“‘Homenagem a Roberto Arlt’ ou a literatura como plágio”

“‘Luba’ omite as histórias do primeiro e último capítulos do original; começa onde o faz
o segundo capítulo de ‘Las tinieblas’ e se detém no penúltimo para dar um salto até o
final. Se em Andreiev o anarquista é detido pela polícia no prostíbulo, aqui conseguirá
sair à rua, junto com Luba, antes do amanhecer. A nova versão tem dezenas de
alterações (algumas tão importantes como a ‘argentinização’ do léxico, a supressão de
muitas cenas ou a passagem dos tempos verbais do pretérito para o presente), mas segue
de perto o seu modelo. Não somente a história é quase a mesma; também o nome da
protagonista (e, por extensão, do conto) foi retirado do personagem de Andreiev, e
longuíssimas passagens são similares às da tradução espanhola. O relato de andreiev,
escrito em 1902, foi publicado pela primeira vez em espanhol em 1920. Chama a
atenção que podemos encontrar em ‘Luba’, ainda que saibamos que se trata de um
plágio, certos tópicos característicos da narrativa de Arlt. [...] É evidente que Piglia
tomou ‘Las tinieblas’ como modelo de ‘Luba’ porque reconheceu no conto muitos
pontos de contato com a literatura de Arlt. [...] Me parece óbvio também que Piglia
escolhe em Andreiev aquilo que lhe convém, o que possa parecer arltiano. O capítulo 1
de ‘Las tinieblas’, totalmente omitido em ‘Luba’, tem uma cena que deveria interessar a
Piglia de maneira especial. Em ‘La cita privada’, Piglia destaca a surpreendente relação
entre uma vivência de Nietzsche e outra de Raskolnikov. O filósofo revive uma imagem
lida em Crime e Castigo. Curioso é que essas experiências, a de Nietzsche, a de
Raskolnikov, são reproduzidas com bastante exatidão na mencionada cena de ‘Las
tinieblas’1. Pode parecer estranho, consequentemente, que Piglia não aproveite essa cena
ao reelaborar ‘Luba’. A razão reside, creio eu, na função espacial (e em sua conotação
ideológica). Se o primeiro capítulo de ‘Las tinibelas’ se desenvolve em espaços abertos,
a partir do segundo a ação transcorrerá em um prostíbulo e, sobretudo, em um quarto.
Transita-se, portanto, de espaços abertos para espaços fechados. Ao contrário, em
‘Luba’ a ação começa no prostíbulo e se abre, ao final, até a rua. Piglia realiza uma
leitura otimista diferente à de Andreiev ou inclusive à qual talvez tivesse feito o próprio
Arlt.”(p. 116-118)
“Até onde sei, Arlt nunca fez alusão a “Las tinieblas”; é provável que nem tenha
chegado a conhecer o conto. Isso facilita a manipulação que se faz desse em
“Homenaje...”. De qualquer maneira, fica claro que a escolha de Andreiev como objeto
do plágio, está longe de ser gratuita. O mais importante é que Piglia arma todo esse jogo
porque vê relações profundas entre os dois autores, porque nota que da conjunção deles
pode sair algo novo [...]” (p. 119)

1 “Uma vez, durante um ato terrorista, ao qual havia assistido como lançador de bobas na
reserva, viu um cavalo morto pela explosão, com as ancas desgarradas e os intestinos para fora;
e este pequeno detalhe terrível e repugnante, ao mesmo tempo inútil e inevitável, lhe causou
uma impressão ainda mais penosa que a morte de seu camarada, morto pela mesmo bomba.”
Las tinieblas y otros cuentos, p. 9.

inconscientemente.’ Piglia intui.] Piglia lê Andreiev como um precursor de Arlt.. entretanto.] ‘Homenaje.]” (p. seria possível dizer que Piglia teoriza sobre o valor da paródia. as diferenças entre Sarmiento e alguns de seus sucessores.” (p. Para ele.. antes que apareça explicitamente em outros textos. o anarquista. muito antes.“A falsificação e o plágio supõem a apropriação de algo originalmente alheio. no sentido em que o texto o faz. e reciprocamente. Sarmiento – como foi dito mais de uma vez – tenta legitimar seu discurso mediante a apropriação da voz dos ‘civilizados’. são articulados elementos do discurso marxista que legitimam aqueles que não têm nenhuma propriedade. Grosso modo. Em várias ocasiões – e já .. É óbvio que ‘Homenaje a Roberto Arlt’ se insere de maneira coerente nessa tradição iniciada por Sarmiento. Mas há mais: a falsificação máxima que ela exerce – e veremos isso mais adiante – está em seu próprio nome. mas ‘escreve mal esse saber que ao mesmo tempo exalta’...] Em ‘Luba’ reaparecem alguns desses elementos. Do mesmo modo.. coloca em primeiro plano as noções de valor de uso e valor de troca.” (p. 134) “[.” (p. narrador e herói. sem que soe forçado. contra a propriedade intelectual. uma ficção. De qualquer maneira. a colocação em prática de uma teoria que só emergirá como tal vários anos depois. tenha se apoiado de maneira inequívoca no plágio e na citação falsa.. entre outras coisas. [. é a síntese de fatos verídicos.’ é. essa ideia de que uma parte importante da literatura argentina. Sarmiento inaugura. até o ponto em que pode intercambiar os autores sem que se note. 129) “Em ‘Homenaje. os grandes nomes de tal literatura se formaram sobre essa base. longe de ver na arte e na literatura somente a função ‘estética’.] o próprio narrador.” (p. Em ‘Homenaje a Roberto Arlt’. significa validar o direito à apropriação literária como o próprio fundamento da criação. como o uso das máscaras (que estavam no original de Andreiev) e do dinheiro falso (que é introduzido por Piglia). graças a sua vida dupla. chamado (não por acaso) de Ricardo Piglia. finge ser ‘uma mulher honrada’. Nele se produz essa identidade entre autor..” (p... o tema da propriedade tem uma importância especial dentro do texto. 128-129) “[. 133) “Não se deve esquecer. Nele. desde Sarmiento até hoje. a ocultar seus verdadeiros sentimentos como se fosse um ator no cenário de um teatro’. finge ser ‘um experiente homem do mundo’. [. o mais importante..’. Por isso. 127) “Lutar. Ela.. uma tradição que Piglia considera essencial. que caracteriza a autobiografia. a realidade é falsificada para se obter uma realidade inédita. A recorrência ao anarquismo (que é uma constante em Arlt e. em Andreiev) é a recorrência a uma ideologia que luta contra a propriedade.. utilizando o recurso extremo – e punível – do plágio. ele. ou seja. ‘Homenaje.. a história dessa tendência é em boa medida a própria história da literatura nacional. [.. era moeda corrente no século XIX citar de memória. 133) “6. a prostituta. não acredito que exista a vontade de falsificar. Quanto ao primeiro.. está nos dois personagens protagonistas. enquanto ele encontra-se ‘habituado.