Limites à dor

:
O Papel da Punição
na Política Criminal
Nils Christie

Vol. 1
Coleção

Percursos Criminológicos

Tradução:
Gustavo Noronha de Ávila
Bruno Silveira Rigon
Isabela Alves

toda sorte de razões para a inflicção dolosa de dor são dadas. é possível extrair algumas condições gerais para um baixo nível de . expor e avaliar as principais características dessas tentativas e as relacionar com os contextos sociais. criam sistemas rígidos e insensíveis às necessidades individuais. Um grande esforço neste sentido será descrever. no entanto. Nenhuma das tentativas de lidar com a dor intencional parecem. oscilassem entre tentativas de solucionar dilemas insolucionáveis. é chegada hora de dar fim a esses movimentos oscilatórios dada sua futilidade. Em minha visão.Tentativas de mudar o infrator criam problemas de justiça. É preciso também tomar uma posição moral em favor da severa restrição ao uso da dor fabricada pelo homem. as vezes são feitas tentativas para esconder a característica fundante da punição. enquanto forma de controle social. ser minimamente satisfatórias. Esta é uma atividade que muitas vezes está em dissonância com valores estimados como a bondade e o perdão. Para conciliar estas incompatibilidades. Nos casos em que não é possível esconder. infligí-la de maneira intencional. O raciocínio é o seguinte: impor punições dentro das instituições jurídicas significa infligir dor. Com base na experiência de sistemas sociais nos quais a utilização de dor é mínima. Tentativas de infligir apenas uma medida justa de dor. É como se as sociedades. em sua luta com as teorias e práticas penais.Nota do Autor As principais ideias deste pequeno livro são simples.

Onde isso acontecesse.Tove Stang Dahl. recebi o valioso auxílio deVigdis e Lindis Charlotte Christie. Rick Abel. então nenhum deles é responsável pelos defeitos do produto final. Para este manuscrito. ano após ano. generosas críticas e incentivos. Hedda Giertsen. onde exemplos de justiça participativa foram longamente discutidos. mas em direção dos quais devemos nos mover. Kersti Ericsson. Starla Falck.inflação de dor. A All Souls College. Per Ole Johansen. Isto pode levar a uma situação onde a punição aos crimes tenha evaporado. Desde aqui eu tenho a maioria das minhas experiências. Louk Hulsman e Herman Bianchi foram importantes fontes de inspiração desde a Holanda. Cecile Højgård. em Junho de 1980. em particular. Nils Christie 6 . Per Strangeland and Dag Østeberg. Annika Snare. funcionou como uma espécie de santuário durante partes do trabalho e Roger Hood e Adam Podgorecki que me deram amizade e conselhos. características básicas do Estado também evaporariam. Oslo. Se a dor for aplicada. No entanto. Subsídios da Fundação Marshall da Alemanha e do Conselho Escandinavo de Pesquisa Criminológica tornaram possível a realização de um encontro.ideais que jamais serão alcançados. Março de 1981. minha ideia é realizar aproximações. Ao escrever em uma língua estrangeira. em Oxford. E aqui eu recebo. esta dor precisa estar destituída de propósitos manipulativos e em uma forma social semelhante a um sentimento de profundo lamento. Nem sempre os escutei. Formulada como um ideal. Leif Petter Olaussen. Kettil Bruun. Andrew von Hirsch e Stan Wheeler realizaram críticas construtivas ao primeiro rascunho do manuscrito. este é um livro vindo da Escandinávia. Sou grato a tantos amigos e colegas que me ajudaram. esta situação pode ser tão valiosa para explicitar e lembrar quanto as situações onde a bondade e a humanidade reinam .

A Queda de um Império 35 35 37 39 4. Os grandes exploradores 3. Em Dor 23 2. As ideologias gêmeas 43 4.3 Nível de distribuição de dor 48 4.2 Cientificação do óbvio 46 4.1. O Escudo de Palavras 27 3.2.1. Uma abertura ao neo-classicismo 52 .Sumário Apresentação da coleção percursos criminológicos 11 Apresentação: em busca da redução de dores 15 Prefácio 21 1.4. Dissuasão 43 4. O controle da criminalidade como o objetivo para o controle do crime? 50 4. Do álcool à periculosidade 3.3.5. O Tratamento para o Crime 3.

Conhecimento 109 10. Neo-positivismo 8. A sociedade impotente 8.1.1. Dor para sempre? 9. A dor não é doce o suficiente 6.5.3. e não sistemas 6.2.4. Poder 111 .2. Contra culturas 95 95 97 99 100 10.2 Com Beccaria para os EUA 5.4. Meu camarada. O Currículo Oculto 6. Padrões subterrâneos 9. O estado forte 63 63 65 66 68 69 7. Neo-classicismo 5. Neutralização da Culpa 6. o funcionário 81 81 85 89 91 9. Algumas condições para um nível baixo de inflição de dor 109 10.3. Nascimento e re-nascimento 5.4. Culpando indivíduos.5. O Crime não é importante o bastante 6.1.2 Defensores a favor do controle 8. Um pêndulo unidimensional 9.3.2.3. Beccaria na Escandinávia 55 55 56 59 6. O Computador 75 8.1. Necessidade dos especialistas 9.1. Nossos camaradas 8.

Punição como luto 11.3.5. Em contraste com a dor 149 Bibliografia 151 .3. Justiça para o fraco? 11. Justiça compensatória 11.10.5. Limites aos limites? 121 121 124 128 136 140 145 12.2.4. Civilização dos conflitos 11.1. A economia informal 11.6.Vulnerabilidade 10. Justiça Participativa 11. Dependência mútua 10.4. Sistema de crença 114 117 119 11.

Berg Gymnas. cada vez mais. O pensamento do primeiro professor de criminologia da Noruega permanece vivo e. Keith (Org.). tornando-se o primeiro professor de criminologia da Noruega na Faculdade de Direito da Universidade de Oslo em 1966. MARUNA. graduou-se na sua cidade natal. mas o conjunto de sua obra e de suas ideias deixou influências profundas no saber criminológico crítico. capital da Noruega. Poucas são as traduções do autor para o português.Apresentação: em busca da redução de dores O criminólogo e sociólogo norueguês Nils Christie faleceu em 27 de maio de 2015 aos 87 anos. Shadd (Org. 2010. estudo e reflexão. em 1946 e realizou seu doutorado em 1959. Jayne (Org. que podem e devem nos servir de inspiração para pensarmos na criminologia por vir. pp. na qual ocupou o cargo de diretor do Departamento de Criminologia e Sociologia do Direito por muitos anos6. Nils Christie.). In: HAYWARD. Nils Christie enfrentou a ocupação nacional-socialista em seu país durante a sua adolescência. no ano de 1928. Fifty key thinkers in Criminology. 15 . Londres: Routledge. das quais desta6 SNYDER. Faleceu no dia 27 de Maio de 2015.). Nascido em Oslo. Gregory J. na capital norueguesa. A maioria de suas obras – que conta com a grande marca de mais de 30 livros publicados – não foram traduzidas para nossa língua. MOONEY. 168-173. merece ser objeto de atenção.

CHRISTIE. Rio de Janeiro: Revan. 2011. em 1998. traduzida por André Nascimento e publicada em 2011 pela editora Revan. Tradução de André Nascimento. FONSECA.camos os livros A Indústria do Controle do Crime7. Ana Sofia Schmidt de (entrevistadora). entre 18 e 21 de novembro de 1997. Dilema do movimento de vítimas.13-22. Nils. Elementos de geografia penal. 19/20.Tradução por Luis Leiria. CHRISTIE. foram publicados os artigos Elementos de geografia penal11 e Dilema do movimento de vítimas12. 1º e 2º semestres. nov. Rio de Janeiro. Elementos para uma geografia penal. A indústria do controle do crime. p. Rio de Janeiro. 95-102.367-377. Discursos Sediciosos.). CHRISTIE. Conversações abolicionistas: uma crítica do sistema penal e da sociedade punitiva. 16 . na tradicional revista de criminologia Discursos Sediciosos. CHRISTIE. Quanto aos artigos. na Revista Brasileira de Ciências Criminais. Revista Brasileira de Ciências Criminais. Conversa com um abolicionista minimalista. nº. SILVA. Roberto B. e Uma Quantidade Razoável de Crime8. 241-257. 17. jun. Nils. 1999. Uma quantidade razoável de crime. 1998. 13. p. 2002..7. p. n. Nils. São Paulo: IBCCrim. 6. Ressaltamos que o artigo foi publicado antes na Revista de Sociologia e Política com o título levemente diferente.11. v. Edson (Org. 1998. Nils. São Paulo. 2012. pp. CHRISTIE. A caminho dos gulags em estilo ocidental./mar. 1997. André Isola (entrevistador). p. Nils. 51-57. 7 8 9 10 11 12 CHRISTIE. Discursos Sediciosos. Rio de Janeiro: Forense. dias (Org. Civilidade e Estado9. Traduzido por Diogo Tebet. In: PASSETTI. jan.). Nils. Ainda. Nils. CHRISTIE. 21. v. traduzida por Luis Leiria e publicada em 1998 pela editora Forense. é produto de uma conferência realizada em parceria entre o Núcleo de Sociabilidade Libertária (Nu-SOL) e o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim). v. OLIVEIRA. n. Civilidade e Estado. Revista de Sociologia e Política. Também foi publicada uma entrevista10 realizada por Ana Sofia Schmidt de Oliveira e André Isola Fonseca.

2008. danoso. Vera Regina Pereira de. Trata-se de uma entrevista originariamente concedida à Revista Senhor em 1962. paradoxalmente. 708.Agora. Gabriel. pois entendemos que esta seria a tradução mais adequada semanticamente e contextualmente em relação ao conteúdo do livro. na lição de 13 14 15 16 ANITUA. que teve a primeira edição em inglês publicada em 1981. A Megera Domada. doloroso e inútil sofrimento da pena. Em nosso meio. De qualquer sorte. Embora muitas citações em artigos e livros de criminologia refiram-se ao livro traduzindo-o como Limites da Dor13 (talvez por levarem em consideração a tradução para o espanhol intitulada “Los Límites del Dolor”14). 2007. sem o atrevimento ocasional de desrespeitar a letra do original exatamente para lhe captar melhor o espírito”16. 7. Pelas mãos da Criminologia. Isso porque. Maria Lúcia. México: Fondo de Cultura Económica. William.Tradução de Sérgio Lamarão. CHRISTIE. apresentamos nossa singela contribuição à comunidade acadêmica com a tradução de Limits to Pain. 2012. optamos por traduzir o título do livro como Limites à Dor. p. Millôr. FERNANDES. pois não “se pode traduzir sem ter o mais absoluto respeito pelo original e. Limites à Dor. 2009) e Vera Regina Pereira de Andrade (ANDRADE. Nils. Rio de Janeiro: Revan. teria um significado mais fiel ao sentido que o autor pretendeu empregar com o título do livro. 157). como especialmente preocupadas com as dores distribuídas pelo sistema penal. Tradução de Mariluz Caso. Los Límites del Dolor. p. In: SHAKESPEARE. Julgamos que para a tradução correta ser “Limites da Dor” o título em inglês correspondente deveria ser “Limitis of Pain”. Rio de Janeiro: Lumen Juris. destacam-se Maria Lúcia Karam (KARAM. portanto. p. Rio de Janeiro: Revan. Sobre tradução. sabemos e experimentamos toda a complexidade linguística que 15envolve o ato de traduzir. 1988. Histórias dos pensamentos criminológicos. Porto Alegre: L&PM Pocket. 17 . A privação da liberdade: o violento.

2008.Tradução de Fernando Camacho.). p. foram seis punhos que se atreveram a enfrentar a difícil tarefa da tradução de Limits to Pain. 1998. Rio de Janeiro: Revan. encontra-se no meio desse paradoxo e.) o 17 18 19 20 BENJAMIN.André Isola. Lucia Castello (Org. que contou. p. ANITUA. de Walter Benjamin: Quatro Traduções para o Português. A Tarefa do Tradutor. O tradutor. e apresentava diversos exemplos de pequenas sociedades que não reagiam diante dos diversos problemas conforme a lógica punitiva.Tradução de Sérgio Lamarão. “A fidelidade da tradução das palavras isoladas quase nunca consegue restituir completamente o significado que estas têm no original”17. no entanto. Belo Horizonte: UFMG. 13-22. Gabriel Anitua considera Limites à Dor como “uma grande obra teórica.IBCCRIM. já no capítulo 2: “(. Histórias dos pensamentos criminológicos. ou para pleitear castigos alternativos. Gabriel. 708. Gabriel. In: BRANCO. 1998. vol. Para utilizar expressão empregada pelo próprio autor em entrevista concedida ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais . Rio de Janeiro: Revan. que brindará todo o campo jurídico-penal e criminológico brasileiro com suas ideias.Tradução de Sérgio Lamarão. Conversa com um Abolicionista Minimalista. ANITUA. 18 . p. que foi apresentada num momento muito oportuno.18” Ainda: “não se limitava à simples conclamação à imaginação. com a imprescindível revisão de João Zadra. ainda.Ana Sofia Schmidt de. 708.19” Em uma arriscada tentativa de encontrar o núcleo fundamental de sua proposta teórica nesta obra. frente ao colapso do ideal ressocializador.Walter Benjamin. O mais importante disso tudo. A Tarefa do Tradutor.. FONSECA.Vide: OLIVEIRA. podemos sustentar que a tese central do abolicionista minimalista20 encontra-se no início do livro. p. Jan-Mar. 21. 2008.. retornavam velhas justificativas para defender o mesmo castigo. assim. Histórias dos pensamentos criminológicos. Revista Brasileira de Ciências Criminais. em nosso caso. é o conteúdo presente em Limites à Dor. já que. Walter. 37. 2008.

para que se inflija um baixo grau de dor22. p. Argumenta não conseguir imaginar alguma situação a justificar o aumento da dor imposta pelo homem. As justificações da pena são consideradas. 19 . Limits to Pain.Também. p. A sociedade precisa de muito menos distribuição de dor. A partir disso. Nils. Eugene: Wipf & Stock: 2007. 5. Segundo ele nosso modelo punitivo inflige muita dor. As intenções de ressocializar o infrator da lei criam problemas de justiça. CHRISTIE. Precisamos reduzir esses níveis de dor. Nils Christie considera que chegou o momento de colocar fim às vacilações. pelo autor. insensíveis às necessidades individuais: “é como se a sociedade.castigo. vacile entre possibilidades de resolver alguns dilemas insolúveis”21. Geralmente. 21 22 CHRISTIE. Eugene: Wipf & Stock: 2007. tenta apontar alguns caminhos que possam propiciar condições gerais. Dor. como manejado pelo sistema penal. onde os índices de reincidência são extremamente significativos. por isso a necessidade de limites. e nenhuma parece fundamentar a dor intencional de forma suficientemente satisfatória. limites à dor. é elevada ao posto de resposta legítima ao crime”. Limits to Pain. Nils. através da descrição da futilidade da pena e tomar uma posição moral que defenda o estabelecimento de restrições severas ao uso da dor provocada pelo homem como um meio de controle social. 6. A preocupação central do autor é a dor que o sistema penal inflige através da pena. Podemos perceber a relevância que Nils Christie confere à dor em nosso modelo de controle do delito em outra passagem do texto: “Pior do que a importância dada ao crime e da culpa individual é a legitimidade dada à dor. especialmente em nosso país. como bastante questionáveis. em sua luta com as teorias e práticas penais. significa infligir dor conscientemente”. destinada a ser dor. as teorias que tentam justificar a sanção criminal costumam criar sistemas rígidos.

p. Para evitar tais situações. mas. Nils Christie levava a sério. Desta forma. possamos iniciar a defesa do câmbio de paradigmas dentro do saber criminológico. Nils. categoria esta sequer compatível com o sistema penal. já que “a aflição é inevitável. Eugene:Wipf & Stock: 2007. p. Limits to Pain.não consegue perceber alguma boa razão para acreditar que o nível recente de imposição de dor seja correto e natural23. 11. Afirma que “a dor e o sofrimento desapareceram dos manuais jurídicos. Por fim. para realizar o controle social. p. Talvez. aqui. O controle do crime se converteu atualmente em uma operação limpa e higiênica. Tanto que havia sugerido. CHRISTIE. mas não é o inferno criado pelo homem”24. Limits to Pain. devemos pensar em redução de dor. não se deve impor dor. CHRISTIE. como é natural. portanto. a questão da linguagem. CHRISTIE. Existe potencial inegável no giro linguístico proposto por ele: para além da redução de danos. Eugene:Wipf & Stock: 2007. 11. que o nome da disciplina “Direito Penal” fosse alterado para “Direito da Dor”26. p. são necessárias regras e uma delas seria: quando se está em dúvida. Eugene:Wipf & Stock: 2007. Limits to Pain. Nils. Nils. os sistemas sociais deveriam construir-se de maneira a reduzirem ao mínimo a necessidade percebida de imposição de dor. Assim. Limits to Pain. Os tradutores 23 24 25 26 CHRISTIE. por toda sua generosidade e exemplo de vida e de acadêmico. 16. sem sucesso. Nils. 20 . poderemos começar a pensar na necessária redução de dores dentro de nosso modelo de controle do crime. não desapareceram da experiência dos apenados”25. 16. a dor será inserida como eixo central de análise do poder punitivo. Eugene:Wipf & Stock: 2007. agradecemos ao Professor Nils Christie. Além dessa.