O FUTURO DOS ESTUDOS CULTURAIS1 Valéria Moura Venturella2 Richard Johnson é um teórico cultural inglês que vem dedicando

sua vida aos Estudos Culturais. Antigo diretor do Centre for Contemporary Cultural Studies da Universidade de Birmingham, ele conhece profundamente as pesquisas realizadas na área, especialmente na Europa e mais especificamente na Inglaterra. Desse modo, ele tem tanto o conhecimento como a legitimidade para se posicionar criticamente a respeito do conjunto dos trabalhos realizados nessa área. E sua posição é firme e clara. Em suas publicações e entrevistas, demonstrando grande respeito pela produção já existente nos Estudos Culturais, insiste em expor seus anseios e incentivar mudanças que considera necessárias para o próprio futuro desse campo de estudos. No inspirado ensaio O que é, afinal, estudos culturais?3, Johnson identifica três paradigmas nos quais as pesquisas realizadas na área podem ser enquadradas: os estudos focados na produção cultural; os estudos baseados em textos; e os estudos de culturas vividas. Ao longo do texto, o autor define cada um desses paradigmas, apontando seus pontos fortes e as lacunas ainda existentes. Ao final, ele apresenta uma proposta de integração dos modelos e a razão pela qual essa necessidade se torna cada vez mais imperiosa. O primeiro paradigma, que aborda a cultura pela perspectiva da produção, abarca métodos de trabalho bastante heterogêneos como, entre tantos outros, os produzidos nos campos da publicidade, das relações públicas de grandes organizações, e das disciplinas acadêmicas humanas, tais como sociologia, história das mentalidades e economia política. O que esses trabalhos têm em comum é o ponto de vista de que partem: uma herança da abordagem marxista clássica, a cultura é definida não como resultado da criatividade individual, mas como uma produção social, fruto da organização de uma determinada comunidade. O estudioso inglês reconhece o valor desses estudos, mas aponta duas limitações principais nesse paradigma: o economicismo e o produtivismo. O economicismo é definido como a tendência a negligenciar as especificidades da produção cultural, uma vez que ela é compreendida como sendo apenas uma determinação das relações econômicas
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Texto produzido como pré-requisito para a aprovação na disciplina Literatura e Estudos Culturais, ministrada pela Profa. Dra. Maria Tereza Amodeo no Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Teoria da Literatura da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul de agosto a dezembro de 2009. 2 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Teoria da Literatura da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. 3 Johnson, Richard. O que é, afinal, estudos culturais?. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

estabelecidas no interior do modelo de produção capitalista. Já o produtivismo é a inclinação para inferir o caráter de um produto cultural e de seu uso social a partir de suas condições de produção, como se essas o determinassem totalmente. Essas limitações são consideradas pelo autor não como erros, mas como precipitações, por negligenciarem outras possibilidades, em especial as abrigadas na recepção, ou na “leitura”, dos produtos culturais. Segundo Johnson, o texto como produto é uma categoria diferente do texto como objeto de leitura e a segunda não deve ser absorvida pela primeira. Essa absorção demonstra um estreitamento tanto da noção de texto como da noção de leitores, ou membros da comunidade produtora de cultura. O segundo paradigma para as pesquisas em estudos culturais identificado por Johnson se ocupa principalmente dos produtos culturais, tratados como “textos” que podem ser lidos de maneiras mais ou menos definitivas. Nesse paradigma, assim, o foco se volta para a análise textual dos produtos culturais que faz uso dos instrumentos teóricos e metodológicos das disciplinas acadêmicas das humanidades4. As referências teóricas principais desse modelo de pesquisas são, por um lado, o estruturalismo e a semiologia e, por outro lado, a psicanálise e as abordagens históricas e sociológicas. Segundo o teórico, a análise formal moderna tem foco na organização das subjetividades, permitindo sua descrição e a identificação de suas tendências e pressões. Além disso, essa categoria de estudo permite identificar a narratividade – não apenas romances e filmes, mas a imaginação, as projeções e as conversas do dia-a-dia – como um dos elementos mais importantes da subjetividade individual e coletiva. No entanto, o autor percebe um limite importante nesse escopo teórico: a aversão à abstração associada e certo medo do formalismo. O estudioso inglês lembra que é necessário abstrair os objetos de estudo para descrevê-los cuidadosa e claramente, percebendo e considerando suas variações e combinações. Outro entrave fundamental apontado pelo autor – uma vez que esse paradigma considera os produtos culturais como textos – se refere à definição de texto. Além da tradicional e limitadora demarcação segundo o critério literário5, há outras possibilidades, tais como a combinação tema-temporalidade, ou seja, problemas que se tornam relevantes em um determinado período de tempo. Qualquer que seja a definição de texto adotada, o autor considera essencial reconhecer que o contexto – tanto quanto a forma do texto – é um elemento crucial na produção de significados culturais. Além disso, ele lembra que, em Estudos Culturais, o texto é apenas um meio, pois o objeto próprio dos estudos culturais é a
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Nesse ponto, o autor aponta um paradoxo que percebe no interior das humanidades: embora essas disciplinas tenham à sua disposição uma abundância de instrumentos teóricos e metodológicos, há pouca aplicação prática dos resultados dos estudos realizados. Isso significa uma tendência ao tecnicismo e ao formalismo, sem objetivos transformadores ou participantes na realidade estudada. 5 Aqui, o autor critica o como algumas formas textuais continuam sendo valorizadas em detrimento de outras, especialmente por leitores autorizados e legitimados, tais como críticos e educadores.

vida social das formas subjetivas, que abrangem também as produções textuais. Se a definição de texto é problemática, sua leitura protocolar fundamentada nas abordagens formalista e estruturalista é ainda mais preocupante, segundo Johnson. Para o autor, o formalismo se caracteriza como uma abstração não de formas a partir de textos, mas de textos a partir de outros momentos produtores de cultura. Além disso, as abordagens formalistas – mesmo as de teóricos ocupados da leitura produtiva, desconstrutiva e crítica – consideram o leitor como inativo. E, apesar das diferenças entre essa abordagem e o estruturalismo e o pós-estruturalismo, há um ponto em comum: todas elas se limitam à análise textual formal, e a ela subordinam todo o resto. Ao fazerem isso, negligenciam a organização social maior – que inclui a produção de formas culturais – e também a leitura. Para explicar essas deficiências, Johnson assinala um problema fundamental nas abordagens discutidas: a ausência de uma noção de sujeito e de uma explicação para a gênese das formas subjetivas, que por sua vez se devem à falta de uma teoria da subjetividade. No entanto, ele reconhece que as produções mais recentes em semiótica tentam elaborar uma teoria da produção subjetiva, em que há um insight importante: o de que as narrativas e as imagens implicam sempre uma posição ou posições a partir das quais elas devem ser lidas ou assistidas. Embora o termo "posição" ainda esteja para ser definido com clareza, essa elaboração permite conectar textos e imagens às subjetividades dos leitores ou espectadores. Johnson valoriza também o insight estruturalista e pós-estruturalista de que os sujeitos são fragmentados, contraditórios, nunca acabados, sempre em processo. E, assim, clama por uma explicação “pós-pós-estruturalista” para subjetividade – o sujeito do ato de ler e as tentativas de teorizar a produção resultante da leitura – que abarque esse insight, e que envolva a noção de autoprodução discursiva dos sujeitos, especialmente na forma de histórias e memórias que lhes permitam produzir coerência e continuidade e, assim, exercitar controle sobre seus sentimentos, condições e destinos. O autor ressalva, no entanto, que o modelo de análise resultante desses estudos deve incluir os instrumentos já consagrados, tais como a reconstrução dos temas manifestos e latentes nos textos, seus momentos denotativos e conotativos, sua problemática ideológica e suas pressuposições limitantes, suas estratégias metafóricas e linguísticas. A ideia subjacente à sugestão do autor não é excludente, mas repousa na necessidade de complementaridade entre o formal e o real. O terceiro paradigma para as pesquisas em estudos culturais apresentados no ensaio refere-se às chamadas culturas vividas. O foco desse modelo é a compreensão das instâncias culturais concretas e privadas, ou seja, da vivência diária da cultura por pessoas reais. As pesquisas realizadas segundo esse paradigma têm dois objetivos principais: o

primeiro é conhecer produções culturais que em geral não têm visibilidade na esfera pública ou, quando têm, são vistas de modo abstraído ou transformado; o segundo é compreender, reconstruir e representar esses conjuntos complexos de produtos culturais discursivos e não discursivos tais como eles aparecem na vida de grupos sociais particulares. Além desses propósitos, há também o intuito de tentar conectar as culturas vividas às formas culturais públicas. Em geral, os estudos desse último tipo se voltam para a apropriação de elementos da cultura de massa pelos membros de determinada comunidade, que os transformam de acordo com suas lógicas culturais. Segundo o teórico, o esforço principal desse tipo de pesquisa, além de criticar concepções dominantes de cultura, é representar culturas vividas – especialmente das classes trabalhadoras, mas também de grupos minoritários de etnia e gênero – como estilos autênticos de vida e defendê-las do desprezo e da condescendência de que elas geralmente são alvo. Para a validação de estudos desse tipo, afirma Johnson, a primeira condição é o reconhecimento das diferenças culturais, e o extremo cuidado com preconceitos, especialmente nas relações sociais em que poder, dependência e desigualdade estão em jogo. A segunda condição é certa autocrítica cultural, indispensável para evitar expressões rústicas de ideologia. Para representar e defender as culturas subordinadas estudadas, os pesquisadores desse modelo em geral fazem uso de métodos etnográficos que buscam representar uma parcela não-mediada das práticas populares autênticas, identificando e explorando as ligações entre seus aspectos subjetivo e objetivo, ou seja, os pesquisadores procuram observar e compreender a “experiência”. Johnson apresenta então as dificuldades inerentes a essa moldura teórica. A primeira, de ordem metodológica, é que o pesquisador, em geral, é um intruso nas manifestações culturais espontâneas, o que faz com que sua simples presença acabe por modificar o contexto e as próprias produções. A segunda, de ordem ideológica, é a tendência de apresentar as culturas vividas em termos de sua homogeneidade e distinção em relação às demais. Assim, a verdadeira complexidade dessas manifestações resulta por não ser reconhecida. A terceira, de ordem teórica, é o que ele qualifica como um divórcio entre estudos concretos e análises formais, que culminam em uma certa falta de consistência na análise linguística dos trabalhos etnográficos. O autor lembra que as primeiras pesquisas desse tipo, ocorridas em meados do século XX, tiveram o mérito de estabelecer novos padrões de relações entre os sujeitos e os objetos de pesquisa, especialmente em relações de classe. No entanto, como os fundamentos das relações sociais não mudaram muito desde então, os estudos acabaram por permanecer ancorados em velhos padrões que tendem a patologizar as culturas subordinadas e a normalizar as manifestações dominantes6.
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A contundente crítica do autor à maior parte das pesquisas de culturas vividas já realizadas é que

É importante ressaltar, no entanto, que o autor considera que, apesar de suas limitações, esse paradigma para os Estudos Culturais guarda enorme valor, tanto no ponto de vista intelectual quanto na perspectiva política. Segundo Johnson, essa classificação das pesquisas em Estudos Culturais em três paradigmas – assim como cada um dos modelos descritos – encerra aspectos negativos e positivos. Se, por um lado a classificação é restritiva, o que pode inibir sua compreensão e a do contexto social e histórico mais amplo, por outro lado ela permite identificar a racionalidade e a ideologia específicas de cada um deles. Os estudos focados na produção, geralmente realizados ou patrocinados por reformistas institucionais ou por grupos políticos mais radicais, se esforçam para controlar e para transformar os meios mais poderosos de produção cultural, ao mesmo tempo em que buscam uma estratégia contra-hegemônica. Os estudos baseados em textos, por sua vez, são desenvolvidos por practitioners de vanguarda, críticos e professores, e se ocupam de práticas culturais transformadoras. Já os estudos de culturas vividas defendem os estilos de vida de grupos sociais subordinados, criticando as formas culturais públicas dominantes e muitas vezes ambicionando tornar hegemônicas essas culturas que são geralmente silenciadas e estigmatizadas. Cada um desses paradigmas tem validade limitada a seu escopo de pesquisa, e é inadequado para abordar o todo. Por outro lado, o autor ressalta que, uma vez que há incompatibilidades teóricas entre os modelos, não é possível simplesmente reuni-los em um grande paradigma. Também não seria válido usar um ou outro conforme as necessidades do contexto, o que seria uma solução simplista para a divisão. Ele sugere então que cada um dos três modelos seja repensado e complementado à luz dos demais, com a transposição e a adequação de objetos e métodos de estudo. Como ressalva metodológica, Johnson lembra que embora os modelos sejam separáveis, eles não são totalmente impenetráveis. Assim, nessa empreitada de complementaridade, é importante buscar as conexões internas e as identidades reais existentes entre eles. Desse modo, os estudos focados na produção devem atentar às especificidades da produção cultural, além de incluir uma variedade maior de materiais discursivos, pertencentes a conjunturas políticas e sociais mais amplas, e de desenvolver estudos conectados a perspectivas de leitura. Já os estudos baseados em texto, em primeiro lugar, necessitam buscar o processo de produção dos textos, e passar a concebê-los como “representações de representações", o que, longe de ser apenas um exercício acadêmico vazio, estabelece a relevância dos textos para as comunidades que os produzem e leem. Além disso, as formas existentes de análise textual devem ser adaptadas, para tornar a leitura formal de um texto mais aberta e
elas parecem auxiliar apenas na construção das reputações acadêmicas dos pesquisadores, pouco fazendo para melhoras as condições de vida das comunidades estudadas.

multifacetada. Ainda, as análises devem abandonar tanto a leitura avaliativa quanto a aspiração de tornar a análise de texto em uma ciência objetiva, pois essas duas perspectivas se afastam dos contextos culturais amplos e de outras leituras possíveis. Por último, os estudos de culturas vividas devem passar a considerar, no seio de uma mesma comunidade, a multiplicidadede de estruturas textuais e de formas particulares de organização discursiva, e também necessitam reconhecer e considerar o que distingue as formas culturais privadas das públicas. As mudanças em cada um dos modelos, necessariamente, gerarão efeitos sobre os demais, o que Johnson considera positivo, uma vez que essas modificações tenderão a aproximar as abordagens existentes, permitindo o diálogo entre elas, com resultados positivos não apenas em termos teóricos e metodológicos, mas também políticos. Segundo o autor, as teorias e as ideologias ou se apartam ou se entrelaçam. O mesmo ocorre com os teóricos que as levam adiante. O estabelecimento de alianças políticas que permitam os futuros desenvolvimentos dos Estudos Culturais de pendem dos esforços de aproximação dos paradigmas de pesquisa, e dos pesquisadores também.

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