Zebriel (Pedro

)
Não fazia muito tempo que fora acolhido pela Ordem da luz; 25 anos se passaram rápido
demais, e ao longo deles, sua admiração por ela já não era mais a mesma. A Ordem era
respeitada em toda Arton, eram vistos como cavaleiros bondosos e justos que levavam a
ordem e a lei de Khalmyr a todos os cantos do Reinado. Seu prestígio era tão grande que,
dizia-se, nenhuma família era realmente nobre caso não houvesse pelo menos um membro
dentro dela. Se isso um dia foi verdade, ele não sabia ao certo, o que sabia era que entre
esses cruéis anos, conseguiu ver de perto a decadência da Ordem e a verdade ofuscada pelo
brilho do Castelo da Luz. Lá dentro, Khalmyr era justo e todos eram iguais, porém uns eram
mais iguais que os outros, e já há muito tempo a ordem se guiava mais pelo brilho reluzente de
jóias e moedas de ouro do que pelo brilho da justiça. Aquilo, sem dúvida alguma, não era para
ele.
Eram raras as vezes que alguém abdicava do seu título de cavaleiro para voltar à realidade
mundana de arton, tão raras que nunca passavam despercebidas. Esse não era o caso, já que
o seu nome não era conhecido entre nenhuma das famílias nobres do reinado, muito menos
em qualquer outro ponto de Arton, já que na verdade nunca fora nobre. Analisando hoje, não
sabia como haviam acreditado na história que contara aos seus 10 anos. Sempre foi habilidoso
com as palavras, as pessoas geralmente acreditavam no que dizia, mas daquela vez nem ele
achou
que
teria
sucesso.
Há exatos 25 anos atrás, um jovem elfo havia sido enviado para entrar na famosa Ordem da
Luz. Isso era um acontecimento sem precedentes, os elfos nunca haviam gostado de se
misturar com qualquer outra raça, considerava qualquer um diferente deles como seres
“inferiores”. Mas aquilo estava mudando, a guerra contra os goblinóides estava cada vez mais
intensa, principalmente depois do surgimento de Thwor Ironfist, e algumas medidas de
reaproximação com o reinado haviam sido tomadas. Uma família da alta nobreza dos elfos
havia mandado seu primogênito para fazer parte da Ordem, algo que sem dúvida traria respeito
a sua raça e facilitaria a negociação dos elfos com o Reinado. Até seria um bom plano, caso
tivesse sido executado vários anos antes, visto que o garoto elfo mal tinha percorrido metade
de sua longa jornada quando o sangue do supremo avatar de Glórien, a deusa dos elfos, já
decorava a lâmina do machado de Thwor. Nem a sua própria deusa conseguiu salvar os elfos
do que lhes aguardavam, da noite para o dia Lenóriem fora reduzida à cinzas, e os elfos que ali
residiam tiveram que escolher entre a foice ou a corrente, ou entre coisas muito piores...
Não bastasse a destruição de sua terra natal, a caravana do jovem elfo por algum infortúnio
dos deuses também teve um destino trágico: haviam sido emboscados em uma das planícies
próximas a Norm. Não haviam tomado conhecimento dos recentes acontecimentos e,
enfraquecidos pela humilhação de sua deusa, não tiveram chances contra aqueles
mercenários. Com seus últimos suspiros, o único mago da caravana (cujos poderes não
dependiam diretamente de sua deusa, diferente daqueles pobres clérigos) usou todo poder que
lhe restava para transportar o garoto e parte do tesouro que “garantiria” sua entrada na Ordem
para as proximidades da cidade. E fora ali que se encontraram.

Zebriel. Foi então que aquele curioso garoto humano apareceu. logo fariam buscas e sua fuga não duraria muito tempo frente a poderosa magia de seu povo. Ganhou logo a confiança do elfo e após algumas horas já se tornaram bons amigos. não havia sobrado ninguém da caravana que poderia lembrar-lhe de seus deveres (mal sabia ele que não era apenas a caravana que havia sido dizimada). Seu carisma ainda não era tão grande. O acontecimento certamente também lhe deixou cicatrizes. porém não tão profundas quanto em outros elfos. nunca quisera fazer nada daquilo que seus pais sempre lhe obrigaram a fazer. nunca o aceitariam. Ele já havia enxergado a decadência élfica desde os seus 10 anos de idade. muito menos posses materiais. já lhe denunciava. não pode recusar. os cavaleiros certamente pareciam desconfiados após ouvirem sua história. aguardava ser chutado imediatamente para fora do Castelo da Luz. Pensou logo em fugir e usar parte do seu dinheiro para sobreviver. mas havia outro problema: seu futuro já tinha sido minuciosamente planejado.Kaseen Gorandir nunca quisera entrar na ordem. e que. Quando o garoto humano explicou toda a história que havia acertado com o elfo para os cavaleiros. Foi naquele dia que os garotos se separaram. era o primogênito de sua família e devia cumprir com suas obrigações. ou até pior. já haviam combinado tudo com a ordem da luz. O pequeno humano havia lhe contado sobre o seu sonho de entrar para a Ordem da Luz. Mas isso não aconteceu. apesar disso. já sabia que mais cedo ou mais tarde aquela sociedade pereceria frente a ira goblinóide. até mesmo seu nome. Alguns bons anos já haviam se passado desde o massacre de Lenórien. ficou feliz pelo caminho que tomou há 25 anos atrás. e como assassinatos eram o seu trabalho favorito. Mal sabiam que a seus destinos logo voltariam a se cruzar. convencê-los que ele era o enviado suposto a entrar na ordem e usar parte do tesouro como garantia do seu recrutamento. não demoraria até se darem conta que nenhum jovem Gorandir compareceu ao recrutamento. aquilo lhe revelara algo ao mesmo tempo fascinante e assustador: não teria mais para onde voltar. teria que sobreviver sozinho. Tudo então se encaixou: o garoto humano poderia se passar por um suposto vassalo da nobreza élfica. Agora era diferente. Arrogantes e com um senso extremo de superioridade. Kaseen Gorandir (ike) Aquela cidade lhe trazia várias lembranças. Para Kaseen. Por fim. entretanto. porém se calaram um instante após ver todo aquele tesouro élfico. Era apenas um órfão sem nenhum sangue de nobreza. fora ali que seu destino tinha mudado: abandonara de vez sua descendência e suas tradições. talvez seria encarcerado e apodreceria em alguma das masmorras do castelo. . porém nunca teve escolha. ele viraria escudeiro de um dos senhores do castelo enquanto o pequeno elfo tentaria a sua sorte vivendo por conta própria. Seu último contrato lhe trouxera até ali.

Estava acertado. muito menos aquele bosque. ele. confiava mais na sua própria descrição (e em seus ataques precisos. Ao chegar lá. Dizia-se que os minotauros nunca tomavam partido. ouviu também sobre seus planos de fundar o seu próprio grupo e viajar pelo mundo pregando a verdadeira justiça: a liberdade. um dos pontos mais elevados do reino. já se preparava para deixar aquela nostálgica cidade quando viu uma estranha figura cavalgando também em direção ao portão principal da cidade. onde podia ter uma visão ampla de tudo que acontecia na região. ele fora talvez o primeiro a ser alvo da doutrina de liberdade daquele agora ex-cavaleiro da Luz. um artefato que legitimaria o poder de seu fundador e facilitaria o recrutamento de novos membros. se os deuses realmente existiam. visto que o acordo de paz fora recentemente negociado. Kaseen não gostava de se aventurar em grupos. adentrou-se no que fora sua segunda casa nos últimos dias: os Bosques de Farn. Zebriel. Seus olhos lhe diziam que conhecia aquele cavaleiro de algum lugar. mandeu assim uma certa distância e decidiu investigar.Completara seu trabalho a pouco tempo. mas se tratando de minotauros ele não duvidava de nada. Nunca entendera como o Reinado poderia ser considerado civilizado quando permitiam em seu território essa tremenda ofensa à criação: a escravatura. mas se sentia em uma dívida para com o humano. Thytos Cartagis (William) Aquela era uma manhã como qualquer outra. Como sempre. onde a Ordem completaria sua primeira missão: resgatar um poderoso item mágico que os cavaleiros da luz uma vez mencionaram. animais e até mesmo pequenas civilizações de raças menores! Ninguém o interromperia ali. nunca acreditara naquilo: aqueles seres eram certamente malignos. e Thytos Cartagis não iria descansar até que aquilo fosse provado e toda essa raça perversa fosse eliminada de uma vez por todas de Arton. teve uma tremenda surpresa: aslegiões táuricas que ele vinha acompanhando haviam triplicado de tamanho! Estariam eles planejando um cerco final à malpetrim? Ou logo se moveriam para dominar ainda outro reino? A última opção certamente lhe parecia improvável. porém. porém. Seguindo para a sua segunda parada do dia. Ele o salvara do futuro egoísta em que sua própria família tentara-lhe aprisionar . caso fossem necessários). e em poucos dias haviam partido para o distante reino de Petrynia. Aquele lugar era perfeito. Ouviu suas frustrações para com a ordem. Nunca esquecera o que havia acontecido a sua mãe quando seu senhor descobriu sobre sua traição. . Descobriu naquele mesmo dia que. escondendo-se entre aquela suas numerosas árvores vários monstros. muitas regiões de Petrynia ainda não haviam sido mapeadas. levantara cedo e partira para rastrear os movimentos das legiões táuricas. seguia sua rotina diária: acordou cedo e partiu para o vale dos observadores. eram neutros frente ao bem e o mal. Kaseen foi então nomeado o primeiro membro de sua nova Ordem. estavam naquele mesmo instante pregando peças com o seu destino: era aquele garoto humano que entrara na Ordem da Luz em seu lugar.

e ao não obter as respostas que desejava logo deixou a caverna. Muitas vezes era também o carrasco daquela terrível residência. já sabia as palavras que provavelmente explicavam detalhes sobre o seu destino: Circo e Recompensa! Se não fosse a boa vontade daquela dupla de aventureiros que vagavam pela região. não teve tempo de fazer nada e após um piscar de olhos já se encontrava em correntes. ouviu uma agitação incomum naquele bosque. tentou usar uma de suas bugigangas mas a força bruta de seus oponentes havia sido mais rápida. será que alguém finalmente havia descoberto seu segredo? Decidiu ir averiguar. Algum tempo após deixar seu prisioneiro. mesmo sem saber ainda seu significado. a não ser por aquelas orelhas pontiagudas. apenas alguns flashbacks de sua civilização e dos tormentos que ela enfrentara nos últimos anos. Quando aqueles seres lhe haviam encontrado. Um deles trajava uma armadura um tanto modesta. Guinness (Paini) Sua cabeça doía. não tão reluzente quanto a de seus captores. Agora não era mais que um mero prisioneiro. Gregórius fora uma vez o capitão da guarda da casa do senador ao qual sua mãe pertencera. um arco! . aquilo era parecido com instrumentos que o seu povo utilizara a milênios atrás. provavelmente teria tido um destino trágico. não sabia como havia ido parar naquele lugar. A pancada havia sido tão forte que não lembrava absolutamente nada. tentava ao máximo compreender aquele idioma alienígena. uma vez que o seu mestre não considerava seus escravos dignos nem de receber chibatadas diretas de seu dono. os músculos que uma vez sustentavam seu gládio e escudo com orgulho (e muitas vezes também o chicote) já não eram mais do que filetes de carne que mal se sustentavam em sua estrutura óssea. mas conseguiu distinguir algo que seus antecessores também usaram a milhares de anos atrás. armaduras. Após algum tempo em cativeiro. Seguindo a boa educação que sua mãe lhe dera. mas que ainda assim dava ao estranho cavaleiro um certo tom de nobreza. seus chifres quebrados davam um ar patético aquela criatura que já parecia tão desnutrida quanto um velho góblin. bestas! Que barbárie. Thytos logo bradou “Bom dia.Logo após entrar na sua caverna preferida de Arton. Tentou pronunciar umas palavras em seu idioma nativo quando logo notou uma certa hostilidade vinda daquelas criaturas. senhor” ao ver o minotauro. Viu que o minotauro mais uma vez não havia tocado na sua comida. Era sem dúvida muito inteligente. Não parecia um guerreiro. seguido de um chute seco diretamente no focinho daquela criatura. encontrou seu prisioneiro estirado de bruços sobre o chão úmido. conseguira notar um curioso aspecto sobre o que vestiam em seus corpos imensos e carregavam em suas mãos: espadas. um tanto maiores do que as do resto daquelas criaturas. escudos. Seguiu sua rotina de “perguntas” diárias. O outro não tinha nenhuma característica marcante.

antes mesmo do cavaleiro sacar sua espada ele já havia enterrado sua adaga no pescoço do guarda que havia lhe denunciado. O cavaleiro atacou o líder de imediato com sua espada e.Os estranhos viajantes conversaram um tempo com o que parecia ser o líder daquela caravana. ele certamente não teria chance alguma. tentaram trocar algumas palavras. Tudo que aconteceu não demorou muito mais que algumas batidas de coração: uma súbita explosão de armas arcaicas entravam em combate e cantavam ao som do impacto. mas sem dúvida o fato daquilo ter surgido do nada lhe chamou muita atenção. Os viajantes eram rápidos e pareciam muito fortes. Os viajantes pareciam também surpresos com o que havia se passado. seguiram viagem rumo ao misterioso reino de Petrynia. Leo . além de ter sacado seu arco e disparado em um guarda mais adiante. Um terceiro guarda já se preparava para atacar um deles pelas costas quando decidiu agir: preparou uma de suas engenhocas e em alguns instantes um poderoso e ensurdecedor raio foi disparado em direção ao guarda. E assim. não viram nenhum perigo já que ele não portava nenhuma daquelas armas anciãs que pareciam muito comum naquele mundo. que foi jogado a metros de distância sem nenhuma chance de reagir: estava morto. Aquelas criaturas estúpidas não tinham a menor noção do que ele carregava. não entendia muito suas palavras mas deduziu que apenas esclareciam quem eram. O ser de orelhas pontiagudas pareceu ainda mais rápido. não tinha interesse algum pela arma primitiva. os guardas fugiam implorando por suas patéticas vidas. mais tarde quem sabe estudaria esse estranho poder). Sabia que essa era a oportunidade que estava esperando. as orelhas pontiagudas do segundo viajante! Mais uma vez ouviu aquelas palavras misturadas em uma frase complexa e ininteligível: Circo e Recompensa! Um sorriso surgiu em seu pequeno rosto em meio a sua longa barba. porém uma onda de terror e pânico atingiu a todos após o acontecido. muito pelo contrário! Após o libertarem de sua jaula e de suas correntes. até que um dos guardas que acompanhava o seu líder também notou o que ele mesmo já tinha notado a muito tempo. Estavam errados. decidiu que estaria mais seguro com eles. mas estavam em menor número. bradava algumas palavras enquanto uma segunda arma parecia se materializar em sua mão esquerda (muito interessante. e em meio a choros e súplicas. era a sua chance de escapar. Tudo ia bem. Ainda não entendia várias delas. mas não eram hostis. mas em meio as expressões amigáveis. ao mesmo tempo. Caso todos os guardas ali presentes se engajassem no combate.

você não correrá nenhum perigo. que haviam tomado o lugar de seu deus desde o seu esquecimento. atingiu finalmente a terra verde. Sabia que Arton. Uma terrível guerra civil atormentava sua terra natal enquanto dois grupos disputavam o comando: um deles pregava o retorno às suas origens. Quando viu aquele pequeno grupo de minotauros no caminho. mas até aquele momento não tinha noção do quanto. Sua primeira missão como mago da academia arcana era nada mais nada menos do que viajar à petrinya. Para onde. assim como as atrocidades cometidas por ambos os lados. porém. o reino das fadas que atualmente estava infestado de minotauros! “Não se preocupe. talvez tivesse sido uma decisão sábia. Não demorou muito para saber que estava perdido naquela floresta interminável. mas ainda assim nada justificava as invasões táuricas. porém? Essa era uma pergunta difícil. optou pelo que. aquele lugar é mais seguro com os minotauros do que sem eles”. portanto. como os humanos chamavam. quando notou um algumas vozes. Secco Não gostava daquela idéia. de acordo com o costume da sua raça. era muito mais vasta que as suas Montanhas Uivantes. Sua estadia ali não tinha nada a ver com a passada guerra. kallyadranoch. voltando a cultuar o seu deus esquecido. Presenciando toda a devastação que aquela guerra trouxera. enquanto o outro defendia manter sua honra e a sua devoção inabalável para com os dragões-anciãos. Não gostava de falar naquele idioma precário usado nos reinos humanos. Decidiu. mas o entendia muito bem: era uma briga. Foi já no segundo dia. deveria apenas coletar amostras de um estranho acontecimento e reportá-las para a academia arcana. afinal de contas o reinado já tinha problemas suficientes com a tormenta e os goblinóides. Após meses vagando. quem sabe era uma oportunidade para o seu machado voltar a ver sangue. nunca tivera muito contato com o mundo fora das Uivantes. Não acreditava como Tapista havia conseguido o acordo de paz com o Reinado. explorar aquele continente misterioso até achar alguma causa que lhe parecesse justa o suficiente para dedicar o seu machado. Ficou feliz. subiu um calafrio pela espinha. seria a maior das traições: abandonar seu clã e seguir o seu próprio rumo. não sabia qual era o seu lugar naquele mundo.Não fazia muito tempo que havia partido. .