As sobras

Do ponto de vista cultural e pedagógico, a República foi uma revolução que abortou e
que, contentando-se com a mudança do regime, não teve o pensamento ou a decisão de
realizar uma transformação radical no sistema de ensino para provocar uma renovação
intelectual das elites culturais e políticas, necessárias às novas instituições democráticas
(AZEVEDO, 1953, p. 134).
Vale ressaltar que e escola foi pensada como instrumento validador da ideologia
do sistema dominante para manter as divisões classe: dominantes e dominados. O
estado assumiu o controle da educação escolar e formulou o Plano Nacional de
Educação para o controle das ações na prática desde de 1934, conforme descreve
Freiteng.
Nos estudos dos textos de Carlos Fino (2001), percebe-se que a escola pública
foi criada no momento da revolução industrial para atender as necessidades
emergentes do mercado de produção fabril. Nesse período aconteceu à
disseminação da escola pública no mundo.
Essa realidade exigiu outro tipo de mão de obras. Precisava qualificar
trabalhadores para a indústria
. Com a ruptura do sistema social, o Brasil ingressa no Capitalismo. O Estado
que já respondia ineficazmente pela institucionalização do ensino começa a
investir mais na educação escolar
intelectuais que suscita novas manifestações.
No período da sociedade pré-industrializada, a emergência era formar
profissionais para a indústria. As pessoas que chegavam à indústria se fixavam nos
arredores da mesma, ou seja, na cidade ou vilas industriais. Com isso cresceu o número
de pessoas nesses lugares e consequentemente a necessidade de implantação de políticas
públicas, especialmente a escola para atender as crianças que chegavam da zona rural e
de outros lugares como futuros trabalhadores fabris
No período da sociedade pré-industrializada, a emergência era formar
profissionais para a indústria. As pessoas que chegavam à indústria se fixavam
nos arredores da mesma, ou seja, na cidade ou vilas industriais. Com isso
cresceu o número de pessoas nesses lugares e consequentemente a
necessidade de implantação de políticas públicas, especialmente a escola para
atender as crianças que chegavam da zona rural e de outros lugares como
futuros trabalhadores fabris.

] o sistema escolar cumpre uma função de legitimação cada vez mais necessária à perpetuação da “ordem social” uma vez que a evolução das relações de força entre as classes tende a excluir de modo mais completo a imposição de uma hierarquia fundada na afirmação bruta e brutal das relações de força. os alunos obedeciam (operários). O ensino religioso toma-se facultativo (FREITANG. Um diretor para dar ordens (chefe) cada escola (fábrica). a escola visava transformar a realidade social dos sujeitos e. disciplinas rígidas. tudo para conduzir bem a formação do sujeito reprodutor. No Brasil. [. regulamentos explícitos. A produção bucólica e rudimentar deu lugar às produções industrializadas em grandes quantidades. O professor comandava (chefe). a realidade da não foi diferente. no período. Horários determinados.P. 1986. fixando-se ainda as competências dos respectivos níveis administrativos para os respectivos níveis de ensino (Art. por um tempo.. (BOURDIEU. regimentos internos bem definidos pelos dominantes. 150a) a necessidade da elaboração de um Plano Nacional da Educação que coordene e supervisione as atividades de ensino em todos os níveis.311) Estabelece a nova Constituição de 34 (Art. Implanta-se a gratuidade e obrigatoriedade do ensino primário. O que faz da classe multisseriada um universo inovador é a habilidade do professor de transformar a fragmentação curricular da seriação em um momento profunda sistematização . Surgiu escola em vários estados e municípios brasileiros. p. As industriais absorviam toda mão de obra existente. ..Neste contexto. um professor para um grande grupo de alunos. os Estados e Municípios (Art. São regulamentadas (também pela primeira vez) as formas de financiamento da rede oficial de ensino em quotas fixas para a Federação.51) Movida pela euforia da garantia do emprego pelo surgimento da indústria grande parte dos camponeses da época deixou o campo e para trabalhar e morar nas cidades. que reproduzia fidedignamente os ambientes de trabalhos das fábricas: pequenos espaços com muita gente. 2001. Tudo se transformou. 156). mão-de-obra obediente. a fez rapidamente. 150).

conhecida popularmente na expressão: “gente da roça não carece de estudos. (1998. a fim de dispor de referências que lhe permitam situar-se no mundo. negando às pessoas do campo o direito da transformação de vida. . Saber dessa trajetória é importante para se entender que a educação escolar é fruto da ideologia sociopolítica e cultural de uma sociedade. A garantia da educação escolar como o direito de todos e dever do Estado na legislação brasileira não garante de fato que toda a população brasileira tenha . sempre foi relegada a planos inferiores e teve por retaguarda ideológica o elitismo acentuado do processo educacional aqui instalado pelos jesuítas e a interpretação político-ideológica da oligarquia agrária. Refletir sobre o contexto da organização da classe multisseriada e suas possibilidades de transformação no contexto educacional é entender as possibilidades latentes desse universo complexo e rico em diversidades. A educação escolar como parte fundamental desse direito é fruto da ideologia do poder dominante. pois. político e pedagógico. de mudanças e os percursos que educação escolar brasileira sofreu em seu contexto social. técnicos e acadêmicos. e deve ensinar-lhe o respeito pelas outras culturas. 48). Esse deve ser o foco da educação escolar. (LEITE. 14) Os relatos históricos mostram os processos de luta. A educação rural no Brasil. p. Essa concepção foi absolvida com os ensinamentos dos Jesuitas que defendia a ideologia de que o conhecimento era coisa para quem vivia na cidade. Isso é coisa de gente da cidade”. A educação como direito social deve ser garantido a todos. procurar tornar o indivíduo mais consciente de suas raízes. 1999. p.É percebível nas narrativas históricas que as pessoas da zona rural sempre foram vistas pela elite urbana como ser desprovido de necessidade de conhecimentos culturais. por motivos sócio-culturais. Segundo Delors. a emancipação do sujeito com respeito e igualdade. a educação deve.

não se abre mão da centralidade do adulto nesse processo. p. a partir da compreensão dos fundamentos teóricos dessa concepção possam lançar mão de estratégias pedagógicas intencionais que impulsionem a aprendizagem de seus estudantes. CNBB. 2015 Epub June 02.( ANHAIA e JANATA.   Educ. Essa primeira Conferência inaugurou uma nova referência para o debate e a mobilização popular: Educação do Campo e não mais educação rural ou educação para o meio rural.. http://dx.02 2015) ANHAIA. .org/10. avaliar e replanejar o trabalho pedagógico. ao reafirmar a legitimidade da luta por políticas públicas específicas e por um projeto educativo próprio para os sujeitos que vivem e trabalham no campo (VENDRAMINI. Nossa postura teórico-prática ocorre no sentido de buscar compreender como a materialidade vivida nas turmas multisseriadas. com crianças de idades entre 6 e 10 anos. garantindo o acesso aos conhecimentos historicamente sistematizados. estabelecendo uma aprendizagem que se adianta ao desenvolvimento. criou a Secretaria de Educação Continuada. JANATA. um Grupo Permanente de Trabalho Educação do Campo e. em 2004.( ANHAIA e JANATA. Natacha Eugênia. isso requer uma sólida formação de docentes que atuam nesses espaços para que. contemplando em sua estrutura a Coordenação Geral de Educação do Campo (VENDRAMINI. p. os processos de apropriação do conhecimento. intervir. Entretanto. 2015. a partir da interação entre professor-aluno. que apresentam diferentes níveis de desenvolvimento efetivo e iminente. UNICEF e UNESCO. ainda que fiquem no plano da luta possível no presente. foram realizadas diversas conferências estaduais e nacionais. “Por uma Educação Básica do Campo”. .3 Porto Alegre July/Sept. p. preceito caro à psicologia histórico-cultural. não se fecham os olhos às possibilidades que as contradições do real trazem ao trabalho do professor. realizada em 1998 e organizada pelo MST. atividades que dizem respeito à especificidade de sua atuação profissional. Escolas/Classes Multisseriadas do Campo: reflexões para a formação docente. vol. entendendo que nestas podem ser encontradas germens de superação da escola capitalista. 2007. O Ministério da Educação instituiu. em 2003. tendo ele a função de planejar. 2015) Entretanto. bem como aluno-aluno. Real. 2007. p. Edson Marcos de.doi.02.40 no. podem potencializar.o acesso à educação escolar como também não garante que aos que têm o acesso à qualidade necessária para o desenvolvimento integral do sujeito.123). Nesse sentido.1590/2175-623645783 Nesta orientação. Alfabetização e Diversidade (SECAD). sendo a primeira conferência nacional. sistematizar. 124).

CEDES [online].27. Cad. na própria realidade cultural do campo. social e cultural neste momento histórico.p. n. Célia Regina.72. 17. que dispõe sobre a Política Nacional de Educação do Campo e sobre o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária/PRONERA (MOLINA e FREITAS. 131). Parecer n° 1/2006 que reconhece os Dias Letivos da Alternância. 2007. Educação e trabalho: reflexões em torno dos movimentos sociais do campo. vol. precisa-se pensar nas transformações de todo o conjunto que envolve o processo de ensino presente em cada contexto econômico. respeitando as especificidades dos sujeitos do campo. 2012). 121-135. a inserção geográfica e a identificação política.352. maio. tais como: Diretrizes Operacionais para Educação Básica das Escolas do Campo: Resolução CNE/CEB n° 1/2002 e Resolução CNE/ CEB n° 2/2008. de 4 de novembro de 2010. n./ago. ao invés de seguir uma concepção pedagógica pronta e acabada. também homologado pela CEB. ou seja. político. 2003. ISSN 0101-3262.VENDRAMINI. vol. Franciele Druzian* Ane Carine Meurer**. P. Decreto n° 7. 2. 2013 . Incluindo-se a isso. ( DRUZIAN e MEURER. do direito à educação seja exercida. tornam-se premissas fundamentais de sua implementação. 131 Geografia Ensino & Pesquisa. pp.