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DESCONSTRUINDO A TEORIA DA GUERRA PREVENTIVA

Paulo-Edgar Almeida Resende*

Resumo
O foco deste texto é a guerra preventiva,
argumento básico da política externa
estadunidense desde o século XIX. No
primeiro plano está a intervenção no Iraque.
O autoproclamado destino manifesto tem
servido de bordão para autolegitimar o
intervencionismo dos EUA no mundo, com
seu privilegiado american way of life. Tornase atual, transcendendo a política doméstica, a
análise de Max Weber, ao imbricar a ética
calvinista e o espírito capitalista. A presença
tentacular dos Estados Unidos no mundo
atual, do ponto de vista econômico,
tecnológico, militar, tem justificativa religiosa,
expressa na direção de realização de vocação,
traduzida em cruzada do eixo do bem contra o
eixo do mal. Ressalte-se, todavia, que esse
amplo domínio não caracteriza posição
hegemônica. No delineamento do sistema
mundial, são antepostas a Teoria Realista e a
nova Teoria do Direito Internacional.
Manifestações da opinião pública mundial ou
da multidão apontam para protagonismos
mais amplos de uma nova subjetividade
política contra a guerra, a favor de novas
formas de vida.

Abstract
This study focusses on preventive war, North
American foreign policy´s basic argument
since 19th century. In the foreground of our
investigation it is the intervention in Iraq. The
self-declared manifest destiny has helped to
self-legitimate the US interventionism in the
world with its privileged american way of life.
Max Weber´s analysis linking calvinist ethic
and capitalist spirit becomes present,
transcending the internal policy. From
economic, technological and military point of
view, the tentacular presence of United States
in nowadays world has religious apology, and
express itself as a vocation, a cruzade of the
good against the evil, that has to be achieved.
We emphasize, however, that this wide rule
does not mean hegemony. In the outlining of
the world system, two theories are set: the
Realist Theory and the new Theory of
International Law. Manifestations coming
from world public opinion or from the
multitude point to wider protagonists,
towards a new political subjectivity against
war and favourable to new ways of life.

Palavras-chave
Guerra preventiva; fricções; destino manifesto;
cruzada; capitalismo; calvinismo; poder
econômico-tecnológico-militar; terrorismo de
Estado; pontos de culminância; insurgências.

Key-words
Preventive war; manifest destiny; economic;
technological and military power; state
terrorism; insurgencies.

Proj. História, São Paulo, (30), p. 211-227, jun. 2005

12-Artg-(PauloResende).p65

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9/6/2006, 12:05

elaborada sob medida para a doutrina nazista. legitimada pelo destino manifesto da tradição política estadunidense. O pano de fundo da ideologia de Huntington é o petróleo.6 As guerras são várias. pólo de aglutinação de grandes interesses econômicos ocidentais. territorializados do outro lado. Europa e Estados Unidos se juntam ou serão destruídos. Tendencialmente. 212 12-Artg-(PauloResende). pintando-nos o terror. As guerras de linha de fratura têm a ver com a expansão dos meios de transporte e comunicação. terroristas. etapa para a realização do grande desígnio do Estado. o meio passa a ser o próprio fim no uso político da guerra. a dizer-nos que interesses e percepções desconstroem e repõem teorias a cada virada histórica. sem utilidade para ambas as partes em litígio. Em obra das mais polêmicas dos últimos tempos. contenção. pela mútua destruição.5 dando nova versão ao mundo bipolar. o que vale sobremodo no caso da guerra. A concepção objetiva3 parte da situação de competição. interrupção e raramente de solução. em que se confrontam interesses e posições. p.p65 Proj. visando a determinado fim. dada a vocação universal do proletariado. Ou teoria da guerra revolucionária. a irracionalidade. nos moldes da teoria do decisionismo. Estas são limitadas: Grupo A luta com Grupo B.2 Ou teoria da guerra preventiva. que se compõem enquanto o eixo do bem. (30). com características distintas das guerras comunitárias em geral. 211-227. História.1 A visão cataclísmica carrega as tintas da guerra. parte da distinção de guerras de linha de fratura. o lado do eixo do mal. A visão escatológica está centrada na positividade da guerra. suscitando a internacionalização dos conflitos A migração criou diásporas em terceiras civilizações. na vertente marxista. a dano de toda a humanidade. Anula-se a política em nome da lógica do absurdo. não haverá vencedores. D e E tenham interesses ou percepções em jogo. Se a guerra é concebida como meio. a catástrofe. Samuel Huntington. São Paulo. o absurdo. expansão. A concepção subjetiva4 está atenta à percepção que se tem de determinada situação objetiva que redunde em conflito. Gaston Bouthoul7 fundou o Instituto Francês de Polemologia para estudar a guerra como fenômeno social. Com a revolução termonuclear. revigora-se a percepção de que todas têm mais diretamente a ver com Tânatos do que com Eros. sem que os grupos C. 12:05 . No choque das civilizações. e o conflito encontra condições de prolongar-se. todos serão vencidos. jun. no pós-guerra-fria. Interpretações de maior complexidade vão na direção de que o real concreto está sujeito a múltiplas determinações. Desenvolvem-se redes internacionais para prestação de apoio. perpassando diferentes ênfases. passa por processos de intensificação. em diferentes conjunturas.O estudo da guerra leva-nos a referências múltiplas. 2005 212 9/6/2006. o que se exacerba quando os litigantes têm ao alcance da mão ogivas nucleares. É o combustível da guerra contra fanáticos.

o Concerto Europeu. História. forma unilateral de Proj. seja pelos atos de conquista de mais território ou de domínio econômico. farei menção especial ao Realismo e ao Direito Internacional. (30). Outrossim. par a par com sofisticada engenharia realista. base sobre a qual se erigirão. 2005 12-Artg-(PauloResende). não poucas vezes. No século XIX. de cujas cinzas emerge o Direito Internacional. ou do Império sem Roma. A fabricação da Europa. No meio acadêmico. o que tem relativa procedência. Modalidades de guerra Embasado em carga histórica. cujo mérito não vai além do detalhismo. 12:05 . Do ponto de vista da análise acadêmica. o voluntarismo. Enquanto meio privilegiado para se chegar a tratados de paz. A racionalidade linear da história. sumario a trajetória de modalidades de guerra. o Congresso de Vestfália e os acordos de Utrecht (séculos XVII-XVIII) substituíram o Imperium universal cristão pela mais ou menos secular Raison d’État. de outro. Proponho. mundo afora. a priori. o postbellum dos Congressos de Paz se situa no campo semântico de vitória tout courit. São Paulo. especializada em construção de cenários. o Congresso de Viena estabeleceu. ou da Raison du Systhème. 211-227. em nome do Imperium Universal. jun. e antes dela da cristandade. Os pais-da-pátria têm sua bravura fixada em bronze. Na história de cada Estado nacional. encontra trevas. violentíssimos impérios coloniais. podem ser apontados como o problema que desafia o analista. de um lado. são problematicamente processados. dispensam-se dados ou eles servem apenas para comprovar a tese do imperialismo. no entrecruzar de descritivismos e doutrinarismos. com carência de distanciamento crítico. seja pelos atos de libertação do jugo colonial. ou da Raison d’État. cantada em hinos. O volume de informações disponíveis. leva à proliferação de construção de enfadonhos e múltiplos cenários pelos especialistas em leitura pela internet. pela quantidade. Os abundantes dados. Na modernidade.p65 213 213 9/6/2006. supôs a substituição seqüencial da violenta Pax Romana pela não menos violenta Pax Cristã medieval . pela Raison du systhème. a partir da Teoria dos Jogos. neste texto. sem referência ao processo em que se desdobra e se redefine o dinâmico capitalismo no âmbito mundial. o pêndulo da guerra é recorrente. sob controle oficial. p. ter como foco principal a guerra preventiva – tradição de governos estadunidenses – com rápido referencial histórico sobre o que tem sido a guerra na modernidade. o tema da guerra busca luzes e. facilmente coletados.O esforço de compreensão da guerra preventiva do governo dos Estados Unidos no Iraque causa relativo desconforto ao analista. Numa das pontas do doutrinarismo predomina a suspeição de a cobertura pelos meios de comunicação ser meticulosamente filtrada.

a escola realista encontra terreno fértil sobretudo nos EUA. a superação dos limites.p65 Proj. sem o devido respaldo no soft power. além do destaque de Raymond Aron. e da ampliação do poder relativo. somados. mas carente de hegemonia. entendido do lado da ampliação da segurança. gera vulnerabilidades. A intenção política é o fim. No cálculo complexo de imponderabilidades. a ser enfrentado com táticas e estratégias ad hoc. com a nova guerra dos 30 anos (1914-1944).13 Hobbes. a guerra é um autêntico camaleão.8 Emerge então o que já foi proposto como o Império sem Roma9 de um lado. na bipolaridade. p. do outro. Hans J. a 214 12-Artg-(PauloResende).11 Tucídides. com Edward Hallet Carr. todos eles. Kenneth Waltz. Fred Northedge. Grosso modo. ao lado de Sun Tzu. meio de proteção dos Estados ameaçados. 211-227. afirma-se o domínio econômico. Custos e riscos têm de passar pelo crivo da racionalidade. Impõe-se o hard power. Diluído o Império Soviético. História. afirmam-se polaridades difusas. Modifica sua natureza em cada caso concreto. Do lado europeu. Desdobramento da obra pioneira de Clausewitz. com novos ataques. guerra é instrumento racional da política de Estados. Por seu turno. Henry Kissinger. Martin Wight. Hedley Bull. em última instância. 12:05 . jun. A guerra se apresenta como mecanismo de equilíbrio na balança de poder. tecnológico e militar dos EUA. e não se pode conceber o meio independentemente do fim. não propriamente da ampliação da estrutura de poder. o Tratado de Versalhes. Alcançado o ponto de culminância da guerra real. A releitura de Clausewitz por Raymond Aron16 valoriza sobremodo os pontos de culminância. cujo interesse é o da autopreservação. não resultaram senão na sui generis Guerra Fria. São Paulo.15 Para Clausewitz. É simples continuação da política por outros meios.dominação do mundo pela montagem da sociedade internacional européia. Os agentes das relações internacionais são os Estados.14 Carl Schmitt. 2005 214 9/6/2006.12 Maquiavel. Karl Philip Gottfried von Clausewitz10 é nome obrigatório para falar de guerra no meio acadêmico. entidades vivas e racionais no gozo da soberania. As divergências com os demais Estados resolvem-se. a partir da derrota de Napoleão e cujo epílogo foi a guerra franco-alemã e seus desdobramentos no século XX. a guerra é o meio. e a Pax de Yalta. O realismo político Pilar das escolas do realismo político. e a sociedade internacional em movimentos de resistência ao Sistema. (30). a escola inglesa de Charles Manning. denominadas por ele fricções. equacionados tática e estrategicamente com o interesse do Estado. Morghenthau. cotejada com irracionalidades. ou melhor. pelo mecanismo da guerra.

unilateralmente. O Direito Internacional A perspectiva da peace by peaceful means. que não apenas os Estados. jun. a força maior de um Estado suscita a aliança dos demais. 211-227. presente ainda hoje em manuais defasados.p65 215 215 9/6/2006. A conjuntura internacional é entrevista em percurso de efetivação gradual. mesmo que lentamente. Divisa-se a consolidação da Política Internacional com base em percepções e valores que informam o Direito Internacional. de cujo bojo saem tratados – ex post bella. explanada por Johan Galtung17 . A Carta de São Francisco (1945). p. Coloca-se em relevo a ética em política e não os interesses em jogo. História. elo imprescindível para a reflexão em torno de relações não hierarquizadas entre os povos. São Paulo. tal definição é por demais estreita. Guido Fernando Silva Soares18 . na modernidade. que previu o Pacto da Sociedade das Nações.partir da concepção do mundo de múltiplos Estados soberanos. Os grandes fóruns mundiais. 12:05 . Sendo o sistema de equilíbrio de poder o mecanismo regulador do conflito. Grandes temas da globalidade deman- Proj. padrão século XIX. Na perspectiva tradicional. Na atualidade. (30). em bom número de analistas. assinado na Conferência de Paz em Paris (1919). sujeito ao acidentado trajeto de guerra e paz. Não se postula a relação linear entre Política Internacional e Direito Internacional. são marcos que não podem ser infra-avaliados. a força militar é instrumento imprescindível para a manutenção da paz – se vis pacem. a pessoa humana. com a emergência. mencionados acima. é bem verdade – que são a fonte primária à disposição de legisladores do Direito Internacional. 2005 12-Artg-(PauloResende). para luminar da disciplina no Brasil. criando a ONU. em que pesem os fracassos do Tratado de Versalhes. nem situações particulares de outros sujeitos de Direito Internacional Público. No momento mesmo em que se modifica a cartografia mundial. em primeiro lugar. assinada solenemente na presença do presidente Harry Truman dos Estados Unidos. para bellum. contrapõe-se à tese realista em pontos específicos. o Direito Internacional se reduz a sistema de normas e princípios jurídicos que regulamentam relações entre Estados. após a 1a Guerra Mundial e o não menos frágil Tratado Geral de Renúncia à Guerra de 1928 (Acordo Brian-Kellog). do Direito Internacional. de que se efetiva gradualmente o itinerário multilateral das negociações internacionais. dos Estados nacionais. ao não contemplar um dos grandes destinatários de suas normas. Cabe atualizar a própria concepção do Direito Internacional Público diante do múltiplo protagonismo na realidade contemporânea a suscitar o pluralismo jurídico. a prima ratio dos ajustes de interesses se faz por cimeiras. revigora a convicção.

História. com quebra forçada de autonomias locais e regionais. no pós ’68 com o Baader-Meinhof na Alemanha. o Sendero Luminoso no Peru. visa à manutenção do status quo. e na Irlanda do Norte respondem a um processo de terrorismo original. São Paulo. Se o que se propõe é a análise do denominado terrorismo islâmico. que reescrevem a história a todo momento. 211-227. jun. em anteposição a terrorismo. na Colômbia – o grupo paramilitar AUC – Autodefensas Unidas de Colômbia – à direita. Na compreensão das relações internacionais na modernidade. forma recorrente de formação violenta de Estados nacionais. mas sobretudo do modo como nós os torneamos. Citemos emblematicamente o terror na revolução Francesa. movimentos revolucionários. o terrorismo basco. na Rússia no século XIX. seus êxitos e fracassos. por fora de atribuições legalmente previstas. tido como ameaçado pelas FARC – Fuerzas Armadas Revolucionárias de Colômbia. (30).dam a proteção internacional da pessoa humana nas vertentes de direitos humanos/ direito de refugiados/direito humanitário/direito de asilo – e proteção internacional do meio ambiente.p65 Proj. lado a lado às razões apresentadas pelos EUA para a intervenção no Afeganistão e no Iraque. em cujo fluxo teremos de lidar com categorias como guerra. a partir de unilateralismos institucionalizantes de Madrid e Londres. com apelo à violência fora de parâmetros legais ou paralegais. p. tão recorrente. mas tampouco contestados. a favor do centralismo burocrático. excluir-se-ia. portanto. É uma tática de insurgência de origem diversa. no caso de nos referirmos às suas vertentes não estatais. do lado estadunidense. de o Departamento de Defesa e a Cia. guerra civil. compatível com amplo espetro ideológico. que reiteram há décadas ações de desestabilização da ordem vigente. do foco analítico o terrorismo estatal. a referência ao terror é pista obrigatória. há. a impressão que fica é a de um didatismo que foge à complexidade de uma rede conceitual. Na Espanha. Ao estatizarmos a guerra a partir da atribuição legal do uso exclusivo da força em política externa às forças armadas nacionais. temos referencial para refletir sobre caso espinhoso: a intervenção de iniciativa estadunidense no Iraque.19 A guerra preventiva dos EUA no Iraque Tendo como moldura tais fóruns mundiais. com sinalizações à direita e à esquerda. 12:05 . rebeliões. No presente. terrorismo.20 terem forjado ataque a navio da 216 12-Artg-(PauloResende). uso da força por fora de atribuições legais. legalidades e ilegalidades no uso da força. ao defrontar-nos com tal conjuntura. sujeitos a versões. 2005 216 9/6/2006. o terrorismo individual do Unabomber nos EUA. agora e antes. Se o terrorismo for identificado a manifestações cuja característica básica for a insurreição descentralizada. precedentes emblemáticos que nos possibilitam caracterizar o terrorismo estatal lá e cá. Não se trata apenas de fatos. Há relatos não suficientemente comprovados.

p. ainda mais quando o pool entre CNN e Pentágono se impôs unilateralmente como componente tático. o calendário da política advinda do Doutrina Monroe. Lado a lado ao 11 de Setembro. anunciada pelo presidente James Monroe.p65 217 217 9/6/2006. em 1898. com o sofisticado neo-conservadorismo atual. o defense industry overhuang21 – capacidade excedente de material militar do complexo industrial do tempo da bipolaridade no contexto da segurança internacional – passa pelo processo de reconversão/atualização/redução sob o crivo da reduzida legitimação interna e externa das atuais iniciativas estadunidenses no campo da defesa. 2005 12-Artg-(PauloResende). a al-Qaeda se propõe batalha entre muçulmanos e os globais. Com o advento do Taliban no poder. alocado no Ocidente Cristão. com a precaução de admitirmos que o campo de percepção de uma guerra se imbrica com o campo de batalha. logo após cunhada de Destino Manifesto. (30). o presidente Mc Kinley. encontrou versão teologicizada. Irã e Coréia do Norte. O revide ao 11 de setembro serviu para muitos analistas como forma de explicitar a política de segurança energética. O eixo do bem. teria tido Proj. como bordão legitimador da presença dos EUA no Iraque. este com a co-participação de Síria. na tentativa de encontrarmos a lógica da intervenção. o antes aliado ocidental Osama Bin Laden passa à condição de terrorista. as reservas petrolíferas aí existentes são fundamentais para respaldar o modelo de desenvolvimento ocidental e. em particular. História. 12:05 . Igualmente. 211-227. O fim da Guerra fria traz o debate tenso entre FBI e NSC. o da economia estadunidense. Nesse veio. A intervenção no Iraque é assumida como etapa de remodelação do Oriente Médio. O mesmo com relação ao despótico Saddam Hussein. há longa história intervencionista de governos dos Estados Unidos na América Latina em apoio a golpes militares. apoiado pelo secretário de defesa dos EUA na guerra Iraque/Irã.marinha americana no golfo de Tonkin. Quando se fala em eixo-do-bem e eixo-do-mal. Passou logo após a ser identificado como responsável por terrorismo de estado contra população indefesa. Diante de grupos de interesse envolvidos. São Paulo. em 1823. O calendário trágico do destino manifesto e as intervenções preventivas Ao nos defrontarmos com valores. práticas de tortura. estamos diante de longos processos de sedimentação. Os muhahidin anti-comunistas no Afeganistão foram financiados durante a guerra fria para combater o comunismo e a presença da URSS na região. jun. enfrenta o eixo do mal. Na chamada nova cruzada. extermínio de opositores. cremos que a reconstituição do processo ganha sentido. como justificativa apresentada para a intervenção no Oriente Médio. entre CIA e National Security Agency. Na mescla de conservadorismo puritano e messiânico tradicional. episódio que foi apresentado como motivo para a intervenção no Vietnã do Norte. recoberta ideologicamente pelo neo-conservadorismo.

doVietnã. A prioridade era a de proteger instalações militares estadunidenses e poços de petróleo em todo golfo Pérsico. p. História. para logo após redundar em conflito. a desvelar o sentido da tese de defesa do mundo livre. no Paquistão. 12:05 .26 Choque de Civilizações. desaparecimentos e torturas. de modo associado com órgãos de segurança dos EUA. A ambigüidade entre o protetor e o dominador22 se intensificou e se expandiu no decorrer do século XX. Osama Bin Laden. e foi a trágica avant première da Operação Condor. enumeraram-se apoios explícitos e recorrentes de governos estadunidenses a generais sanguinários. Na Nicarágua. Na República Dominicana.24 Na busca de legitimidade de tal intervencionismo. Em Cuba com Fulgêncio Batista. Vale dizer. Na América Latina. Atualmente. como no caso das Primeira e Segunda Guerras Mundiais. no Iraque. e agora no Afeganistão. Foram cometidas. Em 1980. após a Segunda Guerra Mundial. não me parece aleatório rememorar o suposto e naturalizado asiatismo. não é postura isolada de George W. A defesa do mundo livre tem sido o bordão de tropas estadunidenses pelo mundo. embora pesassem na ONU acusações de Saddam Hussein fazer uso de armas químicas na guerra contra o Irã. diante de suposta ameaça comunista atéia ao continente cristão-católico. No Haiti. a Operação Condor23 articulou a diplomacia de caça às bruxas nas ditaduras militares de Chile. e com alta dose de pragmatismo. 2005 218 9/6/2006. preventivamente. a convivência com Duvalier. em ocasiões distintas. dezenas de mortes. (30). ora no Hemisfério Sul.. é valorizada a aliança estratégica com o 218 12-Artg-(PauloResende). São Paulo. jun. e por diferentes razões. 211-227. Bush. No Cone Sul. em que Deus lhe ordenara a ocupação das Filipinas para civilizar seu povo. Bush a geopolítica do eixo-do mal. o que não impede alianças em determinadas conjunturas. Saddam Hussein foi depositário do apoio estadunidense na guerra entre Iraque e Irã. Huntington. Wittfogel em seu clássico Oriental Despotism. Em 1954. Argentina. Donald Rumsfeld. A deposição de Allende contou com a participação direta dos Estados Unidos.p65 Proj. com Trujillo. na luta contra a União Soviética. ou a teoria do clima de Montesquieu. a Comparative Study of Total Power. 25 certamente leituras inspiradoras da obra do douto Samuel P.visão. na época assessor do presidente Ronald Reagan (1981-89).. Ao Afeganistão. Uruguai e Brasil. fez duas viagens de apoio ao Iraque em 1983 e 1984. aliança com a dinastia Somoza. No Corolário de Theodore Roosevelt.. situado ora na Ásia. é enviado o bem treinado pela CIA. O atual secretário de defesa do governo George W. invocou-se para os EUA o poder de polícia internacional sob forte tradição imperialista com roupagem antiimperialista. a Guatemala é libertada do coronel de esquerda Arbens. instaurando-se no poder militares de extrema-direita. tematizado por K.

França. As mediações diplomáticas de órgãos multilaterais como ONU são desejadas ou dispensadas segundo as circunstâncias. enquanto o avião de caça empregado na Guerra do Iraque custa US$ 30 a 40 milhões. é a primeira versão do esforço para exercer o controle sobre as Américas. com graves repercussões não apenas na economia estadunidense. custavam US$ 350 mil. Aviões Spitfire e P51. História. Reino Unido e Itália. indica-nos pista para a compreensão da ideologia que perpassa tal política externa. 18 mil homens estariam no Afeganistão. em nome da salvaguarda e da promoção de valores e interesses estadunidenses.4 milhão de tropas distribuídas internamente e pelo mundo. 1. morte de 1. militarista e religiosa. e centenas deles já foram lançados sobre Bagdá. embora sempre lembrado no caso da Cuba de Fidel Castro. este ilustrado. Historicamente. portanto. 2005 12-Artg-(PauloResende). US$1. a segurança nacional dos Estados Unidos da América é de pauta pragmática.p65 219 219 9/6/2006. com preocupação unilateral dos poderes executivo e legislativo de reafirmar a soberania nacional. cinco vezes a despesa militar anual da China e sete vezes a do Japão. por razões de segurança. Acrescentem-se radares. cerca de 2. o orçamento militar alça a cerca de meio trilhão de dólares. lançado de terra ou mar. dada a presença dos EUA na cena mundial. seu modelo de democracia e sobretudo interesses bem concretos. sensores eletromagnéticos. óticos. p. o que não nos permite falar de isolacionismo.100 soldados americanos e mais de 13 mil civis iraquianos. Advoga-se o direito de limitar a soberania de outros países. São Paulo. Para o ano fiscal de 2005. o credo democrático é deixado de lado. satélites. explicitada com maior vigor Proj. O american way of life sobrepõe-se ao diálogo de povos com percepções alternativas de mundo. em 2004. que a cada dia são revistas. (30). empregados na Segunda Guerra. 120 mil no Iraque. delineadas por George W. 12:05 . Navio-porta-aviões do tipo Nimitz custa 4 bilhões de dólares. Para citar de modo aproximado cifras. anunciada pelo presidente James Monroe em 1823. O míssil Tomahawk. 211-227. acústicos e térmicos e gastos com a tropa. gastos militares astronômicos.5 milhão. Fundamentalismo protestante + neo-conservadorismo A imbricação do teo-conservadorismo e do neo-conservadorismo. aquele obscurantista. jun. valores tradicionais. que consagra o unilateralismo. A leitura da mensagem ao Congresso – State of Union Address – de 2002 reafirma a estratégia das preventive actions.5 vezes dos orçamentos militares somados das quatro mais importantes potências européias – Alemanha. A Doutrina Monroe. a política externa à margem de órgãos colegiados internacionais – autêntico terrorismo de Estado –.ditador Pervez Musharraf. Bush na Academia Militar de West Point no mesmo ano. Graças à postura do governo paquistanês contra Al-Qaeda.

27 os neo-conservadores não querem defender a ordem vigente. Na coletânea de aforismos. atribuídos a formuladores da política externa. John Ashcroft. Bush é o de ter assegurada a união entre as duas correntes. Criticam o Estado de Bem-Estar social. à frente da Secretaria de Defesa. 2005 220 9/6/2006. dizendo não à realpolitik – Henry Kissinger é o antimodelo. História. São Paulo. em dupla com seu vice-presidente Dick Cheney. quando a Europa era convocada a reconquistar a Terra Santa dos infiéis. é frase atualizada de George W. cujo legado conduz ao desprezo da civilização ocidental. famoso pelo seu polêmico texto Fim da História. iniciando as Cruzadas. p. O governo George W. no cargo de subsecretário da Defesa. Jimmy Carter ou Bill Clinton. e mesmo da presidência republicana de Nixon.W. após o 11 de setembro de 2001. The New Republic. Este último encontra seus think tanks em órgãos como o American Enterprise Institute. Bush. que invoca para os Estados Unidos o poder de polícia internacional. nos governos dos presidentes Kennedy e Johnson. Dão apoio incondicional ao Estado de Israel. Durante o primeiro mandato. jun. a tradição e a visão pessimista da natureza humana. poder-se-ia atribuir-lhes algo do gênero: Speak loudly and carry a big stick. estão convencidos do valor universal do modelo democrático americano. (30). dá sentido a manifestações diplomáticas e não diplomáticas no século XX e começo do atual. cunhado no século XIX. o semanário The Weeklly Standard. otimistas. you will go far. que se abrem ao militarismo neo-conservador. Com George W. Institute Hudson. Bush ao falar de cruzada do eixo-do-bem contra o eixo-do-mal. Idealistas. Bush opera a complexa mistura do conservadorismo tradicional do protestantismo fundamentalista. Criticam o relativismo cultural e a moral dos anos 1960. que não postulam o retorno da América sobre si mesma. 12:05 . Postam-se contra o realismo diplomático de Henry Kissinger. com o neo-conservadorismo. O Deus quer assim. 211-227. Revistas como National Review. o reiterado apelo ao destino manifesto.pelo Corolário de Theodore Roosevelt. a hierarquia. os neoconservadores por Paul Wolfowitz. pertencente ao grupo Murdoch.p65 Proj. como as do Wall Street Journal. especialista em estratégia militar. Com essa mesma tônica. Creditase a Thedore Roosevelt o lema: Speak softly and carry a big stick. Para Francis Fukuyama. Donald Rumsfeld. São internacionalistas. de Urbano 2o em 1095. you will go far. os fundamentalistas foram representados pelo secretário da Justiça. atribue-se a Madeleine Albright a afirmação peremptória: voamos mais alto e enxergamos o que é melhor para o mundo. 220 12-Artg-(PauloResende). referência posteriormente substituída por guerra ao terror. a rede de televisão Fox News garantem a difusão vulgarizada do sofisticado pensamento neoconservador. Commentary. Mas também dizem não aos internacionalistas como Woodrow Wilson. Heritage Fondation. A singularidade de G. em Washington. São páginas editoriais. pontifica: quem não está conosco está contra nós.

os EUA estão historicamente em oposição sistemática a acordos multilaterais. 211-227. respaldado nos tabuleiros do Proj. cobertos com capuzes de plástico. A excepcionalidade dos EUA. sentido moral. Recusam ratificar a Convenção Internacional de Proteção à Criança. da esquerda à direita. nos 85 artigos redigidos por Hamilton. em que os direitos humanos. superiormente inspirados por destino. tecnológica e militar.29 que registra o déficit de soft power. O negativo de tal empáfia estetiza-se na atitude da soldada Lynndie England. opinião pública mundial. no sentido francês. A religião reforça o caminho escolhido.Ajuda-nos a acompanhar essas sinuosidades ideológicas a complexa herança recebida do não menos complexo iluminismo europeu. Os EUA são culturalmente uma nação moral. Recusaram os principais pontos do acordo sobre meio ambiente. ao contrário dos franceses. Opuseram-se à adoção do Estatuto do Tribunal Penal Internacional e buscam sabotá-lo com acordos bilaterais de imunidade para cidadãos estadunidenses. Não o iluminismo de filósofos. p. A natureza humana é tematizada como geradora de verdades humanas. é o iluminismo britânico. e a grande proveito. (30). caracteriza-se pela Pax Americana: no terreno estratégico-militar. com desatenção para o exercício da autoritas. registra-se o descompasso de excessivo exercício da potestas econômica. símbolos. História. 2005 12-Artg-(PauloResende). O predomínio da potestas sobre a autoritas A presença político-militar dos EUA no mundo tem se caracterizado pelo crescente exercício do hard power. o Protocolo de Kyoto. Não choque de razão e religião. Gertrude Himmelfard detecta em tal discurso.p65 221 221 9/6/2006. A razão escolhe o caminho. que tentam construir princípios básicos de convivência internacional. humilhando prisioneiros iraquianos em Abu Ghraib. têm aí uma cláusula de exceção. Vale dizer. em que razão e religião estão juntos. Não assinaram a Convenção de Combate às Minas Anti-pessoais. mas redefinidos de modo sui generis. diferentes. sem maior atenção para o alerta de Joseph Nye. em adiantada fase de constituição. o Acordo sobre Eliminação de Formas de Discriminação da Mulher. Com tal carga ideológica de excepcionalidade.28 Os estadunidenses abrigam em seu arcabouço cultural valores herdados. reclamados de Cuba. um sentido comum. a ser praticado. cujas propostas de modernidade passaram pelo crivo da historiadora norte-americana Gertrude Himmelfarb. mas filósofos morais como Adam Smith ou David Hume. em tal óptica. universal. que os torna únicos. como forma de transformação social mais radical. O pano de fundo predominante no Federalist. apontando metralhadora imaginária para a fila de iraquianos nus. enquanto busca da hegemonia pelo respeito democrático a valores. São Paulo. jun. por fora de consenso mais amplo. Há distanciamento do iluminismo francês de paixão pela razão. E a prisão de Guantânamo. 12:05 . Madison e John Jay.

Nos anos 1960. da legitimidade jurídica. de horizontalidade e de opinião pública – em vez da moral da predestinação subordinante. pai do monoteísmo judaico. História. experimentou na carne o poder discricionário da grande potência. haja vista o affaire Bustani. São Paulo. Para ele. gira a contabilidade de grandes interesses nas reservas petrolíferas do país.p65 Proj. Faz com que tradicionais parceiros atenuem a confiabilidade do guarda-chuva da OTAN. de coloração socialdemocrata. 2005 222 9/6/2006. não caracteriza posição hegemônica. A herança da Guerra do Golfo Bush pai deixou ao filho a hipoteca da guerra inconclusa da Guerra do Golfo. 211-227. 12:05 . segundo declarações do diplomata brasileiro. cristão e islâmico. O embaixador José Maurício Bustani. subsecretário de Estado dos EUA para assuntos de desarmamento do primeiro governo de G. Onde se inventou a roda e a matemática.W. p. do protocolo diplomático. sem que 222 12-Artg-(PauloResende). Kennedy recrutou. A contrapelo. caso de Alemanha e de França. como sua decisiva presença em duas guerras mundiais do século XX. a dano de países menos desenvolvidos –. Dificuldades são criadas pela opinião pública ao adesismo de príncipes sauditas. intelectuais que delineassem um consenso centrista. Mas John Bolton. com porcentagem do PNB de ajuda externa das mais baixas dentre países desenvolvidos. (30). John F. da ética – feita de solidariedade. Noam Chomsky. do comércio – sem protecionismos agrícolas. jun. Foi reconduzido por aclamação à direção da OPAQ. desde 1969 com o livro American Power and the New Mandarins. com apoio de EUA e de Rússia. Tal Pax. a primeira guerra contra o Iraque. E o fim da presença militar estadunidense nas terras de Abraão. a imprensa estadunidense só considera genocídio e crimes contra a humanidade se cometidos pelo inimigo. da monarquia jordaniana e do governo egípcio. Não obstante.Bush. não está só no meio acadêmico ao criticar o establishment e a mídia dos EUA. de Espanha. seu Plano Marshall de recuperação da Europa Ocidental e fortes contrapesos à abrangência da pretensão da conhecida política do big stick. que se exaure no esforço bélico. arquitetou sua retirada do posto. está longe de ter cronograma previsível.Direito Internacional. Foi-lhe solicitada a assinatura em branco de relatórios sobre inspeções dentro dos EUA. temos de admitir que os Estados Unidos encontram em si mesmos corretivos. na Universidade de Harvard. atual chefe da missão brasileira em Londres. pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. toda feita de Victoria. flui historicamente a concepção pré-jurídica de estabelecimento de uma política externa de intervencionismos e de guerras preventivas. da economia.

Resta que. ao mesmo tempo. que o país hoje está ameaçado não pelos países mais fortes. o poderio bélico dos EUA não garante segurança. 25% de organismos como a ONU. o chefe da administração e do orçamento é sempre estadunidense. como diz Paul Kennedy. fundada no power politics pela cobweb30 (teia de aranha). Esses dois pontos implicam retirada das decisões político-militares norte-americanas de organizações internacionais. os EUA emergiram no século XX com a veleidade de ocupar. como ocorria na Guerra Fria. História. como pretensos herdeiros da antiga metrópole britânica. O fluxo internacionalista. Bustani foi o primeiro dirigente de uma organização do sistema da ONU a ser demitido no curso de seu mandato. antiga versão na atualidade. nas pegadas de John Burton. jun. 2. com 10. Os Estados Unidos financiam 22. ora invisível. como se abrigasse todo o continente. ao mesmo tempo em que cobravam dele eficiência nas inspeções nos demais países. caso não ratifiquem a ação. p. A doutrina Bush – a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA – apresentada ao Congresso se resume em dois pontos fundamentais: 1. por fora da rigidez e da visibilidade dos demarcados recintos de guerra. O que nos conduz ao desafio teórico de reformular a teoria da guerra. tardiamente. mas pelos mais fracos. deve ser mencionada a crise doutrinária no campo da defesa. o pódio esvaziado do antigo império em que o sol não se punha. ele teria recusado passar informações sobre outros países. de reduzida legitimidade interna e externa.21%. frágil. Os inúmeros confrontos possíveis. em surpreendente combinação de radicalismo com tecnologia. Têm de impedir que seus inimigos ataquem primeiro. a respeito. Segundo declarações de Bustani à imprensa. Os EUA não permitirão que outro país desafie sua superioridade militar. (30).p65 223 223 9/6/2006. conta com êxitos e Proj. Em todos os organismos que se dizem internacionais. 211-227.tivessem sido feitas. São Paulo. multilaterais. Recentemente. em segundo lugar o Japão. o Tribunal da OIT lhe fez justiça. portanto surpreendente. Ainda segundo o relato de Bustani. Os EUA não confiam apenas em sua capacidade de reação. E. o que nos revela a fragilidade com que se afirma o poder imperial. bombas no metrô são recursos possíveis. Os impérios também perecem Em suma. esparramam-se em teia fina. Os inimigos dos EUA recorrem a métodos não convencionais: antraz enviado pelo correio. queriam lhe impor que fossem tidos como confiáveis o bastante para impedir reais inspeções em seus territórios. Os dois juntos somam metade do orçamento. 12:05 . Mas cabe dizer. que possa se opor ao americanismo estreito de uma nação. Substituise a interpretação da bola de sinuca. esporos letais no ar e na água. 2005 12-Artg-(PauloResende). que se autodenomina América.

e que sensibiliza governos.fracassos. 12:05 . Na contracorrente de fluxos da hard política estadunidense. com amplo respaldo na emergente opinião pública mundial. Há fricções crescentes e inevitáveis. a hipótese menos tendenciosa detecta causas diversas entre partidários sunitas do Baath. cuja expectativa é a da vitória do mais 224 12-Artg-(PauloResende). não visibilizam alvos precisos. os impérios também perecem. frágil. o desgaste gradual de sua economia. com seu indiscutível hard power ter ultrapassado o ponto de culminância de que nos fala o insuspeito Karl Phillip Gottfried von Clausewitz. a reclamar lugar ao sol. Alemanha em destaque – opuseram-se à guerra preventiva. jun. produzido pela necessidade de elevadíssimos gastos militares e diplomáticos. tecnológica. Mas o que parece se impor é a lógica que leva os insurgentes a compartilhar o objetivo de libertação do país da presença estrangeira. Carente de soft power. História. O eixo do mal opta por guerra irregular. tenta reverter a capital do domínio para Washington. o governo dos EUA se mostra incapaz de se impor hegemonicamente aos próprios aliados tradicionais em ocasiões cruciais. acolitados pelo antigo e hoje subserviente império britânico. Mas há também. Embora nenhum cientista político admita curta duração para o atual superpoder norte-americano. Emblematicamente. minoritários no país. decretado pelo Congresso. ao se sentirem agredidos. obscura. Há curdos. a fim de manter sua posição de poder. Pelos atentados praticados. imprevisível. excetuada a causa comum da expulsão dos interventores estrangeiros. São Paulo. A este cenário. mas que tem sua força na invisibilidade da trama. p. Há o limite ético. de ter sido ultrapassado. e que assombra estrategistas oficiais. poder-se-ia acrescentar o estímulo aos eventuais rivais de recorrer a métodos assimétricos de defesa. não se mostram orientados por liderança localizável. (30). mencione-se o fracasso do moderado idealismo do presidente Woodrow Wilson.31O autor aponta como causa de declínio das grandes potências do passado. a transgressão do limite prático. que a emergente opinião pública mundial levanta em praça pública contra os EUA. que relembra o fracasso no Vietnã. na clássica expressão de Jean-Baptiste Duroselle. como no caso de França e Alemanha. E a impressão que fica é a de que os Estados Unidos da América. Advém daí a fragilidade de a grande potência econômica. Os insurgentes no Iraque desconcertam as Forças Armadas estadunidenses. tornam-se atuais as previsões de Paul Kennedy. subdivididos em inúmeros Estados. militar. teia fina.32 de que todas as políticas imperiais têm determinado prazo de validade.p65 Proj. A racionalidade da guerra. 211-227. 2005 224 9/6/2006. Mais recentemente. aliados tradicionais – França. visto que. Registra-se a eficácia da força e da intimidação como ferramentas da insurgência à base da teia de aranha (cobweb). tão mal explicada perante a opinião pública mundial. o que leva analistas mais apressados a falar de insurgência niilista. alem do parâmetro ético da legitimidade e da legalidade internacional. pautado no Direito Internacional. vale a lição revelada pela história. lutando para impedir o domínio da maioria xiita.

1983. História. Recebido em fevereiro/2005. rente a seu comprometimento com o regime nazista. p. (30). do Império sem Roma. Calmann-Levy. calculada nos cenários construídos pelas teorias realistas dos jogos. área de concentração em Relações Internacionais. O fato novo é que. emerge a Sociedade Internacional de conformação rizomática35 .33 A legitimidade de ampla gama de manifestações encontra no novo Direito Internacional esboço não desprezível de legalidade à base de pluralismo jurídico na sociedade contemporânea. O forte traço nazista na obra de Schmitt é estudado pelo filósofo Yves Charles ZARKA. que o tornaria impotente para a rápida tomada de decisão diante do inimigo. configura subjetividades políticas. PUF. Haja visto Seattle.13. Assim. porque sem hegemonia. 2005 12-Artg-(PauloResende). da aceitação humana de sua humanidade. 12:05 . Porto Alegre e a recorrente condenação da guerra no Iraque.forte. Notas * Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. de oposição à guerra no Iraque. conectadas de modo não homogêneo a novas formas de vida. La notion de la Politique. C. Detém e concentra poderes.o Estado é centro de decisão por excelência. protagonismos de alta complexidade embaralham fios e cartas de construtores de cenários. vê-se superada. por fora da normatividade jurídica. na heterogeneidade de suas redes múltiplas. aprovado em maio/2005. 211-227. São as ervas daninhas das relações internacionais. e as há. de Porto Alegre. das rachaduras. Un Détail Nazi dans la Pensée de Carl Schmitt.34 E a conjuntura internacional leva mais longe. com fluxos de sociabilidade. na perspectiva da paz por meios pacíficos. coordenador do Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional (NACI) da PUC-SP. mas ao jogo político tradicional das esquerdas. A multidão. A opinião pública mundial ou a multidão. A subjetividade discricionária das soberanias nacionais encontra limites crescentes. jun. entrecruza-se em um movimento de movimentos pela paz. abr/jun . Um prefácio à arte da guerra de Clausewitz. de Seattle. do mundo de conformação arbórea. 1 RAPOPORT. 2005. com a possibilidade de fazer a guerra. Paris. A nova forma de guerra saiu fora do controle de governos no contexto da mundialização. 2 SCHMITT. Na sua teoria do decisionismo. Paris. n. São Paulo. Proj.p65 225 225 9/6/2006. 1989. membro do GACINT-USP e do Instituto de Estudos de Economia Internacional.36 em suas múltiplas manifestações altermundialistas do Maio de ’68. com crescentes movimentos de resistência ao Sistema. In: Documentação e atualidade política. insurgências que se antepõem não apenas ao terrorismo de Estado. à direita. com alguns troncos e muitos galhos. no Vietnã. A. agora no Iraque.

.. Kissinger: Nós não o fizemos. A5. 2001. 1974. S. 2005. 196. Record. Rio de Janeiro. L. 17 GALTUNG. Conflict and Defense. de. 1986. militares dos EUA se colocariam na defesa da preservação das florestas tropicais. MacMillan. Théologie Politique. Lisboa. Paris. 22 HARDT. S. 14 HOBBES. O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial. 2003. De acordo com o plano do Comando Sul do Pentágono. J. A.. Em sua obra. P. 11 SUN TZU. Rio de Janeiro. p. através da criação e manutenção de parques florestais internacionais. Curso de Direito Internacional Público. páginas 145 e seguintes. C. Rio de Janeiro/São Paulo. Oxford University Press. 21. J. Heitor. Império. 2003. 12 THUCYDIDE. 1978. J. do francês por Sueli Barros Cassal. L&PM Pocket. A. Editora da UnB. Les Belles-Lettres. G. Lisboa. 15 SCHMITT. Conflict and Comunication.. Direito. e NEGRI. 16 ARON. 2 vols. Gallimard. Brasília. 9 10 HARDT. Paris. N. G. nossas mãos não aparecem neste caso. vol. s/d. M. 12:05 . Paulo. 2001. o autor se refere à Diplomacia Ambiental dos EUA. Londres. São Paulo. 24 Cf. Objetiva. A Guerra Civil Mundial. São Paulo. São Paulo. M. Civilização Brasileira. Folha de S. Peace by Peaceful Means. 226 12-Artg-(PauloResende). Soberania e Meio Ambiente. 20 de março.3 BOULDING. 1977. Harper & Brothers. Arte da Guerra e Outros Ensaios. Perspectivas e Realidades. criamos as melhores condições possíveis. 2003. Why The World’s Only Superpower Can’t Go It Alone. S. Da Guerra. e PINATEL. Especialistas da área de segurança apontam o overhang pela existência de arsenal militar superior a necessidades de segurança em tempos de paz. 5 HUNTINGTON. 2005 226 9/6/2006. Pensar a Guerra: Clausewitz. Peace and Conflict.” Moniz Bandeira faz descrição respaldada em fontes primárias em sua obra Presença dos Estados Unidos no Brasil (Dois Séculos de História). 2001. com capacidade industrial bélica em nível elevado. 1987. 20 FREITAS. Histoire de la Guerre du Péloponnèse. 207. junto às fronteiras dos países da área. Império. J. Nova York. Nova York.-B. A. Destaque. forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Editora da UnB. 1962. 13 MAQUIAVEL. 2 ed. W. O Beijo da Morte. 4 BURTON. Abril Cultural. 21 Termo empregado para designar excedente produtivo da indústria de defesa estadunidense. Rio de Janeiro. p. 1966. 19 MATTOS. Quero dizer. R.I. Transcrição de conversa telefônica do presidente Richard Nixon com o seu secretário de Estado. von. Nova York. Trad. Henry Kissinger. Brasília. The Paradox of American Power. C. Paulo. nós os ajudamos. F. sujeita a interesses da rentável indústria bélica. 211-227. J. Objetiva.. T. Martins Fontes. e NEGRI. J. p. Atlas. Alegre.. 6 GRAPIN. 28 de maio de 2004. focada na Pan-Amazônia. s/d 18 SOARES. Folha de S. 1969. (30). 1988. Development and Civilization. M. 2002.p65 Proj. jun. 2002. A. P. CLAUSEWITZ. Leviatã ou matéria. 23 CONY. Record. 1962. K. e LEE. O Fenómeno Guerra. 3 ed. 7 BOUTHOUL. Estúdios Cor. História. Rio de Janeiro. A Arte da Guerra. Sage Publications. São Paulo. C. “Nixon: Como você sabe. São Paulo. 8 NYE JR.

34 Vale aqui retomar o destaque à obra citada do jurista Guido Fernando Silva Soares. cit.. The Roads to Modernity: The British. parte.500 – 2000. 1992. 33 LAFER. J. Random House.. J. cit.25 O tom paródico do autor de Cartas Persas. colhidas nas obras de Gilles Deleuze. Ver NEGRI.. Jean-Baptiste. p. In: ALVES. 1992. Cap. Proj. 417 e ss. op. 27 FUKUYAMA. pp. and American Enlightenments. do livro 14. Cambridge University Press. A. 211-227. Os Direitos Humanos como Tema Global. The Rise and Fall of the Great Powers: Economic Change and Military Conflict from 1. Perspectiva. XXIII.. cit. Free Press. Antônio Negri. jun. os das regiões frias são corajosos”. Knopf. 1987. retrabalhadas por Michel Foucault. e HARDT. p. French. L. Michael Hardt. C. 26 HUNTINGTON. que os relegam ao campo da retórica. Francis. 12:05 . 1994. História. (30).. Alfred A. op. 30 BURTON. Paul. op. 36 Multidão em sentido distinto de massa (homogênea) e de povo (militante de partido). 2005 12-Artg-(PauloResende). 3a. Nova York. G. World Society. 35 São metáforas que valorizo em alguns de meus textos. 29 NYE JR. II . “Prefácio”. São Paulo. 32 DUROSELLE. 1972. São Paulo. The End of History and the Last Man. não muito a gosto dos internacionalistas-realistas.p65 227 227 9/6/2006. Cambridge. Armand Colin. Tout empire périra.“Os povos das regiões quentes são tímidos. 2002. 31 KENNEDY. 28 HIMMELFARB. Nova York. deixa o intérprete no dilema ao ler Do Espírito das Leis. Paris.