CANDIDO PORTINARI

(Brodósqui, SP - 1903 / Rio de Janeiro, RJ - 1962)

Pintor Expressionista,
Gravador, Ilustrador e Professor.

Aluno: Kauã Nascimento de Oliveira
4º ano – 114TA

BIOGRAFIA
Candido Portinari

Candido Portinari foi um dos pintores brasileiros mais famosos. Portinari pintou quase cinco mil
obras (de pequenos esboços e pinturas de proporções padrão como O Lavrador de Café à
gigantescos murais, como os painéis Guerra e Paz, presenteados à sede da ONU em Nova Iorque
em 1956 e que em dezembro de 2010, graças aos esforços de seu filho, retornaram para exibição
no Teatro Municipal do Rio de Janeiro). Destacou-se também nas áreas de poesia e política.
Durante sua trajetória, ele estudou na Escola de Belas-Artes do Rio de Janeiro; visitou muitos
países, entre eles, a Espanha, a França e a Itália, onde finalizou seus estudos.
No ano de 1935 ele recebeu uma premiação em Nova Iorque por sua obra "Café". Deste momento
em diante, sua obra passou a ser mundialmente conhecida.
Dentre suas obras, destacam-se: "A Primeira Missa no Brasil", "São Francisco de Assis"
e Tiradentes". Seus retratos mais famosos são: seu auto-retrato, o retrato de sua mãe e o do
famoso escritor brasileiro Mário de Andrade.
No dia seis de fevereiro de 1962, o Brasil perdeu um de seus maiores artistas plásticos e aquele
que, com sua obra de arte, muito contribuiu para que o Brasil fosse reconhecido entre outros
países. A morte de Candido Portinari teve como causa aparente uma intoxicação causada por
elementos químicos presentes em certas tintas.
“O vigário João Rulli desejava encomendar uma porteira e não se entendiam, peguei um papel e
desenhei a porteira. O padre ficou olhando para mim e disse: – Amanhã chegará o frentista para
ornamentar a fachada da nova igreja. Você deve ir vê-lo e aprender. Ricardo Luini era o nome do
meu escultor. (…) Quando terminou, deu-me uma prata de dois mil réis e uma viagem a Ribeirão
Preto. Pessoa muito boa”.
Candido Portinari
In, “Museu Casa de Portinari”, Brodowski – SP.

Retrato de Olegário Mariano com o fardão acadêmico; premiado no salão de 1928. ost,
198x65, 1928
Falar de um dos artistas mais prestigiados do Brasil após os monumentos literários escritos por
Antonio Bento (de Araujo Lima)[1] e Antonio Carlos Callado[2] entre tantos outros, é, no minimo,
tautológico, uma vez que esses autores já estudaram, examinaram, aclararam, e observaram
minuciosamente todas as suas preocupações sociais com o homem e seu comportamento. Não
menos importante é o “Projeto Portinari[3]” que seu filho, João Candido, implantou a partir de
1979 e que reúne vasto acervo documental sobre a obra, vida e época do artista, cuja sede está no
Campus da PUC-RJ.
O tema central da obra de Candido Portinari é o ser humano e sua temática social, repleta de
situações aflitivas e dolorosas ou aquelas que lembram sua infância na sua terra natal,
verdadeiramente líricas.
Candido Portinari - Biografia
Candido Portinari nasceu no dia 30 de dezembro de 1903, numa fazenda de café, em Brodósqui, no
interior do estado de São Paulo. Filho de imigrantes italianos, de origem humilde, recebe apenas a
instrução primária e desde criança manifesta sua vocação artística. Começa a desenhar em 1909, e
pouco depois (1912 ca.) participa da restauração da Igreja de seu povoado natal. Sua vida como
pintor – penso que sempre o foi desde seu nascimento – começou em 1918 quando foi para o Rio
de Janeiro e iniciou seu aprendizado no Liceu de Artes e Ofícios. Matricula-se na Escola Nacional de
Belas Artes, com Rodolfo Amoedo, Batista da Costa, Lucílio Albuquerque e Carlos Chambelland.
1922-1928: Desde 1922, Portinari concorria sempre aos “Salões” com retratos de seus amigos,
que inicialmente passaram inobservados, até que o retrato de Paulo Mazuchelli lhe rendeu alguns
prêmios. Naquele 1928 Portinari, com o retrato do poeta Olegário Mariano[4], ganhou o prêmio de
Viagem ao Estrangeiro; partiu para Paris e visitou – 1929-1930 – visitando também a Inglaterra, a
Itália e a Espanha, percorrendo museus e galerias. Declarou antes de sua partida: “entendo que a
estadia na Europa não deve ser aproveitada pelo pintor para uma produção intensa e quase nada
meditada, como têm feito alguns colegas. Considero-o um prêmio de observação. O que vou fazer
é observar, pesquisar, tirar da obra dos grandes artistas – do passado nos museus, ou do presente
nas galerias – os elementos que melhor se prestem à afirmação de uma personalidade. Procurarei
encontrar o caminho definitivo de minha arte fazendo estudos e nunca quadros grandes... .”
Importante: conheceu e casou-se com Maria Martinelli (1912-2006) que se dedicou a todos os
aspectos materiais relativos às necessidades do casal, transformando-se, por vontade própria, em
marchand e administradora. Sabe-se que sempre reuniu material sobre o marido, arquivando

ost. foi adquirida pelo MNBA-RJ. . cartas e fotos que se tornaram a base do acervo documental e da pesquisa do “Projeto Portinari”. Coleção MOMA. Morro do Rio. em São Paulo (1943. Em 1944. 1933 Volta ao Brasil no início de 1931. Vê-se que o pintor descobriu o Brasil – a exemplo de Oswald de Andrade (1925. que organiza em 1940. A obra é comprada e incluída no acervo do Museu. se aproximando mais de poetas e intelectuais modernistas de São Paulo. Portinari já era o artista capaz de utilizar o academicismo de sua formação. revistas.recortes de jornais. 280x130. ca. um acontecimento maior com a realização mural e azulejos sobre a vida de São Francisco para a Capela do Complexo da Pampulha em Belo Horizonte – leia-se Oscar Niemeyer – que completaria com a “Via Sacra” em 1945[6]. Expõe no Pavilhão Brasil da Feira Mundial em Nova York e o MOMA adquire a tela "Morro do Rio[5]" (Figura 2). que foram fabricados pela Osirarte. quase como consequência do sucesso da obra “Café” na Exposição Internacional de Pittsburg (1935) que projetou e inseriu seu nome no cenário internacional da arte e que. Painel de Portinari na Igreja de São Francisco de Assis 1937-1945: Vivíamos um período que insistentemente Gustavo Capanema – Ministro da Educação e Saúde Pública – queria dar visibilidade às propostas “modernas” que circulavam nos ambientes intelectuais da capital federal durante o Estado Novo.). materializada através da construção de um “moderno” edifício para o MEC – Lúcio Costa. ca. volta com novas tendências e com a ideia dominante de fazer uma pintura brasileira. uma exposição exclusiva do artista brasileiro em Nova York. fundindo a ciência antiga da pintura a uma personalidade experimentalista moderna. Oscar Niemeyer.) – em Paris. et allis – e importante na vida de Portinari que compôs afrescos mostrando nosso “Ciclo Econômico” além dos cartões para os azulejos que revestem as paredes externas do edifício. por iniciativa do Ministro Gustavo Capanema.

Em 1951 já o vemos de volta ao Brasil figurando com relevância na Iª. o mais grave em 1954 caracterizado como uma grave intoxicação pelo chumbo presente nas tintas que usava. Na concepção do diretor do Projeto Portinari. Sua última exposição individual em vida aconteceu em julho de 1961. em seu majestoso diálogo entre o trágico e o lírico. porque possuíam uma linguagem e uma imagística conveniente. O mais universal. Tanto no contexto do nacionalista Estado Novo (1937-1945) bem como no então Fascismo Italiano as imagens daqueles artistas foram utilizadas pelo Regime da mesma maneira que a obra portinariana. entre o drama e a poesia. A descoberta da terra. em uma sala particular.Uma digressão que mostra uma quase concomitante amoralidade no uso da arte pelos regimes totalitários. “essa obra-síntese constitui o trabalho maior de toda a vida do pintor.. 1952-1956: Criou os dois painéis “Guerra e Paz” (14 x 10 m cada um) encomendados pelo governo brasileiro para presentear a sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York. Washington. também. Portinari sofreu diversas recaídas da doença. o mais profundo. 1941. entre a fúria e a ternura. nem a sua arte “engajada”. As duas obras foram criadas com o apoio de cerca de 180 estudos iniciais que duraram a maior parte dos quatro anos do projeto. Apareceram. também Portinari não foi um "pintor oficial". tão somente. Pintura mural de Portinari executado para a Fundação hispânica no edifício da Biblioteca do Congresso. na . porém os primeiros problemas de saúde. Bienal de São Paulo. DC 1947-1954: Participante da intelectualidade brasileira numa época de notável mudança na atitude estética e na cultura do País e influenciado pelos problemas da nossa realidade nacional é levado à militância política e como consequência exilou-se no Uruguai.” Na avaliação do artista Enrico Bianco. A execução final demorou 9 meses. João Cândido. A exemplo do que havia acontecido na Itália de Mussolini com “Il Ritorno all’Ordine” e o “Grupo Pesaro” aproveitado por Margherita Sarfatti.” 1960-1962: Depois de viver os últimos anos sem grandes pinturas. “Guerra e Paz são as duas grandes páginas da emocionante comunicação que o filósofo/pintor entrega à humanidade. Em ambos os casos não foi possível combinar arte e política. Na Itália o movimento representava “um retorno à ordem” após longo período de tumultos socializantes. o “Ciclo Econômico” representava uma “brasilidade” pronta para uma nova etapa de grande desenvolvimento[7]. e no Brasil..

No começo do ano de 1962 sua saúde se deteriora muito e nos primeiros dias de fevereiro ele é internado e morre na manhã do dia 06 de fevereiro. 2012: A propósito dos restauros dos painéis de “Guerra e Paz”: “Esta não é apenas uma exposição de arte. Desobedecendo a ordens médicas. da injustiça social. Portinari continua a pintar para uma grande exposição em Milão. da não cidadania. Conheça um pouco mais sobre a vida de Candido Portinari Candido Portinari Candido Portinari e seu filho João Candido Painel “Tiradentes” OBRAS DO ARTISTA .Galeria Bonino. Esta é a grande mensagem de toda a vida de Portinari e que ficou sintetizada nesses trabalhos finais que ele deixou” – João Candido Portinari. no Rio de Janeiro. Esta é uma grande mensagem ética e humanista e que se dirige ao principal problema que o mundo vive hoje em dia: a questão da violência.

Vol. Retrato de Artur Scatena Técnica: óleo sobre tela Data: 1952 Medida: 181 x 91 cm Comentários: ass. dir. sob o registro nº 3145 FCO [2802].8 x 19 cm Comentários: ass. dir. inf. vol. . inf. esq. Cabeça de Mulher Técnica: desenho a crayon e lápis de cor sobre papel Data: 1955 Medida: 23. Reproduzido no Raisonné do Artista. Reproduzido no Raisonné. IV. inf.Figura Masculina Técnica: desenho a grafite sobre papel Data: Medida: 16 x 14 cm Comentários: ass. sob o registro nº 3498. na pág. III. 380.

sob o registro nº 397 [FCO 3392]. Raisonné do Artista. IV. Vol. sob [FCO 3517]. à pág.Estivador Técnica: desenho a crayon sobre papel Data: 1933 Medida: 36 x 25 cm Comentários: Reproduzido no Raisonné do Artista. Vol. inf. . I. dir. 371. Peru Técnica: óleo sobre madeira Data: 1958 Medida: 61 x 50 cm Comentários: ass.

COM DEDICATÓRIA “PARA O AMIGO CALLADO. Reproduzido no Raisonné do Artista. dir. COM O ABRAÇO DE PORTINARI” . executado por encomenda da revista "O Cruzeiro" e que hoje pertence ao acervo do Banco Central do Brasil.FCO 2974. VOL. Vol.Descobrimento do Brasil Técnica: desenho a grafite sobre papel Data: 1956 Medida: 25 x 20 cm Comentários: Reproduzido no Raisonné do Artista. Descobrimento do Brasil Técnica: desenho a grafite sobre papel Data: c. PÁG. sob o registro nº 3795 . 163. sup. pág. Desenho autenticado por Maria Victória Portinari. publicado na revista "Bazar". Uma Noite de Natal Técnica: nanquim e grafite sobre papel Data: 1931 Medida: 31 x 38 cm Comentários: ass. inf. IV.". Ilustração para o artigo "De como François de Montcorbier Dito Villon. à p. 468.. Brasília. sob o registro nº 249 FCO [4854]. Esta é uma das três primeiras ilustrações do artista que foram publicadas. SOB O REGISTRO Nº 3367 .[FCO 1984]. I. ESTUDO PARA O PAINEL “DESCOBRIMENTO DO BRASIL”. Vol. III. REPRODUZIDO NO RAISONNÉ DO ARTISTA. Primeiro estudo para painel intitulado "Descobrimento do Brasil". 1955 Medida: 100 x 81 cm Comentários: ass. Distrito Federal.. 199. esq. de Edmundo Lys.

339. FCO [4291]. esboço para ilustração nº 4 de "Cangaceiros" de José Lins do Rêgo. Abacaxi Técnica: desenho a grafite sobre papel Data: 1956 Medida: 17. vol. III. sob o registro nº 0481 . Vol.FCO [759]. I.Colheita de Cana Técnica: desenho a carvão sobre papel kraft Data: déc. 30 Medida: 110 x 80 cm Comentários: sem assinatura Reproduzido no Raisonné.4.5cm Comentários: ass. dir. 50 Medida: 32 x 22 cm Comentários: Reproduzido no Raisonné do Artista. . Fragmento do desenho para transporte “Cana” FCO [5334] do Palácio Gustavo de Capanema no Rio de Janeiro.Trabalhadores . à p. sob o registro nº 830. "Série Cangaceiros". 435.5x10. Lavadeira com Duas Amigas Técnica: desenho a grafite e crayon sobre papel Data: déc. inf. à p.

esq. registro 4028. Caricatura de Homem Técnica: desenho a grafite sobre papel Data: 1956 Medida: 23 x 13 cm Comentários: ass. página 454 Vol. dir. . a bordo quando Portinari viajou em 1956. registro 3825 página 175 vol IV. II Perfil de Mulher Técnica: desenho a grafite sobre papel Data: 1956 Medida: 22 x 32 cm Comentários: ass. página 239 vol IV. inf. Registrado no Projeto Portinari sob n° FCO 335 registro 2048. inf. A caricatura é do médico do navio "Augustus". Purgatório Técnica: desenho a grafite sobre papel Data: 1944 Medida: 6 x 20 cm Comentários: ass. dir. Esboço para o painel "Purgatório".Registrado no Projeto Portinari sob n° FCO 720. Registrado no Projeto Portinari sob n° FCO 485. inf. Registrado no Projeto Portinari sob n° de FCO 525.

vol. MG. inf.B.2x28. inf. registro 4160. Registrado no Projeto Portinari sob nº FCO 647. esq.Araras Técnica: desenho a grafite sobre papel Data: 1948 Medida: 20 x 38 cm Comentários: ass. Niemeyer Igreja da Pampulha . registrado no Projeto Portinari sob n° FCO 660. esq. H.H. Cavalo Técnica: desenho a grafite sobre papel Data: 1957 Medida: 22. inf. projeto O. vol IV e página 283 São Francisco Falando Aos Pássaros Técnica: desenho a lápis de cor em papel Data: 1945 Medida: 35x58 cm Comentários: ass. registro 2634 e página 211 vol III. p. III. Estudo para o painel de azulejos "São Francisco Falando aos Pássaros" que revesti o púlpito da Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha. centro Esboço para o painel "Florestas". Reproduzido no Catálogo Raisonné do artista. B..8cm Comentários: ass.104. Caricatura de João Candido Técnica: desenho a caneta tinteiro sobre papel Data: 1945 Medida: 27 x 20 cm .

dir. FCO [3479]. 334 . Reproduzido no catálogo raisonné vol. 2 . à p. Vol. Cabeça de Mulher Técnica: desenho a crayon e lápis sobre papel Data: 1955 Medida: 23.8x19 cm Comentários: ass. estrela-do-mar e peixes (FCO 1767). III. 4 .Certificado de autenticidade nº 1008-A.registro nº 3498. sob o registro nº 2327. Reproduzido no catálogo Raisonné vol. 88. Estrela Técnica: pintura em baixo-esmalte sobre azulejo Data: 1942 Medida: 45 x 45 cm Comentários: sem ass. No verso há autenticação de Oswaldo Portinari com firma reconhecida.Registro nº 1736. inf. prova de parte do painel de azulejos. Hipocampo Técnica: pintura em baixo-esmalte sobre azulejo Data: 1942 Medida: 15 x 15 cm .Comentários: Reproduzido no Raisonné do Artista.p. desenho a crayon e lápis de cor sobre papel.

Rio de Janeiro. autenticação de Olga Portinari Leão.pág.Comentários: sem ass. 336 .Exposições: 1963 Mostra di Candido Portinari. Palazzo Reale.p. Reproduzido no catálogo raisonné vol. Milão. Museu Nacional de Belas Artes.Registro nº 1718 .1995: Portinari: obra gravada. dir. Participou da Exposição "No ateliê de Portinari 1920-45".p. Exposição 2000. 1905-1960. Quando o Brasil era moderno: artes plásticas no Rio de Janeiro. MAM-SP. Reproduzido no livro da mostra. 2 . Rio de Janeiro. indiv. São Sebastião Técnica: gravura a água-forte sobre papel Data: 1942 Medida: 25 x 20 cm Comentários: ass. I . 330 . Obras Comentadas . Reproduzido no catálogo raisonné vol. à pág. inf."Prova de parte do painel de azulejos Conchas e Hipocampos (FCO 1768)". 447 .[70d][EX 55] . 137. Fragmento de desenho para transporte para a pintura mural "Cacau" [FCO 1756]. [EX 426]. 14/07 a 18/09/2011. Homem agachado Técnica: Desenho em carvão sobre papel kraft Data: 1938 Medida: 76x130 cm Comentários: Em papel colado no verso da moldura. Paço Imperial. indiv.Certificado de autenticidade nº 1009-A .Raisonné Vol.Registro 848 [FCO 3849].Registro nº 1737. catalogado no projeto Portinari . 2 .

que foi realizada em 1938. suas proporções heroicas sem a necessidade de pontuar as diferenciações dos tipos étnicos que retratava. curioso. Três amigas no morro[8] C. em geral. Portinari (Brodósqui.Este desenho (O pé e o machado) a carvão sobre papel kraft de Portinari é. daí ser condição "sine qua non" a extrema habilidade e firmeza no traço. Neste pequeno fragmento se percebe um desenhista que conhece a fundo o corpo humano e sua interpretação através do desenho onde. Este tinha seus contornos furados ou marcados com carvão para que. 2006. O "desenho de transporte" ou o "desenho guia" era então reproduzido em tamanho natural sobre papel grosso ou ainda cartão. quando justaposto à parede já previamente preparada – com o reboque ainda úmido – o desenho pudesse ser facilmente transferido. As cores eram aplicadas em seguida e somente a prática indicava ao artista que tonalidade adquiririam quando secas. de um dos "desenhos para transporte" para a pintura mural "Pau-Brasil". a enorme riqueza técnica e a expressão transmitida através da forma importam tanto ou mais que a cor. por parte do artista. no mínimo. apresentava um desenho detalhado do projeto final. T.1962) . para o "Grande Salão de Audiências do Ministério da Educação". alongados e transfeitos para transmitir-nos o efeito dramático. O tal contorno transferido era rapidamente repassado formando assim o contorno final da figura. Na verdade. de acordo com o Catálogo Raisonée do artista. Por ser um "desenho de transporte" está admiravelmente acabado. Qualquer correção necessária significava a destruição do trabalho que havia sido feito.1903 – Rio de Janeiro. De que se tratava afinal? Após a concepção do tema e do desenho e obtida sua aprovação por parte do comitente. trata-se de um fragmento de um desenho de cerca de 280x250 cm onde os personagens eram distorcidos. o artista. Trata-se. Valerio Pennacchi-Pennacchi.

000 obras. O quadro em questão é um perfeito exemplo da série marrom também chamada "brodosquiana". no atual Palácio Capanema[9]. "O Circo". Considerando-se o mítico prestígio do artista e a imensa difusão iconográfica de sua obra.1934 e paulatinamente vai sendo transformada até 1940. que também trás no seu âmago a representação da presença humana a qual se torna uma constante na obra do pintor. críticos e estudiosos de arte já escreveram sobre a abrangência de sua obra ou escolheram um recorte específico. Obras de Candido Portinari: Considerando-se que sua produção pode chegar a cerca de 5. desenhos a crayon e grafite. sem sobressaltos ou cisões bruscas. temos a oportunidade de ver neste recorte de 30 trabalhos a óleo. "O Futebol" e "O Morro". 1926. gravuras sobre metal e litogravuras. Pinceladas espontâneas bem substituem os humildes abrigos do morro e. uma amostragem significativa das obras do grande artista que através dos gigantescos murais sobre a evolução econômica do Brasil. 2004. aliás. tais como. fase que se inicia em 1933 .Óleo sobre tela 100 x 82 cm. Edifício originalmente concebido para ser a sede do MEC. permitome indicar que a obra aqui apresentada é representativa de um período em que obras muito conhecidas e prestigiadas foram produzidas. matizada com alguma luz que ilumina as três figuras femininas de porte conspícuo. que deve ser percebido como a recuperação da tradição pictórica enunciada por Jean Cocteau que para tal cunhou o termo "rappel à l’ordre". o que se refletiu tanto no projeto do edifício quanto no contexto histórico em que se insere. 1938 "Arte brasileira só haverá quando os nossos artistas abandonarem completamente as tradições inúteis e se entregarem com toda alma. Portinari vive! Valerio Pennacchi-Pennacchi. além de introduzir novos elementos. caracterizadas pelo abandono das proporções e pelo alongamento das silhuetas que lhes dá um claro endereço "neoclássico". A fatura pictórica dessa obra faz parte de uma fase geralmente aceita como a ruptura de Portinari para com o academismo. esta última. de avanço intelectual. apesar de infinitamente menos conhecidos que os painéis de “Guerra e Paz” da ONU[10]. à interpretação sincera do nosso meio" Candido Portinari Jornal "A Manhã". como de costume em toda a obra "portinaresca". A obra nos apresenta uma superfície dominante de tons marrom. Não creio que faltem obras para enriquecer a bibliografia sobre Candido Portinari. Felizmente o debate não está encerrado. efeitos claro-escuro emoldurando o tema principal nos fazem sentir a paisagem e nos transmite uma sensação de quietude que contrasta com a severidade do horizonte. testa a utilização da arquitetura funcionalista de “matriz corbuseana” no país. os grandes teóricos. terra e roxo. hoje pertencente à coleção do MOMA-NYC. mostra um momento dos mais significativos em sua carreira. Foi construído (1936-1945) em um momento em que o Estado aspirava passar uma sensação de modernidade. . Junho.

Falar de um dos artistas mais prestigiados do Brasil após os monumentos literários escritos por Antonio Bento (de Araujo Lima)[11] e Antonio Carlos Callado[12] é. na Europa estudou e pesquisou muito e pintou muito pouco. aclararam. conquistando grandes admiradores no seu próprio país e no exterior. tautológico uma vez que esses autores já examinaram. das formas escultóricas robustas como o que vemos nos “cortadores de cana”. respirem fundo e procurem a essência no retrato de uma menina negra a qual... Aquietem seus ânimos. Estamos falando de “modernismo” cujo mérito foi a desconstrução dos sistemas estéticos da arte tradicional. uma vez que involuntariamente nos fixamos no extraordinário poder de sua expressão facial. Conforme havia prometido. do peso dos corpos. . Com visão conspectiva distinguimos uma obra com primazia figurativa moderna relacionada em maior ou menor gráu com o cubismo e surrealismo. analisar e incorporar parcialmente à sua linguagem (leia-se. logramos completá-los pela percepção. “Candinho” as retratava sob sua ótica severa aproveitando parte da arte moderna européia (1928-1931) que pode ver. a exemplo da maioria dos outros desenhos. no minimo. estudaram e observaram minuciosamente todas as suas preocupações sociais com o homem e com seu comportamento. o volume dos músculos e a força concentrada nos pés ou nas mãos. sem dúvida uma forma inteligente de não submissão a um novo colonialismo patrocinado pelo Enba. . Escola de Paris e Retorno a Ordem). Que dizer da densidade.

Jorge Amado . Você já nos deu a obra mais grandiosa que um pintor pode oferecer à sua terra. Sua pintura daqueles tempos é um protesto contra essa falta de intimidade que existe entre nós e aquilo que se chama realidade brasileira. Era a hora da tarde em que as coisas são iluminadas de través e os olhos azuis de Portinari com as lágrimas que não queriam descer me apareceram como se contassem também sobre sua obra imortal. com luz própria e eu tive vontade de dizer àquela gente toda que passeava pelo saguão. foi no Castelo. ele tocou fundo em nossa realidade. Com seus pincéis. A terra e o povo brasileiros — camponeses. . Museu de Arte de São Paulo (São Paulo. santos e artistas de circo. Só depois da morte de Portinari que eu estive na ONU e vi. RJ).. Foi muito pouco o que dissemos. dos curibocas e dos imigrantes. Estava magro. o drama e a esperança de nossa gente. abraçou-me profundamente e disse: Imagine. Portinari Desenhista. Portinari Desenhista. RJ. e a vidinha que montou no Brasil o homem imitador da Europa e dos Estados Unidos. dos tapuias. por isso. seus Meninos de Brodowski. no deslumbramento do apogeu de sua arte. Portinari… Dinah Silveira de Queiroz In: Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro.Escritor In: Callado. como se disséssemos palavra mágica. os animais e a paisagem — são a matéria com que trabalhou e construiu sua obra imorredoura. Candido Portinari nos engrandeceu com sua obra de pintor. Já no “Frevo” com suas figuras não ancoradas à terra. RJ). Cada figura me apareceu facetada: astro ou pedra preciosa. Museu de Arte de São Paulo (São Paulo. É a permanente marca do gênio! Valerio Pennacchi-Pennacchi.) percebemos nele volume e “estado de alerta” tão bem representados por um único olho e pelas orelhas estiradas (lote nº . MAM-RJ.). Antonio Callado . SP). dos cafusos. dos caboclos. Eles já estavam longe e as palavras morreram no meu pensamento. Foi um dos homens mais importantes do nosso tempo. seus olhos estavam rasos d'água. Da última vez que vi Portinari. Críticas Portinari marcou. Antonio. 1977. são evidentes as deformações do pés e mãos dos que dançam simbolizando seu trabalho manual e agrário. seus quadros de lavradores o abismo que ainda existe entre a natureza brasileira. Se não me engano. eu ia em busca de uma condução e ele vinha com sua Maria. crianças. pois de suas mãos nasceram a cor e a poesia. retirantes. Maria não deixou muito tempo para conversa. RJ. “Obrasil”. o painel Guerra e Paz. pode descansar sem preocupação por não estar mais pintando. 1977. entre o País brutalmente grandioso que nos surge à mente quando dizemos. Tive vontade de sair atrás dele e dizer: Você já nos deu tanto. estou proibido pelo médico.. Eu também nasci no Brasil como ele. aí está o painel de nosso maior pintor. com seus Retirantes. 2012.Mesmo quando examinamos “o coelho” (lote nº .. como estão os pés dos pretos. É um clamor contra o fato de ainda estarmos tão superpostos à paisagem e não vitoriosamente fincados nela. já nos acumulou de uma riqueza que vai varar os tempos. Retrato de Portinari.. SP).Escritor In: Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro. não posso pintar mais. ele não deveria comover-se. 1956. homens e mulheres vindos de todas as partes do mundo: Vejam vocês aí está nossa glória.

tão rica de significado.. Tornaram-se igualmente soluções de problemas formais.Nestes dias de desorientação.. vamos chegando. Não apenas em virtude da Grande Guerra iniciada em 1939. continua viva. alicerçada no trabalho e em suas raízes rurais.) Somente mais tarde a série dos retirantes assumiria uma feição acentuadamente social na carreira do mestre brasileiro.. a exemplo dos mexicanos. para o muralismo. em que procura magnificar sua busca duma imagística nacional. "O mundo de Portinari: à medida que. para uma expressividade.). influenciado pelo cubismo cristalino do francês Jacques Villon.. "A partir de Café. a arte de Portinari conhece uma nova modificação. me sinto em estado de absoluta inibição crítica. destes cavalos-marinhos. Annateresa Fabris Portinari. árduo e útil aos homens. compreendido em termos sociais e históricos. enriquecida de novos temas. à percepção de que não estamos diante ...... a dramaticidade expressiva e a preocupação social. de funambulismos e de anemia..) Os novos temas de Portinari são sobretudo históricos ... (. (. Escritor e Crítico de Arte In: Palazzo Reale (Milão. ITA).) Ao mesmo tempo em que se deixa seduzir pela cor.) Começaram a ser produzidos a partir de 1935.. (. Milão. ora serena e grave. também pelo mérito de um filho de emigrantes que ainda acredita que a pintura seja um ofício sério. chega a nós como um bom vento vivificante. o exemplo da arte poderosa de Candido Portinari. Manuel Bandeira . Portinari começa a fazer experiências com a abstração geométrica. o humano. (. Eugenio Luraghi et al. Eugenio Luraghi Poeta. pintor social.de medo talvez .mas aceitando seus elementos macabros com a mesma naturalidade com que nosso inconsciente acolhe os mais fantásticos sonhos que nos perturbam na hora do sono. Esta fase social culmina com a grande tela Retirantes e com a composição O Morto na Rede. São postas de lado. ao contrário. Itália. Mostra di Candido Portinari. o esvaziamento que a pintura de Portinari vem sofrendo nos últimos anos de sua atividade artística".) Quando começou a abordar esta temática (retirantes) não havia ainda preocupações sociais marcantes na obra de Portinari. aos poucos.Escritor In: A inauguração das telas de Portinari na nova sede da Rádio Tupi. São Paulo. (. ora desesperada e excessiva. 1980. Os Retirantes de Portinari permanecerão como alguns dos trabalhos mais significativos e pungentes da arte brasileira de todos os tempos". Algumas dessas composições possuem inegável beleza plástica (. atraídos por ele. pertencentes ao acervo do Masp. A nova problemática encaminhao. (. voltada para a captação da realidade natural e psicológica. RJ. pintor que admirava há algum tempo. A viagem a Israel parece conferir uma nova dimensão à arte de Portinari.. nós nos movemos nele através do pensamento.) A busca dum rigor geométrico aliado a uma paleta clara e sonora não mascara. 1977. 1942. Rio de Janeiro. 1963. p. Diante destes choros.) Após 1947. cheios de assombro . Tiradentes (.) Os retirantes pintados nos últimos anos da vida do artista já não eram apenas quadros sociais.. ao mesmo tempo. torna-se a tônica da arte de Portinari. (.. entretanto. Antônio Bento Portinari. mas...169... Dissertação (Mestrado em Artes Plásticas) ECA/USP. A Manhã.. como em face do apelo aos recursos de expressão que caracterizariam em seguida a parte mais notável de sua obra..A Primeira Missa no Brasil.) Também não tinham a designação de retirantes. Rio de Janeiro: Leo Christiano. de matéria e de sólida técnica. "(. (. Aparecem apenas famílias acampadas nos arredores de seu povoado... em suas três fases distintas. a demonstrar-nos que a grande veia latina não se exauriu. que falam ao mais profundo de minh'alma. Tudo que posso fazer é admirar.) De qualquer modo.

não significa que não pudesse ser recuperado. Neles vemos a paisagem. a vida que levam. "(. e não mais como paradigma absoluto para os novos artistas.112. descritos. portanto. homem. mas atenta para não se 'perder' na abstração ou em outros 'excessos' vanguardistas". Não se pode. No que se refere ao aspecto temático.. período que começa a perceber as vanguardas históricas como parte do legado da história da arte ocidental.. Não amor pela miséria e o trabalho incessante e sim amor por mulher. Portinari produziu suas obras experimentando procedimentos pictóricos de artistas antigos e contemporâneos. Picasso. 'Bem-aventurados os humildes' é o que parece dizer. desde aquelas do Primeiro Renascimento. a obra de Portinari dialogou com inúmeras tradições visuais da arte europeia. onde o governo utilizará o apoio a Portinari como exemplo do seu mecenato. casam-se e sustentam família. Pisanello. Houve foi uma recuperação por parte do Poder da tática adotada pelo movimento modernista. P. que pintam a felicidade de crianças que brincam". seus filhos brincam. São Paulo: Lemos. 1997. 1999. vale a pena ser vivida. são para ele objeto de amor. período que sucede a eclosão mais violenta do modernismo no Brasil.. o destaque que dá ao personagem popular..)" Carlos Zilio In. 1997.. se a orientação de Portinari não correspondia a um patriotismo evidente e épico. todos aqueles assuntos que ele abordou não podiam ser negados por um poder para quem a questão social (mesmo que dentro de uma ótica populista) constituía uma das bases de sua política. Mas se a pintura de Portinari pôde ser recuperada. não significa que o estilo de Portinari não pudesse também ser assimilado pela ideologia do Poder.) Não se pode dizer. como principal motor para a constituição de uma arte moderna no Brasil: uma arte que tentava distanciar-se das convenções da Academia. E sem as condições em que vivem em sua terra brasileira nada tem. E não existem. criança . A querela do Brasil: a questão da identidade da arte brasileira: a obra de Tarsila.. que tenha havido uma estética oficial. ricos ou pobres. mas também sem o radicalismo dos artistas vanguardistas. o Brasil. 2ª. De Chirico. pela bondade que deles se exala..). p. Antonio. Iniciada após o refluxo das vanguardas.que.. Candido Portinari. . sempre acrescentando a cada um desses 'experimentos' soluções de forte cunho pessoal. Através de sua espantosa capacidade em absorver as mais diversas maneiras. Mas se não houve uma arte oficial. Trabalham. (. Carlos Drummond de Andrade e outros). E descritos com amor.não descritos com aflição. vemos seus trabalhadores e sua pobreza . Paul Delvaux. In: CANDIDO Portinari. São Paulo: Finambrás. que ainda aguardam um entendimento mais profundo. Portinari trafegou com indisfarçável facilidade por esquemas formais criados por Botticelli. afirmar que Portinari tenha sido um pintor oficial (. p. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.de um mundo apenas imaginário e sim diante da recriação intensificada e fantástica do mundo que Portinari conhece.. enfim. foi principalmente porque a sua concepção formal era conciliável com a estratificação simbólica de uma ideologia conservadora. pelo que vemos. Manuel Bandeira. Holbein. no tesouro das artes. do fundo do coração. Tadeu Chiarelli In: Arte internacional brasileira. de invejável herança. "Candido Portinari começa a ganhar ressonância na cena artística carioca entre 1928 e 1931. 11-19. 175-181. o de sua terra natal. Disto seus quadros são a prova. no entanto. quadros mais eloquentes do que esses.) De volta ao Brasil.. como talvez fosse o desejo do governo. já sem os traços acadêmicos. A dignidade que o artista confere ao trabalhador. (. Portinari acabou sendo eleito pelos protagonistas do movimento modernista local (Mário de Andrade. pisamos o chão. Ele os pinta com plena aceitação. Di Cavalcanti e Portinari/1922-1945. Rockwell Kent CALLADO. se compreendermos por tal um estilo que o Poder adota como seu e o impõe. edição. até a obra de seu contemporâneoPablo Picasso.

Aqui não tenho vontade de fazer nada. e porque sou um artista. de minha vida de trabalho e luta. não teve tempo de me dizer nada". Minhas convicções. A última imagem que me ficou gravada na memória foi a de meu pai. Portinari: o pintor do Brasil. Marilia. São Paulo: Boitempo. "Não pretendo entender de política. tive tempo ainda de apanhar o trem em movimento. levantara-se para se despedir. Temos coragem de voltar ao ponto de partida. Qualquer artista consciente sente o mesmo". seus pensamentos. Quando voltar vou ver se consigo fazer a minha terra. Portinari.. In BALBI. que são fundas. tende ela francamente para a pintura mural. Marilia. não quero afirmar que o quadro de cavalete perca o seu valor. e gostaria de ajudar a remediar a injustiça social existente. calça larga e colarinho. p. à interpretação sincera do nosso meio" Candido Portinari Entrevista publicada originalmente no jornal A Manhã em junho de 1926. bem entendido. Daqui fiquei vendo melhor a minha terra . In BALBI. 2003. Tenho pena dos que sofrem. São Paulo: Boitempo. In BALBI. Porém um meio indispensável" Em declaração que escandalizou seus mestres acadêmicos da ENBA. cheguei a elas por força da minha infância pobre. pois a maneira de realizar não importa" Explicando sua mudança para os afrescos. 2003. 26. Eu uso sapato de verniz. p.Depoimentos "Arte brasileira só haverá quando os nossos artistas abandonarem completamente as tradições inúteis e se entregarem com toda alma. tantos castelos e tanta gente civilizada. Eu sou moço" Sobre os valores que aprendeu com os anos que vivem em Paris. o quadro indica sempre um sentido social" Começando a flertar com o socialismo. vou pintar aquela gente com aquela roupa e com aquela cor. Candido Portinari Depoimento feito ao Poeta Vinícius de Moraes e publicado postumamente. Marilia. Vou pintar o Palaninho. ainda posso vê-lo. Com isso. Candido Portinari Trecho de carta enviada de sua viagem a Paris para Rosalita Candido Mendes.. "O alvo da minha pintura é o sentimento. p.. depois de ter visitado tantos museus. suas frases "Saí correndo. em março de 1962. Temos tempo de recuar. Mesmo sem nenhuma intenção do pintor. "A viagem à Europa para um moço que observa é útil. "Estou com os que acham que não há arte neutra. 2003.. "Vim conhecer aqui o Palaninho. 28. . a técnica é meramente um meio.12. Portinari: o pintor do Brasil. Falando sobre sua mudança para o Rio de Janeiro. Portinari: o pintor do Brasil. São Paulo: Boitempo. Aí no Brasil. Para mim.fiquei vendo Brodósqui como ela é. "Quanto à pintura moderna. eu nunca pensei no Palaninho. mas no fundo eu ando vestido como o Palaninho".

dedicado ao amigo na ocasião de sua morte. "Aos homens honestos. para que analisem tal assunto com frieza" Depois de completar a série de telas "Retirantes". o pintor que dedicou sua vida a retratar o povo tem sua obra inacessível ao público geral. Considerada pelo próprio Portinari como sua melhor obra. a iniciativa é uma forma de corrigir uma consequência perversa da importância e do reconhecimento da obra de seu pai: com a maior parte de seus quadros dispersa em coleções privadas de todo o mundo. com foco especial nas crianças. no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. foi a última de Portinari e causou sua morte. no poema "A Mão". O Projeto Portinari conseguiu disponibilizar em forma digital praticamente toda a obra do artista. o Projeto Portinari conseguiu a guarda dos dois painéis até 2013. Ele morreria no início de 1962 em decorrência do envenenamento. interesse direto pelas coisas da arte" Em reclamação contra a falta de apoio do governo para exposições e mostras. Candido Portinari (1903-1962). que se obstina a não ter. a obra Guerra e Paz: dois painéis de 14 metros de altura que foram concebidos especialmente para a sede das Nações Unidas. aos patriotas de fato é que falo. Depois de 20 anos de pesquisas. Durante os cinco anos em que trabalhou nos painéis de 140 metros quadrados. temporariamente. qualificadas por João Candido como “um verdadeiro trabalho de detetive”. De acordo com João Candido. realizando exposições itinerantes em comunidades afastadas. um dos principais artistas brasileiros. a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari" Carlos Drummond de Andrade."E a causa disso tudo é ainda o governo. bruscamente se cala e voa para nunca-mais a mão infinita. João Candido Portinari deixou a carreira acadêmica de lado há 35 anos. quando decidiu se dedicar integralmente a um projeto grandioso: localizar. o pintor já estava intoxicado pelo chumbo das tintas a óleo. em Nova York. O próximo passo do projeto será grandioso: trazer de volta ao Brasil. A obra. os painéis de Guerra e Paz serão apresentados em dezembro. concluída em 1956. como no México se observa. cidade onde foram apresentadas ao público brasileiro por uma única vez antes de serem embarcados para os Estados . Entrevistas João Candido Portinari – Projeto Portinari / Agência FAPESP: 03/11/2010 / Por Fábio de Castro Pesquisador das áreas de engenharia de telecomunicações e de matemática. Nos últimos 13 anos. o Projeto Portinari tem divulgado a obra do pintor por todo o Brasil. aos brasileiros sinceros. digitalizar e catalogar as mais de 5 mil obras de seu pai. "Estão me impedindo de viver" Comentando as ordens médicas que o proibiam de continuar pintando para não agravar sua intoxicação "E por assim haver disposto o essencial. deixando o resto aos doutores de Bizâncio. toda a obra foi catalogada. Com a sede passando por uma grande reforma.

Encontramos obras nas Américas. Heitor Villa-Lobos. em um só lugar. É um tesouro extraordinário. não havia nenhum museu. O Projeto Portinari tem uma sede física ou se concentra no universo virtual? Nossa sede fica na PUC-RJ. um Museu Portinari. na Finlândia. acompanhados de 120 estudos preparatórios executados por Portinari entre 1952 e 1956. na África do Sul. serão submetidos a uma restauração que poderá ser acompanhada pelo público. incluindo 9 mil cartas que Portinari trocou com intelectuais e artistas de sua época. Fizemos um programa de história oral que. Projetamos criar. . mas em vários países. pois o paradeiro da maioria das obras era desconhecido. Carlos Drummond de Andrade e muitos outros. Conseguimos catalogar mais de 5 mil obras. Qual é a natureza dessa documentação? Todo tipo de documento. Avaliamos que reunir reproduções de alta qualidade das 5 mil obras sairia mais barato do que fazer um museu com apenas dez obras originais. porque se trata de uma obra dispersa não só em coleções privadas do Brasil. No dia 21 de outubro uma exposição com reproduções das 25 obras de Portinari que ilustram o Relatório de Atividades FAPESP 2009 foi inaugurada na sede da Fundação. passarão por diversas cidades. em processo que levará alguns meses. temos 12 mil recortes de periódicos que vão de 1920 até os dias de hoje. em São Paulo. Tudo isso está consubstanciado em um site. mas você tem razão em dizer que se trata de algo primordialmente virtual. culturais. incluindo os grandes painéis e murais que levavam vários meses ou anos para ser realizados. Quanto tempo levou esse processo? Essa fase de atividade de rastreamento. Foi o que a FAPESP fez com a exposição de reproduções atualmente em sua sede. Foi um trabalho de detetive que consumiu muitos anos. catalogação e digitalização consumiu inteiramente os primeiros 20 anos do projeto. também produzimos novos documentos. Quais foram as dificuldades encontradas para realizar o levantamento de uma obra tão extensa? De fato é uma obra extensa. Em seguida. Além de compilar esse material. em média. a situação era dramática. sociais e políticas daquela geração. Esse trabalho imenso não se restringiu apenas ao levantamento das obras. Após o restauro. entrevistou 74 contemporâneos de Portinari. localização. Além disso. no futuro. no Rio de Janeiro.Unidos. no Haiti e em muitos outros países. Disso resultaram 130 horas gravadas em vídeo. no Canadá. João Candido concedeu à Agência FAPESP a seguinte entrevista: O Projeto Portinari fez a digitalização de praticamente todas as obras de seu pai.. Manuel Bandeira. O projeto poderia estar em qualquer lugar. Faríamos isso com reproduções impressas em alta definição. apenas reunimos os conteúdos e a pesquisa sobre o artista. conseguimos também reunir mais de 30 mil documentos. pois não temos nenhuma obra original. há 53 anos. Na ocasião. Cecília Meirelles. durante cerca de 40 anos. ao longo de anos. Graciliano Ramos. nenhum catálogo e os livros sobre sua vida e obra estavam esgotados. Foi uma aventura que só teve sucesso graças à solidariedade da sociedade brasileira. na antiga Tchecoslováquia. mas também abordam preocupações estéticas. Luís Carlos Prestes. onde qualquer um pode encontrar toda a documentação. que não se restringem a comentar sobre Portinari ou arte. como Mario de Andrade. Jorge Amado. em Israel. de que ele teria produzido um trabalho a cada três dias. no qual o público pudesse ter contato. antes de iniciar o trabalho. José Lins do Rego. Esse número correspondia à estimativa que tínhamos. com toda a obra do artista. Quando começamos o levantamento.

Desde então. passamos a desenvolver uma série de ações. fizemos uma parceria com a Marinha e percorremos o Amazonas e seus afluentes. essa foi uma das principais motivações para o projeto e é também o que nos inspira o sonho de um dia ter um Museu Portinari. Está presente invariavelmente em sua obra esse desejo profundo de solidariedade e de compaixão. cruzados entre si e pesquisados minuciosamente. O excluído é o personagem central da obra do pintor? O excluído é um personagem absolutamente central. entre outras atividades. centros culturais e prefeituras em todos os estados brasileiros. de solidariedade. Mas a temática é sempre a mesma: a profunda preocupação social. O trabalho do meu pai foi caracterizado por um experimentalismo incessante – a ponto de críticos dizerem que em sua obra há uma dezena de pintores diferentes. Vai continuar desmembrado o nosso maior pintor. consideramos que o verdadeiro trabalho começou a partir do momento em que tivemos todos os conteúdos levantados. dizia que sem ela é impossível expressar o que vai na alma. Visitamos também hospitais. Isso motivou o questionamento de Antonio Callado: “segregado em coleções particulares. o povo não tem acesso à sua obra. Mas a prioridade é apresentar o trabalho às crianças. de compaixão e de respeito pelo sagrado da vida. submetida ao flagelo da guerra e excluída da paz. mas o destino dela foi vítima de uma ironia perversa: hoje. ficando 19 dias no rio Purus. A mais importante delas é o trabalho com crianças. Como é desenvolvido esse trabalho? Percorremos escolas. de fraternidade. que está dispersa em coleções privadas e museus em várias partes do planeta. Eles se envolvem muito e entendem imediatamente o que diz o pintor. pelo contrário. Ele foi mudando o estilo e a forma de expressão. Portinari é pouco conhecido? Sim. Nada disso seria possível com uma obra que não tivesse a força do trabalho de Portinari. Podemos dizer que a força do trabalho de Portinari vem da preocupação com a questão social? Sim e isso é muito interessante. um sentimento de solidariedade incondicional com o excluído. Com a conclusão da catalogação e digitalização das obras. O resultado tem sido de um sucesso extraordinário. Ali. de forma muito precoce. os monumentais painéis Guerra e Paz. Como é a reação das crianças? Às vezes as crianças têm uma percepção visual bem mais aguçada que a dos adultos. como o Tiradentes que pintou?”. Essa experiência despertou nele. Dava importância à técnica. Candinho vai se tornando invisível. moradores de povoados muito precários têm contato com a obra de Portinari e recebem assistência médica e odontológica. realizado nos últimos 13 anos: o Brasil de Portinari. Em 2009. catalogados. Meu pai dizia que sua obra era dedicada ao povo. Esse foco na exclusão encontraria sua síntese máxima em sua última obra. Ele vivia em uma região cafeeira do interior paulista que era passagem de retirantes que vinham do Nordeste. Eu diria que esse sentimento solidário – e de revolta e denúncia contra a violência e as injustiças – é uma das características mais fundamentais para compreender Portinari. Realizamos. tiram documentos. mas destacava que seu tema era o homem. uma excursão no Pantanal recebendo crianças para uma exposição em um barco. por exemplo. o Projeto Portinari cumpriu sua missão? Não. em relação ao tamanho de sua obra. populações ribeirinhas e presídios. o excluído é a espécie humana inteira. Nos navios. em salas de bancos. . A ideia é colocá-los em contato com a obra de Portinari e sua poderosa mensagem de nãoviolência.Podemos dizer que. Isso impressionou de forma indelével as retinas daquele menino que presenciou a tragédia das famílias que viajavam em condições desumanas. Procuramos incentivar a criança a uma reflexão crítica sobre a realidade do mundo.

infelizmente. Em qualquer ponto da trajetória de Portinari veremos essa dialética. a sua volúpia. entre a fúria e a ternura e entre o trágico e o lírico. E percebeu que não havia contradição: Portinari era um homem de um misticismo ancestral e nunca abandonou isso. Além da temática religiosa. tive que abrir mão da matemática. de que os pintores socialistas deviam seguir os cânones do realismo socialista. O senhor é pesquisador do ramo de engenharia de telecomunicações. Isso está na obra dele de forma riquíssima. a avó e as tias do pintor. impregnada de poesia. Rapidamente vi que seria impossível conciliar as duas atividades. porque o projeto ia se desdobrando e. por exemplo. abordando questões universais e trazendo também um grande retrato do Brasil. Tudo isso foi abordado de uma forma que apresenta sempre uma dialética entre o drama e a poesia. Eu tinha 28 anos. Outro elemento é o trabalho. no mato. depois de dez anos fora do Brasil. cidade natal de Portinari. a temática dele é muito abrangente. que era seu amigo. que. Em 1979 concebemos o Projeto Portinari. A infância também é um tema recorrente. o que é mais presente em sua obra? Por tomar para si o partido do desfavorecido. brincando na rua. para matemática. Luis Carlos Prestes. Ele sente a África com sua magia. ainda na área de engenharia elétrica. É extraordinário como pintou tantas vezes o Cristo e as cenas bíblicas. A infância está em sua obra poética. com animais. Isso foi dito por Assis Chateaubriand. compreendeu que se tratava de uma típica família matriarcal italiana. No ano seguinte fui diretor do departamento e fiquei 13 anos totalmente absorvido na pesquisa. Guerra e Paz no Brasil – Entrevista com João Cândido Portinari Entrevista com o Fala Cultura Há 54 anos. Portinari se tornou um dos maiores pintores de negros das Américas. Como foi sua carreira acadêmica? Ainda atua na área? Estudei matemática na França e lá prestei concurso para escolas de engenharia e me formei em telecomunicações. ensino e administração. a mais poderosa obra de Cândido Portinari – os painéis Guerra e Paz – deixavam o Brasil a caminho de seu lar definitivo: a sede da Organização das Nações Unidas. Trata-se de fato de um paradoxo? O próprio Amoroso Lima concluiu que não havia paradoxo quando foi a Brodowsky. teve a grandeza de perceber essa dimensão e não fazer qualquer restrição ao meu pai no Partido Comunista. Terminando o doutoramento. em Nova York.Quais são os outros temas importantes em Portinari? A partir desse eixo da preocupação com a exclusão social. em 1966 fui convidado pela PUC do Rio de Janeiro para ajudar a criar seu Departamento de Matemática. visitar sua casa. como nenhum outro artista do pincel”. que escreveu um texto sobre a presença da África na obra de meu pai: “Portinari é o maior e mais fantástico pintor de negros que ainda viu a espécie humana. lírica. Algo que pouca gente sabe. O trabalhador é um tema que percorre toda a sua trajetória. os seus mistérios. Fiz o doutoramento no Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT). é que Portinari foi um dos maiores pintores sacros do mundo. mas já com meu interesse todo voltado. apesar de ser pobre é passada sob as estrelas. Ele se recusou a seguir as diretivas do Partido Comunista Russo. novamente. . Porque é uma infância do interior do Brasil. Conhecendo a mãe. de católicas fervorosas. Uma produção sacra que levou Alceu Amoroso Lima – grande pensador católico – a levantar um intrigante paradoxo: como um pintor comunista como Portinari fazia a pintura sacra com tanto fervor.

onde os painéis foram instalados. no mesmo teatro. quando será devolvida à ONU. criando um expressivo contraste. filho de Cândido Portinari e diretor do Projeto Portinari. Estávamos preparando as comemorações do Centenário de Portinari. inacessíveis ao público. Então percebemos que seria inviável realizar a exposição naquele espaço. O local escolhido é o Salão dos Atos. pintados a óleo sobre madeira compensada naval. A obra foi encomendada pelo governo brasileiro. apesar de já saber que estava sendo envenenado pelas toxinas presentes em suas tintas. agora. Trazê-los à tona? Exatamente. em 2002. voltei a Nova York para entregar o livro sobre Guerra e Paz para cada um dos delegados da ONU. permaneceram expostas no Teatro Municipal do Rio de Janeiro – o que remeteu à cerimônia realizada antes da partida dos painéis para Nova York. Você sabe que tradicionalmente. Guerra e Paz são dois painéis de aproximadamente 14 por 10 metros cada. Nos conte um pouco de como foi todo esse trabalho. pela primeira vez em mais de meio século. e a grande mensagem de esperança e paz pintada sobre os grandes painéis. a exposição atraiu mais de 44 mil visitantes. o segundo representa uma visão éterea e esperançosa dos tempos de paz. e surgiu essa ideia de expor os estudos preparatórios junto com os painéis. o povo – primeiro do Brasil. tanto pelas dimensões da obra quanto pelas negociações envolvidas. trazê-los à luz novamente. Os painéis vivem um paradoxo. conversamos com exclusividade com João Cândido Portinari. Enquanto um representa todos os males e horrores da guerra. ele foi impedido de entrar nos EUA. A partir de amanhã (7). até o ano de 2013. Guerra e Paz finalmente chegou às terras brasileiras. e depois. do mundo – poderá ver pessoalmente toda força humana. Graças ao trabalho do Projeto Portinari. será a vez de São Paulo conhecer a grandiosa obra. A exposição permanecerá aberta até 21 de abril. Infelizmente. com o anúncio de uma grande reforma do edifício das Nações Unidas. foram apenas no ano anterior. Essas era uma forma de tirar os painéis do “armário”. Por questões de segurança. Em 2007. no Memorial da América Latina. o saguão do edifício da ONU. para presentear a ONU. com um . Em 12 dias. Para marcar esse momento marcante nas artes visuais do nosso país. Confira: Imagino que o processo de trazer Guerra e Paz para o Brasil deve ter sido bastante complicado. são os brasileiros que abrem as sessões da ONU. Além dos painéis – que serão expostos pela primeira vez após sua restauração – o público poderá desfrutar de 100 estudos preparatórios originais para a realização da obra. o processo todo começou há dez anos. a obra fará uma turnê por diversas cidades. Acontece que os atentados terroristas contra o World Trade Center estavam muito recentes. que seria no ano seguinte [2003]. Eles são “invisíveis”. Contudo. é um ambiente bastante inacessível ao público. surgiu uma oportunidade inédita de expor os painéis em outros países. e as normas de segurança estavam mais rígidas.Agora. Então. que vivia o período da Guerra Fria. Em 2010. Portinari não pôde presenciar a inauguração dos painéis em Nova York – devido ao seu envolvimento com o Partido Comunista. Bom. lá na sede das Nações Unidas. em 1956. e receberam quatro anos de dedicação de Cândido Portinari – que trabalhou incessantemente para concluí-las.

200 obras e 30. O Brasil continuará a trabalhar para que essa expectativa tão elevada se torne realidade. eles fizeram muitas exigências. será a primeira vez que ela será exposta junto dos estudos preparatórios. nesse cenário. Outro fator determinante é que o Projeto Portinari foi nascido e criado na universidade. na sua opinião? Já estamos há 33 anos trabalhando no Projeto. Agora. que o presidente Lula encerrou seu discurso nas Nações Unidas com uma citação à obra. tanto para trazer o Guerra e Paz quanto em outros. guerra em paz. Mas essa proximidade com o ambiente universitário permitem uma constante inovação. e é uma luta mantê-lo de pé. é a essência da missão das Nações Unidas. que continua atual. que atraiu mais de 44 mil visitantes. Sempre encontramos muito apoio.discurso. E quanto ao Projeto Portinari? É um assunto recorrente a dificuldade enfrentada para manter os legados dos artistas brasileiros – e. percebi que aquela seria uma oportunidade única de conseguirmos a guarda dos painéis durante o período da reforma. “Ao entrar neste prédio. talvez até mais válida do que nunca. inclusive de ciência e tecnologia que podem ser aplicadas ao nosso projeto. em 22 de dezembro de 2010. Foi só em 2007. os delegados podem ver uma obra de arte presenteada pelo Brasil às Nações Unidas há 50 anos. estamos sempre em contato com todas as novidades. para conseguirmos a guarda de Guerra e Paz. a obra traz uma mensagem ética muito forte. e o ministro Celso Amorim fez uma solicitação oficial à ONU. Trata-se dos murais ‘Guerra’ e ‘Paz’. e com uma visão mais ampla. Qual é o segredo. e principalmente o empenho do vice presidente José de Alencar. que seria de 2009 a 2013. foi essencial o apoio do governo. Essa cerimônia me lembrou muito a cerimônia inaugural de 1956. em São Paulo.”Acho que um fator que ajudou muito na continuidade do Projeto é a própria solidariedade natural do brasileiro.” (Luís Inácio Lula da Silva. Certamente. que continua atual. aberto. a que estive presente. Entramos em contato com o governo. Curiosamente. talvez até mais válida do que nunca. E quando surgiu a ideia de trazer os painéis para o Brasil? Quando fui à ONU em 2007. também no Rio de Janeiro. Um momento histórico e único . para entregar os livros aos delegados. e nenhum citava Guerra e Paz. É claro que. Nesse processo.000 documentos relacionados a Portinari. que também foi no Theatro Municipal e contou com a presença do presidente Juscelino Kubitchek. li cada um desses discursos. O apoio à cultura no Brasil ainda é complicado. e. eu soube da reforma no edifício. do que eles podem esperar da exposição que começa amanhã? Que eles não deixem de ir. catalogamos 5. Só para encerrar nossa entrevista. porque ela está muito emocionante. gratuito e que é muito consultado. Pesquisei. pintados pelo grande artista Cândido Portinari (…) A mensagem do artista é singela. mas poderosa: transformar aflições em esperança. fizemos uma cerimônia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. em 2007) Guerra e Paz prova que Portinari não trabalha com o abstrato. Conseguimos cumprir todas as exigências. “Guerra e Paz traz uma mensagem ética muito forte. Assim que voltei ao Brasil. e disponibilizamos uma grande parte desse material no site do Projeto Portinari. Mas já conseguimos grandes conquistas: por exemplo. existe algum recado que você gostaria de deixar aos nossos leitores paulistanos. o que foi essencial. a obra seguiu para restauro em ateliê aberto. sairão da exposição carregando essa mensagem de humanidade. como a restauração dos painéis e um seguro. Depois da breve exposição no Teatro Municipal. o Projeto Portinari é um exemplo de sucesso. em discurso na ONU. muitos projetos passam ao largo da universidade.

reunindo mais de 44 mil visitantes. em São Paulo. tenta explicar a grandiosidade dos painéis que estão em exposição no Memorial da América Latina.A. Terminadas em 1956. uma fotomontagem comparando a mãe síria à pintura de Portinari. mais de 150 mil . A frase. Em São Paulo. dita pelo artista brasileiro Candido Portinari (1903-1962). em dezembro de 2010. Portinari pinta os painéis "Guerra" e "Paz". onde os painéis foram instalados no hall de entrada. filho do artista. “Os painéis Guerra e Paz representam sem dúvida o melhor trabalho que eu já fiz. que teve início em 2010. as obras permanecem atuais. podem ser comparadas a fotos de mães que sofreram recentemente no conflito na Síria. Globo Comunicação e Participações S. Dedico-os à humanidade”. Uma grande reforma no edifício da sede da ONU. essa comparação foi feita por um professor de Uberlândia (MG) que visitou a exposição e lhe mandou. Candido Portinari. disse João Candido Portinari. “Esta não é apenas uma exposição de arte. Esta é uma grande mensagem ética e humanista e que se dirige ao principal problema que o mundo vive hoje em dia: a questão da violência. As expressões de sofrimento das mães no painel que mostra A Guerra. no galpão da TV Tupi. com acesso restrito ao público. João Candido. falou João Candido.Junto de auxiliares. mas a grandiosidade das obras não pode ser medida apenas pelo tamanho dos painéis e sim pela tocante mensagem de paz que destina ao mundo. Segundo João Candido. da injustiça social. Todo o trabalho que resultou em Guerra e Paz foi produzido por Candido Portinari entre os anos de 1952 e 1956. Esta é a grande mensagem de toda a vida de Portinari e que ficou sintetizada nesses trabalhos finais que ele deixou”. deu a inédita oportunidade de trazer esses painéis ao Brasil. é o responsável pela realização do projeto. em Nova York. Cada um dos murais tem 14 metros de altura por 10 metros de largura e pesam mais de 1 tonelada. “Ela estava numa posição de desespero absolutamente idêntica a de uma mulher que estava no painel da Guerra”. A primeira etapa da exposição ocorreu no Rio de Janeiro. no Rio de Janeiro. em 1955. por e-mail. O trabalho foi encomendado pelo governo brasileiro para presentear a sede da Organização das Nações Unidas (ONU). da não cidadania. que trouxe as obras para o Brasil. por exemplo. até dia 20 de maio de 2012.

disse o filho. disse. é grandioso. contou ter gostado mais do painel que retrata a paz. disse ele. disse ela. o estudante Pablo de Lima Almeida decidiu ir à exposição com um grupo de amigos. “É mais bonito”. João Candido tinha apenas 13 anos quando o pai deu início às obras. que ele não respeitou. em detalhes. Até 2014. Portinari rejeitou o conselho médico. Mas ele não podia deixar de passar a maior mensagem da vida dele. A paz sempre é mais bonita”. as obras passaram por um processo de restauração. os médicos o aconselharam a parar de pintar por causa do processo de envenenamento pelas tintas. sem janelas. “Em A Guerra. E aí me explicaram que é como um quebra-cabeça. Eu sou da paz”. em condições extremamente árduas. à Agência Brasil. Após receber a dica de um professor. a de paz”. À Agência Brasil. Com Guerra e Paz também estão sendo expostos 100 estudos preparatórios. realizado entre fevereiro e maio de 2011 no Palácio Gustavo Capanema. Enquanto fazia o estudo preparatório para os dois painéis. O gigantismo das obras impressiona o público. Fiquei espantada [em saber] como transportaram. no Rio de Janeiro. Portinari morreu em consequência do envenenamento pelo chumbo presente nas tintas que usava. É uma imagem mais chocante. com teto de zinco e que chegava à temperatura de 45 graus Celsius. Os imensos painéis só puderam ser transportados porque Guerra e Paz consiste numa espécie de quebra-cabeça. que eles desmontam. que sempre gostou de arte. recortes de jornais e fotografias que contam. É mais gostoso”. Ele trabalhava num galpão que era um antigo estúdio de televisão. “E continua do mesmo jeito”. Segundo João Candido. vemos as pessoas sofrendo. Guerra e Paz foram os dois últimos e maiores painéis criados por Portinari. . No Brasil. “Mas ver aqui é diferente. No nosso país é diferente. Eu só via um homem que pintava de manhã até de noite. Estamos em casa. já que é um painel imenso. que contou que a obra era da ONU. segundo ela. até que voltem em definitivo para a sede da ONU. decidiu visitar a exposição antes que ela terminasse. “Particularmente eu gosto mais de A Paz. O médico Luiz Martinelli já tinha visto a obra na ONU. as obras apresentam a sociedade em que vivemos. brincou. “Eu vi um ato de heroísmo. a criação dos painéis. Em 6 de fevereiro de 1962. Para ela. emprestado pela Rádio Tupi. “Fico encantada em ver como uma pessoa pode fazer uma arte desse tamanho. Havia aquela proibição médica. impactante”. todo dividido. o pai levou quatro anos fazendo os estudos para as obras e as pintou em apenas nove meses. O impacto das obras. lembra. A professora aposentada Nilsa Papaleo visitou a exposição na última sexta-feira (11).pessoas já visitaram Guerra e Paz. as obras ficarão em exposição pelo mundo. É claro que naquela época eu não tinha condições para perceber isso. É muito bonito. composta por 28 placas de madeira compensada naval. “Foi fatal. além de documentos históricos como cartas. Já a aposentada Cristina Figueiredo. Ele tomava limonada o tempo todo para tentar sobreviver”.

Principais obras de Candido Portinari: Meio ambiente Colhedores de café Mestiço Favelas O Lavrador de Café O sapateiro de Brodósqui Meninos e piões Lavadeiras Grupos de meninas brincando Menino com carneiro Cena rural A primeira missa no Brasil São Francisco de Assis Os Retirantes Listagem parcial das Homenagens. Elaine Patricia Cruz Repórter da Agência Brasil . títulos e prêmios: 1940 – Chicago (Estados Unidos) – A Universidade de Chicago publica o primeiro livro sobre o pintor. cubismo e da arte dos muralistas mexicanos. Utilizou alguns elementos artísticos da arte moderna europeia. “Li em algum lugar que ele (Portinari) retrata a guerra como uma coisa que sempre pertenceu à humanidade. Ele não retrata uma (única) guerra.guerraepaz. disse. infelizmente. o colorido brasileiro. onde está exposta atualmente. Mas este aqui tem o nosso colorido. No Memorial da América Latina. ela deve ter como destino a capital mineira. Arte figurativa. os imensos painéis que formam a obra Guerra e Paz.16h23. continua existindo”. em São Paulo. concedida pelo governo francês .org. Depois. que aborda a Guerra Civil Espanhola.“Eu tinha visto Guernica. como é o caso de Guernica. grande mensagem de Portinari ao mundo. valorizando as tradições da pintura. deve permanecer no Brasil por um tempo maior do que o esperado. Edição: Fábio Massalli Mais informações sobre a exposição podem ser encontradas em www. com entrada franca. seguindo provavelmente para a Noruega e para a China. antes de atravessar o oceano. ficou em exposição em SP até 20 de maio de 2012. falou. com introdução do artista Rockwell Kent 1946 – Paris (França) – Legião de Honra. que também é impressionante. lembrando da atualidade da obra. Características principais das obras de Candido Portinari: Retratou questões sociais do Brasil. Suas obras de arte refletem influências do surrealismo. Belo Horizonte (MG). a exposição foi prorrogada até o dia 20 de maio. Portinari: His Life and Art. Ele retrata a guerra que sempre existiu na humanidade e que. Essa grande mensagem do artista Candido Portinari ao mundo. o que para mim é muito importante”. do Picasso.13/05/2012 .br Guerra e Paz.

como melhor pintor do ano. concedida pelo júri do Prêmio Internacional da Paz. 1956 – Nova Iorque (Estados Unidos) – Prêmio Guggenheim de Pintura. . pelo painel Tiradentes (1949). por ocasião da inauguração dos painéis Guerra e Paz na sede da ONU de Nova York. concedida pelo International Fine Arts Council.1950 – Varsóvia (Polônia) – Medalha de Ouro. 1955 – Nova Iorque (Estados Unidos) – Medalha de Ouro.