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SextA-FeirA, 7 De OutubrO De 2016

O jornal ainda é a principal fonte
confiável, diz editor de ‘Spotlight’

Walter Robinson venceu o Pulitzer com reportagem sobre abusos sexuais por padres em Boston
Mauro Fagiani - 23.jan.2016/pacific press/alamy live News

Jornalista americano
participa amanhã
de painel no Festival
Piauí GloboNews de
Jornalismo, em sP

sábado (8)
10h - Thomas Kistner “Süddeutsche Zeitung”
(Alemanha)
12h - João Doria
(Conversa com a Fonte)
14h - Ginna Morelo “El Tiempo” (Colômbia)
16h - Mikhail Zygar Dozhd TV (Rússia)
18h - Walter Robinson “Boston Globe” (EUA)
domingo (9)
10h - César Batiz “El Pitazo” (Venezuela)
12h - Ciro Gomes
(Conversa com a Fonte)
14h - Michael Hudson ICIJ (EUA)
16h - Jon Lee Anderson “The New Yorker” (EUA)
18h - Gianni Barbacetto “Il Fatto Quotidiano”
(Itália)

maRcElo NiNio
de WasHINGToN

Apesar das dificuldades financeiras vividas por jornais
ao redor do mundo e da explosão da internet, são eles que
continuam sendo a mais importante fonte de informações
confiáveis, diz um veterano
jornalista, que ficou famoso
ao ser interpretado pelo ator
Michael Keaton no cinema.
Bom de papo e apaixonado por sua profissão, Walter
Robinson, 70, chefiou a equipe de reportagem investigativa do jornal “Boston Globe”
que revelou a enorme escala
de abusos sexuais em série
cometidos por padres católicos na cidade em 2002.
A história deu origem a
“Spotlight - Segredos Revelados”, que ganhou o Oscar de
melhor filme neste ano.
Em sua primeira visita ao
Brasil, Robinson participa
neste sábado (8) de um painel do Festival Piauí GloboNews de Jornalismo, em São
Paulo. Pouco antes de embarcar, ainda sem compreender
a demora para obter o visto
para o Brasil —que lhe exigiu
três idas ao consulado—, Robinson conversou com a Folha por telefone sobre a reportagem que rendeu à equipe o prêmio Pulitzer, o mais
importante do jornalismo
americano, o filme e o futuro
da profissão.
Analisados quase uma década e meia depois, já com o
conhecimento dos fatos, é difícil entender porque os abusos cometidos por padres em

PROGRAMAÇÃO
Festival piauí
GloboNews
de Jornalismo

FestiVal PiaUÍ
globonews de
Jornalismo

onde Colégio Dante Alighieri
(al. Jaú, 1.061 - Cerqueira
César - São Paulo)
QUanto De R$ 220 a R$
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mais inFormaÇÕes

piaui.folha.uol.com.br

o jornalista Walter Robinson, 70, que venceu o Pulitzer pela reportagem sobre abusos sexuais cometidos por padres
Boston, com o acobertamento da Igreja Católica, só foram revelados em sua verdadeira extensão quando a
equipe de Robinson mergulhou no assunto. Segundo
ele, um dos motivos foi a “deferência” à igreja em Boston,
que tornava o assunto de certa forma intocável.
“Se alguém dissesse há 30
anos que milhares de padres
católicos haviam abusado de
dezenas de milhares de crianças e que a igreja havia acobertado tudo, essa pessoa seria considerada louca. A ideia
de que a igreja estava envolvida em algo assim era inimaginável. Depois descobrimos
que uma grande quantidade

de casos era conhecida da polícia e dos procuradores, mas
eles não fizeram nada por deferência à igreja”, conta.
‘Forasteiro’

Nascido em Boston há 70
anos e desde 1972 no “Boston
Globe”, o jornalista reconhece que foi preciso um “forasteiro” para empurrar a reportagem, o editor Marty Baron,
que chegou de Miami com um
“olhar novo e sem se importar com quem iria ficar ofendido”. O início do trabalho foi
motivado “por medo do chefe”,dizRobinson.“Parecepiada, mas fizemos por medo.”
Partindo de um caso antigo de um padre que havia si-

do acusado de abusar crianças nos anos 1980, em uma
semana a equipe de Robinson entendeu que aquilo era
“apenas a ponta do iceberg”.
O que no início parecia ser
no máximo uma dúzia de casos revelou-se muito maior,
com quase 250 padres envolvidos em abusos de crianças
em Boston. O trabalho rendeu à equipe o mais cobiçado Pulitzer, o de serviço público. Algo que Robinson,
sem modéstia, considera totalmente justificado.
“Dada a extensão dos crimes e o fato de que sua exposição levou a mudanças significativas na forma como a
igreja opera, acho que não dá

para imaginar um serviço público melhor”, diz.
Com recursos cada vez
mais escassos para reportagens de fôlego, Robinson lamenta que os jornalistas têm
deixado escapar muitas histórias importantes, mas acredita que os jornais continuam
fundamentais.
“Os jornais ainda são a
principal fonte de informação e reportagens de fundo”,
afirma Robinson. “O problema é que demos de graça o
nosso produto por tanto tempo [na internet] que é difícil
convencer o público de que,
se você de fato quer notícias
com profundidade, tem que
pagar por elas.”

os jornais
ainda são a principal
fonte de informação
e reportagens de
fundo. o problema é
que demos de graça
nosso produto por
tanto tempo [na
internet] que é difícil
convencer o público
de que, se você quer
notícias com
profundidade, tem
que pagar por elas
walter robinson
jornalista vencedor do prêmio Pulitzer
Jose Manuel Ribeiro/aFp

Aclamado, Guterres pede unidade na ONU
Português foi escolhido ontem por unanimidade como próximo secretário da entidade
das aGÊNCIas de NoTÍCIas
de BRasÍlIa

O português António Guterres, 67, escolhido para ser
o próximo secretário-geral da
ONU (Organização das Nações Unidas), disse esperar
que a unidade e o consenso
verificados para elegê-lo seja
uma tônica da entidade durante seu mandato.
Ele elogiou o Conselho de
Segurança da ONU pela
transparência e rapidez ao
apontar seu nome por aclamação. “Que tal fato seja simbólico para que, em unidade
e com consenso, [o Conselho
de Segurança] tenha a capacidade de tomar as decisões
que o mundo moderno exige”, disse Guterres em cerimônia nesta quinta (6) no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa.
Num pronunciamento em
quatro línguas (português,

inglês, francês e espanhol),
sem direito a perguntas, ele
afirmou que encara a missão
com “gratidão e humildade”.
“Humildade para servir os
mais vulneráveis, as vítimas
dos conflitos, do terrorismo,
das violações dos direitos, da
pobreza, das injustiças.”
Guterres foi primeiro-ministro de Portugal de 1995 a
2002 e serviu como alto comissário da ONU para os refugiados de 2005 a 2015.
O Conselho de Segurança
referendou o nome dele nesta quinta, recomendando que
a Assembleia Geral lhe conceda cinco anos de mandato
a partir de 1° de janeiro de
2017. A assembleia se reunirá na próxima semana para
aprovar a nomeação de Guterres, que irá substituir o sulcoreano Ban Ki-moon, 72.
Ban deixará o posto no final
de 2016, após dois mandatos
como secretário-geral.

SECRETÁRIO-GERAL
entenda o cargo
atribuições
> Segundo a ONU, exerce o
papel, “em partes iguais”,
de diplomata, porta-voz
e diretor-executivo
> Comanda o Conselho de
Coordenação dos Chefes
Executivos da ONU, em que
os diretores das agências
(Unesco, Acnur etc.) se
reúnem duas vezes ao ano
Estrutura que chefia

44 mil

funcionários civis

100 mil

militares (entre tropas,
policiais e observadores)
em 16 operações de
paz pelo mundo

Ban celebrou a escolha.
“Conheço Guterres muito
bem e considero uma super
escolha”, disse a repórteres
em Roma. “Sua experiência
como premiê, seu amplo conhecimento em questões
mundiais e seu intelecto irão
servi-lo bem na liderança da
ONU em um período crucial.”
QUase BrasiLeiro

O ministro das Relações
Exteriores, José Serra, também elogiou Guterres.
Segundo ele, o português
é um dos postulantes mais capacitados ao cargo e, pela
proximidade com o Brasil,
pode ser considerado praticamente um brasileiro.
“É um homem preparadíssimo e terá um papel relevante no mundo na próxima década. E a proximidade dele
com o país é muito grande. E,
para nós, é como se fosse um
brasileiro”, disse Serra.

Guterres faz pronunciamento a jornalistas em lisboa

Após vencer na Colômbia, campanha do ‘não’ vive racha
Porta-voz do movimento contra acordo com Farc diz que estratégia foi ‘deturpar mensagens’; Uribe rebate e fala em argumentos
sylvia colombo
de são paulo

Três dias depois do plebiscito em que o “não” venceu o
“sim”, derrotando o acordo
de paz assinado entre o governo colombiano e as Forças
Armadas Revolucionárias da
Colômbia (Farc), os principais líderes da campanha
contra o pacto passaram a enfrentar uma crise interna.
Um dos porta-vozes do
“não”, o ex-senador Juan Car-

los Vélez, disse ao jornal “La
República” que a estratégia
do Centro Democrático, partido liderado pelo ex-presidente Álvaro Uribe, foi “deturpar mensagens” e “deixar
de explicar os acordos para
para centrar-se em gerar indignação nas pessoas”.
A legenda defendeu que o
acordo fazia demasiadas concessões às Farc (facilitando
anistias e dando acesso direto ao Congresso entre outras
coisas). Com isso, conseguiu

vencer o “sim” com uma margem mínima –de 50,2% a
49,8%, com menos de 60 mil
votos de vantagem.
De acordo com Vélez, “ouvimos uns estrategistas do
Panamá e do Brasil que nos
disseram para basear nossa
mensagem na ideia da impunidade generalizada, na elegibilidade de criminosos, enquanto que, para os estratos
mais baixos, deveríamos insistir na ideia de que o governo daria subsídios aos ex-

guerrilheiros (estava prevista uma “mesada” de 90% de
um salário mínimo por dois
anos). Em cada região usamos uma estratégia. Na costa difundimos a ideia de que
o pacto nos levaria a virar um
país parecido à Venezuela.”
As declarações do uribista
levantaram polêmica dentro
e fora do Centro Democrático. Uribe foi o que advertiu
Vélez em mais alto tom. “Nossa estratégia se fundamentou
em argumentos, em dar a co-

nhecer aos colombianos os
conteúdos do que se assinou
em Havana, e o que ocorreria
se o plebiscito fosse aprovado. Insistimos na ideia de que
era necessário reformar o
acordo”, disse Uribe.
“Nossa campanha sempre
foi pedagógica”, disse o senador Iván Duque, outro estrategista do “não”.
O Centro Democrático também afirmou que não foram
contratados marqueteiros ou
estrategistas estrangeiros.

“Nós não apelamos a mentiras ou a manipulações, apenas em argumentos. Pedimos
às pessoas que se convencessem de que, se aprovassem o
acordo, estariam apoiando
sua incorporação à Constituição”, disse Uribe.
No início da noite desta
quinta (6), a oposição se reuniria para discutir os pontos
do acordo que deseja mudar,
antes de apresentá-los a
membros do governo para
que estes enviem às Farc.