You are on page 1of 91

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

STELLA TITOTTO CASTANHARO

AS FACES DO REI: HENRIQUE VIII E SUAS REPRESENTAÇÕES HISTÓRICA E
AUDIOVISUAL

CURITIBA
2011

STELLA TITOTTO CASTANHARO

AS FACES DO REI: HENRIQUE VIII E SUAS REPRESENTAÇÕES HISTÓRICA E
AUDIOVISUAL

Monografia apresentada à disciplina de Estágio
Supervisionado em Pesquisa Histórica como
requisito para a conclusão do Curso de História,
Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes,
Universidade Federal do Paraná.

Orientador: Prof. Dr. José Roberto Braga Portella

CURITIBA
2011

AGRADECIMENTOS

Ao longo desses 4 anos, muitos foram os que passaram pelo meu caminho e de
alguma forma contribuíram para o meu aprendizado. Mas além dos que passaram, os que
ficam ao meu lado sempre, são indispensáveis para o meu agradecimento.
Ao meu pai e minha mãe, Agnaldo e Regina, pela confiança, estímulo, apoio,
carinho, amor e dedicação. Por terem entendido essa escolha tão estranha e difícil, e me
segurarem quando mais precisei, meu eterno agradecimento por me darem a vida e cuidarem
tão bem dela. À minha sis tão querida, Milena, que pela diferença me ensinou que posso ser
quem eu sou e correr atrás dos meus sonhos, sejam eles quais forem. Que entendeu meus
medos e crises, mas segurou a barra quando preciso. Obrigada pelos sábados de manhã e pela
energia diária. Sem vocês nada disso teria sido possível.
Ao professor e orientador José Roberto Braga Portella pela paciência e dedicação,
por ter aceitado e acreditado na minha pesquisa, quando ela ainda não tinha limites, mas
principalmente, pelos questionamentos, críticas e sugestões que me ajudaram a escrever essa
monografia e me ensinaram a ter convicção naquilo que faço.
Aos colegas do PET-História que de alguma forma ou de todas, me ajudaram a me
tornar uma pesquisadora melhor e uma pessoa diferenciada, pois através do trabalho em
equipe e do companheirismo, hoje sei do que sou ou não capaz de realizar. Obrigada pelas
risadas e cobranças de toda sexta-feira pela manhã, pelas conversas e especialmente pelo
discurso emocionado da última sexta.
Aos amigos tão fundamentais para minha vida, sejam eles acadêmicos ou pessoais,
agradeço pela ajuda de todo dia, pelas conversas, angústias divididas e conquistas alcançadas.
Obrigada por terem feito parte de tudo isso e por terem me mostrado que não estou sozinha no
mundo. Obrigada principalmente aqueles que nesse último semestre foram tão indispensáveis,
mesmo que eu, sem tempo, muitas vezes tive que dispensá-los. É com muita alegria que
agradeço a vocês, por se mostrarem os amigos mais compreensivos de todos os tempos e
estarem constantemente ao meu lado.
Não podia deixar de agradecer ao André, por ter me ajudado a escrever e delimitar as
ideias que eu pretendia colocar aqui. Por ter lido exaustivamente essas linhas e por ter sido o
colo de quem eu chorei, reclamei, sofri e fui feliz esse ano. Obrigada por estar tão presente e
por ser um presente, com o qual eu cuido com carinho e respeito.
Finalmente agradeço à Deus por ter me permitido vivenciar tudo isso, na
possibilidade de aprender e ensinar, agradeço por ser a esperança e conforto diários.

não poderiam pintar-se cem telas sobre o mesmo tema. Pablo Picasso .Se apenas houvesse uma única verdade.

RESUMO Partindo da relação entre Audiovisual e História. a análise entre a representação de Henrique VIII na historiografia e na série. Palavras-chave: Audiovisual. tais como o humanismo. a cortesania e a predestinação divina ao trono. Contudo. uma revisão bibliográfica sobre audiovisual e História. Desse modo. metodologicamente dividiu-se a pesquisa em três momentos principais: uma revisão historiográfica sobre o tema. Ao se perceber a complexidade desse período histórico e suas tramas é que se faz indispensável pensar acerca do diálogo entre as representações audiovisual e historiográfica deste rei. . enquanto que a representação produzida pela série possibilitou identificar como esta personalidade foi sendo construída ao longo de seu reinado. e por fim. Henrique VIII. Representação. essa monografia pretende estudar as diferentes representações de Henrique VIII (1491-1547) pela série televisiva The Tudors (2007-2010) e pelas historiografias francesa (André Maurois) e inglesa (Antonia Fraser). em ambas as áreas percebeu-se que nas diferentes relações de Henrique VIII era necessário se mostrar como um monarca forte e acima de tudo um rei por excelência. A série também permitiu que se observasse o quanto os valores modernos ingleses do século XVI. influenciaram a personalidade do rei. Observando que a maior parte dos historiadores caracterizou o monarca como cruel e temperamental.

....... 49 Imagem 5: Episódio 1....ª temporada (00:32:10). 74 ..ª temporada (00:03:15)... 60 Imagem 14: Episódio 6............Something for You.ª temporada (00:21:12)…………..Moment of Nostalgia.. 2.... 61 Imagem 15: Episódio 5..Death of a Monarchy.Lady in Waiting...LISTA DE ILUSTRAÇÕES Imagem 1: Episódio 1... 4..... 53 Imagem 8: Episódio 5.....ª temporada (00:22:56)…………….Truth anda Justice.Natural Ally.......ª temporada (00:06:24)…… 62 Imagem 16: Episódio 7.....ª temporada (00:21:51)...... 71 Imagem 22: Episódio 10.......... 2..... c......Civil Unrest.Problems with the Reformation... 68 Imagem 19: Episódio 3............ 2. 3...Everything is beautiful..ª temporada (00:52:19).. 4. 3... 4.Dissension and Punishment... 69 Imagem 20: Episódio 7...Sixth and The Final Wife.. 4.................Everything is beautiful.........ª temporada (00:53:43)...... 72 Imagem 24: Episódio 10... 59 Imagem 13: Episódio 4.Message to the Emperor........ 73 Imagem 25: Hans Holbein....Search for a New Queen... 2........ 4....ª temporada (00:52:27)…………. 4. 2...Destiny and Fortune... 47 Imagem 3: Episódio 8... 3...... 49 Imagem 4: Episódio 10... 64 Imagem 17: Episódio 1..His Majesty’s Pleasure.... 70 Imagem 21: Episódio 10..... 1.... 57 Imagem 11: Episódio 3..............Checkmate...The Death of a Queen.. 46 Imagem 2: Episódio 7.....Protestant Anne of Cleves.ª temporada (00:47:57)............... 2..........ª temporada (00:53:14)......ª temporada (00:46:08)...... 54 Imagem 9: Episódio 8. 3......Death of a Monarchy...................1.. 55 Imagem 10: Episódio 10............. 4.....Death of a Monarchy......ª temporada (00: 51:06)……………......ª temporada (00:20:27).Death of a Monarchy..The death of Wolsey........1540...ª temporada (00:08:01)……………..………….. 66 Imagem 18: Episódio 4..ª temporada (00:02:50)…………... 1.ª temporada (00:37:07)……………………....ª temporada (00:28:30)...................ª temporada (00:33:39).......ª temporada (00:45:36)……………..... 1...... 51 Imagem 6: Episódio 3...... 4..ª temporada (00:45:05)……………. 72 Imagem 23: Episódio 10............. 3.ª temporada (00:07:16)………………...................ª temporada (00:19:26).......... 58 Imagem 12: Episódio 1....... 52 Imagem 7: Episódio 1........In Cold Blood..... Henrique VIII. 3.ª temporada (00:05:07)..

......................................................................................... 15 2........................................................1 ANÁLISE GERAL DA SÉRIE .............................................................. GRANDES CORPORAÇÕES ................................................................................40 4 A FABRICAÇÃO DO REI: A ANÁLISE DA SÉRIE THE TUDORS ...........................5 O QUE A SÉRIE CONTEMPLA? ...............................................................65 5 CONCLUSÃO ..........................................................................SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ..................................................17 2........................................................5 QUARTA TEMPORADA .............................1 CORTESANIA: A CONSTRUÇÃO DO HOMEM IDEAL ............................................................58 4............................4 ELEMENTOS PARA ANÁLISE ........................................................1 O QUE É A TELEVISÃO ...........3 SEGUNDA TEMPORADA .................................2 A FORMAÇÃO DE UM REINO ..................................................................45 4. 13 2...4 O REINADO DE HENRIQUE VIII: A CONSOLIDAÇÃO DE UMA DINASTIA ............80 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..........................................................................................................................................................................29 3........................................................................................................................43 4...... 7 2 A FABRICAÇÃO DO REI: HENRIQUE VIII ATRAVÉS DA HISTORIOGRAFIA 13 2............32 3............2 PRIMEIRA TEMPORADA .................29 3.......................................37 3...............................................................................................................................3 A FABRICAÇÃO DE UM REI ..............................84 .........................................................3 RELAÇÃO AUDIOVISUAL E HISTÓRIA ....................81 8 ANEXOS ....43 4................................................................2 BBC E CBS................................21 3 A TELEVISÃO E A NARRATIVA HISTÓRICA ...........................................................33 3.................................................50 4.............4 TERCEIRA TEMPORADA ...........................................................................77 6 FONTES ..........

Seus pais colocaram um fim à Guerra das Duas Rosas3 ao se casarem e fundarem a Dinastia Tudor que teria como emblema a junção da rosa branca dos York e da rosa vermelha dos Lancaster. Henrique VII assumiu a posição de rei ao adquirir a coroa no campo de batalha e promoveu paz ao reino inglês após 30 anos de muitas mortes e destruição da Inglaterra. Com a formação da Igreja Anglicana. Para tanto. Robert A. Maria e Henrique. 2010. entende-se representação como uma relação entre uma imagem presente e um objeto ausente. Os acontecimentos mais marcantes de seu longo reinado (38 anos) foram suas relações com as seis esposas. enquanto que a representação realizada pela série possibilitou identificar como esta personalidade foi sendo elaborada ao longo de seu reinado e a importância dos valores modernos ingleses do século XVI. 2 .7 1 INTRODUÇÃO Desde os anos 80 historiadores de todo o mundo passaram a estudar as relações entre audiovisual e História. bem como pelas historiografias inglesa (Antonia Fraser) e francesa (André Maurois). como Rei de Inglaterra e França. problematizando e refletindo o fato de que esses meios de comunicação poderiam ser vistos como produtores de História.1 Considerando esses elementos e inserindo-se nesse debate historiográfico. passou-se a considerar o monarca o representante divino e chefe da Igreja. em que grande parte dos historiadores o apresentou como um rei cruel e extremamente impulsivo. de 1509 a 1547. sendo o segundo filho homem de uma família de quatro filhos2. Esta guerra civil ocorreu de 1455 a 1485. Henrique VIII assumiu o trono em 21 de abril de 1509. essa monografia busca estudar as diferentes representações do rei Henrique VIII (1491-1547) produzida pela série The Tudors (2007-2010). Margarida. porém com a morte precoce de seu irmão Arthur. foi coroado juntamente com a princesa espanhola Catarina de Aragão. além de segundo monarca da Dinastia Tudor. sua intempestuosidade e a ruptura com a Igreja Católica. modificando significativamente a Inglaterra do século XVI. 3 A Guerra das Duas Rosas foi uma guerra dinástica entre as famílias York e Lancaster. A História nos filmes. Estudou-se especialmente o que se refere ao governo de Henrique VIII. tais como o humanismo. a cortesania e a predestinação divina ao trono. proporcionando assim a criação de uma memória construída sobre a temática 1 ROSENSTONE. Aos 18 anos. São Paulo: Paz e Terra. o ponto de partida dessa pesquisa foi compreender o conceito de representação criado por Roger Chartier e o de fabricação pensado por Peter Burke. São eles por ordem de nascimento: Arthur. Por ser o segundo filho homem da família seu destino era fazer parte da vida monástica. Os Filmes na História. Filho de Henrique VII e Elizabeth de York. Henrique VIII nasceu em 28 de junho de 1491. No caso de Chartier. sua primeira consorte. que exerceram forte influência na sua personalidade.

pensamos nessa pesquisa por conta de seu conteúdo ser de temática 4 CHARTIER. Jan.29 acesso em 30 de março de 2011. O mundo como representação./Apr. considerada um drama histórico. irlandesa. In: Estudos Avançados. 6 Respectivamente os canais são de nacionalidade: canadense. Nos DVDs da série também há informações adicionais como entrevistas com os atores.282007.org/wiki/The_Tudors#Primeira_temporada_.8 abordada. Working Title Films e a Canadian Broadcasting Corporation (CBS)6. 1994. 8 A série foi dirigida por diversos cineastas e diretores de televisão. a postura correta. as fontes utilizadas nessa pesquisa foram as quatro temporadas da série The Tudors produzidas pelos canais Peace Arch Entertainment. 7 O seriado teve a estréia mais cotada em três anos pelo mesmo canal. a segunda e a quarta temporadas possuem 10 episódios e a terceira possui 8 episódios. 11 Uma dessas premiações foi a de melhor música tema de abertura feito pelo canadense Trevor Morris. 1991. De maneira geral ela foi muito bem avaliada e recebida pelo público. Peter. também responsável por projetos como os filmes “Elizabeth” e “Elizabeth. com o criador Michael Hirst e historiadores que estudam o período da dinastia Tudor.1 de aprovação do público numa escala de 1 a 10. São Paulo.com/title/tt0758790/ acesso em 08 de novembro de 2011. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV. Os episódios possuem cerca de 50 minutos cada um. 10 http://www. Roger. a etiqueta que devia ser seguida. vol. fabricação.4 Enquanto que o conceito defendido por Burke. 5 Tanto quanto o aprendizado para se consolidar como monarca. Segundo o site do IMDB (The Internet Movie Database)10 a série tem 8. tendo em vista que a primeira. Como já tínhamos entrado em contato com o estudo de audiovisuais. Foram mais de 30 indicações e 20 premiações. 5 BURKE. Tendo observado esse ponto inicial. é entendido como um processo de criação de uma imagem ao longo dos anos.a Era de Ouro”8. . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.imdb. britânica e americana. bem como a fabricação de uma imagem no imaginário social da época. Reveille Eire.wikipedia. 11 http://pt. Contudo. totalizando 38 episódios9. os direitos autorais de distribuição são da Sony Pictures Television International enquanto a BBC adquiriu os direitos de exibição no Reino Unido a partir de 2007.5 n. A série. Ressaltamos que esta pesquisa teve a duração de dois anos e foi desenvolvida como pesquisa individual para o grupo PET-História. Eles estão especificados nos Anexos. 9 Para mais informações sobre cada episódio ler Anexos. Isso também é perceptível na quantidade de prêmios a que foi indicada e os prêmios que ganhou de fato.º11. como ele deveria ser visto e de que forma ser visto. foi criada e produzida por Michael Hirst. A série foi exibida pelo Canal Showtime7 nos EUA e no Brasil pelos canais People&Arts e Liv! entre os anos de 2007 e 2010.

1990. em que o primeiro se torna uma figura imortal e constante. como caráter divino da monarquia. Emmanuel Le Roy Ladurie ao retomar os conceitos acima citados. três elementos que não podem ser esquecidos por um governante. VIGARELLO. 17 VIGARELLO.15 Ernst Kantorowicz16 e Georges Vigarello17 são essenciais para qualquer estudo sobre reis após a Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 14 KENNEDY. Norbert. Os séculos XVI e XVII. Norbert. observando que ambos problematizam a noção de corpo político e corpo físico. portanto. enquanto o segundo é mortal e passível de emoções e sentimentos. 1998. 2001. Jean. prática de cortesania e elementos políticos da sociedade. Maurice Crouzet permitiu que lacunas fossem preenchidas acerca da sociedade e dos elementos constituintes do período estudado. uma prática que 12 ELIAS. a análise entre a representação de Henrique VIII na historiografia e na série. 1995. França. as obras de Norbert Elias foram lidas com o objetivo de compreender e estabelecer um panorama sobre a sociedade de corte do século XVI.12 Perry Anderson contribuiu para estabelecer um panorama sobre a Inglaterra do século XVI e compreender os aspectos políticos e econômicos que perpassavam essa sociedade. 18 LADURIE. E ELIAS. Alain. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Ao longo dessas leituras ficou claro que havia a necessidade de se construir uma imagem. Volume 9. Rio de Janeiro: Campus. Georges. 1989. Petrópolis: Editora Vozes. sua sacralidade e exercício da justiça. bem como agir de acordo com diferentes normas ou costumes para ser considerado um cidadão civilizado. Os dois corpos do rei – Um estudo sobre teologia política medieval. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil.9 histórica e permitir um diálogo sobre representação nessas duas áreas. destacando a história militar do período. Linhagens do Estado Absolutista. seguido de uma revisão bibliográfica sobre audiovisual e História. O processo civilizador. a monografia foi dividida em três principais momentos: o primeiro foi uma revisão historiográfica do tema. 1994. COURTINE. as viagens pelo reino eram essenciais para essa visibilidade. e por fim. 1460-1610. O primeiro capítulo da monografia foi pautado na revisão dos conceitos e conteúdos que se relacionavam com a Inglaterra do século XVI. Paul. Perry. Volume 1: Uma história dos costumes. 2004. A sociedade de Corte. Dessa forma. econômicos ou tecnológicos. “Introdução. fosse em aspectos militares.) MOUSNIER. Nesse sentido. Ascensão e queda das grandes potências. destacou que uma monarquia renascentista é formada pela soberania real. São Paulo: Brasiliense.23-250 16 KANTOROWICZ. Maurice (dir. História Geral das Civilizações. 15 CROUZET.13 Enquanto que Paul Kennedy ao problematizar as disputas entre reinos. pp. Emmanuel Le Roy. Roland. História do Corpo: da Renascença às Luzes. Os progressos da Civilização Européia. In: CORBIN. São Paulo: Companhia das Letras.38 .Jacques.A monarquia clássica” pp. São Paulo: Companhia das Letras. “O Corpo do Rei”. Georges. 13 ANDERSON. O estado monárquico. apontou que os conflitos eram fundamentais para o desenvolvimento das monarquias. Ernst H. 5ª edição. como o caso de Henrique VIII.14 Da mesma maneira. 2008.18 Jacques Revel também apontou que a figura real precisava ser vista pela população e.9.

as obras de André Maurois21 e Antonia Fraser22 foram indispensáveis para entender-se a imagem construída e reproduzida até então pela historiografia.São Paulo: Editora Aster e Editora Flamboyant. A Desmistificação do honorifico. 1960. 1989. P. necessariamente não é a melhor.ibem. lordes e herdeiros. 22 FRASER. A Monarquia Constitucional no Reino Unido e a prerrogativa da Coroa. além do que ela permite que uma imagem produza um efeito de realidade. As seis mulheres de Henrique VIII. ainda que de maneira mais simplificada e diminuta. 23 BOURDIEU.19 O jurista Francisco Bilac M. os dois historiadores focam a personalidade forte e intempestuosa desse rei especialmente com suas esposas. além de ressaltar que mesmo sendo considerado um meio de comunicação democrático. No segundo capítulo da monografia fez-se uma revisão bibliográfica da relação entre audiovisual e História. Pierre Bourdieu contribuiu para a discussão de como a televisão é inserida nesse debate. E para que a relação entre o audiovisual e História seja estabelecida é necessário pensar-se que História na realidade é uma verdade histórica em detrimento de outras e que por essa razão. 19 REVEL. André. a qualidade da informação ou do conteúdo apresentado.pdf acesso em 20 de junho de 2011. entre outros.org/arquivos/editais/2011/MONARQUIA_CONSTITUCIONAL_.10 segundo ele já estava incorporada nos reinos a partir do medievo. Disponível em: http://www. Ainda que ambos destaquem os aspectos humanistas e a preocupação do monarca com o desenvolvimento da Inglaterra. 21 MAUROIS. Pinto Filho ressalta que a monarquia inglesa era e é exercida sendo pautada em duas atividades principais: o potestas e a autorictas. História da Inglaterra. filmes.20 Pensando mais especificamente na figura do próprio Henrique VIII. A invenção da sociedade. Desta forma. especialmente ao que se refere a representação do cotidiano em séries. Lisboa. Jacques. 1997. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. FILHO. Lisboa e Rio de Janeiro: Difel. novelas. evidenciando os elementos de análise. considerando o papel de quem participa dela.23 Robert Rosenstone apontou que hoje a experiência audiovisual não é composta somente por discurso. 2009. Pierre. Sobre a Televisão. a ponto de muitas vezes levá-los a execução por serem suspeitos de traição. bem como identificando a especificidade de séries televisivas. Antonia. 20 . em que o primeiro seria a capacidade de impor comportamentos e a segunda seria a capacidade de influenciar comportamentos. a televisão está inserida num ambiente de censura e voltada ao mercado e ao que gera lucros para as companhias e por isso. a mídia visual também representa uma forma pela qual a História pode ser transmitida. M. Rio de Janeiro: BestBolso. Francisco B. mas também pelas imagens em movimento reproduzidas em diferentes telas através de diversos dispositivos sonoros e efeitos visuais.

televisão e história. Há reações violentas e explosões de humor. Por fim. reforçando a sexualidade. espectador e o sentimento produzido no indivíduo ao assistir um audiovisual. 2008. além da composição de imagem e som.24 Relacionando-se com a proposta de Rosenstone e permitindo que a análise de um audiovisual e História sejam feitas através de compreensão e condensação. a duração. as práticas de jovialidade e continua-se mostrando a sexualidade do monarca. frio. acrescentando à figura real indícios de loucura que o teriam levado à morte. de jovialidade. com rugas. mostrando danças e o rei vestido com cores vibrantes. Podendo-se perceber que a primeira temporada da série retrata Henrique VIII sempre relacionado com práticas de esportes. p. como a narrativa. deslocamentos. A última temporada dá continuidade a esses elementos e novamente revela o lado sombrio e amargurado do rei. Além de evidenciar a relação entre enredo. personagens e por fim. alterações. mas com temperamento instável e buscando fazer guerras contra aqueles que não reconheciam sua autoridade quanto rei e chefe da Igreja Anglicana.64-65 . o drama mostrado no audiovisual. e a ligação com elementos cinematográficos. para um rei sombrio. Além de ser visível a mudança física de um príncipe da renascença. pois o rei e o ambiente são apresentados com cores mais escuras. Cinema. No final de sua vida. diálogos. no último capítulo da monografia procedeu-se a análise da representação de Henrique VIII na série The Tudors e na historiografia francesa (André Maurois) e inglesa (Antonia Fraser). menos referências aos esportes. Enquanto que ao longo da segunda temporada há uma alteração na parte visual. A terceira temporada tem um toque mais sentimental e sombrio ao retratar Henrique. em que a autora elenca os elementos formadores de uma série. Henrique procura manter-se no poder para que a Inglaterra continue em paz sob o 24 25 KORNIS. amargurado..25 Também fez-se a diferenciação do que é uma série televisiva para os demais audiovisuais tendo como base o artigo de Márcia Rejane Messa. acima do peso. pp. jovem e ativo. Op cit. considerando que este passado é produzido por um olhar do presente. Mônica Almeida. assim como ressaltando que o diálogo entre História e audiovisual é muito recorrente atualmente e que a linguagem audiovisual produz representações e pontos de vista sobre o passado através de variadas formas estéticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.10 ROSENSTONE. e o temperamento de Henrique se modifica. Em contrapartida ainda há um frescor em sua personalidade ao se ver casado com uma jovem de 17 anos que o faz retornar a momentos de sua juventude.11 Mônica Almeida Kornis apontou que a televisão hoje busca além de retratar o presente se voltar ao passado. ainda que feliz com o seu terceiro casamento.

bem como ter como elemento norteador as características específicas de cada audiovisual dentro de seu período de produção.12 governo da Dinastia Tudor e com uma nova esposa que exerça o papel de mãe para seus filhos e uma rainha boa para seu reino. pensando a historiografia e a série televisiva como produtores de História a partir de discursos distintos. Além de entenderem-se as diferenças entre as representações de Henrique VIII. . para que ao estudarmos a representação de Henrique VIII como um caso específico. contribuindo metodologicamente para o surgimento de novos estudos voltados à relação entre História e audiovisuais. Nas considerações finais pudemos perceber a necessidade de utilizar os conceitos de representação de Roger Chartier e o de fabricação de Peter Burke.

Teria como características principais: a) um novo tipo de homem baseado no ideal de civilidade. Era uma ilha. mas tinha seu maior trunfo e perigo na sua única cidade continental. É um homem idealizado e trazido nas obras de Baltasar Castiglione com manuais de cortesania. sejam elas monarquias absolutas ou parlamentares.26 2. de um novo mundo em razão das discussões acerca do universo e com a tecnização dita acima. Op. um conflito interno de poder. a França. Essa era a Inglaterra do início do século XVI. em que se lança a ideia de progresso pela técnica e ciência. com ênfase no avanço marítimo e descobrimento da América. assim como uma recorrente disputa com a Escócia. novas relações de política estrangeira. cuja principal característica era a humanitas. e por fim. a cidade de Calais.11 CROUZET. ou como Norbert Elias afirmou um processo civilizador do homem. um novo sujeito humanista para o período. c) uma forte mercantilização e expansão ultramarina. comércio e pessoas passavam.34-35 . p. É um século marcado pelo desenvolvimento tecnológico auxiliando a expansão territorial e marítima. que procurava assumir o trono inglês. fruto da Guerra dos Cem Anos e da Guerra das Duas Rosas. pelas Reformas Religiosas.27 Este momento aparece especialmente com os novos ideais de homem pertencente à civilização européia. Maurice (dir. costuma ser datado de maneira geral dos anos de 1490 a 1560 e tem por característica primordial uma forte oposição à Idade Média e representa a Idade Moderna por excelência. cit. pp. por novas estruturas econômicas possibilitadas pelo comércio e mercantilismo. André.1 CORTESANIA: A CONSTRUÇÃO DO HOMEM IDEAL Uma ilha não muito distante do continente. O século XVI é marcado fundamentalmente pelo Renascimento. onde toda sua produção. Uma constante oposição e aversão a tudo que vinha do reino vizinho e mais próximo. uma rejeição à França.) MOUSNIER. Op. O Renascimento ainda que tenha diferentes datações dependendo do autor. b) um novo universo a partir das constatações de Copérnico. Roland. e conflitos militares e territoriais que possibilitaram a modificação das práticas das guerras.cit. mas não isolada”.13 2 A FABRICAÇÃO DO REI: HENRIQUE VIII ATRAVÉS DA HISTORIOGRAFIA “Insular. O homem 26 27 MAUROIS. novas organizações políticas.

2001. p.) a consciência nacional”28. o monopólio militar e a prática da etiqueta. Norbert. estabelecendo. de suas emoções e estava em constante contato com autores que reforçavam a prática de cortesania nas relações com outras pessoas. não uma atitude natural do homem. E isso teria origem nos espaços utilizados pela corte. além de ser entendido como um processo. p. Elias ressalta que civilização é um conceito que revela “a consciência que o Ocidente tem de si mesmo. calma. agindo com sabedoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. pois a partir desse comportamento criava-se um novo status social da aristocracia (que era absorvido pela burguesia) de controle de maneiras e de comportamentos. enfim... e. (. p. Por outro lado. Idem. portanto. Prefácio. e a partir desse 28 ELIAS. pois segundo o sociólogo alemão é possível perceber que esses manuais de cortesania e comportamento surgiam num período transitório do “afrouxamento da hierarquia social medieval e antes da estabilização da moderna”. algo que está sempre se movimentando para o devir.. 85 30 CHARTIER. respeito. 1990. conduta.) a corte deve ser considerada como uma sociedade. maneira de se vestir e de se relacionar com os outros. Para o autor a manifestação do homem interior é feita pelo comportamento do homem exterior através de sua postura. isto é uma formação social na qual são definidas de maneira específica as relações existentes entre os sujeitos sociais e em que as dependências recíprocas que ligam os indivíduos uns aos outros engendram códigos e comportamentos originais.14 idealizado era aquele que tinha controle de seu corpo. 23. gestos. expressões. a sociedade de corte deve ser entendida no sentido de sociedade dotada de uma corte (real ou principesca) e inteiramente organizada a partir dela. Norbert. Op. entre outros..30 Chartier também ressalta que a sociedade de corte é formada por três elementos principais: o monopólio fiscal. É necessário destacar que a civilização ou civilidade é uma imposição de costumes. um código que passou a ser seguidos pelos demais extratos da sociedade.29 Evidenciando.8 29 . o mesmo grupo que realizava era aquele que conferia. É necessário se pensar que assim como Roger Chartier problematizou no prefácio do livro de Norbert Elias A Sociedade de Corte que (. In: ELIAS.cit. A sociedade de Corte. que as maneiras devem ser vistas e relacionadas com pessoas de boa índole e reconhecida por suas práticas ajustadas na sociedade.. Roger. portanto deve ser entendida como um condicionamento do sujeito. Nesse sentido é indispensável pensar acerca do tratado de Erasmo. Cabe por fim lembrar que era a própria sociedade que regulamentava e servia de controle para o exercício dessa prática.

o que gerou uma estrutura social muito problemática. em que a população e o poder real tinham sofrido muito por conta de uma guerra civil que teve a duração de 30 anos. onde um povo. p.214 . A reforma protestante tinha em sua origem obra de eclesiásticos. que por motivos religiosos questionavam as práticas da Igreja Católica e defendiam que a verdadeira religião era fundamentada na relação homem e Deus. Com esse retorno ao que passou a ser considerado de “a verdadeira religião” o povo acabou por fortalecer o conceito de nação. a população agarrou-se as novas instituições religiosas. No campo religioso da Inglaterra é imprescindível destacar a mudança ocorrida através da reforma. André. os novos proprietários desses terrenos e propriedades passaram a cobrar valores muito altos nas mercadorias que vendiam. 2. o que fez com o Rei não fosse um monarca absoluto. 31 E seria justamente o povo quem orientaria o rei em seu governo.e o rei governariam tão bela terra. E eram os sujeitos da nação os principais motivos de orgulho inglês. A boa prática de cortesania também possibilitava aos nobres nomeações em cargos políticos e administrativos de destaque. especialmente com o término da Guerra das Duas Rosas. A nomeação para cargos religiosos como indicativo de proteção do rei é acentuada na Inglaterra com a criação da Igreja Anglicana. e é ela que irriga a cabeça e todos os membros do corpo político”. cada indivíduo possui o seu lugar social e a etiqueta passa a funcionar como meio de dominação de um grupo sob um indivíduo. Isto porque.15 último elemento é que Elias procura evidenciar que não há uma separação do homem público para o homem privado. de ajuda aos pobres. centrado na figura do soberano.evidentemente escolhido. Eles eram ditos “livres”. mas um governante guiado pelo parlamentarismo. Partindo desse pressuposto a reforma na Inglaterra encaminhou-se também para a arrecadação de impostos e confisco de terras da Igreja. a vontade do povo é a primeira coisa viva. pois além de Henrique VIII ser o chefe de estado ele também desempenhava a função de chefe da Igreja. aumentando o número de pessoas que faziam parte das classes miseráveis inglesas. agora anglicanas. Ao mesmo tempo. o que fazia com que fosse uma obrigação real a nomeação de clérigos. especialmente monges.2 A FORMAÇÃO DE UM REINO 31 MAUROIS. Segundo Maurois “Na Inglaterra. Op Cit. ou até mesmo nomeações para cargos religiosos como uma forma de proteção real.

ao mesmo tempo em que a Inglaterra se desenvolvia. instrumentos de navegação. também é neste período que se criam “armadas reais”. 37 34 Ibid. p. possuía uma estabilidade interna e prudência financeira. mas ao mesmo tempo marcado por inúmeros conflitos. as monarquias francesa e espanhola também cresciam e se desenvolviam. Op. p. Paul Kennedy também destaca que 32 KENNEDY.32 Segundo Paul Kennedy era muito improvável que no século XVI a Europa centro-ocidental ascendesse.33 Em relação aos conflitos militares. pois dessa forma as nações têm condições de arcar com os gastos militares. Outro elemento que enfatiza essa disputa é o fato de que para se ter poderio militar se faz necessária uma significativa capacidade produtiva.sejam eles conflitos diretos ou competições entre reinos para estar à frente um do outro. pp. religiosa ou de áreas de influência. novas descobertas no campo científico. sejam de ordem militar. 53 33 . entre outros. para formar o núcleo em torno do qual se pudesse congregar uma grande frota de navios mercantes. Foi a partir das disputas militares que esse crescimento foi possível.” 34 Uma prática constantemente estimulada por Henrique VIII que através da recuperação promovida por seu pai. pois ao contrário dos impérios orientais. era constituída por regiões com autoridade centralizada e costumes e práticas constantes. podendo enfraquecer o poder político da mesma. galeaças e pinaças armadas em tempo de guerra.16 Todavia. surgimento de novas máquinas de impressão capazes de produzir folhetos em velocidades mais rápidas. A rivalidade entre os diferentes reinos possibilitou um importante desenvolvimento na ciência e tecnologia. contribuindo para um crescimento econômico maior a partir do comércio além-mar. Ou seja. 1-2 Idem. Diferentes potências buscando expandir-se territorialmente fariam do século XVI próspero. implementação de novos alimentos na dieta européia. um conjunto de “certo números de navios de guerra regulares. permitindo que com as constantes disputas as nações da Europa ficassem a frente das demais nações dos outros continentes. mas por uma ausência de exército profissionalizado sofreria grandes perdas ao guerrear com reinos como França e Espanha que possuíam um poderio militar profissional. o que se tornaria um grande problema para o século.cit. caso contrário ela não teria possibilidades de manter sua riqueza. Paul. E a Inglaterra marcada por uma nobreza militarizada. da ciência e tecnologia a Europa passava a ser superior aos demais continentes. com uma grande ascensão do conhecimento.

35 Esse equilíbrio e o tesouro nacional começaram a ser ameaçados pelo primeiro ministro de Henrique VIII. a recuperação das terras da coroa e o confisco das pertencentes aos rebeldes e aos pretendentes rivais ao trono. portanto. É neste momento que as companhias de comércio. e somente com o confisco das terras da Igreja realizado pelo secretário Thomas Cromwell a situação financeira teve uma melhora. também era evidente a facilidade de desvio de recursos. aparecem e fortalecem os pólos comerciais. o florescente comércio de tecidos com os Países Baixos. tudo isso combinou para produzir um equilíbrio salutar.36 O comércio do século XVI se tornou inseparável das monarquias absolutistas porque eram os grandes comerciantes que realizavam a função de banqueiros da época. 66 . e os lucros da Star Chamber e outros tribunais.17 Reduzindo suas despesas. Ou seja. toda a manutenção da sociedade passava pelas mãos desse grupo que juntamente ao rei definiam taxas e valores a serem negociados. resgatando suas dívidas e estimulando o comércio da lã. mas não deram conta dos custos das guerras contra França e Escócia. a maior parte voltada ao comércio com o continente americano. No setor das finanças nacionais. Ainda que a Inglaterra do século XVI fosse centralizada e relativamente homogênea. além de fazerem empréstimos a juros exorbitantes. o que fez com que os ministros reais vendessem propriedades religiosas. isso porque o Parlamento era formado por membros da nobreza inglesa que apresentava um caráter fortemente militar. da Reforma Inglesa as receitas reais permitiam investimento nas campanhas militares empreendidas pelo Rei. Mas ao contrário do que aparenta. Cardeal Wolsey. a receita aduaneira propiciada pelo crescimento das trocas. confiscassem terras de nobres. p.3 A FABRICAÇÃO DO REI Para Perry Anderson o poder do monarca e a importância do Parlamento Inglês teriam origem no século XII. promovido pelo rei. Nesse sentido que alguns autores como Maurice Crouzet apontam haver um surto de capitalismo e uma aproximação da burguesia com a nobreza e um afastamento com o povo. o primeiro monarca Tudor proporcionou uma trégua muito necessária a um país atingido pela guerra civil e pela inquietação. a instituição do Parlamento não enfraquecia o poder real na Inglaterra. em 1540. Anderson também destaca que “O governo real centralizado era exercido através de uma pequena roda 35 36 Ibid. p. 2. 65 Ibid. o uso crescente das ricas áreas pesqueiras do litoral e a animação geral do comércio costeiro fizeram o resto. a produtividade natural da agricultura. da pesca e o comércio em geral. Através.

Portanto. além de possibilitar a realização de mapas que dimensionavam o tamanho de um reino e a constituição jurídica dos condados (o pertencimento a qual lorde.capacidade de influenciar o comportamento. Op. Jacques Revel destaca que “Quando se desloca. além de conselheiros advindos da confiança de Henrique VII.” 40 . Jacques. E isso ocorreu com a presença de Henrique VIII no trono. o tamanho da propriedade. Cabe ressaltar que com o governo de Henrique VII haveria uma significativa melhora da situação econômica inglesa. Ao que se refere à estabilidade do governo inglês. Faz o seu reino existir e toma a posse dele. P.capacidade de impor comportamentos – e a autorictas. das quais estas apresentam o sentido de privilégio e vantagem com relação à autoridade enquanto que os poderes significam a autoridade de realizar ou não aquilo que a tradição pressupõe. Neste processo a Inglaterra se encontrava pronta para o desenvolvimento do comércio. que eram solicitados para a maior parte das decisões que envolviam a política de estado da Inglaterra. ainda no final do século XV. as práticas de um rei estão ligadas muito mais a função que ele ocupa do que o sujeito que ele é. o que teria proporcionado ao seu sucessor um governo pautado num executivo poderoso e um afortunado tesouro. Segundo ele o monarca inglês possui poderes e prerrogativas. entre outros fatores. Ainda cabe ressaltar que o rei deveria ser visto por seus súditos e para tanto ele deveria viajar em toda extensão do reino.104 40 Idem. Perry. mas faltava-lhe um governante forte. os produtos e tributos entregues a coroa.) 37 ANDERSON. M.cit. 118 FILHO.cit.39 Essa prática já era realizada desde a Idade Média e problematiza a ideia de que por um governo ser centralizado há um reforço da necessidade de seu governante ter conhecimento de todo o território que está sob seu domínio. O jurista Francisco Bilac M.cit. Com o término das guerras também se tornou possível perceber a modificação das estruturas como a casa. estabelecendo assim uma nova política territorial. Op. p. 39 REVEL. Francisco B. Pinto Filho38 destaca que o exercício de poder de um monarca é dividido em duas atividades principais: o potestas. o rei delimita o seu território. em que os sujeitos/indivíduos teriam mais liberdade e espaços de intimidade. a Inglaterra se enriqueceu por conta do significativo aumento de Igrejas em todo o seu território e o desenvolvimento da imprensa que foi de extrema importância para a educação do povo inglês.18 seleta de conselheiros pessoais e homens de confiança do monarca” 37 . p. p. Op.109 38 .

entre outros objetos que são relativos a cada uma das dinastias. pois a partir desses elementos é que espera-se a dominação de seus súditos. 520 44 Ibid. há uma série de símbolos que fazem parte do seu reinado. e fundamentalmente a partir da união entre corpo físico e político do rei.41 Devemos pensar que o rei também é envolto pelas cerimônias do Estado e.no próprio dormitório era cercado por camareiros-. manto. p. bem como aquele que possui uma autoridade personalizada. 506-515 42 . além das práticas das cerimônias de Estado é que se compreende o ideal de uma monarquia com apoio divino. Isso porque se entende que pela imortalidade do corpo político o Rei tem aprovação divina para governar o país. mas também corpo político. mesmo que o rei fosse observado em todas as instâncias da sua vida. cetro. Em contrapartida. é isto que dá este sentido tão particular à etiqueta e aos rituais que cercam o monarca clássico. p. o corpo político nunca sofre de acessos ou alteração de humor. as descrições são acompanhadas de elogios ao seu físico. pp. Segundo ele. Idem.cit. sua beleza e sua postura quanto governante.44 No caso inglês.19 Georges Vigarello aponta que em um reinado. pp. Vigarello afirma que O rei é a manifestação viva da existência e do poder do Estado em cada um dos momentos de sua vida: o menor de seus instantes designa o todo. 503-505. Era de grande deferência que ele fosse conhecedor da etiqueta e do comportamento ideal de um monarca. Desta maneira. portanto. Op. ele tinha a possibilidade de ter relações mais escondidas que as outras. essa ideia se fortalecerá com o Anglicanismo. afinal para a Inglaterra o rei não era somente seu corpo físico.os símbolos incluem anéis. este valor do código físico que excede de longe a simples vontade de distinção. Diferentemente do corpo físico do rei. 43 A prática de cortesania se fez tão importante para o século que até mesmo o Rei era perpassado por esta. a figura do monarca é sempre descrita de forma pomposa. onde o rei passa a ser um representante da vontade de Deus tanto como governante quanto como autoridade religiosa. 511. pois apesar do corpo físico do monarca desaparecer. Sem dúvida. O rei deve ser entendido como a cabeça e o coração de seu reino. coroa. a figura política do rei nunca some. Georges. A referência aqui é direta ao relacionamento com suas 41 VIGARELLO. Georges Vigarello destaca a figura do rei como imortal diante de seus súditos. 42 O próprio sangue é um símbolo da realeza e da hereditariedade e direito ao trono. 43 Ibid.

45 Ainda em relação à sacralidade do Rei. o Rei representa a si como sacerdote. e é com este elemento que o rei deve preocupar-se constantemente. o rei também era reconhecido como uma figura sagrada. 45 46 BURKE. pois seu carisma quanto líder deve ser renovado e reforçado ao longo de todo seu reinado para que seu povo o apóie em suas decisões. isso porque ele era ungido com óleo de crisma e pelas suas ações enquanto autoridade.cit. p.aquele que apresenta características espirituais e mundanas. Tendo como origem a corte francesa. bispo e monarca. Além disso. pois sempre se coloca a dúvida de quantos eram filhos não reconhecidos e quantos de fato foram reconhecidos). p. mas ao mesmo tempo a ideia de personae mixtae. 46 Isso porque a figura divina do Rei é baseada simultaneamente nas figuras de Deus e de homem e. Peter. portanto. Para isso não eram poupadas palavras que engrandecessem o reino e seu governante. De forma que nem sempre a imagem produzida pela literatura e pelas artes correspondesse fielmente à figura real. Pode-se pensar que houve um refinamento das tradições de cada localidade visando focar as relações humanas por todo o território conhecido. as demais cortes passaram a introduzir maneiras. Op.cit. 22 KANTOROWICZ. Op. As pinturas que trabalham com essa temática ficaram conhecidas como retratos solenes e tinham por finalidade principal fazer com que a expressão e a postura do rei mostrassem toda a dignidade que o envolvia. enfatizando a ideia de dois corpos. As monarquias renascentistas foram pautadas na construção da imagem dos reis através da arte que produzisse uma narrativa sobre o reinado daquele sujeito. Norbert Elias ainda destaca no segundo volume d‟O processo civilizador: Formação do Estado e Civilização que a corte na sociedade ocidental além de ser a casa do rei e dos cortesões também era o local em que o estilo passou a ser produzido e determinado como modelo de vida do momento. especialmente ao que se refere à relação rei e súditos que eram fortalecidas através de juramentos de fidelidade. pois seus contemporâneos consideravam que ele tinha também o poder de curar os males de seus súditos. Ernst Kantorowicz destaca que “O rei é o personificador perfeito de Cristo na terra”.20 amantes que só passam a ser identificadas após se tornaram amantes oficiais e mesmo quando o são. Ernst H. 56 . Segundo Peter Burke. deveria mostrar ser carismático. linguagens e expressões que fossem diretamente relacionadas com as práticas já realizadas em cada um dos reinos. dificultam o discurso historiográfico pelas inúmeras ausências de documentação e detalhes destes tipos de relacionamentos (nesse sentido pode-se pensar sobre a paternidade de filhos bastardos do rei.

comportamentos e ações. Isso passou a representar a repressão do campesinato e dos pobres pelo estabelecimento de uma hierarquia social mais rígida. segundo Anderson.e sua capacidade de governar. Op cit. Tudo passa a ser encenado na vida do monarca pressupondo-se uma série de regras e elementos a serem seguidos. comer. era “um aparelho de dominação feudal recolocado e reforçado”48 sob domínio de uma nobreza amedrontada. cortesãos e as classes altas. sejam eles o de ordem mais pessoal como levantar-se. em que cada gesto. até rituais públicos como encontros com embaixadores. A intenção ao produzir esse mito era de alcançar três grupos muito específicos da sociedade: estrangeiros.4 O REINADO DE HENRIQUE VIII: A CONSOLIDAÇÃO DE UMA DINASTIA Emannuel Le Roy Ladurie47 ressalta que a monarquia tem uma essência sagrada através do sistema simbólico e suas funções. era a dinastia. Elias também reforça que a monarquia enquanto instituição social se baseava na competição entre uma nobreza decadente e uma burguesia ascendente. 18 . nomeação para cargos públicos entre outros. além das tramas. que havia alcançado esse status a partir da coerção político-legal que se voltou ao grupo mais centralizado e militarizado. A monarquia absolutista. a sacralidade e a justiça. Destaca-se ainda que o que legitimava um reino por fim. Perry. Emmanuel Le Roy. p. sendo que por corte entende-se os senhores no topo e súditos na base.cit ANDERSON. Isso porque o rei tinha posse do Estado e poderia adquirir territórios através da união de pessoas. em que se faz relação direta com suas qualidades. a monarquia se dá pelo funcionamento da corte. palavra e ação são nutridos de significado e carga simbólica. A partir da Renascença produz-se noções de justiça e dignidade real. lavar-se. O inglês também aponta que 47 48 LADURIE. Op. que freqüentam o mesmo espaço de sociabilidade.21 A vida de um monarca também passa a ser pautada por rituais. 2.sejam elas físicas ou psicológicas. mas que ao mesmo tempo produzia uma relação de dependência dos grupos. Passa-se então a produzir mitos sobre o rei e reforçá-los através de analogias com heróis da mitologia grega ou romana. e se pensa nas três funções intrinsecamente desempenhadas pelo rei: a soberania. pois a nobreza precisava da burguesia para sobreviver enquanto esta precisava daquela para alcançar altos postos e títulos no reino. com outros reis.o palácio. Portanto.

sobrinho da rainha.tornou-se um ideal constitucional das monarquias do Renascimento.. a pele claranesse momento era extremamente importante. participando de competições. pois ao mesmo tempo em que o rei exigia a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão. bem como na resolução das questões que envolviam a Reforma Religiosa Inglesa. a Inglaterra foi o reino em que o absolutismo teve menor duração por conta das inúmeras instituições que contribuíam para a manutenção do poder real. e só se mostrava impaciente quando não se envolvia em atividades dinâmicas. 49 Todavia. O conflito com a consorte se colocou a partir do momento que ficou evidente a impossibilidade de gerarem um filho homem. que foi convocado pelo Rei para resolver as questões conjugais do primeiro matrimônio real. p. pois este achava inadmissível o não cumprimento de acordos estabelecidos entre as nações. isentos de restrições legais anteriores. 27 . ignorando os direitos tradicionais e subordinando as imunidades privadas. Era muito instruído teologicamente e musicalmente. uma prática que o rei não gostava de realizar. e tinha um físico quase de herói.e Ana Bolena representava a esperança do rei para o nascimento do tão desejado filho varão. Isso porque tinha cabelos numa tonalidade quase ruivos. movido a bailes e práticas cortesãs. Na primeira década de seu reinado ele mostrava-se muito carinhoso e respeitoso com a rainha Catarina de Aragão. olhos azuis. isto é. Diante 49 Idem. assim como demais membros da sociedade.22 (. por considerar que ela nunca havia sido sua esposa de fato. proporcionaram os protocolos jurídicos para a supressão dos privilégios medievais. Estava sempre envolvido com as atividades físicas. pois representava a pureza-. que as mulheres não haviam nascido para governar. Isso contribuiu para a raiva e irritação do rei que defendia. Entre essas instituições a mais atuante no governo de Henrique VIII foi o Parlamento. em todo o Ocidente. o que fazia com que diferentes alianças fossem estabelecidas visando equilibrar o poder dos outros dois monarcas. o papado estava sob domínio de Carlos V. A paixão por Ana Bolena teria acontecido de um dia para o outro e foi entendida como uma paixão forte pelo fato que Henrique VIII escrevia inúmeras cartas de amor para ela. A historiadora inglesa Antonia Fraser em seu livro As seis mulheres de Henrique VIII descreve Henrique VIII como o ideal de um rei ou ao menos alguém que tinha a aparência de um rei.. Mas essa nova paixão foi inserida num processo muito controverso da Inglaterra.) “a vontade do príncipe tem força de lei”. Os próprios conflitos com Carlos V de Espanha e Francisco I de França já mostravam a instabilidade de humor do rei inglês. A noção complementar de que os reis e os príncipes eram eles próprios legibus solutus.

portanto. A autora coloca que para Henrique era preferível se absolver a se declarar culpado com as relações com as duas rainhas até então. pois o reino ainda estava muito dividido entre católicos e protestantes. Para a . enquanto Henrique se retirava para viver sua viuvez e o lorde de Norfolk resolvia as questões do enterro da rainha. Mas isso significava a morte da rainha por complicações no parto. destinada ao governo e ao poder. esperava que sua futura esposa. Mas cabe lembrar que ele não era um homem comum para assumir a culpa pelo fim dos seus casamentos. Ana era movida por astúcia e por inteligência. Dois anos após. Mas ainda assim ele continuava a praticar a cortesania e. sua filha com Catarina de Aragão.23 dessa situação a solução encontrada por Henrique VIII foi o rompimento com a Igreja Católica e a criação da Igreja Anglicana. E já tinha uma dama em vista. A terceira rainha passou a ser conhecida por sua docilidade e vontade de reconciliação entre o rei e Mary. Todavia. Henrique VIII convocou seus lordes para lutarem contra os rebeldes e deu-lhes a permissão de fazer o que fosse possível para conter essas manifestações. mas quando esta não lhe dá o filho homem e sim uma menina. Henrique passava a considerar um novo casamento visando fins hereditários. novamente o rei começa a se questionar se o casamento teria validade. A incorporação das casas religiosas para a monarquia passava a gerar indignação. Mas a rainha que se seguiria além de inteligente era sensata e virtuosa. Razão pela qual “por sua consciência” ele já organizava seu casamento com Jane Seymour antes mesmo de Ana morrer. portanto. Lady Jane Seymour. em 12 de outubro de 1536. em 1538. ele se deparava com inúmeros problemas dentro de seu reino. Enquanto Catarina de Aragão era herdeira de grandes reis e. Thomas Cromwell secretário do rei iniciava a procura por uma nova esposa como mandava a tradição. Ao mesmo tempo em que o rei resolvia suas questões matrimoniais. já com 48 anos Henrique VIII estava acima do peso e abandonara há muito tempo o perfil de príncipe da renascença que casara com as suas duas primeiras esposas. especialmente pela questão religiosa que estava posta na Inglaterra.despertasse seu lado conquistador e cortês. nascia Eduardo VI. Diante desta nova situação. A insatisfação de Henrique e a necessidade de restabelecer alianças com a Espanha fizeram com que Ana chegasse ao seu fim: a decapitação por traição e adultério. Com a morte de Catarina e a “incapacidade” de Ana. Ana sempre questionava e discutia questões de estado com Henrique. Esse instinto maternal da nova rainha não passou despercebido por Henrique que passou a protegê-la de todas as ameaças e ataques que podiam ser feitos a Jane. Com o início de muitos levantes ao longo do território. Aos 46 anos.a quarta. o tão desejado filho do rei.

Henrique casou-se com Ana de Cleves por questões políticas e não por amor como tinha feito as duas últimas vezes.tudo era culpa de uma outra pessoa.24 escolha dessa nova esposa o rei entrou em contato com retratos e relatos. Fraser relata que Henrique VIII passava a considerar a nova esposa como uma rosa sem espinhos e que era incapaz de conter-se em público ao acariciá-la. Para tanto. com o desinteresse do rei por sua rainha. segundo a autora. o mesmo dia em que Cromwell era executado por ter cometido tal erro. o pintor renascentista Hans Holbein foi indispensável. para que a mulher que mais o agradasse fosse a escolhida. por fim. Em 18 de julho de 1540. em 6 de janeiro de 1540. pois este era de extrema confiança do rei.e depois. ele deixava transparecer suas duas principais características: “Primeiro. Inserida nessa complexa situação. A criação dessa jovem parece ser um tanto obscura para a historiografia. não havia como a jovem Catarina Howard. o rei casava-se com Catarina Howard. a sua obstinação. ou mesmo ambos. pois pouco se sabe da casa em que foi criada e educada. a escolhida foi Ana de Cleves. Mas quando o Rei conhece sua futura esposa o único sentimento que ele teria sentido. Nesse sentido. Mesmo feliz. em momento algum. Juntando todos esses elementos o que dificultou ainda mais a nova relação do rei foi a sua impossibilidade de consumar o casamento com a rainha protestante. Contudo. enquanto outros preferem não opinar sobre o tema. com 18/19 anos. O rei acreditava que seu secretário havia pecado com seus afazeres e. A situação com a rainha passaria por uma nova questão de possibilidade de divórcio. alguns autores colocam que era uma casa de prostituição. em que o principal culpado pelo casamento seria o secretário do rei: Thomas Cromwell. especialmente como Fraser coloca: por possuir um “sex appeal”. Ao ser transferida para o palácio de Richmond. Ana receberia a notícia de que seu casamento havia sido anulado pelo rei e que este passava a considerá-la como sua boa-irmã. foi decepção. Não é de admirar que os cortesãos .ninguém deveria opor-se a ele sobre coisa alguma. não chamar a atenção do rei. Era a primeira vez que o rei se casava sem nunca ter visto presencialmente a futura rainha. havia a comiseração de si mesmo. mais por uma questão de importância política e de alianças territoriais do que por sua beleza. Catarina ganharia a atenção e seria alvo das seduções do rei. seria possível conseguir uma anulação diante do fato da não consumação do casamento. De qualquer forma. Com a demora da chegada de sua noiva e a frustração com a simplicidade da moça. declarando abertamente seu interesse pela moça. Henrique encontraria inúmeros motivos para declarar sua insatisfação com o novo casamento.

Por mais que diversas pretendentes aparecessem ninguém. que não desinflamava e fazia com que ele. Para o monarca era essencial que todo o perigo em seu reino fosse destruído. após deixá-los na torre e torturá-los. Ana Bolena. o que lhe atribuía uma imagem de pertencimento a realeza). antes invencível em atividades físicas. Henrique continuava a eliminar seus inimigos. bondosa. 473 . respeitosa) e por suas características (era a mais alta das esposas do Rei. Em 13 de fevereiro de 1542 a Rainha Catarina Howard era executada sob as mesmas alegações e no mesmo local que sua prima. Após esse fato a questão do casamento real passa a produzir dúvidas em todo o reino. Rapidamente rumores chegaram aos ouvidos do Rei do péssimo comportamento e modos da Rainha.25 tremessem”. Op. Segundo Fraser “Claro que era verdade que depois de cinco esposas e mais de trinta anos de matrimonio.não tinha ninguém em vista. Catarina Parr exerceu corretamente a função para qual foi designada: a de mãe para os três filhos do rei. Mas a crise que se passou não foi externa e sim interna. com a diferença que as acusações feitas contra Catarina possuíam provas e ela era sem dúvida alguma culpada. no Palácio de Hampton Court. o que resultou no rei um surto de ataques ao seu conselho pessoal. Já havia se tornado viúva pela segunda vez. 446 Idem. uma mulher de 31 anos. pois ele acreditava que estes não haviam preparados suas últimas esposas para desempenharem o papel de consorte. quando Henrique decidiu casar-se com ela em 12 de julho de 1543. p. Conhecida por suas qualidades (agradável. Essa escolha tinha a vantagem de não gerar dúvida no reino da não virgindade de Catarina. A responsabilidade por declarar a rainha culpada foi do bispo Crammer. mas atestava o quanto esta mulher era feita para os afazeres de uma esposa.”51 Em 1543 o humor de Henrique teria melhorado. Antonia.cit. esposa respeitosa para Inglaterra e regente 50 51 FRASER. p. A mulher que assumia as funções da esposa do rei na realização de eventos e festas era sua primogênita Lady Mary. nem seus conselheiros nem os lordes. ainda que sua saúde física estivesse em muito debilitada. o rei. mal pudesse se movimentar com destreza. queriam se envolver com a relação matrimonial real. Em meio a esse ambiente é que o monarca conheceria a viúva Catarina Parr.pela primeira vez. bem como possíveis relações extraconjugais com seus cortesãos.50 Mas o que mais chamava atenção nesse momento era a úlcera de sua perna.

Fraser destaca que a vida deste Rei. Era o fim de 38 anos de reinado para um homem de 55 anos. literatura e gosto por música e pelas letras..492 Ibid. Henrique VIII foi tudo isso. por conta da úlcera em sua perna. de febres constantes e inchaços por todo o corpo.e precisava ser e estar exposto aos homens. o apresenta como um grande príncipe da Renascença é libertino. Já o historiador francês André Maurois ao refletir sobre Henrique VIII no livro A História da Inglaterra. era impossível o aporte físico do Rei passar despercebido. aliviando também possíveis dores de cabeças. culto. Tanto o é que seu lema foi “Ser útil em tudo o que eu fizer” 52. cortesãos experimentados sabiam que juntamente com seus explosivos acessos de raiva o rei Henrique também tinha uma enganadora capacidade de dedicar um tratamento polido àqueles que estava prestes a destruir (. no entanto. p. requintada. Henrique passou a usar óculos para ler.53 Juntando os problemas físicos e as variações de humor. foi pautada em desejos e paixões. André. A autora assinala que por sugestão da Rainha.26 quando Henrique encontrava-se fora da corte. E por mais que ele ainda se recuperasse de algumas doenças era evidente que sua morte se aproximava. Por conta desses inúmeros problemas com os quais vivia Em público.no período em que este era ligado diretamente ao masculino. pp.).241 53 . Além disso. ele tinha conhecimentos de teologia. Por fim. a magnificência.. magnífico e muitas vezes cruel. o humor do rei continuava a variar: ele fez uma visita à rainha quando ela ficou doente e tratou-a com muita gentileza. o que de fato ocorreu em 28 de janeiro de 1547. do sobrepeso. sua libertinagem é sempre conjugal. p.isto é. Por conta desses elementos é que diferentes humanistas. 54 Ao assumir o trono inglês em 1509 com 18 anos. 513-514 54 MAUROIS. mas ao mesmo tempo pela impossibilidade de o Rei arcar com suas culpas ou erros. a sua cultura. teológica e desportiva. mas à inglesa. pois era a personificação do poder. A figura de regente passou a ser exercida com mais afinco a partir do freqüente adoecimento do Rei. e suas esposas. entre eles 52 Ibid. Diante desses fatos fica claro que o corpo do Rei era muito importante. o cansaço e sofrimento eram os elementos mais visíveis no Rei de meia idade em 1546. Op cit. a crueldade legalmente irrepreensível.

fundou uma escola de pilotos. as duas 55 56 MAUROIS. mas amedrontados com as possíveis represálias todo o conselho Privado votou a favor do Rei no processo. Contudo. destaca Maurois.27 Erasmo de Rotterdam e Thomas More.118 . Já o historiador também inglês. André. anexou o país de Gales. construiu arsenais. Nem mesmo os conselheiros do monarca conseguiam concordar diante da situação. seus conselheiros buscavam em diferentes instituições e com diferentes teólogos a resposta que o Rei desejava. O cardeal também possibilitou a junção da competência clerical à autoridade civil num mesmo homem que detinha. A questão essencial de seu reinado era a manutenção da paz através da substituição de um rei por seu filho homem. Perry. Segundo o autor. Op cit. Motivo pelo qual. p. p. anulando dessa forma o primeiro casamento com Catarina de Aragão. é difícil reprimir um sentimento de horror. 253 ANDERSON. Tendo em vista que isso não ocorreu. nada disso servia se o próprio Papa não desse o divórcio ou a anulação do casamento. Razão pela qual era indispensável que o herdeiro do reino e da dinastia Tudor fosse um menino. porém não era praticável uma mulher exercer a função de detentora do poder real. Cabe ressaltar que havia a tradição de passar o reino por herança feminina.”55 e afirma ainda que esses inúmeros problemas não ocorreram nos demais reinos. teria levado realmente o Rei inglês a romper com a Igreja Católica na tentativa de ao casar-se novamente gerar um filho varão. portanto. acreditavam que a corte inglesa tinha todas as chances de se tornar uma corte humanista pautada nos gostos reais e que tinha como secretário geralpelo menos no início. O autor passa a afirmar que após esse momento cada uma das seis esposas do Rei passou a sofrer com o peso de sua justiça. pois esta não teve um conflito direto com o Papado e quando isso ocorreu a separação entre Estado e Igreja foi mais suave e não interferia no poder civil do Rei.século XII) havia produzido 19 anos de conflitos internos. a solução de Henrique VIII foi romper com o Catolicismo e praticar o Anglicanismo. Maurois acrescenta também que “Quando se estuda o reinado de Henrique VIII. o poder. Debalde nos dizem que reorganizou a frota. apaziguou a Irlanda. Op cit. como o caso da França.o cardeal Wolsey responsável pelo patrocínio à Universidade de Oxford. pois a última Rainha que governara (Matilde. em que o Rei seria a autoridade politica e divina. Diante do impasse que o reino se encontrava acerca da nulidade do primeiro casamento do rei. Perry Anderson destaca que Henrique VIII herdou a Inglaterra com “um Executivo poderoso e um próspero erário”56.

mesmo tendo sido superado por França e Espanha em quesitos de política externa.que foi acentuado com o crescimento de guerras no mar em detrimento das guerras em terra. ainda ter a esperança de se tornar Imperador da Alemanha (típicos desejos da Inglaterra medieval). o reino sofria constantemente mudanças nas suas relações exteriores e não compreendia as modificações pelas quais o mundo passava a ponto de Henrique VIII. Anderson ainda ressalta que os séculos anteriores ao reinado Tudor foram fundamentais para a consolidação da nobreza inglesa nas suas mais variadas posições sociais. fazendo com que o Parlamento assumisse o lugar de um „órgão‟ repressor e mantenedor da situação inglesa conforme o desejo do Rei. mostraremos a representação realizada pela série de televisão The Tudors em paralelo com a representação produzida pelos discurso acima analisado. isso porque o Rei e o Cardeal Wolsey estavam mais preocupados com as relações externas do que as internas.guerras pelo poder inglês e não conflitos internos. Nobres comerciantes que foram indispensáveis para o desenvolvimento do poder naval inglês. em que após observar-se os elementos que contemplam a relação entre audiovisual e História. para Perry Anderson as principais contribuições do governo de Henrique VIII foram a implementação da frota naval.e ao mesmo tempo voltar a violência para aquilo em que ela devia ser usada. com ênfase nas relações comerciais estabelecidas por estes nobres. Tendo em vista que as próprias historiografias inglesa e francesa não apresentam um discurso homogêneo.28 primeiras décadas do segundo rei Tudor mudaram muito pouco a questão da segurança interna da Inglaterra. A política interna teria se modificado especialmente ao que se refere às leis de repressão por traição a figura real. Dessa forma. . bem como o estabelecimento de uma legislação mais efetiva. ainda que no caso desse Rei ela tenha sido utilizada muito em favor das vontades dele. Somente com o impasse matrimonial é que essa situação se inverteria politicamente. que passava a adquirir grande importância nesse momento. contribuindo assim para que a Inglaterra se recolocasse na disputa por poder com Espanha e França possuindo um poderio naval significativo. Com esse exercício de poder. a análise sobre a representação da vida deste monarca continuará sendo analisada no terceiro capítulo dessa monografia. a política interna apresentava um amplo desenvolvimento enquanto que por conta da localização geopolítica da Inglaterra.

bem como representação de uma série de assuntos. Pois diversos assuntos são impostos. um lugar de exibição narcísica”. aliás. o tempo é diminuto e muitas vezes há intervenções políticas no seu regimento (um exemplo disso. 57 possibilita atingir todo mundo. Todavia.” 3. mas que segundo seus críticos serve como “instrumento de manutenção da ordem simbólica”. o tempo gasto com essas temáticas não é desperdiçado na medida em que eles tendem a revelar algo até então oculto diante das câmeras.16-17. que não é dito diante do espectador. mas se faz presente na produção do mesmo.29 3 A TELEVISÃO E A NARRATIVA HISTÓRICA “Com a televisão. p. Um dos principais pontos apresentados pela televisão é sua facilidade em através de uma imagem produzir um efeito de realidade. Isso significa que sua imagem faz-se entender como algo passível de credibilidade. ao produzir programas. novelas.sejam eles noticiários. estamos diante de um instrumento que teoricamente. muito visado por essa mídia. a condição daquilo que deve ser mostrado é imposta (seguindo a regra do que deve constar na informação). Op. Através desse efeito de real é que opiniões e convicções são apresentadas para o público.elemento. Pierre. pp.cit. ideológico e econômico. séries. o regimento da mesma é feito a partir da audiência apresentada.59 Bourdieu ressalta que a televisão muitas vezes usufrui dos assuntos vendáveis. é a regulamentação que o Estado fez na mídia acerca da idade mínima do público que deve assistir ao programa que se segue). Para tanto.18 Idem.58 Embora a televisão represente um acesso democrático para a população ela também está inserida num processo de sutil censura. sexo. ainda que não seja de todo considerado um problema. pois é esta que permite o término e continuidade dos programas.1 O QUE É A TELEVISÃO? Segundo Pierre Bourdieu a ideia principal que a televisão apresenta é que a pessoa que opta por estar diante das câmeras aceita o fato de que está lá para ser vista. o autor afirma que “a tela de televisão se tornou hoje uma espécie de espelho de Narciso. 59 Ibid.que demonstrem sangue. Desta maneira. Afinal através de todo programa apresentado há um discurso político. p. É uma autocensura que muitas vezes não é problematizada ou se quer notada pelo público fiel a este meio de comunicação. violência e dramaticidade. o que gerou uma forma de pensar a 57 BOURDIEU. 20 58 .

60 61 . BURKE. sem ocorrer a problematização dos fatos. Asa. O autor também acredita que a televisão proporciona duas ações muito importantes dentro de uma sociedade: a primeira delas é nivelar por baixo a informação e a segunda é alcançar a maior parte da população. fazendo com que a população só aceite esse tipo de informação e não com qualidade). assim como Asa Briggs e Peter Burke60. p. Curitiba. Depois do cinematógrafo e do rádio. pois é possível perceber se o público recebeu e compreendeu a proposta realizada por um programa específico. ressalta que a televisão como meio de comunicação deve fazer com que todos os seus programas atendam a necessidades básicas do repasse de informação. 2006.62 Contudo. com o alcance em diferentes regiões. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. somente visando à audiência (seria o caso de algum acontecimento importante ser apresentado somente sob o viés escandaloso ou mais dramático. Uma história social da mídia. Maria Luiza Gonçalves. das pessoas envolvidas. porém o grande problema para o sociólogo é quando há uma massificação de uma informação de nível baixo. bem como o desenvolvimento 60 BRIGGS. e se imaginava que novas pesquisas estariam voltadas para a produção e transmissão de imagens. 61 Isso porque já se conhecia diferentes formas de imagem e de som.31 62 Idem. Tese de Doutorado defendida na Universidade Federal do Paraná. era mais ou menos previsível. o que possibilitou a ideia de juntar os dois meios em um só e produzir uma comunicação mais sintética. Departamento de História.30 programação a partir daquilo que é vendável e lucrativo. BARACHO. Isso porque. fazendo com que o mercado seja o legitimador da programação.Peter. A historiadora Maria Luiza Gonçalves Baracho afirma que A invenção da televisão nada mais foi que um dos desdobramentos viáveis dos conhecimentos já adquiridos e das tecnologias que a precederam. Bourdieu. mas que deve ser cuidada delicadamente por exercer diretamente influência sobre determinados grupos. p. fazendo com que fosse necessária a instalação de torres de transmissão. A televisão. a qualidade da imagem e do próprio som diminuía. com o desenvolvimento e diferentes experiências com imagem e som. o que de certa forma é medido nas audiências. portanto. Modernidade em preto e branco: a televisão em Curitiba. A relação entre público e mídia é tão importante que a maior parte dos estudos relacionados com essa temática visa justamente à recepção e a produção dos programas exibidos na televisão. a televisão se tornasse um sistema eletrônico e viável comercialmente. é uma porta para muitos lugares. Permitindo que em 1940. devemos pensar esse meio de comunicação como uma forma de expressão estética e que através de sua extensa programação permite a discussão da qualidade que a televisão apresenta nos dias de hoje. 2007.

permitindo que se entenda a televisão brasileira como uma televisão voltada ao entretenimento e distração.” 64 No caso da TV Globo no Brasil.não atingia a todos.mesmo com essa expansão. Vol. p. a partir de suas próprias maneiras de transmitir a informação ou produzir entretenimento. Sua programação passou a depender “das estratégias de comercialização da televisão”. o desenvolvimento da televisão pode ser pensado passando pelas seguintes etapas: a) local. e diferenciando-se entre as diversas regiões e mecanismos das redes de comunicação de cada lugar para entreter e obter sucesso com os espectadores. Por conta disso. na disputa pela audiência e pela verba publicitária. d) nacional e e) internacional. Criou-se nesse sentido um imaginário de uma população homogênea e idealizada. Abril/Maio/Junho de 2007. com a transmissão internacional passou-se a utilizar o satélite para envio e recepção de imagens e sons. Televisão Brasileira: uma (re) visão. b) regional. a obter seu público e sua audiência pautada na sua categorização de meio de comunicação.65 BARACHO. c) estatal. In: Fênix: Revista de História e Estudos Culturais. bem distante da realidade do país. Dessa forma. Maria Luiza Gonçalves. Baracho também ressalta que como a televisão. N.4 64 . p. também foi indispensável o uso do videoteipe que era inserido ao longo da programação para fazer propaganda em meio à televisão ao vivo. entre tantos outros. O que permitiu que fossem desenvolvidas novas formas e táticas de atender a demanda e de obtenção de público. diferenciando-se dos demais meios de comunicação. 63 Ibid. ela passou. devemos entender como um desses mecanismos de comunicação por ela utilizados. e não como fonte de informação.º 2. esse ganho de público ocorreu quando ela passou a ser dirigida dentro dos termos da indústria da propaganda e não mais como produção artística. o rádio continuava a desempenhar um papel muito forte como meio de comunicação.63 Ressalta-se que a televisão não substituiu o cinema ou o rádio.65 Baracho destaca que a televisão brasileira se consolidou a partir da tentativa de transformar um país desigual em um país igual e unido através da „telinha‟. Ano IV. Nesse momento. quando Pierre Bourdieu afirma que ela produz conteúdo vendável. p.4.3 65 Idem. Futuramente.31 dos cabos para tornar a qualidade da televisão melhor. A historiadora também aponta que “o que estava (e continua) em jogo para todas as redes é a maneira como podem e devem atingir o público telespectador. Normalmente o videoteipe possuía o caráter nacional e era colocado entre a programação local/regional com o intuito de alcançar diferentes pessoas.

Ainda que desde sua origem tivesse em seu perfil a definição de empresa que devia dar informação. seria de se esperar que suas produções fossem ambientadas na Inglaterra. Op. Sherlock. como Sherlock.66 A BBC (British Broadcasting Corporation) foi criada em 1922 voltada para os rádios. consultar os anexos da monografia. também faziam parte da caracterização da televisão britânica e eram conhecidas por sua popularidade.179 68 Informações disponíveis em: http://www.com/lat-am/. 66 Para um breve histórico da origem da televisão. BURKE. Dr. As comédias. 3.32 Por fim. 67 . e em 30 de setembro de 1929 recebeu permissão do império britânico para ter um canal experimental.68 Por ser um canal de televisão britânico. BRIGGS. Isso foi de extrema importância para o desenvolvimento da televisão na sociedade britânica. e em suas aventuras percorre locais e paisagens facilmente relacionáveis à Inglaterra. educação e entretenimento. GRANDES CORPORAÇÕES Já tendo sido apresentado o papel da televisão como meio de criação. cabe destacar que a maior parte das companhias de comunicação que se tornaram as principais fontes de informação no mundo teve origem na rádiofusão. corriqueiramente faz citações sobre a “Londres moderna”. Peter. sem zumbido. cit. Entre elas está a BBC e CBS como veremos a seguir. conhecidas como sitcoms. a televisão na Inglaterra era considerada como controle de status. E podem ser consideradas hoje como grandes corporações que visam o entretenimento e a informação nas mais variadas formas de comunicação. e é responsável por séries como Luther. cabe fazer-se uma breve explicação do surgimento e criação das duas empresas responsáveis pela produção e exibição da série The Tudors ao longo dos anos de 2007 e 2010.bbcentertainment.67 Desde seu início. que passava a reproduzir imagens não mecânicas. Who. O personagem principal (uma revitalização do clássico detetive de Conan Doyle para o século XXI). Foi também na década de 1970 que a unidade da televisão britânica passou a ser conhecida.2 BBC E CBS. assim como são mostradas nos episódios freqüentes amostras de cultura e costumes britânicos e londrinos. como foi o caso da televisão em cores. Asa. entre outros. p. especialmente por sua capacidade de rápida adaptação a mudanças. a empresa britânica BBC e a norte-americana CBS. acesso em 25 de novembro de 2011. com silêncio e claridade. Atualmente a rede de comunicação possui 11 estações de rádio e 12 canais de televisão. situação que foi se modificando ao longo de sua história.

69 Atualmente a rede possui 226 canais em todo o território americano e é responsável por inúmeras séries e sitcoms como How I met Your Mother. além de clássicos como I love Lucy e Star Trek. entre tantos outros. em que os acadêmicos começaram a problematizar a ideia de que filmes. The Bing Bang Theory. Mesmo que posteriormente a série tenha focado muito mais em seu lado de ficção científica.org/wiki/CBS. com inúmeros aspectos sonoros e efeitos visuais. acesso em 25 de novembro de 2011. inicialmente ela possuía mensagens muito mais educacionais de ciências e história britânica e mundial. a CBS (Columbia Broadcasting System) foi criada em 27 de janeiro de 1927 nos Estados Unidos como empresa de rádio e possuía no final do mesmo ano cerca de 16 afiliadas espalhadas pelo país. este “ambiente inglês” assume uma característica ímpar em pelo menos uma das séries da BBC: Doctor Who. uma das mais emblemáticas famílias reais da história britânica. eram produtores de História.cbs. Informações disponíveis em: http://www. . é amigo de (quase) todos os reis e rainhas da história britânica (além do primeiro-ministro Winston Churchill nos episódios ambientados na Segunda Guerra) e declara sem pudores seu fascínio pela humanidade – em especial os britânicos. 70 3.wikipedia. talvez não seja mera coincidência que seja exatamente a BBC que produzirá um seriado sobre a história do início da dinastia Tudor. Por estes motivos. hoje é um símbolo da cultura pop na Inglaterra.com/. hoje também podemos pensar na mídia televisiva e na internet. mas também pelas imagens em movimentos apresentadas em diferentes telas. Criminal Minds. desde 1963 (ano de estréia) Doctor Who mergulha no “ser” britânico.3 RELAÇÃO AUDIOVISUAL E HISTÓRIA O diálogo entre historiadores com as mídias audiovisuais se tornou mais próximo a partir das décadas de 1980 e 1990.33 Todavia. O Doutor adora tomar chás. Independente destes dois “paradigmas” do seriado. em forma de cabine da polícia londrina de 1960. CSI. Somente em 1939 a companhia começou a fazer parte do ramo televisivo e na década de 50 era a maior rede de transmissão. Todavia. acesso em 25 de novembro de 2011. dificilmente o seriado se afasta muito da Inglaterra. tendo como slogan “Da cidade da Televisão em Hollywood”. Enquanto isso. Foram os então chamados historiadores pós-modernos que tentaram entender a 69 70 Informações disponíveis em: http://en. Two and a half Men. Mesmo sendo seu personagem principal um alienígena com mais de 900 anos capaz de atravessar todo o tempo e o espaço com sua nave TARDIS. em pleno século XXI devemos compreender que a experiência audiovisual não é composta só por discurso. Sua própria nave-espacial.

Para 71 72 ROSENSTONE. movidas por um enredo voltado ao público exigente e acostumado com essa nova forma de pensar o mundo. que insiste em um certo tipo de verdade histórica e tende a excluir outras. objeto de estudo de Rosenstone. . Contudo. os historiadores tradicionais consideravam que a verdade sobre o passado é dada através do empirismo do discurso e que portanto. Afinal a intenção de um filme histórico não é de propor verdades literais sobre o passado. devemos pensar que a mídia visual representa uma forma pela qual a História pode ser transmitida. para os estudos de audiovisuais. o cinema. Desse modo. Rosenstone afirma que Como o acadêmico. além de se entender o que é considerado História.” 71 Para o autor. ela é mutável de acordo com a necessidade de exibição dos acontecimentos.19 Idem. “Vemos a história (com H maiúsculo) como um tipo de prática especial. Isso porque. também é indispensável se compreender como o passado é utilizado pelos cineastas. factuais ou ficcionais.34 prática da História nesse século. um historiador do cinema. Dessa maneira. através dos dois maiores meios de transmissão de histórias produzidos já no século XX. Segundo Robert Rosenstone. mas sim criar metáforas sobre aquilo que se pretende dizer. O passado é pensado a partir da reconstrução dos acontecimentos da História através da interpretação do ator e da retomada das características do período. Cabe portanto. as duas tecnologias têm a possibilidade de unir temporalidades distantes. Op.cit. o cinema e a televisão. Razão pela qual a História dos livros nunca corresponderá aos dos meios audiovisuais e vice-versa. p. pelo testemunho dos erros históricos que este filme nos permite compartilhar. pensar que cada audiovisual faz reflexões diferentes sobre um mesmo fato histórico e que não é por utilizarem pontos de vista distintos que eles não devam ser considerados discursos históricos. 35. a partir da década de 1970 começaram a refletir sobre a influência do cinema no conhecimento histórico. o cineasta pode manter um ponto de vista desse tipo apenas por meio do próprio ato de contar o passado: o que quer que a humanidade tenha perdido.agora está redimido pela criação desta obra. 72 Dois historiadores foram fundamentais para que a relação entre História e audiovisual fosse realizada. Os franceses Marc Ferro e Pierre Sorlin. Mas deve-se problematizar o que se entende por história para que a relação com o audiovisual seja passível de conversa. Robert A. p. tem fundamentação para ser considerada verdadeira. considerando que essa forma não segue um padrão. depende do conhecimento do historiador tradicional para que sua narrativa histórica aconteça.diz a mensagem implícita.

Seja na História ou na mídia sempre ocorrem opções por aquilo que será apresentado e de que forma ele deverá ser apresentado ao público. Isso porque normalmente estes esperam ver nos audiovisuais aquilo que está disposto nos livros. segundo ela. os filmes deveriam ser considerados como objetos culturais com características de seu período de produção e como uma contra-análise da sociedade. assim como a História que é formada por vários gêneros. o poético e o metafórico. Dessa forma. e muitas vezes a própria maneira pela qual produtor e diretor compreendem o passado interfere na narrativa que será apresentada. Isso porque. mas sob o ponto de vista ficcional. Ambos são construções distintas e com características diferentes que podem abordar a mesma temática sob diferentes pontos de vista. Os audiovisuais nunca conseguiram transpor as histórias dos livros e nem o contrário. os audiovisuais não são somente fatos. interpretações. os fatos. o discurso do audiovisual é elaborado através dos seguintes elementos: a narrativa. o real. a sinopse que incluía personagens e fatos. Assim sendo. Todavia. o entendimento que . a historiadora norte-americana Natalie Zemon Davis se questionava sobre a possibilidade de existir uma escrita fílmica da história ou entender o filme como narrativa histórica. Anos depois. Em contrapartida. A maior parte dos problemas na análise de audiovisuais surge por conta do posicionamento dos historiadores. Precisa-se pensar antes de tudo que além daquilo que é mostrado nas telas diante do espectador. e por fim.35 Ferro. há uma série de fatores que influenciam a produção de um audiovisual. sem elementos históricos envolvidos. os possíveis julgamentos promovidos pelos filmes. o sentimento vivido pelos personagens e que envolvem o espectador. os personagens. o passado considerado como algo já terminado. os audiovisuais também o são e ambos constroem suas narrativas por meio de discursos que visam fazer com que o passado seja compreensível para o presente. efeitos sonoros e visuais. para a análise de audiovisuais deveriam ser pensados três principais elementos: a gênese do filme. e por fim. Razão pela qual a mídia audiovisual deve ser entendida como uma maneira de comunicação que mescla o literal. são o agrupamento de dramaticidade. para Pierre Sorlin os filmes deviam ser entendidos como encenações do passado. os elementos visuais que recriam o passado de acordo com o ponto de vista da equipe de produção. O audiovisual segue o mesmo modelo da História ao se propor a responder as perguntas do espectador sobre aquilo que este desconhece.

Marc. além de conflitos ao longo da narrativa. Cinema e História.10.htm acesso em 20 de junho de 2011. São Paulo: Paz e Terra.. considerando que este passado é produzido por um olhar do presente. ideológicas. Andrea Paula dos.36 a história é um processo e por isso precisa de início. Assim sendo. pp. a mídia audiovisual passou a tomar o posicionamento de ser o meio pelo qual a população poderia exercer sua consciência social na produção e recepção dos acontecimentos e até mesmo nas formas de entretenimento com que entravam em contato. nos costumes e opiniões. também pensava o filme como uma forma de externar convicções políticas. mas a própria televisão. 74 .com. 2010. Nesse sentido a autora também ressalta que Recuperar a historicidade das questões que envolvem a relação entre narrativas audiovisuais e história é. Por conta disso.74 O historiador francês destaca que nos anos 1990 a imagem sofria uma reviravolta muito significativa.1-2 75 FERRO.br/pesquisa/pesquisatextos/andrea1. um filme não devia ser considerado obra de arte. mas sim uma imagem objeto testemunha do período em que foi produzida. 75 Nesse momento não é somente o filme que é considerado um agente da História. meio e fim. Isso porque até então ela estava por toda parte. no caso dos regimes soviético e nazista durante a Segunda Guerra Mundial em que a mídia foi utilizada como forma de propaganda política para apoiar os regimes políticos em vigor.mnemocine.73 Marc Ferro.. portanto.). Segundo a comunicadora Mônica Almeida Kornis a televisão hoje busca além de retratar o presente se voltar ao passado. segundo Andrea Paula dos Santos. pois mesmo tendo alcançado sucesso era alvo de suspeitas. que procura demonstrar os vários caminhos 73 Ibid. 75-77 SANTOS. Esse controle se tornou até submissão. p. e em seguida procurou elaborar um discurso verdadeiro daquilo que exibia e. pois ambos buscam a conscientização de seu público. pp. (. O audiovisual como documento histórico: questões acerca de seu estudo e produção. passou a ser questionada pelo que deveria ser visto como verdadeiro. bem como seus interesses e preferências. fica evidente que a mídia estabelece uma relação conflituosa com os sistemas que a regem. sociais e culturais de determinados grupos. Disponível em: http://www. afinal há divergência de opiniões e papéis hierárquicos que influenciam a exibição dos pontos de vista. Para ele. Evidenciando especialmente que o Estado e suas diferentes instâncias procuravam monopolizar o discurso sobre a sociedade e controlá-lo na medida do possível (é só pensarmos no caso da BBC na Inglaterra ou nas leis federais que regulamentam os meios de comunicação).

o conjunto desses elementos pode ser utilizado para qualificar um audiovisual como bom ou ruim. reforçando o emocional do público. a própria interpretação dos atores. exatidão de detalhes. os objetos de preenchimento de tela. cinema e televisão. surtindo diferentes emoções que são indispensáveis para o acompanhamento da narrativa. ao longo de todo esse tempo. Natalie Zemon Davis destacou que a análise do audiovisual era prevista através do conhecimento sobre o contexto do passado. Essa perspectiva destaca como a linguagem audiovisual. Para Davis. Portanto. busca-se ao menos uma referência ao modelo que devia ser feito no período representado. historiadores e cientistas sociais e marcado por visões diferenciadas de história.10 . as interpretações são coerentes com a temática abordada. como citado no subtítulo anterior. que muitas vezes imersos num fato específico da história apresentam indivíduos no centro de processos históricos. em que os efeitos visuais e sonoros contribuem para despertar o sentimento e o reconhecimento do espectador naquilo que ele vê. mas pensam a verdade histórica de forma metafórica. p. Mônica Almeida. Op. a maior parte das obras consideradas boas são aquelas que apresentam os fatos. 3. Seja a trilha sonora. cit. críticos de linguagem audiovisual. para que se possa realizar a análise histórica de um audiovisual é imprescindível que se entendam quais são as concepções de passado que envolvem as duas áreas propostas. Até mesmo a linearidade da narrativa munida de valor moral ajuda para o envolvimento do espectador. alterações.37 trilhados por um debate freqüentado por realizadores de cinema e televisão. diálogos (a 76 KORNIS. permitindo a eles uma releitura dessas práticas buscando uma verossimilhança. deslocamentos (temporal ou espacial). a História e o audiovisual. mas ao próprio fato de que os atores não sabem como seus personagens agiam ou se portavam na sociedade. são relativos à verossimilhança em tudo aquilo que compõe o filme. construiu formas de representação e de reconstrução do passado em contextos históricos diversos e 76 segundo diferentes concepções estéticas. Robert Rosenstone enfatiza que a análise de um audiovisual deve passar pelos seguintes elementos: compreensão e condensação (as adaptações de personagens ou fatos que possam melhorar a narrativa). não somente nos elementos externos a interpretação. Os possíveis julgamentos presentes nos filmes.4 ELEMENTOS PARA ANÁLISE O modelo padrão para um audiovisual é aquele carregado por características melodramáticas. mesmo que fosse necessário inventar movimentos.

subentendendo-se então. A autora também ressalta que a verossimilhança produzida pelas fontes audiovisuais ao se pensar temáticas históricas são produzidas a partir de elementos muitos técnicos da produção audiovisual.78 Para Ferro o filme deve ser considerado como um agente da história. iluminação. considerando a influência da crítica e a reação do público segunda idade. b) o contexto social e político da produção. equipe de produção. assim como a própria indústria do cinema. 77 ROSENSTONE. entre outros. Op cit. das seqüências de cenas. e uma ideia falsa de que o espectador é quem tem controle sobre aquilo que ele próprio vê. efeitos permitidos pelo uso da montagem. o que ele entendia como uma contra-análise da sociedade. 80 Mostra-se presente. 26. personagens (as interpretações feitas pelos atores a partir da pesquisa realizada sobre a personalidade que vão representar) e por fim. público. p. Mônica Kornis ressalta que os historiadores ingleses Anthony Aldgate e Jeffrey Richards também passaram a se preocupar com a análise de produtos audiovisuais. principalmente por revelar as realidades políticas e sociais do período em que foi produzido. direção. e c) a recepção do filme. que os historiadores que iniciavam seus estudos acerca dos audiovisuais ainda estavam ligados com a metodologia de análise de fontes históricas que pressupõem a problematização do conteúdo e dos elementos que a constituem. p. era indispensável que as condições dessa produção fossem/sejam analisadas. cenário.uso de campo/contra campo da câmera.64-65 SANTOS. discurso. através do estudo e crítica das mesmas. 80 Idem.indicando diferentes pontos de vista-. Seriam eles: a mudança de tempo e espaço.77 Já para o historiador Marc Ferro a análise deve ser pautada nos seguintes elementos: narrativa. pp. Op cit.38 maneira pela qual as ideias dos personagens são apresentadas). além do controle das emoções que permitem o envolvimento do público com o objeto visto. enquadramento e uso de diferentes ângulos. pensando que os elementos a serem problematizados seriam: a) os elementos que compõem o conteúdo. desse modo. classe e universo de preocupações. como roteiro. período de produção. fotografia. sexo. p.37 78 . o drama (a maneira pela qual a narrativa foi proposta para que o público acompanhe e se envolva com aquilo que ele vê).79 Para tanto. crítica.2 79 KORNIS. música e atuação dos atores. aproximação ou distanciamento-. Pois dessa forma além de se entender o objeto é possível entender a realidade histórica que ele apresenta. Op cit.

o conteúdo implícito (aquilo que deve ser visto) e o conteúdo inconsciente (é o que ultrapassa a intenção do diretor e da produção). Logo se precisa conhecer para poder questionar. isso indica que através dos padrões culturais é possível se pensar no reforço que o audiovisual produz sobre a formação do imaginário popular acerca da História. a segunda a de transcrição fílmica. ainda que ele possua uma tensão estabelecida pela sociedade em que se inclui. em que se busca a veracidade da produção. Já em relação ao próprio filme deve-se notar seu conteúdo objetivo (roteiro). pois assim como a historiadora Cristiane Nova afirma um filme só responde ao que for questionado. Metodologia para análise de estereótipos em filmes históricos. Nº 5.39 O clássico autor Ernst Gombrich é citado no artigo de Johnni Langer ao afirmar que “todo artista visual é condicionado em seu trabalho por padrões culturais de fundo inconsciente que acabam por interferir mesmo em seu estilo artístico”81. as diferentes versões que se apresentam. E para analisar estes filmes além do que já foi dito acima. SÃO PAULO. É imprescindível perceber que todos os filmes possuem uma ideologia e que na maior parte das vezes é mais fácil notá-la durante a execução do filme. a terceira de estilo novelesco. a forma estética como foi produzido e a forma como foi divulgado. ele considera o cinema como uma testemunha de seu tempo. possuindo conhecimento bibliográfico sobre o assunto a ser tratado. Para Langer. os profissionais que estiveram envolvidos no decorrer do filme.2 . In: REVISTA HISTÓRIA HOJE. não há muita historicidade no filme. Em artigo de Eduardo Victorio Morettin. Ao longo de seu artigo Langer defende que todo e qualquer filme histórico é definido por conter em sua narrativa conteúdos que se remetam a fatos históricos. p. Johnni. em que se relacionam diferentes temas por possuírem assuntos em comum. que é a reprodução de um discurso já elaborado. ao analisar as obras de Ferro. apenas personagens históricos. do que pela entrevista com a produção envolvida. 2004. período e contexto. e a quarta de estrutura histórica. A primeira vem do positivismo. as alterações realizadas por órgãos que não a produção. e que nem mesmo a censura pode dominá-lo. Um filme desta forma acaba por possuir duas funções básicas: a de trazer informações complementares sobre o tema e de demonstrar como era um pensamento ou uma 81 LANGER. É essencial na análise que se destaque o conteúdo do filme e em menor importância os aspectos estéticos e comerciais. Para a produção de um filme histórico Morettin acredita haver quatro formas de apresentação. Quanto ao conteúdo externo ao filme deve-se observar qual o período cronológico de produção da obra. se precisa escolher tema.

Messa também problematiza a forma de exibição dessas séries. observando com cuidado. A série. Em nossa pesquisa pensamos como contexto de produção os elementos formadores das sociedades norte-americana.pdf acesso em 20 de junho de 2011. 3. UNIrevista. teria como características fundamentais a continuidade narrativa. irlandesa e inglesa. canadense.os sitcoms. vol. questão que passa despercebida pela autora. n. bem como entender a repercussão atingida por esses meios de comunicação em um contexto tão diferente do norte. segundo a autora. A autora inicia seu artigo ressaltando que no século XXI a televisão possui como função essencial informar e produzir emoções em seu espectador.1.americano. Márcia Messa ao longo do artigo define série como um gênero televisivo de entretenimento e simultaneamente um programa com linha dramática mais desenvolvida que programas voltados ao humor a partir de situações cotidianas. ao mesmo tempo em que o contexto de exibição pensado neste caso faz referência ao contexto brasileiro. Márcia Rejane. tenta suprir essa lacuna bibliográfica nos estudos de séries estrangeiras no Brasil.especialmente o brasileiro.40 idéia da época. Em contrapartida. Portanto. levantamos em nossa pesquisa que nos dias de hoje há uma significativa parcela do público que ao ter acesso à internet faz downloads das séries e qualifica o espectador de uma maneira um pouco mais abrangente. o que já indicaria uma discrepância e ao mesmo tempo uma seleção do público que as vê. Ao pensarmos sobre o status de sitcoms e de séries estrangeiras devemos tomar como elemento norteador a diferença primordial entre contexto de produção e de exibição. Destacamos também nesse sentido o 82 MESSA. . Disponível em: http://www. E para tanto o artigo da mestre em Comunicação Márcia Rejane Messa.alaic.5 O QUE A SÉRIE CONTEMPLA? Para este trabalho é indispensável se pensar as características e elementos formadores de séries televisivas estrangeiras. as características que são pertinentes a somente um dos meios de comunicação. Nesse sentido. pois a maior parte delas é feita por canais da televisão fechada (cabo). o latino americano. podemos considerar os elementos de análise cinematográfica como um referencial para a análise de séries.3: julho 2006. episódios de 40 a 45 minutos sem intervalos comerciais e uma aproximação direta com o discurso cinematográfico ao utilizar cineastas nas direções de alguns episódios. A cultura desconectada: sitcoms e séries norte-americanas no contexto brasileiro82.net/ponencias/UNIrev_Messa. A dissertação de mestrado de Messa é intitulada “As mulheres só querem ser salvas: Sex and the City e o Pós-feminismo” (2006) e deu origem ao presente artigo. A cultura desconectada: sitcoms e séries norte-americanas no contexto brasileiro. devemos pensar que ainda que essa separação apontada pela autora ocorra.

Filhos do Carnaval. e no segundo de mulheres suburbanas e suas relações com a vizinhança. com identidades e valores muitos diversificados entre si. Alice. contribuem para estabelecer regras de comportamento. As principais produções latino americanas do canal elaboradas nos últimos anos foram Mandrake. Two and a half men. Capadocia. Friends. uma produção muito bem elaborada e altos custos. mas onde a realidade passa a ser relativa. pois este possibilita que produções latino-americanas cheguem ao público diferenciando-se da estrutura narrativa e mercadológica de telenovelas. Epitafios. Também procuraremos problematizar a série estudada como produto de uma sociedade específica e formada por elementos muitos característicos das . Tendo em vista a importância da continuidade narrativa. Para a autora. tendo como base sua subjetividade. Messa lembra que nesses meios de comunicação é indispensável o acompanhamento do enredo e que ao depender desse elemento já se estabelece o envolvimento do espectador com aquilo que ele vê.41 caráter de grandes produções que a série adquire ao possuir grandes sets de filmagens. é que buscaremos entender os diferentes contextos que envolvem nossa fonte. bem como intervir na identidade dos indivíduos. entre outras. o papel do canal fechado HBO é fundamental. até com sitcoms como How I met Your mother. papel diferente do exercido pelo canal no início de sua exibição. as séries através dos fatores mercadológicos. Messa ressalta que esse prazer vivido pelo público ocorre especialmente devido ao mundo ficcional representar momentos e personagens que parecem reais. como aponta a comunicadora. Para tanto. Ao considerarmos os aspectos apontados pela autora para a análise de séries estrangeiras. que através do humor mostram situações dos cotidianos de adultos com suas relações e emprego. bem como a importância que ela possui ao representar o século XVI e uma dinastia forte para Inglaterra. pois cada sujeito tem uma percepção sobre aquilo que vê. Isso é exacerbado ao percebermos a continuidade estabelecida pela narrativa que acaba por reforçar ou questionar os valores de uma sociedade. como informa a autora. Devemos pensar também. em pleno século XXI ao alcance de diferentes grupos. A autora encerra seu artigo recordando que apesar da resistência dos canais nacionais em absorverem o modelo norte-americano de séries. no primeiro caso de médicos e problemas dentro de seu ambiente de trabalho. Podemos exemplificar isso com séries como Grey‟s Anatomy e Deseperate Housewifes que dramatizam a vida cotidiana. que o envolvimento do público ocorre quanto este sente prazer ao longo da narrativa por identificar-se com situações ou elementos apresentados pela série. fato que deve ser levado em consideração ao estudar-se uma série estrangeira num contexto diferente.

pois são eles que problematizam os conteúdos ou assuntos tratados em séries como a estudada nessa pesquisa. que como destacados por Messa se diferenciam das telenovelas ou séries brasileiras.42 séries estrangeiras. Assim sendo. É fundamental compreender o discurso e os modelos presentes nas séries estrangeiras. se faz indispensável entender a importância do discurso televisivo ao se pensar o alcance que este meio possui dentro de diversas sociedades. .

” 83 4. somente quando ocorrem os closes – focos . 83 Texto apresentado na abertura dos episódios da série.nos rostos dos personagens e percebemos que houve a necessidade de usar a iluminação de forma mais efetiva para transpor o objetivo dos diretores na expressão dos atores. Isso porque em ambientes fechados. precisa voltar ao começo. mostra as personagens do tronco para cima evidenciando. portanto. A Imagem. dessa maneira. contribuindo para uma rápida identificação de quem é visto. a iluminação é bem restrita. AUMONT.faz parte da cena. Para chegar ao coração da história.84 Outro elemento muito claro é a tentativa de mostrar uma verossimilhança em relação à luminosidade do ambiente que a cena está sendo gravada. É uma forma de fazer o espectador se identificar e se relacionar com aquilo que ele vê. Dificilmente há uma música colocada sobre a cena como é freqüente em filmes. 219-220 85 Idem. ou seja. Campinas: Papirus. Quanto ao foco no rosto das personagens é perceptível a preocupação dos diretores e da produção em sempre destacá-los e iluminá-los. e. 1995.43 4 A FABRICAÇÃO DO REI: ANÁLISE DA SÉRIE THE TUDORS “Você pensa conhecer uma história. Entendemos que através do artifício do uso de candelabros e velas em cena –objetos que eram utilizados como fonte de iluminação no período retratadoalém de buscar a verossimilhança com o passado que está sendo representado também contribui para melhorar a imagem que está sendo vista. 252-253 84 . Jacques. pois grande parte das cenas utiliza o plano americano. A maior parte do som produzido pela série é de caráter diegético . Porém o uso de iluminação artificial se mostra evidente.1 ANÁLISE GERAL DA SÉRIE Antes de começar a análise da representação de Henrique VIII ao longo das temporadas compete destacar alguns elementos que são constantes em toda a série. mas sabe apenas como ela acaba. a maioria dos sons é dos próprios diálogos ou das freqüentes festas e artistas em atividade mostrados nas cenas. É recorrente o uso dessa técnica para evidenciar as emoções das personagens e ao mesmo tempo fazer com que o público se concentre nas reações delas. o rosto do personagem. transmitida. o que faz com a imagem seja escura aos olhos dos espectadores.85 Também se deve pensar acerca da sonoplastia. ele não foi inserido depois -. por exemplo. pp. Evidentemente que no processo de edição dos episódios houve a utilização de filtros para melhorar a qualidade da imagem. O primeiro deles seria sobre a imagem que é mostrada para o público. pp.

fisicamente bonito e com uma capacidade excepcional de interpretar um Rei tão diferente dos demais papéis feitos por ele. Através desse artifício há uma dinâmica naquilo que está sendo mostrado. Campinas: Papirus.44 todos os sons são da própria cena e por conta disso. retirando. Razão pela qual cobrava de todos os atores envolvidos o máximo da interpretação de cada um. Há evidentemente alguns aspectos ficcionais na série. tristezas e revoltas fossem entendidas pelo público. Márcia. violento. Op. juntamente com a pessoa que está lendo ou durante a escrita daquilo que é lido. sanguinário. 89 Ele aponta que seu objetivo na realização da série era de eliminar estereótipos tão conhecidos dessa monarquia. e esta cena tinha que demonstrar toda a emoção e sentimento para a história que seria narrada. em que durante essa leitura são mostradas cenas intercaladas dos envolvidos naquilo que é lido. Michel. ele deve ser relacionado com o texto e interpretado.88 Devemos pensar também na intenção de Michael Hirst ao produzir essa série. o que permite criar uma tensão e uma expectativa no telespectador naquilo que será mostrado adiante. é possível pensarmos que assim como a iluminação. quando isso ocorre no final das temporadas. 2003. ou meses depois. era indispensável mudar a ideia desse Rei estigmatizado. houve ao longo da edição o uso de filtros para que aquilo que devesse ser ouvido fosse colocado em destaque. muitas vezes na semana seguinte somente. dessa maneira. p. ainda que tenha sido necessário um condensamento de informações para que a narrativa tivesse mais velocidade e estabelecesse a relação com o público a partir das emoções que ela transmite. Em relação ao enredo elaborado pela série. especialmente se recordamos a afirmação de Bourdieu. 87 . sejam eles cartas de amor ou declarações de morte. 88 BOURDIEU.cit. em que a televisão também pressupõe comercialização daquilo que ela mostra. Jacques. Hirst queria contrapor a imagem que temos de Henrique VIII gordo. tirano e um glutão. MARIE.77 MESSA. O produtor queria que as emoções do Rei fossem vistas. um som não-diegético utilizado é quando há a leitura de algum documento.cit. Ao trazer um ator jovem. que suas alegrias. Pierre. pois dessa maneira ele está vendo as personagens e sabe através do que é lido/dito aquilo que vai ocorrer com elas. Para ele. Há a intenção de se criar uma tensão para o espectador. seja de forma positiva ou negativa. Op. seguem-se os acontecimentos históricos da Inglaterra e da vida de Henrique VIII. chiados ou sons que atrapalhariam a emoção ou o próprio objetivo da cena a ser vista. 86 AUMONT. pois qualquer cena gravada podia ser utilizada para a série. pois além de ser visto. 86 Em contrapartida. 89 A entrevista foi concedida para o Box da 1. assim como Márcia Messa ressaltou 87. Esse elemento ocorre com freqüência nos minutos finais dos episódios. Dicionário teórico e crítico de cinema.ª temporada da série.

de jovialidade. Diante disso ele considerava-se imbatível. O que é conflitante quando ao cair em um lamaçal. pois ele é mostrado jogando uma espécie de tênis junto ao seu melhor amigo Charles Brandon. A prática da sangria era realizada no intuito de que eles forem liberados do corpo do doente. vigoroso e inteligente. 4. por não ter se machucado após a queda do cavalo em um torneio de justa realizado em seu reino (IMAGEM 1). ou mesmo um garanhão. sendo necessário que seus médicos o sangrassem para aliviar os humores. se declarando um jovem leão. um reforço de sexualidade. No primeiro episódio da série já temos um panorama das características do rei. 91 .2 PRIMEIRA TEMPORADA A primeira temporada da série90 tem como enredo central os eventos que ocorreram entre os anos de 1518 e 1530 no reinado Tudor. a primeira de muitas febres que viriam. Ao mesmo tempo em que seus conselheiros já demonstram que a vontade do Rei deve ser realizada independente de qual seja a melhor solução para o reino. bem como ter uma boa alimentação e praticar exercícios. atleta. danças e estar sempre vestido com cores vibrantes. ele se adoenta e fica febril. Nesta temporada a representação de Henrique VIII se dá através da relação dele com práticas de esportes. o que resultaria no mal estar do rei com sua esposa Catarina de Aragão e posteriormente seu divórcio e o casamento com Ana Bolena. fazendo alusão à fertilidade dos cavalos. 90 Foi exibida ao longo de 2007 pelo canal People &Arts no Brasil e possui 10 episódios. pois uma das primeiras cenas evidencia a ânsia de guerras que ele possuía no intuito de ser um conquistador e se mostrar corajoso e valente diante de seus súditos. e principalmente fazer isso baseado em fatos históricos. Em seguida. nos quais os principais temas trabalhados foram as transações internacionais e a necessidade de um filho varão para o reino de Inglaterra. instintivo. bem como cortejando muitas mulheres. podemos conferir a representação atlética e jovem do rei.45 para um monarca viril. pois supostamente essas práticas evitavam doenças.91 O rei possuía uma preocupação recorrente com sua saúde a ponto de ter uma “farmácia” particular. Os humores eram considerados as causas de todas as enfermidades da época. em referência ao símbolo de sua dinastia.

A escuridão da cena também possibilita que vejamos o início do lado sombrio e melancólico de Henrique VIII. retornando a ideia de uso de velas e candelabros em cena e buscando uma verossimilhança de imagem. Ele alucina com a morte e teme morrer sem deixar nem um herdeiro capaz de assumir o trono (IMAGEM 2). VIGARELLO.1. Nesta passagem. revela-se um Henrique melancólico e pessimista em relação ao futuro de seu reinado. ao ocorrer uma “epidemia de suor” ele acredita que isto seja um castigo divino por ter se casado com a esposa de seu falecido irmão. 00:19:26. Podemos notar como mostra a imagem abaixo. Primeiro porque o Rei sempre estava preocupado com seus descendentes. caso morresse.cit. segundo porque relacionar a morte com a figura real era traição.46 (IMAGEM 1) 92 Vale lembrar que quando alguém próximo a ele se adoentava ou morria o monarca passava a pensar na morte. Sobre a morte há uma relação dúbia neste período.ª temporada. Como exemplo. . 92 93 Episódio 1: In Cold Blood. Georges. ao mesmo tempo em que devemos levar em consideração a questão trabalhada anteriormente sobre o corpo físico e político do rei. a pouca iluminação. Todavia. em que o primeiro deixa de existir e o segundo persiste no poder.93 A série preocupa-se também por outro lado em mostrar a instabilidade emocional de Henrique. essa imagem é abandonada quando a epidemia é controlada e ele retorna para as festividades e eventos. Op.

enquanto o rei reforça que ela é sua esposa e somente isso. Eles discutem sobre questões humanistas e sobre as questões históricas do reino inglês.cit 95 . Op. Isso porque ela constantemente afirma ser filha de seus pais. o que nos permite perceber que a relação representada é de um aluno e professor. tendo em vista que Henrique anseia pelos conselhos e sugestões de More.95 No primeiro episódio também se mostra o conflito do Rei com a Rainha Catarina de Aragão. passará a confrontar a autoridade eclesiástica.ª temporada. Os historiadores André Maurois e Antonia Fraser abordam rapidamente essa relação. Isabel de Castela e Fernando de Aragão. Catarina foi educada para ser Rainha em ações. razão pela qual ela sempre se envolve politicamente nas questões inglesas. sendo nomeado pelo Papa o Defensor da Fé. Antonia. em que o Rei seria o aluno e More o professor. 00:33:39. É interessante pensar que anteriormente a este processo Henrique tinha a obstinação de salvar a fé católica dos hereges. para o crescimento artístico e cultural da Inglaterra.47 (IMAGEM 2) 94 Também vemos a relação que Henrique estabelece com seu amigo Thomas More. Na historiografia inglesa e francesa entende-se que o rompimento com a Igreja Católica se deu por conta de Henrique desejar casar com Ana Bolena96. eles entrarão em conflito à medida que o advogado defenderá a heterodoxia católica enquanto o Rei. enquanto na série nos é mostrado que o desejo por um novo casamento é muito mais em relação ao fato de ele 94 Episódio 7: Message to the Emperor. 96 FRASER. mas destacando a característica humanista de ambos. Por ser filha dos dois principais monarcas católicos do período. o principal conflito entre os dois é o não nascimento de um filho homem para se tornar herdeiro e futuro rei da Inglaterra. Todavia. por desejar a anulação de seu casamento. 1. Contudo.

ele pretendia evidenciar o quanto a Inglaterra e ele eram poderosos. Essa situação será freqüente ao longo de seu reinado e evidenciada na série. em que ele culpava seus conselheiros. e no segundo caso ao Cardeal Wolsey. Neste caso podemos exemplificar através das questões políticas que não ocorriam bem. Por exemplo. na tentativa de mostrar-se um monarca superior aos demais. que ao ter acesso as economias e documentos reais. Outro elemento revelado é a constante competição entre Henrique VIII e Francisco I de França. ao desejar uma frota marítima maior do que qualquer outra. Contudo. secretário do rei. que nos primeiros episódios já nos mostram um Rei de gênio forte e incapaz de receber um não. pois somente sua postura é impecável e todos os outros monarcas representariam papéis e não sua honra e compromisso. Henrique VIII sempre passa a buscar outras alianças. o seriado também revela um Henrique intempestuoso. pois o Rei constantemente faz e desfaz alianças de acordo com a sua vontade. 99 No primeiro caso se refere ao Lorde Buckingham que afirmava ter mais direitos ao trono do que o rei. em que ele clama por justiça enquanto ela implora que o tribunal seja enviado para Roma. bem como com Rei Francisco I. (IMAGEM 3) 97 Carlos V era sobrinho de Catarina de Aragão. pois além de culpar os outros pelos seus erros98. razão pela qual ele tentará aliança com o Imperador do Sacro-Império Romano. E ao ter sua vaidade e orgulho feridos. afirmando. independente de quem fosse a esposa na busca por um filho homem. mas não com a Rainha.48 desejar ter um filho homem do que casar com a Lady. passa a ser tornar um homem perigoso. Ela também se ajoelha diante do Rei pedindo que ele ouça sua consciência e se retira do tribunal com a aclamação do povo. Percebemos que Henrique casaria novamente. atitude que será vista ao longo de seus outros casamentos. 100 Novamente citamos Antonia Fraser e André Maurois. Com semelhança do estereótipo criado pela historiografia100. Percebemos. portanto. afinal possuía um menino com sua amante. ou no caso de não possuir um herdeiro legítimo. enquanto Henrique se retira irado com tamanha ousadia. reis muito jovens que disputavam para saber quem era o maior e melhor monarca do momento. passou a desviá-los em favor próprio. Podemos exemplificar a atitude do Rei quando o tribunal eclesiástico se reúne para ouvir o depoimento dele e da Rainha. O próprio ato de presentear-se revela o quanto eles competiam para dar o presente mais suntuoso e mais chamativo. que ele não pode confiar em mais ninguém além de si próprio. ele também não aceitava que os outros aparentassem ter mais poderes ou mais status que ele99. Carlos V97. 98 . Ao ser questionado ele demonstra ser um monarca colérico e intolerante. por exemplo.

49

(IMAGEM 3) 101

Porém, a série também mostra o bom humor do Rei ao possuir um novo amor, Ana
Bolena. Henrique se mostra contente e romântico, eles escrevem cartas românticas um para o
outro, o que faz com que ela sabendo das pretensões do Rei em se divorciar de Catarina de
Aragão comece a sugerir um novo casamento, com alguém que pudesse de fato lhe dar um
filho varão. Ressaltamos que a visão de amor presente na relação de Henrique VIII e Ana
Bolena é romântica, pois é movida por poemas, paisagens campestres e cores vivas e ele até
compõe músicas para ela.102 (IMAGEM 4)

(IMAGEM 4) 103
101

Episódio 8: Truth anda Justice, 1.ª temporada, 00:52:19.
FRASER, Antonia. Op. cit. pp.176- 177
103
Episódio 10: The death of Wolsey, 1.ª temporada, 00:20:27. Podemos perceber que ao compararmos as
Imagens 3 e 4 há uma diferença evidente ao que consta a iluminação das mesmas. A Imagem 3 ao representar
102

50

O último episódio da primeira temporada já revela as mudanças que estão por vir
para a história da dinastia Tudor. O Rei se reúne com o Conselho Privado e faz dos Lordes
Nolfork e Suffolk presidentes do mesmo. Ele começa por influência de Ana Bolena a realizar
leituras protestantes e passa a se confortar com elas. Isso também faz com que o Rei pense em
reformar a Igreja, mas não nos moldes luteranos. Ao mesmo tempo, Thomas More reforça as
investigações e prisões aos protestantes, a ponto de convocar o Padre Fish sobre suas crenças,
para depois queimá-lo como exemplo aos demais.
Tendo em vista esses elementos, podemos perceber que já na primeira temporada há
ênfase na necessidade de agradar e elogiar o monarca, fazendo suas vontades e evidenciando a
sua grandiosidade. Ainda assim, ele é cercado por práticas que despertam paixão e alegria
nele, como caçar, dançar e cortejar damas. Também podemos notar que a vida no período
representado estava pautada na corte, especialmente porque o campo tinha uma conotação
ruim, como por exemplo, doenças e até o desagrado ao monarca eram „punidos‟ com a ida ao
campo. Além disso, nos é mostrado o quanto o casamento é cercado por caráter político e que
sempre haverá alguém para ascender com ele. Isso é evidente na relação de Henrique com
Ana Bolena, em que mesmo apaixonados, a família dela ascende ao poder.

4.3 SEGUNDA TEMPORADA
A segunda temporada104 voltou-se aos anos de 1531 a 1536, enfatizando o
rompimento com a Igreja Católica e a criação da Igreja Anglicana. Nesta temporada Henrique
se divorcia, bem como se casa com Ana Bolena que será decapitada por traição e pela
incapacidade de gerar um filho homem para o reino. No início dessa temporada já há uma
alteração na parte visual do rei, pois este, assim como o espaço, é apresentado com cores mais
escuras e o seu temperamento se modifica. Há reações violentas e explosões de humor, e há
menos referências aos esportes, às práticas de cortesania, e ainda que a sexualidade do rei
continue sendo reforçada.
O seriado começa a demonstrar um Rei já com mais de 40 anos, desgaste físico, uma
rigidez acentuada, menos virilidade, mais sombrio- seja nas vestimentas ou ações-, mais
insatisfeito e destemperado. Muito disso por conta da não resolução do seu divórcio que já
durava cerca de 6 anos. Tanto que neste momento diante da impossibilidade de uma
resolução, o Parlamento em Westminster julga os bispos por serem contra a vontade do Rei e
um momento difícil na vida do Rei, utiliza cores frias (como branco e azul) para expressar o sentimento,
enquanto que na Imagem 4 é justamente o oposto, pois utiliza-se cores quentes (como o amarelo) para dar uma
sensação de acolhimento e de alegria para o que é mostrado. Isso ocorre constantemente ao longo do seriado.
104
Exibida no ano de 2008 também pelo People & Arts e possui 10 episódios.

51

iniciam uma série de discussões sobre a Igreja Anglicana. Com medo, alguns bispos aceitam
que Henrique seja declarado Chefe Supremo da Inglaterra e do Clero inglês.
Nesta temporada o Rei, já mais velho, vai assumindo a postura de um homem de
meia idade, pois se veste com roupas mais sóbrias e deixa barba e bigode crescerem. Ele
decide que todos devem aceitar e realizar o juramento de sucessão, sem exceções como
Thomas More. Em relação a este, Henrique afirma para o chanceler Thomas Cromwell que
More quebrou sua promessa de se manter fiel a ele. (IMAGEM 5)

(IMAGEM 5) 105

A série também mostra o parlamento inglês criando o Ato de Sucessão afirmando
que o casamento e os herdeiros dele são legítimos e qualquer espécie de contestação disso, a
pessoa seria presa por traição. Bem como, era necessário que todos reconhecessem o Rei
como Chefe Absoluto da Igreja Anglicana, evidenciando a irredutibilidade do monarca com o
cumprimento de suas vontades.
Enquanto isso, o Rei continua mostrando devoção a Ana, enquanto ela reforça a
autoridade dele apontando que ele está acima das leis e da Igreja e deve fazer o que bem
entender. Ante esses fatos Henrique começa a preparar os aposentos da Torre para a coroação
da nova Rainha. Visualmente a presença de Ana faz da corte um ambiente mais alegre,
divertido e colorido, ao passo que ela o acompanha em suas atividades. Seu amor por Ana
torna-se compulsivo e possessivo, a ponto dele se enfurecer com qualquer menção de que ela
apresente má postura na corte.
105

Episódio 1: Everything is beautiful, 2.ª temporada, 00:08:01.

além de presenteá-la com as jóias da Coroa. há uma constante instabilidade do relacionamento entre os monarcas. A resposta a essa atitude dele é quando Ana diz para seus cortesãos que o Rei não a satisfaz e não tem virilidade para isso. Ela age sobre suas próprias vontades e decide que já pode conceber uma criança para ser herdeira do trono de Inglaterra. o que é evidenciado com a gravidez dela.52 Mostrando sua devoção e amor. fazendo com que o Rei se mostrasse mais insatisfeito com essa relação e passasse a questionar a legitimidade de seu casamento. por não suportar a insatisfação que ela apresenta. (IMAGEM 6) (IMAGEM 6) 106 A partir da gravidez e nascimento da princesa Elizabeth. 00:32:10.ª temporada. 2. mas a população não comparece em massa para vê-la. Marquesa de Pembroke. Henrique nomeia Ana. O Rei decide coroá-la Rainha. Um exemplo dessa atitude ocorre quando ele ameaça de retirá-la do trono na mesma rapidez que a colocou e que ninguém a vê como Rainha. Ela fica preocupada e questiona Henrique que a intimida com a sua autoridade. ele a homenageia com fogos de artifício ao final da cerimônia de coroação. Ele decide oficializar seu casamento com ela e deseja que todo o povo inglês ame a nova esposa real assim como ele a ama. 106 Episódio 3: Checkmate. . Mesmo assim. ainda que ele se esforce o máximo para isso. Pois em um instante ambos estão felizes como casal e em outro estão discutindo e culpando um ao outro pelo não nascimento de um filho homem.

53

A temporada também revela uma instabilidade emocional em acontecimentos
específicos da vida do monarca. Por exemplo, ao espancar um mensageiro de Catarina em
frente a Ana, durante um jantar, e quando a sua variação de humor ao descobrir que Ana dá a
luz a uma menina e não ao seu desejado filho varão, provocando o afastamento de Henrique.
Ele também passa a retirar da corte as pessoas que lhe desagradam, bem como a impedir que
conspirem contra si, prendendo personagens próximos a ele, como a Rainha Ana e diversos
lordes. (IMAGEM 7)

(IMAGEM 7) 107

Outro momento em que se faz presente a instabilidade de Henrique é referente ao
nível que a relação dele com Thomas More alcança. O Rei começa a ter dúvidas sobre a
questão religiosa e faz um monólogo com a cruz que ganhou de More sobre sua autoridade,
consciência e decisões. Henrique se mostra extremamente exaltado porque seu antigo
professor não aceita sua autoridade e poder, especialmente porque passa a achar que não pode
confiar em Thomas More. O advogado é levado a julgamento e é declarado culpado, deixando
Henrique chocado com o resultado do mesmo e ordenando que More fosse somente
decapitado. Esse é um momento de bastante emoção, porque o sofrimento do Rei é visível,
pois ele chora, se lamenta, reza por seu amigo. Novamente intercala-se a imagem da execução
de More com o sofrimento de Henrique dentro do palácio. A situação se encerra com a
decapitação de More e uma cruz coberta de sangue. (IMAGEM 8)
107

Episódio 1: Everything is beautiful, 2.ª temporada, 00: 51:06.

54

(IMAGEM 8) 108

O Rei muito melancólico continua revivendo a morte de More e chega até mesmo a
alucinar com ele sobre seu triste fim. A representação melancólica persiste ao receber e ler a
carta de despedida de Catarina de Aragão, em que o Rei sofre e se lamenta, num momento
muito solitário e depressivo como o que ele tinha passado com a morte de Thomas More e
Cardeal Wolsey.
Podemos pensar também na instabilidade referente às suas vontades, pois em
conversa na câmara privada do Rei, o embaixador espanhol Eustace Chapuys sugere a
Henrique uma aliança entre os dois reinos e diz que o Rei poderia pensar sobre a
descendência feminina do trono. O monarca irritadíssimo grita com Chapuys e diz que ele
deve aceitar Ana como Rainha para permanecer no reino. Essa é uma das cenas mais
importantes dessa temporada, pois sintetiza o que está se tentando dizer ao público, que o Rei
pode ser contraditório nas suas atitudes na medida em que os outros não façam a sua vontade
ou o desrespeitem. Henrique já queria se separar de Ana e se casar novamente, mas a mera
sugestão de que a filha de seu primeiro casamento seria a escolha certa para a sucessão real,
faz com que o ele force o embaixador a aceitar a nova Rainha, em detrimento de Catarina e de
todos os acontecimentos relacionados.
Apesar de ser um lado menos enfatizado nessa temporada, a preocupação humanista
do monarca aparece em determinados momentos, como sua reflexão sobre o devir e de como
ele pretendia ser lembrado como o rei humanista por excelência e seu incentivo às artes.
108

Episódio 5: His Majesty’s Pleasure, 2.ª temporada, 00:52:27.

55

A temporada também mostra a sexualidade do Rei ao ponto em que apesar de sua
idade mantém relações com Ana e diferentes mulheres, independente de seu matrimônio.
Como quando ao realizar um passeio no campo, ele encontra um casal e diz exercer seu
direito de soberano ao manter relações sexuais com a jovem camponesa. Além disso, essa
passagem também apresenta sua atitude exacerbada de soberano ao ter liberdade de fazer o
que bem entende em seu Reino.
Embora a representação de Henrique VIII até o presente momento tenha se voltado
para seu lado sombrio, ao conhecer Jane Seymour há um frescor sobre sua representação. A
primeira visão que ele tem da dama é ela toda vestida de branco, com os cabelos soltos,
parecendo um anjo, deixando-o vislumbrado. Ela passa a ser cortejada pelo Rei, mas em
respeito à honra dela faz isso sempre na presença de um familiar seu. Isso permite o resgate
de uma imagem positiva do Rei há muito ofuscada.109
Henrique novamente apaixonado e feliz decide fazer um novo torneio de justas na
corte. E para competir ele usa a pulseira de Jane dentro de sua armadura junto ao coração.
Contudo, durante a competição o Rei é atingido e cai do cavalo ficando inconsciente. Toda a
corte passa a rezar pela recuperação dele, especialmente a Rainha Ana, Thomas Cromwell e
Lady Jane. Após horas, o Rei acorda pensando em Jane. (IMAGEM 9)

(IMAGEM 9) 110

109

A historiadora Antonia Fraser faz uma descrição semelhante dessa cena através de fontes escritas. In:
FRASER, Antonia. Op. cit. p.315
110
Episódio 8: Lady in Waiting, 2.ª temporada, 00:37:07.

. bem como os cortesãos George Bolena. O médico real diz ao Rei que ele já não é mais jovem e que precisa se cuidar.e recebe a pena de morte. Além disso. Os fatos que são mostrados nos episódios finais dessa temporada nos revelam uma representação muito específica de Henrique VIII. Henrique. Thomas Wyatt e Thomas Bolena. o que faz com que ele se reconcilie com a princesa Maria. O Rei se demonstra cada dia mais decepcionado por ter sido enganado e traído por Ana.traição. uma representação que retorna a historiografia ao colocar o Rei como autoritário. isso é uma prova de bruxaria dela. Pois ao saber de rumores relacionados entre a Rainha e outros homens. Os cinco primeiros por adultério com a Rainha e o último por conspiração. a série mostra o quanto Henrique possui uma saúde frágil. A Rainha é declarada culpada de todas as acusações. embora ao ser mostrado na missa matinal já apareça com um ar bastante conturbado. ela é presa e enviada para a Torre. o músico Mark Smeaton. pede que Jane Seymour se retire da corte para que ela não se envolva com as impurezas do Reino. Ironicamente o executor se atrasa e a morte de Ana é adiada das 9 horas da manhã para o meio dia. Ana tenta recorrer à misericórdia dele. ele passa a acreditar ter sido alvo de bruxaria de Ana Bolena. Willian Brereton. pois a considera sua verdadeira filha. ante esses acontecimentos.56 Novamente. por uma espada em que o corte é rápido e aparentemente indolor. Ana é mostrada rezando em penitência. em que o carrasco é convocado para decapitá-la com a honra de uma Rainha. Todos os homens são declarados culpados e mortos no cadafalso. com exceção de Thomas Bolena que é poupado da morte e Thomas Wyatt que é inocentado. incesto. adultério. esperando que ocorra uma nulidade de seu segundo casamento. e passa a questionar se até Elizabeth seria filha de outro homem. Então. Ele começa datando a cidade de Londres em 18 de maio de 1536. ditador e ruim. enquanto Ana se prepara para o cadafalso. Depois disso. vemos o Rei ansioso para encontrar Jane. Ao levantar-se e ir até a janela. O último episódio da segunda temporada tem o foco central na execução de Ana. Henry Norris. bruxaria. enquanto o Rei acorda tranquilamente em seus aposentos. O Rei não fica contente com esse atraso e diz a Cromwell que mande outro executor decapitá-la. Pois após a queda do cavalo. ele começa a sofrer com a úlcera aberta em sua coxa. As damas da Rainha são interrogadas. o monarca manda instaurar um tribunal para atestar a veracidade dos fatos. Cromwell mesmo enfrentando a ira do Rei diz que é melhor esperar e mostrar-se digno de confiança para a população. mas Henrique se mostra irredutível. Henrique vê dois cisnes nadando calmamente. E entende que por conta do bebê abortado pela Rainha ser amorfo.

Vemo-la ser decapitada e depois o Rei em um banquete se saciar com um alimento colocado dentro de um dos cisnes. Bem como se nota que a representação dele adquire um tom de irredutibilidade e tirania com a não execução de suas vontades e ordens. além da sua diversão e melancolia. Jane aproveita para dizer que gostaria que Lady Maria voltasse a ser herdeira para que a tranqüilidade reinasse e Henrique diz que ela é pura. 111 Episódio 10: Destiny and Fortune. Henrique faz um banquete com os Seymour e volta a se mostrar alegre e divertido. bem como a vestir-se alegremente. alegrias. Ao sair da água diz que aquela é a Fonte da Juventude e que ele está renascendo No dia 19 de maio de 1536. O Rei ao retornar ao seu castelo. pára diante de uma fonte com lodo e mergulha.57 Em seguida. Nessa ocasião ele oficializa o pedido de casamento e revela que o noivado ocorrerá em Hampton Court. Sentimentos que são alternados de acordo com os acontecimentos que o cercam. amores e paixões. Henrique VIII é mostrado de forma passional e não somente uma pessoa política. (IMAGEM 10) (IMAGEM 10) 111 Nesta temporada nos fica mais evidente o envelhecimento do Rei e o quanto suas ações e reações eram frutos de seu temperamento volátil e intenso. . a imagem é passada lentamente com uma música fúnebre ao fundo. Ele mostra suas aflições. Ela se ajoelha diante de todos e reza. dificuldades. ele termina essa etapa feliz e na esperança de que dias melhores virão. Ana é encaminhada para execução e novamente Henrique acorda e observa os cisnes.ª temporada. revoltas. 00:47:57. 2.

Episódio 3: Dissension and Punishment. 00:21:51.58 4.4 TERCEIRA TEMPORADA A terceira temporada112 se inicia com o casamento de Henrique VIII e Jane Seymour e com o nascimento de Eduardo VI. A representação de Henrique nesse momento é a de um homem animado com a coroação da Rainha e com o casamento. o desejado filho varão. (IMAGEM 12) 112 113 Exibida em 2009 pelo canal People & Arts. apesar de feliz com o seu terceiro casamento. . amargurado. na Capela Real em Londres. Mas o casamento é desfeito resultando na união com a jovem Catarina Howard. acima do peso. para um rei sombrio. com rugas. o que leva a um novo casamento do rei. ele se mostra muito mais amável com ela do que repressor. Ainda assim. O clima é de festa. mas ainda com temperamento instável. mas muito insatisfeito com a necessidade de que Jane apresenta em agir em favor de suas enteadas. guerreando contra quem não reconhecia sua autoridade quanto rei e chefe da Igreja Anglicana. afirma que ela é muito pacificadora e amável. a rainha falece. Henrique se mostra muito atento e carinhoso com a nova Rainha. frio. 3. possui 8 episódios.ª temporada. diversão movida a música e dança. ao apresentála ao embaixador Chapuys. Com os problemas do parto. onde o Rei de dourado e branco se une a Jane Seymour. Passa a ser mais visível a mudança física de um príncipe renascentista. agora com Ana de Cleves. (IMAGEM 11) (IMAGEM 11) 113 A temporada inicia no ano 1536. atlético e bonito. por exemplo. Esta temporada resume os anos de 1536 a 1540 e tem um toque mais sentimental e sombrio ao retratar o rei.

quando Jane lhe diz que está grávida. deixando-o maravilhado com essa situação. porque ele tem medo de perder a criança ou a esposa. Ameaçando a Rainha. quando Jane entra em trabalho de parto. ele se mostra muito desapontado porque ela ainda não está grávida. No palácio de Westminster os monarcas conversam sobre a situação de Maria e diante das ideias da Rainha. por exemplo. Ao passo que.ª temporada. mas a Rainha não se recupera do parto e adoece. Com a demora do nascimento ele fica sofrendo e em choque. 3. mas de uma forma muito controlada. ao dizer que ela não deve se envolver em questões de Estado. Henrique fica perturbado com a piora da Rainha e chora diante de todos. mas ao saber que é um menino fica emocionado. E que quando isso não ocorre. Lady Maria é apresentada à Rainha. 00:03:15. se mostra afetuoso com ela e se lamenta por 114 Episódio 1: Civil Unrest. O nenê recebe o nome de Eduardo. todo o reino fica na expectativa do nascimento do herdeiro e Henrique reza fielmente para que fique tudo bem. Assim como.59 (IMAGEM 12) 114 Em contrapartida. o que leva a Rainha a tentar modificar isso tentando aproximá-las de si. mostrando um Rei muito bondoso e contente com a presença da filha na corte. em relação às suas filhas ele é sempre muito negativo. Somente após aceitar a nulidade do casamento de seus pais. ele fica irritado e com temperamento mais arredio. Nas comemorações há fogos de artifício e festas. porque Ana já tinha morrido por isso. Novamente podemos notar que a série evidencia a necessidade de Henrique em ter suas vontades realizadas. . ele se mostre contente. Contudo. ele age com muito carinho com a Rainha quando ela interrompe umas das reuniões dele só para que ele possa sentir o nenê chutar.

pois acredita que tem que fazer tudo sozinho em razão da deslealdade de seus súditos. 00:45:36. portanto. a única esposa que lhe deu o filho tão prometido e desejado.60 não poder ajudá-la. 3. mesmo doente. Notamos assim. Novamente vemos uma preocupação por parte dele com as pessoas que ele ama e que lhe fazem bem.ª temporada. na representação de Henrique é relativo a uma manifestação no norte inglês. Ele faz uma carta de repúdio aos manifestantes. evidenciando que ele era o corpo e alma da nação116. o Rei vê diante de si a morte. Com a não resolução desse processo. ele muda de opinião e diz que somente os líderes devem ser punidos para servir de exemplo. a Peregrinação da Graça. a esposa cuja essência era boa. O que fará com que mude de opinião novamente e deseje que todos aqueles que não jurarem fidelidade a ele. Novamente podemos estabelecer relação com as obras de Ernst Kantorowicz e Georges Vigarello. Henrique é violento e frio com os manifestantes. sejam julgados e executados. (IMAGEM 13) (IMAGEM 13) 115 Outro elemento que está muito presente nessa temporada e interfere no comportamento e. afirmando 115 116 Episódio 4: The Death of a Queen. Contudo. o quanto o Rei se mostra egoísta e incrédulo com seus lordes. . Ele reza para que ela não morra. o povo deveria ser massacrado. E afirma que caso não houvesse negociação. não conseguindo controlar suas emoções diante dos lordes e súditos. e questiona a fidelidade de seus lordes por não impedirem que a manifestação continuasse. Henrique VIII fica irritado e muito colérico a ponto de decidir. guiar seu exército. em que a população se mostra insatisfeita com a questão religiosa e com os tributos exigidos pelo Rei e defendem a luta pelos seus direitos. Mesmo assim Jane falece.

117 Episódio 6: Search for a New Queen. podemos perceber que a saúde mental de Henrique é problematizada. trancando-se em seus aposentos em luto e conversando somente com seu bobo Willian Somers. Novamente vemos Henrique querer eliminar todos aqueles que o questionam. bem como deseja que isso sirva de exemplo para não ser mais importunado. .61 também que seus lordes não podem interferir nisso.ª temporada. por não liberar o pus. (IMAGEM 14) (IMAGEM 14) 117 Além da sua saúde física. ameaçam ou contrapõem a sua autoridade. muito abatido e triste. permitindo a ele apresentar o príncipe Eduardo para a população em Hampton Court. por seus médicos não encontrarem uma cura para seu mal. só com poucas velas e faz muitos desenhos de palácios para a Inglaterra. O bobo consegue questionar o Rei e apontar seus erros com suas três esposas. A úlcera piora. O Rei se mantém em um ambiente escuro. Após isso há uma relativa melhora. Mas não é somente a perna do Rei que preocupa os médicos. enquanto Henrique continua a sofrer em silêncio. Ele age com frieza e ódio. sendo necessário que os médicos o sangrem. Tendo em vista que Henrique visita o mausoléu da Rainha. e se mostrando muito desgastado e necessitando de uma bengala para se locomover. 00:21:12. o monarca o manda para o inferno e ele diz já estar. Novamente a úlcera em sua perna inflama e seu humor fica terrível. 3. mas uma possível impotência tendo em vista seu envelhecimento. A série também revela o quanto a saúde do Rei interfere em suas ações e em seu humor. embora ele afirmasse ser viril e continuasse com atividades sexuais.

(IMAGEM 15) (IMAGEM 15) 119 Também notamos que há um reforço na grandiosidade do Rei. . mas entendendo que é sua função manter a segurança do príncipe a qualquer custo. fala coisas sem nexo ou ligação. mas nas conversas com seu bobo. mas sim que se crie uma memória de grandeza do passado. e se revela muito mexido com a morte da Rainha acreditando que pode enlouquecer por sua ausência. sai de sua clausura. ele procura sempre saber notícias do príncipe e toma todos os cuidados devidos com ele. O bobo diz que tudo se dissolverá e virará nada. seu povo é mais importante que suas riquezas e por isso cumprirá com todos os pedidos dele. pois ele é bem instruído. dando a impressão de que está enlouquecendo. 3. tendo em vista que a Inglaterra precisa dele. em cima de um altar dourado e coberto de ouro.ª temporada. ao mostrá-lo. mas continua com o temperamento muito volátil. Ao mesmo tempo em que sua grandiosidade humana é evidenciada ao convocar um dos líderes da rebelião para passar o Natal na corte e afirmar para o advogado Robert Aske que para ele. mas o Rei diz que quer manter a memória de seu reinado e de si. muito abatido. bem como o que Peter Burke afirma ser a fabricação de uma imagem grandiosa do reino. mas acima de tudo intocável pelos súditos. 00:06:24. Em perdão à população decide coroar a Rainha em York e em respeito e carinho 118 Essa passagem permite elencar dois elementos já citados: a educação renascentista e humanista do Rei. bêbado passa a discutir teologia com Somers e passa a chorar compulsivamente sentindo falta de Jane.118 Todavia. sendo confortado e inspirado a retornar a corte. 119 Episódio 5: Problems with the Reformation. por exemplo. Mas.62 O Rei desenha perfeitamente palácios. Não importa ao rei que a realidade não seja transmitida as gerações futuras. Finalmente o Rei. pálido e mancando. Henrique conta à Somers sobre seu novo palácio que será conhecido como Nonsuch e será o melhor palácio da Europa.

120 Mais adiante. exaltando suas qualidades e o Rei se mostra satisfeito. de Maria e um apoio militar contra a cristandade. Henrique VIII. . se não estão querendo enganá-lo em função de uma aliança política. mesmo tendo dificuldade para se locomover. diz que eles foram mortos pelo maior tirano da Europa. para este Rei. se torna impossível o casamento com uma pretendente francesa ou espanhola e a escolha do Rei recai sobre Ana de Cleves. duquesa de Guise. O Rei recebe as gravuras das pretendentes e muito ranzinza questiona a veracidade das imagens. ele estava contribuindo para manter a paz e tranqüilidade de sua dinastia. o monarca continua abalado e triste. Por conta dessa aliança. mas não pode fazer suas vontades. declarando guerra contra a Inglaterra. pois suas nobres não são cavalos para serem expostas dessa maneira. Holbein tenta pintar as duas irmãs do Duque de Cleves. dinastias ou famílias com sangue nobre eram realizados. Cromwell passa a procurar novas pretendentes para Henrique e adianta que a França tem duas candidatas. dessa forma ele é expulso da corte por Henrique. O quarto casamento de Henrique VIII é mais um desses exemplos.121 Contudo. O pintor faz um retrato de Ana. Margarida. Cristina. Henrique pede ao embaixador francês Castillon que as pretendentes sejam enviadas a Inglaterra para que ele as conheça. enquanto os embaixadores ingleses tentam negociar uma aliança matrimonial de Henrique. França e Espanha traçam o acordo de Toledo. como forma de aliança política e na busca de ascensão política. 121 É interessante lembrar que nesse período o casamento entre diferentes reinos. Henrique afirma que visitará os locais de resistência para apoiar o povo e seus soldados. o embaixador diz que isso é uma grande ofensa. Mas. A família Pole é executada na Torre e Cardeal Pole ao receber a notícia. e Marie.63 a Aske lhe dá presentes suntuosos. e Cromwell sugere uma das duas irmãs do Duque de Cleves. por conta da viuvez do Rei. enquanto Cromwell acredita que deva ser uma pretendente da liga protestante. bem como as casas religiosas. mesmo com a perspectiva de um novo casamento. Ele esbraveja para Cromwell que sempre tem que agradar a todos. Ele fica satisfeito com uma esposa francesa. filha de Francisco. que a situação com a família Pole não se resolve (eles podiam tomar o trono por serem descendentes dos Plantagenetas) e que sua perna não melhorava nunca. 120 Novamente há uma série de práticas e rituais citados por Peter Burke que evidenciam a consolidação de um Rei forte e poderoso. Hans Holbein é enviado para pintá-las. além de esclarecer pessoalmente ao súdito sobre os males que os mosteiros traziam para a população. em sua maioria. enquanto o Imperador oferece a Duquesa de Milão.

64 Com o casamento. Norbert. Ela pede que ele a ensine agradar o Rei. No dia seguinte. o Rei diz ter sido enganado e que seu conselho não pensa no bem estar dele e o casou com um cavalo. ele a tranqüiliza falando sobre Henrique. Ele fica extremamente decepcionado e se afasta mancando da situação. o Rei já realiza suas atividades políticas e quando questionado por Cromwell sobre a nova Rainha. Henrique se mostra decepcionado. Henrique reclama muito de seus defeitos e que é impossível desejá-la. Demonstra toda a sua insatisfação durante e após o casamento e mesmo tentando consumar a relação ele não consegue.122 Ao encontrar com Cromwell. levando-o a ensinar a jogar cartas. Ele ordena que o Duque de Suffolk receba Lady Ana em Calais.ª temporada. Episódio 7: Protestant Anne of Cleves. se mostra revoltado. . Op. se aborrecendo ainda mais. Brandon elogia a nova esposa do Rei e esse passa a se preocupar em não conseguir consumar o casamento mesmo desejando-a. mas age de acordo com as normas de cortesania. Henrique passa a adquirir um novo problema e se mostrar insatisfeito com o caminho que a Inglaterra passa a seguir.cit. Quando se encontram pessoalmente. 00:28:30. Ao chegarem a Londres. (IMAGEM 16) (IMAGEM 16) 123 122 123 ELIAS. cansado. Diante do medo demonstrado por ela. 3. ele se veste de prata e ressalta que não é bem cuidado. sisudo e bravo. Mas o casamento tem que acontecer por questões políticas e militares. O Duque percebe que ela é muito recatada e está sempre vestida de preto e com véu. No dia do casamento.

65 Francis Bryan. Razão pela qual há o escurecimento das cenas e os diálogos sejam mais densos. novamente se faz 124 Exibida em 2010 pelo canal Liv!. novamente ele sai unicamente do corpo político para mostrar o homem por trás do trono e do poder. obtendo propriedades e uma mesada para se sustentar desde que permanecendo na Inglaterra. O conselho age em favor do Rei e diz que a Rainha tinha um contrato pré-nupcial com outro homem e. Deixando-o extasiado e excitado. Thomas Cromwell é preso por traição e julgado culpado. Henrique observa Catarina e pede para que ela seja levada até ele. 4. seja muito turbulento. Ele a apresenta aos outros dois lordes que se mostram satisfeitos com a jovem. A temporada termina com Catarina se balançando nua em um balanço enquanto o Rei contemplativo olha distante. . ainda que curto.5 QUARTA TEMPORADA A última temporada124 resume os últimos anos de governo do monarca inglês (15401547) e mostra o término do quinto casamento com Catarina Howard e seu último matrimônio com Catarina Parr. Lady Ana passa a sentir a falta de seu esposo e Edward Seymour vai até ela dizer que seu casamento é considerado nulo e que o Rei passa a considerá-la sua irmã. se faz necessário uma dispensa desse compromisso. Mesmo apresentando aspectos positivos. Lorde Bryan vai até Lambeth buscar a jovem Catarina Howard. uma bastarda da nobreza. possui 10 episódios. Durante um banquete real. observando claro todas as dificuldades em fazê-lo. Ele sobe ao cadafalso e perde perdão aos prantos a Deus e ao Rei e sofre muito. esse foi um período negro para a vida do Rei e foi dessa forma que a série tentou mostrá-lo. É interessante pensar que o período retratado nessa temporada. O conselho encontra uma falha no acordo pré-nupcial e Henrique confia a Cromwell a resolução desse problema. Mas ainda assim vale refletir que suas emoções são constantemente reveladas ao público. Ele continua a construção do Palácio de Nonsuch e dá presentes e terras à sua amante. Ela tenta agradá-lo sexualmente em seu primeiro encontro. Lorde Suffolk e Lorde Seymour decidem que o Rei precisa de uma distração diante desse momento de tensão. enquanto Henrique leva Catarina ao Palácio Nonsuch e se mostra exuberante. Acompanhando o aspecto da temporada anterior. portanto. Nesta temporada podemos perceber que Henrique VIII se aproxima da imagem construída pela historiografia de que ele era um tirano em exercício de suas vontades.

(IMAGEM 17) (IMAGEM 17) 125 Ele a apresenta a corte como nova Rainha. ao mesmo tempo apostando em sua juventude para a geração de novos herdeiros. mas gosta de ver a jovem dançar e pretende que todos o invejem e a admirem pela beleza. narra o casamento secreto de Henrique VIII com Catarina Howard. uma vez que não se mostra disposto por cansaço e dores na perna. A temporada se inicia em agosto de 1540. principalmente pelo seu estado de espírito. por sua intimidade com a nova Rainha e um retorno ao uso de roupas majestosas e brilhantes. . acentuando e exagerando suas qualidades. O embaixador espanhol. em que o Rei reclama da ausência de chuva há dois meses e contabiliza a prisão de 500 hereges. 4. Isso faz com que Sulffok perceba o quanto a nova Rainha alegra e tranqüiliza Henrique. 00:05:07. Eustace Chapuys. ainda há uma leveza em sua personalidade ao casar com uma jovem de 17 anos. A excitação do Rei com a nova esposa é visível. e continuamente representam à figura real com indícios de loucura que o teriam levado à morte. e que o monarca continua tendo paixões avassaladoras e sendo perverso com a população inglesa. O monarca passa a 125 Episódio 1: Moment of Nostalgia. Com a traição e decapitação de sua quinta esposa.ª temporada. o objetivo final de Henrique é manter-se no poder para que a Inglaterra continue em paz sob o governo da Dinastia Tudor. Em contrapartida.66 presente o lado sombrio e magoado do rei. Continuamente ele age sem pudor com ela diante de todos e solicita ao Duque de Suffolk que dance com ela. o que faz Henrique retornar a momentos de sua juventude. mostrando o Palácio de Whitehall em Londres. Casando-se com Catarina Parr fica claro a necessidade de buscar realmente uma mãe para seus filhos e uma esposa boa para seu reino.

Henrique volta a ser representado com ânsia por guerra ao descobrir que a França passa por conflitos internos e decidir entrar na guerra para conquistar novos territórios. começa a se mostrar um pouco mais compreensivo com a população e com Ana de Cleves. contribuindo para sua imagem de tirano. Brandon afirma que ela está bem e manda lembranças. se mostra decepcionado por não poder colocá-la a prova. mas isso não acontecerá sempre. Ana e Henrique . Richard Rich. mas que a realidade é diferente porque ele tem que fazer tudo no reino por incompetência de seus lordes e conselheiros e que por isso Edward Seymour deve ir a Escócia negociar com James I. Enquanto se prepara para viajar. beleza e inteligência. Dias depois. O secretário real. ele faz perguntas sobre Ana de Cleves. No primeiro caso. ao convidar Lady Maria e Ana de Cleves para passarem o Ano Novo com ele na corte. Nessa passagem. para apresentar a Rainha o príncipe Eduardo e a princesa Elizabeth. para não ocorrer nenhum conflito entre os dois reinos. vai ao encontro do Rei avisá-lo que a França pediu para negociar um tratado de paz. O Rei a presenteia com filhotes de cães e ela dá um dos filhotes para Ana.o por sua postura. Ainda que satisfeito por não perder o reconhecimento de sua força. onde há uma festa preparada para ambos e Henrique age como um glutão. por exemplo. os monarcas viajam para Old Castle House. ele se encontra com os conselheiros pede que os 500 hereges presos sejam perdoados e soltos.67 ter muita dificuldade em se concentrar nas questões de Estado por conta de Catarina. Eles ficam aos beijos na companhia de Lady Ana de Cleves e Catarina expressa sua felicidade alegrando ao marido. Já em Hever. Ele aproveita. como quando reclama que ao ouvir música ele pensa que não há responsabilidades. com a guerra da França vemos que o desejo real passa a ser sobreposto por uma consciência do que viria a ser melhor para Inglaterra naquele momento. enquanto no segundo caso ao conversar com Duque de Suffolk sobre a medalha matrimonial que foi feita para homenageá-lo. Ele também é mais receptivo e simpático. Henrique diz gostar de Ana principalmente porque ela sempre cumpre suas promessas. que a todo o momento pensa em um jeito novo de seduzir e agradá-lo. porém. Contudo. ele solicita ao conselho que faça melhorias no Castelo e que os criminosos sejam culpados e recebam as penas corretas por suas ações. deixando-o admirado. O Rei continua se mostrando irredutível e rígido com as políticas de Estado. isso faz com que ele fique feliz com a cordialidade e com a postura de boa irmã que ela se mostra a ele. que continua surpreendendo. Vemos também que a Rainha está sempre feliz e que o Rei a mima e faz de tudo para satisfazê-la. se mostrando assim um novo homem. o que não o agrada porque ele que desejava a guerra.

(IMAGEM 18) (IMAGEM 18)126 A saúde do Rei será constantemente apresentada nessa temporada. Eduardo mostra ao pai que possui um dedal e um retrato de sua mãe. Sua úlcera voltará a inflamar diversas vezes. KANTOROWICZ. o Rei fica em vigília. quando mancando e visivelmente mais gordo. Enquanto todos rezam pela melhora do príncipe.ª temporada. se alegrava com pequenas coisas. Georges. Henrique aproveita e dá um medicamento criado por ele para cuidar das doenças do príncipe. sendo necessário sangrá-la para aliviar a sua dor.cit 127 . 00:46:08. deixando-o muito emocionado. quando esse se adoenta. ele se mostra melancólico e se sente traído por seus lordes. Além disso. Também há uma referência do caráter divino discutido pela historiografia. Normalmente seu humor também piora diante disso. cit. uma vez que ele já com meia idade não se mostra tão bem quanto antes. O príncipe acorda fazendo carinho no pai e o Rei pede uma missa em agradecimento à recuperação do filho. Ainda em relação ao príncipe. Op. como Ernst Kantorowicz127 e Georges Vigarello128. como uma simples amizade com sua filha e irmã. ele é muito amável com seu filho. É evidente que sempre que a doença na perna do Rei piora. 4. 128 VIGARELLO. Ernst. como quando o príncipe Eduardo visita o Rei que o presenteia com um punhal. Henrique corre em direção a ele desesperado. Essas duas cenas revelam que o Rei ainda que autoritário. Op. Henrique se encaminha para uma cavalgada e um bispo pede que ele toque e abençoe seus 126 Episódio 4: Natural Ally.68 conversam sobre as preciosidades que são os herdeiros deles e ela devolve a aliança de casamento deles. entristecendo-o. Ele agradece por ela não ter protestado com o fim do casamento e passa a elogiá-la.

na tentativa de recuperar sua honra e sua fama de conquistador. e o Rei afirma querer coisas novas. Há uma retomada da ideia de que um monarca é representante de Deus na terra quando Charles Brandon fica doente e Henrique afirma ser capaz de curá-lo. O maior exemplo disso é quando ele e Brandon conversam novamente sobre um novo casamento e as perspectivas da guerra. 129 Episódio 3: Something for You. O Rei se diverte com as jovens. trancada em seus aposentos e depois executada por traição. mas ao vê-las sentando em seu trono fica chocado pela possibilidade de tantas rainhas. reza pela melhora deles (IMAGEM 19). fazendo com que ela fosse investigada. 00:07:16. o Rei chocado com a situação dos miseráveis. (IMAGEM 19) 129 A série volta a revelar a intransigência do Rei com aquilo que o ofende. a compulsão de Henrique em alcançar o que almeja o torna um tirano em campo de batalha.69 súditos para que eles possam prosperar.ª temporada. Também nos é mostrado um Rei que busca retornar aos seus tempos de glória. Sua recorrente necessidade de voltar a constituir uma família. Catarina Howard. mas principalmente ser ele mesmo. Nos últimos episódios da série. . tendo em vista que pressente sua morte. seduzindo-as. como no caso de traição de sua esposa. Contudo. seja conversando com seu melhor amigo ou promovendo guerras. Henrique vai ficando mal humorado ao longo dos dias por conta das traições que o rodeiam e só melhora ao decidir fazer uma festa somente com jovens que pudessem vir a ser sua nova esposa. juntamente com a sua glória. Neste sentido a relação mais importante que ele possui é com sua última esposa. 4. há um novo elemento que passa a caracterizá-lo.

Henrique passa a utilizar constantemente uma bengala para andar e já não se veste como antigamente. Antonia. pp. não demonstrando felicidade. Episódio 7: Sixth and The Final Wife. o que faz com que Henrique reflita. o Rei convida Catarina para jantar com ele. está sempre com vestes escuras. Henrique VIII faz de Catarina a regente do reino. Op.70 Catarina Parr. Dias após. Ao decidir ir à guerra com seus soldados. mas sim o cumprimento de um papel.posição ocupada somente por sua primeira esposa. o de protetor da Inglaterra. Catarina recebe diversos presentes do Rei e ela não vê razões para tal atitude. 00:02:50. 4. sua família e seus conselheiros. Ele casa-se pela sexta vez. se tornando enfermeira dele. bem como a ser carinhosa com o príncipe Eduardo e tranqüilizálo em relação à saúde do Rei. que os diverte. revelando seu envelhecimento. Ao retornar a sua casa. . eles conversam sobre a família dela e ele a parabeniza por cuidar tão bem da família de seu segundo marido.cit. Catarina de Aragão. mas diga que isso não ocorrerá com Eduardo porque ele é valioso demais para correr qualquer risco na corte.130 (IMAGEM 20) (IMAGEM 20) 131 130 131 FRASER. e a presenteia com o objetivo de alegrá-la diante de um momento tão difícil em sua vida. Sugere que a princesa Elizabeth tenha seus próprios aposentos na corte. Ele diz estar contente com a nova guerra contra França e a convida para um jogo de cartas. Ela diz acreditar na possibilidade de um casamento feliz e ele ri do seu otimismo.ª temporada.493-494. Ela mostra-se prontamente a cuidar de Henrique. com Catarina Parr. No primeiro contato. tendo em vista que ela não teve filhos. A nova Rainha diz querer ser uma boa mãe para os filhos do Rei e que gostaria que eles freqüentassem a corte com mais assiduidade.

Para ele é vontade divina que Boulogne voltasse a ser propriedade inglesa.cit. por sugestão da Rainha óculos para leitura. mas que por ser misericordioso.71 Henrique restitui Maria. seguido de uma conversa com Brandon sobre o maior medo do Rei: perder o tempo porque ele não pode ser resgatado. Catarina pede que suas damas queimem todos os livros que possuem. Os monarcas se comunicam através de cartas e ambos se mostram satisfeitos com a situação da guerra e da estabilidade na Inglaterra. A carta de prisão da Rainha feita por Gardiner é desviada e chega a suas mãos sem o conhecimento do Rei. amor e temor a Deus. Pois além de indicar que o rei aceita ser cuidado pela Rainha. Com medo. na noite de Natal de 1545. o bispo o incita a eliminar todas as pessoas que o questionam. muito emocionada pela vitória e retorno dele. Ao lamentar com Bispo Gardiner a postura da Rainha. Acusa os padres de levarem a escuridão ao invés da luz. No último episódio da série. Elizabeth e Eduardo como seus herdeiros. a Rainha se dirige aos aposentos do Rei que a questiona de suas 132 Esse é um elemento muito interessante para análise. por conta do ato de sucessão. Henrique e toda sua comitiva retornam e são recebidos pela Rainha. pois em meados do século XVI já se podia usar óculos. pois depois de adultas passaram a estudar com obstinação a religião e o latim. O Rei conversa com a Rainha sobre as traduções dos livros. Antonia. Henrique pede desculpas e se retira cansado. é indispensável a prática da benevolência. há mais fantasia e metáforas do que fatos.482 . a palavra de Deus vem sendo vulgarizada. mas o Rei afirma que mesmo que sejam encontradas provas contra a Rainha. ele junto ao conselho diz que as perseguições devem cessar em nome do amor fraterno. O monarca questiona se ela pretende realmente dizer tudo aquilo que está no livro e ela afirma que sim. no Castelo de Whitehall. Ele deixa seus filhos sobre o cuidado de Catarina. Já em 1545. também se mostra uma pequena parcela do desenvolvimento tecnológico. pedindo que ela seja cautelosa. para ele. Op.133 Vemos que o Rei continua a culpar os outros e não reconhecer seus erros. Catarina afirma que ninguém deve temer o evangelho e que é necessário continuar o trabalho de limpeza da Igreja. deixando-a desesperada e quando ele vai visitá-la. ele diz que nada e sai naturalmente. Inicia-se com um cavalo brando correndo e Henrique narrando suas perdas. p.muito mais velho e grisalho . hipocrisia e desonestidade com ele. Ela questiona o que o teria ofendido. 133 Antonia Fraser afirma que podemos estabelecer um paralelo entre Catarina Parr e Isabel de Castela.passa a usar. Henrique . Depois disso. Ela diz ter escrito um livro e que gostaria de fazer a dedicação a ele. para ir a Boulogne na França.132 Eles jantam juntos e ele afirma que todas as pessoas agem com malícia. ela aos prantos pede perdão por tudo e ele não compreende. motivo pelo qual ele brinda a guerra e a vitória. ele não a levará a julgamento. In FRASER.

isso faz com que ela volte às graças do Rei. o que ofende muitíssimo o Rei que manda o criado embora aos gritos. Catarina Howard. pois ele foi retratado como um velho miserável e não com sua grandeza. assim como sua prima.ª temporada. Ele faz um retrato do Rei sentado de perfil. Numa tarde. (IMAGEM 21) (IMAGEM 21) 134 Henrique convoca mestre Hans Holbein para pintá-lo. Ela alega ser inocente de todas as acusações. quando Henrique passa a alucinar com Catarina de Aragão acusando-o de negligência com Maria e que embora ele não aceite. Mestre Holbein mostra a Henrique o quadro que fez e o monarca revoltado diz que não é suficiente. . porque passará o Natal sozinho. Durante a noite. que lhe garante que Eduardo morrerá jovem por culpa do próprio Rei ao esperar demais do príncipe. ao tomar seus remédios. Jane Seymour. ela sempre será sua esposa diante dos olhos de Deus. Ele se retira em sofrimento e alucina com sua terceira esposa. 00:22:56. Henrique cada dia mais deprimido manda que Rainha e seus filhos se encaminhem para o palácio de Greenwich. ele alucina com Ana Bolena que também reclama da negligência com Elizabeth e que sua filha é um orgulho para ela. deixando Henrique revoltado. 134 Episódio 10: Death of a Monarchy. foi ingênua demais. só quer despedir-se deles e garante que tudo está encaminhado para seus herdeiros e esposa (IMAGEM 22). Ele não quer ser questionado. em que ambos estão no jardim se refrescando. um enviado do Bispo Gardiner vai buscar a Rainha para prendê-la.72 crenças. ela diz aceitar a submissão de ser mulher e que só conversa sobre isso com o Rei por querer aprender mais. 4.

(IMAGENS 23.ª temporada.73 (IMAGEM 22) 135 Ele faz seu testamento. Nos minutos finais vemos cenas recordando toda a temporada e os momentos de alegria e tristeza do Rei. bem como suas mudanças físicas. pedindo que seja enterrado junto de Jane e sonha ser jovem novamente num campo olhando para o céu. 4. 4.24 e 25) (IMAGEM 23) 136 135 136 Episódio 10: Death of a Monarchy. . 00:45:05. 00:53:14. uma pintura enorme que representa a glória de Henrique e toda sua imponência. é chamado pelo pintor para ver seu segundo quadro. quando a morte montada em um cavalo branco o mata cortando sua cabeça. Ao acordar.ª temporada. Episódio 10: Death of a Monarchy.

a Princesa Maria. Houve uma tentativa de evitar que a filha mais velha do Rei. Ela foi coroada em 1553. Seu reinado foi curto e turbulento. Seu reinado foi chamado de „A Era de Ouro‟.algosobre.ª temporada.74 (IMAGEM 24) 137 (IMAGEM 25) 138 A série termina com os dizeres: Henrique VIII morreu em 28 de janeiro de 1547.br/biografias/henrique-viii. 137 138 Episódio 10: Death of a Monarchy. Disponível em: http://www. 00:53:43. Elizabeth. e morrendo doente seis anos mais tarde.html acesso em 2 de outubro de 2011. a Sanguinária‟. Elizabeth governou a Inglaterra por 44 anos. Ela queimou muitos mártires protestantes e ficou conhecida como „Maria. Seu único filho legítimo. Conhecida como a Rainha Virgem. tornou-se o rei Eduardo VI aos nove anos. 4. a sucedeu em 1558. se tornasse rainha devido às suas crenças católicas. Sua meia irmã. .com.

Porém. pois ao pensar-se nos minutos finais da quarta temporada da série se faz uma referência e retomada evidente a historiografia. bem como aquelas que fazem com que ele se mostre tirano e impiedoso. E fica evidente esse desenvolvimento e desenrolar da personalidade do Rei para quem assiste a série. o próprio conflito com a morte deveria ser mostrado como um processo de reflexão para ele. Em entrevista concedida ao Box da 4. cit.140 O motivo da escolha de mostrar a realização do quadro de Holbein. Além disso. Isso permite gerar um momento de redenção para ele e ao mesmo tempo em que satisfaz o público ao mostrá-las questionando-o sobre suas escolhas. e que por conta disso. se deu justamente por que sua Imagem sempre foi calculada e manipulada.ª temporada. há um floreio e engrandecimento daquilo que é mostrado. 4. E também é perceptível o quanto as relações interferiram nesse processo. portanto. A carga emocional do episódio tinha que extrapolar as produzidas nos outros episódios. a grandiosidade de seus feitos deveria ser mostrada para evidenciar a importância que a dinastia Tudor teve. como ele passou por um longo processo de transformação como monarca. Historicamente sabemos que a imagem de um rei tinha que gerar uma promoção dele e do reino. 141 BURKE. Dessa maneira a representação realizada pela série é que é problematizada como uma releitura da Dinastia Tudor.ª temporada da série.139 O criador Michael Hirst apontou as dificuldades por ele vividas para a realização deste último episódio. a dinastia Tudor teve os dois principais monarcas da História da Inglaterra.75 Com Henrique VIII e Elizabeth. 00:54:00/ 00:55:00 (1 min). E que. o seriado revela a produção do quadro do pintor Holbein. a imagem do quadro seria a representação que ele próprio desejava que os demais tivessem sobre ele. como Henrique VIII se tornou um tirano ao longo de seu reinado. matá-lo simplesmente seria pouco diante de suas atitudes. 140 . Percebemos as razões que o levam a ser feliz e tranqüilo. em que ele visa representar a grandiosidade e importância do reinado de Henrique VIII. deixando uma imagem muito forte e representativa 139 Episódio 10: Death of a Monarchy. È por este motivo que ele dá voz as três mães dos filhos do Rei para confrontá-lo e dizer as verdades que ele se negava a ouvir. Segundo ele. a primeira dificuldade era para fazer um desfecho de cinco anos de trabalho e um desfecho para quatro temporadas. dificilmente representando a realidade.141 E. Peter. Isso porque. a imagem mais conhecida de Henrique VIII. Op. Hirst destaca que o último episódio deveria evidenciar o que ele buscou ao longo de toda a série: os conflitos vividos por Henrique.

sadio. o que neste caso seria evidenciar a grandiosidade do reino. Op. O Rei admira a sua própria imagem em contraposição a imagem que o público vê dele. Op. Mostra-se e evidencia-se esse discurso ao ver-se a postura tomada por Henrique VIII ao ver o quadro. doente. É possível se perceber a relação direta com a proposta de Peter Burke142 e Roger Chartier143 ao pensarem em uma imagem produzida para ser vista posteriormente não corresponde necessariamente a realidade. Peter. 142 143 BURKE. mas é representativa e possui um devido fim. como já dito. porque enquanto ele vê um homem forte. cit. CHARTIER. o espectador vê um idoso. cit. . poderoso e imponente no quadro. fraco e quase louco.76 da dinastia. Roger.

77 5 CONCLUSÃO A partir dos elementos apresentados nessa monografia. se tornou claro que a maior parte dos estudos relacionados aos audiovisuais no Brasil é feita com produtos nacionais. as representações feitas por André Maurois. bem como entender que há a possibilidade desses meios de comunicação serem produtores de História. o que contribuiu para problematizar e estudar esse tipo de fonte. o estudo de produtos audiovisuais que envolvam conteúdos históricos possibilita amplas análises sobre diversos aspectos da produção. mas suas articulações políticas que mudaram a sociedade inglesa do período e muitas vezes estudou somente o corpo político enquanto a personalidade do rei foi desvinculada do cargo que possuía. Isso porque. além dos diferentes discursos produzidos acerca de períodos anteriores. corpo político e corpo físico do rei foram imprescindíveis para que se entendesse a formação e a elaboração da figura real no momento estudado. Séries como Roma (John Milius. Antonia Fraser e Perry Anderson mostraram um Henrique VIII a partir de sua incapacidade de arcar com culpas ou erros. Razão pela qual. procurando estabelecer um panorama através desses elementos. 2005-2007) e The Tudors (Michael Hirst. violento e tirano quando questionado ou até mesmo não tendo suas vontades feitas. mas ainda não são analisadas e pensadas historicamente. ela ocupava o horário nobre do meio de comunicação. Da mesma maneira. No primeiro capítulo tentou-se expor o contexto inglês no século XVI. se mostrando irredutível. como a própria série faz. Sua personalidade só vem à tona na historiografia quando somando todas as suas . e que o estudo sobre séries estrangeiras tem se desenvolvido lentamente no Brasil. isso motivou o desenvolvimento dessa monografia com o intuito de se iniciar um panorama sobre essas produções que são sucessos de público. econômicos. Também se deve considerar a carência no estudo de séries estrangeiras no Brasil. Neste caso em particular. Evidenciando. sem que isso signifique um abandono do discurso histórico. especialmente séries temáticas como esta que estão em grande produção pela indústria cultural. Esta historiografia procurou evidenciar não seus sentimentos. Por conta disso é que se abordou elementos políticos. que é possível um audiovisual produzir conhecimento histórico assim como a própria historiografia tradicional. 2007-2010) foram precursoras nesse aspecto e devem ser estudadas buscando entender sua relevância no período de produção e a grande aceitação do público diante de temáticas tão distantes de seu cotidiano. ainda que a exibição da série tenha ocorrido em rede fechada de televisão. militares e culturais. Ao mesmo tempo em que as discussões sobre cortesania.

Dessa forma. a série procurou mostrar os sentimentos e ações do monarca ao longo dos conflitos e situações que eram colocadas diante dele. mas com a simples diferença que ao ter poder pode realizar. considerando que os elementos que o compõe. como uma releitura da Dinastia . o que no caso da série viria a ser a contextualização realizada acerca da vida do Rei para permitir a sua representação de maneira mais completa.78 ações ao longo de sua trajetória e generalizando suas razões se tira um comportamento de um Rei autoritário. Mas não se pode esquecer que também há a fabricação da figura posterior ao de vivência de Henrique VIII. e acreditamos que tenha conseguido. mas suas articulações políticas que mudaram a sociedade inglesa do período e o papel político exercido pelo monarca. tirano e ruim com suas esposas. como ele deveria ser visto e de que forma ser visto. diferentemente da historiografia apresentada. Entendendo primeiramente como ela se constitui e posteriormente buscando entender o discurso de representação elaborado por ela. A série procurou. ao analisarmos o papel que a televisão desempenha em nossa sociedade buscávamos destacar a importância que os produtos audiovisuais mostrados na tela da televisão apresentam ao revelarem os elementos constituintes de uma série televisiva. Também se tentou mostrar o quanto um audiovisual pode e deveria ser encarado como produtor de um discurso histórico. Para tanto. No segundo capítulo. seus desejos e vontades. sendo composta por interesses de empresas. mostrar o quanto um Rei é tão humano quanto os demais. Ao mostrarmos os elementos de análise e a composição de um seriado. a postura correta. é a imagem produzida pela série em pleno século XXI que deve ser pensada. interferência das mesmas. a etiqueta que devia ser seguida. Ao passo que a historiografia procurou evidenciar não seus sentimentos. essa monografia buscou compreender o processo de fabricação de um rei.sejam eles relacionados com a parte imagética ou com a parte comercial. Como apresentado ao longo dessa monografia e especialmente no terceiro capítulo. estabelecemos a maneira de análise pretendida no estudo de nossa fonte. -como destacou o próprio criador Michael Hirst -.são fundamentais para sua problematização. assim como apontou Peter Burke em seu estudo sobre o rei francês Luís XIV. E por fabricação entendeu-se desde o seu aprendizado para se consolidar como monarca. bem como a fabricação de uma imagem no imaginário social da época. bem como a necessidade do envolvimento do espectador com aquilo que vê. Ao mesmo tempo em que ao pensar-se o conceito de representação defendido por Roger Chartier compreendeu-se a importância de identificar e posteriormente reconhecer uma identidade cultural e social através das práticas e costumes representados. em sua grande maioria.

as obras de Chartier e Burke foram fundamentais. pois o seriado retornou a historiografia e se utilizou dela para evidenciar a construção da imagem de Henrique VIII. pois quando destacamos as ultimas cenas da série notamos a relação que ambas as áreas estabeleceram. Principalmente a imagem estereotipada produzida pelas fontes do período ou até mesmo algumas obras historiográficas. . Nesse elemento final.79 Tudor. pois nos ajudaram a entender esse processo de criação e representação de uma personalidade tão importante para a Inglaterra.

80 6 FONTES The Tudors.Canadá. Criação de Michael Hirst. 12 DVDs (1983 min).Estados Unidos. Reveille Eire.Reino Unido: Peace Arch Entertainment. Working Title Films e a Columbia Broadcasting System (CBS): Sony Pictures Television International. 2007-2010 (quatro temporadas). Irlanda. . color.

Departamento de História. BARACHO. arte e políticas: ensaios sobre a literatura e história da cultura. 2009.4. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.5 n. O mundo como representação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Modernidade em preto e branco: a televisão em Curitiba. CHARTIER. Campinas: Papirus. São Paulo. Televisão Brasileira: uma (re) visão. Alessandra (org. André. Stella Titotto. Peter. Jan. Vol.81 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDERSON. política e mercado. In: Obras escolhidas vol. ________. 1997. (Inédito) CATERER. Sobre a Televisão. Ano IV. 2007. Michel.Indústria. 2008.º 2. 2004. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Linhagens do Estado Absolutista. 2003. pp. Perry. Walter. 1983. 1944. Curitiba. N. 165-196. BOURDIEU.º11. Volume VEuropa. Curitiba. Tese de Doutorado defendida na Universidade Federal do Paraná. Curitiba. ________. 2007. A Dinastia Tudor no romance histórico e no cinema: The Other Boleyn Girl. In: Fênix: Revista de História e Estudos Culturais.” In: MELEIRO. BURKE. 1991. O que é História Cultural? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. São Paulo: Brasiliense. Dicionário teórico e crítico de cinema. 2010. Pierre. A Obra de arte na era da reprodutibilidade técnica. A Imagem. James. . São Paulo: Brasiliense. Campinas: Papirus. A História Cultural: entre práticas e representações. “A Indústria cinematográfica britânica. 2006. Peter. 2002. In: Estudos Avançados. São Paulo: Escrituras Editora. 1995.1. A fabricação do rei: A construção da Imagem Pública de Luís XIV. ________. BRIGGS. Jacques. Produções Cinematográficas e a análise histórica: Como trabalhar o medievo a partir do cinema. CORVISIER. BENJAMIN. Maria Luiza Gonçalves. ________. Abril/Maio/Junho de 2007. Andrew. 1994. Uma história social da mídia. vol. Magia e técnica. AUMONT. HIGSON. Roger. CASTANHARO./Apr. Asa & BURKE.) Cinema no mundo. MARIE. História Moderna. Lisboa: DIFEL. Lisboa: DIFEL. (Inédito) ________.

França. Lisboa: DIFEL. O cinema como fonte histórica na obra de Marc Ferro. São Paulo: Companhia das Letras. Jacques. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. FILHO. A invenção da sociedade. Writing History in Film. 1990. A Desmistificação do honorifico. _______. Volume 2. 2001. Eduardo Victorio. As seis Mulheres de Henrique VIII. [et al. Cinema. Willian. 1994. n. Lisboa. GUYNN. vol. História Geral das Civilizações. A sociedade de Corte. MAUROIS.ibem. New York. Roland.. n. Maurice (dir. 2008. 1960. 1989. Francisco B.net/ponencias/UNIrev_Messa. PET-História. MORETTIN. . Rio de Janeiro: BestBolso. UFPR. 2004. Alexandre Frasato Bastos. 2003. Cinema e História. REVEL. Antonia. 1995. Nº 5. In: REVISTA HISTÓRIA HOJE. SÃO PAULO. Márcia Rejane. Volume 9. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Johnni. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil. Os séculos XVI e XVII. Metodologia para análise de estereótipos em filmes históricos. 1460-1610. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1998. A cultura desconectada: sitcoms e séries norte-americanas no contexto brasileiro.9. LADURIE. _______. . A Monarquia Constitucional no Reino Unido e a prerrogativa da Coroa.82 CROUZET. Disponível em: http://www. 2003.) MOUSNIER.Curitiba: UFPR. André..A monarquia clássica” pp. Mônica Almeida.pdf acesso em 20 de junho de 2011. Curitiba. Ernst H. In: Questões e Debates. Emmanuel Le Roy. 2008.38 LANGER.. M. Marcos.]. UNIrevista. Routledge. O cinema na sala de aula: uma abordagem didática.1. Os progressos da Civilização Européia. 2009. Os dois corpos do rei – Um estudo sobre teologia política medieval. O estado monárquico. 2010. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.3: julho 2006. NAPOLITANO.São Paulo: Editora Aster e Editora Flamboyant. FRASER. Norbert. São Paulo: Contexto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. O processo civilizador. Disponível em http://www. Volume 1: Uma história dos costumes.. FERRO. televisão e história.23-250 ELIAS. PR: Ed. jan/jun. pp. MESSA. KANTOROWICZ. 2001. coordenação: Ana Paula Vosne Martins. KORNIS. São Paulo: Companhia das Letras. Marc. O processo civilizador. 2006. Como usar o cinema na sala de aula.pdf acesso em 20 de junho de 2011.alaic. P. “Introdução.º38. ano 20.org/arquivos/editais/2011/MONARQUIA_CONSTITUCIONAL_. História da Inglaterra.

4 a 5 de dezembro de 2008. http://tudorswiki.wikipedia. “O Corpo do Rei”.com/page/EPISODE+Guide+for+the+Tudors acesso em 30 de março de 2011.imdb.bbcentertainment. In: II Seminário Interno PPGCOM. http://en.sho. Georges. Trajetória da narrativa fílmica: impacto tecnológico na percepção.com. 2010.mnemocine. Petrópolis: Editora Vozes.br/biografias/henrique-viii. n. http://www. Disponível em: http://www. Georges.org/wiki/CBS acesso em 25 de novembro de 2011. . volume 6. Cambridge. ________ Visions of the past: the challenge of film to our Idea of history.com/lat-am/ acesso em 25 de novembro de 2011.com.org/wiki/The_Tudors#Primeira_temporada_.br/pesquisa/pesquisatextos/andrea1. http://www. http://pt.cbs.29 acesso em 30 de março de 2011. 2008. Jean.html acesso em 2 de outubro de 2011.wikipedia.com/title/tt0758790/ acesso em 30 de março de 2011.com/site/tudors/home. VIGARELLO. http://www. O audiovisual como documento histórico: questões acerca de seu estudo e produção.Jacques.com/ acesso em 25 de novembro de 2011. Robert A.282007. Harvard University Press. In: CORBIN. História do Corpo: da Renascença às Luzes. TIMPONI. SANTOS. COURTINE. Raquel. Rio de Janeiro.º 3.htm acesso em 20 de junho de 2011. Os Filmes na História.sites http://www. A História nos filmes. VIGARELLO.83 ROSENSTONE. 1995. Alain. http://www.algosobre.do acesso em 30 de março de 2011. . Andrea Paula dos. São Paulo: Paz e Terra.sho.

84 8 ANEXO 8. não devemos pensar que Hollywood representava o único local de produção cinematográfica. problematizava o status da imagem. Em sua origem a televisão. pois as séries televisivas de hoje em dia são baseadas no formato das radio novelas do século XIX. Asa & BURKE.cit. sendo bastante limitada e só se modificando muito tempo depois por volta dos anos 1960 e 1970. como exemplo Charles Pathé na França. Já em 1895. não possibilitava aos espectadores acesso a canais estrangeiros. Foi justamente na metade do século XX que a televisão permitiu a compreensão da criação de uma comunicação visual que emergia da então grande mídia. diferentemente do rádio. Entretanto. por conta de sua duração e qualidade imagética. pois como afirma Asa Briggs e Peter Burke 144 os filmes possuíam uma adaptação muito móvel em relação aos romances em que se baseavam.1 BREVE HISTÓRICO SOBRE A TELEVISÃO O surgimento da televisão está intrinsecamente ligado ao início da era do cinema. Op. 144 BRIGGS. Este era o mesmo período em que Hollywood passava a se tornar a terra do cinema. ainda no século XIX. uma espécie de cinema que só podia ser visto por uma pessoa de cada vez. a escrita e falada. pelo menos o norteamericano. mas que demoravam a ter cópias distribuídas para os demais lugares. juntamente com o cinema. que passou a ocupar o lugar do teatro da época. Nos anos 1920 a atividade cinematográfica deixava de ser responsabilidade e poder de determinados indivíduos para se tornar negócio nas mãos de grandes corporações. pois cada localidade tinha produção própria tendo em vista que eram produções baratas. Cabe lembrar que um dos primeiros clássicos de Hollywood foi “O nascimento de uma nação” do diretor inglês D. Isto porque na década de 1920 criou-se a ideia de mídia televisiva e posteriormente nos anos 1950 pensou-se numa revolução da comunicação. Edison teria obtido sucessos na continuidade de sua pesquisa criando o cinematógrafo. e obteve como primeiro resultado de sua extensa pesquisa o kinetoscópio. 169 .W. Esta última também exercia e ainda exerce enorme influência. Griffith em 1915. já possuindo personalidades específicas em cada país. já em seu início. Peter. Todavia. p. despertando uma atenção maior da platéia que passava a lotar as casas voltadas para essas exibições. Nas primeiras décadas do século XX o cinema já era conhecido por todo o mundo. A ideia de imagem em movimento começou a ser desenvolvida pelo americano Thomas Edison.

passou a considerar-se o começo da era de ouro do cinema.cit. Em 1927. 2007. que conquistou espaço próprio no competitivo mundo do século XX. quando. Eles surgiram como formas de lazer urbano. um novo tipo de lazer que se tornou possível graças ao advento da eletricidade. a Grã.americano voltado para uma reflexão social do mundo naquele momento.175 . pela magnitude daquilo que o Parlamento via como „interesses industriais. os britânicos instituíam por lei que “havia aspectos que mereciam intervenção.Bretanha desempenhava um papel de protecionismo com a sua própria indústria.. 146 Motivos pelos quais as formações da indústria cinematográfica americana e britânica apresentam diferenças. Até aquele presente momento. A imagem na televisão se dava da seguinte forma na primeira metade do século XX: Ela envolve a varredura de uma imagem por um feixe de luz em uma série de linhas seqüenciais movendo-se de cima para baixo e da esquerda para a direita. de negócios e bons lucros. educacionais e imperiais envolvidos‟”.. Todavia dois anos após. Os impulsos são então amplificados e transmitidos por cabos ou pelo ar. cada parte da imagem produz sinais que são convertidos em impulsos elétricos. no final do século XIX. por ondas de rádio que são reconvertidas em sinais de luz na mesma ordem ou no mesmo valor da fonte 145 146 BARACHO. com as diversas produções da empresa. em busca de mercado.85 A historiadora Maria Luiza Gonçalves Baracho afirma que Cinematógrafos. parques de diversão e cinemas representaram. Isso porque a base técnica da televisão era tecnologicamente diferente da do cinema. o novo lazer colaborou para o surgimento da indústria do entretenimento. as grandes corporações tiveram um forte apoio no cinema com a criação da Warner Brothers que visava a indústria cinematográfica e não somente o entretenimento. com a crise de 1929 haveria uma reformulação do cinema norte. Op. 145 Dessa forma. não temendo a televisão e seu pequeno desenvolvimento. Maria Luiza Gonçalves. Quando a luz passa sobre ela. p. empreendedores lançaram-se em novas atividades econômicas.42-43 Idem. comerciais. o cinema era a arte em ascensão.) Visto com interesse por alguns e com grande desdém por outros. pp. (. Enquanto os EUA deixavam a indústria cinematográfica nas mãos de grandes empresas. fortes ou fracos. No mesmo ano do início da era de ouro.

Os aparelhos foram introduzidos no mercado entre as décadas de 1920 e 1930. 150 Já em 1953. Nesse momento a grade horária americana continha mais filmes do que programas ao vivo. perpassada pela Segunda Guerra Mundial. em 1939. p. a televisão se tornava “o mais recente e valorizado bem de luxo do cidadão comum” 149. p. com claridade e características mecânicas. além de faroestes e filmes da Disneylândia. Baracho ressalta que a década de 1940. razão pela qual a televisão. mesmo período de criação da BBC. Durante a Segunda Guerra Mundial a televisão detinha horários específicos de exibição e programação. somente nos EUA. p. o radar. quebracabeças e novelas. Após o término da guerra e com um breve restabelecimento da economia mundial. É possível perceber que no início da ascensão da televisão no gosto popular a mesma se voltava para o entretenimento.61 148 . havia programas bastante estereotipados como espetáculos de jogos. Além desses.86 original. A qualidade da imagem se desenvolveu através da indústria britânica. produzindo desta maneira imagens sem zumbidos.234 150 Ibid. o rádio. tendo sido destaque na Feira Mundial de Nova York em que existia a Sala da Fama da Televisão. as tecnologias estavam todas voltadas para este fim. como dito anteriormente. p.179 149 Ibid. A revista Business Week ressaltava que. A comunicação instantânea tornava-se indispensável. no ano de 1952 já havia 15 milhões. notou-se que de 178 mil aparelhos em 1947.175 Ibid. 147 Ibid.148 No final dos anos 1930 a televisão era exibida publicamente em eventos. estabelecendo um padrão de linguagem próximo ao do cinema. o satélite. 147 A história modificou-se com a exibição da primeira propaganda na televisão. A capacidade que esse processo tem de parecer como imagem completa e em movimento ao olho humano em uma tela depende da retenção da visão. os aviões e outros equipamentos se desenvolveram simultaneamente para o envio e recebimento de informações e dados. Mesmo porque na década que se iniciava a programação já era um pouco mais variada do que quando sua origem. em 1948. ainda que muito menor que a programação do rádio. o então presidente norte-americano Dwight David Eisenhower afirmava que se um cidadão precisasse se entreter era muito mais barato e confortável ficar em frente à televisão do que sair e pagar para fazê-lo nos cinemas. devido ao fato de a principal empresa fornecedora de programação para os canais ser Warner Brothers.

a BBC. como foi o caso da televisão em cores. adquirindo um status de instantaneidade da informação e de relatos. A principal característica atribuída à televisão britânica diante desses acontecimentos foi o uso de intervalos comerciais que seguissem uma regulamentação prevista pelo Parlamento. menor o espaço vazio na tela e. a ponto de o primeiro considerar a televisão norte-americana um exemplo daquilo que não deveria ser seguido. eliminando o monopólio até então concedido a BBC. bem como produzindo um discurso de verdade. Quanto mais linhas. Nessa década ocorria também uma grande mudança com a televisão: o cabo era lançado no mercado contando inicialmente com 12 programas e chegando ao final da década com mais de 100. Ao mesmo tempo.87 A BBC em 1936 era a única empresa que mantinha uma estação de televisão regularmente. com 405 linhas151 a companhia abandonava as reprises da Disney para se deter no papel midiático da televisão. Anos depois a televisão já estabelecida em grande parte do mundo mostrava os conflitos da Guerra do Vietnã. ainda que de forma selecionada e reduzida. situação que foi se modificando ao longo de sua história. mesmo sendo pago. Inglaterra e EUA viam a televisão de forma distinta. a empresa através de profissionais qualificados e políticas institucionais conseguia competir com os demais canais em relação aos programas de esportes e comédias. também faziam parte da caracterização da televisão britânica e eram conhecidas por sua popularidade. Nesse momento também é perceptível o alcance que esta tecnologia possuía. se tornando uma forma lucrativa para empresas de tele-vendas. As comédias. a ascensão de canais independentes passava a estabelecer uma competição muito importante para o canal oficial. Em 1969 a população mundial (cerca de 723 milhões de pessoas) já tinha acesso a um evento de grande magnitude ao acompanhar a chegada do homem a Lua. conhecidas como sitcoms. abrangendo 90 países e 750 milhões de espectadores. Cabe destacar que os dois principais países neste momento. mas foi somente após o término da Segunda Guerra que. razão pela qual dois anos após o evento o Parlamento Britânico modificava suas leis. Durante os anos 60 e 70. portanto. Foi também na década de 1970 que a unidade da televisão britânica passou a ser conhecida. a televisão na Inglaterra era considerada como controle de status. especialmente por sua capacidade de rápida adaptação a mudanças. . O canal HBO (Home Box Office) foi um dos 151 Referente a qualidade da imagem transmitida. Foram cerca de 20 milhões de pessoas que acompanharam a exibição. maior a nitidez da imagem exibida. além de ter sido muito bem aceito pela população. Desde seu início. Um dos acontecimentos mais importantes para a televisão britânica passou a ser a transmissão da coroação da Rainha Elisabeth II em 1953.

Os principais elementos formadores de informação de qualquer veículo midiático nesse momento passariam a ser: o quê. o quem. a comunicação (escrita. portanto. algo que teve seus aspectos positivos e negativos. . Elementos que. educação e entretenimento. ouvida e vista) passou a depender de três grandes áreas no século XX: informação. A informação adquiriu esse status por conta da industrialização que previa dados mais confiáveis que alcançassem maiores públicos. a indústria também passava a exigir novas formas de lazer e entretenimento. Isso permitiu que cada vez mais o público se tornasse fiel a televisão e continuasse ligado a ela. permanecia fortemente nas políticas de Estados internas e externas. esse controle da mídia visual pelas companhias norte-americanas e britânicas passou a preocupar a UNESCO que em 1972 passou a refletir sobre as normas de exibição da televisão bem como a qualidade dos programas por ela apresentada. ela desenvolveu uma relação de dependência. Com a questão de entretenimento a televisão exerceu um papel muito importante ao passar em sua grade horária eventos esportivos. voltada especialmente para educar e informar o povo de acordo com os interesses de Estado. para quem e o onde.88 primeiros canais norte-americanos na televisão paga e estava primeiramente vinculado com filmes e esportes. Todavia. assim como no período da Segunda Guerra. já identificam qual o assunto tratado. porém de forma educativa tendo em vista que nesse momento a instrução de massa era essencial. A partir desses elementos. pois principalmente com os esportes. papel que os meios de comunicação passariam a desempenhar. de que forma ele visa e sua localidade. Pensava-se especialmente na possível dominação cultural exercida pelas duas nações em relação ao terceiro mundo que se encontrava como área de influência ou em governos ditatoriais apoiados pelos dois países. ainda que existissem muita produção local que evidenciava e reforçava os modos e costumes do terceiro mundo. quem ele visa. A educação de massas. Ao mesmo tempo.

Message the Alison Maclean 1528 to Emperor 8. . Simply Henry Charles McDougall 1519 3. Arise.ª Temporada Título do Episódio Diretor (es) Ano refere 1.The Definition of Love Ciarán Donnelly 1535 7.Everything is Beautiful Jeremy Podeswa 1531 2. Wolsey. Steve Shill 1521 Wolsey! 4.3.The Act of Succession Colm McCarthy 1534 5. My Lord Brian Kirk 1526 6. In Cold Blood Charles McDougall e Steve Shill 1518 2.Tears of Blood Jeremy Podeswa 1532 3.His Majesty‟s Pleasure Ciarán Donnelly 1535 6. His Majesty.Matters of State Dearbhla Walsh 1536 8.The Act of Treason Jon Amiel 1536 10-Destiny and Fortune Jon Amiel 1536 Ciarán Donnelly 1536 10. Wolsey.Checkmate Colm McCarthy 1533 4.1. True Love Brian Kirk 1527 7.89 8.2.Civil Unrest a que se .ª temporada 1.2 LISTA DOS EPISÓDIOS DA SÉRIE . the King Steve Shill 1521 5. Truth and Justice Alison Maclean 1528 9.Lady in Waiting Dearbhla Walsh 1536 9.ª temporada . Look to God First Ciarán Donnelly 1529 The death of Wolsey Ciarán Donnelly 1530 1.

Sixth and the Final Wife Jeremy Podeswa 1543 8.Protestant Anne of Cleves Jeremy Podeswa 1540 8.Secrets of the Heart Ciarán Donnelly 1545-1546 10-Death of a Monarchy Ciarán Donnelly 1547 .The Northern Upresing 3- Dissension Ciarán Donnelly and Ciarán Donnelly 1536 1536-1537 Punishment 4.90 2.Botton of the Pot Ciarán Donnelly 1541-1542 6.The Death of a Queen 5- Problems in Ciarán Donnelly the Jeremy Podeswa 1537 1537-1538 Reformation 6.4.Something for you Dearbhla Walsh 1541 4.ª temporada .You have My Permission Ciarán Donnelly 1542 7.Search for a New Queen Jeremy Podeswa 1538-1539 7.Moment of Nostalgia Dearbhla Walsh 1540 2.Natural Ally Ciarán Donnelly 1541 5.Sister Dearbhla Walsh 1540 3.The Undoing of Cromwell Jeremy Podeswa 1540 1.As it Should be Jeremy Podeswa 1544 9.