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Ódio à inteligência: sobre o anti­intelectualismo
 
Marcia Tiburi e Rubens Casara
 
Os preconceitos não são inúteis. Eles tem uma função importantíssima na economia psíquica
do preconceituoso. Sem os preconceitos, a vida do preconceituoso seria insuportável. Os
preconceitos servem na prática para favorecer uns e desfavorecer outros, para confirmar
certezas incontrastáveis, manter a ordem e descontextualizar os fenômenos. São parte
fundamental dos jogos de dominação e de poder, servem para mistificar, para manipular, mas
servem sobretudo para sustentar um ideal falso na pessoa do preconceituoso, ideal acerca de si
mesmo, um ideal de “superioridade”, sem o qual os preconceitos seriam eliminados porque
perderiam, aí sim, a sua função fundante.
Ainda que sejam psicológicos e não lógicos, daí a aparência de irracionalidade, os preconceitos
funcionam a partir de uma lógica binária, bem simples, uma espécie de “lógica da identidade”,
mas em um sentido muito elementar, a lógica da medida que reduz tudo, seja a vida, as
culturas, as sociedades, as pessoas, ao parâmetro “superior­inferior”. Preconceitos não
funcionam fora de jogos de linguagem que são jogos psíquicos, que produzem algum tipo de
compensação psíquica.
Vivemos tempos de descompensação emocional profunda, em uma espécie de vazio afetivo
(junto com um vazio do pensamento e um vazio da ação que se resolve em consumismo
acrítico tanto de ideias quanto de mercadorias). Nesses tempos, a oferta de preconceitos se
torna imensa. No sistema de preconceitos, o objeto do preconceito varia, conforme uma
estranha oferta: se há muitos judeus, pode­se dirigir o ódio, que é o afeto básico do
preconceito, contra eles. Se há mulheres, homossexuais, negros, indígenas, lésbicas ou travestis,
o ódio será lançado sobre eles, conforme haja oportunidade. Verdade que o ódio é sempre
dirigido àquele que ameaça, ou seja, no fundo do ódio há muito medo. O preconceituoso é, na
verdade, em um sentido um pouco mais profundo, alguém que tem muito medo, mas em vez
de enfrentar seu medo com coragem, ele usa a covardia, justamente porque é impotente para
enfrentar seu próprio medo.
O preconceituoso é, basicamente, um covarde.

Marcia Tiburi é filósofa
Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre
e doutora em filosofia. Publicou diversos livros de
filosofia, entre eles “As Mulheres e a Filosofia” (Ed.
Unisinos, 2002), Filosofia Cinza – a melancolia e o
corpo nas dobras da escrita (Escritos, 2004);
“Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero” (EDUNISC,
2008), “Filosofia em Comum” (Ed. Record, 2008),
“Filosofia Brincante” (Record, 2010), “Olho de Vidro”
(Record 2011), “Filosofia Pop” (Ed. Bregantini, 2011) e
Sociedade Fissurada (Record, 2013). Publicou também
romances: Magnólia (2005), A Mulher de Costas
(2006) e O Manto (2009), Era meu esse Rosto (Record,
2012). É autora ainda dos livros Diálogo/desenho,
Diálogo/dança, Diálogo/Fotografia e Diálogo/Cinema
(ed. SENAC­SP).
É professora do programa de pós­graduação em
Educação, Arte e História da Cultura da Universidade
Mackenzie e colunista da revista Cult.

EDIÇÃO  217

 esse ódio é velado. é de que por ser professor não falaria “a linguagem do povo”). e de “ignorância populista”. onde desaparece o saber e a educação. um saber capaz de desmistificar. como resposta aos mais variados problemas sociais. não causa surpresa que a lógica do pensamento passa a trabalhar com categorias pré­modernas como o “messianismo” e a “peste”.) do ensino médio (MP 746) à expressiva votação de candidatos que apostam no uso da força. as leis e a própria Constituição da República. em sua extensão. nem corajosos.EDIÇÕES ANTERIORES Henry Darger   Tendo isso em vista. Diversos exemplos de anti­intelectualismo podem ser observados na sociedade brasileira. em suas formas e em suas causas. contra o qual só Deus ou pessoas iluminadas podem resolver. à ciência. fenômenos típicos de um conservadorismos carente de reflexão. é importante falar de um preconceito que está em voga nesse momento: o anti­intelectualismo. não raro. Desde a caricata presença do ator Alexandre Frota (menos pelo que ele é. Home > Blog Marcia Tiburi > Ódio à inteligência: sobre o anti­intelectualismo TWITTER . artes. uma das mais constantes críticas direcionadas ao candidato Marcelo Freixo. da “negação do saber”) da “Escola sem partido”. Do silêncio em torno da exclusão de disciplinas (filosofia. Há um ódio que se dirige atualmente à inteligência. Só há “messianismo” e “peste”. sociologia. Há. Se podemos falar em “coronelismo intelectual” como um uso elitista do conhecimento. que disputa o segundo turno das eleições municipais contra o pastor licenciado da IURD Marcelo Crivella. Em meio à onda anti­intelectualista. podemos falar também de um ódio à inteligência. O pensamento e a ousadia intelectual tornaram­se insuportáveis para muitas pessoas chegando a um nível institucional e. votos nulos e brancos (bem como a expressiva votação de políticos que se apresentavam como não­políticos) também é um sintoma do anti­intelectualismo. na medida em que o eleitor identifica o político como aquele que detém o “saber político”. mesmo que para isso seja necessário ignorar a doutrina. ao conhecimento. não são raros os casos de juízes e promotores de justiça que respondem a procedimentos administrativos acusados de decidir contra o senso comum propagado pelos meios de comunicação de massa. ao discernimento. A lógica da peste identifica cada um dos problemas brasileiros como um mal indeterminado. do seu apagamento. pois o lugar do saber é um lugar de poder que é interessante para muitos. de contrastar certezas e de desvelar a ignorância que serve de base para todos os preconceitos. ao esclarecimento. mas que não são necessariamente cultos ou inteligentes. acabam excluídos ou mesmo criminalizados. como duas formas de exercer o poder manipulando o campo do saber. A barbárie está em curso. No sistema de justiça ocorre o mesmo. Do descaso com a educação (consagrado na PEC 241) ao tratamento conferido aos professores em todo Brasil (na cidade do Rio de Janeiro. O bom juiz é aquele que julga da forma que o povo desinformado julgaria. em detrimento do conhecimento. bravos e destemidos. O alto índice de abstenções. mas tangível e mortal. um estranho ódio ao saber em sua forma crítica e desconstrutiva. etc. de viés autoritário. mas usam uma performance política em que gritar e esbravejar provocam efeitos populistas). O messianismo identifica­se com a construção de heróis e salvadores da pátria (seres diferenciados. Por outro lado. mas sobretudo pelo que ele representa) como formulador de políticas públicas do Ministério da Educação ao projeto repleto de ideologia (e mais precisamente: da ideologia. Ao mesmo tempo. como um uso elitista da ignorância. dividindo espaço com opressões próprias ao campo do saber. Um ódio que se relaciona com a ameaça libertária do saber. um “saber” que foi demonizado pelos meios de comunicação de massa.