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Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba

A RELEVÂNCIA DA PREGAÇÃO EXPOSITIVA


E CRISTOCÊNTRICA NO MINISTÉRIO PASTORAL

Por
DIONATAN CARDOSO
São José dos Campos – SP
2007
2

CENTRO DE ESTUDOS TEOLÓGICOS


DO VALE DO PRAÍBA

TRABALHO DE GRADUAÇÃO
2007

Título: A Relevância da Pregação Expositiva e Cristocêntrica no Ministério Pastoral


Aluno: Dionatan Cardoso
Orientador: Pr. Emerson S. Pereira
Co-orientador: Profa. Ana Lúcia da Cruz Costa

Examinadores:

____________________________________________________
Pr. Emerson S. Pereira

____________________________________________________
Pr. Samuel Mendes Dutra

São José dos Campos – SP


2007
3

AGRADECIMENTOS

Agradeço ao Santíssimo e Triúno Deus a oportunidade e o grande privilégio, em graça


e misericórdia, de ser vocacionado para o ministério pastoral, e poder concluir
satisfatoriamente esta pesquisa.

À Igreja Cristã Evangélica de São José dos Campos, que durante todo o período de
seminário me apoiou, financeira e espiritualmente, bem como a MEAR-VP (Mesa Executiva
e Administrativa Regional – Vale do Paraíba), que também me sustentou com parte do custo
estudantil, durante todo o curso. Aos pastores, João Arantes Costa, mentor amado, a quem
devo muito, e estimo por sua vida e obra ministerial, e a Emerson S. Pereira, meu conselheiro,
tutor, irmão e amigo; e as suas respectivas esposas, Nilza e Noemi. À Profa. Ana Lúcia da
Cruz Costa, mulher sábia e virtuosa, que disponibilizou tempo para ajudar-me nas correções.

Aos demais professores do CETEVAP, que me acompanharam nestes anos de estudos


e formação acadêmica, em especial nosso querido Pr. Silas Arbolato, que hoje descansa com o
Senhor na glória.

Por fim, a toda família Lima, Vantoil, Cleide, Vantoil Jr., Ralph e Stella, que
dedicaram, em amor, suas vidas para me abençoar; e ao Presb. Josué do Amaral Lara e sua
esposa Lia Cândida de Lara, servos incansáveis do Senhor.
4

DEDICATÓRIA

Dedico esta monografia...

Ao meu Deus e Senhor Jesus, razão maior de minha vida.

À minha mãe, D. Dione Cardoso, que sempre me ensinou a confiar no Deus Todo-
Poderoso em todos os momentos da vida. D. Dione, sem dúvida alguma a senhora é a melhor
mãe do mundo! Merecedora de todo meu amor!

Às minhas irmãs, Deila e Daila, que através de suas vidas, me ensinaram a ter
empenho e com isso vencer as lutas diárias. Acreditem, amo vocês como as melhores irmãs
desse mundo!

Aos meus avós maternos, Moisés Martins Cardoso, que me ensinou a amar Cristo, e
por amor me fez o que sou hoje, e que já descansa com Senhor na glória eterna; e à viúva
Maria Antonia Cardoso, que mesmo não tendo tanta instrução na escola, soube criar 11 filhos
sem murmurar.

À minha amada noiva, Iara Ferreira Dourando, mulher virtuosa, que Deus permitiu
que eu encontrasse, que me acompanhará no ministério, e a quem dedico meu amor.

Finalmente, a todos aqueles que amam a Igreja do Senhor e o Senhor da Igreja, e


querem vê-la a cada dia mais pura e mais parecida com Cristo Jesus. Sejam Firmes!
“Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do
Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão.” (1Co 15.58).
5

EPÍGRAFE

“E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu
respeito [a respeito de Cristo] constava em todas as Escrituras.” (Lc 24.27).

“A verdadeira pregação cristã precisa centralizar-se na cruz de Jesus Cristo. A cruz é a


doutrina central dos santos escritos. Todas as outras verdades reveladas, ou encontram seu
cumprimento na cruz, ou são necessariamente fundamentadas sobre ela. Portanto, nenhuma
doutrina da Escritura pode fielmente ser apresentada aos homens a menos que se torne
manifesto o seu relacionamento com a cruz. Aquele que é vocacionado para pregar, portanto,
deve pregar a Cristo, pois nenhuma outra mensagem há que proceda de Deus.”
(JONES apud CHAPELL, 2002, p. 294).
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LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS

APUD = Citado por


NVI = Nova Versão Internacional
Cf. = Conforme; compare
GC = Grego Clássico
AT = Antigo Testamento
NT = Novo Testamento
FCD = Focalização da Condição Decaída
NDB = Novo Dicionário da Bíblia
BLH = Bíblia na Linguagem de Hoje
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LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Exposição Cristocêntrica (Pg. 41)


Figura 2: Perspectiva da Pregação (Pg. 63)
8

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ......................................................................................................................................... 11
1 A NATUREZA DA PREGAÇÃO EXPOSITIVA E CRISTOCÊNTRICA ..................... 13
1.1 Pregação ........................................................................................................................ 13
1.1.1 Breve Exegese .......................................................................................................... 13
1.1.2 Conceito Bíblico ....................................................................................................... 15
1.1.2.1 A Autoridade da Pregação .............................................................................. 16
1.1.2.2 O Poder da Pregação ...................................................................................... 17
1.1.2.3 A Ação do Espírito Santo ................................................................................ 18
1.1.2.4 O Propósito da Pregação ................................................................................ 18
1.1.3 Tipos de Pregação ..................................................................................................... 19
1.1.3.1 Tópica .............................................................................................................. 19
1.1.3.2 Textual ............................................................................................................. 20
1.1.3.3 Expositiva ........................................................................................................ 20

1.2 Pregação Expositiva ..................................................................................................... 21


1.2.1 Princípios .................................................................................................................. 21
1.2.1.1 Prioridade Textual........................................................................................... 21
1.2.1.2 Eficácia do Testemunho .................................................................................. 22
1.2.1.3 Autoridade Divina ........................................................................................... 22
1.2.2 Exemplos Bíblicos .................................................................................................... 23
1.2.2.1 Jesus ................................................................................................................ 23
1.2.2.2 Estêvão ............................................................................................................ 24
1.2.2.3 Pedro ............................................................................................................... 24
1.2.2.4 Paulo................................................................................................................ 25
1.2.3 Exemplos Históricos ................................................................................................. 26
1.2.3.1 Patrísticos ........................................................................................................ 26
1.2.3.2 Reformadores .................................................................................................. 27
1.2.3.3 Puritanos ......................................................................................................... 29
1.2.4 Processo e Estrutura ................................................................................................. 31
1.2.4.1 Escolha do Texto ............................................................................................. 31
1.2.4.2 Exegese Prática ............................................................................................... 31
1.2.4.3 Hermenêutica Prática...................................................................................... 33
1.2.4.4 Desenvolvimento .............................................................................................. 33
1.2.4.5 Estrutura .......................................................................................................... 34
1.3 Pregação Cristocêntrica ............................................................................................... 36
1.3.1 O que é ...................................................................................................................... 37
1.3.2 O que não é ............................................................................................................... 37
1.3.3 Por Que Pregação Cristocêntrica .............................................................................. 38
1.3.4 Teologia Cristocêntrica............................................................................................. 38
1.3.4.1 Cristo Atemporal ............................................................................................. 39
1.3.4.2 Cristo e Sua Tipologia ..................................................................................... 39
1.3.4.3 Cristo e a Mensagem Redentora ..................................................................... 40

2 A RESPONSABILIDADE DO MENSAGEIRO COM A PREGAÇÃO


EXPOSITIVA E CRISTOCÊNTRICA ..................................................................................... 41
2.1 Fidelidade à Identidade ................................................................................................ 41
2.1.1 Arauto ....................................................................................................................... 41
9

2.1.2 Embaixador............................................................................................................... 43
2.1.3 Despenseiro .............................................................................................................. 43
2.1.4 Intérprete................................................................................................................... 44
2.1.5 Expositor................................................................................................................... 45
2.1.6 Testemunha............................................................................................................... 45
2.1.7 Servo ......................................................................................................................... 46
2.2 Disciplina Pessoal.......................................................................................................... 47
2.2.1 Seu Tempo de Estudo ............................................................................................... 47
2.2.2 Seu Tempo de Oração............................................................................................... 48
2.2.3 Seu Tempo com a Família ........................................................................................ 49
2.3 Qualidades Indispensáveis ........................................................................................... 50
2.3.1 Caráter ...................................................................................................................... 50
2.3.2 Entusiasmo ............................................................................................................... 50
2.3.3 Sensibilidade............................................................................................................. 51
2.3.4 Humildade ................................................................................................................ 51
2.3.5 Zelo ........................................................................................................................... 52
2.3.6 Paixão ....................................................................................................................... 53
2.3.7 Observação ............................................................................................................... 53

3 A RELEVÂNCIA DA PREGAÇÃO EXPOSITIVA E CRISTOCÊNTRICA NO


MINISTÉRIO PASTORAL ....................................................................................................... 54
3.1 Aplicação do Processo .................................................................................................. 54
3.1.1 Autoridade de Deus .................................................................................................. 55
3.1.2 Supremacia de Cristo ................................................................................................ 56
3.1.3 Obra do Espírito Santo ............................................................................................. 57
3.1.4 Primazia do Texto..................................................................................................... 57
3.1.5 Vantagens da Exposição ........................................................................................... 58
3.1.6 Efeitos da Exposição ................................................................................................ 59
3.1.7 Alvos da Exposição .................................................................................................. 60
3.2 Dificuldades no Processo .............................................................................................. 61
3.2.1 Profundidade............................................................................................................. 61
3.2.2 Vocabulário .............................................................................................................. 61
3.2.3 Contextualização ...................................................................................................... 62
3.3 Tríplice Perspectiva ...................................................................................................... 62
3.3.1 A Bíblia .................................................................................................................... 63
3.3.2 O Pregador ................................................................................................................ 64
3.3.3 O Ouvinte ................................................................................................................. 65
3.4 Relevância da Exposição Cristocêntrica .................................................................... 66
3.4.1 Pregação com Compromisso .................................................................................... 66
3.4.2 Pregação com Fidelidade .......................................................................................... 67
3.4.3 Pregação com Sabedoria........................................................................................... 68
3.4.4 Pregação com Poder ................................................................................................. 69
3.4.5 Pregação que Transforma ......................................................................................... 70
3.4.6 Pregação que Alcança o Perdido .............................................................................. 71
3.4.7 Pregação que Atinge o Salvo .................................................................................... 71
3.4.8 Pregação que Agrada a Deus .................................................................................... 72

CONCLUSÃO ............................................................................................................................................74
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................................... 76
ANEXO 1 ...............................................................................................................................................79
10

RESUMO

A pregação expositiva, infelizmente, tem sido negligenciada no meio evangélico.


Partindo do pressuposto de que a exposição é uma ferramenta fundamental para o crescimento
espiritual da Igreja, o autor procura mostrar a relevância da exposição bíblica, principalmente
cristocêntrica, ou seja, Cristo como centro da exposição.
Em questões como tipos de sermões, será abordado apenas o necessário. O autor tem
convicções que ambos, tópico e textual, devem possuir teor expositivo, ainda que pelos
princípios da homilética tenham características diferentes no processo. Esta pesquisa não é um
ataque aos diversos tipos de sermões, mas, sim, uma defesa à necessidade da exposição
bíblica e cristocêntrica no ministério pastoral.
Para realizar tal tarefa, na primeira parte da pesquisa, o autor apresenta os conceitos da
exposição bíblica e da teologia cristocêntrica. Mostra, exegeticamente, a natureza, a teologia,
a história e todo o processo de desenvolvimento e entrega do sermão, centrado em Cristo.
No segundo capítulo o autor traz à tona as responsabilidades pessoais que o pregador
tem em todo o processo da exposição. Desde sua fidelidade à identidade bíblica, e sua
disciplina pessoal de estudo, oração e cuidado familiar, até as qualidades indispensáveis que
devem ser cultivadas por ele durante todo o seu ministério. Não há como fazer uma dicotomia
quanto ao que a Bíblia ensina e o que o pregador cumpre. Antes de qualquer coisa o pregador
deve viver o modelo bíblico e ser fiel ao que o Senhor exige.
Por fim, no terceiro capítulo, o autor faz uma junção da natureza da exposição com as
responsabilidades pessoais que o pregador tem, e desenvolve como aplicar todo o processo, as
dificuldades encontradas, e a Relevância da Exposição Bíblica e Cristocêntrica no Ministério
Pastoral.
De fato, o objetivo do autor, através da pesquisa, foi tentar mostrar a necessidade
urgente de se resgatarem os ensinos bíblicos nos púlpitos das igrejas. Parar de levar as
vontades pessoais do homem para a Bíblia e começar a entender qual a vontade de Deus,
através da Bíblia, deixada a todo homem.
Usando métodos bibliográficos, o autor pesquisou trinta e seis obras sobre o assunto,
devidamente citadas na bibliografia.
O autor não pode esconder a sua satisfação e entusiasmo em ter pesquisado este
assunto, pois desconhecia a amplitude que a exposição bíblica e cristocêntrica pode alcançar,
se devidamente entendida e usada.
11

INTRODUÇÃO

Num contexto aproximado de cerca de 1600 anos, envolvendo mais de quarenta


autores, dos mais diversos lugares, a Bíblia, progressivamente, foi sendo revelada. No
entanto, em toda a sua compilação, do Gênesis até o Apocalipse, envolvendo todos os
sessenta e seis livros, em sua totalidade, não há discrepâncias nem contradições. Pelo
contrário, todos os sessenta e seis livros se completam entre si, formando um único livro
coeso, “uma mensagem dinâmica dos tratos de Deus com a humanidade”, afirma McDowell.
(MCDOWELL, 2001, p. 15).
Um livro inerrante1, autoritário, verdadeiro (cf. HENDRICKS & HENDRICKS, 2001,
p. 25). Segundo Warfield: “A Bíblia é Palavra de Deus de tal maneira que quando a Bíblia
fala, Deus fala.” (WARFIELD apud HENDRICKS, 2001, p. 14). A afirmação de Warfield
confirma-se pelo fato de Deus ter inspirado homens a escrevê-la. Assim afirmou Paulo: “Toda
a Escritura é inspirada por Deus...” (2Tm 3.16ª, grifo meu). (gr., , theopneustos),
significa, “soprada por Deus”. Pedro também relatou: “porque nunca jamais qualquer
profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus,
movidos pelo Espírito Santo.” (2Pe 1.21, grifo meu). (gr., , pher ), significa,
“levados, movidos, conduzidos, carregados”.
“Outro aspecto único e maravilhoso da Bíblia é o seu cristocentrismo. Do começo ao
fim, tanto no A.T. como no N.T., a Bíblia é um testamento de Jesus Cristo, o “Filho do
Homem” e o Senhor da glória.” (MACDOWELL, 2001, p. 23).
Diante de fatos tão claros, a respeito da Bíblia, que se revela um livro com autoridade
divina para o pensamento e para a vida do crente (cf. GEISLER & NIX, 2003, p. 10), é que
esta pesquisa se propõe a resgatar os valores da exposição bíblica e cristocêntrica no
ministério pastoral.
Faz-se necessário resgatar esse princípio fundamental da fé dos profetas e dos
apóstolos, que infelizmente, pela falta de piedade da liderança eclesiástica pós-moderna, vem
se perdendo no tempo. É necessário olhar para as Escrituras com olhos mais atentos, com
piedade, com excelência, com empenho, em busca de um conhecimento mais profundo e real
da Palavra, para que, em virtude dessa dedicação, as ovelhas do rebanho do pastoreio do
Senhor Jesus (Sl 23; Jo 10) sejam alimentadas com alimento sólido (Hb 5.12-14).

1
Inerrante: Que não contém erros ou falhas na escrita.
12

É preciso também mostrar que a Bíblia é cristocêntrica em todo o seu conteúdo. Cristo
se faz presente em todas as páginas, agindo como Deus verdadeiro e posteriormente como
Redentor. Cristo é o centro de tudo, nada veio a existir sem Ele e tudo se fez por meio dele (Jo
1.1-3).
Numa época tão hostil à sã doutrina, em que os líderes evangélicos estão perdidos no
pragmatismo religioso, a exposição bíblica e cristocêntrica é a única forma de solidificar o
cristianismo (evangélico) na Pedra Angular (1Pe 2.6,7).
Esta pesquisa propõe-se a apresentar argumentos bíblicos teológicos que fundamentam
a qualidade do cristianismo em sua essência e na exposição bíblica, que por ser bíblica é
também cristocêntrica.
Usando fontes bibliográficas, esta monografia, valendo-se de argumentos de outros
para reforçar seu pensamento, procura mostrar: a) A Bíblia possui autoridade para reger a vida
do homem no campo físico, moral e espiritual; b) É ela que determina a mensagem, cabendo
ao pregador ser capacitado, ser dedicado, ser piedoso, ser trabalhador, ser responsável, a fim
de transmitir fielmente o que Deus já revelou em Sua Palavra.
Seria radicalismo crer na exposição correta da Palavra? Seria puritanismo crer que a
Bíblia é o manual que rege nossas vidas? Seria extremismo dedicar um bom tempo à oração e
ao estudo da Palavra antes de subir ao púlpito? Seria forçar textos bíblicos afirmar que Cristo
encontra-se em toda Bíblia?
Esta pesquisa busca resgatar a verdadeira essência da pregação, usada pelos profetas e
apóstolos, e posteriormente pelos pais apostólicos e reformadores, e que vem se perdendo a
cada dia no contexto evangélico brasileiro. Todas as perguntas citadas acima serão
respondidas ao longo da pesquisa.
Partindo da Palavra de Deus, e tendo como apoio diversos livros e artigos, dos quais
foram feitas leituras, resenhas e outras anotações, pôde-se apresentar uma boa pesquisa sobre
todas as partes envolvidas no tema.
Assim, espera-se que esta pesquisa monográfica ajude a todos os que têm a
responsabilidade e o privilégio de serem pregadores da Palavra de Deus: pastores,
seminaristas, evangelistas e todos aqueles que pensam um dia dedicar-se a esse ministério.
13

1 A NATUREZA DA PREGAÇÃO EXPOSITIVA E CRISTOCÊNTRICA


A essência da pregação expositiva e cristocêntrica é também a essência de tudo que
existe. De maneira bem simples quatro fundamentos caracterizam essa natureza.
Deus Pai: “As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as
reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que
cumpramos todas as palavras desta lei” (Dt 29.29);
Deus Espírito Santo: “Sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da
Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia
foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de
Deus, movidos pelo Espírito Santo” (1Pe 1.20,21);
Deus Filho: “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas,
expunha-lhes o que a seu respeito (Jesus) constava em todas as Escrituras” (Lc
24.27); e
Bíblia: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a
repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Tm 3.16).

É impossível considerar a natureza da exposição bíblica e cristocêntrica sem


fundamentá-la em Deus, por meio de Cristo na ação do Espírito Santo, com instrução bíblica.
Os quatro fundamentos representam o todo da exposição bíblica e cristocêntrica.

1.1 Pregação
A mais sublime vocação que um homem pode receber é a de pregador. Porém é a que
exige um maior grau de dedicação e responsabilidade. O apóstolo Paulo entendia bem essa
obrigação, foi por isso que ele disse: “Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar,
pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!” (1Co
9.16).
Numa tentativa de apresentar de maneira coerente e exata o significado de pregação,
seguir-se-á uma breve exegese dos termos que têm relação com o tema.

1.1.1 Breve Exegese


Da raiz ‘ ’ (k ryx), ‘arauto2’, é que vem a palavra correspondente no grego para
pregação: ‘ ’ (k rygma), ‘proclamação’, ‘anúncio’, ‘pregação’. Outro termo que deriva
da raiz k ryx é o verbo ‘ ’ (k ryss ), que significa: ‘anunciar’, ‘tornar conhecido’,
‘proclamar’.
a) GC – Como já mencionado, as palavras desse grupo derivam do substantivo k ryx,
e indicam um homem que é comissionado pelo seu senhor (soberano), ou pelo estado, para
anunciar, em voz alta, alguma notícia com o fim de torná-la conhecida. Posteriormente,
forma-se o verbo k ryss para designar a atividade do arauto. Mediante o acréscimo de –ma à

2
Arauto: emissário, mensageiro, pregoeiro, núncio (Aurélio, 1986).
14

raiz keryk-, formou-se posteriormente o substantivo k rygma, que se emprega, assim como
outras palavras com a mesma forma, para descrever o fenômeno de k ryssein (o ‘retinido’ da
voz do arauto, o ato de gritar alto) ou, do outro lado, o conteúdo da proclamação assim feita (o
‘anúncio’, o ‘edital’).
b) AT – Na LXX as ocorrências variam de termo para termo. O substantivo k ryx
ocorre ao todo duas vezes. Em Gn 41.43 a LXX parafraseou o heb. q râh como ek ryxen...
k ryx, “um arauto proclamou diante dele...”. Já em Dn 3.4 é o arauto de Nabucodonosor que
conclama o povo a adorar a imagem. É importante notar que, em Gn 41 e Dn 3, enfatiza-se o
verbo k ryss , que aparece além do substantivo. O substantivo k rygma ocorre apenas três
vezes (2Cr 30.5; Jn 3.2; Pv 9.3), todas como uma descrição daquilo que é proclamado. Já o
verbo k ryss aparece com mais expressividade, ao todo vinte e nove vezes; usualmente para
interpretar o heb. q râh; mas em Jn 3.7 traduz z ’aq, ‘clamar’; e em Os 5.8; Jl 2.1; Sf 3.14;
Zc 9.9, se refere a um ‘grito alto’. Em Êx 36.6 e 2Cr 36, k ryss se emprega para uma
‘proclamação’ que Moisés mandou fazer em todo o arraial, e que Ciro, rei da Pérsia, publicou
em todo o seu reino.
Q râh se acha mais de 650 vezes no Antigo Testamento. Deixando de lado Zc 9.9 e Sf
3.14, como casos especiais, pode-se dizer que a palavra se emprega para somente três funções
clássicas do arauto: 1) Para a proclamação de uma festa cultual (Êx 32.5; 2Rs 10.20; 2Cr 30.5;
bem como Dn 3.4 LXX), ou um jejum (2Cr 20.3; Jl 1.14; 2.15; Jn 3.5, 7). 2) Para as ordens do
comandante militar no campo, ou um decreto do príncipe, que precisam ser proclamados (Êx
36.6; 2Cr 24.9). 3). Para a proclamação de julgamento (Os 5.8; Jl 3.9; Jn 3.2,4), ou do dia do
julgamento feito por Javé (Jl 2.1), ou em Is 61.1, o anúncio da liberdade aos cativos (Pv 1.21,
8.1 e 9.1-3 pertencem a uma categoria especial). São estas as passagens nas quais a sabedoria
brada em voz alta. Em Mq 3.5 k ryss é empregada para interpretar a proclamação da paz
feita pelos falsos profetas.
c) NT – Assim como na LXX, no Novo Testamento as ocorrências são variadas. O
substantivo k ryx aparece somente três vezes (1Tm 2.7; 2Tm 1.11; 2Pe 2.5). k rygma também
se acha com relativa raridade: em Paulo, para a mensagem de Cristo que ele proclama (Rm
16.25, k rygma Iesou Chiristou), ou para a sua pregação de modo geral (em 1Co 2.4; 15.14
com pronomes possessivos; cf. 1Co 1.21); com mais formalidade em 2Tm 4.17 e Tt 1.3 e,
finalmente, em Mt 12.41; Lc 11.32, para a mensagem de Jonas a Nínive. Em Rm 16.25 indica
a pregação de Cristo, conforme Paulo a leva a efeito. O ponto mais avançado desta linha é
2Tm 4.17. Tt 1.3, em que k rygma é o fenômeno de uma chamada que sai e impõe suas
reivindicações sobre os ouvintes: corresponde à vida e às atividades do profeta.
15

O verbo k ryss aparece sessenta e uma vezes: A) Dezenove nas Epístolas de Paulo
(Rm 2.21; 10.8; 10.14, 15; 1Co 1.23; 9.27; 15.11, 12; 2Co 1.19; 4.5; 11.4 (2x); Gl 2.2; 5.11;
Fp 1.15; Cl 1.23; 1Ts 2.9; 1Tm 3.16; 2Tm 4.2). B) Quatorze em Marcos (1.4, 7, 14, 38, 39,
45; 3.14; 5.20; 6.12; 7.36; 13.10; 14.9; 16.15, 20). C) Nove em Mateus (3.1; 4.17, 23; 9.35;
10.7, 27; 11.1; 24.14; 26.13). D) Nove vezes em Lucas (3.3; 4.18, 19, 44; 8.1, 39; 9.2; 12.3;
24.47). E) Oito vezes em Atos (8.5; 9.20; 10.37, 42; 15.21; 19.13; 20.25; 28.31). F) Uma vez
em 1Pedro (3.19) e no Apocalipse (5.2). É notável a sua ausência em João, Hebreus e Tiago.
A maior aproximação que o Novo Testamento faz da figura clássica do arauto é Ap
5.2, onde o anjo fez uma proclamação em grande voz, e 1Pe 3.19, em que a voz do
Crucificado ressoa no Hades. Em Rm 2.21, dirige-se àqueles que exigem que os homens não
furtem, embora eles mesmos o façam. Aqui, k ryss n é empregado no sentido de
ambivalência, onde o mensageiro transmite algo, mas pratica o oposto. A proclamação da
mensagem de Cristo, conforme Paulo entende, exige um pleitear e suplicar, com um amor que
busca, acompanhado pelos cuidados constantes para com o indivíduo (1Ts 2.9; 2Co 5.18).
O ato da proclamação é, em última análise, uma exigência prévia da fé, pois não tem
seu alvo meramente na transmissão de informações, nem numa lealdade formal, mas sim,
numa fé que acarreta a confiança e a entrega do próprio eu (cf. 1Co 15.11). Cristo não é
meramente o objeto da proclamação, mas também o sujeito dela, quem tem autoridade sobre
ela. É Ele mesmo quem ordena a proclamação e que, ao mesmo tempo, está presente
conforme a Sua própria vontade e permite que os ouvintes tenham experiência com Ele,
através da proclamação do Evangelho (Gl 3.1). Nas passagens mais antigas de Paulo (1Ts 2.9;
Gl 2.2; Cl 1.23) e em alguns contextos de Marcos (Mc 1.14; 13.10; 14.9) e de Mateus (Mt
4.23; 9.35; 24.14; 26.13), o objetivo é to euangelion, o – evangelho.
Nas Epístolas aos Coríntios (1Co 1.23; 15.12; 2Co 1.19; 11.4); Fp 1.15 e At 8.5; 9.20;
19.13, é Christos (quatro vezes), I sous, (três vezes) ou Jesus Cristo que é proclamado. João
Batista proclamava o – Batismo - baptisma metanoias eis aphesin hamarti n, “batismo de
arrependimento para remissão dos pecados” (Mc 1.4; Lc 3.3; cf. 10.37). Para Lucas, basileia,
o – Reino - é o objetivo da proclamação (Lc 8.1; 9.2; At 20.25; 28.31). Para Mateus, também
o reino é o próprio conteúdo do Evangelho que se proclama (cf. Mt 4.23; 9.35; 24.14).

1.1.2 Conceito Bíblico


Pregação é o processo em que Deus fala ao coração do homem, por meio de um
mensageiro pautado na autoridade e no poder das Escrituras Sagradas, iluminado pelo Espírito
Santo, com o propósito de anunciar Cristo e visando à transformação de vidas. A pregação
16

nasceu no coração de Deus, foi Ele quem a introduziu como instrumento de ensinamento dos
Seus padrões ao homem.
Koller afirma: “Desde que a pregação se originou na mente de Deus e é o Seu recurso
característico para chegar aos corações dos homens com a mensagem planejada para salvar
a alma, obviamente é Sua prerrogativa estabelecer os padrões.” (KOLLER, 1999, p. 9).
Basicamente o conceito bíblico de pregação está fundamentado em quatro princípios:
autoridade da pregação; poder da pregação; ação do Espírito Santo e propósito da pregação.

1.1.2.1 A Autoridade da Pregação


Sem dúvida alguma, a autoridade da pregação está intimamente ligada à autoridade da
inspiração bíblica.
Disse John Stott: “O poder transformador da Palavra depende do reconhecimento da
autoridade divina [...] A inspiração divina de toda a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse,
significa que Deus tem falado clara e infalivelmente.” (SHEDD, 2000, p. 13).
O que está em pauta é a realidade atual de uma época hostil à autoridade, onde as
pessoas questionam sobre quem tem o direito de determinar o que elas devem fazer. Mais
triste ainda é perceber as tendências da pregação pós-moderna, que excluem a autoridade da
Bíblia e colocam as necessidades do homem, a sofisticação e os modelos empresariais como
dogmas de um ministério bem sucedido. Alguém já disse: “A qualidade do cristianismo
depende, em grande medida, do valor e autoridade conferidos à Palavra de Deus.”
“Desvirtuamentos éticos, morais e doutrinários começam pela diminuição do valor e
autoridade das escrituras.” (Autor desconhecido).
Para entender a autoridade da pregação é imprescindível que se examine a autoridade
da inspiração bíblica. Entender que é Deus, através das Escrituras, quem fala ao homem com
o fim de transformá-lo.
A Bíblia é sempre autoridade final numa pregação. Precisamos ter coração disposto
“para buscar a Lei do SENHOR, e para cumprir, e para ensinar [...] os seus estatutos e os
seus juízos” (Ed 7.10), assim como ter “prazer na lei do SENHOR, e na sua lei meditar de dia
e de noite.” (Sl 1.2).
Argumenta Grudem:
É importante perceber que a forma final em que as Escrituras permanecem como
autoridade é a forma escrita [...] Isso é importante porque às vezes as pessoas
(intencionalmente ou não) tentam substituir as palavras escritas das Escrituras por
outro padrão final [...] Não devemos jamais permitir que contradigam ou coloquem
em dúvida a exatidão de qualquer palavra das Escrituras. (GRUDEM, 1999, p. 55).
17

É com esse mesmo pensamento que Chapell defende a autoridade da pregação:


Quando pregadores tratam a Bíblia como a própria Palavra de Deus, as questões
acerca das coisas que temos o direito de dizer desaparecem. Deus pode dizer ao Seu
povo o que eles devem fazer e no que devem crer, e ele o faz. A Escritura
constrange os pregadores a se certificarem de que as outras pessoas entendam o que
Deus diz. (CHAPELL, 2002, p. 24).

Não há como fugir da autoridade bíblica na pregação como fator primordial para uma
exposição realmente eficaz, no seu objetivo de atingir e transformar o coração endurecido do
homem. A Bíblia é a expressão da vontade de Deus, é ela quem define no que devemos crer e
como devemos nos comportar.
Chapell afirma:
Apenas pregadores comprometidos em proclamar o que Deus diz têm o
imprimátur3 da Bíblia sobre sua pregação. Desse modo, a pregação expositiva se
empenha em descobrir e propagar o significado preciso da palavra. A Escritura
exerce domínio sobre o que os expositores pregam, pois eles esclarecem o que ela
diz. (CHAPELL, 2002, p. 24).

1.1.2.2 O Poder da Pregação


Augustus Nicodemus afirma que, se o pregador tiver consciência da sua missão, da
importância da pregação, do poder e do efeito que a pregação pode causar nos seus ouvintes,
deverá dedicar um bom tempo a sua preparação individual. Isso significa uma seriedade muito
grande no que diz respeito ao preparo para a exposição bíblica (cf. NICODEMUS, Bíblia em
Ação – CD).
O autor da carta aos Hebreus diz: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais
cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e
espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.”
(Hb 4.12, grifo meu). Segundo Charles Ryrie a pregação da Palavra tem poder para atingir as
partes mais íntimas da personalidade do indivíduo e discernir seus pensamentos mais secretos
(cf. RYRIE, 1994, p. 1540).
Argumenta Chapell:
[...] A Palavra não é somente poderosa, ela é inigualável. [...] A descrição da
Escritura acerca da sua potência desafia-nos a lembrar sempre que a palavra
pregada, antes mesmo da pregação, cumpre os propósitos do céu. Pregação que é
fiel à Escritura converte, convence e amolda o espírito de homens e mulheres, pois
ela apresenta o instrumento da compulsão divina, e não que pregadores tenham em
si mesmos qualquer poder transformador. (CHAPELL, 2002, p. 18, 19).

3
Imprimátur: Permissão de autoridade religiosa para imprimir texto que foi submetido à sua censura. (Aurélio,
1986).
18

O interesse do pregador deve ser sempre de expor a Palavra de Deus, pois ela é a fonte
transformadora de vida. Davi, ao livrar-se das mãos de Saul, disse: “... a palavra do SENHOR
é comprovadamente genuína.” (2Sm 22.31, NVI). A pregação da Palavra genuína é o
fundamento da ação poderosa de Deus na vida do homem.

1.1.2.3 A Ação do Espírito Santo


É o Espírito Santo quem equipa o pregador.
Iluminando: “Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito
que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado
gratuitamente. Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria
humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com
espirituais. Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque
lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem
espiritualmente.” (1Co 2.12-14);
Instruindo ou guiando: “Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos
guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que
tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir. Ele me glorificará, porque
há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar.” (Jo 16.13,14);
Capacitando o homem para toda boa obra: “Porque o nosso evangelho não chegou
até vós tão-somente em palavra, mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo e em
plena convicção, assim como sabeis ter sido o nosso procedimento entre vós e por
amor de vós.” (1Ts 1.5).

É interessante observar também a perspectiva de Bancroft sobre a ação do Espírito


Santo:
O Espírito Santo é o Divino Instrutor, e nunca seremos verdadeiramente ensinados
enquanto não formos ensinados por Ele. [...] A verdade que Ele nos quer ensinar
parece seguir ao longo de duas linhas: primeira, a respeito daquilo que pertence a
Cristo, aquilo que O glorifica; e segunda, a respeito das coisas do futuro.
(BANCROFT, 2001, p. 198).

Bancroft não só apresenta o Espírito Santo como instrutor supremo, mas direciona
essa instrução para Cristo e para a escatologia que se cumprirá nele. É muito importante
ressaltar que não é possível fazer uma divisão da trindade na pregação - é Deus quem fala ao
homem por meio da Bíblia, na ação do Espírito Santo, para anunciar Cristo.

1.1.2.4 O Propósito da Pregação


Segundo Liefelde, o propósito da pregação “é declarar a vontade de Deus para Seu
povo, Sua igreja [...] motivar em questões como fé, obediência e crescimento espiritual [...]
deve ser adoração a Deus e a exaltação ao Seu nome.” (LIEFELD, 1988, p. 21, 22). Uma
clara ênfase que se percebe nas definições de Liefelde é que o foco está sempre direcionado
para as coisas do alto, ao contrário do que se percebe nos pregadores do presente século. O
19

propósito da pregação deve ser o mandamento de Deus, realizado no homem para edificação
do corpo de Cristo, a Igreja.
Robinson vai dizer:
O expositor deve saber registrar em palavras que qualidade de vida ou que obras
devem resultar da pregação do sermão e do ouvir do mesmo. Cumprimos nosso
propósito, segundo Paulo contou a Timóteo, por meio de (1) ensinar uma doutrina,
(2) refutar algum erro na crença ou na ação, (3) corrigir aquilo que está errado, e (4)
instruir as pessoas a enfrentarem corretamente a vida. (ROBINSON, 1980, p. 74).

Em suma, o propósito da pregação é realizar a vontade de Deus através de e no


homem. E o papel do pregador é ser um “homem de Deus [...] perfeito e perfeitamente
habilitado para toda boa obra.” (2Tm 3.17), em obediência à vocação que Deus lhe deu.

1.1.3 Tipos de Pregação


Basicamente é consenso entre os estudiosos que existem três tipos de pregações:
tópica; textual e expositiva, sendo a última ênfase desta monografia. Mas não se pretende
defender a pregação expositiva e condenar as outras, e sim, considerar a validez da exposição
bíblica e mostrar que esses três tipos de pregação, obrigatoriamente, devem ter teor
expositivo. Em cada um deles autores fazem suas considerações sobre as vantagens e
desvantagens, o que não ocorrerá nesta pesquisa. Simplesmente se mostrará uma definição de
cada uma delas, apresentando a importância que elas têm e, em sua essência, a prioridade na
mensagem bíblica.

1.1.3.1 Tópica
Reifler define da seguinte maneira: “Pregação tópica é aquela cuja divisão é extraída
do tema. Em outras palavras, divide-se o tema, não o texto de onde o tema é tirado.”
(REIFLER, 1993, p. 99). Marinho complementa dizendo: “É o método mais usado por ser o
de mais fácil preparo. É muito útil para os sermões doutrinários e evangelísticos, que
precisam basear-se em diferentes partes da Bíblia.” (MARINHO, 1999, p. 135).
A ressalva que se deve fazer é que, mesmo sendo o corpo do sermão e a escolha do
texto baseados num tema, não se pode fugir daquilo que é ensino bíblico, ou seja, o tema deve
também ser tirado da Bíblia. No preparo não se pode fugir da responsabilidade de estudar o
contexto, e saber que a pregação tópica não é o que se quer ouvir, e sim o que a Bíblia diz.
Por esta razão Braga vai dizer: “Para termos a certeza de que o conteúdo da mensagem será
totalmente bíblico, devemos principiar com um assunto ou tópico tirado da Bíblia.”
(BRAGA, 1986, p. 17).
20

1.1.3.2 Textual
A pregação textual vai diferir em alguns aspectos da pregação tópica. A principal das
diferenças está no fato de que na pregação tópica o tema surge na cabeça do pregador e vai
para o texto, enquanto que na pregação textual o assunto sai do próprio texto. Outro fator
importante é que a pregação textual se caracteriza por um texto pequeno, geralmente um ou
dois versículos.
Reifler descreve três modalidades da pregação textual:
(1) Natural, ou puro é aquele cujas divisões são feitas de acordo com as
declarações originais do texto, tais como se encontram na Bíblia [...] (2) Analítico
baseia-se em perguntas feitas ao texto, tais como: Onde? Quê? Quem? Por quê?
Para quê? [...] (3) Inferência, as orações textuais são reduzidas a uma expressão
sintética ou palavra que encerra o conteúdo, sendo, portanto, a essência da frase ou
declaração. (REIFLER, 1993, p. 102).

Esse tipo de pregação exige um bom conhecimento das Escrituras, por se tratar de uma
pequena porção de texto. Sendo assim, o objetivo do pregador, assim como na pregação
tópica, é declarar o teor bíblico.

1.1.3.3 Expositiva
Aqui está uma das ênfases desta pesquisa monográfica, a pregação expositiva. Reifler
define da seguinte maneira: “A pregação expositiva tira da Palavra de Deus os argumentos
principais da exegese ou exposição completa de um trecho mais ou menos extenso.”
(REIFLER, 1993, p. 105).
Marinho é mais inciso ao dizer:
Todas as idéias saem do texto e do contexto. A idéia central, as divisões principais
e todas as subdivisões originam-se de uma passagem maior da Bíblia e são
interpretadas à luz do contexto, o qual fornece o tema e as aplicações do sermão.
(MARINHO, 1999, p. 143).

O mais importante a se notar é que na pregação expositiva, como o próprio nome já


diz, “expor”, todo o teor da pregação vem exclusivamente do texto bíblico.
E é por essa razão que Braga afirma categoricamente:
A pregação expositiva é o modo mais eficaz de pregação, porque, mais que todos
os outros tipos de mensagens, ele, com o tempo, produz uma congregação cujo
ensino é fundamentado na Bíblia. Ao expor uma passagem da sagrada Escritura, o
ministro cumpre a função primária da pregação, a saber, interpretar a verdade
bíblica. (BRAGA, 1986, p. 47).

A pregação expositiva é uma ferramenta mais que fundamental para que uma
congregação cresça no conhecimento dos preceitos de Deus. E é por essa razão que esta
21

pesquisa defende a pregação expositiva nos púlpitos das igrejas. Não há como mudar o caráter
do homem sem pregar a Bíblia.

1.2 Pregação Expositiva


Após definição acerca da pregação expositiva, seguir-se-á um detalhamento da
importância, da estrutura, e os exemplos bíblicos e históricos de pregação expositiva.

1.2.1 Princípios
É impossível considerar a importância da pregação expositiva sem pôr em relevo os
princípios básicos de sua estrutura. O pregador obrigatoriamente tem que fundamentar sua
mensagem num texto bíblico, assim como viver e transmitir essa prática bíblica, e não omitir
a autoridade ou ação divina na pregação. Evidentemente que existem muitos outros princípios
que poderiam ser aplicados a essa pesquisa, porém essa tríplice consideração é essencial,
indispensável e suficiente no ministério da pregação.

1.2.1.1 Prioridade Textual


Existem duas preposições gregas que definem bem esse princípio de prioridade
textual. A preposição “ ”, transliterada “eis”, que significa “para dentro”, “para o meio de”;
e a preposição “ ”, transliterada “ek”, que significa “de dentro para fora”. Ou seja, numa a
idéia principal é do autor e depois inserida no texto, noutra a idéia principal sai do texto e é
expressa ao ouvinte. O papel do pregador não é criar uma mensagem para os ouvintes, mas
expor para os ouvintes a mensagem já revelada de Deus. É necessário entender que o texto
por si só já é a mensagem, com isso o pregador é apenas o expositor. Obviamente que isso
não impede uma idéia prévia sobre a mensagem a ser pregada, mas isso deve ser feito com
coerência e não pode se tornar via de regra.
Chapell faz a mesma consideração ao dizer:
Muitas vezes almejamos começar a preparação do sermão pela procura da
afirmação bíblica acerca de um interesse particular ou tópico. Além disso, o próprio
texto é a fonte das verdades que, por fim, apresentamos. No púlpito somos
expositores, não autores. O sermão elucida o que a Bíblia afirma. Isso significa que
a primeira tarefa do pregador é escolher a porção bíblica sobre a qual vai pregar.
(CHAPELL, 2002, p. 55).

O que Chapell está dizendo é que o pregador tem que priorizar a escolha do texto, e
depois entender o que este texto ensina, e então pregar este ensino. O pregador não pode
deixar de pensar que ele é um expositor. Ser expositor é falar de algo já existente.
22

É necessário enfatizar que “toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o
ensino...” (2Tm 3.16), mas é responsabilidade do pregador escolher o texto a ser pregado
pedindo orientação ao Espírito Santo.
Concluindo, o “pensamento do escritor bíblico determina a substância de um sermão
expositivo.” (ROBINSON, 1980, p. 15).

1.2.1.2 Eficácia do Testemunho


Talvez uma das coisas mais difíceis de entender seja que o pregador tem que, além da
grande responsabilidade de expor o teor bíblico, viver aquilo que prega. Um conhecido dito
popular diz: “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço.” Este provérbio não pode, em
hipótese alguma, fazer parte da vida dum pregador. Viver aquilo que a Bíblia ensina é, antes
de qualquer coisa, uma excelência. Tiago é preciso ao afirmar: “Tornai-vos, pois, praticantes
da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” (Tg 1.22). Uma pregação
nunca será eficaz se o pregador não tiver autoridade pessoal para afirmar qualquer
ensinamento num púlpito.
É certo que a mensagem é o próprio teor bíblico, e é o Espírito Santo quem guia o
pregador, mas isso não exime a responsabilidade do mensageiro de ter uma vida condizente
com os preceitos bíblicos. Chapell diz: “Confiança na operação da Palavra e do Espírito de
Deus não significa que você vive sem responsabilidades.” (CHAPELL, 2002, p. 25).
Para que uma pregação realmente seja eficaz é imprescindível que o pregador tenha
consciência da sua responsabilidade pessoal quanto ao cumprimento dos ensinos bíblicos.
Esse testemunho pessoal dá ao pregador autoridade na pregação e, ao ouvinte, segurança no
aprendizado.

1.2.1.3 Autoridade Divina


Depois de explanar sobre a prioridade textual e a responsabilidade do testemunho
pessoal, é necessário enfatizar que nenhum dos dois princípios será eficaz se não houver a
autoridade ou a ação divina na pregação. Anteriormente foi apresentada a ação do Espírito
Santo na pregação, iluminando, instruindo e capacitando o pregador. Agora a perspectiva está
na pessoa do ouvinte. “A pregação está unida à ação [divina], os dois são inseparáveis. É o
Espírito quem cumpre os propósitos divinos de aquecer, moldar e conformar corações à sua
vontade,” diz Chapell (CHAPELL, 2002, p. 24).
Em suma, pode-se resumir da seguinte maneira: O pregador tem a obrigação de dar
prioridade ao ensino do texto bíblico, de cumprir aquilo que ele aprende e ensina nas
23

Escrituras e crer que é Deus, através da pessoa do Espírito Santo, quem age para convencer e
ensinar o homem acerca da doutrina bíblica.

1.2.2 Exemplos Bíblicos


Uma das coisas mais fascinantes da História bíblica é a paixão que grandes homens e
o próprio Jesus tinham para com a pregação. Existe um fator sublime nas pregações de Jesus,
em especial no sermão do monte (Mt 5-7); assim como se admira a intrepidez e a autoridade
de Estêvão perante o sumo sacerdote (At 7.1-53), também impressiona a eloqüência e a
eficácia no sermão de Pedro, quando aproximadamente três mil pessoas de converteram (At
2.37-41), e não poderia faltar o exemplo do apóstolo Paulo, que por diversas vezes
demonstrou conhecimento e autoridade em suas pregações (At 9.20-25; 17.16-31; 20.17-35).

1.2.2.1 Jesus
John Stott, citando Dargan, apresenta uma perspectiva bastante interessante sobre
Jesus Cristo como pregador.
O fundamento do cristianismo foi, pessoalmente, o primeiro dos seus pregadores;
mas foi antecedido pelo seu precursor e seguido pelos seus apóstolos, e na pregação
destes a proclamação e ensino da Palavra de Deus por meio de discursos públicos
ficaram sendo características essenciais e permanentes da religião cristã.
(DARGAN apud STOTT, 2003, p. 16-17).

Definitivamente é impossível que o pregador pregue de forma eficaz sem, de alguma


forma, aplicar os princípios deixados pelo grande pregador da História, Jesus Cristo. Os
princípios da ação de Jesus na pregação são encontrados facilmente ao se fazer um turismo
nas páginas dos evangelhos.
Arrependimento: “Passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está
próximo o reino dos céus.” (Mt 4.17);
Evangelho do reino: “E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando
nas sinagogas, pregando o evangelho do reino...” (Mt 9.35); “Jesus disse: é
necessário que eu anuncie o evangelho do reino de Deus também às outras
cidades, foi para isso que fui enviado.” (Lc 4.43);
Evangelho de Deus: “Foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus.”
(Mc 1.14);
A verdade: “Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho
da verdade.” (Jo 18.37).

Em Lucas está o retrato mais exato de Jesus como pregador itinerante: “O Espírito do
Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para
proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os
oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” (Lc 4.18,19).
24

Dada a inteireza do teor dos princípios de Jesus nas pregações, é importante citar o
grande exemplo contido nos evangelhos de Mateus e Lucas, o famoso Sermão do Monte. É
evidente que, para expor todo o conteúdo desse sermão, seria necessário um estudo minucioso
e várias páginas desta pesquisa, o que não será realizado aqui, mas fica o registro do
reconhecimento da inteireza de autoridade, convicção, conhecimento, eloqüência e eficácia de
Jesus em seus sermões, e em especial no Sermão do Monte.

1.2.2.2 Estêvão
Olhando para o sermão de Estêvão em Atos 7.1-53, visualizam-se duas características
importantes sobre pregação: eloqüência e conhecimento bíblico. Nota-se que Estêvão, de
maneira a causar admiração até nos exegetas presentes, apresenta a História do povo como
confirmação de que ele sabia exatamente o que estava falando. Outro dado de extrema validez
a se observar é que Estêvão está fazendo nada mais que expondo as Escrituras. Não há uma
inovação em suas palavras, há um reafirmar das palavras do próprio Deus, por meio dos
escritores, que foram inspirados a escreverem os livros bíblicos. Estêvão não está buscando
em seu próprio intelecto uma saída para se livrar das mãos de seus opressores, ele vai para as
Escrituras e encontra lá o necessário para sua defesa.
Vale destacar também a conclusão do seu sermão. Boor comenta da seguinte maneira:
Estêvão tira do abrangente testemunho as conseqüências para atualidade.
Realmente não devemos entender essas últimas frases de seu discurso como um
“xingar”. O homem que com um semblante de um anjo encarava seus juízes, que os
tratara conscientemente como irmãos e pais, agora no final não se deixa arrastar
pela carne e pelo sangue para uma agressividade vulgar (BOOR, 1983, p. 119).

Um sermão bem exposto é aquele em que o pregador consegue atingir o mais


profundo sentimento do homem, fazendo-o reconhecer seu erro e buscar uma restauração em
Cristo, sem usar de palavras carnais e agressivas, nem rebaixá-lo ao ridículo. Basta ser
coerente com o teor bíblico, o mais, o Espírito Santo fará.

1.2.2.3 Pedro
Boor faz uma observação interessante acerca dos discursos de Pedro: “Os discursos de
Pedro em Atos dos Apóstolos são estruturados todos da mesma maneira. Isso se deve à causa
defendida.” (BOOR, 1983, p. 53). O que levanta a seguinte pergunta: que causa defendida é
essa? Pedro tinha sempre em mente a obra salvadora em Cristo Jesus. Em Atos 2.38 ele
enfatiza o arrependimento em Jesus Cristo para remissão de pecados, e no verso 40 ele exorta
a multidão a deixar sua perversidade por meio de Cristo.
25

O mesmo Boor também argumenta que, embora exista essa semelhança nos sermões
de Pedro, “o sermão de Pentecoste se destaca por não existir nenhum convite à ação dirigida
ao ouvinte”, contudo, “o impacto de seus fatos atinge certeiramente o ‘coração’ dos
‘ouvintes’.” (BOOR, 1983, p. 53). O que leva a crer que a mensagem de Cristo crucificado
(At 2.22-24) por si só já é o cerne duma pregação para que os ouvintes sintam-se com os
corações compungidos. (At 2.37).
É necessário entender que, obrigatoriamente, a pregação deve conter a mensagem da
obra de Deus para o homem, realizada em Cristo. Tal princípio era o ponto chave dos
discursos de Pedro, o que factualmente foi eficaz, pois aproximadamente três mil pessoas se
converteram dos seus maus caminhos: “Então, os que aceitaram a palavra foram batizados,
havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas.” (At 2.41).

1.2.2.4 Paulo
Aqui o mais corajoso e empenhado dos pregadores, o herói do evangelista Lucas, o
apóstolo Paulo, que “pregava o reino de Deus, e, com toda intrepidez, sem impedimento
algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo.” (At 28.31). Apóstolo fora do
tempo, comissionado pelo próprio Jesus Cristo para pregar o Evangelho.
Homem determinado a cumprir sua missão:
Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa
obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho! Se o faço de livre vontade,
tenho galardão; mas, se constrangido, é, então, a responsabilidade de despenseiro
que me está confiada. (1Co 9.16,17).

Tal empenho é apresentado por Stott pelo fato de “a pregação ser o modo
determinado por Deus para os pecadores ouvirem a respeito do Salvador e, assim, invocá-lo
para a salvação.” (STOTT, 1982, p. 18). Se existe uma característica imprescindível em
Paulo, a qual ninguém nunca poderá questionar, é seu empenho absoluto e entrega para a
pregação. Pregação que essencialmente tinha sempre Cristo como alvo principal. Paulo assim
fez nas suas três expedições missionárias e depois em sua viagem para Roma. Ele entendia
perfeitamente o que significava:
Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de
quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como
pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés
dos que anunciam coisas boas! (At 10.14,15, grifo meu).
26

1.2.3 Exemplos Históricos


Nem todos são vocacionados ao ministério da pregação, isso é algo peculiar e especial
dado pelo Senhor aos Seus. Peculiaridade identificada, ao longo da História, naqueles que
dispuseram suas vidas em dedicação integral ao ministério da pregação.
Destaca-se a importância dada pelo Senhor Jesus à pregação e ao ensino, numa
grandeza tal que não nos surpreende descobrir a mesma ênfase entre os primeiro pais da
igreja, posteriormente entre os reformadores, e os puritanos.
A seguir serão demonstrados os feitos desses homens e suas características
homiléticas, para um entendimento da importância histórica da relevância da pregação
expositiva.

1.2.3.1 Patrísticos4
O fundamento deixado pelo próprio Senhor Jesus e pelos apóstolos, no que diz
respeito à exposição bíblica, é a base sólida daqueles que são conhecidos como pais da Igreja,
ou pais apostólicos. Segundo Stott, o ensino do Senhor e dos apóstolos é “um manual
eclesiástico sobre ética, sacramentos, e ministério da segunda vinda de Jesus.” (STOTT,
2003, p. 18). A importante missão de continuidade da pregação é assumida pelos sucessores
apostólicos com as mesmas ênfases.
Num rápido passeio pela História do cristianismo, logo se vê “por volta do século II a
publicação da primeira apologia de Justino Mártir.” (STOTT, 2003, p. 19). Sábias palavras
dirigidas ao imperador defendendo a fé cristã das falsas acusações e enaltecendo a mensagem
dum Cristo que morreu e ressuscitou para salvar o homem dos seus pecados. Stott destaca a
autenticidade de Justino Mártir “na leitura e pregação das Escrituras e na combinação entre
a Palavra e o sacramento.” (STOTT, 2003, p. 19).
No final do século II surge a Apologia do pai latino Tertuliano.
Stott comenta e cita parte dessa Apologia:
Escrevendo a respeito das peculiaridades da sociedade cristã, enfatizou o amor e a
união que os mantinham juntos, e passou então, a descrever as suas reuniões: ‘Nós
nos reunimos para ler as nossas escrituras sagradas [...] Com as palavras sagradas,
nutrimos a nossa fé, animamos a nossa esperança, tornamos mais firme a nossa
confiança, e não menos, pela inculcação dos preceitos de Deus, confirmamos bons
hábitos. No mesmo lugar também são feitas exortações, repreensões e censuras
sagradas... ’ (TERTULIANO apud STOTT, 2003, p. 19-20).

4
A Era Patrística, como um todo, engloba o período histórico entre os anos 100 A.D., data referência para o
término da produção apostólica, e 451 A.D., com a realização do importante Concílio de Calcedônia.
Caracterizada pelos autores cristãos, ou seja, uma categoria de líderes que teve contato direto, ou mesmo
indireto, com os apóstolos.
27

Destaca-se nos escritos de Tertuliano a forte ênfase nas Escrituras Sagradas. Não havia
outra fonte para reger a conduta e ditar as regras do cristianismo. Suas pregações eram sempre
pautadas no que a Bíblia ensinava - nada criado, tudo extraído.
Ainda no final do século II, o pai grego Irineu de Lyon confirma a sucessão dos
ensinos apostólicos, segundo Stott, ressaltando a responsabilidade dos presbíteros aderirem a
esses mesmo ensinos:
Estes também conservam essa nossa fé em um só Deus, que conseguiu semelhantes
dispensas maravilhosas por amor a nós; e nos expõem as Escrituras sem perigo,
nem blasfemando a Deus, nem desonrando os patriarcas, nem desprezando os
profetas. (EUSÉBIO apud STOTT, 2003, p. 20).

O uso da expressão “expõem as Escrituras” demonstra a submissão desses cristãos aos


ensinos dos preceitos bíblicos, reforçando ainda mais a luta pela continuidade do ensino do
próprio Jesus e dos apóstolos.
Algo precioso a destacar é o resumo das obras dos pregadores e mestres nos duzentos
primeiros anos da era cristã, feito pelo pai Eusébio de Cesaréia e citado por Stott:
Empreendiam viagens longe de casa e faziam a obra de evangelista, tendo o
propósito de pregar a todos quantos ainda não tivessem ouvido a palavra da fé e de
lhes dar o livro dos evangelhos divinos. Mas se limitaram a meramente deitar os
alicerces da fé em alguns lugares estrangeiros e a nomear outros como pastores, aos
quais confiavam os cuidados dos que acabaram de ser trazidos à fé; em seguida,
partiram para outras terras e nações, com a graça e a cooperação de Deus. (Livro
III. 37.2 apud STOTT, 2003, p. 20).

Nos nomes citados nesta pesquisa, e em tantos outros, que tanto fizeram pelo
Evangelho, mas que não são citados, notória é a capacitação bíblica desses homens que
tinham como pilastra mestra, em suas construções doutrinárias, a Palavra de Deus. Suas
preocupações norteavam-se em interpretar e expor de maneira correta e coerente as Escrituras.

1.2.3.2 Reformadores
Com base nas palavras de Stott, os anos de 1329 a 1384 estão marcados na História,
por aquele que é chamado por Stott de “precursor” ou “estrela da alva” da reforma, John
Wycliffe. Entendem-se as palavras de Stott quando observamos na História de Wycliffe o seu
empenho em “proclamar a Bíblia como autoridade suprema na fé e na vida.” (STOTT, 2003,
p. 23).
O serviço mais sublime que os homens poderão alcançar na terra é pregar a Palavra
de Deus. Esse serviço é dever mais específico dos sacerdotes, e por isso Deus o
exige diretamente da parte deles [...] E por causa disso, Jesus deixava de lado outras
obras e se ocupava principalmente na pregação; assim também se ocupavam seus
apóstolos, e, por isso, Deus os amava [...] A Igreja, no entanto, é mais honrada pela
pregação da Palavra de Deus, e, daí, esse é o melhor serviço que os sacerdotes
28

podem prestar a Deus [...] Portanto, se nossos bispos não pregarem pessoalmente e
se impedirem os sacerdotes verdadeiros de pregar, serão culpados dos mesmos
pecados que mataram o Senhor Jesus Cristo (FANT & PINSON apud STOTT,
2003, p23).

O que mais admira não são as belas frases formadas por Wycliffe, mas a autoridade
implícita que se observa nelas. Vale ressaltar o contexto religioso cristão da época. O
cristianismo passava por um declínio doutrinário bíblico, que estava sendo substituído pela
voz hierárquica do papado, com suas anti-bíblicas práticas de indulgências e
transubstanciação, para enriquecimento da Igreja. Uma voz que pregasse biblicamente era
uma voz que pregava contra essas práticas. Wycliffe toma como base o Senhor da pregação, o
próprio Jesus Cristo e seus discípulos, mostrando a necessidade de continuidade desse
sublime serviço, como ele mesmo chama, para alcançar os perdidos.
Passados alguns anos, chega-se a Erasmo, que antecedeu Lutero na luta pela reforma.
Homem que pregava insistentemente a autoridade da Bíblia como regra de fé e prática, e
defendia a necessidade de eficácia da interpretação das Escrituras. O que é fácil de observar
no seguimento da História, com a continuidade desse fundamento por Lutero.
Para Lutero o púlpito era um lugar especial: “A reforma deu centralidade ao sermão.
O púlpito ficava mais alto que o altar, pois Lutero sustentava que a salvação era [por meio
de Cristo] mediante a Palavra.” (STOTT, 2003, p. 24).
De tudo o que Lutero nos ensinou, destaca-se um grande tesouro a ser citado:
Nove propriedades e virtudes de um bom pregador: ensinar sistematicamente [...]
ter boa perspicácia [...] ser eloqüente [...] ter uma boa voz e boa memória [...] deve
saber quando chegar ao fim [...] deve ter certeza da doutrina [...] deve arriscar e
envolver o corpo e o sangue (referência a Cristo), as riquezas e a honra, na Palavra
[...] deve se deixar zombar e escarnecer por todos (LUTHER apud STOTT, 2003,
p. 25).

Agora é possível entender um pouco do que foi a luta dos reformadores, e qual
estímulo tinham para enfrentar a Igreja romana sem hesitarem em suas convicções. Lutero pôs
em prática tudo o que defendeu, foi homem condizente com aquilo que ensinou, mesmo na
crise, nunca negou a sua fé e suas convicções. Lutero era homem sustentado e ancorado na
Palavra de Deus. “Foi a pregação dessa Palavra divina, e não a intriga política, nem o poder
da espada, que estabeleceu a Reforma na Alemanha.” (STOTT, 2003, p. 26).
Fortalecem a tese dessa monografia as palavras de Lutero após a reforma:
“Simplesmente ensinava, pregava e citava por escrito a Palavra de Deus: fora disso, eu nada
fazia.” (RUPP apud STOTT, 2003, p. 26).
29

Chega-se a outro grande nome da reforma, João Calvino, que dizia que a principal
marca de uma Igreja verdadeira era a pregação fiel da Palavra: “Sempre onde vemos a
Palavra de Deus pregada e ouvida com pureza [...] ali, não se pode duvidar, existe uma
igreja de Deus.” (CALVINO apud STOTT, 2003, p. 26).
Muitos outros nomes fizeram parte dessa História, mas cita-se para concluir: Hugh
Latimer, um grande pregador popular da reforma inglesa. Tinha na exposição bíblica a fonte
de suas pregações para atingir o coração do homem. Seu mais famoso sermão, intitulado “O
Sermão do Arado”, pregado na Catedral de São Paulo em 18 de janeiro de 1548, tinha como
ênfase: “A Palavra de Deus é semente para ser lançada no campo de Deus.” (cf. STOTT,
2003, p. 27-29).
Embora o cristianismo, ao longo de sua História, fosse perdendo a essência da
exposição bíblica, muitos homens, guiados pelo Espírito, lutaram para restaurar a autoridade
bíblica na pregação, dos quais se destacam os nomes citados acima.

1.2.3.3 Puritanos5
Sabe-se que o movimento puritano tem bastante a ensinar ao cristianismo
contemporâneo em muitos parâmetros de sua essência. Em especial destaca-se a ênfase na
pregação bíblica. Lloyd-Jones afirma: “O tema pregação vem como clímax em toda e
qualquer consideração do conceito puritano do culto e da administração da Igreja Cristã.”
(LLOYD-JONES, 1993, p. 378).
Os puritanos tinham em mente essencialmente a exposição das verdades das Escrituras
Sagradas, na pregação, era algo central, que girava em torno de uma boa hermenêutica e
exegese bíblica, como base para não perder o foco expositivo. Existe uma gama de exemplos
para citar, homens considerados por Irvonwy Morgan como “pregadores piedosos”; e ainda
argumenta:
O que há de essencial em entender os puritanos é que eram pregadores antes de
qualquer outra coisa, e pregadores com ênfases específicas que podiam ser
distinguidas de outros pregadores por aqueles que os escutavam [...] A tradição
puritana, em primeira e última análise, deve ser avaliada em termos do púlpito.
(MORGAN apud STOTT, 2003, p. 30).

Para o movimento puritano a pregação não era apenas uma transmissão de


informações para um intelecto apurado de conhecimento, mas uma ação transformadora,

5
“O puritanismo foi um movimento religioso do século XVI, dentro do protestantismo inglês” (CHAMPLIN,
2004, p. 513). “Os puritanos davam muita ênfase na certeza plena da sua salvação. Sabiam que o propósito do
homem é "glorificar a Deus e gozá-lo para sempre" mas entendiam que, enquanto não se alcançasse essa certeza
plena de que você era um eleito, não poderia glorificar a Deus de forma total” (NICODEMUS, internet).
30

através do poder do Espírito de Deus, e pessoas eram desafiadas a viver de modo digno dos
preceitos de Deus.
Dr. Lloyd-Jones cita algo interessante acerca do Diretório de Westminster, elaborado
pela Assembléia de Westminster, na década de 1640, que diz:
A pregação da Palavra, sendo o poder de Deus para a salvação, é uma das mais
grandiosas e excelentes obras pertencentes ao ministério do evangelho, deve ser
realizada de tal maneira que o obreiro não necessite envergonhar-se, mas se salve e
salve os que o ouvem (LLOYD-JONES, 1993, p. 382-383).

É notória a relevância que se dava à excelência da pregação e a seus efeitos na vida do


homem. Os puritanos colocavam a pregação num plano singular em seus ministérios, por isso
se dedicavam exaustivamente para fazê-la eficaz.
Outro exemplo clássico, no século XVI, é Richard Baxter, autor do livro The
Reformed Pastor, publicado em português com o título O Pastor Aprovado. Destaca-se pelo
modo como expõe o perfil e as obrigações do obreiro, especialmente o manejar da Palavra de
Deus. O Pr. Silas Arbolato, ex-professor do Centro de Estudos Teológicos do Vale do
Paraíba, considerando a importância do livro de Baxter, afirmou que é necessário o obreiro,
antes de seguir no ministério pastoral, ler essa especial obra.
Há outros nomes que tinham o mesmo pensamento de excelência e piedade na
pregação. Cotton Mather, norte americano, escritor do livro Student and preacher (Estudantes
e Pregador), cujo conceito era dum ministério baseado na pregação.
Com a pregação como ministério característico, destaca-se na História o famoso John
Wesley. Comenta Stott: “O tempo todo, seu manual de estudo era a Bíblia, pois sabia que o
propósito supremo dela era apontar para Cristo e iluminar seus leitores no caminho da
salvação.” (STOTT, 2003, p. 33). John Wesley era um exímio pregador daquilo que aprendia
em suas meditações. Ele sabia da importância de viver antes de ensinar, pois sabia que sua
vida era o referencial em suas pregações.
Contemporâneo a John Wesley, um pouco mais jovem, George Whitefield, homem
piedoso, ao qual não faltavam boas qualidades: eloqüente, zeloso, dogmático, apaixonado.
Conseguia manter seu auditório fascinado pela autoridade e convicção com que apresentava
as Escrituras, era um grande expositor.
Entre tantos preciosos exemplos, conclui-se essa parte da pesquisa com o resumo de
Lloyd-Jones acerca do que significava pregação no período conhecido como puritano: “Do
começo ao fim o que o pregador diz deve vir da Palavra. O que importa não é o homem ou
suas idéias; sempre deve ser esta Palavra.” (LLOYD-JONES, 1993, p. 388).
31

1.2.4 Processo e Estrutura


Numa perspectiva bem teológica é Deus quem determina o teor do sermão. Porém,
não é correto isentar o pregador da sua responsabilidade pessoal de dedicar-se ao preparo do
sermão nos seus vários seguimentos. O que se seguirá nesta monografia é uma explanação dos
princípios básicos, essenciais no processo e na estrutura dum sermão expositivo.

1.2.4.1 Escolha do Texto


Escolher um texto para ser pregado não significa, apenas, procurá-lo na terça-feira,
seis dias antes da entrega do sermão. Um ministério que é eficaz no seu púlpito é aquele em
que existe um planejamento mais minucioso dos seus sermões. Série de sermões no mesmo
livro é uma grande dica. Para Robinson “um ministério consciencioso nas Escrituras depende
do planejamento bem pensado para o ano inteiro.” (ROBINSON, 1983, p. 38).
É notória a importância, numa pregação expositiva, de se dar seqüência aos textos.
Isso facilita a preparação do sermão, bem como faz dos sermões, mensagens mais precisas
dentro do teor bíblico, além de não permitir que o pregador fique desorientado quanto à
mensagem.
Russell Shedd argumenta:
O texto base deve ter movimento e direção. Os ouvintes devem ganhar uma
expectativa para saber o que vai seguir na exposição. O texto naturalmente deve
levar o ouvinte para frente, isto é, prosseguindo para a conclusão. Uma mensagem,
que simplesmente discorre sobre versículos seguidos, sem criar qualquer
antecipação, não vale muito. Suscitar interesse para saber o “fim da história” não é
um alvo mal escolhido. (SHEDD, 2000, p. 66).

Fica bem firmado que o mais importante não é saber que texto pode ser usado num
sermão, pois todos podem, mas, num planejamento bem feito, estabelecer a seqüência a ser
pregada na igreja. Isso facilita para o pregador, assim como traz consistência aos sermões e
ainda pode fazer com que os ouvintes se interessem e passem a estudar de maneira mais
constante a seqüência apresentada.
Tudo isso não exime a ação do Espírito Santo, que por sua vez pode mudar a direção
da seqüência, como interrompê-la, e levar o pregador a uma outra mensagem que certamente
será muito mais apropriada ao momento.

1.2.4.2 Exegese Prática


Segundo Liefeld existe, entre a exegese e a homilética, um abismo decorrente da
maneira limitada do ensino aplicado aos alunos de teologia. No seu livro Exposição do Novo
32

Testamento, coloca como objetivo fazer uma ponte sobre esse abismo. Porém, a ressalva a ser
feita é o fato de que, mesmo havendo essa limitação, isso não exime o pregador da sua
responsabilidade de buscar entendimento do texto na sua língua de origem.
Argumenta John Grassmick:
O fato permanece: um método não é fim em si mesmo. Uma única aplicação do
método não irá produzir resultados perfeitos conclusivos, nem garantirá que o
estudante se torne um exegeta perfeito. Boa exegese é resultado de muito trabalho.
E isto exige tempo, prática repetitiva, e total dependência do ministério de ensino
do Espírito Santo. (GRASSMICK apud OLIVEIRA, 2000, p. 15).

Mesmo tendo necessidade de uma prática permanente, a exegese é um fator de suma


importância ao elaborar-se a pregação.
Com base na compilação do Prof. Pr. José Humberto de Oliveira, Exegese do Novo
Testamento I, apresenta-se a seguir os passos para prática duma boa exegese (cf.
HUMBERTO, 2006).

A) Fazer um estudo panorâmico do livro - familiarizar-se. Ler todo o livro


bíblico em português em pelo menos três versões; ler uma vez em grego; e
identificar as divisões principais do livro. Descobrir o gênero literário, assim
como o assunto básico; separar cada parágrafo, dando títulos a eles; e observar o
todo para determinar o propósito principal do autor. Procurar, em comentários e
compêndios, informações sobre autoria, data, personagens, objetivos da escrita e
destino.
B) Fazer um estudo intensivo - analisar. Crítica textual, análise estrutural, análise
gramatical, análise léxica, análise histórica, e problemas teológicos.
C) Fazer um estudo extensivo – sintetizar. Traduzir o texto, montar um esboço
exegético, argumentar, fazer comentários e aplicações, até chegar ao esboço do
sermão.

Talvez pareça exaustivo todo esse processo, mas a prática leva a uma facilidade que
acompanhará o pregador na preparação dos sermões. O fato é que o pregador que quer ser
eficaz na sua mensagem precisa entender, da melhor forma possível, o significado do texto e
do contexto. Somente uma boa exegese pode dar esse conhecimento.
33

1.2.4.3 Hermenêutica Prática


O objetivo da hermenêutica é equipar o pregador para que possa, com dedicação e
piedade, interpretar o texto bíblico, dando-lhe condições de desenvolver e aplicar aquilo que
aprendeu para si mesmo e para o ouvinte.
Para que um sermão seja fiel à mensagem bíblica, é muito importante que se aplique
fundamentalmente os princípios hermenêuticos na sua elaboração. Certamente que seria
necessário uma pesquisa mais minuciosa sobre o assunto, e aqui serão apresentados apenas os
princípios gerais de interpretação, sem destrinchá-los no seu desenvolvimento:
• Contextualmente
• Literalmente
• Historicamente
• Culturalmente
• Gramaticalmente
• Ciente do progresso da revelação
• Conforme o propósito principal do autor
• Comparando as Escrituras
• Cristocentricamente
• Prioritariamente
• Teologicamente
• Conforme o gênero literário
• Com oração

1.2.4.4 Desenvolvimento
Ao longo do ministério, obviamente, cada pregador desenvolverá um estilo próprio.
Porém, é necessário levar em consideração os procedimentos apresentados nesta monografia,
sobre escolha do texto, exegese prática e hermenêutica prática.
Tendo em vista que já se sabe qual texto será usado, já se obteve conhecimento dos
fatores gramaticais e contextuais e já se interpretou o texto, agora a responsabilidade é
desenvolver as idéias de forma que elas possam ser aplicadas ao ouvinte.
Dr. Shedd diz que a atração de uma mensagem depende muito de sua organização. E
diz também que é um desafio separar as idéias do texto e juntá-las com destreza e equilíbrio
(cf. SHEDD, 2000, p. 89). Claro, não é um processo fácil e rápido, para Stott “os grandes
34

pregadores, que têm influenciado sua geração, testemunham a necessidade de preparação


constante.” (STOTT, 2003, p. 227).
O pregador tem que ter equilíbrio entre as informações que ele adquiriu no texto, no
processo de preparação, e a aplicação que irá fazer aos ouvintes. Todo o desenrolar leva certo
tempo, mas é importante para que a pregação seja realmente eficaz.

1.2.4.5 Estrutura
No processo de estruturar o sermão, também existem algumas variantes de modelos.
Esta monografia se proporá a mostrar os princípios básicos dessa estrutura, o que na verdade
já vem desde o processo de pesquisa, estudo e desenvolvimento do sermão.
Com base no livro Prega a Palavra, de Karl LACHLER, e na exegese da epístola de
Efésios do Pr. José Humberto de OLIVEIRA, abordar-se-ão alguns passos para estruturar bem
um sermão. Para isso se usará o texto de Efésios 4.1-6.

Primeiro - É necessária uma proposição central. Exemplo – O convite de Paulo à


Unidade Cristã está caracterizado por três princípios.
Segundo – Introduzir-se o texto, ou o tema do sermão – Exemplo:
CONTEXTO: Nos três primeiros capítulos de Efésios, o apóstolo Paulo desenvolveu
como Deus, através de Jesus Cristo, está criando uma nova vida para as pessoas, e também
uma nova sociedade. Agora, a partir do capítulo 4, ele avança estabelecendo os novos padrões
em que a Igreja deve andar. Volta-se daquilo que Deus tem feito para aquilo que devemos
SER e FAZER, ou seja, da doutrina para a prática.
Terceiro – Colocam-se as divisões principais. Exemplo:
Paulo faz um convite para a Igreja (v.1)
“Rogo-vos” = exorto, suplico
“... o prisioneiro no Senhor...” – Sabemos que Paulo fora detido por causa da sua
lealdade ao Evangelho (Ef 3.1; 6.20).
“... que andeis de modo digno...” – O significado básico é: “aquilo que equilibra os
pratos da balança”, “equivalente”.
“... digno da vocação a que fostes chamados...” – Como é essa dignidade? Duas
características principais: (1) É um só povo, uma família, composta de judeus e gentios,
escravos e livres, homens e mulheres; (2) É um povo santo, distinto do mundo secular,
separado por Deus e para Ele. Paulo está nos convidando a viver de acordo com estes padrões,
35

ou seja, “peço a vocês que vivam daquela maneira digna que Deus determinou quando os
chamou.” (BLH).

A) A UNIDADE CRISTÃ DEPENDE DA QUALIDADE MORAL (v. 2)


Paulo retrata a vida digna do nosso chamamento como sendo caracterizada por cinco
virtudes cristãs:

Humildade
Considerar-se pequeno, dependente (Jo 15.5,7), e ao mesmo tempo, reconhecer o
poder de Deus (Fp 2.3).
Mansidão
Não é sinônimo de fraqueza, mas força controlada pelo Espírito Santo.
Longanimidade
Paciência ilimitada.
Suportar uns aos outros
A palavra indica ter paciência com alguém até que termine a provocação.
Amor
Amar é procurar de modo construtivo o bem-estar dos outros e o bem da comunidade.

B) A UNIDADE CRISTÃ É MANTIDA PELO ESFORÇO DE CADA UM (v. 3)


“... esforçando-se diligentemente...” = “fazer todo esforço para ser diligente” – “Não
poupar esforço algum”.
“... por preservar...” = “manter, guardar”
“... no vínculo da paz.” = “aquilo que mantém as coisas juntas”

C) A UNIDADE CRISTÃ SURGE DA UNIDADE DO PRÓPRIO DEUS (vv. 4-6)


Paulo usa a palavra “um” sete vezes.
Uma leitura minuciosa revela que três destas sete unidades fazem alusão às três
pessoas da trindade, ao passo que as outras quatro dizem respeito à nossa experiência cristã
com relação às três pessoas da trindade.
Primeiro, há somente um corpo por que há somente um Espírito (1Co 12.13).
Segundo, há uma só esperança, uma só fé, um só batismo, porque há um só Senhor
(Jesus).
Terceiro, há uma só família porque há um só Deus e Pai.
36

Resumindo:
O único Pai cria a única família;
O único Senhor Jesus cria a única fé, única esperança e o único batismo;
O único Espírito cria o único corpo.
Quarto - Usar ilustrações para facilitar o entendimento, se achar necessário.
Quinto – Concluir o sermão de forma a fechar bem o assunto, e recapitular todos os
pontos dele.

1.3 Pregação Cristocêntrica


Uma literatura que descreve de maneira muito precisa o enfoque necessário da
pregação expositiva e teocêntrica é Pregação Cristocêntrica de Bryan Chapell. Nela são
revelados alguns fatores essenciais acerca da pregação expositiva, mas, além disso, trata sobre
o que ele mesmo chama de “FCD - Focalização da Condição Decaída,” ou seja, “É a
condição humana recíproca que os crentes contemporâneos partilham com aqueles ou aquele
a quem o texto foi escrito que requer a graça da passagem.” (CHAPELL, 2002, p. 44, grifo
meu).
Numa análise simples dos argumentos de Chapell, a impressão que se tem é que ele
enxerga apenas os aspectos negativos. Porém, isso não é verdade, para Chapell o FCD indica
o real assunto da mensagem, e guia o pregador a uma aplicação relevante amparada pelo
próprio texto. Ele usa essa condição para desvendar o foco central do objetivo do autor.
Algo essencial de se observar nos argumentos de Chapell é o fato de que está
direcionando o FCD para algo superior, ou como ele mesmo chama, “graça da passagem”. É
nesse ponto que se chega à percepção de que em toda História humana, ou em todos os relatos
bíblicos, sempre houve uma dependência dessa graça. É o que teologicamente é chamado de
REDENÇÂO6. Chapell ainda faz a seguinte colocação: “É para proporcionar autoridade e
definir o caráter dos elementos redentores na Escritura que nós podemos, por outro lado,
aplicar ao nosso estado decaído.” (CHAPELL, 2002, p. 289).
Diante de tal afirmação é certo que muitas perguntas surgem como questionamento a
essa tese. Uma que certamente seria feita é: Em todos os textos encontraremos a mensagem
do sacrifício vicário, da ressurreição e consequentemente da redenção? Considerando apenas
a passagem isoladamente, a resposta é ‘não’. Existem diversos textos que são apenas
narrativos, ou tratam de questões morais, ou têm assuntos específicos. Mas é preciso se

6
“Redenção indica o preço pago para comprar de volta um escravo ou cativo, tornando-o livre de pagamento de
um resgate.” (CHAMPLIN, 2001, p.578, v.5).
37

enfatizar que a pregação expositiva nunca pode se restringir a um texto isolado.


Obrigatoriamente é necessário se olhar o contexto e retratar toda a História decorrente daquele
fato. E quando isso é feito, agora sim, considerando todo o desenrolar da passagem, a resposta
é ‘sim’, sempre encontraremos uma mensagem cristocêntrica, uma mensagem de redenção.
Cristo se revela de Gênesis a Apocalipse.
É por essa razão que Thomas F. Jones afirma:
A verdadeira pregação cristã precisa centralizar-se na cruz de Jesus Cristo. A cruz é
a doutrina central dos santos escritos. Todas as outras verdades reveladas, ou
encontram seu cumprimento na cruz, ou são necessariamente fundamentadas sobre
ela. Portanto, nenhuma doutrina da Escritura pode fielmente ser apresentada aos
homens a menos que se torne manifesto o seu relacionamento com a cruz. Aquele
que é vocacionado para pregar, portanto, deve pregar a Cristo, pois nenhuma outra
mensagem há que proceda de Deus. (JONES apud CHAPELL, 2002, p. 294).

1.3.1 O que é
É uma pregação centralizada na obra de Deus para o resgate do homem através do
sacrifício expiatório de Jesus Cristo na Cruz do Calvário. Reconhecendo que Cristo está no
mais alto degrau da doutrina bíblica, entendendo que a redenção do homem veio por Ele, e
somente por Ele. É saber que em toda a Escritura existe um foco cristológico.
Um exemplo prático bíblico é o do apóstolo Paulo, que decidiu nada saber entre os
homens, senão Jesus Cristo (1Co 2.1-2). E desenvolveu seu ministério apontando para a obra
de Jesus, o Ungido de Deus entregue à morte pelos homens, a fim de salvá-los.
É compreender que todos os ensinos doutrinários são implicações da cruz.

1.3.2 O que não é


Como já mencionado, após as afirmações feitas, obviamente que dúvidas surgem
acerca do assunto. É certo também que nem todas serão respondidas nesta pesquisa. Mas é
imprescindível que sejam mencionadas algumas coisas que a pregação cristocêntrica não é,
entre as quais se destacam:
Não é colocar Cristo literalmente em todos os textos;
Não é eximir a ação das outras duas pessoas da divina trindade;
Não é forçar os textos para encontrar Cristo;
Não é desconsiderar a literalidade do texto;
Não é desprezar os princípios hermenêuticos; e
Não é desvalorizar a ação vetero-testamentária de Deus.
38

1.3.3 Por Que Pregação Cristocêntrica


Em Cristo está a consumação do plano salvífico de Deus (Jo 19.30). Ao longo das
páginas da Bíblia, como o próprio Jesus afirmou, encontram-se referências a Seu respeito: “E,
começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito
constava em todas as Escrituras.” (Lc 24.27). Por razões como estas não há como fugir da
centralidade de Cristo na pregação. Cristo é a porta para a salvação (Jo 10.7); ninguém pode
chegar ao Pai senão por Ele (At 4.12); somente Ele é o mediador no relacionamento entre o
homem e Deus (1Tm 2.5); Ele é nosso supremo pastor (Sl 23; Jo 10).
Foi o próprio Cristo quem disse: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a
vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim.” (Jo 5.39).
Sidney Greidanus faz a seguinte colocação:
A unidade da história redentora implica a natureza cristocêntrica de cada texto
histórico. A história redentora é a história de Cristo. Ele permanece no seu centro, e
não menos no seu início e fim [...] À vista disso, torna-se imperativo que nem uma
única pessoa fique isolada desta história e se mantenha à parte dessa grande batalha
(GREIDANUS apud CHAPELL, 2002, p. 317).

Chapell considera vital entender no histórico bíblico a trajetória de Jesus contra a


serpente maligna, como prova da cristocentricidade da mensagem bíblica. Para ele, “uma
passagem retém seu foco cristocêntrico, e um sermão torna-se cristocêntrico” pelo fato de o
sermão identificar “uma função que esse texto em particular legitimamente exerce no grande
drama da cruzada do Filho contra a serpente.” (CHAPELL, 2002, p. 317).
Pregação cristocêntrica porque Cristo é o centro da mensagem bíblica. Todo expositor
tem que obedecer ao que é chamado por Greidanus, de “imperativo da pregação”: Cristo
Jesus.

1.3.4 Teologia Cristocêntrica


A figura central da História da humanidade é a pessoa de Jesus Cristo. Ele é o agente
de todas as coisas (Jo 1.1-3). Ele participou da História, e com sua própria vida, deu ao
homem a oportunidade de ser salvo da condenação eterna (Fp 2.5-11). Segundo Bancroft,
omiti-lo da História é o mesmo que omitir da astronomia as estrelas ou da botânica as flores
(cf. BRANCROFT, 2001, p. 97). Jesus faz parte de todo o conteúdo bíblico, suas pegadas
estão desde a criação até a consumação, de Gênesis a Apocalipse. Teologia cristocêntrica
significa: Cristo é o centro de todas as coisas. Dr. Pierson faz a seguinte afirmação: “Cristo é
tema de toda a Escritura, o Criador de todos os mundos e criaturas, o Controlador de toda a
história, o eterno e imutável Jeová.” (PIERSON apud BANCROFT, 2001, p. 119).
39

1.3.4.1 Cristo Atemporal


Quando se conta uma época da História, ou se relembra um fato, ou mesmo quando se
tem uma perspectiva de algo futuro, o que se faz é um direcionamento para algum fato de
alguma época. Considerando que a humanidade está fixa num período de tempo, cada ser
humano tem sua História escrita numa época determinada. Porém, quando se trata da pessoa
de Cristo, não é possível limitar essa existência - Cristo é antes de tudo e será eternamente.
Ele mesmo afirmou: “... antes que Abraão existisse, EU SOU” (Jo 8.58), e também: “Eu sou o
Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim.” (Ap 22.13 cf. Ap 1.17).
Cristo nunca esteve ou estará preso a um período de tempo. Ele é Deus, e por isso, está
fora do tempo. Ele é eterno tanto a “priori7” quanto a “posteriori8”, ou seja, Ele é eterno tanto
para o passado, quanto para o futuro.

1.3.4.2 Cristo e Sua Tipologia9


Uma passagem que traz o belo retrato dessa verdade, já mencionada nesta monografia,
é a do evangelista Lucas, no capítulo 24, verso 27. Nela o próprio Senhor aponta para o
Antigo Testamento com o intuito de mostrar aos Seus discípulos que desde o princípio Ele
estava sendo anunciado. Começa em Gn 3.15, passagem intitulada como protoevangelho, e
que segundo GRONINGEN, foi o que suavizou o pronunciamento de maldição, dado por
Deus, por ocasião da queda, onde o Pai, na Sua misericórdia, anunciou um caminho de
redenção (cf. GRONINGEN, 1995, p. 103-104). Segue nos escritos de Moisés, nos Profetas e
nos Salmos (Lc 24.44).
Seguir-se-ão alguns exemplos de Cristo: Servo (Is 53); Varão crucificado (Sl 22);
Arão (cf. Êx 28.1 com Hb 5.4,5 e Lv16. 15 com Hb 9.7; 24); Abraão (cf. Gn 17.5 com Ef
3.15); Isaque e José prefiguram Cristo de muitas maneiras; Cordeiro Pascoal (Êx 12, Jn
1.29; 19.36); Davi (cf. 2Sm 8.15 e S1 89.19 com Ez 37.24 e F1 2.9); Serpente de bronze
(Nm 21.8 e Jn 3.14-15); Tabernáculo (Êx 40.2,34 e Hb 9.11); Templo (1Rs 6.1 e Jn 2.19-
21).
(Precisa-se tomar muito cuidado ao se analisar na Bíblia as tipologias. Existe um
risco grande de se colocar Cristo onde Ele não está. É necessário se ter um zelo e uma
atenção especial no estudo das tipologias de Cristo).

7
Priori – Eterno na perspectiva do passado. Antes da criação do universo e de tudo o que existe.
8
Posteriori – Eterno na perspectiva futura. Posterior a tudo.
9
Tipologia – Termo usado no mundo antigo para indicar a marca de um golpe ou uma impressão. Na Bíblia o
modelo é usado para mostrar uma correspondência entre duas situações históricas, tais como Adão e Cristo (cf.
Rm 5.12-21); ou a correspondência entre o padrão celestial e seu equivalente terrestre.
40

1.3.4.3 Cristo e a Mensagem Redentora


É muito importante mentalizar o FCD. O homem precisa saber da sua natureza
decaída, e da sua condição de morte eterna, considerando que ainda não creu na obra salvífica
de Cristo. Por essa razão, Deus enviou Seu Filho para morrer e ressuscitar para nele se ter a
Redenção (Jo 3.16; Rm 5.8).
Segundo Chapell: “O propósito do sermão permanece fiel ao objetivo original do
texto de preparar o povo de Deus para compreender sua atividade redentora, predizendo-a,
refletindo suas necessidades, e-ou detalhando os resultados da obra de Cristo em nossa
vida.” (CHAPELL, 2002, p. 321). É fato, e deve ser o foco do pregador, que o homem
necessita da redenção. Ninguém pode conquistar a salvação por si só, ela só é possível por
meio de Jesus Cristo.
Para Chapell: “o sermão se mantém expositivo e cristocêntrico [...] porque ele situa o
objetivo da passagem dentro da obra redentora de Deus.” (CHAPELL, 2002, p. 321).

Figura 1: Exposição Cristocêntrica10

10
Figura extraída do livro de CHAPELL, 2003, p.321.
41

2 A RESPONSABILIDADE DO MENSAGEIRO COM A PREGAÇÃO


EXPOSITIVA E CRISTOCÊNTRICA
Junto à missão mais sublime que um homem pode receber, a vocação para pregar, está
a maior responsabilidade, que é viver de forma aprovada por Deus: “Procura apresentar-te a
Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra
da verdade.” (2Tm 2.15). Agora a ótica se volta para a pessoa do pregador, apresentando suas
responsabilidades pessoais acerca do ministério da pregação.
Apresentar com excelência alguém que é perfeito, Jesus Cristo, não é tarefa fácil -
exige preparo, disciplina, capacitação, sabedoria e orientação do alto. É por essa razão que
Baxter afirma: “O primeiro dever é cuidar de si próprio. O segundo é cuidar do rebanho
todo.” (BAXTER, 1989, p. 33). Aquele que não tem para si o ensino não é apto para ensinar,
por isso, cabe ao mensageiro discernir e praticar o que lhe é devido, conforme se seguirá nesta
pesquisa.

2.1 Fidelidade à Identidade


A identificação ministerial não se dá pela opinião do ministro, mas por aquilo que a
Bíblia já deixou como perfil para ele (1Tm 3.1-13; Tt 1.5-9). Ser fiel a essa identidade não é
uma opção, mas uma obrigação. “Atentai por vós e por todo o rebanho sobre o qual o
Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou
com seu próprio sangue.” (At 20.28).

2.1.1 Arauto
Do grego keryx significa, segundo o léxico de Grimm-Thayer, “um mensageiro
revestido de autoridade pública que transmitia as mensagens oficiais dos reis, magistrados,
príncipes, comandantes militares.” (GRIMM-THAYER apud STOTT, 2005, p. 33).
Stott apresenta um pequeno histórico do termo:
11
No mundo de Homero , escreve o Dr. Mounce, o arauto era um homem digno, que
ocupava um cargo importante na corte real, enquanto na era pós Homérica [...] o

11
“Homero (gr. ) foi o primeiro grande poeta grego que teria vivido há cerca de 3500 anos, consagrou o
género épico com as suas grandiosas obras: A Ilíada e a Odisséia; e, além destas, mas sem respaldo histórico ou
literário, são a ele atribuídas as obras Margites, poema cômico a respeito de um herói trapalhão; a Batracomiomaquia,
paródia burlesca da Ilíada que relata uma guerra fantástica entre ratos e rãs, e os Hinos homéricos. Nada se sabe
seguramente da sua existência; mas a crítica moderna inclina-se a crer que ele terá vivido no século VIII a.C., embora
sem poder indicar onde nasceu nem confirmar a sua pobreza, cegueira e afã de viajante, caracteres que
tradicionalmente lhe têm sido atribuídos. A opinião predominante ao longo dos séculos afirma a unidade das duas
obras épicas, embora admita que talvez tenham sido elaboradas através de um fundo original primitivo. No século
XVIII foi levantada pela primeira vez pelos eruditos a questão homérica, contrapondo à opinião tradicional a negação
da existência de Homero e a afirmação de que as duas epopéias não passam de conglomerados de composições
anteriores. A questão ainda não se pode considerar totalmente resolvida.” (WIKIPÉDIA, acesso em 20/05/2007).
42

arauto servia mais ao Estado que ao rei. Seu trabalho era fazer proclamações
oficiais públicas. Ele precisava ter voz potente, e às vezes usava uma trombeta.
Além disto, era essencial que o arauto fosse um homem de bastante autocontrole. A
proclamação precisava ser transmitida exatamente como recebida. Como
mensageiro direto de seu senhor, ele não podia ousar acrescentar sua interpretação
(STOTT, 2005, p. 34).

Ser um arauto significava ter um cargo de suma importância, pois pesava sobre ele a
responsabilidade de transmitir sem erros a mensagem do seu superior. Isso mostra que não há
uma outra palavra que melhor descreva a identidade do pregador. Digno de nota está o fato de
que o arauto nunca fazia, ou alterava, ou arrumava a mensagem de seu superior, mas apenas
anunciava com todas as linhas e vírgulas aquilo que lhe era passado. Por isso, afirmou Stott:
“O Novo Testamento é rico em metáforas, e a mais importante destas é a do arauto, que
recebe a solene (e emocionante) responsabilidade de proclamar as boas novas de Deus.”
(STOTT, 2005, p. 31).
Ser um arauto de Deus, cuja mensagem é perfeita, requer uma responsabilidade sem
igual. É obrigação de todo pregador ser fiel a essa identidade, e nunca omitir ou deturpar a
mensagem de Deus, mas sempre expor, com interpretação correta, e apresentando Cristo.
A responsabilidade do pregador, como já visto na definição de “arauto”, é transmitir e
levar uma mensagem já escrita, em sua forma essencialmente correta. Paulo, como um
mensageiro de Deus, entendia como poucos o que isso significa, por isso deixou registrado:
“Nós, porém, pregamos a Cristo crucificado.” (1Co 1.23a, grifo meu). No grego “keryssomen
Christon estauromenon”, a mensagem é expressiva e direta, não é o que se pensa ou imagina,
mas um Cristo real que morreu e também ressuscitou para remissão dos pecados daqueles que
crêem nele. Outro texto que ajuda o entendimento é 2Co 4.5, que diz: “Pois não pregamos a
nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor.” (grifo meu). Aqui a expressão no grego é
“kyrion”, significando “Senhor”, alguém superior a tudo, dono de tudo e sobre tudo. É esse
Cristo que deve ser pregado, o Senhor de tudo.
Conclui-se com a palavra de Stott, que diz:
A pregação não existe para a propagação de idéias, opiniões e ideais, mas para
proclamação dos poderosos atos de Deus [...] Palavra de Deus é essencialmente o
registro e a interpretação do grande feito redentor de Deus em Cristo e através dele.
As Escrituras dão testemunho de Cristo, o único Salvador dos pecadores. Assim,
um bom despenseiro da Palavra será sempre um zeloso arauto das boas novas da
salvação em Cristo. (STOTT, 2005, p. 32).
43

2.1.2 Embaixador
No hebraico, “malak” pode ser traduzido por “enviado”, e “melis”, que significa
“intérprete”, ou “embaixador” (2Cr 32.31; 35.21; Is 30.4). No grego “presbeutes”, que
significa literalmente “embaixador” (2Co 5.20). Aparece também na forma verbal
“presbeuomai” em 2Co 5.20 e Ef 6.20. Champlin define da seguinte maneira: “Ministros
cristãos, vistos como encarregados de uma missão especial, que visa promover o ministério
salvífico de Cristo.” (CHAMPLIN, 2001, p. 349, v. 2). O que se nota claramente é que as
funções que qualificam o pregador, ou que definem sua identidade, estão sempre intimamente
ligadas. Enquanto o arauto significa transmitir sem erros a mensagem já revelada, o
embaixador teria essa mesma responsabilidade, mas agora como alguém que faz algo que vai
além, já que se trata da transmissão das verdades de Deus, na finalidade de ser representante.
Segundo Champlin existem algumas diretrizes que definem bem o que é embaixador:
O embaixador constrói pontes [...] é representante do rei, e anuncia sua mensagem,
que contém anúncio da salvação [...] tem responsabilidade de cumprir bem a sua
tarefa [...] é investido de grande honra, e suas palavras devem ser respeitadas, tal
como seu rei deve ser respeitado [...] não pode envolver-se na preguiça, em atos
errados, em linguagem dúbia, e em qualquer coisa que impeça sua missão e eficácia
[...] deve apresentar sua mensagem mediante palavras, atos e caráter bem formado
[...] deve ser uma pessoa que promova e viva a lei do amor [...] deve conhecer o rei
[...] deve ser humilde. (CHAMPLIN, 2001, p. 349, v. 2).

Pode-se notar que sobre o embaixador pesa uma grande responsabilidade, pois agora
não mais significa apenas uma transmissão de informações, mas também disciplina, empenho
e vivência. Em outras palavras, o embaixador é alguém que precisa transmitir sem erros a
mensagem do seu Senhor, com a incumbência de também cumpri-la.

2.1.3 Despenseiro
Em palavras simples, despenseiro é alguém que toma conta dos negócios de outro ou
que os gerencia.
Segundo Stott:
Despenseiro é o empregado de confiança que zela pela correta utilização dos bens
de outra pessoa. Assim o pregador é um despenseiro dos mistérios de Deus, ou seja,
da auto-revelação que Deus confiou aos homens e é preservada nas Escrituras.
(STOTT, 2005, p. 16).

Alguns exemplos do Antigo Testamento podem ser listados: José, administrador de


faraó (Gn 43.18; 44.1,4); no reinado de Davi havia administradores (1Cr 28.1); assim como
no reinado de Tirza (1Rs 16.9). A idéia tem maior força quando se trata da teologia
44

neotestamentária, pois o original grego traz a palavra “oikonómos”, que significa “gerente da
casa”. Digna de nota é a definição do livro de Grimm-Thayer:
... dirigente de uma casa, ou dos negócios de uma casa; especialmente um
mordomo, despenseiro ou administrador [...] a quem o dono da casa ou o
proprietário confiou a direção de seus negócios, seus gastos e receitas, e o dever de
cuidar de cada um de seus servos, e até dos filhos menores de idade. (GRIMM-
THAYER apud STOTT, 2005, p. 19).

O termo aparece dez vezes no A.T. (Lc 12.42; 16.1, 3, 8; Rm 16.23; 1Co 4.1, 2; Gl
4.2; Tt 1.7; 1Pe 4.10). Outro termo grego que traz a idéia de despenseiro é “epítopos”, que
significa “encarregado”, e ocorre por três vezes (Mt 20.8; Lc 8.3; Gl 4.2).
O que fica em total evidência é a excelência do zelo de um mordomo. Alguém que
cuida dos bens alheios como se fossem dele, e como se tivessem um valor muito significativo.
Tal entendimento é fundamental para o pregador, pois cabe a ele zelar da melhor forma
possível pelos bens, ou seja, a Palavra de Deus conferida a ele, assim como de tudo que se
refere às coisas de Deus. Em linhas gerais todos os crentes são despenseiros ou mordomos do
Senhor, todos têm a responsabilidade de cuidar das coisas de Deus, mas é imprescindível que
o pregador entenda que não se trata de uma qualidade qualquer, mas de uma identidade a ele
conferida.
Ser fiel a essa identidade é ordem que veio com excelência por meio do apóstolo
Paulo: “Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e
despenseiro dos mistérios de Deus. Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros é que
cada um deles seja encontrado fiel.” (1Co 4.1,2).

2.1.4 Intérprete
Do termo grego “hermeneutes”, vem o que pode ser traduzido como “intérprete”, daí
vem “hermeneutikos” (hermenêutica), que pode ser traduzido como “interpretação”, ou a “arte
de interpretar”.
Segundo a enciclopédia de Champlin:
É a ciência das leis e princípios de interpretação e explanação. [...] o principal
aspecto desse estudo diz respeito à compreensão das Escrituras Sagradas, e por que
meios essa compreensão deve ser atingida.” (CHAMPLIN, 2001, p. 95, v. 3).

O Novo Dicionário da Bíblia diz que “o propósito da interpretação bíblica é tornar


claro o sentido e a mensagem dos escritos bíblicos aos leitores.” (DOUGLAS, 1995, p. 751).
No estudo da hermenêutica sabe-se que existe uma gama de regras para uma
interpretação correta, o que já foi de maneira sintetizada e apresentada no primeiro capítulo. É
importante ressaltar a necessidade de ser extremamente zeloso na interpretação bíblica. Não
45

se trata de formar opinião, e sim de apresentar de maneira clara e correta os princípios


imutáveis de Deus.
Trata-se de uma identidade, a identidade que marca o pregador. Um bom intérprete
não necessariamente será um excelente pregador, pois a pregação exige outras habilidades e
qualidades, mas sem dúvida, um grande pregador é sempre um grande intérprete.

2.1.5 Expositor
Com vista na ênfase da monografia, a qualidade de expositor é uma das mais
importantes na vida ministerial. Por isso Marinho afirma o seguinte: “As palavras têm poder
de produzir sentimentos, pensamentos e ações. Uma única palavra pode produzir amor ou
ódio, alegria ou tristeza, motivação ou depressão, pensamentos positivos ou negativos.”
(MARINHO, 1999, p. 17). Imagine-se a responsabilidade que pesa sobre o pregador, tendo
em vista que sua exposição tem base na Palavra de Deus. O que todo pregador precisa
entender e cauterizar em sua mente é o que afirma BOST: “A exposição do texto bíblico
permite que o Senhor Jesus, os apóstolos e outros homens inspirados preguem aos ouvintes.
Qual pregador moderno pode ultrapassar estes personagens ilustres?” (BOST, 1998, p. 65-
66).
É importante que o pregador tenha uma ótima eloqüência e oratória, que sua postura
seja exemplar e que saiba se expressar bem, mas o que não se pode perder de vista é o fato de
que o pregador está retransmitindo algo já revelado, como um servo dedicado que interpreta
bem e expõe com excelência. A responsabilidade do pregador na exposição está no fato de
que é Deus quem fala através da Bíblia e por intermédio dele. Ele é a ferramenta que Deus usa
para atingir e alimentar as ovelhas de Seu rebanho.
Embora muitos “pregadores” atuais tenham perdido esse foco e tenham se preocupado
apenas em como beneficiar-se com sua persuasão, essa é uma qualidade que todo pregador
vocacionado por Deus tem a obrigação de preservar e ser fiel.

2.1.6 Testemunha
Neste ponto da caminhada o correto é dizer que o pregador tem não apenas a
responsabilidade de ser testemunha, mas também, como Stott descreve, tem o grande
privilégio: “O pregador cristão tem o privilégio de testemunhar para Jesus e por Jesus,
defendendo-o, elogiando-o, colocando diante da corte alguma evidência que eles precisam
ouvir e considerar antes de dar o veredicto final.” (STOTT, 2005, p. 57).
46

Paulo se coloca nessa posição como alguém que recebeu esse ministério do próprio
Deus: “... testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé
em nosso Senhor Jesus [Cristo].” (At 20.21). Importante a se entender é o fato de que
testemunha aqui não significa algo visível, mas a experiência pessoal com Jesus Cristo na
salvação. A testemunha não pode alegar que ouviu falar, mas ela precisa ser incisiva e precisa
na sua afirmação, pois viveu pessoalmente essa experiência.
Stott apresenta como o Grimm-Thayer define testemunha e também apresenta sua
própria definição, o que traz clareza sobre o assunto:
O verbo grego martyrásthai ou martyrein significa [...] “ser testemunha, dar
testemunho, testificar, isto é, afirmar ter visto ou ouvido, ou experimentado, algo”
(GRIMM-THAYER apud STOTT, 2005, p. 66). [...] A testemunha é a que tem
conhecimento direto de certos fatos e que declara diante de uma corte de justiça o
que viu e ouviu. Testemunha aquilo que sabe. (STOTT, 2005, p. 66).

O pregador nunca será eficiente na sua mensagem sem conhecer a pessoa e obra
salvadora de Jesus Cristo em sua própria vida. Sua vida será sua pregação, sua experiência
será o seu testemunho, sua mensagem será Jesus Cristo.

2.1.7 Servo
Para esse termo existem diversas palavras correspondentes no grego, dos quais se
destacam: “oiketes”, o servo doméstico; “doulos”, o servo-escravo, sem direitos legais,
serviçal, pertencente ao seu senhor; e “diákonos”, que pode significar tanto ministro ordenado
para uma função no corpo eclesial, como simplesmente alguém que serve.
A idéia, quando se trata de pregação, é de um servo do Altíssimo que O serve com
total dedicação e zelo, sendo submisso totalmente aos seus mandamentos e transmitindo-os
como embaixador.
O perfil mais nítido e que pode ensinar da melhor maneira possível é o retrato de
Jesus: “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a
sua vida em resgate por muitos.” (Mc 10.45).
Charles Swindoll comenta o verso da seguinte maneira:
Quando Jesus se interessou em explicar a razão de sua vinda para o nosso meio, fê-
lo de forma direta: servir e dar. Não ser servido; não colocar-se sob os holofotes, no
picadeiro central. Não veio para ser famoso, nem conquistar a atenção do mundo,
nem se tornar conhecido, importante, popular, nem ser um ídolo. Não; e para falar a
verdade, esse tipo de coisa o repugnava. (SWINDOLL, 1983, p. 12).

Embora seja notória a repercussão que Jesus obteve no Seu ministério, Ele, o próprio
Jesus, nunca teve intuito de ser visto ou tratado como “uma estrela”. Ele nunca buscou um
47

“status” que pudesse fazer dele alguém que Ele não era, mas essencialmente buscou em Seu
ministério servir de maneira digna o Pai celestial. Considerando que todo crente tem que
buscar a semelhança de Cristo no seu caráter, e servi-lo, é algo que não pode de maneira
alguma sair da mente do crente e principalmente do pregador.
O servir foi a ênfase de Jesus, era o que os apóstolos pregavam, o que faziam os pais
apostólicos e o que deve ser considerado princípio maior na vida do pregador atual e de todos
os crentes, até a volta de Cristo.
“Ser servo não é dar indicação de fraqueza interior, mas de incrível força.”
(SWINDOLL, 1983, p. 182).

2.2 Disciplina Pessoal


Segundo Baxter, se o pregador não zelar por si, se não observar suas próprias
necessidades, ele pode até mesmo morrer de fome enquanto prepara comida para os outros
(cf. BAXTER, 1989, p. 51). Talvez essa seja uma das grandes falhas dos pregadores e
pastores em geral: cuidam demais dos outros e se esquecem que também necessitam do
mesmo cuidado. Nenhum pregador é suficientemente alimentador se antes não for alimentado
pelo “pão da vida”, diariamente.

2.2.1 Seu Tempo de Estudo


No XXXII Retiro Nacional da ICE para jovens, o Pr. Daniel Silva, pastor da Igreja
Cristã Evangélica Paulistana, expressivamente desafiou toda a juventude presente a ser
“estudante da Bíblia”, mas antes, ele mesmo foi um estudante da Bíblia.
O mesmo parecer foi dado na reforma quando Calvino afirmou: “Ninguém chegará a
ser bom ministro da Palavra de Deus a não ser que seja, em primeiro lugar, um estudioso da
mesma.” (CALVINO apud STOTT, 2003, p. 191). Spurgeon também cultivava essa
convicção, e chegou a afirmar: “Aquele que cessou de aprender cessou de ensinar. Aquele
que já não semeia na sala de estudo, não mais semeará no púlpito.” (SPURGEON apud
STOTT, 2003, p. 192). O pregador é vocacionado para ser ministro da Palavra de Deus, sem o
estudo da mesma ele é inapto para pregar. “Pode, porventura, um cego guiar a outro cego?
Não cairão ambos no barranco?” (Lc 6.39).
Com base nos argumentos acima apresentados, fica em evidência a necessidade do
estudo diário das Escrituras Sagradas. O pregador que procura excelência na pregação, e
almeja eficácia na transmissão da mensagem, deve separar diariamente um determinado
tempo para, exclusivamente, estudar a Bíblia.
48

Essa disciplina precisa ser cultivada no coração do pregador, mas não por força do
ofício, e sim, por amor à Palavra de Deus (Sl 1.2).
“O bom estudo da Bíblia leva a mais fé e mais o que dizer a outras pessoas. Dá
certeza de ensinar a sã doutrina de Cristo, aquilo que faz bem a todos sem qualquer contra-
indicação.” (BOST, 1998, p. 57).
Estudar a Bíblia todos os dias é o lema principal de um pregador. Sem estudo da
Bíblia não existe mensagem bíblica. Primeiro o pregador prova o sabor do alimento, depois
leva esse alimento aos famintos e sedentos da “Voz do Senhor”.

2.2.2 Seu Tempo de Oração


Jesus Cristo sempre cultivou em sua vida terrena a prática da oração. Ele não hesitava
em retirar-se para ficar a sós com o Pai: “Assentai-vos aqui, enquanto eu vou orar” (Mc
14.32). Mais que isso, “Ele não foi somente um exemplo de vida de oração, mas também
atendeu aos pedidos dos discípulos, instruindo-os sobre como orar (Lc 11.1-4).”
(MACARTHUR, 1998, p. 208).
Não é difícil encontrar nas páginas da Bíblia outros bons exemplos de pessoas de
oração, tais como: Moisés, Neemias, Davi e Paulo. Ambos entendiam o valor real do diálogo
ou relacionamento constante com o Pai celestial. Infelizmente o quadro atual das igrejas
evangélicas mostra um desinteresse muito grande pela prática da oração. Mais triste ainda é
quando se direciona o foco para os pastores e líderes eclesiásticos, que em raras exceções
cultivam uma vida diária e constante de oração. Esqueceram-se do imperativo de Deus: “Orai
sem cessar.” (1Ts 5.17).
O pregador que deseja excelência em seu ministério precisa aceitar a necessidade de
ouvir Deus, e, também, de falar com Deus constantemente. O que geralmente acontece é que,
logo ao acordar, o pastor ou pregador, de imediato, corre para sua agenda cheia de
compromissos, e na ansiedade por resolvê-los, esquece-se de que o mais importante ao
acordar é dialogar com Deus. Executar as atividades cotidianas falando com Deus. Separar
um bom tempo do dia, a sós para conversar com o Senhor.
A oração desempenha papel decisivo na vida ministerial, sem ela, o pregador estará
perdido em alto mar, sem qualquer sinal de orientação para onde navegar. A oração é,
juntamente com a Bíblia, a bússola que Deus deu ao homem para, por meio dela, seguir em
passos firmes o caminho da excelência no ministério.
Conclui-se com as palavras de John MacArthur:
49

Jesus, em João 15.7, 8, e Paulo, em Efésios 6.10-20, definiram a importância da


oração no ministério. Deus fez o primeiro movimento, confiando-nos essa
prioridade. Ele poderia dizer para nós, como se costuma dizer: “agora é a sua vez”.
Então, façamos o movimento correto, seguindo a liderança de Jesus e os ensinos e
exemplos de Paulo. (MACARTHUR, 1998, p. 205).

2.2.3 Seu Tempo com a Família


“O obreiro demonstra sua espiritualidade em sua vida familiar.” (BOST, 1998, p. 35).
Em grande porcentagem, o que mais incomoda o pregador é sua aparência perante os
ouvintes. O que mais passa na sua mente é como se apresentará perante a grande massa, se
será bem visto ou não. Porém, o que realmente importa não é aparência externa, embora
também tenha seu valor, mas o que impulsiona o pregador a transmitir a Palavra. Ou seja, seu
caráter tem que ser o mesmo, perante Deus, perante os ouvintes, assim como perante sua
família.
Alguns erros são facilmente detectados quanto à vida familiar do pregador, dos quais
se destacam: 1) Ele está sempre disposto a lidar com o pecado e com as situações mais
complicadas alheias, mas quase nunca se atém ao seu próprio cuidado e o da família; 2) Ele
está sempre preocupado quanto à sua imagem vista pela sociedade, e nem um pouco atento a
sua posição no lar; 3) Ele doa quase todo o seu tempo para as atividades eclesiásticas e
seculares, não restando muito para o convívio familiar.
É evidente que a Bíblia traça perfeitamente o perfil do obreiro quanto ao seu papel no
lar. 1 Timóteo 3.2b, 4, 5 apresenta um quadro muito belo do pastor no lar, no qual Paulo
mostra a ação pastoral perante sua família.
1 Pedro 3.7 revela outros cuidados essenciais do marido para com a família:
“... vida comum no lar...” – todos caminhando juntos atentando-se para o convívio
familiar.
“... discernimento...” – o cabeça da casa entendendo tudo o que se passa dentro do
convívio familiar.
“... consideração...” – considerar todos os membros da família de igual modo.
“... dignidade...” – ser digno da posição e valorizar cada um segundo a sua posição na
família.
“... herdeiros...” – entender que todos são participantes da família de igual maneira.
“... orações...” – executar coerentemente a oração como relacionamento com o Pai.
O pregador precisa cauterizar em sua mente que a sua disciplina pessoal quanto ao uso
do tempo, seja para o estudo, seja para oração, seja para a família, tem que ser feita na medida
50

em que cada uma dessas áreas pede. Não é permitido omitir nenhuma delas, todas são
importantes e essenciais para um ministério eficaz na pregação.

2.3 Qualidades Indispensáveis12


O pregador aprovado por Deus é aquele que carrega consigo qualidades que o levarão
a desempenhar esse ministério com muita dedicação e excelência, das quais se destacam as
listadas abaixo.

2.3.1 Caráter
Numa tentativa de se definir o que significa “caráter”, pode-se dizer: ego é aquilo que
o indivíduo pensa que é, reputação é aquilo que as pessoas pensam que o indivíduo é,
enquanto que caráter é aquilo que Deus sabe que o indivíduo é. O que está em pauta é o fato
que o caráter trata das ações do indivíduo como um todo. O ministério da pregação deve ser
realizado com muita dedicação e pureza, por isso, quando se trata do caráter pessoal do pastor
ou pregador, trata-se de uma das mais delicadas e importantes responsabilidades.
Paulo, nas epístolas a Timóteo (1Tm 3.1-7) e a Tito (Tt 1.5-9), apresenta um excelente
quadro do perfil do obreiro acerca de seu caráter pessoal. Deus, na Sua perfeição, deixou de
forma muito clara um perfil aprovado por Ele acerca do pastor. Seria vital fazer uma exegese
acurada de todas as palavras do texto, detalhando cada uma delas, porém não será possível
fazê-la nessa pesquisa, mas um termo é imprescindível que se analise - “irrepreensível”.
MacArthur analisa da seguinte maneira:
“Irrepreensível” (gr. anengklêtos) descreve [...] o efeito de uma vida piedosa.
Literalmente, o pastor “não será reprovado” ou, em outras palavras, ele será
“inculpável” ou estará “livre de ressalvas”. Estas devem ser as características
constantes de sua vida, uma vez que assume a mordomia do ministério de Deus.
(MACARTHUR, 1998, p. 110).

Conclui-se com o pensamento que o pregador necessita zelar por si mesmo para não
ter do que se envergonhar. Deve ser íntegro no seu ministério. Sua integridade que definirá o
seu caráter.

2.3.2 Entusiasmo
Segundo o dicionário Aurélio, entusiasmo significa “veemência, vigor, no falar ou no
escrever, dedicação ardente.” (AURÉLIO, 1986). O entusiasmo não é somente uma
qualidade significativa, mas a expressão da alegria que o pregador sente ao transmitir a

12
Como base foi usado o livro de MARINHO. A Arte de Pregar. São Paulo: Vida Nova, 1999.
51

Palavra de Deus. Chapell entendia bem o que isso significa, por isso ele afirmou: “A
consciência da capacitação de Deus deve estimular todos os pregadores (inclusive
pregadores principiantes) a se lançarem de todo o coração ao seu chamado.” (CHAPELL,
2002, p. 33).
Entusiasmar-se ao estudar a Bíblia é mergulhar no mais profundo rio de palavras
verdadeiras, alegrar-se de maneira singular ouvindo Deus falar por meio de Sua Palavra. Por
isso, todo pregador precisa entusiasmar-se com o estudo e exposição da Bíblia, pois ele está
sendo porta voz de Deus aos homens, e não há serviço de maior excelência que este.
“Entusiasmo é o combustível da expressão verbal. O orador precisa vibrar em cada
afirmação e empolgar-se com cada idéia.” (MARINHO, 2000, p. 34).

2.3.3 Sensibilidade
Faculdade de sentir com sutileza o que está à volta. O pregador precisa entender duas
dimensões da qualidade da sensibilidade.
1) Ele precisa ser sensível à voz do Senhor ao estudar ou preparar a mensagem. Quem
determina o conteúdo da pregação é Deus, portanto, cabe ao pregador saber discernir por qual
direção Deus o está guiando.
O Pr. Daniel Silva, pregando no Salmo 28 a um grupo de cerca de 600 jovens no
XXXII Retiro Nacional da COMOCEB, apresentou cinco benefícios da “Voz do Senhor”13:
“A voz do Senhor ensina a ser humilde; A voz do Senhor adoça nossas vidas; A voz do Senhor
transforma para melhor; A voz do Senhor sacode o paralisado; e A voz do Senhor vivifica”.
2) Ele precisa ser sensível ao público ouvinte. Certamente que o ouvinte não é o fator
preponderante acerca do direcionamento da mensagem, mas é o alvo. Se o pregador não
conhecer ou não tiver percepção dos ouvintes, tem grandes chances de não acertar no alvo (cf.
MARINHO, 2000, p. 35); mas com percepção adequada ele faz com que a Palavra penetre
profundamente nos coração de todo aquele que também for sensível à “Voz do Senhor”.

2.3.4 Humildade
Conta-se que “certo seminarista, pela primeira vez subindo ao púlpito, encheu-se de
orgulho pela grande oportunidade de sua vida. Para isso, ele ocupou várias horas de seu tempo
preparando aquele sermão. Usou muitos comentários e informações para recheá-lo. Tudo
estava indo de bem a melhor. No dia da pregação, o seminarista subiu com tanta confiança ao

13
Palestra do XXXI Retiro Nacional da COMOCEB
52

púlpito, que mais parecia um artista sendo levado a um posto de destaque, do que um
emissário da Palavra de Deus. Ao subir, com toda pompa, abriu sua Bíblia e começou a
pregar, porém, as coisas não ocorreram como planejadas. Parecia que tudo o que havia
estudado não estava surtindo efeito no público. No final, aquele jovem seminarista desceu do
púlpito tão abatido, que era nítida sua aparência de aflição. Foi então que veio até ele uma
senhora de certa idade e disse: se você tivesse subido ao púlpito como você desceu, você
teria descido como você subiu” (autor desconhecido, grifo meu).
A humildade não é somente uma qualidade, mas uma ferramenta indispensável para o
ministério da pregação (cf. MARINHO, 2000, p. 38). Stott define da seguinte maneira:
A humildade cristã começa com [...] “mentalidade modesta”. Tem que ver com o
nosso modo de pensar, tanto com relação aos outros (considerando-os mais
importantes que nós mesmos e assim os servir com alegria, Fp 2.3,4; 1Pe 5.5),
quanto com relação a Deus, principalmente (“andando humildemente com o seu
Deus”; Mq 6.5). (STOTT, 2003, p. 345).

O sábio rei Salomão afirmou: “O galardão da humildade e o temor do SENHOR são


riquezas, e honra, e vida.” (Pv 22.4). O apóstolo Paulo sempre instruiu a que seus discípulos
cultivassem a humildade (Ef 4.2; Fp 2.3; Cl 3.12). Outro apóstolo, Pedro, também ensinou a
prática da humildade (1Pe 5.5). E o próprio Jesus Cristo, no Sermão do Monte, usou a
qualidade da humildade para descrever alguém “verdadeiramente feliz” (Mt 5.3).
Diante de tantas evidências, fica clara a necessidade qualitativa da humildade no
exercício da pregação bíblica.

2.3.5 Zelo
Na leitura da Bíblia, observa-se que a expressão “zelo” é usada de forma contundente
com seu significado e expressão. Paulo usou associando-a ao serviço do Senhor (Rm 12.11),
como também a apresentou como o cuidado acerca da busca dos dons (1Co 12.31).
Segundo Stott “zelo é um sentimento profundo e indispensável para pregadores.”
(STOTT, 2005, p. 294). Ele também afirma que ser zeloso é sentir o que se fala (cf. STOTT,
2003, p. 194).
O pregador precisa sempre estar em sintonia com Deus. O seu zelo pela Palavra de
Deus, pela honra do único Deus vivo e verdadeiro, precisa estar em evidência. Nenhum
pregador pode fugir dessa responsabilidade, mas assumi-la e cultivá-la em sua vida, para que
a cada dia ele desenvolva sua santidade, de modo agradável a Deus.
53

2.3.6 Paixão
Mais que uma qualidade, ter paixão pela pregação é um elemento indispensável para
um ministério realmente eficaz. Ter prazer em meditar na lei do Senhor (Sl 1.2; Js 1.8)
implica em ter paixão na transmissão a outros ouvidos das verdades bíblicas. O pregador
precisa amar os seus ouvintes de maneira especial e bíblica.
Quando o pregador entende que sem essa paixão ele não chegará a lugar algum, passa
a se dedicar cada dia mais ao estudo da Palavra de Deus com o intuito de levar aos seus
ouvintes um prato cheio de finas iguarias, servido com muito amor.
Amor não é dom, é parte do crente. Mas existem alguns níveis desse amor, que o Pr.
João Arantes Costa costuma ilustrar da seguinte forma: A Escada do Amor - o primeiro
degrau é o amor a Deus; o segundo degrau é o amor aos familiares; o terceiro degrau é o amor
ao desconhecido; e o quarto degrau é o amor ao inimigo.
Todo pregador precisa subir essa escada e firmar-se no último degrau, que de fato é o
mais difícil de chegar, mas é obrigação do pregador se manter nele. Se o pregador não tiver
paixão, amor no mais alto nível, sua mensagem não chegará ao coração dos ouvintes e ele
será ineficiente na sua missão de arauto de Deus.

2.3.7 Observação
Dois âmbitos devem ser analisados acerca da “observação”.
Primeiro, o âmbito do estudo bíblico, no qual o pregador deve ser sensível aos
detalhes e à profundidade do texto por meio da observação. A observação é uma das
habilidades mais úteis no estudo bíblico, pois através dela o pregador poderá descobrir
riquezas de detalhes imensas, facilitando a exposição.
Segundo, como apresenta Marinho: “O orador deve estar sempre atento para captar
fatos interessantes e diferentes nas diversas situações da vida.” (MARINHO, 1999, p. 35).
Pode-se acrescentar a importância da observação do contexto da igreja e sua atual situação.
Essa sensibilidade para observar certamente levará o pregador a atingir o centro do alvo.
Observar o mundo, a fim de contextualizar a mensagem. Observar as emoções, os
problemas que afligem o povo de Deus.
54

3 A RELEVÂNCIA DA PREGAÇÃO EXPOSITIVA E CRISTOCÊNTRICA NO


MINISTÉRIO PASTORAL
Depois de apresentar todas as definições que cercam a pregação expositiva e
cristocêntrica, chega-se ao ponto no qual todas elas são postas em evidência para se apresentar
sua relevância. Num contexto onde se perdeu o valor expressivo da exposição bíblica esta
monografia propõe-se agora, diante dos fatos apresentados, estabelecer um padrão cujo
objetivo é restaurar a relevância da pregação expositiva e cristocêntrica nos púlpitos das
igrejas evangélicas.

3.1 Aplicação do Processo


Todo o processo descrito até agora só terá validez quando for aplicado na prática na
vida dos pregadores e posteriormente na vida da igreja. “O homem não precisa da Palavra de
Deus para que esta lhe diga o que será do seu corpo, mas precisa da Palavra de Deus para
que esta lhe diga o que será da sua alma.” (KOLLER, 199, p. 11). Complementando as
palavras de Koller, e sua alma só poderá ir para um lugar de gozo eterno por meio de Cristo
Jesus, somente por Ele e mais ninguém.
Na verdade o processo é mais simples do que parece, o problema é o desvio que se faz
pela necessidade de agradar aos ouvidos do povo. Paulo já havia alertado acerca disso: “Pois
haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres
segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos;” (2Tm 4.3). Quem
não gosta de “um cafuné ou de uma coceira” nos ouvidos? O problema não é o agrado, mas o
desvio da sã doutrina que implica na perdição de almas. A Verdade não se molda à
necessidade, mas o homem é moldado pela Verdade. Inverter a ordem do processo é o mesmo
que confrontar a pessoa e a obra de Cristo.
Primordialmente, todo pregador que carrega consigo o desejo de servir ao Senhor com
excelência, precisa entender a autoridade de Deus sobre tudo e todos. E essa autoridade está
revelada na Bíblia que, orienta acerca do senhorio de Cristo, como também da ação do
Espírito Santo na vida do homem.
Seguir-se-á através de cada tópico uma orientação prática do processo que cerca a
pregação expositiva e cristocêntrica no ministério pastoral. “Chegou o tempo de restaurar o
sermão expositivo.” (CHAPELL, 2002, p. 10).
55

3.1.1 Autoridade de Deus


A partir desse ponto, se perceberá, em alguns momentos, que a eficácia da pregação
não está somente ligada à responsabilidade humana, seja no preparo, seja na exposição, mas
na dependência de Deus. Um grande erro cometido nos púlpitos das igrejas é a falta de
submissão à autoridade de Deus na hora do sermão. Por vezes o pregador está muito mais
preocupado no que ele é capaz do que no que Deus pode fazer nele e através dele. Deus tem
autoridade sobre tudo e todos, e faz segundo a Sua vontade.
Passeando nas páginas da Bíblia claramente nota-se que esse não é um problema
exclusivo da pós-modernidade. Moisés teve dificuldade em acreditar que Deus faria grande
obra no meio do povo hebreu: Disse “Moisés: Mas eis que não crerão, nem acudirão à minha
voz, pois dirão: O SENHOR não te apareceu.” (Êx 4.1). Deus então, como lição, realiza os
milagres do cajado que se transformou em serpente e da lepra que veio e se foi sobre Moisés,
mostrando a ele quem tem autoridade sobre tudo.
Se não bastasse, agora Moisés se apresenta como alguém sem eloqüência, pesado de
boca, e que em função disso não poderia ir até Faraó. Ele ainda não aprendera sobre a
soberania de Deus. Mas Deus, de maneira sublime, impõe-se como Deus: “Respondeu-lhe o
SENHOR: Quem fez a boca do homem? Ou quem faz o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o
cego? Não sou eu, o SENHOR? Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o
que hás de falar.” (Êx 4.11, 12). As palavras de Deus a Moisés devem soar nos ouvidos dos
pregadores atuais de maneira clara e precisa: “Eu (Deus) serei a tua boca e te ensinarei o que
hás de falar.”.
O problema é que nesse ponto, em que tudo parecia tudo explicado detalhadamente,
Moisés se mostra, de novo, inapto para aquele ministério: “Respondeu Moisés: Ah! Senhor!
Envia aquele que hás de enviar, menos a mim.” (Êx 4.12). A lição aqui é: Nunca se oponha à
vocação que Deus Lhe deu, Ele será contigo e Te susterá sempre.
Observe qual foi a resposta de Deus:
Então, se acendeu a ira do SENHOR contra Moisés, e disse: Não é Arão, o levita,
teu irmão? Eu sei que ele fala fluentemente; e eis que ele sai ao teu encontro e,
vendo-te, se alegrará em seu coração. Tu, pois, lhe falarás e lhe porás na boca as
palavras; eu serei com a tua boca e com a dele e vos ensinarei o que deveis fazer.
Ele falará por ti ao povo; ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus. Toma, pois,
este bordão na mão, com o qual hás de fazer os sinais. (Êx 4.14-17).

Agora sim, em obediência, Moisés se projeta para ser o grande líder da nação eleita de
Deus. Ele compreende a autoridade de Deus sobre tudo e todos. Moisés, ao longo de sua
56

jornada, pode provar dessa soberania quando Deus, em diversas situações difíceis, mostrou-se
presente.
Muitos outros exemplos poderiam ser citados nesta monografia, mas faz-se valer o
exemplo de Moisés a todos os pregadores. Cumpram cabalmente suas responsabilidades no
ministério da vida cristã porque Deus tem autoridade suprema para fazer segundo a Sua
vontade.
Ser um pregador segundo o coração de Deus é ser submisso a Sua autoridade em todo
o tempo, sob todas as circunstâncias, o que exige oração e humildade (1Sm 15.22, 23).

3.1.2 Supremacia de Cristo


A supremacia de Cristo não pode ser questionada em tempo, época ou circunstância
alguma. Cristo existe antes de tudo e tudo foi criado por meio dele (Jo 1.1-3), nada poderia
existir sem Ele. Com base no livro de Hebreus, Cristo é superior aos anjos (Hb 1.5-2.18), é
superior a Moisés (Hb 3.1-4.13), é superior no sacerdócio (Hb 4.14-7.28) e é superior no
sacrifício (Hb 9.1-10.18) (cf. JULIARE, 2007).
A supremacia de Cristo é o que direciona a mensagem. Não existe um meio de
transformar o indivíduo sem apresentar Cristo, pois não há salvação em nenhum outro (At
4.12). A obra de Cristo ecoa em todas as páginas da Bíblia, desde a eternidade Ele é Deus.
Segundo o professor Carlos Oswaldo “A superioridade de Cristo em Sua pessoa e
obra prevê para o crente o encorajamento à maturidade e perseverança na fé.” (PINTO apud
JULIARE, 2007, p. 6).
Diante das evidências bíblicas, parece impossível pregar expositivamente excluindo
Cristo. A relevância da pregação expositiva e cristocêntrica está simplesmente no fato de que
toda teologia gira em torno de Cristo e que o indivíduo não pode por si só alcançar
absolutamente nada, tudo vem por meio de Cristo. Cristo é superior a tudo!
Quando o pregador coloca Cristo no topo, e O apresenta como supremo, esse pregador
será, sem dúvida, eficaz na transmissão da mensagem. Todo pregador precisa ter em mente
que pregação é a transmissão da Palavra de Deus, pela ação do Espírito Santo, visando à
transformação de vidas, na supremacia de Cristo.
Todo processo chega num cume principal. No que se refere à pregação bíblica o cume
é Cristo. Portanto, Cristo é o centro supremo da mensagem.
57

3.1.3 Obra do Espírito Santo


Já no primeiro capítulo desta monografia tratou-se da ação do Espírito Santo na
pregação. O objetivo aqui não é repetir o que foi dito anteriormente, mas reforçar a idéia
dessa obra de uma maneira aplicável.
Para facilitar o entendimento, faz-se necessária uma apresentação da pessoa do
Espírito Santo.
Inicialmente precisa-se esclarecer que o Espírito Santo sempre agiu entre os homens.
Bancroft faz a seguinte afirmação: “O Espírito Santo preexistia como a Terceira Pessoa da
trindade, e nessa qualidade esteve sempre ativo.” (BANCROFT, 2001, p. 177). Uma
evidência dessa relevância do Espírito Santo está na criação, quando Moisés, ao relatar esse
fato, usa o verbo na terceira pessoa do plural “façamos”, o que indica que as três pessoas da
Divina Trindade estavam presentes. O diferencial está no fato que no A.T. o Espírito Santo
não era permanente no homem, com se vê no N.T., pois agora os que crêem em Cristo
recebem o selo permanente do Espírito Santo (cf. Ef 1.13).
Com efeito, sem a obra do Espírito Santo, não é possível atingir o coração do homem
de forma transformadora.
Jesus fez a seguinte afirmação:
Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado,
porque não crêem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e não me vereis mais;
do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado [...] quando vier, porém, o
Espírito da verdade ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si
mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir.
(Jo 16.8-13).

Não há pregação eficaz sem a obra do Espírito Santo. O pregador precisa, antes de
qualquer coisa, pedir essa iluminação do Espírito Santo para o preparo e exposição de seu
sermão, e confiar que é o Espírito Santo quem fará a obra no coração dos ouvintes. A eficácia
não está no nível intelectual do pregador, mas no poder do Espírito Santo que opera no
pregador e nos ouvintes.
Nesse ponto a oração é a responsabilidade principal do pregador, que deverá separar
horas de seu tempo para dedicar-se a orar por sua própria vida e pela dos ouvintes, pois a
fonte de poder é o Espírito de Deus.

3.1.4 Primazia do Texto


Uma das teses dessa monografia é exatamente a prioridade textual no sermão. O
princípio maior aqui está no fato que é a Bíblia quem fala ao pregador e não o pregador à
58

Bíblia. A idéia é que o pregador é sujeito à mensagem bíblica, ou seja, ele não determina o
teor, apenas organiza e aplica o sermão de maneira correta ao seu contexto. Roy Allan afirma:
“O pregador não apenas possui uma mensagem, mas é possuído pela mensagem.”
(MARINHO, 1999, p. 157).
Depois de uma boa exegese e de uma boa hermenêutica, depois de encontrar a
mensagem correta do texto, o próximo passo é trazê-la para uma linguagem simples e aplicá-
la ao contexto onde será pregada, sem deturpar a mensagem. Todo processo precisa ser posto
em prática.
Começa-se com um bom tempo dedicado à oração, depois pela escolha do texto, em
seguida um estudo minucioso da passagem e contexto, considerando a exegese e a
hermenêutica, e só então se aplicam os princípios da homilética, ficando o sermão tomará
forma. Ressalte-se que durante todo o processo é necessária uma total dependência do
Espírito Santo, fundamentando-se unicamente na Palavra de Deus, sob Sua autoridade, e
apontando-se sempre para a pessoa e obra de Jesus Cristo.
A verdade é que a Bíblia é completa em sua mensagem, e nela está todo ensinamento
necessário para o alimento espiritual do homem. Não há razão para recheá-la, apenas
apresentá-la. A sã doutrina nem sempre será aceita, pois ela pesa no íntimo do homem, por
causa do pecado (cf. 2Tm 4.3), mas é obrigação do pregador dar prioridade à mensagem
essencialmente bíblica, ainda que doa em muitos.
Poemas e fábulas fazem bem para o ego, mas só a Bíblia tem poder para transformar,
por isso, aplique-se diretamente o princípio da primazia do texto bíblico. Não se deixa a
Bíblia em segundo plano, mas sempre no lugar de direito, na primeira.

3.1.5 Vantagens da Exposição


Quando o foco central é a mensagem bíblica, e a mensagem é proferida na sua
essência, o sermão deixa de ser passível de erros. Ainda que o homem seja falho, em sua
natureza, a mensagem não será, pois ela não provém de elucidação humana (cf. 2Pe 1.20,21),
mas veio de Deus, e Deus não é passível de erros, Ele é perfeito.
Ainda que muitos deturpem a Palavra de Deus com objetivos próprios, o que é
totalmente reprovável por Deus (cf. 2Pe 3.16), a Bíblia sempre terá poder para atingir o
íntimo do homem (cf. Hb 4.12). Quando isso ocorre “o pregador que lhe dá verá os seus
recursos se tornarem mais abundantes com cada sermão que ele prepara. Ele será como
árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto (Sl 1.3).”
(KOLLER, 1999, p. 29).
59

O pregador que não compreende a necessidade de mergulhar no texto, e através do


mergulho atingir a alma dos ouvintes, certamente apresentará palavras sem vida e sem poder.
Koller vai um pouco além ao afirmar:
Enquanto o pregador não se atirar de corpo e alma à mensagem. Numa transmissão
assim, o sermão fica sendo muito mais que a soma das suas partes, e o pregador
fica sendo mais que a soma dos seus talentos, do seu treinamento, da suas
experiências, e do esforço despendido. Seu amor por seu povo, sua devoção ao seu
Senhor, seu alto senso de vocação, mais o acompanhamento do Espírito Santo,
tornam invencível o pregador, pois Deus cumpre a antiga promessa: ‘Aos que me
honram, honrarei’, diz o Senhor (1Sm 2.30). (KOLLER, 1999, p. 39).

A exposição garante a mensagem de Deus, não sendo possível o enxerto, ela honra a
Bíblia, dá o melhor alimento para a Igreja, bem como dá o melhor alimento para o pregador
que a prepara (cf. MARINHO, 2000, p. 146).
Uma vantagem muito forte da exposição é que muitas vezes ela traz assuntos
delicados sem serem importunos devido à seqüência ou direção do próprio texto (cf.
LIELFELD, 1984, p. 18).
Outra grande vantagem é que o pregador e o ouvinte ficam “limitados à verdade
bíblica. O subjetivismo fica minimizado.” (LIEFELD, 1984, p. 17).
A grande vantagem da exposição é a maior das vantagens, porque expor a Bíblia é
expor a Verdade de Deus. Não existem desvantagens, apenas vantagens. Através da exposição
Deus fala ao homem, o homem ouve Deus, o homem entende o plano salvífico de Cristo, o
homem crê nesse plano, e quando crê recebe gratuitamente da parte de Deus a vida eterna
com Cristo.

3.1.6 Efeitos da Exposição


Quando o sermão é expositivo e cristocêntrico, ele aumenta a confiança e dá
tranqüilidade quanto a sua autoridade (cf. LIELFELD, 1984, p. 17). Que livro pode ter mais
autoridade que a Bíblia? A resposta é, nenhum, pois a Bíblia é a Palavra escrita de Deus. Esse
aumento de confiança e a tranqüilidade quanto à autoridade é o que projetará a eficácia do
sermão, pois sem confiança e sem essa percepção de autoridade o sermão não será eficaz na
transformadora mensagem.
Um efeito primoroso da exposição é a consciência de que o pregador e os ouvintes
estão sendo aconselhados diretamente por Deus (cf. LIELFELD, 1984, p. 18). Existe uma
tendência muito forte de se apresentar algo que vá suprir a necessidade momentânea do
homem, porém, na exposição, os conselhos não são baseados na necessidade do ouvinte, mas
na urgência que Deus enxerga para o homem.
60

Considerando o fato de que os ensinos bíblicos são atemporais, um efeito direto ao


homem é a certeza de que o ensino inicialmente apresentado há milhares de anos tem o
mesmo valor hoje.
Liefeld faz um brilhante comentário sobre o assunto:
Se deixarmos que a passagem tenha hoje em dia a mesma função que teve na
situação original, podemos evitar uma disjunção desapropriada entre o corpo do
sermão e a conclusão. Não teremos dificuldades para tornar a passagem ‘prática’ se
já sabemos que função ela exerceu em sua situação original. (LIEFELD, 1984, p.
18).

O mais importante a tratar-se aqui é que a exposição molda o caráter do homem de


acordo com a vontade de Deus. Todo o padrão bíblico (1Tm 4.12), conduta moral e espiritual,
torna-se evidente na vida do pregador e dos ouvintes, quando há uma exposição correta.

3.1.7 Alvos da Exposição


O sermão sem alvo é igual a uma partida de futebol sem as traves. Alvo é a meta que o
pregador quer alcançar na entrega do sermão. Sem dúvida o alvo é “levar pessoas a crerem
que Jesus é o Cristo, e crendo tenham vida em Seu nome.” (KALLER, 1979, p. 72), mas
outros alvos podem ser traçados para o sermão, dos quais se destacam.
1º Evangelização. A exposição é um excelente meio de evangelização (cf. LIELFELD,
1984, p. 20). Evidentemente que evangelizar, antes de mais nada, é relacionamento cristão,
mas o púlpito geralmente é um grande veículo para alcançar almas perdidas. O expositor que
permite no seu coração o evangelismo no púlpito certamente verá pessoas se rendendo ao
Evangelho de Cristo. Tratando-se de uma exposição cristocêntrica é impossível falar de Cristo
sem falar de Salvação.
2º Declarar a vontade de Deus para seu povo, sua igreja (cf. LIELFELD, 1984, p. 21).
De novo a pauta é transmitir a vontade de Deus aos homens e não submeter a vontade dos
homens a Deus.
3º Apresentar corretamente a doutrina bíblica, seja no âmbito pessoal ou eclesiástico,
para crescimento espiritual. Quando o Corpo cresce espiritualmente, toda Igreja caminha em
unidade.
Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça,
Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda
junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para
a edificação de si em amor. (Ef 4.15,16).

Por último, considerado por Liefeld, o mais elevado é a adoração a Deus e a exaltação
do Seu nome (cf. LIELFELD, 1984, p. 22). O homem foi criado para louvor da glória de Deus
61

e essa adoração deve perdurar eternamente. Muitos não conseguem entender como adorar
Deus através do sermão, mas acredite, é a adoração mais correta, pois é adoração bíblica.

3.2 Dificuldades no Processo


Neste ponto da pesquisa é importante apresentar algumas dificuldades da exposição,
porém, antes de qualquer coisa, é preciso enfatizar que não são desvantagens, apenas
dificuldades, que devem ser entendidas e vencidas durante a caminhada ministerial.

3.2.1 Profundidade
Como já mencionado, a necessidade da profundidade no estudo do texto, não é uma
desvantagem, pelo contrário, é uma vantagem, porém, uma dificuldade, tendo em vista que
exigirá uma dedicação e disciplina muito grande.
Conforme o argumento de Liefeld, o pregador é obrigado a batalhar pelo entendimento
da passagem toda. Ele não pode deixar de lado palavras significativas, construções sintáticas
ou doutrinas. Nada pode escapar da beleza original do texto (cf. LIEFELD, 1984, p. 23).
Não é fácil aplicar todos os princípios da exegese e homilética, além das
responsabilidades pessoais, tais como o cuidado da família e da própria vida espiritual. Muitos
pregadores, em pouco tempo de ministério, começam a cair no erro da mesmice e deixam de
fazer todo o processo do preparo do sermão.
Dentro do próprio processo, fazer pontes entre a exegese e a hermenêutica, separar
horas para orar, tornam num contexto bem brasileiro, algo aparentemente impossível. Porém,
a tese dessa monografia é a relevância dessa exposição, portanto, todo o processo é
importante. Ser profundo no estudo bíblico é enxergar coloridas as palavras de Deus, sem
manchas. Embora difícil, é obrigação ministerial.

3.2.2 Vocabulário
O cuidado com as palavras é uma grande dificuldade na hora da exposição. O
pregador precisa conhecer sua platéia, cultura e intelecto. Às vezes, o nível intelectual é
bastante limitado, e se o pregador não tiver muita atenção ele correrá o risco de ser ineficaz na
entrega do sermão.
E se tratando de exposição, onde o nível de estudo é bem elevado, o objetivo de trazer
essa mensagem para um linguajar conhecido, sem ferir o sentido do texto, torna-se um pouco
difícil.
62

Claro que essa não é uma dificuldade impossível de se vencer, pelo contrário, com
dedicação e maturidade, o pregador facilmente desenvolverá habilidades que o ajudarão
posteriormente nessa fase de construção e exposição da mensagem.
Basta atenção e sensibilidade para perceber a quem se está pregando.

3.2.3 Contextualização
Uma das grandes dificuldades na exposição bíblica, considerando a
contemporaneidade, é a tão falada, mas pouco entendida, contextualização. Já foi bem
explicado nesta monografia o fato da Bíblia ser inerrante, infalível e atemporal, ou seja, o
texto inspirado não contém erros, sendo a Bíblia infalível e também seus princípios não se
limitam há uma determinada época - são imutáveis em todas as épocas.
Complica o fato de que, quando o pregador está preparando ou transmitindo a
mensagem, prioriza o contexto vivido e direciona esse contexto à Bíblia, invertendo a ordem
lógica e correta, que é buscar os princípios bíblicos e aplicá-los ao contexto.
Uma definição mais correta para contextualização é: saber como comunicar os eternos
e imutáveis princípios revelados por Deus na Bíblia, ao mundo atual para transformação de
vidas.
Evidentemente que não é tarefa fácil, por isso está sendo considerada como uma
dificuldade, tendo em vista que os ensinos bíblicos são confrontativos em grande parte.
Cabe ao pregador ter muita percepção quanto ao público e suas necessidades, porém,
sem manchar a doutrina eterna de Deus.

3.3 Tríplice Perspectiva


No processo de desenvolvimento da pregação, responsabilidade pessoal e entrega do
sermão, pelo menos três perspectivas diferentes podem ser detectadas, a Bíblia, o pregador e o
ouvinte. De uma maneira mais clara é: Deus inclinando-se, por meio de Sua Palavra Escrita,
usando o próprio homem (pregador), para transformar pessoas.
Figura 2: Perspectiva da Pregação
Origem da exposição:
BÍBLIA.
Portador da exposição:
PREGADOR.
Destino da exposição:
OUVINTE.
Alvo da exposição: TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM
63

3.3.1 A Bíblia
A Bíblia, sem dúvida alguma, é a essência da pregação. Nela está a primazia do
k rygma de Deus, no qual se dá o processo de formação e os princípios da exposição. A
Bíblia é a fonte de informação do poder de Deus que age no homem (cf. MARINHO, 2000, p.
126). É a voz de Deus, inspirada pelo Espírito Santo (2Tm 3.16,17; 1Pe 1.20,21), infalível,
inerrante, com princípios atemporais e eternos.
Que fonte pode ser, em sua essência, além da Bíblia, portadora de tal autoridade?
Autoridade conferida pelo próprio Deus, sem autorização para aumento ou inserção (Mt 5.18;
Gl 1.8). Embora existam questões não reveladas ao homem, tudo o que é necessário a ele foi
revelado (Dt 29.29).
Numa tentativa de compreender, em essência, o significado de “palavra”, seguir-se-á
uma pequena exegese dos termos.
No hebraico, a expressão “dabar”, que significa, ‘palavra’, ‘mandamento’, ‘evento’,
‘ação’, possui a idéia do poder de Deus conferido pela palavra, como também, da ação de
Deus por meio dessa palavra (Gn 1.3; Sl 33.9). Um outro dado importantíssimo é o fato de
que essa palavra é pessoalmente autenticada por Deus. Tanto os profetas quanto os apóstolos
não relataram eventos criados por seu próprio intelecto, mas Deus falou por meio deles (Ez
17.1; 3.17,18; 1Pe 1.20.21). No grego “logos” significa ‘palavra’, ‘ensino’, ‘preceito’, e além
de ser usada com as mesmas funções de dabar, é também usada para apresentar a própria
Divindade, a pessoa de Jesus Cristo (Jo 1.1-4), como agente de Deus na criação (Cl 1.16) e na
salvação (Jo 3.16). Sendo Jesus Cristo único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5),
logos é a expressão máxima da Palavra de Deus (cf. MARINHO, 2000, p. 126-128).
A Bíblia é completa na sua composição, negligenciá-la é o mesmo que se entregar à
perdição (Hb 2.2; 3.15). Ao pregador e ao crente em geral cumpre amar essa Palavra (Js 1.8;
Sl 1.2) e obedecer (Jo 14.23, 24).
O Salmo 119 deve por obrigação ser a tônica na vida de todo crente, pois nele está um
retrato pintado com a maior excelência, e retrata com fidelidade o que deveria fazer parte do
coração de toda a humanidade: “Bem-aventurados os irrepreensíveis no seu caminho, que
andam na lei do Senhor.” (v. 1).
De maneira bem prática, a Bíblia, como única fonte de regra fé e prática, é a primazia
da exposição - nela o sermão é gerado, desenvolvido e aplicado. É impossível transformar
vidas sem a Bíblia, e ela tem que ser posta em predominância da hora do sermão. Valorizá-la
é sinônimo de obediência e de agrado a Deus.
64

3.3.2 O Pregador
O uso de um homem para ser pregador entre o povo de Deus é algo que vem desde
nossos primórdios. “Ao longo da história sagrada, para cada missão especial Deus teve um
pregador.” (MARINHO, 2000, p. 130). Observa-se que já nas primeiras gerações Deus
levantou um homem chamado Enoque para profetizar: “Quanto a este foi que profetizou
Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre suas santas
miríades,” (Jd 14, grifo meu). Pouco tempo depois da criação já se têm evidências da mão de
Deus levantando profetas.
Correndo nas páginas da Bíblia, já no capítulo 6 de Gênesis, a corrupção se torna
predominante entre o povo. Deus então levanta um grande pregador (Noé), cuja história se faz
conhecida, para ser “pregador da justiça”, conforme relata Pedro: “... e não poupou o mundo
antigo, mas preservou a Noé, pregador de justiça,” (2Pe 2.5a, grifo meu).
Mais adiante, no livro de Êxodo, quando o povo precisou de libertação, pois estavam
cativos no Egito, Deus levanta Moisés e Arão para cumprir a missão de profeta ao povo:
“Então, se foram Moisés e Arão [...] Arão falou todas as palavras que o Senhor tinha dito a
Moisés, e este fez os sinais à vista do povo.” (Ex 4.29,30, grifo meu).
Ao longo do Antigo Testamento, Deus levantou muitos profetas, grandes homens,
Elias, Elizeu, Daniel, Malaquias e tantos outros, mostrando que sempre houve alguém com a
grande responsabilidade de pregar a mensagem de Deus.
Posteriormente, no Novo Testamento, rapidamente observa-se a figura de João Batista
pregando no deserto: “Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia e
dizia: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3.1,2, grifo meu). Os
apóstolos também compreendiam bem essa responsabilidade: “... iam por toda parte
pregando a palavra.” (At 8.4, grifo meu).
Tantos outros foram vocacionados a esse ministério. Deus nunca deixou de levantar
homens para o anúncio de Sua mensagem. Muitos surgiram e proclamaram a voz do Senhor
ao povo, até que veio o maior deles, o próprio Deus, na pessoa de Jesus Cristo:
Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos
profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de
todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e
a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu
poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da
Majestade, nas alturas, (Hb 1.1-3, grifo meu).
65

É com provas textuais como essa que a pregação obrigatoriamente tem que ser
expositiva e nunca pode deixar de anunciar Cristo, pois tudo é sustentado pela palavra do Seu
poder, e nada pode ser sem Ele.
Diante do quadro bíblico apresentado pode-se afirmar que, como portador da eterna
palavra de Deus, o pregador adquire a maior responsabilidade conferida ao homem, pois a
pregação é o meio pelo qual a Bíblia transforma vidas (cf. MARINHO, 2000, p. 128).

3.3.3 O Ouvinte
Mais adiante, apresentar-se-á, de maneira mais clara, alguns tipos de ouvintes. Porém,
faz-se necessário, neste momento, uma exposição direta sobre a condição da natureza
pecaminosa do homem.
Wayne Grudem faz algumas observações interessantes ao tratar sobre a queda do
homem:
Primeira, seu pecado atingiu a base do conhecimento, pois deu uma resposta
diferente à pergunta ‘o que é verdadeiro?’ [...] Segunda, seu pecado atingiu a base
dos parâmetros morais, pois deu uma resposta diferente à pergunta ‘o que é certo?’
[...] Terceira, seu pecado deu uma resposta diferente à pergunta ‘quem sou eu’?
(GRUDEM, 1999, p. 405).

É muito importante que o pregador saiba dessa condição e das implicações que ela
gera, pois assim, ele saberá, por meio da Bíblia, como atingir certeiramente o coração do
indivíduo. O ouvinte é por natureza alguém manchado pelo pecado, e com ele carrega essa
propensão ao erro. Nenhum homem, exceto o próprio Cristo, está fora dessa condição.
Dr. Lloyd Jones dissertando sobre teologia do pecado, fez a seguinte afirmação: “o
primeiro princípio do apóstolo (Paulo) é que não poderemos entender a grandeza do poder
da salvação de Deus enquanto não compreendermos que, por natureza, o homem está
espiritualmente morto.” (LLOYD-JONES, acesso em 25/05/2007). Quando Dr. Lloyd Jones
faz referência a estarmos espiritualmente mortos, ele está dizendo que todos os homens por
natureza são pecadores, e todos por natureza estão condenados (Rm 5.12; 6.23).
A chave da eficácia do sermão está em compreender a condição natural do homem, e a
abrangência da graça de Cristo.
Diante dessa realidade desastrosa da queda, algo se faz superior:
Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para
condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os
homens para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só
homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um, muitos serão
feitos justos. (Rm 5.18-19).
66

Em Cristo, mediante confirmação da fé, o homem recebe, gratuitamente, a salvação


eterna com Deus. O ouvinte é o alvo, a salvação em Cristo é a razão.
Fecha-se a tríplice perspectiva da pregação, com a origem, o portador e o destino - em
íntima ligação um com o outro.

3.4 Relevância da Exposição Cristocêntrica


Em contraste com outras formas de sermão, o sermão expositivo e cristocêntrico, é
muito difícil de se preparar e aplicar, possui suas dificuldades e exige uma dedicação maior
por parte do pregador, porém, como afirma Marinho “é o que mais penetra na alma com mais
poder, porque é o que possui maior volume de conteúdo bíblico.” (MARINHO, 2000, p. 145).
Ruskin, citado pelo próprio Marinho chega a afirmar: “Pregação: trinta minutos capazes de
ressuscitar mortos.” (RUSKIN apud MARINHO, 2000, p. 145).
O propósito inicial da pregação é o resgate do homem com relação a sua escravidão ao
pecado (Jo 8.34). Deus, de maneira inexplicável, amou a humanidade a ponto de, através do
Filho, morrer por ela (Jo 3.16; Rm 5.8). Sendo assim, a partir desse resgate (1Co 7.22; Gl
4.7), que vem por meio da graça de Cristo, a pregação passa a ter a responsabilidade de
ensinar (gr. didach ) o crente no caminho do Senhor (Mt 28.20), conduzindo-o com passos
agradáveis a Deus.
Esse propósito cumpre-se com excelência pelo fato de que a exposição reflete com
precisão o pensamento de Deus através da Bíblia. Logicamente que isso só acontece com a
orientação direta do Espírito Santo de Deus, que ilumina o pregador a direcionar a mensagem
ao homem pecador e as suas necessidades espirituais, como também, para a interpretação
correta do texto (cf. MARINHO, 2000, p. 148).
A exposição bíblica é capaz de transformar o homem, e isso é inquestionável e
irrevogável (2Tm 3.16; Hb 4.12). Cumpre ao pregador, sendo submisso a Deus e a Sua
Palavra, orientado pelo Espírito Santo, anunciar com precisão as verdades bíblicas.
A relevância da exposição vê-se caracterizada nos atributos a seguir.

3.4.1 Pregação com Compromisso


Não é difícil encontrar crentes desejosos de um dia poderem pregar com intenso
poder, e em sua platéia enxergarem muitas pessoas satisfeitas com a mensagem. Porém, os
mesmos não querem assumir o devido compromisso. “Os que foram chamados para pregar a
Palavra de Deus devem perceber que uma dispensação lhes foi confiada, e eles devem estar
comprometidos com ela.” (MACARTHUR, 1995, p. 288). Paulo compreendia muito bem o
67

que isso significa, por isso ele afirmou a Tito: “Em tempos devidos, manifestou a sua palavra
mediante a pregação que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador,” (Tt 1.3).
Aos de Corinto Paulo confessou:
Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa
obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho! Se o faço de livre vontade,
tenho galardão; mas, se constrangido, é, então, a responsabilidade de despenseiro
que me está confiada. (1Co 9.16,17).

Dr. Shedd afirma que “pregar expositivamente significa, acima de tudo, que nós nos
comprometemos com a Palavra inspirada.” (SHEDD, 2000, p. 55). O compromisso do
pregador está firmado no fato que ele deve ser totalmente submisso ao ensino bíblico,
cumprindo cabalmente toda doutrina bíblica.
Certamente esse compromisso implica em trabalho árduo e muita dedicação. Jay
Adams, considerando essa verdade, afirma: “Uma boa pregação exige trabalho árduo... Estou
convencido de que o motivo básico das pregações pobres é a falta de gastar o devido tempo e
energia na preparação.” (ADAMS apud MACARTHUR, 1995, p. 289).
Ser um despenseiro de Deus exige de maneira bem peculiar um compromisso muito
elevado com a própria pessoa de Deus e com Sua Palavra. Isso pelo fato da mensagem de
Deus ser perfeita e por ser perfeita ela pede do pregador excelência no seu serviço.
Sem compromisso, não há excelência, sem excelência não há eficácia, sem eficácia a
exposição torna-se medíocre, sendo medíocre ela não atingirá o homem, não atingindo o
homem o pregador falha em sua tarefa. O compromisso não é uma tarefa aleatória no
ministério pastoral, mas é parte de um todo no que diz respeito ao serviço de despenseiro.
Portanto, fica em total evidência que, para a pregação ser eficaz, antes o pregador precisa ser
eficaz em seu compromisso com Deus e com Sua Palavra. E a pregação expositiva e
cristocêntrica exige cabalmente isso do pregador, por isso ela é relevante, primeiramente, no
aspecto compromisso.

3.4.2 Pregação com Fidelidade


Num rápido passeio pelas páginas da Bíblia, facilmente percebe-se que a fidelidade de
Deus é claramente apresentada pelos autores bíblicos. Dois exemplos serão dados, um do
Antigo e outro do Novo Testamento.
Moisés: Saibam, portanto, que o SENHOR, o seu Deus, é Deus; ele é o Deus fiel,
[...] Ele é a Rocha, as suas obras são perfeitas, e todos os seus caminhos são justos.
É Deus fiel, que não comete erros; justo e reto ele é. (Dt 7.9; 32.4 - NVI).
Paulo: Fiel é Deus, o qual os chamou à comunhão com seu Filho Jesus Cristo,
nosso Senhor. [...] E Deus é fiel; ele não permitirá que vocês sejam tentados além
68

do que podem suportar. (1Co 1.9; 10.13); Todavia, como Deus é fiel, nossa
mensagem a vocês não é “sim” e “não”, (2Co 1.18 - NVI).

Que a fidelidade de Deus é evidente e certa não há como questionar. Deus faz as
promessas e também as cumpre, sempre! A pauta nesse momento está na fidelidade do
pregador quanto à exposição bíblica. O mesmo Paulo, que apresentou de maneira tão precisa a
fidelidade de Deus, agora se volta para o homem mostrando também sua responsabilidade:
“Apegue-se firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz
de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela.” (Tt 1.9 - NVI).
Uma das questões favoráveis à pregação expositiva é o fato de que na exposição o
pregador é obrigado a ser fiel à mensagem bíblica, como primícia de Deus. Pregar com
fidelidade é exercer com excelência a vocação que Deus deu. Por mais essa razão, a exposição
cristocêntrica é relevante.

3.4.3 Pregação com Sabedoria


Erroneamente muita gente entende o termo “sabedoria” como um elevado nível de
intelectualidade. Esquecem-se de muitas questões fundamentais que caracterizam uma
verdadeira sabedoria.
Nos textos originais, podemos perceber alguns detalhes muito interessantes.
No hebraico: (1) chokmak, habilidade ou destreza na arte (Ex 28.3; 31.6); (2) sakal,
ser prudente (1Sm 18.30; Jó 22.2); (3) tushiyah, retidão, bom conselho e compreensão (Jó
11.6; 12.16); (4) binah, compreensão, inteligência (Pv 4.7; Dt 4.6; Dn 1.20).
No grego: sophia, palavra geral para todos os tipos de sabedoria, divina ou humana
(Lc 1.7; 1Co 1.30; Cl 1.9; 3.16; Tg 1.5; 3.17).
Ter sabedoria é pensar e agir corretamente em qualquer situação, é fazer escolhas
certas. É essa a idéia expressa em todos os tipos de sabedoria e nas melhores definições para o
termo.
O fator mais importante e mais belo nesse ponto é a origem da sabedoria, que está em
Deus. É Ele quem concede tamanho privilégio por meio de Seu Filho: “É, porém, por
iniciativa dele que vocês estão em Cristo Jesus, o qual se tornou sabedoria de Deus para nós,
isto é, justiça, santidade e redenção,” (1Co 1.30 - NVI). É Ele quem por meio da Palavra
ensina a ter sabedoria: “Por essa razão, desde o dia em que o ouvimos, não deixamos de orar
por vocês e de pedir que sejam cheios do pleno conhecimento da vontade de Deus, com toda
a sabedoria e entendimento espiritual.” (Cl 1.9 - NVI).
69

A relevância da exposição cristocêntrica está no fato que, por meio do estudo e do


entendimento adquirido em todo o processo, o pregador adquire sabedoria e a transmite a seus
ouvintes: “Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos
outros com toda a sabedoria, e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a
Deus em seu coração.” (Cl 3.16 - NVI).
Pregar expositivamente é pregar com sabedoria, pois a sabedoria vem de Deus (Tg
1.5), e Deus fala por meio da Bíblia a homens sábios, pois “o temor do Senhor é o princípio
do saber,” (Pv 1.7).

3.4.4 Pregação com Poder


Faz-se necessário, antes de tudo, esclarecer que o pregador não é a origem do poder,
muito menos o gerador desse poder, ele é apenas o veículo. Infelizmente muitos líderes
religiosos atuais, alguns até auto-intitulados apóstolos (cf. anexo 01) ou arcanjos, acham-se
suficientes para se auto-considerar poderosos e donos desse poder. O que não é verdade, e
pior que isso, trata-se de charlatões da fé, que usam a simplicidade do povo para obterem
benefícios próprios (cf. Mt 7.22,23).
A idéia subordinativa parece ter sido invertida. Observe o seguinte: (1) o homem é
poderoso. Na criação, Deus conferiu poder ao homem sobre as demais criações: “... tenha ele
domínio sobre os peixes do mar,” (Gn 1.26). (2) Satanás é mais poderoso: “... quando houver
destruído todo principado, bem como toda potestade e poder.” (1Co 15.24). (3) Porém Deus é
TODO-PODEROSO: “Quem é o Rei da Glória? O SENHOR, forte e poderoso, o SENHOR,
poderoso nas batalhas.” (Sl 24.8).
... para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória [...] e qual a
suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da
força do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos
e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e
potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no
presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as coisas debaixo dos pés e,
para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a
plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas. (Ef 1.17-2.1).

Deus está com todo o poder e foi Ele quem o conferiu a Satanás, assim como ao
homem. Portanto, a razão desse poder está em Deus (Rm 1.20), é Deus quem permite que o
homem conheça esse poder (Rm 9.22), e que venha a agir por meio dele (Rm 1.16; 1Co 1.18;
1Co 2.4). Essa ação humana revestida do poder de Deus acontece somente por ação do
Espírito Santo (Rm 15.13,19), na ação salvífica de Jesus Cristo (1Co 1.24).
A verdade é que não é possível entender toda essa ação se de fato o pregador não for
buscar com profundidade essas informações no texto bíblico. É de lá que mina esse poder de
70

informações capazes de atingir o coração mais endurecido. Marinho faz um comentário muito
interessante sobre o assunto: “[a exposição] extrai do texto bíblico não apenas a idéia central,
as divisões e as subdivisões, mas o próprio espírito do texto, fazendo o ouvinte reviver as
circunstâncias e os sentimentos que produziram aquele texto.” (MARINHO, 2000, p. 145).
Faz-se necessário citar novamente a frase de Ruskin: “Pregação: trinta minutos capazes de
ressuscitar mortos.” (RUSKIN apud MARINHO, 2000, p. 145).
Pregar expositivamente é apresentar o poder de Deus, mediante o Espírito, para
anunciar Cristo Jesus. A relevância da exposição está também no fato que ela consegue
visualizar esse poder e consegue canalizá-lo em direção ao homem, convicta de que está
somente falando aquilo que Deus revelou em Sua Palavra.
Talvez agora se possa entender porque Paulo disse: “Certamente, a palavra da cruz é
loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus.” (1Co 1.18).

3.4.5 Pregação que Transforma


O alvo da exposição é a transformação do coração do indivíduo, e isso acontece
quando o expositor consegue extrair do texto bíblico alimento cheio de proteínas e
carboidratos espirituais (cf. SHEDD, 2000, p. 11). É extremamente necessário que esse
alimento, oferecido aos ouvintes, venha cheio de vitaminas, pois “quando uma mensagem não
consegue transformar o coração, fatalmente o endurece.” (SHEDD, 2000, p. 11).
Os nutricionistas costumam dizer que a maioria dos alimentos pré-prontos, ou
enlatados em geral, costumam vir com um índice muito baixo de vitaminas, porém são
práticos e pouco exigem dos cozinheiros. Infelizmente o mesmo acontece nos púlpitos das
igrejas. Devido ao avanço da tecnologia, a mídia e a internet oferecem muita coisa de fácil
acesso, a imensa diversidade de materiais, mil esboços de sermões, auto-ajuda, e materiais
que não exigem esforços, os púlpitos das igrejas se tornaram uma fonte de alimento sem
consistência.
Shedd fez a seguinte observação: “A exposição poderosa da Bíblia definha-se
exatamente quando as melhores ferramentas para auxiliar os mestres da Palavra são de fácil
acesso.” (SHEDD, 2000, p. 11).
Quando a pregação é feita com seriedade e empenho, buscando uma exposição correta
do texto bíblico, trabalhando cada parte do processo, desde a leitura, oração, exegese,
hermenêutica, até a entrega do sermão - ela atinge o coração endurecido do homem (cf. Hb
3.7-8), fornece alimento com o mais alto índice de proteínas e carboidratos, transforma o
71

indivíduo pelo poder que vem do alto. É mais uma razão pela qual a exposição cristocêntrica é
relevante no ministério pastoral.

3.4.6 Pregação que Alcança o Perdido


Toda exposição é, em última análise, a expressão de um arauto clamando para a alma
perdida (cf. MACARTHUR, 1995, p. 345). A exposição é o veículo que conduz a cruz de
Cristo até o perdido, e faz desse perdido um novo homem, transformando-o e,
progressivamente, lapidando-o nos moldes do Senhor.
Muitos teólogos contemporâneos, erroneamente, costumam questionar o fator
exposição, alegando ser uma linguagem difícil e pouco eficiente para uma sociedade tão
pragmática como a atual. Algumas respostas: a primeira, o fato da Bíblia ser atemporal em
seus princípios certifica que, o mesmo valor conferido a ela na época em que foi escrita, é
conferido nos dias de hoje. Segunda, não é proibido usar um linguajar coerente, que não
deturpe o texto bíblico, e que facilite o entendimento do ouvinte. Terceira, a Bíblia é única
ferramenta realmente eficaz na propagação do Evangelho.
Quando um sermão é expositivo, consequentemente ele estará expondo Jesus Cristo, e
a única razão do homem ser salvo é o amor de Deus demonstrado na cruz de Cristo. Portanto,
qual método pode ser mais eficiente na evangelização do que a exposição? MacArthur afirma
o seguinte: “Evangelização é a pregação da cruz de Cristo: Ele morreu pelos pecados do
mundo, ressuscitou dos mortos, é o Senhor do universo e de sua Igreja, e as pessoas devem
primeiro crer na verdade da mensagem para que se produza efeito em sua alma.”
(MACARTHUR, 1995, p. 344).
Na pregação expositiva anuncia-se arrependimento (2Co 7.9); confissão (1Jo 1.9);
justificação (Rm 4.25); e santificação (Rm 15.16). A Bíblia é a chave destas verdades, basta,
mediante orientação do Espírito Santo, buscar essas verdades em sua mais clara definição.
Desta forma a mensagem atingirá eficazmente o coração endurecido do perdido,
transformando-o num novo homem em Cristo Jesus.

3.4.7 Pregação que Atinge o Salvo


A eficácia de uma exposição está no resultado espiritual conferido à Igreja (cf.
KOLLER, 1999, p. 102), seja atingindo almas perdias, como visto anteriormente, seja
desenvolvendo o salvo. O que, primordialmente é necessário entender, é o fato de que a vida
cristã é um constante processo de santificação, interrompido apenas na morte (ou no
arrebatamento).
72

Por mais maduro que o crente possa parecer, ele necessita do aprendizado bíblico.
Paulo faz uma exortação bem precisa sobre o assunto: “Desenvolvei a vossa salvação com
temor e tremor;” (Fp 2.12). Pedro, no final de sua última epístola, pede para que os crentes
cresçam na graça: “Cresçam, porém, na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador
Jesus Cristo.” (2Pe 3.18 – NVI).
O clássico texto de Paulo, escrevendo ao jovem pastor Timóteo, é talvez o melhor
retrato da inteireza e da necessidade do crente aprender, dia a dia, a Palavra de Deus: “Toda a
Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção,
para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente
habilitado para toda boa obra.” (2Tm 3.16).
Outro fator importante de se ressaltar é o prazer que o crente tem, em ouvir e aprender
acerca das verdades bíblicas. Exemplos: Josué: “Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes,
medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está
escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido.” (Js 1.8). O salmista:
“Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.” (Sl 1.2).
“De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o segundo a tua
palavra.” (Sl 119.9).
Muitas outras razões poderiam ser listadas neste tópico, porém, a ênfase aqui não está
na razão, mas no veículo que transmite essa razão e na eficiência em que o faz. A exposição,
por ser fiel ao texto bíblico, é o veículo mais eficaz na hora de transmitir essas verdades.
Robinson faz uma exortação interessante sobre o assunto: “Sem conteúdo bíblico, relacionado
com a vida, nada temos que valha a pena comunicar;” (ROBINSON, 1980, p. 127).
A exposição atinge o coração da criança mais inocente, como do adulto mais maduro,
e o faz com excelência, porque faz nada mais nada menos que expor o que Deus deixou
registrado ao homem como regra de fé e prática.

3.4.8 Pregação que Agrada a Deus


No aspecto pregação, o que pode ser mais agradável a Deus do que transmitir Sua
mensagem fielmente, sem inserções, sem maculações, sem tendências posicionalistas, sujeitos
totalmente ao que Ele, Deus, deixou registrado em Sua Palavra?!
A dedicação e esforço que o pregador impõe na preparação da mensagem é o que
determina o quanto ele será abençoado por Deus e o quanto ele será eficaz. Chapell afirma o
seguinte: “Se o seu alvo é a honra de Cristo, você pode ser um grande pregador pela
fidelidade a ele e à sua mensagem.” (CHAPELL, 2002, p. 33).
73

Paulo, orientando o jovem pastor Timóteo, faz o mesmo incentivo:


Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na
palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza. Até à minha chegada, aplica-
te à leitura, à exortação, ao ensino. Medita estas coisas e nelas sê diligente, para
que o teu progresso a todos seja manifesto. Tem cuidado de ti mesmo e da
doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti
mesmo como aos teus ouvintes. (1Tm 4.12,13,15,16, grifo meu).

Vale a pena ser fiel a Deus, porque Ele é fiel (1Tm 2.13); vale a pena trabalhar
esforçadamente no estudo da Palavra, “se lançar de todo o coração ao seu chamado.”
(CHAPELL, 2002, p. 33), vale a pena ser “doulos” (escravo, servo) do Senhor.
Infelizmente a pregação expositiva e cristocêntrica exige grande esforço, e parece ser
grande demais para a maioria dos pregadores (cf. SHEDD, 2000, p. 110). Dr. Shedd ainda
acrescenta: “É uma raridade encontrar um líder de igreja que tenha treinado seus presbíteros
e diáconos a fazerem serviços na igreja [...] e ensinar classes de Escola Bíblica Dominical,
liberando-o, assim, para um estudo cuidadoso da Palavra, acompanhado de oração.”
(SHEDD, 2000, p. 110).
A exposição é a ferramenta mais hábil para atingir o coração do homem, e será até a
consumação dos séculos. E Deus em Sua soberania e graça dá ao pregador condição de
executá-la com excelência por meio do Espírito Santo, mas não exime o pregador de sua
responsabilidade e empenho.
Conclui-se esse tópico com as preciosas palavras de Dr. Russell P. Shedd:
Deus não deixará de abençoar os filhos que se empenham em se humilhar aos pés
do Senhor para saber o que ele falou através dos seus profetas e apóstolos para
atentamente escutarem o que o Espírito está dizendo hoje. Esse compromisso com a
Palavra inspirada, bem entendida e ministrada, criará servos úteis na Vinda do
Senhor. A palavra de Paulo para Timóteo deve encorajar todos a investir na
pregação que transforma vidas: “Procura apresentar-se a Deus aprovado, como
obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja corretamente a palavra da
verdade.” (2Tm 2.15 – NVI) (SHEDD, 2000, p. 111).
74

CONCLUSÃO

Com ênfases na exposição e na teologia cristocêntrica, esta pesquisa monográfica


preocupou-se em desenvolver um raciocínio lógico, de ordem bíblica, da importância de se
restaurar o conceito ou natureza da pregação bíblica (gr., ‘ ’, k rygma, ‘proclamação’,
‘anúncio’, ‘pregação’).
Partindo desse conceito, o leitor pode entender que ao pregador cabe compreender que
sua vocação é a mais sublime, mas a que exige o maior grau de dedicação e empenho (1Co
9.16). Está nas mãos do pregador a responsabilidade de transmitir sem erros e sem enxertos a
mensagem bíblica, fazendo-se valer do conceito de arauto. [keryx significa, segundo o léxico
de Grimm-Thayer, “um mensageiro revestido de autoridade pública que transmitia as
mensagens oficiais dos reis, magistrados, príncipes, comandantes militares.” (GRIMM-
THAYER apud STOTT, 2005, p. 33)]. Mais que isso, ao pregador cumpre apenas expor o que
já está revelado, sua autoridade está subordinada à autoridade bíblica. A Bíblia é que
determina o teor da mensagem, ao arauto cumpre transmiti-la.
O processo, como visto na pesquisa, não é fácil, nem rápido - exige dedicação e
tempo. Faz-se necessário conhecimento teológico e ferramentas auxiliares para que o sermão
seja desenvolvido da melhor maneira.
A teologia cristocêntrica ocupa um lugar especial na pregação, pois sem ela, o sermão
será sem sabor e sem nutrientes. A pregação cristocêntrica centraliza-se na obra de Deus para
o resgate do homem, através do sacrifício expiatório de Jesus Cristo na Cruz do Calvário.
Reconhecendo que Cristo está no mais alto degrau da doutrina bíblica, entendendo que a
redenção do homem veio por Ele, e somente por Ele. É saber que em toda a Escritura existe
um foco cristológico.
Logicamente, para obedecer e ser fiel a essa verdade, o pregador precisa compreender
qual o seu papel e quais as suas responsabilidades em todo o processo. Precisa de uma
disciplina pessoal rigorosa, tanto no aspecto pessoal como no aspecto espiritual. A vida do
pregador, seu entusiasmo, sua sensibilidade, sua humildade, seu zelo, sua paixão será muito
importante na exposição: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não
tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.” (2Tm 2.15).
Agora sim, compreendendo o valor da exposição bíblica e da teologia cristocêntrica na
pregação, conclui-se que todo processo precisa ser aplicado com excelência. A autoridade de
Deus, a supremacia de Cristo, a obra do Espírito Santo e a primazia do texto, são os
fundamentos para que a pregação seja de fato relevante.
75

Embora existam algumas dificuldades, a exposição é capaz de atingir o coração mais


endurecido (Hb 4.12). A exposição cristocêntrica é de fato relevante porque é constituída de
compromisso, de fidelidade, de sabedoria, de poder. É capaz de transformar o indivíduo,
alcançar perdidos, atingir salvos, e entre tantas outras coisas, segue o padrão de Deus.
Faz-se necessário também um despertar da liderança eclesiástica brasileira e mundial
em resgatar a Relevância da Pregação Expositiva e Cristocêntrica no Ministério Pastoral.
Percebe-se uma certa limitação quanto ao assunto. Porém, julga-se pertinente e de
muita necessidade em face de tantos desvios teológicos e práticas inconvenientes nas igrejas -
reflexo do abandono da sã doutrina.
Através de uma pesquisa iniciada há cerca de um ano, explorou-se o assunto, de modo
que o resultado desta monografia seja satisfatório, embora reconheça uma amplitude ainda
maior que a abordada.
Vê-se também a necessidade de um estudo mais profundo na área pastoral,
principalmente quanto às qualificações determinadas por Deus, especialmente em 1 Timóteo
3.1-13 e Tito 1.5-9.
Dos livros alistados na Bibliografia, fica a sugestão para leitura àqueles que querem
conhecer mais sobre o assunto: (1) CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica; (2) KOLLER,
W. Charles. Pregação Expositiva: Sem Anotações. (3) LACHLER, Karl. Prega a Palavra –
Passos para a Exposição Bíblica. (4) LIEFELD, L. Walter. Exposição do Novo Testamento.
(5) LLOYD-JONES, D. Martyn. Pregação e Pregadores. (6) MARINHO, M. Robson. A Arte
de Pregar – A Comunicação na Homilética. (7) REIFLER, U. Hans. Pregação ao Alcance de
Todos. (8) ROBINSON, W. Haddon. A Pregação Bíblica. (9) SHEDD, P. Russel. Palavra
Viva: Extraindo e Expondo a Mensagem. (10) STOTT, John. Eu Creio na Pregação. (11)
STOTT, John. O Perfil do Pregador. Estes livros ajudarão a compreender os assuntos
abordados nesta pesquisa.
76

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BANCROFT, D.D., Emery Teologia Elementar – Doutrinária e Conservadora. Tradução


João Marques Bentes e W.J. Goldsmith. São Paulo: Batista Regular, 2001.

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Fé, 1989.

BÍBLIA EM AÇÃO. São Paulo: Vida Nova, 2000. 1 CD-ROM.

BÍBLIA SAGRADA. Trd. João Ferreira de Almeida. Edição Revista e Atualizada. 2. ed.,
Barueri (SP): Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.

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BOST, J. Bryan. O Obreiro Aprovado. Editora Vida Cristã, 1998.

BRAGA, James. Como Preparar Mensagens Bíblicas. São Paulo: Vida, 1986.

CHAMPLIN, Russel Normam. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Tradução João


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CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. Tradução Oadi Salum. São Paulo: Editora
Cultura Cristã, 2002.

CUNHA, A. Silas. Hermenêutica. São José dos Campos: Centro de Estudos Teológicos do
Vale do Paraíba, 2006, 48p. (Apostila não publicada, preparada para a disciplina de
Hermenêutica).

DICIONÁRIO AURÉLIO. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 1986.

DOUGLAS, J.D. (editor organizador). O Novo Dicionário da Bíblia. Tradução do original


inglês João Bentes. São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1962.

GEISLER, Normam; NIX, William. Introdução Bíblica: Como a Bíblia Chegou Até Nós.
Tradução Oswaldo Ramos. São Paulo: Vida, 2003.

GRONINGEN, Gerard van. Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: Luz


para o Caminho, 1995.
77

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática – Atual e Exaustiva. Tradução Norio Yamakami,


Lucy Yamakami, Luiz A. T. Sayão, Eduardo Pereira e Ferreira. São Paulo: Vida Nova, 1999.

HENDRICKS, Howard; HENDRICKS, William. Vivendo na Palavra. Tradução Talita Rose


Bauler. São Paulo: Batista Regular, 1998.

JULIARE, Wallace. Análise de Hebreus. São José dos Campos: Centro de Estudos
Teológicos do Vale do Paraíba, 2007, 36p. (Apostila não publicada, preparada para a
disciplina Análise de Hebreus).

KALLER, W. Donald. Homilética I, O Sermão Expositivo. Patrocínio (MG): CEIBEL,


1979.

KOLLER, W. Charles. Pregação Expositiva: Sem Anotações. Tradução Odayr Olivetti. 6ª


edição. São Paulo: Mundo Cristão, 1999.

LACHLER, Karl. Prega a Palavra – Passos para a Exposição Bíblica. Tradução Robinson
N. Malkomes. São Paulo: Edições Vida Nova, 1990.

LIEFELD, L. Walter. Exposição do Novo Testamento. Tradução Hans Udo Fuchs. São
Paulo: Vida Nova, 1985.

LLOYD-JONES, D. Martyn. Pregação e Pregadores. João Marques Bentes. 5ª edição. São


José dos Campos, Editora Fiel, 2001.

LLOYD-JONES, D. Martyn. Monergismo [online]


Disponível em: <http:--www.monergismo.com-textos-pecado_original-pecado_lloyd.htm>.
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MACARTHUR, John. Redescobrindo o Ministério Pastoral. São Paulo: CPAD, 1998.

MARINHO, M. Robson. A Arte de Pregar – A Comunicação na Homilética. São Paulo:


Vida Nova, 1999.

MCDOWELL, Josh. Josh McDowell Responde. Tradução Yolanda M. Krievin. São Paulo:
Editora Candeia, 2001

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NICODEMUS, Augustus. Monergismo [online]


Disponível em: <http:--www.monergismo.com-textos-certeza-certeza_augustus.htm>. Acesso
em: 8 de maio, 2007.

OLIVEIRA, H. José. Exegese do Novo Testamento. São José dos Campos: Centro de
Estudos Teológicos do Vale do Paraíba, 2006, 42p. (Apostila não publicada, preparada para a
disciplina Exegese do Novo Testamento).

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Disponível em: <http:--pt.wikipedia.org-wiki-Homero>. Acesso em: 10 de fevereiro, 2007.

REIFLER, U. Hans. Pregação ao Alcance de Todos. São Paulo: Vida Nova, 1993.

RIRYE, C. Charles. Bíblia de Estudo Anotada. Tradução Carlos Oswaldo Cardoso Pinto.
São Paulo: ABEC, 1994.

ROBINSON, W. Haddon. A Pregação Bíblica. Tradução Gordon Chown. São Paulo: Vida
Nova, 1983.

SHEDD, P. Russel. Palavra Viva: Extraindo e Expondo a Mensagem. São Paulo: Vida
Nova, 2000.

STOTT, John. Eu Creio na Pregação. Tradução Gordon Chown. São Paulo: Vida, 2003.

STOTT, John. O Perfil do Pregador. Tradução Glauber Meyer Pinto Ribeiro. São Paulo:
Vida Nova, 2005.

SWINDOLL, Charles. Eu, um Servo? Você está Brincando. Tradução Myrian Talitha Lins.
Belo Horizonte: Editora Betânia, 1983.
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ANEXO 01
CTM – Curso Teológico por Módulos
Visão Panorâmica do Novo Testamento
Pr. José Humberto de Oliveira

O DOM DE APÓSTOLO
APÓSTOLOS14 (gr. “apostólous”). A palavra “apóstolo” tem três significados
principais no Novo Testamento.
Primeiro, uma só vez parece que é aplicada a todo cristão individual, quando Jesus
disse: “O servo não é maior que seu senhor, nem o enviado (apóstolos) maior do que aquele
que o enviou.” (Jo 13.16). Assim, todo cristão é tanto um servo quanto um apóstolo. O verbo
“aposteilo” significa “enviar”, e todos os cristãos são enviados ao mundo como embaixadores
e testemunhas de Cristo, para participarem da missão apostólica de toda a igreja (Jo 20.21).
Porém, este não pode ser o significado neste trecho, pois neste sentido todos os cristãos
seriam apóstolos, ao passo que Paulo escreve que Cristo concedeu apenas “uns” para serem
apóstolos.
Segundo, havia “apóstolos das igrejas” (2Co 8.23; Fp 2.25), mensageiros enviados por
uma igreja como missionários ou com alguma outra incumbência.
Terceiro, havia os “apóstolos de Cristo”, um grupo muito pequeno e distintivo, que
consistia nos doze (inclusive Matias, que substituiu Judas), Paulo, Tiago irmão do Senhor, e
possivelmente um ou dois mais. Foram pessoalmente escolhidos e autorizados por Jesus, e
tinham que ser testemunhas oculares do Senhor ressurreto (At 1.21-22; 10.40-41; 1Co 9.1;
15.8-9; Lc 6.12-16). Deve ser neste sentido que Paulo está usando a palavra “apóstolos” aqui,
pois coloca-se em primeiro lugar na sua lista, assim como faz também em 1Co 12.28, e é
assim que até agora tem usado a palavra em suas cartas, referindo-se a si mesmo (Ef 1.1; 1Co
1.1, etc.) e aos seus colegas apóstolos como sendo o fundamento da Igreja e os meios da
revelação (Ef 2.20 e 3.2-6).
Não devemos hesitar, portanto, em dizer que neste sentido não há apóstolos hoje. Não
cremos que os “missionários” de hoje sejam os “apóstolos” de ontem, apesar de crermos que
muitos são chamados e enviados para certos lugares com missão específica.

Leitura Complementar:
TEOLOGIA SISTEMÁTICA, Wayne Grudem, São Paulo: Vida Nova, pp. 760-764.

14
Fonte: John Stott, Batismo e Plenitude do Espírito Santo. São Paulo: Vida Nova.