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Os novos d es afios  d e int egração d o M ercosul 

M árcio Vasconcelos  www.editoraferreira.com.br 

A formação do Mercado Comum do Sul (Mercosul) surgiu da conjugação de circunstâncias  políticas  e  econômicas  do  contexto  interno  e  externo  que conduziram à  aproximação geopolítica  entre  o Brasil  e a  Argentina.  Essa  aproximação  redirecionou as  relações  entre esses  países, até  então caracterizada pela tradição de rivalidade.  As  condições  prévias  para  a  formação  do  bloco  econômico  no  Cone  Sul  foram:  a  redemocratização da  Argentina  em 1983  e  do Brasil em 1984, no aspecto político;  e  no aspecto  econômico,  as  pressões  internacionais  do  neoliberalismo  e  da  globalização  na  implantação  de  medidas de abertura de mercado.  O Mercosul foi projetado para ter a missão de funcionar como instrumento de adaptação ao  novo  ambiente  econômico  internacional  e,  simultaneamente,  atrair  investimentos  externos  interessados na ampliação da abertura dos mercados internos dos membros nas áreas industriais  e de prestação de serviços.  Sendo assim, percebe­se que o perfil institucional do Mercosul está direcionado à intenção  econômica  dos  seus  países  membros  e  associados,  não  havendo  a  chamada  soberania  compartilhada, como acontece na União Européia.  No  processo  de  evolução  do  Mercado  Comum  do  Sul,  um  dos  maiores  problemas  enfrentados foram as desigualdades estruturais entre os setores de produção de seus membros e  associados.  Problemas  estes,  como a  superioridade  competitiva  de  alguns  setores produtivos  de  certos países sobre os outros, criando assim desequilíbrios comerciais. É o caso, por exemplo, da  pecuária argentina sobre a brasileira ou mesmo a maior diversificação e superioridade tecnológica  do parque industrial brasileiro sobre os demais países do Mercosul.  Já  no  campo  econômico,  diferentes  direcionamentos  cambiais  causaram,  no  final  da  década de 90, desequilíbrios comerciais que podem ser percebidos até hoje. Desde 1999, o Brasil  adotou  o  câmbio  flutuante  em  relação  ao  dólar  enquanto  a  Argentina,  até  2002,  mantinha  o  câmbio  fixo  que  igualava  o  peso  argentino  ao  dólar.  Como  o  real  desvalorizou,  os  produtos  brasileiros  destinados  à  exportação  tornaram­se  mais  atraentes  no  mercado  internacional.  Com  isso  acabou  criando­se  um  desequilíbrio  comercial  entre  Brasil  e  Argentina  que  prejudicou  a  balança comercial da Argentina.  Esses direcionamentos cambiais diferenciados fizeram com que os valores entre as moedas  fossem relativos  e  acabaram provocando  instabilidade comercial.  Com  isso,  foram constantes  as  medidas  protecionistas  de  ambos  os  lados  provocando  um  retrocesso  no  desenvolvimento  do  bloco. 1 

A entrada da Venezuela, em fevereiro de 2006, como país membro fortaleceu o bloco, pois  ela  representa,  em  primeiro  lugar,  uma  potência  energética,  possuindo  a  maior  reserva  de  petróleo  e  gás  natural  da  América  do  Sul  e,  além  disso,  a  Venezuela  está  estrategicamente  próxima dos países da América Central, México e  EUA. De  acordo  com  o Ministério das  Relações  Exteriores, com a adesão formal da Venezuela ao Mercosul como país membro, o bloco passou a  ter,  aproximadamente,  260  milhões  de  habitantes,  numa  área  de  12,7  milhões  de  quilômetros  quadrados e um produto interno bruto (PIB) de cerca de US$ 1 trilhão.  Outro ponto positivo consiste  em observar  que,  mesmo antes  da  adesão,  a  Venezuela  já  vinha num crescente processo de integração econômica com o Brasil, tornando­se assim um dos  principais importadores individuais de serviços e produtos brasileiros.  Porém, observando­se alguns preceitos como a obrigatoriedade de se manter a democracia  como elemento político essencial dos países membros do bloco, conforme estipulado pelo Tratado  de  Assunção,  de  1991,  e  o  compromisso  de  expansão  e  integração  capitalista  baseado  no  desenvolvimento comum e na inserção conjunta na economia internacional, podem chocar­se com  uma possível posição excessivamente nacionalista ou autoritária do presidente venezuelano Hugo  Chaves.  Outro  desafio  de  integração  vivido  pelo  Mercosul  está  ligado  à  crise  entre  o  Brasil  e  a  Bolívia, iniciada em março último, quando o exército boliviano ocupou as refinarias da Petrobrás e  anunciou que não cumpriria mais os contratos de concessão de exploração e refino de petróleo e  gás natural, nacionalizando assim as instalações construídas pela estatal brasileira.  De  acordo  com  a  Petrobrás,  foram  investidos  na  Bolívia  cerca  de  US$  1  bilhão  em  equipamentos para o refino e a extração de petróleo e gás natural, este incluindo a construção do  gasoduto Brasil­Bolívia para atender ao mercado interno brasileiro.  Dentre as diversas declarações do presidente boliviano, Evo Morales, efetuadas nos últimos  meses,  fica  claro  que  o  governo  da  Bolívia  pretende  colocar  a  Petrobrás  numa  posição  subordinada à empresa estatal Yacimentos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) em relação aos  valores de comercialização, quantidades e destino do gás natural e do petróleo produzido.  Empresários  espanhóis  divulgaram  recentemente  que  o  baixo  crescimento  do  Brasil,  estimado para 2,97% em 2006, acaba prejudicando os investimentos no Mercosul como um todo.  Esses  baixos  índices  causados  principalmente  pelas  altas  taxas  de  juros  e  pela  pesada  carga  tributária  fazem  com  que  o  Mercosul  perca  competitividade  na  recepção  de  investimentos  externos  para  outros  mercados,  como  o  asiático,  onde  a  taxa  de  crescimento  desse  ano  está  prevista para 8% na China.  As empresas espanholas investiram cerca de R$ 300 bilhões em toda a América Latina nos  últimos  10  anos  nos  setores  de  telecomunicações,  sistema  bancário  e  energético.  A  previsão  é  que haja, até 2010, mais R$ 20 bilhões em investimento. Porém, o Brasil, assim como os demais

países  do  Mercosul,  precisa  investir  em  reformas  no  sistema  tributário,  na  infra­estrutura  e  na  tecnologia.  A  carência  de  infra­estrutura  no  Brasil,  que  representa  cerca  de  70%  do  PIB  de  todo  o  bloco  econômico,  está  ligada  à questão  energética  e  dos  transportes. Um  levantamento  recente  feito  pela  empresa  Infoamérica  Transportation  e  logistics  Pratice  divulgada  no  Fórum  Latin  Ásia 

Business  2006,  realizado  em  Cingapura,  revela  que  a  falta  de  investimentos  no  setor  de 
transportes  nos  últimos  15  anos  fez  com  que  o  atual  crescimento  de  exportações  colocasse  o  sistema de transportes existente no seu limite operacional.  Márcio  Stewart,  coordenador  do  estudo,  frisou  ainda  que,  por  exemplo,  os  sistemas  ferroviários  dos  países  do  Mercosul  são  voltados  para  atender  as  necessidades  da  Europa  e  da  América  do  Norte,  ou  seja,  na  maioria  dos  casos,  partindo  dos  locais  de  produção  ligando  aos  portos de exportação, sendo assim, ainda não existe um sistema eficiente de integração regional  que possa beneficiar a circulação de mercadorias no interior do bloco.  No  último  encontro  da  cúpula  Ibero­Americana,  realizada  em  Montevideo,  no  início  de  novembro,  a  crise  diplomática  entre  Uruguai  e  Argentina  roubou  a  cena  da  reunião.  O  governo  argentino  divulgou  uma  nota  condenando  a  autorização  do  governo  uruguaio  para  empresa  finlandesa  Botnia  construir  uma  fábrica  de  celulose  na  cidade  de  Colon,  nas  margens  do  Rio  Uruguai.  O  governo argentino, atendendo  às  pressões dos moradores  da  cidade  de  Gualeguaychu ,  na  margem  Argentina  do  rio,  afirma que  a  fábrica irá poluir  o  rio  que  divide os dois  países. Por  enquanto, o problema permanece sem que haja diálogo entre os presidentes Tabaré Vázquez, do  Uruguai, e Nestor Kirchnem, da Argentina. 

M árc io  Vasco ncelos  p ro f_m arciovasco ncelos@yahoo .c om .b r