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DIÁLOGO E INTERAÇÃO

volume 1 (2009) - ISSN 2175-3687
http://www.faccrei.edu.br/dialogoeinteracao

A CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA IDENTIDADE LITERÁRIA NAS OBRAS DE
CONCEIÇÃO EVARISTO
Mestranda Stefani Edvirgem da Silva (UEL)1
RESUMO: Tendo em vista as novas tendências poéticas que contradizem os discursos
da homogeneidade literária, homogeneidade esta traduzida em tudo que se refere ao
universo masculino, branco e ocidental, o presente trabalho demonstra que num
processo de construção e reconstrução, a literatura afro-brasileira por meio da produção
de autores como a escritora Conceição Evaristo revela nova identidade literária de modo
que o negro saindo da condição de semovente, escravo, alienado passa a ser sujeito de
sua própria escritura.
PALAVRAS-CHAVE: literatura; identidade; Literatura afro-brasileira.
ABSTRACT: In view of the new poetical trends that contradict the discourses of
literary uniformity, this uniformity reflected in everything that refers to the male
population, white and Western, this work demonstrates that a process of construction
and reconstruction, African-Brazilian literature by the production of authors as the
writer Conceição Evaristo reveals new literary identity so that the black out of the
condition of livestock, slave, will be sold subject to their own writing.
KEYWORDS: literature, identity, African-Brazilian Literature.

A identidade coloca-se hoje como assunto recorrente em todo meio social devido
à pluralidade de culturas que a cada dia ganha força e acaba por se estabelecer negando
a soberania de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade existentes até
então de forma única e ditadora.
Sendo a literatura a representação das ações e transformações humanas, as
identidades antes por ela abordadas se modificam à medida que a sociedade quebra as
barreiras existentes a tudo que se opunha ao universo masculino, branco e ocidental . A
temática, os espaços, as personagens e toda a dinâmica que regia a literatura canônica
dão lugar à diversidade.
Refletindo a descontinuidade, o desmembramento e a descentralização da
literatura pós-moderna (termo este utilizado para teorizar as novas tendências poéticas)
surge a literatura afro-brasileira, que vem demonstrar, em sua diferença, novo olhar a
tudo que antes fora dito para e sobre o negro; este que antes era objeto de uma escritura
torna-se sujeito da mesma, construindo uma nova identidade, sobretudo, literária.
Grandes cânones de nossa literatura, que foram custosamente legitimados como
negros, hoje são recolocados literariamente como percussores da construção da
identidade negra em nosso país, apesar de seguirem o padrão homogêneo exigido em
suas épocas em busca de uma aceitação pela qual todos eram obrigados a passar, fossem
1

Graduada em Letras pela Universidade Estadual de Londrina e mestranda em Estudos Literários pela
mesma instituição. Orientadora Professora Doutora: Gizêlda Melo do Nascimento. E-mail:
stefani_silva@ig.com.br

Irene sempre de bom humor”? Ou da mulata assanhada.edu. estado ou nação. mas como sujeito de suas ações. principalmente a do negro? A resposta esta ligada à materialidade desta construção literária (no que diz respeito à autoria) e a necessidade de criar-se uma identidade que até então fora deturpada por quase todos que se utilizaram da temática do negro. nunca é espírito só carne. ou nas denúncias da discriminação social que rodeava Lima Barreto (escritor que ficara esquecido por décadas).DIÁLOGO E INTERAÇÃO volume 1 (2009) . assim como a literatura afro-brasileira. só prazer?3 E o que dizia respeito à religiosidade. num trabalho de reelaboração literária. caveiras. na obra “Bons Dias” à abolição absurda sugerida aos negros da época. prostitutas ou malandros. pois ao final o poeta enfatiza que somos todos “caveiras. Temos grandes escritores que tinham como personagens de suas obras a mulher e/ou o homem negro. de algum arranjo. que de forma exemplar escreve o Romance Clara dos Anjos. dão voz e vez a sujeitos e ambientes nunca antes representados de fato. Tais visões que colaboram até hoje para a formação da mentalidade brasileira fazem com que esta nova poética ganhe forças no sentido de desconstruir imagens tão errôneas do negro e tornar-se uma nova face da literatura no Brasil. especialmente para a afro-brasileira. Todo o olhar crítico dado a estas obras e de tantas outras que traziam a discussão do negro não mais como objeto. grupo.”. 3 Mulata Assanha de Ataulfo Alves . de Castro Alves. de Cruz e Souza. Nossa sociedade. O filósofo conservador Roger Scruton diz que o homem deve identificar a si mesmo como algo mais amplo – como um membro de uma sociedade.ISSN 2175-3687 http://www. Irene boa. ao que ele pode até não dar um nome. 2006:48) E qual o lugar do negro e de tantas classes marginalizadas que não se vêem representadas em esferas sociais como na política. mas que é relatada como inaceitáveis rituais demoníacos. serviçais. Tem-se então a pergunta: por que diferenciar ambas as literaturas se podemos verificar brilhantemente a figura do negro na obra Os Escravos. em contraponto aos dizeres de Bernardo de Guimarães em Escrava Isaura de que “pele branca implicava também em ter uma alma branca/pura” descreve que nosso fenótipo e os estereótipos que a ele são conferidos nada valem. que nunca é mulher diurna só noturna. observar a beleza da miscigenação e sincretismo das culturas. nunca é família ou trabalho. As literaturas pós-modernas. caveiras. enfatizam a valorização de tudo que se considerava marginal e. ou ainda as críticas nas crônicas de Machado de Assis. que se pautava no tradicionalismo e nas simbologias que com ele nasciam. porém exemplar..faccrei. pode-se validar a colaboração destes escritores para as novas tendências poéticas. mas que apareciam na maioria das vezes como alienados. de forma elíptica. regionais e étnicas foram gradualmente sendo colocadas de forma subordinada à cultura dominante dificultando o encontro da identidade deste homem em seu próprio meio.br/dialogoeinteracao eles brancos ou não. Quem não se lembra dos versos de Manuel Bandeira (1970) “Irene preta.. que tanto ajudou na construção da cultura brasileira. No poema “Caveira”. ou nos contos e romances de Jorge Amado. ainda atribuía ao negro o legado da descendência de Cam2 fazendo com que na literatura prevalecesse posicionamentos e explicações tão retrógrados relacionados ao negro. 2 Filho de Noé que ao ver o pai nu é amaldiçoado por toda a sua existência e exilado em terras que se situavam no continente africano (Bíblia). contribuiu para que no final do século passado a literatura afro-brasileira se destacasse em meio a literatura brasileira. mas que ele reconhece instintivamente como seu lar (1986 apud Hall. em contrapartida. classe. na mídia ou na literatura? As diferenças sociais.

Encontram-se no livro retirantes. cuja incumbência da manutenção de bens de conduta. sendo estas agora híbridas. as quais se diferem no gênero.br/dialogoeinteracao A partir do ano de 1978. pois não se trata mais do negro escravo. deficientes físicos. a escritora Conceição Evaristo.ISSN 2175-3687 http://www. A apresentação do número 1. contos e poemas que tinham como princípio a valorização da imagem do negro em uma literatura elaborada por eles próprios. idosos. A temática é um dos principais fatores que diferencia a literatura afro-brasileira das demais. e ainda reúne. o conto Olhos d’água. alienado . no qual o eu-poético faz uma genealogia trazendo à tona toda uma linhagem familiar negra que sempre se configurou aos olhos da sociedade brasileira como inexistente devido ao episódio da escravidão.algo que é visto na maioria das obras canônicas que tinham como personagens os afro-descendentes passando a ter voz e a tornar-se sujeito de sua própria escritura. mas sim como um participante da sociedade com sentimentos. assim como a exaltação da cultura . moleques. mineira. Tempo de África. São elas: o poema Vozes Mulheres. a descontinuidade e a descentralização propostas pelas literaturas pós-modernas. renascemos arrancando as máscaras brancas. criaram o primeiro exemplar dos Cadernos Negros.DIÁLOGO E INTERAÇÃO volume 1 (2009) . (Cadernos Negros. passando pela denúncia da escravidão e de suas consequências. prazeres e sensações. a exclusão e a miséria. livro que reunia. figura esta que sempre desapontou como sustentadora e condutora da formação familiar. como afirma Eduardo de Assis Duarte (2002) preocupa-se em resgatar a história do povo negro na diáspora brasileira. alguns escritores com intuito de trabalhar com a figura do negro no Brasil. bem como a transmissão de experiências fica a seu encargo NASCIMENTO (2006). o romance Becos da Memória. empregadas domésticas. pois em diálogo como os dizeres inscritos no primeiro exemplar dos Cadernos Negros. e. pondo fim à imitação. já refletindo o desmembramento. soa como manifesto e ilustra bem a proposta destes escritores: Estamos no limiar de um novo tempo. inspirados por ela. esta literatura. 1978) Confirmando o declínio das identidades nacionais e valorizando as novas identidades. assim como materializar-se por serem eles próprios vítimas das estereotipias impostas dentro do círculo literário e intelectual. obra que narra o percurso da vida de dezenas de personagens em meio a um processo de desfavelamento de uma determinada região. Estamos limpando nosso espírito das idéias que nos enfraquecem e que só servem aos que querem nos dominar e explorar. Escritores de nossa contemporaneidade vão além no que diz respeito aos seus objetos literários. por fim.faccrei. O trabalho em questão pretende analisar algumas das obras de Evaristo. porém são fiéis à proposta da escritora em reconstruir discursos tão enraizados entre nós. mais justa e mais livre e. crianças entre outros personagens que de coadjuvantes passam a protagonistas e parte essencial na construção de todo o livro. indo até a glorificação de heróis como Zumbi e Ganga Zumba. livres de qualquer domínio. por exemplo. que acabam por ser resquícios de uma falsa abolição. que tem como temática a construção da figura da mãe para os afro-descendentes. Descobrimos a lavagem cerebral que nos poluía e estamos assumindo nossa negrura bela e forte. n. pois relatam os dramas vividos pelos afro-descendentes de nosso país. alienado ou objeto do senhor como se observava até então. prostitutas. escravo. operários. vida nova.1. radicada na cidade do Rio de Janeiro traz uma nova temática a ser abordada em suas obras: o negro saindo da condição de semovente.edu.

sempre esteve distante dos afrodescendentes. Em cima da cama. Nesses momentos os olhos de minha mãe se confundiam com os olhos da natureza. 28: 29) E só então compreendi. por que eu não conseguia lembrar a cor dos olhos dela? (“Olhos D’água” Cadernos Negros. agarrada a nós. Pode-se constatar que o episódio da escravidão.faccrei.a bisavó retirada de sua terra vindo num porão de um navio negreiro. mas agora na condição de escrava livre. através do contradiscurso. ela nos protegia com seu abraço. Sei que tudo me causava a sensação de que a nossa casa balançava ao vento. águascorrentezas. elaborada de forma intensa pela carga de sentimento poético trazida na voz da narradora-personagem pela imensa saudade da vida que tivera ao lado da mãe e a vontade de saber a cor dos olhos dela naquele dado momento de sua vida e a religiosidade. literariamente não é mais contado de forma a esconder e assim conformar àqueles que revivem seus resquícios. Ossani. E eu não sei se o lamento-pranto de minha mãe. Por conseguinte. muitas vezes caricaturada como demoníaca ou perdida através do sincretismo que tentou e ainda tenta cristianizá-la. n. por fim. E com os olhos alagados de pranto balbuciava rezas a Santa Bárbara.edu. começando assim uma tentativa de aniquilação de sua cultura e lugar perdurando-se durante a escravidão ao desumanizar e sustentar a idéia de que naquela condição – a de objeto. Mesmo em meio ao sincretismo sofrido nessas religiões. além de buscar e confirmar no tempo e no espaço a presença de sua família.. há denúncia na voz destas mulheres sobre as duras condições em que viveram seus antepassados . apesar de ter sido vivida e alicerçada principalmente durante e após o regime escravocrata. a fim confrontar toda a literatura canônica que abordava a figura do negro. Conceição Evaristo acaba resgatando desde sua bisavó toda uma ancestralidade que. temendo que o nosso frágil barraco desabasse sobre nós. chorava! Chorava. No poema Vozes-Mulheres. apagamento que se deu desde África através da árvore do esquecimento simbolizado nas voltas dadas pelos futuros escravos na mesma. hoje trazido das entrelinhas e do esquecimento para a busca de sua identidade na voz deste eu-poético e de tantos outros propostos por esta nova literatura. mas sim sendo de fato construído pela literatura afro-brasileira. ainda podemos perceber no Candomblé a extrema importância de orixás como Iemanjá. todas detentoras de elementos vitais. outra obra a ser analisada da autora em questão é construída no gênero conto visando a trabalhar com alguns recortes que evidenciam a identidade afrobrasileira: a memória. chovia! Então.. assim como a sua imensa saudade dos momentos com sua mãe: Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas. Nanã. Olhos D’água. que é configurada principalmente pelas figuras das grandes-mães. sua avó escrava e submissa às vontades do homem branco. se o barulho da chuva. sua filha que aparece na esperança de recontar toda uma história tecida quase que somente por perdas. serenamente em si. somente ao seu dono e senhor. prantos e prantos a enfeitar seu rosto. Por isso. Na voz do eu-lírico pode-se constatar que. A cor dos olhos de minha . Iansã. entre outras. o negro não pertencia a nenhum lugar. Oxum. Chovia.br/dialogoeinteracao negra. percebe-se uma constante relação entre as mães afro-brasileiras e essas figuras divinas. Minha mãe trazia.ISSN 2175-3687 http://www. sobretudo a religião.DIÁLOGO E INTERAÇÃO volume 1 (2009) . sua mãe dando continuidade a este ciclo de servidão como empregada dos mesmos que escravizaram sua mãe. o próprio eu-poético que hoje tenta fazer ecoar os gritos de todo um povo e. Olhos D’água denota bem esta semelhança.

em contrapartida. mas profundos e enganosos para quem contemplava a vida apenas pela superfície.em seu próprio meio. n. a autora em questão escreve também Becos da Memória. Águas de mamãe Oxum! Rios calmos. memórias que conectam seu presente com o seu passado e imagens que dela são construídas (2006: 51) Ratificando as afirmações de Hall.edu. confunde-se ou faz confundir a figura do narrador que ora é observador. do agora.ISSN 2175-3687 http://www. pela primeira vez. a caracterização de fatos coletivos. A escritora traz como temática o sentimento do morador da favela ao perder seu espaço e novos sujeitos. da observação constante.faccrei. na sua mente. (Becos da Memória. uma das figuras mais importantes da área dos estudos sociais na contemporaneidade. Através da vigilância.DIÁLOGO E INTERAÇÃO volume 1 (2009) . 2006: 138) Dreyfus e Rabinow. (“Olhos D’água” Cadernos Negros. que também foi moradora de uma favela. Stuart Hall. sentidos com os quais podemos nos identificar. do hoje. na sua alma. ao produzir sentidos sobre “a nação”. fazendo aparecer inúmeras vozes as quais se mantiveram escondidas dentro da história oficial. O poder não apenas traz a individualidade para o campo da observação. observa que: As culturas nacionais. obra que narra o percurso da vida de dezenas de personagens em meio a um processo de desfavelamento de uma determinada região. homens e mulheres de muitas cores. mas que tinham em comum a pobreza. Sim. Conceição Evaristo. (DREYFUS e RABINOW. por meio da leitura das obras de Conceição Evaristo que nas demais literaturas as diferenças sociais. Esses sentidos estão contidos nas estórias que são contadas sobre a nação. enfatizam a valorização de tudo que se considerava marginal e num trabalho de desconstrução e reconstrução dão voz e vez a sujeitos e ambientes nunca antes representados de fato. constroem identidades. Assentou-se e. sua distribuição numa dada população”. 28: 29) Percebe-se. ora tornar-se também personagem da trama. águas de mamãe Oxum. o cálculo das distâncias entre os indivíduos. mas também fixa aquela individualidade objetiva no campo da escrita. todas aquelas pessoas sujeitas ao controle são individualizadas. afirmam que: Num regime disciplinar a individualidade é descendente. cravado e gravado no seu corpo. regionais e étnicas foram gradualmente sendo colocadas de forma subordinada à cultura dominante dificultando o encontro da identidade deste homem – o negro . Essa acumulação de documentação individual num ordenamento sistemático torna “possível a medição de fenômenos globais. veio-lhe um pensamento: quem sabe escreveria esta história um dia? Quem sabe passaria para o papel o que estava escrito. Um imenso e meticuloso aparato documentário torna-se um componente essencial no crescimento do poder [nas sociedades modernas]. 1995: 159) . citando Foucault.br/dialogoeinteracao mãe era cor de olhos d’água. assim como a afro-brasileira. a descrição de grupos. Era diferente de ler aquele texto. encarnada na figura de uma criança que tem o insaciável desejo de estudar e escrever tudo aquilo que vivia e observava: Maria Nova olhou novamente a professora e a turma. Era uma História muito grande!Uma história viva que nascia das pessoas. As literaturas pós-modernas.

o negro autor pode ser um exemplo. por conseguinte. a conviver com a pluralidade que tem se tornado a tradução das sociedades contemporâneas. que consegue se realizar. mas também de vida: . significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sistemas culturais. 1970. menina. A sua vida. contradiz toda a história e a reconta através da perspectiva daqueles que sempre se resignaram em permanecer nas entrelinhas literárias. A reconstrução de uma nova identidade literária feita por Conceição Evaristo nas obras analisadas dará ao povo negro e não negro a oportunidade de explorar universos ainda não seus. não pode ser só sua. libertam-se na vida de cada um de nós que consegue viver. 2006: 103) Analisando os apelos na fala da personagem pode-se perceber que se faz necessária a busca pela identidade negra não como um meio de revolta em relação ao período escravocrata. os olhos e o coração sempre abertos.DIÁLOGO E INTERAÇÃO volume 1 (2009) . a valorização da mesma. Manuel. Muitos vão se libertar. o mundo. todos os negros escravizados de ontem. Desta forma. pejorativa vividas e descritas pelo e sobre o negro. (2006: 40) Em Becos da Memória a autora deixa claro. por meio da personagem que a representa ouvindo de outro personagem mais velho a necessidade da criação deste novo paradigma não só literário. 2. mas como uma releitura que caminharia contra toda opressão. primeiramente como leitora. aprender a valorizar o diferente e a si próprio e saber. tudo está aí! Nossa gente não tem conseguido quase nada.ISSN 2175-3687 http://www. em termos de literatura. . construída ao longo do tempo e. este afirma que o autor surge para confirmar a sua identidade revelando o seu íntimo e refletindo também a individualidade de outras pessoas que o lêem. seja ela racial. afeta a individualidade de leitores que compartilham com este autor tais experiências e acabam por corroborar na reconstrução de uma nova identidade através do instrumento literário.faccrei. por conseguinte. Conceição Evaristo. pois quando esta figura aparece e faz aparecer a sua individualidade. Todos aqueles que morreram sem se realizar. os supostamente livres de hoje.br/dialogoeinteracao O domínio da escrita a qual os teóricos citam trouxe a tona a identidade e a subjetividade da autora em questão. Instituto Nacional do Livro. social e. Estrela da Vida Inteira: Poesias Reunidas. sobretudo as repressões e dificuldades que passou. Qual seria o objeto de trabalho desta escritora senão a sua própria história? E ainda citando Foucault. vão se realizar por meio de você. pois como afirma Stuart Hall: Falar uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais.edu. É preciso ter ouvidos. REFERÊNCIAS BANDEIRA. Os gemidos são sempre presentes. a vida.Menina. Rio de Janeiro: José Olympio.ed. Utilizando-se da escrita como ponto de partida para uma nova ordem do discurso sobre os afro-descendentes no Brasil. (Becos da Memória.

Linda. MUSSA. Gizêlda Melo do. HUNT. DUARTE. 1987. uma Trajetória Filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. nº16. 2006. 1997. Rio de Janeiro: DP&A. SANTIAGO. Rio de Janeiro: Cadernos Cândido Mendes. & RABINOW.DIÁLOGO E INTERAÇÃO volume 1 (2009) . Tradução de Antônio Fernando Cascais e Eduardo Cordeiro. São Paulo: Perspectiva. HUTCHEON. 1992. 1989. Estereótipos do negro na literatura brasileira. 1978. Marta Kirs. EVARISTO. A identidade cultural na pós-modernidade. 1995.70-87. Becos da Memória. São Paulo: Quilombhoje. Feitio de Viver: Memórias de descendentes de escravos. David. 2002. Porto Alegre: Mercado Aberto. O que é um autor? 3. Trad.faccrei. São Paulo: Martins Fontes. Trad. Cadernos Negros 01. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Lobo. Conceição. FRANÇA. ed. 1992. São Paulo: Quilombhoje. Raça e cor na literatura brasileira. Michel.edu. Stuart. São Paulo: Vega. 1978. São Paulo: Brasiliense. Zilá. _________________. FOUCAULT. Silviano. Michel Foucault. 2005. 1988. São Paulo: Brasiliense. Lynn. P.ISSN 2175-3687 http://www. H. Cadernos Negros 28. Trad.br/dialogoeinteracao DREYFUS. 2006. NASCIMENTO. Rio de Janeiro. A poética do pós-modernismo. HALL. 2006. _________________. Rio de Janeiro: Imago. Introdução à Literatura Negra. Londrina: Eduel. 1991. 2004. A nova história cultural. p. São Paulo. São Paulo: Martins Fontes. Belo Horizonte: UFMG. Belo Horizonte: Mazza Edições. Imagens do negro na literatura brasileira. Editora Forense Universitária. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA BERN. Jean Marcel Carvalho. 1998. Eduardo de Assis (Org). Hermenêutica do Sujeito. VÁRIOS AUTORES. Cadernos Negros 15. Poéticas da diversidad. . VÁRIOS AUTORES. Alberto Baeta. Uma literatura nos trópicos. Quilombhoje. Ricardo Cruz. BROOKSHAW.

pois me lembrava nitidamente de vários detalhes do seu corpo. deixando por alguns momentos o lava-lava e o passa-passa das roupagens alheias. dançávamos. Da verruga que se perdia no meio da cabeleira crespa e bela. A mãe cochilava e uma de minhas irmãs. há vários anos. Pensamos que fosse carrapato. de uma maneira triste e um sorriso molhado. ganhavam roupas antes dos meninos. Nós. eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe? Sendo a primeira de sete filhas. das lágrimas escorrerem. Aquelas flores eram depois solenemente distribuídas por seus cabelos. As meninas. naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusatório. ali. Felizes colhíamos flores cultivadas em um pequeno pedaço de terra que circundava o nosso barraco. descobrimos uma bolinha escondida bem no couro cabeludo dela. alegria que a mãe nos dava quando. cantávamos. As labaredas. A mãe e nós rimos e rimos e rimos de nosso engano. um pequeno banquinho de madeira. Sempre ao lado de minha mãe. desde aquela época. Nessas ocasiões a brincadeira preferida era aquela em que a mãe era a Senhora. Ali. puxou rápido o bichinho. passando por uma breve adolescência. A mãe riu tanto. Ás vezes. cresci rápido. me descobria cheia de culpa.. da panela subia um cheiro algum. Lembro-me de muitas vezes. há meses. E a insistente pergunta martelando. . E a nossa fome se distraía. assim que os seios começavam a brotar. princesas. Entre um afazer e outro e outro.faccrei. E era justamente nos dias de pouco ou nenhum alimento que ela mais brincava com filhas. Ela se assentava em seu trono. braços e colo. custei a reconhecer o quarto da nova casa em que estava morando e não conseguia me lembrar como havia chegado até ali. antes que a noite tomasse conta do tempo. ela se assentava na soleira da porta e juntas ficávamos contemplando as artes-nuvens no céu. Era como cozinhasse. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada. aprendi a conhecê-la. no final da tarde. por não recordar de que cor seriam os seus olhos. acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. entretanto. Postávamo-nos deitados no chão e batíamos cabeça para a Rainha.ISSN 2175-3687 http://www. como também sabia reconhecer.. Da unha encravada do dedo mindinho do pé estranho. Naquele momento. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? Eu sabia. Decifrava o seu silêncio nas horas de dificuldade. prenúncios de possíveis alegrias. Então. posso dizer.. A mãe só ria. Ela havia nascido em um lugar perdido no interior de Minas. em volta dela. martelando... sob água solitária que fervia na panela cheia de fome. se tornava uma grande boneca negra para as filhas. em seus gestos. querendo livrar a boneca-mãe daquele padecer. aflita. que a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. as crianças andavam nuas até bem grandinhas. a Rainha. Mas de que cor eram os olhos dela? Eu me lembrava também de algumas histórias da infância de minha mãe. brincando de pentear boneca. Eu achava tudo muito estranho.. De que cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias. sorríamos. as histórias da infância de minha mãe confundiamse com as de minha própria infância. eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. pareciam debochar do vazio do nosso estômago. quando a mãe cozinhava..DIÁLOGO E INTERAÇÃO volume 1 (2009) . E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo. ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida. apenas o nosso desesperado desejo de alimento. E diante dela fazíamos reverências à Senhora..edu.br/dialogoeinteracao ANEXOS Olhos d’Água Uma noite. Ás vezes. Um dia. desde cedo busquei dar conta de minhas próprias dificuldades.

em que a oferenda aos Orixás deveria ser a descoberta da cor dos olhos de minha mãe. Havia anos que eu estava fora de minha cidade natal. voltar à cidade em que nasci. eu não conheço essas senhoras. Entretanto.. E só então compreendi. e havia aquelas que eram só nuvens. antes que a nuvem derretesse e com ela os nossos sonhos se esvaecessem também. pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe. Sim.. chovia! Então. 29) . E. Chovia. repartia em pedacinhos e enfiava rápido na boca de cada uma de nós. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água.DIÁLOGO E INTERAÇÃO volume 1 (2009) . Em cima da cama.faccrei. Sei que tudo me causava a sensação de que a nossa casa balançava ao vento. sussurrando. p. algodão doce. serenamente em si. Eu escutei quando. naquele momento resolvi deixar tudo e. ela nos protegia com seu abraço. me contemplando intensamente. Quando nós duas estávamos nesse doce jogo. Não. colhia aquela nuvem. perguntou baixinho. chorava! Chorava. Mas eram tantas lágrimas. E um dia desses me surpreendi com um gesto de minha menina. Minha mãe trazia. ela tocou suavemente o meu rosto. já naquela época. fixar o meu olhar no dela. ela sorria feliz. aflita. após longos dias de viagem para chegar à minha terra. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? E foi então que. quando já alcancei a cor dos olhos de minha filha. ou como estivesse buscando e encontrando a revelação de um mistério ou de um grande segredo. E também. Voltei. E com os olhos alagados de pranto balbuciava rezas a Santa Bárbara. que ia até o céu. prantos e prantos a enfeitar seu rosto. outras cachorrinhos. Hoje. mas satisfeita. mas tão baixinho como se fosse uma pergunta para ela mesma. sabem o que eu vi? Sabem o que eu vi? Vi só lágrimas e lágrimas. eu entoava cantos de louvor a todas as nossas ancestrais. donas de tantas sabedorias. no outro dia. águas de mamãe Oxum. que desde a África vinham arando a terra da vida com as suas próprias mãos. Abracei a mãe.ISSN 2175-3687 http://www. Tudo tinha de ser muito rápido. A mãe. Águas de mamãe Oxum! Rios calmos. E eu não sei se o lamento-pranto de minha mãe. águas-correntezas. algumas gigantes adormecidos. pra nunca mais esquecer a cor de seus olhos. espichava o braço. nossas Yabás. minha filha falou: . Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas.edu. Nesses momentos os olhos de minha mãe se confundiam com os olhos da natureza. palavras e sangue. Vivia a sensação de estar cumprindo um ritual. E assim fiz. E quando. Senti as lágrimas delas se misturarem às minhas. que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face. mas profundos e enganosos para quem contemplava a vida apenas pela superfície. quando jogava o olhar dela no meu. agarrada a nós. tomada pelo desespero por não me lembrar de que cor seriam os olhos de minha mãe. Eu precisava buscar o rosto de minha mãe. qual é a cor tão úmida de seus olhos? (Conceição Evaristo In: Cadernos Negros nº28. encostei meu rosto ao dela e pedi proteção. faço a brincadeira em que os olhos de uma são o espelho dos olhos da outra. Por isso. se o barulho da chuva. por que eu não conseguia lembrar a cor dos olhos dela? E naquela noite a pergunta continuava me atormentando. Saíra de minha casa em busca de melhor condição de vida para mim e para a minha família: ela e minhas irmãs que tinham ficado para trás e todas as mulheres de minha família.br/dialogoeinteracao Umas viram carneirinhos. temendo que o nosso frágil barraco desabasse sobre nós. então.Mãe.

A minha voz ainda ecoa versos perplexos com rimas de sangue e fome. A voz de minha avó ecoou obediência aos brancos-donos de tudo.DIÁLOGO E INTERAÇÃO volume 1 (2009) .32-33) .edu. O ontem – o hoje – o agora. p.ISSN 2175-3687 http://www. Na voz de minha filha se fará ouvir a ressonância o eco da vida-liberdade.faccrei. Ecoou lamentos de uma infância perdida. A voz de minha filha recolhe todas as nossas vozes recolhe em si as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas.br/dialogoeinteracao Vozes-Mulheres A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio. A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato. A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias debaixo de trouxas roupagens sujas de brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela. (Conceição Evaristo In: Cadernos Negros nº15.

Eram histórias com gosto de sangue. vinha uma aflição. Sabia-se que ela estava chorando pela voz rouca e pela boca amarga.edu. Posso assistir à briga de Tonho Sentado e Cumadre Colô. pé ante pé. a tia tinha tristes histórias para rememorar. Posso também ir olhar a ferida que a Magricela tem na perna. A igreja do bairro rico ao lado da favela era de uns padres estrangeiros. perdia. Imagino a dor se ele me retalhar a carne. fora de cada barraco.. Maria-Nova não gostava. dentro. ela chorava. Maria-Nova lá ia pedir selos. Um dia. de cada pessoa. achava. ela haveria de contar tudo aquilo ali. Era muito bonito. Vou ver Vó Rita. Da janela de seu quarto caiado de branco. Torneira de baixo ou torneira de cima? Hoje estou para o sofrimento.Hoje quero dormir sentindo dor. Duas coisas ela gostava de colecionar: selos e as histórias que ouvia. Um sentimento estranho agitava o peito de Maria-Nova. Vou pedir que me leve até a Outra. Gosto de ouvi-lo afiar a lâmina. maior.) As tardes na favela costuma ser amenas. Às vezes.. mas olho. Maria-Nova lia. angustiava-se tanto! Queria saber o que era a vida. das histórias dele. o mundo.. maior. aquelas ali haveria de repetir ainda. Tudo tomava um tom avermelhado.. 34 -36) . E quando a menina estava para sofrer.)” (Conceição Evaristo In: Becos da Memória. Ele tinha ido à guerra. Fechava o livro e saía. Não perdia nada. Tenho nojo. Contar as histórias dela e dos outros. Aquelas histórias ela colecionava na cabeça e no fundo do coração. Histórias boas.faccrei. Ganhava. alegres e tristes eram as de Tio Totó e da Tia Maria-Velha.ISSN 2175-3687 http://www. p. Tinha selos de vários lugares do Brasil e de alguns lugares do mundo. Contava com uma voz entrecortada de soluços. Queria saber o que havia atrás. Tinha histórias também. Maria-Velha parece que adivinhava os desejos de Maria-Nova. a favela. quem sabe hoje ela dá o ataque? Posso passar devagar. Maria-Nova crescia.. Por isso ela ouvia tudo tão atentamente. Olhava o pôr-do-sol.DIÁLOGO E INTERAÇÃO volume 1 (2009) . os barracos. Hoje quero tristeza maior. sem lágrimas. Posso ver a Teresa. não se sabia como. perto do barraco do Tião Puxa-Faca. A montanha lá longe. (. Tio Tatão dava os mais lindos. Maria-Nova contemplava o pôr-do-sol..br/dialogoeinteracao Becos da Memória “(. Ganhava das patroas de sua mãe e de sua tia. Mas. Soluços secos.