Longevidade, singularidade, criogenia e transumanismo

"A morte é o agente de mudança da vida" (Steve Jobs)

O gerontologista inglês Aubrey de Grey disse que a primeira pessoa que vai
chegar aos 150 anos já nasceu e que está perto o dia em que nós,
humanos, viveremos 1.000 anos. Porém, por incrível que pareça, há quem
considere estas previsões pessimistas. O cientista Raymond Kurzweil vai
mais longe e prevê que poderemos nos tornar imortais e atingir a vida
eterna na Terra. A palavra longevidade será substituída pela eternidade. O
humano pelo pós-humano ou transumano (trans-humano). Será?
Ray Kurzweil é um tecnófilo cornucopiano, autor do livro The Singularity is
Near (A Singularidade está próxima), que acredita na primazia da tecnologia
e na junção da Inteligência Artificial (IA) com a biotecnologia, a genética, a
nanotecnologia, a revolução digital e a robótica que, juntas, modificarão
completamente a vida e a forma de viver no Planeta. Ele considera que
haverá um ponto de mutação definido como Singularidade, termo
emprestado da física, que corresponde a um ponto em que acréscimos
finitos no tempo irão conduzir a um potencial tecnológico infinito. O
desenvolvimento ocorreria sem restrição e a humanidade entraria em uma
nova fase histórica. Ele diz:
“A Singularidade é um termo utilizado para definir um período futuro
durante o qual a vida humana será irreversivelmente transformada e
representará o culminar da fusão do pensamento biológico e da nossa
existência com a nossa tecnologia, resultando em um mundo que ainda é
humano, mas transcenderá as nossas raízes biológicas. Não haverá
distinção, pós-Singularidade, entre homem e máquina ou entre físico e
virtual” (Kurzweil, 2006).
Kurzweil também escreveu o livro "A medicina da imortalidade", onde
defende a ideia da miscigenação entre o ser humano e as máquinas. Ele
explica que em primeiro lugar haverá um aumento dramático da
longevidade:
“No meu livro, refiro três grandes revoluções sobrepostas a que dei o nome
de “GNR”, que significa Genética, Nanotecnologia e Robótica. Cada uma
delas propicia um aumento dramático da longevidade humana, entre outros
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impactos significativos. Nós estamos neste momento na primeira fase da
revolução genética – também chamada biotecnologia. A biotecnologia
oferece os meios para alterar os genes: não apenas bebês programados,
mas natalidades programadas. Seremos igualmente capazes de
rejuvenescer todos os tecidos e órgãos do nosso corpo transformando as
células da pele em versões jovens de qualquer outro tipo de célula. Neste
momento, novos desenvolvimentos fármacos têm como objetivo o combate
de etapas importantes da arteriosclerose (a causa das doenças de coração),
a formação de tumores cancerígenos, e os processos metabólicos que estão
na base das doenças mais importantes e do processo de envelhecimento. A
revolução biotecnológica já está na sua fase inicial e atingirá o seu pico na
segunda década deste século (2010-2020), um ponto a partir do qual
seremos capazes de ultrapassar a maior parte das doenças e retardar
dramaticamente o processo de envelhecimento. Seguir-se-á a revolução da
nanotecnologia, que atingirá a sua maturidade durante os anos vinte
(2020s). Com a nanotecnologia, seremos capazes de ir além dos limites da
biologia, e substituir o nosso atual ‘corpo humano versão 1.0’ com um
substancial aperfeiçoamento versão 2.0 fornecendo um aumento radical dos
anos de vida” (Mito & Realidade, 2010).
Para Kurzweil a junção da Singularidade com os avanços da medicina
tornará possível a conquista da imortalidade, por meio da “clonagem
terapêutica”:
“Outra importante linha de ação é desenvolver novamente as nossas
próprias células, tecidos, e até órgãos inteiros, e introduzi-los nos nossos
corpos sem cirurgia. Um dos maiores benefícios desta técnica de ‘clonagem
terapêutica’ é que seremos capazes de criar estes novos tecidos e órgãos
de versões das nossas células que também já foram tornadas mais jovens –
o campo emergente da medicina do rejuvenescimento. Por exemplo,
poderemos ser capazes de criar novas células do coração a partir de células
da sua pele e introduzi-las no seu sistema através da corrente sanguínea.
Com o passar do tempo, as suas células do coração são substituídas pelas
novas células, e o resultado é um "jovem" coração rejuvenescido com o seu
próprio DNA” (Mito & Realidade, 2010).
Assim, alcançando a imortalidade, deixaríamos de ser humanos para nos
tornar uma espécie superior. Daí surgiu um movimento intelectual visando
transformar a condição humana por meio da criação de tecnologias
aperfeiçoadas para aumentar as capacidades intelectuais, físicas e
psicológicas das pessoas. Com os novos desenvolvimentos tecnológicos, as
doenças e as limitações humanas seriam superadas e novas capacidades
surgiriam, abrindo a possibilidade de transformação total dos novos seres,
que passariam a ser pós-humanos ou transumanos.
Outro cientista singularitano, David Orban, que foi presidente da Humanity+
diz que “os avanços tecnocientíficos vão permitir modificar ad libitum o
corpo e a mente do ser homem, deixando em segundo plano a evolução
biológica. A ideia fundamental é que os seres humanos serão um dia
capazes de se redesenharem a si próprios. Desse modo, poderão escolher o
tipo de organismo em que pretendem transformar-se: um ciborgue (formado
por matéria viva e dispositivos eletrônicos), um siliborgue (organismo criado
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com silício a partir de um DNA artificial), um simborgue (indivíduo
reencarnado que reside num meio interligado) ou qualquer outra criatura
imaginável que a tecnologia permita congeminar” (Super Interessante,
2011).
Para as pessoas que acreditam na Singularidade, no Transumanismo e na
vida eterna, mas vão morrer antes desta “revolução tecnológica” e desta
suposta inflexão no conceito de humano, a alternativa é recorrer à
criogenia. A criogenia é um ramo da físico-química que estuda tecnologias
para a produção de temperaturas muito baixas (abaixo de -150°C). Um
paciente mantido por tempo indeterminado em “cryostasis“. Algumas
instituições acreditam no poder de preservação da criogenia e estão
realmente colocando isso em prática. A promessa da criogenia é que um
corpo criopreservado limita danos em todas as estruturas e preserva de
forma que possa voltar à vida. Ou seja, um corpo preservado em nitrogênio
líquido poderia, em tese, ser ressuscitado no futuro e passar do estado de
humano para transumano.
Evidentemente, são muitas as críticas à Singularidade, à criogenia e ao
transumanismo. Para Kurzweil, a Lei de Moore (segundo a qual o número de
transístores de um chip duplica a cada 18 meses) é um exemplo do que vai
acontecer com outras tecnologias. Mas os críticos argumentam que não se
pode generalizar a Lei de Moore e nem superar os limites da ecologia. Entre
os críticos, a socióloga Débora Danowski e o antropólogo Viveiros de Castro
(2014) consideram que a ideia de uma autofabricação do homem no futuro
e de seu ambiente pela eugenética e pela síntese tecnológica de uma nova
Natureza está mais para o campo da ficção científica do que da realidade.
O cientista político Francis Fukuyama - aquele que teorizou sobre o fim da
história - é um crítico da ideia do transumanismo. Em artigo da revista
Foreign Policy (23/10/2009) ele pergunta sobre o que vale aumentar a
longevidade e até atingir a imortalidade se o ser humano não consegue
vencer os seus defeitos e não consegue respeitar a natureza e os
ecossistemas. Já Nathan Pensky (03/02/2014) diz que Ray Kurzweil é uma
pessoa muito inteligente, mas que mistura algumas ideias sólidas com
outras malucas. É como se você tivesse um monte de comida muito boa
misturada com fezes de cachorro sem poder distinguir o que é bom e o que
é ruim.
As evidências empíricas mostram que a possibilidade de um aumento
ilimitado da longevidade é praticamente impossível. Um estudo publicado
na revista Nature (05/10/2016) por Xiao Dong, Brandon Milholland e Jan Vijg,
afirma que existe um teto para o tempo máximo da vida humana.
Dificilmente alguém seria capaz de bater o recorde da pessoa que viveu
mais tempo na história, que foi a francesa Jeanne Calment que morreu com
a idade recorde de 122 anos e 164 dias. Os avanços médicos podem ter
aumentado a expectativa e a qualidade de vida, mas a longevidade
dificilmente passa de 115 anos. O estudo conclui que o tempo de vida
máximo dos seres humanos é mais ou menos fixo e está sujeito a
condicionantes naturais. A imortalidade não passa de uma utopia.

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Mas independentemente se os avanços tecnológicos vão prolongar ou não a
longevidade, existem questões filosóficas que precisam ser consideradas.
Jorge Luís Borges, no conto "Os Imortais", descreve o tédio mortal sentido
pelos que nunca morrem, pois, o fato de sermos os únicos a sabermos que
vamos morrer é um estímulo que dá sabor e intensidade à vida. Além disso,
é uma grande generosidade saber sair de cena para que novos seres
nasçam. No livro "As Intermitências da Morte", romance de José Saramago,
a morte é abolida de um país, para rechaçar o desejo da imortalidade.
A glorificação da ciência e da tecnologia já foi questionada, em 1818, por
Mary Shelley, nada menos que a filha do iluminista William Godwin e da
feminista Mary Wollstonecraft, quando aos 18 anos escreveu o livro:
“Frankenstein, o Prometeu Moderno”, mostrando como a racionalidade e a
tecnologia, ao invés de libertarem o ser humano, podem simplesmente criar
monstros. Já na maturidade, Mary Shelley escreveu o livro “The last man”,
tratando não da imortalidade, mas do fim da humanidade.
Simone Beauvoir, no livro “Todos os homens são mortais” nos dá uma lição
sobre a angustia e o desespero de ser imortal. Ela conta a história de Fosca,
rei de Carmona, nascido em 1279, bebe um elixir da imortalidade. Ao longo
do romance ele vai mostrando as vantagens da imortalidade, suas
conquistas e o desejo de fazer algo importante para a humanidade. Mas
depois de passar por guerras e períodos de paz, de progresso e declínio, de
amar e odiar, ele se pergunta sobre o sentido da vida. Narrando a vida de
um imortal, ela questiona os temas inerentes à natureza humana, tais como
a ambição, o poder, a imortalidade, o prazer, o destino e a transcendência,
mostrando que a imortalidade não é tão boa quanto parece.
Os adeptos da Singularidade tecnológica, da criogenia e do Transumanismo
deveriam aprender, filosoficamente, com o grande inovador tecnológico que
foi Steve Jobs, quando disse, em discurso para formandos da Universidade
de Stanford: “Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais
importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões.
Porque quase tudo - expectativas externas, orgulho, medo de passar
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vergonha ou falhar - caem diante da morte, deixando apenas o que é
importante. (...) a morte é o destino que todos nós compartilhamos.
Ninguém nunca conseguiu escapar. E assim é como deve ser, porque a
morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de
mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo”.
Referências:
Raymond Kurzweil. The Singularity Is Near: When Humans Transcend
Biology, Penguin Books, 2006
Nathan Pensky. Ray Kurzweil is wrong: The Singularity is not near. Pando,
February 3, 2014
https://pando.com/2014/02/03/the-singularity-is-not-near/
Mito & Realidade. A imortalidade está a duas décadas de distância?, abril
28, 2010
http://citadino.blogspot.com.br/2010/04/imortalidade-esta-duas-decadasde.html
Super Interessante. E depois de nós? O avanço imparável do transhumanismo, SUPER 155, Março 2011
http://www.superinteressante.pt/index.php?
option=com_content&view=article&id=532:e-depois-denos&catid=3:artigos&Itemid=77
Débora Danowski e Eduardo Viveiros de Castro. Há mundo por vir? Ensaio
sobre os medos e os fins. Ed. Cultura e Barbárie, 2014
Francis Fukuyama. Transhumanism, Foreign Policy, October 23, 2009
http://foreignpolicy.com/2009/10/23/transhumanism/
Sonia Arrison. 100 Plus: How the Coming Age of Longevity Will Change
Everything, From Careers and Relationships to Family and Faith, Basic Books,
2011
Simone Beauvoir. Todos os homens são mortais. Difusão Européia do Livro,
1965
Steve Jobs. Discurso em Stanford http://www.youtube.com/watch?
v=yw5fuDMblYg
Xiao Dong, Brandon Milholland & Jan Vijg. Evidence for a limit to human
lifespan,
Nature,
05
October
2016
http://www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/full/nature19793.html
José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População,
Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas ENCE/IBGE;
Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail:
jed_alves@yahoo.com.br

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