma verdade do mundo) .Passamos a ver como se enclausura esta deriva e flutuação existencial. essa transformação não se dá somente aí. questionadores. atemporal. aprisionamento no discurso (apropriação.5 . que enuncia. subsumir a outra coisa)>> enclausuramento da louc.Hospitais gerais (XVII) > loucura confinada no solo estático (consciência crítica) [[porém.Apreensão da loucura: o fundamento do jardim da razão Ambiguidade religiosa. interpretação. reúne sob uma unidade . = aspectos contranaturais.1. a desmedida e a alteridade . disruptivos. questionadores. não médica >> espaço indeterminado mistura circunscrito à clausura > linguagem reduzida a um silêncio >> figuras desatinadas da desrazão trágica > desrazão ocultado e desmedido Por um lado rompe a unidade trágica na qual razão e desrazão se encontram na intimidade indissociável de trânsito constante. conferem ainda um significado qualitativo da loucura (inumana. epigrafe pascal =Erasmo. Por outro. clausura = não-contato razão X loucura >> ética de purificação e depuração policial e jurídica. há um plano de condições de possibilidade]] separação radical. imaginária e onipresente. no silêncio ou na desforra.

louco erra pelas trajetórias da existência > desrazão = encarnação do mal X cultura.1) forma relativa à razão: dialética de reversibilidade > razão.grande internamento circunscreve a loucura > mundo correcional > diversos modos do desatino. razão sentido e um valor próprios (contida no campo da razão) -razão = círculo contínuo ==através da loucura (desarmada e deslocada) triunfa a razão X a não aceitação do círculo contínuo da sabedoria e da loucura (na reciprocidade e impossibilidade de partilha) > privado do uso razoável da razão >> assim. um movimento da razão . situá-la. fase difícil e essencial. se afirmam e se negam. objeto do Grande internamento.unidade trágica complexa. julga e domina: X desrazão verdade irrisória não tem mais existência absoluta na noite do mundo relativamente à razão > Ambiguidade e reversibilidade círculo indefinido razão à loucura se fecha. internamento = objetividade (valores exclusão) > desatino excomunhão = Bem X Mal = razão X desrazão >> espaço ético da decisão e da vontade -Desrazão desde sec XVI: contida e cerceada consciência crítica = forma relativa à razão + faz da desrazão uma parte. exclusão >> chaves do sentido de sua existência = forma do mal. destino = providência X luta ética do bem contra o mal = experiência crítica da loucura . momento ou movimento >> direção à consciência de si.experiência qualitativa da loucura = natureza deste mal é determinada por seus limites e gradações >> face terrível deve ser enclausurado > purificar cultura > razoável . razão assume e investe a loucura (sua contradição intrínseca) >> delimita-a. figuras. compromete destino e ordem divina > valorada negativamente. verdade da loucura como mal (justifica exclusão) . .2) uma forma da razão: necessidade. . referência e fundamento.forjada um conjunto indeterminável de figuras que dá corpo à desrazão clássica. que as perde as salva . força secreta. tudo está na imediata contradição > adere a sua própria loucura (só existe na comparação à verdade das essências e de Deus) é culpado de ser louco.

manifestação da verdade e o retorno apaziguado da razão > > ironia de suas ilusões X submundo as figuras. à pobreza e ao vicio. referências do verdadeiro e do quimérico > > inquietante . os valores e os movimentos da visão cósmico-trágica da loucura >> antinatureza > > realidade trágica. mobilidade da razão X não mais inquietam.desrazão. impureza e solidez. interpenetrações e interferências == reflexão moral e crítica>> intermediário da manifestação da ordem natural. no dilaceramento absoluto que a abre para um outro mundo > aparência: castigo real. se deixa penetrar por suas forças vivas protegendo-se da loucura >> verdade da loucura = vitória e domínio da razão > verdade da loucura é ser interior à razão (necessidade momentânea. moral de outras épocas) + paixão desesperada (próxima à morte. forma quimérica. arte. recusa essa loucura própria da razão > obstinada recusa: rejeitando-a. mão só irreversível e incontornável >> rumo ao dilaceramento e à morte === experiência qualitativa X unificada da ordem racionalizada . sem termo que ameaça das múltiplas figuras desatinada. na mais fechada. duplica-a >> mais simples.acolhida e assentada para reconhecer a miséria e a fraqueza X longe da verdade e do bem .louc = movimento da razão >> Hospital Geral = regras do bem pensar = razão = Descartes: exercício de um sujeito soberano. reconhece-a. verdade. materialização do desvio erro e falta. ouve-a. afastamento do mundo e da verdade encarna o mal = pecado. Pascal: juízo obscuridade. desaparecimentos destinados aos reencontros . no coração das coisas e dos homens > > perturbação. despojada de sua seriedade = dimensão do erro falso drama.presunção (complacências do imaginário.leviatã da razão = englobar a desrazão + disseminar um pouco de loucura = insere a loucura na própria natureza da razão === ERASMO loucura imanente à razão == loucura louca. agitação irrisória na sociedade.distância segura da consciência crítica: erro e a ilusão. ensimesmamento. mas a imagem do castigo. na mais imediata das loucuras X loucura sábia: acolhe a loucura da razão. contradição e confusão . se enlouquece das quimeras da literatura > valores. claras e distintas X Montaigne. profano e errático >> assegurar o bem na unidade da razão >> hospitaleiro para com a loucura presente. faltas supostas. certificar-se de si mesma e reconhecer a presença da loucura >> para razão triunfar = jogo barroco de absorção e dobra da desrazão à razão = divisão e distância. marginalidade . assassinatos ilusórios.

pois é a loucura que torna mais plano o caminho para as ideias novas. nem a doença são entidades. a sensualidade e o livre florescimento do eu são considerados “manifestações diabólicas”. mal) + positivo de organização das práticas (personagens e valores são aproximados e unificados) . sendo a doença um desvio interior à própria vida. entre a doença e a saúde e a diferença entre as duas é apenas de grau. prática. verdadeiro e falso. contamina e se espraia. o bem e a verdade universais . as oposições entre bem e mal. consciência crítica. polaridade. aniquilar as paixões é uma “triste loucura”. Transita. com isso.desatinados XVI: antinatureza. verdade ou obra. fluidez fronteiras + taxativa separação == a loucura dissemina. A loucura não passa de uma máscara que esconde alguma coisa. rompendo os costumes e as superstições veneradas e constituindo uma verdadeira subversão dos valores.recalcamento da experiência trágica >> arrebatamento. cuja decifração cabe à filosofia.mundo correcional policialesco > fora da cultura = negativo de exclusão (desrazão. cidade moral burguesa do XVII. para Nietzsche. não há fato patológico. não há circulação e deriva X conflito interno e na unidade complexa e instável de uma tradição crítica >> espaço ético de decisão e vontade >>>consciência crítica. diz Nietzsche. alteridade. trânsito e circulação viagem simbólica. os homens do passado estiveram mais próximos da ideia de que onde existe loucura há um grão de gênio e de sabedoria. sujeito. juízo decisão ou vontade do mal) > Hospital Geral . não salvaguarda a não-loucura referenciação e a estabilidade} == apontar um desvio. margens flutuam numa indecidibilidade. enunciativa e analítica > internamento = combate ao mal desrazão (temível. as imprecisões e as confusões. Para Nietzsche. A técnica utilizada pelas classes sacerdotais para a cura da loucura é a “meditação ascética”. dificuldades. doença e saúde são apenas jogos de superfície. a vontade de potência. Há uma continuidade. esconde um saber fatal e “demasiado certo”. contraponto elementar à razão = Deus. diferente.generalizada = erro/outro da ordem social X distancia da ordem divina bem da razão. a fisiologia e a patologia são uma única coisa. loucura e a não-loucura intercambiam suas linguagens >> possibilidade de inversão. assim. do erro e da doença >> imediatez do julgamento e da oposição: perigo da inversão {precisão. Mas. soberania do bem. que consiste em enfraquecer os instintos e expulsar as paixões. proximidade dos desarrazoados nem a saúde. ponto fixo. alguma coisa de . indeterminado e anti-produção >>> desarrazoados XVII: fato natural. mal.

a doença pode ser útil a um homem ou a uma tarefa. que se deve compreender a presença da loucura na obra de Nietzsche. como é visto de fora: A) B) C) D) Objeto: desrazão Sujeito: Conceitos: Articulação: Experiência da loucura como apreensão E) Prática: F) Discurso G) Linguagem loucura Solo de apreensão se constitui. e não a própria vida. da saúde à doença. Frente ao qual a locurua se constitui como outro. p. como chegam as formas de exterioridade.6: O novo solo da loucura ancorada na natureza humana O Bem é. instituição. com outros Regras de formação do espaço de qualificação K) Superfície emergência L) Regimes normalização institucional M) Grades especificação 1. Não fui um doente nem mesmo por ocasião da maior enfermidade” (FEREZ. Sua crise final apenas marcou o momento em que a “doença” saiu de sua obra e interrompeu seu prosseguimento. ainda que para outros signifique doença. aos “filósofos além de bem e mal”. 1999. Formação discursiva – saberes. e a loucura deveria cumprir a tarefa de fazer a crítica escondida da decadência dos valores e aniquilamento: “Na verdade. portanto. a arte de deslocar as perspectivas. diz Nietzsche. aos emissários dos novos valores e da nova moral não resta outro recurso.. como tal.. A filosofia foi. O “si mesmo” das coisas (essência) se dá . é derrubada. dogmática e moral do pensamento como atividade que quer e ama o verdadeiro. 15). superfície objetiva de saber I) Poder. Saber-poder H) Vdd. As últimas cartas de Nietzsche são o testemunho desse momento extremo e. pertencem ao conjunto de sua obra e de seu pensamento. interior-exterior J) Relação consigo. Outro do solo natural ordenado do mundo. se estabelece como ideal moral para o pensamento.divino: “Pela loucura os maiores feitos foram espalhados pela Grécia”. para ele. É dentro dessa perspectiva. sob o travestimento da loucura. a imagem clássica. Em suma. a não ser o de proclamar as novas leis e quebrar o jugo da moralidade.

captura. mas “o ponto no qual a história se imobiliza no trágico que ao mesmo tempo a funda e a recusa” (1961/1999. povo revoltoso. (2008). 1. encontrada somente no saber. 72) Mediante a ideia de fazer coincidir a obrigação moral com a lei civil. a alienação é produto da lógica da exclusão. A clausura possibilita. aí ela é espetáculo de horror da antinatureza. condiciona e institui a figura do alienado. elas se fizeram sem imagens nem positividade. 188 . p. entre repressão política e evolução da ciência se forma a idéia de doença mental deslizando nessa dialética. “Se a loucura no século XVII está como que dessacralizada é de início porque a miséria sofreu essa espécie de degradação que a faz ser encarada agora apenas no horizonte da moral” (1979. A loucura é outro em relação à cultura e ao bem decalcado do mundo ordenado por Deus. num movimento que dá base para a objetivação da loucura como doença mental. a criação do Hospital Geral com o subseqüente grande internamento dos pobres em 1657 – que é coincidente com a publicação das Meditações Metafísicas de Descartes (1641) – e a libertação dos grilhões do Bicêtre. pois está conjugada sobre o cadáver. signo da desvirtuação da natureza divina em relação à razão.no encontro (de corpos). 1. controle disciplina-mecanismo: Macahdo. serve para empregar os internos. Da passagem de uma a outra das experiências da loucura. 146). Não para excluir o alienado.Transição clássica. em Os anormais. serve para prover mão de obra para a crise econômica que assola a Europa durante o século XVII e durante a crise. como na tela de Rembrandt. mas não se reduz a algo neste encontro (ULPIANO. O grande internamento é uma dupla resposta. Mas perante uma transparência silenciosa de uma grande estrutura imóvel que não é a do conhecimento nem do drama.mod: Dois acontecimentos foram crucialmente marcantes para a experiência histórica da loucura. como tudo na história.7: O círculo antropológico ou homem como medida da loucura . . inacessível. 2013) uma nova sensibilidade em relação À pobreza e aos deveres da assistência se desenrola durante o século [[conferir o decreto da assistência PP na tese]] levam à laicização da assistência e à condenação moral da miséria. De fato esta transição se dá em descontinuidade. p. D.6 a analítica é a profundidade do saber. Condenação relativa à submissão do pobre À ordem estabelecida ou não – problema da antropofagia. mas para enclausurá-lo sob uma ordem de inclusão daquele que é percebido como outro. p. em 1794. – assim.

condições legais que dão direito . quem troca com a linguagem da realidade objetiva. quando começa a entrar a medicina no cuidado com a loucura]] objetivação da liberdade do louco. como mediação para lidar com a loucura. sistemas. Compreende..c2? Louc trágica (Adorno) diz menos sobre “sujeito. 1979. por isso deve ser submetido ao médico. ou suj em sofrimento e dor” que em inquietações moral e existencial – trajetória Laing Colocar: A acoplação do sociedade ao sujeito de direito consittui o a priori concreto da psicopatologia com pretenoes científicas. Ou seja. p. 2013. cada uma de suas evidências é fantasma” (FOUCAULT.à prática e à experimentação do saber.e apenas eles . é carregado pelo involuntário. recebendo dela singularidade e a presunção de verdade. subordinação hierárquica. demanda. e subscrição dela À liberdade do médico. Referenciação do louco ao médico. p. instituições.alienado volta à noite do mundo.medicalização da cultura =pra sociais = psiquiatria = objeto doença mental (YASBEK. p. 56) complementa questionando ainda qual é o status dos indivíduos que têm . Se perguntando sobre quem pronuncia os enunciados. à noite do mundo. normas pedagógicas. 126) . complementaridade funcional. À liberdade do médico. de proferir semelhante discurso? O status do médico compreende critérios de competência e de saber. 389). Foucault (1986. também. juridicamente definido ou espontaneamente aceito. o pathos. segundo Foucault (1979 [[]][[Medicina se referenciando ao louco. med como única forma de nos relacionarmos. com a gramática do mesmo que regra o solo de nossa cultura. de instituições de apoio e sustentação que regulem a prática e a experimentação dos saberes assim como sua relação com outros campos de saber-poder. . um sistema de diferenciação e de relações (divisão das atribuições.não sem antes lhe fixar limites . transmissão e troca de informações) com outros indivíduos ou outros grupos que têm eles próprios seu status. cada uma de suas verdades é erro. cada posição de enunciação supõe e exige – pelo menos formalmente – um emaranhado de critérios específicos. alienismo já identificara a paixão. como causa da alienação e o delírio como sua transcendência. “O alienado perdeu inteiramente a verdade: é entregue à ilusão de todos os sentidos.o direito regulamentar ou tradicional. .

Ela se desdobra numa oposição interior ao círculo antropológico que caracteriza a modernidade sob a égide do sujeito soberano e autocentrado que pode ocasionalmente cair na doença mental. fazer uma psicologia que entende o homem como alma.7 Ao invés de pensarmos a partir do homem. que presume um roteiro de evolução com um telos. a existência de uma experiência com as normas que é cultural e consiste na inserção no círculo antropológico. A inclusão a captura só se dá mediante um sistema de inscrição disciplinar. nos cabe . um certo regime de produção positiva de corpos. Ao incluir a loucura na ordem do homem (e de sua comunidade). Inscrevemos a loucura na ordem individualizante da boa formação. A oposição entre uma experiência qualitativa de antinatureza e uma apreensão assimétrica que coloca o louco como desviante sob um sistema coercitivo de normalização que se dá na passagem da desrazão para a loucura é substituída no século XIX. deslocamo-la de uma ordem de trajeto e deriva existencial para um problema de formação individualizada. como exploramos na seção anterior. Desde a noção de homem é que se pensa. pensamos as condições de possibilidade para que o homem se torne a norma referencial que atravessa toda experiência moderna. A experiência qualitativa da desrazão é uma questão de trajetória existencial. que é o negativo da liberdade e da responsabilidade que constituem seu fundamento.. doente mental é individualização psiquaitraica.Leitura biopolítica de HL O louco. disciplinar e biopolítica da loucura. se fala e se vive na modernidade. na continuidade irredutível em relação a este. A condição para a formação do sujeito moderno é a individualização. mesmo inscrita como negativo de uma escolha pelo caminho do mal. 1979). Assim. Brecha 1. A loucura aparece neste âmbito como deriva. ao lado de .. O homem normal é a base e o efeito da antropologia que se desenha sobretudo a partir do século XIX – período evocado no capítulo sobre O círculo antropológico em História da loucura (FOUCAULT. com um fim bem demarcado: o homem constituído como sujeito moderno. A condição para tal apreensão terapêutica e moral da loucura é. como aquilo que se furta à ordem do bem. ela concerne ainda a uma questão de trajeto.

solo puede aparecer como el resultado de una batalla perdida. A psiquiatria moderna traz outros modos de observação e manejo conceitual e das relações que se tecem entre o asilo. a internação. que se da en un momento histórico determinado.menos buscar por uma essência do homem. Gera produto-processos que determinam as novas regras de funcionamento para a máquina de produção.8: Sobre origem e finitude do homem . que podía ser objeto de un saber y objetivo de un poder. como problema a partir del siglo XVI. loucura. El hombre. mas se unifica em torno das formas de engendramento de seus objetos.). se lo podía educar.Bom funcionamento adequado: adaptar sujeitos À situação. desejo. enculturar y socializar. inscritos na série da periculosidade e do risco. a jurisprudência e a moral burguesa assentada sobre o trabalho (índice de produtividade). a exclusão social.ver a uma limitação do seu campo de atuação do poder C1. cuando se ha entendido que su cuerpo era útil y productivo. Vimos. Vemos que a psiquiatria do século XIX não pode se assentar sobre um objeto majoritário (perigo. bajo unas condiciones de posibilidad particulares Se nos serve de paradigma de normalidade. que pelas condições que possibilitam pensar o homem como o sentido e a referência para toda experiência moderna. Não há mais ato legitimador do homem. que não é fundamento. A linguagem pode criar outras situações. -. de delimitação e de especificação 1. Que se podía utilizar el hombre. um efeito de superfície ditado por um jogo de dominações. portanto que o El hombre es un efecto de un poder concreto en relación con la construcción de un saber. dentro de este esquema. A formação destes objetos se vê assegurada por um complexo conjunto de relações que envolve instâncias de emergência. O homem aparece como um sentido. instintos. etc. alienação. era inteligible y analizable. pode engendrar novos possíveis. cuando se ha entendido que se podía someter al hombre.1 Como se experimentam cada uma destas finitudes sob a perspectiva do homem moderno? . por isso.

a referência é Deus, um infinito que limita, ao passo que ao tomar o homem como
norma referencial da experiência moderna, ele produz positivamente formas de
diferenciação e subjetivação.
Em suma, ao nos desvencilhar-nos do modelo clássico metafísico do infinito
desdobrado nas formas de representação é que se passa a pensar o (homem) finito a
partir de suas finitudes. Isto significa que a realização da figura antropológica do
homem só é possível como consequência do regime de finitização imposto pela
finitude da vida, do trabalho e da linguagem.
não sendo mais limitada pelo infinito do mundo divino, a finitude humana se apresenta
sob a roupa do indefinido ao mesmo tempo em que é decalcada da finitização
daquelas instâncias (vida, trabalho e linguagem) a ele superior.
Isto significa que a ordem, o pensamento e a dúvida não garantem o ser e,
portanto, a existência concreta individual apenas acessa a vida através de seu próprio
corpo vivo. Assim como o homem acessa as determinações produtivas mediante sua
produção material e seus desejos e a materialidade histórica das línguas ao pronuncialas na sua fala. A atitude proeminentemente moderna de pensar o finito em relação às
finitudes experienciáveis, e não em contraste com o infinito metafísico, refere os
saberes a um fundamento e uma positividade na própria finitude, fundamento
encontrado no homem.
A sujeição do homem às empiricidades (a ele superiores) é o que faz dele
objeto de conhecimento para retomar o argumento de As palavras e as coisas
(FOUCAULT, 2000).
Se a era clássica se põe a pensar o infinito e Deus como origem da realidade, a
modernidade, ao contrário, pensa as formas da finitude para fundar a noção de homem,
fazendo dela seu fundamento, sob a sombra do qual se inscreve o problema loucura no
círculo antropológico (FOUCUALT, 1979). Condicionado por um investimento de
poder sobre os corpos que os individualiza, o círculo antropológico inscreve a loucura
como outro não na ordem dos fatos naturais do mundo clássico, mas em relação à
natureza finita do homem, assentada hierarquicamente na vontade, na racionalidade
e na responsabilidade.
Conjugado como efeito do processo de individualização, o homem moderno
surge como objeto de uma série de transformações que visam constituí-lo numa
unidade substancial como sujeito de direito, inscrito como autônomo frente a um

sistema totalizante de responsabilidade penal e civil (FOUCAULT, 2000, 2008) nos
interstícios do que fora a era clássica2.
Unificação forças múltiplas
Homem como duplo limitado pelas empiricidades e origem dos conteúdos empíricos
(MO p. 142)
Vemos como o sujeito é colocado no âmbito do transcendental como subjetividade
constituinte para operar as sínteses empíricas do conhecimento.
Fora da transparência imediata de um cogito.
Dar fundamento ao pensmaneto moderno por meio de uma antropologia.
Jaspers .... Esta dimensão de não-sujeição que resiste, contudo, à objetivação é uma
blasfêmia sem objeto (sagrado), que corresponde à transgressão moderna sob o olhar
de Foucault (1963/2001).
Loucura e cogito: sobre a racionalidade e o humanismo modernos
A relação entre ser e razão: o homem como figura da finitude
O pensamento, a razão que advém de Deus [sto agostinho, com o cajado], pode se
elevar ao infinito, mas esse infinito é inacessível a homem.
2 Resumidamente, das hipóteses que Foucault (2000) levanta em As palavras e as
coisas a que mais nos interessa na presente tese é a que condiz especificamente sobre a
formação da figura conceitual do sujeito moderno enquanto alvo da analítica da
finitude, que leva de um nível de finitude (o das empiricidades) a outro (ao fim do
próprio homem, como figura conceitual). O homem está delimitado pela vida, pelo
trabalho e pela linguagem que são epistemologicamente anteriores e o abarca. A finitude
destas empiricidades marca a finitude fundamental do corpo, do desejo e da fala. Neste
âmbito, a inscrição do sujeito na trama empírico-transcendental busca por um lado sua
verdade natural de objeto ao mesmo tempo que o inscreve, por outro, na malha histórica
das dissipações e ilusões, na qual a própria figura do homem tem um início e se desfaz.
Arqueologicamente indissociáveis de acordo com o pensador francês, aparece de um
lado o positivismo dos saberes empíricos, e de outro, a análise escatológica da filosofia
que visa antecipar o que será através da noção de “verdade em formação”, própria ao
discurso filosófico. A fim de desentranhar tal ambiguidade é que a filosofia toma para si
a analítica da finitude, fazendo desta dualidade menos um sistema de alternativa que
“uma oscilação inerente a toda análise que faz valer o empírico ao nível do
transcendental” (FOUCAULT, 2000, p. 441).

As empiricidades limitam e transbordam o homem (DÍAZ, p. 73)
Contraste com o pensamento clássico.
A finitude dá cabo ao disciplinar (1977)
Reler tudo, realocar e repensar. Puxar norma para o cap2... etc
Sujeito transcendental como liberdade não objetivável?
1.9 – Cogito e duplicação do transcendental
O avanço do cogito sobre o impensado; duplicação do empírico sobre
o transcendental
= ver Machado (2007, p. 118) o homem como antinatureza.
- as empiricidades assimilam corpos e coisas. As práticas discursivas e as nãodiscursivas têm igual força produtiva, igual poder de engendramento. Atos de
enunciação (acts os speach) X ações mudas
As práticas de uso de signos servem À expressão – estão nas leis, códigos e enunciados
determinadas convencionalmente pelas instituições no cotidiano. Servem tambem Às
teorias, explicaç~eos hipotéticas, desde o mais alto grau de formalização Às puras
positividades, passando pela doxa, pelas opiniões, ao senso comum [em algum lugar
tem uma def mt boa], etc. toda prática discursiva, se refere a um mundo, que ela mesma
produz, poder de auto-produção e autoimplicação da linguagem.
Práticas sobre corpos e coisas acabam amalgamando ações mudas, visibilidades em
repartições e distribuições espaciais, doam realdiade a uma variedade de qualidades –
instaura qualidades visíveis, sensíveis VER Tedesco, 2007, p. 144-5
- ética de abertura? a generalização do paradigma trágico para a humanidade no
espelhismos, toda significa a ausência de uma imagem original que sirva de modelo de
individualização.
Perante este cenário, é toda a humanidade que parece coabitar a nau dos
loucos: errância de uma busca sem garantias, habita o coração dos homens,
de outro, o navegar que traz a esperança de uma superfície de sentido e de
um solo tranquilo traz também a ameaça da queda no absurdo do
enlouquecimento.

- c2 ou 3? Dinâmica que se dá no espelho, Ricardo Piglia (2015, p. 149) se vale da
experiência do espelhismo para descrever a literatura argentina definindo-a como
articulação entre dois mundos, duas realidades e duas linguagens. Com o

Schmid (2002) A loucura interessa à medida em que possibilita a existência de uma verdade. do ser humano. Assim. um fundamento historicamente variável que tem nas muitas formas do saber. . Ela é o desconhecido que dá as chaves do conhecido do homem. As várias razões adquirem uma multiplicidade de formas em sobre os mais diferentes fundamentos que se contradizem e se substituem na incapacidade de fixar um ponto concreto ou mesmo uma linha progressiva ou racional de desenvolvimento (FOUCAULT. Tal fundamento imutável de constituição remete ao mesmo e à razão indivisível na certeza do eu como essência originária do homem cuja experiência está sujeita. O homem na sua inclinação infernal (que é o indeterminado. coabitação de planos distintos. instrumentos de transformação e de autoconstituição. aos limites determináveis e específicos. se vislumbra no vazio do deserto aquilo que não se pode ver com o olhar cotidiano fora do espelho. Como articular a síntese do cogito moderno entre pensa e não-pensa com a interioridade? E mais que isso com as normas? Ética: O pensador francês argumenta que não há um ato fundacional original que seja o marco da razão. dentre elas a clínica.espelhismo. suscetível de ser compreendida e verificada. De outro. há um fundamento epistemologicamente deduzido da figura conceitual do homem moderno. as condições de criação são traduzidas a partir deste espaço de indiscernibilidade como luta entre civilização e barbárie – no caso. a ser conhecido. Est e P-est??? 1983/???). o homem enquanto liberdade inapreensível para Jaspers) por isso Foucault pesquisa as formas extremas da existência da loucura e da doença. Na diversidade das práticas históricas são as próprias formas constituintes do sujeito que se abrem com a experiência. atualizada como comunidade e loucura. entretanto. ou melhor do homem. Guattari. Schimid De um lado.

desde a raiz. desfazem os mitos e imprimem esterilidade ao lirismo das frases. quanto à de distopia. porque impedem de nomear isto e aquilo. Sua especificidade consiste em provocar a inquietação a partir do deslizamento intencional dos nomes em relação às coisas nomeadas. porque arruínam de antemão a “sintaxe”. de sujeito e de objetos. deslize que possibilita a organização ou reorganização inusitada e. porque fracionam os nomes comuns ou os emaranham. p. 135-6) Morte como paradigma do saber: . toda possibilidade de gramática. algumas vezes. As heterotopias. insólita. sem dúvida porque solapam secretamente a linguagem. estancam as palavras nelas próprias.. Michel Foucault apresenta a noção de heterotopia como um fenômeno da linguagem cujo efeito se contrapõe tanto à ideia de utopia. (FOUCAULT. e não somente aquela que constrói as frases — aquela. Partindo dessa noção apresentada por Foucault – e posteriormente trabalhada por Jacques Rancière em A Partilha do Sensível As heterotopias inquietam. 2000. emaranham a superfície objetiva da linguagem e desorganizam as relações entre as palavras e as coisas. o cadáver se torna mais que o resto inanimado do homem para se converter em fonte de verdade sobre o corpo humano (FOUCUALT. 2011. p. contestam.A pergunta sobre o fundamento revela a importância da arqueologia foucaultiana que traz à tona a mutabilidade histórica da formas do saber incutida na variedade de formas de racionalidade. XIII) Paradigma do conhecimento pela morte: Domar o infinito Com o paradigma de conhecimento da e pela morte. Superficie objetiva X loucura heterotopia No livro As Palavras e as Coisas. que autoriza “manter juntos” (ao lado e em frente umas das outras) as palavras e as coisas. (. das noções. Pois o sujeito antes de ser fundamento imutável e determinante é caracterizado pela capacidade de modificação o que torna a pergunta por usa forma e seu destino uma constante. menos manifesta. segundo Foucault.) as heterotopias (encontradas tão freqüentemente em Borges) dessecam o propósito..

Por isso. 98). de forjar um artifício capaz de cumprir e assumir o lugar natureza naturada.. A questão da transitoriedade é deslocada então.. como instituição de uma natureza própria ao homem.Toda política orientada para a imanência absoluta atende à verdade da morte. individualista ou comunista. privilegiado e ocasional. 32) afirma que “a comunidade da imanência humana. trata-se. “Aquilo que chamam de natureza somente figura uma circunstância passageira e não existe enquanto tal (. e não aquilo que excede a finitude de maneira indomável. Tudo que se encontra inscrito na natureza está só pode ser entendido como estado constante e irreversível de deterioração que encontra consolo de reparação e redenção naquilo que Rosset (1989a) chama de prática naturalista do artifício. no fundo. A segunda. não há nada além do embrião. é o homem morto”. à natureza e a suas próprias obras. Podemos ler esta passagem de duas formas. De um modo ou de outro. entre a cloaca dos antecedentes e o apodrecimento por vir” (ROSSET. “a natureza se define por impossibilidades tanto quanto por possibilidades” (CANGUILHEM. A primeira. é a comunidade de morte – ou de mortos. movimento que reabsorve a morte – o silêncio da ausência de diferença –. 1989a. p. como síntese da ideia de que a morte do homem sucede a morte de Deus ao nível da natureza considerada como ordem divina no decorrer da era clássica num caso e noutro. In CX Natureza como passagem transitória. . o ovo prototípico. p. a criança que reside em nós como puro campo de virtualidades no qual circulam e coincidem singularidades disparatadas e que levam ao apodrecimento por vir. na antessala do homem. do campo de silêncio e omissão frente a uma natureza que se quer e se pretende estável na inteligibilidade de suas formas de apreensão para o cerne do processo de formação artificial e artístico de individuação.) ela só representa um instante. Na verdade. 2012. p. do homem convertido em igual a si mesmo ou a Deus. O homem realizado do humanismo. Ali. a morte é o cumprimento infinito da vida imanente. joga a luz do acontecimento sob a questão ao alocá-la no espaço cloacal que antecede a efetuação em qualquer forma ou estado de coisas. Nancy (2001. 191). Para o francês.

1979. vêm encontrar-se nessa transformação da personagem do médico. O lugar fundamental que a internação ocupara a alienismo é deslocado cada vez mais para a figura do médico como operador privilegiado não apenas do saber. como vimos. onde ela deve encontrar sua verdade. Assim. mas uma personagem. cujo espírito e valores são tão diferentes. sua justificativa. não tinha lugar na vida do internamento. não é porque a conhece. aquilo que a loucura ganha em precisão em seu esquema médico. p.Alienismo e Ordem coercitiva Ordem coercitiva do alienismo tuke pinel Pinel e Tuke abrem o asilo para o médico. corpo a corpo: sujeição do louco ao alienista. 2006) salienta que de Pinel a Charcot e Freud. p. E. como do próprio intervir sobre a loucura. . na alienação de sua pessoa. estão enraizados na minoridade do louco. O gesto que a liberta para verificá-la é ao mesmo tempo a operação que a dissemina e oculta em todas as formas concretas da razão (FOUCAULT. o asilo. Ele comanda a entrada no asilo” (FOUCAULT. Toda estrutura do poder psiquiátrico conflui para a figura do médico. além disso. O médico. Se a personagem do médico pode delimitar a loucura. não mais permite distingui-la daquilo que não é sua verdade. 549). e não de seu espírito. Esses poderes. ao psiquiatra e ao psicanalista. 513-4). Foucault (1979. o tratamento da loucura desagua numa operação de submissão que se desenrola. cujos poderes atribuíam a esse saber apenas um disfarce ou. mas pela instauração de um regime moral unificado no seio do qual se confundem técnicas de controle e precaução social com estratégias médicas. 547). são de ordem moral e social. no máximo. continua um pouco à frente Foucault (1979. de uma forma ou de outra. “acredita-se que Tuke e Pinel abriram o asilo ao conhecimento médico. mas para a entrada de um personagem que atua sob uma ordem de dominação moral e social instituída em dissimetria com o louco3. Quanto mais ela é objetiva. Tendo isto em vista. 1979. Não introduziram uma ciência. De forma que o novo espaço asilar se configura não exatamente pela medicalização. por natureza. p. menos é certa. 3 Neste sentido é que lemos as afirmações de que “a obra de Tuke e a de Pinel. Agora ele se transforma na figura essencial do asilo. não para um saber científico. é porque a domina”. ela perde em vigor na percepção concreta.

Consequentemente. Primeiro. 2006. 356). Como consequência ainda da revolução pineliana. Destes três pontos. o determinismo e a responsabilidade. o menos livre da natureza (FOUCAULT. a loucura do século XIX.A revolução c(l)ínica de Pinel A revolução c(l)ínica de Pinel pode ser elucidada por três pontos que destacamos do círculo antropológico descrito por Foucault (1979) em História da loucura. desvencilhado das correntes colocadas na era clássica. p. p. entretanto. 559). sua vontade e liberdade devem ser circunscritas e alienadas à vontade do médico. FOUCAULT. Assumir-se doente passa a ser a chave e o paradigma do bom doente mental. patologiza a histeria. mas da liberdade em suas determinações reais: o desejo e o querer. uma vez desvencilhada da questão do erro e do delírio. De Esquirol a Janet. potencialmente responsável pelo sofrimento de sua família ou por ferir a ordem e a moral social na qual ele está incluído. a loucura deixa de ser compreendida ao lado do crime e do mal para se alocar sobre um determinismo que a distingue e específica. incansavelmente. Pois na reflexão sobre a loucura. sendo que dentro da lógica pineliana. que se torna. contudo. Ao passo em que não se responsabiliza o louco pela sua doença. A noite do louco moderno não é mais a noite onírica em que se levanta e chameja a falsa verdade das imagens. 1979. engendrando um novo lugar para ela sob o âmbito da responsabilidade. a psiquiatria realoca a culpabilidade frente ao determinismo da doença mental. num espaço mais rigidamente fechado do manicômio. tratar-seá não do erro e do não-ser. concluímos que a revolução c(l)ínica tem como resultado a própria objetivação da liberdade do louco. . a loucura se torna problema de liberdade. referido ao involuntário. Por fim. e até na análise médica que dela se faz. como de Reil a Freud ou de Tuke a Jackson. Charcot enfim. uma vez que condiciona o tratamento e a cura da loucura. Da mesma forma que Pinel faz com que os loucos assumam sua doença ao liberá-los de suas correntes. arrancando-a da ordem da simulação e do mau comportamento ao instaurar o diagnóstico diferencial para coloca-la sob égide da medicina (cf. é a noite que traz consigo desejos impossíveis e a selvageria de um querer. o automático e o espontâneo. ele é responsabilizado pelos desdobramentos de sua loucura naquilo que ela ameaça aos demais e ao próprio louco. podemos perguntar de que adianta despojar o louco das cadeias que impedem do livre exercício de sua vontade. relatará as peripécias da liberdade. Clausura que reflete e responde ao próprio fechamento determinístico do louco na dimensão involuntária de seus instintos e desejos. o louco encontra-se.

por conseguinte. sendo privada de enunciar verdades à medida que não opera síntese entre sua linguagem e a verdade. já que é pautada sob e em prol de uma verdade do homem. A loucura sustenta agora uma linguagem antropológica visando simultaneamente. de sua inserção numa linguagem antropológica comunidade. 1979. sua verdade só existe e só pode ser operada desde um espaço que é lhe seja exterior. na inclusão do louco na ordem do socius? Ora. podemos nos perguntar por que a questão do trabalho ocupa um lugar privilegiado na captura. Excluída da representatividade positiva da comunidade humana. 560). A comunidade humana está centrada sobre a noção de indivíduo responsável por suas ações e por sua obra no mundo como podemos decalcar de Nancy (2001). que. a secas). porém integrada. seus poderes de inquietação. la comunidad es generalmente concebida como una obra realizada o por realizar. à verdade do homem e à perda dessa verdade e. à verdade dessa verdade (FOUCAULT. incluída no sistema de totalização desta está a loucura Comunidade: obra de Dios. y fundamentalmente como productor de su propia esencia bajo las especies de su trabajo o de sus obras . Ao passo que a loucura perde sua linguagem na era clássica. p. de demonstração de todas as exterioridades. por decirlo así. hombre (es) definido como productor (podría decirse también: el hombre definido. trata da inscrição do louco num regime de verdade que não é a de sua loucura. Toda ação deve incutir em obra. e num equívoco donde ela retira. a produtividade liga a consciência à obra no sujeito moderno. de la última y más grande obra de la humanidad o de un proyecto por terminar en un futuro lejano. para o mundo moderno. sujeito e produção [[]] Fazendo um recuo.A terceira consequência. está inscrita na obra. la obra llamada «comunitaria». está hecha para ser confesada. confirmada e identificada Comunidade é o lugar onde se mostra. onde se confessa e se identifica.

fragmentada em estilhaços pelos cortes significantes do que ela própria esconde. sobre sua distribuição de corpos. e marginalidades. determinando sua identidade de uma raça. por excelência. [[final para antrop Norma e vida são relacionadas (mesmo na sua instabilidade e flutuação) em suas equivalências e seus enfrentamentos pela figura conceitual do homem. y más precisamente. como uma experiência qualitativa de linguagem própria. de uma alteridade multiplicada. do mito ariano da raça pura. frente À responsabildiade que tem com suas ações e com a moral social. papeis. vem a ditar. o homem nao é mais. y de la auto-efectuación de la forma. se efectúan como su propia obra o se realizan como la finalización de la esencia auto producida Comunidade comungante é assentada sobre sua repartição. voluntad mimética de identidad. Como finitude. segundo os autores. A figura do “outro” a ser excluído encontrou no judeu a negatividade mesma deste projeto: a judeidade é expressão de uma errância milenar. mas a partir de sua obra. A regularidade ontológica deste e das leis da natureza que o regem é que fornece o substrato para tal apreensão. Recusa o reconhecimento da propriedade do louco colocando que na verdade. Nancy reparto [partage] inconfesable de la comunidad al silencio y a la intimidad A judeidade é o antítipo. para o nazista. nao tem sua verrdaee dada por Deus. no desenrolar infinito. hierarquias. Retomamos a seção passada e o início desta loucura presa a uma profundidade: conta o lirismo que coloca e entende a loucura como uma experiência das superfícies. dqeuilo que determina e especifica. en el sentido metafísico entra na oposição binaria errância X solo estável que. pertenece profundamente a las disposiciones del Occidente en general. corresponde a dois regimes de loucos: . chefias. a la disposición fundamental del sujeto. usado como instrumento de identificação mimética a uma identidade linear. de onde um povo jorra.sobre sua finitude. concreta e sem rupturas – conforme a leitura de Philippe Lacoue-Labarthe e Jean-Luc Nancy em O mito nazista (2002). Coincidir en ideas o sentimientos con otra persona.

A imaturidade do louco advém do determinismo que o corpo estabelece sobre ele. A retira de sua experiência qualitativa para coloca-la na continuidade do homem. 1979. nem sequer de uma vontade incondicionada ou irrefletida. pelas paixões o doente mental é arrebatado na perdição dos desejos e imagens frente às quais não pode ter governo. sua liberdade e sua autonomia. 2 manifestação da profundidade. de sua liberdade e de sua linguagem. do determinismo do corpo. não da verdade do corpo anatomo-fisiológico. de perversidade. frente aos quais se tornam inócuas sua vontade. p. essa profundidade iluminada pela loucura é a maldade em estado selvagem”. a loucura expressa e manifesta a profundidade do corpo. 564) afirma que “a loucura se distingue das doenças do corpo pelo fato de que manifesta uma verdade que não aparece nestas: ela faz surgir um mundo interior de maus instintos. por um lado a priva de discurso. associado ao primitivo. social. ele reflete a defasagem cronológica. e instintos em prol do projto civilizatório.1 o louco é como a arquehistória do homem. que caracteriza o louco na contraface do homem de vontade. É o mau gênio do homem que predomina na loucura”. mas de uma interioridade4 profunda manifestada sobre a forma do involuntário. psicológica no determinismo do corpo. 4 Neste âmbito é que Foucault (1979. é porque o louco é arrastado por essas forças da profundidade. A loucura fica presa. a doença mental surge como desvio quantitativo deste. 3 Se a doença mental não corresponde à alçada da escolha. À criança e ao animal. de sofrimentos e violência que até então estivera adormecido. Arrastado pelos instintos. Ela deixa que apareça uma profundidade que dá todo seu sentido à liberdade do homem. 564) pondera que “o mal existe em si no coração que é em si natural e egoísta. ele não consegue contem e dominar sua profundidade das paixões. Ao esconjurar a liberdade como obra do mal e demanda demoníaca do homem junto à Kant (2009). . Sob este viés. p. Hegel (apud FOUCAULT. atada a esta profundidade determinística que .

Esta. torna-se fundamento. 1979.) que concerne a um afastamento da natureza. 1979. 2011). aquilo que impedir legitimamente seu uso deve necessariamente ter alterado as formas naturais que ela assume no homem.) se a irresponsabilidade se identifica com a ausência de liberdade. A constituição do homem moderno como duplo empírico-transcendental passa pela postulação da loucura. . e sua irresponsabilidade é assunto de apreciação médica. como passagem espontânea para a objetividade. é momento constitutivo no devir-objeto do homem (FOUCAULT. O homem só se torna natureza para si mesmo na medida em que é capaz de loucura.A inocência do louco é garantida pela intensidade e pela força desse conteúdo psicológico. (FOUCAULT. 570). não da verdade moral e social do homem. p. A loucura de um ato se mede pelo número de razões que o determinaram (FOUCAULT. 1979. quando objetivada. a loucura condiz não à natureza. o louco se torna irresponsável. Assim a loucura se torna condição de objetivação do homem. 479). como para o século anterior.. na medida mesma em que resulta de um determinismo objetivo.. arrebatado pela vivacidade dos desejos e das imagens. não há determinismo psicológico que não possa inocentar. (. de uma abolição da liberdade já conquistada em nível psicológico. A desgraça da loucura. a forma principal e primeira do movimento com o qual a verdade do homem passa para o lado do objeto e se torna acessível a uma percepção científica. em termos jurídicos. p. Acorrentado pela força de suas paixões. não será nada além de um estado de fato. O internamento do louco. Neste contexto. A loucura é a forma mais pura. em que Rousseau descreve o homem como bom selvagem. segredo. p. 585) 4 – a condição para a cura e a saída da loucura condiz submissão desta à verdade do homem. Loucura XVIII afastamento da natureza No decorrer do século XVIII. O desaparecimento da liberdade. a uma animalidade. Ela é uma doença da sociedade (que se relaciona com as artes. a tradução. a leitura de romances. isto é. etc. a liberdade tornou-se uma natureza para o homem. então. não há verdade para a psicologia que não seja ao mesmo tempo alienação para o homem. mas verdade profunda que condiz ao determinismo do homem na e pela profundidade de seu corpo (FOUCAULT. revela a verdade do homem. essência da loucura. como meio e instrumento de conhecimento da realidade e da verdade do homem. de consequência que era. 1979.

os umbrais de epistemologização. correspondem a relações que o saber mantém consigo mesmo. Na entrevista sobre A verdade e o poder. só podemos averiguar (criticamente) esta verdade nos desvencilhando do sujeito de conhecimento. particularidades e especificações extensivas advêm de um indivíduo. noções. Logo. Logo. efeitos de regulamentação de poder. absoluto e originário (AVFJ??). Partes. 2014) constitutivas do saber reduzem deste modo a dinâmica ontológica problemática do campo da individuação a uma relação de causalidade e especificação resumida à superfície objetiva. As verdades são relações que se engendram dentro de órbitas discursivas. uma vez inserido na ordem do fato natural. o homem está submetido a leis determinísticas ou probabilísticas de funcionamento (FOUCAULT. Tal naturalização é efeito político de um cientificismo que lança mão de uma espécie de naturalismo para conceber a natureza como sistema capaz de tudo esgotar e no cerne do qual a realidade pode ser plenamente apreendida. entendemos que a ciência Não necessariamente alcançam os níveis de. Elas supõem desde o início uma forma gregária regida de forma identitária como figura global. 42-4) e AS 1986 Gregário Depreende-se então que a verdade sobre o homem se esgota em seu ser natural e que. 2014a. não há verdade transcendente ou transcendência da verdade. DELEUZE.Verdade e superfície objetiva. [[em 1. . não o contrário.3 a desrazão é uma perspectiva qualitativa]] As noções extensivas. 1957/1999). relativas aos seus limites e predicados – relativas à superfície física objetiva – só podem apreender as pulsações intensivas da individuação sob a forma de sua redução estática no tempo. Foucault (2005) salienta que a verdade é engendrada desde um sistema de coerções e produz. mas não por isso (DELEUZE. por sua vez. A verdade se desenrola neste mundo. cientificidade. assim como as qualitativas. p. Esta dimensão das formas de exterioridade (cf. e formalização para ordenarem um campo científico.

Ver Castro. p. a resposta terapêutica à loucura vem com o tratamento moral Três eixos que organizam o tratamento moral: Silêncio. o louco se vê mais densamente acorrentado a sua interioidade. captura e boa formação Captura Ver poder psiq CX Final de definição de homem. 78) de que o indivíduo se constituiu na medida em que a vigilância ininterrupta. à sua subjetividade que Às correntes que trancavam o desarrazoado. é hora de ressaltarmos que todo este capítulo trata tão somente das formas de apreensão e captura e dos saberes sobre a loucura. a escritura contínua e o castigo virtual deram forma a esse corpo assim subjugado e extraíram dele uma psique. ao qual se está preso por uma condição de compreensão da própria formação. o inscreve. p. Posto isso. Exercício de personalização e individualização de singularidades nômades. é que desde 1860 a classificação psiquiátrica das doenças não tem fins terapêuticos. excluir e retomar sem cessar esse corpo-psique serviu para caracterizá-lo. 284 Sinal disto. 78) Se forja uma interioridade. 2009. 150) ao apontar que “a classificação nosológica não está . e o fato da instância normalizadora distribuir. pois. Involuntário. Os saberes não são. é o resultado desta dobra que tem como produto uma interioridade. de que a captura da loucura inscrita na ordem dos desdobramentos dos mecanismos de individualização modernos atua em prol da maximização das forças produtivas. p. O saber são formas de exterioridade. recognição e o submeti-te. p. assentadas na finitude. mas visam tão somente à distribuição do trabalho entre os doentes como sinaliza Foucault (2006. reconhecimento especular e o julgamento perpétuo. o subscreve sob a linguagem antropologia.Interioridade – em CX já: Considerar-se indivíduo prescinde do trabalho de uma consciência sobre si mesma. mais que formas de exterioridade Trabalho e liberdade. Daí a constatação de Foucault (2006. (2006.

Santos (2014). 2005. o inglês ainda associa não somente o trabalho às formas terapêuticas que pretendem lidar e reduzir a liberdade desmedida do insensato. visa engajar o louco num sistema de responsabilidade: O trabalho regular deve ser preferido. p. produtos e formas identitárias de ser (cf. engajamento da responsabilidade com o fim único de desalienar o espírito perdido nos excessos de uma liberdade que a coação física só limita aparentemente. de terapias (das mais tradicionais e violentas às chamadas alternativas) e consultas (que vão do médico ao feiticeiro) não é suficiente à exigência permanente de bem-estar que configura. submissão à ordem. a partir dos estudos de Lypovetsky (2005.. como igualmente a matemática e as ciências naturais. limitação da liberdade. entre outros. Tuke (apud FOUCAULT. o trabalho será despojado de todo valor de produção. a nova ordem produtiva de nossa cultura. apenas servindo. .. a produção social se coaduna com o consumo de forma que a produtividade à qual a loucura é submetida passa a ser atravessada necessária e regularmente pela consumo de formas de bens. só será imposto a título de regra moral pura. Deste modo. Nos vemos diante de uma abundância e a expansão dos modos de satisfação e consumo constituem a nova norma de produtividade do socius. fábricas para competir em produtividade com as indústrias que estão além muros. tanto do ponto de vista físico quanto moral. e o que há de mais oposto às ilusões da doença. 528-9) assevera que o trabalho e sua obrigatoriedade na forma de ergoterapia. Além disso. ao contrário. Trata-se. 2007). de inscrever o indivíduo num sistema de responsabilidade que visa recolocá-lo frente aos modos e costumes morais e sociais da época5. é aquilo que existe de mais agradável para o doente.. A preocupação não é fazer dos asilos. a doença mental é inscrita numa política econômica de regulação e de gestão de riscos onde mesmo o consumo massivo de drogas (das farmacêuticas às ilícitas). 1992) das novas formas de consumo. A loucura entra neste circuito como mais uma frente dentro da infinidade de apetites criados em torno da otimização de saúde sob a ordem da autovigilância e das práticas tecnocientíficas que incidem transversalmente sobre a população. como formas de adestrar. para definir a utilização possível dos indivíduos nos trabalhos que lhes propõem”. (. adequar. 2007). Assim. . 1979. na realidade.ligada a nenhuma prescrição terapêutica. a loucura é inserida sob a axiomática (DELEUZE.. Nesta mesma linha. LYPOVETSKY. disciplinar a 5 Embora no século XIX o homem seja caracterizado pelo seu trabalho e pelo que produz. na contemporaneidade.) No asilo.

fazendo com que o tempo dos homens. ligada à obra e a suas ações sociais. Assim. corrigido. a locando-a num solo fixo e estável. o que é colocado em jogo com a dupla conversão do tempo de vida em tempo de trabalho e do corpo em força de trabalho? A experiência qualitativa do homem. reformado. Caso isto aconteça. p. o preso não é mais o que deve ser supliciado.liberdade desmedida. uma mudança da mesma ordem acontece nos presídios. moral e economia que tem por referência o paradigma do sujeito responsável por seus comportamentos e por sua obra frente à sociedade. Correlativamente. Se o grande internamento da era clássica traz junto à marginalidade a animalidade que caracteriza o mal da loucura como inferior à ordem racional do bem divino. Dentro do asilo. uma mercadoria. o tempo de sua vida. qualificar-se como corpo capaz de trabalhar. De um jeito ou de outro. para proteger a sociedade dos perigos da loucura. Se as faculdades racionais que ligam sua individualidade à responsabilidade por seus atos e por sua obra no e frente ao mundo social em que vive. Sua segunda função consiste em fazer com que o corpo dos homens se torne força de trabalho. A loucura deixa de ser abordada dentro da dinâmica do ordenamento racional do mundo e passa a se configurar como um problema do indivíduo livre. desde que não cometam atos que comprometem e atentem contra a instituição. Vemos aparecer assim claramente a segunda função. o manicômio tem seus limites fixados de maneira bem clara. a liberdade se torna mais que valor moral. os internos mais produtivos são premiados até ganharem a liberdade. perdem os prêmios e a subida aos degraus que permitiriam sua libertação. receber um certo número de qualidades. de modo que suas pretensões médico-terapêuticas não são mais que secundárias. A própria verdade da loucura é decalcada desta conjugação entre controle. a questão da loucura moderna concerne à falta em relação à concepção de sujeito e frente à comunidade humana que abarca e compreende o louco. sua liberdade é sequestrada. se transformasse em tempo de trabalho. 2001. alienada e submetida à outrem. a internação moderna é a tradução jurídica de uma situação que ocorre de fato: a liberdade que falta ao louco. Ao que diz respeito à loucura. 118). . dando uma medida à liberdade do louco objetivando-a. A função de transformação do corpo em força de trabalho responde à função de transformação do tempo em tempo de trabalho (FOUCAULT. A primeira função do sequestro era de extrair o tempo. mas o que deve ser formado. Por isso. Com o trabalho se contribui economicamente com a administração que obtém um lucro econômico com isto. o que deve adquirir aptidões.

na qual “comportamentos polimorfos foram.Disciplina e biopoder Ver CX poder psiq e individualização rel com discp Descrição do asilo idela de Fodéré parece uma descrição sadeana. de um problema político-econômico de produção através da seriação e individualização possibilitada materialmente pela individualização das técnicas. em que o normal tomou o lugar do ancestral e a medida o lugar do status. análises ou práticas com radical “psico” têm seu lugar nessa troca histórica de processos de individualização. tudo é fruto da distribuição de corpos. correspondem a terapêutica.. O momento em que passamos de mecanismos histórico-rituais de formação das individualidades a mecanismos científicos-disciplinares. enfim. sob a forma assentadas na observação do corpo nos detalhes de sua organização interna visando o aumento de sua força econômica e a diminuição de sua força política Captura que implica a aplicação do poder sobre a vida desses indivíduos a fim de maximizar sua potência produtiva engendrando corpos dóceis e úteis. realmente. 161) O monstro é um poderoso aliado daquilo que Foucault (1988 HS1. pois o indivíduo é formado justamente pela ação do poder sobre os corpos. esse momento em que as ciências do homem se tornaram possíveis é aquele em que foram postas em cena uma nova tecnologia do poder e uma outra anatomia política do corpo (FOUCAULT. Em outros termos. cada saber-poder tem sua especificidade: ao louco. extraídos do corpo dos homens. culmina num processo no qual se anula a dimensão qualitativa de toda experiência em prol de uma continuidade que conduz sempre ao homem. . 1977. a psiquiatria e o manicômio. p. 47-48) chamou de “a sociedade panóptica”. A constituição do saber médico. substituindo assim as individualidades do homem memorável pela do homem calculável. dos seus prazeres. De maneira que a produção e a eventual correção em série.. não de indivíduos. Panóptico: aparelho que conhece e individualiza Todas as ciências. por seriação e compartimentação dos indivíduos. Os corpos são parasitados nesta ordem. a ordem e a lei reina. Trata-se. etc. a neutralidade. A condição do saber médico e asilar dependem da ordem disciplinar. saberes e instituições. p.

instalados. de coincidência e de isomorfismo” (FOUCAULT. Tal redução do volume orgânico a um elementar que é. O monstro corporifica aquelas práticas sexuais que não devem ser exercidas ou que devem ser exercidas apenas por meio do corpo do monstro. os aproximam e. 129). 128). de uma vez. a individualidade complexa e inesgotável dos órgãos se dissolve e. Eles são os elementos dos órgãos. p. numa abstração e profundidade mais complexas criando signos “Abram alguns cadáveres”. mas os atravessam. intensificados. 2011. se simplifica” (Foucault. Foucault nos ajuda a ver porquê. um universal aparece como condição para o desenvolvimento de uma fisiologia [ que aparece como padrão de objetividade fundado em dispositivos de mensuração. de redução quantitativa e de abstração a um padrão geral de cálculo . p.mediante múltiplos dispositivos de poder. NC??2011. Haverá tantos sistemas quanto tecidos: neles. p. incorporados”. de sucessão. 104-31) observou que “a sexualidade do monstro assume uma vida separada”. Tal princípio geral de inteligibilidade era fornecido. para além deles. aparecendo como um “espaço ao mesmo tempo mais complexo e mais abstrato. a natureza trabalha com uma extrema simplicidade de materiais. no caso da constituição do espaço corporal. onde era questão de ordem. Susan Stewart (1984. Transformação do corpo em um espaço abstrato que era resultado da aplicação de um “princípio geral de decifração” do espaço corporal semelhante ao princípio geral de constituição do espaço homogêneo e geométrico da física moderna. constituem os vastos sistemas nos quais o corpo humano encontra a forma concreta de sua unidade.12 – Adaptação e produção de signos numa perspectiva clínica [[ tomar o corpo como matematizavel. pela redução do corpo a um campo de tecidos orgânicos: “A partir dos tecidos. [[mas qual a quetao desta criação de signos? Ativa ou não?]] Michel Foucault reconstitui a trajetória que permitiu à fisiologia e à anatomia patológica aparecerem como fundamento da clínica. Ela e Eles!: o monstro impõe os códigos culturais que regulam o desejo sexual. foram solicitados. isolados. Tal posição da fisiologia só foi possível a partir do momento em que o corpo foi reconfigurado. ao mesmo tempo. Ver: governo 1.

à nível de gestão e gerenciamento.Negatividade e continuidade Tendo isto em vista. quer se trate da loucura. produz certa concepção de anormal que seria anterior à própria experiência com as normas e engendra também as formas normalizadas que confere visibilidade e concretude à norma e dá corpo ao seu exercício. produz as formas que. as tecnologias normativas atuam sobre as formas. Primeiro. Logo. opera estrategicamente. regimes específicos de interioridade e exterioridade e naquilo em que elas engendram e transformam relações consigo mesmo e com os outros. relativo à biopolítica. Estas relações de dobras de forças e formação de superfícies tem consequências e efeitos determinantes na relação do sujeito com a comunidade que o circunda e nas relações que pode ter consigo mesmo. De um lado. . O primeiro. A presunção paradoxal de uma normatividade ideal é condição de normalização à medida em que toda norma surge reativamente. a normalização corresponde ao regime crítico acerca da loucura. as condicionantes e as condicionadas pelas operações de poder. Isto é. assim como sobre as forças. Destarte. instaurando. por um lado. nos dedicamos em seguida a explicitar as condições para a normalização e a apreensão da experiência subjetiva da loucura. quer se trate do aspecto não-lógico da vida. mais que a um outro sujeito – como Foucault (1979 e 2006) aponta nas concepções de terapêutica e alienação assentadas na figura do médico – a uma norma ideal. Assim. que engendra e o objetiva como corpo-máquina. é imprescindível a sujeição dos indivíduos. O segundo. se vale da gestão científica da vida ao nível das populações. Por um lado. é relativo disciplinar dos corpos. Foucault (2002) aponta dois mecanismos que atuam em distintos níveis mas que se articulam e complementam no fortalecimento e uso da normalização. não obstante. Formações entretanto condicionadas pela porosidade de trocas e correspondências entre o funcionamento das normas sociais e o modo de operação invisível próprio ao poder que tem duas dinâmicas relativas ao exterior. Eles mostram que a norma serve para disciplinar um corpo individual e para gerir um corpo coletivo de população. como resposta a uma situação posteriormente negativada em sua dinâmica e mobilidade. remete todo ordenamento próprio ao vivo à norma social de um sistema exterior a este enquanto faz remontar toda exterioridade possível a esta unidade sistemática interior total e identitária. Regime que atua em três eixos.

Este assassinato. isto significa que o sujeito normal é definido por sua inclusão no sistema político econômico e pela adaptação a nível de desejos e instintos normalizados. não é um extermínio de inimigos do soberano. A norma decalcada de tal movimento é defendida a todo custo com a instauração de certa ideia de homem cunhada sistematicamente na sua possibilidade de ser compreendido pela domínio razão. mas uma eliminação daquele que atenta contra a norma. observamos uma inflação da razão médica na submissão do corpo e de suas potências de deriva a este movimento de cuja outra face é o esvaziamento da relação médico doente. [[mesmo inscrita no âmbito médico como doença caracterizada por uma experiência pática de sofrimento. sob a lei natural que o liga ao outro. De maneira sucinta. De acordo com estes termos é que se desenha a radicalidade do pensamento de Michel Foucault (2002) ao pautar a normalização como lógica que dá margem e argumento para o racismo e o assassinato de Estado. 6 De fato. não há espaço para Sai de cena o sujeito e seu sofrer. as ciências aplicadas trazem o paradigma científico da precisão através do método experimental de matematização. a sujeição às normas sociais de conduta e produção material e subjetiva. Por outro. Por um lado. como o fora até a era pré-moderna. submetidos a uma identidade individual capaz de atar suas várias faces em uma unidade que cale a multiplicidade constitutiva6. se o controle da natureza passa pela imposição de normas para a vida a mirada científica não pode deixar de estar impregnada de exigências sócio-políticas.A condição de possibilidade de tal sujeição repousa no fundo da crença (tipicamente moderna) no poder ilimitado da razão humana que deve subordinar o corpo assim como todo o insubordinado e problemático do mundo. A partir daí. . uma comunidade – nos moldes de nossa cultura ocidental – deve funcionar reforçando seus próprios fundamentos e seu funcionamento legítimo. para entrar a vida codificada como sistema codificável e apreensível de leis.

STP??). mas volta-se para a saúde como forma e condição do bom funcionamento da mecânica sócio-produtiva. cabe ao poder médico a discriminação da boa formação individual e orgânica – a forma privilegiada com que o poder incide. pela instauração e pelo sucesso de uma ordem disciplinar. por este motivo. Consequentemente. Foucault (STP??. como a medicina de então. do tempo e do comportamento em geral. p. o grande desejo disciplinar da polícia de transformar a cidade num convento – cujos indivíduos são plenamente controlados – e o reino numa cidade – cuja população é perfeitamente administrável. recordemos – a saúde é tornada questão de Estado. Uma vez que a própria racionalização do trabalho tem como condição a mecanização da vida e do comportamento dos corpos Todo este projeto passa. Em decorrência do controle exaustivo dos corpos individuais – elementos de força produtiva. à medida em que condiciona cotidianamente (e não apenas no contexto de uma grande epidemia) a mecânica da produção econômico-social (FOUCAULT. que é o regulamento”. entretanto. Vigias de saúde são operadores funcionais do controle administrativo das populações na execução deste planejamento caracterizado por Canguilhem (2005) de higienista à medida que visa um parâmetro de higiene generalizada para o bom funcionamento da produção social. atravessada de fio a pavio pela instância médica. A fisiologia é a ciência das condições de saúde. ele se põe a pensar a interação social com as normas na formação e ordenamento das ciências relativas ao normal ou ao patológico. formando e organizando os corpos individuais. a medicina higienista se volta não mais para a doença. Neste segundo ensaio. 458) ironiza. é a ciência do movimento vital (capaz de instituir normas) dos corpos .[[ polícia médica controle administrativo. na forma jurídica “da lei em seu funcionamento móvel. Seu argumento é que existe apenas a fisiologia enquanto ciência das situações e condições biológicas consideradas normais. ele desconstrói a noção de uma ciência biológica do normal. revolvendo o solo de sua pesquisa à luz das descobertas foucaultianas – como o próprio Canguilhem (1996) salienta –. Parte de tal projeto passa pela expansão sócio-política da medicina das cidades para o campo assim como pelo acoplamento da ordem médica à ordem policial. dentre tantos ramos capilares em que se distende o poder disciplinar. na aula de 5 de Abril de 1978. Ao destacar uma lógica policial. sócio-produção. permanente e detalhado. Em 1966. fonte de poder (de micropoder) que ordena e organiza um controle disciplinar exaustivo do corpo.

modificados.vivos. esta tem de servir de reserva de mão de obra barata para a nascente sociedade industrial. o mal ou um desvio de rota. Consequentemente à supressão da inquietação existencial perante a errância. 39) sustenta que os mecanismos de exclusão da loucura. mas pelo poder que incide sobre os loucos. mas é estrategicamente investido por e levado a alimentar uma matriz ou sede global. Neste sentido é que Foucault (EDS??.. Isto significa que a partir do momento em que a exclusão dos loucos passa a gerar um lucro político e certa utilidade econômica eles são aderidos e investidos pelo sistema burguês global. a aplicação econômica do internamento se torna inútil. por isso a burguesia se interessa menos no fato da exclusão em si que na micromecânica de tal exclusão. p. . Pois na modernidade. burguesia e força de trabalho Ao tratar da tipologia moderna de poder na aula de 14 de Janeiro 1976 do curso Em defesa da sociedade Foucault (EDS??) sugere que se parta dos mecanismos infinitesimalmente pequenos de poder (disciplinas. é que a questão clínico-terapêutica surge como problema da boa formação dos corpos individuais. passam a produzir certo lucro econômico. assim como a vigilância e a medicalização da sociedade. Encontramos aí o terreno preparado para a emergência da questão clínicoterapêutica da boa formação. liberal e mercantilista. se viram naturalmente colonizados e sustentados por mecanismos globais e. As condições para a ordem normativa moderna têm raízes na ascensão da burguesia ao poder nos séculos XVI e XVII. pelo sistema do Estado inteiro [. certa utilidade política e. Ela deve reconhecer a “normatividade original da vida”. o corpo humano passa a ser convertido e avaliado essencialmente como força produtiva. O poder não irradia de um centro. finalmente. Ali. saberes e operadores normativos) que são deslocados. investidos e anexados por fenômenos globais. “fisiologia tem mais a fazer do que tentar definir objetivamente o estado normal. que pode ser traduzida em: como tornar o louco um corpo útil e dócil? [[poder e medicalização.] A burguesia não se interessa pelos loucos. dos hábitos que se instituíram para ser normativo e não como determinação estável e universal. por essa razão.. admitir que nela há uma plasticidade funcional ligada a sua capacidade de criar e infringir suas próprias normas” Ela nasce do tempo. nas suas técnicas e procedimentos. estendidos. Não faz mais sentido enclausurar a pobreza.

Especificamente. da passagem da era clássica. e como ela pode servir à sociedade. 7 Os incuráveis são aqueles que persistem no erro. a face apavorante de não-ser que outrora vestira a loucura clássica desarrazoada passa a ser regulada. O que outrora era simplesmente excluído. que remetem os incuráveis ao sistema meramente coercitivo que tipifica o asilo clássico 7. o poder moderno se move entre o direito público da soberania e a mecânica polimorfa da disciplina. Desta concepção advém uma série de distinções que podem ser genericamente entendas como boa loucura. 1979). a função positiva do asilo moderno que se organiza em torno da liberdade. A regulação e a terapêutica da loucura passam a constituir. acompanhado de perto pelas disciplinas (FOUCUALT. à curabilidade da doença. 8 Caracteristicamente. e má loucura. a fins do século XVIII. A norma no entra no lugar da regra que simbolizara a . portanto. 2006). onde o parâmetro de governo dos corpos é a norma8. Como é possível. entretanto. de um sistema que se ocupa das leis e sua aplicação para o da disciplina. Tais tratados. a partir do qual se decide sobre os graus de liberação e retenção do alienado (FOUCAULT. a que se deixa desalienar. 2006). A análise de Goffman (A??). são localizados num regime de passagem. a incurável (cf. a assistência está condicionada. aponta como traços característicos das instituições de internamento a manutenção da tensão entre o mundo doméstico – mundo das ações. transformar a liberdade em instrumento terapêutico? De máquina social de supressão da liberdade. passa a ser regulado. dos pensares e sentires do interno – e o mundo institucional e o uso dessa tensão persistente como força estratégica no controle de homens. Cabannis propõe um diário para o controle das ações dos loucos. Marcado pelo poder médico – ilimitado à medida em que nada pode resistir a ele – o espaço asilar é reorganizado em torno da dissimetria que caracteriza as relações não recíprocas de poder no seu interior. medida e colocada em comparação.[[asilo moderno e liberdade Em suma. FOUCAULT. entretanto. [[leis assistência Com efeito. Seguindo tal trilha. o asilo passa a organizar um inquérito sobre a loucura. se a preocupação com a segurança pública e o dever de assitir o doente aparcem ao final do século XVIII nos tratados de Doublet e Colombier (publicados ainda no reinado de Luis XVI).

não da lei. Processo cuja face mais visível é a medicalização geral da sociedade. à norma. observamos como o asilo psiquiátrico superpõe a assistência médica à repressão. Entidade médica que funciona não através de cuidados propriamente médicos. da lei de governo decalcada da regra que traz sua vontade soberana é ocupada pelas ciências humanas na jurisprudência da clínica. A passagem do código de leis para a normalização caracteriza modernidade se assenta sobre as disciplinas. agora redefinido como aparelho de manipulação da liberdade em reclusão. fornecer certa liberdade para que a verdade da loucura se manifestasse e a imanigação retome a percepção do imediato. p. etc – que a vontade do soberano. segundo a fundamentação de Tenon. “Esta liberdade. em entidade médica (deixa de ser um simples mecanismo social de exclusão) e no próprio agente de cura. e elas se referirão necessariamente a um horizonte teórico que não será o edifício do direito. O uso da técnico-terapêutico da liberdade tipifica a conversão do internamento. E sua jurisprudência. A alçada do que fora espaço do direito do soberano. será a de um saber clínico” (EDS??. para quem não conhece o freio da razão. que se ocupa da boa formação dos corpos individuais. dos comportamentos e dos discursos. já é um remédio que impede o alívio provocado por uma imaginação solta ou perdida” (TENON apud FOUCAULT. identificada com o erro enquanto desvio. mas como jogo de (restrição e concedimento do) movimento. Já a doença mental moderna é definida segundo uma série de determinismos – o pathos insubmisso. falta moral e não-ser. mas o campo das ciências humanas. 45). p. Destarte. como manipulação de um espaço de formação que articula a liberdade à imaginação ligada aos objetos apropriados. 477). em contrapartida. do direito. .[[ responsabilidade liberdade e determinismo Destarte. para quem a liberdade condiciona a desalienação e a cura. ao silêncio e aos limites para a subjetividade que deve calar seus fantasmas perante a realidade das coisas e do mundo. Estas “definirão um código que será aquele. Mesmo atada a seus fantasmas e paixões desregradas. a normalização invade e coloniza o âmbito a lei. mal. mas da normalização. para essas disciplinas. O asilo deve conter os furores desmedidos e. a imaginação desenfreada. desrazão da era clássica é ainda autônoma na sua rota existencial. o delírio. 1979. A regra jurídica decalcada do sistema de soberania dá lugar à regra natural.

p. 2006). claro ou oculto que faça a linguagem ou lhe dê a possibilidade de dizer o mundo. correlativamente. sua liberdade jurídica é confiscada. Uma vez que a natureza humana do louco se encontra comprometida. Foucault señala que lo que se denomina hombre.caracterizam a partir da perda da liberdade ou. Desta forma é que a medicina acaba por colonizar todo o discurso sobre a loucura como relação dissimétrica que reverbera a lógica asilar de enclausuramento. pois a problemática está centrada na questão da liberdade como liberdade do sujeito jurídico ou da natureza humana. Destarte. 2008). Final e transição para o cap 2 Território e expressão – transição – justificação do sentido através do acontecimento o som não teria um valor convencional na designação – e um valor costumeiro na manifestação. . Consequentemente. não há mais embate na alçada da razão com a desrazão. que sirvió como instrumento de reivindicación del poder de la burguesía. nacieron la ilusión y la realidad que llamamos Hombre”51. Instância fundamental do sistema de poder disciplinar. A questão da expressividade torna obsoleta toda busca por um fundamento. 2006. do erro e da verdade. resta ao doente mental submeter-se (a si mesmo e à sua liberdade) ao corpo do médico. natureza-costume. 192). perante sua verdade de sujeito e alienado de seus direitos e responsabilidades frente à comunidade. um valor artificial na significação – senão porque leva sua independência à superfície de uma mais alta instância: a expressividade. que fue moldeado por esa misma burguesía para utilizarlo como fuerza política y económica. Sob todos os aspectos a distinção profundidade-superfície é primeira relativamente à natureza-convenção. 2000. en los siglos XIX y XX es la imagen de la oscilación entre el individuo jurídico. regulação e controle (FOUCAULT. Alienado perante si mesmo. y el individuo disciplinario. “de esa oscilación entre el poder que se reivindica y el poder que se ejerce. naturezaartifício (DELEUZE. o médico é capaz de lhe devolver a autonomia desde que o doente mental se sujeite às normas de disciplina. podemos questionar qual o lugar da verdade mediante a ausência de fundamento da realidade (impossibilidade de correspondência inquestionável entre palavras e coisas. à impossibildiade de tomar o louco como responsável por seus atos (FOUCAULT.

. que escapa simultaneamente à loucura e ao louco. O sentido que se dá na superfície corresponde ao campo foucaultiano do saber (cf. O que está em jogo na ausência de fundamento é que o sentido deve ser pensado não a partir de uma essência fundamental – inexistente. Porém a criação da loucura. para ser alocada nas proposições. não parece uma boa saída. DELEUZE. pois – mas do acontecimento. São as proposições que de fato manifestam. por isso não são desmerecidos como falta de profundidade. ela é uma condição. Isto significa que a questão da verdade deixa de ser o eixo central do problema do sentido e da loucura. q se fa À despeito e com o maior. 2015) ao mesmo tempo que nos permite pensar e dizer o mundo como resolução de tensões de um Ser problemático. [ produzir proposições com a pro da lucura?? É isto? Essas proposiç~eos são o discurso menor. a produção da loucura é que vem a ser o acontecimento.visto que todo campo de sentido é um campo transcendental construído) que complementa a ausência de fundamento da subjetividade? Não há uma verdade fundante. toda questão do sentido passa então ao campo do problemático. Qual é esse acontecimento? A doença? A criação? Se pensarmos a loucura como acontecimento. enaltecidos como vastidão dimensional. do sujeito nem da relação do sujeito com o mundo. mas antes. ao passo que a verdade é realocada ao âmbito das proposições. efetuações que se dão na superfície física e levam a cabo os processos de significação dados em cada campo de verdade constituído nas proposições. designam e significam toda linguagem possibilitada pelo acontecimento. o monologo da razao. na ordem dos estados de cosias.]] [fim cap 1] Os possíveis se dão na superfície como efeitos de superfície.

os dispositivos saber/poder acerca do louco. O Nascimento da clínica (FOUCAULT. ortopedia social e naturalização da experiência humana 1. Agora.Administração. Adaptação. Esquirol. Canguilhem (2002) toma como ponto de inflexão fundamental as pesquisas de Foucault (2011) sobre o fenômeno institucional e cultural da clínica moderna para articular a normatividade vital à normalização social. Tratando das maneiras de julgar e intervir sobre a vida. 15). mas ao âmbito da anormalidade e à “função-psi”.6 adaptação ortopedia. trata majoritariamente de aspectos físicos. PP e AN é a história da disciplina. “Todo poder es físico y hay una conexión directa entre el cuerpo y el poder político” (PP.. El cuerpo es esencial al poder. decisão e aplicação da norma – da norma ao nível coletivo. asimilación encre el cuerpo del psiquiatra y el ámbito asilar Aqui aparece a razão como norma e como sujeito de conhecimento da loucura Foucault parte de uma série de cenas de cura presentes nos escritos de Fodéré.. social e político. Pinel. O médico é sobretudo um corpo. corresponde à normalização como interferência – a nível de julgamento. mas das práticas psiquiátricas. Esta outra face. quando Fódére descreve as características ideias de um médico. Haslam para comprovar que elas antecedem e propiciam toda organização institucional e todo discurso de verdade assim como a troca e o intercâmbio de modelos. talvez caiba justificarmos as opções pelos autores utilizados para intermediar nossa pesquisa sobre a clínica enquanto experiência com as normas. Já nos estudos da norma e do normal em relação às ciências humanas nos ensaios de 1963 a 1966. distinta do movimento normativo instaurado pela e a partir da vida. 2011) traz uma outra face da norma estudada por Canguilhem (2002) na sua tese de 1943. mas não dos seus conceitos ou das instituições.. A função-psi é derivada da medicina (2006) 1. Tais práticas condizem não apenas à loucura. .6… administração….

Ela amarra uma normalidade interior. a adaptação do vivo aos termos normativo-normalizadores do meio implica a limitação e o condicionamento das suas potencialidades e de seus movimentos normativos. p. A consolidação da fisiologia é tributaria do questionamento acerca do tipo de relação o organismo estabelece com o meio. apesar de essa sociedade ser um sistema de pressões que. . No texto de 1966. Assim a alienação do paciente no médico fica perfeitamente esclarecida e justificada. Tendo isto em vista. 2002. a nível de geração e de tolhimento. A matematização e a submissão a uma norma é o que caracteriza a normalização. A randomização da experiência do vivo em torno da noção de adaptação incute que a plasticidade. a empresa de unificação em torno a um padrão de normalidade capaz de produzir o sujeito normal acima aludido. podemos observar que a designação distintiva da figura psicossocial do normal e do louco articula sobrepondo a experiência das normas vitais à das normas sociais. ou a busca por ela. 129). Canguilhem sinaliza que a correspondência entre saúde e adaptação própria ao mecanicismo biológico é indevidamente exportado para as ciências sociais e para a psicologia. Pois a definição psicossocial do normal a partir do adaptado implica uma concepção da sociedade que o identifica sub-repticiamente e abusivamente com o meio. a uma normalidade referente ao exterior constantemente deslocado. Ou seja: o valor de julgamento e qualificação que cada norma pode vir a adquirir é antecipado neste ordenamento. a criatividade e a flexibilidade normativa do vivo sejam delimitadas. segundo as intempéries de ordem política de produção de existências. já contém normas coletivas para a apreciação da qualidade dessas relações (CANGUILHEM. [[adaptação O que torna a de adaptação uma noção privilegiada na operacionalização dos processos de normalização. No último quarto do século XIX. Ao nível do corpo e da vivência individual do vivo enquanto tal.O corpo do psiquiatra comporta o do doente. com um sistema de determinismos [exteriores]. o organismo passa a ser entendido como sistema aberto à saúde e à adaptação. Da alienação da vontade. antes de qualquer relação entre o indivíduo e ela. literalmente envolto no interior deste através da vontade. isto é.

Le cerveau et la pensée e Meio e normas do 9 No artigo O vivente e seu meio.Revisitando sua tese de doutorado em Novas reflexões referentes ao normal e o patológico. a noção de adaptação se distende da biologia à sociologia e à psicologia. Podemos observar a dimensão psicológica da figura psicossocial do inadaptado em textos como Que é a Psicologia?. ao mesmo tempo base do darwinismo e origem da psicologia behavorista. Logo. Sua ideia da formação das estruturas orgânicas antecede e se complementa com o mecanicismo orgânico de adequação ao meio. Nesta série de ensaios. em sua transposição para a biologia no século XIX. Assim. a questão se desloca da norma para a normalização. ela mantém a relação de julgo com a exterioridade. escritos entre 1963 e 1966. de uma concepção mecanizada de sociedade e de corpo humano. Canguilhem (2012) associa as raízes do pensamento determinista à Descartes. Adaptação a uma condição única e invariável é implausível ao vivo. Em seguida. entre o vivo e um meio que desafia o vivo. p. sob um viés de subordinação psicossocial. 2012. Aqui. De início. “o determinismo da relação entre excitação e resposta é físico” (CANGUILHEM. confrontada com a norma social. entretanto. em interlocução com racionalização política e econômica. Canguilhem (2002) propõe uma revisão do vínculo entre as noções de normal e adaptação. as noções de adaptação e inadaptação social da então emergente psicologia do comportamento avalizam e servem como critério para a determinação entre normal e anormal assim como de saúde e doença. sujeito a uma série de determinismos9. entrevemos o campo problemático do cuidado e tratamento à loucura enquanto outro de nossa cultura e de nós mesmos. . a adaptação designa uma atividade técnica de conformação material ou de adequação a uma situação com fins a uma operação qualquer. toda situação do vivente não é produto de outra coisa que do condicionamento. O resultado de tal confluência implica na ideia de conformação do comportamento com o meio geográfico e físico. já que a adaptação possível é disposta às diferentes condições do meio e do sujeito. a adaptação cauciona uma definição psicossocial de normal que depende. Cang NP Com efeito. Enquanto atividade técnica. 151).

à diferença das leis. uma ética sem exigência e uma medicina sem controle”. Como vimos na seção anterior. eminentemente descritiva deve se voltar para o homem concreto. Já no segundo aforisma da primeira dissertação sobre bom e mau. por vezes. ancorada numa filosofia de sujeito em oposição a uma psicologia prescritiva que instrumentaliza o homem em favor de normas a ele alheias. Por isso. como ética de má fé ou como perversão da medicina. no entendimento do francês. Desvencilhada da prescrição e do recolhimento em torno das normas. cria-se uma ordem policialesca dedicada aos anormais e inadaptados sociais. aponta. Canguilhem (E?? 1989??) distingue o utilitarismo como ethos de apropriação pelo homem e para o homem de instrumentalismo. . é que se erige um padrão – conceitualmente fixo. embora historicamente flutuante – de normalidade sobre o qual se apoia toda técnica de normalização. Se ao se perguntar o que é a psicologia? ele a tem potencialmente como ilusão filosófica. Somente aí a psicologia pode se encontrar e trabalhar os valores múltiplos do vivente humano assim como a pluralidade das normas elaboradas pelas diferentes subjetividades. a normalização nem sempre resulta em imposição. falta à psicologia uma antropologia de fundo que combata seu ethos instrumentalista. ela recai na instrumentalização das pessoas10 sob aspectos técnicos e científicos. pretensamente desinteressadas. bem como por razões de ordem econômica e política. a psicologia. Ao lançar mão de uma concepção de indivíduo passível de condicionamento e adaptação. e bem e mal. não condiciona necessariamente seu objeto. que implica tomar o homem como meio útil a algo. Sua crítica à psicologia condiz ao direcionamento por ela imposto à formação subjetiva dos indivíduos no meio social. p. Em contraposição. Seguindo esta trilha é que. mas o coloca sobre a sombra de uma eventual normalidade ou anormalidade plenamente capaz. como visando a readaptação e a correção comportamental moral ou coercitiva ou.homem no trabalho nos quais Canguilhem (1973. possivelmente alheio ao próprio homem. contudo um caminho para que a psicologia se organize como projeto de entendimento dos valores e da vivência humanas. separando a psicologia de toda referência filosófica em torno da ideia de homem. 1993. Enquanto instrumento de normalização. As tecnologias de normalização assimilam a ordem policial valendo-se de suas técnicas não apenas para a identificação de desviantes. De fato. Canguilhem (1973. o filósofo alemão critica a utilidade como termo de uma psicologia de rebanho que se presta a seguir normas exteriores. 2001) elucida como uma psicologia de fundo behaviorista traspassa as tecnologias de normalização. Caminho encontrado na interlocução com uma antropologia que propicia a integração de uma subjetividade sem interioridade ao campo propriamente psicológico. no entendimento dos valores e da vivência humana do conflito espontâneo das normas. por sua vez de inversão. A fim de anular toda reversibilidade da norma. ambas. ??) a considera uma “filosofia sem rigor. as análises pontuais de Canguilhem (1973. E??) parecem propor uma psicologia antropológica. propõe um ethos artista que favoreça a criação de novos valores. desde que em interação com um meio mecanicamente manipulável. 10 Inspirado na Genealogia da moral de Nietzsche (GM??).

??) assinala que a invenção da clínica médica se revela um fato de ordem cultural quando.. o epistemólogo cita a gramática – muito significativamente atada à ortografia – e da sintaxe. O que pode ser transposto. mais ainda que estranho. ser apropriada pela burguesia. embora um olhar minimamente histórico possa elencar uma sucessão de centros e deslocamentos que arrastam os padrões e formas de apreensão junto às estratégias de perpetuação e fixação do poder. é que Canguilhem (ideologies et racionalité. se não há norma original. Neste âmbito. 13) trata de uma ortopedia social – e pior.Obviamente. p. em relação à exigência. que denota a instituição de regras para a ortografia e a ortopedia. Do mesmo modo. Posto isto. dedicada àqueles que se constrangem com sua função 11 Neste âmbito. Foucault (1977. Cada centro referencial. No exemplo citado. como um indeterminado hostil. Canguilhem (2002) elucida que. a normatividade condiz sempre a um complexo que envolve o meio cultural11. Já relativamente à normalização terapêutica. Isto significa que. partindo do referencial anatomopatológico. nos termos foucaultianos explorados acima.” (CANGUILHEM. o modelo de exame individual é disseminado e quando se passa a postular métodos de determinação massivos para as condições físicas e morais da vida humana a partir dos efeitos positivos obtidos com a vacinação. etimologicamente. 109). Por outro lado. voltada para a adequação do adverso e do diverso ao universo dado a partir de seu padrão de normalidade. como exemplos de normalização em prol de uma referência alheia ao seu campo próprio. com a racionalidade política e econômica de uma época. numa ordem disciplinar individual e numa regulação inscrita na ordem coletiva da população. além de corresponder ao traçado de uma relação perpendicular. no caso. de uma ortopedia moral. a gramática – com sintaxe e ortografia incluídas –. do qual se decalca o padrão. após a Revolução. quer se fazer passar por fixo. ao campo da linguagem. enquanto regra tomada para um corpo. 2002. cuja variedade e disparidade se apresentam. a palavra norma significa esquadro e que normalis. esta referência pode adquirir formas tão dispares quanto a fisiologia e o corpo do psiquiatra. a um dado. relaciona-se com o termo ortos. a normalização atua como efeito da conjunção da norma social. atua primeiramente em proveito da centralização em torno do poder real para. . “normalizar é impor uma exigência a uma existência. alvo de investidas política e econômica.. p.

.. o poder se exerce sobre a alma do sujeito. Sistematicamente. Em suma. atendem efetivamente aos desígnios de vigilância e controle relativamente permanente do indivíduo. Ele deveria ser homenageado em cada uma de nossas sociedades. p. Trata. endereçando-o com uma instituição em particular e com um tipo específico de tecnologia normalizadora. 12 De fato.punir. Hegel. a ortopedia atua sobre o corpo do sujeito como “ocupação meticulosa do corpo e do tempo (.) enquadramento de seus gestos. embora manipulável. Tal sujeito é expresso sob uma espécie de corpomáquina. Ambos. o pensador francês de Vigiar e punir enaltece o investimento individualizante do sistema ortopédico centralizado de correção. de acordo com Foucault (1977. Referindo-se à legislação penal e à penalidade em geral. Peço desculpas aos historiadores da filosofia por esta afirmação. É a idade de controle social. alguém de certa forma previu e apresentou como que um esquema desta sociedade de vigilância. a medicina e a psiquiatria à medida em que almejam colocar em marcha um sujeito mecanizado e docilizado. a atividade de correção dos anormais aparece necessariamente vinculada a uma instância exterior que exerce sobre ela poder e autoridade na forma de saber. Foi ele que programou. Ambas as instâncias. p. institucional e tecnológica. ele responde com fidelidade e segurança. Trata-se de Bentham. de suas condutas por um sistema de autoridade e de saber” a fim de corrigi-lo individualmente. mas acredito que Bentham seja mais importante para nossa sociedade do que Kant. além da ressocialização do indivíduo – sua reinscrição no sistema econômico-produtivo –. passível de ser condicionado e cujo funcionamento é plenamente modelado no encontro com um meio ao qual.. apto a servir aos desígnios econômicos e políticos de sua comunidade. 107). Entre os teóricos que há pouco citei. Foucault (AVFJ??.se de uma forma de poder. da grande ortopedia social. etc. definiu e descreveu da maneira mais precisa as formas de poder em que vivemos e que apresentou um maravilhoso e célebre pequeno modelo desta sociedade da ortopedia generalizada: o famoso Panopticon”. Em seu seio. 86) reproduz o raciocínio de forma clara e sucinta na conferência A verdade e as formas jurídicas ao comentar a entrada em uma era por ele caracterizada justamente pela “ortopedia social. Trata-se de uma ortopedia dos corpos em função do poder disciplinar12 ao qual serve a clínica. expressos na forma de um padrão decalcado e sistematicamente centralizado atuam na individualização sob os auspícios da sujeição às normas sociais que promulgam. de um tipo de sociedade que classifico de sociedade disciplinar por oposição às sociedades propriamente penais que conhecíamos anteriormente.

corpo-máquina A condição para que autoridade e saber disciplinares operem. Depreende-se então que a verdade sobre o homem se esgota em seu ser natural e que. Colocando os indivíduos sob o regime de leis naturais e sob o fundamento de um corpo-máquina subjetivamente sujeitado é que os saberes podem exercer sobre um campo específico a aplicação de suas regras e normas. que se orienta pelo poder de deriva inerente à normatividade vital. o homem objetivado como organismo sob as leis da natureza e a experiência subjetiva humana são subordinados a um sistema limitado e específico de funcionamento – cujo fundamento é o corpo mecanizado. transformando um problema de decisão e orientação existencial em um problema de formação. Tomados sob a ótica do fato natural. colocar de pé e uma retificação. Perspectiva clínica que parte de uma norma alheia à existência singular e ao pathos do sujeito para julgar sua vida. submetendo os indivíduos a seus paradigmas superiores de julgamento. objeto natural. em relação a norma colocada em cada situação segundo um emaranhado complexo de autoridade e saber revertidos em investidas de (res)socialização e controle. Uma que atua em proveito da normalização social.Consequentemente. sobre o campo do vivo e da loucura é o forjamento de um objeto natural. No . Tal naturalização é efeito político de um cientificismo que lança mão de uma espécie de naturalismo para conceber a natureza como sistema capaz de tudo esgotar e no cerne do qual a realidade pode ser plenamente apreendida. ao qual se deve necessariamente intervir com endireitamento de rota. Pois o presente capítulo se dedica à primeira perspectiva enquanto tecnologia clínica de submissão e apreensão estática – sob um conjunto de regras. Trataremos da segunda no próximo capítulo articulando-a à arte como tecnológica e capaz de dar consistência a uma tal experiência de deriva. leis naturais ou estruturas de funcionamento – da vida e da loucura. a ação de tal perspectiva normalizadora consiste em endireitar. Neste intermédio se desenham dois tipos distintos de experiência clínica. [[condição p disciplina. o homem está submetido a leis determinísticas ou probabilísticas de funcionamento (FOUCAULT. à potência de engendramento e desvio da vida. Outra. retifica e captura fluxos de produção e transformação em um direcionamento e empobrecimento das forças constitutivas de diferenciação. uma vez inserido na ordem do fato natural. 1957/1999).

no fundo. (DRAWIN. Remete um sentir e vivenciar próprios à singularidade do vivo às estruturas psicodinâmicas. a ressocialização do indivíduo insubordinado. o equilíbrio do espírito. Naturalizar é condição da atuação daqueles que Foucault (1977. 244) alcunha em Vigiar e punir de “técnicos do comportamento: engenheiros da conduta.interior deste sistema funciona uma engrenagem capaz de articular uma variedade de tecnologias e mecanismos de normalização não necessariamente coerentes entre si. graças à magia da técnica. o indivíduo se relaciona a partir da crença de que racionalidade técnico-científica – nela incluídos todos os imperativos econômicos e administrativos necessários à sua maximização conquanto força produtiva – encontra-se a seu serviço e que quase tudo. mas constante e reiteradamente referidos a um padrão que sistematiza e centraliza exigindo um direcionamento em suas operações. Não fortuitamente. a plena realização de sua individualidade. na mesma obra o pensador francês localiza o surgimento das ciências da natureza no final da Idade Média como desdobramento das práticas de inquérito e dos conhecimentos empíricos. Enquanto campo heterogêneo. dentre outras do vivente – do vivo tal qual tomado na inteligibilidade e apreensão pelos saberes. a intensidade e diversidade dos prazeres. razoável e frequentemente indefinido o sistema opera como conjunto implícito e subentendido de crenças e valores. físio-determinísticas. Com ele. comportamentais ou neurobiológicas. o sujeito se encontra atado às formas de funcionamento normalizadas sistematicamente instituídas. Ao sujeitar as existências coletivas e individuais às leis de funcionamento próprias de um fato social é que se torna possível submete-las ao controle e à adaptação tornando viável. de um cálculo de poder. estaria ao seu alcance: a saúde do corpo. de representações e práticas que constituem um imaginário coletivo socialmente legitimado. Sujeitado às normas sistemáticas de (re)produção. o sistema atua sobre o vivo como força cuja irregularidade não o exime de participar. a naturalização não deixa de ser uma objetivação precisa e intimamente incompatível com a singularidade. 30). Isto significa que as raízes da naturalização da experiência humana. ortopedistas da individualidade”. p. Em outras palavras. 2004. à tiracolo. . Desta forma. enfim. p. de seu método de descrição e estabelecimento factual.

ela é 13 “Ora. donde advém a psiquiatria como forma sistemática de submissão e controle dos indivíduos. a pedagogia. Estas são talvez para a psicologia. p. 2005) se empenha em seguir a trilha aberta por Foucault (2011) em O nascimento da clínica. 186). Outro poder. a criminologia. Canguilhem (2002.. O que leva entender as ciências naturais – base de uma série de objetivações dos saberes disciplinares – vêm. O higienismo e a medicina preventiva são frutos desta dobra. filiamo-nos à normalização como submissão. Que a psiquiatria surja no âmbito da higiene social e não como especialidade médica indica uma dupla codificação à respeito da loucura. o que esse inquérito político-jurídico. religioso e leigo foi para as ciências da natureza. p. Simultaneamente. outro saber” (FOUCUALT. ao demonstrar como a medicina moderna se presta à gestão sociopolítica do cotidiano e da vida em comunidade. Ambas. a análise disciplinar foi para as ciências do homem. Ao deixarmos para trás era clássica com a fogueira inquisitória como tentativa irrevogável e radical de controle e submissão do pensamento e da experiência. e nos Escritos sobre medicina. a ocupar e espaço da fogueira inquisitória enquanto mecanismo de extração e produção da verdade. Administração. voltadas para a questão da administração da diferença e da produção humanas. codificação e aplicação de normas para a intervenção na experiência humana moderna.. a psiquiatria. Essas ciências com que nossa ‘humanidade’ se encanta há mais de um século têm sua matriz técnica na minúcia tateante e maldosa das disciplinas e de suas investigações. foi como higiene do corpo social inteiro que a psiquiatria se institucionalizou (nunca esquecer que a primeira revista de certo modo especializada em psiquiatria na França foram os Annales d’hygiène publique)”. pelo menos em parte. e para tantos outros estranhos conhecimentos. administrativo e criminal. alienação e terapêutica Nas Novas reflexões. é isto que enaltece Foucault (2008. 1977. Precisamente. o que foi o terrível poder de inquérito para o saber calmo dos animais.estão situadas no modelo operatório da Inquisição 13. entretanto.148) afirmar no curso sobre Os anormais que “foi como precaução social. das plantas ou da terra. .

ele aparece sobretudo como inimigo e perigo para a sociedade. o pensador francês se detém a examinar a lei francesa de 1838 que supõe a internação para a interdição do sujeito. Ora. Mais até do que calar as ilusões. erro. Primeiro. 2006) do manicômio e do campo psiquiátrico. melhor. 199) não pode deixar de salientar que o poder psiquiátrico é sobretudo uma forma “de administrar. p. antes de ser uma cura ou uma intervenção terapêutica: é um regime ou. Neste novo contexto asilar em que o poder médico é indissociável do administrativo. Mais que inclusão na instituição psiquiátrico-disciplinar do asilo. este é o argumento para fazer com que a realidade – produzida enquanto desígnio da norma social – se imponha como poder de coerção sobre a loucura..entendida como doença. a captura do sujeito enquanto força insubordinada nos tentáculos de um sistema cuja operacionalidade se assenta num paradigma de normalidade pautado pelo sujeição destas forças hostis. Quando a internação que caracteriza o louco passa a ser uma decisão concernente ao campo técnico-administrativo ou médico-estatal de intervenção. louco. no final do século XVIII e início do XIX. Foucault (2006. o poder psiquiátrico é uma forma direção e administração (FOUCAULT. é mero efeito secundário da administração do isolamento. a internação indica a sujeição. de espaços distintos para o louco (o asilo psiquiátrico) e para crimonosos e delinquentes (a prisão). assim como dos indivíduos por eles envolvidos. por sê-lo e enquanto o é. 2006. é preciso defender a sociedade como . fichas clínicas e diagnósticos assim como é inscrita na ordem da prevenção social. Respectiva e analogamente. o asilo no século XIX não mais é administrado por monges. distúrbio e como má constituição. Pois o louco navega a esmo pelo território das ilusões e sob a insígnia da periculosidade. Atento a esta dupla frente. Focando o período em que a readaptação do anormal passa do âmbito familiar ao campo heteromorfo dos poderes médico-jurídicos. À despeito da criação. se espera dele uma série de efeitos terapêuticos”. paramédicos. mas deve ser dirigido por um médico simplesmente porque ele detém o saber (ibid. Antes mesmo de propor qualquer intervenção propriamente terapêutica. ele é colocada em análise em prognósticos. a tarefa normalizadora do poder psiquiatraico consiste sobretudo na administração da periculosidade. A internação passa a ser uma decisão de autoridade do prefeito e do médico (o qual preza pela dimensão técnica da questão: a alienação ou não-alienação do sujeito). p. da regularidade e do uso do tempo em toda a extensão do campo psiquiátrico. composto por asilo. a terapêutica. quando e se aparece. 216).

no sequestro dos direitos e da cidadania do cidadão fortalecer a família e demais instituições sociais e. Em A danação da norma. Assentadas sob a lógica panóptica de visibilidade permanente. o autor de Vigiar e punir destaca a emergência da lógica policialesca como ordem primeira inerente ao poder psiquiátrico e ao asilo. quiçá. vale ressaltar que a entrada na instituição psiquiátrica tem como . a realidade médicoadministrativa asilar se põe a submeter o anormal. isolamento e punição permanentes. cujo fundo é a busca da verdade natural do sujeito e de sua loucura e a luta contra a loucura. o sujeito é dissociado de toda experimentação consigo e até mesmo ou eventualmente com sua própria dor. Associando a vigilância piramidal dos olhares ao controle individualizante naquilo que a atividade psiquiátrica se resume basicamente em administrar os indivíduos e centralizar a individulização sob a autoridade sistemática do médico (FOUCAULT. a capacidade curativa do hospital é tributada a sua própria organização. 2006). 2006.sistema geral – isolando o mal –. Roberto Machado (DN??) relaciona a psiquiatria e a medicina social no Brasil às transformações político-econômicas que o país atravessa desde o século XIX. Neste âmbito. 1977. tratar o anormal. p. vigilância central. à referência de controle. FOUCUALT. a desordem e o perigo decorrentes da má distribuição e do mal funcionamento da sociedade brasileira de então. a manipulação da liberdade. para enfim. 103). a forma como se olha e como se é olhado (cf. compreendida como vontade insurrecionada e regime de infinitização. Isto significa que as propriedades curativas do asilo residem na disposição arquitetônica e na organização do espaço que ditam as formas de circulação. que ressalta a origem policial da noção de alienação mental. e os regimes de visibilidade. Sob a autoridade policialesca centralizada do médico é que são forjadas as identidades individuais e as técnicas de retificação comportamentais. Enaltecendo o aspecto de controle. Elas ocupam um lugar estratégico no cerne dos aparelhos de Estado para controlar a população. Submetido ao forjamento individualidades médico-administrativas que só podem falar em terceira pessoa. sua doença e seu sofrimento quando aquela existe e quando este se manifesta. as propriedades curativas do asilo só podem ser análogas àquelas que constituem os dispositivos disciplinários de Bentham. Valendo-se do fundamento factual e das leis naturais. Tal identidade médico-administrativa é fruto do enquadramento e do controle permanente. social e biológico. Em coro a Canguilhem (1993).

77). Tal incapacidade terapêutica leva ao paroxismo de uma exigência de medicalização ainda maior da sociedade. Aquele que se quer acima dos outros e do que os rege. é todo um jogo de interpenetração das normas sociais que vem a formar o campo psiquiátrico. Dos valores políticos em voga à alma dos indivíduos. dobrar aquele que se quer superior. o asilo deve ser o reino da ordem que circunda e atravessa os corpos. medicina e poder. na qual os corpos são parasitados por uma ordem e uma lei que reinam perversamente. p. ou sair para ser a ela reconduzido. o pensador francês alude à descrição do asilo ideal de Fodéré. Seguindo esta linha. Podemos afirmar que primeiro. Por depreender que nada pode escapar à ordem do fato e das leis naturais é que as instituições e disciplinas normalizadoras podem ser exacerbadas como braços de sobrecodificação sistemática da experiência. no intuito a dominar o louco. Sob o poder administrativo. Ora. Assim. o atual paradigma DSM postula um asilo sem fronteiras. Foucault (2006) ressalta imprescindibilidade da ordem interna ao asilo para a própria constituição do saber e do poder psiquiátrico. Em outras palavras. trata-se de um campo organizado em torno do asilo. Não é nada distinto dela que Foucault (2006) descreve nas primeiras páginas d’O poder psiquiátrico onde cita a busca de Fodéré pelo corpo médico profissional como aqueles que devem exercer sua ascendência sobre aqueles que se creem acima dos demais. aparece a terapêutica. Na interface entre ambos. do doente mental ao anormal e deste aqueles considerados normais. por uma espiritualização dos valores e fins políticos que atravessam a alma do indivíduo. a medicina opera como instância de poder que condiciona e possibilita efetivamente a constituição do saber médico. o paroxismo da medicalização é fruto indireto da internalização das normas enquanto atitude política em que se adapta e se internaliza as normas como leis do universo.lado obtuso não sair mais dela. com a psiquiatrização e medicalização ilimitada da população. pois o indivíduo “age não segundo a lei mas segundo o espírito da lei. que atuam não por retenção. Como instituição normalizadora a psiquiatria tem sua condição de possibilidade no austero ordenamento asilar do século XIX. diz Fodéré. O vetor político que atravessa tal ou qual processo de subjetivação atua por uma internalização. À título de ilustração. A ordem deve cobrir a superfície dos corpos e penetrar a alma dos indivíduos pois ela é imprescindível para a própria constituição do saber médico e . que se assimila a uma exposição sadeana. o sopro vital que o inspira” (RANCIÈRE. 1996.

colocando-o na estreita dependência de um homem que. em todo caso. na sua voraz compreensão capaz de tudo apreender e de engolfar a totalidade do alienado na razão de seu corpo distendido sobre todo o campo psiquiátrico. 2006. Isto é. extensões colocadas em marcha a fim de submeter a integralidade do corpo do interno. o pensador francês busca em Esquirol a afirmação a todo custo do médico como o princípio de vida que anima todo o hospital. Efetivamente. os instrumentos diretamente colocados nas mãos do psiquiatra. A submissão e a dependência são estabelecidas no intuito de produzir a ordem e a disciplina ética e politicamente almejadas para a (re)produção de um sujeito operado sob a insígnia de um corpo-máquina.” (FOUCAULT. a razão se converte em norma e conhecedora da loucura. a verdadeira eficácia da prática e do campo psiquiátrico consiste em produzir esta ordem de fundo mecânico ao passo em que submete a vontade desmedida do louco. Destarte. a psiquiatria surge como instituição administrativa operada privilegiadamente sob o corpo individual do psiquiatra. a maquinaria do asilo o organismo do médico devem constituir uma única e mesma cosa. cujos movimentos estão subordinados a esta figura que dirige as ações e regula os pensamentos. calcada na exatidão e regularidade das leis naturais que regem o mundo e os homens. seja capaz de exercer sobre ele um domínio irresistível”. Seguindo esta linha. a ascendência de seu corpo se estende aos demais funcionários que são como seus membros. 2006. no fundo. a ordem cauciona a boa observação. p. suas partes são como membros ou tentáculos do corpo daquele. p. (…) Em suma. fazendo valer. as mãos ou. É neste contexto em que Pinel (apud FOUCUALT. sob a prerrogativa terapêutica e. pois só se pode organizar o saber psi sob uma ordem de distribuição regulada pelo poder. o comportamento e os gestos dentro do asilo. 24) define de maneira clara e simples a terapêutica da loucura como “a arte de subjugar e domar o alienado. por suas qualidades físicas e morais. no intuito de . controlando o tempo. poderíamos dizer que o corpo do psiquiatra é o asilo mesmo. as engrenagens. em última instância. Assim. o corpo do psiquiatra deve estar em comunicação direta com todos os integrantes da administração do asilo: os vigilantes são. O excesso de vontade que caracteriza a loucura deve ser submetido à razoável vontade médica.para a terapêutica. 213). O corpo do psiquiatra é a própria psiquiatria distendida sob a extensão do asilo. Precisamente entre medicina e poder. antes ainda. E não obstante.

localizável nos seus instintos e paixões. tem vistas à conformação da formação subjetiva à certos parâmetros normativos socialmente erigidos e sustentados.administrar periculosidade e segurança social. de Pinel a Freud. Ao passo que a terapêutica psiquiátrica tem como ponto de partida. Daí a busca pelas forças de instintos e paixões ou ainda. sejam forças de elucubração. Porém enquanto o primeiro conserva uma ideia transparente de verdade. A ideia é a de que o louco é alienado a um domínio natural de forças que o arrebata. como ciência das leis ou das constantes da vida normal. para logo se orientar fundamentalmente pela noção de normalidade como regime habitual dos órgãos e seu estado ideal. se submeter à força das normas e à vontade do médico. Com a inscrição da loucura na natureza humana e do mundo. mas igualmente na imaginação e inteligência perturbadas. portanto. De fato. A preocupação com a força própria da loucura. uma exacerbação dos mecanismos de normalização14. a partir da qual a subjetividade seria plenamente apreensível pelo saber. autorremitência e autoengano. a terapêutica nasce assentada sobretudo na fisiologia. ela passa a ser entendida não mais como erro mas como força de ordem natural que deve. o corpo do psiquiatra. Sejam forças de arroubo e deslocamento. [[ terapêutica med e psiq Para a medicina. de vitória no embate com o louco. O erro como deriva existencial e como insígnia do não-ser da desrazão passa a erro de formação. pela mania concebida com luta entre ideais ou pela melancolia como domínio de uma ideia particular. que o arrastam ao sabor do que lhe passa. a terapêutica psiquiátrica é constituída por uma rede que impõe simultaneamente a autoridade pessoal do médico e a autoridade anônima das regras e normas às quais os loucos devem estar sujeitados. a subjetividade se constitua fundamentalmente na relação com o outro. da recuperação ou da cura desse. que o faz perder-se em sua interioridade. Trata-se sobretudo de uma exclusão englobante que traz a 14 Não deixa de ser curioso notar que. A questão não é mais reconhecer um erro. Ela se constitui como instrumento de submissão. de início. mas localizar o ponto onde emerge a força da loucura. antes de se ocupar do conhecimento. em Freud o inconsciente se desenha como resistência à apreensão direta e integral pelo poder. . fundamento e segurança da razão capaz de readaptar e ressocializar o alienado.

como uma forma de se desalienar o sujeito colocando-o sob a lei do outro. Isto porque “querer sair do estado de loucura é precisamente aceitar um poder que se reconhece como imbatível e renunciar à onipotência da loucura. a razão está no cerne da formação do espírito subjetivo em oposição ao espírito objetivo. É poder ganhar a vida. é no entanto deixado de lado quando o manicômio sobrepõe as tarefas administrativas de exclusão e submissão da diferença à terapêutica. não deixa de ser curioso que pouco se diz efetivamente do alienado. A postulação de uma adaptação sui generis à norma social. entretanto. não é que o alienado não tenha razão. Hegel faz um elogio Pinel e Esquirol. no tratamento moral.loucura como negatividade interior. segundo o qual uma vez perdida a razão não se recupera mais. Este aspecto de reversibilidade. Descartes. Valendo-se do modelo da demência. o asilo acaba por retomar o sentido de depósito de loucos. mas ele tem sua razão alienada. à razão. sob a forma da alienação. A obediência e a identidade são . ilustrada no ponto em que o elogio hegeliano aos alienistas aponta a conformidade à ordem religiosa. Isto é. O que ilustra seu não-lugar e sua total submissão na constituição discursiva de então e faz constatar que alienismo parece focado na constituição e no direcionamento que o alienista deve tomar para que seja capaz de dirigir o alienado. tão importante para constituição discursiva do campo psiquiátrico. tal qual no classicismo. a desrazão só pode ruminar silenciosamente no âmago interior da razão. Ao nível do sujeito. não coincidentemente naquilo em que eles afirmavam e diagnosticavam que pessoas religiosas enlouquecem menos. O que está em jogo aí não é tão somente a suposição da alienação no interior da razão que contrapõe a lógica clássica cujo expoente. A assunção da continuidade entre o campo da razão e o da alienação é levada a sério até o campo dos saberes e filosofia. reconhecerse na identidade biográfica na qual se é formado. é deixar de encontrar prazer na loucura” (FOUCAULT. A razão pode potencialmente se alienar e se desalienar. 2006. tem efeitos práticos mais patentes e complexos. p. Deixar de estar louco é aceitar ser obediente. Por um lado. 164-165). coloca a desrazão como algo irrevogavelmente exterior à razão. Fato que o faz enxergar nas práticas do asilo psiquiátrico. A sujeição é operador fundamental de toda dinâmica do tratamento moral e da alienação asilar. Foucault (1979) ressalta que nesta época. Para o filósofo da fenomenologia do espírito.

numa teimosia atávica. o sujeito civilizado se constitui em torno de uma moral de consideração. que habita o centro das cidades. Ponto em que se erige uma lógica médica policialesca que passa a agir no meio e não na exterioridade – onde na era clássica se exclui a loucura pura e simplesmente como negativo radical. relembra que Charcot apela em sua tese de agrégré à obrigação do doente a recorrer ao médico. Submetido à dúvida e ao crivo do outro e da norma social. o hospital psiquiátrico é instalado na periferia. cujo primeiro pressuposto é o da internação. Como fato elucidativo. Enfim. A alienação é tomada como impureza da razão. contaminação pelas ideias persistentes. antecipado por Bosh na terceira parte do tríptico sobre O jardim das delícias terrenas. numa cartografia simbólica que traz a proximidade da loucura (alienação neste tempo) à natureza. as pessoas retratadas na parte mais à esquerda do quadro sofrem a tormenta de sua própria razão. Por outro lado. condição para a interdição e a anulação de direito de um sujeito já de fato anulado. A rota de colisão entre estes dois aspectos é colocada em pauta o tratamento moral. O louco tem certeza demais dele mesmo. às margens da cidade. ao começar um aforismo planteando . Pois o alienado é marcado pela adesão excessivamente aferrada à seu sistema de crenças. pois. a distância é erigida com fins de salvação que se traduzem em purificação dos impuros e salvaguarda da população geral. Tirar o doente do âmbito da família e inscrevê-lo no espaço médico. pelos instintos selvagens ou ainda pelo ambiente artificioso da cidade. Mesclado a máquinas e toda sorte de criações humanas e objetos naturais. p. normal-patológico. ele teria que passar para a dúvida. em tirá-lo do centro da cidade para encerrá-lo no asilo. o louco pode então respirar melhor o ar das florestas e ter contato com a calma da natureza que o remonta ao terreno da razão. na incapacidade de dialogar com o outro. Na oposição homem-animal. diferentemente do hospital geral. A continuidade (desde a era moderna admitidamente) existente entre razão e alienação deve ser interposta por uma distância regulada e reguladora. Uma vez que não há diferença substancial entre ambos. incute. não-civilização. àquele que sabe mais que ele próprio como deve gerir sua higiene. em A ideia de natureza no pensamento e na prática médicas. o ideário da salvação na relação com o cosmos como purificação religiosa acaba sendo herdada pelo alienismo na oposição saúde-doença. 54) n’O crepúsculo dos ídolos. na lacuna em que falta o alienado. Canguilhem (2005). Pelo menos é assim que enxerga Nietzsche (2006. barbárie.colocados como antídotos para o ludibriante efeito da loucura. longe do coração da cidade.

castidade. minam inevitavelmente a vitalidade do sujeito à medida em que submete os processos de subjetivação à norma social. . de relegar a construção de si aos mestres do desinteresse – no caso. p. o filósofo alemão assevera que todo esforço e cautela inerentes aa campo das “virtudes”. FOUCAULT. 548) a serem traspassados ao alienado na internação asilar. Neste contexto podemos observar que a importância da atuação do médico no asilo não se deve tanto à sua intervenção como cientista como à sua posição de sábio. Comparando com a experiência subjetiva do Renascimento. justiça às quais acrescenta a laboriosidade – que conduzem a riqueza e honra. “o ‘desinteresse’ não tem valor algum nem no céu nem na terra” brada Nietzsche (1998. Esta é maneira que opera a moral.“se nos tornamos morais” para concluir que o sujeito moderno do século XIX é fraco e suscetível. piedade. O médico é caracterizado como um homem de grandes virtudes e saberes (cf. médicos e clínicos tecnocratas da subjetividade – partidários da laboriosidade e das virtudes superiores levadas a cabo pelos mecanismos de normalização. Nietzsche (2014) salienta que se valora positivamente as virtudes que exercem efeitos que esperamos no meio e com relação aos outros. sob aspectos tanto históricos quanto darwinistas. privando o sujeito de trabalhar sobre as forças que lhe constituem. p. A partir do qual se põe a explorar a psicologia dos motivos egoístas por trás de toda moral de desinteresse. tal como apontado ainda por Nietzsche 15 (2014) n’A gaia ciência. obediência. 137) mais a frente. Porém. A ação moral advém de uma solidariedade torpe animada por um desinteresse fundamental. e não efeitos positivos ou de interesse do sujeito em consideração. demasiado humano. mais do que científicos e terapêuticos. No aforismo sobre os mestres do desinteresse. Operação essencial ao campo psiquiátrico à medida em 15 De fato. que leva-o a salientar as origens amorais de toda moral além de colocar sob esta perspectiva questionando seus pressupostos e seus conceitos. 1979. Este é o efeito funesto. a moral se torna tema autônomo e um dos objetos principais da filosofia de Nietzsche (2000) desde Humano. época em que se estabelece o tratamento moral: cuidado. que atua. a utilidade do sentimento e da ação moral. Associando a falta de personalidade e a fraqueza à diminuição da vitalidade do sujeito é que se torna a pessoa suscetível à submissão à norma social e à vontade alheia. intervém e dirige o asilo e seus membros sob os princípios jurídicos e morais. esperando e manipulando efeitos voltados para interesses exteriores ao sujeito e cita as virtudes próprias ao século XIX.

2006) –. se desenha como prática clínica normalizadora que almeja um saber sobre a vida e a loucura e de outro. Pelo contrário. O embate que caracteriza o indivíduo são parte da ocorrência. além de responder a uma identidade própria e se inserir no sistema econômico da comunidade em que vive. não há aí preocupação alguma com as causas da doença ou técnica terapêutica. o submissão à vontade alheia. colocando-o sob a dependência do médico que exerce sobre ele a força de sua autoridade encarnada em suas qualidades físicas e morais. visa submeter as forças da alienação a uma dinâmica de enfrentamento na qual o médico sempre sai vencedor. como poder psi. Primeiro. Ele deve estar sujeito à exterioridade da norma social. a loucura tem ser reconhecida e reconhecer-se na presunção e na maldade próprias ao louco. de uma loucura reversível se desdobra numa dupla filiação. trata-se de submeter o louco ao médico e a seus auxiliares. Porém. passamos às questões que . a vontade ligada ao outro e a periculosidade. A partir destas questões é que se pleiteia o indivíduo são como avesso da loucura. Apenas com a submissão deste por aquele é que o médico pode introduzir a verdade e a realidade no asilo. Consequentemente toda operação terapêutica e de cura se orienta para a sujeição e produção deste tipo de indivíduo que é fruto antes de tudo de um enfrentamento de forças. De um lado. as quais temos levantado nesta seção do texto: a submissão. além disso. de vontade e desejo admissíveis. o paroxismo do enfrentamento de forças é levado ainda a um segundo nível em que se desdobra no enfrentamento no campo das ideias e representações. o castigo deve ser mais forte que o delírio. real ou potencial. enquanto instituição total. a realidade complexa do asilo levanta uma série de questões para os saberes psi. Em seguida. há de se perguntar.que empreende uma cura que não é outra coisa que uma submissão de forças constitutivas do sujeito. que realidade é esta que o psiquiatra propicia ao asilo? Na aula de 9 de janeiro de 1974 do curso O poder psiquiátrico. Com efeito. Visando em seguida o primeiro aspecto da apreensão moderna humanística da loucura. o manicômio deve dar conta das necessidades dos internos. daí seguem as atividades como a anamnese. na órbita do tratamento moral – termo teorizado e difundido sobretudo pelo inglês John Haslam (FOUCAULT. E. a administração. De fato. no embate entre o delírio do louco e o castigo que lhe impõe o sistema psiquiátrico reduzido ao campo da intervenção moral. Definitivamente. Foucault (2006) a caracteriza em três níveis.

Na ausência de descrição.formam a especificidade da clínica enquanto ramo das ciências da vida de acordo com os estudos de Georges Canguilhem. Foucault (1979) localiza a cena de fundação da psiquiatria no gesto c(l)ínico de libertação das correntes dos loucos por Pinel. técnica e política Se n’O nascimento do asilo. Em contraste. Frente a frente. de algo que adquire consistência e existência no . é sobre o anormal que se cria formas de normalização. No primeiro modelo. Ali. o poder normativo tem efeito de intervenção e transformação. não há terapêutica ou cura nesta cena. o que confere à normalização uma concepção (e por que não poderíamos dizer função?) positiva. Objetivação. É a partir do mal uso da liberdade que se cria as formas de normalização Para Foucault. a confrontação de dois tipos de submissão da vontade frente ao outro como vimos na seção precedente. a cena eleita por Foucault (2006) para abrir O poder psiquiátrico é a da cura do Rei Jorge III. vida e loucura: o insubordinado calado e medido . análise ou qualquer preocupação com um conhecimento verdadeiro da doença do rei. é todo o corpo social que deve se submeter à figura do rei absolutista. vida e loucura: o insubordinado calado e medido Negatividade fundadora e positividade dos saberes: objetivação e sujeição da loucura 1. o que vemos é um enfrentamento de forças.Negatividade fundadora e positividade dos saberes: objetivação e sujeição da loucura Canguilhem e Foucault o anormal é historicamente anterior ao normal. diagnóstico.7 Objetivação. a cena evocada traz a sociedade ordena os sujeitos em torno da disciplina encarnada (no sentido literal do termo. estão o dispositivo do poder soberano na figura do rei e a força da normalização disseminado pelos poderes capilares da sociedade disciplinar. trata-se tão somente de um enfrentamento de forças.

a partir dela então. Assim. entretanto. qualifica o médico como agente de cura. o poder psiquiátrico. A mera presença de seu corpo em gestos e vontade é capaz de curar (FOUCAULT. 224). Uma. . aprisionado no espaço asilar. Podemos observar neste ponto. 2006. funcionando como disciplina que visa a exatidão na observação e o processo permanente de cura – a desalienação que deve persistentemente fazer voltar o sujeito à razão assim como a natureza da loucura e da cura aparecem aqui –. O primeiro. é caucionado. O laço que atravessa de fio a pavio o saber psiquiátrico (cuja referência é o sujeito das ciências humanas) apenas se torna possível a partir de Pinel. interpenetrada pelas ciências humanas. pelo estabelecimento e salvaguarda de um imperativo de ordenamento da experiência. a partir desta dissimetria é que começa a psiquiatria. À princípio estas regulações objetivam um sujeito de direito que dá margem à emergência da noção de alienação. o asilo deve ser concebido à semelhança do corpo prototípico do psiquiatra. p. Ao passo que o poder psiquiátrico (o qual se desdobra sobre o sujeito de direito) da cena de cura do rei Jorge III relatada por Fodéré em 1817 não é outro que os laços de uma ordem disciplinar imanente. uma dissociação radical na formação da clínica e da primórdios da psiquiatria – cujo modelo epistemológico busca a verdade médica como fato natural primeiro e objetivo – e da psiquiatria moderna. busca um paradigma humanístico – uma antropologia nos termos de Foucault (1979) – para o sujeito enquanto a outra se coloca a serviço da ordem estrita de disciplina que ganha consistência com as ciências humanas. [[discipl e dissimetria]] CX poder psiq Num primeiro olhar o corpo é uma presença de imposição física e moral do alienista. À diferença do que se passa com a medicina moderna – que adquire uma especificidade muito própria e singular nas noções de tecido e lesão –.corpo médico) na figura do psiquiatra e da extensão de sua vontade e seu corpo no dos auxiliares que submetem o rei Jorge III à contragosto. independentemente de seu conteúdo de saber. Pois a instituição psiquiátrica não é mais que o conjunto de regulações disciplinares exercidas de direito pelo corpo do psiquiatra sobre o corpo do doente mental. se desenrola uma gama de saberes específicos e uma verdade natural própria do louco.

a que aludimos na seção anterior.Diferença de potencial. a questão é a força e a vontade. Não se trata mais de corrigir os erros da razão. ela corrige os maus usos da liberdade. primeira ao saber psiquiátrico.-Não é difícil acompanhar Foucault (2006) apontar tal ordem que atravessa impiedosamente a superfície dos corpos e distribui o espaço. A partir do olhar é que o psiquiatra consegue a objetividade. por isso pode haver mania sem delírio. Trata de uma relação mais humanizada com a loucura que inscreve o louco na continuidade do homem. Ela confere o gabarito das relações que o médico e a razão travam com o objeto e a tão almejada objetividade médica sob a ótica de um humanismo. de energia. sob um sistema de domínio no qual seu substrato real. ilustra este aspecto ao exigir para a interdição jurídica do sujeito de direito a internação não como intervenção prioritariamente terapêutica ou de ressocialização mas como mecanismo . Abstratamente definido por direitos individuais. A lei de francesa de 1838. e o instrumento pra isto é o tratamento moral. elas se centram nas categorias de análise do instinto (que funda a psicologia) e da vontade. para falar do poder. concreto e natural é julgado e ordenado. No XIX. o tempo e os corpos individuais no interior do asilo como distribuição regulada de poder. como relação de base. é a metáfora que Foucault usa. -. tal individualismo só pode ser limitado dentro ou na interlocução com um espaço jurídico que o coloque como inválido. que levanta uma questão moral. [[ responsabilidade e direitos: individualização jurídica Tal ordem se vale de um indivíduo forjado pela tecnologia jurídico-disciplinar de poder. E a questão passa a ser dobrar esta força que o leva à mania.

que acopla a função sujeito à singularidade somática através de um sistema panóptico de vigilância. amens e demens. Enquanto Insanus. instrumento real de seu exercício material. nos dispomos nesta seção a apresentar como tal ordenamento é próprio ao campo da clínica aquém do asilo psiquiátrico para na sequência explorarmos a antropologia e a filiação da clínica e dos saberes psi às ciências humanas. instrumento ideológico de reivindicação de poder. distribuição. Foucault (2006. por isso. designam uma incapacidade jurídica para os atos sociais religiosos. p. médico-estatal que visa ordenar e limitar aquele que aparece como inimigo da ordem16. como chave para a formação da noção e do saber 16 Na resposta à discussão com Jaques Derrida acerca da loucura na obra de Descartes. descrição. ce feu de que não há nos escritos do filósofo do cogito uma descrição de loucura. 17 Avaliando as duas dimensões de individuação. Primeiramente. aos quais alude com amens e demens. . são termos desqualificantes. Tão somente Descartes recomenda não seguir o exemplo dos loucos. O negativo aparece. pois. civis e judiciais. resultado da tecnologia utilizada por essa mesma burguesia para constituir ao indivíduo no campo das forças produtivas e políticas.técnico-administrativo. Dessa oscilação entre o indivíduo jurídico. 80) assinala que o conceito de Homem nos séculos XIX e XX “não é outra coisa que uma espécie de imagem remanescente dessa oscilação entre o indivíduo jurídico. e o indivíduo disciplinar. e o indivíduo disciplinar. que trazem à tona a incapacidade do indivíduo para privá-lo da totalidade de direitos. dessa oscilação entre o poder que se reivindica e o poder que se exerce. Como desdobramento e complementação deste sujeito jurídico que reclama ideologicamente direitos e poderes17 advém com a emergência das ciências humanas uma individuação mais aguda. Foucault (1971/DE??) reitera sua opinião em Mon corps. A produção de um objeto de estudo apreensível. da plena adequação à manipulação pela razão humana tem como pré-requisito a negatividade mais que à respeito de suas arestas que das forma de captura. ce papier. constante em si mesmo e passível. portanto. nasceram a ilusão e a realidade que chamamos Homem”. caracteriza a loucura estabelecendo e qualificando seus signos e propriedades. definição e codificação através da prescrição universal da normalização. termos latinos que antes de serem apropriados pela medicina. que foi sem dúvida o instrumento mediante o qual a burguesia reivindicou o poder em seu discurso.

Em outras palavras. medicina Sigamos. 46) contemporiza: “é precisamente do lado da extensão da medicina que se vê de certo modo. é condição para que a razão opere como sujeito de conhecimento e norma da loucura. ou intercambiar-se. 18 Não obstante ambos os pensadores reflexionem sobre o que é viver em sociedade e sob as normas apoiados num vasto material oriundo das ciências humanas e das biológicas. Isto significa que nela. não quero dizer combinar-se. enfrenta e atrita com o direito de soberania do indivíduo. Portanto. mas reduzir-se.. Estes se constituem sob um solo de negatividade que possibilita a regulação através não de leis. Signo. a medicalização geral do comportamento. . Já a medicina moderna produz ativamente os signos sobres os quais intervém. dos discursos. e as ciências psi – enquanto mecanismo normalizador –. dos desejos. morte. Em consonância a isto que Foucault (2002. ligar os rendimentos no interior de um sistema disciplinar mais ou menos coordenado para produzir corpos dóceis e úteis. das condutas. trata-se de produzir sujeitos normalizados produção de signos atua sobre as visibilidades e discursividades a fim de possibilitar e maximizar os efeitos do poder sobre os indivíduos. acerca do engendramento deste sistema fechado. a negatividade. o poder deve maximizar seus efeitos em intensidade e estende-los o quanto for possível para. p. mas de normas que incidem sobre a vida e a loucura que porventura habita o corpo e a alma dos homens. na base da formação das ciências humanas repousa a justaposição e o enfrentamento dos dois tipos de discursos inconciliáveis a que aludimos acima: um relativo ao direito de soberania dos indivíduos e outro que condiz às mecânicas de coerção das disciplinas. fundante das ciências da vida e das ciências humanas 18 – nos termos de Canguilhem (2002) e Foucault (2011) –. O mecanicismo biológico típico da era clássica dá curso a uma medicina expectante e passiva que espera que o sintoma se cale para atuar. Neste âmbito.modernos sobre a vida e sobre a loucura. um fio argumentativo. etc. ou enfrentar-se perpetuamente a mecânica da disciplina e o princípio do direito. esboçado por Foucault (2011) n’O nascimento da clínica. a medicina. por fim. O desenvolvimento da medicina. a psiquiatria. se dão na frente onde vêm encontrar-se os dois lençóis heterogêneos da disciplina e da soberania”. então.

185). acometendo desviantes e impuros. A verdade passa a ser buscada na profundidade da lesão e do corpo anatomofisiológico e o procedimento requerido neste âmbito não pode ser outro que uma intervenção na profundidade deste corpo. “assim como o vivo se redobra sobre a finitude da vida. a loucura passa a coincidir com a doença em geral. p. por sua vez. 69). Não é mais o que se enuncia espontaneamente da doença. não deixa de ser elucidativo observar que em algum ponto entre o século XVIII e o XIX. 2014. o louco e o doente só podem ser compreendidos num campo cujo sentido e valor são previamente dados num ordenamento concreto da natureza do mundo. portador da primeira grande definição moderna da morte a fins do século XVIII. A morte deixa de ser o instante decisivo e indivisível como no mecanicismo da era Clássica para ser definida na coextensividade à vida e como soma de pequenas mortes parciais. a vida. 263). p. 2011. de certa maneira se redobra sobre a morte” (DELEUZE. mas encontrado e garantido na própria natureza dos objetos a serem apreendidos na ordem . que seja solicitado e quase fabricado por ela. Se a forma dos signos que caracterizam a doença e a loucura são dados pelos saberes que se debruçam sobre elas. portanto. só toma forma e valor no interior das interrogações feitas pela investigação médica. p. Esta é a posição do livro de Bichat. Nada impede.o signo não fala mais a linguagem natural da doença. ordem perante a qual a doença é tida sob uma concepção ontológica de desordem no mundo ou do vivo. Isto se deve ao fato de que tais desvios e impurezas são os primeiros objetos criados e observados pela experiência crítica da loucura (FOUCAULT. A forma e o valor do signo que caracterizam a doença passam a ser buscados ou inculcados na profundidade do corpo que dá a letra e a verdade da superfície sintomática. Apenas é possível produzir signos de leitura para a força finita da vida à medida em que se esvanece a sombra de Deus como guardião da ordem do mundo. antecipar” (ROSSET. Neste contexto. compreender. pela presença constante da morte. Pois “o critério inconfesso da noção moderna de ‘cientificidade’ conserva efetivamente a ideia de una natureza já dada – ao menos virtualmente – que o trabalho científico tem por objeto explorar. O vivo só pode se constituir enquanto dobra da força finita da vida porque a morte se inscreve no mais profundo da própria vida. Neste contexto. 1974. Tal ordenamento não é caucionado por Deus como na era clássica. Pois o que cauciona a coextensividade da vida à morte é o fato daquela conter uma pluralidade de mortes parciais. mas o ponto de encontro entre os gestos da pesquisa e o organismo doente (FOUCAULT. 1979). pela cirurgia ou a autopsia. Isto significa que o vivo é definido pela finitude da vida definida.

do primitivo. além de signo da finitude humana. loucura involução Neste contexto. onde não há mais prodigalidade da natureza. da mulher e da criança como o símbolos de incivilidade. com ele remete à noção de que a vida não está dada. aparece a precariedade signo da morte inscrito no progresso. na história.dos saberes difusos que habitam a psiquiatria e a clínica médica do início do século XIX. Daí os saberes se dedicarem ao ordenamento e distribuição dos elementos do mundo Em suma. [[primitivo. passível de manipulação pela razão e pelo sujeito de saber. inapreensível em tal imediatez – e a matéria domada e maleável. em que se debate igualmente a questão da civilidade e da barbárie. o valor preestabelecido na e pela natureza própria ao objeto traz o sentido e o conecta com a forma que adquire os signos sobre os quais os saberes intervêm. por isso. na qual as forças vitais têm que sobressair às forças mortais e inorgânicas de desagregação. aparentemente contraditórios. comunidade. ao passo que o menos civilizado é indicado pela proximidade com a natureza em seu elemento pré-lógico. Logo. O que está em jogo aí é noção e a necessidade de mediação entre o absoluto natural da vida – insubordinado e. cabe a pergunta: qual é a natureza da loucura buscada nos primórdios da clínica moderna? Assumindo o ponto de vista moderno de Bichat. como fracasso das forças civilizatórias de agregação e comunidade sobre o desagregativo que comunica o vivo às forças inorgânicas de dispersão e desordem. coincidem na compreensão de que existe uma natureza dada à despeito da qual os signos sobre os quais intervêm as ciências da vida devem ser por elas mesmas fabricados. podendo ser entendida. Então. sendo uma conquista permanente. A civilização é caracterizada por sua capacidade agregativa e pela possibilidade de estabelecimento de comunidade em torno de uma ordenamento erigida em seu nome e proveito. tem início a discussão não apenas sobre o louco como do índio. Embora a associação da ideia de morte com a precariedade característica da vida não seja exclusiva em Bichat. a loucura consiste para Bichat. além disso. num fracasso da afirmação da vida sobre a morte. Estes dois posicionamentos. . Encontramos aí um ponto de intersecção entre a posição de Foucault (2011) de que os signos são forjados pela ciência médica moderna e a imprescindibilidade de uma natureza dada na qual se encontram pré-estipulados o sentido e o valor dos elementos a serem apreendidos.

convertidos e entendidos como espaço de verdade imobilizada. Por outro lado. no que a faz desviar. Na continuidade entre a doença e a vida. O imperativo da clínica anatomopatológica de abertura e exame de cadáveres exige um rigor (antes desnecessário) na especificação da morte.A única maneira de tolerar tais forças disruptivas é isolá-las e imobiliza-las para conjurar a contaminação ou o arrebatamento que elas podem. Por outro. móvel e constante entre vida e morte ao passo que esta última aparece como essência da doença em seu próprio ser. Consequentemente. dando corpo a uma política de intervenção em saúde que preza pela restituição de um estado original e numa ética de conservação do corpo do tecido perante a ameaça da lesão. os médicos do início do século XIX se agarram à fisiologia como modelo ideal para repelir o indeterminado extrato que ronda a clínica médica. Naquele momento chave em que. a noção de tecido e de lesão obsedam e se colocam no lugar das de órgão e sintoma. a prática diz sobre o enclausuramento na ordem do hospital ou do manicômio. 129) n’O nascimento da clínica. se articula a terapêutica e a colisão entre consciência prática e analítica. Observar a vida através do olhar mortal e congelante do cadáver tem ainda outra contrapartida. entre patológico e normal. desgastar-se e até desaparecer. a doença surge como possibilidade interior à vida. com efeito. A progressiva aproximação da medicina com a biologia e demais ciências aplicadas – sobretudo a partir do começo do século XIX – confere maior precisão àquela ao passo que a distancia progressivamente das situações vividas pelos doentes. aquele é entendido como variação quantitativa deste. exercer sobre as forças que movem as ciências da vida. vida. das propriedades vitais e das funções como observa Foucault (2011. Com a anatomopatologia. Por um lado. 2011). Assim é que a cientificidade da medicina anatomopatológica busca a natureza do corpo e da vida no cadáver e na morte. Tal concepção para as ciências da saúde tem como fundamento um tipo de exame que não se presta tanto a observar a diversificação entre os órgãos ou os tecidos como a buscar neles um isomorfismo fundado ao mesmo tempo na identidade e na conformidade exterior das estruturas. fato que promulga uma ética da conservação para a clínica. a analítica se desdobra sobre um . ansiosos para legitimar seu saber. embora mais forte que ela. p. doença e morte passam a ser pensadas cientificamente e a doença se estabelece como relação interior. que deve ser precisada e instrumentalizada (FOUCUALT.

Esta concepção essencialista. tem que paralisar seus objetos – ponto tão elucidativamente claro na noção de paciente. como aquele sujeito que espera e sofre passivamente a intervenção do sujeito de saber. como as febres. um mal é localizável à medida em que pode ser observado. E daí às ciências humanas ( ver vocabul. A doença passa a ser buscada no corpo de cada doente . que deve ser restituído e de um estado ideal do organismo. Broussais. ao contrário. no entanto recalcada pelas ciências da vida? É a do movimento das forças inorgânicas A medicina moderna caracterizada positivamente pela sua atividade frente à vida e ao corpo. entende que a visibilidade da doença é tributária de sua natureza local. suscetíveis à influência externa. Bichat e Broussais exacerbam o caráter visível. Com o segundo é que a concepção ontológica da doença centrada nos órgãos e nos tecidos entra definitivamente em ocaso. a visibilidade da doença e a visão como órgão da sensibilidade médica por definição. baseada na nosologia e na correspondência dos sintomas ao quadro sobrevive até o primeiro quarto do século XIX. Bichat pensa a vida a partir da morte. a ser conservado. [[negatividade. Bichat ainda aceita a noção de doença como fenômeno geral do organismo. o que em Broussais se torna problemático. forças inorgânicas O que é recalcado? Qual a negatividade que funda e é. daí a finitude na anátomo-clínica. Entretanto.conhecimento fisiológico de um estado natural do sujeito. sem a necessidade estrita de lesão alguma. Neste caso não há ontologia abstrata da doença. A crescente busca pela localização do patológico a caracteriza espacialmente no lugar de uma essência adotada a partir dos sintomas. ela só existe na superfície material e opaca na qual ela se manifesta. Ela deixa de ter uma essência para se converter em irritação localizável em algum ponto concreto do corpo em que os tecidos se movimentam de forma estranha. Bichat comporta ainda a noção de alteração qualitativa nos tecidos pois para ele.

cálculos estatísticos. entretanto. essencial ao pensamento de um médico da virada do século XVIII para o XIX. e daí à era da expansão da vida orgânica cujo paradigma neurofisiológico apenas começamos a disfrutar neste início de século XXI. 2011. para normalizar os corpos. Ao que se sucede uma definição de patologia não como alteração qualitativa dos tecidos. Da simples correlação característica da anatomoclínica à minúcia da análise dos processos fisiopatológicos. 39) sinaliza que os saberes sobre a vida acabam se dispersando na heterogeneidade de “observações tornadas mediatas por instrumentos. A consequência mais imediata da coincidência do espaço da doença com a ordem estrita da causalidade é o desaparecimento do ser da doença. a partir do qual decalcamos a especificidade da clínica. de excitação que se expressa na inflamação. mesmo com sua maximização temporal e expansão funcional da vida. Isto é. Aí. Se a unidade do vivo. É a era da disseminação e fixação do que Foucault (2006) chama poderes disciplinares. o que colocamos em jogo é a ética da conservação. p. com Broussais – coisa que não tinha sido ainda adquirida com Bichat – a localização pede um esquema causal envolvente: a sede da doença nada mais é do que o ponto de fixação da causa irritante. protocolos de experiências de laboratórios. p. 2002). 217). prescrições terapêuticas” que. O sistema causal de Broussais tem como base a compreensão do vivo pela sua constante irritação e pela capacidade de irritabilidade (CANGUILHEM. .em que ela se manifesta. da clínica e da medicina atuais 19. de seus signos e sua decifração. a ética de preservação e da conservação é o fundo e a chave destas. ao mesmo tempo e imediatamente. Esta nos parece ser incompatível com um ethos de afirmação da vida. O espaço local da doença é. acabam reunidos num discurso e num ethos de preservação e tolhimento da vida. mas como aumento quantitativo de irritação. ponto que é determinado tanto pela irritabilidade do tecido quanto pela força da irritação do agente. 19 Foucault (1986. que se debruça sobre o corpo individual e o coletivo da população para regula-lo com suas normas. regulamentações institucionais. não é especificamente o eixo da pesquisa. constatações epidemiológicas ou demográficas. as ciências da vida se voltam com toda sua dedicação ao indivíduo doente. um espaço causal (FOUCAULT.

constante em si mesma e fechado para a vida traduzida numa definição pura e objetiva do estado normal. para compreender a doença é preciso “desumanizá-la”.Ao buscar uma concepção permanente. p. com a finalidade de uma ação racional sobre o patológico” (CANGUILHEM. No pensamento de Claude Bernard. 2002. nos faz sair do plano da ciência abstrata para entrar na esfera da consciência concreta. Com efeito. apesar de concordar com Leriche quanto à coincidência total do doente e da doença no fenômeno da dor. Leriche. que a dor. a partir do qual o patológico seria a corrupção. 14) Canguilhem (2002) à título de contraposição cita René Leriche. Canguilhem. as figuras de Comte e Claude-Bernard são evocadas por Canguilhem (2002) como representantes da tradição que coloca normal e patológico num campo homogêneo. Comte recorre a Broussais a fim de estabelecer objetivamente o estado normal. o interesse dirige-se do normal para o patológico. de que no estudo do patológico o que interessa é a alteração anatômica ou o distúrbio fisiológico. Nesse sentido. para quem “a saúde é o silêncio na vida dos órgãos”. é um acidente. um desvio. já a dor necessariamente pede alguém que sofre. tendo em vista a insidiosidade de algumas delas. do qual o patológico seria uma corrupção. Enquanto Comte “a identidade do normal e do patológico é afirmada em proveito do conhecimento do normal. do homem concreto consciente de sua dor e de sua incapacidade funcional e social. Ambos pretendem cientificizar a terapêutica científica mediante tal definição positiva do estado normal. como sensação de anormalidade. ele traz para a definição do patológico o ponto de vista do doente. Através dela. é a infração que lhe dá a oportunidade de ser regra fazendo regra. [[origem negativa dos saberes “Não é apenas a exceção que confirma a regra como regra. A dor é anormal. obtemos a coincidência total da doença e do doente. Por isso. discorda dele por propor a desconsideração da opinião do doente em relação à própria doença. a infração é não a origem . que vivenciando a doença como um drama de sua historia7 percebe mudadas suas relações de conjunto com seu meio (entourage). Ambos partem de Broussais Claude-Bernard reconhece a continuidade entre normal e patológico e deduz dela uma homogeneidade que pode deixar com que se escape a doença.

110). as neuroses. termos em relação tal que nenhum dos dois pode deixar de se transformar no outro. em uma situação de irregularidade. É o momento em que a patologia geral. A instabilidade das coisas tem. a impotência do homem. O papel do caos é chamar. p. o medicamento ou o procedimento clínico utilizado e o efeito quantitativo e . provocar sua interrupção e tornar-se ordem (CANGUILHEM. perturbaçoes setoriais. uma espécie natural que se interpõe ao bom funcionamento do organismo. Comprimida entre o ato terapêutico e a necessidade de resultado imediato. [[vida indomável e insubordinada A indeterminação inicial é a determinação ulterior negada. entre a medicação. 2002. A imagem do caos é a imagem de uma regularidade negada. [[clínica e causalidade A prática clínica se torna refém do esquema estrito de causalidade. proporíamos que a condição de possibilidade das regras é o mesmo que a condição de possibilidade da experiência das regras. o começo é a infração. 110). deixando de ser. Qualquer sistematização ou traço de coerência psicológica que possamos encontrar ou inventar se distingue necessariamente da forma de coesão orgânica. 2002. A noção de personalidade complexifica e dificulta toda distinção entre normal e patológico psicológico. a função reguladora das regras.”) (CANGUILHEM. A experiência das regras consiste em pôr à prova. Retomando uma expressão kantiana. alteración de la personalidad en su totalidad psicoses alteraçoes globais.da regra. como correlato. assim como a imagem da idade de ouro é a de uma regularidade selvagem. p. Leriche se encontra neste estrato de paralelismo abstrato em que se perde o contato com a unidade total e somática do indivíduo. junto ao sistema límbico e hormonal adquirem particular importância para a medicina. Neste contexto é que a doença passa a ser entendida como alteração do todo do organismo. que vem a ser recuperada na formulação subsequente. Caos e idade de ouro são os termos míticos da relação normativa fundamental. mas a origem da regulação” (“Na ordem do normativo. da patologia como alteração de todo o organismo.

código moral e conjunto de regras coercitivas. [[dissimetria alienação e desalienação Bem mais longe. ele se põe a pensar a interação social com as normas na formação e ordenamento das ciências relativas ao normal ou ao patológico. Daí sua posição de sujeitado se articula com um pensamento reflexivo. ele desconstrói a noção de uma ciência biológica do normal. O homem moderno é aquele capaz de reconhecer-se como (potencial) vítima.contabilizável passível de ser dela extraído. que julgam a vida Em 1966. A loucura inserida no mundo clássico é objetivada e reduzida… portanto. Ela nasce do tempo. Neste segundo ensaio. capturada. é a ciência do movimento vital (capaz de instituir normas) dos corpos vivos. vê-se redução de toda relação complexa entre médico e doente a um automatismo instrumental. a loucura não passa de loucura” – prod de loucura… Apropriação da loucura de um ponto de vista integral. Não há espaço para arte! Tecnologias Normalização e humanização: terapêutica e moral Ver voc Foucault: A moral é. revolvendo o solo de sua pesquisa à luz das descobertas foucaultianas – como o próprio Canguilhem (1996) salienta –. A fisiologia é a ciência das condições de saúde. 2004). com a síntese de um eu passivo (BADIOU. Esta relação em sua realdiade. saber e poder. toda a psiquaitria do sec XIX caminha para Freud. o único que reconhece a realidade médicodoente. Para Freud a transferência é uma espécie de sugestão. a um só tempo. Seu argumento é que existe apenas a fisiologia enquanto ciência das situações e condições biológicas consideradas normais. transcendentes. obrigatórias. dos hábitos que se instituíram para ser normativo e não como determinação estável e universal. a assimilação entre o conceito médico e o crítico de loucura… “afinal. .

etc. porque o médico continua sendo a chave da desalienação. e só pode fazer isto porque a alienação se torna desalienante. É talvez por não ter suprimido essa estrutura última. “Enquanto o doente mental está inteiramente alienado na pessoa real do seu médico. Desta forma. o médico dissipa a realidade da doença mental no conceito crítico de loucura”. Isto significa que é a partir da medicina que são forjados os métodos e as técnicas destinadas a apreender realidade complexa do psiquismo e da vida subjetiva humana. “livrou o doente dessa existência asilar na qual o tinham alienado seus ‘libertadores’. fazemos uma digressão ao pensamento de Foucault (2006) quando aponta que a clínica médica está na origem genealógica da clínica e da função-psi. ela devém sujeito.. com o mundo e com consigo mesmo. as disciplinas do psicológico. Dando consistência a esta linha argumentativa.Não há essência nenhuma da loucura. por um curto-circuito genial. onde. O desatino não pode ser contudo expressado na psicanálise. criou a situação psicanalítica. desenhada no contexto singular de relações que o sujeito estabelece com os outros.. Função-psi Há uma dissociação fundamental entre a clínica e a psiquiatria.. continua a ser a chave da psicanálise. apenas com Hölderlin. atrelando-os às mãos do médico. A psicanálise pode ser capaz de deslindar algumas das formas da loucura. na qual acumulou todas as outras. aquilo que Foucault (2006) chama de função-psi. Citação de HL que culmina com Freud. que a psicanálise não é e nunca será capaz de ouvir as vozes da desrazão. O médico. mas não o libertou daquilo que havia de essencial nessa existência. como exploramos na próxima seção. ampliou-os ao máximo. no médico.Fez do médico o espelho quase móvel onde a loucura se reconhece a si mesma. enquanto figura alienante. porque. Freud abre uma fenda de linguagem entre o louco e o não-louco. nem de decifrar em si mesmos os signos do insensato. há todo o terreno de uma experiência crítica acerca da loucura que age e instaura . ela é a do desatino prisionada pelo discurso médico. mas continua estranha ao trabalho soberano da desrazão” A alienação circula entre a dimensão normativa vital e a dimensão normativa de regulação. ele reagrupou os poderes dela.. a alienação deveio desalienação.

que os acolhem sob a esperança. falhando em normalizar o indivíduo se resigna em clama-lo como anormal. Do interior familiar – instância especializada de individualização através não tanto da vigilância. que “reúne a cerimônia do poder e a forma da experiência. FOUCUALT.visibilidades em prol da normalização20 que opera sobre disparidades tal como elucida Foucault (1986. enquanto sujeito moderno – emergem no justo momento em que 20 A instauração de visibilidades tem como função servir e abastecer de material de ação o instrumento de normalização do exame. os saberes sobre a vida. 201). que é secundária. o indivíduo indisciplinável passa ao campo das disciplinas psi. Desta forma. assim como a psicologia da inteligência nasce do retardado e a saúde mental advém do problema da loucura. etc. a promessa e a função de refamiliarizá-los. Não obstante. 2009. cabe a família gerir a circulação de um a outro sistema. 2006). mas mediante a inscrição mesma do sujeito em seus laços –. 2002. 2006 e 2008). do raciocínio – enquanto forças que caracterizam o homem. do seio familiar ao manicômio. Três dimensões de Normalização Em geral. p. à fábrica e à prisão. do entendimento. A verdade da linguagem. além de fixar os indivíduos nos sistemas disciplinares. as ciências sobre a saúde são fundadas sobre uma concepção negativa que justifica a invenção e qualifica a intervenção do campo de práticas que inaugura. dada no sobrevínculo de remissões permanentes entre disciplina psiquiátrica e família que pode ser observado na situação de rechaço do anormal por uma instituição disciplinar em que o sujeito indisciplinável é reenviado à família que o relega à patologia ou à delinquência. De fato. a submissão da mathesis e a extração de uma verdade sobre um método fiável assentada no princípio de visibilidade . etc. a função-psi opera no cerne deste imbróglio entre soberania e disciplina (cf. 2000. As disciplinas psi se fortalecem no fracasso da soberania familiar – um braço da soberania do rei absolutista – que. o pensador francês assinala ainda uma reversibilidade à respeito deste movimento. o desdobramento da força e o estabelecimento da verdade” (PORTOCARRERO. De maneira que a positividade da psicologia da linguagem se deve ao problema das afasias.

Ela não decorre de um tipo mecânico de relações. Igualmente. É neste sentido em que ao mesmo tempo em que as disciplinas normalizadoras – a medicina. A máquina tampouco morre. contudo de uma era de ouro. A colocação destes binômios dá margem a estratégias que se confundem e se coadunam basicamente para reduzir e submeter o pathos. conflitos e ressonâncias entre uma experiência normativa na referência a um tipo ideal e uma norma de frequência estatística e entre relações complexas de aproximação ou distanciamento entre a concepção geral de doença e a de loucura. do regime e do trânsito dos elementos no mundo. a das condições de normalização que articulam a clínica das doenças em geral à vida e os dispositivos psi à loucura.este é colocado em questão. Antecede Bichat. pretendemos mostrar como a normalização atua para isolar e anular as dimensões e elementos disruptivos da vida e da loucura na instaurar de uma perspectiva clínica de normalização que articula uma série de dobradiças que se matizam e formam o feixe de uma política de apropriação e de uma ética clínica normalizadora. e a desregulação não é doença. atemo-nos a outra questão. Entre a norma social e a biológica. pois normalizar incute um controle os fluxos. onde não há diferenças – fazendo-a calar em toda diferença potencial que não pode ser distinguida. Pois a clínica psicológica que resulta de tais cruzamentos é pautada por uma ética de conservação e por uma política de restituição. entre as tecnologias biopolíticas voltadas para o corpo coletivo da população e as disciplinas que se voltam para a unidade individual do sujeito. Os manuais clássicos de fisiologia não trazem o verbete saúde. Nesta seção. para uma máquina. A verdade do homem aparece quando o homem é colocado em questão naquilo que o caracteriza e assim as Após nos determos na relação entre normalização e moral. elas buscam estabelecer medidas e . apreendido como corpo-máquina. referida e reduzida à unidade totalizante própria ao solo da nossa experiência. Estratégias que concorrem para tapar os abismos valendo-se das lógicas da falta e da necessidade. o direito. a marcha não significa necessariamente saúde. Para eliminar esta potência não diferenciada – distinta. mas igualmente os saberes psi ou mesmo a crítica artística – forjam uma natureza sobre a qual intervêm. No mecanicismo.

Verdade que aparece como resultado natural de um olhar científico que. elimina-se o pathos de cada estado em sua singularidade.mediações como critério de inteligibilidade e de legitimidade da experiência com o mundo. igualamo-los sob a órbita de uma continuidade que tem como efeito recalcar a diferença fundamental. Por um lado. produz certa concepção de anormal que seria anterior à própria experiência com as normas e engendra também as formas normalizadas que confere visibilidade e concretude à norma e dá corpo ao seu exercício. a um termo que os faça equivaler. Baseado nisto é que se busca estabelecer a continuidade entre a normalidade e os estados patológicos ou a loucura. a vida e a loucura – no achatamento e repressão do múltiplo a eles inerentes. diferença qualitativa entre os distintos modos de ser e estar no mundo. A fim de constranger a multiplicidade disruptiva é que se liga a ação subjetiva a um sistema de leis naturais e paralisa a loucura num terreno estático para apreende-la como desvio e fato natural e daí extraindo. 2014). a normalização corresponde ao regime crítico acerca da loucura. no entanto. NIETZSCHE. Tendo isto em vista. arranca o excessivo da vida. Isto é. sob o argumento da despretensão que o legitima (cf. ou melhor. A normalização corresponde ao atravessamento da vida pelos mecanismos de poder. A anulação dos efeitos qualitativos próprios a cada estado anormal ou anômalo atua em proveito de uma individuação e subsunção do valor da experiência subjetiva às condutas e à uma modulação não só externa como normalizadora de sua existência. Submetendo-os a uma medida comum. forjando uma verdade acerca da vida e da loucura. caracteriza a própria vida nas forças múltiplas que podem positivar os estados anormais ou anômalos como qualitativamente distintos. produz as formas que. opera estrategicamente. Formações entretanto condicionadas pela porosidade de trocas e correspondências entre o funcionamento das normas sociais e o modo de operação invisível próprio ao poder que tem duas dinâmicas relativas ao exterior. Regime que atua em três eixos. Sob a égide da assepsia dos métodos científicos de saber. Tal contingente excessivo é aquilo que. remete todo ordenamento próprio e interior ao vivo à norma social de um sistema exterior a este enquanto faz remontar toda exterioridade possível a esta unidade sistemática interior total e . não obstante. os saberes homogeneízam os elementos problemáticos – no caso da clínica psicológica. Atuando através do estabelecimento de uma norma estatística e de uma norma ideal. Primeiro.

Destarte. observamos uma inflação da razão médica na submissão do corpo e de suas potências de deriva a este movimento de cuja outra face é o esvaziamento da relação médico doente. as ciências aplicadas trazem o paradigma científico da precisão através do método experimental de matematização. Por um lado. Eles mostram que a norma serve para disciplinar um corpo individual e para gerir um corpo coletivo de população. Assim. para entrar a vida codificada como sistema codificável e apreensível de leis . De um lado. instaurando. A condição de possibilidade de tal sujeição repousa no fundo da crença (tipicamente moderna) no poder ilimitado da razão humana que deve subordinar o corpo assim como todo o insubordinado e problemático do mundo. O segundo. A partir daí. como resposta a uma situação posteriormente negativada em sua dinâmica e mobilidade. O primeiro. mais que a um outro sujeito – como Foucault (1979 e 2006) aponta nas concepções de terapêutica e alienação assentadas na figura do médico – a uma norma ideal.identitária. é relativo disciplinar dos corpos. se o controle da natureza passa pela imposição de normas para a vida a mirada científica não pode deixar de estar impregnada de exigências sócio-políticas. Estas relações de dobras de forças e formação de superfícies tem consequências e efeitos determinantes na relação do sujeito com a comunidade que o circunda e nas relações que pode ter consigo mesmo. à nível de gestão e gerenciamento. Foucault (2002) aponta dois mecanismos que atuam em distintos níveis mas que se articulam e complementam no fortalecimento e uso da normalização. quer se trate do aspecto não-lógico da vida. as tecnologias normativas atuam sobre as formas. [[mesmo inscrita no âmbito médico como doença caracterizada por uma experiência pática de sofrimento. quer se trate da loucura. as condicionantes e as condicionadas pelas operações de poder. nos dedicamos em seguida a explicitar as condições para a normalização e a apreensão da experiência subjetiva da loucura. se vale da gestão científica da vida ao nível das populações. Logo. que engendra e o objetiva como corpo-máquina. assim como sobre as forças. A presunção paradoxal de uma normatividade ideal é condição de normalização à medida em que toda norma surge reativamente. por um lado. regimes específicos de interioridade e exterioridade e naquilo em que elas engendram e transformam relações consigo mesmo e com os outros. relativo à biopolítica. Por outro. é imprescindível a sujeição dos indivíduos. não há espaço para Sai de cena o sujeito e seu sofrer . .

E as ciências humanas vêm reforçar o imperativo psiquiátrico da ordem ao mesmo tempo em que lhe fornece substratos técnico-teóricos e descritivo-funcionais sobre o louco. Ou seja. Esquivando-se da negatividade que a funda. assim como sua ascendência sobre o não-lógico e indeterminado da experiência. Uma vez que não há patológico em si é o próprio poder de errância da vida – a impureza e o desvio – que deve ser normalizado. Sobre a necessidade de se afirmar a ordem racional e racionalizante. o saber médico e a psiquiatria cerceiam seus objetos buscando formar unidades fechadas e constantes. Isto significa que a positividade médica é tributária da concepção de lesão na clínica anatomoclínica do século XIX que Canguilhem (2002. é que a psiquiatria nasce como braço da medicina coletiva como trabalhamos acima. a norma pode desenvolver suas funções positiva. pela busca da positividade da vida através da negatividade primeira da morte. a objetivação condiciona os investimentos políticos sobre a matéria do mundo. Objetivação que parte de uma apreensão paralisada desta matéria caucionada no âmbito biopolítico pela assunção de um normal estatisticamente definido e à nível da clínica médica moderna. 2005) ilustra com Bichat. Na justificativa da intervenção médico-jurídica pelo vínculo entre periculosidade e monstruosidade com a criminalidade vem à tona uma diferença necessariamente qualitativa que revela o lado humano. aproximando a loucura da doença em geral. o espaço existencial e o ser da doença dão lugar à concepção localizada de doença (com o paradigma anatomoclínico da lesão) e à inscrição da loucura num sistema moral que a lê como alienação – estas duas frentes se confluem na concepção moderna de doença mental. Neste contexto é que. os signos relativos a estes saberes são por eles mesmos formados e determinam de antemão o valor da experiência subjetiva e patológica quando sai de cena a concepção ontológica da doença própria até pelo menos o século XVIII. em certo ponto. a psiquiatria reúne. conforme elucidamos acima. sob a experiência da norma. Além disso. o impuro ao desviante. . A partir de tal positividade é que a clínica. uma outra humanidade a contrapor a antropologia da ordem. técnica e política.[[isolamento e estatística Com efeito. ainda.

e que não pode desatinar mais do que não pode pensar ou ser” (FOUCAULT. as ilusões. não pode ser louco. pois. Com isso.Pensamento reflexivo: referência em René Descartes: como experiência do pensamento. atravessa as paisagens do sonho. o perigo da loucura desapareceu no próprio exercício da Razão. portanto. Esta se vê entrincheirada na plena posse de si mesma. por isso.). a loucura é terminalmente excluída pelo sujeito que duvida.. sempre guiada pela luz das coisas verdadeiras. opera o quadro de determinação divina. a loucura implica a si própria e. por outro. e como perigos. é que não estou louco. O sujeito que pensa é soberano e. Entretanto. não é superada pela estrutura da verdade. entre linguagem e representação. costurando visível ao dizível. a soberania do cogito faz as sínteses empíricas. O pensador francês ressalta a excisão da referência linguageira e a representação plástica (relação imagem-texto que estipula uma hierarquia da primeira para o segundo ou vice-versa) por um lado e a proximidade da equivalência entre semelhança e representação (propriedade imagética de representação que propicia com que no silêncio das imagens sobressaia o óbvio: isto é.. porém. E contrapõe com o desconcerto presente na tela de Magritte que dissocia as amarras entre o textual e o visual da imagem. diferentemente da ilusão e do sonho. onde só pode encontrar como armadilhas o erro. 1979. em Isto não é um cachimbo. 54) a representação tem domínio das sínteses e das análises empíricas. p. A dúvida de Descartes desfaz os encantos dos sentidos. . exclui-se do projeto. nunca se tem certeza de não se é louco. assim como ocorre ao sonhador. a loucura condiz ao gênio maligno. Foucault (INC??) levanta a crítica deste pensamento reflexivo como o caligrama botânico que almeja fazer o texto dizer o que está repreentado no desenho. como há dialética entre a desrazão e a razão clássicas. dentro da economia da dúvida. mas ele bane a loucura em nome daquele que duvida. de acordo com a filosofia cartesiano se eu penso.

na mudança estabelecida na ordem das coisas” clássico como “efeito de uma mudança nas disposições fundamentais do saber” As heterotopias inquietam. o silêncio da imagem é quebrado de maneira paradoxal: “Magritte dissociou a semelhança da similitude e joga esta contra aquela” (FOUCAULT. ao desvio e à doença. que autoriza ‘manter juntos’ (ao lado e em frente umas das outras) as palavras e as coisas (FOUCAULT. Um elemento A é igual a A. porque arruínam de antemão a ‘sintaxe’. sem dúvida porque solapam secretamente a linguagem. à história do mesmo d’As palavras e as coisas ao mesmo tempo que refaz a história do outro a que se propõe A história da loucura. sempre será possível determinar sua causa necessária. porque impedem de nomear isto e aquilo. ? conhecido o estado atual de um conjunto de fatos. desestabilizada [[por que Foucault?? a doença é a regularidade da desordem. A alteridade radical da loucura paulatinamente se transforma em objeto apreensível sob um fundamento que passa por uma série descontínua de imagens do mal. posições e representações geométricotopológicas. p. E responde. porque fracionam os nomes comuns ou os emaranham. Serres dado um fenômeno. “O homem se constitui na brecha instaurada entre as palavras e as coisas. e A é igual a sua repetição e reprodução no tempo e no espaço (DR??). como espectadores. e não somente aquela que constrói as frases – aquela. assim. 1989. ao erro. a brecha que há entre as coisa e as palavras.“quando o texto diz que isto não é aquilo. sempre será possível . Esse jogo de forças que anula o que poderia ser uma evidente semelhança provoca a abertura para uma rede de similitudes” a humanidade do humano é o que aparece quando observamos. comecim as heterotopias impedem que se nomeie isto e aquilo. menos manifestas. aqui é o reino das figuras. portanto. A ordem das coisas encontra-se. 60). 2000.

E pela individualidade que toma o vivo num sistema único e fechado capaz de recíproca correspondência e coesão entre as distintas partes. pela capacidade de reprodução. O vivo constitui um interior que se apresenta ao exterior como unidade capaz de totalizar as funções internas parciais e de se perpetuar ao reproduzir um semelhante seu no mundo. que será seu efeito necessário Certa inscrição numa temporalidade de pulso cronológico: o determinismo afirma que podemos conhecer as causas de um fenômeno atual (isto é. Pela irritabilidade. O determinismo universal é. a afirmação do princípio da razão como norma e sujeito de conhecimento.conhecer o estado subseqüente. de Nietzsche e de Heidegger. por isso. reencontra-se em todas as figuras estranhas de sua odisséia e aceita desaparecer nesse mesmo oceano donde emanara. A unidade vital orgânica básica da célula e suas funções é o índice que separa o inorgânico do vivo. Pelo metabolismo. ilumina sua própria plenitude. e de previsibilidade absoluta dos fenômenos naturais. onde a tékhnê instalou a denominação de sua vontade. declínio solar — curva-se sobre si mesmo. onde cresce o deserto. o estado posterior de um conjunto de fatos). fecha seu círculo. a faculdade de adaptação ativa e protetora perante o meio. mas antes dessa brecha incessante que . Totalidade alcançada. Coextensivamente . delineia-se a experiência de Hölderlin. de causalidade. não existe acaso no Universo. retomada violenta no extremo despojamento. o estado anterior de um conjunto de fatos) e os efeitos de um fenômeno atual (isto é. As leis exprimem essa causalidade e essa previsibilidade e. que proporcionam crescimento e reparação ao corpo do vivo. que corresponde ao conjunto das trocas efetuadas com o meio no interior do organismo. caracterizado por cinco fatores. Pela capacidade de divisão e multiplicação. assim. de maneira que não se trata aí de um fechamento nem de uma curva. em que o retorno só se dá no extremo recuo da origem — lá onde os deuses se evadiram. em oposição a esse retorno que ainda que não seja feliz é perfeito.

Num âmbito em que o formal não é orientado pelo seu lado diurno. 187). a escritura contínua e o castigo virtual deram forma a esse corpo assim subjugado e extraíram dele uma psique. 2000. o vivido”. a psique. para as cartas e fragmentos póstumos ou interrompidos cuja realidade se volta para o fora e anuncia o horizonte de sua consumação: a de linguagem que deve circular. Fundo de linguagem estagnada com as estratégias do arquivo e da biblioteca que instala a prescrição moral do recurso ao documento. 184) alude ironicamente como “reflexo subjacente”. Daí a constatação de Foucault (2006. p. A forma não e senão um modo de aparecimento da não-forma (talvez o único. com o informe. Esta é uma linguagem nômade em oposição à experiência sedentária da língua. (FOUCUALT. a experiência. mas ela não passa dessa transitória fulguração). Exercício de personalização e individualização de singularidades nômades.alguma coisa como a alma. Aquela que não deixa espaço para a linguagem fragmentária. Linguagem parcial suprimida pelas estratégias de documentação absoluta oitocentistas. Palavra que se esvazia de seu . p. mas de confrontar o formal. a forma. é o resultado desta dobra que tem como produto uma interioridade. 78) de que o indivíduo se constituiu na medida em que a vigilância ininterrupta. (2006.libera a origem na medida mesma de seu recuo. o formalizado. e o fato da instância normalizadora distribuir. que alça ao significante ou a um sentido. de certa forma.” (Ibid. linguagem que. deriva. p.. p. Não se trata de opor fundo a figura. 78) Aquilo a que Foucault (1964/2001. a imagem surge no poema como recurso do pensamento poético e não como metáfora ou fantasma. Considerar-se indivíduo prescinde do trabalho de uma consciência sobre si mesma. pela sua faceta voltada para seu próprio desenlace: de onde ele vem e onde vai de novo se perder. Desembaraçada da representação. excluir e retomar sem cessar esse corpo-psique serviu para caracterizá-lo. “o que 200 anos de psicologismo nos ensinaram existir antes da linguagem . o extremo é então o mais próximo. mas do formal “considerado pelo seu lado sombrio e noturno. 361) a interioridade condiz por um lado à consciência psicológica e por outro em um domínio constitutivo transcendental.

da cristalização numa forma última ou num sentido ontologizando passa ao largo à medida em que se instala como dupla forma. As palavras que formam o monumento do sentido se desenlaçam carregando consigo o vazio em que se faz morte e o monumento do sentido volta a ser murmúrio de linguagem. “uma obra verdadeira ela questiona novamente e subverte o ser da linguagem” 193 Contra-efetuação: “trata-se de construir com palavras vivas. A voz do sujeito se apaga de suas palavras. A imagem deixa seu centro para encontrar a profundidade de uma noite que só vibra e cintila em seus confins. 187). tal qual a imagem da criança não é a superfície que liga o pensamento ao mundo. a relacao do sujeito falante com o proprio ser da linguagem” “dispos soberanamente as palavras. a ponte para uma terceira margem de onde pode vir a retomar a superfície do sentido. visto que ressalta seu caráter precário. Palavra indiferente à verdade que baila na cintilação ininterrupta ou no prolongamento de um eco. 1964/2001. “a experiencia nua da linguagem. como uma certa relação com o informe. para “perder-se na noite seu ponto de partida e sua coerência subjetiva. tal qual a imagem psicótica..centro para tornar-se palavra pensamento. Pois a coisa só se torna imagem (enquanto pensamento poético) mediante o desaparecimento daquele que vê e designa. os livros (reais ou impossiveis) de Mallarme” era essa relação com o ser da linguagem que as obras tornam visível. A contra-efetuação é a uma só vez o túmulo e o monumento. . 189). p. passageiras a estela para sempre ereta do que não é mais” (FOUCUALT. e só reata consigo mesma na periferia do sensível” (Ibid. a sintaxe. A imagem não serve para fundar ou legitimar um eu. p. frágeis. A imagem poética. os poemas. mas que a cada instante tornava as obras possíveis em sua cintilante visibilidade. Uma noite profunda que só encontra em seus confins. Contraefetuação cuja recaída no risco da ontologização. O escritor aparece como uma massa cúbica de linguagem.

Não se trata de uma alteridade que antecede a verdade ou o sujeito. A verdade aparece como uma ficção onde o que fala é potencialmente uma alteridade coextensiva a ela.De maneira que tal ou qual constituição subjetiva não constitui. na repetição que a faz perseverar sobre a finitude essencialmente capturada pelos tentáculos da normalização. A arte traz os regimes de infinitização para a concretude finita da existência. matizes da fala e sintaxe oral. A linguagem poética tem um caráter ágil. mais que uma “forma cintilante do informe e a relação incessantemente devastada da palavra com a morte” (FOUCAULT. . por vezes tido como distanciamento. Norma linguística Resistência : pathos próprio da linguagem de descentramento Qual seria o pathos próprio da linguagem de descentramento? O que ela diz. em sua fugacidade. na claridade enquanto valor de combate à obscuridade deliberada da língua padrão. trata-se das artes como espaço em que o outro de todos os mundos possa vir a tomar corpo neste mundo (cf. antes. Flexibilidade. e trazem uma resposta vital à normalização da língua técnico-policial que constitui a gíria mundializada alvo da crítica de Piglia (2015). como diz e como opera o deslocamento? A linguagem tem capacidade de esvaziar o centro do discurso. A vitalidade de sua linguagem reside em seu caráter local. A arte e a literatura atuam muitas vezes a nível microscópico (ou micropolítico). 187). 1964/2001. O efeito de estranhamento. 2015. de abdicar de personalismo autoral e elidir a biografia daquele que escreve. a forma substantiva da transformação par alcançar o indizível. BLANCHOT. 126) Quase um movimento pronominal. conciso e diáfano. um faz-se inexoravelmente impessoal. consiste em colocar a alteridade inatingível no lugar da enunciação pessoal. “Paradoxalmente a língua privada da literatura é a marca mais viva da linguagem social (PIGLIA. ela representa a si mesma. deixar com que as bordas falem – deixar com que falem os sujeitos anônimos e infames cuja existência é o testemunho de reiterado de si mesmo no mundo. atingindo a forma narrativa da passagem. P. p. 2011).

metáforas que se tomaram gastas e sem força sensível. transpostas. tirar do âmbito da comunidade de circulação e produção de sentido. mentir em rebanho. moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal. 57) Por outro lado. enfeitadas. parecem a um povo sólidas. que consegue erigir sobre fundamentos móveis e como que sobre água corrente um domo conceitual infinitamente complicado: . inversa. tênue a ponto de ser carregada pelas ondas. enfim. doença. não mais como moedas. antropomorfismos. que foram enfatizadas poética e retoricamente. arte é extemporânea. estabelece: de dizer a verdade. OP??) é dada pela universalização da aparência levada a sério pelo filósofo alemão e que demarca a própria demarcação das aparências. Continuamos ainda sem saber de onde provém o impulso à verdade: pois até agora só ouvimos falar da obrigação que a sociedade. p. isto é. Ela é tempo fora do tempo. firme a ponto de não ser espedaçada pelo sopro de cada vento. Em se legitimando as aparências constituintes. construindo uma realidade diversa. temporalização alternativa. das quais se esqueceu que o são. p. A essência retórica da linguagem (cf. para existir. desterritorializar. portanto. admirar o homem como um poderoso gênio construtivo. Neste sentido. por isso a arte tem função essencial de descontextualizar. expresso moralmente: da obrigação de mentir segundo uma convenção sólida. adversa. 58) . tem de ser uma construção como que de fios de aranha. diz o que não é: enaltece o que está apagado. uma soma de relações humanas. exalta o porvir. Pode-se muito bem. em um estilo obrigatório para todos. após longo uso. Limita os limites do que é tomado como aparência. metonímias. O que é a verdade. canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões. a linguagem pode se constituir como resistência já que ela é engendramento e invenção. o filósofo do martelo pode compreender a linguagem como criação genuinamente estética e autossuficiente em si mesma. de usar as metáforas usuais. OP??. uma contrarrealidade. (OP. E. fora do pulso cronológico e cronificante que só pode fazer da loucura (a experiência do tempo despojado). para encontrar apoio sobre tais fundamentos. e que. NIETZSCHE. (NIETZSCHE. aqui. portanto? Um batalhão móvel de metáforas.sem dúvida.A instauração de existências através da arte é ao mesmo tempo social e política.

Esta normalização linguístico-discursiva repete e modula o modelo linguístico adotado oficialmente (cf. No ensaio Politics and the English Language. Uma norma linguística se vale de uma linguagem técnica. 1992) em prol de uma versão monopólica da realidade que gira em torno .Todo conceito e todo sentido produzido pelo homem assentado sobre os fundamentos móveis da água da antinatureza que corre no cerne e por debaixo da experiência humana de sentido. inexoravelmente metafórica. demagógica e publicitária para determinar o que está dentro da razão e da compreensão no âmbito coletivo da comunidade. Transposição de um estímulo nervoso a uma imagem. A linguagem é necessariamente abstração. Como efeito deste trajeto. própria à ordem policial e tecnocrata. Segundo Piglia (2015). Norma de estilo A doença e a loucura – menos por idiossincrasia de sua constituição própria que efeito de privação e recalcamento que possibilita e dá origem às ciências que as tomam como objeto – não têm uma linguagem própria e são organizadas de acordo com as formas em que são vistas e ouvidas. o Estado busca exercer efeitos despóticos de captura e neutralização sobre a linguagem. desta a um som e daí à palavra. caracterizada pela arbitrariedade e pelo abandono das diferenças. portanto. frente a outros conceitos que a ele se assemelham ou se contrapõem. diríamos. Favorecendo uma linguagem instrumental. precipita-se sobre a totalidade da linguagem no intuito de ocupa-la por inteiro num universo criptografado para nele cercear todo traço de diversidade. apagando os traços de todo discurso crítico seja através da ilegitimidade seja sob o argumento de ininteligibilidade. GUATTARI. poética. Georges Orwell (1968) assinala a sobreposição de uma linguagem técnica a fim de exercer controle sobre a linguagem. a linguagem não é outra coisa que uma rede de relações cujos significados são decalcados dos limites de cada palavra e de cada conceito.

vai procurá-la ali mesmo e a encontra. como bom kantiano à altura da época do texto – que é de 1873 –. Nietzsche (1999). toda empresa de busca da verdade das coisas é fracassada de antemão. Se porventura um discurso não é compreendido por este estilo médio. “Quando alguém esconde uma coisa atrás de um arbusto. Desde a era moderna. Estrategicamente criptografada. não há muito que gabar nesse procurar e 21 Dinâmica também ressaltada à sua maneira por Foucault (OD??) em A ordem do discurso. Isto quer dizer que na busca pela verdade através da linguagem só se encontra o que já está nela depositado de antemão – assim como nos sistemas ilustrados por Foucault (??) os signos já são formados em torno de um valor prévio daquele que vêm a designar. A verdade num sentido extra-moral como postula Nietzsche (1999 OP??) numa reflexão sobre a origem da linguagem. Artaud extravasa esta linguagem. consequentemente. aparece como condição para o próprio regime democrático.do consenso (BADIOU. Segundo o escritor argentino. A contrapartida da não submissão a este funcionamento estereotipado da língua social é a incompreensão. se ele não reproduz esta língua cristalizada. ou a linguagem pomposa dos saberes sobre a vida e das ciências humanas são a prova cabal disto. a economia tende a determinar a produção e a circulação de um vocabulário e uma sintaxe para um nova linguagem sagrada. 2004) e que. que entendemos como uma normalização estética sob a prerrogativa da legitimidade e da compreensibilidade de um discurso. . afirma categoricamente que não há conhecimento da coisa em si e que. esta linguagem necessita ainda de sacerdotes e técnicos para decifra-los – os técnicos do desejo. está sujeito a sofrer as sanções e tensões normalizadoras de exclusão e menosprezo21. Pois o único conhecimento que podemos ter através da linguagem é necessariamente tautológico. não obstante. tergiversar é a atitude própria deste estilo médio. Fazendo questão de enaltecer o caráter instrumental constitutivo da linguagem. técnica e colonizada.

38). Imprevisibilidade que. Nietzsche (NT?? Não sei. há o reconhecimento de uma dimensão de imprevisibilidade que é inerente ao saber/poder em jogo na relação terapêutica. Porém. Em Littré (apud CANGUILHEM. que À primeira vista disputa sentido com o sistema disciplinar. 2005. Frente ao filósofo. Aquele capaz de manejar a verdade num sentido extra-moral. 112). “a verdade é colocada do lado do paciente. a psicanálise advém no âmbito de uma psiquiatria familiarizada cujo intuito de refamiliarizar o anormal indicado e produzido no meio familiar que não deixa de ser uma empreita de constituir uma família psiquiatrizada (FOUCUALT. 2006. A exclusão da negatividade fundadora tem uma outra função não menos importante que assegurar a originalidade e a positividade da norma. a verdade é tão simplesmente como “qualidade pela qual as coisas aparecem tais como são” e pareada ao que é real. as disciplinas psi tiveram a retensão de eliminar. Sujeito cuja mirada não tem intimidade alguma. p. Ela assegura a exclusão do funcionamento social de todo o caráter improdutivo de seus elementos. sujeito do distanciamento que só pode atuar nas sombras e na solidão essencial (cf. de controlar” reformular. O artista seria o sujeito basicamente improdutivo que entra em conflito direto com a produtividade generalizada da comunidade normalizada. Encerrar com isto e partir para uma outra visão da loucura Por sua vez. Neste sentido é que. Ela reforça os mecanismos disciplinares ao conciliá-los com a soberania familiar. ao político e ao economista. 2011). p. . 58). mas que.encontrar: e é assim que se passa com o procurar e encontrar da "verdade" no interior do distrito da razão” (NIETZSCHE. não se reconhecendo como tal. OP??) coloca o artista como sujeito da verdade. no fundo funciona em articulação e mútuo fortalecimento com ele. mas Nietzsche (??) pondera que é precisamente este caráter improdutivo que torna capaz de produzir novas dimensões subjetivas. Ora. OP??. o artista é antiartista. BLANCHOT. justamente. Segundo Klossowski (NCV??). p. Klossowski (NCV??) aponta que a economia tenta subsumir e sujeitar as subjetividades a todo custo a fim de anula-los em sua singularidade elementar. regular e correto.

Por outro lado. Ele é o artista de uma verve dionisíaca. Forma... são talhados nos socius onde os fluxos se escorrem desterritorializados – fluxos de merda. estes são os meios que adquirem as propriedades geométricas. como parada no processo. AE e Nietzsche. no jogo intersubjetivo que Deleuze e Guattari (2011) criticam severamente. mas de um pathos trágico. Elas atuam. o movimento. ou o efeito de sentido gregário no comportamento de um indivíduo que seria capaz de determinar a presença ou não presença de loucura. as mesmas às quais Foucault (1979) recorre em História da loucura como observa Michel Serres (??). Como a saúde do corpo da população ou individual. a velocidade e as paradas de processo. 336) traz o acaso como “o encontro fortuito de séries de acontecimentos independentes. Artaud e os fluxos desterritorializados Leriche apresenta um conceito de saúde que submete a vida ao silêncio dos órgãos e do corpo sob a unidade total do organismo. . capturar o devir. de uma economia de gasto.este artista atua em prol não da vontade de poder. p. representação. O gregarismo traz dois tipos de propriedades aos quais se fixa. as propriedades dinâmicas. cada uma delas perfeitamente necessária e causal em si mesma”. gozo de destruição. [ ver se para Deleuze LS e zoura o acontecimento se encaixa aqui] O uso instrumental da estatística serve ao conhecimento dos fatos complexos cuja relação de causa e efeito é melhor exprimida numa curva ou em relações entre unções e variáveis. Uma condiz às propriedades geométrico-topológicas. ou à colocação em lugares. As conexões geométricas de situação e ordenamento do ser obedecem a um princípio de exo-referência – altamente combatido na oba nietzschiana – como destemporalização como congelamento. posição. de esperma ou de escrita Marilena Chauí (CF??. figura. a crueldade entende que os órgãos sofrem cortes e aberturas. incontornavelmente.

complica o ordenamento sequencial cronológico do tempo. "não poder não existir" {1'être et le néant. trazer a arte para o território clínico implica em passar da dos territórios estáticos e fixos de objetivação e sujeição estritas da loucura para o território dinâmico de desterritorialização e reterritorialização. 567). que conserva. A arte. p. como ressaltam Deleuze e Guattari (2008). ao passo que a independencia das variaveis. ao mesmo tempo. Acompanhar a loucura em um paradigma trágico e fluido através da criação artística. A primeira diferenca entre a filosofia e a ciencia reside no pressuposto respectivo do conceito e da funcao: aqui um plano de imanencia ou de consistencia.A ideia de trazer o paradigma estético para a clínica. . isto é. mas de uma maneira diferente da do plano de imanencia. onde contingência significa liberdade na relação do homem com o mundo assentada no fato de ela. às mesmas normas de funcionamento embaralhando desta maneira. Tentativa de deduzir a existência da essência. por outro lado. a liberdade. A arte cria sua essência derrisória da sua existência fugaz ou naquilo que conserva. definha seu poder de coesão e coerção atacando os ossos e mantendo-lhe viva 22 O contingente como signo de liberdade de do possível aparece em Bergson – A Evolução Criadora – como signo do indeterminismo. em contraposição à necessidade das normas de objetivação da loucura e que caucionam sua sujeição. O plano de referencia e. (DELEUZE &GUATTARI. uno e multiplo. traz o regime de infinitização do ser dada a posteriori. a risada de Nietzsche ou de Artaud. la um plano de referencia. a arte traz na sua polissemia aquilo que pode ser ou não ser. p. pertence a funcao. na quietude do tempo que abole o tempo. a fundamental separação entre objetivo e subjetivo. de interpretação da natureza em termos espirituais de liberdade e de finalidade. Ela a abarca e abraça o contingencial22. Igualmente em Sartre. A segunda diferenca concerne mais diretamente ao conceito e a funcao: a inseparabilidade das variacoes e o proprio do conceito incondicionado. em relacoes condicionaveis. na acepção de Deleuze e Guattari (2011) não corresponde à identidade consigo mesmo – à não ser às custas de uma parada no processo. O fenômeno da loucura enquanto processo. 2008. dissolve o princípio de união da realidade. que o congela em patologia – e tampouco responde às mesmas regras. 163) O riso do bufão.

Carroll que Deleuze (LS??) apresenta em Lógica do sentido. O abissal é esta dimensão produtiva do inconsciente. como poderíamos compreender uma defesa apologética da loucura. porém desossada. comum e subjetiva. damos um passo também no entendimento de loucura que alicerça a presenta tese. cujo conteúdo é vazio. Todas estas perspectivas dependem essencialmente de um solo que as fundamente. sobre um fundamento identificável. Esta risada mantém a realidade. . mesmo que os valores niilistas continuem reinando sobre a face da terra. Daí a importância de tomarmos a perspectiva trágica. O que este chama provocativamente de ideologia condiz às crenças. ou o que poderíamos chamar de relativismo ou ainda para usar o termo de Rosset. como “perverso das belas artes” (??) está fadado a permanecer no campo da fala. Daí os fluxos desterritorializados. sem as articulações que a tornam necessária (ROSSET. O que Rosset (LP??.a carne. 45) chama o campo de “ideologia – o não trágico”. Mesmo uma antiideologia. mesmo que a psiquiatria continue de pé. isto é. àquilo do sentido que exige uma crença. se assenta. por negação. A superfície. Ao reiterarmos a ausência de fundamento que caracteriza a experiência humana. p. Atacando seus preceitos e princípios. o que escondemos de nós mesmos. O psíquico não é tanto o escondido. leva a ideologia demasiadamente à sério. o íntimo. mesmo que por contraste. O relativismo implica o fundamento de pelo menos um sujeito que desliza sobre o sentido: o perverso a que alude Deleuze (LS?? citar). o L. 1974). O que queremos explorar com essa digressão? Queremos elucidar que a aventura na superfície do sentido. mas o que se esconde. uma ideologia de apologia da loucura não nos diz respeito em absoluto. primeiro como paradigma de deslizamento na superfície do sentido e de embaralhamento das séries que constituem o sentido e posteriormente como “agrimensor das superfícies” (??). Ou seja. aquilo que Freud (ref notas sobre Canguilhem??) não titubeia em chamar de abissal.

A primeira despsiquiatrização, Foucault (2006, PPesp, p. 137) encontra na
simulação, como potência de falseamento, de variação de desvio e produção
relativamente à loucura capturada.
se Artaud manifesta a experiência trágica que subjaz desde o subsolo de nossa
cultura é porque nela, a linguagem não se encontra subordinada ao sujeito
(FOUCAULT, 1979, 2000)23. Isto significa que nele, a experiência de desabamento da
linguagem conduz não à representatividade própria ao discursivo, porém ao
desregramento cruel do grito e da violência do corpo torturado. O pensar artaudiano
perfura a superfície do pensamento do interior, atravessando-o ao lança-lo com sua
materialidade na profundidade arrebatadora da do regime desterritorializado e
desterritorializante das forças (nisto consiste a materialidade de seu pensar) e do
dilaceramento da carne. Artaud parece experimentar na carne a radicalidade e o perigo
de seu pensar que o desloca e faz fugir sua loucura (FOUCAULT, 1966/2001). Como
expressa Deleuze (LS), a loucura de Artaud encontra com a profundidade para em sua
obra regressar à superfície. A recomposição faz retornar a experiência do sentido.

O CsO, como será constantemente abreviado em Mil
platôs, é portanto uma defesa ativa e eficaz, uma conquista própria da
esquizofrenia, mas que opera numa zona dita de "profundidade", onde a
organização de "superfície", que garante o sentido ao manter a diferença de
natureza entre corpo e palavras, e de toda forma perdida (LS,13a e 27 séries

Há, no louco verdade, porém não vontade de verdade (FOUCUALT, 1970/1999). Esta
verdade irresponsável do louco que visa extrair os saberes psi, os saberes da vida que
trata, contudo, de uma experiência datada da verdade. Na tragédia grega antiga, por
exemplo, não há personagens loucos, pois a loucura habita o solo da experiência do ser,
que se encontra aberto aos encontros com forças do mundo. Diferentemente da
23 “Ora, ao longo de todo o século XIX e até nossos dias ainda — de Hölderlin a
Mallarmé, a Antonin Artaud — a literatura só existiu em sua autonomia, só se
desprendeu de qualquer outra linguagem, por um corte profundo, na medida em que
constituiu uma espécie de ‘contradiscurso’ e remontou assim da função representativa
ou significante da linguagem àquele ser bruto esquecido desde o século XVI”
(FOUCAULT, 2000, p. 60).

experiência barroca da Era clássica, que comporta personagens loucos, como o Quixote,
assinala Foucault (1979) em História da loucura24.
Loucura literatura e descentramento
A literatura moderna se aproxima da atividade vertical e intransmissível da
loucura enquanto palavra que perde seu valor de troca . Tal intransitividade da
literatura moderna condiz ao caráter necessariamente subversivo de sua escrita – do ato
de escrever literatura –; é ela que se mantém subversiva, independentemente do
conteúdo do texto e do posicionamento político dos escritores. Ainda em Loucura,
literatura e sociedade, Foucault (1970/1999, p. 220) pondera que “por trás de todo
escritor esconde-se a sombra do louco que o sustenta, o domina e o recobre. Poder-se-ia
dizer que, no momento em que o escritor escreve, o que ele conta, o que ele produz no
próprio ato de escrever não é outra coisa senão a loucura”. Tal produção de loucura, tal
deslocamento inerente ao escrever corresponde ao risco de ser levado por essa loucura é
a característica do ato de escrita, risco de permanecer no desabamento e na ruína da nãopartilha.

Na mesma entrevista, Deleuze (1972/2006) clama a ambivalência d’O AntiÉdipo, ao trabalhar escritores e poetas num espaço em que indiscernível entre doentes e
médicos da civilização.
A espreita como maquinismo, como “sistema não-orgânico do corpo” (1972/2006, p.
272)25. Não pode ser reduzido a um mecanismo de conservação ou ordenamento, não é
24 Muito embora nada, no romance de Cervantes, conduza a loucura a um
enfrentamento com a razão e a verdade afirma Foucault (1979). A loucura ali diz
respeito à presunção e à imaginação.
25 Ainda na mesma entrevista, Deleuze (1972/2006, p. 284) concatena a noção basal de
desejo com a afirmação de que O Anti-Édipo tenta “pôr a libido em relação com um
‘fora’”. Ou seja, descentrar aquilo que se toma como cerne da subjetividade para fora
dos limites da lei e da castração do familiarismo que denunciam. Foucault (2006)
assinala o caráter histórico e pontual do enlace que une a loucura à família no século
XIX, e Deleuze e Guattari (2011) prolongam a análise ao fazer perceber que a
psicanálise remete o ser e a subjetividade do indivíduo reiteradamente a um interior, a

redutível ao organismo, mas como mecanismo que produz outros mecanismos na
relação com o fora.
É somente a partir de uma ordem maquínica que podemos intuir ou, em último caso,
buscar ou nos valer de uma “inteligibilidade” do processo da loucura – e não em termos
de expressão racional ou semântica.

Retirar o desejo do posto de superestrutura da subjetividade, ele é imanente à
produção subjetiva e à história (DELEUZE, 1972/2006), não uma estrutura móvel..
“Trata-se de fazer passar o desejo para o lado da infra-estrutura, para o lado da
producao, enquanto se fara passar a familia, o eu e a pessoa para o lado da antiproducao.
E o unico meio de se evitar que o sexual fique definitivamente separado do economico.”
Aludindo a Jaspers, a Laing e a Van Gogh, Deleuze (1972/2006a) apontoa um duplo
movimento na loucura. Primeiro um furo, o atravessamento de uma luz repentina que
rasga um muro e, em seguida, o desabamento. Do pintor neerlandês, ele retoma a
objeção de que o furo que atravessa o muro deve ser executado com muita paciência,
com cuidado e método. Do psiquiatra alemão, ele remonta à ideia de algo estranho que
invade o sujeito na sua fundamental impossibilidade de expressão, a luz repentina – o
inorgânico fogo do céu hölderlinano que reverbera no orgânico – que fura o muro e se
confunde, por vezes, com o desabamento. Eis o risco contido neste difícil processo.
“fazer passar os fluxos sem sabermos mais se eles nos arrastam alhures ou se já
retornam sobre nós” (2011, p. 178). Turner começa pelo desabamento, pela catástrofe,
pelo fim do mundo em tormentas, avalanches e tempestades de luzes e cores que
atravessam a tela. Sob os escombros, o pintor inglês reconstrói a superfície dando cores
uma atitude reflexiva em torno da estruturação familiaresca que visa recuperar o fundo
originário de toda produção subjetiva a partir da escamoteação da produção desejante.
Remeter ambas as produções a limites que as interiorizam consiste precisamente no
recalque mais fundamental que os autores denunciam: o estancamento da incessante
produção inconsciente, dimensão que tomamos na presente tese (a fim de delimitação
conceitual) como o fora eu funciona como uma fábrica superaquecida no corpo doente
de acordo com o poema Artaud.

2008. 9). se carrega uma marca a mais. p. p. 91) brada: “pugnemos divinamente uns contra os outros”...) executando. Nas palavras de Artaud. que destrói singularidades. Nietzsche (AFZ. O desabamento é fruto de um golpe de força.. no outro e um tipo psicossocial que reprime o vivo e lhe rouba seu pensamento. de uma vontade ou uma paixão grandes demais. ACsO. É uma intrusão (dois regimes de loucos). Há uma territorialidade escrita no corpo. de deslize em deslize construir uma “enorme máquina de carne” que faz a merda necessária para a escrita das pedras. . (DELEUZE & GUATTARI. E os dois. nunca dança uma tarantela. uma espécie de esmagamento da carne e dos intestinos para chegar ao corpo da língua e da escrita” (LINS. 93-4) QF? Artaud: Das sujeiras e das impurezas. Pedras que tampam os buracos de passagem do corpo. esta é marca da sua rebelião. se enlacam como se. Combate entre: Em Zaratustra. na passagem pela máquina cultural. ele está marcado como todos os demais e.” Rasga os muro do significante e atravessa os muros da cidade. A mistura produz a abertura e não o desabamento.a um outro mundo ao usar arcaísmos de uma maneira totalmente moderna. o esquizofrenico e um personagem conceitual que vive intensamente no pensador e o forca a pensar. trespassando-a por confrontos hipertextuais (. a um acontecimento forte demais. se conjugam.. “Artaud queria o corpo perfurando a língua. Tem-se frequentemente aproximado a filosofia e a esquizofrenia. prefere ser um estilista que um turbilhão de vingança e se dança. num caso. algo de uma pertença móvel. virtual. respondesse um estado vivido por demais dificil de suportar. se necessário. “o escritor é aquele que viu algo grande demais. de um vetor. por vezes. p. mas.

y que. hasta son larvarias y están mal formuladas. 30-31) é a emergência positiva de algo novo. Tal es. ataca a la masa del sentimiento. “O fim é a sombra reativa de uma emergência. me daría a veces el lujo de someter con el pensamiento a la maceración de un dolor tan oprimente a cualquier .” Carta a Jaques Riviére 6 de junio de 1924 Estimado señor: ……………………………………………………………………………… Mi vida mental se halla íntegramente atravesada por mezquinas dudas y certidumbres perentorias que se expresan en palabras lucidas y coherentes. que me sacude con una electricidad imprevista y súbita. la traduciría con palabras densas y diligentes. Poseen raíces vivas. a erosão e o esgarçamento. 29) a essência de uma coisa não aparece nunca ao começo. P. de giros aprendidos y que podrían entrar en danza. 59). ataca a la masa palabra-e-imagen. señor. Suponga que cada uno de mis instantes pensados sea en ciertos días sacudido por tales profundos tornados y que nada afuera traiciona. pero no poseen el desconcierto de la vida. p. 29) “a sensibilidade do intolerável. inapreensível e inexprimível" (BLANCHOT. o contrassentido por excelência do acontecimento” (ZOURABICHVILI. tenerlo hasta el extremo de no poder dejar de expresarse. en el inconsciente minuto en que el asunto está a punto de salir a luz. é a falta de ser. senão pela metade na corrente de seu desenvolvimento. en el momento en que el alma se apresta a organizar su riqueza. no curso de seu desenvolvimento. esse afecto que nos deixa paradoxalmente sem afeto. si no. esa revelación. Son de un espíritu que no debe de haber pensado en su debilidad. "O que é primeiro não é a plenitude do ser. p. a intermitência e a privação mordente: o ser não é o ser. servir para el juego. una voluntad superior y maligna ataca al alma como un vitriolo. desafetados. ni se siente en ellas el aliento cósmico de un alma conmovida en sus bases. 10 1983 “A essência de uma coisa nunca aparece no princípio. Y mis debilidades tienen una contextura mas temblorosa. raíces de angustia que tocan el corazón de la vida. quando suas forças se consolidaram. a falta vivente que torna a vida desfalecente. quando suas forças são consolidadas” IM p. é a fenda e a fissura. y me deja jadeando como a las puertas mismas de la vida. Y dígame si una obra literaria cualquiera es compatible con semejantes estados.Le livre à venir. desarmados frente Às situações elementares” (p. sus descubrimientos. Tener una riqueza de palabras. todo el problema: tener en uno la realidad inseparable y la claridad material de un sentimiento. e que induz à nova imagem do pensamento (IT. si tan solo tuviera la necesaria fuerza. 1959. mas no meio. F. ¿Qué cerebro lo resistiría? ¿Qué personalidad dejaría de disolverse en ella? Yo. Y ahora suponga usted que siento físicamente el paso de esa voluntad. con una repetida electricidad. Deleuze: uma filosfía del acontecimento.

hay que concederles crédito hasta lo absurdo. em todos os seus poros. hasta la hez. a cualquier viejo o joven escritor que produce y cuyo naciente pensamiento ya se erige en autoridad. No hay que apresurarse demasiado en juzgar a los hombres. estourados” – Antonin Artaud P 14. . o doente brilha. e por fora. Esas obras arriesgadas que suelen parecerle a usted cl fruto de un espíritu que no se encuentra todavía en posesión de sí mismo. qué fiebre pensante. no pido más que sentir mi cerebro. para ver qué queda. y que acaso nunca lo estará. He hablado bastante de mí y de mis obras futuras.espíritu renombrado. reluz. quién sabe qué cerebro ocultan. qué poder de vida. “O corpo sob a pele é uma fábrica superaquecida. que sólo las circunstancias han reducido.