Umuarama

,

wdomingo, 9 de maio de 2010

15

Corpo Desacostumado
As barracas de coquetéis encontravam-se elegantes na rua central da cidade, cada qual com sua habilidade culinária e especialidades artísticas em exposição. A banda contratada pela prefeitura era composta pelos próprios moradores do bairro, alguns adultos, adolescentes, e crianças, adornados com uma farda, típica, na cor branca, com detalhes em azul marinho, e botões dourado, com seus instrumentos, cantarolando, num som grave e perdido. Amiúde, notam-se pessoas se embriagando com as bebidas do ponche, e se empanzinando com os aperitivos ofertados. Pelos cantos, próximos aos cedros-da-várzea vêem-se grupos de jovens murmurando palavras, e trocando risos entre si; crianças discutindo pelos balões coloridos que um senhor de barbas longas e brancas os vende junto a um palco, cujo espaço do gramado vazio, defronte o tablado, encontra-se repleto de cadeiras alinhadas em fileiras. A fanfarra começou a se organizar para uma última apresentação, ajeitando os trajes, afinando os instrumentos, em meio a um calor avassalador, fazendo com que as pessoas se dispusessem ao redor dela, nas calçadas, espichando as pontas dos pés, para conseguirem ver tal acontecimento. Algumas crianças nos ombros de seus pais, inquietas, com os dedos nas bocas, ou com suas fraldas, chupetas, bonecas, carrinhos. Algumas, mais afortunadas, estavam logo na frente, de mãos dadas com seus pais ou parentes (conhecidos) à espera da apresentação, antes do pronunciamento do novo prefeito. Benjamim passava por ali, por coincidência encontrou alguns de seus antigos companheiros, e acabou permanecendo mais tempo do que previra. Embora esse tipo de conglomeração o aterrorizasse, o carinho que tinha por seus amigos, respeito e consideração, fêlo estabelecer-se, e suscitar indagações a respeito deste tal pronunciamento que iria vir a ocorrer no local. - Patuscada! Patuscada! - Ora, chega de gritos, Afonso! – exclamou Benjamim, tentando fazê-lo aquietar diante a multidão. Mas, como o bem conhecia, Afonso era dotado desta hiperatividade única, mescla de exacerbação com inocência. - Benjamim! Deixe-o divertir-se. Sua madrasta nunca lhe deu festas de aniversário! Quer que lhe dê um destes balões, Afonsinho? Escolha uma cor, mas não vá arranjar briga com as crianças! (risos) - Arre! Calados! – disse Afonso, envergonhado, endireitando a gravata, e dispersando seu olhar dos balões– Olhem! Olhem! Todos enrijeceram, arregalando os olhos para ver o que seria essa última apresentação tão divulgada pelo prefeito e tão aguardada pelos convivas. - Pouco me importa essa coisa toda! Adeus amigos... – Benjamim, deixou seu copo de ponche com Afonso, e virando o rosto para continuar pelo caminho oposto, pode notar, assombrado, a presença de uma bela moça, na frente da banda, cantando uma canção, com um vestido vermelho, fascinante. “Conhecem essa moça?!”, era só o que se ouvia, todos cochichando aqui e acolá, os murmúrios foram tantos que pouco se ouvia da banda. - A-dé-lia? - Benjamim a conhece! Benjamim a conhece! – gritou Afonso, ironizando.
Por Caroline Guimarães Gil

PARTE VI

Foto por Thiago Casoni

manhê
Por Ângela russi Quando meus filhos eram pequenos brincava com eles dizendo que se a cada vez que eles falassem a palavra mãe eu ganhasse dez centavos logo seria milionária. Muitas vezes eles estavam em um cômodo da casa e eu estava em outro, nem queriam nada, só me chamavam para ouvir-me respondendo: ”tô aqui”, e diziam: ”só queria saber onde você estava.” Nesse segundo domingo de maio não há como não falar sobre a dona do dia. Ela que é a presença mais marcante na vida de todo o ser humano mesmo que nunca tenha marcado presença. Mesmo ausente tem o papel mais importante na vida daquele que gerou. Como não falar da mãe hoje? Palavra que é substantivo, porém é cheia de adjetivos. Todos nós, se questionados, teríamos um episódio para contar em que nossa progenitora, ou de alguém que conhecemos, foi o foco central da situação. Episódios bons e ruins fazem parte desse relacionamento regado com amor exagerado e, infelizmente para muitos, com carência de amor. Algumas dessas histórias ficaram registradas em mim. Assisti a um jogo de futebol amador em um clube aqui da cidade em que um jogador foi expulso por partir para cima de outro com violência. Motivo? O jogador a quem agrediu havia xingado sua mãe. Ele saiu de campo seguro por amigos e dizendo: “pode me xingar, mas, a minha mãe, não!” Conheço uma filha dada para adoção aos 11 meses de idade que na adolescência, incansavelmente, procurou sua mãe para olhar pelo menos em seus olhos e reconhecer-se neles. Chegou ao limite de procurá-la em prostíbulos. Quando descobriu seu paradeiro, a mãe já havia falecido. Lembro-me de uma vizinha que no dia das mães estava no hospital já em estado terminal, recebeu rosas vermelhas das filhas.

!

Sinal de amor eterno e da falta que elas imaginavam que ela faria. A certeza da falta viria somente após a perda e a saudade. E veio. Meus filhos, quando crianças queriam me comprar um presente com seu próprio dinheiro e para isso juntaram lacres de latinhas de Coca-Cola, havia uma promoção que os trocavam por brindes na época, e venderam para amiguinhos e como o dinheiro era pouco me levaram para tomar sorvete. Histórias todos nós temos com a mulher de nossa vida. Boas ou não tão boas, são nossas e guardam em si um sentimento de pertença, de raiz, de identidade. Falar de mãe é mexer o mais profundamente possível no emocional da gente. Quem a tem por perto, independentemente de proximidade física, é privilegiado. Quem não a tem, por falecimento ou incompatibilidade de gênios, é um órfão. Mesmo órfão carregamos em nós o jeito dela de ser. Gestos e ações nossos, inconscientemente, são feitos conforme ela nos orientou ou apenas por termos observado os gestos e ações dela. Na adolescência só queremos ser diferentes dela, na maturidade precisamos reconhecer que somos muito parecidas. Eu sempre choro quando ouço aquela música antiga que diz: “mãe é uma só que temos no mundo”. Sei da falta que ela faz quando vai para o outro mundo onde não dá para chamar e nem ouvir um “tô aqui”. É um cômodo acima do que estamos. É tão gostoso poder dizer “minha mãe”. Falar que está indo na casa da mãe. Essa é a maior falta que sinto da minha. Poder chamá-la em voz alta: ”manhê.” Só chamar para ouví-la dizer: “tô aqui.” Como quando estamos em um cômodo da casa e ela em outro, só para saber que está por perto. Como também sou mãe enxugo as lágrimas e espero o melhor dos abraços e o mais saboroso dos beijos que uma mãe pode desejar. O presente vem e já não é resultado de lacres de CocaCola. Ah, que saudade!

Sentei-me aqui hoje, nesta cadeira, neste bar bonito. Sou velha. Não sou idosa, não sou anciã, senil, não senhora, não sou vovó. Sou velha. Minha pele é... Desnecessariamente sutil. Caluniosamente calma. (Rio três vezes e suspiro. Digo “ai” em nome do tornozelo. Bati na cadeira. Roxo. Três dias some). Sou uma senhora que se sentou neste bar bonito, e, passarinha perdida, beberico água que passarinho não bebe, até que minhas pernas agüentem. Só isso, por ventura, apenas. Meu marido joga bocha no bosque, velho como eu. Vivemos conforme a meiguice da previdência. A última vez que entrei num bar foi pra agradar um homem que vivia se emperiquitando pra mim. Bebemos os dois, até que o bar fechasse. Uma vez as portas encadeadas, andamos pelas praças desertas da cidade. Tinha corujas e solidão. Eu olhava pra ele, ele olhava pra mim. Caí no meio-fio, desdourada, mas cansada demais pra levantar. Ele fingiu que caiu também, tão idiota e luxuoso. Amar é coisa fina. Mas na solidão a dois, perfídia é quase que constitucional. “Tenho marido e estou caída na calçada como uma puta”, pensei. Mas no fundo, meu velho estava caído no colchão, como um puto. Lembrei imediatamente dos meus filhos, dos meus netos. Como fui barata, mas como fui leal naquela baratice. Chega um momento da vida, em que bordados, leite quente, banhos da tarde e presilhas no cabelo são mais baixos do que qualquer atitude aparentemente desprezível. Mas eu era uma mulher, uma mulher que estava envelhecendo, cuja pele ia se desfigurando, cujo desejo ia morrendo como caga-fogos no sol. Não sei mais correr. Mas ele era um homem. É melhor desaprender as coisas antes de não conseguir mais fazê-las. Zênite e equinócio nesta semana. Ual. Inacreditável. Excitação. Quem diria! Compro açucenas. Facilmente adoráveis. Vesti meu baby-doll e deitei-me sobre o meu velho quando cheguei em casa. Tal como correr, nós desaprendemos a fazer amor. Deitamonos um sobre o outro, tranqüilos, com a paz escorrendo feito um mel morno. Eu suspiro no seu peito, deito minha cabeça branca nos pêlos dele, sobre as costelas fracas que ameaçam quebrar quando o coração bate mais forte, se o coração bater mais forte. Ele gosta. Brancos. Ele sorri, eu também. Eu gosto. É tudo o que temos neste mundo: nosso dormitório e nós mesmos trancados nele, como se tudo lá fora fosse grande demais pra nós dois. Sobrevivemos ao fim com tamanha pachorra que chegamos a ser petulantes para com a nossa extinção. “Um dia iremos morrer”, sussurrei no escuro. “Grande coisa”, disse ele, respirando com calma. A essa altura, morrer não é importante, mas sim o que se faz antes. (Açucenas? Vivem muito?) Aproveitamos das horas, elas nunca acabam como o tempo (O suficiente pra não enjoar de açucenas). Uso perfume de moça, porque não me cheiram apenas os narizes decrépitos. Perfume forte, que gruda na roupa e só sai depois

MeMória do aMor velho
Por Jair Junior Monteiro Solin

de duas lavadas. Gosto assim. Amo assim. Sou romântica, vivo no mundo estético, e nunca aritmético ou estático. Que me importa não estar na coisa? Aos meus 20 anos a realidade era passível de alguns temperos a mais, como páprica, sacarose e gliter. Com 30 anos engoli a realidade como um manjar. Aos 75, ela fede. Quero mais é esmero, venha ele de alguma cabeça atrevida de ficcionista, ou de um fenômeno orgânico. Seja essa perfeição imperfeita, ou apenas próspera. Uma vez, minha irmã estava voltando pra casa de noite, olhou pro céu e viu uma lua nova. Começou a perceber que a lua a acompanhava. Correu e a lua a perseguia. Chegou em casa chorando de medo. Bobinha mas dava mais do que chuchu na rama. (Dependendo do híbrido, as folhas podem desaparecer durante o inverno). Não faço leilão do meu vazio. Meu vazio não tem preço, e ele só enfeita as paredes da minha alma, quando ela tem as pálpebras mais atraentes e sensacionalistas do que a mais bela imagem. Demoro um mês para comer uma caixa de bombom. Sou viciada em leite com café na xícara e coca-cola. Quebro xícaras sem dó. Xícara é xícara. Terei osteoporose em um ano. Pari oito filhos. Estou frouxa, quase malamada. Amores? Alguns fracassados, outros obrigatórios, uns completos, outros analgésicos. Porque nem tudo são flores. Cresceram, se foram. Ficou eu e meu útero afrouxado pela luz. É lindo ser mãe. Mas não é tão bom ser mãe só. A gente se sente esquecida pela própria continuação. Quando eu me casei ainda chupava chupeta: fazia amor e depois desescondia a chupeta de dentro do travesseiro, quando Alfredo já sonhava com sei lá o quê e não poderia me flagrar. No meio da noite tornava a ocultá-la no travesseiro, para acordá-lo com apaixonados beijos de bom-dia. O marido ou a praça despovoada? Vou terminar esse copo de cachaça, e vou tornar a me deitar ao lado dele. Sou feliz. Verduras boas na banca e amor duvidoso no prato amanhã. Boa noite, sujeito. Se alguém te espera, vai pra casa também.