Ela correu apressada para pegar o primeiro ônibus do dia.

Deixou cair os
papeis que tinha que levar para pegar o salário e foi a última a entrar.
Recebendo um olhar irritado do motorista ela foi sentar numa das últimas
cadeiras. Ela recostou a cabeça no encosto da cabeça do acento e fechou os
olhos aproveitando que ia ser uma viajem longa.
Ela piscou e olhou para a janela a tempo de ver que sua parada era a
próxima. Ela travessou o mar de trabalhadores madrugadores, assim como
ela, até finalmente chegar à porta e sair dando um suspiro ao pensar no que
mais tinha de fazer durante o dia. Demorou mais meia hora de caminhada,
alguns tropeços numa calçada mal feita na frente de algum prédio público,
mas finalmente chegou no prédio luxuoso. O porteiro, um senhor de idade
com cabelos brancos a cumprimentou com um sorriso paternal e abriu o
portão para ela.
Ela entrou no apartamento sem fazer barulho e jogou a chave na bolsa como
sempre, - sabia que as pessoas que moravam ali ainda estavam dormindo - e
então começou a limpar. Quatro horas depois ela tinha posto o café na mesa
e limpado tudo que era possível sem fazer barulho algum, os moradores da
casa começaram a aparecer e a Senhora que a tinha contratado murmurou
um bom dia para ela, ela sorriu e repetiu sem querer ser mal educada. Então
finalmente entrou nos quartos para limpar, o que fez o mais rápido possível,
ela tinha que ir embora dalí logo.
Ela sabia que era jovem demais para ter tantas responsabilidades, mas não
era como se tivesse opção, ela precisava daquele dinheiro. Prova de sua
pouca idade era que a filha da Senhora tinha nascido no mesmo ano que ela
e no momento estava dormindo no quarto e ficaria lá até quando o
despertador tocasse de tarde e tivesse que ir até a faculdade que a mãe
pagava com um trabalho que ela ainda não tinha certeza qual era. A Filha da
Senhora só se preocupava com duas coisas, seu celular e os rapazes com
quem ela passava as noites. Que eram os motivos para ainda estar dormindo.
Ela ligou o aspirador e pensou, enquanto limpava, numa música que tinha
ouvido ontem no caminho para casa. Sua cabeça de repente, estava cheida
de imaginação. Era como se aquela fosse sua casa, onde ela morava
sozinha, sem empregados e parentes, onde ela trazia os amigos e os rapazes
com quem gostava de passar um tempo, ela era rica, e não tinha que se
preocupar em acordar cedo e ir trabalhar, ou de estudar todas as noites até
de madrugada.
Ela ouviu o seu nome, dito de forma errada, e acordou.
Passou para o próximo quarto para começar a limpeza.
Ela tinha que correr para chegar até o cursinho que vinha fazendo desde o

aquela menina tinha toda uma estória por trás. ela se sentia bem. Ele a chamou para conversar no fim das aulas. Ela trouxe um caderno barato que tinha comprado logo depois de se increver para o curso. quem mais faria isso por ela? Quando chegou lá. quando as pessoas fazem coisas pelas outras geralmente esperam uma recompensa. feliz. numa letra impecável e leve. nem se lembrava do dia que se sentiu assim tão bem quanto hoje. Não devia ser assim tão fácil. Foi no fim da conversa que ele finalmente chegou ao seu ponto e disse que ficaria muito feliz se ela o deixasse pagar pelo curso no próximo ano. Ela mesma estava pagando porque. Estava feliz que tinha chegado lá. As páginas estavam lotadas com todos os conteúdos que conseguiu. teve que sentar numa das ultimas cadeiras no fim da sala. Ele via que. Falou o que pensava sobre ela ainda estar lá e sobre o que ele achava que aconteceria no fim do ano. mas os problemas dela eram de base. Então ela também foi embora. na verdade. Ela não entendia nem metade do que eles diziam. Ela franziu a testa para aquilo. enquanto os outros eram jovens que não se esforçaram no ensino médio de sua escolas particulares caras. o que ele queria com ela? Ele sorriu gentilmente para ela e disse que queria muito que ela passasse no curso que ela quisesse e voltasse algum dia para vê-lo com um sorriso vitorioso. Ela explodiu em lágrimas e o o abraçou num impulso o soltando rápidamente com um olhar desconfiado no rosto. Ela tentou falar com os professores e alguns deles tantaram ajudar. não se sentia assim em anos. porque sabia que ele estava certo. afinal. e eles não tinham tempo ou disposição para tudo aquilo. Não estava acostumada com pessoas se importando com ela.começo do ano. Faltavam trinta minutos para . mas confusa. e ele tinha certesa que não envolvia tanto dinheiro e oportunidades quanto as de seus colegas de classe. mas deixou ela continuar no curso porque ela se esforçava e tinha êxito nas matérias onde leitura era a chave. O professor de matemática sabia que ela não iria passar numa faculdade pública esse ano. com cada palavra que os professores diziam. Ela olhou para o relógio de parede na recepção do cursinho e percebeu o quanto estava atrasada para pegar o dinheiro. suada e atrasada. só isso? Sério? Ele se despediu e com um último sorriso foi para casa. Apesar de não entender o por que aquele homem iria fazer aquilo por ela. numa explosão de felicidade que teve por ter dinheiro para pagar tudo. Ela balançava a cabeça concordando tristemente e a beira das lágrimas.

O Rapaz revirou os olhos e se recusou com gritos e ameaças ao emprego do Segurança. Quase poderia se ver ele batendo o pé no chão. mas não sem um último comentário que. Quando finalmente conseguiu chegar no banco encontrou o Último Guarda com as chaves saindo pelo portão da frente. mas o Segurança só deixou o Rapaz atravessar a sala que queria se o mesmo ajudasse a moça a conseguir o que ela tinha vindo fazer. e outra. E foi até a estação mais próxima. O homem negro não parecia nada feliz em estar sendo tratado assim. viuse dentro do banco ao lado dos dois homens. . O coração dela parou por um segundo. Talvez nem fosse por motivos de solidariedade e mais como forma de punição. claramente sem perceber que se tratava de uma pergunta retórica. pelo mesmo motivo. Porém fim ele cedeu. se o segurança soubesse. O Dono do Cachorro gritou com ela por assustar o animal e a prendeu lá com um discurso inflamado sobre quem ele era por alguns minutos. Um homem jovem. ela pensava na probabilidade de o relógio da senhora estar adiantado e ela ter mais tempo do que pensava. No caminho. de terno e óculos e com uma pasta preta praticamente empurrava de volta o segurança que ela tinha visto saindo quando chegou.os bancos fecharem e uma viagem até o mais proximo demorava pelo menos quarenta e cinco num dia normal. E ela também queria chorar. Ela saiu dali com o maior sorriso que conseguiu por no rosto e entrou no primeiro ônibus segurando sua bolsa como se sua vida estivesse lá dentro. mas continuava seu caminho até o portão com acenos duros em resposta do que o jovem dizia. e levou um susto com um cachorro enorme em um portão. Dobrou um esquina. Ele abriu as portas e os dois seguiram para dentro. Mas não era como se ela tivesse outra opção. Ela queria gritar no meio da rua. Duas horas se passaram e ela viu o sol se por enquanto esperava o próximo ônibus. e exigir-lhe explicações sobre o motivo da vida ser tão injusta. branco. O negro com uma cara emburrada e os braços cruzados perguntou se havia algo que poderia fazer por ela ali. Quando finalmente saiu do metrô perguntou a uma senhora as horas e descobriu-se com cinco minutos a seu favor. lhe trária muito dinheiro em um processo. e sem perceber o que tinha feito. enquanto corria. talvez o dar-lhe alguns socos e tapas. Ela acabou por explicar toda a situação qual passara e o quanto precisava tirar o dinheiro dali naquele momento. pensou em voltar até o Dono do Cachorro e gritar com ele da mesma forma.

no estomago. O outro fugiu. sabia que ia ter mais dinheiro no próximo ano. Alguns tiros no peito. Apontou a arma para ela e descarregou seu cartucho na moça. Mais trinta minutos depois. perto da boca e o resto passou direto para o chão.. Dizia para continuar dirigindo sem parar e para ficarem em silêncio. O ônibus parou. Ele tomou um susto. Ela caiu. Um semestre depois o irmão dela morreu de fome.Nesse. Os passageiros tentaram salvar a moça. O pareceiro tinha suas mãos tremendo enquanto segurava a arma ia de cadeira em cadeira pegando bolsas e carteiras. sabia que poderia pedir emprestado mais da Senhora se fosse necessidade. Olhou pela última vez para bolsa e se levantou para entregar ao jovem tudo que tinha. Tinham mesmo que estar. ela sentou numa das últimas cadeiras da última fileira. Alguém gritou perguntando qual era o nome dela sem perceber a bolsa jogada debaixo de um dos acentos. mas ninguém sabia seu nome. sua essencia em toda parte. o ônibus já tinha enchido e secado várias vezes. o que tinha feito. Três anos depois ela se tornava um . Um ano depois ninguém mais lembrava-se dela.. em busca do outro assaltante. mas nada lhe tirava a felicidade. e agora todos os acentos estavam ocupados e não havia ninguém de pé. a ésta hora num bairro desses. Um mês depois o professor de matemática teve que adicionar nome dela a lista de desistentes do cursinho no próximo ano. Uma semana depois ela foi demitida por justa causa por faltar demais ao trabalho. Um dia depois o jornal anunciou a morte de uma jovem que tentou reagir a um assalto no ônibus. só não podia morrer ali. Um dos jovens nervoso que entrou um tempo atrás puxou uma arma automática de um dos bolsos e anunciou o assalto. O outro pulou a catraca e ora apontava para o motorista. pensou ela. O Motorista pegou sua própria arma que guardava em seus pés. Ela pensou rápidamente em tudo que poderia acontecer ali. perto do acelerador. no meio do tumulto. tremia e rugia pela idade que tinha e os buracos na rua. Os passageiros se jogaram em cima do assaltante. assim como o primeiro do dia. Ninguém sabia quem era ela. Havia sangue para todo lado. Alguém. Duas horas e meia depois o ônibus parou em mais uma parada e um senhor de cabelos grisalhos entrou acompanhado por dois jovens nervosos. já que o professor lhe ia pagar o curso. e correu para fora. o que queria fazer. ora para o cobrador. O ônibus balançava. já morta. pegou a bolsa e levou embora com todo o dinheiro e documentos que tinha dentro. Os passageiros continuavam a bater no adolescente desajeitado que tremeu de nervoso em seu primeiro assalto.

estatistica. .

Related Interests