D O S S I Ê

Gênero, Família e Fases do Ciclo de Vida
*

Alda Britto da Motta

Famílias são, no âmago da análise, a articulação de relações de gênero e de gerações que se tecem e se realizam em um tempo social e
histórico, para uma vida em comum e um fim, ou um esperado acontecer, da reprodução – biológica e social.
Família é, também, a configuração mais diretamente percebida e
analisável da dinâmica dessas relações, com uma história que em grande
parte pode ser contada no tom que estas ensejam, no realizar das prescrições sociais para os sexos/gêneros e grupos de idade na organização da
sociedade.
As famílias contemporâneas vêm transformando, fortemente, e em
variados aspectos, os seus modos de vida – embora, ao mesmo tempo,
mantendo certo substrato básico dessa organização original. Transformando-se, porque as relações entre os gêneros e as gerações estão-se
realizando em novas formas e segundo outros códigos. Casamento, criação de filhos, separações, exercício da sexualidade, chefias, composição
do orçamento doméstico, solidariedades e responsabilidades intergeracionais, quase nada está sendo o mesmo.
Importante torna-se a oportunidade de traçar uma panorâmica sobre algumas dessas formas recentes, referenciadas aos ciclos de vida co*

Professora Adjunto IV do Departamento de Sociologia e Pesquisadora do NEIM/UFBa., Doutora em Educação.
CADERNO CRH, Salvador, n. 29, p. 13-20, jul./dez. 1998

já há algum tempo. 1998 . o marco da legitimidade científica e social – ainda que bem depois daqueles estudos circunscritos à família –. Inventam-se etapas e novas idades. na participação ou exclusão do mundo do trabalho. 29. como curso de vida (GIDDENS. exatamente de acordo com a idade (curso de vida) e o ciclo de vida da família.14 DOSSIÊ mo exatamente desenhados em torno das idades/gerações e da condição de gênero. Sua confluência analítica é forte.] um indicador da hierarquia masculino/feminino. ou fracionam-se em novas fases. A sexuação das idades é um construto social [. Mais escassos ainda são os estudos que se centram na visão conjunta das relações de gênero e de gerações. com correspondentes novos significados. ao mesmo tempo estruturantes e estruturadas pela sociedade inclusiva. Por isso. Também as remunerações do trabalho. de repercussão imediata na discussão e implementação de estatutos e políticas públicas no mundo. inclusive quanto à relação com o Estado. entretanto. alongam-se em trajetórias. 13-20. Perdem o tradicional aspecto regular e determinante de “eterno retorno”. Nesse dúplice dinamismo social têm-se transformado as famílias. continuam bem menos numerosos. ou destino bio-social. recentemente. não apenas quanto aos numerosos aspectos referidos. segundo uma moldagem interna aos grupos e instituições. inclusive no mercado de trabalho (LANGEVIN). E. temos 5 trabalhos. principalmente. inclusive na expressão analítica. na velhice (LANGEVIN).. Os enfoques de gênero atingiram. n. “natural” e social. O capitalismo CADERNO CRH. mas também na sua realização no tempo. jul. p. embora a discussão feminista sobre o assunto tenha se constituído como particularmente esclarecedora quanto à divisão sexual de papéis e tarefas na própria família. São diferenciais os ritmos de trabalho de homens e de mulheres../dez. 4 brasileiros/nordestinos e 1 francês. estas se realizam em entrelace. Para isso. os ciclos de vida vêm adquirindo outras configurações. Salvador. Os trabalhos sobre as idades e gerações e sua articulação direta e cotidiana na vida das famílias e da comunidade. 1992). apesar de serem as idades um elemento básico na organização social e. em seu complexo entrelace na estruturação da vida familial. no entanto.

para acudi-la em sua insuficiência expressiva. BILAC. fixado nas representações e expectativas (BRITTO DA MOTTA. mas ao mesmo tempo amplia-se. 1978). 1997b. cria a meia idade e a eufemística terceira idade (para não se falar em velhice. No atual processo de transição demográfica e social. ora de concentração das gerações em diferentes fases do ciclo de vida dos indivíduos e do grupo doméstico (BILAC. que reencarna-se. ou reaproximação espacial. a “madrasta” ou o “padrasto” de quem tem os pais vivos. 1998 . tanto na realização de formas novas e imperativas de apoio e solidariedade entre as gerações (CABRAL. um movimento ora de dispersão. BRITTO DA MOTTA. GOLDANI. desempregados ou precariamente empregados. de forma desbotada. mais que antes. agora. de filhos casados.GÊNERO. transmudando-se no homem de certa idade (ARIÈS... as antes socialmente indistintas infância e adolescência (ARIÈS. que levam a essa reinvenção de ciclos ou fases da vida familial (e não só à criação/percepção de novas idades). de acordo com o ritmo das mudanças. agora realizando. recorre a uma inevitável quarta idade (LENOIR. o ancião em seu solene significado social original desaparece. CADERNO CRH. 1993. vicinal. 1997. na realização ou tentativa de novas relações de parentesco. Como sobretudo o são os grupos familiais à maneira mais tradicional. como. PEIXOTO. a avó do meio-irmão.) e.. A família exibe novas formas. 1991).. Salvador. pelo menos como modelo ideal. ao longo dos dois últimos séculos. 1993) e das condições político-econômicas do País. 29. crescendo a população idosa e aumentando a sua longevidade. Composições recentes. ainda. cujo exemplo maior é o retorno. 1997a). GOLDANI. que guardam diferenciais de classe. 1978). p. 1998). jul. FAMÍLIA E FASES DO CICLO DE VIDA 15 é pródigo nessas criações: individualiza e faz aparecer. Mais recentemente. Persiste como nuclear./dez. nessa quarta idade. 13-20. 1991. n. 1978. várias ainda sem sequer designação própria – o filho do casamento anterior do(a) companheiro(a). 1987. BRITTO DA MOTTA) como em função da coexistência de um número maior de gerações (LANGEVIN. mas que se aproximam formalmente enquanto tipos de famílias ampliadas.

1999. com a dificuldade e precariedade de empregos. para a casa dos velhos. além do capítulo especial das políticas públicas. jul. É. as trajetórias se medem com elas. 29. um recurso que tende agora a se intensificar. p. que 4 dos 5 trabalhos aqui apresentados toquem ou direcionem-se precisamente a essa temática. Como certamente tenderão a intensificar-se igualmente os conflitos. DA MOTTA e CABRAL acentua. então. BRITTO GUIMARÃES. inescapavelmente. 1997). tornando-se. O ciclo de vida desenha-se também com a(s) idade(s). principalmente. cada vez mais. 1998 . 1997a. e ainda pouco discutido: CADERNO CRH. 1997. das velhas. também. Não se torna coincidência. SARDENBERG. mesmo (BRITTO DA MOTTA. CABRAL. que também pavimentam o curso da vida.16 DOSSIÊ com companheiras(os) e filhos. uma questão pública. com GUILLEMARD (1986). Tensões também registradas por CABRAL. a questão do envelhecimento e do papel social/familial dos mais velhos. que nunca deixaram de existir. 13-20. como a discussão sobre a longevidade extrapola a família e a vida privada. Ou./dez. Com o aumento da longevidade da população como tendência atual e quase universal. Trata-se de um padrão de convivência e trabalho que não é recente entre os pobres em Salvador. SARDENBERG acompanha as interseções das etapas do ciclo de vida das pessoas na família com o ciclo de desenvolvimento do grupo doméstico. o tema da família alcança. particularmente expressas na rede de ajuda mútua entre mulheres das classes populares de Salvador – um ciclo transgeracional de ajuda mútua entre mães e filhas – relações ao mesmo tempo materializadas e simbolizadas pelo uso e posse da casa. Confluindo para um outro aspecto de questão levantada por GOLDANI (1999. sob a forma de gerações. n. pois nada incomumente. mas sim o seu estudo e registro. p. 14). trata-se de idosos. Salvador. O tempo das populações e das famílias vai-se medindo em idades e as prescrições sociais e expectativas vão-se dando em torno destas.

as famílias têm sido [.. 29. novas relações fora do âmbito e influência da família. Vivendo. além da propriedade da casa. alongando suas vidas e com filhos de várias idades retornando ou reaproximando-se espacialmente. entretanto. destaca. as famílias são chamadas a assumir.GÊNERO. apoiando ou sustentando muitos dos mais jovens. provenientes de aposentadorias e pensões.. p. lhes dão uma particular condição de provedores./dez. bisavós presentes. Um fenômeno não exclusivo dos mais pobres. onde vai encontrar um elevado percentual de famílias idosas. bem-estar e qualidade de vida dos seus membros e. numa relação inversa de cuidados.] fator fundamental de suporte. (1993). Enquanto os seus recursos. como famílias ampliadas abrigando o movimento das gerações mais jovens. solidão. elas assumindo. GOLDANI. também. também. nessa reprodução cotidiana da vida. Com numerosas mulheres. as situações novas. FAMÍLIA E FASES DO CICLO DE VIDA 17 No quadro de diminuição dos recursos do Estado e da desmontagem do sistema de proteções e garantias vinculadas ao emprego. CABRAL e BRITTO DA MOTTA. como tal. o que vai corresponder aos resultados das pesquisas de SARDENBERG. porém mantendo uma rede de relações. 1998 . ou vivendo sós. cumplicidades e solidariedades intergeracionais. Atenta à coincidência entre ciclos de vida das famílias e suas categorizações heurísticas. ainda que parcos. o que não configura. Em meio ao registro das tensões familiares. Vivendo. muito mais que homens. Reinventando ciclos.. CABRAL aplica uma dessas classificações desenvolvidas por PRATA et al. à sua pesquisa de dados censitários na Paraíba. É exatamente o quadro encontrado em Salvador.. seu papel de proteção social. necessariamente. passam a ser foco e destinatárias de políticas. 13-20. a chefia da família. mesmo na presença de filhos adultos e casados. crescentemente. ainda. Acrescentando. Salvador. que na atual conjuntura. BRITTO DA MOTTA analisa o lugar social da família do idoso e encontra-a – guardados alguns diferenciais de classe – empenhada. ainda. de forma mais ampla. com avós “jovens”.. CADERNO CRH. jul. uma autoridade dos mais velhos de camadas populares. n.

. identificadas através do arquivo de uma Fundação vinculada à Prefeitura de Salvador. por isso CADERNO CRH. pelo bem-estar que produzem.. a sugestão de uma história social das idades (LANGEVIN) enfatiza a importância do tema/categoria que perpassa todos os trabalhos e propostas. basicamente através dos filhos menores. ao tempo em que organizam.. que atua com crianças e adolescentes que sobrevivem de atividades de rua e visa a co-participação das famílias nesse trabalho. As representações sociais [. É o caso das famílias analisadas. A pesquisa registra mudanças no cenário dos bairros pobres nos anos 90. ao mesmo tempo. trata-se de um grupo que faz parte da clientela de uma instituição e. com relações de vizinhança mais distanciadas. preocupação generalizada principalmente em relação ao futuro dos filhos./dez. estudadas no espaço de moradia. do Estado. .. Por fim. Ao mesmo tempo. como participantes. de redes sociais mais amplas. Famílias em um ciclo de vida considerado de maturidade.. além do crescimento da violência. a cada momento. Ao mesmo tempo – como nos estudos anteriores – o crescente empobrecimento continua a requerer que ela opere como unidade de rendimentos e de consumo. 1998 .. uma visão simbólica do futuro. refluem positivamente sobre a família. São normativos. GUIMARÃES pesquisa as condições possíveis de ajuda mútua e socia- bilidade dos pobres urbanos e apresenta famílias entre o espaço privado e o público. sociabilidades intrageracionais que.] como fator de proteção contra a miséria. jul. com as políticas de reajuste estrutural. [. Salvador. portanto. n. via políticas públicas. 29. propõem enquadramentos sócio-econômicos e éticos dos comportamentos.] das etapas da duração humana. vivendo uma situação de pobreza que mudou/cresceu.. 13-20. embora em geral estas não falhem em momentos mais graves..18 DOSSIÊ em grupos. O que se dá com muita dificuldade. participa de uma rede mais formal de relações. p. Os recursos agora podem provir também de transferências formais de instituições reconhecidas para este fim. na intermediação dessas outras instituições nas tradicionais funções da família.

BRITTO DA MOTTA. n. Salvador. p. Estudos Feministas. ao final dele. entretanto. 1. 1998) e muito mais dinâmica. BRITTO DA MOTTA. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AIRÈS. S. mas também pelo fato inédito de que o envelhecimento venha se transformando em uma experiência coletiva (LANGEVIN. 1998 . Benedita E. CABRAL. Ao mesmo tempo. BRITTO DA MOTTA. In: ENCONTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS NORTE/NORDESTE. Dossiê gênero e velhice. As prescrições em relação a todas as idades estão mudando. In: ENCONTRO NORTE/NORDESTE DE CIÊNCIAS SOCIAIS. CADERNO CRH. 8. as mulheres sozinhas que. Tese (Doutorado).In: Ciências Sociais Hoje. BRITTO DA MOTTA. Alda 1999 Não tá morto quem peleia: a pedagogia inesperada nos grupos de idosos. jul.GÊNERO. mas este tempo é transicional e a força da mudança ainda não abalou suficientemente a sexuação das idades (LANGEVIN) e da vida social e por isso o mercado de trabalho permanece masculino e jovem. hoje. São Paulo: ANPOCS. o percurso mais longo da vida./dez. 5. 29. Elizabete Dória 1991 Convergência e divergências nas estruturas familiares no Brasil. 8. também estão contribuindo para essa grande mudança dos modos de vida. o envelhecimento. os fatores sociais que estão produzindo a longevidade. Philippe 1978 História social da criança e da família. v. Alda 1977a Notas para pensar a família do idoso. Alda 1997b Palavras e convivência – idosos. Fortaleza. Fortaleza. torna-se uma construção feita de passagens obrigatórias. FAMÍLIA E FASES DO CICLO DE VIDA 19 mesmo. E não apenas pela significativa presença simultânea de várias gerações. Encontrando. Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia. uma experiência dos grupos de convivência de idosos. Este percurso é traçado por LANGEVIN com o exemplo francês. Lima 1997 Solidariedade geracional. 13-20. Rio de Janeiro: Zahar. n. Rio de Janeiro. assumem a ajuda às gerações mais novas – como no caso brasileiro. BILAC.

terceira idade. Ana Maria 1999 Arranjos familiares no Brasil dos anos 90: proteção e vulnerabilidade. 8. velhote. p. 1993 Envelhecimento. 4. Clarice 1998 Entre o estigma e a compaixão e os termos classificatórios: velho. Les champs de la sociologie française. Paris: A. p. LANGEVIN. Salvador. (org) Velhice ou terceira idade? Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. LENOIR. 13-20. Ana Maria 1993 As famílias no Brasil contemporâneo e o mito da desestruturação. Paris. Revue Française des Affaires Sociales. Cambridge: Polity Press. CADERNO CRH. renda e família no Estado de São Paulo. nº hors série. Henri (org). 51 e. jul. 6-27. Ana Amélia (ed). Paris. São Paulo. Annette 1997 La construction des bornes d’âge. Como vai? população brasileira. USA. Remi 1979 L’invention du troisième âge (constitution du champ des agents de gestion de la vieillesse). Actes de la Recherche en Sciences Sociales. mar/avr./dez. Anthony 1922 Modernity and self-identity. power and community in BahiaBrazil. Anne-Marie 1989 La naissance du troisième âge. n. In: LINS DE BARROS. Colin. In: MENDRAS. année.. LANGEVIN. Tese (Doutorado) .Universidade de Boston. GOLDANI. 29. GUILLEMARD. n. 1. n. São Paulo em Perspectiva. Cecília 1997 In the Backyard of the Factory: gender.20 DOSSIÊ GIDDENS.. PEIXOTO. Annette 1987 Les âges successifs aujourd’hui. class. Myriam M. São Paulo. v. PRATA. Lizete et al. In: CAMARANO. idoso. IPEA. Caderno Pagu. 1998 . n. Informations Sociales. SARDENBERG. 7. GOLDANI.

/dez. n. Salvador. p. jul.CADERNO CRH. 13-20. 1998 . 29.