You are on page 1of 7

A arte como anti-humanismo

O Homem é um animal racional. Desde Aristóteles que esta definição,
incessantemente retomada, nos persegue e nos enaltece. Ela constitui
uma tentativa quase obsessiva de distanciar o homem face ao animal,
de o expulsar do mundo opaco e mudo da animalidade. O homem
seria detentor de uma característica única, a racionalidade, que
irremediavelmente o elevava acima de todos os outros animais. Ao
homem ficava reservada a possibilidade de fazer Filosofia, Ciência,
Arte. Curiosamente, também foi Aristóteles quem primeiro definiu a
Arte como mimésis da Natureza. A arte é uma atividade
exclusivamente humana mas em profunda relação com o mundo
natural. A obra de arte imita a Natureza porque, em primeiro lugar, a
desdobra nos seus duplos, replica-a, e porque, em segundo lugar, é
pensada a partir do estatuto de um ser vivo, como totalidade orgânica,
como a articulação funcional das partes de um todo à semelhança de
um organismo. Isto significa que, para Aristóteles, a arte é uma
técnica do orgânico artificial, daquilo que, criado pela habilidade
humana (techne) tem todas as características do ser vivo –
singularidade, totalidade, autonomia, finalidade interna.
No século XX, Gilles Deleuze foi o filósofo que mais profundamente
rompeu com a visão aristotélica do homem. Em vez de pensar a
essência do homem como o único animal racional, Deleuze explora os
lugares de indeterminação e de indiscernibilidade entre o homem e o
animal. Uma vez mais, é a arte que serve de operador. Ela é o exemplo
por excelência, o lugar que melhor deixa perceber essa indistinção. De
facto, para Deleuze a arte é expressão de um mundo que existe por si,
de um espaço no qual o homem e o animal se tornam indiscerníveis.
Deleuze faz assim da arte o denominador máximo de um anti-

Ela deve por isso ser pensada a partir das marcas constituintes de domínios estabelecidos por animais nas suas demarcações de territórios. a arte começa com impressões territoriais que não reenviam a nenhum sujeito humano que as capte. na vida inorgânica. O anti-humanismo de Deleuze apresenta-se pois como um programa cosmológico. de assinaturas. a uma tópica dos códigos. talhar. atravessada por forças não-humanas. ou seja. não só virtuosos. cores e cantos» [4]. para nele fazer surgir as sensações. convoca. sedimentação. a arte é o acontecimento primordial das próprias formas da Natureza. animal ou planta. pelo menos com o animal que talha um território e faz uma casa» [3]. dos meios. um estudo das forças que trabalham no artista. são auto objetivas. seja ele homem. a arte reenvia a uma teoria dos estratos e da estratificação do mundo. projeta-se no universo. «Eis tudo o que é necessário para fazer arte: uma casa. à psico-química – como coagulação. «A arte começa com o animal. o movimento auto expressivo do sensível. No limite. e são-no em primeiro lugar pelos seus cantos territoriais» [1]. Messiaen tem razão em dizer que muitos pássaros são. elas encontram uma objetividade no território que traçam» [2]. Demarcar um território é o primeiro momento da criação artística. de marcas expressivas. É neste sentido que Deleuze insiste na tese segundo a qual o gesto primordial da arte é recortar. de moradas. uma epifania de formas de vida. não do homem. mas artistas. Segundo Deleuze. posturas. à biologia. Segundo Deleuze. Como Deleuze afirma: «A arte não é privilégio do homem. dos ritmos a partir dos quais a expressão emerge. delimitar um território. Conceitos que pertencem à geologia. A criação artística. . mas da Natureza. É portanto uma Filosofia da Natureza que este hiper-realismo. ou conjuntos moleculares – misturam-se com categorias semiológicas para descrever o fenómeno da obra de arte.humanismo cerrado contra a tradição aristotélica. no cosmos. «As qualidades expressivas – escreve Deleuze em Mil Planaltos – as cores dos corais.

O devir é então esse estado não humano do homem. Deleuze propõe o conceito de devir. Devir é então tornar-se Natureza. segundo Deleuze. isto é.Para melhor perceber a relação do artista com as forças inumanas. imaginações. Como Deleuze explica: «o percepto é a paisagem antes do homem. pré-individualidades e singularidades anteriores a toda a forma constituída como «indivíduo» ou «sujeito». como devires. O artista. é uma esponja do mundo. e essa multidão faz dele um elemento da Natureza. é desenraizar as referências humanas. Kafka no devir-animal. Os afetos são precisamente esses devires não humanos do homem. é um ser de absorção. . na ausência do homem (…). onde os afetos e os perceptos existem por si. uma vida independente das vivências pessoais. No estado a-subjetivo. em si. sonhos. do absoluto desnudamento de si mesmo. em suma. Van Gogh entra no devir-girassol. flor ou rio. o artista em devir existe como uma multidão. de assimilação. Nessa captação do mundo. de captação. é tornar o seu corpo num fragmento do cosmos universal: animal. é tornar-se “povo” com a Natureza. essa paisagem não humana da Natureza. a existência acontece entre a singularidade e a multidão: enquanto único e singular. de todos os traços que caracterizam alguém como um indivíduo particular e estratificado. é um fenómeno que pertence ao mundo dos afetos e dos perceptos puros. que entra numa zona de indiscernibilidade com o universo. enquanto aquele que entra em processo de devir. estados preceptivos e passagens afetivas das vivências. onde uma vida se manifesta como vida imanente e liberta das suas amarras subjetivas. o artista descobre uma multidão que o constitui. que encontra e se junta ao mundo. O mundo do devir está para lá de toda a esfera pessoal e subjetiva: lembranças. Melville no devir-baleia de Moby Dick. opiniões. O artista é aquele que entra em devir. como os perceptos (incluindo a cidade) são as paisagens não humanas da natureza» [5]. O devir. Devir é a experiência da absoluta alteridade. Devir é romper as coordenadas subjetivas. viagens. na ausência do homem. que se mistura com a Natureza.

o pensamento tem um funcionamento diferente. O afeto é o estado de uma vida que precede a diferenciação natural entre os seres formados. que o artista passa pelas palavras. o recomeço do mundo. o pensamento é como uma árvore. pela simbiose. É antes a sua recriação. Mas. A árvore define um centro. de indiscernibilidade. constituía para Aristóteles o que há de mais específico no homem – tem a forma de um rizoma. pelas cores. mineral ou humano já não se distingue» [8]. apesar de infinito. organizado segundo a lógica dicotómica da oposição. para Deleuze. vegetal. Por isso. aqui e agora. isto é. A flor vê (…). pelos sons e pelas pedras» [6]. em relação com os perceptos ou as visões que ele nos dá. o devir. os animais. dá-se no afeto. precede imediatamente a sua diferenciação natural» [7]. Ele pertence a um estado préindividual. mas aquilo que em nós é animal. A radicalização do programa anti-humanista é ainda mais forte quando Deleuze afirma que o pensamento – aquilo que. Nas palavras de Deleuze: «Não se trata senão de nós. ele escapa . como vimos. O afeto. Essa zona de indiscernibilidade. Ele também nos dá afetos e faz-nos devir com eles (…). como Deleuze escreve: «O artista é o mostrador de afetos. Para o modelo clássico. Pela transbordância. e constitui-se a partir da ideia de verticalidade e totalidade segundo a qual os pontos se ramificam e se unem a outros que são da mesma dimensão. e as pessoas (Achab e Moby Dick Pentesileia e a cadela) tivessem atingido. pela intersecção. esse ponto que. onde todos os seres são a-subjetivos. como se as coisas. E não é só na sua obra que ele os cria. explica Deleuze. hierarquiza. O afeto é o grau zero do mundo. «é uma zona de indeterminação. o estado onde toda a forma se dissolve. o inventor de afetos. onde o homem não se distingue do animal ou do vegetal. em cada caso. esse ponto de indistinção entre o homem e o animal ou o mundo inteiro. sem ser por isso um retorno ao estado primitivo da vida. A arte é a linguagem das sensações.Messiaen no devir-ritmo e melodia. o criador de afetos.

Deleuze propõe o conceito de cérebro. o rizoma torna possível o cruzamento de diversas dimensões. à ordem arborescente. sem cortes abruptos.constantemente a uma organização segundo a imagem-árvore. que separam segmentos ou estruturas. Definir o pensamento como rizoma significa portanto descentrar o pensamento das faculdades que lhe estão desde sempre associadas: razão. enquanto pura faculdade de sentir. definitivos e significantes. o que existe são intensidades e singularidades. se encontram. ou uma vida inorgânica das coisas» [9]. e nem toda a vida é orgânica. como existência de um pensamento presente em todas as formas da Natureza. E. Num rizoma. No lugar das faculdades. entendimento. À dicotomia. «Nem todo o organismo é cerebrado. imaginação. No rizoma não existem senão linhas. porque que ele é descentrado. se cruzam por meros acasos e formam uma multiplicidade heterogénea. nomeadamente as linhas de fuga ou de desterritorialização. interrompido. este pensamento tanto do homem como das plantas e dos rochedos. o que está bloqueado. mas há por todo o lado forças que constituem micro-cérebros. um rizoma não tem ruturas marcadas e significantes. Em lugar da dupla sujeito/objeto. O pensamento encontrase nas existências mais elementares. as quais fazem proliferar o pensamento na sua multiplicidade. No momento de pensar o cérebro. Num rizoma. Deleuze condensa-o numa expressão: a vida inorgânica das coisas. à oposição. Este vitalismo essencial a toda e qualquer forma de existência. mesmo ao nível das plantas e dos rochedos. um ponto qualquer pode ser ligado a todos os outros. isto é. partido. sensibilidade. O pensamento deixa portanto de ser exclusivo do homem. sem eixo ou estrutura central. Deleuze faz a sua afirmação mais . o rizoma opõe cadeias de conexão múltiplas e heterogéneas. de micro-cérebro. retoma as suas conexões através de outras das suas linhas. Ao contrário de uma árvore. funcionando como rizomas. ele ultrapassa toda a dualidade. nas mais embrionárias. existências a-subjetivas que.

isto é criação artística de uma vida inorgânica imanente ao homem. Deleuze transformou por completo a nossa compreensão do Homem.)... a arte é experimentação cerebral. mas antes aquele que é tocado pela vida profunda de todas as formas ou de todos os géneros. mas os três aspetos segundo os quais o cérebro se torna sujeito. Não o homem enquanto rei da criação.. o homem é só uma cristalização cerebral (…). Trata-se pois de uma nova experiência do pensamento. a ciência não são objetos mentais de um cérebro objetivado. a arte é. da Topologia. podemos pois perceber que a arte como dispositivo de delimitação de território – cores dos peixes. Homem e natureza não são como dois termos (. Homo Natura em vez de Homo Sapiens. Na imanência do cérebro em todas as formas de existência.. posturas e cantos dos pássaros. Mais de dois mil anos depois de Aristóteles. tropismos botânicos – e como processo de devir-mundo. que está carregada de estrelas e mesmo de animais (. Como ele escreve: «não há mais distinção homemnatureza: a essência humana da natureza e a essência natural do homem identificam-se na natureza (…). Por outras palavras.). da Neurologia.radical do seu programa anti-humanista: «É o cérebro que pensa e não o homem. não é senão a expressão de um Pensamento-cérebro. qualquer coisa como uma Biologia do inorgânico. mas como conexão rizomática com o mundo. mas uma única e mesma realidade» [11]. já não como racionalidade exclusiva do Homem. um exercício inorgânico do micro-cérebro como uma nova forma de pensamento. . Nesta perspetiva. a fronteira entre o homem e o animal é assim dissolvida. da Geodesia. A filosofia. ao animal. desde os organismos vivos até aos inorgânicos. às plantas e aos minerais. a arte. forçando-nos a entrar na escola da Etologia. para Deleuze. Pensamento-cérebro» [10].

1991. p. p. Paris : Minuit. p. [3] Qu’est-ce que la Philosophie. 164-5. 164. pp. 10 (tradução minha). Paris : Minuit. [5] QPh. 197-8. 159-160.[1] Mille Plateaux. Paris : Minuit. 175. [10] QPh. 174 (tradução minha). 390. [9] QPh. pp. 1980. [4] QPh.html . p. [6] QPh. [2] MP. p. 166. pp. http://deleuzeemportugues. 1972. [7] QPh.blogspot. [11] L’Anti-Oedipe.de/2009/07/homemanimal-arte-como-antihumanismo. p. [8] QPh. 200. p. p. 389 (tradução minha).