You are on page 1of 269

Sergio Francisco Carlos Graziano Sobrinho

Globalização e sociedade de controle:
a cultura do medo e o mercado da
violência

TESE DE DOUTORADO

DEPARTAMENTO DE DIREITO
Programa de Pós-Graduação em Direito

Rio de Janeiro, setembro de 2007

Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.

Sergio Francisco Carlos Graziano Sobrinho

Globalização e sociedade de controle:
cultura do medo e o mercado da violência

Tese de doutorado
Tese apresentada como requisito parcial para
obtenção do título de Doutor pelo Programa de
Pós-graduação em Direito do Departamento de
Direito da PUC-Rio.

Orientador: Professor Doutor João Ricardo Wandeley Dornelles

Rio de Janeiro, setembro de 2007

Sergio Francisco Carlos Graziano Sobrinho

Globalização e sociedade de controle:
cultura do medo e o mercado da violência

Tese de doutorado

Tese apresentada como requisito parcial para
obtenção do título de Doutor pelo Programa de
Pós-graduação em Direito do Departamento de
Direito da PUC-Rio. Aprovada pela Comissão
Examinadora abaixo assinada.

Professor Doutor João Ricardo Wandeley Dornelles (Orientador)
Departamento de Direito – PUC-Rio

Professor Doutor José Maria Gómez
Departamento de Direito – PUC-Rio

Professor Doutor Florian Fabian Hoffmann
Departamento de Direito – PUC-Rio

Professora Doutora Vera Malaguti Batista

Professor Doutor Castor Bartolomé Ruiz

Prof. Nizar Messari
Vice-Decano de Pós-Graduação do Centro de
Ciências Sociais – PUC-Rio
Rio de Janeiro (RJ), 18 de setembro de 2007

Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do
trabalho sem autorização da universidade, do autor e do orientador.

Sergio Francisco Carlos Graziano Sobrinho
Graduou-se em Direito (Universidade Federal de Santa Catarina) em
1992, concluiu o mestrado em Direito pela UFSC em 2001, ingressou no
doutorado em agosto de 2003, sendo bolsista da CAPES. Membro efetivo
do NUPED (Núcleo de Pesquisa em Estado, Política e Direito, da
Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC), realizando
pesquisa na área da criminologia, violência e Direitos Humanos.
Advogado desde 1992, professor universitário desde 1995.
Ficha catalográfica

SOBRINHO, Sergio Francisco Carlos Graziano.
Globalização e sociedade de controle: cultura do medo e
o mercado da violência / Sergio Francisco Carlos
Graziano Sobrinho; orientador: João Ricardo Dornelles –
Rio de Janeiro: PUC; Departamento de Direito, 2007.
267 p
1. Tese (doutorado) – Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Direito.
Inclui referências bibliográficas.
1. Direito– Tese. 2. Globalização. 3. cultura do medo. 4.
controle social. 5. reprodução do capital. 6 direitos
fundamentais. 7. criminologia. I. Sobrinho, Sergio
Francisco Carlos Graziano. II. Dornelles João Ricardo
W.. III. Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro. Departamento de Direito. IV. Título.

CDD: 340

Aos meus filhos Victor e Mateus .

Aos amigos Carlos Magno. Professor Antônio Millioli. numa tese de doutorado. Muito obrigado. Gisele Guimarães . me apoiaram e contribuíram à conclusão dessa pesquisa. profundamente. Agradeço à nossa UNESC . exímio orientador e talento intelectual incontestável. em duas oportunidades (uma na fria Porto Alegre. Antônio Carlos Maia. comendo pizza e tomando vinho. Parceiros de proveitosas discussões. de alguma forma. cabe aqui uma pequena reflexão. João Ricardo W. especialmente. Não foi por menos que. e outra na congelante São Marcos. confesso que nossa relação (orientador – orientando) ultrapassou (ou ultrapassaria) qualquer barreira. e Rogério Dultra. Esta missão se torna um pouco mais difícil. Thomas e Maurício. Ricardo Lobo Torres. imprescindível para a concretização do curso. O orientador deve confiar no orientando. com o passar do tempo. o companheiro João. pelo apoio à pesquisa. pelo incentivo e indicação da PUC e do Prof. meu caro amigo. àqueles que. O ‘senhor’ e Professor João Ricardo. Carlos Alberto Plastino. submeto-me a um intenso exame de consciência para agradecer. Fabiana. pela orientação em si e pelas conversas sempre esclarecedoras. Aos colegas de doutorado.Agradecimentos Neste momento. José Maria Gómez (professor e membro da banca de qualificação). Ao corpo docente da pós-graduação em Direito da PUC-Rio: agradeço. pois é seu nome que também está em jogo. demonstrando a preocupação com a capacitação de seu corpo docente. realmente não é fácil. aos professores José Ribas Vieira. Dornelles. Nádia Araújo. Dr.Universidade do Extremo Sul Catarinense – na pessoa de seu Reitor. Muito embora as ‘inovações tecnológicas’ tenham colaborado e encurtado tempo e distância. Ao orientador: meu muito obrigado ao Prof. Júlio. João Ricardo (orientador) como o melhor lugar para alcançar os objetivos de pesquisa. pela sua compreensão no momento do meu licenciamento do curso. Florian Hoffmann. no sítio do nosso amigo José) fizemos da orientação um ritual de aproximação e profunda amizade. A missão de orientação. num doutorado em que o orientando está no interior de Santa Catarina e o orientador no Rio de Janeiro. tornou-se. Entretanto.

pela disposição e amizade. meus filhos. pelos diálogos enriquecedores proporcionados na disciplina que cursei naquela universidade. ao flamenguista e sofredor Anderson por toda ajuda fornecida e ao vascaíno Marcos (Marcão) pela inesquecível ajuda nos momentos que precederam a seleção ao ingresso no doutorado e. Sigfrido e Cacilda. meu eterno agradecimento aos amores da minha vida: meus pais.. pelo incentivo. muitas ou na maioria das vezes. Victor e Mateus. da Universidade Federal de Santa Catarina. finalmente. Aos funcionários da PUC-Rio: muito obrigado à querida e simpática Carmen.Cittadino e Adrian Sgarbi (membro da banca de qualificação). Muito obrigado. Vera Malaguti Batista (membro da banca de qualificação).. respeito e carinho dispensados nestes quatro anos de estudo e ausências (ainda que. pois suas vidas dimensionam cada etapa ultrapassada da minha. minha esposa. durante o curso. não saibam disso.). bem como meu agradecimento especial à Professora Jeanine Nicolazzi Philippi. Cristina. E. .

Utilizando-se da cultura do medo e contando com mecanismos de intervenção estatal. Palavras-chave: Globalização. A hipótese central é no sentido de que as estratégias de poder tendem a implementar rigorosas políticas de segurança pública de perfil cada vez mais autoritário. controle social. provocando efeitos em sentido inverso – mais violência e exclusão social. criminologia .Resumo Graziano Sobrinho. cultura do medo. Rio de Janeiro. direitos humanos e acumulação de capital. o sistema penal exerce papel preponderante. objetiva-se compreender as implicações do fenômeno da violência. violência. A partir dos referenciais teóricos da economia política e da criminologia crítica à definição de categorias como criminalidade. Tese de Doutorado – Departamento de Direito. tipicamente de “combate” e de “exclusão”. o controle social serve à reprodução e acumulação do capital através de conexões entre o fomento aos mecanismos de regulação. Globalização e sociedade de controle: a cultura do medo e o mercado da violência. 2007. privatizando o controle social. que não refletem ou não significam melhoria na garantia dos direitos fundamentais. diante da lógica mercadológica propugnada pelo neoliberalismo. exclusão social. mas atentam contra os mesmos. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Diante do contexto globalizado da sociedade e da ‘necessidade’ do controle social. explorando economicamente a violência. do ponto de vista do controle social e conflitos sociais. direitos fundamentais. 267p. Sergio Francisco Carlos. João Ricardo Wandeley Dornelles (orientador). resolução dos conflitos sociais e às “democracias de mercado”. reprodução do capital.

and through the marketing logic advocated by the neoliberalism. causing effects in the inverse direction – more violence and social exclusion. privatizing the social control. social control. the social control serves to reproduction and accumulation of the capital through connections between the promotion to the regulation mechanisms. culture of fear. but attempt against them. 2007. It makes use of the culture of fear and counts on mechanisms of state intervention which do not reflect or do not mean improvements in the guarantee of the fundamental rights. The centra hypothesis is in the sense that the strategies of power tend to implement rigorous policies of public security with an increasing authoritarian profile. Rio de Janeiro. Tese de Doutorado – Departamento de Direito. João Ricardo Wandeley Dornelles (orientador). criminology . social exclusion.Abstract Graziano Sobrinho. typically of “combat” and “exclusion”. From he theoretical references of the economy policy and critical criminology in relation to the definition of categories such as criminality. Sergio Francisco Carlos. Globalization and social control: the culture of fear and the market of violence. reproduction of the capital. the penal system exercises the preponderant character. human rights and accumulation of capital. exploring the economy of violence. 267p. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro According to globalized context of the society and by the ‘necessity’ of the social control. violence. resolution of the social conflicts and the “market democracies”. the aim is to understand the implications of the violence phenomenon from the point of view of social control and conflicts. fundamental rights. Keywords: Globalization.

...3....90 3...... GLOBALIZAÇÃO E CONTROLE SOCIAL..........28 2...........................51 2.....................2 A globalização e seus reflexos: separações e polarizações..........................................................130 ..........................28 2............................4 Democracia.......... GLOBALIZAÇÃO E DEMOCRACIA..............2........11 2........................4 A produção industrial militar e a necessidade do “consumo destrutivo”........................................................1 As objeções democráticas do liberalismo................. capitalismo e coerção estatal: uma crítica no mundo globalizado...2. INTRODUÇÃO............................................3 Espaço e tempo à reprodução do capital.........3 A criação de novos espaços à reprodução do capital........2 O uso dos instrumentos ideológicos e repressivos: o conteúdo político das funções econômicas do Estado.............1 As transformações no mundo do trabalho.........2.......1...........................................66 3.93 3....................................................2........111 4..............................2......................1 O proletariado no período fordista e sua relação com o cárcere...........................2................................................................................................1 O mundo do trabalho: do “grande internamento” à normalização do proletariado no regime de acumulação flexível.......87 3.............32 2....90 3..........1 Delineamentos da moderna e contemporânea democracia....2 A intervenção política do Estado na economia....2 Os reflexos do liberalismo e das globalizações na democracia: liberdades.......118 4......122 4........................1.1 Estado e a relação social da produção..............3................79 3..............................103 3..........................................2 O cenário mundial do capital e os ciclos econômicos no último quarto do século XX.........................................................35 2.....1 As formas de intervenção do Estado......................98 3......................................3.............................3...................................18 2............................................68 3........................SUMÁRIO 1........................82 3..................................................................................3 Os processos de globalização e os pressupostos à violência estatal...................................3 As relações entre os processos de globalização e os Direitos Humanos....... separações e polarizações.....................4 O mercado da violência..19 2.............2 O proletariado no regime de acumulação flexível e sua relação com sistema punitivo.............................. CONSTITUIÇÃO DA SOCIEDADE DE CONTROLE...114 4......63 3...............

.................. MERCADO E PRODUÇÃO NORMATIVA DA DECISÃO POLÍTICA.......181 5........... BIBLIOGRAFIA.........................................3 Um terceiro significado: exclusão social..............................................................................................1...................4.............3 A sociedade contemporânea como sociedade de controle...207 5....143 4.......... CONSIDERAÇÕES FINAIS...1..1 Os novos espaços e as novas estratégias de poder: o biopoder.149 4.3 A privatização das prisões: retirada da “sujeira” pelo controle social..1..1 A exacerbação da divulgação de atos de violência como mecanismos de controle..1..226 5.........................218 5............1.............1.........................2....257 .......................4 A cultura do medo como legitimadora do controle social: a divulgação da violência e a banalização dos direitos e garantias fundamentais....169 5...234 6............. “tolerância zero” e “teoria das janelas quebradas” como controle social de classe...............4....................1..........163 4.....2 Um segundo significado: o biopoder... A legitimação da dominação pelo controle..........................................2 O mercado como centro de produção normativa e de decisão política...................................210 5.153 4............. excesso de biopoder e violação dos Direitos Humanos......154 4..........................................................................2 A gestão política de Segurança Pública conservadora: “eficientismo penal”...................4 O controle social privatizado: a exploração econômica do medo....188 5..4..175 5...........1 O discurso do medo e as práticas de segurança... fábrica e controle social.................................4......183 5................................. A biopolítica e os Direitos Humanos.......................1..........3...... Direitos Humanos e a guerra perpétua.2.....1 Um primeiro significado: economia e biopolítica como estratégia de poder............................4..........................................246 7....................................................................................................................197 5............. As tecnologias de poder e as formas de controle.174 5.......1 O controle social na ordem capitalista globalizada..................................................................................160 4.......................4 Controle social e reprodução do capital: a face oculta da mesma “moeda”...1.....................................................3 O estado de exceção..........175 5........201 5....3........................195 5...........2 A economia política da pena: a relação entre sistema prisional.................................5 O controle total da vida dos corpos (ou dos corpos vivos).............4..................................................................

. é substituído pelo paradigma de controle biopolítico. Esta noção liberal de liberdade. identificada na realização dos desejos.1 Introdução A presente pesquisa tem por objeto analisar as estratégias de poder na adoção de políticas de segurança públicas em detrimento de outras políticas públicas de segurança. o qual. livre e. a partir da lógica do sucesso capitalista. polícias. Otto Kirchheimer. Através. não mais excluir ou eliminar o inimigo. induzi-lo a determinadas práticas. potencializando o deslocamento da soberania do Estado para o mercado. não mais treinar corpos indóceis. contemporaneamente. Partindo-se dessa constatação. e indo um grau além. docilização da mão-de-obra e a seletividade. tão bem debatidas por diversos autores como George Rusche. de importantes contribuições prodigalizadas pela criminologia crítica – lembremos das funções veladas do sistema penal como a estigmatização. mas sim observá-lo. de viés marxista. concentra-se em entender as conseqüências da transição do regime de poder soberano (definido por Foucault) para um modelo de controle disciplinar. poderes constituídos – o judiciário e político) através de uma visão econômica. a pesquisa pretende estabelecer os enlaces teóricos que relacionam o sistema penal (prisão. isto é do triunfo de seu principal pressuposto: reproduzir para acumular capital. O marco inicial de análise é a relação muito próxima (quase de dependência) existente entre a vinculação que se faz da noção liberal de liberdade que coincide com a realização dos desejos dos indivíduos. forjada a partir dos ideais oitocentistas do mercado. no início do século XXI. o objetivo. que garantia um mundo sem desgastes. típico das sociedades industriais. é visto. essencialmente com igualdade de condições a todos. vigiando-o e punindo-o. especialmente aquele efetivado pelo sistema penal para. racional. seus objetivos e tendências voltadas à reprodução do capital. num primeiro momento. Portanto. possibilitando estabelecer pontes que façam a interface entre a severa atuação do sistema de controle social nos últimos anos – típico da sociedade burguesa contemporânea – e as formas atuais de reprodução do capital como algo que subjaz a análise tradicional da punição.

especificamente no período compreendido entre o final da década de 1980 e início dos 90. suspensão do processo. por exemplo. etc. portanto. mesmo diante da potencialidade das promessas da modernidade. mas também daqueles submetidos a outros tipos de controle sócio-penal (probation. e. Dario Melossi. como a Inglaterra. que passou a existir e aumentar. não só da população efetivamente encarcerada. de que fala Marx). cada vez maior. a implementação de sistemas de segurança – públicos e privados – o aumento dos mecanismos de efetivo policiamento ostensivo da população (veículos. os complexos processos de globalização que intensificaram o fenômeno da mercantilização dos direitos sociais e possibilitaram novas formas de reprodução do capital. o ponto central da tese. Diversos fatores contribuíram para deflagração desses fatos.) nos últimos 30 a 40 anos. de alterações nas políticas sociais-penais direcionadas ao ‘combate’ à criminalidade (crime organizado. Portanto. aos moldes da acumulação primitiva (como a expropriação de terras. armamentos. livramento condicional. descobrindo-os. Massimo Pavarini e Alessandro Baratta – a pesquisa aportar-se em dois elementos históricos à escolha do seu objeto de estudo e a forma de observá-lo: primeiro. a constatação empírica de um aumento significativo. a análise deverá transitar por correntes teóricas que permitam a visualização dos efeitos desse controle a partir do ponto de vista econômico. segundo. ao terrorismo. ao tráfico de drogas. Este é. uma enorme massa de excluídos. importando saber.).). de obter vida digna e . a buscar novos espaços à sua reprodução. como tendências em transformar as políticas de segurança pública em verdadeiros instrumentos de reprodução e expansão do capital. parole. equipamentos eletrônicos. etc. o incremento. nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. na utilização de recursos antes somente imaginados à punição e ao disciplinamento. diante da crise dos anos 1970. levou o sistema capitalista. no Brasil. mas também pelas novas dinâmicas do trabalhador da fábrica). fruto do que se convencionou chamar de pósfordismo (não só pela flexibilização dos direitos trabalhistas e mercantilização dos direitos sociais. justamente porque estes não se sentiram contemplados. iniciando um intenso processo de desprendimento do indivíduo em relação ao contexto social. investimento em pessoal. contudo. possibilitando identificar as privatizações dos presídios. penas alternativas. etc.12 Michael Foucault.

sua função original. mas também das hordas de mendigos. Considerando estes objetivos. preocupando a burguesia ascendente) – perderam. a proposta é. as instituições de seqüestro – consideradas instituições subalternas à fábrica (lembremos não só de Foucault em “História da Loucura”. melhoria na garantia dos direitos fundamentais. isto é. constituindo-se na classe perigosa. da mesma forma que as fábricas e o trabalho vivo mudaram sua configuração. é um fato. Charles Melnam parece ter razão: tudo é possível na contemporaneidade. Portanto. Não podemos desdenhar a capacidade do capital. atentam contra os mesmos. vagabundos e pequenos criminosos que invadiram as cidades do século XVI e XVII na Europa. as quais tentam demonstrar que o problema da segurança pública é prioritário em detrimento aos direitos sociais e às garantias fundamentais. relacionados a políticas de segurança pública. se havia a necessidade de treinar corpos. portanto. as guerras internacionais. Não há lugar para imprecisões e dúvidas diante da fúria vociferante do capital e do mercado. confirmando sua funcionalidade política. combate ao tráfico ilícito de entorpecentes).13 igualdade para todos. à consecução das finalidades resultantes das chamadas economias de mercado. sua realização pela lógica neoliberal. muito presente nas historiografias de Rusche e Kirchheimer e de Melossi e Pavarini. provocando efeitos em sentido inverso – mais violência e exclusão social? Quais conexões podem ser feitas diante do discurso das políticas conservadoras de segurança pública (especialmente as chamadas políticas de “tolerância zero” e o movimento de “lei e ordem”). entretanto. na contemporaneidade. Como explicar este fenômeno? Como explicar ou a quem se socorrer para explicar esses fenômenos? Será que os mecanismos de intervenção estatal. E isto. a necessidade do controle. O que ocorre. há. entretanto. é que não se imaginava a possibilidade de reproduzir o capital utilizando-se da violência estrutural do Estado. permitindo. os mecanismos de auto-regulação (agências reguladoras) e resolução (privatização dos presídios) dos conflitos sociais com as “democracias de mercado”? Estas são. hoje. diretamente. ao não refletirem ou não significarem. de outro modo. os interrogantes da pesquisa. identificar os interesses na exploração e divulgação da violência (por exemplo. de certa forma. fomentando o aparecimento de novas . em primeiro lugar.

). está diretamente relacionada com a adoção das políticas econômicas neoliberais. saúde. 2003). Podemos pensar. O resultado. com a transformação dos políticos em gestores da coisa pública (Melman. na criação de inimigos comuns ou. significativamente em relação às políticas de segurança pública. em toda destruição ambiental efetivada no planeta. em segundo lugar. etc. foi. A intensidade e efeitos dos . em conseqüência. Assim. nos intensos processos de subjetivações existentes. bem como na clássica obra de Rusche e Kirchheimer “Punição e estrutura social” (1999). em primeiro lugar. é possível verificar seus efeitos devastadores em relação aos indivíduos que ficam “sujeitados” a um violento e funcional processo de anulação do seu status jurídico. referenciar estes efeitos em relação aos resultados causados pela criação de inimigos comuns (especialmente o tráfico ilícito de drogas e armas e o terrorismo) e divulgação da multiplicação de atos violentos. inclusive ao direito à vida: é o homo sacer de Agamben. Os níveis de exclusão são diversos. esses mesmos excluídos. umbilicalmente vinculado ao sentimento de insegurança. ainda. por exemplo. educação. na destruição das instâncias coletivas e. na progressiva pauperização das populações. em função do exacerbado sentimento de medo. fomentando novas formas de controle e de reprodução do capital. Há um desnudamento dos direitos. a percepção de uma sensível alteração das funções da pena. em segundo lugar. e. a hipótese principal de resposta aos problemas até aqui apresentados. que foi sendo efetivado através de diversos acontecimentos nos últimos 40 anos.14 formas de controle e. da prisão e dos mecanismos de controle social exercido pela sociedade contemporânea em comparação àquelas descritas por Michel Foucault em “História da Loucura na Idade Clássica” (2004). no dizer de Bauman). possibilitando a inserção de novos mecanismos de exploração (econômica) e de controle. pois como estas políticas de “combate” à violência caminham em sentido oposto à implementação de políticas públicas de segurança (como moradia. o surgimento. na impossibilidade de ser consumidor (consumidor falho. na perda da instância política em detrimento do mercado. de um sentimento de “não pertencer” ao grupo. o que proporciona o espaço próprio da biopolítica (seu significado é o estado de exceção). na análise conjunta desses fatos. a destruição do indivíduo e total indiferença em relação ao outro.

Apenas a título ilustrativo. terrorismo. hoje.548. confrontado com a obrigação de buscar novos espaços à reprodução do capital. processual penal e de execução penal). podendo levar a poderes e domínios totalitários.15 mecanismos de controle social provocam sentimentos variados. ações policiais cada vez mais intensas. no julgamento do Habeas Corpus no 84. na discussão sobre a função investigativa das polícias e da temática em relação a possibilidade ou não da investigação ser realizada pelo Ministério Público 1 . Simbolicamente estes fatos colaboram para exacerbar o sentimento de medo e insegurança. Para alcançar estes objetivos. ainda que o custo seja a perda de direitos. de viés marxista. Com esta análise pretende-se verificar as conseqüências da implementação e desenvolvimento da democracia na configuração das relações de poder e força do Estado. Apenas dois Ministros manifestaram seu votos até agora: Marco Aurélio Mello (contra) e Sepúlveda Pertence (a favor). com o que se divulga de descontrole social: corrupção. No capítulo segundo serão discutidas as novas formas de ampliação do capital utilizando-se recursos teóricos da economia política. incentivando um sentimento mórbido de vingança e realização de justiça. ao descrédito das instituições. marcada pelo confronto e pela violência. para entender os processos de globalização que intensificaram a excludente 1 O debate sobre a possibilidade de o Ministério Público realizar investigações criminais está sendo debatido no Supremo Tribunal Federal. No primeiro capítulo será analisado o liberalismo econômico e seu desenvolvimento no contexto da democracia e da globalização. guerras. suscetíveis. atentados. pela exibição de programas de televisão que procedem julgamentos públicos de pessoas. crimes violentos. pelo constante aumento da população carcerária. em função de que o Estado. vê-se. portanto. justificando medidas que privam os indivíduos de direitos. . delimitando o objeto na perspectiva do papel da democracia na atual sociedade capitalista. surgindo a necessidade – e de certo modo legitimado por esse sentimento de insegurança – de se fazer algo. especialmente quando a comunidade está com medo. basta verificar as constantes alterações legislativas no âmbito da segurança pública (legislação penal. necessário ao sistema capitalista. ainda que não formal e judicialmente acionadas criminalmente. a pesquisa foi dividida em quatro capítulos.

etc. No terceiro capítulo serão estudadas as estratégias e tecnologias de poder em um mundo socialmente flexibilizado. serão analisadas todas as relações existentes. xenofobia e. exclusão e barbárie social. para entender a ultrapassagem da lógica do internamento e do disciplinamento dos corpos. discutidas nos três capítulos anteriores. contudo. um caminho de portas abertas à necessidade de . pobreza. consumidores e não consumidores. mapeando as tendências de controle. Portanto. os parâmetros da ação política estatal diante da crise da segurança pública. O objetivo do capítulo é entender as conseqüências da adoção de políticas de segurança pública – como a necessidade da construção de mais presídios. vislumbrando estabelecer as possibilidades de inserções sociais de mecanismos de exploração econômica do controle social. isto porque os efeitos do discurso da suposta crescente violência social atinge. seletividade criminal. resultando em políticas cada vez mais autoritárias e truculentas das autoridades públicas. A hipótese que será discutida neste capítulo é central à pesquisa. ainda neste segundo capítulo.16 política social e a mercantilização dos direitos sociais. Partindo-se das conseqüências das estruturas políticas e econômicas globalizadas. No momento seguinte. proletarização e encarceramento dos excluídos. constituindo-se. No quarto e último capítulo. o encarceramento de determinadas parcelas da população e a utilização do sistema penal para controlar a massa de desempregados ou de “subempregados”. como desemprego em massa. Serão ainda analisadas as conseqüências do capitalismo globalizado. serão estudadas as tendências e contradições internas do capitalismo em função de sua dificuldade à expansão e a busca de novos espaços à reprodução do capital. por exemplo – fazendo-se uma leitura da relação existente entre o aumento das taxas de encarceramento e demais tipos de controle sócio-penal e o atual cenário de controle. em última análise. de frente. intolerância social. a pós-modernidade impõe a “dialética do destino” e que “vença o melhor”: ricos e pobres. criminosos e não criminosos. pretende-se estabelecer uma relação entre a maximização da divulgação do crescimento da violência e a criação do sentimento social de necessidade de combatê-la através de políticas de segurança pública conservadoras. com a conseqüente vulnerabilidade dos direitos humanos.

publicada pela Editora Revan em parceria com o Instituto Carioca de Criminologia. que a referida obra somente chegou às prateleiras das livrarias brasileiras após sua utilização no presente trabalho. . Postfordismo e controllo della moltitudine) citadas no trabalho. em correspondências eletrônicas que mantive com ele. foram traduzidas pelo Professor Sérgio Lamarão. Finalmente. mas sim o original em italiano adquirido no ano de sua publicação. em nota de rodapé. contudo. saliente-se que as transcrições da obra de Alessandro De Giogi (Il governo dell'eccedenza. A obra traduzida chama-se “A miséria governada através do sistema penal”. a título exclusivamente metodológico. responsável pela tradução da obra para o português. razão pela qual ela não fora utilizada ou refenciada no texto. Destaque-se.17 realização dos pressupostos capitalistas: criação de novos espaços a expansão e reprodução do capital. no ano de 2006.

3 Os processos de globalização e os pressupostos à violência estatal. em especial as implicações na configuração das relações de poder e força do Estado.) preconizadas e aplicadas pelos liberais. na tentativa de demonstrar os acertos e fragilidades do relacionamento da democracia liberal. Há que se perguntar.1 Delineamentos da moderna e contemporânea democracia. os quais se opuseram à forma estruturada no mundo antigo. a partir do que será possível entender o sentido provocado pelas separações (Igreja e Estado. invocar as conseqüências práticas da implementação e desenvolvimento da democracia no âmbito da sociedade liberal. de mercado. pela lógica da competição e da atomização. Miguel Abensour e Ellen Meiksins Wood. não de forma exaustiva. Na segunda parte será priorizado o movimento crítico do debate. qual o papel da democracia na atual sociedade capitalista. Na primeira parte deste primeiro capítulo será descrita a relação entre “democracia” e “liberalismo”.3 As relações entre os processos de globalização e os Direitos Humanos Este primeiro capítulo pretende analisar.1 As objeções democráticas do liberalismo. como o liberalismo econômico se desenvolveu no contexto da democracia e da globalização.4 Democracia. delimitando o objeto do presente capítulo.2 GLOBALIZAÇÃO E DEMOCRACIA 2. ou seja. 2. separações e polarizações.2. 2. 2.2. capitalismo e coerção estatal: ma crítica no mundo globalizado. 2. 2. sociedade civil e comunidade política. marcada pelo confronto e pela violência? Neste sentido é importante verificar e entender as razões que levam alguns autores1 a indicar que há uma relação absolutamente antitética entre capitalismo e democracia.2 A globalização e seus reflexos: separações e polarizações. num primeiro momento. como os países fundados a partir da preservação dos direitos individuais funcionam sob a lógica capitalista globalizada e caracterizada por uma sociedade de consumo.2 Os reflexos do liberalismo e das globalizações na democracia: liberdades. ou seja. etc. pretendese. Por fim. privilegiará alguns autores do pensamento político moderno.2.2. 2. . como Norberto Bobbio.

mas. à primeira vista. São Paulo: Boitempo Editorial. A democracia. o termo representava algo. entretanto. mulheres e estrangeiros. pp. a plebe também conseguiu o direito de tomar parte das decisões. o liberalismo democrático. para os antigos. nem mesmo teve uma trajetória linear ascendente (em desenvolvimento) na história. sejam inconciliáveis.. Esta idéia de Robert Dahl reflete bem determinadas situações que. depois de. por volta do século V a. possuía um sistema no qual. por exemplo). pois a partir da definição de cidadão. depois de muita luta. na história da civilização. 2001.”).1 Delineamentos da moderna e contemporânea democracia A trajetória e herança democráticas têm seu marco inicial estabelecido nos sistemas da Grécia clássica e em Roma. 18/19). podiam eleger os magistrados2. todos os cidadãos estavam autorizados a participar. no mínimo. tem uma conotação de regime político no qual a soberania cabe ao povo. pois ele acredita que a democracia pode ser inventada ou reinventada. a mais importante cidade democrata grega. dois séculos – na Grécia e em Roma – ocorreu seu declínio e queda. hoje. onde. Atenas. provavelmente os atenienses cunharam o termo democracia (Dahl. Para Robert Dahl a democracia não apareceu na Grécia antiga de uma hora para outra. diferente. Mais tarde. dependendo das condições que se apresentam em determinado momento histórico.19 2. 261 p. 2003. estes (os cidadãos) podiam deliberar diretamente nas assembléias e não por intermédio de representantes e. Em Roma o direito de participar das decisões estava restrito aos patrícios e aristocratas. igualmente. realizada por Aristóteles (na qual estavam excluídos escravos. entretanto toda participação 1 Neste sentido ver a obra de Ellen Meiksins Wood (em especial “Democracia contra o capitalismo: a renovação do materialismo histórico. ainda. aproximadamente. . muito ao contrário. em assembléia. Dahl credita o aparecimento da democracia. como por exemplo. às condições adequadas de ser implementadas. que a participação democrática desenvolve-se a partir de uma “lógica de igualdade”. pressupondo. C.

bem como é importante haver continuidade pois “o maior problema não é causado pela longa duração. Hobbes. insistindo no fato de que o indivíduo só conseguiria encontrar segurança pública por meio de estabelecimento (contratual) de um poder soberano “todo-poderoso”. p. em 1629. 2001. pois o modelo mais velho (pré-moderno) estava estabilizado de forma “a colocar em primeiro plano um cosmos ordenado por força divina. Aristóteles e a política. que terminam por chamar e magnificar a rebelião. pois. no sentido de não concordar com a democracia mas aprovava no mais alto grau o governo real. com a mesma plausibilidade. irá permanecer até o início do século XX. . Foi a partir de diversos pensadores (tais como Maquiavel. Nesta visão – na qual já se pode falar em modernidade – o desenvolvimento da democracia não foi apenas uma mera substituição de um tipo de governo por outro – da monarquia ou absolutismo para a democracia – mas houve fundamental alteração do objeto em estudo. p. em especial com o deslocamento do governo do povo para o poder real (concreto do governante). Hobbes ultrapassa o pensamento pré-moderno (pela substituição de um telos transhumano por uma racionalidade e por uma vontade humanas) com a idéia de busca individual pelo poder3. importante ver seu pensamento em “WOLFF. 3 Conforme Leo Strauss (1980. 45) Locke – um dos principais pensadores do paradigma liberal2 Sobre Aristóteles. ao traduzir “História da Guerra do Peloponeso”. enquanto que na modernidade é o sujeito que passa a ser o centro de investigação. pois a ameaça de uma disputa pela sucessão do trono é mais fácil de agastar do que o perigo acumulado por pequenas desobediências. deixa claro que concorda com seu pensamento. pois não importa que a soberania recaia em um indivíduo ou a uma “assembléia”. ao rei e ao corpo coletivo (assembléia) de cidadãos em uma democracia. Bodin e Hobbes) que a idéia pré-moderna de visão do mundo toma contornos muito diferentes. o qual pode ser atribuído. Tradução de Thereza Christina Ferreira Stummer e Lygia Araújo Watanabe. a unidade e continuidade do poder”. e a pressupor uma intencionalidade ou teleologia divino-natural que impregna e orienta todos os seres vivos” (Dallmayr. de certa forma. São Paulo: Discurso Editorial.” (Ribeiro. pelo menos parcialmente acessível à percepção humana. desde que haja unidade.20 estava restrita aos homens o que.). 15. 156 p”. 2a ed. Francis. Para Hobbes “a questão principal na escolha do regime é. mas pelos pequenos espaços de tempo que a compõem. p. 1978. de Tudídides. Hobbes se apresenta como um defensor da monarquia e um opositor da democracia. 75-76). 2001.

por Marx. assim. sua história foi marcada por peças e espólios de guerras. longe de uma visão romântica da nação. como o novo poder soberano ou identidade coletiva e como motor determinante da mudança social revolucionária (Dallmayr. formando o chamado Estado-nação. 2001. territorial e temporal de uma população. ou seja. 2001. 2003. Esta passagem – da legitimidade para o entorno da legalidade – marca uma fase posterior do Estado moderno. p. pelo menos em tese. anexações. Foi a partir do final do século XVIII. alianças e dominação de classe. que expressavam a implicação do surgimento da nação ante a evidente homogeneização cultural. então. Outros dois referenciais importantes na consolidação da trajetória da democracia na modernidade foram o pensamento de Rousseau. eliminando sua idéia do poder soberano – como destinatário exclusivo e individual da soberania – depositando sua confiança no governo parlamentar e nas “regras de direito”. que houve a fusão do Estado moderno com a nação moderna. 17). Conforme adverte Adauto Novaes (2003. o Estado de Direito. permitir que a sociedade seja levada de volta à anomia (Dallmayr. fundado a partir da liberdade política e igualdade de participação dos cidadãos diante do poder. a idéia de Estado-nação fez um deslocamento do poder. Também legitimada no contratualismo – na racionalidade calculada e na vontade humana – o estado de direito liberal moderno sempre esteve marcado pelo paradoxo de investir no “direito” – um “super” poder hobbesiano – ou. pp. que pretendia transferir a soberania popular (Rousseau) para o proletariado elegendo-o. Diferente da concepção de Estado Federal do século XVI que. exercido pela burguesia através dos instrumentos “científicos” fornecidos pelo direito e pela economia. . p. com o advento das revoluções francesa e americana. p. 12). 19). 12/13). principalmente prodigalizada por historiadores como Ernest Renan e Paul Valéry. em meados do século XIX. pretendia garantir um mínimo de autonomia às “nacionalidades”. que propugnava pela transferência do poder absoluto do soberano (Hobbes) para a vontade geral do povo e. Os cidadãos de uma nação não reconhecem nenhuma autoridade superior à do Estado (Novaes.21 individualista – refina o pensamento de Hobbes. criando um núcleo central. que é o Estado: é a soberania do Estado que deve garantir a independência nacional.

) sem qualquer necessidade de retribuição. p. fundamentalmente. como principal forma de organização política. há apropriação da produção (do trabalho. animais. há. que proporciona a legitimação democrática –. moldada pela origem. o domínio agora do cidadão – relação jurídica – ao invés da relação servil – relação social de produção típica do período feudal. dois componentes que operam juntos embora com sentidos diferentes: um. alguns países europeus começaram a desenvolver programas assistenciais. outro. Algumas razões foram responsáveis pelo aparecimento e consolidação das políticas assistenciais do Estado. A política democrática nacionaliza-se. de sujeitos diferentes. etc – as reivindicações dos direitos políticos (século XIX) – organização. marcada pela obrigação dos camponeses em trabalhar aos senhores feudais sem remuneração4. ao interpretar Habermas. . uma separação entre sujeitos. 2000. com o alargamento das relações entre Estado e sociedade. levou à exacerbação do nacionalismo favorecendo o surgimento de 4 Destaque-se que a relação servil. etc. legal e político – a nação de cidadão. em especial a luta pelos direitos civis (século XVIII) – liberdade de pensamento. o aumento do poder político das classes operárias. desde o nascimento. marcando. Intercambiável com o termo “povo”. a partir do século XVIII. legalmente capacitados para exercer seus direitos e obrigações. tivesse profundas implicações na sociedade democrática. pré-político – a nação herdada ou atribuída. O pertencimento do ser social se dá com o nascimento. principalmente como domínio da soberania popular. o termo “nação” passa a ser portador ambíguo do republicanismo e do nacionalismo. produzindo no imaginário comum a mudança da concepção dos sujeitos envolvidos no processo.5 Importante análise a ser percebida é que. por exemplo. naturalmente. Esta forma de aproximação existente entre povo (identidade coletiva) e Estado (Estado-nação). voto e posteriormente o sufrágio universal – significando o desenvolvimento da democracia e. língua comum. o que resultará na luta pelos direitos sociais. é marcada na Idade Média pela pressuposição da existência. que facilita a integração social (Goméz. 5 Esta citação foi feita por José Maria Gómez. dentro ainda das estruturas de poder patriarcal. cultura. ou seja. não constituindo qualquer categoria econômica pois se há diferença entre as pessoas. 50). forjado a partir de uma noção ambígua do termo “nação”. história. Durante o século XIX a idéia de “nação do povo” é traduzida como incremento nas lutas pela democratização.22 Esta convergência permitiu que o Estado-nação. diversamente da relação burguesa. expressão. já que as trocas somente ocorrem entre pessoas iguais.

. p. Tradução de Roberto Raposo. É importante perceber e sublinhar: (. a contribuição da professora de Ciência Política. As origens do totalitarismo. quando as políticas nacionais perderam grande parte do poder de decisão. a soberania democrático-populista ter sido apaziguada. a qual reside na retomada da discussão da democracia (entendida no sentido socialista e radical do poder pelo povo). pelo legado processualista e pelo “estado de direito” (Rechtstaat) de Locke – um legado que. talvez até desviada.23 ideologias opostas à identidade coletiva (ameaçando o conteúdo republicano do Estado-nação) – a exemplo do que aconteceu na Europa dos séculos XIX e XX – como o fascismo e o comunismo stalinista6. 308-321. p. O Estado-Nação: segundo volume de Uma crítica contemporânea ao materialismo histórico. al. v. capitalismo e coerção estatal). Esta última tendência foi fortemente sustentada pela expansão do capitalismo corporativo e do liberalismo de mercado em todo o mundo. 1989. aprofundou sua própria inclinação pela anomia e pela autobusca individualista. c) GIDDENS.) o fato de. entretanto. . Entretanto. p. Brasília: UnB. à luz das políticas liberais e de suas conseqüências políticas estruturais na sociedade. possuíam uma base industrial avançada sem. 13). É esta relação que tentaremos trazer nas próximas linhas. vemos uma reversão espetacular: são os Estados nacionais que criam estruturas que tendem a neutralizar as diferenças nacionais” (Novaes. conforme entendimento de Giddens. precisamente como resposta ao totalitarismo. Tradução de Beatriz Guimarães. É neste cenário que. 12a ed. Para entender mais sobre totalitarismo ver: a) ARENDT. sob o ponto de vista liberal. São Paulo: Edusp. à análise do tema (relação existente entre democracia. Hannah. 6) todas as organizações. durante todo esse tempo. 1247-1259.. estruturam-se as lutas democráticas mais importantes. Tomemos. uma expansão tendente a reduzir a política e a vida pública a um complemento da empresa privada (Dallmayr. Estes. p. 2001. o ditador. incluindo as econômicas. 2. pela 6 Estes movimentos de massa que foram classificados por totalitarismo. 2) um partido único comprometido com essa ideologia e normalmente liderado por um único homem. apresentar as características institucionais da democracia liberal. São Paulo: Cia das Letras. e três tipos de monopólio ou. 5) armamentos operacionais. Bobbio. possuem seis características básicas: 1) uma ideologia totalitária. Norberto (org. denominados Estados totalitários. 20). mais precisamente. b) STOPPINO. Ellen Meiksins Wood.). Mario. de controle monopolístico: que são 4) comunicação de massa.. 2003. pelo constitucionalismo liberal. no transcorrer dos séculos XVIII. exposta na obra “Democracia contra o capitalismo: a renovação do materialismo histórico”. cumpre destacar a análise dos acontecimentos. Anthony. In: Dicionário de política. 2001. 3) uma polícia secreta totalmente desenvolvida. especialmente porque “na era da internacionalização da economia. et. XIX e XX.

p. 28). pois este. Na interpretação de Ellen Wood (2003. 2003. As relações sociais em que se insere esse mecanismo econômico – e que na verdade o constituem – são tratadas como algo externo. 28). mas. no Capítulo I de “O Capital”. político. mas a economia em si é despolitizada e esvaziada de conteúdo social (Wood. ou seja. a manutenção da propriedade privada absoluta para o capitalista e seu controle sobre a produção e apropriação (2003. como um conjunto de relações sociais”. diante da submissão aos ditames da acumulação de capital e às leis de mercado (via políticas liberais) coloca mais e mais esferas da vida (cidadania) fora do alcance da responsabilidade democrática. “Marx desenvolve a evolução da forma de mercadoria. demonstrando que o problema é. . Sua contribuição aponta para a crítica ao capitalismo. revelando por fim que o ‘ponto de partida’ da produção capitalista não é outra coisa senão o processo histórico de isolar o produtor direto dos meios de produção. 23). com o firme propósito de conter as massas (exclusão social). Conforme apontado por Ellen Wood. No máximo. bem como limita o poder do povo entendido no estrito significado político. p. 2003. gerando a necessidade de novas formas de dominação e coerção (Wood. mostrando sua incompatibilidade com o capitalismo.24 qual busca esclarecer e recuperar o projeto teórico de Karl Marx. eminentemente. passando pela mais-valia até o ‘segredo da acumulação primitiva’. um processo de luta de classes e de intervenção coercitiva do Estado em favor da classe expropriadora”. tendo como condição a configuração política do conjunto da sociedade. um poder político espacialmente separado pode intervir na economia. assim. o segredo fundamental da produção capitalista (revelado por Marx) refere-se “às relações sociais e à disposição do poder que se estabelecem entre trabalhadores e capitalistas para quem vendem sua força de trabalho”. vez que este representa o governo de classe pelo capital. o equilíbrio de forças de classe e os poderes do Estado que tornam possível a expropriação do produtor direto. como a esfera política. o que difere a análise de Marx daquela exposta pela economia política clássica é que “ela não cria descontinuidades nítidas entre as esferas econômica e política” e Marx é “capaz de identificar as continuidades porque trata a própria economia não como uma rede de forças incorpóreas. p. Para Ellen.

413) a divisão do trabalho é a “manifestação da existência da propriedade”. ou a alocação do trabalho e dos recursos sociais que foram afastadas da arena política (Wood. 28). 2003. da extração e apropriação da mais-valia daquelas vinculadas à esfera pública. Este mecanismo – separação entre fatores políticos e econômicos – nos permite entender como. 2003. possibilitando a introdução de conceitos diferenciados entre “meios de produção” (instrumentos) e “força de trabalho” (o trabalho propriamente dito). portanto uma nova forma de autoridade sobre os produtores. historicamente. então. por outro. 36). para perceber a existência de questões políticas nas relações econômicas. Significa dizer que o “modo de reprodução de vida material determina o desenvolvimento da vida social. na possibilidade de perceber que a medida que aumenta a complexidade das relações sociais (iniciando pela família) surge a distinção entre divisão técnica do trabalho (realização de atividade especializada no processo produtivo. ou seja. a contribuição marxista que lhe empresta ao termo. Entretanto. 29). p. p. o Estado”. p. como bem observa Marilena Chauí (1996. p. p. o Estado tem sido essencial para o processo de expropriação que está na base do capitalismo. com propósitos 7 O conceito de “divisão do trabalho” trará implícita. Ou seja. possibilitando e reforçando a autonomia das idéias e independência dos indivíduos e o nascimento da ideologia e da alienação do trabalhador em relação ao produto de seu trabalho. tanto em relação às idéias quanto em relação às coisas produzidas) e divisão social do trabalho (a divisão da sociedade como um todo). como na disposição do poder de controlar a produção e a apropriação. A importância do conceito de “divisão do trabalho” reside. nos limites da presente tese. 36) a autonomia do Estado capitalista está intimamente ligada à liberdade jurídica e à igualdade entre cidadãos. pois como afirma Ellen Wood (2003. 5). “É esse o significado da divisão do trabalho7 em que dois momentos de exploração capitalista – apropriação e coação – são alocados separadamente à classe apropriadora privada e a uma instituição coercitiva pública. relações de produção que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais” (2003b. independentes da sua vontade. Esta é a relação que se impõe compreender: a importância ao capitalismo da separação entre as instâncias econômica e política. necessárias. p. . Marx escreve que “na produção social da sua existência. é essa mesma força que garante o poder econômico privado (Wood. Para alguns autores a divisão do trabalho é a simples distribuição de tarefas entre os indivíduos ou grupos sociais. política e intelectual em geral” (2003b.25 p. estabelecendo-se um vínculo econômico entre produtores expropriados livres e apropriadores privados que têm a propriedade absoluta dos meios de produção e. se por um lado o Estado tem o monopólio da força coercitiva. Assim é que a relação entre “econômico e político” no capitalismo está vinculada à separação política da economia privada. é a separação das condições e os instrumentos do trabalho e o próprio trabalho. os homens estabelecem relações determinadas. permitindo “perceber a seqüência do processo histórico e as diferentes modalidades de sociedade”. 5).

ou seja. mais contundentemente. exige a manutenção da propriedade privada. representou a recuperação pelos proprietários capitalistas. dos poderes políticos que haviam perdido para o Estado. o que era praticamente um sinônimo de privilégio. especialmente em função (. não permitindo. em vista de sua dissimulação. da liberdade política ou da responsabilização democrática”. mas a liberdade que invocavam para protegê-la. A defesa de seus direitos. em certa medida. neste momento histórico de transição.. por exemplo. a forma de dominação do senhorio havia sido substituída não só por um Estado centralizado mas também pela propriedade privada. os quais retiveram os poderes privados de exploração mitigados das funções sociais. A separação acima identificada já corresponde aos princípios liberais (especialmente em relação sociedade civil e comunidade política) o que. o Estado somente pode intervir na quantidade mas não na qualidade da exploração da mais-valia. isto porque a relação entre proprietários dos meios de produção e proprietários da força de trabalho. pois. 200). Com esta transferência de poderes políticos à economia e à sociedade privada.. especialmente a liberdade. o fato de ter tomado emprestada uma concepção de liberdade criada para um mundo no qual o privilégio não é o problema. existente nesse modo de produção. 200/201) mostra como os oligarcas de 1688 fizeram a revolução em nome da liberdade. fruto da referida separação.26 mais comunitários. estava enraizada no senhorio pré-capitalista”. completamente fora do âmbito da cidadania. o Estado capitalista reduziu as condições efetivas da cidadania (influindo diretamente na responsabilização democrática). mesmo porque “a essência da ‘democracia’ moderna não é tanto o fato de ter ela abolido o privilégio ou estendido os privilégios tradicionais à multidão.) da economia ter adquirido vida própria. Ellen Wood (2003. estava diretamente atrelada ao direito de dispor de seus bens como bem entendessem pois a “propriedade que defendiam já era em grande parte capitalista. A configuração atual de liberdade. p. não possuem a mesma significação. conforme Ellen Wood (2003. típica do modo de produção capitalista. a discussão das condições de proprietário e de trabalhador. A dominação exercida pelo capital é extrema e. Num mundo em que a condição política ou jurídica não é o determinante principal das . p. sim. mas. em comparação com as aristocracias modernas. Para ela. através do controle direto da produção.

as relações de produção não estão mais submetidas ao controle da responsabilidade democrática do Estado. é o próprio capitalismo o responsável pelo surgimento da relação entre democracia e liberalismo. especificamente com o surgimento das relações de propriedade burguesas. Esta estreita vinculação (podese dizer: plena identificação pois a democracia é “reduzida” ao liberalismo) aparece com desenvoltura em função da separação do poder político e jurídico com as relações econômicas. Para Ellen Wood (2003. 2003. o liberalismo nem mesmo a reconhece como uma esfera de poder ou de coerção. que tende a ser percebido como uma esfera de liberdade. De fato. mas sim da pobreza”. possível suscitar a democracia quando necessário restringir direitos. dos idosos. p. 2003. destruição dos direitos da mulher. a possibilidade de existir um diálogo entre as diversas esferas fica submetida e restrita à necessidade e à conjuntura do mercado. que funciona. 200).27 nossas oportunidades de vida e em que nossas atividades e experiências estão em grande parte fora do alcance de nossas identidades políticas e legais. Conforme escreve Harnecker (2000. de escolha. diversos são os problemas causados por este tipo de globalização. desde que a liberdade econômica e contratual estejam ameaçadas. dos jovens. é importante atentar aos efeitos deletérios do capitalismo. 201). até mesmo por aqueles que sentem necessidade de regulá-lo (Wood. liberdade definida nesses termos deixa muita coisa sem explicação (Wood. ou seja. em . e sim libertá-la. Com isto. dos emigrantes. mas ficam sujeitas ao mercado. “gerando uma série de fenômenos sociais negativos: apartheid social. A maneira característica com que a democracia liberal trata essa nova esfera de poder não é restringi-la. sendo. p. portanto. e freqüentemente estímulo aos confrontos destrutivos entre nacionalidades”. fomento do racismo e da luta étnica. p. Isso vale principalmente em relação ao mercado. É necessário perceber que a condição de existência da democracia nas sociedades liberais é a separação entre a esfera econômica e o poder democrático. como instância de decisão política e centro de produção normativa. Especificamente. A par da visível recessão que atravessam os países mais ricos. 239). 201). p. os quais irão desembocar na vertente liberal do capitalismo globalizado (e suas terríveis conseqüências). produzindo não uma globalização da riqueza. dentro dessa lógica liberal.

Partindo-se da elaboração conceitual e princípios do Estado moderno. 171). quais as conformações (resultados) à democracia que estão sendo impelidas pelos processos de globalização econômica. separações e polarizações Neste ponto tentaremos mostrar as implicações do liberalismo no contexto da sociedade contemporânea e. 2002. “quanto maior a área de não-interferência. o liberalismo político. 1999. Assim. liberdade significa a não interferência dos outros.2. o pensamento liberal interpreta que o único conceito válido de liberdade é o definido negativamente. 2. 2. os efeitos da economia liberal estão sendo sentidos em todos os quadrantes: desemprego em massa. . 230). Conforme os termos de Isaiah Berlin. mais ampla a minha liberdade” (Berlin. e não se aplica menos às criaturas irracionais e inanimadas do que às racionais” (Hobbes. pobreza. As objeções democráticas do liberalismo “Liberdade significa.28 especial os Estados Unidos e alguns da Europa. etc. Para manter essa massa de desempregados ou de “subempregados”. justamente como a não interferência supõe somente um titular. em sentido próprio. xenofobia. p. o indivíduo como sujeito de direito pode dar o conteúdo que melhor lhe convém ao exercício de sua liberdade. é que o Estado lança mão de seu braço coercitivo de controle social: monopólio legalizado do emprego da violência física. leis penais cada vez mais rígidas e controle do desvio. Partindo dessa definição de liberdade em Hobbes. No sentido de que se definem liberdades negativas pela não interferência e.1. p. Os reflexos do liberalismo e das globalizações na democracia: liberdades. inicia Hobbes seu discurso sobre a liberdade dos súditos. a ausência de oposição (entendendo por oposição os impedimentos externos do movimento).2. conseqüências diretas do capitalismo globalizado. num segundo momento. ou seja. fundado na liberdade individual (autonomia do indivíduo).

preservando-se uma área restrita à atuação do indivíduo. portanto. de estabelecer um corte absoluto entre um domínio público e o privado. ou seja. nasce a necessidade. Isto apenas restringirá suas liberdades civil e política. 231). face a ineficácia e violações aos direitos e garantias individuais ocorridas nos diversos países do mundo. É absolutamente necessário entender que a garantia das liberdades individuais. através de um ordenamento jurídico e político. p. precisa aprender a desejar apenas aquilo que pode conseguir. Não basta. para definir o conteúdo da liberdade de um indivíduo. mostrar-lhe que se não pode conseguir o que deseja. estas (as liberdades) devem servir como limitadoras do poder estatal à interferência na vida privada. Mais especificamente. tenha plenamente assegurado. Este funcionamento – institucionalmente articulado – somente é possível quando se cria esta proteção e o elenco dos direitos fundamentais esteja totalmente vinculado a um Estado que os garante: o Estado de Direito. p. numa visão antropológica. diante do núcleo duro das liberdades individuais – como a vida. se por um lado as instituições devem garantir as liberdades. não só. está vinculada ao paradoxo estatal. . a antítese opressãoliberdade. 2002. capazes de garantir o pleno exercício dessas liberdades. inclusive a tutela de outros direitos como o devido processo e o acesso à justiça – é a instância do Estado que está encarregada de velar e aplicar a lei justamente quando algum tipo de direito esteja sendo violado. esta liberdade. mas também a ausência de obstáculos a possíveis escolhas e atividades – ausência de obstáculos nas estradas por onde um homem pode decidir passar” (Berlin. a propriedade. 21). O sentido de liberdade individual empregado por Berlin “implica não apenas a ausência de frustração (que pode ocorrer quando se destroem os desejos). “Segue-se que é preciso se traçar uma fronteira entre a área da vida privada e a da autoridade pública” (Berlin. mas também condições institucionais. a segurança. Ocorre que. por exemplo. deve-se. pois sua atividade institucional está totalmente submetida às regras do direito. Percebe-se que toda visão liberal está montada sobre a idéia de um Estado limitado – limitado em seus poderes e em suas funções – porque só assim este Estado pode chegar a ser a garantia das liberdades individuais. cumprindo notar a necessidade de que este indivíduo.29 preocupa-se com a liberdade no sentido de ausência de oposição. 1981. por conseqüência. Entretanto.

civil. ou seja. um portador de direitos e obrigações formalmente iguais não só no domínio político mas também nas obrigações contratuais. O’Donnell parte do princípio de que os direitos conquistados pelos cidadãos pressupõem certa autonomia. Diante dessa perspectiva conceitual de democracia. enquanto uma teoria de meios e fins. argüindo que a definição que combina democracia com um grau substancial de justiça ou igualdade social não é útil em termos analíticos além de perigosa. portanto. opta pela primeira possibilidade (democracia em um caráter estritamente político – de matriz schumpeteriana). p 339).30 ser ponderada a interferência liberal nas democracias. criminais e tributárias. afirmando que esta (democracia) nada mais é do que um método. ou seja. Na sua obra “Capitalismo. demonstra amplas potencialidades de proporcionar uma maior igualdade entre os cidadãos. independente da opção feita. p 338). trata-se de um determinado arranjo político para se chegar a decisões políticas. de 1942. o que torna este sujeito responsável por estas liberdades e direitos conquistados. Para O’Donnell. cidadãos – fundamentais aos interesses e objetivos da presente pesquisa. a necessidade de diagnosticar o sentido (ou os sentidos) que se deve adotar na definição política da democracia. Joseph Schumpeter se contrapõe à definição clássica de democracia. nas chamadas novas democracias. socio-econômicas. pois tende a condenar qualquer democracia existente e. ou seja. especialmente. O’Donnell desenvolve uma análise entre democracia e alguns aspectos da igualdade entre indivíduos. Entretanto esta visão estritamente política se contrapõe à idéia de democracia como sistema absolutamente afetado pela existência de igualdades. favorece ao autoritarismo. já como pessoas legais – portadores de direitos e obrigações. socialismo e democracia”. muito embora perceba a seriedade que a crítica marxista realiza em relação à igualdade formal e ao . em especial. nas relações com órgãos estatais e em muitas esferas da vida social” (2000. Entretanto. “Este é o pressuposto que torna todo indivíduo uma pessoa legal. o ponto de contato entre a visão liberal de poder político e o regime democrático do Estado de Direito. social organizativas e políticas. Guillermo O’Donnell (2000. Reside aqui. esta presunção de autonomia e responsabilidade que toca todas as partes que atuam nas transações.

de fato. de exercer sua autonomia. 341) afirma que. (. ultrapassem as desigualdades. devido a pobreza extrema. entretanto. substancialmente. condições de exercer seus direitos. In: Guerra. esse é um argumento prático. legalmente prescrita) e não tenha provado que ele sofra de algum tipo de incapacidade desqualificante (estritamente definida e legalmente prescrita)” (O’Donnell. Michael. de modo que todos tenham. Importante destacar o reconhecimento de que a igualdade formal é absolutamente insuficiente e que a crítica às liberdades formais revelaram e induziram duas grandes conquistas. 2000. Buenos Aires: Paidós. com freqüência regulados em última instância por normas constitucionais” e também porque “os direitos e obrigações especificados são universalistas. muito embora “a democracia não tem nada a ver com esses obstáculos socialmente determinados. sujeito a testes empíricos que.. p. . p. no sentido de que são atribuídos a cada indivíduo qua pessoa legal. 8 Sobre a crítica que se faz sobre o liberalismo. com a necessidade de medidas políticas que.31 liberalismo8. O’Donnell (2000. El liberalismo y el arte de la separación. Observa-se que esta liberdade definida negativamente pressupõe uma igualdade jurídica como condição de universalizá-la. Neste sentido é que O’Donnell reconhece a importância prática do argumento segundo o qual a democracia corre sérios riscos de não sobreviver quando a população de uma determinada sociedade for incapaz. sem.). independentemente de sua posição social. pp. ver WALZER. 2000. efetivamente. como conseqüência. vários tipos de auxílio social e legal foram criados àqueles que possuem dificuldades para exercerem seus direitos (O’Donnell. com a única exigência de que o indivíduo tenha alcançado a maioridade (isto é. 342). política y moral. mostram que as sociedades mais pobres e/ou mais desigualitárias têm menos probabilidade de ter poliarquias duradouras”. O próprio O’Donnell adverte que esta igualdade – caracterizada apenas sob o ponto de vista formal – é “estabelecida em e por normas legais que são válidas (no mínimo) por terem sido sancionadas de acordo com procedimentos prévia e cuidadosamente ditados. 93 – 114. 343). uma certa idade. A segunda resultou do reconhecimento de que essas políticas equalizadoras necessitam de medidas mais específicas e.. A primeira. ultrapassar esses limites. p.

complexa e instável. 2000. constituindo-se em uma condição multidimensional em que o crescimento dos padrões de interconexão global alcança domínios institucionais-chave da vida social moderna – econômico.32 2. econômicas e políticas através de fronteiras nacionais. a possibilidade da constituição de uma economia mundial sem fronteiras (visando altas taxas de lucros através da globalização dos mercados). cultural. o regional e o global. Como conseqüência. implicando uma sensível mudança nas organizações sociais contemporâneas. 9 GÓMEZ. d) salienta um conjunto de problemas transnacionais. por não fazer parte da análise direta da pesquisa. dinâmica e contingente. de modo que os eventos ou decisões acontecidos em uma parte do mundo têm impacto imediato em outros lugares distantes. político. instituições internacionais. ambiental e social – e envolve. A globalização9 e seus reflexos: separações e polarizações A palavra “globalização” teve sua recepção acadêmica através da metáfora de McLuhan sobre a configuração de uma “aldeia global”. ou seja. legal. 10 Para uma maior especificação conceitual. organizações não governamentais e todo tipo de associações e movimentos sociais que constituem um sistema global. “chega-se a afirmar que a emergência da economia globalizada rompe de tal modo com o passado que se assiste. p. 18-19. que tornam crescentemente confusas as separações entre o “interno” e o “externo” dessas instâncias. 56-57) atribui cinco critérios à “globalização”: a) esticamento de atividades sociais. corporações econômicas transnacionais. é possível entendê-la como um processo que envolve diversas conexões. sendo assimilada pelo discurso hegemônico neoliberal. Aqui não será privilegiado o estudo da “globalização”. as quais dominam os mercados financeiros restringindo as políticas econômicas tradicionais dos Estados. o nacional. A importância para as relações político-sociais contemporâneas – para efeito de entendimento da pesquisa – é perceber o conteúdo básico da dimensão deste processo chamado “globalização”. c) aprofundamento e imbricação estreita entre o local. Gómez (op. entre Estados. à decomposição das economias nacionais e ao fim do Estado-nação como organização territorial eficaz em matéria de governabilidade das atividades econômicas nacionais” (Gómez. 20). através de empresas internacionais. José Maria.2. de modo que eles só podem ser resolvidos mediante ação cooperativa entre Estados e instituições e mecanismos multilaterais de regulamentação. p. mas tornou-se conhecida no sentido econômico no início dos anos 80. pp. cit. 2000. Através de uma intensa conceitualização10 sobre globalização. ao mesmo tempo que aumenta a sua visibilidade e consciência.2. tecnológico. . virtualmente. e) configuração de uma teia de relações de interdependência. caracterizados pelas interconexões globais. b) intensificação ou incremento de densidade dos fluxos e padrões em e entre Estados e sociedade que constituem o moderno sistema mundial.

com capacidade de regular as atividades transnacionais.33 necessariamente. Estas condições – mudança nas organizações sociais contemporâneas. tanto no aspecto jurídico e econômico. que permitem dizer que o modelo de Estado-nação de base territorial passe a ser visto de forma diferente.). conseqüentemente. 2000. a existência de uma sociedade democrática pluralista. crescimento dos padrões de interconexão global e a organização e exercício de poder social em escala transnacional e intercontinental – geram conseqüências transformadoras na democracia política e. p. São fatores importantes que contribuíram para essa crise. p. social. 45). na qual seus princípios normativos centrais são a territorialidade. tanto sob o ponto de vista teórico – com as novas teorias constitucionalistas – como prático – com a crise do Estado moderno visto que não é mais capaz de se apresentar como centro único e autônomo de poder. entrou em crise no século XX. etc. ante a agilidade dos fluxos transnacionais. Cumpre. a autonomia e a legalidade (Gómez. expressam novas e reforçadas concentrações de poder. cada vez mais nítido. resultando. político. o desaparecimento dos limites (geopolíticos) dos Estados12. na cidadania democrática tradicional (princípios políticos do Estado-nação e da ordem de Vestfália11). até mesmo geográfico. em conseqüência. . organização e exercício de poder social em escala transnacional e intercontinental (Gómez. fazer uma pequena dilucidação. 2000. p. Seu conceito. como também no sentido político e ideológico. afetando a autonomia 11 “Ordem de Vestfália” é a denominação da constituição do sistema internacional dos Estados. a noção de soberania que é colocada em cheque a partir do momento em que ela (soberania) é limitada ante as condições efetivas dos intercâmbios globais. a soberania. São estas transformações produzidas pela globalização (nos diversos âmbitos – econômico. aqui. não admitindo qualquer forma de controle democrático. tanto teórico como prático tem sofrido diversas e importantes mutações. O conceito de soberania. 58). pois os governos democráticos perdem capacidade de controlar seus próprios assuntos. a interdependência entre Estados. sujeito único de poder político no âmbito internacional. como por exemplo. Ademais. Gómez (2000. internacional. 64) explica que as formas estabelecidas de geogovernança internacional e global.

in: MATTEUCCI. entretanto. fundadas em conseqüência das políticas liberais. como status legal igualitário de direitos e deveres dos membros da comunidade política em face do poder político e. pois. a busca desenfreada do consumo. atingindo “em profundidade a cidadania democrática na sua dupla natureza. É possível verificar que: (. 2. a hibridização cultural e problemas relacionados com a insegurança e o mal-estar da sociedade. a referida crise no conceito de soberania. Os impactos causados pela textura social globalizada são dramáticos. em especial na política econômica adotada pelo marco referencial teórico de viés liberal. 2000. criando-se um profundo abismo de expectativas. De uma maneira bastante simples é possível identificar as mazelas institucionais causadas pela globalização. entre o discurso da democracia liberal ante as novas estruturas globalizadas de poder. como identidade coletiva baseada no pertencimento à comunidade nacional de origem e destino”.. a qual reverte o papel do Estado em relação à regulação do mercado. Bobbio. v. como modo de legitimação e como meio de integração social.34 democrática dos Estados individuais e impõe-lhes restrições severas à sua capacidade tradicional de integração social e nacional. e a erosão da solidariedade social decorrentes de duas décadas de intensa globalização (afetando especialmente a figura do Estado de Bem-estar e os direitos sociais)” têm provocado fortes restrições no duplo registro acima mencionado. In: Dicionário de política. item IX – O eclipse da soberania. et. é bom que se diga. Com a globalização alastram-se os grandes problemas atuais mundiais – como a degradação ambiental. “o incremento da polarização social. Brasília: UnB. sustentada no pressuposto de uma população 12 Para entender melhor. Rompe-se com todos os padrões tradicionais (tanto do Estado-nação como na “ordem de Vestfália”) e o que se verifica é a deflagração do fenômeno da mercantilização dos direitos sociais. de forma detalhada. em escala doméstica e global. bem como na responsabilidade dos direitos sociais. Nicola. assim como na dimensão sempre presente de ‘cidadania ativa’ comprometida com a busca da ‘boa sociedade’ em termos de democracia substantiva” (Goméz. 65).) a poderosa imagem do Estado-nação como forma dominante de identidade coletiva irredutível. pp. Norberto (org. 1187-1188 . al. verificar o verbete “Soberania”.. p.. um verdadeiro paradoxo.). Cria-se. simultaneamente. 12a ed.

religiosos. especialmente as da religião e da política” (Dufour. 2000.). Gómez acrescenta que “outras identidades. p. multicultural ou pluralista. culturais. contraditório e descentrado. p. em especial pelo visível e crescente fenômeno “do esgotamento e do desaparecimento das grandes sagas de legitimação. ascensão do salariado precário (sobre um fundo de desemprego de massa na Europa e de “miséria laboriosa” na América) e retomada do Estado punitivo seguem juntos: a “mão invisível” do mercado de trabalho precarizado encontra seu complemento institucional no “punho de ferro” do Estado que se reorganiza de maneira a estrangular as desordens geradas pela difusão da insegurança social (Wacquant. p. que essa sociedade. econômicos. os processos de globalização desestabilizam as identidades coletivas essencialistas baseadas em concepções territoriais do “nós” e dos “outros”. contribuindo para a constituição e expansão de um espaço político global. ou seja. 66). Citando Krause e Reinwick.35 com elevado grau de homogeneidade cultural . vê-se hoje cada vez mais desafiada por uma sociedade crescentemente pluralista ou multicultural. desenvolvidas simultaneamente nos planos infra-estatal e supra-estatal (Gómez. etc. As transformações causadas pela globalização atingem os mais diversificados setores sociais (políticos. por exemplo de gênero. étnica. no sentido de uma diversidade enorme das formas culturais de vida. 01). 135). de raça ou de preferência sexual. . podem ser altamente significativas”. dos grupos étnicos. ou seja. como se viu. multidimensional.que. havia facilitado o desenvolvimento da cidadania legalmente definida. Estas são as conseqüências da globalização que devem ser entendidas e analisadas. p. representa mais uma entre tantas outras maneiras de identificação nacional entre os povos. 66-67) explica. Desregulação social. bem como pela desregulamentação dos direitos sociais e trabalhistas. de classe social. com força de integração e solidariedade social –. desencadeando uma dinâmica de diferenciação em torno e para além do princípio de nacionalidade. que não estão enraizadas no apego a um território particular. conforme Gómez (2000. 2001 a. das visões de mundo e das religiões. 2001. é possível dizer que a identificação dos povos pode ser mais forte ou mais fraca. os quais estão juntos com a retomada do Estado punitivo. Significa dizer.

o egoísmo. poder e liberdade. Importante contribuição é dada por Hannah Arendt. p. essa modernidade é um projeto ambicioso. 76/78). do mercado e da comunidade) e da emancipação (racionalidade estético-expressiva da arte e da literatura. utilizando. rico em idéias e ilimitado nas suas promessas e que seu projeto sócio-cultural. aventuras do pensamento religioso e as atitudes de um íntimo relacionamento entre o poder exercido pela religião e o poder político? Estas e outras indagações serão objeto de análise e. Primeiramente é preciso deixar claro que os processos de globalização conduziram à atual crise de identidade da civilização. Os processos de globalização e os pressupostos à violência estatal É possível citar conseqüências políticas dos processos de globalização? É possível relacionar. para tanto. ainda. Hannah Arendt.3. Hannah Arendt indica.2. isto porque os interesses do grande capital – traduzida na militarização e hierarquização das potências hegemônicas – intensificaram a perversa e excludente política social e humanitária. o terrorismo. 20). etc (1994. da paz e da solidariedade. percebe-se que estão de mãos dadas com o discurso da igualdade. dentro do contexto político moderno. Conforme Boaventura de Sousa Santos (1996. principalmente. Em contrapartida. assenta-se nos pilares da regulação (princípio do Estado. p. farei incursões conceituais sobre autoridade (e sua crise). significando à “intromissão massiva da violência criminosa na política”. que as novas gerações cresceram sob a cumplicidade dos massacres como os campos de concentração. ou seja. a opressão.36 2. ante a complexa relação do indivíduosujeito e o mundo dos direitos humanos. o genocídio. construído entre os séculos XVI e final do XVIII. o . revolucionário. vez que o século XX foi pródigo ao encontrar na violência e nas diversas possibilidades de destruição em massa formas de controle. ao destacar a impossibilidade do diálogo entre passado e futuro nas experiências políticas e progressos tecnológicos da ciência. violência. entre situações de conflito social e agressão aos direitos individuais e coletivos. a racionalidade moralprática da ética e do direito e a racionalidade cognitivo-instrumental da ciência e da técnica). de grande complexidade. guerras civis.

portanto. então. em resposta à desregulamentação da economia e do esfacelamento do Estado Social. tendo. 15) . da exploração sexual. afirma que as formas de destituição subjetiva que invadem as nossas sociedades estão a revelar esta grande contradição. pois os símbolos representados pelo poder deixaram de existir. p. facultando à utilização da violência e da força àqueles responsáveis pelos “distúrbios da ordem social”. uma íntima relação entre racionalidades: por um lado se pretende um mundo melhor e mais digno. pois. efetivamente. Neste sentido. Todos estes elementos são vetores de novas formas de alienação e desigualdade”.” (2003. Questiona-se. surgindo com mais intensidade um estado policial e não mais social. as “democracias de mercado”. pois. Estas situações vêm demonstrar as fissuras que não puderam ser obturadas pelas transformações pretendidas pelos ideais modernos – construídas a partir dos pressupostos liberais – notadamente a realização do projeto da modernidade delimitado por Boaventura de Souza Santos. a exploração dos países de primeiro mundo em relação aos países subdesenvolvidos.37 xenofobismo. de tudo aquilo que fica de fora do estrito campo da razão. a multiplicação de atos de violência e a emergência de formas de exploração em vasta escala. mostrada pelos “colapsos psíquicos. especialmente pelo reconhecimento da existência dos limites intransponíveis da responsabilidade. geral e irrestrita. o mal-estar no campo cultural. Surge. Dufour (2001. estabelecer os lugares de identificação efetiva da influência dos processos de globalização. p. É preciso. 1). evitando a “normalidade” e “legitimidade” dos imperativos impostos pela contingência da legalidade estrita e desta como a mais profunda e totalitária forma de expressão do 13 Joel Birman ao apresentar o trabalho do Professor Marildo Menegat (Depois do fim do mundo: a crise da modernidade e a barbárie) afirma que “barbárie então é a condensação ampla. as conquistas do liberalismo ao sistema de leis implantado. na natureza a sua condição histórica de possibilidade. quais foram. em resumo. a precarização à relação e aos direitos trabalhistas. por outro a barbárie das guerras. da exploração do trabalho infantil. e percebendo a centralidade do sujeito nas relações sociais. Estes fenômenos podem e devem ser entendidos como mecanismos consectários do processo de globalização da segurança pública e do controle social. o acúmulo de capitais. Esta barbárie13 é refletida pela multiplicação dos atos de violência e as novas formas de exploração.

permitiu a Hannah Arendt concluir que a banalização do mal está situada não na tragédia do totalitarismo nazista. sobre a capacidade do ser humano em realizar ações 14 Otto Adolf Eichmann foi um funcionário do regime nazista alemão. também não existia o monstro. mas se defendia dizendo ter agido dentro dos precisos limites da legalidade. fervorosamente um cumpridor de ordens legais vigentes na Alemanha. terceiro. em seu julgamento.38 ser humano. por ter sido acusado de ter cometido crime “contra o povo judeu” e não “contra a humanidade”. inclusive por Hannah Arendt. durante a Segunda Guerra Mundial. de certa forma. enviada pela revista The New Yorker. Hannah Arendt (2003. 275). 277) levanta três importantes objeções contra o julgamento de Eichmann: primeiro. p. ele estava sendo julgado por uma lei retroativa e era trazido à corte dos vitoriosos. pela total tolerabilidade de sua conduta. levando-se à conclusão de que somente uma corte internacional poderia julgá-lo. Em 1961 Eichmann foi capturado num subúrbio de Buenos Aires por um comando israelense e levado a julgamento numa Corte Distrital de Jerusalém por ter cometido crimes perpetrados contra o povo judeu. as objeções que se aplicavam apenas à corte de Jerusalém. pois se de um lado o carrasco burocrata Otto Adolf Eichmann tinha relativa responsabilidade pelas atrocidades do holocausto. chegaram a obscurecer os grandes problemas morais. Mais que isso. Apesar de não existir desculpas ou inocência. por outro. Eichmann. tão variadas e de tal complexidade legal que. É exatamente neste chão que Hannah Arendt percorre suas reflexões sobre a ‘banalidade do mal’. Longe de parecer uma vítima de uma suposta fúria vingativa daquela Corte Distrital de Jerusalém. no decorrer dos trabalhos e depois na quantidade surpreendentemente pequena de literatura sobre o julgamento. mas na incapacidade de pensar. ao narrar o julgamento de Eichmann14. “as irregularidades e anormalidades do julgamento de Jerusalém foram tantas. Todas as sessões do julgamento foram públicas e acompanhadas por jornalistas do mundo inteiro. como funcionário público exemplar. ante a impossibilidade de obscurecer sua responsabilidade na deportação de milhões de judeus aos campos de extermínio nazista. na incapacidade de obter discernimento entre os limites intransponíveis da vida humana. ocorreu. políticos e mesmo legais que o julgamento inevitavelmente propunha” (2003. Hannah Arendt (2003). bem como ter pertencido a um grupo organizado com fins criminosos. pois questionavam sua competência ou sua incapacidade de levar em conta o ato do seqüestro de Eichmann em Buenos Aires e. ao pretender triunfar a partir de sua mediocridade. Eichmann se despiu das responsabilidades do holocausto. . honesto e obediente. p. portanto à lei sob a qual estava sendo julgado. Enquanto cumpridor das normas vigentes. nas proximidades de Tel Aviv. demonstrando o lado da opressão dos vínculos normativos que. Eichmann foi condenado e enforcado em 1962. segundo. o faz. naquele instante.

aumenta a participação das polícias (públicas ou privadas) no controle e resolução dos conflitos sociais. especialmente pela violência perpetrada pelo Estado. visto que a autoridade exclui os meios externos de coerção e é incompatível com a persuasão (Arendt. pois “a partir do momento em que o grupo. ou seja. uma violência como forma usual de proceder do Estado. é comum ser confundida com poder ou com violência. p. a possibilidade de agir em consenso. por exemplo) e o surgimento das formas privadas de resolução dos conflitos. É preciso. em seu entendimento. pois. é na utilização da violência que o poder tende a desaparecer. 2002. em conseqüência. poder e autoridade. 129). colocando o Homem no centro do seu pensamento e vendo na . Independentemente da ordem instituída. do qual se originara o poder desde o começo. portanto. o discurso atual é o do recrudescimento das leis penais e. com o apoio de várias pessoas. aliás. diga-se. A análise do pensamento de Hannah Arendt está. entender o conceito de autoridade e sua crise (da própria autoridade) a fim de perceber as diferenciações entre violência. O pensamento de Hannah Arendt (1994. a tentativa de controle da utilização da violência deve transitar pela exortação à possibilidade de agir em consensos (poder). isto porque a autoridade sempre exige obediência. mas para agir em concerto”. É o apoio da população ao poder político que pode dar às instituições condições de instrumentalizar e controlar ações políticas de interesse coletivo em detrimento da utilização da violência. inicialmente. 36) sobre a relação entre violência e poder é importante pois. desaparece. p. especialmente em Sócrates e Platão. Sem dúvida a importância do pensamento grego deriva da sua concepção de homem na sociedade. 63) “cada diminuição no poder é um convite à violência”. novas formas de violência.39 desumanas normalizadas pela legalidade. Assim. calcada no ideário grego. O poder quer apenas significar que “corresponde à habilidade humana não apenas para agir. diante do desaparecimento das instâncias coletivas de controle e reivindicações (sindicatos. a cada instante. vez que esta ao ser altamente dimensionada (através da tecnologia) corrompe as relações de poder gerando. ‘seu poder’ também se esvaece”. p. ou seja. como afirma Hannah Arendt (1994.

4). p. provocou a perda de um fio condutor que conectava. p. como um grupo étnico ou em Estado” (Jaeger. tradição e religião. percebe que. no qual as coisas assumem não apenas uma expressão mais radical como se tornam investidas de uma realidade peculiar ao domínio político”. a perda da tradição (e. a dúvida geral da época moderna invadiu também o domínio político. com segurança. no dizer de Hannah Arendt (2002. contudo. Isto é importante a fim de perceber que. p. olhando “cada desvio desse rumo como um mero processo reacionário conducente à direção oposta”. quer se trate de um agregado mais vasto. assentando-se sobre um alicerce no passado como sua inabalada pedra angular. numa situação análoga. 130). aos vastos domínios do passado e. 4). Jaeger. Hannah Arendt faz uma importante distinção em relação a autoridade e sua implicação com o problema afim da liberdade no domínio da política. Para Hannah Arendt. No início de sua análise sobre autoridade. isto porque a tradição foi violentamente destruída (2003. 130 e segs.40 educação um processo de construção consciente. como no desenvolvimento espiritual e “uma vez que o desenvolvimento social depende da consciência dos valores que regem a vida humana. 2003. a educação é fundamental ao crescimento da sociedade. “mas pertence por essência à comunidade” e que “toda educação é assim o resultado da consciência viva de uma norma que rege uma comunidade humana. de uma classe ou de uma profissão.). deu ao mundo a permanência e a durabilidade de que os seres humanos necessitam precisamente por serem mortais” (2002. pois para os gregos esta (educação) não pertence ao indivíduo. p. para os gregos. Assim é que “a autoridade. no mundo moderno. em . Importante notar que a perda da autoridade foi apenas a fase final de um processo histórico que durante séculos desvastou. “com a perda da autoridade. ocorrendo. também ocorreu com a religião). pois para as teorias liberais. ao analisar a história da educação. quer se trate da família. tanto sob o ponto de vista exterior. a história da educação está essencialmente condicionada pela transformação dos valores válidos para cada sociedade” e que “da dissolução e destruição das normas advém a debilidade. a História é caracterizada pelo alinhamento que o progresso deve manter na direção da liberdade organizada e assegurada. essa perda significa a privação da dimensão de profundidade na existência humana. a falta de segurança e até a impossibilidade absoluta de qualquer ação educativa”. inicialmente.

ou seja. ou confundem o totalitarismo com uma estrutura autoritária. Entretanto esta ponderação liberal olvida-se em perceber a diferença entre tirania e autoritarismo15. 2002. Os discursos liberal e conservador tendem a medir um processo de refluxo da liberdade e da autoridade (respectivamente) com vistas a identificar práticas totalitárias. poder legítimo com violência e entender que a origem da autoridade é sempre exterior e superior a seu próprio poder: “é sempre dessa fonte. 2002. fundamentalmente. como ela (Hannah Arendt) mesmo aponta. ao ver as limitações de governos de viés autoritários. Entretanto. sua legitimidade – e em relação à qual seu poder pode ser confirmado” (Arendt. 2002. 134) “a diferença entre tirania e governo autoritário sempre foi que o tirano governa de acordo com seu próprio arbítrio e interesse. a indiferenciação “entre a restrição da liberdade em regimes autoritários. 141) “aqueles que chamam as modernas ditaduras de ‘autoritárias’. o que pode ser visto – e a identificação liberal assim procede – como uma certa inclinação de práticas totalitárias. equacionam implicitamente violência com autoridade. sob o ponto 15 Conforme Hannah Arendt (2002. 133). 134). p. dessa força externa que transcende a esfera política.” . porque nos permite perceber que não é simplesmente uma diferenciação de grau de liberdade que se está tratando. Estas distinções são importantes. mas. podemos ver facilmente que estamos de fato em confronto com um simultâneo retrocesso tanto da liberdade como da autoridade no mundo moderno” (Arendt. p. p. p. isto é. pois a idéia de que a violência cumpre a função da autoridade supre um conceito pelo outro.41 conseqüência. 138). da mais geral e elementar manifestação da liberdade humana a qual somente visam os regimes totalitários por intermédio de seus diversos métodos de condicionamento” (Arendt. entretanto se observarmos “as afirmações conflitantes de conservadores e liberais com olhos imparciais. na sua existência ou abolição. Uma segunda distinção que Hannah Arendt faz é entre autoridade e violência em função da freqüente e indistinta utilização das palavras. a abolição da liberdade política em tiranias e ditaduras. p. ao passo que mesmo o mais draconiano governo autoritário é limitado por leis. e isso inclui os conservadores que explicam o ascenso das ditaduras em nosso século pela necessidade de encontrar um sucedâneo para a autoridade”. que as autoridades derivam sua “autoridade” – isto é. e a total eliminação da própria espontaneidade. diz Hannah Arendt (2002.

até então. significava. a preservação do passado (feita pela manutenção da tradição) fornecia a 16 A palavra autocritas é derivada do verbo augere. pois ambas estão ligadas às suas fundações: a religião ligada ao passado e a política à história de suas origens. Entretanto. a liberdade (para os gregos) estava diretamente ligada à participação política: o indivíduo era livre a partir do momento que poderia participar da vida política. os quais introduziram algo parecido na vida pública da polis grega. e aquilo que a autoridade ou os de posse dela constantemente aumentam é a fundação (Arendt. pois em ambas. necessidade de proteção do povo por uma guarda pessoal e separação entre esfera privada (os súditos cuidavam de seus próprios negócios) e pública (reservada ao tirano). ou seja.42 de vista funcional admitem a possibilidade de uma sociedade restabelecer a autoridade somente se for utilizada a violência. nas pesquisas desenvolvidas por Hannah Arendt (2002. Hannah Arendt (2002. Assim. 143 e segs. o exercício da tirania nos moldes apresentados. p. uma vez que os romanos estavam intimamente ligados ao solo e à criação da cidade. o crescimento16 dirige-se no sentido do passado. Assim. pois eles. 2002. a participação na política significava preservar a fundação da cidade de Roma. isto porque as experiências lá produzidas foram extraídas de conteúdos não políticos. especialmente no modo de vida das comunidades domésticas. Para a polis o governo absoluto (tirania) tinha três características: governar por meio de pura violência. como por exemplo de modelos do âmbito privado. que significa. 163/164). . aumentar. Importante observar a estreita relação que existe entre política e religião romanas. mas tão somente na política romana. pp. não conheciam qualquer experiência política autoritária. fica bastante evidente.) alavanca seu conceito de “autoridade” a partir da filosofia política de Platão e Aristóteles. É neste contexto que a auctoritas aparece inicialmente. que a não participação na vida pública era a privação da participação política que era sentida como a essência da liberdade. religião e atividade política podem “ser consideradas como praticamente idênticas”. significando dizer a preservação e a santificação da tradição. ou seja. que as diversas tentativas de se dar um conceito de autoridade não foram encontradas na Filosofia política grega. 160/162). para os gregos. p. em função de que aqui encontra-se a convicção do caráter sagrado da fundação. Vinculando-se as origens (às fundações). entre outras coisas.

dentro do quadro de nossa história. . em conseqüência. a perda. que com o declínio do Império Romano. que era baseado à noção grega de medidas e regras transcendentes (Arendt. havendo. ela (a Igreja) amalgamou o conceito político romano de autoridade”. p. 2002. mormente em função de dois aspectos bastante significativos: de um lado. mas. isto representou não só a separação entre autoridade sagrada da igreja e o poder real. p. ou seja. É preciso notar. os dois restantes não teriam mais segurança” (Arendt. fundamentalmente. a Igreja Católica recebe a herança (praticamente sua fundação) política e espiritual de Roma e a tríade romana da religião. Conceitualmente. um certo atrelamento e dependência entre religião. 2002.). mas revela meramente a aprovação ou desaprovação divina das decisões feitas pelos homens (Arendt. 169) e. “repetiu-se mais uma vez o milagre da permanência. p. no âmbito da política. autoridade e tradição. pode-se dizer. 36/37). a durabilidade e continuidade da Igreja como instituição pública só possui termo de comparação com o milênio de história romana na Antigüidade” (Arendt. muito mais que a perda da autoridade. 2002. a estabilidade política de uma sociedade estava diretamente relacionada com a “estabilidade do amálgama.43 experiência política necessária a resguardar a força coerciva da autoridade. quando houve a separação entre igreja e poder real. pois. mas a ‘força coerciva dessa autoridade está intimamente ligada à força religiosamente coerciva do auspices’. 170). 2002. de outro lado. da autoridade. que sempre que um dos elementos da trindade romana fosse posto em dúvida ou eliminado. segundo Hannah Arendt (1994. além da confirmação da Igreja como instituição política importante na história do ocidente. contudo. autoridade e tradição puderam ser assumidas pela era cristã constituindo-se um importante legado na história do ocidente. 163 e segs. 171). pois a estrutura política da sociedade também perdeu seu aspecto perene. o que lhe proporcionava um caráter contínuo da autoridade. que ao contrário do oráculo grego não sugere o curso objetivo dos eventos futuros. A partir desse momento e “na medida em que Igreja Católica incorporou a Filosofia Grega na estrutura de suas doutrinas e crenças dogmáticas. Para Hannah Arendt isto representou. p. que a essência da autoridade é o reconhecimento inquestionável por aqueles a quem se pede que obedeçam e nem a coerção ou a persuasão são necessárias. mesmo porque esta tem a característica de não possuir poder.

44

É exatamente a partir do século V, em função do esfacelamento do
Império Romano, provocado pelos constantes confrontos com os bárbaros e, em
grande parte pelos povos germânicos, que se inicia a decadência da civilização
romana, desenvolvendo-se uma nova estrutura social, política e econômica (que se
convencionou chamar de período medieval), permitindo-se, contudo, a
consolidação da igreja católica como instituição, difundindo-se o cristianismo
entre os bárbaros e, essencialmente, exercendo um importante papel na política do
medievo.
Assim é que Hannah Arendt, (2002, p. 170) ao vincular a perda da
autoridade do Estado com o conseqüente domínio exercido pela Igreja, conclui
que isto “implicou na realidade ter o político agora, pela primeira vez desde os
romanos, perdido sua autoridade e, com ela, aquele elemento que, pelo menos na
História Ocidental, dotara as estruturas políticas de durabilidade, continuidade e
permanência”. Esta perda que Hannah Arendt fala, pode estar configurada na
existência de uma nova dimensão que, passando pela Lei17, aparece na autoridade
do mercado.
Para o contexto da pesquisa, é fundamental entender a importância da
incorporação dos postulados da filosofia grega à Igreja Católica – especialmente
em suas doutrinas e crenças dogmáticas – o conceito político romano de
autoridade, pois foi importante legitimar para a Igreja as interpretações das
“noções um tanto vagas e conflitantes do Cristianismo primitivo acerca da vida
futura à luz dos mitos políticos platônicos, elevando assim ao nível de certezas
dogmáticas um elaborado sistema de recompensas e castigos para ações e erros
que não encontrassem justa retribuição na terra” (Arendt, 2002, p. 171). Hannah
Arendt atribui a Platão as primeiras concepções do juízo final, das recompensas
ou castigos e as descrições geográficas do inferno, do purgatório e do paraíso.
Para ela, Platão foi o primeiro a tomar consciência da potencialidade política das
crenças, pois estas são necessárias à persuasão, única maneira de trabalhar com a
multidão. Para Platão, a teologia não era o estudo e a interpretação da palavra de
Deus, mas uma ferramenta da Política, ou seja, a arte de poucos governarem sobre
muitos (Arendt, 2002, p. 176/178).
17

Sob a ótica da psicanálise, importante entender a idéia da autoridade da lei, para além do mito
do assassinato do pai primevo mas, prioritariamente, entender o referencial moderno da
retransmissão da norma aos sujeitos a ela destinados, como fator preponderante para o
atendimento e chamado da autoridade – o outro imaginário.

45

Importante entender que a introdução da teoria do inferno nas crenças
dogmáticas cristãs fortaleceu a autoridade religiosa, contribuindo, entretanto, com
a diluição do conceito romano de autoridade, diretamente vinculado a
legitimidade, permitindo-se, com isto, a poderosa influência da persuasão sobre a
consciência, permitindo uma intensa e vigorosa vinculação do poder da igreja na
vida pública e a utilização do elemento “violência”. Entretanto, sem dúvida, há
grande diferenciação entre o atual pensamento político e este momento, de séculos
passados, em que o medo do inferno sujeitava as ações das massas, qual seja, a
contemporânea perda das crenças uma vez que estas serviram, ao seu tempo,
como autoridade ante a sanção religiosa transcendente. Desse modo, a religião
perde seu elemento político e a vida política a sanção religiosa (Arendt, 2002, p.
180).
Esta é, sem dúvida, a grande contribuição – para a presente pesquisa –
do estudo sobre autoridade que fez Hannah Arendt ou seja, é o sentido
contundente que ela concebe o poder político da autoridade e as expectativas
atuais diante das formas que se pretende alcançar a autoridade: violência e medo.
Não será mais o medo do inferno o motivo pelo qual uma multidão poderia ser
persuadida ou ser-lhe imposta alguma regra de comportamento, mas sem dúvida,
a autoridade, na contemporaneidade, está vinculada a alienação da verdade
(mesmo porque esta não é objeto de persuasão), ou seja, a autoridade passa a ser
muito mais instrumental, muito mais mecanismo de consecução do que estrutura
política social. É dizer: é necessário, para a realização dos pressupostos do
capitalismo globalizado, um poder político dotado de autoridade suficiente para
persuadir e imprimir o ritmo desejado na conduta da administração das políticas
públicas necessárias à acumulação do capital utilizando-se, entretanto, a profusão
do medo e da violência – tanto a violência institucional (pela atuação repressiva
do Estado e do parlamento) quanto estrutural (impondo a produção e reprodução
da desigualdade social).
A pergunta que Hannah Arendt lança em “Crises da República” é
bastante conveniente aos propósitos da presente pesquisa, pois corresponde, até
certo ponto, a uma das hipóteses de resposta prevista em nosso projeto inicial.
Para ela, diante do apocalíptico jogo de xadrez entre as superpotências, no qual
todos serão derrotados (não haverá vencedores), o objetivo é a intimidação e não a
vitória, pois “quanto mais intimidação houver maior é a garantia de paz” (Arendt,

46

1999, p. 94). Esta equação, para Hannah Arendt, sugere um nó que dificilmente
será desatado, entretanto é importante lembrar as ponderadas distinções que ela
faz em relação aos fenômenos do “poder”, do “vigor”, da “força”, da “autoridade”
e da “violência”18.
A importante crítica de Hannah Arendt está, principalmente nos textos
publicados de “Crises da República” e “Sobre a Violência”, na utilização da
violência no campo da política pois, para ela, tanto o vigor, a força, como a
violência são fenômenos individuais e não plurais, como o poder e a autoridade e,
diante das diversas crises de legitimidade do Estado contemporâneo, estes últimos
(poder e autoridade) perdem espaços à utilização da violência e esta, por sua
natureza instrumental, necessita de justificação, diferentemente do poder que,
como se viu, necessita de legitimidade. Como lembra Hannah Arendt (1994, p.
42-43) a violência não depende de números ou opiniões mas de implementos e
estes, como todos os meios, amplificam e multiplicam o vigor humano, os quais
podem destruir o poder, mas jamais criá-lo ou substituí-lo, pois o resultado da
utilização da violência não será a conquista do poder, mas a obediência.
Ao examinar todos estes fenômenos, Hannah Arendt alicerça a
conclusão de que é necessário o uso do terror para manter a dominação e isto se
dá com a vitória da violência sobre o poder (1994, p. 43). Como bem enfatiza
(Arendt, 1994, p. 41), o poder está diretamente relacionado com a legitimidade
ou, dito de outra forma, o poder sempre depende dos números pois ele, como se
viu, corresponde à habilidade humana para agir em consenso, por isso que ela diz
que o poder não necessita de justificação mas de legitimidade, que está
diretamente relacionada à autoridade.
18

Conforme Hannah Arendt (1994, pp. 36 e 37) “O poder corresponder à habilidade humana não
apenas para agir, mas para agir em concerto. O poder nunca é propriedade do indivíduo; pertence
ao grupo e permanece em existência apenas na medida em que o grupo conserva-se unido”. “O
vigor inequivocamente designa algo no singular, uma entidade individual; é a propriedade inerente
a um objeto ou pessoa e pertence ao seu caráter, podendo provar-se a si mesmo na relação com
outras coisas ou pessoas, mas sendo essencialmente diferente delas”. “A força, que freqüentemente
empregamos no discurso cotidiano como um sinônimo da violência, especialmente se esta serve
como um meio de coerção, deveria ser reservada, na linguagem terminológica, às ‘forças da
natureza’ ou à ‘força das circunstâncias’, isto é, deveria indicar a energia liberada por movimentos
físicos ou sociais”. “A autoridade (...) pode ser investida em pessoas. Sua insignia é o
reconhecimento inquestionável por aqueles a quem se pede que obedeçam; nem a coerção nem a
persuasão são necessárias. Conservar a autoridade requer respeito pela pessoa ou pelo cargo. O
maior inimigo da autoridade é, portanto, o desprezo, e o mais seguro meio para miná-la é a
risada”. “A violência, como disse, distingue-se por seu caráter instrumental.
Fenomenologicamente, ela está próxima do vigor, posto que os implementos da violência, como

47

Cabe aqui, pois, duas situações importantes levantadas por Hannah
Arendt, sobre o uso do terror na política: a primeira é sobre o surgimento de sua
utilização pois, para ela, é possível o uso do terror quando, após a violência ter
derrotado o poder, ela continua sendo utilizada ao controle total; a segunda, é a
dependência do terror ao grau de atomização social, ou seja, a eficácia da
utilização do terror está diretamente relacionada e dependente ao grau de oposição
pois “toda forma de oposição organizada deve desaparecer antes que possa ser
liberada a plena força do terror” (1994, p. 43).
Muito mais que utilizar a violência à dominação, este discurso
(especialmente do poder e da segurança) produz a imagem necessária do terror
social e isto é transferido de forma natural e espontânea ao senso comum19, o qual
exige uma ação estatal cada vez mais disciplinadora e emergencial, típica dos
estados totalitários. Como conseqüência “natural”, há uma ideologização que dá
ao Estado a legitimação necessária à garantia da ordem, possibilitando uma
organização social rígida, hierarquizada e sem oposição (atomizada), na qual as
classes sociais, especialmente as classes subalternas (estratos sociais mais baixos),
estarão submetidas a todos os tipos de violência – estrutural e institucional – do
Estado, as quais, mais que compreender em nível da razão, foram (e seguem
sendo) levadas a ver e a sentir seu lugar na estrutura social” (Neder, 1993, p. 9).
É preciso que todos se sintam muito mais que dominados, mas
pensando que fazem parte do sistema e pensando conforme o sistema. Os
indivíduos devem se manter, não só obedientes, mas devem estar sujeitados,
evitando-se a criação dos desejos, deixando-os aprisionados aos desejos
permitidos,

criando-se

um

imaginário

próprio

conforme

determinadas

circunstâncias já estabelecidas, ou seja, para a existência da dominação total é
necessário não mais (ou não só) a violência física, mas que a produção dos
todas as outras ferramentas, são planejados e usados com o propósito de multiplicar o vigor natural
até que, em seu último estágio de desenvolvimento, possam substituí-lo.
19
O sentido de senso comum aqui referido, diferentemente de conhecimento científico, significa
os saberes cotidianos e do senso comum de nossa sociedade com as seguintes características: a) é
subjetivo, exprimindo sentimentos e opiniões individuais e de grupos; b) é qualitativo; c)
heterogêneo, pois se refere a fatos que julgamos diferentes, porque os percebemos como diversos
entre si; d) é individualizador, por serem qualitativos e heterogêneos; e) é generalizador, pois
tendem a reunir numa só opinião ou numa só idéia coisas e fatos julgados semelhantes; f) tendem a
estabelecer relações de causa e efeito entre as coisas ou entre os fatos; g) procuram projetar nas
coisas ou no mundo sentimentos de angústia e de medo diante do desconhecido; h) cristalizam-se
em preconceitos com os quais passamos a interpretar toda a realidade que nos cerca e todos os
acontecimentos. In: CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 7a ed., São Paulo: Ática, 1996, p.
174/175.

48

desejos esteja controlada e direcionada aos objetivos estruturais da sociedade. Isto
revela outra situação, a saber: se vivemos numa sociedade liberal, de capitalismo
globalizado (de mercado sem intervenção estatal) e uma sociedade disciplinada e
de controle das massas, a produção das subjetividades estará condicionada a estes
tipos de desejos, ou seja, do consumo e das subjetividades isomórficas.
Este é o novo paradigma de dominação, ultrapassando a lógica da
violência institucional e estrutural, mas agora com a utilização do terror social à
produção de novas subjetividades: é a morte do sujeito, esta é a razão que Carlos
Plastino adverte que o sujeito está doente. Vou um pouco mais longe: não há
lugar, no mundo contemporâneo, aos sujeitos desejosos. Não há sujeitos, não há
individualidades em função da não produção (ou não permissão da produção) de
desejos. Conforme escreve Castor Ruiz (2004, p. 73):

A ordem se produz e reproduz no exercício do desejo de cada indivíduo; eis
por que, para a nova ordem, é prioritária não a repressão do desejo, mas seu
controle. Por isso, nas sociedades modernas, o indivíduo entende que a
prática de sua liberdade passa, fundamentalmente, pela realização de seus
desejos. A noção liberal vinculou estreitamente a liberdade ao desejo, de tal
modo que o desenvolvimento dos desejos coincide com a prática da
liberdade.

Esta impossibilidade de realização dos desejos está diretamente
relacionada com o conceito de liberdade apresentado por Hannah Arendt, isto
porque não importa para ela a idéia de “sentir-se livre”20 (neste sentido foi a
tradição cristã que consolidou a identificação entre liberdade e livre-arbítrio) ou,
mais precisamente, a noção liberal (cunhada a partir da modernidade) de liberdade
individual (autonomia do indivíduo), no sentido de ausência de oposição, mas na
real possibilidade de participar da vida política e, consequentemente, pela
capacidade de ser responsável. É esta a razão pela qual Hannah Arendt aponta
para o surgimento do totalitarismo no século XX, ou seja, o surgimento de
regimes políticos que excluíram a liberdade da cena política, fato que para ela
resulta numa contradição à idéia de espaço público como locus privilegiado da
vida pública pois é impensável ação e política destituídas de liberdade21.
20

Para Hannah Arendt (2002, p. 194) “tomamos inicialmente consciência da liberdade ou do seu
contrário em nosso relacionamento com outros, e não no relacionamento com nós mesmos.”
21
Interessante ponderação é feita por Hannah Arendt (2002, p. 195) quando credita à ascensão dos
regimes totalitários “(...) a pretensão de ter subordinado todas as esferas da vida às exigências da
política e seu conseqüente descaso pelos direitos civis, entre os quais, acima de tudo, os direitos à

à negação da liberdade humana ou à compreensão de que a liberdade de um homem. é denominado (não de forma consensual) de processo de pós-modernização econômica ou de informatização. de um grupo de homens ou de um organismo político somente pode ser adquirida mediante a liberdade (soberania) dos demais. no qual estamos vivendo. com meios essencialmente não-políticos”. p. p. tem sido demonstrado nos países de capitalismo dominante. A melhor versão de seu significado é ‘virtuosidade’.49 É este o sentido que Hannah Arendt procura. da liberdade como um estado de ser manifesto na ação para o liberum arbitrium. correspondente ao segundo período) para o domínio da informação. Somente a título de delimitação. p. desmistificar. de predomínio do setor de serviços e de manuseio de informações. É possível dizer que este foi o estatuto da modernidade e ainda o é na condição pós-moderna23. Estas mudanças. 213) a soberania dos organismos políticos sempre foi uma ilusão. p. em primeiro lugar estabelecer que o termo trazido será sempre empregado como uma situação diferente apresentada pela “modernidade”. não sendo levadas em consideração as transições culturais e estéticas que o termo e o período apresenta (importante ver Harvey (2004). caracterizado pela transição e passagem da modenização (ou industrialização.” 23 A fim de delimitar o termo “pós-moderno” na presente pesquisa. evidenciando um problema político a ser resolvido pois em função do “desvio filosófico da ação para a força de vontade. Para ela (2002. é possível identificar três momentos distintos na sucessão dos paradigmas econômicos. já que a discussão sobre características e conseqüências da “modernidade” e “pós-modernidade” estará sendo travada nos capítulos II e III da presente pesquisa. além do mais. Hannah Arendt (2002. um segundo período de domínio industrial de fabricação de bens duráveis e. é preciso. o ideal de liberdade deixou de ser o virtuosismo22 no sentido que mencionamos anteriormente. A procura de uma organização política fundamentada intimidade e à isenção da política. são identificados como um primeiro período no qual a agricultura e a extração de matérias-primas dominaram a economia. só pode ser mantida pelos instrumentos de violência. qual seja. tornando-se a soberania. os quais. o ideal de um livre-arbítrio. de alguma forma.” 22 Sobre o conceito de virtuosismo. um terceiro momento. isto é. onde a perfeição está no próprio desempenho e não em um produto final que sobrevive à atividade que a trouxe ao mundo e dela se torna independente. a excelência com que o homem responde às oportunidades que o mundo abre ante ele à guisa de fortuna. O alerta de Hannah Arendt sobre a identificação de liberdade com soberania é muito importante porque conduz. 211). especialmente em relação aos pressupostos econômicos e políticos. Este último período. então. a qual. . independente dos outros e eventualmente prevalecendo sobre eles”. mas no querer e no relacionamento com o próprio eu” (2002. uma excelência que atribuímos às artes de realização (à diferença das artes criativas de fabricação). fazem-nos duvidar não apenas da coincidência da política com a liberdade como de sua própria compatibilidade. 212). ou o processo de pós-modernização. isto é. parte I). segundo ela (2002. 199) afirma que “a melhor ilustração da liberdade enquanto inerente à ação seja o conceito maquiavélico de virtù. “quando a liberdade não era mais vivenciada no agir e na associação com outros.

no sentido da essência e não da aparência pois. a apresentação de uma verdade (e apenas uma) com a conseqüência direta de impedir a criação dos desejos e facilitar a morte do sujeito. à consecução de uma sociedade justa. a discriminação racial. mas mutável em função das constantes alterações no modo de vida social e político – material portanto – e que. O que é pior: a racionalização da exclusão social. a forma pela qual a liberdade que se apresenta no modo de produção capitalistas de matiz liberal é reveladora. A partir deste pensamento e com a sólida edificação da dimensão imaginária da racionalização. neste universo globalizado de disputa de todos contra todos (indivíduos ou grupos sociais). o princípio de mercado – característica fundante do capitalismo global – impõe os padrões de consumo. . o xenofobismo. percebe-se. neste contexto. formalmente. 24 Apesar do conteúdo “formal” ser concreto.50 em princípios racionais. pp. 117-119. pp. É preciso. como se sabe. 301306). a igualdade material de todos. os regimes totalitários. essencialmente. vincular o sentido de liberdade ao contexto da estrutura social capitalista. normalizando condutas através de um intenso processo de subjetivação constante na produção e satisfação dos desejos pois. impondo-se como única alternativa possível. no caminho sedimentado pela racionalização jurídica buscou-se. contribuem para alterar o conjunto das idéias). iguais – e fundada no império da lei. no princípio da igualdade (mais tarde igualdade jurídica). bem como o surgimento de uma sociedade globalizada – complexa e contraditória – não foram suficientes para evitar as marcas da perversa legalidade: a barbárie da escravidão. igualdade e. 2004. idealizada pelos princípios liberais dos séculos XVII e XVIII. diante da suposta neutralidade da norma. o colonialismo exploratório. é inaugurada pela naturalização da desigualdade – já que todos são. de gênero e das minorias. os campos de concentração. consequentemente. Assim. na aparência todos somos livres. na liberdade. a ilusão se refere a um determinado conteúdo (não fixo. pretensamente. 2004. portanto. HARDT e NEGRI. ao contrário da essência. na defesa de princípios baseados na dignidade. em que limites são estabelecidos por normas e adequados. Esta liberdade formal (a qual não passa de uma ilusão)24 contribuiu para justificar. uma vez que. a conservação da idéia darwinista da competição como pressuposto da plena liberdade de todos. a idealização mais contundente da tentativa de se trazer. vez que a contradição exposta pela liberdade – vista sob o prisma da relação entre forma e conteúdo – é reveladora. eqüitativa e livre. ditando e otimizando as desde o começo dos anos 1970 (Harvey. que permitiu que esse modo de produção tomasse a frente da sociedade. um ponto de partida (muitas vezes) e não uma ilusão.

é o seu ser social que. previdência social. determina a sua consciência”. o capitalista ou o socialista) – gera uma correspondente superestrutura. 5) “não é a consciência dos homens que determina o seu ser. ao mesmo tempo. elabora seu pensamento que se torna o “fio condutor” de seus estudos. seletividade criminal. alimentação. . o escravista. a qual reflete as relações materiais 25 A pertinência da análise do objeto da presente pesquisa sob a ótica materialista se revela importante pois é preciso entender – a fim de revelar – qual a contradição que se apresenta diante de uma sociedade aparentemente livre – de forma – e. por exemplo: o acesso à justiça.51 promessas da modernidade. 2. São evidências reveladoras. estiverem também mantidos os pressupostos à violência estatal: os meios nãopolíticos. Ambos os conceitos serão analisados de forma específica. Marx. fundamentalmente econômicos. direitos civis plenos (moradia. revelando – na pós-modernidade – que os intensos processos de globalização somente podem ser mantidos se. Através deles será possível explicar a exploração capitalista e os mecanismos de utilização da violência estatal à consecução dos fins pretendidos pelo modo de produção capitalista. saúde. inversamente. ou seja. capitalismo e coerção estatal: uma crítica no mundo globalizado Assim como diversos outros fenômenos afetos à condição humana. a partir de uma revisão crítica da Filosofia do Direito. aprisionada diante das impossibilidades estruturais – conteúdo – impostas concretamente pela sociedade dividida socialmente.4. Para Marx (2003 b. o da antigüidade. o asiático. 26 Tanto o “materialismo histórico” como “mais-valia” são conceitos fundamentais na teoria marxista. p. Democracia. cada modo de produção – no curso do desenvolvimento dos modos de produção (o das comunidades primitivas. trabalho infantil. é o ser social (atividade material produtiva) que determina a consciência social. exploração sexual. o feudal. segurança.2. entendo ser absolutamente pertinente a análise materialista das condições sociais da atividade coercitiva estatal dentre as quais.). entretanto. a violência produzida no seio do Estado (estrutural e institucional) deve ser avaliada como condição social inerente ao domínio do atual modo de produção capitalista25. é pertinente compreender duas grandes hipóteses (conceitos) trazidas por Karl Marx: a concepção do “materialismo histórico” e o desvelar da “mais-valia”26. e somente se. Para este propósito. de Hegel. etc. Para ele. educação. A idéia do “materialismo histórico” é resultado da concepção de Marx em explicar a história da sociedade baseando-se em fatos materiais. etc.

Sua conclusão geral sobre seus estudos é que: na produção social da sua existência. vinculadas e em dependência recíproca das forças produtivas da sociedade. p. ou seja. as forças produtivas materiais 28 da sociedade que entram em contradição com as relações de produção existentes ou. máquinas.. independente de sua consciência e de sua vontade. denominadas “relações sociais de produção” dos homens.. No capitalismo. O caráter das relações de produção depende de quem sejam os proprietários dos meios de produção e de como se realiza a união desses meios com os produtores diretos. especialmente nas esferas política. o próprio trabalhador. A conjugação das primeiras e das últimas forma um modo de produção historicamente determinado (SANDRONI. 352) 28 “Relações de produção” é um conceito da economia marxista que designa o conjunto de relações econômicas que se estabelecem entre os homens.). ou seja.. a religião. como em todas as relações. p. O modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social. tecnologia. necessárias. etc. a 27 “Força produtiva” são as “forças naturais (inclusive o próprio homem) apropriadas pelo homem para a produção e reprodução de sua vida social. 5). a relação de produção fundamental é a que ocorre entre capitalistas (compradores de força de trabalho) e proletários (vendedores de força de trabalho). isto é. o conflito. independentes da sua vontade. 719). A base das relações de produção está nas relações de propriedade sobre os meios de produção. no entanto. A parte material das forças produtivas. política e intelectual em geral.52 dominantes. 2005. . p. diante do desenvolvimento das forças produtivas materiais (ferramentas. 27 (. há uma divisão de classes. e a base material que se constitui de maneira específica e própria. Assim. Isso significa que as forças produtirvas tendem a crescer constantemente. com as relações de propriedade no seio das quais se tinham movido até então (MARX. Essa expansão opera modificações nas relações de produção e no modo de produção. com as relações de produção existentes – compradores de força de trabalho (capitalistas) e vendedores da força de trabalho (proletários) – o qual será definido em favor das forças produtivas. que cria instrumentos de trabalho cada vez mais poderosos. constituem a base material e técnica da sociedade. altera toda a superestrutura. surge o dilema. O conjunto destas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade. 2005. a determinado nível de desenvolvimento das forças produtivas correspondem determinadas relações de produção. os homens estabelecem relações determinadas. 2003 b. aperfeiçoa seus objetos de trabalho e combina ambos no sentido de ampliar constantemente a produção. Em certo estágio de desenvolvimento. Assim é que. os instrumentos e os objetos de trabalho. (SANDRONI. o que é a sua expressão jurídica. As relações de produção se desenvolvem diretamente. jurídica e ideológicas (as artes. Com o estabelecimento do modo de produção capitalista. a transformação da base econômica altera toda a imensa superestrutura. tudo o que possibilita a produção). no processo de produção e reprodução de sua vida social. é o próprio homem. a base concreta sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. surgindo novas relações de produção. A principal força de produtiva. relações de produção que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais.

mais ou menos rapidamente. pelo contrário. sem dúvida. e as formas jurídicas. o seu cumprimento das funções sociais implica uma divisão social do trabalho e a apropriação por alguns grupos sociais de excedentes produzidos por outros. religiosas. como o conjunto de instituições (jurídicas. é preciso. p. desde o início. p. clãs. Estas idéias ficam claras ao analisar o Capítulo XXIV (“O segredo da acumulação primitiva”) uma vez que. explicar esta consciência pelas contradições da vida material. Ao considerar tais alterações é necessário sempre distinguir entre a alteração material – que se pode comprovar de maneira cientificamente rigorosa – das condições econômicas de produção. em resumo. Existe aqui. grupos etc. Para Ellen Wood (2003. Para Marx (2003 b. de fato. tornando possível o indivíduo – dentro do modo de produção capitalista – não possuindo os meios de produção. o Estado exige o cumprimento de certas funções sociais comuns que outras instituições menos abrangentes – lares. pelo conflito que existe entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. .53 moral) e se materializa através da coerção e da força estatal. Em qualquer dos dois casos. artísticas ou filosóficas. toda a imensa superstrutura. Sendo ou não verdade que o objetivo essencial do Estado seja manter a exploração. as formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência deste conflito. a fim de manter a ordem social necessária ao processo de reprodução do Capital. Assim é que esta violência estatal – tanto estrutural como institucional – enquanto maneira de estabelecer e reproduzir a propriedade privada dos meios de produção. formal e preponderantemente. um limite estrutural nesta economia política em que o modo de produção é o capitalista e o Estado. políticas. não se poderá julgar uma tal época de transformação pela mesma consciência de si. políticas e sociais) capaz de. conforme ensina Marx (2003 a. ser projetados como meios para que um segmento da população possa oprimir e explorar os demais. famílias. Assim como não se julga um indivíduo pela idéia que ele faz de si próprio. p. 37): Esses instrumentos de coerção podem ou não. fornece também os meios necessários à contenção da grande massa de excluídos. 5): A transformação da base econômica altera. – não têm condições de executar. aplicar os instrumentos de coerção e violência (estrutural e institucional) a conter os conflitos sociais. levando-o às últimas conseqüências. 828). vender sua capacidade de trabalho àquele que os possui e desta forma entregar parte do seu trabalho na forma de mais-valia.

Assim. 847) o “ roubo dos bens da Igreja. que este não se limita apenas em manter esta dissociação entre trabalhador e meios de produção. p. p. pretendendo aumentar seus valores já acumulados e comprar a força de trabalho alheia e. 828) os trabalhadores são livres em dois sentidos: “porque não são parte direta dos meios de produção.” . A chamada acumulação primitiva é apenas o processo histórico que dissocia o trabalhador dos meios de produção” (Marx. um processo que transforma em capital os meios sociais de subsistência e os de produção e converte em assalariados os produtores diretos. como os escravos e servos. dos meios de produção e de subsistência. Conquistaram o campo para a agricultura capitalista. que vendem sua força de trabalho. afirmando. ou seja. e porque não são donos dos meios de produção. a alienação fraudulenta dos domínios do Estado. ou seja. figuram entre os métodos idílicos da acumulação primitiva. no último quarto do século XVIII. o desenvolvimento. como o camponês autônomo. proporcionando. levada a cabo com terrorismo implacável. A partir de seu rigor metodológico. em especial e mais detidamente explicando que foi a partir do final do século XIV. o que possibilitou seu espraiamento. enfim. além da demonstração de que a acumulação de capital representa o aumento do proletariado. pois o “processo que cria o sistema capitalista consiste apenas no processo que retira do trabalhador a propriedade de seus meios de trabalho. os trabalhadores livres29. mais exclusão e distanciamento 29 Para Marx (2003 a. 2003a. Marx aponta como ocorreram os mecanismos de expropriação dos camponeses. é necessário o encontro de duas espécies de possuidores de mercadorias: de um lado o proprietário do dinheiro. intensificando o desenvolvimento desigual do mundo. de outro.54 para ocorrer a acumulação primitiva é necessário a dissociação entre os trabalhadores e a propriedade dos meios pelos quais se realiza o trabalho. mas a reproduz em escala cada vez maior. quando as relações de servidão tinham praticamente desaparecido na Inglaterra. Marx consegue demonstrar o longo período de consolidação do modo de produção capitalista. p. Para Marx (2003 a. incorporaram as terras ao capital e proporcionaram à indústria das cidades a oferta necessária de proletários sem direitos”. Neste mesmo capítulo XXIV. a ladroeira das terras comuns e a transformação da propriedade feudal e do clã em propriedade privada moderna. ainda. ascensão e triunfo do capitalismo europeu. estando assim livres de desembaraçados deles. 828).

vez que eram grandes as diferenças no campo daquelas exigidas nas cidades: a não adaptação às duras condições de trabalho exigidas nas fábricas e a impossibilidade de serem absorvidos pelas manufaturas já existentes e em franco desenvolvimento na mesma proporção que os camponeses apareciam disponíveis (livres ao trabalho). surgem. formulada por Alessandro De Giorgi (2002. . de derivação principalmente marxista e foucaultiana. sua criminalização em sua “chegada” às cidades. encontraram no novo sistema de produção a mais completa e abrangente condição de criminoso pois.55 entre as classes sociais. o próprio sistema capitalista criou a circunstância que foram submetidos os camponeses. o mesmo sistema capitalista burguês criou. A importância da análise de Marx. de uma orientação da criminologia crítica. é rica no momento em que se percebe que a função exercida pela violência estatal tem como objetivo “garantir o controle da força-trabalho e. p. pelo menos. a extração da mais-valia. havia grande quantidade de trabalhadores livres sem que houvesse postos de trabalho suficientes para tamanha demanda. Marx aponta que isso somente foi possível através de uma “legislação sanguinária” que permitiu a expulsão dos camponeses do campo. dentro do ponto de vista dos efeitos da “economia política da pena”30. Dario Melossi (De Giorgi. se de um lado. originariamente. pois muito escassos. Ao prefaciar a obra de De Giorgi. o crime propriamente dito (com previsão legal da criminalização da vagabundagem). 130) elabora importante contribuição sobre o relacionamento e encontro entre o campesinato e a 30 Esta expressão (economia política da pena) foi. 2004. a imposição de venderem sua força de trabalho e a impossibilidade de encontrarem postos de trabalho. ou seja. 130) demonstrando que a repressão exerce um papel fundamental no processo de contenção dos “trabalhadores livres”. a exploração” (Melossi. sobre a questão penal. p. portanto. duas conseqüências importantes em função da alteração das condições habituais de subsistência dos mesmos. Com este deslocamento dos camponeses. 34) ao investigar a relação entre economia e controle social. para tanto. ou seja. Dario Melossi (2004. os quais. utilizando. resultar na formação (ou transformação) de uma “categoria” de pessoas absolutamente destituída de direitos: os vagabundos. Estas duas conseqüências foram o bastante para. p. 2002. em conformidade com a razão iluminista. os mendigos. em “O Capital”. os ladrões. p. 8) afirma que o estudo da sociologia da pena é identificado na “interpretação da história da penalidade na qual o objeto fundamental consiste em relacionar as categorias de derivação marxista à reconstrução dos processos de desenvolvimento das principais instituições penais”.

ladrões e autores de pequenos delitos. Ele deve adaptar-se à clausura. É a grande contribuição dada pelas obras de George Rusche e Otto Kirchheimeir. E são reunidos materialmente na manufatura. na mais brutal e fatigante monotonia e repetitividade. à falta de luz e de espaço. ou seja. que manufatura e cárcere tenham historicamente uma mesma e interdependente origem. com a possibilidade da utilização da mão-de-obra daqueles submetidos ao cárcere. com a finalidade de reformá-los pelo trabalho e disciplina. inevitavelmente. é importante fazer a análise. tal abraço não é voluntário nem de modo algum prazeroso. relacionando o surgimento do capitalismo com o surgimento das penas privativas de liberdade. a investigação apontou que tais transformações ocorreram a partir da mudança do modo de produção feudal para o modo de produção capitalista. isto é. Não é por acaso. como veremos. No mesmo sentido Dario Melossi e Massimo Pavarini fizeram a análise também a partir da relação entre capital e trabalho. à perda daquela relativa autonomia permitida pelo trabalho nos campos. para submeter-se à autoridade incondicional do capitalismo. o rei da Inglaterra autorizou a utilização do castelo de Bridewell para serem recolhidos os vagabundos. pois nem todos eram utilizados como mão-de-obra. Diante dessa perspectiva materialista da origem da prisão. bem como o de servir para desestimular a vagabundagem e ociosidade daqueles que assim se encontravam (Melossi e Pavarini. Para esse proletariado em formação. quando explicam a origem materialista da prisão. desocupados.56 manufatura: Vindos das ruínas do feudalismo. por influência do clero inglês. p. 1987. Como dito. em busca de emprego. estas alterações foram causadas. mas sim . Segundo Rusche e Kirchheimer (1984. Na primeira metade do século XVI. p. a origem da instituição carcerária encontra-se no capitalismo e na conseqüente aparição do proletariado. Foi assim que. 25). Assim é que no final do século XVI os métodos punitivos começam a sofrer profundas alterações. encontra apenas dificuldades. a fuga para as cidades converteu os trabalhadores do campo em desocupados. a grande massa de camponeses que invadiu as cidades. aproximadamente. capital e operários “livres” são colocados frente a frente. 30-32). levando sempre em conta a função efetivamente cumprida pela instituição. não pelas considerações humanitárias.

e o olhar se voltou para o aproveitamento da mão-de-obra disponível para “(.) no solo absorbiéndola dentro de la actividad económica sino. o los reclusos eran entregados en alquiler a un empresario privado. com a criação da Bridewell. expropriada e expulsa de suas terras.57 pelo incipiente desenvolvimento econômico e um material humano à disposição do aparato administrativo.” 32 Tradução livre do autor: “(. pois a “burguesia nascente precisava e empregava a força do Estado. contudo. o sistema utilizará a violência para garantir as condições à reprodução do capital. havia a necessidade da redução dos custos de produção. somente de uma forma excepcional. Assim. com o triunfo do capitalismo. ou seja. por meio de um grotesco terrorismo legalizado que empregava o açoite. ‘ressocializándola’ de modo tal que en el futuro estuviera dispuesta a integrarse voluntariamente en el mercado de trabajo” 33 As Casas de Correção surgiram. como afirma Foucault. que todas estas alterações passaram a ocorrer na Europa. ao regime de disciplinamento dos corpos. quando se inicia o chamado período dos “grandes internamentos”. em Londres (Rusche e Kirchheimer. . provavelmente. p. o ferro em brasa e a tortura”. además. de uma função de destruição física dos criminosos. Esse é o modo pelo qual é preciso entender como o sistema capitalista envolve e domina o trabalhador. as estratégias de poder mudaram. compelida à vagabundagem.. em consonância com o novo pensamento capitalista. A ordem.. ‘ressocializando-a’ de tal modo que no futuro estivesse disposta a integrar-se voluntariamente ao mercado de trabalho” (Rusche e Kirchheimer. Destaca-se. agora. para “regular” o salário.) não só absorvendo-a dentro da atividade econômica senão. p. isto é. pois agora. entre a segunda metade do século XVI33 e o final do século XVIII. 15)32.. 1984. p. p. Para Marx. ou os reclusos eram entregues como aluguel a um empresário privado” (1984. Uma 31 Tradução livre do autor: “La fuerza de trabajo de los reclusos era utilizada en una de dos formas: o eran las propias autoridades las que administraban la institución. 1999. para prolongar a jornada de trabalho e para manter o próprio trabalhador num grau adequado de dependência” (2003 a. do regime de poder soberano. “a população rural. comprimi-lo dentro dos limites convenientes à produção de mais-valia.. é o encarceramento. 61). foi enquadrada na disciplina exigida pelo sistema de trabalho assalariado. a partir de 1555. pois como afirmam “A força de trabalho dos reclusos era utilizada em uma das duas formas: ou eram as próprias autoridades que administravam a instituição. 850). “com o propósito de limpar as cidades de vagabundos e mendigos”. 49)31.

Esta complexa relação permite um enorme poder e disponibilidade sobre a força produtiva. p. a desigualdade. que acima de qualquer outro. surgem as “casas de trabalho” e “casas de correção” em substituição às formas de punição corporal. de fato. essa disciplina particular que o subproletariado (ainda em larga medida somente futuro proletariado) deve aprender é a disciplina que regula o coração mesmo da sociedade burguesa. imploram para serem explorados.58 forma muito mais sutil de alcançar os objetivos da nova classe social que ascendia. como se verá depois. É preciso ter a percepção de que à extração da mais-valia depende do grau de adaptação do trabalhador à disciplina da fábrica. a função institucional que cumprem a casa de trabalho. Assim. Mas o coração dessa sociedade é a acumulação do capital. tornando-a cada vez mais apta (e domesticada) à expansão do capitalismo. exige o rigor e a disciplina que o modo de produção capitalista impõe ao operário. Esta relação é de compreensão fundamental. quais são as funções do cárcere hoje? Este assunto será tratado. a extração de mais-valia”. O ministério da disciplina vai se tornando. baseadas em uma visão ascética e produtivista da vida e é “precisamente o elemento reeducativo do trabalho. ou seja. entretanto. e a prisão. O objetivo principal do encarceramento era de constituir uma massa de trabalhadores dóceis e úteis. a acumulação do capital. de joelhos. para extrair o máximo de produtividade do trabalhador. pois “se fora da produção pode imperar a ideologia jurídica. paralelamente ao surgimento da manufatura. Melossi (2004. cada vez menos obscuro. Mas o lugar da produção é a fábrica. isto porque os princípios que regem o trabalho nas manufaturas. nos países ocidentais desenvolvidos. de corte marxista (especialmente no estudo da economia política) para entender sua relação com o controle social. assim. Cumpre. verificar como esse procedimento ocorre hoje e quais são seus motivos. 133) diz que durante os séculos XVII e XVIII. é importante observar os reflexos dos estudos da criminologia crítica. mais detidamente. a fim de transformar sujeitos camponeses em “força de trabalho livre”. é o . é ressaltado nesse período e que determina a novidade tanto ideológica como de organização material dessas novas instituições. Neste momento. primeiro. dentro dela impera a servidão. ou seja. contudo. em função de que os trabalhadores estão levantando os braços e. nos capítulos II e III da presente pesquisa.

Este foi o papel predominante do cárcere. o objeto com o olhar crítico da criminologia. com a história da pena (direito penal) e da prisão (instituição). de 1926 – passando pelas historiografias de George Rusche e Otto Kirchheimer – com “Punição e Estrutura Social” de 1933. O que se vê cada vez mais é uma íntima relação entre as origens do modo de produção capitalista. como diz Foucault (1996. por parte do proletariado. observando-se. direta e perfeita relação com a prisão – local apropriado ao disciplinamento dos corpos e principal instituição representante da imagem do controle social burguês – fundamentalmente. 134). provocado pela escassez de força de trabalho” (De Giogi. p. 45). privilegiadamente. p. 19). Dario Melossi e Massimo Pavarini – com “Cárcere e Fábrica: as origens do sistema penitenciário”. “a teoria criminológica materialista/dialética mostra a emergência histórica da retribuição equivalente como fenômeno sócio-estrutural específico das sociedades capitalistas: a função de retribuição equivalente da pena criminal corresponde aos fundamentos materiais e ideológicos das sociedades fundadas na relação capital/trabalho assalariado. ocorreu o enfrentamento pela imposição do trabalho. o momento em que a “punição . de 1977 – chegando ao fundamental trabalho de Alessandro Baratta – com “Criminologia crítica e crítica do Direito Penal”. É. inaugurada por Pasukanis – com “A Teoria Geral do Direito e o Marxismo”. p. cuja origem encontra-se no capitalismo e na conseqüente aparição do proletariado: diante das grandes transformações sociais ocorridas na Europa nos séculos XVI e XVII. 2004. porque existe como ‘forma de equivalência’ jurídica fundada nas relações de produção das sociedades capitalistas contemporâneas” (grifo no original). pela característica da reprodução das desigualdades sociais e dominação a qual dá idêntico contorno presente nas fábricas. da disciplina de fábrica” (grifo no original) (Melossi. 2002. de 1986 – possibilita compreender como as relações de trabalho estabelecidas na fábrica – principal instituição característica do período capitalista – tem estreita. p. especialmente o estudo da origem da acumulação primitiva do capital. “a praga social da vagabundagem e a praga econômica do aumento dos salários. como dito. Esta importante contribuição.59 aprendizado. de 1975. 15). Michael Foucault – com “Vigiar e Punir”. trazida pela discussão crítica do sistema penal. pois como afirma Juarez Cirino dos Santos (2005.

60

vai-se tornando, pois, a parte mais velada do processo penal, provocando várias
conseqüências: deixa o campo da percepção quase diária e entra no da consciência
abstrata; sua eficácia é atribuída à sua fatalidade e não à sua intensidade visível; a
certeza de ser punido é que deve desviar o homem do crime e não mais o
abominável teatro”, isto porque a pena privativa de liberdade começa a surgir com
a alteração do foco da punição, pois dos castigos corporais passa-se à privação de
tempo do condenado e é neste sentido que Foucault (2002, p. 122) identifica as
instituições de seqüestro34, pois através dos “jogos de poder e do saber”
potencializam a “transformação da força do tempo e da força de trabalho e sua
integração na produção” e que “o tempo da vida se torne tempo de trabalho, que o
tempo de trabalho se torne força de trabalho, que a força de trabalho se torne força
produtiva”.
O propósito da extração da mais-valia à acumulação capitalista, isto é,
da sociedade alicerçada e desenvolvida aos processos de acumulação e reprodução
do capital, moldam uma superestrutura jurídica que corresponde, exatamente, aos
seus propósitos, é dizer, diante de uma sociedade baseada na desigualdade e
subordinação – circunstância típica das sociedades baseadas no modo de produção
capitalista – é preciso, para conter a massa de excluídos, um sistema de controle
do desvio absolutamente repressivo, e nada melhor que o sistema penal para
cumprir este papel, isto porque este procedimento de cariz responsável, encobre
um sistema eivado de contradições e ilusões, encobrindo, na verdade, o mal-estar
provocado pelo modo de produção capitalista de julgamento moral das condutas.
A prisão, também e portanto, é extrema e eficazmente funcional pois,
após extrair o tempo de vida dos homens transformando esse tempo em trabalho e
transformando o corpo em força de trabalho, é exatamente nas instituições de
seqüestro em que se realiza um novo tipo de poder: “um poder polimorto,
polivalente” (Foucault, 2002, pp. 119/120), pois, de certa maneira, estabelece-se
um poder econômico (no caso das fábricas, nas relações de troca entre salário e
tempo de trabalho), um poder político (relações hierárquicas, estabelecimento de
ordens, expulsar indivíduos e aceitar outros, etc.) e, também, um poder judiciário
(pois estabelecem punições, recompensas e instâncias de julgamentos). São estes

34

Para Foucault as instituições de seqüestro (século XIX) surgem em oposição às instituições de
reclusão (século XVIII), pois se estas pretendiam a exclusão dos marginais ou o reforço da
marginalidade, aquelas tinham por finalidade a inclusão e a normalização (2002, p. 114).

61

micro-poderes que se aglutinam e, em conjunto com o novo saber tecnológico
(psicologia, criminologia, etc.), típico das instituições de seqüestro, consolidam a
transformação do tempo em tempo de trabalho.
De certa maneira, há plena justificação da existência da prisão – ela se
torna válida – e, conseqüentemente, das outras instituições também, pois se
privilegiam desta legitimidade, uma vez que todas elas estabelecem e criam
formas de dominação, por serem muito semelhantes, estabelecendo, portanto, o
poder e o saber de forma homogênea, é dizer, há a concretização e efetivação do
poder econômico, político e judiciário em um só lugar, em um só momento, pois
conforme afirma Foucault (2002, p. 124) “a prisão ao mesmo tempo se inocenta
de ser prisão pelo fato de se assemelhar a todo o resto, e inocenta todas as
instituições de serem prisões, já que ela se apresenta como sendo válida
unicamente para aqueles que cometeram uma falta”.
É preciso fazer, entretanto, uma pequena ponderação (de ordem
metodológica e epistemológica), utilizando-se, para tanto, da argumentação de De
Giorgi (2002, p. 41/42) e de Foucault (2002, p. 124/126), antes mesmo de iniciar a
discussão sobre a economia política da pena. Para De Giorgi, por exemplo, a
relação entre estrutura social e penalidade não pode ser considerada “como uma
relação mecânica a qual a superestrutura ideológica da pena possa ser deduzida,
de modo linear, da estrutura material das relações de produção”35, exercendo,
entretanto e sem dúvida, um lugar de destaque na composição dos sistemas
repressivos.
Para Foucault a relação “homem e trabalho” é determinada por uma
série de operações, as quais ligam os homens ao aparelho de produção para o qual
trabalham. Divergindo da proposição marxista de que, sendo o trabalho a essência
do homem, é o capitalismo que transforma esse trabalho em mais-valia, Foucault
afirma que a influência do sistema capitalista é muito mais profunda em nossa
existência, pois o próprio sistema foi obrigado a impor e criar técnicas políticas e
de poder, responsáveis pela vinculação do homem com o trabalho, muito além dos
vínculos materiais explícitos pelo trabalho – como a acumulação, o acréscimo
patrimonial, etc. – criando relações quase de afetividade e dependência, fixando
os homens aos aparelhos de produção transformando-os em trabalhadores. Para
35

“(...) come un rapporto meccanico in forza del quale la sobrastruttura ideologica della pena si
possa ricavere in modo lineare dalla struttura materiale dei rapporti di produzione”.

62

ele, a “ligação do homem ao trabalho é sintética, política; é uma ligação operada
pelo poder. Não há sobre-lucro sem sub-poder” (2002, p. 125).
É conveniente, portanto, como se verá a seguir, analisar a relação
existente entre desemprego e encarceramento com determinados cuidados, isto
porque a hipótese de que a relação entre estrutura social e sistema penal espelha
sempre

uma

relação

de

percepção

da

marginalidade

social

e

seu

contingenciamento ou, em outras palavras, a solução aos problemas sociais
causados pelo capitalismo e, mais especificamente, pela exclusão social resolverse-ia através do encarceramento, é hoje de discutível aferição. É preciso, portanto,
fazer uma leitura (ou uma releitura) do sistema penal – especialmente do cárcere –
uma vez que, além das funções efetivamente produzidas (significativamente:
vigilância e estigmatização), é possível e necessário entendê-lo de maneira
diferente: hoje, o cárcere, não desempenha mais as funções de agenciamento de
mão-de-obra, como local de adestramento dos corpos, ou de construção de um
exército de reserva. Como instituição de controle que é, o cárcere estabelece
novas tecnologias de produção, em especial a produção de uma específica
subjetividade, trazida por sua função simbólica que é, visivelmente, a submissão
ao controle do Estado pela normalização das condutas estabelecidas pela lei.
Diante das novas tecnologias de poder e de controle e da abundância
da mão-de-obra, a função do cárcere passou, de um controle direto das massas –
pelo disciplinamento dos corpos – ao controle da produção de subjetividades das
massas ou seja, no momento contemporâneo, é possível perceber que os
encarcerados perderam (despojaram-se) de todos seus direitos, pois há um
domínio total sobre seus corpos, o que os leva a perderem suas condições de
serem humanos, possibilitando a exuberância da exceção e da anormalidade.
É preciso entender, portanto, o sistema penal de forma instrumental,
não como mero coadjuvante na história ou que hoje tenha perdido suas funções,
mas entendê-lo como instrumento hábil e disponível a exercer determinadas
funções em determinadas épocas, conforme a necessidade, justamente pela
potência exercida.
A tese fundamental é de que o cárcere produz efeitos diversos
daqueles anteriormente delimitados, mas fundamentalmente produz efeitos
controladores, disciplinadores e recrutadores, dentro e fora da instituição,
diretamente subordinados à ela, bem como vinculados à sua função simbólica: é

63

possível, por exemplo, verificar o aumento da população carcerária nos Estados
Unidos36 e a grande quantidade de pessoas selecionadas pelo sistema penal
brasileiro desde a edição da Lei no 9.099/95, as quais estão subordinadas a todos
os seus efeitos. Vemos nesses dois casos, a submissão das massas à criação de
verdadeiros depósitos para seres humanos – destituídos de todas as suas
características, especialmente da cidadania – ou aos vínculos estigmatizantes do
sistema.
Enfim, muito mais do que idealizar esta relação, é preciso significá-la
historicamente entre sistemas repressivos específicos (o sistema penal e a prisão
por excelência) e as estratégias de poder e dominação existentes. Este será o
propósito do capítulo seguinte.

2.3.
As relações entre os processos de globalização e os Direitos
Humanos

Quais são, enfim, as expectativas e as possíveis soluções? A reflexão,
dentro de perspectivas muito precisas, especificamente no núcleo da relação
vinculante entre democracia, direitos humanos e desenvolvimento humano, deve
demonstrar profundos laços existentes ante o compartilhamento de posturas éticas
e políticas comuns. O centro é a idéia de sujeito livre, ou seja, a idéia de
autonomia, estreitamente vinculada à “capacidade de direito”, não somente ser
titular da ação, mas também ser responsável por suas conseqüências.
A idéia de cidadania está vinculada a este sujeito livre (autônomo) que
encontra na democracia seu maior referencial, pois este sujeito (não numa visão
individual, mas inseridos em comunidades – grupos, nações, etc.) que delibera e
participa é, ao mesmo tempo, consciente e responsável das conseqüências de suas
decisões, sobretudo políticas (não de um cidadão passivo, mas um cidadão ativo).
Outro referencial importante é a idéia de Direitos Humanos, já que
estes pretendem responder às necessidades humanas básicas contra a violência e
36

Este assunto será debatido com mais detalhes nos capítulos seguintes, mas é importante já
mencionar os referenciais teóricos que podem ser analisados desde já, especialmente os dados
levantados em: “WACQUANT, Loïc. As prisões da miséria. Tradução de André Telles. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2001, 174 p.” e “CHRISTIE, Nils. A indústria do controle do crime: a

64

às ameaças que não permitem sobrevivência elementar, ou seja, criar capacidades
para que as necessidades básicas sejam um direito possível a qualquer pessoa,
independente de nacionalidade, sexo, raça (de caráter universal), etc. Assim, os
Direitos Humanos compartilham com a idéia de cidadania ativa, que significa
capacidade de direitos para satisfazer necessidades básicas de modo a garantir a
toda e qualquer pessoa sua condição de titular de ação, com capacidade e direitos,
tais como educação, moradia, saúde, etc., com a finalidade precípua de que as
pessoas possam desenvolver-se o máximo possível, em suas potencialidades.
De modo oposto, e ante as constantes demonstrações do
individualismo exacerbado – e seu alcance egoístico – o que se vê é o fruto entre
as perversas e complexas relações intersubjetivas da contemporaneidade com o
universo dos Direitos Humanos. Contudo, o paradoxo é assustador, pois ao
mesmo tempo em que o desenvolvimento econômico das sociedades capitalistas
produziu um mundo capaz de gerar riquezas sem precedentes na história, a
sociedade, estruturada em classes, não conhece os resultados e as promessas de
uma vida melhor, mas, ao contrário, lhe são negadas e sonegadas todas as
possibilidades de participação, provocando, com isto uma estrutura de terrível
desigualdade e polarização social, com o conseqüente empobrecimento e exclusão
de camadas cada vez maiores da população, causando um progressivo e constante
esgarçamento da tecitura social.
Diante desse contexto, o que se verifica são as constantes práticas de
intolerância – conforme Bobbio (1992, p. 204) tanto derivada da concepção de
possuir a verdade, como daquela derivada de um preconceito – vivificada pela
atuação passiva das instituições do Estado, fincadas na separação entre sociedade
civil da sociedade política, hermética condição das políticas liberais, a qual exorta
ações repressivas cada vez maiores, bem como a constante e crescente erosão dos
afetos e das solidariedades sociais, abalando, sobremaneira, a garantia dos direitos
individuais e coletivos, com suas conseqüentes flexibilizações.
Para responder ao questionamento feito sobre o papel da democracia
na atual sociedade capitalista, importante contribuição é feita pela crítica marxista
ao capitalismo. A crítica revela que a separação entre as esferas da sociedade civil
e sociedade política não é tão evidente assim, pois o poder político que está com o
caminho dos GULAGs em estilo ocidental. Tradução de Luis Leiria. Rio de Janeiro: Forense,
1998, 227 p”.

65

Estado não é outra coisa senão a própria expressão mediatizada de poder de
classe, organizada no modo que se produz materialmente na sociedade capitalista.
Este Estado tão monstro e tão parcial nada mais é do que um Estado de classe,
cuja natureza funcional é assegurar o direito de propriedade, implicando em seu
envolvimento nas próprias relações de produção, razão pela qual ele (o Estado) se
utiliza da prerrogativa do monopólio do uso da força para compor e ajustar as
relações sociais.
Assim, o Estado, tão necessário às consecuções e interesses do
capitalismo, principalmente para manter a ordem e garantir o pressuposto da
constante acumulação, assume sua posição de garante, pois com todo o aparato
repressivo, utiliza-se do monopólio do uso da força para manter as desigualdades,
o controle social do desvio e as relações de subordinação, provocadas às camadas
mais vulneráveis da sociedade.

3
GLOBALIZAÇÃO E CONTROLE SOCIAL
3.1 Estado e a relação social da produção. 3.2 A intervenção política do Estado na economia.
3.2.1 As formas de intervenção do Estado. 3.2.2 O uso dos instrumentos ideológicos e
repressivos: o conteúdo político das funções econômicas do Estado. 3.3 A criação de novos
espaços à reprodução do capital. 3.3.1 As transformações no mundo do trabalho. 3.3.2 O
cenário mundial do capital e os ciclos econômicos no último quarto do século XX. 3.3.3
Espaço e tempo à reprodução do capital. 3.3.4 A produção industrial militar e a necessidade
do “consumo destrutivo. 3.4 O mercado da violência

Os processos de globalização que conduziram à atual crise de
identidade da civilização, isto porque os interesses do grande capital – traduzida
na militarização e hierarquização das potências hegemônicas – intensificaram a
perversa e excludente política social e humanitária, produziram uma intensa
deflagração do fenômeno da mercantilização dos direitos sociais, com a
conseqüente e inevitável vulnerabilidade dos direitos humanos.
Esta é a relação que precisa ser feita. É preciso entender esse
imbricado jogo. A par da visível recessão1 que os países mais ricos atravessam,
em especial os Estados Unidos e alguns estados da Europa, os efeitos da economia
liberal estão sendo sentidos em todos os quadrantes, como efeitos deletérios do
capitalismo, os quais desembocam na vertente liberal do capitalismo globalizado
(e suas terríveis conseqüências): desemprego em massa, pobreza, xenofobia e, em
última análise, no encarceramento de determinadas e enormes parcelas da
população. Para manter essa massa de desempregados ou de “sub-empregados” –
conseqüências diretas do capitalismo globalizado – é que o Estado lança mão de
seu braço coercitivo de controle social.
Antes mesmo de tecer comentários a esta hipótese, segundo a qual, o
sistema econômico neoliberal ao priorizar o problema da segurança pública, o faz
em detrimento de outros direitos – especialmente os direitos sociais – fomentando
o aparecimento de novas formas de controle, é preciso entender que, a partir dos
anos 90 do século XX, principalmente com o colapso do socialismo real, a
1

Para Sandroni (2005, p. 711) recessão pode ser entendida como o “conjunto de declínio da
atividade econômica, caracterizada por queda da produção, aumento do desemprego, diminuição
da taxa de lucros e crescimento dos índices de falências e concordatas. Essa situação pode ser
superada num período breve ou pode estender-se de forma prolongada, configurando então uma

67

globalização produziu um sentimento, relativamente homogêneo, no sentido de
terem triunfado os pressupostos liberais, tanto políticos (democracia liberal) como
econômicos (capitalismo globalizado) (Cf. GÓMEZ, 2000, p. 15).
Contudo, como afirma David Harvey (2003, p. 77/78), as contradições
internas, tendentes a gerar crises, da acumulação do capital estão a revelar a
dificuldade da reprodução do capital e a conseqüente necessidade de se achar
espaços próprios a esta finalidade. É preciso, portanto, traçar alguns pontos de
contato a fim de se chegar às relações entre o desenvolvimento das políticas
econômicas, a partir do século XX, especialmente com a crise do estado de bem
estar social e, mais tarde, já nas décadas de 80/90 até o momento atual com a
condição do novo proletariado2, e as dinâmicas das relações de produção que
podem estar influenciando o novo encarceramento, ou seja, ultrapassando a lógica
do internamento e do disciplinamento para a lógica de um controle e
proletarização das classes excluídas.
Na lógica do sistema neoliberal3, a adoção das políticas econômicas,
mesmo nos países capitalistas mais avançados, condiciona o Estado numa
dimensão crescente de envolvimento, direto e indireto, para “salvaguardar a
continuidade do modo de reprodução do metabolismo social do capital.” (Cf.
Mészáros, 2003, p. 29).
Os efeitos dessas políticas são devastadores. De uma maneira bastante
simples, é possível identificar as mazelas institucionais causadas pela
globalização, em especial na política econômica adotada, a qual reverte o papel do
depressão ou crise econômica. O fenômeno da recessão está ligado ao processo de
desenvolvimento dos ciclos econômicos próprios da economia de mercado ou capitalista.”
2
No capítulo III da presente pesquisa o tema será aprofundado. Neste momento, entretanto, é
importante compreender que as análises feitas pelas diversas historiografias utilizadas à
contextualização das classes sociais trabalhadoras, indicadas pela leitura marxista, não me parecem
suficientes à preparação do estudo que nos propusemos, isto porque, de certo modo, a força de
trabalho que está sendo constituída no processo produtivo contemporâneo (ou, até mesmo, está
sendo expulsa da constituição do processo produtivo) não atinge mais as finalidades levantadas,
especialmente o disciplinamento e o controle. Portanto, este novo proletariado, acima referido,
será significado como um termo que alguns autores denominam como “pos-fordismo”, ou seja,
nesse período de indefinição daquilo que “não é mais” e que “ainda não é”, indicará uma transição
e a tendência da produção, marcadamente no limite do modelo fordista e o atual momento de
flexibilização da produção.
3
O termo neoliberal é trazido, a partir de meados dos anos 70 do século XX, como a nova
proposta para os mesmos pressupostos estampados pelo liberalismo econômico de Adam Smith e
David Ricardo, numa tentativa de trazer uma linguagem desideologizada, mas que tem como
finalidade circunscrever e permitir ao Estado uma função mínima, regulatória apenas, permitindo
que as liberdades (especialmente do mercado – livre concorrência) possam diretamente contribuir,
democraticamente, aos ganhos coletivos. Por esta razão é importante que, durante a elaboração da
tese, sejam realizadas dilucidações sobre “liberdade” e “democracia”.

68

Estado em relação à regulação do mercado, bem como na responsabilidade dos
direitos sociais. Cria-se, pois, um verdadeiro paradoxo, entre o discurso da
democracia liberal ante as novas estruturas globalizadas de poder, fundadas em
conseqüência das políticas liberais. Marta Harnecker (2000, pp. 212-213 e 239)
afirma que os efeitos da adoção das políticas neoliberais (tanto do ponto de vista
político como do econômico) são extremamente negativos para a sociedade, e
também aos trabalhadores em geral (estabilidade no trabalho, salários dignos,
segurança social), atingindo suas organizações de classe, para permitir a menor
intervenção do Estado, deixando os conflitos de classe para resolução pelo livre
mercado.
Como dito, para conter essa nova classe – esse novo proletariado – é
que o Estado lança mão de seu braço coercitivo de controle social. Esta é a relação
que precisa ser feita, ou seja, é possível entender as estruturas de poder como uma
explicação de práticas autoritárias que se prolongam no tempo ou são decorrentes
do modo de produção capitalista consolidadas nos modelos democráticos à
disposição da sociedade? Estes são os desafios (questionamentos) a serem
respondidos.

3.1.
Estado e a relação social da produção

Como visto, o liberalismo econômico que se desenvolveu a partir do
século XVIII, produziu uma espécie de não intervenção nas relações econômicas,
especialmente na circulação de mercadorias, deixando a regulação à livre
concorrência. De certa forma a idéia de auto-regulamentação constituiu uma
novidade, em função do modelo até então existente (final do século XVIII – por
volta dos anos 1780) pois, como afirma Hobsbawm (2002 a, p. 50) “pela primeira
vez na história da humanidade, foram retirados os grilhões do poder produtivo das
sociedades humanas, que daí em diante se tornaram capazes da multiplicação
rápida, constante, e até o presente ilimitada, de homens, mercadorias e serviços”.
A partir da Revolução Industrial – seu ponto de partida4 situa-se entre
as décadas de 1780 e 1800 – as idéias dos fisiocratas5 perdem espaço sem,
4

Para Hobsbawm (1977, p. 51) este período de industrialização inicia-se em 1780 e termina com a
construção das ferrovias e das indústrias pesadas em 1840, na Grã-Bretanha.

5 Os fisiocratas foi um grupo de economistas franceses do século XVIII que combateu as idéias mercantilistas formulando. dos juros. 6 Adam Smith (1723 – 1790) principal economista da escola clássica teve influência muito grande dos fisiocratas. de maneira sistemática. Como explica Hobsbawm (2002b. então. gerado algumas depressões agudas no período entre 1873 e meados dos anos 1890. 68) o mundo não era mais formado. uma teoria do liberalismo econômico. especialmente. 345) explica que foram os fisiocratas que criaram a noção de produto líquido. p. Para eles. o Estado somente poderia intervir para garantir esta ordem. pois o que estava em questão não era a produtividade e sim a lucratividade. 59). p. a produção mundial. Ao exaltar o individualismo e considerando que o desenvolvimento harmonioso dos indivíduos tomados isoladamente resultaria no desenvolvimento social. os proprietários de terra (a nobreza e o clero) e as “classes estéreis” (demais cidadãos) e que existe uma circulação da renda entre elas. assumindo um papel de guardião da propriedade e da liberdade econômica. mas não só pelo impulso colonialista. continuou a aumentar acentuadamente”. que configura o ritmo básico de uma economia capitalista. Em “A Riqueza das Nações” Smith desenvolve seu pensamento de modo a explicar que os sentimentos individuais na busca de cada interesse pessoal resultaria no bem-estar coletivo. especialmente aquelas trazidas por Adam Smith6. a sociedade era dividida em três classes: os produtores (agricultores). duas condições básicas: a liberdade e a propriedade privada. Esta tendência da queda da taxa de lucro foi minimizada pelos grandes investimentos realizados no estrangeiro7. ou seja.69 entretanto. 7 Na América Latina. A idéia principal é de que toda a riqueza vem da terra e de que a única classe produtiva é a dos agricultores. causar impacto nas teorias liberais. isto porque “sustentaram que somente a terra. especialmente de François Quesnay. 2002 b. em grego). tenha. 58) “embora o ritmo comercial. isto porque. ou a natureza (physis. A grande preocupação dos economistas e empresários era. a prolongada depressão dos preços. Paulo Sandroni (2005. por certo. longe de estagnar. os investimentos estrangeiros atingiram níveis muito elevados nos anos 1880. O principal representante dos fisiocratas foi François Quesnay e estes (os fisiocratas) exerceram grande influência sobre Adam Smith. razão pela qual defendiam a liberdade econômica contra as barreiras feudais ainda existentes à época. impelidas pela industrialização e pelas políticas econômicas liberais em curso consideradas as mais aptas ao desenvolvimento econômico. o que correspondia a uma ordem natural regida por leis imutáveis. especialmente na economia. é capaz de realmente produzir algo novo” enquanto a indústria e o comércio apenas transformam ou transportam os produtos da terra. tendo. conforme Hobsbawm (2002b. embora as taxas de crescimento tenham diminuído. p. portanto. por exemplo. Em 1776 publicou sua mais conhecida obra – e talvez a mais importante – “A Riqueza das Nações”. HOBSBAWM. elas continuavam aumentando. Smith propõe a não interferência do Estado. Em conseqüência. p. mas também pela intervenção (protecionismo) do Estado. . quando a extensão da rede ferroviária Argentina foi quintuplicada (Cf. transferindo o centro da análise do âmbito do comércio para o da produção. defendendo a idéia da livre-concorrência como mecanismo de uma economia eficiente.

Mas como a demanda da massa não podia acompanhar a produtividade em rápido crescimento do sistema industrial nos grandes dias de Henry Ford. em que os ganhos de uma pareciam ameaçar a posição de outras”. o resultado foi superprodução e especulação. por sua vez. em parte. Cia das Letras. p. de demanda suficiente para uma expansão duradoura. a partir da Primeira Guerra Mundial. no mundo. 2003. Isso. os lucros cresceram desproporcionalmente. entretanto. que o período compreendido entre as duas grandes guerras mundiais (1918-1945) foi um período que os autores chamam (consideram) de colapso econômico (ou A Grande Depressão) e que levou o jovem John Maynard Keynes a escrever uma severa crítica à conferência de Versalhes de 1920 (The economic consequences of the peace). pois “com os salários ficando para trás. Conforme Hobsbawm (2003. entretanto. p. 103-104). fato que provocou o desgaste da economia mundial. a outros dois fatores econômicos: o primeiro é o impressionante e crescente desequilíbrio na economia internacional. e os prósperos obtiveram uma fatia maior do bolo nacional. a qual podia ser vista como um 8 Para se ter um panorama globalizado dos impactos políticos da Grande Depressão dos anos 30. o referido colapso econômico no mencionado período. HOBSBAWM. afirmando que sem uma restauração da economia alemã. mesmo sabendo que a década de 1930 é considerada de grandes inovações tecnológicas. De toda sorte. . todos os lados do mundo sofreram com a depressão dos anos 19308. aumentando a responsabilidade e o papel do Estado que teve. devido à assimetria de desenvolvimento entre os EUA e o resto do mundo e. que assumir as diretrizes das políticas econômicas. pp.70 apenas. pois a “industrialização e a Depressão transformaram-nas num grupo de economias rivais. creditando. A certeza da necessidade de movimentos bruscos na economia capitalista foi resultado da eminente estagnação provocada pela crise de 1929. 108-109) no final dos anos 30 do século XX a economia liberal do livre mercado estava totalmente dominada pela grandes corporações o que tornava pouco realizável a livre concorrência. em segundo lugar. “A era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991”. seria impossível a restauração da civilização e da economia liberais estáveis na Europa. ver Eric Hobsbawm. 108-111. provocou o colapso” (Cf. Hobsbawm afirma que as perturbações e complicações políticas explicam. por uma massa de “economias nacionais”. na não geração na economia mundial. É de notar.

estava decidido a livrar-se do fantasma do desemprego (Cf. como os acordos internacionais.71 sistema composto de um setor de mercado. 111-112). a partir dos anos 1890. havia três opções à hegemonia política: o comunismo marxista. aproveitando-se de toda conjuntura política e econômica. nos permitem algumas considerações. o que se chamou de taylorismo9: "além da organização da produção. em 1865. 821-822). tanto no sentido de destruição da economia como da sociedade. . que “abrange um sistema de normas voltadas para o controle dos movimentos do homem e da máquina no processo de produção incluindo propostas de pagamento pelo desempenho do operário” (Cf. Gérard Duménil e Dominique Lévy apontam que no final do século XIX a taxa de lucro desabou e somente a partir da Primeira Guerra Mundial é que houve uma tendência ao aumento da rentabilidade. do financiamento e da tesouraria. p. afetou a comercialização. que as crises estruturais que o capitalismo atravessou no final do século XIX (entre o fim da Guerra de Secessão nos Estados Unidos. depois da Segunda Guerra Mundial. O arquétipo disto é a linha de montagem. A mecanização permitia tradicionalmente economizar trabalho e 9 Frederick Winslow Taylor (1856-1915) é considerado o pai da administração científica. e as políticas correspondentes. pp. a gestão do pessoal etc. e. a terceira opção era o fascismo (na Alemanha foi o nacional-socialismo) que. HOBSBAWM. 2005. mediante a alta da produtividade do capital e a tendência do crescimento econômico foi restabelecida em função de uma revolução técnico-organizacional e pela explosão dos mecanismos monetários e financeiros e das rendas financeiras. especificamente com a crise de 1929). tanto na Europa como nos Estados Unidos. Diante da catástrofe produzida pelo liberalismo econômico. Assim. Nos Estados Unidos. provocando uma verdadeira revolução de gestão – de técnica e de organização – atingindo todos os aspectos do funcionamento das empresas. É importante perceber. então. SANDRONI. um setor governamental (no qual. dá-se o nome de “taylorismo” ao conjunto deas teorias para aumento da produtividade do trabalho fabril elaboradas por Taylor. um capitalismo ligado à social democracia de movimentos trabalhistas não comunistas (que. e os anos 1890. economias planejadas faziam suas transações) e um setor de autoridades públicas que regulavam partes da economia. houve uma transformação das instituições do capitalismo (empresas e fábricas). a gestão dos estoques. foi a proposição mais efetiva). denominado da Grande Depressão) e também no período ‘entreguerras’ do século XX (1920-1939. 2003.

do Juro e da Moeda”12. inicia a segunda grande depressão (1930). Diante da concentração de renda (aliando-se à queda dos salários) e do aumento dos lucros (aliando-se à incapacidade de demanda de massa em acompanhar o crescimento industrial). em termos de capital. 31) afirmam que “por ‘finança’. 2005. por exemplo. De certa forma estes fatos produzidos nesse período desfaz a idéia levantada por Marx. o que não se poderia imaginar naquele momento: diante das assimetrias existentes no desenvolvimento econômico entre os Estados Unidos e os demais países do mundo. então. produzindo estudos sobre o emprego e o ciclo econômico.72 aumentar a produtividade do trabalho. da inexistência do princípio do equilíbrio automático na economia capitalista. em 1929. era grande. pois. foi o pioneiro da macroeconomia. SANDRONI. Em 1936. resultando 10 Duménil e Lévy (2003. A eficiência foi o tom das primeiras décadas do século XX. os quais contestavam os “conceitos e a ortodoxia marginalista. Ocorreu. com a queda da bolsa de valores de Nova York. a economia não produziu a demanda suficiente à expansão necessária. p. É o passo decisivo à especulação financeira e. 26-27). e as políticas por ele sugeridas conduziram a um novo relacionamento. é que houve um aumento da produtividade e da rentabilidade do capital. . 31). p. da tendência da queda da taxa de lucro. John Maynard Keynes11 escreve “A Teoria Geral do Emprego. entre o Estado e o conjunto das atividades econômicas de um país” (Cf. no livro III de “O Capital”. no qual contestava os dogmas do liberalismo econômico. 11 John Maynard Keynes (1883-1946). p. p. nascido em 5 de junho de 1883. cuja relação com o sistema produtivo se transformou: a finança10 deixou de ser uma simples auxiliar da atividade das empresas e do financiamento de suas transações para tornar-se. entendemos aqui um vasto conjunto de indivíduos endinheirados e de instituições – indivíduos por trás de instituições – que detêm importantes capitais monetários e financeiros”. mas o custo. do capital investido em técnicas. invertendo-se. a encarnação do capital enquanto propriedade. especialmente o princípio liberal segundo o qual a queda no consumo levaria à queda da taxa de juros. A proporção entre capital e trabalho aumentava consideravelmente” (2003. frente ao capital enquanto função” (2003. economista inglês. 455). de intervenção. em Cambridge. entra em cena o que Duménil e Lévy descrevem como o “desenvolvimento de um importante setor financeiro. a tendência da queda da taxa de lucro. A partir dessa “revolução de gestão” – especialmente pelo taylorismo e pela linha de montagem – isto é. entretanto. Keynes defendeu a idéia.

ou seja. provocando um novo equilíbrio em direção ao pleno emprego. é que esta análise permite verificar a necessidade da intervenção do governo para a economia atingir seu nível de equilíbrio. KEYNES. dependerá do montante do investimento corrente” e este dependerá do “incentivo para investir. de uma demanda insuficiente de bens e serviços e que somente será resolvido por meio de investimentos. isto porque pode a economia equilibrar-se e. o consumo e o investimento também cresçam. 20) traz alguns exemplos do chamado financiamento público: “a medicina socializada. mais importante. Tradução de Mário R. John Maynard. mantendo altos níveis de renda e emprego. 328 p. p. constituindo-se. 456). os investimentos. o nível em que nada incita os empresários em conjunto a aumentar ou reduzir o emprego. a partir dos anos 1930. portanto. p. a cada elevação de renda. o desemprego é resultado. de modo que. para Keynes. entretanto.73 num maior investimento e aquecimento da economia. 1992. Qual a importância da análise keynesiana? Conforme explica Sandroni (2005. É exatamente neste momento que se dá início ao intervencionismo do Estado e a implementação das políticas keynesianas as quais conseguem reverter a situação de crise. da Cruz. A teoria geral do emprego. no chamado Welfare State: financiamento público13 da 12 Ver. depende da relação entre a escala da eficiência marginal do capital e o complexo das taxas de juros que incidem sobre os empréstimos de prazos e riscos diversos” (1992. 2005. mais especificamente. sendo imprescindível a intervenção do Estado. o qual. portanto. Fundamentalmente. o que ocorre. 40). São Paulo: Atlas. ao mesmo tempo. o seguro-desemprego. da proporção da renda que é gasta em consumo e investimento” (Cf. p. do juro e da moeda. isto é. estar com uma alta taxa de desemprego caso não haja intervenção governamental com políticas adequadas que sustentem a demanda efetiva. pelo menos temporariamente. . são os responsáveis pela solução do problema do desemprego e capazes de influenciar a demanda e. pois “o nível de equilíbrio do emprego. SANDRONI. que “o nível de emprego numa economia capitalista depende da demanda efetiva. p. Keynes demonstrou. a educação universal gratuita e obrigatória. a previdência social. especialmente nos anos após a Segunda Guerra Mundial. O que seria necessário. como fator dinâmico da economia. era alterar as expectativas dos capitalistas (empresários) em relação à demanda futura e permitir que o capital iniciasse uma nova fase de expansão. como se verificará. 13 Oliveira (1998. 456).

Este financiamento público passou a ser o pressuposto dos processos de acumulação de capital e da reprodução da força de trabalho a fim de que a reprodução do capital se realizasse por meio da circulação de mercadorias. ou seja. p. p. passa pelos diversos subsídios para a produção. e o mercado financeiro e de capitais através de bancos e/ou fundos estatais. 22). mantém a valorização dos capitais pela via da dívida pública. sustentando a competitividade das exportações. originalmente. combinados com fantasias neoliberais relativas ao ‘recuo das fronteiras do Estado’. salário-família. criando-se uma esfera pública institucionalmente regulada. cristaliza-se numa ampla militarização (as industrias e os gastos em armamentos). entre outros). pela utilização de ações de empresas estatais como blue chips. induzindo à produção e a um novo ciclo de expansão. p. lembrando que o século XX foi pródigo no reaparecimento daquilo que Marx chamou de “ajuda externa”. Oliveira ainda aduz que a descrição das diversas formas de financiamento à acumulação inclui “desde os recursos para ciência e tecnologia. o sistema do capital não sobreviveria uma única semana sem o forte apoio que recebe do Estado”. toma em muitos países a forma de vastos e poderosos setores estatais produtivos. favorecendo desde as classes médias até o assalariado de nível mais baixo. 20-23). funcionando quase como uma acumulação primitiva. são seus exemplos”. até certo ponto. financiada através da redistribuição da massa de mais-valia e salários arrecadados via tributos pelo Estado. 19). transformou-se em liberação do salário direto ou da renda da família para alimentar o consumo de massa. 1998. previdência social. a formação do sistema capitalista é impensável sem a utilização do padrão de financiamento público do chamado Estado-providência (com o conseqüente aumento do déficit público dos países industrializados).29) chega a afirmar que “apesar de todos os protestos em contrário. desde políticas agrícolas comuns e de garantias de exportação até os imensos fundos de pesquisa e do complexo industrial-militar. OLIVEIRA.74 economia capitalista baseado. sustenta a agricultura (o financiamento dos excedentes agrícolas dos Estados Unidos e a chamada “Europa Verde” da CEE). Meszáros (2003.”. . impedindo o surgimento de uma crise (CF. os subsídios para transporte. insubstituível. os benefícios familiares (quotas para auxílio-habitação. revelando que a presença dos fundos públicos na reprodução da força de trabalho e dos gastos sociais públicos gerais é estrutural ao capitalismo e. etc. no extremo desse espectro. 1998. saláriofamília) e. intervém na circulação monetária de excedentes pelo open market. em função do crescimento do salário indireto (seguro-desemprego. vai através dos juros subsidiados para setores de ponta. p. nas políticas anticíclicas de teorização keynesiana (Oliveira. Para Francisco Oliveira (1998. subsídios para o lazer.

saúde. energia elétrica. Os autores lembram ainda a crise de 1929 que.) do estado ou. os dois períodos que antecederam e sucederam as crises estruturais14 dos finais dos séculos XIX e XX (a primeira desencadeada entre o fim da Guerra da Secessão – 1865 – e os anos 1890 e a segunda no final do século XX – iniciada nos anos 1970. p. inflação. então. Para Gérard Duménil e Dominique Lévy (2003. desemprego. etc. extração de petróleo. 15-32). Apesar de serem considerados períodos diferentes do capitalismo (o primeiro período chamado anárquico ou desorganizado e no segundo período chamado de capitalismo organizado) a saída das duas crises estruturais ocorridas foram marcados por circunstâncias favoráveis ao restabelecimento da hegemonia das finanças. sob várias formas. previdência pública.75 Esta “ajuda externa” tem. intervenção indireta (organização das relações entre trabalhadores e capitalistas.). etc. sem intervenção estatal – o que levaria a uma espécie de capitalismo muito concorrencial ou anárquico. mas especialmente pelo baixo investimento e desenvolvimento da economia. . lentidão do progresso do salário. necessitando da intervenção econômica direta (hidrelétricas.) a atividade industrial. etc. foi a situação da telefonia. aumenta-se a intervenção estatal. também legitimou enormes transformações). em especial aquelas clássicas que surgiram no final do século XIX. cada vez mais daquelas funções clássicas do Estado do século XIX (garantia dos direitos individuais. etc. No século XX. de empresas relativamente menores. etc. não só quantitativa mas. qualitativamente. saúde. pois ela vai adquirir novas funções (o que nos remete também à formação de uma nova classe burocrática profissional) mais complexas – educação. distanciando-se. por vezes. a finalidade de evitar o aparecimento de crises. redução do progresso técnico. apesar de circunstâncias diferentes. 14 As crises estruturais são marcadas por diversos fatores. segurança. nos anos 1940. é importante considerarmos. diminuição da rentabilidade do salário. – levando à frente empreendimentos industriais cuja magnitude de capitais envolve tamanhos riscos e uma quantidade de capital tão grande que os capitalistas individuais não conseguem levar à frente (no Brasil. na análise do desenvolvimento do modo de produção capitalista. num contexto do modo de produção capitalista muito competitivo.). petróleo e no século XIX isso aparece nas ferrovias. educação universal. especialmente nesses pós-guerras. previdência.

o papel do desenvolvimento do Estadoprovidência. especialmente com o fim da hegemonia agrárioexportadora e o início da predominância da estrutura industrial. p. p. . São Paulo. 2000). entre os quais o trabalho ou o preço do trabalho. Muito embora estes ciclos de Kondratieff sejam de conceituação um pouco imprecisa. O principal trabalho de Kondratieff é considerado “Los ciclos largos de la coyuntura económica” de 1926. o movimento de hegemonização é fundamental. de quarenta a sessenta anos”. que justificavam diferentes formas de relações entre o Estado e a sociedade” (Projeto de pesquisa apresentado à UNESC pelo NUPED – Núcleo de Estudos em Estado. se em alguns momentos a presença do Estado na economia é desejável. Haverá pequenos apontamentos sobre a importância e as conseqüências do estudo dos ciclos econômicos no item 2. International Sociology. 460) “seu nome está associado ao estudo dos ciclos econômicos longos. Neste período que vai de 1930 até o início dos anos 1970. Conforme Sandroni (2005. 32). june.76 A primeira hegemonia findou-se com a crise de 1929 e iniciou um novo ciclo de desenvolvimento (ou uma nova “longa onda”. notadamente pela “nova correlação de forças sociais. Immanuel. novamente. ou ciclos seculares. 3 vol. de destruição das regras do jogo segundo as quais a economia se 15 Nicoali Dmitrievich Kondratieff (1892-1930) foi economista e estatístico russo. criou. a regulamentação dos fatores. como chamam os economistas15) que esgotou-se com a crise dos anos 1970. seguido pelo neoliberalismo. pode-se admitir que o período que vai de 1945 até os dias de hoje é um típico Ciclo Econômico de Kondratieff.4. o keynesianismo dos anos 1930 até meados dos anos 1970 e o neoliberalismo a partir dos anos 1980. a reformulação do aparelho e da ação estatal. 1996. Política e Direito). Alguns economistas admitem a existência de 3 (três) ciclos econômicos longos (Ciclos Econômicos de Kondratieff): o primeiro até 1850 – compreendendo 24 anos de alta e 36 anos de baixa. pp. Globalization or the age of transition? A long term view of the trajectory of the world system. Editora Martins Fontes. No contexto brasileiro. foi fundamental à concretização do chamado “compromisso keynesiano”. Mesmo que somente a partir de 1956 o setor industrial ultrapasse o da agricultura. o debate sobre o nível de intervenção do Estado na economia após os anos 1930 parece seguir os ciclos de expansão e de contração da atividade econômica de tal forma que. as circunstâncias favoráveis ao restabelecimento da hegemonia da finança por meio do monetarismo. o que se pode apreender através das abordagens teóricas. contudo. depois de três décadas de sua implementação. publicado nos Cuardenos de Economía – Cidade do México. o segundo que vai de 1850 a 1896 e o terceiro de 1896 a 1940. Destacam Gérard Duménil e Dominique Lévy (2003. WALLERSTEIN.2 desta pesquisa. Fernand. vol. a Revolução de 1930 marca o início de um novo ciclo na economia. é importante verificar que os períodos de contração econômica ocorrem entre 24-30 anos após um período de expansão. De forma semelhante. Assim foi o liberalismo no período anterior à crise dos anos 1930. têm significado. em outros é indesejável. 15 (2). sob a coordenação do Professor Reginaldo de Souza Vieira. de um lado. “Considerando-se os anos 1930 como um período de contração. que o fracasso das políticas keynesianas. O tempo no mundo. 249-265.. Talvez a característica marcante de seus estudos sobre o desenvolvimento do capitalismo histórico seja a divisão destes ciclos longos em duas fases: a primeira fase de crescimento ou de expansão econômica e uma segunda fase de recessão econômica. onde a fase de ascensão vai de 1945 até 1967-73 e a fase de contração de 1967-73 até os dias de hoje (BRAUDEL.

no qual a regulamentação das leis de relação entre o trabalho e o capital é o mais importante. na distribuição de ganhos e perdas entre os diversos estratos ou grupos das classes capitalistas. principalmente. p. OLIVEIRA. de criação das condições institucionais para a expansão das atividades ligadas ao mercado interno”. nos subsídios. ou seja. 35-36). entretanto. de outro. pois. etc. Francisco de Oliveira aponta16. criando mecanismos aptos à reprodução da acumulação industrial.. antes de simplesmente servir para o pagamento dos bens de consumo” e. Analisando alguns aspectos que desempenharam essa missão na concretização desse novo modo de acumulação. da realização de determinadas posturas. de um lado “por seu subsetor dos produtos de exportação. ela deve suprir as necessidade de bens de capital e intermediários de produção externa. por exemplo. ocorreu o fracasso das políticas keynesianas. mas é preciso lembrar que seu fracasso foi devido. 42) afirma que a agricultura exerce um papel qualitativamente diferente neste momento. principalmente. Este novo modo de acumulação dependerá. e o terceiro aspecto levantado (2003. da oferta e demanda dos fatores no conjunto da economia. sobretudo. “à internacionalização produtiva e financeira da economia capitalista” em função de que a reprodução do capital. p. OLIVEIRA. 42) é o papel da agricultura. no nível das empresas. no gasto fiscal com fins reprodutivos. possa se reproduzir” (CF. penalizando. a partir de meados dos anos 1970. a agricultura deve suprir as necessidades das . Francisco de Oliveira mostra que a intervenção estatal teve como finalidade destruir (mas não na totalidade) o modo de acumulação para o “qual a economia se inclinava naturalmente” (o modo agrário-exportador). a intervenção do Estado na produção econômica. p. os aumentos da 16 Francisco de Oliveira aponta três aspectos: o primeiro (2003.77 inclinava para as atividades agrário-exportadoras e. os custos e a rentabilidade dos fatores alocados à atividade agrícola destinado ao comércio externo – confiscando os lucros parciais (como o caso do café) ou aumentando o custo relativo do dinheiro emprestado à agricultura – o que poderia ser feito diminuindo o custo do dinheiro emprestado à indústria (CF. p. pois “o seu papel é o de criar as bases para que a acumulação capitalista industrial. de outro lado. “por seu subsetor de produtos destinados ao consumo interno. 17 Neste ponto merece destaque o fato de que o capitalismo destrói e constrói os mecanismos aptos à sua reprodução sem. Francisco de Oliveira (2003. 36) faz parte das regulamentações dos fatores. Voltando ao contexto brasileiro. 40) refere-se à intervenção do Estado na economia. 2003. 40). p. agindo não só no fator trabalho mas também na fixação de preços. 2003. p. Veja que um dos aspectos da missão de concretização do novo modo de acumulação (urbano-industrial) é o papel desenvolvido pela agricultura. o fazer de forma absoluta. criando as condições do novo modo de acumulação (o modo urbano-industrial)17. o segundo aspecto (2003. Como visto.

tanto do capital como da força de trabalho. Para Francisco de Oliveira (1998. em que a produção do valor. Nesta nova relação social de produção será importante não só a presença do salário e da propriedade privada. o processo de acumulação urbano-industrial. massas urbanas. além da esfera da produção. razão pela qual o fundo público é estrutural e insubstituível no processo de acumulação à necessidade de expansão do capital (Cf. principalmente e secundariamente o custo das matérias-primas. dissolvendo. absolutamente “fetichizada”. p. ou de seu substituto. local em que se operará a exploração da força de trabalho e sua “desfetichização”. portanto. e não obstaculizar. a distribuição. Para Oliveira (1998. 37) “o desenvolvimento do Welfare State é justamente a revolução nas condições de distribuição e consumo. a produção de excedente social. mesmo imaginando-se que vivemos numa sociedade de massa. mas também todas as outras esferas à reprodução do capital: a circulação. e das condições de circulação. mas como necessidade da lógica de expansão do capital. ou seja. a anulação do “fetiche da mercadoria” isto porque os componentes à remuneração da força de trabalho são. 26-31). portanto. p. OLIVEIRA. 35) o fundo público é o antivalor no sentido de que os pressupostos da reprodução do valor contêm os elementos de sua negação. que agora o capital é social. produzido pela presença do fundo público na reprodução. do lado do capital”. toma novas formas” as quais aparecem não como desvios do sistema. afinal “o que se vislumbra com a emergência do antivalor é a capacidade de passar-se a outra fase. não só conhecidos. para não elevar o custo da alimentação. portanto. mas determinados politicamente. do lado da força de trabalho. p. o consumo. determinando. A interessante hipótese apresentada por Francisco de Oliveira reside no fato de que a “força de trabalho está se desvestindo das determinações da mercadoria”.” . 1998.78 produtividade e a elevação do salário real se circunscreveram aos limites territoriais nacionais dos processos de interação daqueles componentes da renda e do produto. a circularidade nacional dos processos de retroalimentação que pressupunha ganhos fiscais correspondentes ao investimento e à renda que o fundo público articulava e financiava. No lugar do “fetiche da mercadoria” Oliveira propõe o “fetiche do Estado”.

A idéia inicial é estabelecer o ponto de partida exato da derivação da forma Estado a partir da sociedade. porém. primeiramente. isto porque ela traz a análise da “circulação simples”. há três momentos em que é possível apreender o Estado: a primeira é a relação entre forma e conteúdo. Ruy Fausto desenvolve categorias da sociedade civil em categorias do Estado. isto porque. Investigações para uma reconstituição do sentido da dialética. Antes.). convencionalmente se atribui as intervenções estatais àquelas hipóteses já levantadas. etc. ou seja. ou seja. a partir do pensamento e categorias marxistas. estas intervenções estabelecem (objetivam) a reprodução do conjunto do capital social. Entretanto. diante dessa queda tendencial da taxa de lucro. especificamente o Capítulo 4.2. e. formação de uma classe burocrática. é preciso fazer uma breve discussão sobre o Estado e a maneira pela qual ele é visto na obra “O Capital” de Karl Marx. A intervenção política do Estado na economia Como visto. especificamente de intervenção direta (quando o capital privado não consegue realizar – por exemplo os altos investimentos ou de grande risco) e indireta (regulamentação do mercado de trabalho. como o próprio autor adverte. 185). de uma forma geral. a necessidade de intervenção direta do Estado. ou seja. “Sobre o Estado”) analisar o Estado a partir do conteúdo representado pelas oposições de classes concebidas como oposições de interesses. Para tanto. (Marx: lógica & política. segundo ele. utilizando-se a obra de Ruy Fausto. p. tendo como objeto as formas de Estado. a terceira. demonstrando a . a segunda no contexto do aumento da composição orgânica e da queda tendencial da taxa de lucro. há também algumas determinações políticas da intervenção estatal que não se circunscrevem aos aspectos econômicos propriamente ditos e é exatamente neste sentido que Nico Poulantzas questiona: “por que o Estado toma a cargo setores perfeitamente rentáveis para o capital?” (2000.79 3. diretamente relacionadas com a atividade econômica. É necessário. a forma de circulação de mercadoria e seu equivalente. não se pretende abranger o conjunto da teoria do Estado mas analisá-lo na medida e a partir de “O Capital”. ou seja. O primeiro desenvolvimento inicia do estudo da primeira parte do livro I de “O Capital”.

Assim. 1987. portanto. Somente no momento em que há uma relação de exploração que as classes (oposição) nascem. Para Ruy Fausto (1987. Esta pressuposição da apropriação pelo trabalho torna a situação inicial uma relação de igualdade (também pressuposta). o Estado deriva da contradição entre a identidade e a contradição (Cf. Contudo. é o da apropriação pelo trabalho próprio. ou seja. entra em cena o terceiro momento: a continuidade do processo de produção faz com que a troca de equivalentes se torne uma simples aparência. 292-294). segundo Marx. na aparência não há contradição de classes (mesmo porque elas não existem) mas. consequentemente. p. estas partes estão ligadas entre si por uma relação de contradição a qual deve ser o ponto de partida do Estado capitalista. permitindo. Esta relação – entre capitalista e trabalhador – mostra-se. bem como a igualdade dos contratantes e a apropriação pelo trabalho. considerado a partir das formas. Neste sentido e a partir da idéia da equivalência entre indivíduos iguais. através de seu trabalho – as trocam observando-se o princípio da equivalência e que. então. há uma juridicização do econômico através (meio) do contrato estabelecido entre os indivíduos livres. ou seja. a ocultação da essência. ou seja. 291-292) no nível da circulação simples. a da existência ou da presença do capitalista e do trabalhador”. na aparência do sistema (no momento da circulação simples). portanto. O segundo momento. há algo mais que uma relação econômica.80 “aparência” do sistema e. ao contrário. que ele chama de “primeira negação”. no contexto da circulação simples. o “capital é posto mas com uma pressuposição externa. que a sociedade civil é formada pelo relacionamento entre as estruturas de produção (econômica) e sua expressão jurídica (garantida pelo Estado). isto porque. direta ou indiretamente. p. FAUSTO. estas relações jurídicas se realizam por meio das relações econômicas. uma relação não equivalente entre desiguais e uma “apropriação da riqueza não pelo trabalho próprio mas pelo trabalho alheio”. o princípio da apropriação no nível da circulação simples. Como visto. o desenvolvimento do Estado ocorre na contradição entre aparência e essência do modo de produção capitalista. os indivíduos proprietários das mercadorias – que a obtiveram. chegando nesse ponto é preciso . há identidade entre indivíduos (igualdade). Assim. as relações econômicas tornam-se relações legalizadas pelo Estado através do Direito. Veja-se. ou seja. um relacionamento muito estreito entre esta e a superestrutura jurídica.

a função da ideologia é. pp. p. ela não precisaria ser posta enquanto lei pois “a sua transgressão poderia ocorrer ou não.81 responder dois questionamentos: qual a necessidade da relação jurídica ser posta como lei e o segundo é porque há esta posição (no sentido de direito posto pelo Estado). 300) responde que a posição da lei se impõe em função do seu próprio conteúdo. ou seja. e portanto toda garantia contra a transgressão. a da ideologia como a do Estado. a igualdade dos contratantes seja negada e a desigualdade das classes seja posta” (1987. 301) uma lei que se realiza pelo seu contrário contém a transgressão no seu interior. num primeiro momento. se ela fosse (somente) idêntica a si mesma. a qual visa garantir sua identidade. Para Ruy Fausto (1987. o contrário do contrato livre e da relação entre iguais (Cf. p. está contido no interior (como forma de realização) da própria lei a transgressão. FAUSTO. . negativo. 301). se quer alterar o contrato “livre”. o contrato livre. Se a transgride – isto é. em favor de uma das partes – para que ela não seja transgredida. se questiona o primeiro momento. esta torna positivo aquilo que é. Desta forma é necessário perceber que a lei somente é transgredida quando se lhe obedece plenamente. p. A segunda pergunta (por que é preciso que haja posição) – que é decorrência da primeira – Ruy Fausto (1987. p. 299). ou seja. não teria a mesma necessidade”. Partindo da idéia de que ideologia é o “boqueio das significações”. ela não precisaria ser posta enquanto lei”. em si mesmo. à primeira pergunta se obtém a resposta comparando a relação jurídica enquanto lei com a ideologia. para que. porque a lei (o primeiro momento) contém em si o princípio do seu contrário” isto porque “se a relação jurídica obedecesse a lógica da identidade. para que o contrato não se torne o que ele se torna por si mesmo. ou seja. ela se impõe porque a “identidade dos contratantes se interverte no seu contrário. restando claro que não obedecer significa não transgredir. a lei dos equivalentes enquanto lei dos equivalentes. operar a própria contradição. ou seja. Assim. Para Fausto (1987. ocultar a contradição para. 299/300). Assim é que “o Estado guarda apenas o momento da igualdade dos contratantes negando a desigualdade das classes. 1987. num segundo momento. contraditoriamente.

não deve circunscrever-se. o que resultou em diferentes formas de relacionamento entre o modo de produção capitalista e o Estado. utilizando-se da força e da violência (como detentor do monopólio do uso da força coercitiva). ou seja. para tanto. na função de guardião da identidade. “em suas relações de constituição. como isso acontece e qual o motivo que leva o Estado intervir nas relações sociais. incapaz de dar conta de outros fenômenos do capitalismo contemporâneo. Entretanto. Esta função é realizada pelo Estado (no processo de expropriação). se preferir. o poder. deixando claro. especialmente econômica? Sobre isso trataremos no ponto seguinte. a necessidade de estabelecer uma discussão teórica suficiente a fim de estabelecer o papel do Estado no contexto contemporâneo. o socialismo”18 – é bastante interessante pois o momento histórico era muito rico em função de que. em parte. pois. Entretanto a discussão apresentada por Poulantzas coloca no centro da análise o debate da democracia e do socialismo. o Estado – como guardião da identidade – garante o funcionamento das relações de produção capitalista – cristalizando a aparência do sistema – utilizando-se da violência portanto. . a economia entra num momento de transição: falência do modelo keynesiano e retomada dos pressupostos liberais (o que se convencionou chamar de ‘neoliberalismo’).2. 3. a partir do final dos anos 1970. sem o qual não poderemos entender os motivos que hoje é vivenciado. é a violência do capital que reside no interior da sociedade capitalista.1. pode-se dizer que ainda dentro do contexto do Estado de bem-estar e. 165). para Poulantzas (2000. o Estado deveria se colocar como uma força de equilíbrio ou. Em síntese. à economia.82 É preciso. assumindo um papel de intervenção regulando as relações no interior do sistema. ou seja. especialmente em função da internacionalização das relações sociais capitalistas. A análise do Estado capitalista. para salvar a aparência do sistema. Assim é que. Desta forma é possível enxergar que a violência está na essência do Estado (não na aparência). ao seu 18 A análise foi desenvolvida por Nicos Poulantzas em 1978. a ideologia (como “bloqueio das significações”) e o Estado funcionando como guardiães da identidade dos contratantes (do sistema). Por esta razão. capital e Estado passam por um processo de reestruturação em que a acumulação do capital tenta encontrar novas formas de reprodução. em parte como a ideologia o faz e. As formas de intervenção do Estado O estudo desenvolvido por Nicos Poulantzas sobre a intervenção do Estado na economia – em “O Estado. p. fundamentalmente.

regulamentada pelo direito posto. b) nas relações entre capitalistas e trabalhadores assalariados. os contratos . na divisão do trabalho. Nesta situação. o Estado ultrapassa essa lógica e reconhece a natureza particular dessas relações intervindo. Tentando entender esta função do Estado. posição central. à medida em que modificações nas relações de produção. portanto. exatamente. conforme as fases e estágios do capitalismo. a intervenção do Estado ser preventiva.83 relacionamento com as relações de produção e com a divisão social capitalista do trabalho no sentido geral. 315-316). através disso. 1987. reconhecendo. ou seja. Elas se traduzem. Ruy Fausto utiliza-se da idéia de Engels do Estado como uma máquina essencialmente capitalista (Cf. dando vida ao chamado direito social. da normalização disciplinar. devendo. é possível distinguir três formas de intervenção do Estado: a) regulamentando a concorrência. as quais são corrigidas por mecanismos internos do próprio sistema que se manifestam por ele próprio. é que nesses domínios o papel do Estado ganha novos contornos. ou seja. p. na extração de mais-valia. entre igualdade das partes no contrato e a troca de equivalentes se intervertendo em desigualdades e extração de uma classe sobre outra. Para ele. por exemplo. como funções econômicas desse Estado”. a articulação entre o espaço político (do Estado) e da reprodução do capital (da economia). as funções econômicas. pois. tratem elas da “violência repressiva. reconhecendo que uma das partes é mais fraca do que a outra. Diante da relação existente entre forma-aparência e conteúdo-essência. etc. passam a integrar diretamente o espaço-processo de reprodução e valorização do capital (econômico). ocupando. da organização dos espaços e do tempo ou da criação do consentimento”. através do aumento da produtividade – ao mesmo tempo em que se irrompem as contradições do modo de produção.. a tendência no sentido de extrair mais-valia relativa se efetiva pelo esforço de cada capitalista individual. modificando os pontos de impacto no Estado. o Estado assume a regulação das relações econômicas intervindo nos contratos e. Recorrendo à análise de Ruy Fausto. na reprodução da força de trabalho. o Estado tende a substituir a concorrência na realização das leis do sistema e na correção dos desequilíbrios “anormais”. no jogo da concorrência. Assim. da inculcação ideológica. FAUSTO. na qual se efetivam as leis do sistema – por exemplo. é preciso entender. com vistas a obter um lucro excedente.

não mais na contradição do sistema mas por sua incompletude. por estar inserido em um específico modo de produção – no caso o modo capitalista de produção – e representar os interesses coletivos na consecução e realização de certas tarefas. Muda. que ela passa a ter agora uma essência comunitária. na essência. a propriedade dos elementos do capital sobre 19 Para Ruy Fausto (1987. mas que ele as realiza no interior das exigências formais do sistema. portanto. 1987. por si. p. FAUSTO. ou seja. diretamente. 321-322) “dizer que o Estado pressupõe uma comunidade significa que o Estado assume a realização de certas tarefas coletivas. O que se passa é algo assim como se o Estado ao assumir essas funções instituísse novas pressuposições (se se quiser. a presença do Estado enquanto agente econômico. se pode dizer que ele põe no interior do sistema certas possibilidades inscritas na comunidade que ele pressupõe. uma pequena ponderação. dadas as das pressuposições comunitárias do Estado). c) e a terceira. p. como possibilidades pelo menos. novamente. É possível fazer uma pequena – mas importante – distinção: nos dois primeiros casos o Estado intervém. sobretudo enquanto proprietário de empresas. fora ou ‘no fundo’ dele. mas também a garantia para cada membro da satisfação de certas necessidades. na relação entre as partes. serve à dominação e exploração das classes (Cf. Neste sentido o Estado aparece não mais como um árbitro a intervir entre iguais – comunidade política – mas a corrigir as diferenças comunitárias. Cabe aqui. Quando o Estado corrige diferenças. isto porque a economia. que entretanto se deve distinguir do que é efetivamente posto e que representa só um mínimo de garantias a todos os membros da ‘comunidade’. a forma de aparência do sistema. ou seja. 317-321). também as tarefas de proteção e de correção das diferenças são a posição no interior do sistema do que elas são. Isto não significa que essas medidas já estivessem inscritas numa essência qualquer do Estado (embora elas existissem como possibilidades. Neste contexto (e aqui merece. Mas assim como as tarefas de interesse geral são postas no interior do sistema (o que significa que há uma ruptura entre elas mesmas fora e dentro do sistema). em sentido genérico e abstrato) mas agora pela garantia do bem estar de cada um. zelando não só pelas garantias individuais (provocadas pelo contrato entre iguais. pusesse novas pressuposições enquanto pressuposições). ao mesmo tempo que representa o interesse coletivo. comunidade que não significa mais aqui somente a exigência da realização de tarefas de interesse coletivo. isto não significa também que o Estado se alterou essencialmente. pois o Estado. não é capaz de realizar o conjunto das necessidades do sistema. enquanto no capitalismo clássico a identidade das partes ocultava a desigualdade das classes. não mais políticas mas econômicas19. precisamente a pressuposição de uma espécie de comunidade econômica.84 coletivos de trabalho. a intervenção do Estado surge de outras formas e por outras razões. de certa forma entra numa contradição interna do próprio sistema. uma nova ponderação). o faz no interior do modo de produção que. no capitalismo contemporâneo a diferença oculta a contradição. entretanto.” . enquanto que no último caso ele é parte. razão pela qual o próprio Estado se torna o próprio capitalista. sistema que se baseia na exploração e na dominação de classe. em função de que.

Como dito. De certo modo. engenheiros.85 uma sensível mutação. 314). para o benefício de uma determinada fração do capital. diminuindo consideravelmente na primeira metade do século XIX. é considerado um período de grandes intervenções estatais.)20. da pesquisa. 324-327). entretanto. é o capital de apoio que vai financiar o desenvolvimento através. o Estado viu-se “obrigado” a fazer investimentos. em situação muito semelhante (senão análoga). mais do que nunca. para reaparecer no final do século” (Cf. considerado historicamente. é possível observar uma grande intervenção do Estado “na préhistória imediata do capitalismo e nos seus começos. o mais importante. até então. investimentos diretos. etc. Não significa. funcionalismo público em geral. 1987. por exemplo. isto tudo realizado no interior do sistema (efetivado pelo próprio Estado) (Cf. Este plano previa o desenvolvimento econômico e social e foi adotado durante o governo de Jucelino Kubitschek (1956-1960). especialmente na extração da mais-valia) a expropriação antes executada pelos capitalistas privados (individuais) e. pois além de ser o proprietário dos meios de produção. de maneira selvagem. da educação e na formação de uma burocracia estatal (planejamento econômico. principalmente) e na produção e distribuição de energia elétrica. uma vez que é o próprio Estado que detém. organizará (nos termos da acumulação e reprodução capitalista. trabalhadores diretos incorporados à estatais. havia ainda um grande espaço à expansão do capital (ante a destruição da Europa e a necessidade de sua reconstrução). os encargos dessas funções ao capital individual comportam grandes riscos e uma magnitude de capital muito grande. etc. p. aumentando as contradições internas 20 No Brasil. caracterizado por investimentos estatais em infra-estrutura (transportes. advogados. FAUSTO. em detrimento de outras frações do capital ou capitalistas individuais. a oportunidade de realizar os pressupostos da produção social. foi feito o chamado Plano de Metas. o único momento.) e. p. 1987. FAUSTO. razão pela qual essas funções podem ser deslocadas para o Estado. professores universitários. agora. Estado capitalista – criando empresas. cargos técnicos. inéditos pois ele vai ser o interventor direto (Estado empreendedor. pois no desenvolvimento capitalista. Para efeito da presente pesquisa. Durante esse período . no período compreendido entre 1945 e 1970. importante compreender que no período que medeia o final da segunda Guerra Mundial e início dos anos 1970. ao mesmo tempo.

o conjunto dessas funções. 653). p. em benefício da fração hegemônica do capital. Para Poulantzas (2000. que o cumprimento dessas funções está diretamente relacionado a uma necessidade política (Cf. por vezes. edifícios. ora pela ação direta de certos capitais – normalmente decorrente da ação do capital monopolista – contra outros capitais – tanto em decorrência do capital não-monopolista como também do capital monopolista – através. tanto para Poulantzas como. As formas selvagens de apropriação dos meios de produção – narrados com detalhes por Marx (especialmente a expropriação de terras pela força física o PIB brasileiro cresceu 7% ao ano e a indústria se expandiu num ritmo de cerca de 13% ao ano (Cf. é possível dizer que esta desvalorização de frações do capital constante ocorre justamente em razão desta . é determinada pela proporção em que o capital se divide em constante (o valor dos meios de produção que apenas transfere às mercadorias produzidas sem criar mais-valia) e variável (o valor da força de trabalho que sai valorizada do processo de produção. p. tais como máquinas.184-185). por exemplo. do ponto de vista do valor. É a essência do capital. em atendimento ao bloco de poder constituído pelas classes dominantes. empiricamente. a adotar medidas políticas com proveito predominante do capital monopolista. p. POULANTZAS. em cumprimento a determinadas funções. 2005. 186) “esse caráter político diante das classes e frações dominantes atinge. sem dúvida. O capital: crítica da economia política.86 no bloco do poder. de falências. matéria-prima. Esta desvalorização ocorre. Ver MARX. de forma muito semelhante. Muito embora não exista. portanto. o que demonstra a importante manifestação política do Estado na economia. Karl. volume 2. 186). coordenada geral da reprodução coletiva do capital. p. 715 e segs. Assim. demonstrando. Livro 1. em diversos graus. as intervenções do Estado. constantemente no processo econômico. no interior mesmo do sistema. A intervenção do Estado na economia possibilita. O processo de produção do capital. o Estado se obriga. SANDRONI. resultados que comprovem a concepção marxista segundo a qual haveria uma tendência decrescente da taxa de lucro com o desenvolvimento do capitalismo. segundo Poulantzas (2000. Assim. 2000. absorções e concentrações. justamente em função das diversas contradições que são criadas. etc. para o pagamento de salário. para Ruy Fausto. 21 A composição do capital. mas também nas disposições do Estado que visam à desvalorização de determinadas frações do capital constante21”. o capital constante é composto pelos meios de produção. e o capital variável é a parcela do capital destinada à compra da força de trabalho. criando mais-valia). capítulo XXIII (A lei geral da acumulação capitalista). ainda que sob a lógica do interesse geral. que parcelas inteiras do capital devam morrer a fim de que outras possam sobreviver. são realizadas. Em termos materiais.. Isso está muito claro na reprodução e gestão ampliada da força de trabalho. p.

O uso dos instrumentos ideológicos e repressivos: o conteúdo político das funções econômicas do Estado Diante desta caracterização política da intervenção estatal. a longo prazo a concessão de determinados benefícios tendência. de ‘necessidades’ populares”. 2. ainda. ou seja. . p. especialmente o Estado-Providência. isto porque a composição orgânica do capital tenderia a aumentar com o desenvolvimento do capitalismo e do avanço tecnológico. POULANTZAS. sua reprodução. ainda mais que as intervenções estão diretamente relacionadas com as massas populares.2.87 ou pela força das leis) – típicas da acumulação primitiva. p. isto porque. social e historicamente determinada. por exemplo. demonstrando a abrangência da atuação do Estado e sua vinculação com as frações dominantes do capital à hegemonia política. uma vez que “é ao materializar a ideologia que o apresenta como representante do interesse geral e do bem-estar comum acima das classes. Para Poulantzas (2000. lhe foram impostas pela luta de classes dominadas (grifo no original) em torno do que se pode designar sob a noção. o movimento de lutas populares (de classes). o Estado utiliza-se de mecanismos ideológicos e repressivos. tomando posturas de caráter meramente social. que o Estado se incumbe diretamente das funções econômicas ocultando das classes populares seu real conteúdo de classe” (CF. Poulantzas afirma que. cabe. por vezes. da tentativa do Estado em dissuadir. são encobertas pelas ações do Estado na contemporaneidade. levando a uma queda na taxa de lucro. antecipadamente. essas funções sociais do Estado dependem. 187). entender o conteúdo político dessas funções econômicas do Estado. 188) não se pode entender o Estado. sobretudo. Diante disso. favorecendo determinada classe social) e. diante da sua atuação com medidas protetivas do capital que visam. 2000. ajudando o capital monopolista de forma direta através de incentivos fiscais. essencialmente. efetivamente. isto porque “toda uma série de medidas econômicas do Estado. independente de como foram conseguidas as reivindicações sociais. muito particularmente as que se referem à reprodução ampliada da força de trabalho. diante dessas funções (a intervenção direta do Estado na economia.2. do grau de mobilização popular e.

o qual necessitava encontrar novas formas de garantir sua reprodução. De fato. ou seja. em função do Estado de 22 Neste momento não será realizado um estudo mais denso sobre os diversos processos característicos da modernidade de disciplina e controle das massas. elaborando políticas sociais o Estado garante a acumulação do capital e perpetua a hegemonia de classe sobre as massas populares. pp. principalmente. pois. é possível afirmar que no período situado entre a metade dos anos 1970 e início da década de 1980. quando a discussão estará ultrapassando a lógica da disciplina e do controle. ao intervir diretamente na economia. dentre outros. 23-24) “desde meados dos anos 1980. resultando na possibilidade em afirmar que não existem funções puramente sociais do Estado às populações mais necessitadas. Os reflexos dessa crise foram. após décadas de “sucesso” de implantação das políticas keynesianas. projetando novas técnicas e redução de preços) que tomou conta do cenário mundial. os processos de subjetivação que marcam a contemporaneidade. o faz de forma a cumprir sua agenda política. Assim é que o Estado. preponderando. caracterizou-se por um novo período de crise estrutural no capitalismo e. a rentabilidade do capital aumentou e o controle sempre estrito dos salários e do custo do trabalho em geral fez com que esta drenagem de renda para as camadas mais favorecidas assumisse proporções consideráveis. criando-se. juntamente com a revolução tecnológica (informação e comunicação. em especial o Estado de bem-estar nos países centrais e o Estado desenvolvimentista nos países periféricos. conforme acentua Lévy e Duménil (2003. . proporcionaram diversas alterações e redefinições com sérias implicações no processo de acumulação do capital. na verdade. de um lado. novas intervenções de caráter político no controle das populações22. um aumento considerável no desemprego e. As desigualdades patrimoniais foram restabelecidas e mesmo acentuadas.88 estão inseridas em mecanismos que favorecem o capital e sua reprodução ampliada. de modo que o capitalismo contemporâneo readquiriu algumas de suas características do passado. Este estudo será feito no capítulo seguinte. uma primeira conseqüência observável) que se pode ter desse período é o fato de que.” A conseqüência mais marcante (ou. através da intervenção social – via Estado-Providência – além dos mecanismos aptos à reprodução da força de trabalho (e produção de mais-valia e sua apropriação por determinada classes social) e facilitação e desenvolvimento do consumo de massa. de outro.

sem dúvida. de certa forma. principalmente pelos referenciais legais de equivalência. pelos primeiros traços da nova seletividade punitiva. tornando-as. É preciso. na década de 1980. a criminalização de uma enorme massa popular de excluídos do mercado de trabalho (estratos sociais determinados e pessoas determinadas: pobres. é dizer. ao revés. Este período. 3. De certa forma começa a segmentar (fragmentar) este novo grupo de pessoas: aqueles que estão. trazendo o colapso e esgotamento dos modelos industriais taylorista e fordista de produção e a necessidade da criação de novos espaços à reprodução do capital. através do Estado-Providência ou ao Estado-Penitência (necessidade política do Estado na intervenção econômica). A criação de novos espaços à reprodução do capital É possível caracterizar os vinte anos que se seguiram a década de 1970 como um período de profundas mudanças e crises.3. bem como. ao lado das medidas caritativas do Estado de bem-estar. Lembrando Ruy Fausto. uma grande recessão. comparável (e até mesmo pior) à crise de 1930. uma vez que foram beneficiadas pelos programas estatais. entender o comportamento da economia e sua transformação global na década de 1990. condicionam uma grande massa de desempregados a estarem plenamente vinculados ao Estado. àqueles que se comportam como o sistema pretende lhe é concedido o Estado social e. O . principalmente pelo Direito do Trabalho que. foi a necessidade de cada vez mais pessoas estarem sujeitas e reféns desse modo de produção social. é criado um processo de regulamentação entre as classes sociais. qual seja. sujeitas às conotações do processo punitivo da estigmatização. é marcado pelo enorme contingente de mão-de-obra desempregada. ao menos temporariamente. caracterizando. imigrantes e jovens) que passam a ser considerados pessoas perigosas ao sistema. incluídos no sistema e vinculados politicamente ao Estado. agora. àqueles que representam um contingente perigoso às relações sociais e aos aparelhos de poder lhe é concedido o Estado policial-penal.89 bem-estar não ter ainda entrado num processo de implosão (que ocorre mais tarde a partir da queda dos regimes socialistas na Europa nos anos 1990).

pioneiros da tese da “especialização flexível”. na verdade. Independente das divergências teóricas em relação a esta nova fase do capitalismo23. característica da produção em massa (fordista) da década de 1970. 23 Sobre esses novos processos produtivos. cujas conseqüências foram sentidas nas relações de trabalho e produção. Assim. é importante compreender que não há unanimidade. entre os autores. foram os modelos de processo de trabalho que predominou durante o século XX – basicamente os modelos taylorista e fordista de produção – sendo substituídos por modelos de produção flexíveis e desregulamentados. em razão do grande avanço tecnológico. As transformações no mundo do trabalho Após o término da chamada “Era do Ouro” em 1973-1975. como Sabel e Piore. Por oportuno. especialmente pelo avanço tecnológico e melhoria nas comunicações e meios de transporte que solucionou o inconveniente da necessidade de estoques. alguns autores. pp.3. Na verdade houve uma mescla de procedimentos. de fato. utilizando-se. p. resultado do controle do tempo e dos movimentos pelo cronômetro taylorista e da produção em série fordista vai resultar na flexibilização da produção através da baixa quantidade de estoques e pela produção do necessário e suficiente para abastecer os vendedores. em relação às suas características.1. uma grande transformação no modo de produção. fazendo referências teóricas sobre diversos autores que divergem em relação aos novos padrões de busca de produtividade. para tanto e principalmente. o que se vê é. da automação e dos grandes investimentos na robotização das indústrias.) explica que os novos processos do trabalho emergem quando os modelos tradicionais – especialmente o taylorista e fordista – são “substituídos” pela flexibilização da produção. pois a produção em massa alcançada através da linha de montagem e de produtos mais homogêneos. segundo Hobsbawn (2003. Ricardo Antunes (2005. entendem que estes novos processos . obtendo-se uma grande capacidade de variação na produção a fim de enfrentar as exigências de mudanças. Segundo ele. de que forma o Estado pôde intervir – direta ou indiretamente – para manter o modo de produção social do capital e quais suas conseqüências no mundo contemporâneo? 3. especialmente no sentido da substituição e (ou) eliminação da produção de direitos e conquistas trabalhistas. Ricardo Antunes traz algumas considerações sobre o assunto. da tese de David Harvey. quando as ‘novas’ indústrias podiam produzir em grande quantidade. 394). ocorreram diversas alterações nos anos 1980. 24 e segs.90 que se viu.

resultando num sensível empobrecimento dessa população na década de 1980. os mecanismos de estabilidade política e financeira da população trabalhadora. os vários vales e gargantas do silício. enquanto que. A partir de então. desabaram completamente após 1989. novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros. Para ele.. Flandres. teve início uma série de modificações no interior do processo de acumulação que caracterizou a década seguinte (1980) como um período de incertezas. oscilações e de reestruturação econômica e reajustamento político e social: o regime de acumulação flexível..) “O mesmo não se dava no oriente. Nada era mais impressionante do que o contraste entre a desintegração das economias na região soviética e o espetacular crescimento da economia chinesa no mesmo período. este novo regime de acumulação é marcado pela ausência de rigidez do “fordismo” e se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho. criando. a situação de regiões como a África. não há significativa transformação no interior do processo de produção de capital. e de outro. e na verdade na maioria do sul e sudeste da Ásia. Harvey. que haviam continuado um modesto crescimento na década de 1980. os países capitalistas desenvolvidos estavam mais ricos e com uma enorme capacidade de produção.. novos mercados e. Este regime caracteriza-se: (.91 O resultado disso.) pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos. Hobsbawn (2003. p. como Anna Pollert. bem como conjuntos industriais completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas (tais como a “Terceira Itália”. 395) é que no final do século XX. embora subestimasse a devastação do início da década de 1990”. produtivos são inteiramente distintos das bases fordistas. a Ásia ocidental e a América Latina. Para David Harvey (2004. como observa Hobsbawn (2003. A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos padrões do desenvolvimento desigual. p. a comparação das crises após 1989 com a Grande Depressão era perfeitamente adequada. p. 140) até 1973 – quando iniciou uma profunda recessão nos países capitalistas – tinha-se no modelo fordista de produção (em massa) e na aplicação das medidas keynesianas. dos mercados de trabalho. dos produtos e padrões de consumo. taxas altamente intensificadas de inovação comercial. por um lado. por exemplo. tanto entre setores como entre regiões geográficas. Naquele país. que saíram da década de . um vasto movimento no emprego no chamado “setor de serviços”. 2004. para outros. tecnológica e organizacional.. 140). 24 Para entender o cenário internacional diante desse fatos. 295) afirma que: “Quanto às economias da área antes entendida como de ‘socialismo real’ acidental. (. para não falar da vasta profusão de atividades dos países recém-industrializados) (Cf. tinha estagnado pela paralisação do crescimento do PIB per capita24. sobretudo. p. Nessa região. maior que no início do anos 1970 e a economia global estava imensamente mais dinâmica.

mostra que o desenvolvimento das novas tecnologias de acumulação flexível garantem a geração de excedentes de força de trabalho. na diferença entre o que o trabalho obtém e aquilo que cria. p. dentre outras: o trabalho organizado foi solapado. o termo ‘Depressão’ não tinha sentido – exceto. o desenvolvimento de práticas de trabalho informal. Ricardo Antunes (2005. em suma. isto porque. na produção e no mercado. 3. o que possibilitou a extração da mais-valia. 166) “o controle do trabalho. . segundo Harvey (2004. O capitalismo está fundado. enquanto trabalhadores desempregados desconhecem as ofertas reais de trabalho”. Como o controle do trabalho é essencial para o lucro capitalista. ou seja. 25 Conforme Sandroni (2005. enquanto uma minoria especializada é beneficiada pela valorização de sua mão-de-obra”.92 O novo regime de acumulação flexível. “O desemprego tecnológico ou estrutural origina-se em mudanças na tecnologia de produção (aumento da mecanização e automação) ou nos padrões de demanda dos consumidores (tornando-se obsoletas certas indústrias e profissões e fazendo surgir outras novas) em ambos os casos. tendo como conseqüências negativas. quando empregadores com vagas desconhecem a existência de mão-de-obra disponível. no Japão do início da década de 1990”.3. O cenário mundial do capital e os ciclos econômicos no último quarto do século XX 1970 como a região econômica mais dinâmica da economia mundial.2. ao analisar as propostas de David Harvey. p. impõe o aumento dos níveis de desemprego ‘estrutural’ (em oposição a ‘friccional25’). Para Harvey (2004. muito curiosamente. na verdade como a acumulação flexível é uma forma de capitalismo. p. pequenos ganhos reais (salários) e o retrocesso do poder sindical. citando-o. mesmo nos países de capitalismo avançado. a dinâmica da luta de classe pelo controle do trabalho e pelo salário de mercado é fundamental para a trajetória do desenvolvimento capitalista”. retrocesso da ação sindical e o individualismo exacerbado encontrou condições sociais favoráveis. altos níveis de desemprego estrutural. 30-31). 241) “O desemprego friccional ou normal ocorre por desajuste ou falta de mobilidade entre a oferta e a procura. p. é vital para a perpetuação do capitalismo. algumas proposições desse modo de produção se mantêm. numa relação de classe entre capital e trabalho. especialmente a exploração do trabalho vivo na produção como mecanismo hábil de crescimento de valores reais. 141). grande número de trabalhadores fica desempregado a curto prazo. uma rápida destruição e reconstrução de habilidades.

os custos da recuperação da taxa média de lucro sobre outras classes”. especialmente com a implementação das políticas keynesianas.4. a herança marxista histórico-política construída em relação à natureza destrutiva do capitalismo não se confirmou. O que se viu. se a sua dominação não estiver politicamente ameaçada. não seria possível pensar em estratégias de lutas com o intuito político de conquista revolucionária do poder. a revolução cubana e o processo latino-americano ocorrido entre o final dos anos 1950 e início de 1960. de certo modo.).93 Antes mesmo de entrar na tese central de David Harvey sobre os ‘rearranjos espaciotemporais’ e ‘acumulação mediante despossessão’ (que será objeto de estudo no item 2. Como se viu. ao contrário das previsões ‘otimistas’ (ou pessimistas) da ‘crise final’ do capitalismo. Para tanto é preciso fazer uma pequena descrição analítica do cenário da produção capitalista. p. Conforme Valério Arcary (2004. muito embora as enormes turbulências causadas pelas crises econômicas nestas localidades e por grandes períodos (temporais – anos e até décadas de crises). revitalizou-o na chamada década de ouro do capitalismo. é preciso trazer alguns elementos teóricos que esclareçam a necessidade e a importância do estudo do tema. . o capitalismo nos países centrais experimentou um novo e vigoroso ciclo de expansão. ou mesmo depressão. o que demonstrou que as crises recorrentes do capital – alternando períodos de expansão e contração – são características sistêmicas no desenvolvimento histórico do 26 Arcary cita as lutas de Petrogrado em 1917. pois para o capital “não há recessão. as lutas pelas independência na Índia e na China. especialmente entre excedente de trabalho e excedente de capital.4. as quais resultassem em crises sociais. não sendo suficientes as crises e as guerras para destruí-lo mas. Sempre há um saída econômica para o capital. 148-150). o capitalismo não desapareceu como modo de produção. de uma ou outra forma. é que. sem saída. O próprio autor admite (mais adiante) que. a França e a Itália entre 1945 e 1948. entender as características dos ciclos econômicos e perceber as contradições endêmicas do capital. Madri e Barcelona entre 1930 e 1937. entretanto. descarregará. é pertinente entender a importância da construção destes cenários em função das tendências e dos movimentos das forças existentes. depois da Segunda Guerra Mundial (pelo menos até meados dos anos 1970). entretanto. sem o fomento de crises econômicas. Berlim em 1921 e 1923. especialmente aquelas revoluções mais importantes ocorridas no século XX26. ao contrário.

ou seja. 2000. (2005. para Giovanni Arrighi (1996. portanto. isto porque ele está associado à dominação. o conceito de hegemonia “refere-se especificamente à capacidade de um Estado exercer funções de liderança e governo sobre um sistema de nações soberanas”.94 capitalismo. TEIXEIRA. Conforme lembra Carlos Eduardo Martins (2005. e no plano superestrutural. p. principalmente com autores marxistas (especialmente Ernest Mandel). Como lembra Carlos Eduardo Martins. 207). 70). territoriais e de legitimidade para o exercício do poder hegemônico”. o descenso da taxa de lucro. Por fim. limita este desenvolvimento à necessidade de valorização do valor. Wallerstein impõe limites à definição de hegemonia. o aumento das bases demográficas. se. econômicas e ideológicas. p. p. No entanto. dentre elas. 89) Mandel traz para a discussão dos ciclos – como elemento central – a taxa de lucro como indicador. ampliada pelo exercício da liderança intelectual e moral. aduzindo. políticas. Entre estes autores há algumas divergências e. com vistas à produção de uma massa crescente de valores de uso. o elemento central na geração dos ciclos longos era a apropriação 27 Os ciclos sistêmicos foram teorizados a partir de estudos de alguns autores. resultado da relação deste com as conjunturas sociais. como isso. Arrighi afirma ainda que “um Estado dominante exerce uma função hegemônica quando lidera o sistema de Estados numa direção desejada e. Esta contradição não pode ser abolida no interior da produção capitalista. Os ciclos sistêmicos estão ligados à ascensão e crise de um Estado hegemônico27 no sistema mundial. Essas tendências são: no plano material. por outro. como nunca antes ocorrido na história da humanidade. especialmente Giovanni Arrighi. 27-29). sua resultante contraditória. É esse tipo de liderança que torna hegemônico o Estado dominante”. ao estudar os ciclos econômicos ter como pano de fundo o desenvolvimento e as contradições do capital. o que exigirá uma revisão metodológica de suas causas e dinâmicas. isto porque “tanto em Kondratieff como em Schumpeter. a menos que seja exigida a criação de formas sociais dentro das quais essa contradição se mova e se realize” (Cf. a acumulação ilimitada e. Beverly Silver e Immanuel Wallerstein. “os ciclos representam padrões de repetição em torno de tendências seculares e evolutivas que são irreversíveis no desenvolvimento do moderno sistema mundial. o qual será utilizado nas considerações seguintes. não ultrapassando sua dimensão econômica. é percebido como buscando um interesse geral. especialmente no domínio do capitalismo. Este é um conceito mais amplo. por um lado o “capital impulsiona o desenvolvimento das forças produtivas. ainda. . que esse tipo de poder sempre implicou em algum tipo de ação transformadora que alterou o modo de funcionamento do sistema. É preciso. cabe aqui mencionar uma: a definição de hegemonia. p. A literatura sobre os ciclos volta a se desenvolver a partir do esgotamento da fase de ouro (até início dos anos 1970).

) O lucro extraordinário não dará lugar a uma onda longa expansiva se não estiver associado à elevação da taxa média de lucro”. A pressão sobre os custos aumenta a demanda por créditos e impulsiona taxas de juros e inflação. derruba as taxas de juros e vence as resistências dos trabalhadores para introduzir inovações tecnológicas e racionalizar o processo de trabalho com inovações organizacionais. ao reorganizar o processo do trabalho. 89-90). Carlos Eduardo Martins (2005. 90-92) desenvolve também uma importante consideração sobre a relação entre os aspectos tecnológicos e organizacionais. p. Carlos Eduardo Martins (2005.. para tanto. intensificar a rotação do capital. da linha de montagem e do chip microeletrônico. conseqüentemente. “a fase de ascensão da onda longa é determinada por inovações radicais que: desvalorizam substancialmente o capital fixo e o capital circulante (matérias-primas e insumos produtivos de baixo valor agregado). A fase recessiva da onda longa se caracteriza por uma primeira parte. ocorram no final da onda longa expansiva ou. Utilizase. em que as taxas de juros permanecem elevadas e as lutas de classes intensificadas. o suporte teórico dos neo-schumpeterianos.95 de riquezas por meio da competição intercapitalista. Isso se deve à demanda de crédito para pagamento de dívidas e às resistências dos trabalhadores à racionalização e reorganização do processo do trabalho sob o comando do capital. aponta que Mandel situou a taxa de lucro como elemento central da análise das ondas longas e com isso. em aproximadamente dez anos. o capital centraliza as finanças. no mais . do aço barato. afirma ele. a massa de mais-valia. 90). a taxa de lucro entra em declínio. derruba a taxa de lucro para níveis de recessão.. Isso ocorre em razão da elevação da composição orgânica do capital. Na segunda fase da recessão. Entretanto. (. do emprego e da demanda por matériasprimas. e derrubam as taxas de juros ao centralizar o capital e disponibilizar o crédito abundante”. A fase recessiva geraria um subinvestimento crônico que permite disponibilizar os recursos necessários para desenvolver outra onda longa expansiva. p. a partir de meados do desenvolvimento da fase expansiva da onda longa. O resultado é uma intensificação das lutas de classes e da competição intercapitalista que. os quais afirmam que o paradigma tecnológico que entrelaça e impulsiona as inovações de uma onda expansiva será estabelecido na fase final da onda expansiva anterior. p. dentro da análise do desenvolvimento das ondas longas. A inovação dava ao lucro extraordinário ou a uma renda diferencial que eram ameaçados pela difusão das inovações. citando como exemplos que a introdução da ferrovia. afirma ele (2005. aumentam a taxa de mais-valia e.

bem como pode ser associada à concepção marxista da inclusão da taxa de lucro na análise das ondas longas. novamente referido por Carlos Eduardo Martins (2005. em conseqüência disso. Theotônio dos Santos em “Os elos perdidos de uma teoria elegante”. então. matériasprimas. a convergência das diversas crises e sua superação exige uma nova interpretação institucional e organizacional. internacionalização do capital e intervenção estatal – e. no exército industrial de reserva. centralização financeira. 91) foi realizada por Theotônio dos Santos em “La crisis norte americana y América Latina”. maquinarias e crédito. o que deverá reduzir custos de produção e elevar a produtividade e os lucros. d) a crise de desproporção está ligada aos desequilíbrios entre volume de produção e demanda de insumos dos setores de produção de bens de capital e de produção de bens de consumo. nas formas institucionais – concentração empresarial. políticos. Para este autor (Theotônio dos Santos). na verdade. b) a crise da tendência decrescente da taxa de lucro está ligada ao aumento da composição orgânica do capital para aumentar as inovações. ou fases recessivas dos ciclos. afirma que a crise de longo prazo do ciclo de Kondratieff representa. p. uma conjunção de diversas crises: a) a crise de acumulação. pois. no aumento de preço e taxa de juros e queda do lucro. Este desenho do desenvolvimento é importante pois é a partir de então que se verificará que o atraso das inovações tecnológicas em se transformar em um novo paradigma tecno-econômico ocorrerá em função da falta organizacional e gerencial em níveis empresariais. significam. surgindo a necessidade de se construir novos padrões de gestão empresarial. Outra importante análise dos ciclos de Kondratieff. p. lembrada por Carlos Eduardo Martins (2005. “os ciclos longos são observados a partir de inovações tecnológicas radicais que provoquem mudanças significativas na composição orgânica do capital. resultando numa forte pressão competitiva sobre o consumo da força de trabalho. sociais e ideológicos. . na taxa de lucro”. As crises. nos primeiros anos da recessiva. intervenção estatal e internacionalização do capital. nos níveis salariais. c) a crise de realização está ligada ao fato de que a produção de mercadorias ultrapassa a demanda para consumi-las. acumular e centralizar capitais.96 tardar. 92-93). no qual a difusão de tecnologias atinge seu limite máximo. que está ligada ao auge econômico. necessitando. elevar a produtividade do trabalho.

mesmo diante das recessões provocadas. exigindo do Estado maior intervenção e. diretamente vinculadas à sobrevivência do capitalismo. desproporção. as políticas anticíclicas de teorização keynesiana. da teorização dos ciclos de Kondratieff. marcada pela convergência das crises de acumulação. O que surge. isto porque os ciclos de expansão e contração da atividade econômica parecem seguir. conseqüentemente articula-se um desenvolvimento da dívida pública. realização e da tendência da baixa da taxa de lucro. o capitalismo sempre se comportou conforme seus mecanismos de auto-regulação os quais são inseparáveis de sua formação socioeconômica e “constitui uma de suas características definidoras mais importantes como forma específica de controle social”. aos períodos de intervenção do Estado. coincidentemente. portanto. consequentemente. ideológico e econômico pois.97 É importante. resultando. em uma enorme alteração dos modos de vida institucional. Esta capacidade do capital pode ser sentida na alteração do padrão tradicional de consumo para outro onde predominam os interesses do complexo . na tentativa de evitar a eclosão de crises sistêmicas. consegue reverter a situação. político. “os ciclos de Kondratieff são oscilações em torno das tendências seculares do capitalismo histórico. novamente. Toda esta análise foi possível em função. o enorme poder de recuperação da economia capitalista que. a qual fornece um excelente instrumental analítico às considerações da conjuntura. como se viu. que se desvia do dinamismo dos bens de consumo. p. bastando lembrar as políticas liberais do final do século XIX e início dos século XX. isto porque está ligada a uma mudança de paradigma tecnológico de um determinado modo de produção. a intervenção do Estado. implementadas no período compreendido entre meados dos 1930 e início dos anos 1970 e as políticas neoliberais implementadas a partir dos anos 1980. de forma bastante clara. estes ciclos – marcados. é o debate sobre a intervenção do Estado na economia. 93). estando. perceber que a baixa demanda faz aumentar a cumulação em favor dos segmentos da produção de maquinarias. Cabe verificar contudo. por expansões e recessões e medidos pelas oscilações do PIB per capita e da taxa de lucro – caracterizam-se por uma primeira fase expansiva de inovações tecnológicas e uma fase seguinte recessiva. marcadas pela acumulação ilimitada”. p. pois. preponderantemente. como afirma Carlos Eduardo Martins (2005. ou seja. Como afirma István Mészáros (2002. 696-697).

mais especificamente a partir do início dos anos 1980. sobretudo. isto porque enquanto a relação atual entre os interesses dominantes e o Estado capitalista prevalecer e impuser com sucesso suas demandas à sociedade não haverá grandes tempestades. alternados pela normalidade de pequenos mas lineares movimentos de crises. 153-155) em um subtítulo bastante sugestivo – “O prognóstico da ‘crise final’ não passou na prova da história” – quando aponta que os limites do capital revelaram-se extremamente elásticos. p. de maneira que o processo de acumulação do capital teve que encontrar novos mecanismos à sua reprodução. p. o qual é fundado pela subutilização institucionalizada tanto das forças produtivas como de produtos e também pela crescente e constante dissipação ou destruição dos resultados da superprodução por meio da redefinição prática da relação oferta/demanda no próprio processo produtivo convenientemente reestruturado. possibilitando que os longos períodos de desenvolvimento produtivos fulminados (de forma anormal) por estrondosas crises (a exemplo do que ocorreu em 1929) sejam. Espaço e tempo à reprodução do capital Diante desse cenário ocorrido a partir dos anos 1970.3. que a nova redefinição espaçotemporal proporcionou. a ordem 28 A reprodução expandida ocorre mediante a apropriação de mais-valia e sua valorização na circulação . indicando. Entretanto. 697) é a partir dessa alteração da relação entre produção e consumo que será possível ao capital livrarse dos colapsos do passado. uma pequena retrospectiva. é que é possível fazer uma análise estrutural melhor do capitalismo organizado. ao consumo de massa e garantiram o crescimento econômico com baixas pressões inflacionárias. gradativamente. principalmente pela aplicação das políticas de inspiração keynesiana que alargou o acesso ao crédito e. então. conseqüentemente.98 militar-industrial. 3. mas pequenas e crescentes crises em todos os lugares. Ainda conforme István Mészáros (2002.3. são preciosos os elementos trazidos por Arcary (2004. quando a dinâmica do capital encontrou sérios problemas na continuidade da acumulação por meio da reprodução expandida28. Fazendo-se.

gerada por uma grande quantidade de mercadorias que não são absorvidas pelo mercado. quando há. ou seja. uma longa e quase ininterrupta depressão. Parecia que o capital tinha encontrado um movimento de rotação mais rápido. após Bretton Woods29. como se percebe. e especialmente pelo capital excedente. uma sobreacumulação30 de capitais de tal dimensão que seria inevitável a queda da taxa média de lucro. com representantes de 44 países. o cenário econômico era bastante instável. De certa maneira. E uma introdução mais acelerada de novas tecnologias. novamente. diminuindo o tempo de vida útil das máquinas. Um estágio de crise crônica. mas sim. 156). Uma valorização de capitais sem nenhuma correspondência com a capacidade de realização de lucros no mundo material de venda de bens e serviços. p. recuperações menos vigorosas. em função de uma capacidade produtiva ociosa e a impossibilidade de que os excedentes de capital estejam investidos produtiva e lucrativamente. especialmente em função do endividamento público e privado e a volta das pressões inflacionárias. porque a fase de crescimento tinha se esgotado. 176). num determinado território. com os instrumentos capazes de minimizar os riscos de grandes e explosivas depressões. p. é fundamental ao capital que o Estado esteja preparado. 2005. 30 A sobreacumulação ocorre. mais constantes. Em suma. Para Arcary (2004. estas crises tinham uma nova fisionomia. Portanto o que se verifica. SANDRONI. o problema é gerado não tanto pela força de trabalho excedente (crescente desemprego). Uma especulação febril com expectativa de ampliação dos mercados que não poderá se verificar. principalmente após o início da depressão do final do século XX. mas sem formas catastróficas ou seqüelas explosivas. ou seja. Os acordos assinados em Bretton Woods tiveram validade para o conjunto das nações capitalistas lideradas pelos Estados Unidos. para planejar a estabilização da economia internacional e das moedas nacionais prejudicadas pela Segunda Guerra Mundial. resultando na criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD)” (Cf. Com crises menos graves. Mas o seu sociometabolismo perdia vitalidade e era menos intenso. em Bretton Woods (New Hampshire. todavia. Neste sentido é que David Harvey (2003) aponta que este final do último século pode 29 A Conferência de Bretton Woods é “o nome pelo qual ficou conhecida a Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas. por exemplo. é a grande importância da posição em que se encontra o Estado. reduzindo a média decenal dos ciclos. uma sobreacumulação. pela substituição dos equipamentos obsoletos. realizada em julho de 1944. um crescente desemprego e excedente de capital . Entretanto. Destruição menos abrupta.99 econômica construída. com mecanismos de regulação estatal preventivos não foram suficientes a impedir que a sociedade mergulhasse em crises regulares. Estados Unidos).

uma vez que é o próprio capital que impulsiona o trabalhador ao consumo. manifestando-se na proporção variável segundo a qual uma sociedade tem que alocar quantidades determinadas de seu tempo disponível total para a produção de bens de consumo rápido (por exemplo. O valor criado no processo produtivo deve transformar-se em valor de troca mediante sua realização no mercado. Além disso. diferentemente de Adam Smith que via no valor de uso como a utilidade de um objeto. determinando. a proporção segundo a qual o tempo disponível total de uma dada sociedade será distribuído entre a atividade necessária para o seu intercâmbio metabólico básico com a natureza e todas as outras funções e atividades nas quais se engajam os indivíduos da sociedade em questão” (2002. 874) afirma que. Para ele. Sandroni (2005. Esta taxa de utilização decrescente. avanços na produtividade inevitavelmente alteram o padrão de consumo. produtos alimentícios). deve permitir o alargamento da própria produção. mas corresponde às necessidades do capital”. István Mészáros desenvolve a tese da “taxa de utilização decrescente no capitalismo”31 do valor de uso32 das coisas. A relação entre o valor de uso e o valor de troca é uma relação de subordinação. O valor de uso constitui o ‘suporte material’ do valor de troca. Com isto e a partir da idéia de que o capital é. Isso demonstra que. em contraponto aos que continuam 31 Esta tese está desenvolvida no Capítulo 15 da obra “Para além do Capital” (2002. como Mészáros explica. p. endêmica e permanentemente destrutivo. a expansão do consumo no modo de produção capitalista é um dos aspectos mais significativos e uma conquista real da vitória civilizadora da propriedade mobiliária. p. No caso da produção capitalista. 32 . p. Isso. “no curso da história. só é possível se o valor produzido estiver incorporado num conjunto de valores de uso que correspondam à necessidade social. bem como a maneira pela qual serão utilizados tanto os bens a serem consumidos como os instrumentos com os quais serão produzidos”. mas como uma categoria específica da economia política. 634). Para István Mészáros (2002. criando e instigando-os a novas necessidades. o produto social não se destina às necessidade do homem. 675). que configuram sua função no interior da produção e da circulação do próprio valor de troca. No âmbito da produção capitalista o valor de uso assume determinações sociais específicas. “o valor de uso não é concebido como uma categoria natural. necessidade social quer dizer necessidade do capital. ou seja. p. está implícita nos avanços realizados pela própria produtividade.100 ser comparado aos anos 1930. no entanto. que é o conjunto dos valores de uso que servem para reconstituir os elementos materiais do capital constante (meios de produção) e do capital variável (meios de subsistência) que foram consumidos na produção. quando os excedentes de mercadorias não podiam ser vendidos e o desemprego atingia níveis muito elevados. para Marx. mediante a transformação de uma parte da mais-valia em capital constante acrescentado e capital variável acrescentado. estes avanços “afetam a própria natureza produtiva. demonstrando todo seu poder. no modo de produção capitalista. 639). ao mesmo tempo.

como ele mesmo aponta (2002. Isso significa que as forças produtivas tendem a crescer constantemente. seguindo a orientação de Marx. os instrumentos e os objetos de trabalho. se não houver consumo (demanda suficiente) o próprio capital põe em movimento forças produtivas33 e destrutivas capazes de superar crises em função da criação de locais de expansão à superação dos impedimentos que surgem. Desse modo. no sentido de que este processo. 640). p. 639-640). Contudo. 640) É neste sentido que esta tendência da taxa de utilização decrescente foi incorporada ao sistema produtivo do “capitalismo avançado” através. . especialmente. pelo complexo industrial-militar. em função do limitado tempo de vida útil das mercadorias as quais. entretanto. necessitam da criação de guerras para serem consumidas e isto expõe uma das faces mais impressionantes do capital pois se. Essa expansão opera modificações nas relações de produção e no modo de produção. a determinado nível de desenvolvimento das forças produtivas correspondem determinadas relações de produção”. no entanto. descartar prematuramente) imensas quantidades de mercadorias que anteriormente pertenciam à categoria de bens relativamente duráveis”. típico do avanço produtivo. há uma enorme produção. do chamado consumo destrutivo. necessário para a sua contínua reprodução. constituem a base material e técnica da sociedade.101 utilizáveis (isto é. aperfeiçoa seus objetos de trabalho e combina ambos no sentido de ampliar constantemente a produção. Assim. a retirada de mais33 Sandroni (2005. a sociedade se mantém como um sistema produtivo manipulando até mesmo a aquisição dos chamados ‘bens de consumo duráveis’ que necessariamente são lançados ao lixo (ou enviados a gigantescos ferros-velhos. somente se ela puder ‘consumir’ artificialmente e em grande velocidade (isto é. A visão que devemos ter (ou que somos levados a ter) é sempre no sentido de que este crescimento da produção e do consumo poderia significar desenvolvimento. A principal força produtiva. seja revertido na forma “em que a ‘sociedade dos descartáveis’ encontre equilíbrio entre produção e consumo. como os ‘cemitérios de automóveis’ etc. 352) explica que forças produtivas são “forças naturais (inclusive o próprio homem) apropriadas pelo homem para a produção e reprodução de sua vida social. 2002. p. reutilizáveis) por um período de tempo maior: uma proporção que obviamente tende a se alterar em favor dos últimos (2002. p. para tanto. é o próprio homem. que cria instrumentos de trabalho cada vez mais poderosos. (Cf.) muito antes de esgotada sua vida útil. de outro. A parte material das forças produtivas. de um lado. sobretudo. MÉSZÁROS. a tese de Mészáros sobre a taxa de utilização decrescente é desenvolvida. isto é. p.

679) diz que o capital sempre segue a linha de menor resistência. p. Fica nítida a posição de Mészáros quando afirma que. assegurado o desenvolvimento às custas das grandes contradições internas do capital. ampliando a quantidade de consumo. o modo de produção capitalista dá mostras de ser um sistema ilimitado e incontrolável à sua expansão. p. “o capital deve optar por aquela que esteja mais obviamente de acordo com sua configuração estrutural global. 677-678) faz um longa citação de Marx explicando seu modo de ver a “realização” do capital. já que o impulso capitalista para a expansão da produção não está de modo algum necessariamente ligado à necessidade humana como tal. 34 Mészáros (2002. não prevista por Marx. pp. 2002. entretanto. no nível do sistema produtivo capitalista. criando e produzindo novas necessidades e criando novos valores de uso. mas somente ao imperativo abstrato da ‘realização’ do capital” (grifo no original). “este tipo de mudança estrutural no ciclo de reprodução capitalista. portanto. ao encontrar uma linha de ação que lhe seja mais favorável à sua expansão. é que o caminho do capital à sua expansão e . Ao interpretar a citação de Marx. 678-679). ou seja. 677) “o resultado positivo dessa interação dialética entre produção e consumo está muito longe de estar assegurado. como diz Mészáros (2002. é realizado pelo deslocamento radical da produção genuinamente orientada para o consumo destrutivo”.102 valia está ancorada no desenvolvimento das forças produtivas e exige uma correspondente ampliação no círculo de consumo. isto porque o capital ao encontrar um equivalente funcional que melhor lhe assegure sua expansão. deverá optar por aquela que melhor se adeqüe à sua configuração estrutural34. especificamente pela interação dinâmica entre produção e consumo. Mészáros entende que do ponto de vista do valor de troca em auto-expansão. Neste sentido. consumo e destruição são equivalentes funcionais no processo de ‘realização’ capitalista (Cf. ou seja. em vez de perseguir alguma estratégia alternativa que necessitaria o abandono de práticas bem estabelecidas”. assim. p. a alternativa seria abortá-la antes que debilite de forma irremediável o poder de controle global do capital. mas também tenham êxito em se desembaraçar radicalmente dos constrangimentos estruturais do valor de uso como algo subordinado à necessidade humana e ao consumo real. Logo em seguida. Alcançado este objetivo. mantendo o controle que já exerce. implicando na necessidade do capital encontrar estratégias de realização que não só superem as limitações imediatas da demanda flutuante do mercado. Mészáros. ou o modo pelo qual o capital se auto-realiza. Mészáros 2002.

qual seja. ou ao crescimento do complexo militar-industrial. educação. objetiva-se compreender como as novas diretrizes globais de política econômica podem compor um cenário de acumulação e expansão do capital. assume sua posição de garante com todo o aparato repressivo. isto porque. necessidade de constante acumulação. controle. ou seja. de outro. entretanto.3. da necessidade da discussão transitar sobre o modelo capitalista de produção e duas conseqüentes frentes de atuação: de um lado. surgem questionamentos sobre as possibilidades de realização do capital. da característica fundamental do capital. habitação. etc. nos mecanismos estruturais (políticas públicas na busca de melhores condições de trabalho. Com isto. provocadas às camadas mais vulneráveis da sociedade. Diante de todas estas circunstâncias. especialmente como e por que o capital se utiliza das crises de sobreacumulação a fim de realizar seus propósitos. . é dizer. com criação de novos espaços à reprodução do capital e. A produção industrial militar e a necessidade do “consumo destrutivo. Alguns questionamentos já puderam ser respondidos. sabendose. o Estado. saúde. exclusão e barbárie social. qual (ou quais) a(s) verdadeira(s) necessidade(s) de se ter um aparato policial-militar cada vez maior e quais são as formas de interferência no sistema político ao aumento. tão necessário às consecuções e interesses do capital. principalmente para manter a ordem e garantir o pressuposto da constante acumulação. o controle social do desvio e as relações de subordinação. sempre procurará um caminho onde ele encontre menos resistência. alimentação. utilizando-se do monopólio do uso da força e violências (institucional e estrutural) para manter as desigualdades.4.) e institucionais (polícia e parlamento) do Estado no controle social. entretanto outros ainda não. diante das diversas crises provocadas pelas próprias contradições internas do modo capitalista de produção. sua ilimitada e incontrolável tendência de expansão em função do que Mészáros denomina de “linha de menor resistência”.103 3. como se viu.

A acumulação do capital. percebeu o significado e a tendência preponderante do consumo pela destruição através da produção militarista35. conseqüentemente. pois. antes mesmo de eclodir a Primeira Guerra Mundial. quanto maior a composição orgânica do capital menor será a taxa de lucro). inexoravelmente. especialmente pela redução do limite na utilização (ou vida útil) das mercadorias. Mészáros (2002. isto porque. Foi o complexo militar-industrial o instrumento que conseguiu romper com a suposta impossibilidade de combinar a máxima expansão possível com a taxa de utilização mínima. (. se torna economicamente mais flexível e dinâmica a produção. Volume II. p. das redefinições temporais do capital. no seu valor de uso. em vez de embarcar na aventura mais complicada e arriscada de alargar o próprio círculo.104 Rosa Luxemburgo. . 2002. “politicamente menos vulnerável”.) em princípio. diante do aumento da velocidade da circulação do capital através desse tipo de consumo (destrutivo) e diante da formulação de Karl Marx sobre a composição orgânica do capital (relação entre o valor do capital constante e do capital variável. 679). 1984. 686) nos prodigaliza que não há qualquer uniformização no desenvolvimento do complexo militar-industrial dos países de capitalismo avançado. MÉSZÁROS. São Paulo: Abril. p. uma continuidade na acumulação. “assim como ideologicamente menos transparente” e ao mesmo tempo. pode-se dizer que a taxa de lucro varia na razão direta da taxa de mais valia e da rotação do capital. ou seja.. Rosa. à realização capitalista importa a forma como são implementados os procedimentos. Percebe-se. no interior da circulação se expanda como o fez previamente o círculo produtivo”. por duas razões: a primeira porque persiste a chamada lei 35 Ver: LUXEMBURGO. ou seja. um equivalente funcional preferível estará à disposição do capital na forma de aceleração da velocidade de circulação dentro do próprio círculo de consumo (aumentando o número de transações no círculo já existente). As estratégias adotadas pelas políticas anticíclicas de teorização keynesiana figuram apenas como complementares ao dinamismo expansionista. em 1913. ou seja. enquanto for verdade que o desenvolvimento da produção capitalista “exige que o círculo de consumo.. que há uma ampliação das possibilidades de acumulação e expansão do capital em função. Esta “produção destrutiva” permite uma maior agilidade na circulação do capital e. p. não em função de qualquer alteração do modo de produção mas porque. como afirma Mészáros (2002. (Cf. 680) Assim é que.

em suas possibilidades de rearmamento36. ou seja. pelo menos por algum tempo. porque algumas condições extraeconômicas foram impostas pelos países vitoriosos da Segunda Guerra Mundial. evitando as já referidas desvalorizações (ou destruições) de capital. estas considerações também servem a todos os países capitalistas. p. afirma Mészáros (2002. . o desenvolvimento econômico de Japão e Alemanha no pós-guerra dependeu do desenvolvimento da atividade industrial bélica. p. Contudo. a expansão geográfica e a organização temporal. Ele menciona três fatores que favoreceram esta expansão: a) pelas novas alianças militares.) são de retorno de longo prazo. 687). Explica ele que. uma vez que os investimentos (infra-estrutura física. 37 Harvey (2003. exceto em relação às armas nucleares. a segunda. etc. e c) diante da interligação entre as economia capitalistas ocidentais e os Estados Unidos e em função da enorme dependência que foi criada pela complexo militar-industrial. David Harvey (2003) analisa este fato a partir da idéia de capital excedente e a necessária destinação (consumo ou destruição) desse capital. desde dos anos 1970. segundo. num sentido metafórico. ficando (estes países) limitados pelos tratados de paz por eles firmados. o qual foi seguido pela Grã-Bretanha. a partir daí seguiu na tentativa de absorver esses excedentes. 98/99) utiliza a expressão “ordenação” em dois sentidos: primeiro. redes de transporte. ou seja. educação.105 de desenvolvimento desigual e. ou seja. b) Japão e Alemanha participaram direta e indiretamente do desenvolvimento da indústria bélica norte americana através das pesquisas científicas e desenvolvimento tecnológico. tendo o Estado como um parceiro da acumulação capitalista (especialmente na acumulação originária). necessitando do que ele chamou de ordenação espaçotemporal37. pesquisa. isto porque levam muito tempo para voltarem à circulação inicial. num sentido material no qual “certa parcela do capital total fica literalmente ordenada/fixada em termos de terra e na terra em alguma forma física por um período de tempo relativamente longo” e. 686) afirma que. Japão e Alemanha puderam expandir sua indústria bélica em quase todos os setores. fundamentalmente pela modernização da indústria e encomendas militares diretas (especialmente para utilização durante a Guerra da Coréia). bem como o excesso de trabalhadores (força de trabalho). após o domínio norte-americano na posição hegemônica do complexo militar-industrial. “um tipo particular de solução de crises capitalistas por meio do adiamento do tempo e da expansão geográfica”. várias economias dependem do orçamento norte-americano e de sua capacidade de sustentar um grande nível de produção de armamentos. pois há uma grande dependência dos países capitalistas no desenvolvimento e na contínua expansão do complexo militar-industrial estadunidense. ao Japão e à Alemanha. De uma forma geral esta idéia de Harvey significa que o capitalismo tenta encontrar mecanismos de absorção dos excedentes através de grandes 36 Istvnán Mészáros (2002. comunicação. França e Itália. o capitalismo globalizado produziu o problema da sobreacumulação e. tudo isso decorre de uma grande necessidade do capital buscar espaços à sua expansão. na verdade. p.

. razão pela qual utilizaremos a exposição de Harvey no Capítulo 4 da mesma obra.106 investimentos em projetos de capital de longo prazo ou pelo deslocamento espacial com a abertura de novos mercados. pp. para os fins de nossa pesquisa é importante fixarmo-nos nas saídas da situação de sobreacumulação dada pelo capital. por longo que possa parecer. durante os anos 1990 foram absorvidos por meio de empréstimos aos Estados Unidos para apoiar o consumismo de bens japoneses. Tóquio) que buscam seja desembolsar e absorver os excedentes de maneiras produtivas. ameaçam os valores já fixados no lugar que ainda não foram realizados. é de um mundo espaço-temporal entrelaçado de fluxos financeiros de capital excedente com conglomerados de poder político e econômico em pontos nodais chave (Nova York. pois o que houve foi apenas substituição de mercadoria por dinheiro38. suas conseqüências destrutivas (típicas do modo de produção capitalista). o mais das vezes em projetos de longo prazo numa variedade de espaços (de Bangladesh ao Brasil ou à China). inclusive. Assim é que a chamada ordenação espaço-temporal serve exatamente para que os excedentes (de capital) de um determinado local. que não puderam ser absorvidos internamente. seja usar o poder especulativo para livrar o sistema da sobreacumulação mediante a promoção 38 David Harvey (2003) explica. p. a Índia e a China. uma nova série de contradições com a adoção destas transformações espaço-temporais. p. 98-105) e (2003. esta nova organização de divisões territoriais do trabalho. 99). pois com o intuito de evitar a desvalorização. 112-113): O quadro geral que surge. explica Harvey (2003. Londres. entretanto. esta ordenação espaço-temporal gera uma incontornável e constante contradição em função de que esta produção de espaço. p. portanto. a outros mercados. reserva de moeda ou mercadorias negociáveis) e o problema da sobreacumulação está solucionado apenas a curto prazo. trazendo. e os excedentes do comércio japonês que. ou ainda nas transações entre a Inglaterra e a Argentina. que não possam ser absorvidos internamente – através de ajustes geográficos ou gastos sociais – sejam remetidos a lugares que possam ser realizados. 100). determinado território envia seus excedentes (de capital e de trabalho). por conseguinte. Há. apesar de proporcionarem importantes maneiras de absorção de excedentes de capital e de trabalho. como explica Harvey (2003. uma diagnóstica consideração de David Harvey (2003. Harvey (2003. no Capítulo 3 “A opressão via capital” – como ocorre esta ordenação espaço-temporal e suas contradições. Ver. ou seja. os quais deverão possuir meios de pagamento (como ouro. a criação de recursos novos e mais baratos. 115-149). também no século XIX. de novas regiões como espaços dinâmicos de acumulação do capital e a penetração de formações sociais preexistentes por relações sociais e arranjos institucionais capitalistas. Entretanto. exemplos de ordenação espaço-temporais ocorridas nos séculos XIX envolvendo países como a Inglaterra. Entretanto. Cabe aqui. pp.

os mecanismos à reprodução do capital permanecem como antes . primeiramente. Afirma ele (2003. E a escravidão não desapareceu (particularmente no comércio sexual). do amplo apoio do Estado. (. é claro. A expulsão de populações camponesas e a formação de um proletariado sem terra tem se acelerado em países como o México e a Índia nas três últimas décadas. Para superar tudo isso Harvey lembra. aponta suas conseqüências de homogeneidade (similaridade) de como está acontecendo hoje. depois. no caso dos Estados Unidos. O lado sinistro e destrutivo da ordenação espaço-temporal como remédio para o problema da sobreacumulação torna-se um elemento tão crucial na geografia histórica do capitalismo quanto sua contraparte criativa de construção de uma nova paisagem para acomodar tanto a acumulação interminável do capital como a acumulação interminável do poder político. têm sido privatizados (com freqüência por insistência do Banco Mundial) e inseridos na lógica capitalista da acumulação. caracterizado pela “necessária” imposição de compatibilidade entre trabalho e capital.) Mas.. O agronegócio substituiu a agropecuária familiar.107 de crises de desvalorização em territórios vulneráveis.. perda de empregos e perda de segurança econômica. assim também são tipicamente as populações mais vulneráveis desses territórios que suportam o principal ônus que sobre eles recair. como Marx descreveu os processos de acumulação primitiva (ou originária) através. ou seja. étnicos ou culturais) do que enfrentar no plano doméstico o avassalador poder da classe capitalista. para não mencionar perda de dignidade e de esperança. formas alternativas (autóctones e mesmo. muitos recursos antes partilhados. as conseqüências desse processo de proletarização. Indústrias nacionalizadas têm sido privatizadas. da Tailândia e do Brasil que mais sofreram com as depreciações causadas pelas crises financeiras dos anos 1980 e 1990. p. Conclui-se. 121): Todas as características da acumulação primitiva que Marx menciona permanecem fortemente presentes na geografia histórica do capitalismo até os nossos dias. como Joseph Chamberlain descobriu. é politicamente muito mais fácil pilhar e degradar populações distantes (em particular as que são diferentes em termos raciais. Foram os pobres das regiões rurais do México. pois. mercadorias de fabricação caseira) de produção e consumo têm sido suprimidas. São sem dúvida as populações desses territórios vulneráveis que têm de pagar o preço inevitável em termos de perda de ativos. E por meio da mesma lógica que requer que os territórios vulneráveis sejam os primeiros a ser atingidos. em função do seu monopólio do uso da força (violência institucional) e de suas definições da legalidade (violência estrutural) e. que o capitalismo sobrevive não apenas por meio de uma série de ordenações espaço-temporais que absorvem os excedentes de capital de maneiras produtivas e construtivas. Vê-se. com isso. como a água. mas também por meio da desvalorização e da destruição administradas como remédio corretivo daquilo que é em geral descrito como o descontrole fiscal dos países que contraem empréstimos.

especialmente o domínio pelo capital financeiro ou no que François Chesnais (2003) vai denominar de “regime de acumulação com dominância financeira”. . a destruição estruturada de ativos por meio da inflação. Os efeitos deste novo regime de acumulação39 continuam muito semelhantes àqueles preconizados por Marx. Harvey (2003. Os objetivos da nova economia foram alcançados através de diversas medidas econômicas nada convencionais: “valorizações fraudulentas de ações. no qual vai predominar a acumulação significativa de capital fictício. prisioneiros da dívida. com a conseqüente formação do proletariado sem terra). p. muito embora tenham sido criados alguns mecanismos de acumulação inovadores. Para Harvey (2003. mesmo nos países capitalistas avançados. p. se utilizam do Estado para impor esses processos. 122) “a forte onda de financialização. tenham sacudido muito mais a periferia mundial e poupado o centro do capitalismo (especialmente Estados Unidos e os países ocidentais da Europa). 2003. 15). para não dizer nada a respeito da fraude corporativa e do desvio de fundos (a dilapidação de recursos de fundos de pensão e sua dizimação por colapsos de ações e corporações) decorrente de manipulações de crédito e das ações” (CF. sobretudo porque o sistema de crédito e o capital financeiro se tornaram grandes trampolins de predação. 123) cita ainda diversos mecanismos contemporâneos de “acumulação por espoliação” que. fraude e roubo. a dilapidação de ativos mediante fusões e aquisições e a promoção de níveis de encargos de dívida que reduzem populações inteiras.108 (a mais importante foi a privatização das terras e a expulsão violenta dos camponeses. HARVEY. que se prolongaram nas décadas subseqüentes. domínio do capital financeiro. p. que se estabeleceu a partir de 1973 foi em tudo espetacular por seu estilo especulativo e predatório”. falsos esquemas de enriquecimento imediato. verifica-se uma aparente nova fase desse capitalismo a partir do desenvolvimento e evolução tecnológica daquilo que se convencionou chamar de nova economia. como o processo de acumulação “primitivo” ou “originário” está em andamento. marcando também a retomada e o desenvolvimento das instituições financeiras (Gérard Duménil e Dominique Lévy (2003. 123). p. ele prefere chamá-lo de “acumulação por espoliação”. Muito embora a existência das crises que ocorreram a partir dos anos 1970. como no passado. como: o patenteamento e 39 Para David Harvey.

conforme orienta Harvey (2003. a destruição de recursos ambientais globais e a degradação de vários hábitats. históricas e da criatividade intelectual. a desvalorização dos ativos de capital e da força de trabalho. p. a biopirataria e a pilhagem de estoques de recursos genéticos em benefício das grandes indústrias farmacêuticas.” A partir dessas apropriações de ativos de propriedade do Estado pela iniciativa privada. além das privatizações.109 licenciamento de material genético. especialmente com os dois ícones mandamentais neoliberais: as privatizações e a liberalização do mercado. 130-131) os “ativos de propriedade do Estado ou destinados ao uso partilhado da população em geral foram entregues ao mercado para que o capital sobreacumulado pudesse investir neles. . a flexibilização dos direitos trabalhistas. Fazendo uma relação entre as posições neoliberais e a chamada “acumulação por espoliação”. dentre elas: o colapso da União Soviética e a abertura da China. na lógica do mercado e da acumulação de capital. a corporativização e privatização de bens públicos como as universidades ou as águas (como novas formas de privatização das “terras comuns”). É de se pensar. Uma dessas formas de apossamento é a privatização40. ou seja. do plasma de sementes e de outros materiais que foram utilizados por populações inteiras no desenvolvimento desses materiais. injetar matérias-primas baratas (como o petróleo) no sistema a fim de que os custos dos insumos sejam reduzidos e os lucros aumentados. etc. foi desencadeado um grande movimento de descobertas de 40 Harvey (2003. como a chamada crise de sobreacumulação se relaciona com a acumulação por espoliação. Ocorre que este tipo de acumulação faz liberar um conjunto de ativos (incluindo força de trabalho) a custo baixo. 124) cita várias formas. portanto. a transformação em mercadoria de formas culturais. pp. ao menos por algum tempo. valorizá-los e especular com eles. com a eleição de Ronald Reagan nos Estados Unidos. logo depois. percebe-se que a expropriação das terras comuns se deu. resultando na mercadificação da natureza. agora. através da apropriação dos ativos pelo capital sobreacumulado. Novos campos de atividade lucrativa foram abertos e isso ajudou a sanar o problema da sobreacumulação. favorecendo aos excedentes de capital (característicos da sobreacumulação) apossar-se desses ativos. com a chegada ao poder na Inglaterra da Primeira Ministra Margaret Thatcher e. que a versão político-econômica neoliberal iniciou sua orientação estatal no sentido de abandonar o estado de bem-estar social e ingressar. Foi a partir de 1979. os quais podem ser vendidos a preço baixo e reciclado com lucro no circuito de circulação do capital pelo capital sobreacumulado. definitivamente.

da produção industrial militar e da necessidade do “consumo destrutivo”. passando pelo comércio de utensílios de controle de pessoas (há. instrumentos como algemas com rastreadores.). É a nova descoberta: os presos. pelo avanço tecnológico e pela corrida contra o denominado crime organizado. simbolicamente. supostamente. etc. etc. tornam-se verdadeiros ativos de propriedade do Estado que podem ser (e estão sendo) submetidos à apropriação por espoliação. Partindo-se. o que se vê.110 lugares próprios à acumulação via espoliação no mundo inteiro (inclusive no Brasil). . ou aqueles que estão submetidos ao “olho vivo” do Estado. as águas. etc. desde a liquidação de empresas públicas. como as florestas. bem como na transformação em ativos dos próprios recursos naturais. De certo modo. 41 No Brasil. passando pela reprogramação de instituições. chegando à venda dos órgãos daqueles condenados à morte. de monitoramento. que tratam. parágrafos 10. foram necessários o aparelhamento das polícias (computadores. armamentos.099/95. exatamente. veículos. as terras. matas. 20 e 30 da Lei no 9. Ver artigo 89. surge uma das mais impressionantes facetas do movimento neoliberal: a privatização do controle da violência. que. o detentor do monopólio do uso da força como capacidade punitiva. energia elétrica. em que o indivíduo fica sujeito a uma fiscalização do Estado. Mesmo sendo o Estado. treinamento de pessoal.. câmeras de vigilância. por exemplo. portanto. transporte. chegando à privatização de serviços essenciais como da água. que. por meio de medidas de acompanhamento judicial penal41. etc. há alguns sistemas como o chamado “período de prova” no caso dos crimes de menor potencial ofensivo. é um aumento (expansão) das formas de controle privado na gestão da violência e a necessidade de se ter matéria-prima (e o cárcere cumpre fielmente esta função) para este mercado do controle. passando pelas estratégias de realização do capital (especialmente na busca de arenas próprias à sua expansão) especificamente pela interação dinâmica entre produção e consumo. como as universidades. telecomunicações.). primordialmente a esta finalidade. das condições à suspensão do processo ante a fiscalização do Estado. em vários locais e em anúncios de jornais. parecem utilizar-se dos mesmos mecanismos mais predatórios das origens do capitalismo. chips identificadores. de ambiente (celas móveis – “conteiners”). Os nichos desse mercado são os mais variados possíveis: desde a privatização dos presídios. em realidade. através do capital sobreacumulado. há uma camada de excluídos que servem.

a partir dos anos 1990. a pobreza. isto foi possível em função da deflagração do fenômeno da mercantilização dos direitos sociais e que tem reflexos diretos na estrutura da Segurança Pública das sociedades.111 3. ingressa na lógica do mercado e 42 No dizer de François Chesnais (1996). que os excedentes do capital (sobreacumulação) de um lugar pudessem se apossar desses ativos e encontrar emprego lucrativo onde estas possibilidades ainda não tinham se exaurido. Como fazer e qual relação é possível ser feita entre os efeitos das políticas econômicas neoliberais (a sobreacumulação de capital e a criação de novos espaços à acumulação de capital. assim. as privatizações com o encarceramento de grandes massas populacionais? As conseqüências desses processos estarão alinhadas nos próximos capítulos. conseguiu impor um sentimento. até aqui. ou seja. cada vez mais. a exclusão social de grandes camadas da população. entretanto é possível perceber que diante das contradições internas do modo de produção capitalista (tendente a gerar crises com resultados predatórios) o próprio sistema. sob a proteção do Estado43. É exatamente desta forma – privatizações e liberalização do mercado – que o sistema penal. isto porque a acumulação por espoliação possibilitou o surgimento de um conjunto de ativos a custo muito baixo. as quais proporcionaram (e continuam proporcionando). “o sistema do capital não sobreviveria uma única semana sem o forte apoio do Estado . pela “mundialização do capital”. foram as conseqüências dos processos de globalização do capital42 em especial aquelas resultantes dos mecanismos das políticas macro-econômicas dos Estados. relativamente homogêneo.) como o desemprego em massa. 43 É bom lembrar aqui que apesar da propositura neoliberal em diminuir as fronteiras do Estado moderno. A busca do capital por espaços próprios à sua reprodução – diante da crise de sobreacumulação – foi encontrado. favorecendo. além de outros. nas privatizações dos ativos públicos. que usa esta terminologia para evitar a idéia de homogeneidade dos processos de reprodução ampliada.4 O mercado da violência O que se viu. que tomou conta do mundo ocidental. etc. no sentido de terem triunfados os pressupostos políticos e econômicos liberais.

suprimentos. lançar mão de seu mecanismo de controle social mais violento: o sistema penal. A contrapartida oferecida pelo Estado ao mercado é o oferecimento da matéria-prima essencial à exploração da indústria da violência: o ser humano excluído. 44 É bom ressaltar. etc. promove. que o Brasil. informatização do controle prisional. induzem e remetem grandes massas da população à proletarização. contra o . principalmente a partir dos anos 1973. privatização dos presídios.112 da acumulação do capital. MÉSZÁROS. quando o Estado entrelaça suas ações com interesses privados favorece ao surgimento da acumulação por ele subsidiada. aviões – armamentos. helicópteros. aquisição de veículos – motos. num ciclo interminável de violência estrutural (pelo capitalismo globalizado). inicia uma longa caminhada às crises de sobreacumulação e a solução foi. pois: a) de um lado. institucional (pela violência policial e legal) e a conseqüente violência social (pela exclusão social. significando que realmente há uma grande tendência de que a taxa de utilização das mercadorias seja decrescente sobretudo do chamado capital destrutivo.). pela impossibilidade de aderir ao mercado de consumo. “obrigando” o Estado. Os investimentos em Segurança Pública44. pela exclusão ao mercado de trabalho. carros. o Estado capitalista. outra privada. a indústria da violência possibilita. a partir do final da década de 1980. treinamento e contratação de pessoal. etc. submetendo os interesses públicos às perversidades da acumulação capitalista. permitir o surgimento da privatização dos ativos públicos e a descoberta de novos nichos (locais) de aplicação dos excedentes de capital. as estruturas econômicas impostas pelo capital. na relação interna. uma pública. p. b) de outro. por exemplo. caminhões. especificamente aqueles destinados a conter a violência (neste caso a violência é aquela produzida pelas (Cf.) um enorme investimento público no setor. algumas guerras como. 2003. Fomentada por duas vertentes. investimento tecnológico. apesar de não ter qualquer tradição em participar de guerras internacionais. 29). Assim. enquanto produtor de violência (tanto estrutural – pela reprodução da desigualdade social – como institucional – pela atuação do aparato repressivo estatal). neste instante. oportunizado pelo complexo industrial-militar. comprovando a necessidade da chamada “ajuda externa” para a reprodução do capital. através dos mais diversos e modernos mecanismos de controle (como as câmeras de vídeo.

etc. administrativos. o qual servirá como matéria-prima à produção. a partir do momento que estes estão excluídos do sistema econômico (social) estarão possivelmente incluídos no sistema de controle de violência global e poderão se tornar humanos úteis sob o ponto de vista do capital: podem gerar lucros e expandir o capital. etc. armamentos. as guerras contra os chamados inimigos comuns internos) e utiliza-se destes fatos e movimentos para. é perfeitamente possível relacionar as dinâmicas das relações de produção influenciando a produção normativa de combate a violência. entretanto.. ultrapassando a lógica do internamento e do disciplinamento para a lógica de um controle e proletarização das classes excluídas. Por fim. privatizando presídios (hoje a privatização do sistema prisional ocorre de diversas formas. qual seja. gerando um enorme contingente de pessoas presas. dos consumidores falhos. especialmente à aplicação dos excedentes de capital. isto porque. o sistema de controle da violência atinge um outro objetivo. Sob o signo da iniciativa privada. É a partir desse mercado (o da violência) que o Estado distribui recursos públicos e cria novas condições (locais) à apropriação dos ativos públicos pelo capital privado. contra a violência urbana. gera um maior aparato instrumental do sistema penal de controle. automóveis.). desde o ponto de vista da acumulação por espoliação (pela utilização do capital excedente através do consumo destrutivo). terem o discurso próprio para equipar a polícia e as estruturas de poder responsáveis ao combate ao crime (normalmente dito “crime organizado). . ou seja. compra de equipamentos (viaturas. revistadores. “arrastões nas praias do Rio de Janeiro”. a passos largos. com isso. contra os movimentos sociais (especialmente os MST). como também do ponto de vista da violência estatal em produzir matéria-prima ao sistema. especialmente aquela produzida por ações típicas da chamada criminalidade juvenil (crimes patrimoniais contra residências. possibilitando o controle e a exclusão dos excedentes. tráfico ilícito de entorpecentes. Não se pode afirmar que exista uma relação direta entre o aumento da exclusão social com o crescimento da população carcerária. proporcionando a captação de um enorme contingente de pessoas submetidas ao sistema. etc.). especialmente pela possibilidade do surgimento de empresas que prestam serviços de segurança. um grande negócio. o controle da violência mostra-se extremamente sedutor e lucrativo como novo espaço à expansão do capital. o sistema penal dá mostras de que o controle da violência torna-se. tais como: treinamento de pessoal. a criminalização das condutas. ou seja. daqueles que não fazem diferença à produção econômica.113 classes sociais não desejadas e não a violência estrutural ou institucional do Estado). das quais pode-se destacar duas: uma com a privatização de toda a estrutura carcerária e outra possibilitando que empresas privadas exerçam funções públicas dentro dos presídios – vigias.

entender a transição do regime de poder soberano (definido por Foucault) para a sociedade disciplinar e. agora. 4.1. quando se inicia. Importante. mudam as estratégias de poder. A legitimação da dominação pelo controle. Neste capítulo. Historicamente. pretende-se estudar o contexto da sociedade analisado sob o ponto de vista das estratégias e tecnologias de poder da contemporaneidade. do indivíduo (social) e do sujeito (desejo). encontramo-nos num estágio intermediário.1. fábrica e controle social. 4. identificadas por Gilles Deleuze como sociedades de controle diante de um mundo flexibilizado. num estágio de transição.3. principalmente. os mecanismos pelos quais a sociedade contemporânea se utiliza da coerção estatal para empreender seus objetivos estruturais de produção e acumulação de capital demonstrando. passando de sua função destrutiva e de eliminação física do desvio (e do desviante) para uma função de recuperação e disciplinamento dos “excedentes”. então.4. 4. entretanto. a era das grandes internações através das prisões e manicômios.4 A cultura do medo como legitimadora do controle social: a divulgação da violência e a banalização dos direitos e garantias fundamentais. especialmente a partir da lógica da preservação dos direitos individuais e seu funcionamento sob a lógica capitalista globalizada. 4.1 O mundo do trabalho: do “grande internamento” à normalização do proletariado no regime de acumulação flexível. portanto. No momento atual. como se dá a banalização do cidadão (direitos).2 O proletariado no regime de acumulação flexível e sua relação com sistema punitivo.1. 4. As tecnologias de poder e as formas de controle.2. no momento de ultrapassar a lógica das tecnologias disciplinares. também.1 O discurso do medo e as práticas de segurança.5 O controle total da vida dos corpos (ou dos corpos vivos) Observou-se no primeiro e segundo capítulos.3 A sociedade contemporânea como sociedade de controle. 4.1 O proletariado no período fordista e sua relação com o cárcere.4 CONSTITUIÇÃO DA SOCIEDADE DE CONTROLE 4. designada sociedade de controle. 4.2 A economia política da pena: a relação entre sistema prisional. foi analisar a formação do pensamento político-econômico contemporâneo em relação ao desenvolvimento da democracia e da globalização. 4. as grandes mudanças sociais ocorridas nos séculos XVIII e XIX.3. É preciso. ou seja. em conseqüência. 4. novamente. nas quais podiam transformar sujeitos indóceis em .

pretende-se chegar. de Hannah Arendt. p. o que está em jogo é a nova relação de biopolítica entre os indivíduos e o Estado. tais como a polarização social (ricos e pobres.. estabelecendo uma nova lógica: a inscrição da vida numa sociedade de controle.). habitação. criminosos e não criminosos). com isso. a intolerância social. principalmente. etc. compreender como as novas . as taxas de encarceramento. através do total encarceramento. estabelece situações análogas àquelas vistas na política econômica). exercido da mesma forma permanente e. ao impor penas. objetivando-se. 1996. educação. e passando pela economia política da pena (onde será visto como a estrutura social.) e institucionais (polícia e parlamento) do Estado. a necessidade da construção de mais presídios destinados àqueles destituídos das características de consumidor e indumentarizados com o estigma do marginal. enfim. etc. Michel Foucault e Giorgio Agamben. Partindo dos pressupostos apresentados nos capítulos anteriores (especialmente o segundo). sugerindo. era a tentativa e necessidade de “induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder” (Cf. aumentando. mas delimitando a configuração entre incluídos e excluídos os quais serão tematizados a partir de sua vinculação ou não ao consumo. a exclusão social produzida pela impossibilidade do consumo. saúde. o novo controle é aberto. seletividade criminal. a partir das idéias. quando foi estabelecida a íntima relação entre a estrutura política econômica e os vínculos muito próximos entre as situações produzidas pela globalização do capital e pelo cárcere. rastreadores de pessoas. no mais das vezes. alimentação. A discussão estará transitando.115 sujeitos úteis. necessariamente. entre os mecanismos estruturais (políticas públicas que buscam melhores condições de trabalho. pois. sem dúvida. Esta é a análise que será feita agora. na contemporaneidade. forjando a mão-de-obra necessária à acumulação e reprodução do capital. etc. Foucault. a estigmatização de classes e pessoas encarceradas. entretanto. isto porque. através de mecanismos extremamente sofisticados e de alta tecnologia (câmeras de vigilância. 177). pois o que se pretendia nas sociedades disciplinares. nas conseqüências da adoção de políticas de segurança pública de cariz autoritário cuja determinação foi herdada de um sistema de reprodução de valores impostos por segmentos da sociedade burguesa que exerce influência na determinação das políticas penais.

diz-se haver três tipos de mercados: ‘mercado de trabalho’. protagoniza. igreja. Analisando a articulação dos antagonismos existentes entre as atuais políticas de segurança pública e as políticas públicas de segurança (Direitos Humanos). apresentado como solução aos graves problemas da contemporaneidade. delimitado como órgão de decisão política e centro de produção normativa. possuindo. polícias. concretamente. procurar-se-á entender como o direito à segurança é. a partir de lutas que buscavam novas liberdades. pela exclusão e hierarquização da sociedade. um caráter universalizante e de perfil progressista. nos moldes das primeiras reivindicações dos setecentos. ‘mercado de capitais’ e mercado de bens de consumo’ (Cf. Ele se expressa. pp.) e através do controle social do mercado consumidor. etc. perpassa. a expressão ‘mercado’ (utilizada isoladamente) será mencionada em sentido mais restrito. ou seja. portanto. as quais estão diretamente vinculadas aos pressupostos de violência institucional (pela atuação repressiva do Estado e do parlamento) e estrutural (impondo a produção e reprodução da desigualdade social) desse mesmo Estado. discutir as políticas públicas (sociais e econômicas) vinculadas ao Estado. No contexto da pesquisa. exercido pelas diversas instâncias de poder (Estado. a partir de uma abordagem interdisciplinar (através da sociologia e da filosofia política). Neste ponto é fundamental perceber que o fortalecimento dos direitos do homem. outros poderes. especialmente nas atuais sociedades capitalistas. exercido por outras instâncias de controle. marca os limites desse antagonismo. é possível vislumbrar. 276-277). uma constante exclusão social a partir de dois mecanismos de controle: através do sistema penal (eficientismo penal). 528 e 529). Muito embora isto deva ficar . outros mecanismos. obrigatoriamente. empresas e governo”. como um controle aberto. 1985. que deveriam ter como destinatários todas as classes sociais. exclusão e barbárie social.116 diretrizes do mercado1 podem compor um cenário de controle. contribuindo à lógica maniqueísta entre bons e maus. em 1 Para Paulo Sandroni (2005. Reich. portanto. Será preciso. ao revés. As referidas políticas públicas. como um controle fechado. Através da utilização do referencial dos Direitos Humanos. Dentro deste aspecto econômico. que nasceu de uma concepção histórica. p. inclusive as menos favorecidas. sobretudo na maneira como se organizam as trocas realizadas em determinados universos por indivíduos. o mercado “é formado pelo conjunto de instituições em que são realizadas transações comerciais. entretanto. especialmente as políticas de segurança. família. que os reflexos proporcionados pelas políticas neoliberais (capitalismo globalizado ou de mercado) na efetivação das políticas sociais tencionam a mais um modelo que.

assume esta posição com todo o aparato repressivo. no aparato policial” (DORNELLES. as quais estão diretamente relacionadas a diversos direitos – individuais e coletivos – e objetivam a inclusão social. 6. e do Bill of Rights inglês. portanto. ou seja. relacionadas à proteção do indivíduo pelo Estado por meio de ações repressivas – preventivas e punitivas – através dos “instrumentos destinados ao combate da violência criminal e à manutenção da ordem pública. estrutural. de 1776. – e a criação do sentimento social de necessidade de combatê-la através de políticas de segurança pública conservadoras. nota de rodapé no 7). como será visto. de 1689).117 especial pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. moradia. principalmente. de 1789 (como também o foram o Bill of Rights das colônias norte-americanas. o Estado contribui para o surgimento e à manutenção de um mercado prisional o qual está sendo configurado a partir da mesma lógica da acumulação. as relações de subordinação às camadas mais vulneráveis da sociedade e. guerras internacionais. O que se busca é. educacional. tanto do sistema carcerário como também proporcionando a privatização da segurança pública. 2003. tão necessário às consecuções e interesses do capitalismo. e as políticas de segurança pública. um direito fundamental justaposto a outros direitos como a liberdade. centrando a sua ação. violência urbana. delimitar e demonstrar diferenças entre as necessárias políticas públicas de segurança (alimentar. tráfico de drogas. O Estado. Portanto. utilizando-se da laboriosa mão-de-obra humana (matériaprima) permite cumprir outros grandes objetivos fundamentais à economia política: o surgimento do mercado prisional. lavagem de dinheiro. agora. em especial através da inscrição da vida numa sociedade de claro no contexto. principalmente para manter a ordem e garantir o pressuposto da constante acumulação. a propriedade e a resistência à opressão. neste espaço. p. desde o ponto de vista do inconsciente (através da análise da economia política da pena) à acumulação do capital. o controle social do desvio. o objetivo é estabelecer uma relação (atoconseqüência) entre a maximização da divulgação do crescimento da violência – atos terroristas internacionais.). institucional. importante fazer referência à metáfora “mercado” que se notabilizou como signo de referência à legitimidade de utilização de mecanismos de controle social. etc. através de uma intensa conceitualização. etc. . utilizando-se do monopólio do uso da força para manter as desigualdades. através da destinação do capital sobreacumulado às privatizações.

172. são eliminados e o espetáculo punitivo dá lugar à parte mais velada do processo penal. algo externo a nós. São Paulo: Ática.1. principalmente no contexto Europeu. ou se rebelam individualmente. foi criada uma grande quantidade de casas de internamento como resultado das importantes 2 O termo é empregado aqui para representar “a alienação social. O mundo do trabalho: do “grande internamento” à normalização do proletariado no regime de acumulação flexível Na perspectiva (e obra) de Foucault é possível mostrar como foi o processo. a fim de compreender as implicações das economias de mercado na conjuntura contemporânea. na Europa.) contribuíram e foram capazes de. de como as diferentes formas de discursos e saberes (medicina. podem mais do que a realidade que os condiciona. etc. absolutamente polarizada e marcada pela exclusão social. Convite à filosofia. etc. 4. p. tem como resultado a “alienação social”2 causada pela criação de inimigos comuns (especialmente o tráfico ilícito de drogas. por sua própria vontade e inteligência. separado de nós e com poder total ou nenhum poder sobre nós”. armas e o terrorismo) e divulgação da multiplicação de atos violentos.. 45-78). Marilena. . pp. a sociedade é o outro (alienus). especialmente a partir do final do século XVIII e início do século XIX. quando os suplícios. ao mesmo tempo. Em “História da Loucura” (2004. isto porque as conseqüências da adoção de políticas públicas neoliberais.118 controle. julgando que. por ser tido como natural. na constituição do sujeito (pelo discurso. aos moldes dos modelos denominados como “políticas de tolerância zero”. especificamente em relação à segurança pública. In: Chauí. “movimentos de lei e ordem”. 1996. praticamente. pelas práticas divisoras e pelos processos de subjetivação). 7a ed. divino ou racional. Foucault percebeu como foram acontecendo as transformações das instituições e. perceber como foram sendo constituídos e transformados os locais em mecanismos específicos ao disciplinamento dos corpos e suas conseqüências. na qual os humanos não se reconhecem como produtores das instituições sociopolíticas e oscilam entre duas atitudes: ou aceitam passivamente tudo o que existe. A partir da metade do século XVII. psiquiatria. possibilitando a inserção de novos mecanismos de exploração (econômica) e de controle. a relação dessa transformação com as alterações nos mecanismos de punição. Nos dois casos..

2004. p. é uma atitude de troca. vai se transformando: não mais em um estabelecimento médico mas uma estrutura de poder construída e constituída para colocar e impor a ordem e ‘em seu devido lugar’ à crescente pobreza. o propósito inicial de segregação (internamento) dos doentes (loucos e leprosos. na Holanda as Zuchtaus e Spinhaus. polícia. Foucault descreve. na Inglaterra são também chamadas de “casas de correção” (por volta de 1575) e mais tarde as workhouses. . na Espanha. que não falaria 3 Diz o artigo XIII do Édito de 1656. ainda.119 transformações ocorridas. manicômios. o Estado ou a cidade preparam uma forma nova de sensibilidade à miséria: iria nascer uma experiência do patético. as Zuchhäusern (por volta de 1620). etc. na qual é possível perceber. idades. em sua maioria) como lugar natural à sua existência. A proibição da mendicância era para todos. em vários locais da Europa o internamento se espalha e. 49). a participação e influência da Igreja na maneira de encarar a miséria na consolidação da pobreza como predestinação individual e como castigo. enfim. curáveis ou incuráveis4. as casas de correção nos países de língua alemã. A ‘reforma’ ocorrida serviu para agrupar – sob única administração – diversos estabelecimentos já existentes com a finalidade expressa3 de correção e punição de todos os pobres de Paris. mas é importante perceber como o Estado substituiu a Igreja nessa tarefa caritativa. prisões. FOUCAULT. lugares. jurisdição. válidos e inválidos. O que se vê. especialmente pela substituição do poder soberano pelo poder disciplinar. portanto. comércio.) a nova forma de controle da sociedade. independente do sexo. ou seja. São os Hospitais Gerais na França (a partir de 1656). que é através do poder/saber que Foucault identifica em diversas instituições disciplinares (fábricas. correção e punição sobre todos os pobres de Paris.. doentes ou convalescentes. tanto no interior quanto no exterior do Hospital Geral” (Cf. decreto de fundação do Hospital Geral de Paris: Têm todos os poderes de autoridade. etc. administração. escolas. pois “colocando sob seus cuidados toda essa população de pobres e incapazes. direção. como também aparecem as casas de correção na Itália. A criação do Hospital Geral de Paris (criado pelo Édito real de 27 de abril de 1656) retrata bem essa realidade. de toda qualidade de nascimento. pois o Estado traz para si a responsabilidade de cuidar dos miseráveis (basicamente alimentá-los) em troca do internado aceitar a coação moral e física. a sociedade monárquica se transformando em sociedade disciplinar. aos poucos.

do primeiro mundo. tanto no sentido do benefício como no da punição. antes que a lei a definisse como a pena por excelência. com finalidade não judicial. É o primeiro passo à constituição da miséria como causa da desordem. ao mesmo tempo.120 mais da glorificação da dor. vagabundos) encontra fundamento e utilidade. A forma geral de uma aparelhagem para tornar os indivíduos dóceis e úteis. p. pois se constituiu fora do aparelho judiciário. nas análises de correspondências de São Vicente de Paula (de 1657). o internamento se justifica. 58). p. um efeito da desordem e um obstáculo à ordem” (2004. desde então. 60-61) revela. transcrevendo o parágrafo 9 do citado Édito real de 1656. formar em torno deles um aparelho completo de observação. treinar seus corpos. classificá-los. 207). p. de forma bastante clara mostra que a prisão veio. justamente. o internamento é o que merece. o internamento é o descanso. mas uma verdadeira divisão de mundos: haverá. . registro e notações. passou a existir no momento em que foram elaborados os processos para repartir os indivíduos (e o grande internamento cumpriu exatamente esta função). criou a instituição-prisão. no tempo. o mundo dos bons pobres – daqueles submissos à ordem que lhe foi imposta – e o mundo dos maus pobres – aqueles que não se submetem à necessária ordem. instrução e ocupação. Isto aparece de maneira muito explícita em diversos Estados europeus e. pp. 65). miseráveis. Àqueles. através de um trabalho preciso sobre seu corpo. que a igreja católica aprovava o grande internamento dos pobres. mas que faz com que o homem se ocupe de seus deveres para com a sociedade e mostra no miserável. aos do segundo. ou seja. codificar seu comportamento contínuo. Foucault (1996. como forma de deixá-los em um mesmo lugar a fim de dar-lhes manutenção. prostitutas. fixá-los e distribuí-los espacialmente. Em sua minuciosa pesquisa. quando então os miseráveis são vistos não mais como pretexto enviado por Deus à exaltação e demonstração da caridade do bom cristão. nem de uma salvação comum à Pobreza e à Caridade. a utilização desta estratégia de disciplinamento e controle das grandes massas (pobres. tirar-lhes o máximo de tempo e forças. constituir sobre eles um saber que se acumula e se centraliza. mantê-los numa visibilidade sem lacuna. Foucault (2004. mais precisamente. ou seja. na atuação do controle dos corpos 4 Conforme aponta Foucault (2004.

é nesta passagem de súdito (baseado nos laços de servidão) a cidadão (baseado nas relações de direito) que caracteriza o indivíduo moderno. dando lugar ao poder da disciplina e seus efeitos: diante da impossibilidade da apropriação dos bens e riquezas dos súditos pelos mecanismos até então realizados. e ante as limitações propostas pela correntes interacionistas6 à criminologia tradicional.121 ‘condenados’. que partia do poder do soberano e atuava diretamente nos suplícios impostos aos corpos dos condenados. O nascimento da prisão remonta. exemplarmente esta função. Nasce. duas correntes fenomenológicas da sociologia americana. a instituição carcerária aparece no momento em que a punição. sendo. etiquetamento. deste pensamento. uma preciosa lembrança da análise da acumulação originária realizada por Marx em “O Capital”. dirigindo-se às cidades. uma realidade variável. é de se salientar que a matriz da criminologia crítica é designada na literatura alternativa e sinonimamente por enfoque. fundamentalmente. uma força de trabalho excedente. Tornam-se. as quais orientam no sentido de que a sociedade não é uma realidade que pode ser conhecida como algo em si. a necessária crítica materialista às concepções das instituições prisionais). do controle. rotulação ou ainda por paradigma da “reação social”. O construtivismo . esse poder disciplinar consegue realizar diversos objetivos. então. portanto. labelling approach. passa a atuar na medida da produtividade. ou da definição. exatamente neste momento histórico. portanto. especialmente pela forma com que os camponeses foram expulsos de suas terras (por imposição legal. do nascente modo de produção econômico e da legitimação da apropriação dos meios de produção5. é importante saber que o labelling explica a conduta humana a partir do interacionismo simbólico e da etnometodologia. ou seja. isto 5 Faz-se necessidade. perspectiva ou teoria do interacionismo simbólico. a necessidade de transformar os grandes internamentos em punições (nasce. Assim. mas a partir de uma construção social. proporcionando uma nova leitura e efeitos da sentença penal. 6 Do ponto de vista da epistemologia. neste sentido. uma força produtiva que deveria ser disciplinadas: as fábricas e as prisões cumpriram. por estes representarem. a realidade só existe na medida em que é interpretada e em conseqüência apreendida. daí. Aniyar de Castro (1983. transformando-os em indesejáveis “miseráveis e vagabundos”. que foi muito importante a entrada do marxismo – especificamente pela abordagem dialética do seu objeto – no estudo da criminologia crítica. a caracterização do poder do soberano. dentre eles a criação de uma classe de trabalhadores (que venderão sua força de trabalho) que serão sujeitados à total exploração e dominação. aqui. no modo de produção que se anuncia. que se inicia a proletarização através dos processos de organização e divisão do trabalho. muitas vezes). Outro aspecto importante é que o processo cognoscitivo é construído a partir da subjetividade do observador. É. ou seja. ou seja. p. o maior potencial produtivo. Desaparece. potencializando a criminalização da miséria. 6) identifica que para o construtivismo social as observações estão baseadas em construções mentais.

nas configurações políticas internacionais (geográfica e geopolítica). . investigar historicamente as relações de punição no modo de produção capitalista com as transformações ocorridas nos mecanismos e formas de repressão e controle social baseados na disciplina da fábrica. ao ver o mundo como uma realidade em si. podem ser vistos. não só no conjunto de práticas de controle e relações de trabalho. em segundo lugar. estabelecer a terminologia que corresponderá a análise posterior. aproximadamente. em primeiro lugar. caracterizado pela grande expansão do modelo capitalista de produção com marcante utilização das políticas keynesianas. enfim. estabelecer uma premissa metodológica e. É esta configuração que será feita a seguir.2). também. O proletariado no período fordista e sua relação com o cárcere Antes mesmo de proceder a análise da relação existente entre o “grande internamento” e disciplinamento dos corpos com a formação do proletariado no período fordista. cognoscível independentemente da pessoa que o observa.122 porque foi possível. 4. mas também nos hábitos de consumo. A premissa metodológica cinge-se à necessidade de identificar dois grandes períodos de transformações econômicas ocorridas. 7 A expressão “regime de acumulação flexível” será examinada. como aponta De Giorgi (2002). da metade do século XVIII até a metade do século XX e caracterizado tanto pelos conflitos sociais (os grandes conflitos sociais ocorridos que resultaram nas lutas e conquistas historicamente determinadas) como também marcados pelas alterações nos modos de produção que. este também chamado. opõe-se ao positivismo.2. que serão marcantes na configuração de seus respectivos modelos socio-políticos no período que vai. É preciso identificar. assim. especificamente termos como “fordismo” e “regime de acumulação flexível”. em diversas práticas que marcam a sociedade (tanto do ponto de vista social como político) da metade do século XX em diante (especialmente no pós-segunda grande guerra). é preciso. ou seja. uma realidade estática. de forma bastante clara.1. Como base e sinais das grandes transformações ocorridas. o período compreendido entre 1945 e 1973. por questões didáticas. no próximo item (3. afetaram os mecanismos de controle social. a partir dessa premissa.1. “pós-fordismo”7.

de que produção de massa significava consumo de massa. isto porque o controle sobre o trabalho deve ser exercido de tal forma que se imprima tanto a coerção como a associação ao disciplinamento da força de trabalho à acumulação e isto deve ser realizado não só no ambiente de trabalho. horário livre para o laser e consumo. ético. a jornada de 8 horas diárias. um novo tipo de sociedade democrática. coletivas. a redução dos custos com a produção em massa.123 A segunda premissa pretende limitar a significação terminológica da expressão “fordismo” no contexto da presente pesquisa. foi necessário um conjunto de profundas alterações (individuais. em seu livro My life and work. 9 Henry Ford desenvolveu. as quais visavam uma maior lucratividade8. garantindo o pleno desenvolvimento dos pressupostos da acumulação. ou seja. é entendido. da economicidade (redução dos estoques de matéria-prima em transformação e vendas rápidas. uma nova política de controle e gerência do trabalho. boa remuneração e. um novo sistema de reprodução da força de trabalho. pensar e agir. aumento da tecnologia da produção com a finalidade de extrair de cada trabalhador o máximo de sua produtividade. etc. O que passou a atuar a partir das formulações de Henry Ford9 foi o “reconhecimento explícito. e denominado. uma nova estética e uma nova psicologia. fundamentalmente. trabalho especializado (cada trabalhador realizaria apenas uma atividade). HARVEY. em suma. que o fordismo corresponde ao conjunto de técnicas de racionalização administrativa da produção. racionalizada. de modo algum. Aliás. três princípios básicos da administração científica: da intensificação (agilidade na produção com o intuito de venda no mercado). de período 8 Dentre as técnicas de racionalização implantadas por Henry Ford estava o conhecimento verticalizado da produção. mas também adotado pela própria sociedade como o modo correto de atuação nos campos estético. o fordismo proporcionou uma nova consciência coletiva no modo de produzir.) que suscitaram a materialização do modo de produção capitalista em todos os movimentos diários das pessoas (tanto das capacidades físicas como mentais). 2004. a capacidade de explorar e fazer com que o explorado não se sinta. este foi um dos grandes desafios e uma grande dificuldade enfrentados pelo modo de produção capitalista. resumidamente. p. Assim. o lapso temporal compreendido entre o segundo pós-guerra até os anos 1973. a expressão “fordismo” origina-se das concepções administrativas inovadoras implantadas pelo empresário norte-americano Henry Ford no início do século XX (1914) em sua fábrica de automóveis em Michigan (Estados Unidos da América). nesta condição. com a . qual seja. político e econômico. Neste sentido. modernista e populista” (Cf. Assim. Pode-se dizer. institucionais. 121).

como situações finalidade de pagamento de matéria-prima e salários). a um contrato de trabalho que lhe permita um correspondente (equivalente) pagamento (salário). que envolvia pesados investimentos em capital fixo. o pleno emprego. Para David Harvey (2004. o Estado se esforçava por controlar ciclos econômicos com uma combinação apropriada de políticas fiscais e monetárias no período pós-guerra” dirigidas aos investimentos públicos com a finalidade do crescimento da produção e do consumo de massa. ultrapassando a historiografia apresentada por Karl Marx sobre a acumulação primitiva. 129) “na medida em que a produção de massa. àqueles não dispostos a ver a exploração (despojamento total de seus meios de produção e obrigados a vender sua força de trabalho) como algo natural. são processos de subjetivações que permitem e admitem a normalidade da troca de equivalência. Sem dúvida. especialmente pela ascensão das indústrias com alto poder tecnológico (desenvolvidas no período compreendido entre as duas grandes guerras mundiais) e o Estado tendo que assumir novos papéis.124 fordista-keynesiano. relativamente. e da produtividade (aumento da produtividade individual do trabalhador através da especificidade laboral e da linha de montagem). está no centro da análise da constituição do proletariado fordista exatamente este conjunto de transformações que teve na prisão o ideal de controle social. haveria a necessidade deste novo sujeito estar subordinado pelas novas relações sociais de produção. ou seja. garantindo. p. requeria condições de demanda relativamente estáveis para ser lucrativa. nada mais justo do que sua naturalização coercitiva empregada pelo cárcere. mas também a determinar que os indivíduos “insurgentes” tivessem destino pouco digno. isto porque ela se manteve como o local apropriado. não só à produção de uma subjetividade. mas também pela adoção das políticas econômicas keynesianas as quais. em troca. deveria estar normalizado que o novo modo de produção conseguira extinguir as relações servis de produção. porque não só ficou marcado por um período socialmente regido pelas inovações administrativas implementadas por Henry Ford. diretamente vinculada à disciplina. . a qual deveria resultar na normalização capitalista do indivíduo: a necessidade de internalizar a relação existente entre os detentores dos meios de produção e o nascente proletariado. mas. ou seja. Assim. permitiram que o capitalismo tivesse o grande período de expansão. unidas.

paralelamente. em função da relação servil e desigual existente em ambas instituições. A estrutura da penitenciária. De Giorgi (2002. como condição evidente. É importante. 50) 10 No item 3. ao discurso oficial. uma vez que este (sistema) somente será utilizado – com toda força e vigor – quando a classe social menos favorecida (os excluídos por excelência) não se adequar ao modelo de exploração imposto pelo modo de produção. Como afirma De Giorgi (2002. como meccanismo posto a presidio delle esigenze del nascente sistema di produzione industriale. nesse sentido. fundamental: a penitenciária nasce e se consolida como instituição subalterna à fábrica. estiverem excluídos no sistema e. Il punto di vista dell’economia politica della pena è che l’apporto delle istituzioni e delle tecnologie della pena sai stato in questo senso fondamentale: il penitenziario nasce e si consolida come instituzione ancillare alla fabrica. àqueles que não concordarem com o sistema. apenas. tanto sob o perfil organizativo quanto sob o ideológico. a contribuição das instituições e das tecnologias da pena foi. p. primeiro. 48): Do ponto de vista da economia política da pena. que todas as transformações históricas das penas e dos sistemas punitivos surgidos a partir do iluminismo – especialmente a idéia de humanização das penas – representaram (por isso a importância desse estudo sob o enfoque da criminologia de viés marxista. deste capítulo será tratado o tema da economia política da pena. Significa dizer. p. e como mecanismo pronto a atender as exigências do nascente sistema de produção industrial. Tutte le instituzioni di reclusione che prendono forma alla 11 .125 análogas do crime. segundo. La struttura del penitenziario.11 Ademais. que numa economia capitalista o ideal de recuperação do indivíduo no sistema prisional fica reservado. é o conceito de disciplina do trabalho que deve ser proposto aqui como termo que faz a mediação entre cárcere e fábrica. Todas as instituições de reclusão que tomam forma no final do século XVIII co-dividem uma idêntica lógica disciplinar que as torna complementares à fábrica. com o tempo de permanência na prisão: a pena é – no sistema de controle punitivo capitalista – a representação da mais-valia10.3. não pode ser compreendida se. além da consolidação da prisão como mecanismo adequado ao surgimento e efetivação subjetiva análogo à produção fabril. pois. estar presente em nosso pensamento. non può essere compresa se non si osserva parallelamente la struttura dei luoghi di produzione. não for observada a estrutura dos locais de produção. ed è il concetto di disciplina del lavoro a proporsi Qui como termine medio fra carcere e fabbrica. como crítica materialista das instituições penais) novas estratégias para “melhor punir” e com o objetivo principal de disciplinar os corpos como adequada estratégia repressiva da classe dominante àqueles que. tanto sotto il profilo organizzativo che ideologico.

deixandoos aprisionados aos desejos permitidos. é preciso considerar as dimensões instrumental e simbólica da instituição carcerária. obediência e disciplina (elementos constitutivos desse status) como condições que devem ser satisfeitas. A dimensão simbólica permite entender o aparente “sucesso histórico” da prisão. mas que a produção dos desejos esteja controlada e direcionada aos objetivos estruturais das sociedades. p. impõe ao indivíduo trabalho. ou seja. no futuro. 12 La prigione crea lo status di carcerato e allo stesso tempo impone all’individuo lavoro. criando-se um imaginário próprio conforme determinadas circunstâncias já estabelecidas. Para ele. ao mesmo tempo. A dimensão instrumental permite relacionar cárcere e função econômica. o prisioneiro se transforma em proletário”. encontrando na produção de uma força de trabalho disciplinada e disponível à valorização capitalista sua principal função. É preciso que todos se sintam muito mais que dominados. evitando-se a criação de desejos.126 refere-se também aos efeitos do cárcere como dispositivo de controle desenvolvido na reprodução da força de trabalho assalariada. a contradição entre uma igualdade formal e uma desigualdade fundamental que repousa tanto no universo econômico – que se verifica tanto na lógica da circulação (igualdade) quanto na produção (desigualdade) – como também no universo do cárcere – que se verifica no conflito entre princípio da retribuição e as práticas disciplinares. especialmente como modelo ideal da sociedade capitalista industrial que se consolida através do processo de “desconstrução” e “reconstrução” contínua dos indivíduos: “o pobre se torna criminoso. livrar-se delas”12. De Giorgi (2002. os indivíduos devem manter-se não só obedientes e disciplinados mas também sujeitados. ou seja. para a existência da dominação total é necessário não mais (ou não só) a violência física. isto porque. o criminoso se torna prisioneiro e. p. . a fim de que possa. “a ideologia retributiva-legalista oculta a realidade de disciplina e violência que se fine del XVIII secolo condividono una identica logica disciplinare che le rende complementari alla fabbrica. 51) “a prisão cria o status de detento e. ainda. Para De Giorgi (2002. segundo ele. 52) existir uma contradição estrutural na sociedade capitalista. enfim. pois diante de uma instituição tecnologicamente repressiva que impõe ao indivíduo a total privação dos desejos. obbedienza e disciplina (elementi in realtà costitutivi di questo status) como condizioni da soddisfare affinché questi possa infuturo sottarvisi. Sustenta.

de fato. “Pena e estrutura social”. L’obiettivo. ocorrida entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1970. O objetivo. analisando o processo de transição ocorrido no período situado entre o feudalismo e o capitalismo. das décadas de 1930 a 1960. e construtivistas (interacionismo simbólico e o construtivismo). foram duas situações importantes: a primeira é que na tentativa de reconstrução do modo de produção capitalista (e que está em curso até hoje) o resultado foi. as interrogações lançadas por De Giorgi são no sentido de encontrar matrizes que sejam suficientes a descrever a relação entre a situação econômica atual e as estratégias repressivas contemporâneas. isto porque a partir do final dos anos 60 (mais precisamente em 1969 com a reedição de “Pena e estrutura social”). . é de reproduzir um proletariado que considere “o salário como justa retribuição do próprio trabalho e a pena como justa medida dos seus próprios crimes”13. de viés marxista. prejudicando a análise pretendida das estratégias repressivas contemporâneas. contrariando as tendências. historicamente. o crescente índice do desemprego15 e.127 produz no interior da instituição penitenciária. De Giorgi percebe que os conceitos e análises efetivamente utilizados no final da década de 1930. justamente no período em que surge também os primeiros estudos sobre a criminologia crítica. è di riprodurre un proletariato che consideri il salario come giusta retribuzione del proprio lavoro e la pena come giusta misura dei propri crimini. prodigalizados especialmente pela obra de George Rusche e Otto Kirchheimer14 são revisitados. o que poderia significar insuficiência conceitual. Ele aponta que a obra de Rusche e Kirchheimer foi concebida. originários da Escola de Frankfurt. A obra foi reeditada em 1968 nos Estados Unidos. aqui referida. Portanto. as origens do sistema carcerário e a relação entre desemprego e encarceramento. sobretudo. é “Punishment and Social Structure” (Edição brasileira: Pena e estrutura social. così di sfruttamento e subordinazione che si produce nella fabbrica. 1999). analisando. sem dúvida contribuíram à formação do pensamento crítico. editada pela primeira vez em 1939. a segunda é que. Tradução e apresentação de Gislene Neder. de redução das taxas de encarceramento. 14 A obra. a partir 13 L’ideologia retributiva-legalistica cculta cioè la realtà di disciplina e sopraffazione che si produce dentro l’istituzione penitenziaria. de Michel Foucault (1977) e “Cárcere e Fábrica: As origens do sistema penitenciário” de Dario Melossi e Massimo Pavarini (1977). Entretanto. Os autores. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. especialmente com a introdução do marxismo na sociologia criminal e de diversas teorias da sociologia como a do etiquetamento. principalmente nos Estados Unidos. assim como a ideologia contratualigualitária esconde a realidade de exploração e subordinação que se produz na fábrica. juntamente com “Vigiar e Punir”. O que se viu. fizeram uma abordagem materialista do sistema penal. especialmente. coerentemente. à análise da relação existente entre sistema produtivo e cárcere. coerentemente. houve uma retomada das análises do cárcere à luz das categorias da economia política (o que De Giorgi vai denominar de “economia política da pena”).

entretanto. T. vinculando as condições de vida do mercado de trabalho e a vida no interior do cárcere. Gizlene Neder. A análise da situação norte-americana possibilitou a Jankovic (sua obra é de 1977) concluir. Ambas as hipóteses objetivavam estabelecer o relacionamento com o princípio de less eligibility. legitimar os efeitos dissuasórios da punição. Stern16. salvaguardando os efeitos dissuasivos da pena” (destaques retirados da nota introdutória à edição brasileira. um dos primeiros teóricos a relacionar o modelo apresentado por George Rusche e Otto Kirchheimer da década de 1930 à condição norte-americana da década de 1970. os quais analisam o surgimento da instituição “prisão” através de uma vasta pesquisa bibliográfica “percorrendo vários países europeus. o agravamento da situação econômica (desemprego) corresponderia a um aumento nos índices de encarceramento. o que será interpretado de forma bastante interessante por alguns teóricos como Ivan Jankovic. da referida obra. ou seja. . 16 Todas estas contribuições estão descritas na obra de De Giorgi (2002. Sellin e L. pp. A análise que fizeram das prisões ficou situada na transição do modo de produção feudal ao capitalismo. parte de duas hipóteses: a primeira diz respeito a “severidade” das penas17. também. de George Rusche e Otto Kirchheimer. Jankovic (citado por De Giorgi). relacionando ambas situações (mercado de trabalho e cárcere) no interior do princípio de less eligibility. que outras pesquisas realizadas 15 Os efeitos e características contemporâneos do capitalismo. inclusive em notas de rodapé. T. a segunda hipótese é no sentido da “utilidade” da pena. que se por um lado encarceramento e desemprego seguem a mesma direção (ainda que não influenciada pelas taxas de criminalidade). dentre outros.128 do início da década de 1970. mais detidamente. ou seja. segundo o qual o indivíduo será constrangido ao trabalho em função “de que o nível de existência garantido dentro do cárcere e aquelas oferecidas pelas instituições assistenciais deve ser mais baixo do que o das categorias mais baixas dos trabalhadores livres. isto porque ainda que fossem péssimas as condições oferecidas ao trabalhador. o qual daria maior preferência a determinada situação fora do cárcere. ou seja. por exemplo. estas seriam melhores do que aquelas impostas no cárcere ao indivíduo. chamado “regime de acumulação flexível” serão analisados. a hipótese de “utilidade” da pena em relação ao mercado de trabalho é desmentida. pp. houve um significativo aumento dos índices de encarceramento. 17 A hipótese da “severidade da pena” está consubstanciada no princípio less eligibility. de fins da Idade Média até o século XIX”. no próximo item. 14 e 15). da Prof. De Giorgi aponta. Dra. a função da pena seria uma espécie de regulação do excedente de mão-de-obra e o objetivo implícito seria o de consolidar o “exército industrial de reserva” a fim de que o aumento do encarceramento servisse à redução do desemprego. ou seja. 54-60). proposto na obra “Pena e estrutura social”.

da mesma forma como apresenta De Giorgi. na tentativa de consolidar. enfim. através de processos de subjetivação. os pobres. ou seja. o sistema repressivo. em certa medida. é possível avançar no argumento. as tarefas”18. todos aqueles que. se encontram nos estratos mais baixos da sociedade. De Giorgi (2002. suas formas de organização e produção. de um lado. dividendosi in certa misura i compiti. p. o chamado Estado Providência (welfare state) para alguns – especialmente àqueles naturalmente submetidos à exclusão social (pela exclusão do trabalho) e que não ofereciam perigo à ordem – e de outro. a sujeição do indivíduo aos objetivos estruturais do modo de produção vigente: a disciplina ao trabalho. Assim é que o Estado social dá lugar a uma total desregulamentação da economia (o que será abordado no item seguinte. causadores de distúrbios. o controle social através desses dispositivos legais. . os desempregados. e o sistema penal surge então como seu principal instrumento. o encarceramento (prisão) não consegue mais responder (ou. os negros. no sentido de que o “Estado social e medidas repressivas concorrem. para a gestão do excesso de força de trabalho. sob o título de economia flexível) e. de uma forma ou de outra. em contra partida. especificamente do modo como se constituíram as novas relações sociais. a fim de entender que diante das perspectivas e das transformações ocorridas a partir dos anos 1973 em diante. alcança um alto índice de quantidade de leis criminalizantes possibilitando. o significado disso. Na verdade o que se pretendia era uma indução de práticas à determinada conduta.129 foram sistematicamente confirmando a hipótese de “severidade” das penas. em certa medida. os imigrantes. na “administração” dessa grande massa de trabalhadores desempregados foi preciso estar presente. dividindo. entretanto. especialmente as minorias étnicas. representado pela chamado Estado Penitência – especialmente àqueles “perturbadores e perigosos à ordem”. porém a da “utilidade” não. que não estavam dispostos a atender a moral oficial de ser um trabalhador. 56) sugere. pelo 18 Questo significa che stato sociale e misure repressive in questa fase concorrono alla gestione della forza lavoro in eccesso. Entretanto. nessa fase. Os dispositivos aqui referidos surgem de forma difusa no seio da sociedade e aparecem com um discurso elaborado nos moldes a sustentar e fundamentar as políticas econômicas neoliberais de contenção das massas problemáticas.

enfim. na tentativa de responder a alguns . Ainda que seja pouco provável conseguir relacionar diretamente índices de desemprego com encarceramento. agora. há sim. diante do processo de transição fordista. gradativamente. às estratégias de controle das massas. ao modo de produção flexível. perdendo sua função original (disciplinamento dos corpos) passando a ter novas e estratégicas funções. é entender as novas relações e formas de produção econômicas contemporâneas a fim de poder.1. O proletariado no regime de acumulação flexível e sua relação com sistema punitivo É preciso. o controle e disciplinamento das massas foram deslocados. uma análise das profundas transformações ocorridas tanto no mundo do trabalho como suas conseqüências na estrutura produtiva (significou um esgotamento do modelo fordista de produção). um conjunto de ações necessárias a estabelecer as condições mínimas à manutenção e imposição das excludentes relações sociais. por razões didáticas limitar a significação terminológica da expressão “regime de acumulação flexível” no contexto da presente pesquisa. preliminarmente. de políticas públicas tematizadas à revitalização da lei e da ordem. delineado pelo que se convencionou denominar de “pós-fordismo”. 4. uma íntima relação entre os processos de mudança da economia em seu conjunto e seus efeitos. portanto. isto porque. O desafio. à luz da economia política da pena. e a prisão. Assim. nem tanto) pelas novas estratégias contemporâneas de controle social. para depois relacionar as dimensões e significados destas manifestações. isto porque durante os chamados ciclos recessivos da economia o discurso político de uma nova moralidade contra o desvio (e o desviante) constitui o tema preponderante e fértil às campanhas de discussões públicas do fenômeno criminal como a necessidade de discursos de ressocialização e integração do indivíduo criminoso. e diante dos fatos até aqui apresentados. de práticas de ausência de tolerância ao desvio. faz-se necessário. analisar suas conseqüências e mecanismos de controle das camadas excluídas do processo produtivo (os excluídos).130 menos.2.

da alocação do produto líquido entre consumo e acumulação. portanto. por exemplo. como um todo. ao comportamento individual. 117) aponta ainda que um sistema de acumulação pode existir a partir do momento em que seu “esquema seja coerente”. Este debate conduzido por esta escola de pensamento. hábitos. O sentido desta crise e. ele implica alguma correspondência entre a transformação tanto das condições de produção como das condições de reprodução de assalariados”. 117) utiliza-se dos argumentos básicos dos representantes europeus da Escola da Regulação para estabelecer e representar esse período de transi ção. Harvey (2004. uma materialização do regime de acumulação através de normas. Harvey (2004. desenvolvidos em linhas originais por teóricos da Escola Regulacionista Européia. por sua vez. afirma ele. redes de regulamentação que permitam. Somente para se ter idéia. Alan Lipietz e Benko. é fazer com que os comportamentos dos indivíduos assumam esta postura e permitam que o sistema. especialmente aqueles relacionados com a exclusão social. é preciso ponderar que conceitos como fordismo e pós-fordismo. conforme os teóricos da “Escola da Regulamentação”. esta transição do fordismo ao pós-fordismo no debate social. instituições. p. ou seja.131 interrogantes importantes. as supostas soluções que o sistema oferece. portanto. p. o controle dos excluídos e o novos mecanismos de acumulação. Antes mesmo de prosseguir no tema. isto porque não é pacífica. é novamente utilizada pela referida escola da regulação. mais precisamente no final da década de 1970. cada período histórico estabelece a transição de um regime de acumulação e de um modo de regulamentação social e político a ele associado. o sistema econômico apresenta estabilidade. caso contrário. enquanto há correspondência. entretanto o problema. devem ser observados de forma reservada na literatura econômica e social. continue a funcionar em razão da idéia de sintonia necessária entre o regime de acumulação e o modo de regulação de um sistema econômico. como Michel Aglieta. a expressão “fordismo” utilizada inicialmente para designar este processo mais racionalizado de capitalismo corporativo. isto porque para ele “um regime de acumulação descreve a estabilização. condições . principalmente no ocidente. depois da primeira guerra mundial. o mesmo entra em crise. É preciso. por um longo período. merece maior atenção uma vez que segundo seus teóricos. é objeto de diversas divergências teóricas.

os fatores que proporcionaram o chamado fim do fordismo e o surgimento do pós-fordismo. demonstrou. afetam a dinâmica do capitalismo. É a partir dessa visão regulacionista que se torna possível identificar. etc. no aumento dos custos de produção e salários e no declínio da produtividade. ao contrário. dificuldades para seu sucesso e viabilidade. fornecer bens coletivos (defesa. p. p. infra-estrutura sociais e físicas). 117-118): a primeira advém da fixação de preços e. 118) é importante visualizar este pensamento da “Escola da Regulamentação” pelo fato de que ela leva em “conta o conjunto das relações e arranjos que contribuem para a estabilização do crescimento do produto e da distribuição agregada de renda e de consumo num período histórico e num lugar particulares”. educação. a segunda. conseqüentemente. políticas. entretanto. lucros positivos para o maior número de capitalistas. Este conjunto de regras e processos sociais interiorizados é denominado “modo de regulamentação”. Segundo Harvey (2004. Para Harvey (2004. principalmente em duas grandes áreas. regime caracterizado pela flexibilização de que falaremos mais adiante. quando este não pode ser evitado. Na prática. evitar excessivas concentrações de poder de mercado ou combater o abuso do privilégio do monopólio. Sobre o primeiro problema (fixação de preços) é necessária uma pequena digressão para melhor entender o pensamento da “Escola da Regulamentação”. falhas de mercado. sociais. 118). . por exemplo. p. os mercados de fixação de preços fornecem inúmeros sinais de que são os produtores que coordenam as decisões de produção com as necessidades.. As contradições internas do capitalismo nunca permitiram longos períodos de estabilidade e crescimento. vontades e desejos dos consumidores. como aponta Harvey (2004. as pressões direta (como a imposição de controles de preços e salários) e indireta (como a propaganda subliminar que persuade os indivíduos a incorporar novas necessidades e desejos de consumo) exercidas pelo Estado ou por instituições religiosas.132 favoráveis à acumulação e reprodução do capital. deriva da necessidade de exercer controle sobre o emprego da força de trabalho para garantir a agregação de valor na produção e. para compensar. etc. moldando sua trajetória e forma de desenvolvimento. em vários momentos é necessário algum grau de ação coletiva através da regulamentação e intervenção do Estado. aliadas ao exercício do poder de domínio do mercado pelas grandes corporações.

p. das organizações trabalhistas de classe. 137-141) aponta ainda. as décadas de 70 e 80 representaram um período de reestruturação econômica e reajustamento social e político. impediam a flexibilidade de planejamento e presumiam crescimento estável em mercados de consumo invariantes. reestruturação e intensificação do controle do trabalho. implicou. principalmente fábricas e equipamentos. de acumulação flexível). hábitos de consumo e configurações de poder político-econômico. o esgotamento do modelo fordistakeynesiano já dava mostras de problemas em meados dos anos 60 e em 1973 consolida sua insuficiência para conter as contradições do capitalismo. problemas com a rigidez nos mercados. p. aparentemente. o que sugeriu o aparecimento de um novo regime de acumulação (que convencionou-se chamar. exatamente. Assim. a rigidez dos investimentos de capital fixo em larga escala e a longo prazo. caracterizar o período entre 1945 e 1973. em sistemas de produção em massa. dentre outras razões da instabilidade econômica desse período. p. portanto. de fordismo-keynesiano. caracterizados por processos de trabalho e mercados mais flexíveis. obrigando-as a entrar em um período de racionalização. de mobilidade geográfica e de rápidas mudanças práticas de consumo” podem ser caracterizados como um novo regime de acumulação. David Harvey (2004. 135). Harvey (2004. Pode-se afirmar que um dos vértices dos problemas enfrentados pelo capitalismo foi a organização sindical da classe trabalhadora. demarcado por um conjunto de práticas de controle do trabalho. como afirma David Harvey (2004. por alguns autores. que não está claro “se os novos sistemas de produção e de marketing. havendo. Este novo regime de acumulação associado a novas regulamentações políticas e sociais. tecnologias. que as corporações possuíam grandes excedentes inutilizáveis. na alocação e nos contratos de trabalho em função. entretanto. portanto.133 Neste sentido é possível. Como conseqüência da destruição do compromisso fordista. a fim de que pudessem ultrapassar o período de crise. mas é certo que há significativos contrastes entre as práticas atuais e aquelas realizadas no período de expansão do pós-guerra o que justifica a hipótese de uma passagem do fordismo a um regime de acumulação flexível. no aumento das taxas de inflação e desemprego . do ponto de vista histórico. 119) pondera. isto porque.

isto porque além da volatilidade do mercado. que ocorre em detrimento da transição entre oferta e procura (ou o desempregado não sabe da existência de vagas no mercado ou os empregadores não sabem da existência de desempregados). o que permite pensar que a idéia keynesiana do pleno emprego não seria viável à acumulação capitalista em função de que este (pleno emprego) elevaria os salários provocando a alta nas taxas de inflação. Flandres. especialmente. ganhos modestos de salários reais e o retrocesso do poder sindical (um dos maiores óbices ao regime de acumulação capitalista do regime fordista). bem como conjuntos industriais completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas20. da diminuição dos lucros e os trabalhadores perdendo seu poder de força em função da enorme desmobilização político-sindical e pelo excedente de mão-de-obra. . “desemprego” refere-se a uma situação na qual uma pessoa se encontra ociosa involuntariamente. O desemprego é classificado de várias maneiras conforme sua causa: dentre outras classificações há o desemprego friccional ou normal. por exemplo.). tanto entre setores como entre regiões geográficas. O que caracteriza a acumulação flexível. nos países de capitalismo avançado. A constituição do novo proletariado está intimamente associada à radical reestruturação do regime de trabalho. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos. 140) é a: (. Há também o desemprego estrutural. taxas altamente intensificadas de inovação comercial. e países recém industrializados. o chamado “Vale do silício”. sobretudo. criando.) flexiblidade dos processo de trabalho. há uma profunda alteração no padrão de comportamento dos empregos. um vasto movimento no emprego no chamado “setor de serviços”. novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros. Para Marx esta massa de trabalhadores (população execedente relativa) estaria sempre desempregada em função das inovações tecnológicas.. ante a disputa pelo emprego e em função do próprio processo de acumulação. A década de 1980 marca. microeletrônica. originado pelo avanço tecnológico ou ainda pelas alterações da demanda de determinada profissão (obsolescência da indústria ou da profissão). etc. dos mercados de trabalho. dos produtos e padrões de consumo. para David Harvey (2004. p. uma radical alteração no mundo do trabalho. e uma rápida destruição e reconstrução de habilidades. também. passando de empregos regulares e estáveis às subcontratações temporárias e em tempo parcial. 20 David Harvey se refere a chamada “Terceira Itália”. a produção em série (marca fordista) é substituída pela flexibilização da produção e 19 De um modo geral. do avanço tecnológico (robótica. novos mercados e. tecnológica e organizacional. na qual. uma tendência à baixa dos salários. tanto na Europa como nos Estados Unidos.134 estrutural19 (em oposição à “friccional”).. A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos padrões do desenvolvimento desigual. ocorrendo. do aumento da competição. portanto.

métodos simbólicos de participação ativa nas empresas.135 por novos padrões de busca de produtividade nas formas de inserção na estrutura produtiva. 24) vivem-se formas transitórias de produção. gerência participativa. sem entretanto representar divisão de lucros (qualidade total. ou seja. com isto. “porque” e as “conseqüências” entre estas dinâmicas e as formas de controle. isto porque não só há uma redução brutal da quantidade de postos de trabalho (resultando em um aumento do desemprego estrutural e não mais conjuntural). as quais são atingidas pela flexibilização das subjetividades. permitindo. fazer uma pequena revisão teórica (histórica) para entender a produção das novas subjetividades alcançadas pela indução de práticas dos indivíduos e criação de necessidades. eliminação do desperdício. mas também porque as características da força de trabalho estão alteradas em função das flexibilizações impostas pelo capital nessa nova fase. pois. seguro-desemprego. segurança no emprego. enfim. o nível dos salários. . política e sindical. como aponta Ricardo Antunes (2005. etc. especialmente. as condições atuais impostas pela produção capitalista e suas diversas mutabilidades é preciso. É preciso. então. p. isto porque as formas contemporâneas de poder utilizam-se de novas tecnologias a fim de produzir desejos coincidentes com o modelo estrutural de produção. seguridade social (previdência – aposentadoria e seguro por acidentes. adequação às necessidades da produção de subjetividades de consumo (indução de necessidades e transformação cultural) – pois de certa forma. portanto. com significativas repercussões no direito do trabalho uma vez que há uma desregulamentação e flexibilização de modo a dotar e permitir ao capital adequar-se a sua nova fase. a procura por mais de um emprego. apontar os elementos materiais que resultaram da transição de uma ordem econômica e social orientada à produção para uma economia da informação. à produção no modo capitalista são utilizadas necessidades indispensáveis à sua manutenção. – como também do ponto de vista da produção de subjetividades – tais como. Para compreender. entender “como”. o surgimento de conseqüências do ponto de vista material das relações trabalhistas – tais como os direitos trabalhistas strictu sensu. etc.) e. bem como de uma força de trabalho global e flexível. por exemplo).

que tem como característica marcante a ausência de fronteiras. Afeganistão e outros países. O imperialismo é o modelo político vigente durante o século XIX e até metade do XX. ele é instável. não só administrando o território com sua população mas também criando esse mesmo mundo regendo diretamente a vida humana. em seu modo de governo. o conceito é sempre dedicado à paz. 272-274) foi o mercado mundial. como pressuposto à produção. não como um momento transitório. ele se impõe pela guerra e se sustenta pela força. ainda que a prática assim não demonstre. . p. como estrutura de hierarquia e comando. segundo. 14-15) apontam. fora da História ou no fim da História. também. 266-268).136 É importante. pp. (tanto aquelas típicas do período das soberanias dos Estados-Nação. mas como uma ordem que suspende a história e determina o estado de coisas existente. este processo 21 Conforme aponta Castor Ruiz (2004. tem pouca legitimação social e só se sustenta enquanto houver uma força superior que submeta o medo dos oprimidos”. 22 Michael Hardt e Antonio Negri (2004. o poder de mando do Império funciona em todos os registros da ordem social. quarto. das fronteiras territoriais. a construção de uma estrutura de relações internacionais que espalhou pelo globo o regime produtivo disciplinar e a sociedade disciplinar em suas sucessivas evoluções. cujo principal objetivo era. entre imperialismo21 e império22. ou seja. conforme Hardt e Negri (2004. e que em parte continua vigente em atuações “imperialistas” como as guerras de invasão dos EUA contra o Iraque. terceiro. destacar e identificar uma relação que chama atenção: nesse interessante período de transição. Mas o modelo imperialista remete ao conceito hobbesiano de submissão pela guerra. o Império se apresenta. mas como um regime sem fronteiras temporais e. gera muitas resistências. ainda que esta unificação tendencial do mercado mundial não tenha ocorrido de forma compatível ou tranqüila ante os conflitos e lutas de libertação (descolonização) e circulação capitalista. de descentralização gradual dos locais e dos fluxos de produção e. pois. passa-se a ter. criar novas modalidades de dominação. postulando um regime que abranja a totalidade do espaço. sob o manto do desenvolvimento e modernização. Estes três processos (descolonização. intensos processos de descolonização. basicamente. descentralização da produção e disciplinamento) permitiram identificar o rompimento de práticas imperialistas tradicionais (fundamentalmente de dominação) e o surgimento de um novo modelo de política econômica e social. pois o poder é exercido sem fronteiras. quatro características do conceito de Império: primeiro ele é marcado pela ausência de fronteiras. apresenta-se não como um regime histórico nascido da conquista. entretanto. que apareceu como um importante aparelho a regular redes globais de circulação. que gradualmente recompôs o mercado mundial em linhas hierárquicas a partir dos Estados Unidos. neste sentido. como também pela ausência de limites do poder). p. Para Hardt e Negri (2004. uma nova conjuntura econômica e social (econômica e das subjetividades). 97) “o imperialismo é um modo de dominação entre Estados ou de um Estado sobre um território específico. p.

273-274). através de bolsas de valores. 273). novos desejos e demandas. a possibilidade do “desejo de escapar desse regime e. (2004. simultaneamente tornando-o mais próximo e isolando-o num gueto” (2004. corporações transnacionais. etc. ao criar a tendência ao mercado de trabalho global. como guetos. barracos. como ocorre na fuga de trabalhadores do terceiro mundo em direção ao primeiro mundo. no primeiro. como a dificuldade em “administrar mercados nacionais. 274). na maioria das vezes. De forma inversa. surgindo diversos efeitos: a) “a ampla difusão do modelo disciplinar da organização de trabalho e da sociedade para fora das regiões dominantes produziu no resto do mundo um estranho efeito de proximidade. comunidades de favelas. p. c) o novo regime disciplinar. criando. uma multidão indisciplinada de operários que querem ser livres” (2004. em diversas partes do globo. que não podem ser contidos e controlados dentro do regime disciplinar”. bancos. principal e mais claramente a partir da década de 1980. 273).137 resultou. p. as quais após “libertadas” da semi-escravidão. Primeiro é bom lembrar que a passagem de . aqui. novamente fazer uma pequena digressão a fim de entender este momento de transição. 274). passe a ser um órgão de decisão política e um centro de produção normativa (2004. fazendo com que o mercado mundial. individualmente”. “a entrada de grandes massas de trabalhadores no regime disciplinar da moderna produção capitalista”. estabelecendo-se este terceiro mundo. indicando a “busca real da liberdade” e a “formação de desejos novos e nômades. d) cresce a mobilidade transversal da força de trabalho disciplinada. ou seja. constrói. uma diminuição do custo da força de trabalho. p. etc. p. também. f) As geografias econômica e política são desestabilizadas proporcionando fronteiras fluidas e móveis. sujeitando os novos trabalhadores à disciplina da nova organização do trabalho. e) há efeitos macroeconômicos dessa mobilidade. É preciso. fazendo crescer a competição entre os trabalhadores (2004. de maneira desigual e em diferentes velocidades. p. entretanto. p. novas formas de “aprisionamento” (2004. gerando. contudo. há uma penetração do primeiro mundo no terceiro. determinando. b) enormes populações passaram pela emancipação salarial. tendencialmente. 275). novas necessidades.

pois o capital ainda não havia encontrado seu modo de produção mais adequado à valorização das riquezas. ou seja. utilizava-se de 23 Artesanato é atividade realizada pelo artesão – homem livre (do senhor feudal). ainda estava limitado às condições físico-biológicas do trabalhador (habilidades individuais de cada trabalhador). neste momento que há a subordinação formal do trabalho ao capital. dependendo. isto porque o artesão executa todas (ou quase todas) as fases da produção. entra em cena a manufatura e o artesão torna-se apenas um operário que realiza uma etapa no processo produtivo. com o desenvolvimento do comércio e das cidades. que define o ritmo da produção (não depende mais do trabalhador individual. que no modo de produção capitalista. pois está servindo como mercadoria de troca que possui seu valor de uso.138 uma produção artesanal23 para uma produção manufatureira é marcada pela valorização do capital. o aumento da jornada de trabalho (mais-valia absoluta). com a introdução da maquinaria e do avanço tecnológico no processo de produção que. Ocorre. ou seja. isto porque o capital ainda depende das habilidades que estavam presas ao homem artesanal. a manufatura representa um processo de trabalho que decompõe o trabalho artesanal e é. característico daquele período do nascimento da instituição carcerária. não havendo (ou havendo de forma muito precária) divisão do trabalho. destreza e força fossem transferidas a um objeto externo. especialmente a partir do século XII). tendo como característica principal a propriedade dos meios de produção. velocidade) do trabalho produzido em função de que é o objeto externo. de certa forma. houve uma revolução no modo de produzir pela emancipação da produção da riqueza da natureza físicobiológica dos homens. segundo Marx. em verdade. do artesanato. bem como no momento posterior caracterizado e denominado de fordismo. fazendo com que as referidas habilidades. proporcionando (ou possibilitando) um aumento da produção com o aumento da intensidade (quantidade. conseqüentemente. A partir do século XVIII (especificamente em 1776 – com o advento da Revolução Industrial). uma espécie de divisão do trabalho (cada artesão produzindo e trocando suas mercadorias. A subordinação real do trabalho ao capital ocorre. até então. mas sim do objeto externo) estendendo a massa trabalhadora explorada e. caracterizando. ainda. no entanto. mas sim com características sociais. independente (pois não está vinculado aos outros artesãos) e autônomo (proprietário privado de seu próprio trabalho) – ou de pequenas sociedades de pessoas livres. isto porque a mercadoria produzida no modo artesanal não é produzida para o uso do artesão. .

crianças) aos fins propostos pelo modo de produção (aumento da jornada de trabalho – mais-valia absoluta – ou diminuindo o tempo que a sociedade gasta para manter viva a capacidade de trabalho – mais-valia relativa). a prisão ocupou um espaço “privilegiado”: o disciplinamento dos excedentes necessários. então. isto porque para eles é importante saber como as práticas e relações de disciplinaridade que se originam no regime fabril chegaram a cobrir todo o terreno social como mecanismo de produção e de governo. entretanto era a própria sociedade que estava disciplinada a este modo de produção. 25 Analisando os clássicos da economia política. ou seja. com a subordinação real do trabalho ao capital. 24 Apesar das análises de Michael Foucault com a “disciplina” estarem relacionadas com a arquitetura institucional e a localização do seu poder (para ele não há uma fonte central mas formações capilares em seu ponto de exercício e as subjetividades são produzidas internalizando-a e realizando-a em suas práticas). impossibilitando ao indivíduo viver dentro das relações capitalistas provocando uma formação degenerativa da própria sociedade. . mulheres. tanto como assalariado. David Ricardo dizia que o indivíduo somente poderia viver a partir do salário ou do lucro e Marx confirma essa hipótese. como regime de produção social. ou seja. aditando. em seu processo produtivo (D-M {força de trabalho e modo de produção} -P-M´D´) a saída de mercadoria (já diferenciada e. ou seja. p. entretanto. Portanto. que se o modo de produção capitalista tem.139 toda mão-de-obra disponível (homens. uma vez que a mecanização produz o desemprego. quanto capitalista. mas também um alargamento da classe burguesa) e com isso é possível perceber uma constante reconfiguração das fronteiras dentro e fora do capital e. o mais importante aqui é notar a impossibilidade de viver dentro das relações produtivas capitalistas. elas tem íntimo vínculo com as preocupação de Michael Hardt e Antonio Negri (2004. Adam Smith dizia que a pessoa somente poderia viver a partir do salário. uma mãode-obra abundante que precisava ser adestrada. é o que se poderia chamar de uma sociedade capitalista cujo critério de produção determinante24 é organizado pelo tempo excedente. 476). Cumpre entender. por isso vivemos num mundo de aparência de produção de mercadoria) tem também a produção de relações capitalistas burguesas (isto porque há uma expansão da classe assalariada. a própria sociedade produz mais negação (exclusão) do que afirmação (inclusão) produzindo cada vez mais a exclusão social. que estas condições vão causando a impossibilidade de viver. ou seja. ou seja. lucro ou renda da terra. por fim. isto é. isto porque há um aumento da composição orgânica do capital (relação Máquina X Homem) impedindo ao indivíduo de viver como assalariado25. proporcionando uma maior fragmentação do indivíduo. sai também a negação das próprias relações burguesas. a transformação do trabalho em capital produtivo excedente.

o que se encontra são resultados da fragmentação de diversas etapas do processo do trabalho (etapas do processo de produção) separadas geograficamente. part-time) em diversas partes do mundo. “há uma crescente redução do proletariado fabril.140 É exatamente neste processo (contraditório) de expansão que o capital buscará ultrapassar novas fronteiras. enquanto na Alemanha e outros países de capitalismo avançado. busca-se a alta exploração do trabalho. simplesmente. da expansão e busca de mercados globais (mundiais). fortemente. não pode. flexibilização e desconcentração do espaço físico produtivo” (2005. ou seja. para se diminuir o tempo que a sociedade gasta para manter viva a capacidade de trabalho de um indivíduo trabalhador assalariado (mais-valia relativa) é necessário um intenso processo de subjetivação que é encontrado. p. A disciplina é o mecanismo central dessa transformação”. conforme as características locais e que determinam um mesmo produto.primeiro.segundo. ou seja. constituindo a tendência de que fala Marx do mercado mundial. mas . que se desenvolveu na vigência do binômio taylorismo/fordismo e que permanece diminuindo com a reestruturação. portanto. Para Hardt e Negri (2004. Inicialmente estes trabalhadores eram imigrantes. a localidade passa a ser uma singularidade de uma universalidade imposta pelo capital (na China e em países do terceiro mundo. por exemplo. p. 276) “a realização do mercado mundial e da equiparação real. São processos de trabalho fundamentais para produzir riquezas que articulam diversas atividades geograficamente distintas. como os terceirizados. no processo de desenvolvimento do capital. 169) . “há um incremento do subproletariado fabril e de serviços” (trabalho precarizado. na disciplina dos modelos fordista e taylorista de produção. a alta tecnologia) gerando nessas localidades uma necessidade de um tipo de trabalho e de controle diferenciados. subcontratados. as conseqüências da adoção dos novos processos de produção do trabalho e dos novos mecanismos de controle? Ricardo Antunes aponta sete importantes conseqüências dessas transformações nos processos de produção e de trabalho: . Ademais. ou pelo menos da administração de margens de lucro em escala mundial. resultar de fatores financeiros ou monetários. Quais são. mas precisa ser conseguida pela transformação das relações sociais e de produção.

dificilmente conseguem requalificar-se e reingressar-se (2005. fundamentalmente pela imposição do disciplinamento como critério de subjetivação à produção e reprodução do capital. 170). “incremento dos assalariados médios e de serviços” e. 169). à semelhança da fábrica – esta como mecanismo mais adequado à realização do capital. uma vez excluídos do trabalho. tornando-se funcionalmente aptos no momento em que havia corpos a serem ‘docilizados’ – perdem. 169/170). preferencialmente. p. no momento de reprodução ampliada (do incipiente modo de produção capitalista). em conseqüência. . exclusão de jovens e daqueles com idade a partir de 40 anos: os jovens aderindo aos movimentos neonazistas e os “velhos”. contribuindo à intensa utilização do trabalho precarizado (2005. expansão. de certa forma. “inclusão precoce e criminosa de crianças no mercado de trabalho” (2005.quarto. - terceiro. . George Rusche e Otto Kirchheimer (Pena e estrutura social). 170). 26 É bom lembrar que a prisão (não só. sua missão originária na contemporaneidade flexível a partir do momento da subordinação real do trabalho ao capital. 169). aumento do trabalho feminino. como tecnologia de repressão e dispositivo ideológico.sétimo. . os novos métodos de controle e a prisão por excelência26 – que teve sua função plenamente delimitada. principalmente pelas historiografias de autores como Michael Foucault (Vigiar e Punir). “um aumento no sindicalismo desses setores” (2005. tanto em razão de sua capacidade de subordinar realmente o trabalho ao capital. . no qual “os trabalhadores de diversas partes do mundo participam do processo de produção e de serviços”. p. como também porque pressupõe intensos processos de subjetivação e imposição de desejos – foi capaz de exercer e se apresentar historicamente como principal instrumento à finalidade de controle social. Por outro lado. . A dimensão política dos sistemas de controle podem ser caracterizadas em dois momentos distintos: a) aquele do disciplinamento (adestramento) dos corpos na fábrica.141 hoje atinge também aqueles especializados e remanescentes da era tayloristafordista (2005. Dario Melossi e Massimo Pavarini (Cárcere e Fábrica).sexto. do que Marx denominou de trabalho social combinado. pelo trabalho precarizado e desregulamentado (2005. p. p. 169).quinto. p. p. absorvido. mas principalmente).

por exemplo)27. 18). munições. chips de controle. por exemplo. etc. passam a determinar. Os sistemas repressivos. a venda de equipamentos policiais (armamentos – armas. pois recordando a linha de pesquisa utilizada por George Rusche e Otto Kirchheimer em 1929. em que demonstraram a relação entre cárcere e fábrica e propuseram a tese (do ponto de vista criminológico crítico) de que cada sistema de produção descobre o sistema de punição que corresponde às suas relações produtivas (1999. equipamentos de vigilância e controle tais como pulseiras. a necessidade de um sistema penal cada vez mais efetivo (leia-se autoritário). da contemporaneidade. a partir das estratégias de controle da vida dos corpos. é preciso analisar os processos de transformação da produção.. blindagem de carros.). tecnologia de busca e identificação de pessoas (banco de DNA. como as privatizações dos presídios. portanto. o proletariado (uma classe de assalariados) e. informatização. p. câmeras de segurança. . coletes – veículos. rastreadores.142 que eram necessários ao trabalho. através da constituição do medo e da indução de práticas. etc. e os lucros a partir da venda de instrumentos de segurança (empresas de segurança privada. b) este. alterando 27 A identificação via DNA das pessoas também pode ser objeto de outra análise bem interessante. especialmente com o aparecimento do novo proletariado e os processos de subjetivação para entender seus relacionamentos com o funcionamento seletivo do sistema punitivo e sua afetação nas estratégias de controle social. especialmente aqueles dotados de interesses financeiros como. presentes ao período da acumulação flexível. bem como os mecanismos pelos quais se busca o controle total da vida dos corpos. a identificação de pessoas com deficiências genéticas que possam representar prejuízos aos empregadores (as empresas negam um posto de trabalho àqueles que possuem defeitos genéticos) ou de empresas de seguro (as quais negam seguro àqueles que possuem doenças geneticamente identificáveis). de mecanismos produtivos específicos. chegando-se ao ponto da imposição de um controle mais intenso e efetivo da vida. treinamento. produzindo. como aquelas que apontam como um dos mais notáveis mecanismos de controle social. etc. as condições econômico-sociais sofreram profundas metamorfoses. É exatamente este o sentido em que o cárcere permanece vivo. configurando-se um dos fenômenos mais impressionantes à expansão do capital.). pois ainda que as características da força de trabalho tenham mudado tão radicalmente (não havendo mais a grande necessidade do adestramento dos corpos).

não mais (ou. da precariedade e insegurança impostas à força de trabalho na nova economia flexível. cognoscível independentemente da pessoa que o observa. Entretanto. principalmente norte-americanas. unidos por uma lógica ou regra única” que chamaram de Império. ou seja. se relaciona perfeitamente à nova realidade do mercado de trabalho. perspectiva ou teoria do interacionismo simbólico. a realidade só existe na medida em que é interpretada e em conseqüência apreendida. a característica fundamental que é a ausência de fronteiras determina. rotulação ou ainda por paradigma da “reação social”. composta de uma série de organismos nacionais e supranacionais. utilizando-se dos dispositivos e tecnologias de controle para. revitalizar-se em razão das condições de exploração da mão-de-obra. também. a partir dos anos 60 do século XX – especialmente a “Teoria do Etiquetamento”29. ou da definição. fábrica e controle social Com o desenvolvimento das teorias críticas da sociologia. ao contrário. sendo. labelling approach. por ter proporcionado uma diminuição gradual da soberania dos Estados-Nação. p. uma realidade variável. ao ver o mundo como uma realidade em si. Assim. Outro aspecto importante é que o processo cognoscitivo é construído a partir da subjetividade do observador. . etiquetamento.143 também a função das estratégias de controle. Hardt e Negri (2004. do controle. 30 ANIYAR DE CASTRO (1983. 6) identifica que para o construtivismo social as observações estão baseadas em construções mentais. potencializando o surgimento de classes (ou subclasses) discriminadas. possibilitando assim. o interacionismo simbólico e da etnometodologia30 – representando as novas formas de eugenia. estabelecendo íntima relação entre sistema penal e o modo de produção capitalista. “a soberania tomou nova forma. fundada a partir de duas correntes fenomenológicas. ou seja. 4. principalmente em função da produção de uma enorme massa de excluídos. 28 Avaliando as transformações e a transição da modernidade ao pós-modernismo. a inexistência de limites ao exercício do poder. não somente) disciplinar corpos. p. O construtivismo opõe-se ao positivismo. portanto. 12-15) partem da constatação de que a globalização. para eles não há um lugar definido como centro do poder mas.2 A economia política da pena: a relação entre sistema prisional. isto porque agora o capital além de utilizar os instrumentos proporcionados pela nova soberania28 (em função das alterações do modo de produção capitalista). o direcionamento de políticas penais cada vez mais de caráter excepcional. mas. ou seja. uma realidade estática. 29 É de se salientar que esta matriz criminológica é designada na literatura alternativa e sinonimamente por enfoque. faz com que estes tenham também perdido sua capacidade de regular os fluxos de produção e troca (econômicas e culturais) e sua autoridade sobre a economia. na verdade. dizem que (como hipótese básica). o objeto do governo do Império “é a própria vida social como um todo” e assim ele “se apresenta como forma paradigmática de biopoder”.

DE GIORGI. os quais negam o mito do direito penal igualitário. de “uma análise capaz de examinar criticamente os labellers (as instituições e as estratégias do poder punitivo) e também os labelled (aqueles que são os destinatários imediatos dos labellers)33 (Cf. então.)di un’analisi capace cioè de isaminare criticamente i labellers( le instituzioni e le strategie del potere punitivo) oltre che i labelled (coloro che ne sono i destinatari immediati).. a partir desse momento – com a recepção do labelling approach e das teorias do conflito.144 desenvolvem-se novas formas de conhecimento criminológico com a finalidade de explicar os problemas sociais de maneira diferente daquelas apresentadas pelo paradigma etiológico-determinista. 38)32 A criminologia crítica inicia. 200 – 202). seus mecanismos de criminalização. pretendendo construir uma teoria econômico-social dos comportamentos socialmente negativos e da criminalização. ou seja. sim. Para entender os argumentos. isto é. o que produz uma ruptura metodológica e epistemológica com a criminologia tradicional. ossia la formazione di paradigmi di analisi capaci di interrogare criticamente le dinamiche di reazione sociale e instituzionale nei confronti della devianza. etc..” 33 “(. a origem do sistema de controle. Partindo do pressuposto materialista é que. a partir do final da década de 60 e início dos 70. 39) a investigação da criminologia crítica segue em duas direções: a primeira é constituída por um estudos históricos que descrevem o papel exercido pelos sistemas produtivos na afirmação histórica das relações de produção capitalistas. em outras palavras. 2002. o que dificultou “por longo tempo a elaboração de uma teoria do controle social. Uma história da pena.. 32 “(. sua estrutura. no âmbito da sociologia criminal – o desenvolvimento da dimensão do poder. a análise teórica da criminologia crítica (de cunho materialista) pretendeu examinar. a formação de paradigmas de análises capazes de interrogar criticamente a dinâmica da reação social e institucional no confronto em relação ao desvio” (Cf. pp. essencialmente em função da incapacidade desta em explicar o fenômeno criminal. Para De Giorgi (2002. 38). p. numa perspectiva materialista da análise dos processos institucionais de controle do desvio. que até aquele momento era representada como um progresso contínuo da civilização jurídica em direção 31 As teorias fundadas no paradigma da reação social promovem a reconstrução dos diversos princípios da ideologia da defesa social. suas reais funções. p. como o ‘princípio da legitimidade’. DE GIORGI. promovendo a negação da ideologia da defesa social31. p. 2002. ‘princípio do bem e do mal’.) per lungo tempo lélaborazione di reorie del controllo sociale." . seus mecanismos de seleção ou.. importante observar Andrade (1997.

como poder de classe e instituição de controle. sobre a identidade da pena com o mercado de trabalho.34 Sob este novo enfoque.145 à racionalidade e à humanização da punição. Já a segunda direção de investigação se orienta para as práticas contemporâneas dos sistemas de controle e. contribui para ocultar as contradições internas ao sistema de produção capitalista. sobretudo. o direito 34 “La prima à constituita da un insieme di studi storici che descrivono il ruolo esercitato daí sistemi punitivi dell`affermazione storica dei rapporti di produzione capitalistici. do dispositivo carcerário. especialmente pelo desenvolvimento das forças produtivas e as relações dali originadas. toda caracterização trazida pela criminologia clássica fica à deriva. em relação ao funcionamento do mercado de trabalho nas sociedades industrializadas. para Pasukanis. em particular. O Direito Penal. la famiglia) che si consolidano stocicamente in funzione della conservazione dei rapporti di classe dominanti”. através da análise das transformações econômicas. no papel desempenhado pelos aparelhos repressivos em relação às dinâmicas econômicas atuais e. p. B. La secontda direzione di indagine si orienta invece verso le pratriche contemporanee dei sistemi di controlle e soprattutto del dispositivo carcerario: ‘analise si concentra Qui sul ruolo esecitato dagli apparati repressivi rispetto alle dinamiche economiche attuali e in particolare rispetto al funzionamento del mercato del lavoro nelle società industrializzate. Una storia della pena che sino a quel momento veniva rappresentata come un progresso continuo della civiltà giuridica verso la razionalità e l’umanizzazione della punizione. é substituído por um modelo dinâmico e contínuo que busca. caracteristicamente baseado num modelo estático e descontínuo de abordagem do comportamento desviante. o Estado. Para De Giorgi (2202. 40) “a penalidade se inscreve num conjunto de instituições jurídicas. pois seu objeto. politiche e sociali (il diritto. Esta leitura da “economia política da pena” tem importância fundamental para entender o motivo “jurídico” da proporcionalidade entre dano ao bem tutelado e pena (punição medida em tempo) aplicada. políticas e sociais (o direito. agora é descrita como uma concatenação de estratégias com as quais a ordem capitalista impôs. no tempo. . inaugurada pelo pensamento de E. ora viene descritta come una concatenazione di strategie com le quali ‘ordine capitalistico há imposto nel tempo le proprie peculiari forme di subordinazione e repressine di classe. lo stato. Pasukanis. mais especificamente sobre o direito como forma necessária à consecução dos objetivos da sociedade capitalista. Esta orientação. seria preciso. A análise se concentra. entender os mecanismos de controle social. a cientifização do conhecimento do controle do desvio. que se consolidam historicamente em função da manutenção das relações de classe dominantes”35.” 35 “La penalità si inscrive cioè in un complesso di istituzioni giuridiche. é trazida com a análise do entendimento sobre o direito. Assim é que. suas formas peculiares de subordinação e repressão de classe. aqui. a família). ou seja. para preservação das bases materiais à dominação.

então. é dizer.146 penal (e a pena) deve ser. É necessário fazer. uma sociedade de classes que. “de fenômeno puramente biológico. A proporção entre delito e separação igualmente se reduz a uma proporção de troca” (1989. Isto é possível ser visto no sistema penal quando o elemento de troca equivalente do dano produzido à vítima é a vingança. ou seja. o delito pode ser considerado como um contrato mercantil. p. de controle e de exclusão social. ou seja. PASUKANIS. 146). em sua essência. portanto. Não é preciso. basta à consecução da vingança. isto porque se é verdade que este sistema nada mais é do que um aparelho reprodutor das desigualdades sociais. p. Esta representação fixa. como diz Menegat (2003. as segundas abrangem “as diferentes modalidades de delito. primeiramente. ou “uma variedade particular de circulação. é fixada pela ação arbitrária de uma das partes. à satisfação do desejo para que a vítima (direta.) parte da elaboração teórica de Aristóteles sobre a “igualitarização na troca” para chegar ao princípio de retribuição de equivalentes. familiares ou mesmo a sociedade) sinta-se correspondida. visto sobre o pano de fundo da equivalência. etc. o exato equivalente ao dano produzido. da troca mensurada por valores” (Cf. a relação contratual. como a possibilidade de realizar a troca. sem dúvida isso é resultado do tipo de sociedade produzida pelo modo de produção capitalista. sem que esta (troca) esteja absolutamente suplantada pela reparação. conseqüência direta das políticas penais impostas à garantia do modo de produção. os limites do sistema penal.. a idéia puramente jurídica. suas fontes são encontradas na forma mercantil das relações sociais. 1989. venda. Pasukanis (1989. 147). 146 e segs. precisamente no momento em que relaciona a idéia jurídica de equivalência. ou seja. a vingança se transforma em instituição jurídica desde que se liga à forma de troca equivalente. p. A contribuição de maior relevância trazida neste texto de Pasukanis é sua percepção e análise que faz da relação entre equivalente e valor. que acarretam sanções a título de equivalentes específicos”. portanto. mas . uma distinção inicial entre igualitarizações voluntárias e involuntárias: enquanto as primeiras envolvem as relações de compra. produz desigualdades e exploração ou. Para ele. p. o qual servirá como autêntico mecanismo de repressão e contenção das massas excluídas e revoltosas. 219) “a barbárie não é inevitável. Esta é a medida imposta pelo sistema penal à sociedade. ou melhor. na qual a relação de troca.

burguês-capitalista. Neste sentido é que Pasukanis afirma (1989. isto porque esta troca está encoberta sob o pano de fundo dos contratos. (. ganhando. Fazendo parte da superestrutura jurídica. mais tarde pela composição e. 158): A pena proporcional à culpa representa fundamentalmente o mesmo que a reparação proporcional ao dano. se consolida como retribuição equivalente medida pelo tempo de liberdade suprimida – conforme o critério de valor da sociedade capitalista” (grifos no original). o Direito Penal submete à sociedade a esta forma de troca de equivalentes. diretamente. . resultando na idéia de responsabilidade penal como meio de reparação ao dano provocado. por um certo período de tempo é a forma específica pela qual o direito penal moderno. 22). “a importância da teoria de PASUKANIS está em situar a retribuição equivalente no fecho da transição histórica do ‘sujeito zoológico’ da vingança de sangue para o ‘sujeito jurídico’ da pena proporcional: a troca igual exclui a vingança posterior. portanto “necessário que todas as formas concretas de riqueza social estivessem reduzidas à forma mais abstrata e mais simples – o trabalho humano medido em tempo” (Cf.) A privação da liberdade.. PASUKANIS.147 é a conseqüência lógico-histórica do livre desenvolvimento do capital”. Esta forma está inconscientemente.. p. 153). pois. 1989. Para Cirino dos Santos (2005. Importante contribuição é dada por Dario Melossi e Juarez Cirino dos Santos ao interpretarem a análise feita por Pasukanis sobre a identidade da pena com o mercado de trabalho. 159). ditada pela sentença do tribunal. p. finalmente. p. primeiro pelo talião. ligada à representação do homem abstrato e do trabalho humano abstrato avaliados em tempo. embora profundamente. as relações sociais existentes sendo. a conformação jurídica. Assim é que a relação entre reparação do dano e tempo do indivíduo pode influenciar. Pasukanis mostra que a luta pela sobrevivência (ele traz o exemplo da legítima defesa) assume a condição jurídica quando se introduz o princípio da equivalência. p. realiza o princípio da reparação equivalente. É exatamente neste sentido que Pasukanis diz que “somente o desaparecimento completo das classes permitirá criar um sistema penal do qual será excluído qualquer elemento de antagonismo de classe” (1989.

Neste momento histórico. no sentido de valor de troca que realiza o princípio da igualdade do Direito. permitindo. isto porque as relações existentes no modo de produção capitalista evidenciam esta desigualdade porque está. de um lado. a relação entre punição e mercadoria como fenômenos de troca de equivalências. fomentar a constituição e manutenção estrutural da escala vertical da sociedade. portanto. de um lado. 22) a percepção da “pena como retribuição equivalente da sociedade capitalista. conforme Juarez Cirino dos Santos (2005. que reduz toda riqueza social ao trabalho abstrato medido pelo tempo. apta a produzir “corpos dóceis e úteis” – para utilizar a linguagem de Michael Foucault – como também o sistema de produção capitalista (no qual a fábrica é a referência mais contundente) e a idéia de salário como compensação exata e equivalente do trabalho realizado.148 Aqui reside outro ponto fundamental na discussão da “economia política da pena”. como fundamento do modo de produção capitalista. Assim é que o sistema penal (em especial a instituição da prisão) revela seu viés ideológico ao demonstrar seu objetivo. a análise econômica da extração da mais-valia. a análise jurídica da pena como correspondência entre o dano praticado e o tempo de permanência na prisão. de produzir uma massa de excluídos e marginalizados do sistema. na maioria das vezes oculto. p. e recomposta (como equivalente) pelo salário recebido pelo trabalhador e. resultando. de outro. na verdade. É muito interessante perceber. qual seja. medido pelo tempo. a função desempenhada pela prisão foi. “ligada estruturalmente à separação entre . aos moldes do condenado aos estigmas da prisão. deixando velada a expropriação da mais-valia e a subordinação e dependência do trabalhador ao sistema produtivo. o critério geral do valor na economia e no Direito”. corresponde à troca de força de trabalho pelo equivalente salarial no mercado. criando os sujeitos desta relação. ocultando (mais uma vez) o caráter instrumental da prisão e o falso pressuposto da existência de sujeitos livres. contudo. ao produzir as desigualdades. sob o ponto de vista da dialética marxista. deixando-se velada. sem dúvida. representando a valoração da força de trabalho. a correspondência entre. tanto a noção de prisão como instituição total. no aprisionamento do trabalhador à fábrica. A conseqüência dessa análise é. configurar a imagem necessária da exata equivalência da pena – medida pelo tempo de liberdade suprimido do indivíduo – com o dano produzido ao “bem jurídico tutelado”.

durante os séculos XV e XVI.) ligada estructuralmente a la separación de la propiedad de la fuerza de trabajo de la de los medios de producción.. para a realização de seus objetivos. pela estrutura de poder que assumiu o modelo da fábrica” (Cf. no mais das vezes. com a ajuda da máquina legislativa e administrativa. identificar. al control total del individuo requerido por el régimen de trabajo en la fábrica y más de la estructura de poder. p. 4. em uma brevíssima referência histórica. Esta relação é possível.” . ademais. que proporcionou o aparecimento da ‘vagabundagem’ – constatou-se que a pena serviu. foi possível dar uma explicação materialista da origem da prisão. através da docilização e adestramento dos corpos. dentro dos propósitos da pesquisa. en una sociedad que ha asumido el modelo de la fábrica. y de otra parte. em toda a Europa. 1993 a. 741)36. ao disciplinamento à nova condição que se apresentava aos proletários emergentes (aqueles camponeses expulsos de suas terras.3. ao conectar os processos de produção fabril e a finalidade de coisificar o indivíduo. a la disciplina. a relação entre cárcere e fábrica. que nada mais tinham a não ser sua força de trabalho). pois a partir do nascimento da burguesia do Estado monárquico absolutista – e o surgimento. relacionando o surgimento do capitalismo com as penas privativas de liberdade. A sociedade contemporânea como sociedade de controle É perfeitamente possível. as estratégias de poder da contemporaneidade como sociedades de controle.149 propriedade da força de trabalho e dos meios de produção e. o Estado utilizou os contingentes de força de trabalho.. Através de diversas pesquisas realizadas com este objetivo (relação entre cárcere e fábrica). No mesmo sentido Dario Melossi e Massimo Pavarini (1987. p. à disciplina. como visto. p. tendo como um de seus marcos mais importantes. ao controle total do indivíduo requerido pelo regime de trabalho na fábrica e. Rusche e Kirchheimeir (1984. de uma legislação extremamente cruel. BARATTA. que encontrou à sua disposição. de outro lado. relacionando-as ao modo de produção vigente e à idéia de disciplina. 46) afirmam que a adoção de um método mais humano de repressão e a instituição das casas de correção constituíram o resultado de uma mudança das condições econômicas e. 19) 36 Tradução livre do autor da presente pesquisa: “(.

aos postulados já levantados nas obras de Rusche e Kirchheimer. por excelência. em Vigiar e Punir. 1987. Assim é que. treinar seus corpos. segundo o qual a prisão se constituiu fora do aparelho judiciário. os mecanismos punitivos teriam como papel trazer mão-de-obra suplementar – e constituir uma escravidão ‘civil’ ao lado da que é fornecida pelas guerras ou pelo comércio” (Cf. Foucault. a prisão surgiu no tempo com finalidade não judicial. ou seja. como afirma Alessandro Baratta (1983 a. tirar-lhes o máximo de tempo e forças. sobremaneira. muito mais do que isso. p. É diante do modo de produção capitalista e da “fabricação” de indivíduos desiguais que resulta. supostamente. classificá-los. no recrutamento de indivíduos marginalizados (excluídos e diferenciados) pelo sistema penal tem propósitos determinados. 1987. pois os autores conseguiram estabelecer “a relação entre os vários regimes punitivos e os sistemas de produção em que se efetuam: assim. passou a existir no momento em que foram elaborados os processos para repartir os indivíduos. codificar seu comportamento contínuo. contribuindo. dentro e fora da lógica do mercado de trabalho. p. de certa forma. Como visto. p. o cárcere representa a consagração definitiva de uma carreira criminal e. mantê-los numa visibilidade sem lacuna. a criação de situações de fato que disciplina e obriga os incluídos no sistema . e de Melossi e Pavarini e de Michael Foucault. 27). mas a origem da instituição carcerária. Foucault enaltece o valor da pesquisa de Rusche e Kircheimer. A análise é muito mais funcional do que física/estrutural. encontrando-a no capitalismo e na conseqüente aparição do proletariado. através de um trabalho preciso sobre seu corpo. A forma geral de uma aparelhagem para tornar os indivíduos dóceis e úteis. criou a instituição-prisão. ou seja. a investigação apontou que tais transformações ocorreram a partir da mudança do modo de produção feudal para o modo de produção capitalista. formar em torno deles um aparelho completo de observação. numa economia servil. 743. uma vez que a mesma é lídima para exortar a tradicional ilusão de que a penalidade seria uma modalidade de reprimir os delitos. constituir sobre eles um saber que se acumula e se centraliza. 626). eles buscaram não a primeira construção física de privação de liberdade. antes que a lei a definisse como pena. pois. a resposta de uma sociedade honesta a uma minoria criminosa.150 fizeram a análise também a partir da relação capital/trabalho. fixálos e distribuí-los espacialmente. ou seja. registro e anotações. é dizer.

família). asilos. analisar e circunscrever as sociedades disciplinares dos séculos XVIII e XIX e verificar sua origem dos meios de confinamento (hospitais. em função de encontrarmo-nos numa “crise generalizada de todos os meios de confinamento”. e perceber também que este modelo de sociedade (disciplinar) teria sido sucessora de uma sociedade de soberania e que. etc. escolas. exemplarmente. da ocorrência de todos os tipos de violência. sistema carcerário. que marca o acesso ou a rejeição à informação. viver. mais importante.) e suas conseqüências. opressão e dominação via capital. isto porque é o próprio sistema punitivo que se apresenta como violência útil do ponto de vista da reprodução do sistema social existente e. prisões. O funcionar do sistema penal tem sua lógica social invertida a partir do momento em que não cumpre as suas determinações prometidas (pois sua estrutura e modo de funcionamento são inadequados para desenvolver as funções declaradas pela ideologia da defesa social e utilitárias da pena). p. O questionamento. está muito além da lógica da disciplina: o que se pode esperar. contribuindo. ao ingressar na prisão. e o número de matrícula que indica sua posição numa massa”. portanto. pp. uma vez que o indivíduo. Para Deleuze (1990. portanto. 222). como descreve Deleuze (1992. ao mesmo tempo. as quais “substituiriam” aquelas. o disciplinamento das subjetividades. que deve nos nortear de agora em diante. menos desejosos e muito mais que disciplinados. massificante e individuante. fábricas. ou seja. que atravessam nossa sociedade? É possível. culturais. através de Foucault. estaríamos em um momento de instalação de novas forças denominadas sociedades de controle. etc. mas cumpre. na contemporaneidade. permitindo ao poder ser. As . com a finalidade de manutenção das relações de produção e distribuição desigual de recursos. enquanto nas sociedades de controle o essencial é a cifra. sentirem-se pertencerem à situação de desigualdade que lhes é apresentada.). e. torna-se mais vulnerável aos efeitos da estigmatização. do interesse dos detentores do poder. 220). em função das características pretensamente universais das globalizações (econômicas.151 penal a se programar. da relação entre modo de produção e sistema penal (Políticas de Segurança Pública. políticas. sensivelmente. as sociedades disciplinares são caracterizadas por dois pólos: a “assinatura que indica o indivíduo. à fabricação de novos sujeitos mais flexíveis. tanto material quanto simbólica.

as penas são substituídas pela utilização de chips e coleiras de localização. p. diante da lógica da sociedade contemporânea de controle. por exemplo. no capitalismo contemporâneo a produção é relegada ao Terceiro Mundo.). numerosos demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras. uma verdadeira adequação do modo de produção às novas necessidades. uma mutação do capitalismo” (Cf. p. Diferentemente das antigas sociedades (com maquinaria mais simples). mas também a explosão dos guetos e favelas”. tinha o capitalista como proprietário dos meios de produção e o mercado conquistado por especialização. DELEUZE. Em sua análise. A crise da sociedade disciplinar permitiu antever (e hoje isto é uma realidade) a substituição dos mecanismos disciplinares – especialmente o confinamento – pela implantação dos instrumentos controladores: no regime do sistema penal e nas prisões (mais ainda). voltado à produção e de propriedade. colonização ou por redução dos custos de produção. ou seja. ou seja. Isto reflete que “não é uma evolução tecnológica sem ser. 223). a fábrica erigida como o instrumento adequado à realização do capital. mas sim em função de que é a própria forma social que faz refletir o modo pelo qual ela será desenvolvida. O indivíduo é apenas um (indivisível) na estatística. isto porque deixa de existir o indivíduo para realizar o dado. Continua Deleuze dizendo que. etc. e a massa passa a ser uma amostra. as sociedades disciplinares dispunham de “equipamentos máquinas energéticas” enquanto nas sociedade de controle os computadores estão em evidência. 224-225). pobres demais para a dívida. de empresas. 1990. mas a compra é do próprio produto acabado ou de forma fragmentada para montá-lo). mais profundamente. não porque as máquinas sejam determinantes. é um capitalismo de sobre-produção (não há compra de matéria-prima para vender o produto acabado. o capitalismo conseguiu produzir e “manter como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade. pelo monitoramento das cidades com câmeras de grande amplitude (o mesmo ocorrendo nos regimes das escolas. o que nos permite compreender e perceber a . no qual o que se pretende é vender serviços e o que se quer comprar são ações.152 conseqüências são marcantes. Deleuze mostra que a transição capitalista do século XIX à contemporaneidade também corresponde (como não poderia deixar de ser) ao modelo de sociedade vigente. enquanto o capitalismo do século XIX era de concentração. dos hospitais. Para Deleuze (1990.

assegurando a obediência dos indivíduos sem a utilização da força. Como visto. se dá. O controle. “no sentido de uma aceitação social de uma determinada ordem vigente que gera um alto grau de consenso e consentimento”. p. torna-se muito difícil o controle das massas. 2004 b.1. a concepção teológica medieval (o poder emana de Deus) e a concepção moderna contratual (principalmente em Hobbes e Rousseau). p. hoje. como apresenta Castor Ruiz (2004 b. 44). A legitimação da dominação pelo controle Assim. mas sim pela indução das práticas individuais. deve ser melhor analisado. é preciso fazer uma pequena ponderação de ordem metodológica em relação ao uso do termo “legitimação”. como dominação legítima. Deixaremos de lado o conceito de “legitimação” em seu sentido jurídico e nos fixaremos. RUIZ. uma vez que o “sinuoso do poder manifesta-se na potencialidade que ele tem de imbricar-se com a dominação e desenvolver-se como dominação legítima” e este poder de controle. isto porque “as múltiplas faces do poder lhe permitem inserir-se coativamente nas práticas de dominação sem ser percebido como coação” demonstrando a capacidade de transmutação que o poder tem e que lhe confere um roupagem de legitimidade (Cf.153 razão da “necessidade” de se ter crises nas instituições: “implantação progressiva e dispersa de um novo paradigma de dominação”. as pessoas sentem-se controlados pela possibilidade de estarem . não é possível compreender o tema da legitimidade sem levar em consideração o fundamento do poder e ultrapassar as concepções tradicionais sobre a origem do poder: o pensamento naturalista grego (poder de origem natural). autoritarismo ou pela violência. não mais pela força. 44). tornando-o cada vez mais difuso e intenso (ao contrário de extenso) ou seja. 4.3. isto porque é preciso definir seu conceito a fim de introduzir o tema da dominação. antes mesmo de proceder a análise da legitimação da dominação pelo controle e investigar sua conseqüências (no próximo ponto). Diante da fluidez proporcionada pela fragmentação dos indivíduos e flexibilização do sistema produtivo na contemporaneidade. numa linguagem própria das ciências sociais.

e a criação dos modos. a indiferença. apesar da defasagem cronológica (século XVIII e XIX respectivamente). o que se percebe é a alteração que ocorre na sociedade contemporânea.154 sendo vigiadas continua e permanentemente. do reconhecimento da existência (ou não) de outra cultura. exploração infantil. de se reconhecer ou não a exclusão. não pelo autoritarismo. qual é o limite desse controle? Serve a quem este controle? Tentemos responder estas perguntas. É preciso que todos se sintam muito mais que dominados. o dano ambiental. os pressupostos de produção e reprodução do capital (que levam à busca do mercado mundial global) é o responsável pela busca incessante. pp.3. É esta instância – o domínio do mercado – que terá o monopólio da produção normativa e o centro das decisões políticas que determinará a existência ou não. de outro lugar e outras pessoas. exploração sexual. a injustiça. 4. a violência. etc. Definitivamente. do certo e do errado. É exatamente esta busca que determina os parâmetros legais (de legitimação) das proibições e das permissões. uma vez que este controle não projeta sombras definidas pois seu espectro está muito disseminado nos diversos dispositivos de controle e poder. Afinal. pela produção de subjetividades. estamos vivendo um paradigma cuja dominação é exercida. a pobreza. pelos quais os indivíduos realizam suas necessidades. são categorias sobrepostas. ou seja. uma vez que estamos presenciando uma nova revolução copernicana. mas se implementa pela tentativa de indução da produção dos desejos. permitindo que estes dispositivos produzam necessidades as quais equivalem aos objetivos estruturais do modo de produção da sociedade.2. a possibilidade ou não. mas pensando que fazem parte do sistema e pensando conforme o sistema. no mais das vezes. pela força ou violência física. especialmente em relação às tecnologias de poder. As tecnologias de poder e as formas de controle Para Foucault (1999. 297/299) são duas tecnologias de poder – tecnologia disciplinar do corpo e tecnologia regulamentadora da vida – que. pela destruição da divulgação dos conflitos. a exploração do trabalho. pois como não estão no mesmo nível (são dois conjuntos . a necessidade ou não. Assim.

tomando-se como exemplo o caso do Estado nazista. ou seja. denunciar e caindo assim numa trágica contradição performativa” (2003. Agamben aponta como característica principal dessa guerra civil legal. especialmente quando a referência estiver sendo tratada do “domínio totalitário”. em torno desses corpos individuais. o poder pelo qual a legitimada instância terá condições de decidir sobre direitos fundamentais do indivíduo. mas sempre através dos processos de subjetivação na tentativa da indução das práticas . p. o Decreto para a proteção do povo e do Estado. num segundo momento (a partir da segunda metade do século XVIII). a possibilidade de 37 No item 4. sem excluir a tecnologia disciplinar. ou seja. pretendendo dar significado mais preciso ao termo. este significará. relativa a certas categorias determinadas. a se tornar como modelo de governo. de todo um campo de visibilidade e. os quais desempenham fundamental papel nos objetivos de controle e dominação. cada vez mais. e da guerra total. que suspendia os artigos da Constituição de Weimar relativos às liberdades individuais”. em especial à vida política. Para Agamben isto pode ser definido como a instauração. questionando se a “teoria costumeira do totalitarismo não terá se transformado ela própria numa ideologia de guerra. da força e do medo. acentuadamente analisada por Giogio Agamben. podendo ser caracterizado como o totalitarismo38 moderno. 76). demonstrando que este modelo de interferência Estatal tende. a incluir a vida dos homens aos cálculos de poder e a política se transforma em biopolítica e biopoder37. tendo em vista que seu defeito fundamental seria o de “transformar uma descrição empírica.1 do Capítulo IV da presente pesquisa (Os novos espaços e as novas estratégias de poder: o biopoder). sua crítica reside na forma que se pretende disseminar o conceito de “totalitarismo”. razão pela qual propõe sua redefinição. 12/13) afirma.155 de mecanismos. está diretamente relacionada com as novas formas de controle e indiferenciação do sujeito. aos propósitos da presente pesquisa. numa redução lógica de caráter geral” (2003. não se excluem e podem ser articuladas uma a outra. essa técnica de poder passa. 79). contribuindo a alimentar ulteriormente os horrores que pretende. aduzindo ser uma categoria polissêmica. utilizando-se da violência. p. 38 Cabe aqui uma breve reflexão sobre a categoria “totalitarismo”. especificamente o direito sobre a vida e a liberdade. Assim. Por isso. no dia 28 de fevereiro. num primeiro momento (final do século XVII e início do XVIII) uma tecnologia disciplinar que cumpre a função de assegurar a distribuição espacial dos corpos individuais e a organização. isto porque é possível dar a ela diversas definições como o faz Domenico Losurdo em uma importante crítica. um disciplinar e outro regulamentador). p.2. no entanto. está relacionada com os mecanismos estatais de violência (estrutural e institucional). Giorgio Agamben (2004. cada vez mais. A utilização das novas técnicas de poder. Este estratagema interfere. substancialmente. na condição de vida da população. que “Hitler promulgou. por meio do “estado de exceção” de uma “guerra civil legal”. o tema “biopoder” terá um maior detalhamento e um cuidadoso relacionamento com uma genealogia dos poderes na sociedade contemporânea.

p. além disso. é a instância que possui o “domínio totalitário”. ao observar os campos de concentração. é realizado normalmente. ele inaugura um novo paradigma jurídico-político no qual a norma torna-se indiscernível da exceção. não só. a estrutura em que o estado de exceção. 2004. O campo é. o campo é também sociais. no dizer de Agamben (2002. os inimigos políticos mas também categorias inteiras de cidadãos que não estejam integrados (ou não sejam integráveis) no sistema. “produzindo. 177). p. reconheceu que lá vige o princípio que rege o domínio totalitário. de expressão e de reunião). lícito do ilícito. mas. como estava no espírito da constituição de Weimar. digamos. de ser referido a uma situação externa e provisória de perigo factício e tende a confundir-se com a própria norma” o que levou alguns juristas a dizer que era uma situação desejada. 2002. Na contemporaneidade é possível dizer que o “mercado” é a instância legítima de decisão política da vida dos indivíduos. etc. . p. p. 175). a existência do estado de exceção. “na medida que os seus habitantes foram despojados de todo estatuto político e reduzidos integralmente a vida nua. 178). um espaço de exceção. um ser juridicamente inominável e inclassificável” (AGAMBEN. O campo é o local da materialização e realização do estado de exceção de forma normalizada. 2002. baseado implicitamente no artigo 48 da Constituição Alemã – é exemplificativa. Na medida que o estado de exceção é. A situação ocorrida na Alemanha nazista durante 12 anos – vigência do Decreto para a proteção do povo e do Estado. não há lugar para distinções: certo do errado. exceção e regra. isto é. neles tudo é verdadeiramente possível” (AGAMBEN.156 eliminar. Portanto. isto “somente porque os campos constituem. 14). ou seja. assim. dessa forma. no sentido que se viu. p. O soberano não se limita mais a decidir sobre a exceção. O significado biopolítico do estado de exceção é a anulação radical do status jurídico do indivíduo. 177) Hannah Arendt. de fato. através da suspensão dos direitos fundamentais. com base no reconhecimento de uma dada situação factícia (o perigo para a segurança pública) (Cf. em cuja possível decisão se baseia o poder soberano. com vistas à instauração do Estado nacional-socialista (AGAMBEN. no qual não apenas a lei é integralmente suspensa. o qual suspendia por tempo indeterminado os artigos da constituição de Weimar relativos às liberdades individuais (pessoal. “desejado”. fato e direito se confundem sem resíduos. se lá tudo é possível. Agamben (2002. pois “o estado de exceção cessa. pois seria necessário.

uol. Caderno Mundo de 11 jan. homo sacer. ou ainda de “combatentes inimigos ilegais”.com. verdadeiramente.com. desses seres humanos lá detidos (pessoas. Disponível em http://www1. por exemplo. uma vez que não sabem.br/folha/mundo/ult94u106105. etc. sequer. qual lei lhes será aplicada e norteará o julgamento (se houver). Caderno Mundo de 04 de abril de 2007. No dia 02 de abril de 2007 a Suprema Corte americana rejeitou recurso de prisioneiros de Guantánamo que requeriam o direito de apresentar seu caso ante um Tribunal Federal para apelar de sua detenção sem acusação judicial formal.shtml. ainda que colhidas por meio de coação ou especulação. Este domínio totalitário revela-se assustador.shtml.br/folha/mundo/ult94u103906. Acessado em 04 de abril de 2007. O discurso “em defesa do povo e do Estado” pode. Já passaram. pelo menos. nada melhor que suprimir direitos e garantias: o resultado pode ser a necessidade do controle da vida. Acessado em 04 de abril de 2007. num “limbo existencial”. sujeitos. tranqüilamente. Para enfrentar e superar crises econômicas e políticas. que o julgamento dos presos ocorrerão conforme um novo “Manual para Comissões Militares” que prevê liberdade à valoração de provas. . sendo que destas.br/folha/mundo/ult94u103691. Estas informações foram capturadas a partir de leituras em diversos jornais de circulação nacional. não formalmente) de estarem envolvidas com práticas terroristas. a decisão foi considerada uma vitória do governo norte americano. combatente inimigo. tais como os novos chips que são inoculados nos selecionados pelo sistema penal. impor condições de controle que escapam da noção de anormalidade.) serem julgados por uma Corte Federal antes do julgamento de uma Corte Militar de exceção. marcas como as pulseiras eletrônicas de hoje ou as tatuagens dos 39 A Baía de Guantánamo é um território cubano (localizado ao sul da ilha). termo pelo qual impede o acesso a qualquer tribunal e aos preceitos da Convenção de Genebra). Disponível em http://www1. A classificação dada pelo governo norte americano de “combatentes inimigos” impede que eles sejam julgados pelas corte federais. para que o governo tenha que apresentar provas que justifiquem sua prisão. especialmente as seguintes reportagens: Prisão de Guantánamo completa cinco anos em meio a protestos. a fim de analisar o que e como vivemos atualmente. Pentágono aceitará depoimentos obtidos sob coação em Guantánamo. Acessado em 04 de abril de 2007 e EUA impedem presos de Guantánamo de apelar em tribunais federais. Caderno Mundo de 18 de janeiro de 2007. aproximadamente 770 pessoas. 395 pessoas presas indefinidamente. bem como jornais virtuais.com. Mesmo não sendo uma decisão definitiva. os prisioneiros de Guantánamo39 perderam totalmente sua condição humana.uol. qual a corte que os julgará. Esta é a importância de estudar as condições biopolíticas em Auschwitz. Este controle revela-se em diferentes estágios e meios.folha. entre 60 a 80 estão sendo processadas por um Tribunal Militar. Da mesma forma que os judeus em Auschwitz. Desde janeiro de 2002 o Centro de Detenção recebe pessoas acusadas (na sua maioria. enviados aos seus países de origem e outros 200 estão numa situação ainda mais delicada. prisioneiro de guerra. qual acusação que lhes é imputada. 2007. mas desde 1903 é alugada pelo governo dos Estados Unidos. 85 serão. Na luta do governo norte americano para restringir aos prisioneiros de Guantánamo o acesso à Justiça. Frise-se. absolutamente indefinidos e indeterminados. Toda celeuma está centrada na possibilidade.shtml. Hoje o Centro de Detenção de Guantánamo tem.folha. nesse período. nem mesmo qual o tratamento que lhes será dado (inimigo. ou não. à imagem e semelhança do que Giorgio Agamben fala: verdadeiros homo sacer. provavelmente. no qual o poder não tem diante de si senão a pura vida sem qualquer mediação”. criminoso inimigo. em outubro o Presidente George Bush assinou uma lei que suspende o direito dos prisioneiros de pedir o Habeas Corpus.157 o mais absoluto espaço biopolíco que jamais tenha sido realizado.folha. cidadãos. Isto porque o discurso à imposição de práticas totalitárias repetem-se.uol. por oportuno. Disponível em http://www1. situando-os.

o segundo no da pureza de classe”. hoje. É o controle total dos corpos. muito bem camuflado. transitam pela necessidade de dar maior eficácia ao cumprimento das penas privativas de liberdade. ainda que para isso haja supressão de direitos e garantias individuais. que habita as ruas.158 campos de concentração. diante das telas do computador. permanece a serviço do poder: agora não mais adestrando os corpos. Houve alguma coisa além da margem do rio que devemos observar cuidadosamente. banco de DNA. especialmente consumindo. Para Bauman (1998. Será que a análise materialista da prisão – formulada especialmente por Foucault.. O discurso mais recente sobre a eficácia das medidas punitivas. 22/25) da mesma forma que o sonho da pureza circulou os ares do nazismo e do comunismo pois “primaram por impelir a tendência totalitária a seu extremo radical – o primeiro. mas também.. qual seja. de políticas de tolerância zero. É a nova relação biopolítica do indivíduo com o Estado. ainda que estas práticas privem o sujeito de seus direitos. simbolicamente. mesmo porque a classe operária (trabalhadores braçais) está cada vez mais levantando os braços e implorando para que sejam explorados? Perdeu a prisão. George Rusch e Otto Kirchherimer. efetivadas pelo sistema penal. em especial aquelas com finalidade de prevenir a transgressão da norma. Dario Melossi e Maximo Pavarini – demonstrando a estreita vinculação do surgimento da prisão à alteração do modo de produção (do modo de produção feudal para o modo de produção capitalista) teria hoje perdido sua finalidade. Algo está muito próximo. no mundo atual há outra prova de pureza. exemplarmente. vivendo a vida virtual. não sendo estas (as ruas) local seguro para o trânsito de pessoas de bem. O cidadão ideal é aquele que consome. Aqueles que não conseguem entrar no jogo devem ser eliminados e a melhor forma de resolver . condensando a complexidade do problema da “pureza”. controle de identificação da retina. a prisão realiza a necessária transformação do preso em fera indomável. sua função? Verdade e mentira (ou engano). em sua forma moderna. também. no da pureza da raça. a capacidade de ser seduzido pelo mercado consumidor. O ideal (tipo de sociedade) é ficar em casa. etc. câmeras de vigilância. em tempos de globalização. p. Ora! Da mesma forma que o cárcere cumpriu. etc. disciplinando-os mas. sua função.

mas. Contudo. a qual exorta ações repressivas cada vez maiores. O centro é a idéia de sujeito livre.159 os problemas socialmente produzidos é criminalizá-los. não somente ser titular da ação. As constantes práticas de intolerância – tanto derivada da concepção de possuir a verdade. bem como a constante e crescente erosão dos afetos e das solidariedades sociais. abalam a . como daquela derivada de um preconceito (BOBBIO. consciente e responsável pelas conseqüências de suas decisões. a sociedade. ou seja. A busca de pureza social é alcançada com eficientes métodos totalitários.) que delibera e participa é. mas inseridos em comunidades – grupos. A idéia de cidadania está vinculada a este sujeito livre (autônomo) que encontra na democracia seu maior referencial. deve demonstrar profundos laços existentes ante o compartilhamento de posturas éticas e políticas comuns. As constantes demonstrações do individualismo exacerbado – e seu alcance egoístico – o que se vê é o fruto entre as perversas e complexas relações intersubjetivas da contemporaneidade com o universo dos direitos humanos. a idéia de autonomia. sobretudo políticas (não de um cidadão passivo. 204) – vivificada pela atuação passiva das instituições do Estado. nações. especialmente tentando controlar determinadas classes sociais. hermética condição das políticas liberais. A reflexão. direitos humanos e desenvolvimento humano. mas um cidadão ativo). estruturada em classes. etc. 1992. especificamente no núcleo da relação vinculante entre democracia. lhe é negada e sonegada todas as possibilidades de participação. p. causando um progressivo e constante esgarçamento da tecitura social. fincadas na separação entre sociedade civil e sociedade política. dentro de perspectivas muito precisas. com o conseqüente empobrecimento e exclusão de camadas cada vez maiores da população. ao contrário. pois ao mesmo tempo em que o desenvolvimento econômico das sociedades capitalistas produziu um mundo capaz de gerar riquezas sem precedentes na história. estreitamente vinculada à “capacidade de direito”. provocando uma estrutura de terrível desigualdade e polarização social. o paradoxo é assustador. pois este sujeito (não em uma visão individual. denominadas perigosas. ao mesmo tempo. mas também ser responsável por suas conseqüências. não conhece os resultados e as promessas de uma vida melhor.

a sociedade de consumo. São as pessoas que fazem parte desse poder (mesmo que não saibam). A exacerbada divulgação da violência e. economia forte. Para Bauman (1999. p. O domínio totalitário contemporâneo pertence ao mercado. Seria melhor dizer: é a politização do poder da vida. onde tudo é possível. tem suas raízes cravadas no excesso de individualismo provocado pelo novo sujeito – ou pelas novas relações intersubjetivas – pois favorece o distanciamento cada vez maior entre os indivíduos causando-lhes um profundo sentimento de vazio e solidão. neste caso. não mais a pluralidade de desejos mas apenas consumidores e não consumidores. neste momento. A violência estatal consubstancia-se. politização do poder de controlar a vida. com a utilização dos mecanismos políticos totalitários de dominação é possível perceber a interferência estatal das práticas políticas em busca da sociedade ideal. Esta é a sociedade desejada. 73) “a ‘globalização’ nada mais é que a extensão totalitária de sua lógica a todos os aspectos da vida” uma vez que os atuais Estados não possuem liberdade suficiente (entenda-se. realiza papel importante nos atuais mecanismos de intervenção estatal. . tão só. a partir de então. torna-se possível o acesso à vida das pessoas. com a finalidade clara de controle e dominação. em detrimento da vontade de uma classe social. com este novo “contrato social”. ancorado na utilização dos instrumentos violentos de dominação. onde não há limites: basta ser consumidor. restando. não mais a multifacetada democracia mas o unívoco sentido da mercadoria.) para impor suas condições. do medo. Como se vê. ou seja. não aos moldes de Rousseau nem de Hegel (como tradução da vontade divina). limpa de toda sujeira: a partir do controle total dos corpos é possível eliminar os “consumidores falhos”.160 garantia dos direitos individuais e coletivos. aqueles aptos a permanecer no jogo. etc. conseqüentemente. que reconhece apenas a linguagem do consumo. mas em termos marxianos sobrepondo-se à vontade dos indivíduos. ou ainda. soberania. como o pânico. Este é o campo moderno. Este sentimento de insegurança e seus consectários. O discurso do medo40 – importante e eficiente tecnologia de controle e de indução de práticas individuais e coletivas – serve para controlar as pessoas e. com suas conseqüentes flexibilizações.

segundo seus intérpretes. em especial pelo fato da ameaça que as discórdias religiosas representa e pela disputa pelo controle do poder existente entre a Coroa e o parlamento. do destino que foi reservado em sua própria vida. que é o primum bonum. . em Thomas Hobbes. também daquela pouca ou muita liberdade que a um homem vivendo em sociedade é consentido desfrutar (1991.4. pois é com sua obra mais conhecida – Leviatã. antes de mais nada. Segundo Bobbio (1991. fundado a partir do contrato. Bobbio esclarece. que o problema da unidade do Estado é o que mais o incomoda. A cultura do medo como legitimadora do controle social: a divulgação da violência e a banalização dos direitos e garantias fundamentais A partir da filosofia política de Thomas Hobbes (1588-1679). a qual representa a metáfora do grande monstro bíblico que sufoca o mal com sua cauda – que. na maioria da vezes se fundamenta o discurso opressivo e autoritário do Estado. A utilização de Hobbes se justifica. da escassez de poder. etc.161 4. que: O mal que mais teme – e contra o qual se sente chamado a erigir o supremo e inseparável dique de seu sistema filosófico – não é a opressão que deriva do excesso de poder. no Leviatã. caracterizado pela idéia de ordem na política. ao contrário. da desordem que resulta da liberdade de discordar. é possível entender como o discurso do medo pode ser identificado e legitimado à utilização racional do poder repressivo do Estado para conseguir atingir suas diversas finalidades. Partindo desse ponto (a unidade do Estado). O pensamento de Hobbes. sobre T. no próximo ponto deste capítulo. Insegurança. defende a idéia da unidade contra a anarquia. é resultado. finalmente. percebe-se. da vida. o constante interesse em mostrar que a tendência geral de todos os homens é um perpétuo e irrequieto desejo de poder que cessa apenas com a morte. p. mais detidamente. 26). 26). p. ou seja. Hobbes. já que tem receio da dissolução da autoridade. 40 O discurso do medo será analisado. Hobbes está aliado a corrente do pensamento político dominado pela antítese anarquia-liberdade. depois dos bens materiais e. mas a insegurança que resulta. É de notar.

pois não há outra maneira de assegurar a vida e a liberdade. mesmo porque todos os homens preocupados com a verdade. e alegre aceitação. Entretanto. é que se dá através do medo. “ter recebido benefícios de alguém a quem se considera superior faz tender para o amor. 89) afirma que a falta de ciência (conhecimento válido). p. 86) sustenta que “o desejo de conforto e deleite sensual predispõe os homens para a obediência ao poder comum” e que o “medo da morte e dos ferimentos produz a mesma tendência. Hobbes (2003. faz tender para o amor fingido. pois apesar de carecer de ciência. porque a obrigação não é uma nova degradação. e pela mesma razão”. a quem considerem mais sábia que eles próprios. Para ele. 54) afirma que a seqüência teórica de Hobbes se rompe quando entra em cena a religião. 28) se a vaidade faz dos homens eternamente competirem por precedência. Assim. e na realidade para o ódio secreto. Medo dos . sob pena de castigo eterno. o Estado dispõe de duas ordens de explicação diferentes que repousam sobre o medo: Medo de Deus: os mandamentos obrigam os homens à busca da paz durável e. Hobbes (2003. portanto. Assim é que o medo da opressão predispõe os homens para antecipar-se. Para Hobbes (1998. à submissão ao Leviatã. Segundo Ribeiro. e perante um igual é odiosa. fundamentar a necessidade de confiança no outro é a ignorância. Renato Janine Ribeiro (1978. p. 87). p. de quem consideramos nosso igual. a qual será observada na existência de alguém que detenha o poder: o soberano para Hobbes. nenhum tipo de associação pode prosperar e se fosse removido todo o medo a natureza humana voltar-se-ia muito mais ávida para a dominação do que para a construção de uma sociedade. com o nascimento dessa racionalidade. isto é. e não considerem provável que queira enganá-los.162 Neste sentido. p. Para tanto. mais tarde. ao receber algum benefício de alguém. procurando ajuda na associação. p. Segundo ele. glória e amor próprio. pois nos coloca em situação de devedor e esta nos obriga. obriga os homens a confiar na opinião e autoridade alheia. se não confiarem em sua própria opinião deverão confiar na de alguma outra pessoa. a obrigação que não se pode compensar é servidão perpétua. Entretanto o que vai. ela é a principal obsessão de Hobbes. a ignorância das causas. e a obrigação é servidão. a que se dá o nome de gratidão” (2003.

quer da boa quer da má sorte. mesmo assim. Conforme Hobbes (2003. É de notar. Hobbes (2003. p. a que menos faz os homens tenderem a violar as leis é o medo e. 92/93) diz que é só no homem que se encontra sinais. e a permanente expectativa da agressão força o homem a submeter-se ao Estado.163 homens. deve necessariamente ter um objeto. sacrifícios e festivais. que determinou esse começo no momento em que o fez. Hobbes aduz. que não se encontra nas outras criaturas vivas. p. e recorda seus antecedentes e conseqüências. ou então de que eles próprios eram de natureza superior à dos simples mortais. o que ele chama de curiosidade de procurar as causas de sua própria boa ou má fortuna. suplicações. que apelam aos interesses mediatos dos homens. ou outro espírito. o de prescrever cerimônias. 54). portanto. 2003. pois este medo perpétuo que acompanha os homens ignorantes das causas. p. pp. o segundo: é peculiar ao homem. como se estivessem no escuro. ainda. Quando a razão concatena os seus teoremas. O primeiro: é peculiar à natureza do homem investigar as causas dos eventos a que assiste. o homem observa como um evento foi produzido por outro. repouso e prazeres cotidianos. atentando para incutir nas mentes a crença de que os preceitos que ditavam a respeito da religião não deviam ser considerados como provenientes de sua própria invenção. 100-101). perante toda e qualquer coisa que tenha tido um começo. portanto. pois a única felicidade é o gozo de seus alimentos. que o objetivo era apenas manter o povo em obediência e paz. a qual consiste em alguma qualidade peculiar. a fim de que suas leis fossem mais facilmente aceitas. ou pelo menos em algum grau eminente dessa qualidade. o axioma é sempre o medo (1978. pensar que ela teve também uma causa. razões pelas quais deveriam (os Deuses) ser venerados (Hobbes. o terceiro: diferente dos animais. Hobbes traz três motivos. o homem a calar quando portanto não há nada que possa ser visto. por último. nada acusam. que de todas as paixões. os quais se devia acreditar capazes de aplacar a ira dos deuses. o que faz o homem temer é o desconhecido. esse medo pode levar . ou frutos da religião. mas como os ditames de algum deus. 94). a não ser algum poder ou agente invisível. A ignorância leva. medo do outro: desta vez os mesmos mandamentos se encadeiam como teoremas. bem como de fazer acreditar que aos deuses desagradavam as mesmas coisas que eram proibidas pelas leis e.

A ciência é o anticorpo criado pela organização da humanidade contra a guerra civil”. e) é generalizador. 14) afirma que “o discurso científico de Hobbes.164 a cometer um crime. b) é qualitativo. foram (e seguem sendo) levadas a ver e a sentir seu lugar na estrutura social” (NEDER. é necessário o Estado. pois se refere a fatos que julgamos diferentes. O discurso do medo e as práticas de segurança É preciso entender que este discurso do medo – com o qual é definido a “cultura do medo”41 – produz a imagem necessária do terror social e como isto é transferido de uma forma tão natural e espontânea ao senso comum42. Neste sentido é que Ribeiro (1978. tornando propícia a dominação mediante a manipulação do imaginário. por serem qualitativos e heterogêneos. 70). ou seja.). o medo resultante de uma perturbação de um perigo real. Conforme Santos (2000.1. a qual fornece os subsídios necessários – políticos. g) procuram projetar nas coisas ou no mundo sentimentos de angústia e de medo diante do desconhecido. abre caminho – para ceder-lhe o seu lugar – à fala conativa do soberano-pedagogo. há uma ideologização que garante uma organização social rígida e hierarquizada. Como conseqüência “natural”. significa os saberes cotidianos e do senso comum de nossa sociedade com as seguintes características: a) é subjetivo. 9. Parece evidente que o sentimento de insegurança da sociedade esteja umbilicalmente ligado à divulgação do aumento da criminalidade. p. mas o medo socialmente partilhado o qual corrompe (ou fabrica) o senso comum. exigindo uma ação estatal cada vez mais disciplinadora e emergencial. sociais e psíquicos – para o enaltecimento do medo. d) é individualizador. aparente ou algo estranho ou desconhecido. p. mais que compreender em nível da razão. c) heterogêneo.4. na qual “as classes subalternas. f) tendem a estabelecer relações de causa e efeito entre as coisas ou entre os fatos. A idéia de Hobbes é mostrar que para impedir a insegurança nas conturbadas relações de poder. 42 O sentido de senso comum aqui referido. 4. p. típica dos estados totalitários. 41 O termo “cultura do medo” é aqui empregado não a partir de uma conceitualização de “medo individual”. 1993. exprimindo sentimentos e opiniões individuais e de grupos. centrado na função referencial da linguagem. a partir da compreensão e internalização dos princípios científicos da política”. h) cristalizam-se em preconceitos com os quais passamos a interpretar toda a realidade que nos cerca e todos os . porque os percebemos como diversos entre si. diferentemente de conhecimento científico. pois tendem a reunir numa só opinião ou numa só idéia coisas e fatos julgados semelhantes. “o sujeito hobbesiano universalizado estará pronto para receber todo benefício possível para a segurança e comodidade de sua vida.

os animais mansos. falar. pela mídia. op. ante a presença do fato indesejado. irremediável. reflete exatamente a produção do imaginário social ideologicamente43 efetivado e amplamente divulgado. a coerência e a unidade do imaginário social ou ideologia vêm do que é silenciado. mas a demonstração. Belo Horizonte: Del Rey. a ideologia as reproduz. Fundada a partir da lógica da dominação44. a violência e a cultura do medo exercem papel fundamental em nossa sociedade. se deixam dominar e os que resistem ao comando – esclarece que o campo de atuação da ciência destinado a estabelecer os parâmetros para a condução da polis possui. a sociedade interpreta determinados fatos. enfaticamente enraizada em nossa civilização. Como. 43 Para alcançar determinados objetivos. a ideologia pode trabalhar conforme três procedimentos. operando como o inconsciente. Recolhendo as imagens diretas e imediatas da experiência social. Jeanine Nicolazzi. pp. especialmente. in: PHILIPPI. as quais permitirão. acontecimentos. b) pela produção do imaginário social. 1996. lógico e sistemático de idéias que funcionam como representações da realidade e como normas e regras de conduta e comportamento. de que a “nossa sociedade está doente” (PLASTINO. p. nem circunstâncias externas a ela. 44 “Platão. quando coloca os efeitos no lugar das causas e transforma estas últimas em efeitos. entretanto é de se perceber que o dito aumento da criminalidade não é um produto (resultado) do péssimo funcionamento da sociedade. Marilena. Convite à filosofia. 174/175. 2001. mas no predomínio do vazio e da indiferença em relação ao “outro”. . através da imaginação reprodutora. no Político. conforme a ideologia vigente naquele momento histórico. formando um tecido de imagens que explicam toda a realidade e prescrevem para toda a sociedade o que ela deve e como deve pensar. Qual é o motivo dessa doença? Como. 174/175. p 139.. p. aumenta a sensação de insegurança. In: CHAUI. desde sempre. 2001. sob o ponto de vista da psicologia profunda. a saber: a) pela inversão. sob o ponto de vista sóciopolítico. In: CHAUI. mas não só. c) pelo silêncio. entre aqueles que. a lógica hegemônica do grupo dominante deve prevalecer. sentir e agir. como referência. A certeza (ainda que ilusória) de que estamos vivendo no caos. A lei: uma abordagem a partir da leitura cruzada entre direito e psicanálise. e por isso deve ser compreendida a partir do paradigma oferecido pela arte dos cuidados dos seres que vivem em hordas ou grupos”. podemos entender a interferência do medo na vida social da contemporaneidade? Sob o primeiro ponto de vista. o qual fabrica imagens e sintomas. entendido agora não só como Freud explicou. mas transformando-as num conjunto coerente. em função de sua natureza. a violência e a cultura do medo podem ser caracterizados como forma de dominação?. 10). 7a ed. difundindo a idéia principal através de pequenas justificações. A cultura do medo. operando exatamente como o inconsciente descrito pela psicanálise. mas real.165 Assim é que a referida retomada do chamado “Estado punitivo” acontece no instante e diante do novo “mal-estar na cultura”. cit. ou seja. São Paulo: Ática. enquanto a ideologia fabrica idéias e falsas causalidades. ao dividir o reino animal em bestas mansas e selvagens – ou seja. mas também pela família e religião.

90). Entretanto este movimento ambivalente não ocorreu como anunciava Freud. citando Marilena Chauí. Ao desenhar esse fenômeno. pp. Esta dificuldade de lidar com as fantasia em relação ao gozo do outro é que Slavo Zizek identifica como a matriz da intolerância social. acompanhado do movimento agressivo de Tânatos (pulsão de morte). dominador e onipotente. em especial a exacerbação e glorificação do indivíduo – enquanto ser egoísta. 1996. Sob o segundo ponto de vista – o da psicologia profunda – conforme Freud. Diante disso. mas ante os pressupostos da modernidade. típico do direito burguês. de conservação da escala social vertical e das relações de subordinação e exploração do homem pelo homem. visto que o medo é traduzido como mecanismo de dominação política e social. tangerá o rebanho amedrontado: a autoridade . não resulta da obstinação.166 que parcelas de sua liberdade sejam reprimidas a fim de manter (ou restaurar) a ordem. Para este autor esloveno aquilo que é desconhecido é fantasticamente aprisionado pelo imaginário (CERQUEIRA FILHO. Baratta (1999. caracterizando a condição narcísica da sociedade contemporânea – significou uma grande perda ao sujeito. mas indica a emergência de uma figura que. é necessário um sistema de controle social do desvio altamente repressivo. prometendo a paz e a segurança. quanto maior for o medo social maior será a carga de legitimação do Estado para ter uma postura autoritária. As razões de instalar o medo nas camadas mais baixas da população é justificável ante a necessidade de implementação do Estado autoritário. ainda que em troca de arbitrariedade ou opressão. apesar de seus enganos agora percebidos. semelhante à ótica maquiaveliana. em especial a negação da existência do outro. é notável o tratamento político a ser evidenciado nesta co-relação de forças. ou seja. afirma que “a permanência das explicações antigas. tolhendo a liberdade do indivíduo e reduzindo direitos dos cidadãos. Débora Regina Pastana diz que “É desta forma que posturas autoritárias se consolidam em nossa sociedade e a cultura do medo nos mostra como o autoritarismo é interpretado e reproduzido” e. 206/207) adverte que sendo a sociedade capitalista baseada na desigualdade e subordinação. p. o “mal-estar na cultura”. vez que o direito penal é um instrumento precípuo de produção e reprodução das relações de desigualdade. resultado da ambivalência afetiva originária. seria o resultado da confluência do movimento de expansão de Eros (pulsão da vida). o paradoxo no qual o medo social é necessário para que o Estado seja realmente uma estrutura de poder. através de um sistema penal forte. surgindo.

está minando as subjetivações (as quais caminham em sentido contrário). consultorias. p.] Transformando a explicação imaginativa em doutrina e esta em ortodoxia. tais como ginástica. por outro.) e domésticas (lazer. pela ideologia. etc. estudos. etc. Isto é possível verificar a partir das opções de vida das pessoas. Conforme Marilena Chauí (1996. 1996. etc. A cultura do medo. substitutos. é a interpretação imaginária da sociedade do ponto de vista de uma única classe social (CHAUÍ. o indivíduo está cada vez mais sozinho e 45 isolado (conseqüentemente. a ideologia necessita de idéias-imagens. .) de dentro de casa. p.. pode-se dizer que o argumento principal é o da segurança e comodidade ou. Sua função é assegurar igualdade de interpretação. 175). bem como as contradições entre esta e as idéias que supostamente a explicam e controlam” (CHAUÍ. o efeito necessário da existência social da exploração e dominação. especialmente. sendo. provocada pela moderna sociedade globalizada (de consumo. 45 Este isolamento é causado por diversas razões. ansiedades. portanto. Em termos psicanalíticos. ou seja. do silêncio para manifestar os interesses da classe dominante e escondê-los como interesse de uma única classe social. é dizer.. não permitindo a conjunta expansão das pulsões de vida e de morte. de mercado.167 nascida da ambição e das cisões do corpo social [. angústias. punindo com morte e exclusão toda tentativa para substitui-la ou modificá-la. ocultando as contradições da vida social. “modos de entender a realidade e de se comportar nela ou diante dela. compras. por exemplo suas atividades diárias. 95). mas. da inversão das causas e efeitos. Se. passeios virtuais. lapsos. etc. enaltecendo cada vez mais o conteúdo narcísico da sociedade. 2003. o isolamento é a forma pela qual o indivíduo procura comodidade e segurança fazendo. p. sublimação para manifestar-se. eliminando dúvidas. Esta função é exercida.) está causando o novo “mal-estar na sociedade”. sem sair de casa. no mais das vezes. p. da competição. 176). 176). Veja-se. etc. realizando-se indiretamente perante a consciência”. de forma invulgar. os que são movidos por ambição dominam os que são movidos pelo medo” (PASTANA. admirações. vazio). as inovações tecnológicas a serviço da comodidade e isolamento. vendas. o inconsciente necessita de imagens. sintomas. inversamente. ou seja. opera dissuadindo e impedindo a visão do mais importante e prendendo ao supérfluo. estudos. atos falhos.. compras. as pessoas cada vez mais fazendo suas atividades loborativas (trabalhos escritos. “ideologia e inconsciente operam através do imaginário (as representações e regras saídas da experiência imediata) e do silêncio. os grandes muros que são construídos para proteção das casas. da atomização. sonhos. ou seja. por exemplo. por um lado. 1996.

p 205. o qual é retomado a cada ameaça de tomada de espaço pelas forças populares. mas como uma opção ideológica e estética. . causando uma diminuição dos espaços sociais. é possível vislumbrar que o sistema penal (especialmente a prisão) exerça outros importantes papéis na sociedade contemporânea por exemplo.). considerando-se as origens do sistema prisional e suas funções econômicas que ele assume. mais especificamente. por não se saber medo de que. permitindo a indução de práticas necessárias ao cumprimento da função velada do cárcere: a formação do proletariado industrial e desenvolvido no controle da reprodução da força de trabalho assalariada. e o medo exerce uma função exemplar a estes propósitos. Como visto. verdadeiramente. o isolamento gradativo e voluntário das vítimas (qualquer um pode ser vítima. É grande o interesse na exploração da violência. uma maneira de interpretar a realidade. 2002. expulsos do mercado de trabalho pela sua abundância.168 A partir da conjuntura contemporânea do pânico. pois ao mesmo tempo que possibilita o caráter repressivo através de suas técnicas de poder (de disciplinamento dos corpos e controle). medo de tudo e de todos – nisso reside a impossibilidade de ver o outro e. Este sentimento de insegurança e de medo é que justifica ao Estado tomar medidas simbólicas cada vez mais autoritárias. ou seja. o imaginário do indivíduo de forma tão voraz que não se percebe. fortalecendo o imaginário da ordem. na maioria das vezes. em especial pelas idéias protagonizadas por diversos autores de matiz marxista. exacerbando o individualismo. o cárcere exerce esse perverso fascínio de poder. tornam-se fatores determinantes à desvalorização da mão-de-obra. característicos da sociedade contemporânea. suas profundas razões. o medo não deve ser entendido como uma conseqüência dos tempos difíceis. atuando como um poderoso regulador do valor do capital variável (valor da força de trabalho – salário). A difusão do medo do caos e da desordem tem servido para justificar estratégias de exclusão e disciplinamento planejado das massas empobrecidas (BATISTA. O medo invade. destruir). como um inimigo que devemos excluir ou. isto porque estes trabalhadores.

a desregulamentação dos direitos sociais e trabalhistas e a retomada do Estado punitivo. o qual daria maior preferência a determinada situação fora do cárcere. o que caracteriza o conteúdo da violência estrutural e institucional do Estado. quatro vezes mais que as verbas destinadas aos serviços públicos de saúde. destacam-se. . possibilitando estabelecer a conexão entre o modelo econômico neoliberal. registra uma extraordinária expansão dos recursos destinados à manutenção da ordem. houve um corte de 30% nos gastos com os serviços sociais da cidade. ligada às mutações do emprego e à oscilação da relação de forças entre as classes e grupos que lutam por seu controle”. Wacquant (2001a. transformação que é. aumentando seu orçamento para a polícia em 40%. 135). reforço e glorificação do Estado penal. o agravamento da situação econômica (desemprego) com crescimento da população marginalizada – excluída – e o recrudescimento das políticas penais de encarceramento (principalmente sobre a população pobre. nas décadas de 1980 e 1990 e.000 postos de trabalho. ainda que fossem péssimas as condições oferecidas ao trabalhador estas seriam melhores do que aquelas impostas no cárcere ao indivíduo. resultando em uma perda de 8. Os dados levantados por Loïc Wacquant (2001. sujeitando-o àquelas condições determinadas pelo sistema produtivo. p. afirma que “esta fórmula tem por fim indicar que hoje não se pode compreender as políticas policiais e penitenciárias nas sociedades avançadas sem recolocá-las no quadro de transformação mais ampla do Estado. diminuição do Estado social. Entre os autores. estabelecendo-se um relacionamento com o princípio de less eligibility. que analisa a ação do neoliberalismo no Estado de bem-estar social e sua profundas conseqüências. 46 Há estudos recentes que procuram relacionar índices de desemprego com taxas de encarceramento.169 Em função dessa população excedente – explorada e criminalizada46 – mantém-se uma estreita relação entre a precarização do estado social. Só para se ter idéia. ou seja. Nova York. ou seja. nos Estados Unidos. Bruce Western e Katherine Beckett. ela mesma. cidade símbolo mundial da segurança pública. que analisam a relação de funcionalidade das políticas penais e desemprego. Ao ser questionado sobre o desaparecimento do Estado Econômico. No mesmo sentido. mais recentemente. tóxico-dependentes e imigrantes). Loïc Wacquant. Stevem Box e Chis Hale que analisam a realidade européia da década de 1970 e 1980. em especial a substituição do Estado social pelo Estado penal. fruto da divulgação das políticas de “tolerância zero”. p. indicando a vulgarização dos direitos sociais são estarrecedores. 28).

permitindo-se o controle social através das políticas públicas (políticas econômicas. A governabilidade é o tema central do pensamento político conservador e o que se vê é o reforço dos poderes autoritários dos estados na utilização dos avanços tecnológicos para o controle social das massas e das mentes dos indivíduos. políticas sociais. testemunhar diversos acontecimentos no último quarto de século XX e início do século XXI que demonstram toda dramatização e conseqüências da implementação das políticas de que falamos acima. isto porque. chamar atenção para o consenso ideológico neoliberal do qual nos alerta Mészáros (2004. p. O controle total da vida dos corpos (ou dos corpos vivos) Do que foi visto até agora.5. por exemplo. etc). É importante. entretanto. o aumento das taxas de encarceramento e da criminalização e os danos ambientais – que sugere. políticas penais encarceradoras e criminalizadoras. Quero. do ponto de vista do pleno desenvolvimento das condições humanas. seja ela estrutural. começar a perceber que a elaboração de um saber que busca a verdade através de técnicas específicas de dominação alcançadas por diversos meios como as técnicas de produção de objetos (mercadorias) e pelos dispositivos racionais de práticas governamentais próprios de uma população (saúde. isto porque de certo modo.) e destinados a dirigir suas condutas (seu querer e seus desejos) estabelece a possibilidade do entendimento da relação da violência perpetrada pelos órgãos de governo em detrimento da população. é possível identificar uma certa tendência na sociedade contemporânea em apresentar conseqüências devastadoras.170 4. etc. com a implosão do sistema soviético os fatos foram relegados ao esquecimento para se criar a “aparência de um consenso ideológico racional dominante”. especialmente o aumento da miséria e exclusão social. Há diversos consensos que . institucional ou social. natalidade. 14). do que se tem mostrado até então. o progresso pelo progresso numa alegoria infundada de que os recursos naturais são inesgotáveis. por exemplo. É possível. portanto. em função das novas tecnologias e da imposição e implementação das políticas econômicas neoliberais. Chegou-se a falar em “fim da história”. as gritantes desigualdades e a polarização social são marcantes.

por outro há a manipulação dos desejos como mecanismos pelos quais se busca o controle total da vida dos corpos. As estratégias para tudo isso são muito importantes e na maioria das vezes passam despercebidas: são os discursos e as práticas que viabilizam todo esse processo de subjetivação. está implícito um intenso processo de expropriação. educação. 23) quando ela abre a hipótese central de seu trabalho afirmando que “a hegemonia conservadora na nossa formação social trabalha a . sobreviver. portanto manipulada pelas redes de poder da “subjetividade” dos indivíduos. simultânea e conjuntamente. Cumpre lembrar. bem como em diversas relações com o Estado. fazendo com que não se perceba que o aumento do tempo livre do trabalhador não significará. Esta idéia está clara na introdução da tese de doutorado da Professora Vera Malaguti Batista (2003. estas situações desembocam na constituição do medo e na indução de práticas. o desenvolvimento conjunto do capital e do indivíduo. portanto. O conteúdo da violência. etc. em função de que a violência é estrutural aos propósitos do capitalismo uma vez que no processo “capitalista civilizatório”. produz a necessidade do indivíduo em se proteger. a violência é tanto maximizada pela divulgação e. a necessidade de privilegiar a segurança pública em detrimento de outros direitos como a saúde. p. entretanto. isto porque é dentro do próprio sistema que reside a impossibilidade de se usufruir esse tempo plenamente e. Não é possível. É preciso identificar esta pequena e importante diferença e perceber a relação que há entre elas. nas relações sociais. na sociedade civil – para usar uma expressão hegeliana. por exemplo. requerendo a efetividade dos sistemas de proteção estatal. pois se por um lado há violência nas relações de trabalho e suas mutações. como ela está. como exemplo desse consenso ideológico racional dominante – e pano de fundo da relação entre a aparência e essência do capital –. de viés liberal. é dizer. isto é. moradia. independente de sua origem (institucional ou estrutural). igualmente.171 ressaltam essa lógica. também. seu pleno desenvolvimento. o resultado histórico social da adoção do avanço tecnológico e da produção automatizada (que significa economia da força de trabalho) como necessidade de se dar maior eficiência ao processo produtivo em detrimento das contradições orientadas dentro do paradigma neoconservador. baseado no valor de troca e tendo como meta a acumulação e expansão do capital. propriamente.

Assim. Esta pesquisa histórica mostrou que na sociedade do Brasil colônia e imperial a “evangelização era o suporte superestrutural da conquista. haitianos e abolicionistas ingleses. Malaguti Batista. pois era preciso “um medo desproporcional à realidade para manter violentas políticas de controle sobre aqueles setores que estavam potencialmente a ponto de rebelarse e implantar a ‘desordem e o caos’” (Cf. 28) observa que no Brasil imperial. 2003. Malaguti Batista (2003. especialmente deve-se mantê-los “permanetemente insatisfeitos”. não houve qualquer manifestação no sentido de se debater mudanças na própria sociedade violentamente hierarquizada. não mais exercido pelo autoritarismo. mas pela tentativa de indução das práticas dos indivíduos (produção dos desejos) e produções de subjetividades. A interessante observação (pesquisa) de Vera Malaguti revela ainda que havia denúncias de uma articulação internacional envolvendo malês. numa sociedade forjada a partir de um referencial econômico. buscará implantar. estratégias de políticas de segurança pública estatal que contam com um novo modelo de dominação. permitindo. 79) os . jogando a responsabilidade ao inimigo de fora. É exatamente nestes processos de subjetivação que se pretende o controle social das massas. era o universo penitencial que tratava de ser interiorizado individualmente através da experiência subjetiva”.172 difusão do medo como mecanismo indutor e justificador de políticas autoritárias de controle social”. p. social e político. especialmente em função da instituição da escravidão. porque a procura do consumidor é incessante e. àquele desconhecido. Para Vera Malaguti (2003. travestida pela metáfora do mercado. da morte e da culpabilização. p. “a guerra contra o terrorismo” ou o discurso do “aumento da criminalidade”). p. por exemplo. mesmo diante da perspectiva de uma grande rebelião escrava. igualmente aos moldes históricos. 30). diretamente vinculados aos pressupostos de realização e expansão do capital. ao outro. legitimar a tomada de posição nos diversos campos de atuação estatal: econômico. através da pedagogia do pecado. com isso. Em sua pesquisa. Este interessante exemplo do século XIX pode ser fielmente equiparado com a situação contemporânea (veja-se. havia a tentativa de se colocar os problemas dos conflitos sociais para fora da própria sociedade imperial (não se poderia questionar a escravidão). de viés neoliberal. a fim de estabelecer (e de fato foram estabelecidas) severas estratégias de controle social. induzida a determinados desejos. ou seja. o que corresponde hoje à busca incontrolada pelo consumo.

umbilicalmente vinculado com um sentimento de insegurança. portanto. novas formas de controle e de reprodução do capital. é a aptidão e a capacidade de consumo. a destruição das instâncias coletivas e. – em relação aos indivíduos que ficam “sujeitados” a um violento e funcional processo de anulação do seu status jurídico. agora é a vida “dos condenados” – impuros e os não consumidores – que se pretende controlar com a adoção das políticas econômicas e penais cada vez mais severas. em conseqüência. desregulamentação e controle da vida. pois se de um lado havia a disposição sobre a vida. a destruição do indivíduo e dos processos de subjetivações. educação. em detrimento da implementação de políticas públicas de segurança (moradia.173 consumidores falhos – os que não conseguem ser consumidores – são os novos impuros. etc. isto porque “o ideal de pureza da pós-modernidade passa pela criminalização dos problemas sociais”. o que proporciona o espaço próprio da biopolítica (seu significado é o estado de exceção). em função do exacerbado sentimento de medo instalado. às devastações ambientais. fomentando. É aqui que reside a grande importância de se entender essa passagem. saúde. é possível verificar seus efeitos devastadores – a progressiva pauperização da população. ou de reordenamento. cada vez mais. . àqueles que não se inscrevem nesta nova ordem estarão submetidos às estratégias de privatização.). etc. Estes temas serão debatidos no próximo capítulo. Significativamente em relação as políticas de segurança pública e. na sociedade contemporânea. como o novo critério de pureza.

o funcionamento do sistema econômico neoliberal – as chamadas economias de mercado – mas sobretudo questionar: o problema da segurança pública é prioritário em detrimento aos direitos sociais? O incremento às relações típicas desse modelo econômico globalizado favorece ao aparecimento de novas .4 O controle social privatizado: a exploração econômica do medo Chegamos neste último capítulo com o propósito delineado: estabelecer a relação entre a maximização da divulgação do crescimento da violência – atos terroristas internacionais. biopolítica”. 5. 5.1.1. a fim de compreender as implicações das economias de mercado na conjuntura contemporânea.4. 5. lavagem de dinheiro.2 A gestão política de Segurança Pública conservadora: “eficientismo penal”. “produção de subjetividade”. excesso de biopoder e violação dos Direitos Humanos.3 A privatização das prisões: retirada da “sujeira” pelo controle social. A biopolítica e os Direitos Humanos. 5.5 MERCADO E PRODUÇÃO NORMATIVA DA DECISÃO POLÍTICA 5.4 Controle social e reprodução do capital: a face oculta da mesma “moeda”. 5.1.2 O mercado como centro de produção normativa e de decisão política. 5. 5. de certa forma e a partir de alguns autores de viés crítico. Muito embora seja um caminho muito longo – pois deverá. “tolerância zero” e “teoria das janelas quebradas” como controle social de classe. dentre outros – por certo. especialmente a brasileira. O controle social na ordem capitalista globalizada. Considerando os objetivos da pesquisa e os três primeiros capítulos apresentados foi possível entender. transitar e aprofundar determinados conceitos importantes como “biopoder”.1.1.3 Um terceiro significado: exclusão social.2 Um segundo significado: o biopoder. 5. 5. 5. – e a criação do sentimento social de necessidade de combatê-la através de políticas de segurança pública conservadoras.3 O estado de exceção. etc. necessariamente.4. em especial através da inscrição da vida numa sociedade de controle.1. tráfico de drogas. violência urbana.1. 5.2. controle social e conflitos sociais. o objetivo não é “dizer a verdade” mas estabelecer pontos de partida para o entendimento da relação entre políticas públicas.1.4.1 Um primeiro significado: economia e biopolítica como estratégia de poder.1 Os novos espaços e as novas estratégias de poder: o biopoder. “Direitos Humanos”. absolutamente polarizada e marcada pela exclusão social. 5.4. Direitos Humanos e a guerra perpétua. guerras internacionais.1 A exacerbação da divulgação de atos de violência como mecanismos de controle.1.

5. possibilita a inserção de novos mecanismos de exploração (econômica) e de controle? Estas são as questões que pretendo discutir a partir de agora. em 15 de outubro de 1926 e faleceu em Paris em 26 de junho de 1984. Para ele (Foucault. Esta relação permitiu que Foucault. a sobreposição das novas tecnologias de poder.1. especialmente indicando que ele (o poder) não estava situado no Estado ou instituição. especificamente em relação à segurança pública. entendo ser importante esclarecer. rompesse algumas concepções. 20) afirma que a verdade passa por uma construção histórica e situa-se em relação a um discurso. Foi professor da cátedra “História dos Sistemas de Pensamento” no Collège de France de 1970 a 1984. especialmente o fato de que ele estudou.1. p. dentro da filosofia do conhecimento. 2 Castor Ruiz (2004 b. de modo integrado. armas e o terrorismo) e divulgação da multiplicação de atos violentos. . guerra contra o terrorismo. o “poder” e o “sujeito”. alguns pontos da vida do autor. combate ao tráfico ilícito de entorpecentes e armas. a produzem como a sustentação e a legitimação do ser e do fazer de uma determinada prática”. 28-29) nas sociedades 1 Michel Foucault nasceu em Poitiers. p. ou seja. A biopolítica e os Direitos Humanos 5. 2002b. temas importantes como o “saber”. etc. a partir dos modelos denominados como “políticas de tolerância zero”. “movimentos de lei e ordem”? Os resultados causados pela criação de inimigos comuns (especialmente o tráfico ilícito de drogas. Ainda conforme Ruiz é a partir da constituição da verdade que se estrutura a dicotomia dos conhecimentos verdadeiros e falsos e ela se “auto-institui como ponto arquimédico em torno do qual se articulam as redes dos saberes e das práticas. faz também um descortinamento dos dispositivos de poder. mas perpassava diversas instâncias e estratégias produzindo diversos saberes e verdades. as guerras internacionais. Apesar não ser aqui a primeira vez que cito o nome de Michel Foucault.). ela sempre se encontra atravessada pelos interesses de quem a formula.175 formas de controle? Quais os interesses na exploração e divulgação da violência (por exemplo. Os novos espaços e as novas estratégias de poder: o biopoder Michel Foucault1 quando inicia suas análises colocando no centro da discussão o problema da “verdade”2.1. agora. isto porque “nela interferem o conjunto de saberes que. É deste modo que ela se torna o eixo do poder”. têm efeitos sobre os Direitos Humanos? Quais conseqüências resultam com a adoção de políticas públicas neoliberais. disciplinar e de controle. ao estudar o tema do “poder”. à consecução das finalidades resultantes da lógica de mercado em detrimento aos direitos e garantias fundamentais? Os modos de subjetivação.

portanto. direito e verdade. mas um estudo das multiplicidades de lutas) tem lugar a partir do momento que ele interpreta o poder não como uma concessão individual ao soberano em função do contrato social estabelecido. uma circulação. estabelecer a razão (fio condutor) entre as análises de Foucault em relação ao poder e suas pesquisas iniciais sobre a história das penalidades. Foucault (1987. sua investigação já pretendia estudar a relação da tomada do poder sobre os corpos. A realização dessa genealogia do poder (não histórica. isto porque para ele temos que produzir verdades para produzir riquezas. Para Foucault (2002b. p. uma acumulação. que nos séculos XVII e XVIII aparece esta nova mecânica do poder que incide diretamente sobre os corpos e sobre o que eles fazem. ou seja. neste momento. nem estabelecer-se. 27/29) pondera que “os sistemas punitivos devem ser recolocados em uma certa ‘economia política’ do corpo. especificamente nos hospitais psiquiátricos e nas prisões. porque a investigação empreendida por ele estabelecerá as conexões entre este tipo específico de poder (que ele chamou de poder disciplinar) e os cálculos e mecanismos de poder nas relações com a vida dos homens (biopolítica). Quando sua pesquisa penetra nas relações institucionais. técnicas e táticas. pois esta é vinculada a uma forma de poder que se exerce sobre a terra e seus produtos muito mais que nos corpos. Foucault chama de “tecnologia política do corpo” a este ‘saber’ do corpo e ao controle de suas forças de forma estratégica.176 contemporâneas ocidentais as relações de poder constituem o corpo social e elas não podem dissociar-se. com a finalidade de dominação através de manobras. então. 42-43) este tipo de poder se opõe à mecânica que a teoria da soberania estabelecia. mas como relação de forças que sempre permeiam a atividade social. p. É preciso. com o propósito de demonstrar que essa nova tecnologia seria utilizada para discipliná-lo. pois entendia que este (o corpo) estava “mergulhado num campo político” e que “as relações de poder têm alcance imediato sobre ele”. É a partir desse momento que Foucault analisa as técnicas de poder centradas no corpo. um funcionamento do discurso verdadeiro. . possibilitando uma particular relação entre poder. adestrando-o ao modo de produção econômico e político que estava sendo estabelecido a partir do início do século XVIII. As pesquisas realizadas por Foucault mostram. nem funcionar sem uma produção.

o ajustamento da acumulação dos homens à do capital. Com estas estratégias de poder incidindo diretamente sobre os corpos (podendo ser chamada de dispositivo ou mecanismo de poder) foi possível atingir dois grandes objetivos utilitários: um econômico e outro político. foram. a articulação do crescimento dos grupos humanos à expansão das forças produtivas e a repartição diferencial do lucro. É um tipo de poder que pressupõe muito mais uma trama cerrada de coerções materiais do que a existência física de um soberano. portanto um dos elementos fundamentais à implantação do capitalismo industrial e da sua correspondente sociedade.. mais do que bens e riqueza. Conforme Foucault (2005. p. do ponto de vista político. sua valorização e a gestão distributiva de suas forças foram indispensáveis naquele momento. possui uma enorme eficácia produtiva. a diminuição da capacidade de organizar uma força política apta a enfrentar as ordens do poder. foram necessários mecanismos e processos que se desenvolveram através dos aparelhos de Estado e instituições de poder que garantiram as relações de produção. sendo. das forças que estão em ação em tais processos e os sustentam. mas permitir uma adequada relação corpo-produção. ou seja. . Foucault. agiram no nível dos processos econômicos. 42).. É um tipo de poder que se exerce continuamente por vigilância e não de forma descontínua por sistemas de tributos e obrigações crônicas. é o domínio econômico e político dos corpos. pp. isto porque “é um mecanismo de poder que permite extrair dos corpos tempo e trabalho. do seu desenrolar. O investimento sobre o corpo vivo. Do ponto de vista econômico foi possível extrair o máximo de força de trabalho e. operaram também. garantindo relações de dominação e efeitos de hegemonia. a polícia.) os rudimentos de anátomo e de bio-política. que Foucault denomina “poder disciplinar”. inventados no século XVIII como técnicas de poder presentes em todos os níveis do corpo social e utilizadas por instituições bem diversas (a família.177 Este poder não soberano. como fatores de segregação e de hierarquização social. em parte. 2002b. (. não só com o fim de treiná-los e docilizá-los. Ao desenvolvimento do capitalismo foi essencial o controle dos corpos. a escola. e define uma nova economia de poder cujo princípio é o de que se deve ao mesmo tempo fazer que cresçam as forças sujeitadas e a força e eficácia daquilo que as sujeita” (Cf. agindo sobre as forças respectivas tanto de uns como de outros. Efetivamente. a medicina individual ou administração das coletividades). o Exército. 132-133). tornados possíveis pelo exercício do bio-poder com suas formas e procedimentos múltiplos. mas também estratégias biopolíticas foram fundamentais.

ou seja. o trabalho realizado nos estabelecimentos penais jamais teve o fim ressocializador ou de permitir o aprendizado de um ofício. De forma semelhante. delinqüente. 133) “separando nitidamente o grupo . mas sim o aprendizado da própria “virtude do trabalho”. deveria dar aos indivíduos a forma ideal do trabalhador”. uma vez que foi a partir das separações. Assim. como sempre acontece nos mecanismos de poder. divisões. pois como analisa Foucault (2002b. conforme relata Foucault. “de trabalhar por trabalhar. hierarquizações e classificações. 132).. esta mecânica do poder aliada ao disciplinamento dos corpos foi extremamente necessária ao funcionamento do modelo de sociedade (capitalista e industrial) que surgia por dois motivos: primeiro porque a disciplina é o mecanismo por excelência de controle do corpo pelo tempo (máxima produtividade. conforme Foucault (2002b. no menor tempo possível) e. que surgiu a possibilidade de identificar o indivíduo como louco. A prisão fabrica delinqüentes. separados. porque a vigilância exercida de forma contínua permite o melhor controle. A prisão e o trabalho realizado dentro dos estabelecimentos penais cumprem. p. etc. a necessidade da separação entre um sujeito honesto e o delinqüente e.178 Nos estudos sobre a história da repressão (que se inicia com “História da Loucura” e em “Vigiar e Punir”) Foucault consegue relacionar a passagem da punição à vigilância. entretanto. Neste momento. desde 1820 se percebeu que a prisão serviu para criar ou incrementar a quantidade de criminosos (ou aumentar a quantidade de crimes praticados). permitindo com isso um efetivo controle social dos sujeitos agora individualizados. Foi a partir do momento que se necessitou da proteção da riqueza que iniciou uma grande campanha de moralização sobre a população do século XIX permitindo-se. segundo. no sentimento popular. esta função de controle social pela disciplina individualizante e classificatória. máxima exploração. excluído. a realização de um trabalho qualquer. classificados. p. mas os delinqüentes são úteis tanto no domínio econômico como no político” (2002b. importante assinalar uma das principais análises que as pesquisas de Foucault proporciona entender: a importância da disciplina na constituição do indivíduo. fielmente. uma utilização estratégica daquilo que era um inconveniente. 131-133). isto porque se percebe ser mais eficaz vigiar do que punir. justamente no momento que corresponde à formação de um novo tipo de exercício do poder. p. sendo “que houve.

a produção. “uma tomada de poder sobre o homem enquanto ser vivo”. 289) afirma que: a nova tecnologia que se instala se dirige à multiplicidade dos homens. mas do homem-espécie. a incluir a vida dos homens nos cálculos de poder. o que ele denominou de estatização do biológico e. 286). Foucault (2002b. mostrando-os carregados de todos os vícios e responsáveis pelos maiores perigos. a elaboração do pensamento jurídico . podem ser articuladas uma a outra e passam. mas também para os pobres. Para este fim – controle social – surge o que Foucault denominou como sendo a biopolitização ou a estatização do biológico. não na medida em que eles se resumem em corpos. perceber um relativo desenvolvimento nas estratégias de poder. instaurada no decorrer do século XVIII. As tecnologias de poder – disciplinar do corpo e regulamentadora da vida – por serem. a partir de então. principalmente nas sociedades ocidentais. mas que eu chamaria de uma “biopolítica” da espécie humana”. por sua vez. São as pessoas que fazem parte desse poder (mesmo que não saibam). Logo. tornou-se possível o acesso à vida das pessoas. Seria melhor dizer: é a politização do poder da vida. depois de uma primeira tomada de poder sobre o corpo que se fez consoante o modo da individualização. a doença. que são processos como o nascimento. É possível. Foucault aplica a noção de biopolítica sempre à população. ao contrário. categorias sobrepostas e não se excluírem. mostrando-os como perigosos não apenas para os ricos. chegando-se ao indivíduo pela população. ou seja. 2002b. afetada por processos de conjunto que são próprios da vida.179 de delinqüentes. cada vez mais. se vocês quiserem. uma massa global. p. na tentativa de treiná-los. “um dos fenômenos fundamentais do século XIX” que foi “o que se poderia denominar a assunção da vida pelo poder” (Foucault. politização do poder de controlar a vida. o modo pelo qual o poder passa a gerir os agrupamentos humanos de modo a extrair deles a maior força produtiva e evitar inconvenientes políticos. como visto. no fim do mesmo século. nos jornais. das páginas. das horríveis narrativas de crimes”. vemos aparecer. algo que já não é uma anátomo-política do corpo humano. Diferentemente da disciplina que era dirigida ao corpo. é dizer. etc. então. a morte. mas na medida em que ela forma. pp. temos uma segunda tomada de poder que. Depois da anátomo-política do corpo humano. transformando a política em biopolítica. a partir de Foucault. que se faz em direção não do homemcorpo. não é individualizante mas que é massificante. porque desde a Idade Média. vigiá-los e puni-los. ou ainda. Donde o nascimento da literatura policial e da importância.

Entretanto o que se verifica é que o direito (aqui entendido em sentido amplo. 2002a. direito e poder. que se inicia. A partir do século XVII desenvolvem-se as estratégias políticas do corpo – primeiro anatômicas – como as disciplinares. desenvolvem-se as estratégias em função do corpo-espécie – como as técnicas regulamentadoras e os processos biológicos da população como as intervenções nas condições de vida de todos e estratégias individualizantes e especificantes – voltadas ao desempenho do corpo. regulamentos. como as normas. a partir da metade do século XVIII. as regras a que ele deveria submeter-se e os limites do exercício do poder para que este conservasse sua legitimidade. instituições. da Idade Média em diante. não precisa ser exercido diretamente pelo soberano. do ponto de vista jurídico. não mais o direito do soberano de causar a morte mas. então. agora. 180-181). retirar o elemento de dominação do poder fazendo aparecer os direitos legítimos da soberania e obrigação legal da obediência. . permite extrair a força de trabalho necessária à produção e a constituição do capitalismo industrial. de adestramento. direitos e poderes para afirmar a exata adequação do seu poder ao direito fundamental ou. seus limites. depois. ou seja. os quais permitem caracterizar a função de gerir a vida e não mais de causar a morte. ou seja. o desenvolvimento da organização dos poderes sobre a vida. mas por inúmeros mecanismos de poder responsáveis pela normalização disciplinar e regulamentadora. o que possibilitará. para mostrar a necessidade da limitação ao poder do soberano. (Cf. um poder de causar a vida. portanto. centrado no corpo (biopoder) e não na terra (soberania). etc. O controle. A teoria do direito. sempre levando-se em conta o binômio docilidade e utilidade e. pp. tem o papel essencial de estabelecer a legitimidade do poder. é exatamente quando o poder real se esvazia que serão discutidos. Foucault.180 estará a serviço do poder real. de aumento de suas aptidões na retirada de suas forças. Assim.) se constituiu como um importante mecanismo de dominação – realizada através dos múltiplos e microscópicos poderes – e técnica de sujeição. Este novo mecanismo de poder. controlar tanto a ordem disciplinar do corpo quanto a regulamentação de uma população. em função da íntima relação estabelecida entre discurso da verdade. ao contrário.

ante a complexa relação do indivíduosujeito e o mundo dos direitos humanos.1. etc. o xenofobismo. o “falecimento” do estado de bem estar social.1.. 124 e 153”. indicando. se necessário com o auxílio das forças armadas. surgindo com mais intensidade um estado policial e não mais social. de 1919 a 1924 e especialmente depois de 1929. Os governos da República de Weimar. tomar as decisões necessárias para o restabelecimento da segurança pública. 115. está de mãos dadas com o egoísmo. Surge. declarando o estado de exceção e promulgando decretos de urgência em mais de 250 ocasiões4. entre situações de conflito social e agressão aos direitos individuais e coletivos. 3 Dizia o art. Importante assinalar e trazer as informações da pesquisa realizada por Agamben. percebe-se que o discurso da igualdade. etc. p. então. o terrorismo. vez que o século XX foi pródigo ao encontrar na violência e nas diversas possibilidades de destruição em massa formas de controle. o genocídio. Com este fim pode provisoriamente suspender os direitos fundamentais contidos nos artigos 114. 123. . a exploração dos países de primeiro mundo em relação aos países subdesenvolvidos.1. 174-175). por outro encontramos a barbárie das guerras. guerras civis. caso a segurança pública e a ordem sejam gravemente perturbadas ou ameaçadas. Um primeiro significado: economia e biopolítica como estratégia de poder Hannah Arendt (1994. pretende-se um mundo melhor e mais digno. p. ainda. a opressão. 118. significando a intromissão massiva da violência criminosa na política. que as novas gerações cresceram sob a cumplicidade dos massacres como os campos de concentração. como foi o caso do decreto de setembro de 1923 que vigeu até fevereiro de 1924 (Cf. as “democracias de mercado”. da paz e da solidariedade. na qual ele aponta que o referido artigo 483 da Constituição de Weimar fora utilizado em diversas oportunidades. por um lado. ou seja. Agamben. o paradoxo entre racionalidades: se.181 5. 48 da Constituição Alemã: “O presidente do Reich pode. o acúmulo de capitais. Em contrapartida. 2002. 117. da exploração sexual. em resumo. 20) destaca a impossibilidade do diálogo entre passado e futuro nas experiências políticas e progressos tecnológicos da ciência. a precarização à relação e aos direitos trabalhistas. 4 Em algumas ocasiões o decreto que determinava o estado de exceção se prolongou por 5 meses. da exploração do trabalho infantil.

discursos e políticas públicas aptas a realizarem a guerra. de certa forma. ou seja. 34). p. bem como aquelas ações que pretendem combater as drogas e o terrorismo. isto porque a alteração no conceito e na forma como as guerras são combatidas possibilita um perpétuo estado de beligerância. mas também a produzir e reproduzir todos os aspectos da vida social (2005. especialmente em outubro de 1923. segundo. Importante assinalar a análise realizada por Michael Hardt e Antônio Negri (2005) sobre o estado de guerra global que estamos envolvidos. significando. ou seja. por exemplo. Para Hardt e Negri (2005. isto porque. 48 para enfrentar a queda do marco. como conseqüência da dificuldade de distinção entre guerra e atividade policial. 29). como há um necessário e ininterrupto exercício do poder e da violência.) que envolve intensas políticas sociais. pois. as relações internacionais e a política interna tornam-se cada vez mais parecidas. transformando-se também num regime de biopoder destinado a controlar a população. por serem inimigos indefinidos e imateriais. tanto do ponto de vista das políticas sociais como também das guerras propriamente ditas. etc. confirmando a tendência moderna de fazer coincidirem emergência político-militar e crise econômica” (Agamben. p. esteja ou não envolvido o derramamento de sangue”. o governo usou o art. que a guerra tornou-se o princípio da organização da sociedade. Assim é que a “metáfora” da guerra é utilizada para combater diversos inimigos. pólio. os discursos de combate à pobreza.182 utilizaram-se do artigo 48 para “prender militantes comunistas e para instruir tribunais especiais habilitados e decretar condenações à pena de morte. p. Em várias oportunidades. hoje é difícil fazer uma leitura correta e distinguir entre guerra e política. à fome. que envolvem. 35-37) estes novos tipos de guerras (guerras contra as drogas e contra o terrorismo) têm conseqüências importantes no contexto da vida social: primeiro. também. atividade militar (inimigo externo) e policial (classes perigosas como inimigo . ela deve ser combatida diariamente. tornando-se difícil a distinção entre a guerra e atividade policial. AIDS. 2004. transformando-se “na matriz geral de todas as relações de poder e técnicas de dominação. partindo-se da fórmula de Clausewitz (a guerra é uma extensão da política por outros meios). Veja-se. à erradicação de determinadas doenças (dengue. não há limites em termos espaciais e temporais.

potencialmente. não conseguiram perceber que a “radical transformação da política em espaço da vida nua (ou seja. na guerra contra o terrorismo ou contra as drogas. Direitos Humanos e a atual tendência de permitir o constante (e perpétuo) estado de guerras. esta nova concepção de poder (biopoder) proporciona reflexos contundentes sobre os Direitos Humanos.) a fim de proporcionar um interesse universal de determinadas ações (interesse humanitário) e. tanto Hannah Arendt quanto Foucault. Para Agamben. estabelecer as conexões entre biopoder. p.183 interno) se confundem e. à estrutura dos Estados totalitários limitada. Importante. contra o “crime organizado”. pela falta de uma perspectiva biopolítica. Muito mais do que ignorar séculos de lutas pela emancipação humana. isto porque na medida em que o inimigo é abstrato e ilimitado. terceiro. . importante ressaltar a necessidade de hoje estar ganhando espaço (principalmente pela mídia) o conceito de “guerra justa”. portanto. Direitos Humanos e a guerra perpétua Apesar. 11). Giorgio Agamben reconhece que ambos os pensadores foram importantes na trajetória do entendimento entre o modelo jurídico-institucional e o modelo biopolítico de poder. Em relação a esta última conseqüência. em nome da proteção dos Direitos Humanos. foi suficiente para perceber que “o ingresso da zoé na esfera da pólis. as alianças se tornam. entretanto. no mais das vezes. ela pôde constituir-se em uma proporção antes desconhecida como política totalitária”. 2002. a politização da vida nua como tal constitui o evento decisivo da modernidade.1. 125/126). das ponderações feitas aos trabalhos de Foucault e Hannah Arendt5 sobre biopolítica. Esta falta de desenvolvimento conceitual da biopolítica fez com que Hannah Arendt não percebesse que foi a radical transformação da política em 5 Para Agamben (2002.2 Um segundo significado: o biopoder. Hannah Arendt dedicou-se. Somente porque em nosso tempo a política se tornou integralmente biopolítica. etc. no segundo pós-guerra. é a reorientação da concepção de aliança. isto porque a pesar de não ter havido um desenvolvimento conceitual de biopolítica. pp. e ao mesmo tempo. 5. que assinala uma transformação radical das categorias político-filosóficas do pensamento clássico” (Agamben. no sentido de legitimar ações militares (internacionais ou nacionais. em campo) legitimou e tornou necessário o domínio total.1. universais.

da indeterminação dos tradicionais conceitos políticos (público e privado. 126/127) consegue explicar o fenômeno da “politização da vida” como o caráter fundamental da política dos Estados totalitários. com as suas necessidades. de fato. o suspeito por definição. O cidadão se torna. nos Estados totalitários. assiste-se. 127) O fato é que uma mesma reivindicação da vida nua conduz. p. Agamben (2002. e os Estados totalitários converter-se quase sem solução de continuidade em democracias parlamentares. Vale dizer: todos pertencem a uma mesma ordem. tornara-se por toda parte o fato politicamente decisivo. a uma primazia do privado sobre o público e das liberdades individuais sobre os deveres coletivos. Isto ocorreu pois a política já estava transformada em biopolítica. como ela havia percebido em suas pesquisas. etc. sendo agora necessário determinar qual a melhor forma de organização do Estado para tornar mais eficaz o controle sobre a vida. o critério político decisivo e o local por excelência das decisões soberanas. O significado jurídico dessa enigmática situação é a inclusão de todos os indivíduos no limiar entre os não suspeitos e os indiferentes. a qualquer . liberalismo e totalitarismo. ou seja. A constatação mais contudente de Agamben (2002. Este é o sinal. com a qual no nosso século (século XX) as democracias parlamentares puderam virar Estados totalitários. absolutamente indeterminada e profundamente desigual. isto porque a cada movimento político das massas (conquistas de direitos. A partir do pensamento de Karl Löwith. o novo referencial político. para além dos limites do estado de exceção. ao contrário. liberdades. Esta é a razão. a qual ignora todo e qualquer estatuto jurídico. pois o cidadão pode. oferecendo assim uma nova e mais temível instância ao poder soberano do qual desejariam liberar-se”.184 espaço da vida (ingresso da zóe na vida pública) que possibilitou o domínio através dos Estados totalitários e não o contrário. conforme Agamben. espaços. a um deslocamento e a um progressivo alargamento. p. da decisão sobre a vida nua na qual consistia a soberania”. relacionando democracia e totalitarismo. é possível compreender a rapidez. e torna-se. E apenas porque a vida biológica. p. direita e esquerda). assim. Para Agamben (2002. nas democracias burguesas. 128) é que “no mesmo passo em que se afirma a biopolítica.) resultaria numa “crescente inscrição de suas vidas na ordem estatal. de outra forma inexplicável.

expõem as marcas desse novo poder. no entanto. As guerras. Agamben. sua significação estar na dependência de uma ação política. especialmente aqueles relacionados com a produção de biopoder e sua conseqüência nos campos econômicos e políticos. permitindo. diante da possibilidade da exceção se tornar a regra é que ocorrem as maiores violações de direitos. com esta situação de indeterminação e indiferenciação entre regra e exceção e. contudo. com o passar do tempo. Estas violações de direitos (sagrados e inalienáveis) de que fala Agamben estão nesta condição de vulnerabilidade em função do permanente estado de guerra produzido por diversos fatores. de que é exemplo não só aquelas ditas convencionais – comumente protagonizadas pelos Estados Unidos – como aquelas realizadas contra inimigos abstratos (drogas. como as mais diversas modalidades de segregação que se disseminam em escala nunca vista. denunciar e caindo assim numa trágica contradição performativa?” Sem dúvida o que ocorre hoje é uma alteração do foco de atuação dos discursos legitimadores de ações militares e “a luta contra o totalitarismo serve para legitimar e transfigurar a guerra total contra os “bárbaros” estrangeiros ao . enquanto suspensão da própria ordem jurídica.). contribuindo a alimentar ulteriormente os horrores que pretende. p.185 momento. um estado de guerra. continuamente. a regra. p. Entretanto. mais especificamente. terrorismo. seja ela no plano externo quanto no plano interno. 15). isto porque “o estado de exceção não é um direito especial (como direito da guerra). define seu patamar ou seu conceito limite” (Cf. que esta situação de aparente anormalidade torne-se. uma total indefinição do conceito de cidadão ou. os atuais campos de concentração. 2004. com isto. especialmente quando se proclama. mas. mostrando que em determinados momentos o indivíduo pode estar totalmente desprovido de qualquer tutela ao tempo em que perde seus direitos de cidadão de um Estado. estar totalmente desprovido de seus direitos. 79): “a teoria costumeira do totalitarismo não terá se transformado ela própria numa ideologia da guerra. e da guerra total. possibilitando. pergunta Domenico Losurdo (2003. Ocorre que. É nesta exata configuração que Giorgio Agamben trabalha o tema do estado de exceção e a perda dos direitos sagrados e inalienáveis do homem. etc. os regimes totalitários. em outros termos. degradação ambiental.

a Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo publicou a Resolução 59 estabelecendo o Regime Disciplinar Especial (RDE). p. a produção de morte que. especificamente. pode ser representada por Hiroshima e Auschwitz. ou seja. O domínio total da vida passa a ser a produção de morte. o embargo e a punição coletiva impostos ao povo iraquiano (e mais recentemente ao povo iraniano) e a outros povos. por conta disso. não mais corpos dóceis e treinados. mas o total controle da vida. Estas denúncias continuam a funcionar como ideologias da guerra contra os inimigos do Ocidente e. é uma forma de biopoder. violando princípios penais constitucionais (em especial a impossibilidade do estado-membro legislar em matéria penal).186 Ocidente” (CF. das penas e dos regimes de cumprimento6. que no final de 2005 a aplicação do novo dispositivo legal. são justificadas as violações da Convenção de Genebra e o tratamento desumano reservado aos detentos na baía de Guantánamo. por oportuno. de 10 de dezembro de 2003. no caso brasileiro. p. o exemplo claro desse tratamento são as constantes alterações das leis penais – processuais. que autorizava a inclusão. isto é. estabeleceu a supressão consciente dos limites jurídicos pela autoridade administrativa”. 41) “a guerra só se torna efetivamente absoluta com o desenvolvimento tecnológico de armas que pela primeira vez tornaram possível a destruição em massa e mesmo a destruição global”. com o “bombardeio” de informações sobre a maximização do aumento da violência e sua conseqüente necessidade de combatêla. O chamado RDD foi regulamentado pela Lei Federal no 10. ou seja.792. 79). Cabe aqui destacar. fugas e/ou assassinatos de autoridades). que as ilegalidades perpetradas pelas diversas instâncias do Poder Executivo foram diluídas pelo discurso da eventualidade e da primazia da realidade fática. Registre-se. Importante aqui perceber que as guerras tomam o perfil de ação policial bem como de 6 Faço aqui. 3). “a excepcionalidade da situação. . para os propósitos da presente pesquisa. Este controle da vida passa a ser alcançado quando o estado de guerra se torna um elemento natural da vida social. típica dos estados de exceção. penais e de execução penal – no sentido de recrudescimento da norma. pois como se pode perceber especialmente com as constantes denúncias do chamado “totalitarismo religioso” do Islã ou mesmo do terrorismo (principalmente depois de 11 de setembro de 2001). permanência ou exclusão do preso no sistema do RDD tornou-se ato exclusivo do Poder Judiciário. alusão ao Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). classificação e separação de categorias. em nome desta ideologia. existe de forma diferenciada: a necessidade agora é outra. Losurdo. a recorrência discursiva à necessidade do momento (por conta de rebeliões. bem como. o qual passava a competência administrativa da execução penal àquela secretaria. simbolicamente. p. que alterou o artigo 52 da Lei de Execuções Penais. Para Hardt e Negri (2005. A lógica do poder disciplinar em estabelecer a ordem através da generalização. No Brasil. se torna perpétuo. Conforme aponta e orienta Rogério Dultra dos Santos (2006. entretanto. 2003.

que a esse perpétuo estado de guerra impõe-se um reforço constante da necessidade de segurança global. a “guerra deixou de ser o elemento final das seqüências de poder – a força letal como último recurso – para se tornar o primeiro e fundamental elemento. armas e do terrorismo – e a divulgação da multiplicação de atos violentos. Além desse caráter destrutivo. de ser mais seguro. Para os efeitos dessa pesquisa é imprescindível relacionar essa condição de produção com a necessidade de procura de outros espaços geográficos à reprodução do capital especialmente. possibilitando a inserção de novos mecanismos de exploração (econômica e política) e de controle e a necessidade do estabelecimento e manutenção da ordem global. sem o que se tornariam difíceis à perpetuação da necessidade de segurança e. etc. o discurso da segurança pressupõe e permite a manutenção da ordem através do condicionamento do ambiente com constantes ações militares e policiais – um ambiente de vida social constantemente vigiado e controlado tem a tendência. imperiosa vinculação entre os resultados causados pela criação dos inimigos comuns – especialmente do tráfico ilícito de drogas. a disciplina e o controle. Hardt e Negri (2005. 46) apontam o programa político de reconstrução de países devastados como o Iraque como exemplo desse projeto. Portanto. ou seja. p.187 destruição global. Destaque-se. no caso do Brasil. 44) deixando de ser regulada por estruturas jurídicas para desempenhar uma função constituinte e tornar-se uma instância reguladora. Hartd e Negri. em conseqüência. ante ataques externos. o que fundamenta a guerra preventiva. ou seja. p. pelo menos na retórica. ao “tráfico de drogas”. uma “atitude de guerra reativa. à proteção do meio ambiente. em função da agressão à soberania dos Estados. p. para uma atitude ativa destinada a prevenir um ataque”. que é uma grande alteração do discurso: da política de defesa para a de segurança. esse biopoder realiza tanto a destruição em massa como a ação individual. ou seja. potencializando a constituição de uma estrutura produtora e intimamente relacional entre biopoder e guerra7. 42-43) apontam para um novo caráter “ativo e constituinte” da guerra. da guerra interna proporcionada pelo combate ao “crime organizado”. constituindo-se a base da própria política” (Cf. Para tanto é fundamental a permanente existência do inimigo e da ameaça da desordem para justificar e legitimar a 7 Hartd e Negri (2005. Ainda que o direito internacional sempre tenha repudiado a guerra preventiva. . 2005. contudo.

já na década de 1980. As grandes atrocidades contemporâneas – desde as inimagináveis agressões e destruição do meio ambiente. pela diminuição da quantidade de força de trabalho necessária ao processo produtivo.1. descrever outra tendência proporcionada pelo pós-fordismo.188 violência estatal.). neste instante. não ampliar a produção. estimulando uma caracterização de novas exclusões sociais. proporcionando. prioritariamente. esta alteração de forma e finalidades da guerra ocorrida no início da década de 1970 tem íntima relação com a produção econômica. a primeira crise do petróleo. o movimento do poder é no sentido de ultrapassar a lógica da disciplina ao controle extremo e vital de todos. o aumento em escalas cada vez maiores do . integra vetores de inteligência. ou seja. 67 e segs. a partir do início dos anos 1970. uma crescente destruição dos postos de trabalho vivo. pois basta ver (apenas como exemplo) que o Tratado de Mísseis Antibalísticos. 5.1. mas tão somente modificá-la. p. pois. Um terceiro significado: exclusão social. pelo desenvolvimento das novas tecnologias requerido pela estrutura de produção capitalista que procurava mecanismos alternativos em função das constantes e cada vez maiores reivindicações dos trabalhadores assalariados. sobre todas as superfícies do planeta e até o fundo dos oceanos” (2005.3. ou seja. p. para os economistas. A produção pós-fordista é marcada. ampliando a militarização aos limites do espaço sideral. o crescente distanciamento e desigualdades entre pobres e ricos. informação e trabalho imaterial. É também neste período que se caracteriza. a qual “baseia-se na mobilidade e na flexibilidade. em 1973. uma maior valorização do capital. buscando-se. mesmo porque é necessário que os resultados da violência praticada tenham efeitos suficientes a legitimá-los. Para Hardt e Negri (2005. 68). potencializa a força. excesso de biopoder e violação dos Direitos Humanos É preciso. tenha ocorrido justamente entre dois momentos importantes da economia mundial: em 1971 houve a desvinculação do dólar americano do padrão ouro e. assinado entre os Estados Unidos e a União Soviética em 26 de maio de 1972. a produção pós-fordista (já refenciada no capítulo II da presente pesquisa).

8 Vale lembrar. servil – que se lhe oferecesse. em uma situação de difícil definição. por seu turno. fragmentada. que se articulam e se sustentam na ‘precariedade’ daqui. hoje. nesta situação. por exemplo). que sempre estiveram à margem desta suposta “estabilidade” (por isso se falar em fordismo periférico). necessitando de menos trabalhadores com uma produção maior. contudo. uma vez que. destituídos dos mais elementares direitos. que a relação existente no núcleo do próprio sistema produtivo fosse flexibilizada. ou seja. Ainda que possamos identificar no pós-fordismo a emancipação da rigidez fordista. bastando verificar a periferia do sistema – pense-se no caso brasileiro – e sua singular dinâmica. submetendo-se a qualquer condição laboral – seja ela precária. na qual os acordos corporativos não atingem mais do que uma parcela da classe trabalhadora. É possível observar hoje que a velha “sorte da classe trabalhadora” está diretamente relacionada com os “acordos” corporativos de lá. uma nova classe de trabalhadores. permitindo o desaparecimento de direitos conquistados via longas e dolorosas lutas sociais8. naturalmente associada a níveis salariais mais baixos que limitam o uso lucrativo de tecnologias de ponta. houve ganhos ao indivíduo trabalhador ao libertá-lo das jornadas fixas e rotineiras características do “acordo fordista”. estável. que mais de 1 bilhão e 100 milhões de pessoas estão nesta condição) – devem ser analisadas a partir da crítica aos resultados apresentados pela liberalização e financeirização do capitalismo pós-fordista. outro não foi o resultado senão um enorme e crescente aumento de grandes parcelas da população em situação pouco confortável – desempregados ou subempregados – permitindo. gradativamente substituído por um maquinário de alta tecnologia e de alta produtividade. Msc. (nota de rodapé elaborada a partir de discussões realizadas durante as aulas de “Economia Política”. na UNESC. então. constante.189 número de pessoas que vivem abaixo da linha da miséria (estima-se. isto porque o parque fabril fordista é. Dá-se. como também nas relações “contratuais” coletivas (sindicais. bem como há uma simbiose entre velhas e novas tecnologias dentro do mesmo processo produtivo. tanto em relação ao processo produtivo. que apesar do fordismo ter representado um modo amplo de reorganização sistêmica universal (como diriam David Ricardo e Marx). tornando-as cada vez mais precárias. mas substancialmente caracterizada pelo desespero de não se ter o que fazer e. no qual o trabalhador era legitimamente possuidor de direitos. a produção pós-fordista conseguiu em pouco tempo transformar o trabalho regulamentado. mesmo porque há aqueles. claro. que gradativamante é superado por processos flexíveis através da incorporação da alta tecnologia. ele jamais foi homogêneo. ministradas pelo Prof. e. forjando. de certa forma. e são muitos. sua não “precarizacao”. . Sandro Grisa). portanto. uma completa desestruturação da força de trabalho.

190

É este o sentido que se quer demonstrar à nova configuração da
relação entre capital e trabalho, isto é, a exclusão dos indivíduos do mercado de
trabalho corresponde, no mesmo sentido e ao mesmo tempo, à total exclusão dos
direitos sociais, à banalização da relação do indivíduo com o Estado, permitindo,
todavia, estabelecer, na contra-mão da história, a trágica situação de milhares de
pessoas sem qualquer expectativa de vida, isto porque a dinâmica da situação está
permitindo aprofundar o déficit social em razão direta à inadequação dos
instrumentos políticos institucionais que no período fordista de produção permitia,
especialmente os instrumentos de inclusão cidadã típicos que o Estado
keynesiano, de certa forma, proporcionava.
Conforme analisa Alessandro De Giorgi (2002, p. 69), “Delineia-se,
nesse momento, uma profunda contradição: o reconhecimento do direito à
cidadania, à inclusão social e ao rendimento é subordinado a um trabalho,
entendido como emprego, que não tem mais uma referência material. Se até a
segunda metade do século XX foi possível construir a cidadania como conjunto de
direitos do trabalho mediados pelo direito ao trabalho, direitos que o compromisso
fordista podia garantir mediante a reprodução do ciclo trabalho-salário-consumocidadania, agora esta dinâmica não é mais imaginável”9.
A conseqüência mais marcante é a forma que foi alterada a relação
social entre capital e força de trabalho, isto porque aquela força de trabalho do
período fordista que necessitava disciplina e controle está flexibilizada, móvel,
fluida, provocando uma negação dos direitos sociais e de cidadania. Agora a
“preocupação” é o que fazer para controlar a multidão10, ou seja, um grande e
9

“Si delínea a questo punto uma profonda contraddizione: il riconoscimento Del diritto allá
cittadinanza all´inclusione sociale e al reddito è subordinato a un lavoro, inteso come impiego, que
non ha più un referente materiale. Se fino alla seconda metà del Nocento è stato possibile costruire
la cittadinanza come complesso di diritti del lavoro mediati dal diritto al lavoro, diritti che il
compromesso fordista poteva garantire mediante la riproduzione del ciclo lavoro-salario-consumocittadinanza, ora questa dinamica non è più immaginabile”.
10
Na obra “Multidão: guerra e democracia na era do Império” (Tradução Clóvis marques. Rio de
Janeiro: Record, 2005), Hardt e Negri, abrem a possibilidade da democracia estabelecer os
parâmetros para alcançar os desejos de um mundo mais igual e livre e a “multidão” é a “alternativa
viva que vem se constituindo dentro do Império”, isto porque globalização é também a “criação de
novos circuitos de cooperação e colaboração que se alargam pelas nações e os continentes,
facultando uma quantidade infinita de encontros”, possibilitando a manutenção das diferenças
aproximando os pontos em comum e o agir conjunto (p. 12). Para eles, a “multidão” diferencia-se
de outros sujeitos sociais como “povo”, as “massas” e a “classe operária”. Se “povo” tem uma
concepção unitária a “multidão” é múltipla – composta de inúmeras diferenças internas (culturas,
raças, etnias, gêneros e orientações sexuais), diferentes formas de trabalho, diferentes desejos e
maneiras de viver. Em relação às massas, compostas de todos os tipos e espécies, não se pode
dizer que diferentes sujeitos sociais as formam, pois sua essência é a indiferença, entretanto na

191

fértil campo a imperar a lógica da ausência de regras e, conseqüentemente,
facilitar e assegurar a intervenção, ainda que violenta, do Estado.
Isto tudo é importante para demonstrar que a cena contemporânea
mudou, isto porque a tendência das novas formas da produção está em constante
transformação, na qual o motor de propulsão é, sem dúvida, a nova forma global
de soberania11, ou a nova ordem política: o Império, isto é, ultrapassando a lógica
do imperialismo moderno – caracterizado pela centralidade do poder e o
monopólio sobre o território – de domínio europeu e da expansão capitalista dos
séculos passados (caracterizados, principalmente, pela conquista territorial
estrangeira), surge um poder em rede, fundado principalmente no poder dos
Estados-nação dominantes e das grandes corporações multinacionais.
É preciso, todavia, delinear as novas configurações da produção da
nova ordem política e econômica global, não mais da força de trabalho do período
fordista, mas a partir de uma lógica da multidão (da composição social da
multidão – características culturais, de raças, etnias, gêneros e orientações
sexuais), a partir das diferentes formas de trabalho, desejos e maneiras de viver,
saberes, imagens, afetos, etc., não mais do trabalho sob o domínio do capital, mas
através da composição social do trabalho, ou seja, ultrapassar os limites do
domínio do poder disciplinar sobre o corpo e entender as transformações sob a
hegemonia do trabalho imaterial, isto porque diante da tendência da

“multidão” as diferenças sociais mantêm-se diferentes. Neste sentido o desafio da “multidão” é
possuir um movimento comum, respeitada a diversidade. Os autores também fazem a distinção de
“multidão” e “classe operária”, pois para eles o conceito de “classe operária” serve, num primeiro
momento para distinguir os trabalhadores dos proprietários dos meios de produção, bem como (em
sentido mais estreito) separando a classe operária (trabalhadores industriais) de outros
trabalhadores (agricultura, serviços, etc.). Num segundo momento, “classe operária” refere-se a
todos aqueles trabalhadores assalariados. Para os autores (Hardt e Negri), “multidão” é um
conceito aberto e abrangente em função das transformações ocorridas na esfera da economia
global, pois se de um lado a classe operária industrial não desempenha um papel hegemônico na
economia global (ainda que, quantitativamente, não tenha diminuído), “a produção já não pode ser
concebida apenas em termos econômicos, devendo ser encarada de maneira mais ampla como
produção social – não apenas a produção de bens materiais, mas também a produção de
comunicações, relações e formas de vida” (p. 13), constituindo-se, pois, de diferentes
configurações da produção social.
11
Michael Hardt e Antonio Negri desenvolvem a idéia de uma nova soberania a partir da categoria
“império” (Império. Tradução de Berilo Vargas. 6a ed., Rio de Janeiro: Record, 2004), aduzindo
substancialmente que é preciso reconhecer que a ordem global contemporânea não pode ser
entendida somente no mesmo sentido atribuído pela soberania do Estado-nação, mas por uma nova
forma de soberania, agora um poder em rede que possui como elementos fundamentais, além dos
Estados-nação, uma ordem destituída de um centro de comando e coordenada por corporações
multinacionais e instituições supranacionais.

192

desmaterialização do trabalho não só surgem novas formas de trabalho como
também outras formas tendem a se transformar.
Cristian Marazzi ao analisar a crise do que chama de new economy12,
reforça a idéia de que a mesma revolução tecnológica que foi responsável pela
produção pós-fordista e redução do tempo improdutivo, também foi capaz de
possibilitar o maior acesso social às informações, contribuindo, porém, com o
aumento do tempo de trabalho, reduzindo o “tempo de atenção que somos capazes
de dedicar a nós mesmos e às pessoas com quem trabalhamos e convivemos”
(2002, p. 35-36).
Entretanto, Marazzi (2002, p. 36) compreende que esta sobrecarga de
informações, resultado do crescimento de dispositivos tecnológicos de acesso às
informações, proporcionou na nova economia, do lado da oferta, “rendimentos
crescentes em virtude da desmaterialização e reprodução dos bens instrumentais”,
entretanto, pelo lado da procura de bens e serviços, a atenção tem rendimentos
decrescentes, “porque a atenção é um bem fugaz, facilmente perecível”.
Como visto, a produção pós-fordista intentou superar os mecanismos
protagonizados pela produção fordista-taylorista, resultando no “trabalho
reflexivo, cognitivo e comunicativo, o trabalho vivo do general intellect
centralizado na cooperação lingüística de homens e mulheres, na circulação
produtiva de conceitos e de esquemas lógicos inseparáveis da interação viva dos
homens” (Cf. Marazzi, 2002, p. 37).
As transformações proporcionadas pela produção da nova economia
estão voltadas à capacidade e quantidade de informações, mobilizando e
otimizando os mecanismos externos ao trabalho (especialmente pela revolução
tecnológica) permitindo a eliminação do tempo improdutivo do trabalhador,
aumentando-se o valor de uso das mercadorias e, conseqüentemente, o lucro, isto
12

A discussão que Cristian Marazzi (2002) faz neste artigo é muito interessante, especialmente
porque ele diagnostica através de análises dos movimentos antiglobalização (de Seattle a Gênova
em julho de 2001), o problema da relação da produção pós-industrial e a capacidade dos mercados
e das empresas se moldarem às novas expectativas, ou seja, “de emancipar-se da fábrica e das
fronteiras nacionais para comercializar desejos, imaginários, estilos de vida, para capitalizar o
imaterial” (p. 32), isto porque, de certa forma, as lutas dos movimentos sociais antiglobalização se
constituíram contra a utilização privada do espaço público, bem como contra a “comercialização
simbólica operada pelas multinacionais produtoras de bens de consumo” (p. 33). Para ele “a luta
contra a logomarca e o circuito mundial de exploração da mão-de-obra funcionou como alavanca
no crescimento global de um movimento ´antiglobal´” (p. 33).
Esta é a razão de identificar a origem da crise da new economy e entendê-la como um “modo de
produção capitalista atravessado pela comunicação, pela força produtiva da linguagem, seja na
esfera diretamente produtiva de mercadorias, seja na monetária e financeira” (p. 35).

193

porque tais transformações reduziram “a quantidade de tempo de atenção
necessária para absorver a oferta total de bens informativos” (Cf. Marazzi, 2002,
p. 37).
Marazzi vê, ainda, que neste contexto a crise gerada pela
desproporção entre a oferta de informações e a procura de atenção conduza a
processos de monopolização da produção e da distribuição da informação, mas
não de sua procura, pois apesar de ser necessário o aumento de investimento para
controlar a atenção é necessário também, do lado da procura (do lado do consumo
da atenção), um rendimento suficiente para adquirir os bens informativos
oferecidos no mercado.

Trata-se de uma contradição capitalista, contradição interna à forma de
valor, ao seu ser simultaneamente mercadoria e dinheiro, mercadoria cada
vez mais guarnecida de informações (necessárias para ganhar um pedaço de
mercado) e dinheiro-rendimento sempre mais distribuído de modo a não
aumentar a procura efetiva. A financeirização da década de 1990 de fato
gerou rendimentos somadores, mas, além de os ter distribuído de modo
desigual, criou-os destruindo salário e estabilidade ocupacional. A destruição
da estabilidade ocupacional e da regularidade salarial contribuiu para agravar
o déficit de atenção dos trabalhadores-consumidores, obrigando-os a dedicar
mais atenção à busca de trabalho que ao consumo de bens e serviços
imateriais (grifo nosso). (Cf. Marazzi, 2002, p. 38).

Este excesso de inovações tecnológicas proporcionou uma alta
produção sem a devida correspondência da capacidade de absorção do mercado à
demanda efetiva, ou seja, superando a capacidade dos indivíduos de consumir,
sejam livros, internet ou via televisão, produzindo uma espécie de recessão
econômica. As conseqüências dessa crise apontadas por Marazzi (2002, p. 41) são
importantes especialmente quando se percebe a destruição de toneladas de
equipamentos

eletrônicos

que

o

mercado

não

absorveu,

destruindo

sistematicamente milhares de postos de trabalho no mundo inteiro: desde grandes
cidades inglesas como Liverpool e Coventry, como no chamado Vale do Silício13
ou nas zonas industriais de exportações das Filipinas e da Indonésia. Estes novos
processos protagonizados pela nova economia são os resultados “da determinação
com a qual o capital destruiu a fábrica fordista; é fruto da violência com a qual o
capital
13

aterrorizou

o

trabalho

cognitivo,

exatamente

como

colonizou

O Vale do silício ou Silicon Valley está situado na Califórnia, Estados Unidos, e corresponde a
um conjunto de empresas produtoras de chips, implantadas na década de 50 do século XX, com o
objetivo de aumentar e inovar suas capacidades científicas e tecnológicas.

194

simbolicamente o espaço público, enxertando no trabalho competências, saberes,
conhecimentos, paixões, afetos, capacidade de relação e de comunicação da mãode-obra” (Cf. Marazzi, 2002, p. 41).
Não se está falando da perda da centralidade do trabalho vivo, mas
uma tendência do mercado de trabalho de um modo geral, mesmo porque, como
afirmam Hardt e Negri isto significa que a cena contemporânea do trabalho e da
produção está “sendo transformada sob a hegemonia do trabalho imaterial, ou
seja, trabalho que produz produtos imateriais, como a informação, o
conhecimento, idéias, imagens, relacionamentos e afetos”, é dizer, não significa
que não existam mais trabalhadores na indústria, comércio ou na agricultura, ou
mesmo tenha diminuído a quantidade desses trabalhadores, mas tão somente que
“as qualidades da produção imaterial tendem hoje a transformar as outras formas
de trabalho e mesmo a sociedade como um todo” (2005, p. 100), mesmo porque,
conforme afirma Ricardo Antunes (2005, p. 161) vários experimentos de
automação dos processos de produção que ignoraram (desconsideraram) o
trabalho vivo fracassaram, demonstrando claramente que mesmo com todo o
aparato tecnológico não se pode prescindir da mão-de-obra viva.
Ocorre, em verdade, que “o sistema de metabolismo social do capital
necessita cada vez menos do trabalho estável e cada vez mais das diversificadas
formas de trabalho parcial”, ou seja, “como o capital não pode eliminar o trabalho
vivo do processo de mercadorias, sejam elas materiais ou imateriais, ele deve,
além de incrementar sem limites o trabalho morto corporificado no maquinário
tecno-científico, aumentar a produtividade do trabalho de modo a intensificar as
formas de extração do sobretralho em tempo cada vez mais reduzido”, produzindo
a redução do proletariado taylorizado, ampliando o trabalho intelectual abstrato
bem como aumentando a quantidade de trabalhadores precarizados (Cf. Antunes,
2005, 160), resultando no aumento da quantidade de trabalhadores que vivem em
condições precárias.
Isto tudo pode ser considerado uma enorme extensão do poder sobre a
vida, é dizer, um excesso de biopoder que provoca uma infinidade de problemas
(já conhecidos), não só na organização da vida social – exclusão social,
desemprego em massa, criminalização da miséria, banalização da vida, etc. –
como também problemas relacionados com a própria dimensão da vida em si
(aqueles ainda não são conhecidos concretamente) – e que de alguma maneira

O mercado como centro de produção normativa e de decisão política Como foi mencionado no capítulo anterior. o deslocamento da soberania do Estadonação ao mercado permitirá dizer que haverá um maior controle da disponibilidade da vida dos cidadãos. o domínio do ser humano diante dessa multidão. isto porque. é necessário entender agora que. se de um lado temos a possibilidade de todos participarem ativamente das relações de . Existe uma íntima relação entre economia e sociedade de controle. ou seja. uma vez que a “ascensão do salariado precário (sobre um fundo de desemprego de massa na Europa e de “miséria laboriosa” na América) e retomada do Estado punitivo seguem juntos: a “mão invisível” do mercado de trabalho precarizado encontra seu complemento institucional no “punho de ferro” do Estado que se reorganiza de maneira a estrangular as desordens geradas pela difusão da insegurança social. duas caras da mesma realidade. pois. entretanto. 5.195 deverão ser enfrentados nas próximas décadas. como passaremos a analisar doravante. se há a tendência do mercado de trabalho ser transformado sob a hegemonia do trabalho imaterial. ou seja. relacionar o conteúdo da violência estrutural e institucional do Estado a fim de estabelecer conexão entre o modelo econômico neoliberal com o fenômeno da desregulamentação dos direitos sociais e trabalhistas e a retomada do Estado punitivo. devendo. então. no contexto da presente pesquisa a expressão “mercado” terá seu sentido delimitado como órgão de decisão política e centro de produção normativa. p. É preciso. isto porque na contemporaneidade ambas representam racionalidades do modelo liberal de desenvolvimento.2. especialmente sobre as conseqüências deste excesso em relação à soberania humana sobre si mesma. o mercado referenciar a necessidade e a legitimação da utilização de mecanismos de controle social. em função de permitirem um discurso plasmado na minimização (redução) do distanciamento social entre os indivíduos. (WACQUANT. 135). se partindo da análise do tópico anterior foi possível contemplar e analisar o desenvolvimento da intensa peculiar relação entre as novas tecnologias e o mundo do trabalho. 2001 a.

Entra em cena uma importante face da centralidade do mercado como órgão de decisão política e centro de produção normativa. Para Bauman (1998. 34): A desregulação universal – a inquestionável e irrestrita prioridade outorgada à irracionalidade e à cegueira moral da competição de mercado –. pois os instrumentos compensadores. A desigualdade – intercontinental. isto porque é a ordem mercadológica que proporciona a tomada de decisão política mais adequada. e o repúdio a todas as razões que não econômicas. parecia ter deixado para trás uma vez por todas. . de outro temos o controle estatal garantindo que aqueles que não estiverem aptos a estas circunstâncias serão absorvidos pelo poder penal. neste caso. é possível. p. é a estrutura sócio-econômica que determina a exata dimensão e proporção da atuação estatal na produção de leis – sejam elas de origem do poder executivo ou do poder legislativo. dentro da mesma sociedade (sem levar em conta o nível do PNB exaltado ou lastimado pelo país) – atinge uma vez mais proporções que o mundo de há muito pouco tempo. por meio do estado de exceção. mas também de categorias inteiras de cidadãos que. a desatada liberdade concedida ao capital e às finanças à custa de todas as outras liberdades. como agora se percebe) pelas estruturas legais do estado do bem-estar. da legislação do trabalho e – numa escala global (embora. como a instauração. mais fundamentalmente. por qualquer razão. deram um novo impulso ao implacável processo de polarização. o despedaçamento das redes de segurança socialmente tecidas e societariamente sustentadas.196 produção e de consumo. p. outrora detido (apenas temporariamente. de uma guerra civil legal que permite a eliminação física não só dos adversários políticos. pareçam não integráveis ao sistema político” (2004. dos direitos de negociação dos sindicatos. entre os estados e. típicos do Estado de bem-estar social. nesse sentido. de forma analógica. não podem mais ser utilizados. é dizer. Sob um enfoque metafórico. Para Agamben “o totalitarismo moderno pode ser definido. de modo muito menos convincente) – pelos primeiros efeitos dos órgãos internacionais encarregados da redistribuição do capital. hoje o cenário é outro. confiante em sua habilidade de auto-regular-se e autocorrigir-se. impossibilitando também a satisfação das carências proporcionadas criando um enorme desequilíbrio social incapaz de ser resolvido pelo Estado. Ocorre que se no período das políticas keynesianas era possível minimizar as conseqüências do desemprego e da exclusão social com políticas de mediação entre poder público e população carente. 13). estabelecer a relação entre a categoria schmittiana de “soberano” (como aquele que decide sobre o estado de exceção) e o mercado.

vale tudo. cada vez mais. 15 A polarização social está definida sob o ponto de vista econômico. é a utilização do sistema de controle social. de haver. dentro de uma lógica globalizada. necessitando. caracterizado pelo aumento da quantidade de desempregados formais. pela existência do trabalho ilegal (trabalho escravo. ou seja. isto porque a sociedade capitalista (na versão neoliberal ‘capitalismo de mercado’) está baseada na desigualdade e subordinação. sociais e econômicas sérias” está relacionado com a orientação liberal que procura transformá-las em programas “focados”. qual a importância. pois. Ela ocorre ante a desigual distribuição da riqueza. isto é. pelo sub-emprego. a perspectiva contemporânea frente ao atual quadro de polarização social15.2. mas também revela outras importantes facetas. do tipo penal. estão orientadas dentro de uma lógica neo-conservadora. como a geração de empregos e renda e arrecadação de impostos. observando-se o abismo existente entre os poucos que tem muito e os muitos que tem pouco. um aumento da criminalização de condutas? A partir da proposição feita pela criminologia crítica (a observação é proporcionada a partir da análise materialista dos processos institucionais e estruturais do controle do desvio. de um sistema de controle social do desvio do tipo repressivo. econômica e social. através do aparato do sistema penal do direito burguês. de conservação da escala 14 É bom deixar claro que a afirmação de que o Estado está inerte de “políticas públicas. de discursos velados e falaciosos. fomentado pelas políticas sócio-econômicas propostas pelo neoliberalismo é preocupante. Este último realizado pelo recrutamento de pessoas – jovens. Harvey.197 5. Enfim. tanto do ponto de vista das estratégias de poder como da análise dos seus receptores – criminalização primária e secundária) é possível diagnosticar que diante de um Estado inerte de políticas públicas. trabalho informal e trabalho ilícito. sem o caráter de universalidade que caracteriza as chamadas políticas públicas keynesianas. A forma encontrada para administrar e conter massas de insatisfeitos e excluídos pelo mercado. inclusive a inserção. . etc). armas. pois este (direito penal) “é um instrumento precípuo de produção e de reprodução de relações de desigualdade. na sua maioria – para execução de atividades ligadas ao tráfico ilícito de drogas. no inconsciente. A exacerbação da divulgação de atos de violência como mecanismos de controle O mercado funciona. como órgão de decisão política e centro de produção normativa. isto porque na conquista de novos mercados. para usar uma expressão do D. como sua impressionante mobilidade e adequação à realidade.1. sociais e econômicas sérias14.

aquisição de veículos – motos. enquanto produtor de violência. É neste sentido que nos interessa a perspectiva biopolítica diante da lógica neoliberal de mercado. 206/207).) um enorme investimento público no setor. 29). há também. sem que se cometa contra ele um 16 É bom lembrar aqui que apesar da propositura neoliberal em diminuir as fronteiras do Estado moderno.198 social vertical e das relações de subordinação e de exploração do homem pelo homem” (Cf. treinamento e contratação de pessoal. outra privada. É a total indiferença em relação à existência do outro. aviões – armamentos. A indústria do crime. é aquele destituído de seus direitos sobre a própria vida. possibilita. suprimentos. dos consumidores falhos. helicópteros. p. “o sistema do capital não sobreviveria uma única semana sem o forte apoio do Estado” (MÉSZÁROS. usando a expressão de Nils Christie. uma pública. carros. fomentada por duas vertentes. que nos fala Bauman). b) de outro lado. informatização do controle prisional. privatização dos presídios. a interação das relações sociais e políticas contemporâneas diante do fato do homem perder sua condição de vivente: é a vida nua. da mesma forma que os campos de concentração. especialmente pela possibilidade do surgimento de empresas que prestam serviços de segurança. É possível dizer. consegue demonstrar qual a vida que é indigna de ser vivida. juntamente às transformações efetivas dos processos de produção – como do fordismo ao pós-fordismo – corroboram à consecução de dois objetivos fundamentais à economia política das penas. é a possibilidade de morrer sem estar morto. caminhões. ou seja. . investimento tecnológico. 1999. 2003. etc. Sob o signo da iniciativa privada. que o mercado. os quais devem ser analisados16: a) a exploração da indústria do crime. O Estado. assim. comprovando a necessidade da chamada “ajuda externa” para a reprodução do capital. BARATTA. daqueles que não fazem diferença à produção econômica. o controle do crime mostra-se extremamente sedutor como novo nicho de mercado. p. através dos mais diversos e modernos mecanismos de controle (como as câmeras de vídeo. como segundo objetivo da criminalização das condutas. é a criação do inimigo diante de sua impossibilidade de ser um consumidor (o consumidor falho. a possibilidade de controle e exclusão dos excedentes. tanto estrutural (pela reprodução da desigualdade social) como institucional (pela atuação do aparato repressivo estatal).

36/37). ou seja. portanto. que o ser a-bandonado17 do ente. mas pode ser morta. especialmente pelo deslocamento da soberania do Estado para o mercado. É preciso. ou seja. 67). quando delimita que a vida do homo sacer não pode ser sacrificada. Esta é uma importante relação que deve estar perfeitamente delimitada. aqueles excluídos pelo mercado. de aplicar-se desaplicando-se. neste momento. na verdade. não levar ao extremo a experiência do abandono. o que hoje poderíamos dizer dos não consumidores. É a relação de abandono que agora deve ser pesada de modo novo. ou seja. p. nem a norma suprema do ordenamento jurídico (Kelsen): ela é a estrutura originária na qual o direito se refere à vida e a inclui em si através da própria suspensão”. p. “(. Se o ser nada mais é. a soberania não é. mas é abandonado por ela. Aquele que foi banido não é. ele estabelece o limite entre a violência da ordem legal sem significado. 146). sem significado). em direção ao entendimento de que a soberania é a ‘lei além da lei à qual estamos 17 Cabe aqui uma breve inscrição. nem um conceito exclusivamente político. exposto e colocado em risco no limiar em que vida e direito. neste sentido. externo e interno. então. se confundem”. entender a relação e as conseqüências entre a adoção das atuais políticas de segurança públicas e o mercado como espaço soberano. em relação à segurança pública. isto porque parte-se do pressuposto de que há sérias conseqüências na adoção de políticas públicas neoliberais. Para Agamben (2002. significa permanecer dentro do niilismo. então aqui a estrutura ontológica da soberania põe a nu o seu paradoxo.) chamemos de bando a esta potência da lei de manter-se na própria privação. Para Agamben (2002. p. Para entender a condição de exclusão e abandono. nem uma categoria exclusivamente jurídica. ser morta sem que se cometa homicídio”...199 homicídio. é necessário ultrapassar o paradoxo da soberania (lei com vigência. nem uma potência externa ao direito (Schmitt). A relação de exceção é uma relação de bando. O atual quadro demonstra que este é o sentido e a tendência que se mostram ao adotar políticas de segurança pública conservadoras nas sociedades contemporâneas. a vertente mais moderna da vulnerabilidade da vida. simplesmente posto de fora da lei e indiferente a esta. a cristalização do código a decifrar: a intromissão da política na vida ou. em outras palavras. Ler esta relação como vigência sem significado. “o fato de que à soberania do homem vivente sobre a sua vida corresponda imediatamente a fixação de um limiar além do qual a vida cessa de ter valor jurídico e pode. . como o ser abandonado a e por uma lei que não prescreve nada além de si mesma. no dizer exato de Agamben (2002. “se a exceção é a estrutura da soberania. como característica do homo sacer. ou seja. A partir do paradoxo da soberania estabelecido por Giorgio Agamben. ou.

a exposição da vida a uma brutal violência. posição social e estilo de vida. ocorre o abandono desse indivíduo. A condição de consumidor. da vida livre e da concorrência. a caracterização do “abandono”. que se aprofunda e. Este é o mecanismo de exclusão social mais comum. ou seja. o que determina a alienação é a oportunidade de determinado indivíduo vender ou não sua força de trabalho. Está implícita nesta condição imposta pelo mercado uma criação de subjetivação. garantidor da liberdade de escolha e da regulação pelo mercado. 66). A exclusão pelo mercado se dá pela adoção de políticas públicas. o indivíduo é analisado pelo severo teste de pureza que necessita ser transposto por aquele que pretenda ser incluído socialmente. não há sacrifício em excluir do mercado os consumidores e trabalhadores falhos. que no mundo pós-moderno. porém. como o total abandono no processo de produção capitalista. e o processo de produção capitalista em particular. sob a identificação perniciosa da liberdade. não conseguem vender sua força de trabalho. se revela a alienação do processo produtivo. 18 Alienação. valores e idéias de viés neoliberal. p. 2002. é tratada em termos marxistas. De forma idêntica. ao mesmo tempo. Agamben. pois impõe ao sujeito. a venda de valores. do consumidor pela impossibilidade de consumir (ou consumir sem liberdade) e do trabalhador por não conseguir vender sua força de trabalho (alienação18). aqui. mesmo que queiram. 23). dialeticamente. Cabe. mas a realização de uma mera matabilidade. ou seja. assim. num verdadeiro ‘estado de exceção’ (Cf. o que não significa que ele vai vender. A alienação se caracteriza. Nos dois casos. sob pena de ser considerado ‘diferente’ pela exigente lógica do mercado consumidor. entender que é no seccionamento que configura o processo de produção em geral. disfarçado pelo véu do holocausto.b . especialmente pela cruel imposição do sistema penal e do processo de acumulação do capital. traz consigo.200 abandonados’. imposta pelo mercado é. mas. contribuem ao sentido angustiante de frustração e violência associada à necessidade (e impossibilidade) de consumo na fase atual. Os alienados são aqueles que não têm mais sentido para o Modo de Produção Capitalista e assim. apenas mera matabilidade. ser excluído (banido) significa estar em um lugar indefinível entre a lei e a vida. diga-se. A condição do povo hebreu não foi um sacrifício (pois Hitler aludia que eles foram mortos “como piolhos”). condições insustentáveis e inatingíveis. ou seja. p. a necessidade de resolução da alienação. afirma. Bauman (1998. entretanto. Aqueles que não podem são a ‘sujeira’ da pureza pósmoderna”. ou seja. “Nem todos podem passar nessa prova. crenças. para uma melhor percepção da relação que se pretende estabelecer. segundo as quais estruturam-se em práticas ideológicas mercantilistas e privatistas pela diminuição do tamanho do Estado. hoje.

o indivíduo. pelo avanço tecnológico e possibilidade de escolha. É um caso flagrante de vidas matáveis e insacrificáveis. entretanto. são os excluídos (encarcerados. É preciso perceber a dimensão dessa terrível exclusão (nos dois casos. de um exército de reserva responsável pela maior relação de excesso. etc. duas ponderações devem ser enfrentadas: a primeira está diretamente relacionada com os efeitos instituídos pela adoção de políticas de segurança pública neoliberais. cada vez maior e de forma permanente. não consumidores. A aura sacrificável de hoje. caracterizando o abandono no processo produtivo capitalista. há a necessidade do trabalhador possuir alto nível de qualificação técnica.201 De forma semelhante ocorre com o trabalhador que. b) com o aumento da composição orgânica do capital. não-trabalhadores.3. dentre os quais: a) a abundância de mão-de-obra pouco ou nada qualificada que. 5. etc. está relacionada com os pressupostos econômicos que 19 Poderíamos elencar diversos motivos. c) necessidade de mão-de-obra excedente para funcionar como regulador de reivindicações salariais. Neste sentido. ou seja. tanto pelo mercado consumidor como pelo mercado de trabalho. é necessário demonstrar algumas características da exploração e divulgação da violência e os efeitos perversos proporcionados pelo sentimento de insegurança. cada vez menos força de trabalho é necessária para empregar os meios de produção. sua condição biopolítica. ditas conservadoras. ela não é operada pelo sistema legal. Para esta dilucidação. ao perder a possibilidade de permanecer dentro de uma relação social de compra e venda de força de trabalho. deixa de pertencer a ela.). a segunda. esta combinação de fatores fomenta o aparecimento. por diversas razões. mascaram. portanto – tanto o mercado consumidor como o mercado de trabalho – como “legítimos” espaços biopolíticos da contemporaneidade. O estado de exceção Sob este ponto de vista. constituindo-se. como as políticas de “tolerância zero” e o movimento de “lei e ordem” e. a qual não consegue mais ser vendida. não consegue mais vender sua força de trabalho19. Assim é que. . pois tutelados por organizações que buscam satisfazer suas condições básicas de sobrevivência. tanto pelo mercado como pelo sistema de produção econômica). o novo homo sacer é delimitado pelo mercado. sobra e desprezível força de trabalho. mas pela biopolítica.

tudo está centralizado no sujeito. o mal-estar no campo cultural. A multiplicação dos atos de violência e as novas formas de exploração estão caracterizadas a partir do desaparecimento das instâncias coletivas de resolução dos conflitos em detrimento do surgimento das organizações privadas. a multiplicação de atos de violência e a emergência de formas de exploração em vasta escala – como a destruição ambiental. Cabe aqui mostrar as características e efeitos proporcionados pelo sentimento de insegurança. até simbólica. provocando um sentimento . em especial os processos de globalização. responsabilizando cada indivíduo pelo seu fracasso pessoal. essencialmente individualista da vida. jurídica. desde sua autonomia econômica. Ocorre que. 1). pois os interesses do grande capital – traduzida na militarização e hierarquização das potências hegemônicas – intensificaram a perversa e excludente política social e humanitária. privatizando-os. se caracteriza.202 impõe estas políticas. há uma perfeita criação e destruição (ambivalência das pulsões) pois “as formas de destituição subjetiva que invadem as nossas sociedades revelam-se através de múltiplos sintomas: os colapsos psíquicos. Assim é que a dinâmica social contemporânea. aprisionando-os na solidão radical de seu narcisismo. isto porque as políticas econômicas neoliberais. não se limita à reclusão dos sujeitos ao espaço privado. mais adiante convertido de igualdade jurídica (pois todos são iguais perante a lei). que todos teriam iguais oportunidades para. Para tanto. sob vários aspectos. neste momento de democracias liberais ou de mercado. é preciso analisar “como” o Estado contribui e se esforça para inculcar no imaginário popular (senso comum). num sistema de liberdades. Dufour. especificamente pelo princípio da igualdade e. Todos estes elementos são vetores de novas formas de alienação e desigualdade” (Cf. Estas duas ponderações serão objeto de análise das hipóteses seguintes. 2001. que a exclusão social (pobreza em geral) não ultrapassa a órbita individual. p. conduziram à atual crise de identidade da civilização. política. serem responsáveis. Foi. a administração dos conflitos sociais. Diante dessa responsabilização pessoal o indivíduo reconhece a possibilidade e necessidade de delegar a outros que obtiveram sucesso (quem vence é o mais apto – seleção natural). Para além das mais enfáticas demonstrações narcísicas da sociedade. mediante o positivismo jurídico. mas. prioritariamente.

ou a abreviação de "Provide . as políticas de segurança públicas implementadas. cuja tendência é a de apresentar-se como “paradigma de governo na política contemporânea” num patamar de “indeterminação entre democracia e absolutismo” (2004. isto porque. mostram a lógica do estado de exceção vigente nos Estados Unidos. eventualmente. p. aumenta o sofrimento dos muitos e potencializa a inclusão de outros tantos na miséria. este interessante cenário sugere como e porque o sistema sócioeconômico está a operar o controle dessa população. não declarado no sentido técnico) tornou-se uma das práticas essenciais dos Estados contemporâneos. por exemplo. é tido apenas como um objeto de consumo. 13). ainda que estes atos sejam atentatórios a direitos mas que. apesar de suprimir liberdades. diante de uma sociedade hegemonicamente de consumo. qualificar positivamente a decisão. mais exatamente no dia 26 de outubro de 2001. no qual as regras apenas proporcionam sua atuação diante da normalidade social. Para Giorgio Agamben “a criação voluntária de um estado de emergência permanente (ainda que. inclusive dos chamados democráticos”. Contudo. Para Agamben (2004. Alguns dias antes desta military order ser promulgada. As condições dos prisioneiros na Baía de Guantánamo imposta pela legislação norte-americana. O resultado dos desvios do projeto de universalização dos direitos (dignidade. o Senado norte-americano promulga o chamado USA Patriot Act (Lei Patriótica. possam. inclusive no Brasil. é dizer. se preferir. p.203 de vazio e uma atitude em relação ao outro. por excelência) a um projeto voltado à promoção do mercado aguça cada vez mais o drama da polarização social. 14) esta military order promulgada pelo presidente dos Estados Unidos em 13 de novembro de 2001 referenda o significado biopolítico do estado exceção. prioritariamente. Estas políticas de exceção têm gerado conseqüências importantes em todo o mundo. trabalham sob a lógica da guerra civil legal ou. muito mais próxima da indiferença que da culpa. especialmente depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 ao impor a determinados indivíduos uma indefinite detentios (suspeitos de terrorismo. pobreza e a não decência de vida. principalmente). e este (outro). é possível suspender – via decisão soberana – os direitos individuais e coletivos com a finalidade de manutenção e (ou) recomposição da ordem. sob o perpétuo estado de exceção.

I’d think Adolf Hitler or Joseph Stalin wrote them”. formalmente. A Comissão de Direitos Humanos . p. porque totalmente fora da lei e do controle judiciário”. its is conceived that somebody could be tried and acquited of that charge but may not necessarily automatically be released”. continua Agamben “a novidade da “ordem” do presidente Bush está em anular radicalmente todo estatuto jurídico do indivíduo. dessa forma. ou outro delito). produzindo. especialmente nos Títulos II e III. Cf. Nem prisioneiros nem acusados.html. o qual referencia que estabelecerá normas para deter e punir atos terroristas dentro dos Estados Unidos e ao redor do mundo. ainda. aliás. segundo a Convenção de Genebra. situação esta comparável àquela protagonizada pelos nazistas. Tais regras. Entretanto.org/privacy/terrorism/hr3162. internet. mas também quanto à sua própria natureza. criados por Bush em 13 de Novembro de 2001. além de não gozarem do estatuto de POW (prisioneiro de guerra).epic. de uma detenção indeterminada não só no sentido temporal. por exemplo.) dos cidadãos suspeitos21. mas apenas “detainees”. 22 Conforme Martins. Disponível em http://www. possibilitando abertura de investigação criminal para obtenção de informações). Trata-se. Luciano (2002. Argumenta Agamben. que os prisioneiros. em relação aos judeus presos nos campos de concentração22. informações pessoais em bibliotecas sobre livros buscados. nota de rodapé no 4) “Além das absurdas regras de funcionamento desses tribunais de exceção. são objeto de uma pura dominação de fato. 3. Co-Presidente da National Association of Criminal Defense Lawyers: “If I came out of the woods after 20 years and saw these rules. suspeito de atividades que ponham em perigo a segurança nacional dos Estados Unidos. Para Agamben o USA Patriot Act permite ao attorney general manter preso o estrangeiro (“alien”). bem como tratará de mecanismos investigatórios para esta finalidade. Acesso em 18 fev 2007. William Haynes: “If we had a trial right this minute. pelo Senado dos Estados Unidos. pelo prazo de 7 dias (quando deverá ser expulso ou acusado. eliminando as barreiras da privacidade (uso de e. os “talibãs capturados no Afeganistão.mails. 21 O referido USA PATRIOT ACT (H. orais ou virtuais que tratem de terrorismo. ligações telefônicas. suscitaram o seguinte comentário de Don Rehkopft. 22/03/02. tampouco gozam daquele de acusado segundo as leis norte-americanas.R. portanto. um ser juridicamente inominável e inclassificável”. etc. de violação da lei de imigração. o Pentágono já admite que mesmo que um prisioneiro seja julgado inocente isso não implica na sua libertação.204 Appropriate Tools Required to Intercept and Obstruct Terrorism")20 com finalidade de proteger a sociedade contra ataques terroristas possibilitando aumentar a segurança interna e declarar guerra contra o terror. 3162) foi publicado no dia 24 de outubro de 2001. The New York Times. a quem estão direcionadas as novas regras (árabes e mulçumanos) e os mecanismos investigatórios possíveis (fundamentalmente autorizações para acessar e interceptar comunicações eletrônicas. de uma lei muito ampla (342 páginas) e que propõe. 20 Tradução livre do autor da tese: “prover ferramentas necessárias para interceptar e obstruir atos terroristas”. Nas palavras do Advogado-Chefe do Pentágono.

primeiramente. da OEA. que a resultante dessas ações excepcionais – marcadas principalmente pela substituição da ação normativa democrática por uma ação arbitrária do Poder Executivo. de uma legislação de exceção. é dizer. por determinação contida na Resolução 26. mas não é só. pois a legislação penal brasileira também contribui ao atual modelo de regras baseadas na excepcionalidade. A criação do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) é característico dessa realidade. aliás. p. O sistema carcerário é um dos que mais sofrem ataques protagonizados pela legislação cada vez mais rigorosa. . apontam claramente não haver relação entre a ampliação do número de vagas no sistema carcerário e a diminuição da criminalidade violenta”. p. da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo (SAP/SP) que dispunha sobre a necessidade da regulamentação de um regime diferenciado dentre os estabelecimentos penitenciários.205 No Brasil. 9). também. de 04 de maio de 2001. a fim de fixar claramente as obrigações e as faculdades desses reeducandos”. Assim. isto porque. propôs a constituição de um tribunal independente para definir o status dos prisioneiros de Guantánamo”. “Os dados da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo. protagonizando a disseminação. sob os auspícios da imprensa. o qual deveria ser alcançado pelo equilíbrio entre a disciplina severa e as oportunidades de aperfeiçoamento da conduta carcerária (SAP/SP. ou seja. a produção normativa tem sido alterada profundamente e as condições de atuação do sistema penal vêm se mostrando cada vez mais rigorosa. uma troca que justifica a violação de direitos pela garantia de segurança – tem demonstrado o descompasso entre o recurso retórico (discursos declarados) e seus verdadeiros efeitos (discursos velados). Ocorre. O chamado RDD deu-se. como bem demonstra Rogério Dultra dos Santos (2006. entretanto. em comparação com os índices de criminalidade violenta da Secretaria de Segurança Pública do mesmo Estado. as medidas e métodos emergenciais de caráter “excepcional” tão somente proporcionaram uma atuação não só de maior intensidade qualitativa (na rigidez do processo) mas também uma majoração quantitativa da população encarcerada. criou-se o Regime Disciplinar Diferenciado “destinado a receber presos cuja conduta aconselhe tratamento específico. e com objetivo declarado de reintegração do preso ao sistema comum. 5). 2003.

no plano do obsceno supereu complementar dessa lei incondicional vazia. mesmo porque esta matriz teórica contribuiu apenas para aumentar o número de encarceramento e está muito mais voltada. Assim é que o resultado desse incremento da conflitividade social e sua conseqüente criminalização são as formas de controle social. etc. portanto.206 Apesar do discurso oficial (declarado) estar sempre fundado na punição e ressocialização. enquanto. às políticas que buscam cada vez mais o controle social. pela produção de uma enorme massa de excluídos em função das renovadas condições de exploração da mão-de-obra. da precariedade e insegurança impostas à força de trabalho na nova economia flexível.) – permite a desumanização das classes. também a distinção vertical entre as duas formas (superpostas) como se pode tratar as mesmas pessoas – resumidamente: perante a lei. seja ela do ponto de vista social. recém criada. permitindo. percebe-se que a opção (escolha) feita em busca da segurança reduziu as chances da sociedade contemporânea encontrar seu ideal de liberdade. criação . seja ela do ponto de vista do processo produtivo. não mais (ou não somente) no sentido de um disciplinamento de corpos. isto porque o discurso penal da virtude – cada vez mais centrado na separação entre os bons.. somos tratados como Homo sacer. de Homo sacer proposta por Giogio Agamben: (. 47) remete à noção. É neste ponto que Slavoj Zizek (2003. somos tratados como cidadãos. encarcerada. mas. A partir de vários discursos – especialmente o da pureza. principalmente. existe. cada vez mais. das gentes. tomar medidas de caráter de exceção. aumento do número de vagas em presídios. fundamentalmente.. em função do excesso de mão-de-obra e falta de qualificação. puros e virtuosos e os maus (população favelizada. é através de uma rica história inquisitorial que nas sociedades ocidentais contemporâneas o discurso punitivo entra em cena com maior vigor. mas. do tipo penal – maior severidade nas penas. das massas. às políticas penais. mas. potencializando o ideal de perversidade do outro. é permitida à grande massa da população a total exclusão. p. da beleza estética e o da ordem – agregados às conseqüências do modelo de produção pósfordista. sujeitos legais.) a distinção entre os que se incluem na ordem legal e o Homo sacer não é apenas horizontal. diga-se. as quais precisam ser ‘apenas’ controladas. agora. uma distinção entre dois grupos de pessoas. das populações. Este controle.

extrair lucro unindo dois pólos da mesma realidade: controle social e exploração da miséria. “desenvolvimento econômico numa economia pós-fordista e inclusão social”. controle seletivo das pessoas. O primeiro problema que ainda precisa ser analisado é a afirmação do fomento ao aparecimento de novas formas de controle social em função da longa sobrevivência e superação do capitalismo às crises e reorganizações em alegorias que promovem e deixam rastros de devastação em várias ordens. na melhor hipótese. etc. principalmente. propostos inicialmente. etc. 5. isto porque dentre os problemas a serem resolvidos. mas. quais estão sendo as formas que o capital encontra (ou encontrou) à sua reprodução diante da realidade de exclusão criada por ela própria e sua relação com o controle social? Quais as conseqüências da adoção de políticas públicas neoliberais. isto porque. – as quais puderam e estão possibilitando algo até então inimaginável.207 dos tipos penais à criminalização dos pequenos conflitos. como “guerra e democracia”. “movimentos de lei e ordem”. ou seja. especificamente em relação à segurança pública. ou ainda entre “democracia e capitalismo” – é perceptível a necessidade do capital se reproduzir buscando cada vez mais espaço. “liberdade e necessidade de consumo”. em relação aos danos produzidos ao meio-ambiente. indevidamente. signos contraditórios. O controle social e reprodução do capital: a face oculta da mesma “moeda” Creio que aqui esteja um dos pontos principais da presente tese. econômicas – exclusão sócioeconômica – e a deterioração da relação política em detrimento do poder do capital. bem como as conseqüências sociais – polarização social –. O segundo problema a ser enfrentado é justamente uma conseqüência do primeiro.? Quais são os resultados da “alienação . não encontramos respostas suficientes e adequadas. aos moldes daqueles denominados como “políticas de tolerância zero”. dois ainda não foram discutidos ou. ou seja.4. diante das determinações totalitárias do capitalismo contemporâneo – que pretende relacionar.

as devastações ambientais. – e a divulgação da multiplicação de atos violentos. a fim de realizar tarefas socialmente úteis. a crise “revela a existência de uma superprodução digital.172. algo externo a nós. Olívio Dutra. por ser tido como natural. p. no plenário da reunião da Comissão de Desenvolvimento Sustentável da ONU. em conseqüência. 2004. 93). de outro. In: Chauí. p. por exemplo. p. pelo menos aparentemente. e a possibilidade da inserção de novos mecanismos de exploração (econômica) e de controle social? Como visto até agora. Na contemporaneidade. ou se rebelam individualmente. a destruição do indivíduo e a intensificação de processos de subjetivações voltados à lógica do consumo e do mercado – em relação aos indivíduos que ficam “sujeitados” a um violento e funcional processo de anulação do seu status jurídico.208 social”23 causados pela criação de inimigos comuns – como os traficantes de drogas ilícitas e armas. Esta informação foi dada pelo então Ministro das Cidades. Marilena. podem mais do que a realidade que os condiciona. o terrorismo. a sobrevivência do capitalismo está vinculada à sua tendência de produzir crises de sobreacumulação. p. separado de nós e com poder total ou nenhum poder sobre nós”. na qual os humanos não se reconhecem como produtores das instituições sociopolíticas e oscilam entre duas atitudes: ou aceitam passivamente tudo o que existe. no Brasil há um déficit habitacional de 6. Ainda segundo o Ministro Olívio Dutra. 7a ed. Harvey. uma maneira de conjugar os excessos lucrativamente. com a adoção das políticas econômicas neoliberais. favelados. Para ele. ou na atual fase da new economy. 24 A reportagem de Helena Celestino mostra que o número de favelas no Brasil cresceu 150% entre 1999 e 2001. o que proporciona o espaço próprio da biopolítica (seu significado é o estado de exceção). fomentando novas formas de controle e de reprodução do capital. 2004. minorias. julgando que. como capacidade produtiva ociosa e/ou como excedentes de capital monetário a que faltam oportunidades de investimento produtivo e lucrativo” (Cf.. por sua própria vontade e inteligência. . a sociedade é o outro (alienus). foi possível verificar seus efeitos devastadores como a progressiva pauperização e polarização da população24. Para David Harvey (2004. a destruição das instâncias coletivas de resolução dos conflitos e. caracterizadas pela existência simultânea de excesso de capital – “acúmulo de mercadorias no mercado que não pode ser dissolvido sem uma perda. pobres. um excesso 23 O termo é empregado aqui para representar “a alienação social. sem que haja. Convite à filosofia.6 milhões de moradias. 93) – de um lado e. 78) a sobrevivência do capitalismo se dá – ainda que em meio a diversas crises – mediante à produção de novos espaços à sua reprodução. etc. divino ou racional. Nos dois casos. pelo excedente de mão-de-obra – desemprego em elevação (Cf. Harvey. negros. São Paulo: Ática. 1996.

portanto. é necessário relacionar as novas necessidades que estão sendo criadas com os propósitos da presente pesquisa. sendo necessário o rápido deslocamento do capital a outras regiões ou. lembrar que a formação do sistema capitalista tornou-se viabilizada em função. como visto no capítulo II da presente tese. o que ocorre é uma verdadeira acumulação via espoliação. ou seja. isto é. a privatização e a liberalização dos mercados foram o mantra do movimento neoliberal e o resultado foi transformar em objetivo das políticas do Estado a . p. da utilização do padrão de financiamento público do chamado Estado-providência. tanto do ponto de vista estrutural como funcional. a condição básica à desvalorização e destruição dos excedentes de capitais e a conseqüente pulverização da excedente mão-de-obra colocando-a numa situação de total exclusão. seja ela pública ou privada. Trazendo a discussão para o momento atual.209 de inovações tecnológicas e comunicativas em relação à capacidade de absorção do mercado. especialmente em relação ao conteúdo das políticas de segurança públicas. não só as privatizações têm este caráter. relacionar a exacerbada divulgação da violência. pp. 38-39). Este é o sentido de se poder afirmar que a violência está se tornando um grande e lucrativo negócio. no entanto. é preciso. isto porque os excedentes de capital são capazes de liberar “um conjunto de ativos a custo muito baixo” (2004. Nos termos de David Harvey. então. É preciso. a expansão geográfica e a reorganização espacial proporcionam esta absorção. no dizer de Harvey (2004. principalmente. as privatizações funcionam como o ‘braço armado’ da acumulação por espoliação). são as grandes responsáveis pela nova acumulação (nos termos de David Harvey. encontrar maneiras lucrativas e criativas para absorver os excessos de capital e impedir a impossibilidade do consumo. pode ser entendida pelas políticas de privatizações adotadas pelos Estados e. com a necessidade de expansão do capital. elas têm implementado um vasto campo para investimentos de capitais sobreacumulados. revelando-se. para o enfrentamento desta questão. Como se verá mais adiante. é dizer. É preciso. Contudo. à sua demanda efetiva” (Cf. p. 78). 2002. a “ajuda externa” de que fala Mészáros. mas sem dúvida. uma esfera pública institucionalmente regulada. 124). Marazzi. o sentimento de medo criado e a imposição social de se ter segurança. a transferência para o capital. da reprodução da força de trabalho e dos gastos sociais públicos. Para ele.

o . Assim é que o discurso produzido pelo paradigma neoliberal. as diferenças. as empresas de segurança privada. “resultando em um modelo desintegrador que produz uma sensação de insegurança e medo” (Cf. isto é. em função da realidade social. sendo gradativamente referendado pela lógica da defesa social através da exclusão total de classes inteiras e tolerar. 19). de dispositivos de controle e disciplina (como estudados no final do capítulo III da presente tese) – permite uma atuação administrativa suficiente para. estrategicamente posicionado para o controle social a partir de políticas públicas singularmente voltadas a um modelo social que utiliza mecanismos defensivos da ordem. fruto de um evidente e contemporâneo mecanismo de controle.210 ‘expropriação das terras comuns’ através da entrega de ativos de propriedade do Estado ao mercado para que o capital sobreacumulado pudesse ali ser investido. etc. estratégias específicas de privatização do controle público da violência. no mais das vezes. as quais passaremos a fazer uma pequena análise. p. Dornelles. cada vez menos. viabilizar uma efetiva estratégia de políticas públicas concretas. 2003. permite alterar a visão do respeito à dignidade e aos direitos humanos. ou conservador. mas o da insegurança coletiva – o modelo social estará orientado e. mas. portanto. Esta realidade será observada diante do modelo de ordem social que se pretende atingir. abrindo-se. novos campos de atividade lucrativa.. partindo-se também da produção industrial militar e da necessidade do “consumo destrutivo”. por certo.1. o qual é exercido. São exemplos dessa abertura de novos mercados à apropriação dos ativos pela iniciativa privada na busca de arenas próprias à expansão do capital não só a privatização dos presídios. a partir de conflitos e consensos existentes em determinadas situações.4. 5. por intensos processos de subjetivação – pela atuação conjunta. o controle social de alta tecnologia. como a utilização de câmeras de vídeo. se estamos vivenciando uma realidade fundada em princípios neoliberais – a saber: não mais na lógica regida pelo paradigma da segurança social. constante e direta. O controle social na ordem capitalista globalizada A partir da idéia de criação de uma subjetividade flexível.

as transformações programáticas neoliberais promoveram. A disciplina das fábricas não é mais necessária. bem como os pobres e favelizados da contemporaneidade – o que permanece proporcionando a constante apartação dessas massas da cadeia produtiva e da possibilidade de consumo. conforme aponta João Ricardo Dornelles (2003. como as massas negras. João Ricardo Dornelles apresenta. É possível perceber. p. na verdade. em diversos períodos da história brasileira. de forma bastante evidente. mas com características estruturais. que foram sendo criadas nas cidades brasileiras com os grandes contingentes de homens negros. reclama: “estamos a esperar a exploração!!”. não mais em razão das crises cíclicas do capitalismo. que é exatamente neste cenário que são formalizadas as políticas de controle social a partir da necessidade de se estabelecer a ordem e a legitimidade da lei. Ao estabelecer este diálogo. principalmente os mecanismos repressivos de controle penal. em função do contexto histórico destas relações. 27-28). toda fundamentação aos procedimentos cada vez mais rigorosos das políticas sociais de controle de viés neoliberal. escravos e libertos. de braços erguidos. Como mostra Vera Malaguti Batista (2003. afinal a massa de excluídos. “sob esses segmentos sociais que se concentra o foco da ação repressiva de controle e vigilância”. p. em notas de rodapé nos 38 e 39. a forma de resposta estatal para resolver o problema da violência e da delinqüência foi sempre a utilização de métodos que viabilizaram a guetificação das massas urbanas – excluídos de modo geral. 33). de forma semelhante. do aumento crescente do desemprego em função da implantação dos mecanismos de aumento de produtividade. isto porque as contradições impostas pelo modelo neoliberal estão a proporcionar significativas e crescentes desigualdades25 e é. isto é. ou seja. tendo como conseqüência evidente uma maior criminalização das classes sociais ditas “perigosas”. especialmente na implantação da ordem burguesa do final do século XIX (o Brasil escravocrata 25 Interessante exposição de dados nos oferece João Ricardo Dornelles (2003. isto porque afasta definitivamente enormes contingentes de trabalhadores do mercado formal. do final do século XIX.211 crime e o criminoso. além da flexibilização e precarização das relações de trabalho. 32). p. p. o que já havia sido insistentemente denunciado pelas diversas correntes da criminologia crítica. 57). a marginalização e exclusão social. conforme aponta Dornelles (2003. .

do terrorista para o traficante (2003. um pouco antes os negros. publicizado através dos discursos denominados ‘lei e ordem’. ou seja. claramente. a reportagem apresentada no jornal Folha de São Paulo. aumento das penas e impossibilidade de supostos benefícios aos condenados (liberdade condicional. espalhando um clima de medo na população. 39). p. Os relatos dos policiais são no sentido de que a análise do caso e “visual”. penalização dos conflitos sociais. como apontou Vera Batista (2003. estabelecendo campanhas de combate ao inimigo (hoje o traficante. 33-34). julgamento e execução de suspeitos de terem cometido delito. coordenada por Inácio Cano. Conforme relatado na reportagem. com base na repressão ao crime. ou seja. aqueles supostos criminosos são julgados dentro da viatura. 40). ou ainda entre os anos 1968 e 1988 – época da ditadura militar até a transição ao governo democrático constitucional – quando se percebe que houve uma transferência da busca pelo inimigo externo. 1999. p. de 18 de outubro de 1999. referente às mortes produzidas pela polícia no Estado do Rio de Janeiro entre os anos 1993 e 199626. as quais podem ser resumidas em 4 posições. Dornelles indica (nota 42.212 permanece até 1888). É só bater o olho e eu sei se o . 26 Além da pesquisa apresentada pelo ISER cabe observar. p. nas políticas urbanas de apartação (no Rio de Janeiro do final do século XIX. p. então. construção de presídios. ontem o terrorista político. através de Pereira Rego. (FS. na recepção da doutrina de segurança nacional do século XX. a íntima relação.). Neste sentido. que sempre houve. p. Dornelles (2003. progressão de regime.. etc. etc. entre liberalismo (ou neoliberalismo) e as políticas penais mais conservadoras e violentas. durante o trajeto do local do incidente até o hospital. no Brasil e nos países centrais de capitalismo avançado. as concepções higienistas de intervenção urbana propuseram. somente a título de ilustração. apresenta algumas características e conseqüências das ‘respostas estatais’ que visam estabelecer a ordem.). 1) na qual soldados da Polícia Militar de São Paulo descrevem os métodos de tortura. “uma cirurgia na cidade com esvaziamento do centro e remoção dos bairros pobres para áreas periféricas”). 34) a pesquisa realizada pelo ISER. da seguinte forma: a) políticas de segurança públicas militarizadas. aumento da quantidade de tipificação legal (criminal) das condutas. com objetivos definidos na manutenção da ordem pública. para eles o bandido se “conhece pelas tatuagens e pela roupa que ele usa. etc. b) a adoção das políticas de segurança públicas mais conservadoras tem elevado o número de mortes de pessoas suspeitas (supostos delinqüentes) nos enfrentamentos com a polícia. houve a perseguição às classes supostamente perigosas demonstrando.

Os dados de 2001 foram coletados do jornal Diário Catarinense. choques elétricos e espancamento. 23) permite apontar que o total de pessoas ocupadas na atividade de cara deve ou não”. 3. A ação policial.500 clandestinas).213 c) há uma tendência ao armamentismo particular. 4. na verdade. um crescimento de 44. entretanto. A decisão. O total de empresas de segurança privada no país. quando houve uma consulta popular sobre a possibilidade da venda legal de armas à população27.br/site/internas.92%. Esta conclusão pode ser compreendida a partir do resultado do plebiscito (“referendo das armas”). por ampla maioria (63.884 empresas legalizadas. do mesmo jornal e na mesma data (FS. os policiais escolhem pessoas que trocaram tiros com policiais e outras encontradas feridas. Para se identificar quem são aqueles que não podem chegar com vida no hospital. Esta tendência – o crescimento dos serviços de segurança privada – revela. em 2004 passou para 1. na investigação dos fatos é. os relatos dos policiais são mais específicos. representou a suposta necessidade que as pessoas vislumbraram de obter segurança particular com a aquisição de armas. sofre abalo significativo. ou seja. empregando-se integrantes ou ex-integrantes das polícias ou forças armadas e a veiculação de propostas de privatização do sistema penitenciário. p. Acessado em 23/03/07. um fenômeno que atinge outros países e que vem ocorrendo desde a década de 1970.asp?area=874&id=19. Sua verificação (1998. Como se sabe. Outro exemplo revelador é o trazido por Leonarda Musumeci (1998) sobre a expansão do setor de segurança privada a partir de dados colhidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (1985-1995).org. mas sua própria definição (weberiana) como detentor do monopólio do uso legítimo da força. Caderno Especial sobre segurança. cercadas por graves sessões de tortura. p. regularmente instaladas – mediante autorização do Departamento da Polícia Federal – em 2001 eram 1300 empresas legalizadas (aproximadamente. na maioria das vezes. os eleitores foram às urnas para responder à seguinte pergunta: "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?". o fomento ao surgimento de empresas de segurança privadas. . d) o estímulo ao encarceramento pela criação de tipos penais e o aumento de penas. Os dados coletados e divulgados no site da Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores confirmam estas características28. p.fenavist. 28 Estes dados podem ser vistos em http://www. Em outra reportagem. de 26 de outubro de 2003. 27 Muito embora haja outros fatores que determinaram o resultado das urnas. não só uma tendência liberal de diminuição do tamanho do Estado. 3). 1999. o medo e a insegurança foram o mote principal da campanha pelo “não”. em função da necessidade de proteção particular (pessoal e patrimonial) e descrédito das instituições. Esta característica revela.94% dos votos válidos) foi pelo “não”. desde palmatória. ocorrido em 2005. no Brasil.

ou seja. o excesso de indivíduos excluídos e que não serão absorvidos (ou literalmente aproveitados) pelo mercado. a neutralização pelo excesso.214 vigilância e guarda saltou de 199. também. no Brasil e no mundo as taxas de encarceramento estão aumentando e são exatamente as camadas mais carentes da população que sofrem a atuação da mão de ferro do Estado ou. potencialmente. Serão. um crescimento de 112%. é dizer. transportes (33%). bem como o surgimento de empresas de segurança privada também está se tornando uma tendência mundial. ou seja. essa política criminal neoliberal ao elaborar um discurso de combate à delinqüência.137 em 1985 para 422. nas palavras de Dornelles (2003. mas antes. de outro efeito do encarceramento de massa. o faz a partir de um modelo que proporciona uma maior desumanização dos supostos delinqüentes. através de seu modelo de políticas de controle social – cada vez mais rigoroso e de viés neoliberal. comunicações (24%). potencializam. ou seja. não mais o treinamento e docilização de seus corpos. estratégia pela qual os torna cada vez menos aptos ao competitivo mercado. Uma vez que a privatização do sistema prisional é um fenômeno bem consolidado em diversos países.057 em 1995. Este controle social do excesso se traduz pelas intensas políticas penais ditas eficientistas. Esse crescimento é superior ao do conjunto do setor serviços (43%) e dos subsetores que o compõem: comércio (54%). administração pública (12%) e outros serviços (56%). Aqueles não adaptados e incapacitados tecnicamente estarão automaticamente selecionados e condenados à exclusão. para análise de mais um dado importante. Estas contribuições nos permitem formular algumas hipóteses de resposta: é o próprio Estado. é interessante perceber que (pelo menos no Brasil é possível . Poder-se-ia acrescentar. conservador e autoritário – que permite a gestão violenta da população excluída (dos meios produtivos e do consumo) da maneira mais perversa possível. p. os mais prováveis selecionados ao rígido controle sócioeconômico e penal. mas sim efetivamente neutralizar exatamente aqueles que provocam a desordem com repressão. não se trata mais de tentar corrigir os problemas de ordem social. instituições financeiras (-29%). 35-36).

os trabalhos de Aryeverton Fortes de Oliveira e Leonarda Musumeci acima referenciados. Como alerta Leonarda Musumeci (1998. policiais (normalmente militares. mas o total de respostas positivas. p. Fortes de Oliveira (2004. 20): “Os números da PNAD. Duas perguntas sobre outras ocupações — se o entrevistado possuía mais de um trabalho na semana de referência e que função exercia no segundo trabalho [IBGE (1993a)] — poderiam fornecer uma idéia aproximada do número de agentes que fazem “bico”. Merecem atenção. havia em 2002 um vigilante para 552 habitantes no Brasil. como acontece no capitalismo contemporâneo. p. . 12) aponta que a “participação da segurança privada nos serviços não-financeiros. ao que tudo indica. civis) que fazem esse “bico” para complementar renda.5% declarou como trabalho secundário a ocupação de vigilante ou vigia”. de uma prática ilícita. no país como um todo. o segundo emprego é omitido pela maior parte dos entrevistados.34 em Sergipe e R$ 962. ou seja. nesse caso. Em 1995. Conforme se verifica pelos dados apresentados pelo estudo encomendado pela Federação Nacional da Empresas de Vigilância e Transporte de Valores (conforme tabela abaixo). quando começou a ocorrer uma pequena diminuição de postos de trabalho29. em 2005 há um para cada 482 habitantes. em confronto com estimativas da mídia. há um 29 Em sua pesquisa de doutorado.215 afirmar) há um crescimento do número de trabalhadores nesse setor até o ano de 2003. principalmente. mas que não divulgam oficialmente essa condição. não contemplam essa atividade paralela.37 no Distrito Federal. pela riqueza de dados. as empresas de segurança privada estariam garantindo mais postos de trabalho que a grande maioria das outras atividades de serviços não-financeiros”. na verdade. Ano Quantidade vigilantes por habitantes 2002 1/552 2003 1/529 2004 1/504 2005 1/482 Esta mesma pesquisa apontou que havia uma projeção de empregos gerados no setor de 424. em termos de empregados. por se tratar. é mais que o dobro da participação em termos de receita operacional líquida. sugere que. ainda que a renda ganha nesta última possa ser superior à que obtêm no serviço público.800 vagas no Brasil em 2005 e que o piso salarial da categoria seria em 16 de maio de 2006 entre R$ 347. Três características podem ser observadas a partir dos dados até aqui apresentados: a) a evolução tecnológica novamente fazendo desaparecer postos de trabalho mas. já que a maior parte das perguntas sobre emprego refere-se à ocupação única ou principal e é pouco provável que policiais na ativa declarem como seu trabalho principal a vigilância privada exercida ilegalmente. Isto significa que para o volume de recursos apropriados. A diminuição da quantidade de postos de trabalho deve-se. ainda assim. a quantidade de empresas que existem clandestinamente – ou seja. sem licença oficial do Departamento da Polícia Federal – bem como pelo fato de que há muitos “seguranças particulares” que são. representa um significativo aumento da “necessidade” de se buscar segurança. só 10% das pessoas com ocupação principal em atividades de segurança pública reconheceram possuir outro trabalho e apenas 1.

pois deve existir um responsável controle da liberdade e os impulsos devem estar preparados e reprimidos. se for o caso. é dizer o excesso de ordem que leva. O sonho (ou a promessa) moderno de pureza (limpeza) e ordem31 foi colocado de tal forma que.000. a partir de um princípio e lógica do economicamente correto. entretanto o preço pago é muito alto. É exatamente esta conjugação – exploração da mão-de-obra e utilização do sistema penal como controle. necessariamente. aqueles que não possuírem. Para ele (1998.000. na pós-modernidade só podemos pensar em civilização. p. Os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual. minimamente. Ficam evidentes os motivos pelos quais os investimentos em segurança vêm aumentando.00. diz Bauman sobre o mal-estar da modernidade: “A civilização se constrói sobre uma renúncia ao instinto”. sem o que o indivíduo seja considerado fora do contexto social.00 e em 2005 houve um enorme salto para R$11. um crescimento de 68. são ganhos que não devem ser desprezados. É exatamente a lógica da exclusão que o sistema de controle penal representa. limpeza (pois a sujeira seria incompatível com a civilização) e ordem (compulsão à repetição que dá segurança. potencialmente. Os mal-estares da pósmodernidade provêm de uma espécie de liberdade de procura do prazer que tolera uma segurança individual pequena demais”. Bauman afirma que na modernidade o sonho de perfeição pela beleza (prazer da harmonia e perfeição da forma). bem como há um crescimento na proporção de vigilante por habitante no Brasil. 65. 31 Para Zygmunt Bauman beleza. c) são as classes populares que estão servindo nesse nicho de mercado em duas frentes bem definidas: como força de trabalho e como matéria prima. limpeza e ordem são promessas da modernidade. à escassez de liberdade. .000.5 salários mínimo. 30 Um dado. A partir da análise de Freud em “Mal estar na civilização”. ou seja. exclusão e aniquilamento dos excessos – que permite a potencial exploração do medo e da abundante força de trabalho a ser apropriada permitindo a ampliação (reprodução) do capital. 10) “os homens e mulheres pós-modernos trocaram um quinhão de suas possibilidades de segurança por um quinhão de felicidade. especialmente Rio de Janeiro e São Paulo. Um dado é bastante representativo: no ano de 2002 o faturamento do setor de segurança privada foi de R$ 7. condições de permanecer no mercado consumidor. pois é lá que estarão. é revelado pela pesquisa: o faturamento do setor é maior justamente na região sudeste. Lembrando Freud.57%30. hoje.800. aproximadamente 1. evitando a hesitação ou indecisão). pois a média nacional é de R$ 558.216 visível aumento do faturamento do setor de vigilância e transporte de segurança privada (pessoal e patrimonial). ou seja. desde a privatização de presídios até a segurança privada. no mínimo curioso. b) o piso salarial da categoria é de certa forma baixo. na qual são veiculadas as notícias de maior impacto sobre a violência.

não foi (e não é) produzida pela necessidade humana ante a crescente violência urbana. 677). está relacionada com os pressupostos econômicos que impõem estas políticas. Como afirma Mészáros (2002. então. Entretanto. seja ele público ou privado. é necessário demonstrar algumas características da exploração e divulgação da violência e os efeitos proporcionados pelo sentimento de insegurança. o aumento da divulgação da violência cumpre também idêntico papel. “o resultado positivo dessa interação dialética entre produção e consumo está muito longe de estar assegurado. cumprindo duas principais funções: controle social e reprodução do capital. uma classe de excluídos e. está diretamente relacionada com os efeitos instituídos pela adoção de políticas de segurança pública neoliberais. este consumo não tivesse sido criado pela necessidade da descoberta de novos valores de uso. mas somente ao imperativo abstrato da ‘realização’ do capital”. . apto a municiar (incrementar) a indústria do controle penal (prisões e sistemas privados de segurança). Para esta dilucidação. a segunda. a busca pela segurança. ditas conservadoras. mas. já que o impulso capitalista para a expansão da produção não está de modo algum necessariamente ligado à necessidade humana como tal. sim. Os dilemas envolvendo segurança pública iniciam com a divulgação da violência e a banalização dos direitos e garantias fundamentais. mas tão só (e da mesma forma que se faz à expansão do capital) pela necessidade de realização do capital. com um conjunto de circunstâncias capazes de criar a necessidade de se ter segurança. é dizer: é absolutamente necessário estabelecer.217 O dado revelador é a necessidade de se criar “necessidades”. da mesma forma que à ampliação do capital é necessário que o consumo esteja em crescimento. que esses estejam prontos a serem selecionados pelo sistema penal através de um poderoso sistema de controle. Sob este ponto de vista. p. primeiramente. pela necessidade humana. é preciso permitir que o cidadão seja motivado (subjetivado) a uma sensação de insegurança. De forma muito semelhante. que possibilitará um aumento do sistema penal. caso. em qualquer caso. Para tanto. como as políticas de “tolerância zero” e o movimento de “lei e ordem” e. duas ponderações devem ser enfrentadas: a primeira. evidentemente. mas. posteriormente. o que representaria um dado absolutamente positivo.

que é exatamente um poderoso regulador do valor do capital variável (valor da força de trabalho – salário). Através das análises acima indicadas – tanto das origens e funções econômicas do sistema prisional como suas funções aparentes e veladas – é possível perceber que o cárcere exerce esse fascínio de poder. como Alessandro Baratta.4. Alessandro De Giorgi. em função dessa população . diretamente. entre incluídos e excluídos (polarização social). Como visto no final do segundo capítulo. A gestão política de Segurança Pública conservadora: “eficientismo penal”. Assim. mais precisamente a partir dos anos 1970 e a intervenção dos pressupostos neoliberias dos anos 1990. “tolerância zero” e “teoria das janelas quebradas” como controle social de classe Os modelos de políticas de Segurança Pública apresentados no mundo contemporâneo estão diretamente vinculados aos resultados das enormes transformações políticas e econômicas efetivadas nos últimos 30 anos. é possível vislumbrar que o sistema penal (especialmente a prisão) exerce um importante papel na sociedade contemporânea. em especial pelas idéias protagonizadas por diversos autores de matiz marxista. devendo-se. através de suas técnicas de poder (de disciplinamento dos corpos e controle).218 5. pois ao mesmo tempo que possibilita o caráter repressivo. dentre outros. mais precisamente. George Rusche. bem como no papel que é desenvolvido no controle da reprodução da força de trabalho assalariada. foi a possibilidade destes (mais pobres e excluídos) se tornarem matériaprima abundante do grande negócio envolvendo a segurança pública e. expulsos do mercado de trabalho pela sua abundância.2. tornaram-se fatores determinantes à valorização da mão-de-obra. Otto Kirchheimer. é necessário analisar o cumprimento da função do cárcere na formação do proletariado industrial. sua privatização. considerar as origens do sistema prisional e suas funções econômicas que ele assumia. Maximo Pavarini e. mais recentemente. Dario Melossi. um dos resultados destas transformações políticas e econômicas. para responder ao problema do interesse e da exploração da violência. isto porque estes trabalhadores. as quais resultaram num abismo entre pobres e ricos ou. para tanto.

que analisa a ação do neoliberalismo no Estado de bem-estar social e sua profundas conseqüências. Stevem Box e Chis Hale que analisam a realidade européia da década de 1970 e 1980.219 excedente que deve ser explorada e criminalizada32. porém legitimados socialmente pela recorrência e acatamento de sua aplicação (Dornelles. 77). A vulgarização dos direitos sociais denunciada por Loïc Wacquant com o corte no orçamento dos gastos com serviços sociais em detrimento do aumento do orçamento destinado à polícia (já referenciado no Capítulo III. ideológico e que se constitui num poderoso instrumento de controle social. Loïc Wacquant. da presente tese). 40-41) aponta o modelo neoliberal de políticas públicas como responsável pela atuação do Estado como facilitador das idéias e “condições à acumulação ampliada do capital sem a ameaça dos setores da sociedade considerados perturbadores da ordem”. também. como parte da política social e. de legitimação e reprodução da realidade social. 39. . 2003. cabe entender o conceito de política criminal. Dornelles (2003. p. nas décadas de 1980 e 1990 e. Isto apenas representa o incremento às políticas chamadas de “tolerância zero” ou do “eficientismo penal”. Primeiramente. a) As políticas públicas criminais denominadas de “eficientismo penal” Antes mesmo de falarmos sobre eficientismo penal ou “tolerância zero” é preciso estabelecer nosso local de fala sobre as políticas públicas criminais e de segurança. 1998. 32 Há estudos recentes que procuram relacionar índices de desemprego com taxas de encarceramento. mais recentemente. mantendo-se. como parte de um sistema de controle social que integra outras agências públicas e também as policiais que se encarregam tanto da implementação dos critérios normativos quanto daqueles critérios silenciados ou negados pelo discurso jurídico. traçando. Batista. destacam-se. que analisam a relação de funcionalidade das políticas penais e desemprego. portanto uma estreita relação entre a precarização do estado social. portanto. Entre os autores. Bruce Western e Katherine Beckett. p. tóxico-dependentes e imigrantes). Partindo da idéia de que o conceito de política criminal é. não restrito à justiça criminal. crescimento da população marginalizada – excluída – e o recrudescimento das políticas penais de encarceramento (principalmente sobre a população pobre. é impressionante. p. nos Estados Unidos. em especial a substituição do Estado social pelo Estado penal.

no sentido de implicar em políticas públicas que passaram a penalizar grupos de pessoas já excluídos do processo produtivo e estigmatizados pela simples suspeição de pertencerem a grupos produtores da desordem social. é exatamente este sistema penal que produz políticas públicas (em sentido amplo) que visam. fundada num procedimento consubstanciado no movimento moderno de busca pela ordem. 49-53). “onde prevalecem os fins puramente repressivos. Esta eficiência. por exemplo. também vivemos o outro lado da moeda. Contudo. a íntima relação de interesses entre poder econômico e Estado. curiosa. Ministério Público. no mais das vezes. Para Dornelles (2003. uma situação. Legislativo. caracterizou-se na contemporaneidade reveladora. é dizer. imunizar determinadas classes sociais33. no mínimo. no processo de criminalização dos conflitos sociais: o fundamentalismo 33 Veja. é o “eficientismo penal como política de resultados”. ou seja. por políticas penais criminalizadoras e. de mínima participação (intervenção) do Estado na gestão da economia. através de seus órgãos (Polícias. p. Judiciário. mas sim a demonstração de efetividade do sistema”. são características desse eficientismo penal. ela é mais intensa e atua. econômicos. . que buscaria atender uma ampla camada da população destituída de seus direitos civis. não mais visando identificar o responsável penal. crimes previdenciários. Surge. sempre com o discurso da eficiência ao controle.) de forma autoritária e a produzir um sistema penal (Direito Penal. tipicamente pelas chamadas políticas de tolerância zero.220 como características desse modelo de política criminal. sob o ponto de vista da intervenção estatal no controle social. de flexibilidazação das relações trabalhistas. ou seja. diversificando e aumentando o tipo de sanções penais e extrapenais. além de criminalizar os conflitos sociais e não resolvê-los. ao mesmo tempo. etc. as inúmeras hipóteses de exclusão de ilicitude existente nos crimes contra o sistema financeiro. etc. estigmatizador e cada vez mais rígido. houve uma ocupação dos espaços públicos. encarceradoras. pois se estamos vivendo um momento de políticas neoliberais. sociais. transformando as políticas criminais em políticas de segurança. Processo Penal e Execução Penal) seletivo. no entanto. políticos. anteriormente destinados à inclusão e integração social. crimes tributários. culturais. cada vez mais. na privatização das relações de mercado e financeirização do capital. uma ação repressiva e autoritária no tratamento da ‘criminalidade de rua’.

A ordem. mas contra os pobres e sua máxima criminalização. há uma despolitização e descontextualização dos conflitos sociais. Banco Mundial. . sua expressão é o direito penal máximo. não da pobreza. incompreensivelmente. o que permite aumentar os níveis de impunidade e de imunidade de certos grupos sociais. diante da conjuntura de nossa sociedade contemporânea (de extremos). incertos do que fazer ante as alternativas que nos são colocadas. a insegurança é plena. entretanto. a criminalização de condutas e a seletividade criminal em função da inadequação dos programas de repressão penal com a expansão dos meios a atingir todos os setores sociais. aumentando-se. “cujos resultados. a partir das políticas penais de “tolerância zero”. É exatamente a consolidação do projeto tipicamente de cariz neoliberal – eficiência. repressão e intolerância: do controle da pobreza ao encarceramento dos pobres Como aponta Bauman. A ordem é estabelecida para apontar o caminho ideal (ou os caminhos ideais) e é exatamente a incerteza de saber qual é o melhor caminho que faz com que nos esforçamos à sua busca. etc. é um ideal da modernidade que é buscado em função de nossos medos diante de uma situação de desordem. isto é. ou seja.221 penal. numa situação em que estamos. em que o medo de não se alcançar a felicidade é imenso – o que torna ainda maior a incerteza – e ultrapassando a lógica moderna da regulamentação. que vai viabilizar o controle social e os ajustes estruturais econômicos impostos pelos diversos organismos institucionais e financeiros (FMI. como analisa Zygmunt Bauman (1999a). b) Controle social.). a “polarização ideológica entre as forças do bem e forças do mal” no combate à criminalidade. pois não conseguem demonstrar que outras formas de tratamento da questão não alcançariam maior eficiência no controle penal e na segurança pessoal”. não são compensadores. contração do Estado nas políticas públicas sociais e ampliação do Estado penal – que este modelo de combate (no sentido específico de guerra). mesmo quando aparentemente positivos na diminuição da criminalidade. individualismo. pois hoje (na contemporaneidade) tudo é possível diante da flexibilização dos procedimentos.

Não é difícil entender o “porque” que durante as crises dos ciclos econômicos – ou diante das recessões de determinados períodos. É preciso perceber. 200 mil detentos para 825 mil em 1991. p. muito além do medo do inimigo conhecido. XVI e XVII). 35 Se por um lado temos a partir da segunda metade dos anos 1970 um regime caracterizado pelo controle dos excessos. especialmente a partir da metade dos anos 1970 – determinados segmentos sociais são. por exemplo. O discurso público contra determinadas classes sociais. exatamente no sentido de que ambas as situações provocam as mais variadas maneiras de privação e carência. . nos processos de constituição das subjetividades produtivas e nas dinâmicas de valorização capitalista. p. antes disso poderíamos dizer que tínhamos um regime disciplinar das faltas. da idéia trazida por De Giorgi. gênero. Lembrando as origens da instituição carcerária (séculos XV. Segundo ele. 75) a transição do fordismo ao pósfordismo é caracterizada pela passagem de um regime de carência e. fazendo com que a população encarcerada – ou sob algum tipo de controle penal – aumente vertiginosamente como aconteceu nos Estados Unidos e Inglaterra34. chama atenção para a progressiva redução do nível de “emprego” da força de trabalho e a diminuição da demanda do trabalho vivo ocorrida a partir da metade dos anos 1970 e também para as mudanças nas condições da composição da força de trabalho. minorias. então. aproximadamente. 28). conseqüentemente. a partir de 1970 houve um aumento significativo na população encarcerada nos Estados Unidos. De Giorgi (2002. isto porque como afirma Alessandro De Giorgi (2002. Partindo-se. etnias. neste instante. é possível pensar em novas tendências e estratégias de controle 34 Neste sentido. passou a cumprir um papel fundamental na produção das políticas públicas de combate. p. providencialmente selecionados pelo sistema penal. pela emergência de estratégias orientadas para o controle do excesso35. no sentido de superação ou aparente esgotamento da função de racionalização disciplinar da produção e da alienação da força de trabalho à acumulação capitalista. importante verificar os dados trazidos por Loïc Wacquant (2001a. Ele mostra que o recurso de encarceramento foi utilizado de forma progressiva a partir dos anos 1970. as diversas composições que resultaram na atual configuração das relações e controles sociais. 75) analisando as tendências entre as dinâmicas da produção e as formas do controle neste período de transição entre fordismo e pós-fordismo. própria do regime fordista. p. É esta insegurança que se tornou intolerável. conseqüentemente. Os quadros apresentados por Loïc Wacquant sobre a população encarcerada em prisões federais e em casa de correção (2001a.222 É possível dizer que. quando se falava em carência de mão-de-obra. a insegurança existe em relação ao estranho. quando a população carcerária tinha diminuído em 12%. 29) entre 1970 e 1991 são reveladores. para um regime produtivo definido pelo excesso e. impôs-se a privação da liberdade e o trabalho assalariado como dispositivos ideológicos aptos a impor a condição de cidadania. passando dos. o desenvolvimento de um conjunto de estratégias orientadas para a disciplina da carência. depois de 1960.

nos Estados Unidos. principalmente dos órgãos policiais encarregados da segurança pública.223 social e. ou mesmo a emergência de sistemas de produção inteiros. a hiperatividade legislativa e do discurso policial repressivo e encarcerador. mais conservador. p. cuja divulgação está prioritariamente condicionada e atrelada ao discurso de “lei e ordem”. com os atuais mecanismos de reprodução do capital. Segundo Dornelles (2003. mais adequadamente. Este modelo sócio-político de atuação das instâncias estatais. com Ronald Reagan. muitas vezes autoritária e ilegal. Ver especialmente nota de rodapé no 13). A partir do final da década de 1970 toma grande fôlego o projeto neoliberal com a eleição de Margareth Thatcher. em 1980. não é pacífica a idéia de que a automação da produção determinaria um processo de redução do trabalho humano. com vistas à valorização do capital. especialmente com a explosão do desemprego e o aumento significativo da exclusão social em conseqüência do declínio do estado social (ou estado caritativo norte americano ou estado de bem-estar europeu. houve a partir desse momento um verdadeiro tráfico de idéias e valores que reforçaram a criminalização da miséria como eficiente mecanismo de controle dos conflitos sociais com a finalidade de “regular o trabalho assalariado precário em sociedades capitalistas neoliberais”. 81. 23-27) é possível perceber o que ele chama de ‘declínio do Estado caritativo’. isto porque é necessário considerar que ela também proporciona a emergência de setores complementares. 54). afirma ele que nas décadas de 1970 a 1990 houve uma visível e progressiva substituição de um Estado caritativo por um Estado penal. . conseqüentemente mais vulneráveis. o embrutecimento e a intolerância das relações e conflitos sociais. Mais especificamente. sobre os Estados Unidos da América. centrado na manutenção da ordem pública. criminalizando os conflitos sociais e as camadas mais vulneráveis da sociedade – corresponde a um modelo de práticas de violência estrutural e institucional. caracterizado pela criminalização dos indivíduos das classes mais baixas da população e. na Inglaterra. Interessante notar. poderíamos dizer. em 1979 e. o grande salto 36 Como alerta De Giorgi. 37 A partir dos dados e análises. A partir da metade dos anos 1980 os efeitos políticos e econômicos do projeto neoliberal se tornam uma realidade muito visível. com políticas repressivas extremamente ostensivas e diretas. a partir dos dados trazidos por Loïc Wacquant. como chama Loïc Wacquant) 37. como é o caso existente no sudeste asiático em que a automação é quase inexistente (2002. p. como é o caso dos setores terciários desqualificado. estabelecer uma relação própria entre elas com a automação da produção com sua conseqüente redução do trabalho humano vivo36. p. apresentados por Loïc Wacquant (2001a.

Este discurso criminalizante. despolitizando a questão social. No Brasil. Deixa-se de pensar a questão social. o desemprego e a pobreza seriam o resultado de uma menor capacidade intelectual e moral de um determinado indivíduo. a administração do Presidente Fernando Henrique Cardoso – que iniciou seu primeiro mandato em 1995 e finalizou em 2002– foi marcada pelo tratamento da questão social através de políticas criminalizadoras. Dornelles. enfatizando a qualificação de criminosos e desordeiros os integrantes dos movimentos sociais. se necessário.224 quantitativo do número dos encarceramentos ocorridos. controlados e. portanto. por exemplo. norte-americano. nos Estados Unidos. p. os que pedem esmola. prostitutas. responsabilizando os próprios indivíduos carentes (vendedores ambulantes. eliminados.) pela sua própria desgraça. principalmente. as políticas públicas de segurança preconizam um maior rigor e uma intolerância cada vez maior aos pequenos infratores devendo ser vigiados. exportando-se e incrementando a agenda política sobre segurança pública para diversos países da Europa e América Latina. . os sem teto. Neste contexto. como se não bastasse. 61). A chamada “nova direita” passa a atuar através de instituições formadoras de opinião e financiadoras de intelectuais de perfil neoliberal. 2003. 2003. imediata e inflexível contra os pequenos infratores (Cf. etc. para autores como Charles Murray e Richard Herrnstein. proporcionou uma grande transformação no modelo de gestão da segurança pública. o que lhe proporcionaria uma maior propensão ao crime e a comportamentos desviantes (Dornelles. é dizer. 56-57). Era preciso. mendigos. levantamento permanente dos resultados do policiamento e informatização geral para que a ação policial fosse a mais precisa. da redefinição das responsabilidades operacionais dos policiais. um efetivo e direto controle das ações dos pobres nos espaços públicos através do aumento do patrulhamento policial. fundamentalmente pela atuação cada vez mais rigorosa das políticas penais. conseguindo estabelecer uma espécie de senso comum sobre a violência e a desordem. ainda que os dados demonstrassem que estava havendo uma diminuição da criminalidade em décadas anteriores – dos anos 1960 a meados de 1970. a partir da política e da economia. tratando-a como se fossem práticas criminosas comuns e. para entrar no campo do biológico. os que cometem atentados à moral e aos bons costumes. p.

p. além de estabelecer e reproduzir a propriedade privada dos meios de produção. utilizam-se da profusão do medo. o lugar de cada um na estrutura social. excessivamente concentradora de riqueza e excludente (Cf. especialmente estratos sociais mais baixos a todos os tipos de violência. b) pelo aumento do aparato policial. e da violência tanto institucional – pela atuação repressiva do Estado e do parlamento – como estrutural – impondo a produção e reprodução da desigualdade social – para submeter determinadas classes sociais. os quais fundamentam a exploração econômica do medo e do controle penal. permitindo. e) com um discurso criminalizante diretamente vinculado aos conflitos sociais. por exemplo. Dornelles. O resultado desse intenso processo de criminalização. como acontece. por exemplo. c) pelo surgimento de regras mais duras. controlar. d) nos processos de criminalização dos delitos denominados de menor potencial ofensivo. pode-se pensar nas regras de criminalização dos crimes hediondos. produzindo a imagem necessária do terror social. . materializada pela a) maior quantidade de tipificação legal de condutas. como está acontecendo na Base Militar de Guantánamo). com as leis ditas descriminalizadoras. necessários à acumulação do capital. fazendo-se compreender. conseqüência direta das políticas públicas de caráter neoliberal. principalmente. pelas empresas de segurança privada. mas reproduzir e expandir o capital por meio das privatizações das prisões. 39 Este discurso punitivo pode ser caracterizado. através da violência institucional. ainda. cada vez mais. diante do ponto de vista da subjetivação de condutas. classificar ou excluir. por exemplo. isto é.225 especialmente dos trabalhadores do MST (Movimento Sem Terra). 65 e nota de rodapé no 75). etc. como conseqüência do primeiro e vinculado à incidência de intensos processos de subjetivação que visam criar a necessidade de se ter segurança. pela instalação de câmeras de vídeo e outros equipamentos de segurança. ou ainda no chamado RDD – Regime Disciplinar Diferenciado – e nos Estado Unidos. capazes de realizar os pressupostos do capitalismo globalizado. evidencia. 38 Estas formas de violência são analisadas no Capítulo 1 da presente tese. Como visto. os mecanismos estatais de coerção. quando na verdade permitem que um maior número de pessoas esteja submetido a algum tipo de controle penal. desencarceradoras. está a nova função social dos mecanismos de controle social. tanto no encarceramento quando na sua manutenção (no Brasil. em segundo lugar. qual seja. está o aumento significativo da quantidade de pessoas encarceradas ou submetidas ao controle penal e. com isso. despenalizadoras ou. pode-se citar as detenções de meros suspeitos. o encobrimento da realidade econômica e social. em particular realizada por dois importantes eixos: a violência estrutural e a violência institucional38 do Estado. não mais (ou não só) disciplinar. Com o encolhimento do estado de bem-estar social e o crescimento do estado punitivo39. 2003. fornece também os meios necessários à contenção da grande massa de excluídos. ocorrem dois fenômenos que podem ser visualizados da seguinte maneira: em primeiro lugar e atrelado diretamente às políticas de segurança pública. um aumento no grau de violência. a fim de manter a ordem social necessária ao processo de reprodução do capital.

Este tipo de comportamento social impediu. logo descartáveis. p.4. de um modo geral. ainda piores. talvez. de forma padronizada como se fosse real e. inferior. menos favorecidas. um mesmo tipo de gente: uma classe social destituída de desejos próprios. demonstra. no mais das vezes. uma vez que eles mesmos seriam os responsáveis pelas próprias condições. p. a observação da alteridade e os mais diferentes modos de viver e fundamentou. Para ele. Löic Wacquant (2005. cada vez mais. pelos conflitos sociais e a fronteira que se estabeleceu na sociedade brasileira entre os mais privilegiados e os muitos despossuídos” (Cf. suja. por excelência) e excluída do processo produtivo. 14). ou seja. afirma que os países desenvolvidos são incapazes de perceber a privação econômica e grandes massas populacionais. inclusive no Brasil. direito penal e execução penal) – proporcionando conseqüências que apontam. 10) ao analisar as conseqüências da dominação neoliberal. o aparecimento de políticas de segurança públicas muito mais voltadas ao recrudescimento do sistema penal – sistema carcerário. a partir de um olhar mais atento. pois. especificamente. efetivamente. a lógica da demonização das classes populares do século XIX. uma vez que é exatamente em função de todas as circunstâncias proporcionadas pelas políticas econômicas neoliberais e pelos .3. um enorme crescimento da população marginalizada retratada. A privatização das prisões: retirada da “sujeira” pelo controle social A análise até aqui desenvolvida somada às pesquisas realizadas em diversos países. sistema judicial-legal (processo penal. a desafiliação social e a desonra cultural produzidas. perigosa. às práticas de intolerância e polarização social. “é tentar responsabilizar as próprias classes subalternas. aliás. esta situação toma rumos. No Brasil a situação não é diferente.226 5. recuperando-se. monocromática (escura. a desestruturação das condições de cidadania está diretamente relacionada com a deterioração da classe trabalhadora e dos enclaves etnorraciais da metrópole dual e “trata-se de uma das maiores forças que alimentam a rápida expansão e o endurecimento uniforme da polícia e das políticas penais armadas contra a pobreza urbana nos Estados Unidos e na União Européia”. 2003. Dornelles.

pobres. mas conseqüente e paralela entre o modelo econômico vigente. mantendo apenas as variáveis socioculturais. negros.227 intensos processos de subjetivações – na maioria das vezes ignoradas – que sufragaram os projetos de acesso à justiça. que na verdade são aqueles mais atingidos e ameaçados pelo crescimento do fenômeno da violência e pela generalização das ilegalidades”. como aponta João Ricardo W.) fomentam um alto grau de determinação nas políticas de segurança pública mais autoritárias. e a agenda política dos governos conservadores. isto porque. à construção social do . Esta idéia é trazida de forma bastante clara por Minhotto (2000. a ‘necessidade’ de um aumento do controle social e o aumento das taxas de encarceramento. culturais e político-institucionais – evitando-se a fragmentação da realidade. Importante salientar. entretanto. 14). apontando circunstâncias sociais definidoras das políticas penais. portanto. proporcionando um direto aumento nas taxas de encarceramento. então. distribuição eqüitativa de cidadania e implementação e respeito aos Direitos Humanos. estrangeiros. A dimensão que se pretende traçar. tem um claro impacto no aumento das taxas de encarceramento”. favorecendo uma correspondência entre o sistema de produção e formas de punir. um clima de intolerância por parte de certos segmentos da população. especialmente os que exercem maior influência na definição de políticas penais. entretanto. Dornelles (2003. p. econômicos. etc. são exatamente estas políticas penais mais rigorosas que possibilitam fazer uma relação não causal e definida. homossexuais. é a que leva em consideração uma grande diversidade de aspectos – sociais. punição e degradação das condições de existência dos estratos mais baixos da população. como a polarização social. “a conjugação de fatores como o aumento da polarização entre as classes sociais. Assim. é como se houvesse uma imputação da responsabilidade pela violência generalizada aos próprios segmentos sociais mais pobres e vulneráveis. A relação possível que deve apresentar-se como tendencial em tempos de crise econômica está diretamente relacionada. 153) ao afirmar que não há relação direta e unívoca possível entre violência. Aliado a estes fatores é possível perceber também uma tendencial relação dos hábitos sociais preponderantes. observando a avalanche de exclusão social por elas provocadas. a intolerância à diferença (soropositivos. diz ele. “quando se afasta os aspectos socioeconômicos da análise. p.

Os dados apresentados pela reportagem (pesquisa) são significativos. portanto. as privatizações têm encontrado lugar de destaque à necessidade de se buscar.228 tipo de desvio que se deve combater. proporcionar uma demanda social capaz de subjetivar o cenário político e social de forma a aumentar o anseio à severidade das penas. afirma ele que: “a pesquisa revela que a percepção da violência é maior que a violência”. portanto. segurança e redução dos custos na execução das penas privativas de liberdade. A definição. na contemporaneidade. portanto. permitindo a instalação de uma nova moralidade – de concepção conservadora – induzindo consensos sociais em busca da ordem e do controle social via políticas de segurança públicas40 cujo ‘pano de fundo’ estabelecido é o estado de exceção. para o interesse da presente tese é fundamental atentar-se à declaração do Cientista Político Ricardo Guedes. econômicos e sociais. do contraditório. c) o medo e a insegurança são responsáveis e capazes de impor à população uma troca simbólica entre ‘segurança’ ou ‘liberdade’. segundo o qual o resultado da pesquisa mostra que a percepção da violência é maior do que o problema em si. do devido processo legal. nos termos de David Harvey. que delineiam um cenário no qual: a) a criminalidade e a violência tomam conta da agenda política. tanto do desvio (crime ou pecado) como da ação das agências de controle (polícia. acessado em 11 abr. 2007. Por estas razões e em função desses mecanismos se afirma que o controle social é seletivo. a abertura de novos espaços a serem apropriados pelo capital sobreacumulado (o excedente de capital que não encontra escoador do excedente de capital). do Instituto Sensus. etc. à criminalização de condutas e à intolerância ao desvio. entrevistado na reportagem. especialmente sob o argumento da necessidade de se obter eficiência. individuais ou coletivos. São estas as condições que permitem a confluência de diversos fatores à expansão das privatizações dos presídios. as taxas de encarceramento41. ser exercido à formatação e docilização de corpos e mentes. diante da capilaridade dos micropoderes. no qual trata de uma pesquisa realizada pela CNT/Sensus. igreja. família) se dá a partir de mecanismos políticos. Na verdade. significativamente.asp. via violência física. é dizer.5% para redução da idade à responsabilidade penal. . entretanto.globo.com/pais/mat/2007/04/10/295296751. b) as garantias constitucionais não são levadas em consideração (princípio da presunção da inocência. que fundamentava a 40 O controle social do desvio – como mecanismo de resposta da sociedade ao indivíduo ou grupo determinado – é exercido por meios públicos ou privados. Poder Judiciário. na qual constata um índice de aprovação de 81. e visa adequar o indivíduo ou grupo ao modelo pressuposto de sociedade apresentada. é dizer. papel semelhante à acumulação primitiva que Marx descreveu. podendo. Há fatores. a tomada das terras. permitindo que haja um condicionamento da população em legitimar e definir ações e políticas penais conservadoras que aumentem. isto porque a definição do desvio – e seu controle por conseqüência – acompanha e muda em função da perspectiva de se estabelecer a garantia da ordem. A privatização dos presídios (como em outros setores da economia) exerce.). 41 Interessante verificar site: http://oglobo.

bem como aquelas ocorridas no Brasil42. portos e telecomunicações. As privatizações do sistema penitenciário ocorridas no mundo. p. a prisão e o isolamento proporcionam. fazendo-se clara alusão ao discurso contemporâneo do mercado uma vez que este aparece à legitimar o procedimento sob o argumento de proporcionar a melhoria na qualidade dos serviços prestados através do aumento de investimentos a serem realizados pela iniciativa privada. ou seja. como enfatiza Bauman (1999. conforme demonstra a pesquisa realizada por Sandro Cabral (2005. as quais iniciaram a partir do Programa Nacional de Desestatização . No segundo período (1995 – 2002) iniciou-se a fase da privatização dos serviços públicos. perpetuando a diminuição da visão do outro. instituído pela Lei no 8. . uma separação espacial forçada como forma de reagir à intolerância da diferença. do tipo “parque penitenciário nacional”. Interessante leitura pode ser feita da nota de rodapé no 210 dessa mesma obra. isto porque. de crescimento da população carcerária acima dos patamares do crescimento vegetativo43 da população. de 12.04. 168) lembra que o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP) propôs em janeiro de 1992 a adoção da privatização no Brasil. 43 Crescimento vegetativo é a diferença entre a taxa de natalidade e a de mortalidade (http://pt. financeiro e as concessões das áreas de transporte. tornam irrelevante a singularidade das pessoas e dos casos”.229 acumulação é hoje realizada pela apropriação de ativos financeiros sobreacumulados visando a obtenção do lucro.90. há tendência. sendo incluídos o setor elétrico. p. além do tradicional método para lidar com setores problemáticos e de difícil controle da população. quando a privatização tornou-se parte integrante das reformas econômicas iniciadas pelo Governo Federal. saneamento. Somente para se ter idéia.PND.org/wiki/Crescimento_vegetativo.031. são exemplos claros da dupla necessidade imposta pelo capital: a abertura de novos espaços a serem apropriados pelo capital sobreacumulado e a busca da ordem e do controle social via políticas de segurança públicas. ou seja. no Brasil. “as qualidades e circunstâncias individuais que tendem a se tornar bem visíveis graças à experiência acumulada do relacionamento diário raramente são vistas quando o intercâmbio definha ou é proibido – a caracterização toma então o lugar da intimidade pessoal e as categorias legais que visam subjugar a disparidade e permitir que seja desconsiderada.wikipedia. 123). 114). na qual o autor aponta curioso neologismo criado a partir das propostas de regras básicas para o programa de privatização do sistema penitenciário no Brasil. No primeiro período analisado pela pesquisa (1990 – 1994) foram privatizadas 33 empresas. O significado biopolítico dessa privatização é o exercício de uma função de confinamento e classificação espacial. Laurindo Dias Minhoto (2000. uma vez que a quantidade de presos nos últimos 12 anos aumentou 42 Estas acompanharam a tendência nacional de privatizações. acessado em 20 de março de 2007). rodovias. a privatização do sistema penitenciário permite a realização e a expansão do capital e potencializa a limpeza social dos excluídos.

230 mais de 130% em relação à população.602 108 2002 240.000 hab. entretanto. 45 Dados capturados no site http://www.ibge. Os dados apresentados pelos censos penitenciários revelaram que houve um extraordinário salto quantitativo. 1997 e 2002.562/100. que os indicadores apresentados por Sandro Cabral (2005. Veja-se.107 141 2005 361.pdf. e estão atualizados com data de junho de 2006. em 2005 – equivalente a 195 presos por 100.mj.770.482 199 É possível perceber.770. chega ao número apontado de 199 presos por 100.gov. conforme se vê no site http://www.482/1867. que o crescimento da população carcerária aumentou significativamente.56246.70562 = 198.gov.236 presos. 371.br/home/estatistica/populacao/estimativa2006/POP_2006_DOU. acessado em 07 de março de 2007. com estes dados. p.000 habitantes em junho de 2006 através da seguinte fórmula: total de presos / (total da população/100.pdf.pdf. ou seja. com visto.236 presos.pdf.89 presos por 100. Saliente-se e adite-se que a população carcerária no final de 2006 já havia atingido 401.402 195 2006 371. . assim.169 presos em 1994 – equivalente a 84 presos por 100.000 habitantes.402 presos44.000 habitantes.mj. considerando-se esse fato.000) = 371.br/depen/sistema/2006_junho.gov. Os dados dos anos anteriores foram colhidos nos Censos penitenciários de 1995. a partir do cruzamento de dados apresentados pelo Departamento Penitenciário Nacional – DEPEN – e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – que esta população carcerária representa um nicho de mercado excepcional e em crescimento.gov.482 / (186.mj. em junho de 2006. 1994 129.br/depen/sistema/Pesquisa%20(Desembro-2006). 47 Uma ponderação deve ser levada em consideração: a população carcerária em dezembro de 2006. entretanto não foi possível fazer uma relação entre presos e quantidade de habitantes (100. acessado em 19 de março de 2007. Ano Quantidade de presos Taxa de encarceramento Presos/100.482 presos45 para uma população de 186. acessado em 19 de março de 2007. 125) 44 Dados capturados no site http://www. passando de 129. acessado em 19 de março de 2007.000) = 371. também. chegou aos 401.000 habitantes47.000 habitantes – para 361. para os objetivos da presente pesquisa é importante perceber.169 84 1995 148.760 95 1997 170. Na verdade os dados informativos colhidos no site do Ministério da Justiça indicam que havia.000) em função de que até o presente momento o IBGE não havia disponibilizado estatísticas suficientes. o equivalente a 199 presos por 100.br/depen/sistema/CONSOLIDADO%202006. 46 Este dado está atualizado até julho de 2006 e foi capturado no site http://www. além disso.

entretanto.346 (1. isto é. mesmo tendo sido o primeiro estado brasileiro a adotar a terceirização dos serviços prisionais. não é privilégio exclusivo.1% do total de presos no Brasil. que possibilitaram 48 Sandro Cabral (2005. os dados revelam que já estamos bem à frente de países europeus desenvolvidos como a Itália. o custo estimado à absorção desse déficit oficial de vagas no Brasil é. 5. notadamente pelo surgimento de lugares e momentos propícios à exclusão social.000 habitantes. frise-se. Caso esta retomada das seis unidades pela administração pública não tivesse ocorrido. Este crescimento da população carcerária no Brasil. em função. França. dos 361. 145. o percentual de presos custodiados por operações terceirizadas seria de 2. de R$ 1. A proporção de presos por 100. em função de fatores relativamente conhecidos.402 que formavam. 118 presos na França e 134 presos na Itália. como a mundialização e financeirização do capital – vistas nos capítulos II e III da presente tese – que proporcionam um aumento significativo de possibilidades lucrativas em função da criação de espaços próprios à reprodução do capital. aproximadamente. especialmente pelas recentes transformações da economia capitalista. Esta mesma pesquisa aponta ainda dois dados importantes que merecem destaque: primeiro. os dados relativos ao número de pessoas submetidas às medidas chamadas o “despenalizadoras” como aquelas previstas na Lei n 9. conforme dados disponibilizados pelo DEPEN.099/95. Como já foi mostrado.4 bilhão de reais e. é possível perceber o aumento da população submetida ao sistema penal em diversos países.48% do total de presos) estavam reclusos em estabelecimentos prisionais com operações terceirizadas48. mas acrescenta que há um déficit potencial de 345 mil vagas no país. dos mandados de prisão expedidos e ainda não cumpridos. segundo. à gestão penal dos excessos populacionais. Recorrendo novamente à pesquisa de Sandro Cabral (2005. isto porque há tendência em diversos países. entretanto não foram levados em consideração. em 2006 reverteu o processo e passou a administrar os seis estabelecimentos que haviam sido operadas por empresas privadas. 49 Os dados da pesquisa correspondem ao ano de 2003. em dezembro de 2005. .000 habitantes.482 vagas. 102 presos na Alemanha. p. Alemanha e Reino Unido49. em junho de 2006 o Brasil já possuía 199 presos por 100. 123/124). principalmente.231 demonstram haver um déficit no ano de 2005 de.000 habitantes era de 96 presos no Reino Unido. a população carcerária brasileira. p. por exemplo. Comparativamente o Brasil está entre os países que possuem uma população carcerária no nível inferior a 200 presos por 100. 187) revela que o Paraná.

presentes os demais requisitos que autorizariam a suspensão condicional da pena (art. clientes ou mercadorias aptas a serem reificadas e fetichizadas pelo capital. aproximadamente. portanto. por dois a quatro anos. 52 Em relação ao final do ano de 2004.900 pessoas). Levou-se em consideração para o cálculo das pessoas presas no Brasil. por exemplo. 4. etc. a população encarcerada no final de 2005 tinha aumentado 2. nos crimes em que a pena mínima cominada for igual ou inferior a um ano o Ministério Público. cumulada ou não com multa (artigo 61 da Lei no 9. ao oferecer a denúncia. estadual e federal. prisão temporária.400 sob o regime da parole (totalizando.099/95). por exemplo. havia aumentado mais de 4 vezes. No que concerne ao procedimento criminal ambas legislações tratam dos crimes de menor potencial ofensivo.259/01. potencialmente. entretanto. estavam custodiados em penitenciárias.232 ao suposto autor de um fato delituoso. que a expressão “presídio” foi utilizada para refenciar o estabelecimento penal que abriga os presos provisórios (prisões em flagrante. na verdade. poderá propor a suspensão do processo. 76 da Lei no 9. as quais dispõem sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais.099/95. enquanto havia 2.099/95 e a Lei no 10. aproximadamente. desde que o acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime.262 pessoas. públicas ou terceirizadas. somente a quantidade de indivíduos que.099/95). a Lei no 9. é significativamente maior que o número de presos efetivos. as contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos.798 pessoas custodiadas em prisões federais. o sistema penal tem atuado com maior rigor nas situações que permitem um controle social fora dos limites 50 São chamadas leis despenalizadoras no Brasil. que era de. por oportuno. o artigo 87 da Lei no 7. fazer um acordo judicial que o submete a um período de prova por um determinado tempo em troca de não ser processado criminalmente50. ou seja. em relação à população encarcerada em 1980. por exemplo.210. Os dados apresentados pelo Bureau of Justice Statistics do ano de 2005 revelam. respectivamente. 77 do Código Penal). estaduais e federais. mostrar que há uma quantidade imensa de pessoas que estão submetidas de alguma forma ao sistema penal e que são. apenas e tão só. aproximadamente. que nos EUA o número de pessoas submetidas ao regime de controle penal. ao estabelecido no artigo 102 da referida Lei de Execução Penal.). Ressalte-se.193. presídios51 e delegacias. A importância de se falar nestes números não contabilizados é. Conforme se vê nos dados trazidos pelo Bureau of Justice Statistics. sendo denominada de “Cadeia Pública”. fora das prisões. prisão provisória. Veja-se. o que corresponde. 498. estaduais e locais. a ser especificada na proposta (art. 4. Nesta circunstância e havendo representação ou tratando-se de crime de ação penal pública incondicionada.500 pessoas submetidas à chamada probation e outras 784. . no final de 2005 havia. nos Estados Unidos.7% e. em regime fechado”. Conforme artigo 89 da Lei no 9.162. que apesar do número de pessoas encarceradas ter aumentado significativamente nos últimos 25 anos52. o Ministério Público poderá propor a aplicação imediata de pena restritiva de direitos ou multas.946. de 11 de julho de 1984 (Lei de Execuções Penais) dispoõe que a penitenciária “destina-se ao condenado à pena de reclusão. 51 Somente a título de esclarecimento. não sendo caso de arquivamento.

Aliás.259/01) e. especialmente a prisão e outros mecanismos de controle.233 estabelecidos pelas prisões (mais de 2 vezes o número de encarcerados). segundo. a atuação do sistema penal. isto porque além da necessidade do controle daqueles submetidos aos regimes condicionais há outra indústria que é alimentada pelo fomento e divulgação da violência: a indústria do medo que viabiliza a . os dados confirmam um aumento significativo do número de pessoas submetidas ao sistema penal extramuros nos Estados Unidos. como a dos Juizados Especiais Estaduais e Federais – Lei no 9. penas alternativas no Brasil. o sistema penal levando e desenvolvendo seus enormes braços às mais longínquas pradarias. é possível ainda afirmar que o mercado de controle penal fora das instituições prisionais é igual ou mais atrativo que a privatização das prisões. em função das inovações legislativas (com as chamadas lei despenalizadoras. é dizer. na contemporaneidade. há tendência de crescimento da população encarcerada. é possível extrair quatro considerações importantes: primeiro. é exercida não só na prisão mas também fora dela. nestes termos. na verdade. como uma espécie de conseqüência das políticas públicas penais mais rigorosas. isto porque os dados apontam elementos que favorecem legalmente (o que dá uma face de legitimidade ao sistema) a criação de instrumentos de agenciamento de uma potencial clientela – que nos Estados Unidos corresponde a mais que o dobro de pessoas encarceradas em relação àquelas submetidas à probation ou à parole – o que significa um mercado de reprodução do capital extraordinário. este crescente número de pessoas submetidas às condições de monitoramento judicial (parole e probation nos Estados Unidos e a suspensão condicional do processo. mas também no Brasil. terceiro. Diante desses dados. não só nos Estados Unidos. É exatamente esta ampliação e desenvolvimento dos enlaces possíveis do sistema penal que permite o surgimento de novos lugares à expansão do capital. ou seja. por fim. muito embora não se tenha dados suficientemente confiáveis. por exemplo) significam. um enorme potencial à exploração econômica e a expansão populacional muito grande a ser submetida ao tratamento mercadológico penal. quarto.099/95 e Lei no 10. é possível afirmar que há também uma tendência de se aumentar a população submetida ao sistema penal extramuro no Brasil.

investimentos em alta tecnologia (principalmente em software e chips de monitoramento. em primeiro lugar. do aumento da criminalidade e do terrorismo – e. pelo menos.). guerra contra a violência. conter e aprisionar as massas de excluídos. apenas a informação dada. etc. Entendo relevante estar fazendo este pequeno alerta. mas é possível encontrar outros mecanismos de reprodução do capital que utilizam o discurso do medo e a necessidade de se ter segurança. 53 Neste ponto da tese é importante estabelecer e informar que alguns dados levantados aqui foram “capturados” em diversos sites do Governo Federal. Entretanto. os dados referenciados podem prestar informações sobre o tema. aos fins da presente pesquisa. tais como o crescimento da quantidade de seguros de proteção ao patrimônio (residências. etc. de empresas privadas de vigilância e segurança eletrônica. Entretanto. etc. etc.4. e equipamentos propriamente ditos) de monitoramento – como é o caso da ABINEE (Associação Brasileira da Idústria Elétrica e Eletrônica) – ou ainda sites de informações técnicas sobre monitoramento como é o caso do site do Guia do CFTV. abrindo-se um mercado pouco explorado. . automóveis. empresas que realizam a blindagem de automóveis. 5. pesquisas. especialmente. amplamente divulgado pelos meios de comunicação: há as guerras contra o tráfico ilícito de entorpecentes. em segundo lugar. porque elas demonstram.4. esse difuso cenário de práticas violentas. proporciona também um intenso movimento favorecendo a constituição de. de associações de empresas de equipamentos (desde tecnologias. investimentos em tecnologia genética para desenvolvimento de sistemas de identificação por DNA.). no discurso do medo. treinamento de pessoal especializado. pois não há base de dados para confrontação. que o desenvolvimento do setor parte da idéia da existência de insegurança social – consubstanciada. tecnologias e instrumentos erguidos à proteção dos indivíduos através da guetificação e aprisionamento das diversas classes sociais. que este é um lugar próprio à expansão do capital. a venda de armamentos destinados à segurança (pública e privada). O controle social privatizado: a exploração econômica do medo53 Há um espetacular cenário de guerras. computadores). e b) técnicas. investimentos em equipamentos (automóveis.234 ‘necessidade’ de se procurar segurança (privada) ante a inércia e ineficiência do Estado. mas em franca expansão. além do fomento à privatização dos presídios para reproduzir o capital. outras duas situações: a) o surgimento de diversos mecanismos à reprodução do capital. A primeira situação pode ser vista a partir das empresas de segurança privada. guerra contra o terrorismo. pois as informações trazidas não devem ser consideradas de forma absoluta.

) como em locais privados (lojas. etc. significativamente. como não há espaço para todos. Se o sistema penal não conseguir dar a identidade de criminoso. explorar economicamente o medo em função da divulgação do aumento da violência e a necessidade de se ter mais segurança. restaurantes. quem será o cidadão contemporâneo? A quem é permitido estar dentro? A quem não é permitida a entrada? Há um fluxo migratório em direção à insegurança. logradouros.). muito mais que a concretização de mecanismos disciplinares – como o fez a instituição carcerária – as tecnologias e instrumentos de proteção contribuem. da violação da intimidade ou não. aspectos destacados da sua constitucionalidade ou não. É o controle penal que não mais disciplina. e . nesta quadra de argumentações. A instalação de câmeras de vigilância. Em tempos de economia flexível e desemprego em massa. dos chips. mas produz uma linguagem classificatória que permite a inclusão e a exclusão. o gradeamento de casas. separações e controles disciplinares assim o permitem. Muito embora se discuta. de desempregado. à guetificação das massas urbanas. mais significativamente. tanto nas vias públicas (ruas. da invasão da privacidade ou não. ou seja. presídios. sua identidade de excluído será dada pela própria condição étnica.235 A segunda situação – guetificação das classes – pode ser observada pelo processo de crescimento do encarceramento e divulgação incessante dos atos de violência ocorridos nas sociedades contemporâneas. tem como propósito principal (declarado) o monitoramento eletrônico da sociedade. os centros comerciais. etc. como as favelas. – ou involuntária – os guetos resultantes da apartação social. os argumentos aqui estudados estarão centrados na utilização desse instrumento para viabilizar o controle da sociedade e. é bom pensar numa difícil e contundente realidade: se os termos da cidadania estão diretamente relacionados com a possibilidade de se ter um trabalho (ainda que seja precário) entretanto. como instrumento criado para proporcionar maior segurança à população. por isso a necessidade dos rótulos. pulseiras e braceletes de monitoramento. de imigrante. seja ela voluntária – como os grandes condomínios fechados (vertical e horizontal). etc. permite a distinção entre classes perigosas e pessoas honestas. isto porque este processo é imanente ao conjunto de práticas que tendem a proporcionar aos indivíduos a busca de instrumentos que os protejam. avenidas. isto porque as classificações. da efetividade da segurança proporcionada pelas câmeras ou não. vigilantes privados.

Muito embora esta relação não seja exaustiva. pelo menos.). combate às drogas. os quais permitem a consolidação da hipótese de existir. etc. determinadas etnias. em sua ampla maioria. é apontada por Nilo Batista (1998) quando analisou as características das políticas criminais de drogas instaladas no Brasil. autoritário e seletivo. b) um sistema caracterizado por um serviço de segurança público. distintas daquelas típicas do período fordista. d) a reprodução do capital através do chamado capital 54 A minuciosa análise de Nilo Batista foi realizada com o objetivo de compreender a política criminal para drogas no Brasil e seus reflexos no direito e processo penal. conseqüentemente. Se. b) aumento quantitativo dos encarceramentos e dos vínculos com sistema penal. Lembremo-nos que na contemporaneidade o controle social exercido pelo capital e pelo sistema penal. o avanço possibilitado às empresas de segurança favorece o desenvolvimento e utilização de diversos mecanismos e instrumentos de segurança (como visto acima). cito quatro importantes funções exercidas pelo sistema de controle econômico-penal: a) a consolidação de um modelo que prioriza a repressão. por outro a segurança privada aproveita para alcançar seu desenvolvimento pleno. por classes sociais melhor estabelecidas economicamente e. classes sociais. realiza outras diferentes funções. o autoritarismo e a guerra contra determinados inimigos (terroristas. conjuntamente. a segurança pública está cada vez mais truculenta e disposta a atacar. Esta postura de enfrentamento que caracteriza a passagem do modelo sanitário para um modelo bélico de política criminal. minorias. c) a expansão do capital via desenvolvimento de novos espaços à sua reprodução e. durante grande parte do século XX54.236 esta violência ser-lhe-á imposta sem que seja minimamente percebida através do seu monitoramento: o monitoramento das classes perigosas. ambulantes. dois sistemas de segurança: a) um sistema caracterizado por serviços privados de segurança de alta tecnologia utilizados. truculento. Ele denomina o período compreendido entre os anos de 1914 e 1964 de modelo sanitário e a partir de 1964 de modelo bélico. porque a expansão da necessidade de se ter segurança e. Esta é a tendência contemporânea de transformação do modelo e das estratégias de controle social. . por um lado. como se estivéssemos num permanente estado de guerra. permitindo a captação de matéria prima (pessoas presas) necessária ao desenvolvimento do negócio carcerário.

mas também nos equipamentos de busca de segurança e do controle do crime como a instalação das câmeras de vigilância. onerosas ou humilhantes. os programas de transferência de renda do Governo Federal como o “bolsafamília”55 ou ‘bolsa-escola”56. 55 O Programa Bolsa Família é um programa de transferência direta de renda. 27-28) houve uma transformação dos serviços sociais em instrumentos de vigilância e controle das populações excluídas. as famílias com renda mensal por pessoa de até R$ 120. Por sua vez. Um dos papéis exercidos pela criminalização da miséria – produto da enorme exclusão social – é a criação de espaços à expansão do capital e o apelo para se conseguir fomentar a indústria da segurança que potencializa a criação das empresas de segurança privada e implementa outros meios destinados à expansão do capital. treinamento de pessoal. Sob o ponto de vista da procura de espaços à expansão do capital.gov. O sistemático mecanismo de encarceramento tornou-se um grande negócio. nutrizes e crianças e adolescentes entre 0 a 15 anos. que nada mais são do que políticas que proporcionam uma maior “penalização da miséria”. independentemente de sua composição.br/programas/transferencia-de-renda/programabolsa-familia. aquisição de veículos. Foi exatamente este discurso o responsável pela implementação. é o discurso do medo.00 devem fazer o cadastro no Cadastro Único dos Programas Sociais. etc. como por exemplo a assistência às famílias condicionando-a a assiduidade escolar de seus filhos. Nos Estados Unidos o acesso à assistência social fica condicionado ao cumprimento de certos critérios objetivos e obrigações burocráticas. foram encontrados.00 por pessoa. cabendo agora uma análise nas duas outras funções. das políticas de segurança públicas baseadas no eficientismo penal. vulnerabilizadas (também chamadas de classes perigosas). Para entrar no Programa Bolsa Família.237 destrutivo. por exemplo. não só na privatização dos presídios. Podem ser incluídas no programa as famílias com renda mensal de até R$ 60. As duas primeiras funções já foram analisadas anteriormente.00 por pessoa podem ingressar no Programa desde que tenham gestantes. para ficarmos na terminologia de Löic Wacquant.00 para as crianças de 6 a 15 anos. as famílias com renda mensal entre R$ 60.mds. conforme o site http://www. p. nos últimos anos. basta imaginar.01 e R$ 120. 56 A Bolsa Escola é outro programa de transferência de renda do Governo Federal que dá uma ajuda mensal de R$ 15. conhecidas como de “tolerância zero” ou “teoria das janelas quebradas”. mas há também outras conseqüências da alteração – ou do foco de atuação do estado de bem-estar para o estado penal – das políticas públicas dos estados. armamentos e informatização dos mecanismos de controle. que freqüentam e assistem às aulas e . No Brasil esta situação é bem semelhante. Para Loïc Wacquant (2001a.

não pode ser superior a R$ 90. cobre no máximo 3 crianças por família. conforme o site http://www. . identificar ou diferenciar a classe dos perigosos. as práticas e estratégias de evitação da exclusão social – pobreza.asp. il criminale dall´irregolare. atrelado à maximização econômica. todos são iguais: igualmente perigosos e. o trabalhador da economia ilegal do trabalhador da economia informal que determina o reagrupamento da diversidade em classe perigosa”57. via controle social do desvio. O olhar eficiente e garantista da governabilidade está.238 Todos estes dados levantados e apontados anteriormente. desemprego. os excedentes da força de trabalho. ou seja. 57 Proprio la difficoltà crescente di distinguere il deviante dal precario. il lavoratore dell´economia illegale da quello dell´economia informale. tecnologias e tendências de resolução via penalidade. nisso resulta a transição de que fala Wacquant de um Estado social ao Estado penal. dividida pelo número de pessoas que a compõem. classista e étnico – especialmente aqueles dados que revelam que o crescimento das taxas de encarceramento passaram a ocorrer quando.gov. tanto nos Estados Unidos como também no Brasil – diga-se. mais precisamente. é dizer. por conseqüência. e ao mesmo momento em que havia uma tendência de queda da população carcerária. 116) “é exatamente a dificuldade crescente em distinguir o desviante do precário. criados pela condição de produção pósfordista – deixaram de ser um problema solucionável pelos instrumentos de políticas públicas inclusivas. determina il raggruppamento della diversità in classe pericolosa. definitivamente. o controle disciplinar e a economia política da pena estão diretamente vinculados à ordem produtiva. historicamente.caixa. ou seja. sendo que a renda familiar. o controle social. Como afirma De Giorgi (2002. p. os quais mostram um crescimento das taxas de encarceramento. Não há como definir. através de tecnologias e estratégias de controle mais presentes o que correspondeu. controlando não mais a pobreza (conseqüência da imposição do modelo econômico neoliberal) mas reprimindo os pobres (controle social das massas). um encarceramento seletivo. As câmeras de monitoramento surgem no momento em que todos são suspeitos. o criminoso do irregular.00. para ser alvo dos instrumentos.br/Cidadao/produtos/asp/bolsa_escola. demonstram uma significativa mudança nas estratégias de controle social via políticas repressivas e. ou melhor. subemprego. suspeitos. ao o momento da destruição do estado de bem-estar a partir de meados dos anos 1970.

softwares para aumentar a segurança nas transações bancárias. sendo uma das principais um “software que. devendo faturar U$S 1. integrado a uma central de câmeras de monitoramento público. O software pode também armazenar informações como fluxo de carros em uma rua. Este “olhar” que pode ser refletido na busca da segurança e também na conservação da ordem. também. a partir dos ataques divulgados pela mídia do grupo chamado PCC em São Paulo – Primeiro Comando da Capital – o interesse da população pelo setor aumentou. Interessante verificar que o discurso está direcionado para uma sociedade que vive atenta e suspeitando de todos. Segundo a reportagem. que obteve 50% do faturamento com serviços de monitoramento.1 bilhão de faturamento. trazendo novidades “que podem complementar as ações de combate à criminalidade”. a qual criou SINAV – Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos – foi regulamentada as regras para implementação obrigatória da . formando um banco de dados. é captado pelas lentes mais ousadas e ávidas à reprodução do capital58. o que significa. o custo é de US$ 1. “capazes de detectar situações típicas de um ataque criminoso. como carros ou motos em alta velocidade ou na contramão”. São quase 7 mil empresas na área que esperavam crescer entre 10% e 15% no ano de 2006. falar em práticas de controle como a obrigatoriedade de instalação de chips de identificação nos automóveis59 e de 58 Sobre o crescimento das empresas especializadas em equipamentos eletrônicos de vigilância. novas práticas de governo. dar ao princípio da segurança maior preponderância ao princípio da liberdade. decorrente do episódio de 11 de setembro de 2001. Lembremos que a identificação é feita por visualização direta do operador. pode-se configurar a câmera para disparar um alarme quando um carro estaciona em local proibido ou um pedestre começa a correr em um calçadão de intenso movimento. interessante matéria pode ser encontrada no site da Abinee (http://www. R$ 7 bilhões em 2005.600 por câmera. ou seja. por exemplo. Outra tendência apontada é a da atuação de empresas que integrem os sistemas de segurança. o controle social está. Paulo Alvarenga.abinee. A atividade financeira (bancária) é responsável por R$ 19. Um dos atrativos que chama atenção são os mecanismos de controle da população pois. sensores e alarmes para locais públicos e privados. na seleção da vítima do disparo) ficará ao encargo do operador (critério subjetivo) eleger as infrações. novos instrumentos de controle e identificação.1 bilhão em 2006. segundo a reportagem estas câmeras de monitoramento. O lançamento mundial desse sistema ocorreu em julho de 2006 e a cidade de Campinas (SP) foi a primeira a adotar em 8 câmeras de rua. diz que a alta na procura pelos produtos e serviços do setor nessa época foi também um reflexo da insegurança mundial generalizada. em outros mecanismos. 59 A partir da Resolução 212 do Contran. desvios e desviantes que serão atingidos.org. ou seja. pode controlar o comportamento de pedestres e veículos e identificar infrações ou situações suspeitas sem que o operador esteja necessariamente olhando para a tela". Para adaptar este programa nas câmeras já existentes. novos terminais de auto-atendimento e linhas e equipamentos de telecomunicações. Segundo ela.239 É na expressão da suspeição de todos que é possível legitimar uma atuação que busca. aproximadamente. Muito interessante para avaliação no presente estudo a chamada “nova atração”: é uma arma não letal que imobiliza uma pessoa a uma distância de 10 metros por meio do disparo de uma corrente elétrica de 50 mil volts. A matéria informa ainda que a “empresa ampliou seu mix de serviços com o desenvolvimento de uma tecnologia de monitoramento de condomínios verticais e com a entrada na prestação de serviços de rastreamento de veículos”. no discurso. Além das câmeras de monitoramento eletrônico de pessoas. A mesma reportagem traz também algumas informações sobre as câmeras de monitoramento. A expectativa é que o setor deva movimentar US$ 1.6 bilhões de investimentos entre automação. A referida matéria traz números e perspectivas de crescimento do setor afirmando que o cenário de guerra criado em grandes capitais brasileiras – em especial São Paulo e Rio de Janeiro – é um “prato cheio para as empresas que fornecem serviços de segurança eletrônica no Brasil”. diretor da Abinee. aliada à possibilidade do erro (do ponto de vista objetivo é possível haver erro do sistema no momento do disparo. como a Siemens. É possível. na identificação e seleção da ocorrência.br/).

que após o prazo de implantação. Por fim. A discussão que está sendo travada transita. repressão às manifestações políticas e ideológicas. localizando ruas e casas em qualquer parte do mundo. concordando com o monitoramento. Acrescente-se. b) a violação à privacidade e intimidade das pessoas submetidas a este tratamento. . que no dia 18 de abril de 2007. o indivíduo seria vigiado pelo equipamento sendo que não se sabe se o monitoramento seria realizado por um órgão público ou privado. Projeto de Lei proposto pelo Deputado Federal Félix Mendonça. Este projeto recebeu o número PL 5. no Brasil. Uma outra possibilidade seria permitir que a pessoa condenada pudesse optar em utilizar ou não o equipamento. A Resolução estabelece. Independente das questões até aqui levantadas. para diminuir a superlotação das penitenciárias. tramitando na Câmara dos Deputados. 237 do CTB por não ter inscrições e simbologia necessária a sua identificação o que implicará em multa e pontos na Carteira Nacional de Habilitação. por exemplo. O referido Projeto de Lei já foi aprovado pela Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado. É bom lembrar que todos estes mecanismos – câmeras de monitoramento.240 monitoramento de presos60 e também chips de identificação nas cédulas de identidade61. ainda. bem como seu mapeamento genético (DNA). é de se perguntar: se isto está absolutamente disponível a todos o que é possível saber e que ainda não está disponível? É o controle total de tudo e de todos. o Governador do Estado de São Paulo entregou ao Presidente do Senado um projeto destinado a regulamentar o uso de instrumentos de monitoramento (pulseiras e tornozeleiras) nos presos que estejam em liberdade condicional. podendo ser usados para verificações de greves. ou seja. etc. Assim. via satélite. – que hoje garantem sua legitimidade em face do discurso da segurança contra o crime. é importante relembrar que estes mecanismos.520/05 e atualmente está sob análise na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados. que permite uma incrível aproximação de imagens via satélite. chips de identificação e monitoramento. bem como a produção de estigmas em função das marcas ou acessórios que permitiriam maior visibilidade da condição de estar preso. amanhã podem estar a serviço da ordem (ou da lei e ordem). 60 O monitoramento de presos é utilizado nos Estados Unidos e em vários países da Europa e pode ser realizado via implantação de chips na pele de presos como também com um acessório acoplado ao corpo. A proposta foi feita pelo Deputado Federal Carlos Manato (PDT-ES) e a idéia é implantar um microchip sob a pele dos presos e monitorá-los durante 24 horas por dia. e todo tipo de controle possível das massas indesejadas (hoje classes perigosas). que manda mensagens a uma central sobre a localização da pessoa monitorada. e isto ao alcance de todos. 61 Há. melhorar a gestão carcerária no País e monitorar presos que estejam cumprindo pena fora do estabelecimento prisional. utilizam-se do discurso do medo e da colocação de ‘chips’ de identificação nos veículos nos próximos cinco anos. mas. não de forma impositiva mas facultando-lhe esta possibilidade. cabe lembrar que há sistemas disponíveis. seguramente. quem não estiver com o ‘chip’ no veículo estará cometendo infração do Art. sob dois aspectos: a) uma maior humanização das penas e da diminuição da quantidade de presos e. Ver Projeto de Lei no 510/07. No Brasil o monitoramento de presos é um assunto que está sendo discutido no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. prevendo que a Carteira de Identidade nacional receba um chip com todos os dados individuais do cidadão. por exemplo o programa “Google Earth”. de um modo geral. ainda. como uma pulseira ou tornozeleira.

aproximadamente. por exemplo. da luta contra o terrorismo62. sites e outras informações de utilidade comercial. entretanto a tendência não é apenas ficar no âmbito do controle público. Parecem ser infinitas as hipóteses à reprodução do capital. bancos de dados e outras tecnologias faz parte de uma rede muito mais ampla de sistemas inteligentes interligados que permitem acompanhar detalhadamente o comportamento de milhões de pessoas”. O monitoramento inclui o acompanhamento. Esta severa intervenção na vida íntima das pessoas é fruto. que este discurso realmente serve para legitimar o controle total dos corpos vivos e isto possibilita um controle estatal.com. etc. somente para esclarecer. treinamento de pessoal. vista em .241 necessidade de se ter segurança para subjetivar as condutas dos indivíduos. esse valor pode 62 A referida reportagem pode ser http://www. entretanto se forem consideradas as instalações de infra-estrutura. é possível realizar o capital na privatização dos presídios. de monitoramento. no comércio de utensílios de controles de pessoas. veículos. como cabeamento de fibra ótica. uma vez que é perfeitamente possível coletar dados pessoais a partir de informações dos cartões de crédito. restringindo a liberdade e privilegiando a segurança. as empresas de segurança eletrônica movimentaram. que. por parte da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos. etc. chegando.). de ambiente (celas móveis – “conteiners”).php?storyid=23. armamentos.guiadocftv. sendo considerado o pais mais vigiado do mundo. à venda dos órgãos daqueles condenados à morte. forçando-os a consentir e permitir investimentos em segurança pública ou privada. Na Inglaterra. biometria. mas sim controlar a vida privada das pessoas. A reportagem afirma que um relatório da Rede de Estudos sobre a Vigilância na Inglaterra aponta que a “combinação de câmeras de CFTV. aproximadamente uma câmera para cada 14 pessoas. há 4.br/modules/news/article. até mesmo. de todo o tráfego de telecomunicações que passa pela Inglaterra. foram necessários ao aparelhamento das polícias (computadores.2 milhões de câmeras de circuito de televisão. pelo avanço tecnológico e pela corrida contra o denominado crime organizado. telefones celulares. segundo a reportagem. 900 milhões de reais. Os nichos desse mercado são os mais variados possíveis: como visto. Veja-se. câmeras de vigilância. No ano de 2004. É o mais completo controle sócio-penal e a plena e irrefreável exploração econômica do medo.

isto porque há no Brasil a guerra contra a mistura entre classes sociais – uma outra espécie de guetificação das massas urbanas: se por um lado é construída uma área de lazer para evitar que determinadas classes sociais deixem seus locais de origem e se dirijam às zonas nobres da cidade. Somente para se ter idéia. a chamada taxa decrescente de utilização de bens e serviços socialmente produzidos. Este fato chama a atenção quando é associado a outro fato ocorrido na cidade do Rio de Janeiro no ano de 2001. nestas instalam-se o monitoramento eletrônico para coibir. Outros dados informativos passados pela reportagem merecem destaque: há uma previsão. segundo apontam os especialistas. Corpo de Bombeiros e Defesa Civil. etc. por exemplo. A reportagem informa ainda que a concorrência no setor é muito grande uma vez que. de que as empresas que fornecem sistemas eletrônicos de vigilância atenderão apenas 5% da demanda existente. mais a estrutura de apoio interligando Polícias Militar e Civil. neste setor. é possível perceber que há uma tendência para que os investimentos em segurança pública ou privada. Multinacionais como a alemã Bosch. .cfm?id_conteudo=6206. não só se perpetuem. No Rio de Janeiro. principalmente em bairros nobres da cidade como Copacabana. R$ 400 milhões só em segurança eletrônica. a construção de uma piscina em um bairro da periferia da capital carioca. Utiliza-se.com. então. As câmeras foram instaladas.200 câmeras de segurança instaladas em prédios públicos e na orla marítima da cidade de Praia Grande – litoral de São Paulo –– custaram aos cofres públicos R$ 6. Estas. A multinacional Bosch equipa cerca de 80% dos aeroportos do País e ainda é responsável pelas câmeras do sistema de vigilância instalado no centro de Curitiba.5% do total faturado. Leblon e Ilha do Governador. as americanas GE e Honeywell e empresas locais como a Comtex disputam o promissor mercado de instalação de sistemas públicos de vigilância.242 chegar a 4 bilhões de reais.link. são outras 63 Esta reportagem pode ser capturada no site http://www. ou seja. no setor de comércio (supermercados. custaram aos cofres públicos R$ 52 milhões. a obsolescência como forma de expansão do capital e. independentemente dos dados efetivos divulgados estarem corretos. armazéns lojas. através desta. evitar e separar os indesejados (as classes ditas perigosas). Somente para se ter idéia do potencial do setor no Brasil. Da mesma forma. as 1.) estima-se que tenham sido gastos em segurança eletrônica em 2005 de 2. no setor bancário foram investidos no ano de 2005. estima-se que menos de 10% (460 mil) dos prédios em São Paulo são monitorados por sistemas de vigilância com câmeras e alarmes. mas cresçam. No Rio de Janeiro as 220 câmeras instaladas em 2006. este é um tipo de tecnologia que necessita constante atualização.br/index.estadao.5 milhões63.

4. também é necessário – e o capital assim o faz – colocar em movimento forças produtivas e destrutivas. É possível proclamar guerra contra o terrorismo (desde o “totalitarismo” religioso. especialmente após os acontecimentos de 11 de setembro de 2001. nem transferido para o plano militar. cabe ainda uma pequena análise da última função exercida pelo sistema de controle econômico-penal (acima enumerada pela letra “d”): a reprodução do capital através do capital destrutivo. por exemplo). ao terrorismo praticado pelos movimentos sociais como o MST. se à reprodução do capital é necessário uma demanda efetiva. hoje. mas expandir o capital. Para justificar a necessidade dos Estados se defenderem e criarem guerras. no nível do sistema produtivo capitalista. etc.4. Como dito anteriormente (Capítulo II. o que é realizado pela sua destruição.4). Mészáros (2002. Por fim. é preciso que esta tenha seu tempo de vida limitado. contra as destruições ambientais. É bom lembrar que para Mészáros. apartar (ou eliminar) as classes perigosas. Muito embora. à implementação da democracia. pelo complexo industrial-militar – exerce uma função importante no desenvolvimento do capital. consumo e destruição são equivalentes funcionais no processo de realização do capital. evitando-se o contato com elas (como se fossem portadores de doenças contagiosas) isto porque serão identificados como perturbadores da ordem pois a diferença denota a desordem intolerável. esta tendência da taxa de utilização decrescente – incorporada ao sistema produtivo do “capitalismo avançado” através do chamado consumo destrutivo. especialmente. ou seja. contra as drogas.3 e 2. são utilizadas diversas orientações. o fato é que os gastos militares (complexo industrial militar. 1002) indique que os desafios internos obrigam o capitalismo a se confrontar com seus próprios problemas não permitindo que o futuro do seu desenvolvimento possa agora ser adiado por muito tempo.243 funções dos instrumentos de vigilância eletrônica e de outros equipamentos. como denomina Mészáros) não param de crescer. p. Para que a vida útil da mercadoria seja uma realidade e possibilite a expansão do capital. É exatamente neste sentido – do movimento de forças produtivas e destrutivas – que as guerras ocupam um lucus privilegiado. itens 2. é dizer: não só monitorar. .

os Estados Unidos gastaram 47% dos custos mundiais. ou a militarização dos diversos estados latino americanos corresponde. pois. 687). Em 2004. assegura a maior expansão em suas operações. Assim. com sucesso. a média global dos gastos militares correspondeu a 162 dólares per capita e 2. p. na prática. como afirma Mészáros (2002.org/ch8/ch8.yearbook2005. 455 bilhões de dólares de um total de mais de 1 trilhão de dólares (1. O complexo militar-industrial facilita a circulação e expansão do capital. não havendo distinção entre consumo e destruição. definido pelas limitações do apetite dos consumidores. permitindo altos índices de lucratividade em função de que o consumidor (diante da lógica do capital) passa a ser o próprio Estado.sipri. duas restrições fundamentais: os recursos limitados da sociedade e a constituição do próprio consumidor. .035 trilhão de dólares). isto porque há um equivalente funcional à sua disposição do capital. as necessidades passam a ter uma conotação ideológica e a necessidade de intervenção do Estado capitalista passa a ser fundamental. e que apontam para esta necessidade (remilitarização da América Latina) 64 Os dados podem ser observados no site http://www.6% do produto interno bruto mundial. isto é. ou seja. de uma remilitarização do mundo na guerra contra o terrorismo. na verdade. ele reestrutura a produção e o consumo de maneira a tornálo desnecessário. Para Mészáros o complexo militarindustrial resolve. é dizer. Esta é a contribuição que o complexo militar-industrial proporciona. ou coisas do gênero. o capital pode circular com maior velocidade dentro do próprio círculo do consumo. contra o tráfico ilícito de drogas. Não se trata. Do total dos gastos com a indústria bélica no ano de 2004. contra o mal. ou seja. É o que ele chama de linha de menor resistência do capital. aos pressupostos de estabilização do capital via acordos de livre comércio na região. do ponto de vista do capital.244 Os dados observados pelo relatório anual do SIPRI64 (Stockholm International Peace Research Institute) mostram que os gastos militares em diversas partes do mundo estão em franco crescimento e apontam os Estados Unidos como o maior “investidor”. ele remove as restrições tradicionais do círculo de consumo. se por um lado ele consegue legitimar o desperdício sob o argumento da necessidade patriótica. O aparelhamento. por outro. ou seja. mas mecanismos de controle social via expansão do capital.

técnicas e tecnologias de monitoramento. e) uma maior criminalização (seletividade primária e secundária). São estas situações de exploração econômica do medo que proporcionam a busca e o encontro dos espaços necessários à expansão do capital. os conflitos sociais e a violência urbana.245 sob o preocupante argumento de que a polarização social. políticas de “tolerância zero”. podem causar insegurança social capaz de impedir investimentos privados (e conseqüentemente o “desenvolvimento” da região). “eficientismo penal” e “penalização da miséria”). justificando a) a implantação de todas as políticas tradicionais de segurança pública (a “teoria das janelas quebradas”. d) o aumento dos encarceramentos. . f) o aumento do controle social via instrumentos. b) a relativização dos Direitos Sociais e dos Direitos Humanos. c) a privatização dos presídios. e) criação de mecanismos que aumentem os vínculos com o sistema penal e. os altos índices de desemprego.

notadamente. as guerras internacionais. mas também pela implementação de políticas públicas atentatórias aos direitos humanos. à consecução das finalidades resultantes da lógica de mercado em detrimento aos direitos e garantias fundamentais. Ao analisar o liberalismo econômico no contexto da democracia e da globalização. Esta tendência acontece. portanto. de alguns pressupostos levantados nos dois primeiros capítulos. . que barbariza e ataca. DO CONTROLE TOTAL ANIQUILAMENTO ACUMULAÇÃO CAPITALISTA E DOS CORPOS: EXCLUSÃO EM À TEMPOS CONTEMPORÂNEOS Considerando os objetivos e hipóteses levantadas na introdução da presente pesquisa. mas marcada por uma violência estrutural (econômica e social) e institucional (especialmente utilizando-se do aparato policial para selecionar os indivíduos. Partiu-se. as contradições das políticas de segurança pública e o aparecimento de novas formas de controle da população. num constante procedimento de combate à dita criminalidade. especialmente contra as camadas sociais mais vulneráveis. com vistas à reprodução e acumulação do capital. não tanto por aquela violência prodigalizada pelos estéricos meios de comunicação. procurou-se responder algumas importantes indagações. mas prioritariamente sobre a tendência contemporânea de uma possível relação entre a lógica do sistema econômico neoliberal – as chamadas economias de mercado –. pela profunda e preocupante polarização econômica da sociedade. pode-se perceber que a sociedade capitalista está marcada pelo confronto e pela violência. Substancialmente o trabalho procurou investigar quais os interesses na exploração e divulgação da violência (por exemplo.6 Considerações Finais EM BUSCA LIMPEZA. o combate ao tráfico ilícito de entorpecentes). criminalizando muitos e imunizando alguns). que apenas proporciona o aumento da sensação de insegurança.

que permite ao sujeito estabelecer as pontes necessárias às suas realizações – “se posso desejar. pois se desejar é possível não perverto a ordem pública” – são intensamente reproduzidos por diversos mecanismos sociais. demonstrando que as pretensões modernas de igualdade e liberdade não foram alcançadas. p. . p. cujo referencial se transfere ao símbolo da liberdade – “não serei reprimido. isto porque a crise de identidade representada pelo sentimento de insegurança1 impede a utilização de instrumentos coletivos de resolução dos conflitos sociais. especialmente neste contexto de intensa exclusão social e de políticas de segurança pública calcadas na intolerância e no discurso autoritário da “lei e da ordem”. Neste sentido é que foi discutida a questão da liberdade e suas implicações na contemporaneidade. Entretanto. Interessante perceber que o campo da insegurança é o único 1 Bauman (2000. como se não existisse outra “opção entre ditadura do mercado e a do governo sobre as nossas necessidades. a qual pode ser representada pelos inúmeros atos de violência (público e privado). sou livre”. 12) empresta a expressão. refere-se a “Unsicherheit”. p. no sentido que Bauman (2000. 2000. Para ele as instituições políticas sucumbiram ante a força e a imposição ao conformismo realizado pelo liberalismo. como se não houvesse lugar para a cidadania fora do consumismo”. 10). Ocorre “que o aumento da liberdade individual pode coincidir com o aumento da impotência coletiva na medida em que as pontes da vida pública e privada são destruídas” (Bauman. estes mesmos desejos. pela destruição ambiental. 13). etc. no sentimento individual e coletivo. Pavimenta-se o caminho à utilização da violência como mecanismo de estabilização política e social. ainda que estejamos tratando de uma igualdade formal. isto porque somente são colocados poucos caminhos a percorrer. isto porque cada um passa a sentir-se livre no momento em que o sentimento de igualdade também perpassa a todos. É a partir desse ponto que começa a ser discutida e questionada a liberdade de cada indivíduo. pela exploração em vasta escala. Os vínculos estabelecidos entre liberdade e desejo – “eu posso desejar” – enfeixam uma relação de esgotamento. como o termo alemão que melhor traduz esse sentimento de insegurança. tendo como conseqüências as constantes agressões aos direitos fundamentais. muito embora possa também significar incerteza e falta de garantia.249 As conseqüências políticas dos processos de globalização conduziram à atual “crise de identidade” da civilização.

semeiam a desconfiança mútua. no mal-estar da pósmodernidade. o que é necessário para controlar as massas. exigindo-se ações coletivas. como instrumentos necessários à realização dos pressupostos do capitalismo liberal. na produção e satisfação dos desejos. . A mínima intervenção estatal na regulação econômica permite a plena liberdade do mercado para controlar e administrar as atividades econômicas. de capitalismo globalizado (de mercado. 13). bem como determina quem são os incluídos e excluídos. de que forma a busca pela autoridade política guarda íntima relação com todo o problema levantado na pesquisa: ‘curiosamente’ o sentimento de liberdade permite que se deseje aquilo que for suficiente para atingir a plenitude da Unsicherheit. 2000. no sentido arendtiano) – tanto estrutural como institucional. como diz Bauman. tornando por fim ainda mais solitários os que se isolam (Bauman. de forma insidiosa. Por certo. É necessário que o indivíduo possua o “sentimento de pertencimento” e evite a criação dos desejos. em que a produção das subjetividades condicionará os desejos de consumo. ou seja. contudo “a maioria das medidas empreendidas sob a bandeira da segurança são divisórias. deixando que apenas deseje o que for permitido ao cumprimento dos objetivos estruturais da sociedade liberal. sem intervenção estatal). esta é a razão para se falar em crise de identidade ou. separam as pessoas.250 passível de alterações. o capital e sua acumulação se desenvolvem. principalmente focando a literatura de Hannah Arendt. Impondo-se como a única “alternativa” possível e produzindo um sentimento de terem triunfado seus pressupostos políticos (democracia liberal) e econômicos (capitalismo globalizado). isto porque para garantir a ordem – segurança. através de intensos processos de subjetivação. Este é o sentido da liberdade no contexto da estrutura social capitalista. Foi percebido. pois a destruição da instância política ocorre justamente em função da supressão da liberdade. garantia e certeza – o Estado fica legitimado a utilizar-se da violência (ainda que com isso perca poder. a busca da autoridade é feita pela profusão da violência e do medo. A conseqüência é a determinação do mercado como centro de produção normativa e de decisão política. marcados pelo princípio de mercado que impõe o padrão de consumo. dispondo-as a farejar inimigos e conspiradores por trás de toda discordância e divergência.

p. e a “mundialização do capital2” ocupou a centralidade dessa operação. como conseqüência do primeiro. É a politização do poder de controlar a vida. baseado na combinação de apropriação da mais-valia absoluta e relativa. de adotar. um enfoque e conduta ‘globais’”. é fundamental compreender que estas contradições revelaram a dificuldade da reprodução do capital e a necessidade de se achar novos espaços próprios a esta finalidade. 17) diz: “a Expressão ‘mundialização do capital’ é a que corresponde mais exatamente à substância do termo inglês ‘globalização’. Com o deslocamento da soberania do Estado para o mercado. mas para o controle das classes excluídas e à reprodução do capital. o aumento dos excluídos. provocadas pelas profundas contradições estruturais e endêmicas ao modo de produção capitalista e sua relação com os processos de subjetivação. voltado para a produção manufatureira ou para as principais atividades de serviços. mas. . 1996. no dizer de Bauman) ou os trabalhadores que não conseguem vender sua força de trabalho tenham tratamento “diferenciado”: exclusão social e abandono. tiveram como resultado um ‘espetacular’ aumento do desemprego (Chesnais. os resultados da financeirização do capital e o ressurgimento de formas agressivas e brutais de aumento da produtividade do capital. 286) tornando-se possível o acesso à vida das pessoas. simultaneamente. p. segundo. Entretanto. o capital também buscou livrar-se das amarras impostas pelas barreiras da soberania dos Estados-nação. pois impõe ao sujeito. representa a exposição da vida à violência. sob a identificação perniciosa da liberdade. “o que se poderia denominar a assunção da vida pelo poder” (Foucault. 1999.251 Identificadas as constantes tensões sociais. o dito aumento das taxas de desemprego. permitindo que os não consumidores (ou “consumidores falhos”. p. 16-17). condições inatingíveis. 2 Chesnais (1996. mas o total controle da vida. a condição de consumidor imposta por este. notadamente do modelo fordista ao atual momento de flexibilização da produção permite concluir que a condição do novo proletariado e as dinâmicas das relações de produção estão a influenciar o novo encarceramento. Na onda da liberdade. o que representará menos pessoas consumindo e. pois as necessidades agora não são corpos dóceis e treinados. e diante da transição e tendência da produção. por conta própria. que traduz a capacidade estratégica de todo grande grupo oligopolista. Dois problemas foram revelados: primeiro. a) Para o controle social surge a estatização do biológico. não mais para disciplinamento dos corpos. atente-se.

a exclusão pelo mercado se dá pela adoção de políticas públicas de viés neoliberal. justamente para manter a ordem e as condições da precarização das relações sociais. Assim é que a exploração da indústria do crime entra em cena. Mészaros para o capital destrutivo e para as taxas decrescentes de utilização. Baratta apontou para a contenção das massas de insatisfeitos pela exploração do trabalho precário. não permitindo que se tenha espaço para todos. mas pela biopolítica. a exclusão (pelo mercado ou pelo sistema de produção econômico) não é realizada legalmente. do aumento do aparato repressivo e das inúmeras hipóteses de controle penal fora do sistema carcerário (probation. carros. a possibilidade da reprodução do capital. contudo. De forma semelhante ocorre com o trabalhador que não consegue mais vender sua força de trabalho.. Bauman para a utilização dos excluídos. mas tão somente um elemento à realização do capital e a adoção de políticas de segurança pública neoliberais. inclusive no Brasil. cumprem esse papel e contribuem ao encarceramento em massa. parole. pela ausência de proteção social do Estado e excluídos do mercado de trabalho. a informatização do controle prisional. a confirmação da hipótese apresentada: num primeiro momento. Veja-se aqui. Aqueles que ficam “de fora” têm o tratamento diferenciado: indiferença. exclusão e controle total. pois a busca pela segurança não é uma necessidade. seguindo uma lição norte-americana.252 b) Para a acumulação do capital o caminho é um pouco mais velado. a aquisição de veículos – motos. a privatização dos presídios. aviões – armamentos. a utilização do sistema de controle social. há um enorme investimento público e privado no setor e. através da criminalização das condutas. treinamento e contratação de pessoal. suspensão condicional do processo. Isto ocorre. que está sendo aplicada também em diversos países da Europa e da América Latina. o sistema penal. como as políticas de “tolerância zero” e o movimento de “lei e ordem”. investimento tecnológico. etc. suprimentos. Através dos mais diversos mecanismos de controle como as câmeras de vídeo. conseqüentemente. Como se viu. as quais diminuem o tamanho do Estado. Qual ou quais os caminhos que devem ser percorridos à acumulação do capital utilizando-se o ‘lixo desprezado’? Na busca por novos espaços à reprodução do capital. . Harvey apontou para as privatizações. caminhões. Orientandonos pela leitura da criminologia crítica. Em ambas as situações. helicópteros. do tipo penal.

4 Somente para lembrar. tipificação de condutas3. no dia 31 de agosto de 2007. somente a título de exemplo. a adoção das políticas de segurança. por oportuno. muito grande. p. destaca-se a introdução do monitoramento eletrônico por meio de pulseiras ou tornozeleiras. no momento em que cortou 30% nos gastos com os serviços sociais da cidade. que cidades como Boston e Chicago já haviam registrado a diminuição das taxas de criminalidade três anos antes da implementação das referidas políticas de tolerância zero (Wacquant. num segundo momento. 28). As atitudes políticas ao adotarem medidas penalizadoras cada vez mais rigorosas. regime semi-aberto ou saída temporária das penitenciárias. recrudescimento do regime prisional de cumprimento de penas privativas de liberdade. no terceiro capítulo da presente tese. que o número de projetos de lei que são criados. fruto da divulgação das políticas de “tolerância zero”. quatro vezes mais que as verbas destinadas aos serviços públicos de saúde. dos consumidores falhos e daqueles que não fazem diferença à produção econômica e.). aumentando penas de crimes já existentes. cidade símbolo mundial da segurança pública. registrou um aumento dos gastos destinados à manutenção da ordem. como. No referido ‘pacote’. além de presos de alta periculosidade que ainda cumprem regime fechado. exerce o controle e a exclusão dos excedentes. Basta dizer. tanto nos Estados Unidos como em países da América Latina ou Europa. nos próximos dias. p. etc. por exemplo. sua privatização. resultou num aumento significativo na quantidade de pessoas submetidas ao sistema penal. recebi o Boletim Informativo do Congresso Nacional. de forma impressionante. 3 No momento da realização dessas considerações finais da presente pesquisa. diretamente. tipificando novas condutas. são sacralizados como suficientes à resolução dos conflitos sociais4. que programas de políticas de segurança pública. não é dito nem divulgado. Naquele momento indicamos que Wacquant (2001. que nos Estados Unidos. ou seja.253 transação penal. Justiça e Cidadania (CCJ) estará votando. o ‘pacote antiviolência’. resultando em uma perda de 8. pena de morte. 2001. aprovado pelo Senado Federal. sendo considerado o responsável pela diminuição dos índices de criminalidade na cidade de Nova York. A idéia central (declarada) é que a utilização destes mecanismos para ‘evitar a superlotação’ do sistema penitenciário nacional. ou ainda aumentando o rigor no cumprimento das penas é. como o ‘tolerância zero’. que clama por ações repressoras cada vez mais intensas (aumento das penas.000 postos de trabalho. projeto de lei que estabelece um aumento de pena para crimes contra a honra praticados pela Internet. etc. apenas refletem o sentimento social de insegurança reinante. O projeto (PLS 398/07) é do Senador Expedito Júnior (PR-RO). entretanto. fundadas no discurso de Lei e Ordem. Caberá aos Estados a definição se os presos utilizarão tornozeleiras ou pulseiras. no orçamento para a polícia em 40%. O projeto é da autoria dos Senadores Magno Malta (PR-ES) e Aloizio Mercadante (PT-SP). Ressalte-se.). trouxemos dados estatísticos importantes levantados por Loïc Wacquant. . 28). a fim de realizar o rastreamento de presos que estão em liberdade condicional. alimenta o sistema fornecendo matéria prima abundante ao grande negócio envolvendo a segurança pública e. demonstra que Nova York. noticiando que a Comissão de Constituição. Exatamente nesta perspectiva.

coincidentemente contra os mais vulneráveis (pobres. isto porque ao ser constatado o crescimento exponencial das empresas de segurança (desde empresas especializadas em privatizações de presídios. é significativamente maior que o número de presos efetivos. a adoção de tais políticas pelo poder de polícia do Estado. empiricamente. Ver item “4. Estes índices são alcançados pela implementação ‘justificada’ de políticas penais cada vez mais rígidas. sursis processual. negros. etc. conforme a pesquisa realizada por Sandro Cabral (2005. da presente tese. notadamente contra determinadas camadas da população. pela indiferenciação (ou relativização) dos Direitos Humanos. no Capítulo IV. isto porque. A privatização das prisões: um nicho de mercado e a retirada da “sujeira” pelo controle social”. . entretanto. diretamente que haja um aumento da criminalidade. imigrantes.254 Como se viu. O resultado dessa perversa relação pode ser assustador. aponta e identifica a cifra oculta da criminalidade. No Brasil a situação não é muito diferente. mas sim. sem dúvida. mas. pelo aumento dos vínculos com o sistema penal. enfim. como de segurança privada). Vejamos por que: nos Estados Unidos a população carcerária aumentou em 20 anos (de 1970 a 1991) quatro vezes – de 200 mil detentos para 895 mil. A relação perversa e assustadora acima referida confirma. fora das prisões. ou não significa.2. principalmente no quarto capítulo.).) não representa. pela seletividade primária e secundária.123).5% da população dos Estados Unidos está submetida a alguma situação de controle penal. p. bem 5 Nos EUA o número de pessoas submetidas ao regime de controle penal.5. é dizer. os dados revelam.000 habitantes. o equivalente a 2. etc. fornecendo ao mesmo tempo a matéria prima necessária à reprodução do capital. como as liberdades vigiadas. à exploração econômica do medo ao encontro de espaços à expansão e acumulação do capital.000 habitantes e em 2006 o equivalente a 199 presos por 100. Hoje. “não consumidores”. por diversos instrumentos que visam não só o controle social (através de técnicas e tecnologias de monitoramento). o crescimento da população carcerária está acima dos patamares do crescimento vegetativo da população e os dados apresentados pelos censos penitenciários revelaram que em 1994 havia o equivalente a 84 presos por 100. minorias. o aumento da população submetida ao sistema penal (cárcere e outras medidas ‘extramuros’5. o que a criminologia crítica já havia levantado. uma das hipóteses da presente pesquisa.

houve um crescimento de 44. um significativo mercado de reprodução do capital. No Brasil. Com tudo isso verifica-se. possivelmente. por exemplo. a prisão e outros mecanismos de controle. . No mesmo sentido. apontam elementos que favorecem legalmente (o que dá uma face de legitimidade ao sistema) a criação de instrumentos de agenciamento de uma potencial clientela e até mesmo à possibilidade da legalização do trabalho escravo. um lugar igual ou mais atrativo que a privatização das prisões. em apenas três anos.255 como da população submetida a algum sistema de controle. sendo aqui. pois. a atuação do sistema penal é exercida na prisão e fora dela.92% dessas empresas (legalizadas). isto representa a tendência da possibilidade ao surgimento de novos lugares à expansão do capital. ou seja.

__________. São Paulo: Perspectiva.. Tradução de Roberto Raposo. ARENDT. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. Tradução de Henrique Búrigo. _________. 1997. Sobre a violência. 375 p. __________. 336 p. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 348 p. Tradução e ensaio crítico de André Duarte.Do paradigma etiológico ao paradigma da reação social: mudança e permanência de paradigmas criminológico na ciência e no senso comum. Belo Horizonte: UFMG. Tradução de Iraci D. _________. 2004. Ricardo. 201 p. 10a ed. Dogmática Jurídica: um esforço de sua configuração e identidade. In: Margem esquerda: ensaios marxistas no 3. São Paulo: Cortez. São Paulo: Boitempo. 2003. 2004. 336 p. As origens do totalitarismo. Porto Alegre: Livraria do Advogado. 2002. 204 p. O capitalismo pode conhecer uma “morte natural”?: anotações sobre um prognóstico marxista da crise final. São Paulo: RT. Entre o passado e o futuro. 114 p. Crises da República. . 200 p. pp. Giorgio. Tradução de José Volkmann. 1994. no 14. Revista Brasileira de Ciências Criminais. A ilusão de segurança jurídica: do controle da violência à violência do controle penal. ARCARY. 2005. São Paulo: Companhia das Letras. Responsabilidade e julgamento. Porto Alegre: Livraria do Advogado. São Paulo: Cia das Letras: 1989. Poleti. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. pp. _________. ANTUNES. Estado de Exceção. _________. Tradução de Mauro W. 2a ed. Valério. São Paulo: Perspectiva. 562 p. 1999. 1996. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. 276-287. 2002. Tradução José Rubens Siqueira. Campinas: Universidade Estadual de Campinas. Barbosa de Almeida. 1996. 4a ed. São Paulo: Companhia das letras. Vera Regina Pereira de. 2004. _________. 118 p. 142 p. 147-160. São Paulo: Boitempo. ANDRADE. Hannah.7 Bibliografia Geral AGAMBEN. _________. Tradução de Rosaura Einchengerg.

poder e as origens de nosso tempo. direito e sociedade. 1987. jul. Tradução por Juarez Cirino dos Santos. (Boletim do Ministério da Justiça). Alessandro. 1999. jul. Viena. 393 p. Observaciones sobre las funciones de la cárcel em la producción de la relaciones sociales de desigualdad. 4a reimpressão. 150 p. / mar. Nuevo Foro Penal. Criminología y dogmática penal: pasado y futuro del modelo integral de la ciencia penal. 2003. Vera. Al. BATISTA.. 737-749. Bogotá. 1998. 145 – 166. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal: Introdução à sociologia do direito penal. Documentação e Direito Comparado. 28-63. Giovanni. Tradução de Marcus Penchel. Zygmunt. 1996. 1999. __________. pp. buenos Aires./set. 1983 b. Tradução de Vera Ribeiro. 145 p. 1983 a. (s. Difíceis ganhos fáceis: drogas e juventude pobre no Rio de Janeiro. no 40. Dinheiro. Relatório apresentado no IX Congresso Internacional de Criminologia. 77 – 94) MALAGUTI BATISTA. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 737-749. Globalização: as conseqüências humanas. no 15. BARATTA. 1982.. BAUMAN. 2a ed.257 ARRIGUI./set. 2a ed. Rio de Janeiro: Freitas Basto e Instituto Carioca de Criminologia. BARATTA. 1998. Política criminal y reforma del derecho penal. Rio de Janeiro: Revan.). pp. Bogotá: Temis. Doctrina Penal. 272 p. no 29. pp. Observaciones sobre las funciones de la cárcel em la producción de la relaciones sociales de desigualdad. Principios del derecho penal mínimo. Rio de Janeiro: Contraponto. __________. 623 – 650. Sobre a Criminologia crítica e sua função na Política Criminal. no 13. Integración-prevención: una “nueva” fundamentación de la pena dentro de la teoría sistémica. Revisão de tradução de César Benjamin. Santiago et. O mal-estar da pós-modernidade. __________. Lisboa. Bogotá.n. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Rio de Janeiro: Revan. pp. 1985. Tradução de Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama. . Nuevo Foro Penal. 256 p. nos 5 e 6. p. p. __________. 1983. Para una teoría de los derechos humanos como objeto y limite de la ley penal. Doctrina Penal: Buenos Aires. no 15. _________. O longo século XX.. Nilo. separata. pp. In: Discursos Sediciosos: crime. In: MIR PUIG. 3 – 26 ene. Alessandro. Política criminal com derramamento de sangue. __________. setembro de 1983 c. São Paulo: UNESP.

Office of Justice Programs. 202 p. Quatro ensaios sobre a liberdade. Lei no 9. Privatização no Brasil: 1990-1994 e 1995-2002. de 11 de julho de 1984 (Lei de Execução Penal). Tradução de Marcus Penchel. 1992. 217 p.gov/bjs/pandp. Em busca da política. __________. 1981. __________. nos termos do art. Disponível em: http://www. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Diário Oficial da união no 191-A. 2002.210. Indústria e Comércio Exterior. Brasília. de 07 de dezembro de 1940. Norberto. Brasília.htm. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. __________. Coleção Pensamento Político. Constituição da República Federativa do Brasil.ojp. Thomas Hobbes. _________. 205 p. Lei no 7. Brasília: Ministério do Desenvolvimento. de 25 de julho de 1990.bndes. 1999 a.258 _________. Estudos sobre a humanidade: uma antologia de ensaios. Tradução de Rosaura Eichenberg. Brasília: UnB. 13 de julho de 1984. de 26 de setembro de 1995. de 05 de outubro de 1988. Dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais e dá outras providências. 717 p. US Departmente of Justice . Tradução Marcus Penchel. Dispõe sobre os crimes hediondos. _________.gov. Julho de 2002. Rio de janeiro: Campus.pdf. 1991. Lei no 8. 39. Acesso em 20 de março de 2007 BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento.usdoj. 334 p. e determina outras providências. A era dos direitos. inciso XLIII. Brasília. __________. Disponível em http://www. Tradução de Wamberto Hudson Ferreira. BERLIN. 50.br/conhecimento/publicacoes/catalogo/Priv_Gov. BRASIL. Diário Oficial da União. Acesso em: 15 de março de 2007 BOBBIO. 25 de junho de 1990. Código Penal. São Paulo: Companhia da Letras. Modernidade e ambivalência. 31 de dezembro de 1940. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. 2000. 213 p. Publicada no Diário Oficial da União em 26 de setembro de 1995 BUREAU OF JUSTICE STATISTICS.099. Isaiah. _________. Rio de Janeiro: Campus. Diário Oficial da União. Decreto-lei no 2. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. .848. da Constituição Federal. Diário Oficial da União.072.

et alli. Rio de Janeiro: Forense. Marilena. geral João Ferreira e Luís Guerreiro Pinto Caçais. A criminologia da repressão. 1 e 2. 2002. Universidade Federal da Bahia. direito e sociedade. Caderno Cotidiano. Tradução de Luis Leiria. Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. 440 p. ano 1. Instituto Carioca de Criminologia. São Paulo: Ática. 1996. Gianfranco. Além das grades: uma análise comparada das modalidades de gestão do sistema prisional. Varriale. 230 p. Nils. Dicionário de Política. São Paulo. Convite à filosofia. A indústria do controle do crime: a caminho dos GULAGs em estilo ocidental. Doutorado. CHESNAIS. 18 out. 1330 p. Uma nova fase do capitalismo? Tradução Andréia Galvão e José Marcos Nayme Novelli. CABRAL. Sobre a democracia. A ‘nova economia’: uma conjuntura própria à potência econômica estadunidense. Curitiba: ICPC. Censo Penitenciário de 2002. Censo Penitenciário de 1995. Lílian e MAGALHÃES. Brasília: Ministério da Justiça. 1999. Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Francois. Tradução de Carmem C. pp. 87 – 93. CHRISTOFOLETTI. São Paulo: Xamã. CIRINO DOS SANTOS.. Juarez. 12a ed. Gisálio e NEDER. Favelização e impotência. 2001. 1996. Rio de Janeiro: Forense. Policiais relatam métodos de tortura e assassinato ‘autorizado’ de suspeitos. v. trad. . Quando o eu é um outro. Sandro. Folha de São Paulo. Coord. Tradução de Silvana Finzi Foá. 1979. 227 p. CELESTINO. DALL. 1998. Lumen Juris.. Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. 1998. Brasília: Ministério da Justiça. Helena. João Ferreira. Teoria da pena: fundamentos da pena e aplicação judicial. Caderno “O País”. Gizlane. et. A mundialização do capital. MATTEUCCI. Brasília: UnB. Mário. 2004. François. Tradução de Beatriz Sidou. pp. 335 p.). Brasília: Ministério da Justiça. 1996. 2005 CHAUÍ. Brasília: UnB. Rev. 2006. In: Discursos sediciosos: crime. CHRISTIE. Censo Penitenciário de 1997. al. no 02. 2003. pp 43-70. 03 CERQUEIRA FILHO. Salvador. O Globo. 1 e 3. São Paulo: Xamã. 1996. In: CHESNAIS. 7a ed. Nicola e PASQUINO. Rio de Janeiro. Robert A. _________.259 _________ (org. 2003. 01 mai. p. _________.

1992.fenavist. 232 p. Um mundo sem transgressão: In: Transgressões.01. 26 out 2003. DEPARTAMENTO PENITENCIÁRIO NACIONAL (Depen). São Paulo: Xamã.org. Rio de Janeiro: Lumen Juris. Florianópolis. 2002. SOUZA. Disponível em: http://www. Marx: lógica e política.pdf . Conflitos e Segurança: entre pombos e falcões. pp 15-41. João Ricardo Wanderley. Conversações. Tradução de Selvino J. 01 fl. Dany-Robert. ENRIQUEZ. DE GIORGI. Confira os números da segurança privada.br/depen/sistema/2006_junho. 2001. Fred. Uma nova condição humana: os extravios do indivíduo-sujeito. FAUSTO. Francois. Le Monde Diplomatique/Il Manifesto. Brasília: Ministério da Justiça/Depen. DELEUZE. São Paulo: 34.). 2001. Il governo dell'eccedenza. Empresas de vigilância no sistema de prestação de serviços de segurança patrimonial privada: uma avaliação da estrutura de governança. Ruy. Fevereiro de 2001. Doutorado. 141 p. Gilles. Investigações para uma reconstituição do sentido da dialética. DORNELLES. 1987. 222 p. Eugene. Superação da crise. Plastino (Organizador). DALLMAYR. Alessandro. Paris. Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores. São Paulo: Brasiliense. Brasília: UnB. Jessé (org.ilmanifesto. Postfordismo e controllo della moltitudine. 331 p. Gli smarrimente dell’individuo-soggetto”. 480 p. 2004. Dominique.br/site/internas. Piracicaba. 2003. Universidade de São Paulo. Gérard e Lévy.asp?area=874&id=19. Uma nova fase do capitalismo? Tradução Andréia Galvão e José Marcos Nayme Novelli. 230 p. Versão italiana: “Una nuova condizione umana. Tradução de Beatriz Sidou. ameaças de crises e novo capitalismo. Assmann. In: Democracia hoje: novos desafios para a teoria democrática contemporânea. Verona: Ombre Corte (Cartografie). 2007 FORTES DE OLIVEIRA. Le Monde Diplomatique.mj. in: CHESNAIS. Carlos A. Acesso em: 07 mar 2007. Encarte Especial sobre violência. Tradução de Peter Pál Pelbart. Brasília: UnB. Robert A. Para além da democracia fugidia: algumas reflexões modernas e pós-modernas.it/MondeDiplo/LeMonde-archivio/febbraio-2001/01021m22.gov. Aryeverton.html) DUMÉNIL. http://www. Diário Catarinense. Fevereiro de 2001 (http://www. Sobre a democracia. Rio de Janeiro. Contra-capa. 2006. Dados estatísticos da população carcerária em 2006. . DUFOUR. 2003. Acesso em 23 mar. et alli. 2002.260 DALL.

José Maria. Microfísica do poder. Trad. Petrópolis: Vozes. Otávio de Aguiar Abreu. _________. 382 p. 2000. São Paulo: Perspectiva. Marta.261 FOUCAULT. 7a ed. . Totem e tabu. 3a ed. Rio de Janeiro: Imago. 1987. Tradução de Maria Emantina Galvão. O Estado-Nação e a violência: segundo volume de uma crítica contemporânea ao materialismo histórico. Roberto Machado. 2001. GOMÉZ. FREUD. 1987. GIDDENS. Jayme Salomão. 7 ed. 456 p. Império. Rio de Janeiro: Imago. Michael e NEGRI. Rio de Janeiro: Record. Psicologia das massas e análise do eu. 2004. _________. 2005. _________. Antonio. Trad. História da Loucura: na idade clássica. Rio de Janeiro: Record. _________. O mal-estar na civilização. Tradução Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves. 1996. 1987. 551 p.. Rio de Janeiro: Imago. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Graal. Trad. Sobre o narcisismo – uma introdução. 188 p. Tradução de José Colaço Barreiros. São Paulo: Loyola. Política e democracia em tempos de globalização. 6a ed. Sigmund. Michel. Tradução de José Teixeira Coelho. 1987. 201 p. O futuro de uma ilusão. O novo imperialismo. Jayme Salomão. 14a ed. Rio de Janeiro: Imago. _________. 2004. Tradução de Berilo Vargas. São Paulo: Edusp. _________. 2002b. Trad. São Paulo: Paz e Terra. HARDT. São Paulo: Martins Fontes. 1988. David. Tradução de Roberto Cabral de Melo Machado e Eduardo Jardim Morais). HARVEY. _________. 158 p. Trad. 2000. A verdade e as formas jurídicas. 1987. Tradução de Beatriz Guimarães. Trad. 2003. _________. 2002. 374 p. 501 p. Otávio Aguiar Abreu. Multidão: Guerra e democracia na era do Império. Vigiar e Punir: História da violência nas prisões. Órizon Carneiro Muniz. Anthony. 277 p. 530 p. _________. Rio de Janeiro: Imago. Rio de Janeiro: Nau. 295 p.. Petrópolis: Vozes. Em defesa da sociedade: curso do Collège de France (1975 – 1976). Tornar possível o impossível: a esquerda no limiar do século XXI. HARNECKER.

464 p. 2002 (ESTUDOS E PESQUISAS nº 26). In: As multidões e o império: entre globalização da guerra e universalização dos direitos. John Maynard. Para uma crítica da categoria de totalitarismo. Eric J. LOSURDO. Ed. 2002a. A era das revoluções: 1789-1848. Acesso em: 18 fev 2007. O homem máquina: a ciência manipula o corpo. Leviatã ou matéria. Disponível em . Antônio Cavalcanti. Rio de Janeiro: Renovar. 546 p. 2002. Tradução de Mário R. Organizador Adauto Novaes. 2003. São Paulo: Abril. A (des)ordem mundial. São Paulo: Cia das Letras. 1984 MAIA. Coleção Política das Multidões. André Lipo Pinto Basto. HOBBES. A acumulação do capital.Tradução de Marcos Santarrita. Rosa. Volume II. 392 p MARAZZI. dezembro de 2001. _________. 1992. 2004. Cristian. A crise da new economy e o trabalho das multidões. LUXEMBURGO. Giuseppe Cocco e Graciela Hopstein (orgs. São Paulo: Loyola. A era dos extremos: o breve século XX – 1914-1991. 598 p.pdf. São Paulo: Atlas.). A teoria geral do emprego. o fenômeno dos terrorismos e as instituições democráticas. 1998. 93 – 134. 328 p. 2. 2003. MARTINS.262 _________. 2003. São Paulo: Martins Fontes. Dicionário Eletrônico Houaiss da língua portuguesa. HOBSBAWM. versão 1. 349 p. Rio de Janeiro: Paz e Terra. forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. pp. São Paulo: Martins Fontes. 51-79 LUPI. Rio de Janeiro: INAE . XIV Fórum Nacional.br/publi/ep/EP0026.Instituto Nacional de Altos Estudos. p. Tradução de João Paulo Monteiro.0. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Rio de Janeiro: Revan. Produzido e distribuído por Editora Objetiva Ltda. Uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Antônio.).inae. _________. pp. Condição Pós-moderna. 2003. Cláudia Berliner.org. Rio de Janeiro: DP&A. Do cidadão. pp. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Companhia das Letras. Thomas. Tradução de Maria Tereza Lopes Teixeira e Marcos Penchel. Antônio Carlos (org. Luciano. 16a ed. Domenico. 16 http://www. In: Crítica Marxista no 17. In: Introdução à história do pensamento político. da Cruz. _________. Organizado por Richard Tuck. Maria Beatriz Nizza da Silva. Tradução de Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo. 2002b. HOUAISS. 2003. 615 p. Wolkmer. 31 – 42. A era dos impérios: 1875 – 1914. Uma abordagem contextualizada da teoria política de Thomas Hobbes. 7a ed. KEYNES. Tradução de Maryse Farhi. do juro e da moeda. Tradução de Renato Jeanine Ribeiro.

Tradução de Reginaldo Sant’Anna. Democracia.. 2002.. São Paulo: Boitempo. São Paulo: Boitempo. _________. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 389 p. O poder da ideologia. Massimo. Leonarda. MINHOTO. 566 p. São Paulo: Martins Fontes. pp. Margem esquerda – ensaios marxistas no 4. Gizlane. _________. MELMAN. . no 1. MELOSSI. MUSUMECI. violência e injustiça: o não Estado de Direito na América Latina. MÉSZÁROS. Juan E. Privatização de presídios e criminalidade: a gestão da violência no capitalismo global. MELOSSI. 211 p.. Contribuição à crítica da economia política. 262 p. Marildo. O’DONNELL. 405 p. A questão penal em O Capital. traduzido por Otacílio Nunes). São Paulo: Max Limonad.. MARX. 2000. O capital: crítica da economia política. Tradução de Maria Helena Barreiro Alves. Tradução de Paulo Cezar Castenheira. 1998. Guillermo e PINHEIRO. Carlos Eduardo. O homem sem gravidade: gozar a qualquer preço. 2v. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 2004. Rio de janeiro: Companhia de Freud.). 2003. (Texto para discussão n. Rio de Janeiro: Cadernos do Ceuep. Rumo a uma teoria da transição. PAVARINI. 2003. São Paulo: Boitempo. István. Tradução de Paulo César Castanheira e Sérgio Lessa. 116 p. 3a ed. Entrevistas por Jean-Pierre Lebrun. 2003a. Depois do fim do mundo: a crise da modernidade e a barbárie. São Paulo: Paz e Terra. In: MÉNDEZ. Tradução de Xavier Massii. Charles. 1987. NEDER. 77-96. Dario. In: Margem esquerda: ensaios marxistas no 6.: 966 p. São Paulo: Boitempo. 19a ed. 2000. 1102 p. Para além do capital. 124-140. Serviços privados de vigilância e guarda no Brasil: um estudo a partir de informações da PNAD — 1985/95. México: Siglo Veintiuno. 1993. O’DONNELL. Cárcel y fábrica: los orígenes del sistema penitenciario (siglos XIV-XIX). O processo de produção do capital. 78p. Karl.263 MARTINS. Laurindo Dias. Guillermo. MENGAT. Em nome de Tânatos – aspectos do sistema penitenciário no Brasil. pp. Paulo Sérgio (orgs. 2003b. 214 p.Tradução de Ana Luiza Pinheiro (com exceção do capítulo de autoria de Guillermo O’Donnell. 2004. Dario. _________. Tradução de Sandra Regina Felgueiras. São Paulo: Boitempo e UNICAMP. Os ciclos longos e a conjuntura contemporânea. Rio de Janeiro: MICT/IPEA/Anpec. Poliarquias e a (in)efetividade da lei na América Latina: uma conclusão parcial. O século XXI: socialismo ou barbárie? Tradução de Paulo Cezar Castenheira. 2003.º 560). 2005.

2001. RUSCHE. Paulo. 2000. Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Renato Janine. 231 p. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. POULANTZAS. O discurso de legitimação racional do poder moralizador e repressivo: uma análise dos fundamentos do Estado moderno da filosofia política de Thomas Hobbes. Petrópolis: Vozes. REICH. revisão técnica e nota introdutória por Gizlene Neder. Contra-Capa: Rio de Janeiro. 5. 77 p. 1985. 2003. 157 p. São Leopoldo: Unisinos. SANTOS. São Paulo: Paz e Terra. Os dispositivos de pode da sociedade de controle e seus modos de subjetivação. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. 1999. Belo Horizonte: Del Rey. 61 – 98. Débora Regina. RIBEIRO. Rio de Janeiro: Renovar. 280 p. PASUKANIS. São Paulo: Método. Punição e estrutura social. Otto. Biblioteca de Ciências Sociais. Os direitos do antivalor. 274 p. O primado da afetividade. v. Tradução. Rio de Janeiro: Record. 435 p. O Estado. apresentação e notas de Paulo Bessa. o socialismo. RUIZ. Francisco de. In: Filosofia Unisinos. 4a ed.264 OLIVEIRA. Porto Alegre: Escritos. Tradução de Fanny Wrobel. 251 p. série Política. Os labirintos do poder: o poder (do) simbólico e os modos de subjetivação. Norbert. KIRCHHERIMER. 272 p. PASTANA. 2003. 9.. Mercado y Derecho: Teoría e praxis del derecho económico en la República Federal Alemana. 2004 b. Crítica à razão dualista. o poder. Tradução de Rita Lima. 150p. 2004. 2001. 167 fls. 2002. 1998. 349 p. Carlos. 905 p. A grande transformação: as origens da nossa época. Castor M. 2000. 1989 PLASTINO. no 19. __________. 1978. . Rogério Dultra dos. 2000. 7a ed. São Paulo: Ática. Rio de Janeiro: Campus. Bartolomé. SANDRONI. Cultura do medo: reflexões sobre a violência criminal. A teoria geral do Direito e o marxismo.. M. PHILIPPI. CPGD UFSC – Florianópolis. pp. A lei: uma abordagem a partir da leitura cruzada entre direito e psicanálise. A critica freudiana ao paradigma moderno. controle social e cidadania no Brasil. POLANYI. _________. Transgressões. Relume-Dumará: Rio de Janeiro. Tradução. n. Coleção Pensamiento Criminológico no 3. 2005. Evgeny Bronislanovich. A marca do Leviatã: linguagem e poder em Hobbes. Nicos. Jeanine Nicolazzi. Dicionário de Economia do século XXI. __________. Barcelona: Ariel. A economia política da hegemonia imperfeita. São Paulo: Boitempo. Dissertação de Mestrado. Karl. Georg.

Leo. Direito e Sociedade. et alli.R.br/Depen/publicacoes/nagashi_furukawa. Os condenados da cidade: estudos sobre marginalidade avançada. Porto Alegre: Sérgio A. no 4. Rio de Janeiro: Instituto Carioca de Criminologia: Freitas Bastos. 2a ed. Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos. 3162 RDS (USA PATRIOT ACT). Rio de janeiro: Revan. Queiroz. (Maquiavel. _________. in: BOITO JR. São Paulo: Cortez. sob a coordenação do Professor Reginaldo de Souza Vieira. dezembro de 2006. de Souza (organizadoras). Disponível em: http://www. O social e o político na pós-modernidade. __________. 347 p. Política e Direito. 204 p. In: Electronic Privacy Information Center. 9 p. SECRETARIA DE ADMINISTRAÇÃO PENITENCIÁRIA (SAP). São Paulo: SAP. Textos. Algumas notas sobre o RDD e as políticas públicas de exceção no Brasil. As prisões da miséria.justica.. Montesquieu. H. Locke. Loïc. Hobbes. v. 1989.265 _________. _________. Coimbra.pdf. 2001. Tradução de João Roberto Martins Filho et al. Célia Galvão e Maria Teresa Sadek R. pp. O capital e suas formas de produção de mercadorias: rumo ao fim da economia política. Série 2a. 1988. Disponível em http://www. FASE. pp. Tradução de André Telles. Acesso em: 18 fev 2007. STRAUSS. São Paulo: Xamã. 2000. 157 p. Pela mão de Alice. WACQUANT. TEIXEIRA. SENATE OF THE UNITED STATES. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Quirino. 2. Os Direitos Humanos na pós-modernidade.epic. UNESC – Universidade do Extremo Sul Catarinense. Acesso em 18 fev 2007. 2005. Boaventura et al. 205-230. 20 fls. Acesso em: 18 fev 2007.gov. [2003]. to enhance law enforcement investigatory tools.iuperj. SOUZA SANTOS.br/PDF/06novembro/rdd. 174 p. _________. São Paulo: T. Francisco José Soares. O discurso e o poder: ensaio sobre a sociologia da retórica jurídica. Rio de Janeiro: Boletim CEDES/IUPERJ. Projeto de pesquisa apresentado pelo NUPED – Núcleo de Estudos em Estado.(vários organizadores). Dispõe sobre “To deter and punish terrorist acts in the United States and around the world. 2a ed. 1996. 1980. O pensamento político clássico. março.pdf.org/privacy/terrorism/hr3162. Armando. and for other purposes”. Fabris. problemas e interpretações. 49 a 129. A obra teórica de Marx: atualidade. Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). pp.html. 2001a. 3 – 12. Rousseau). Disponível em http://cedes.. .

shtml. Jornal “O Globo” (jornal impresso) . 2001. 3.com. Aristóteles e a política.5% apóiam redução da maioridade.uol. WOOD. Ellen Meiksins. Acessado em 04 de abril de 2007 Pentágono aceitará depoimentos obtidos sob coação em Guantánamo.shtml. Disponível em http://oglobo. Caderno Mundo de 11 jan. Caderno Mundo de 18 de janeiro de 2007. Caderno Mundo.266 WOLFF. Tradução de Thereza Christina Ferreira Stummer e Lygia Araújo Watanabe.asp. 261 p. Acessado em 11 de abril de 2007.globo. Caderno País. 156 p.br/folha/mundo/ult94u106105. Bem vindo ao deserto do real!: cinco ensaios sobre o 11 de Setembro e datas relacionadas. Periódicos consultados 1. 2007. São Paulo: boitempo. Disponível em http://www1. 2a ed. Disponível em http://www1. ZIZEK. Folha de São Paulo on line (jornal virtual) Prisão de Guantánamo completa cinco anos em meio a protestos.uol.com/pais/mat/2007/04/10/295296751.folha. Agência EFE. Agência Folha Online.shtml.folha.br/folha/mundo/ult94u103906.com. São Paulo. São Paulo: Boitempo. Democracia contra o capitalismo: a renovação do materialismo histórico. Agência France Presse de 04 de abril de 2007.br/folha/mundo/ult94u103691. Acessado em 04 de abril de 2007. Disponível em http://www1. 2003. 2003. Discurso Editorial. Slavoj.folha.com.uol. Acessado em 04 de abril de 2007 EUA impedem presos de Guantánamo de apelar em tribunais federais. 2. 191 p. Jornal O Globo Online (jornal virtual) CNT/Sensus: 81. Francis. Tradução de Paulo Cezar Castanheira. Reportagem de Ilimar Franco de 11 de abril de 2007.

consultado em 20 de abril de 2007. Helena. às 16:45 hs. Web site http://www.br/modules/news/article. consultado em 20 de abril de 2007.br/programas/transferencia-de-renda/programa-bolsa-familia. p. Web site http://www. às 17:10 hs. 2004.estadao. consultado em 24 de abril de 2007.org.gov.br. Favelização e impotência.asp. às 19:28 hs .com. às 17:07 hs.gov. Rio de Janeiro.org/wiki/Wikipedia:Direitos_de_autor. 03 Sites consultados Web site: http://pt.php?storyid=23.mds. consultado em 02 de maio de 2007. Web site site http://www. às 15:37 hs Web site http://www.br/Cidadao/produtos/asp/bolsa_escola. consultado em 26 de abril de 2007.link.caixa.abinee.cfm?id_conteudo=6206. consultado em 20 de março de 2007 às 08:50 hs.guiadocftv. às 15:50 hs Web site http://www.br/index. Web site site http://www.org/ch8/ch8.wikipedia. Caderno “O País”.267 CELESTINO. consultado em 26 de abril de 2007. 01 mai. O Globo.yearbook2005.com.sipri.

br ) Milhares de Livros para Download: Baixar livros de Administração Baixar livros de Agronomia Baixar livros de Arquitetura Baixar livros de Artes Baixar livros de Astronomia Baixar livros de Biologia Geral Baixar livros de Ciência da Computação Baixar livros de Ciência da Informação Baixar livros de Ciência Política Baixar livros de Ciências da Saúde Baixar livros de Comunicação Baixar livros do Conselho Nacional de Educação .Trânsito Baixar livros de Educação Física Baixar livros de Engenharia Aeroespacial Baixar livros de Farmácia Baixar livros de Filosofia Baixar livros de Física Baixar livros de Geociências Baixar livros de Geografia Baixar livros de História Baixar livros de Línguas .Livros Grátis ( http://www.CNE Baixar livros de Defesa civil Baixar livros de Direito Baixar livros de Direitos humanos Baixar livros de Economia Baixar livros de Economia Doméstica Baixar livros de Educação Baixar livros de Educação .com.livrosgratis.

Baixar livros de Literatura Baixar livros de Literatura de Cordel Baixar livros de Literatura Infantil Baixar livros de Matemática Baixar livros de Medicina Baixar livros de Medicina Veterinária Baixar livros de Meio Ambiente Baixar livros de Meteorologia Baixar Monografias e TCC Baixar livros Multidisciplinar Baixar livros de Música Baixar livros de Psicologia Baixar livros de Química Baixar livros de Saúde Coletiva Baixar livros de Serviço Social Baixar livros de Sociologia Baixar livros de Teologia Baixar livros de Trabalho Baixar livros de Turismo .