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O Brasil na era dos esgotamentos da imaginação política.

Uma nação de zumbis que têm na melancolia seu modo de
vida. Entrevista especial com Vladimir Safatle.
A Nova República, inaugurada noBrasil pós-ditadura, que se tornou um regime de
acomodação e integração dos setores que haviam apoiado o regime militar, se esgotou. Ao invés
de a esquerda romper com esse modelo, adotou como modo de governo a aliança com os
núcleos empresariais, transformando-se em um grande modelo de gestão da corrupção
institucionalizada, o que levou ao próprio esgotamento.
“Portanto, esse era o momento de aesquerda brasileira dar um passo atrás e falar: não é possível
fazer dessa forma, não é possível justificar nada desta maneira e não é possível vir com essa
história de que a corrupção é um dado inerente ao sistema capitalista. Isso é um desrespeito, não
só à população, mas à própria história da esquerda”, critica Vladimir Safatle em entrevista
concedida pessoalmente à IHU On-Line.
Dos esgotamentos de diversos modelos, inclusive o de representatividade tal como está posto,
emergiu uma nação de zumbis que têm na melancolia seu modo de vida. “O poder age
internalizando uma experiência melancólica, o poder nos melancoliza e essa é sua função, fazer
com que nos deparemos a todo momento com a crença da impotência da nossa força”, analisa.
“Isso que acontece no Brasil é só uma explicitação de um processo cultural, é assim que ele se
perpetua. A primeira questão para recuperarmos nossa imaginação política é fazermos a crítica
aos afetos melancólicos”, complementa.
“O problema é que se reduziu o discurso intelectual no Brasil a uma lógica de esconjuração,
então não faz mais sentido nenhum esperar que se tenha uma formação efetiva para preparar as
pessoas para alguma forma de debate”, pondera Safatle. “Há uma série de responsáveis, não é
só o pensamento conservador. Mesmo no interior daesquerda há uma incapacidade da
intelectualidade de se colocar como uma força crítica, como se a ideia de crítica já fosse um
crime de lesa-majestade, já fosse um tipo de imposição de classe”, ressalta.
Vladimir Safatle é graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo - USP e em
Comunicação Social pela Escola Superior de Propaganda e Marketing. Realizou mestrado em
Filosofia pela USP e doutorado em Lieux et transformations de la philosophie, pela Université
de Paris VIII. Atualmente é Professor Livre Docente do departamento de Filosofia da USP. Foi
professor visitante das Universidades de Paris VII, Paris VIII, Toulouse, Louvain e Stellenboch
(África do Sul), além de responsável de seminário no Collège International de Philosophie
(Paris).
É um dos coordenadores da International Society of Psychoanalysis and Philosophy, do
Laboratório de Pesquisa em Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (Latesfip) e presidente da
Comissão de Cooperação Internacional (CCint) da FFLCH-USP desde 2012.
É autor de diversos livros, dentre os quais destacamos A paixão do negativo: Lacan e a
dialética (São Paulo: Unesp, 2006), Lacan (São Paulo: Publifolha, 2007), A esquerda que não
teme dizer o seu nome (São Paulo: Três Estrelas, 2012) e O circuito dos afetos. Corpos
políticos, desamparo e o fim do indivíduo (São Paulo: Cosac Naify, 2015).
Confira a entrevista.

São aberrações inacreditáveis. Esta é uma das cenas mais impressionantes da história brasileira. Com esse regime de governabilidade. ficou muito claro o descolamento da casta política brasileira e as expectativas da população. com o Lula e com a Dilma. A Constituição foi promulgada em 1988. pois vivemos em um país com uma jornada de trabalho de 44 horas semanais. eles tocam todo mundo. . A integração não significava só chamá-los para dentro do governo. mas isso é justificável dentro do modelo da Nova República. A era histórica é a Nova República. que passará por todos os partidos. de um modelo de desenvolvimento e da esquerda brasileira. mas uma redemocratização que durou 30 anos e nunca se realizou por completo. essas travas significavam que não há como passar grandes reformas dentro de uma coalizão onde parte dela é exatamente quem se beneficia do atraso. Por outro lado. Não lembro nenhum outro momento da história brasileira em que houvesse uma situação tão dramática quanto a ocasião em que uma massa de pessoas em Brasíliacorria em direção ao Congresso e tudo o que a polícia conseguiu fazer foi empurrar a massa para o lado. percebemos isso muito claramente porque é um modo de governo. Isso é uma das coisas mais fantásticas dos problemas de corrupção no Brasil. Isso funcionou até o momento em que. que acabou em 2013. mas em troca quem ganha a eleição governa. Um exemplo tácito é a não discussão da redução da jornada de trabalho. enquanto boa parte do mundo civilizado tem 40 horas e alguns países têm menos de 35 horas. seus modelos de relação com os núcleos empresariais e tudo que fará com que a Nova República se transforme em um grande modelo de gestão de uma corrupção institucionalizada. porque nunca existiu para se realizar por completo. Esgotamento da Nova República A Nova República nasceu da união entre o PMDB e o PFL para a eleição deTancredo Neves e essa união selou toda a história do Brasil até hoje.IHU On-Line – Como o senhor analisa a atual conjuntura? Vladimir Safatle – Estamos em um momento de triplo esgotamento: de uma era histórica. foi instalado naNova República um sistema de travas. e até hoje não teve uma lei para poder aplicar um imposto constitucional. Sistema de pacificação nacional Na Constituição o único imposto que é constitucional é o imposto sobre grandes fortunas. não uma prática específica. Uma das questões é pensar por que tivemos por 13 anos um governo de esquerda e as pautas tradicionais do reformismo social-democrata sequer foram cogitadas. esse modelo de travas foi um sistema de pacificação nacional porque ele significa que todos os que fossem entrar no governo precisariam gerenciar o atraso e foi assim com Fernando Henrique. em 2013. significava adotar o seu modo de governo. uma pauta tradicional do sindicalismo. Assim foi estabelecido um regime de governabilidade baseado na integração de setores que haviam apoiado a Ditadura Militar. seus modos de aliança. para que os manifestantes tocassem fogo no Palácio Itamaraty. um momento histórico baseado em certa ideia de conciliação e redemocratização.

O modelo varguista é aquele modelo em que Vargas dizia: “meus problemas não são meus inimigos. no entanto. colocou as mãos no petróleo e repetiu a foto de Getúlio Vargas. Só que o Vargas morreu. ele saiu do ônibus e . entrar juntamente em uma coalizão contraditória. ou seja. eu quero saúde e educação “padrão Fifa”. só que elas tinham produzido também novas necessidades e essas novas necessidades estavam corroendo a renda delas. Isto é. "Esse era o momento de a esquerda brasileira dar um passo atrás" Também foi consolidado o aumento real do salário mínimo. precisávamos de um verdadeiro segundo ciclo de política de combate à desigualdade social. que elas tinham subido de renda. é um país suspenso no ar à “espera de”. Quando o Lula vestiu o macacão da Petrobras. incapaz de incorporar demandas de justiça social – no sentido mais fora do termo –. como o Mais Médicos e outros desse tipo. Uma coalizão que. Sem alternativas Como não havia uma segunda alternativa. tirou 36 milhões de pessoas da miséria e da pobreza e colocou em ascensão uma classe média pobre. Entretanto. mas o Lula não. eu diria que desde 2013 este país vive em suspensão. a não ser programas muito pontuais. Então. o que aconteceu? Chegou 2013 e as pessoas perceberam que o Brasil estava paralisado. um segundo ciclo de políticas. foi o ápice da Nova República. então ele não precisou ver isso. mas o preço disso é colocar as demandas populares no mesmo nível das demandas das oligarquias insatisfeitas e que iam. então. é o que ele conseguiu fazer de melhor no sentido de aproveitar esse sistema de travas e de coalizão e passar a um programa mínimo deassistência social que colocou 36 milhões de pessoas em ascensão. nada ocorre depois de 2013. reorganizado o capitalismo de Estado brasileiro através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES. E. ele saiu do sistema SUS e foi comprar um plano de saúde e viu a mesma coisa. não havia nada desde 2010. meus problemas são meus aliados”.O vazio pós-2013 Essa cena demonstrava muito claramente a que ponto tínhamos chegado. o esgotamento do modelo de desenvolvimento brasileiro conhecido como lulismo. que nunca foi colocado sequer em pauta. Então. Esgotamento do Lulismo Nesse ponto vem o segundo esgotamento. de fato. tanto à esquerda quanto à direita. Então. não teve nenhum programa novo. Esse tipo de sistema de incorporação funciona assim: incorpora-se a massa excluída do processo político. que é o populismo. A esquerda conseguiu fazer essa perpetuação porque ressuscitou o único modo de incorporação das massas ao processo político que oBrasil conhece. durava só um tempo e explodia porque chegava um momento em que tinha que gerir insatisfações em todos os lados. O lulismo. por ser contraditória. mas que tinha poder de compra. ele viu o processo se degradando. não há nenhum ator político capaz de ouvir as demandas. e houve a perpetuação do modelo de coalizaçãoherdado da política da Nova República. por um lado. o sujeito saiu da escola pública e foi colocar seus filhos na escola privada e viu que estava perdendo parte do seu salário para a escola privada de péssima qualidade. toda a criatividade política que foi colocada no governo paralisou. ele sabia muito bem o que estava fazendo. pois não se repete uma das imagens mais paradigmáticas da história brasileira impunemente. ele compreendia que ele funcionava no modelo varguista.

e. dizendo que era um absurdo a corrupção. Estamos em uma situação tal. vai retirando legitimidade de enunciação à medida que se flexibilizam os julgamentos éticos e morais a partir dos interesses imediatos. de repente. passa a fazer a mesma coisa. que ao acordar sente uma profunda tristeza ao lembrar da cena do jantar em seu sonho. temos essa situação. que de fato era uma imoralidade. Estamos em um processo de desconstrução contínuo de tudo. estava descrita muito claramente no nome do partido que governou o país nesse período. o que nunca passaria por nenhuma eleição. Todavia. tenta-se recolocar esse modelo. Na Ditadura a esquerda perdeu. mesmo na Ditadura Militar. submetendo os julgamentos a um cálculo político. formando uma parcela considerável da opinião pública. Freud pensa o óbvio: “meu pai estava morto e eu não sabia”. que é um país que ficou parado durante 50 anos devido a uma contradição que. mas não foi vencida porque conseguiu consolidar uma resistência considerável em vários setores. que é o modelo de terra arrasada. 2012). Essa é a melhor descrição da nossa situação. mas à própria história da esquerda. que não consegue nem mais mentir. que é a pior situação possível. Portanto. Então. Isso me lembra um pouco a situação mexicana. Assim. O país dos zumbis Os três processos se engatam e ao se engatar chegamos à situação atual.comprou um carro parcelado e também viu a mesma coisa. o que acontece? Essa esquerda terá um curto-circuito porque chega um momento em que este modelo de governabilidade começou a cobrar o seu preço. não é possível justificar nada dessa maneira e não é possível vir com essa história de que a corrupção é um dado inerente ao sistema capitalista. entre outras coisas. em que seu pai está sentado à sua frente. e o seu preço era a corrupção. É claro que a bomba vai estourar no colo do PT e as pessoas vão dizer “você eu não quero nunca mais”. com o Partido dos Trabalhadores . o Partido Revolucionário Institucional – PRI. . que não se consegue mais incorporar nenhuma força de oposição. Por isso eles tentam impor isso à força. não só à população. inclusive. que desde 1945 sempre teve força. onde fica muito claro que há uma oligarquia financeira que tomou de assalto o poder e vai impor um modelo de gestão. Isso é um desrespeito. que era uma corrente política. mas ele não funciona mais. porque não há outra maneira. porque se tem um modelo de funcionamento da esquerda que precisaria ter sido abandonado e não foi. muito próxima daquilo que Freud comenta em A Interpretação dos Sonhos (Porto Alegre:L&PM Editores. o que não deixa de ser impressionante. Esgotamento da esquerda brasileira Só que ainda teve um terceiro elemento. temos um país de zumbis. Se juntarmos esses três gastos já se corrói um terço do salário dessa dita nova classe média. quase como um ato reflexo. esse era o momento de a esquerda brasileira dar um passo atrás e falar: não é possível fazer dessa forma. Então. juntaram-se duas coisas: o fim da Nova República e o esgotamento de um modelo de desenvolvimento econômico. De certa maneira.PT há uma diferença essencial: o partido passou 40 anos “enchendo o saco” do país inteiro. e aí. e aí sim foi explosivo: o esgotamento da esquerda brasileira.

perdeuse uma visão de totalidade do processo. não haverá mais esquerda com força de mobilização. Teremos algo semelhante ao que aconteceu na Alemanha há alguns anos. o que considero uma coisa sem pé nem cabeça. de estrutura sistêmica. é uma crise do pensamento de esquerda? "Não é possível vir com essa história de que a corrupção é um dado inerente ao sistema capitalista" Vladimir Safatle – Tem uma esquerda para qual a única possibilidade de existência se dá sob a forma de representação. e isso bloqueia radicalmente a potência detransformação social. as ocupações dos artistas no Ministério da Cultura. É como se falasse em crítica da representação como se fosse um convite ao autoritarismo. quebra a ideia de lugares e de fala específicos. porque fizemos a crítica da representação da filosofia há mais de 100 anos. Ao fazer a crítica à normatividade inerente a uma concepção de universalidade. Estabelecem-se lugares de fala. que é se questionar sobre o que seria uma verdadeira universalidade. como as ocupações estudantis.IHU On-Line – Esse esgotamento da esquerda. esse algo não existe. destrutível em certo ponto da esquerda. com isso. mas que não constituem uma constelação. compreendendo que essas estruturas não dão mais conta dos processos de mobilização. Portanto. ou seja. se não consegue representar algo. sindicato ou associação. e. se você não dramatiza os conflitos sociais nas formas tradicionais de representação. Acho engraçado. A constelação pressupõe o quê? Que quem entra na constelação pode ocupar qualquer espaço. partiu para uma fragmentação absoluta de pautas. que também se manifesta com a falta de diálogo com 2013. mas na política foi impossível de fazer. Para eles. que fazendo a crítica da representação. só que elas não conseguem construir uma constelação. Enquanto não houver capacidade de reorganizar demandas dentro de um sistema de constelação que permita a encarnação de todas essas demandas em um ponto. Política O que há de próprio da política é que ela desconstitui todos os lugares e produz uma espécie de sujeito genérico que pode ocupar todos os lugares porque é capaz de perceber as ressonâncias de todas as demandas. a soma das pautas não é maior que o todo. esquece-se que a crítica à falsa universalidade é feita tendo em vista uma verdadeira universalidade e que esse seria o objetivo teórico maior da esquerda. com uma única pauta: transparência e liberdade de expressão na internet. inclusive chegando em segundo lugar em algumas eleições. então o processo não existe ou é um protofascista. Então há pautas específicas que só conseguem gerar mobilização durante um tempo. essa crítica a uma certa universalidadecriou um efeito terrível. o que acontece? Estamos nessa situação surreal em que há mobilizações fortes. Onde está este partido hoje? Este partido sumiu porque não se cria política de pauta em pauta. a luta das feministas e toda uma série de discussões. Agora tem outro lado da esquerda. mas não se percebe o quão isso é autoritário e antipolítico. quando apareceu um partido chamado Pirata. que teve uma ascensão fulminante. incorporação em um partido. circula em qualquer espaço. Então. isto é. IHU On-Line – Como escapar da melancolia do vazio da esquerda inaugurado em 2013? . o que é uma oposição sacrossanta para uma certa ideia de mobilização hoje.

Isso é uma patologia clássica de situações em que há um processo de esgotamento sem outra alternativa à vista. entre o Ministério da Agricultura e o Ministério do Meio Ambiente. só que não foi capaz de. dizendo: eu de fato estou do seu lado. é assim que ele se perpetua. IHU On-Line – É possível vislumbrar um novo corpo político diante da conjuntura atual? "O poder age internalizando uma experiência melancólica" Vladimir Safatle – Conhecemos o modelo de incorporação. o poder nos melancoliza e essa é sua função. que é dada pela internalização de um princípio disciplinar. o povo é aquele que se . fica-se preso em um tempo passado. dá uma compensação simbólica ao perdedor. que é esse modelo baseado nopopulismo. mas a coisa mudará à frente. em função do luto. uma experiência de fraqueza contínua que vai até uma posição depressiva de achar que “não tenho mais nada a fazer.Vladimir Safatle – Essa é uma das reações naturais. uma fixação no interior de uma experiência atemporal que não tem mais nenhum tipo de implicação. essa forma de incorporação de fato constitui o povo como uma categoria fundamental do político. Uma das funções da melancolia é paralisar a capacidade de ação do sujeito. que não poderia ter sido perdido. O populismo e suas figuras aparecem como uma espécie de mediador universal que. Fixou-se no que foi perdido. Nesse contexto há duas consequências possíveis: ou se entra em um processo de autorreprimenda pelo que foi perdido. Isto é. Conhecemos muito bem esse processo de incorporação na América Latina. ou seja. Freud descreve as melancolias como uma forma de amor por objetos perdidos. A primeira questão para recuperarmos nossa imaginação política é fazermos a crítica aos afetos melancólicos. é melhor eu voltar aos meus afazeres e esquecer completamente a minha dimensão social”. Por isso que o afeto fundamental do poder é a melancolia. O poder age internalizando uma experiência melancólica. entre as Forças Armadas e os defensores de direitos humanos. Isso se chama melancolia. levando-se a uma situação de completa paralisia. Isso que acontece no Brasil é só uma explicitação de um processo cultural. responsabilizando-se pela perda. A esquerda perdeu seus objetos. elaborar algo novo. quando se espera que o conflito exploda. mas a correlação de forças não permite. Por isso. Então. de uma forma ou de outra. incorpora várias demandas dentro de uma figura que de fato aparece como líder e essa liderança funciona como um significante vazio. e assim ad infinitum tornam-se objetos de manobra gerencial. precisa-se de uma coerção interna. porque coerção é uma coisa que precisa se fazer 24 horas. Portanto. e o que foi perdido é internalizado no próprio âmago como uma sombra. ou se transforma a perda em agressividade como se o objeto perdido fosse uma espécie de traidor. O teórico argentino Ernesto Laclau descreveu esse modelo de maneira fantástica e ele funciona muito bem na nossa realidade. entre o Ministério do Agronegócio e os ecologistas. Só que as coisas nunca mudam e vai se perdendo adesão paulatinamente. Outras incorporações Só que cabe a nós pensar outra forma de incorporação. entre o Banco Central e o Ministério do Planejamento. ao invés desta coerção externa. os conflitos entre os monetaristas e os desenvolvimentistas. Nunca se conseguiu transpor para dentro do Estado todos osconflitos da sociedade civil. logo. o poder não age coagindo as pessoas diretamente. não existe nenhum poder que se imponha por coerção por muito tempo. fazer com que nos deparemos a todo momento com a crença da impotência da nossa força.

que faz com que seja absolutamente necessário. ainda mais para a situação de regressão política que vemos hoje não só no Brasil. em um modelo de desenvolvimento. Sabemos como isso se deu no peronismo até que não fosse possível mais nenhuma possibilidade de governo. com a ideia de heterogeneidade básica. estado-nação. Isso porque há um processo de flexibilização contínua. Seria muito mais importante estar discutindo instituições pós-nacionais e estados pós-nacionais do que esse tipo de recuperação de uma velharia. estava à frente daEuropa nos . ele faz da crise seu modo de existência. Isto é. Esse aumento geral da produtividade é um objetivo em si. a China. em larga escala. e esses interesses entrarão em uma relação contratual. são sujeitos que não estão dotados de interesses e identidades. isso se deve ao seu cosmopolitismo e ao seu internacionalismo. e tem sempre o jogo do povo contra a elite. que pode descambar em várias coisas. Falta a capacidade de sabermos o que significa uma associação de sujeitos políticos. de povo. nem associação de indivíduos. mas podem entrar em uma relação de constelação sem constituir uma unidade. Todavia. em processo de identidade e em processo de unidade. é uma das coisas mais abstrusas possíveis. Se fosse um marxista vulgar eu diria que desde o [Karl] Marx [1] a ideia fundamental é que o capitalismo é um sistema de gestão de crises. diga-se de passagem. em que estabeleço um contrato virtual. que é o resultado desse embate entre força produtiva e relação social de produção. entre elas. Esse é um tipo de corpo político de outra natureza. do ponto de vista mesmo da organização institucional. vimos que isso aconteceu também no Brasil. Povo Isso tudo acontece porque o povo é tomado como uma categoria central.A crise se tornou um modo de existência? Vladimir Safatle – Eu falei isso um tempo atrás. cada um com seus múltiplos interesses.incorpora no interior desse processo com as massas. que não é nem um e nem outro. Ao invés de nos prendermos à dicotomia entre povo e indivíduo. que acredito ser um elemento fundamental. sob vários aspectos. tal como o liberalismo propõe. que não cabe nas ideias de nação. China e o capitalismo Uma questão interessante é: por que não apareceu o capitalismo na China inicialmente? Porque do ponto de vista tecnológico. IHU On-Line . mas que consegue construir um tipo de implicação genérica com o que é heterogêneo. mas é impossível falar em povo sem falar em processo de exclusão. Esse negócio de falar em estado-nação em 2016 só pode ser piada. decisivo e fundamental que as formas de vida e as relações tradicionais sejam continuamente quebradas. Se a esquerda tem uma razão de existência. O que temos como característica desse modelo de incorporação. isto é. Aí há todo o malabarismo retórico de tentar esconder que uma parte da elite está com você. o do aumento geral de produtividade. é uma gestão de paralisia e que é a transformação do povo em categoria central. mas no mundo inteiro. o que não se pode entender em um esquema nacionalista. deveríamos estar tentando desenvolver um terceiro tipo. o que ocorre por um princípio fundamental. é uma categoria provisória. que não existe mais. diria duas coisas: o povo não é uma categoria fundamental da política. É importante que ele se constitua em situações provisórias para dar forma a certos antagonismos fundamentais. o que. em um tipo de nacionalismo como elemento fundamental da esquerda.

quem realmente não trabalha neste país? Quem de fato nunca precisou trabalhar?" Crise contínua Dentro desse modelo. Não é por outra razão que temos patologias da ação da disfunção dos indivíduos. Agora. Um discurso moral é mais ou menos um jogo de virtudes: só aquele que tem a virtude da coragem sobreviverá. O que é interessante é a incapacidade de desenvolver um trabalho sistemático para quebrar esse tipo de argumento. se tem coragem de assumir riscos. contra o outro que recebe um auxílio de Bolsa Família. então a crise não o afetará. Crise moral Esse é o horizonte. como a depressão. a crise afeta aqueles que são paralisados – os covardes – ou aqueles que agem como crianças mimadas e que esperam o amparo de algum tipo de Estado protetor ou Estado-providência. de ter sua força empreendedora de operar inovações. quão impenetrável o empreendedorismo é. vagabundo por vagabundo. a entrada na vida social com capital vindo de herança do patrimônio familiar é decisiva. daqui a dez anos mais uma e para sempre até não ter mais o sistema de previdência. assim dá-se um jeito de sumir com uma parte da população para fora do processo de trabalho. e isso também com os direitos trabalhistas. Aí se faz umaReforma da Previdência hoje e daqui a cinco anos outra. dos indivíduos. O fato é que no sentido mais tradicional e tosco do termo. desvalorizando o trabalho etc. Patrimonialismo econômico Todos os dados que vemos nos últimos quatro ou cinco anos mostra quão patrimonialista é o nosso modelo econômico. como uma guerra. única e exclusivamente. ou seja. por conta disso. a segunda é uma função moral. que só se intensificou para uma situação na qual viveremos em crise contínua. quão impermeável à concorrência ele é. tem uma questão que é interessante: por que se tem uma passividade da população em relação a isso? Porque a crise é um discurso moral. por exemplo. mas. Não existe a ideia de que eu preciso fazer o processo funcionar para que o excedente de produção apareça e com esse excedente de produção eu consiga estabelecer uma dinâmica cada vez maior da produtividade. que é a pior de todas. o discurso da crise terá duas funções: a primeira é uma função econômica. jogando os preços para baixo. que nos leva a trabalhar duas vezes mais que nossos pais para ganhar a mesma coisa e ter o mesmo padrão de vida. "O sujeito reclama contra um negro que tem uma cota. Toda essa dinâmica gera um processo contínuo de desvalorização do trabalho que significa que há duas possibilidades: a intensificação dos regimes de trabalho.séculos XVII e XVIII. Tem uma função econômica porque dirá que a crise não passa e. sobretudo . faz-se uma espécie deflexibilização contínua de todas as regras e direitos trabalhistas. e o capitalismo não surge lá porque não existe a ideia de excedente. até não haver mais direito trabalhista algum. Isso porque chegamos a uma situação em que é muito fácil não trabalhar quando se tem herança. ou gerir catástrofes. Assim vai se criando uma situação na qual a responsabilidade da impossibilidade de inserção econômica é colocada nas costas. O sujeito que se vê fracassado economicamente se vê fracassado moralmente.

eles estão presentes nas grandes cidades brasileiras. outra ali. absolutamente nada. Mesmo em um país governado por conservadores não se fecham escolas. No entanto. pela capacidade de estabelecer pautas absolutamente decisivas. se eu vir aqui e receber R$ 300 pela palestra e me esquecer de colocar isso no imposto. Vocês conseguem imaginar o que isso significa? Isso não tem nada a ver com esquerda ou com direita. Ou seja. eu não trabalho mais. em um gestor dos próprios imóveis desse sistema e não precisará fazer mais nada. pois ninguém vai dar 40% para o Estado podendo fazer marketing pessoal. mas não conheço nenhum lugar que tenha fechado. porque eles não querem que a escola seja fechada e sucateada. ela não tem mais nenhum tipo de medo – porque a relação que o político tem que ter com a sociedade é de medo.Como o senhor enxerga esse movimento dos jovens. é muito difícil não ter a impressão de que o sistema econômico é constituído simplesmente para fazer a defesa do patrimônio.75% de taxa de juros. pode se transformar. enquanto nos Estados Unidos o imposto pode chegar a 40%. mas eu queria insistir em outro aspecto. Pode ser que cobrem nas universidades ou nos demais níveis de ensino. se o político não teme mais a sociedade. porque a casta que nos governa é uma casta que consegue se perpetuar. Eu vejo isso como uma vergonha profunda. quem realmente não trabalha neste país? Quem de fato nunca precisou trabalhar? Rentismo Tenho amigos que nunca trabalharam porque fizeram uma coisa aqui. vagabundo por vagabundo. mas. se tenho R$ 3 milhões no banco e eu sei jogar um pouco com o sistema financeiro. nada mais do que isso. trabalharam alguns anos e chegaram aos 50 anos e não trabalham mais. pode ter certeza de que serei multado. Isso significa muito claramente como temos um sistema de defesa de casta. Por exemplo. o que obriga à filantropia. Isso tem um padrão mundial. contra o outro que recebe um auxílio de Bolsa Família. que está sendo constituído pelos estudantes com as ocupações nas escolas? Vladimir Safatle – Eu poderia dizer que se trata de uma juventude absolutamente fantástica pela sua capacidade de mobilização. IHU On-Line . Por exemplo. isso é uma discussão sobre falência completa do Estado brasileiro. Se eu tiver três imóveis. em São Paulo temos a mesma casta governando há 20 anos. esperando um parente morrer para sua renda aumentar. NoBrasil o imposto sobre herança vai no máximo a 4%. simplesmente. Se uma pessoa tem três ou quatro imóveis. acabou. Sempre achei isso muito engraçado.em um país que tem 14. pois o sujeito reclama contra um negro que tem uma cota. porque um país que chega a um ponto em que seus estudantesprecisam ocupar uma escola porque eles querem ter aula. em um país como o nosso. Todos nós conhecemos pessoas assim. eu não preciso. isso não é uma discussão sobre esquerdismo ou pensamento conservador. Anti-intelectualismo As escolas são fechadas por duas razões: primeiro. Uma das coisas mais engraçadas que achei dessa situação toda foi uma declaração do Paulo Maluf que . de casta política. consigo não declarar no Imposto de Renda se eu alugá-los. enfim. Acho engraçado que um dos discursos mais contínuos hoje do conservador brasileiroé o prazer quase infantil que as pessoas têm de sair na rua e gritar ou chamar os outros de vagabundo. operando seu patrimônio.

como se a ideia de crítica já fosse um crime de lesa-majestade. porque era a maneira de utilizar o setor mais .” E. Ou alguém comoGolbery do Couto e Silva. fui fazer meu curso de filosofia na Universidade de São Paulo . [4] que podia ter todos os defeitos que tinha. se pegar meu currículo verão que é verdade. da experiência complexa e daquilo que de certa maneira te tira do lugar. Há uma série de responsáveis. de fala. que todos os demais devem ser criticados.falava: “eu nunca fechei escola. mas pelo menos lia o que criticava. dá-se a impressão de que. em especial dos evangélicos. Esse tipo de lógica do ressentimento todo mundo conhece. Assim. Mesmo no interior da esquerda há uma incapacidade da intelectualidade de se colocar como uma força crítica. A fantasia da genialidade Isso sempre esteve presente. além disso. não é só o pensamento conservador" Porque. não há nenhuma razão de fazer a defesa da forma difícil. de fato. pois acreditam que só existe um livro para ser lido. e que desde o começo da Nova República tornou-se uma espécie de “acordo” para colocar esse anti-intelectualismo para fora. já fosse um tipo de imposição de classe. O problema é que se reduziu o discurso intelectual no Brasil a uma lógica de esconjuração. [3] mas sobre o Marx eu não tive. eu abri escola. mesmo certos intelectuais conservadores fizeram um flerte inacreditável com os intelectuais mais toscos e primários. olha que engraçado. direitos de expressão por uma série de razões. que fazem um trabalho primário nesse sentido. então não faz mais sentido nenhum esperar que se tenha uma formação efetiva para preparar as pessoas para alguma forma de debate. se fôssemos à biblioteca do sujeito encontraríamos os livros de quem ele criticava. essas igrejas ganharam força na Ditadura Militar não por acaso. Há outro elemento. porque faz parte de um imaginário de certa parcela da população que não consegue ser reconhecida na sua “genialidade”. temos uma parcela dos discursos religiosos brasileiros. se olharmos de onde vêm os direitos de retransmissão de televisão e rádio. que nenhum outro é necessário e. “são antros de marxismo”. verificaremos que na época da Ditadura eles sobem vertiginosamente. que vem justificado por certo anti-intelectualismo que é muito forte na sociedade brasileira. tive aula sobre [Thomas] Hobbes. porque partia-se do pressuposto que você tinha que entender seu inimigo. isso ganhou o direito de cidade. tem uma coisa estranha aqui. logo. "Há uma série de responsáveis. em última instância. a ponto de eles nos deixarem com saudade de uma época em que se tinha como pensamento conservador oJosé Guilherme Merquior. em última instância. então se volta contra a universidade e contra a Constituição. o que já é pedir demais nos dias hoje. No entanto. Sempre houve uma parcela da população que ficava falando que as universidades brasileiras não produzem nada. Entretanto. é uma maneira caricata de falar que estamos em uma situação em que não tem nem mais esse discurso de que educação e saúde são prioritárias. Discurso religioso Para finalizar.USP e eu nunca tive uma aula de Marx. pois o sujeito pensa que tem uma genialidade inacreditável. não é só o pensamento conservador. [2] sobre[John] Locke. No Brasil.

sendo considerado o principal representante do empirismo britânico e um dos principais teóricos do contrato social. de 06-10-2008. trata de teoria política. um dos pensadores que exerceram maior influência sobre o pensamento social e sobre os destinos da humanidade no século XX. O Leviatã (1651). Por Ricardo Machado Notas: [1] Karl Marx (Karl Heinrich Marx. que tem como título A (anti)filosofia de Karl Marx. de 03-052010.reacionário das igrejas norte-americanas que estavam vindo para cá como uma contrabalança ao que eram as alas dos progressistas da Igreja. Neste livro. o povo tinha o direito de se revoltar contra eles. como David Hume. cientista social. Para garantir esses direitos naturais. ele sustentou que nascemos sem ideias inatas. Uma leitura a partir de Marx. tinham direitos naturais . Então. Dra. igualmente. Se esses governos. 1818-1883): filósofo. onde desenvolve sua teoria sobre a origem e a natureza do conhecimento. O conceito de identidade pessoal. à liberdade e à propriedade. criando uma situação como essa. seus conceitos e questionamentos figuraram com destaque na obra de filósofos posteriores. confira a entrevista O conflito é o motor da vida política. concedida pela Profa. os homens haviam criado governos. historiador e revolucionário alemão. As pessoas podiam . A respeito desse filósofo. alas conservadoras e progressistas – basta lembrar que Martin Luther King era um pastor e uma pessoa que teve um papel absolutamente decisivo nos debates sobre direitos humanos. Sua obra mais famosa. Afirma. (Nota da IHU On-Line) [2] Thomas Hobbes (1588–1679): filósofo inglês. Hobbes nega que o homem seja um ser naturalmente social. ao contrário. Em oposição ao Cartesianismo. confira a edição número 278 da IHU OnLine. Leia. Certamente ele morreria de tristeza de ver o tipo de intervenção que temos hoje em relação a certos problemas ligados a direitos humanos vindos dessas igrejas. e que o conhecimento é determinado apenas pela experiência derivada da percepção sensorial. que os homens são impulsionados apenas por considerações egoístas. a liberdade e a propriedade. Locke foi o primeiro a definir o "si mesmo" através de uma continuidade de consciência. concedida por Pedro de Alcântara Figueira à edição 327 da IHU On-Line. Jean-Jacques Rousseau e Kant. economista. Suas ideias ajudaram a derrubar o absolutismo na Inglaterra. não respeitassem a vida. contudo. tudo isso foi se alimentando e retroalimentando. ao nascer. de autoria de Leda Maria Paulani.direito à vida. A filosofia da mente de Locke é frequentemente citada como a origem das concepções modernas de identidade e do "Eu". Também escreveu sobre física e psicologia. a entrevista Marx: os homens não são o que pensam e desejam. A IHU On-Line preparou uma edição especial sobre desigualdade inspirada no livro de Thomas Piketty O Capital no Século XXI. (Nota da IHU On-Line) [3] John Locke (1632-1704): filósofo inglês e ideólogo do liberalismo. Também sobre o autor. Leia a edição número 41 dos Cadernos IHU ideias. Nos Estados Unidos teremos. Ele postulou que a mente era uma lousa em branco (tabula rasa). O pensador escreveu o Ensaio acerca do Entendimento Humano. Maria Isabel Limongi à edição 276 da revista IHU On-Line. Dizia que todos os homens. Locke rejeitava a doutrina das ideias inatas e afirmava que todas as nossas ideias tinham origem no que era percebido pelos sentidos. de 20-10-2008. mas o que fazem. que retoma o argumento central da obra de Marx O Capital. intitulada A financeirização do mundo e sua crise. Hobbes estudou na Universidade de Oxford e foi secretário de Sir Francis Bacon. do ponto de vista político e religioso.

Luiz Inácio Lula da Silva. já no governo Itamar. de caráter neoliberal. ainda que tenha introduzido modificações e adaptações no seu funcionamento para atender a alguns compromissos sociais mínimos. responsáveis pelo Golpe de 1964 e por seu modelo econômico. Dedicou-se também à filosofia política. para a ascensão do PSDB. bem como a emergência de atores ligados aos movimentos sociais e a classes trabalhadoras à condição de gestores do capitalismo brasileiro nos quatro mandatos . criando nesta simbiose um processo de circulação das elites e de ascensão de novos segmentos sociais aos seus quadros. apesar de reivindicar o espírito de autenticidade do velho MDB e uma concepção socialdemocrata. que não alterou substancialmente as bases do novo modelo de dependência. a definição de empresa nacional e as limitações das taxas de juros reais da Constituição de 1988. estes último ficarão na defensiva em vários momentos. lentos. Durante este processo de exercício de hegemonia econômica e ideológica que mantém a democracia dentro de marcos relativamente seguros à burguesia nacional e ao grande capital internacional. Professor universitário. seguiu-se a renúncia e impeachment deFernando Collor e a transição. completamente independente das questões divinas. São exemplos destas concessões os direitos sociais. parece encerrar um ciclo iniciado no Brasil a partir da abertura em 1979. mas seu pensamento se enquadra naquilo que é correntemente compreendido como "social-liberalismo". política e ideológica deste bloco abriu o espaço para chegada ao governo brasileiro do PT. ou eliminá-las. agrícolas e industriais do país. Para isso. restaurando parcialmente ou totalmente seu protagonismo. dirigida pela elite intelectual pequeno-burguesa paulista que. ainda que busquem arranjos políticos para neutralizá-las. graduais e seguros para as classes dominantes. declarando que a vida política é uma invenção humana. criava um novo bloco de poder. É considerado um dos maiores divulgadores do liberalismo no Brasil. ensaísta. (Nota da IHU On-Line) [4] José Guilherme Alves Merquior (1941-1991): foi um crítico literário. aceitou gradativamente a gestão política do Estado brasileiro para o centro ou à esquerda ao mesmo tempo em que manteve o controle sobre o poder econômico. com a eleição de Tancredo Nevese posse de Jose Sarney. No Segundo Tratado sobre o Governo Civil. configurou-se essencialmente numa obra de hegemonia política das classes dominantes que articulou a preservação e o aprofundamento dos seus interesses com a pressão crescente das massas por participação política e inclusão social. que condicionou o processo político no país a avanços democráticos. maculada pela presença de Sarney. associando-o à reestruturação da hegemonia estadunidense e aos principais grupos financeiros. A crise econômica. a definição do caráter social da propriedade social. foi um pensador que se definia politicamente como um liberal social. A Nova República que se estabeleceu desde 1985. que refundava o modelo de dependência do país.contestar um governo injusto e não eram obrigadas a aceitar suas decisões. Fim da Nova República? Carlos Eduardo Martins A ofensiva contra o governo Dilma e a principal liderança petista. À emergência do PMDB em substituição ao PDS. diplomata e sociólogo brasileiro. expõe sua teoria do Estado liberal e a propriedade privada. critica a tradição que afirmava o direito divino dos reis. No Primeiro Tratado sobre o Governo Civil. sendo obrigados a fazer uma série de concessões que limitam o exercício de seu poder econômico.

o agronegócio. oriundos da UDN e do PSD. desde a “Carta aos brasileiros” na campanha de 2002. principalmente os do extremo superior e os do extremo inferior da pirâmide social. a emergência da crise econômica. por parte do grande capital nacional e internacional. abrindo novas fontes de investimento que afetem a soberania nacional e restrinjam o consumo popular. onde Jango Goulart alcançou cerca de 30% dos votos na eleição para vice-presidente em 1960. 2. o capital financeiro. Esta negou a Brizola a recuperação da legenda histórica do PTB. e com setores do movimento estudantil. estimulando o crescimento econômico e a arrecadação do governo federal para implementar políticas sociais.conquistados pelo PT na Presidência da República. em parte limitada pelas políticas de elevação do salário mínimo. reforçando a superexploração do trabalho. e a população em situação de extrema pobreza. entregando-a a seus velhos adversários. o grande capital industrial. buscando atender ao interesse de diversos grupos sociais. com integrantes das organizações políticas que lutaram contra o Golpe. que reúnem. elevando a taxa de lucro do setor exportador. Esta articulação foi fortemente impulsionada pelo espaço aberto com a brutal repressão ao trabalhismo e seu legado principal alvo do golpe de 1964 e da ditadura. respectivamente. A tolerância aos governos petistas por parte do conjunto da classe dominante se explica por um conjunto de fatores: 1. O PT se colocou em sua fundação como o partido que representava autenticamente a classe operária. nos marcos do capitalismo associado e dependente. cujas principais forças são o PFL/DEM. Para entender esta incapacidade aparentemente surpreendente. de outro. e estimulou a criação de um novo partido para dividir a classe trabalhadora e bloquear a rearticulação do trabalhismo em São Paulo. leva as classes dominantes e o grande capital internacional a conspirar contra o projeto centrista impulsionado pelos governos petistas para mudar o padrão regulatório do capitalismo brasileiro. a partir de 2012. O socialismo seria o futuro distante de uma longa acumulação de . temos que inseri-la no bojo do paradigma de esquerda trazido pelo PT e na sua evolução histórica na conjuntura nacional. Durante este período. Paradigma de Esquerda do PT O Partido dos Trabalhadores surgiu de um conjunto de fatores: da organização sindical que se estabeleceu com a forte modernização industrial dos anos 1970. pela via institucional ou armada. de um lado. da sua articulação com a esquerda católica. o perfil centrista assumido pelos governos petistas. gesta-se um novo bloco de poder que se articula com frações importantes do empresariado brasileiro sem conquistar a preferência política do conjunto do grande capital nacional e internacional e da pequena-burguesia. A incapacidade que o governoDilma e as principais lideranças petistas estão demonstrando para responder à quebra do pacto liberal e democrático que constituiu a Nova República e a retomada de iniciativas políticas fascistas e de violação da soberania popular. a conjuntura internacional extremamente favorável que impulsionou a balança comercial brasileira através do agudo incremento dos preços das commodities entre 2003-2011. a profunda crise de legitimidade nacional dos diversos grupos políticos burgueses. Todavia. 3. constitui o grande drama da situação política brasileira presente. priorizando a autonomia dos movimentos populares diante do Estado e a democracia ao nacionalismo e socialismo. o PMDB e o PSDB. o empresariado da construção civil e da educação.

o agronegócio e o latifúndio ampliaram seu espaço no campo brasileiro. a relação juros/PIB nunca foi menor que 5% do PIB. Francisco Weffort. À medida que o partido crescia. Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso afetaram significativamente a capacidade de organização dos trabalhadores e a base social do PT. Esta seria uma transição moderada e pactuada. lhes retirando o protagonismo e autonomia. O partido se expandiu em várias direções articulando-se com movimentos sociais organizados como o MST. em razão da crise econômica. de outro. cunhado por seu ex-secretário Geral. a necessidade de iniciar uma transição. síntese entre a cúpula e a base. por um lado. de 2002. e a “Carta aos brasileiros”. as reivindicações e a intensidade das greves em relação à segunda metade da década de 1980. Opunha-se à concepção de vanguarda oriunda do marxismoleninismo e lançava mão do conceito de populismo. não avançou na construção de uma arquitetura financeira sul- . promover o agronegócio para estimular as exportações e preservar a estabilidade monetária. o PT descartava soluções de cúpula e propunha-se à construção de um socialismo democrático. que condicionaria os limites e o alcance do programa estratégico de governo. mas também com o proletariado de serviços. sindicatos rurais como o dos seringueiros. as suas alianças e incorporava outras frações de classe em seu interior. Em 14 anos de governos petistas. que representaram gastos públicos de 7 a 10 vezes inferiores aos pagamentos de juros. a dívida pública bruta não caiu de patamar. para um novo modelo. carismáticas e propositivas que. fazer superávits primários para controlar a dívida pública. sem passes de mágica e gestos unilaterais do governo. de baixo para cima. supostamente subordinariam os trabalhadores e suas organizações sociais a um projeto nacional-popular de capitalismo de Estado nacional. reivindicando. um dos seus mais importantes segmentos. O Programa de 1994 estabeleceu uma importante inflexão ao mencionar que a participação popular seria o resultado da auto-organização da sociedade. ao ampliar o desemprego e a desindustrialização. ampliava o seu aparato institucional parlamentar e governamental.lutas democráticas que se daria pela combinação entre a via representativa e institucional. e não mais da organização independente dos trabalhadores reivindicada nos anos 1980. para criticar lideranças políticas verticalizadas. a abertura da economia brasileira e os programas neoliberais dos governos Collor. O PT afirmou-se assim contra a tradição trabalhista e comunista e Lula se tornou o principal emblema da nova proposta de partido: a personalidade e a liderança operária. A recessão de 1991-92. condicionar a queda dos juros à redução da vulnerabilidade externa. a disciplina fiscal conteve os salários do funcionalismo público e estendeu a este a reforma da previdência. mesmo reduzindo-se significativamente a vulnerabilidade externa. que não se especificava. Tratava-se de respeitar contratos e obrigações do país. diversificou o comércio e as articulações geopolíticas brasileiras. A redução na capacidade de organização sindical das massas e as derrotas eleitorais de 1994 e 1998 levaram a uma forte revisão nos programas de governo e seus compromissos. oriundas de frações burguesas ou pequeno-burguesas. a partir do grau de auto-organização dos trabalhadores e educação política das massas. minha vida”. setores médios e parcelas importantes da pequena burguesia. que garantiria o vínculo com a auto-organização da classe trabalhadora e dos movimentos populares. e a política externa se. a auto-organização dos trabalhadores e a educação das massas. fundada no diálogo com todos os setores da sociedade. o que reduziu drasticamente o número. as políticas sociais focalizaram-se em programas específicos como o “Bolsa-família” e o “Minha casa. Debilitaram significativamente o operariado industrial do ABC paulista. Constituído nas lutas contra a ditadura militar. transportava este conceito para o contexto do fim do governo Fernando Henrique Cardoso.

jamais teriam espaço protagônico dentro do padrão de política petista. no parlamento e no partido. acomodando-se à falta de iniciativa do Congresso Nacional para ratificar a aprovação do Banco do Sul. a legalização da união homoafetiva e do consumo de drogas de menor potencial ofensivo – todos de enorme impacto para as mulheres. não perceberam a inflexão da conjuntura política que abriu a oportunidade para amplas mobilizações de massa. em nome da crítica ao populismo. 2. do que garantir a vitória de Lula através do apoio do capital financeiro e do o agronegócio. Tampouco temas como a liberação do aborto. Ao passar a definir a participação popular como resultado da auto-organização da sociedade e não de trabalhadores e setores populares. diante da retração do movimento sindical provocada pela ofensiva neoliberal sobre a indústria brasileira e sobre o gasto público nos anos 1990. Equador e Argentina. que é privado do acesso a uma fonte importante de produção cultural latinoamericana e do jornalismo crítico de esquerda. Crise do centrismo e a ofensiva conservadora A crise econômica que se abate sobre a economia brasileira a partir de 2013 gera uma crise do centrismo político e possui três determinantes que se articulam de forma combinada: 1. A Telesur permanece fora do campo de comunicação de massa do povo brasileiro. os governos petistas incluíram em sua base a burguesia dependente e associada e passaram a vincular-se privilegiadamente a esta. Lideranças propositivas. 3. fiscais e cambiais pró-cíclicas. a taxa de lucro e o investimento. os homossexuais e a juventude – que inclusive foram objeto de campanha e mobilização de massas por parte dos governos Lula e Dilma. a inversão cíclica do período de boom das commodities. distribuindo ganhos proporcionais numa conjuntura internacional extremamente favorável e de crescimento econômico interno. e seus efeitos sobre a dívida pública. papel que equivocadamente alguns analistas lhe atribuíram Ao reafirmar este tipo de liderança política e comprometê-la com as estruturas do capitalismo dependente neoliberal. Os governos petistas propuseram-se então a ser os articuladores de um consenso social que preservasse as posições relativas das distintas frações de classe. uma vez que os processos sócio-políticos devem vir essencialmente de baixo para cima e serem sintetizados no governo. vanguardistas e revolucionárias como a de um Hugo Chávez. como acontecia no conjunto da América do Sul. mas que foram postos em segundo plano em detrimento da aliança estratégica com setores evangélicos. em função da valorização do salário mínimo e seus efeitos em cadeia sobre os custos de produção. Ao descartarem o papel das vanguardas. como na Venezuela. Lula já liderava as intenções de voto e continuava a subir nas pesquisas. Bolívia. Não houve aposta na mobilização de massas. que rechaça o protagonismo da vanguarda. nem politizar e elevar o nível de consciência das massas.americana. a reação da burguesia à expansão do mercado interno para os setores populares. as políticas monetárias. Entre 1994 e 2002. o PT jamais pôde avançar na transição a outro modelo de acumulação. O seu objetivo foi muito mais o de propor um pacto de governabilidade com o grande capital. Quando a “Carta aos brasileiros” foi publicada. em função do rechaço da população brasileira à experiência neoliberal. apesar do enorme potencial que proporcionava a conjuntura e questões como o enfrentamento ao monopólio dos meios de comunicação jamais foram incorporadas seriamente pelo estilo liberal e gradualista de governo petista. através de políticas centristas. operou-se uma evolução do basismo petista. .

de forma anárquica e difusa. durante a queda de Zelaya. saem às ruas. Entretanto. em função da atuação da militância de esquerda e dos estudantes nas redes sociais lhe garantiu margem apertada de vitória nas eleições de 2014. como as empresas de comunicação de massa. logo após as eleições iniciou uma nova onda de elevação das taxas de juros e tentou nomear Luiz Carlos Trabuco. formada principalmente por setores médios. possibilitou que o grande capital tomasse a dianteira. Elas abrem uma forte crise no liberalismo e indicam a disposição de setores de baixa renda e dos setores médios para participar de processos insurrecionais. Antes de expirar seu mandato anterior. para que isso ocorresse foi necessária a drástica queda de popularidade do governo Dilma. organizando um processo sistêmico de corrupção no Estado brasileiro para se perpetuar no poder e proporcionar enriquecimento pessoal. Se oPT havia incluído estruturalmente o capital financeiro na sua base de apoio. o que sua heterogeneidade e desorganização não permitia fazer. presidente do Bradesco. como se isto lhe garantisse sua governabilidade. durante a queda de Lugo. que agiriam como uma facção criminosa. atacando a política de altos juros proposta pelo capital financeiro para combater o recrudescimento da inflação. Ao mesmo tempo nomeou para o Ministério da Agricultura. mas aceitando a sua indicação de Joaquim Levy. sem militares. Este vai indicar para a sua base de massas. caindo a 8% desde os 52% que havia alcançado ao fim das eleições. A incapacidade de o governo Dilma utilizar a energia das Jornadas de Junho para reformular o projeto de poder petista. aproximando-o da classe trabalhadora e das organizações populares. que auferia de popularidade de 70%. em maio de 2013. durante as eleições de 2014. As Jornadas de Junho de 2013 – quando multidões. para reivindicar direitos sociais formalmente consignados na carta de 1988 – atingem em cheio a popularidade da Presidenta. a reciproca não era verdadeira: a conversão do PT em braço político do grande capital nacional e estrangeiro era provisória. Dilma escolheu aceitar pressões do capital financeiro e de seu bloco histórico. O grande capital ainda preferia uma solução eleitoral para o problema do poder em 2014. perdeu sensivelmente popularidade. em especial a juventude. que cai para 30% naquele mês. vinculada organicamente ao agronegócio.A crise do centrismo abriu o espaço para a burguesia brasileira romper com a política de compartilhamento do poder e se livrar da transferência da gestão do seu modelo de acumulação a setores oriundos das esquerdas. a candidata que fazia um discurso desenvolvimentista. como Ministro da Fazenda do novo governo – frustrando-se com sua recusa. associações empresariais como a FIESP e igrejas evangélicas – o inimigo a ser batido: as lideranças do Partido dos Trabalhadores. como candidata. a rigor não tomou posse. através do discurso de sua vanguarda organizacional – constituída por estruturas de poder verticalizadas. mas a repolitização do discurso de Dilma. Katia Abreu. como havia sido implementado no Paraguai. em particular a Rede Globo. dando início à prometida transição de modelo econômico anunciada em 2002. Eleita. elevando juros e cortando verbas para educação. faltando-lhes para isso delimitar qual o inimigo a ser combatido. ao adotar o programa rejeitado pela maioria da população. ou em Honduras. A perda de popularidade da Presidenta abriu espaço para uma ofensiva fascista organizada pelos meios de comunicação e pelas lideranças do PSDB e do bloco liberal-conservador sob articulação de Fernando Henrique Cardoso eAécio Neves. Entretanto. saúde e programas sociais. Pelo contrário. Fim da Nova República As razões para o golpe são várias: . Tratava-se de realizar um golpe civil.

Para atender à primeira necessidade. Surge a proposta. em troca da preservação de mandatos e direitos políticos. reduzir a influência de China e Rússia na região e a do BRICS na política internacional. fazendo uso político de suas atribuições e violando direitos individuais. A violação da soberania popular. Em torno desta proposta podem surgir variações que contemplem duas necessidades: reduzir os custos políticos do golpe e dar a ele credibilidade. atingidas por delações premiadas. ou de Lula. se agreguem algumas figuras de maior calibre da oposição. oportunista e corrupto como Eduardo Cunha. 3. sob a coordenação . fortalecimento da educação pública. eliminar direitos sociais e retomar com vigor o dinamismo da superexploração do trabalho contra as políticas de elevação do salário mínimo. educação.1. Novamente a capacidade de coordenar esta alternativa é limitada e em função do risco de contágio anárquico e desagregador. impedir o fortalecimento dos movimentos sociais e o eventual giro à esquerda. democratização dos meios de comunicações. no futuro. várias delas com envolvimento nos delitos que investiga a Operação Lava-Jato. vão se estabelecendo alguns consensos preliminares. 2. de renda mínima e de aumento do poder de compra da população de baixa renda. alienar recursos estratégicos. temendo uma reação popular. de substituir por PEC. Outra alternativa é que junto à cassação dos direitos políticos de Lula e Dilma. Realinhar geopoliticamente o país à liderança dos Estados Unidos. uma possibilidade que não pode ser descartada é a construção um consenso com o PT. se efetivada. Para isso tem usado no Parlamento a agressividade de um aventureiro. onde a esquerda nunca teve protagonismo na história brasileira. o regime presidencialista pelo parlamentarista. com ou sem consulta popular. limitar o alcance da integração do país aos BRICS e sua arquitetura financeira. Qualquer capacidade do Governo Dilma impedir a ameaça de golpe está vinculada à retomada de sua popularidade. que extrapolam suas competências legais. enfrentar o protagonismo do capital financeiro sobre o Estado. do Ministério Público e do Poder Judiciário. impulsionar a economia através de um conjunto de investimentos públicos em saúde. realizar uma nova ofensiva neoliberal sobre a economia brasileira. Entretanto. mas de golpear a soberania popular. o que implica nova onda de privatizações. A direita tem se atrapalhado no que diz respeito à forma do golpe. habitação. a ser avalizada pelo STF. transporte e infraestrutura e chamar à mobilização popular sobre temas chaves como reforma política. para dar de imparcialidade política. e a mobilização das camadas médias por meio do irracionalismo de campanhas sensacionalistas que se valem da parceria de grandes meios de comunicação com setores da Polícia Federal. O documento publicado na Fundação Perseu Abramo. e onde. em torno do apoio ao parlamentarismo. na atual legislatura. de um governo petista. 70% dos deputados tiveram suas campanhas financiadas por 10 empresas. Trata-se de não apenas cassar os direitos de Dilma. mobilizado em torno do carisma de Lula e da recuperação do crescimento da economia. o que requer mudar a política econômica de recessiva para desenvolvimentista. deslocando o poder de gestão do Estado brasileiro para o Congresso Nacional. realinhando-a aos padrões clássicos do capitalismo dependente. impedindo a sua candidatura em 2018. marcaria o fim da Nova República. Entretanto a capacidade de coordenar esta alternativa é limitada pela incerteza sobre a garantia de compromissos recíprocos e pela profunda violação às tradições basistas do PT. sem consulta popular. retomar uma política externa subimperialista e isolar as experiências populares de capitalismo de Estado na América do Sul. baixar radicalmente as taxas de juros.

. Equador: da noite neoliberal à revolução cidadã. dependência e neoliberalismo na América Latina. . Por um Brasil justo e democrático. 4.. 2. organizado por Chico de Oliveira. de Carlos Eduardo Martins.de Marcio Pochmann. 5. 3. Globalização. Estado e burguesia no Brasil: origens da autocracia burguesa. Ruy Braga e Cibele Rizek. 5 dicas de leitura da Boitempo 1. Ditadura: o que resta da Transição?. política e cultura na era da servidão financeira. Para aprofundar a reflexão. de Rafael Correa. A ida de Lula para o ministério pode ser talvez a última oportunidade para esta virada. organizado por Milton Pinheiro. de Antonio Carlos Mazzeo. aponta para várias destas direções. Hegemonia às avessas: Economia.