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A16 entrevista da 2ª

HHH

ab

SegundA-FeirA, 10 de OutubrO de 2016

Baron, que
foi retratado
no filme
“Spotlight”

MArtIn BArOn, 61

SYLVIA COLOMBO

ENVIADA ESPECIAL A MEDELLÍN

H
Folha - O sr. diz que os jornais
devem ir aonde o leitor está e
ouvir o que os leitores estão
conversando. Ou seja, devem
ir para as redes sociais. Mas
este não é um ambiente hostil
a um jornalismo que se pretenda imparcial? Como evitar
a polarização desse meio?
Martin Baron - Esse é o

Nascimento: Tampa, Florida
(24.out.1954)
Cargo: editor-executivo
do “The Washington Post”
desde 2012. De 2001 a
2012, editou o “The Boston
Globe” —antes, trabalhou
também no “Miami Herald”,
“Los Angeles Times” e no
“New York Times”
Formação: estudou
jornalismo na Lehigh
University

Sem dúvida. Quando a internet chegou, nós a vimos
só como uma nova maneira
de distribuir nosso trabalho,
mas não pensamos naquilo
como algo que nos atingiria ou de que podíamos nos
apropriar.
Agora, estamos diante de
uma situação inevitável, vivemos numa sociedade que é
digital e mobile, e precisamos
acolher essa mudança com
entusiasmo e esforço, por
mais que sintamos saudades
do antigo modo de trabalhar.

entrevista da 2ª Martin Baron

As pessoas esperam que as
notícias venham até elas

EDITOR DO ‘WASHINGTON POST’ DEFENDE QUE REPORTAGENS
TENHAM CONCLUSõES E QUE ELAS SEJAM DITAS DE FORMA ExPLíCITA

grande desafio do jornalismo
hoje. Muita gente se pergunta
se a imprensa tradicional tem
mesmodedesempenharuma
função numcenáriopolarizado como o das redes sociais.
Principalmente a imprensa
independente, justamente
a que não está aliada nem
com a esquerda, nem com
a direita, nem com nenhum
partido.
Mas eu acho que há um
papel muito importante para
nós dentro das redes sociais,
porque a maioria das pessoas que está lá de fato está
polarizada e buscando fontes
informativas que confirmem
ou estejam alinhadas ao que
pensam. Porém, eu também
acho que muita gente vai às
redes porque quer saber a
verdade e valoriza aqueles
que lhe trazem a verdade,
independente de quem seja
o alvo da cobertura.
Mas o sr. não acha que a imparcialidade tem sido um valor em baixa para quem busca
notícias nas redes sociais?

Em primeiro lugar, não sei
se temos de buscar a imparcialidade primeiro. O prioritário é trazer a verdade e
chegar a uma conclusão. Se
trazemosalgonovoerelevante, não importa se estamos
castigando a esquerda ou a
direita, estaremos cumprindo nosso papel.
Às vezes, a mídia dita plural se importa demais em
contemplar os dois lados de
uma história e eu creio que
isso precisa continuar sendo
feito. Mas, às vezes, isso chega a um ponto em que diminui o impacto da notícia.
Insisto, não estou dizendo
que não há que ouvir os dois
lados, obviamente que sim.

O jornalismo dito tradicional
demorou muito a reagir às
mudanças da era digital?

Francesca Leonardi/Divulgação

O jornalista Martin Baron,
61, disse que colegas de profissão de sua idade ou em
meio de carreira precisam
“passar logo por um período
de luto e olhar para a frente,
porque o jornalismo que eles
conheciam acabou, mas há
vida adiante”.
Para um público composto basicamente de jornalistas
latino-americanos e dos EUA,
Baron abriu, no final de setembro, o Festival Gabo 2016,
promovido pela Fundación
Nuevo Periodismo IberoAmericano, em Medellín.
Em seu discurso, contou
como o jornal que edita, o
“Washington Post”, vem se
adaptando aos novos tempos
—em que o setor da mídia impressa sofre com a queda da
arrecadação publicitária, a
competição com novos meios
digitais e o impacto das redes
sociais.
Baron ficou conhecido do
grande público ao ter sua
passagem pelo “Boston Globe” retratada no filme “Spotlight”, quando sua equipe de
repórteres especiais revelou
um escândalo nacional que
envolvia a Igreja Católica com
pedofilia. O caso abalou as
estruturas da instituição na
época. Já o filme, em que Baron é encarnado pelo ator
Liev Schreiber, ganhou o Oscar neste ano.
O “Washington Post” é
uma das publicações mais
bem-sucedidas no mundo,
tendo passado, em 2015, o
“New York Times” em visitantes únicos mensais nos EUA.
Falando um bom e fluente espanhol, Baron explicou que
hoje seu diário compete de
igual para igual com o NYT,
mas o foco é sair de Washington e das fronteiras dos EUA.
Após a conferência, Baron
concedeu entrevista à Folha.

em que a rapidez passou a
ser uma necessidade mais
urgente para um jornal.
Mas repito, isso não quer
dizer que não estejamos
mais contratando ou que vamos enxugar nossa equipe no
exterior. Creio que são dois
modos de trabalhar a serem
combinados, usando a equipe do “Washington Post” e
essa rede de freelancers, que
está sendo avaliada e recebendo cotações dos editores,
além de receber visibilidade
por seu trabalho.

Vivemos
numa sociedade que
é digital e mobile,
e precisamos acolher
essa mudança
com entusiasmo e
esforço
Os leitores querem
ter mais da
personalidade
de quem lhes
transmite uma
notícia, parece que
sentem aí que
o conteúdo é mais
legítimo

Mas é essencial que, no final,
tenhamos algo a dizer, temos
de chegar a um ponto e indicá-lo de modo mais enfático
do que fazíamos antes.
Temos de desenterrar e
encontrar as evidências, sermos justos na apuração e fiéis
à verdade que revelarmos.
Mas, ao final, temos de chegar a uma conclusão, e essa
conclusão, nesses tempos,
parece-me que tem de ser
apresentada de forma mais
explícita. Os jornais precisam ter uma posição editorial
maisclara com relação acada
cobertura que fazem.
E sobre as redes sociais,
creio que não há que se ter
ilusões. As pessoas nos dias
de hoje já não irão buscar
a notícia na página de um
jornal, elas esperam que as
notícias venham até elas, e
preferencialmente por meio
das redes sociais.
E em que estratégias editoriais e operacionais vocês vêm
apostando?

Em várias frentes. Hoje
temos gente de tecnologia
trabalhando lado a lado com
os jornalistas como algo regular. Temos mais blogs cobrindo áreas bastante especializadas, que vão de ciência
e animais a como criar seus
filhos e outros assuntos.
Também tornamos mais
dinâmica nossa seção de
opinião. Em muitos casos, os
nossos colunistas já não estão mais presos a um dia fixo
de publicação. Se algo ocorre
em suas áreas, pedimos para
que expressem seus pontos

de vista imediatamente.
E mudamos horários na
Redação. Temos muito mais
gente trabalhando desde
muito cedo, temos gente
monitorando as redes todo o tempo, especialmente
durante a madrugada, para
detectar quais tópicos serão
assunto no dia seguinte. E
estamos estudando e aprendendo muito sobre como e
quando postar uma história.
O sr. disse que o “Washington
Post” está armando uma rede
de freelancers, usando jornalistas que ficaram desempregados devido à crise no setor.
Isso aponta para um futuro em
que jornalistas atuarão como
motoristas de Uber, fazendo
trabalhos sob encomenda?

(Risos) É uma forma de ver
a coisa, um pouco pessimista. É verdade que estamos fazendo isso, mas também estamos contratando de acordo
com as nossas necessidades.
Acho que o segredo para nós,
empresas de comunicação,
hoje é sermos mais ágeis nessascontrataçõesforadasede,
principalmente se quisermos
ser um jornal global, como o
“Washington Post” quer.
Primeiro, a rede de freelancers está funcionando bem,
osprofissionaisqueoferecem
bom conteúdo têm sido mais
acionados e têm seu perfil valorizado no mercado, ainda
que só atuem eventualmente.
Por outro lado, estamos
sendo mais rápidos ao identificar onde precisamos contratar gente “full time” e
onde podemos usar recursos

locais. Por exemplo, recentemente, contratamos novos
correspondentes na Europa e
na Turquia, porque o noticiário lá tem exigido.
E há um terceiro recurso
que estamos usando mais
queéusarotrabalhodequem
já mora nos lugares onde precisamos de uma cobertura.
Como funciona na América
Latina?

É um caso claro. Temos
um correspondente que vive
em Cuba (Nick Miroff), mas
também precisamos cobrir
direito a Colômbia, o Brasil.
Então contamos com uma
rede de colaboradores que se
reportam a esse correspondente, e ele viaja quando há
algo importante. Agora, por
exemplo (estávamos a dois
dias do plebiscito pela paz),
Miroff está na Colômbia.
Mas a substituição do olhar do
correspondente pelo jornalista local não muda a essência
do trabalho do correspondente, que é justamente o de ver o
país em questão com o olhar
estrangeiro?

Não vejo isso como um valor tão essencial. Geralmente, os jornalistas locais estão
mais por dentro da situação
de suas comunidades e têm
mais capacidade de reagir de
modo mais imediato a eventos noticiosos. Às vezes, a um
local de difícil acesso, é mais
fácil e seguro usar alguém
que sabe e pode chegar lá
mais rápido.
Portanto, é um modelo
mais eficiente num quadro

O sr. diz ter passado por um
período de luto quando percebeu que os meios tradicionais
de se fazer jornalismo tinham
mudado. Como foi isso?

Eu fiquei muito triste, gostava do jeito de se fazer jornal
antes. Mas, quando cheguei
ao “Washington Post”, em
2012, percebi que a direção
e o ritmo da mudança eram
inexoráveis. Vi que os jornalistas que estavam trabalhando mais com as plataformas
digitais estavam tendo mais
êxito em atrair os leitores do
que os tradicionais. E passei
a estudar o que faziam melhor. Sua narrativa era outra,
seu modo de apresentar as
histórias, seu estilo, seus títulos eram diferentes. Nesse
momento, entendi que todos
tínhamos que mudar, os da
velha geração também.
E do que mais sente nostalgia
do velho jornalismo?

(Risos) Ah, da segurança,
de ter menos competidores,
de ter mais tempo para trabalhar as histórias. Hoje eu
trabalho o tempo todo, estou
sempre ligado. Antes não, era
uma época mais confortável
em vários sentidos.
Do ponto de vista prático,
como vocês estão mudando
o modo de contar histórias?

Estamos buscando fazer
com que os textos sejam mais
acessíveis e abertos à interação. Há, ainda, uma tendência de o público querer ouvir
mais a voz de quem escreve.
Os leitores querem ter mais
da personalidade de quem
lhes transmite uma notícia,
parece que sentem aí que o
conteúdo é mais legítimo.
Estamos tentando enfatizar
mais isso também.
O sr. mencionou que o “Washington Post” vem tendo
problemas com o candidato
republicano.

Sim, sempre somos críticos com todos os candidatos,
e a candidata democrata (Hillary Clinton) parece entender
melhor o papel da imprensa.
Já Donald Trump tem dito
que, se eleito, defenderá o endurecimento das leis de difamação, sugerindo multas,
aumento de impostos e que
nos submeterá a sanções.
Contra nós, sua atitude beira
a ameaça.
Trump acha que o proprietário do jornal, Jeff Bezos,
encomendou uma cobertura
negativa de sua campanha.
Mas nada disso tem sentido,
Bezos não influi em nossa
cobertura. Estamos diante de
um risco de que, se Trump for
eleito, queira se vingar. Mas
aí o enfrentaremos, e com jornalismo.
A jornalista viajou a Medellín a
convite da Fundación Nuevo
Periodismo Iberoamericano