A LITERATURA, A POLÍTICA E O

COMUNITARISMO SUPRANACIONAL
Benjamin Abdala Junior 1
RESUMO: O presente artigo tem como objetivo um estudo sobre os
diversos tipos de diálogos, sejam eles culturais, literários, políticos etc.
que ocorrem na literatura explanando sobre um contexto de criação a
partir de interações que permitem um “acesso” à tradição para uma
nova formulação literária. Assim, durante a redação do texto nos
valeremos de estudos acerca de diálogos interculturais/interliterários a
fim de que possamos traçar uma trajetória de relações acerca da
literatura, política e seus possíveis diálogos em formação.
PALAVRAS-CHAVE:
Comunitarismo.

Interações;

Literatura;

Política;

RESUMEN: El presente artículo tiene como objetivo un estudio de los
diferentes tipos de diálogos, ya sean culturales, literarios, políticos, etc
que se manifiestan en la literatura explicitando un contexto de creación
a partir de interacciones que permiten un “aceso” a la tradicción en una
nueva formulación literaria. De este modo, durante la redacción del
texto nos haremos valer de estudios sobre los diálogos
interculturales/interliterarios con el fin de que podamos esbozar una
trayectoria de relaciones sobre la literatura, política y sus posibles
diálogos de incipiente formación.
PALABRAS
CLAVE:
Comunitarismo.

Interacciones;

Literatura;

Política;

1. Comparações/interações entre sujeitos e o lugar de onde
acessamos o mundo
A primeira consideração que nos parece fundamental na
análise comparatista é a necessidade de o crítico ter consciência de
1

USP/CNPq.
GUAVIRA LETRAS, n. 18, jan.-jul. 2014

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seu lócus enunciativo, o lugar de onde ele acessa o mundo. Esse
lugar, como todas as formações socioculturais, é de natureza híbrida
e envolve análises tanto em termos multi/interdisciplinares, como
também em termos político–culturais. É importante que tenhamos a
consciência de que os campos do conhecimento, estabelecidos pela
práxis social em nossa trajetória histórica, constituem escaninhos de
ordem prática. Não obstante, em razão da dialética de nosso
processo histórico, podem vir a espartilhar os horizontes de seu
próprio campo, pois que o conhecimento está sempre em
interações/fricções,
motivado
sobretudo
pelas
relações
interdisciplinares com outras áreas do conhecimento. Vêm
justamente dessas interações/fricções a possibilidade que se abre
para novas e criativas conformações.
As interações, se inovadoras, pressupõem reciprocidades,
quer em relação a esses campos, como também a situações políticosociais. Importa, nesse sentido, que se leve em conta que o pólo de
que partimos não pode subordinar ou, se quisermos do ponto de
vista da história política, “colonizar” o outro; ou, em sentido
contrário, deixar-se “colonizar” por ele. Se acessamos o mundo
através da literatura, isso significa que o modo de conhecimento da
realidade para quem se situa nesse campo pode se abrir à política,
sociologia, história, linguística etc., para nos ater às esferas das
Humanidades, mas também às áreas das chamadas ciências duras,
biológicas e da saúde. Não podemos, entretanto, nos deixar
colonizar por critérios dessas outras áreas, como muitas vezes
ocorre. A atividade crítica deve partir e voltar para o próprio objeto
literário que está sendo analisado, que é um modo de conhecimento
da realidade afim das ciências humanas e sociais.
Nossa posição, quando buscamos articulações com outras
áreas, é colocarmo-nos igualmente como sujeitos do conhecimento.
Num outro campo podemos encontrar formas de conhecimento que
vêm de experiências históricas que não figuram nos escaninhos de
nossa área. Cabe-nos, então, incorporar criticamente essas
experiências, revitalizando a nossa práxis, através de
reconfigurações em que sejamos igualmente sujeitos e não objetos,
reproduzindo especularmente o conhecimento.
GUAVIRA LETRAS, n. 18, jan.-jul. 2014

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Observação semelhante vale para o comparatismo entre objetos literários. a condição política de sujeitos do conhecimento. A tendência a ser evitada é a deixar-se “colonizar” por parte de quem se reveste de hegemonia em termos de poder simbólico. Não podemos impor uma metodologia a eles estranha. Nesse sentido. impõe GUAVIRA LETRAS. 18.Trata-se. para com isso afastar práticas rotineiras em torno de mesmices que se estabelecem em nosso campo e. a inclinação para não aceitar tais imposições. E também em sentido oposto. entre sujeitos que se comparam. entretanto. Por extensão. em relação aos países hegemônicos. que tem sua historicidade e configurações socioculturais. matizando essas experiências nas redes do lócus de onde eles falam. Vem dessas postulações. jan. n. pois. o afirmado sobre as interações entre as áreas do conhecimento vale para o comparatismo literário dentro ou fora de fronteiras políticas estabelecidas. sem deixar de considerar o lócus enunciativo de quem compara. embora sabendo que eles possuem formas de saberes diferentes dos nossos e que podemos aprender com a experiência deles. para quem se situa no Brasil. ao analisarmos narrativas de um povo ágrafo. no campo dos estudos comparados das literaturas de língua portuguesa. ao mesmo tempo. das assimetrias dos fluxos culturais.-jul. colocando-os subalternamente nos “devidos” compartimentos administrados por formulações que possam legitimar nossa hegemonia. considerarmos devidamente. pois. que administram a hegemonia dos fluxos culturais. considerando o sentido das diferenças. 2014 37 . Uma inclinação. que não deixam de configurar geneticamente o sentido das assimetrias dos fluxos culturais subjacentes. precisamos considerar o fato de que esse povo possui uma experiência que não temos. de comparar. É imprescindível. apenas para procurar legitimar nosso ponto de vista. aberturas para articulações da vida cultural em sentido amplo. abarcando inclusive a cultura material. isto é.

e. 2014 38 . como uma das inclinações fundamentais do humanismo”3. mais. reconfigurações de estratégias e repactualizações. para criar ou redesenhar. desregulamentação se afinaria com liberdade e. com matização mais forte. 2º) relacionado a essa situação. n. colocada. devem assumir atitudes mais ativas e prospectivas. GUAVIRA LETRAS. jan. a compreensão do sentido dessa repactualização ainda é muito ligeira. tendências de cooperação e solidariedade. O individualismo associado à condição da vida democrática. assim. p. Pelas margens do sistema das assimetrias hegemônicas. cit. voltando-se mais para a administração da diferença nas balizas do sistema estabelecido. tem-se colocado a reboque dos acontecimentos. muitas vezes melancólicas e contemplando ruínas. De acordo com a reiterada agenda que vem pautando os meios de comunicação. 327 p.. 18. E diante das novas solicitações é de se entender que essas vozes da intelectualidade. mas também do indivíduo e da própria democracia. nesse processo de naturalização de hábitos. nas esferas socioeconômicas. que sempre embalaram ideais democráticos.-jul. em nosso país. temos de levar em consideração que o “atual momento político solicita. 9. 3 Op. esta. hoje2: 1º) o fato de estarmos num momento de crise do modo de pensar a realidade que veio das esferas financeiras. com discursos legitimadores das hegemonias. No plano da vida cultural. com a competitividade. em geral.relevar circunstâncias político-culturais que apontamos em Literatura Comparada & relações comunitárias. Nossa intelectualidade. como critério de eficiência e aspiração maior não apenas das empresas. que culminou no crack de 2008. o que já vêm ocorrendo nas relações internacionais. abre-se a possibilidade real de se estabelecer efetivos contrapontos ao 2 Cotia: Ateliê Editorial. em que foi naturalizada a “imagem utópica do mundo das finanças: desregulamentação e flexibilidade como modelo para a economia. 2012. no âmbito do Brasil e da comunidade mundial. um desenho “naturalmente” extensivo às práticas sociais e culturais. desconsiderando as esferas culturais.

Nesta nova situação. Cit. com linhas de ação amplas. p. Foi pelas brechas desse sistema – já que toda hegemonia é porosa . na atualidade. nos países de língua portuguesa. essas associações comunitárias tornam-se ainda mais urgentes. justamente como reação aos efeitos perversos dos modelos articulatórios do capital financeiro. n. social e cultural. com a lógica dessas assimetrias dos fluxos econômicos e culturais”4. 10-11. da vida econômica à cultural. Blocos politicamente mais eficazes para estabelecer contrapontos às assimetrias dos fluxos hegemônicos supranacionais do novo 4 Op. GUAVIRA LETRAS. na situação anterior ao crack. enlaçando a iberoafroamérica. O comunitarismo afirma-se. e envolvem a possibilidade de novas articulações. que envolve e se coloca como paradigma da vida econômica.que se firmou a necessidade de conexões amplas. pautadas sempre pela supranacionalidade. jan.. abrindo a possibilidade de articulações comunitárias de sentido supranacional. Mais particularmente.. que flexibilizaram fronteiras nacionais para impor as assimetrias de sua ordem hegemônica. envolvendo pluralidade nas articulações políticas. 18.-jul. cit. amplas e estruturadas em múltiplos níveis. 10. 3º) essa inclinação para a “regulação da vida social já se manifestava. 4º) entre os comunitarismos supranacionais (que são múltiplos e envolvem as porosidades das fronteiras hegemônicas) é politicamente relevante que desenvolvamos laçadas de cooperação e solidariedade com os países de língua portuguesa e espanhola. Relevantes são as ações políticas na forma de blocos.paroxismo da competitividade. p. desde a vida econômica às esferas da vida sociocultural”5. de acordo. 5 Op. 2014 39 . como o próprio conceito de fronteiras. A situação atual é evidentemente diferente do que acontecia no período colonial e também no estabelecimento e consolidação de nossos sistemas republicanos. devemos considerar que “inclinações comunitárias linguístico-culturais sempre embalaram as tendências democráticas.

estratificações sociais”6. ou mesmo ao estabelecimento de laços de solidariedade restritos aos atores dessa área do conhecimento. como numa esteira industrial. e Naïr. pode reconstruir cacos da nação. jan. Não podemos nos limitar à análise das redes estabelecidas entre as esferas do conhecimento. que a circunscreve apenas à chamada “produtividade”. em especial a de Herbert Marcuse. Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade. pois.-jul. Cit. pois remove os muros da especialização meramente acadêmica. A versão em livro foi publicada um ano depois. é necessária a busca dessas bases para que a crítica se afaste “de qualquer posição moralizante como. p. 8 2. história e política8 Essa imaginação política é fundamental também para a atividade critica. pela ação de escritores. 153. por exemplo. Para esses pensadores. 2008. a da Escola de Frankfurt e. com o título Imagem (n/a/ç/ã/o) política.imperialismo. 2014 40 . Cotia: Ateliê Editorial. Na verdade. 2007. e também em suas correspondências nacionais e/ou. p.. mudanças de atitudes também em termos de comparatismo literário. mas que problematizemos os fatores que lhes são subjacentes e que geraram sistemas de hierarquização em suas articulações econômicas e socioculturais. 5º) impõem-se. como afirmamos em nossa tese de livre-docência na Universidade de São Paulo (1988). n. 11. ed. que criticam e condenam a sociedade contemporânea sem perguntar em que medida essa crítica é baseada numa força social interna a essa sociedade. S. ou a ditadura provisória e temporária dos filósofos que deveriam transformar a sociedade”7. São Paulo: Boitempo Editorial. M. as únicas perspectivas tornam-se o isolamento do pensador no mundo de seus pares. Diríamos. com o título Literatura. p. 7 Löwy. nessa perspectiva. como a imaginação política. Como indicou Lucien Goldmann em seu “Balanço Teórico” (em cores talvez excessivamente fortes e que devem ser em parte mediatizadas). o campo meramente acadêmico acaba assim por ser 6 Op. advindos das assimetrias dos fluxos culturais (hegemonias evidentemente que não se limitam apenas ao colonialismo). mesmo. 278-279. GUAVIRA LETRAS. 18.

com viés crítico e sem assimilacionismos.-jul. Isto é. particularizando nosso campo de trabalho. sociais e culturais envolvidas. São Paulo: Companhia das Letras. que levem esse campo de produção do conhecimento a interagir com as esferas públicas. são relevadas formas de cooperação à escala planetária. depois. pode ser uma forma de nos situar criticamente 9 O conceito de campo intelectual e. Para além dos escaninhos do ensimesmamento desse campo intelectual9. editores. Diante dos novos desafios de ênfase no comunitarismo. a contrapelo da hegemonia que pretende administrar a diferença. de sentido político. importa que sejam configuradas articulações contextuais mais amplas e problemáticas pela diversidade das esferas econômicas. jan. 2014 41 .administrado. São enfatizados. como pode ocorrer inclusive com a própria imaginação sociológica que por ali acaba por circular apenas entre pares. ideais de respeito às diferenças de toda ordem e à democracia. 18. 1996). Cooperação/solidariedade e o princípio de juventude Neste momento de repactualização internacional. n. Verificar essas bases da circulação cultural. sejam vistos numa dimensão política e sociocultural. Não obstante. as inclinações comunitárias. mais especificamente. foi cunhado por Pierre Bourdieu em 1992 (Edição brasileira: As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. parecemnos importantes que os estudos de literatura comparada. Trata-se de uma estrutura complexa que vai da economia à cultura em sentido amplo. articulações múltiplas em que o autor e suas produções mostram-se imbricados com a vida social. emergem para primeiro plano. literário. Sabemos que veio de nosso processo histórico as assimetrias de poder simbólico afeitas ao processo de colonização e. 2. da permanência dos hábitos de colonizados. GUAVIRA LETRAS. comutando centros hegemônicos. críticos etc. por oposição ao império do mercado. levando-o a pairar como nuvens distantes da vida social. pela hegemonia que busca legitimidade e também por aqueles que se colocam contra essa hegemonia. envolvendo relações entre escritores e seus leitores. como forma de mediação entre os múltiplos campos da vida social e do estado.

da cooperação. descartando agora o enredo de ambiência melancólica. pautado por relações comunitárias. Não mais a histórica relação sujeito/objeto. n. mas agora de sujeito/sujeito. Neste momento de crise e de repactualizações políticas. Enlaces comparatistas em que as particularizações do passado devem ser reconfiguradas em termos prospectivos e tendentes a ações de reciprocidade. Nas atitudes de atores culturais do passado. Entretanto. 18. que renovar atitudes no âmbito da crítica literária. tendo em conta desafios que se colocam em termos da atualidade sociocultural. Ao contrário da ideologia do fim da história e da inculcação de que vivemos no melhor dos mundos. Acreditar que o mundo possa ser diferente e melhor do que ele é. GUAVIRA LETRAS. 2014 42 . assim.diante dos fluxos inclinados à continuidade dessa colonização de nosso imaginário. Temos proposto outra forma de comparatismo. que se comparam em aproximações e fricções.-jul. a restrição às assimetrias desse comparatismo. em sentido prospectivo. Rio de Janeiro: Eduerj/Contraponto. para nos valer ainda de um paralelismo com os anos de 1930. jan. Um comparatismo prospectivo. pois. mesmo se nos pautarmos pela criticidade. consubstanciado em projetos e ações político-culturais mais amplos. Bloch. Se é próprio da melhor literatura se voltar para aquilo que falta. a motivação e o embalo de um princípio de juventude. Para além da necessária inclinação da negatividade inerente ao pensamento crítico. tornam-se importantes atitudes pautadas por otimismo crítico. há. podem ser configuradas. não é suficiente. Ernst. é imprescindível acreditar em nossa potencialidade subjetiva e objetivá-la em 10 Cf. Comparar diante de problemáticas que nos envolvem a todos para nos conhecer naquilo que temos de próprio e em comum. um comparatismo da solidariedade. 3 volumes. 2005/2006. Uma nova atitude implica ter a esperança como princípio10. linhas que são imprescindíveis para a melhor compreensão de nossa atualidade sociocultural. que veio das frustrações que marcaram a Modernidade. O princípio esperança.

E essa permeabilidade de articulações que migram de um campo para outro nos leva a considerar as imbricações mais gerais./ tudo se transforma:/ cada poema. na simbolização do texto literário. portanto. Elas se atualizam através da porosidade do modo dominante de pensar a realidade. um modo dinâmico de pensar a realidade onde as formas. “Qualquer campo social é necessariamente estruturado por um conjunto de regras não enunciadas para o que pode ser dito ou percebido validamente dentro dele. E também. que saem do campo econômico e atinge as esferas políticas. n. suas conformações formais favorecem a permeabilidade dessas articulações dominantes. Lisboa: Editorial Caminho. como as do poema de Carlos de Oliveira. Ou. O poeta ao se valer de articulações provenientes do campo científico. se nos recorrermos a Terry Eagleton. “Na poesia.11” Articulações. p.projetos inclinados para o futuro. por sua vez cita Pierre Bourdieu. devem ser vistas em movimento. Se nos estados democráticos atuais há uma relativa autonomia entre essas formas de organização e de poder (não cabe aqui falar em neutralidade). e essas regras. 223. que./ nada se perde/ ou cria. Como explicita o poeta Carlos de Oliveira. atualiza. sociais e culturais. 18./ já sonha/ outra forma.-jul. Obras de Carlos de Oliveira. elas desenvolvem estratégias de legitimidade e podem acabar por serem naturalizadas. em processo. GUAVIRA LETRAS. 1992. Por entre as formas do estado. inclusive as políticas. no seu perfil/ incerto/ e caligráfico. operam como um modo do que Bourdieu denomina ‘violência 11 “Lavoisier”. disputam o poder simbólico no campo intelectual. por serem hegemônicas. articulando-se contra a estaticidade das formas poéticas. jan. 2014 43 ./ natureza variável/ das palavras. fazendo parte do senso comum. são exercidas hegemonias que vêm do campo social e das formas mentis dominantes. Uma articulação hegemônica só provoca impactos nas esferas culturais sob a mediação da sociedade e do estado.

planetárias. No campo da educação. importa estreitar relações com nosso bloco linguístico-cultural e também. Como a violência simbólica é legítima. a violência simbólica opera não tanto porque o professor fala ‘ideologicamente’ com seus alunos. 2014 44 . O comunitarismo linguístico-cultural constitui um ponto de partida político e estabelece. n. Trata-se. geralmente não é reconhecida como violência. podemos mostrar rostos 12 Cf. são mais amplas. a violência de crédito.simbólica’. que nunca é reconhecida. São Paulo: Editora SENAC São Paulo. Outras articulações supranacionais se configuram. 142). 18. numa laçada mais ampla. p. presentes. Benjamin. Para quem se situa no Brasil. mas porque o professor é percebido como tendo a posse de uma quantia de ‘capital cultural’ que os estudantes precisam adquirir (EAGLETON. para nós. Abdala Junior. 2002. em termos de redes comunicacionais. 1997. Configuram um mundo de fronteiras múltiplas e as questões identitárias devem ser vistas no plural12. na atualidade. lealdade pessoal. jan. um “nó”. obrigação. o momento é de relevar blocos de nossa comunidade linguísticocultural. ‘a forma suave. confiança. por exemplo. Fronteiras múltiplas. gratidão. Pelo comunitarismo cultural. GUAVIRA LETRAS. invisível da violência.-jul. hospitalidade. 1977: 192). de onde abrimos “janelas” igualmente múltiplas. com os países iberoamericanos. como ocorrem igualmente nas relações econômicas. ao lado daquelas que vieram de nossa formação histórica. As redes. Mais particularmente. como observa Bourdieu em Outline of a Theory of Pratice (BOURDIEU. no âmbito da cultura. de forma correlata às estratégias de ordem econômica que vêm sendo desenvolvidas pelo país. piedade’. e envolvem desde as esferas dos recortes do conhecimento até às da geopolítica. identidades plurais.

que só destaca quem se coloca nas passarelas daquela que já foi chamada “sociedade do espetáculo”. 2014 45 . A grande diferença de situação. São as literaturas “maiores” e as outras.diferenciados. Como indica Cláudio Guillén. 18. Marcas eurocêntricas e a sobrevivência das formas Estamos longe. foram vistos em suas interações supranacionais. n. as “menores”. Importa à crítica literária. De acordo com esses modelos. posterior ao crack financeiro de 1929. para tanto. para além das fronteiras GUAVIRA LETRAS. é importante que também falemos em português como língua de cultura.-jul. da produção e competição. Em literatura comparada. 3. Mais do que a força das idéias e da reflexão. jan. substituída pela norte-americana em meados do século XX. mas os cânones continuam a vir dos países hegemônicos da Europa Ocidental e em suas reconfigurações norte-americanas. em diálogo com outros. numa associação mais particularizada com a língua espanhola. o momento da supranacionalidade. quando se compara os dois cracks financeiros (de 1929 e de 2008). esse primeiro modelo de estudo correspondeu à hegemonia teórica francesa. ao sul da Europa e próprias do mundo colonizado. viveríamos no melhor dos mundos – um eterno presente. então. Num mundo em que o inglês tornou-se uma espécie de língua franca. das tendências eurocêntricas positivistas dos estudos das “fontes”. pelo viés formalista. É necessária uma perspectiva otimista: ter esperança. descartando a melancolia. nos estudos comparatistas. uma mudança de atitudes. o que implica a atualização de gestos prospectivos. pautando-nos pelo princípio de juventude. envolvida pelos modelos articulatórios da utopia do mundo desenhado pelas finanças. é que em 1929 a intelectualidade acreditava que as coisas poderiam ser diferentes e agora essa manifestação do desejo se mostra mitigada. afirma-se. continuam dominantes sistemas de modelizações do pensamento e de condutas afinados com um individualismo narcisista reverenciado pela mídia. onde os recortes nacionais. tal como ocorreu no passado com a literatura social do período entre-guerras.

São as contradições dentro do mesmo sistema.. de que a cultura integra a ação colonizadora. Do ponto de vista político. um princípio de legitimidade de quem se vale das assimetrias dos fluxos culturais e que não deixa de estar presente nos discursos oficiais da hegemonia. 15 Cf. Said desenvolveu a tese. As hegemonias nunca são absolutas. 18. 2014 46 . n.: Simon. GUAVIRA LETRAS. Trad. é de se reiterar. Trad. na perspectiva de sua crítica política.-jul.: Tomás Rosa Bueno. a análise dessas tensões entre o império e as colônias envolve 13 Introducción a La literatura comparada (Ayer y hoy). a da chamada “Literatura Mundo”. por sobre a porosidade das hegemonias estabelecidas. Edward W. que envolvem a imagem de vida democrática. Na atualidade e em decorrência desse comparatismo Leste/Oeste em que foram importantes teóricos que se deslocaram para os centros hegemônicos. 2005. a consideração de laçadas comunitárias. Desloca-se a hegemonia. Said. São Paulo: Companhia das Letras. F. novas perspectivas para os estudos comparados. para justificar sua escravidão pelos “civilizados” colonialistas. 1985. e Oliboni. Para Said. em termos de literatura comparada. São Paulo: Editora HUCITEC. jan. para nos referirmos aos EUA. mas porosas. surgirão. O próprio conceito de Oriente foi cunhado para justificar o domínio imperial sobre os “outros”. 14 Marxismo e forma: teorias dialéticas da literatura no século XX. um espaço de tensões/conflitos. Se nessas teorizações da década de 50 aparecem formalismos e desconsiderações político-sociais. por exemplo. imbuídos de sentidos políticos. Xavier. sempre inferiores15. I. como estamos argumentando.nacionais13. Barcelona: Tusquets Editores. I. consideramos necessário. 1990. surge uma outra tendência comparatista. para a outra margem do Atlântico Norte. Um desenho análogo ao dos povos africanos. presentes. nas décadas finais do século. A articulação comunitária configura formas de poder simbólico contra uma pastichização que interessa apenas para as configurações hegemônicas. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. nas obras de Fredrick Jameson14 e de Edward W.

Trad. tanto em discursos científicos quanto leigos. negros. ininteligível. L. E é com esse horizonte. GUAVIRA LETRAS. muçulmanos. Reis. Em termos de intersubjetividade. essa inclinação persiste nos olhares. Não podemos nos esquecer de que na Europa e nos EUA há numerosas comunidades marginalizadas. L. R. corresponde aos gestos coloniais. Homi K. Foi nesse contexto situacional híbrido e de fricções que apareceram as obras de Fredrick Jameson. que continuam a marcar a vida subjetiva e cultural desses povos. Envolve toda uma série de repertórios secularmente acumulados. G. aprendemos com a experiência 16 O local da cultura. judeus. ciganos.tratar cultura e imperialismo numa relação de interdependência. práticas e representações que permitem a continuidade da dominação e manutenção de determinadas hegemonias e hierarquizações. Org: Liv Sovik. mas tem suas bases políticas e econômicas. os espaços. latino-americanos. principalmente. Belo Horizonte: UFMG. seus universos simbólicos. no plano interno dos blocos hegemônicos e das regiões subalternas. naturalizada ou compartilhada por todos. Ávila. entre outros. Said. n. Edward W. 1998. Bhabha16 e Stuart Hall17. justamente porque inferiorizavam. mesmo que de forma sutil. a legitimidade necessárias às práticas de dominação. em dimensão planetária. Hoje. os habitantes das periferias. convém enfatizar. Gonçalves. de onde vêm as reflexões e práticas espalhadas pelo mundo. Evidentemente.: M. gays. Um amplo sistema de modelização de pensamento e de conduta. jan. O eurocentrismo corresponde hoje à ocidentalização. E.-jul. 18. como os irlandeses. lésbicas etc. 2003. Belo Horizonte-Brasília: Editora UFMG/UNESCO. que é importante estudar a forma mentis desse processo. Foi assim que desde os tempos coloniais o eurocentrismo procurou estabelecer a inteligibilidade e. 17 Da diáspora: identidades e mediações culturais. o desenho que envolve relações de dominação. que não tem precisão geográfica. 2014 47 . povos e culturas das colônias e apontavam a sua necessidade de evolução em amplos sentidos. ao ritmo das assimetrias dos fluxos culturais.

um capital (de um sujeito transcendental da tradição idealista) o habitus. uma visão crítica das implicações políticas desses caracteres (nível individual. Assim são os hábitos19. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. como indica a palavra. afim do modo de administrar e pensar o mundo pelo viés das finanças. 18 Tempos líquidos. nacional. que.-jul. mas que não se liquefazem. uma certa hibridização que conflui para uma espécie de pastichização indefinidora de fronteiras. Preferimos considerar que as fronteiras são múltiplas e não líquidas. Se existe a tendência à fragmentação posmoderna. retornando ao idealismo. ao de modelo de articulação que vem da práxis (o homem com ser ontocriativo). como Marx sugeria nas Teses sobre Feuerbach. sobretudo com a teoria do reflexo. jan. pode ser estratégia similar à da mestiçagem das elites brasileiras: mesclagens tendentes a formulações eurocêntricas. indica a disposição incorporada. Afinal. Não obstante. é um conhecimento adquirido e também um haver. GUAVIRA LETRAS. o `lado activo´ do conhecimento prático que a tradição materialista. 19 Associamos o conceito de habitus. Para Bourdieu o “habitus. mesmo em situações políticas que poderiam contraditá-los. 61. Trad. p. na verdade. Trad. somos todos misturados.do outro. na verdade. 2006. Observe-se. n. o romance Mayombe. indefinidas. que podem ser reversíveis. são configuradas e múltiplas. O sentido crítico do narrador destaca linhas de articulação de hábitos. de Pierre Bourdieu. 1989. sobrepõem e se imbricam. social). tinha abandonado (O poder simbólico. que em suas linhas articulatórias impregnam os atores sociais. 2014 48 . Lisboa: Difel / Rio de Janeiro: Bertrand. que impregnam suas personagens. podemos situar as fronteiras de acordo com processos de articulações que se alternam. 18. quase postural -. nesse sentido. verificará que eles se atritam e não deixam de estabelecer hegemonias ou dominâncias. de acordo com a teorização de Zygmunt Bauman18 Somos igualmente múltiplos do ponto de vista identitário e. As identidades são sempre plurais. a hexis. escrito em plena guerrilha das lutas de libertação nacional de Angola. mas sim o de um agente em acção: tratava-se de chamar a atenção para o `primado da razão prática´ de que falava Fichte.: Carlos Alberto Medeiros.: Fernando Tomaz. de Pepetela.

Citemos uma personagem feminina.deixando à mostra as reais motivações dos guerrilheiros. n. que se recusaram à mistura. Constituem desenhos ou linhas que resistem e determinam a formação de caracteres. GUAVIRA LETRAS. porque nos alienamos a nós próprios. Só covardia. Somos uns alienados. Queremos transformar o mundo e somos incapazes de nos transformar a nós próprios. dirigente ou dirigido. 208. é sempre o mesmo agente repressivo. Nós somos piores. deixamos de ser lúcidos. ganhou então as universidades e já é 20 São Paulo: Ática. 2014 49 . mitificados pelos discursos oficiais. implicações ideológicas que tendem a justificar hegemonias. p. de outro. É medo de nos enfrentarmos. e a todo momento arranjamos desculpas para reprimir nossos desejos. é um medo que nos ficou dos tempos em que temíamos a Deus. 1982. O grande problema. Nos EUA. com papéis sociais marcados. Consequência: extermínio dos ameríndios e o apartheid dos ex-escravos. mais recentemente. Há correntes que já se quebraram mas continuamos a transportá-las conosco. 18. fazer a nossa vontade. escamoteada pelas elites norte-americanas. houve um transplante mais efetivo da população européia e o estabelecimento de um estado dos “brancos”. E ganharam peso político-social e cultural. por medo de as deitarmos fora e depois nos sentirmos nus. sociais e econômicas. pela presença ativa da grande população de migrantes. jan. de um lado. Há nelas.”20 Vieram de nossa formação hábitos alienados e as formas culturais. e. do ponto de vista político. O escravo era totalmente alienado. Só a partir da segunda metade do século XX. A discussão sobre a mestiçagem. essas populações das margens começaram a fazer valer seus direitos de cidadania. que vieram de outras margens. Queremos ser livres.-jul. é que tais impregnações fazem parte do cotidiano e configuram as expectativas de cada ator. uma experiência acumulada. resistem. E o pior é que nos convencemos com as nossas próprias desculpas. tal como as formas políticas. que de um ângulo periférico analisa a situação que experimenta: “Isso é que me enraivece. ou o pai ou o professor. originalmente puritanos.

repertórios literários e culturais. entretanto. Em relação às questões político-sociais. jan. 18.à ênfase ao GUAVIRA LETRAS. Só uma análise das redes políticas. Se há hoje toda uma inclinação crítica para mudanças de paradigmas. com implicações socioculturais. Essa situação se torna ainda mais complexa. econômicas e socioculturais pode revelar de que pós-colonialianidade se trata. aos que se emanciparam desde o século XIX. em relação às áreas do conhecimento. Experiência histórica e fronteiras culturais O processo colonial fixou hábitos.matéria de sua indústria cultural. n. A experiência histórica e suas realizações passam a ser situadas como um repertório passivo. Pior ainda pode ocorrer em relação às instâncias políticas. estéticos. nivelando países que se emanciparam no período pós-Segunda Guerra Mundial. se vinculada – como acontece . onde o “pós”. procura tudo reduzir a uma tabula rasa. sejam eles filosóficos. sem consciência dessas especificidades. sob o impacto da mídia e do consumo mercadológico. ou da África do Sul. sem passado. desconsiderando-se o processo que as modelizou. entendemos que essa tendência não pode se naturalizar sobre um rótulo genérico de um “pós”. uma redução ao obsoleto de toda uma experiência que se consubstancia no presente. sem maior consideração sobre sua historicidade. implica nivelar uma cultura como a do Canadá.-jul. Falar de pós-colonialismo. 2014 50 . para a estilização sem história. aos deslocamentos dos povos e ao processo de americanização do mundo. tendo em vista a busca de legitimidade para a preservação da hegemonia desse país. formas restritas a uma espécie de repertório passivo. Temos de levar na devida consideração o fato de que a teorização pós-colonial tem discutido convenientemente questões relativas à mundialização econômica. ela pode tender a inclinações genéricas. São igualmente póscoloniais quaisquer sociedades marcadas pelo colonialismo. à complexa situação cultural da Índia – ambas ex-colônias britânicas. 4. afeito às condições da mídia e dos produtos moda. que vieram dessa experiência histórica e dos contatos culturais entre povos que até então não se conheciam. por exemplo.

como em Mayombe. imprescindível para uma crítica que pretenda afastar-se da generalidade. n. evidencia posturas etnocêntricas do passado que se reproduzem no presente. para contrastar. e. São muitos os pós-colonialismos. pois. interativo. por exemplo. seja numa perspectiva individual ou nacional. Temos destacado o sentido político de se discutir literatura no âmbito do comunitarismo iberoafroamericano. o do ex-colonizado. é multifacética e se alimenta produtivamente de pedaços de muitas 21 Os cus de judas. A clara delimitação do chamado lócus enunciativo e de sua historicidade é. Coloca-se novamente a necessidade de se considerar nesse processo de onde fala o crítico e os laços socioculturais que acabam por enredar suas formulações discursivas.as articulações comunitárias podem ser de muitas ordens e politicamente nos parece importante relevar que o mundo atual é de fronteiras múltiplas e identidades plurais. Refletir sobre especificidades nacionais implica situá-las num processo de agenciamentos comunitários que tem um solo histórico e relações de poder simbólico. 18. Ática. Em Lobo Antunes. por exemplo. Pepetela. Nessa crítica. 1979. sem deixar de criticar indivíduos que se querem mitos. mas – voltamos a insistir . o póscolonialismo do ex-colonizador. São interações que levam à consideração de um complexo cultural híbrido. 2014 51 . Há ainda o pós-colonialismo dos colonizadores que permaneceram na metrópole e dos ex-colonizados que migraram. 1982. Há. na formação de um novo estado nacional.nomadismo diaspórico dos estudos pós-coloniais. O primeiro vai desconstruir mitos e fazer de sua memória individual um depoimento que se quer história. jan. Lisboa: Editorial Vega. embala-se por mitos. em Pepetela. enfatiza-se a desconstrução dos mitos e a distopia. GUAVIRA LETRAS. numa direção oposta. que encontramos num romance como Os cus de judas. 22 São Paulo: Ed. de Pepetela22. onde a cultura brasileira. de Lobo Antunes21. a construção e a utopia.-jul.

renascente. a consciência dessa historicidade e relações de poder que ensejou. linguagem”. escrito numa situação histórica pós-Revolução dos Cravos. para além das especificidades nacionais. És a linguagem. mais que amador. GUAVIRA LETRAS. p. coração. o próprio amor latejante. peregrina . por exemplo. Ao se apropriar de imagens e procedimentos poéticos camonianas. musical. o poeta brasileiro estabeleceu um diálogo com a historicidade das leituras do poeta português e a da nova situação histórica. Dor particular deixa de existir para fazer-se dor de todos os homens. que pelo verbo és. de Portugal.culturas. 62). Na apropriação desse repertório. revoltado.. sem deixar de sofrer os efeitos das assimetrias dos fluxos culturais. democrática. Foi o que ocorreu. o poeta brasileiro termina por afirmar: Luís. torna necessária a associação com o repertório enfaticamente híbrido de nossa formação cultural. afins da convenção ou do estereótipo. 1993. pode contribuir para o afastamento de produções miméticas. homem estranho. sem deixar de seguir imagens e ritmos camonianos. jan. de Carlos Drummond de Andrade.-jul. esquecido. com o poema “Camões: história. os barões nos jazigos dizem nada. Tais considerações. n. (Abdala Jr. na voz de órfico acento. submisso. reflorindo em cem mil corações multiplicado. que restou senão a melodia do teu canto? As armas em ferrugem se desfazem. Nessa desideologização das apreensões conservadoras. 2014 52 . em especial da época salazarista. Diz Drummond: Dos heróis que cantaste. 18. A criticidade é necessária para o desenvolvimento de inclinações abertas à criatividade e que às vezes acabam para o questionamento de espartilhos ideológicos e identidades míticas.

seja da mimese ou de um pretenso sincretismo ou do hibridismo. Por outro lado. n.indo eu. Osvaldo Alcântara. como em Drummond. GUAVIRA LETRAS. Se o poeta brasileiro imagina um reino com um rei bonachão que lhe permitiria todas as “libertinagens” (título da coletânea do poeta brasileiro). Cotia: Ateliê Ed. podemos afirmar que são importantes do ponto de vista crítico estudar esses diálogos. repetimos. não se pode deixar de relevar do ponto de vista críticos as relações de poder que envolvem essa circulação que pode ser uma forma de se afastar da celebração. Idem. Ampliando essas observações. analisamos a circulação cultural entre o Brasil. história e política. 2. A identificação no repertório comum não implica mimetismo. Sua perspectiva é aquela que historicamente sempre se colocou para seu povo de migrantes e ele não deixa de ter consciência crítica de que “esta saudade fina de Pasárgada/é um veneno gostoso dentro do meu coração”24. com os “pés” em Cabo Verde. embutidos – explicitamente ou não ... Ibidem. que desconsidera as relações de poder e encaminha atitudes assimilacionistas tendentes à cultura do 23 24 ABDALA Junior. 18. estava com os pés em Cabo Verde. Procuramos então discutir essa figuração utópica por recorrência ao poeta caboverdiano Osvaldo Alcântara (pseudônimo poético de Baltasar Lopes) . tanto em Osvaldo Alcântara. sonha à Bandeira com uma pasárgada que existiria em outra margem do oceano. Benjamin. 81. mas a cabeça inclina-se para fora. 2007. 81.-jul. Literatura. p. Osvaldo Alcântara. A distância crítica advém de fricções de quem estabelece suas bases poéticas na persistência de uma mesma linguagem comunitária./a caminho de Viseu”23) . história e política. de Manuel Bandeira. para as possibilidades de se encontrar plenitude na imigração. jan.Em Literatura. Portugal e África. 2014 53 . que circulam entre os países de língua portuguesa. ed.nos repertórios literários. tendo como motivo condutor a imagem de Pasárgada. indo eu. Osvaldo Alcântara tem saudade de uma pasárgada futura que encontraria no “caminho de Viseu” (valese da referência à canção popular portuguesa “. em outro poema.. p.

não se restringe à estandardização de massa. Convém não nos esquecermos de que a hegemonia possui bases amplas. A diferença como administração política e abertura de nicho de mercado. 5. que não deixam de ser mercadológicas. como aparece no livro/filme O leopardo. Não se pode. deixar de considerar devidamente o fato de que a plasticidade da língua literária portuguesa vem desde sua formação nos tempos medievais e só pode ser estudada adequadamente na dinâmica das tendências dos campos intelectuais supranacionais. Ou. A administração da diferença À flexibilidade da circulação dos produtos culturais. “É preciso que algumas coisas mudem. jan. Estratégia para um capitalismo GUAVIRA LETRAS. Esse processo vertiginoso de estandardização dos produtos culturais. que temos insistido em apontar. 18. que procura valer-se da estratégia de administrar da diferença. que se articula em rede. do multiculturalismo de matização liberal. por exemplo. para que tudo continue na mesma”. n. Noutro sentido. pode constituir uma maneira mais inteligente e de longo prazo de se preservar e mesmo promover a hegemonia. por parte da economia de mercado. de Giuseppe Lampedusa/Luchino Visconti.-jul. 2014 54 . ao mesmo tempo em que se beneficia de sues influxos para atualizar suas redes numa nova configuração histórica. A emergência parcial do novo. sob controle político-social das estruturas préestabelecidas e que faz valer sua hegemonia para controlá-lo. a afirmação de uma tendência mais tolerante. e procura incorporar em suas redes mesmo a contestação de seu próprio sistema. esta incorporação pode contribuir para a dinamização do sistema: mudar para que as coisas continuem estruturalmente as mesmas. Neste momento que se afigura em processo pós-neoliberal. afim. nos processos de mundialização das culturas européias. associadas aos comunitarismos supranacionais. sempre reduzindo distâncias por velocidade. entretanto. Trata-se da perspectiva da administração da diferença. sempre desdobrável.colonizador. parecenos importante contrapor estratégicas contra-hegemônicas. ao ritmo nômade do capital financeiro.

na nova configuração que se esboça. a obra de um Caldwell. um retorno. uma forma mentis análoga à que se produziu nas elites brasileiras. Logo.foi possível surgir. Estas são considerações relativas a uma hegemonia que procura legitimar-se nas esferas intelectuais e públicas. não é evidentemente relevada. sem reciprocidade. A aproximação dos excluídos. dos princípios norteadores do governo Roosevelt. 18. de que o acesso à rede supranacional se faz num lócus enunciativo determinado e ele é fundamental para a crítica. apesar do ultraconservadorismo. pode se afirmar ainda mais. um docente situa-se numa universidade norte-americana. de suas elites. vale dizer. jan. uma nova modalidade dos pressupostos de caridade. uma perspectiva crítica capaz de contraditar formulações discursivas hegemônicas. Seria uma espécie de um novo New Deal. Gold. Faulkner etc. Para além dessa modulação da tolerância. tendentes ao nivelamento de uma espécie de “branqueamento” eurocêntrico. Fala-se insistentemente na necessidade de “tolerância”: tolerância liberal. Sem a discussão dessas relações. não deixará de ser um veículo conceitual de administração da diferença. n. uma espécie de um áspero concerto polifônico construído pelas diferenças. não obstante. Dos Passos. tendo em vista a manutenção da hegemonia norteamericana. no contraponto ao que naturalizou até o momento do crack econômico de 2008.-jul. Reiteramos. ele não pode desconsiderar o fato de que seu discurso pode estar associado a estratégias hegemônicas desse país. pois. uma via de mão única. Hemingway. Tal eurocentrismo de matização norte-americana pode vir a ser agora atenuado. desde o século XIX. E também a organização das Nações Unidas e da carta que estabelecia o princípio da autodeterminação dos povos. ao que parece. por exemplo. que foi uma das bases fortes da eleição do presidente Barack Obama e que fez a diferença. em que a sociedade civil se articula com as GUAVIRA LETRAS. é imprescindível ao pensamento crítico descortinar também as relações de poder envolvidas. 2014 55 . Steinbeck. como uma das tendências possíveis da política imperial. em nossas bases. Falta a esse multiculturalismo de tintas liberais a consideração de vozes simultâneas em tensão. Se na vida universitária. o discurso multicultural que. de onde – já que as coisas são misturadas .administrado.

não deixa de se associar a hábitos que vêm desde os tempos coloniais. inclusive e de forma irônica. pretensamente menor do poeta. Em termos de consenso hegemônico. mais ou menos atuantes. 2014 56 . do mesmo poeta. no próprio poeta. Etiquetas. Junto com tais estratégias que procuram legitimar assimetrias.esferas de estado. já que a simbolização poética o permite: esse mesmo gesto é correlato a hábitos que perduram no campo científico ou na crítica literária – a importação sem sentido crítico. / Escravo da matéria anunciada. ele se efetua não apenas no sentido da aceitação.-jul. há evidentemente formas de dominação despótica que operam desde o campo econômico ao militar. quase sempre produtos. mas introjetam-se em todas as pessoas. / GUAVIRA LETRAS. Para ilustrar a abrangência do processo de mercantilização que atinge inclusive a identidade individual. podemos nos valer de um poema de Carlos Drummond de Andrade. mas sobretudo de promover a capitalização da diferença. 1984). As mercadorias aí já não apenas espreitam. no processo de simbolização literária. transformadas numa espécie de vitrine de mercadorias. n. E talvez pudéssemos acrescentar. E as marcas consumidas (etiquetas) valem menos pelo valor de uso e. estabelecidas sobretudo por motivações econômicas. conforme as oscilações das relações políticas. que se vê como “homem-anúncio itinerante. mais. em que a ação da mídia é igualmente importante. Um consumo acrítico que. na atualidade. 18. desde o da imagem democrática do país hegemônico até a mercadorias mais explicitamente comercializáveis. formando um consenso supranacional. “Eu Etiqueta” (Corpo. As pessoas perdem suas identidades. Uma citação nos estudos literários não poderia ter a função de uma etiqueta? Uma etiqueta conforme foi similarmente observada pelo olhar irônico. como o autoritarismo denunciado em A rosa do povo (1945). Uma diferença que se consubstancia em produtos. pelo status que conferem. jan. marcas ou modelos importados situados como superiores.

estou na moda. não se pode esquecer a posição dos Estados Unidos como único país a defender a inserção da cultura como “produto”.. / É doce andar na moda. Carlos Drummond. E. Para dentro. São mundos que estão em nossa cabeça. aparentemente neutra. de Morus. mas no fundo mimética e sem criticidade. o que certamente atrairá alunos e docentes. serão criadas condições para convênios interinstitucionais com esses países. na Organização Mundial do Comércio. Isto é. inclusive dos países nãohegemônicos. Rio de Janeiro: Record.-jul. A partir dessa situação. 18. n. como a “ilha desconhecida”. A busca da “eficácia”. de Júlio Verne. como a ilha utópica. a consciência da dimensão política que envolve a pesquisa científica. a hegemonia implica um “reconhecimento” internacional da instituição onde esse crítico trabalha. Para além do produto diretamente comercializável – particularizando nosso campo de atuação profissional -.Estou. ainda que a moda / Seja negar minha identidade (. 1984.. 6. tendentes à preservação da hegemonia estabelecida. Dialogar com ela é uma forma de exteriorizar nossa vontade.)”25. Corpo. Há toda uma tradição literária que se alimenta dessas formulações. 2014 57 . vale-se. GUAVIRA LETRAS. jan. Imagens literárias. de um imaginário literário que aponta para mundos paralelos. de uma certa forma. A ilha da Utopia. Em Júlio Verne. pode mascarar processos que respaldam a continuidade das assimetrias dos fluxos culturais e também da legitimidade do poder simbólico hegemônico a elas associado. impulsionar nossos gestos. Em relação a essas práticas que oscilam entre a hegemonia que procura se legitimar e o despostismo de quem tem o poder. de José Saramago. além de fontes documentais. o fluxo do rio Amazonas (do interior do continente para o Atlântico) leva as riquezas para fora. 25 ANDRADE. Só uma efetiva reciprocidade entre os atores da comunidade universitária envolvida poderá atenuar essas assimetrias. para finalizar O romance A jangada. nossos desejos.

embora Saramago faça referências. 87-95.26 Organizado em torno de estratégias geopolíticas e associado à situação histórica pós-Abril. p. publicado um século depois. tem nesse oceano uma de suas razões de ser históricas. 2014 58 . como o fizemos no ensaio “Necessidade e solidariedade nos estudos de literatura comparada”. “Necessidade e solidariedade nos estudos de literatura comparada”. Do ponto de vista literário. enquanto o proprietário da imensa jangada de madeira. se desfaz quando chega a Belém (Pará). é exemplar para a discussão do sentido comunitário entre as nações ibero-afroamericanas. onde coube toda uma propriedade rural. podem agora os ibéricos se aproximar para o diálogo com suas ex-colônias. a jangada de Saramago. mas da América Latina. Não é o que ocorre com o romance A jangada de pedra. hoje União Européia. com a família e empregados voltam para o interior da Amazônia num barco a vapor. a ibericidade e a mediterraneidade. jan. Esta singularidade liga-se às perspectivas que marcaram a história de Portugal: a atlanticidade. às vezes irônicas. Este romance. 18. Sem o peso do império. n. A imensa jangada de madeira que segue o “fluxo natural” do rio Amazonas. que reúne o conjunto das regiões e comunidades ibéricas. 1996. Se a jangada de Júlio Verne desfaz-se em contato com o Atlântico. ele tem em mira o realismo maravilhoso latinoamericano. o cubano Alejo Carpentier opõe ao ceticismo que a enunciação credita à Europa a 26 Revista brasileira de literatura comparada.vem a modernização européia que cria as bases para a exploração da natureza. escrito quando se discutia a integração de Portugal na então Comunidade Econômica Européia. esse romance permite repensar a cultura portuguesa em face da dupla solicitação: a integração européia e a singularidade peninsular. O direcionamento vetorial da factura da escrita e as formulações do imaginário subjacente não vêm assim da Europa. de José Saramago. GUAVIRA LETRAS. Rio de Janeiro: ABRALIC. Em epígrafe ao romance de José Saramago. à literatura de seu país e também dos países hegemônicos.-jul.. É a atração atlântica que leva a Ibéria a se desprender da Europa. para que sua estrutura de madeira (troncos de árvores) seja vendida para a Europa.

pelas laterais do jogo ficcional. num movimento recursivo que é. Um "futuro fabuloso" próprio de um momento de fratura.-jul. a Ibéria. 2014 59 . Desprende-se a península de uma situação convencional de apêndice europeu para.que. Esse deslocamento temporal operado pelo jogo artístico do sonho do escritor não nos traz imagens literárias à deriva. jan. num direcionamento temporal inverso.perspectiva de que "Todo futuro es fabuloso". 18. um outro jogo. GUAVIRA LETRAS. n. dando origem à calosidade dos Pirineus. permite a atualização. Tão fabuloso na efabulação desse romance que esse futuro. torna-se avesso ao pragmatismo cético da Europa. ficando num ponto de diálogo entre a América Latina e a África. como uma criança. agora social. para driblar. mas imagens-ação que aportam no presente da escrita literária.fabula ficcional de ação política . geopolítico. São imagens-ação políticas que motivam uma nova épica. Quando se encontra em sua identidade. onde aportou há muito tempo. que acabou por enredar a Ibéria. na jangada de Saramago. que permite uma efabulação . a jangada ibérica é capaz de movimentos surpreendentes. como se ela fosse uma ilha. "Todo futuro es fabuloso". partida e encontro. "Mudam-se os tempos" e a "vontade" (Camões) aponta para outras perspectivas. Preserva-se assim a especificidade ibérica. sem calosidades como as das regiões pirenaicas. de matéria sonhada para amanhã ou depois. encontrar-se consigo mesma. para ela "cético" e "rotineiro". diz Carpentier. com dificuldades. impulsionando-a por "mares nunca dantes navegados" (Camões). relevar o comunitarismo cultural é uma forma compartilhada de fazer face ao processo de estandardização assimétrica que move as estratégias globalizadoras. Tão maravilhoso. no faz-de-conta ficcional. já que não se (con)forma ao cais europeu. ao mesmo tempo. diríamos. na vida como na arte. Numa espécie de útero aquático. Envolvida no útero aquático. só para contrariar nações hegemônicas: o presidente norteamericano dá um murro na mesa. onde "principia a vida". Num mundo de fronteiras múltiplas. o conjunto comunitário ibérico estaciona numa região geopolítica que não é de calmarias. espera onde aportar.

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