25/08/2016

Diário do Pará ­ O poeta da negritude, dos tambores e do luar

O poeta da negritude, dos tambores e do luar
Ele podia chegar em casa para o almoço por volta das três da tarde. Era bem capaz que já tivesse
passado pelas barracas do Ver­o­Peso, onde não deixaria de tomar uma branquinha, uma batida
de  cupuaçu,  acompanhada  de  iscas  de  peixe  frito.  À  mesa,  o  aguardava  um  guisadinho  de
músculo,  “levemente  enervado”,  acompanhado  de  maxixe  e  quiabo,  que  ele  cortava  tudo  bem
miudinho.
Em  seguida,  podia  guardar  a  sesta,  ou,  escutados  os  inconfundíveis  acordes  do  cinejornal  que
precediam a exibição do filme em cartaz, chispar de pronto para o cinema ao lado, o Guarany, seu
vizinho  na  rua  João  Diogo,  na  Cidade  Velha.  Adorava  a  sétima  arte.  Na  entrada,  bastava
apresentar a carteirinha de jornalista.
O  livro  “Lua  Sonâmbula”,  publicado  em  1953,  com  o  autor  na  maturidade  dos  60  anos,  traz  um
poema que revela a sua paixão pelo cinema. “O cartaz convidava ao cinema do bairro./ E então, a
Minha  Lua,  que  adora  as  coisas  simples,/  veio  ao  Jardim  de  Alá,/  que  era  o  filme  amoroso
desdobrado na tela.” O filme “desdobrado na tela” era “Jardim de Alá”, protagonizado pela dupla
romântica Charles Boyer e Marlene Dietrich.
E quem vai desdobrando essas lembranças, na mesma casa ao lado do cinema que já não existe
mais,  é  a  filha  Maria  de  Belém  Menezes.  Ao  lado  de  monsenhor  Geraldo,  da  freira  Marília,  do
magistrado Stélio, do médico José Haroldo, de Maria Ruth (já falecida) e da pianista e musicóloga
Lenora, compõem a prole deste que Benedito Nunes disse ser “um dos melhores poetas do Brasil
setentrional, inventor e mestre na arte da palavra”.
MULATAS & TÓ TEIXEIRA
Bruno Bento de Menezes Costa nasceu em Belém, em 21 de março de 1893, filho primogênito de
mestre pedreiro, o cearense Dionísio Cavalcante de Menezes, e de Maria Balbina da Conceição
Menezes. “A infância passou­se na estância coletiva ‘A Jaqueira’, Jurunas, livre e solto, admirando
os  seus  valentes  desordeiros,  os  capoeiras,  os  manejadores  de  navalha,  os  embarcadiços,  as
mulatas carnudas e trescalantes; acompanhando nos ombros largos de seu pai o Círio de Nazaré,
gola  azul,  gorro  de  marinheiro  de  fitas  pretas  e  letras  douradas;  pisoteando,  adolescente,  nas
saídas  festivas  de  Boi­Bumbá  de  seu  padrinho  Miguel  Arcanjo,  sob  os  olhos  carinhosos  de  sua
mãe  Balbina”,  lembrou  o  poeta  Alonso  Rocha,  em  pronunciamento  realizado  na  Academia
Paraense  de  Letras,  em  1988,  em  homenagem  ao  95º  aniversário  de  nascimento  do  autor  de
“Batuque”.  Menino  pobre,  “paupérrimo”,  como  se  vê,  mas  de  ricas  vivências  populares  que  se
refletiriam na literatura que não lhe demoraria a surgir.
Completa  seus  estudos  primários  no  grupo  escolar  José  Veríssimo.  Torna­se  aprendiz  de
encadernador,  tendo  como  companheiro  de  ofício  Tó  Teixeira,  que  viria  a  ser,  mestre  de  violão,
grande  nome  da  cultura  popular  paraense  e  amigo  por  toda  vida.  Maria  de  Belém  conta,  dessa
experiência,  um  caso  digno  de  figurar  numa  página  literária.  Do  primeiro  livro  encadernado,  o
jovem Bruno guardou o nome do autor e a dedicatória. Muitos e muitos anos depois, reconheceria
o mesmo volume num sebo. Encantado com a coincidência, comprou­o. O exemplar até hoje está
entre as estantes que pertenceram ao escritor belenense. Trata­se do romance “Recordações da
Casa dos Mortos”, do grande escritor russo Dostoiévski.
A  propósito,  já  com  nome  reconhecido  na  praça  como  encadernador  (bem  como  de  violeiro  e
compositor),  Tó  Teixeira,  quando  recebia  obras  consagradas  para  encadernar,  em  muitos  casos

http://www.diariodopara.com.br/impressao.php?idnot=148262

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  Clóvis  de  Gusmão. a mais  autorizada  fonte  desse  saber  das  ruas. É na revista “O Martelo”. sem condições de frequentar os salões e faculdades dos bem­nascidos. de quadrilhas juninas.  já  como professor  (ensina  as  primeiras  letras  numa  escola  fundada  pela  Federação  das  Classes Trabalhadoras).  em brindes  que  se  estendiam  aos  bares  Pilsen.  num  cenário  autoral  iluminado  por  uma  das  obsessões  de http://www. encomendada.  Jacques  Flores. em vez do chá acadêmico (que Bruno mais tarde comungaria.  Barbinha.25/08/2016 Diário do Pará ­ O poeta da negritude. Quatro anos depois.  se  destinaram  à  missão  de  renovar  a  poesia  no  Pará.  passa  a  ler  Vicente  Blasco  Ibáñez. o Bruno portador da cultura popular.  aponta  o  historiador  Aldrin  Moura  de  Figueiredo  num  artigo  sobre  a influência anarquista na formação política e intelectual do autor.  no  pensamento  do  jovem  Bruno  de  Menezes.  ainda  nos  surpreende  o  pulsar  transfigurador  de  seus  versos. alerta Benedito.  do  anarquismo  sindicalista.  “com  as  credenciais  da  cultura. “Literatura  e  revolução  foram.  depois.  primeiro  da  militância  sindical.  em  difíceis  condições  (incluindo  castigos)  que  poderiam  ser retratadas num sombrio romance à Charles Dickens.com. na faculdade das andanças no meio do povo. dos tambores de batuque. mais tarde. convocava o amigo para lê­la na oficina. o restante  da  obra  –  as  que  antecedem.  movimento  que  tinha  uma  forte  presença  entre  os trabalhadores brasileiros das primeiras décadas do século XX. do boi­bumbá. integra um grupo de jovens.br/impressao.  Remígio  Fernandez. Em “Bailado Lunar”.  vindo  do  simbolismo  –. é seu momento máximo. Quatro anos antes. Ainda segundo Aldrin. como imortal da Academia Paraense de Letras).  conhecimento  ambulante  e  de  se  fazer  em  livro.  os  apostólicos  da  boemia. A BILHA E DONA FRANCISQUINHA Em 1920. dançarino de festas folclóricas. artesanal.  Abguar  Bastos. facilitaria a posterior mudança qualitativa para o modernismo.diariodopara. É verdade. com o poema sintomaticamente intitulado “O operário”.  Aqui  vai  se aprumando.  que  lhe  assegurou  lampejos parnasianos em seus dois primeiros livros”.  o  folclorista­mor  da  nação. “os desdobramentos da militância política e literária de Bruno de Menezes depois de 1920 serão ainda mais convincentes para se compreender a lógica própria do modernismo que se construía na Amazônia naquele momento”.  a  exemplo  das  duas  já  citadas.  o Bruno festeiro.  Paraense.  Górki. Por indicação da própria família.  Leão  da  América. tão improvisada quanto as rodas que se iam formando pelos botecos do Ver­o­Peso.  Lev  Tolstói. Bruno lança seu primeiro livro. de poesia. surge. que se abastece. de que “Batuque” (1931). Bruno. farinha d’água de dez tostões o litro e cachaça de 500 réis a dose.  Eustachio  de  Azevedo. Em  volta  do  peixe  frito.php?idnot=148262 2/4 . o folclorista que. de pássaros.  De  Campos Ribeiro.  servida  por  um  sólido  aparato  formal  do  verso. diz monsenhor Geraldo Menezes.  entre  outros. que. os “Vândalos do Apocalipse”.  portanto. que se dá sua estreia em versos. editada por jovens literatos. “A poesia de Bruno nasceu  simbolista. enquanto recebiam a capa.  reconhecimento  que  valerá  por  título  de  doutor “honoris  causa”. segundo o crítico. Este simbolismo. a mais celebrada obra do autor. composto e impresso pelo próprio autor e pelo amigo Jacques Flores. a geração do peixe frito.  que exalam  a  latência  de  uma  época  –  e  a  própria  transição  poética  do  criador. “Bailado Lunar” representa a poesia de Bruno no volume da série “Orgulho do Pará”. vem “Bailado Lunar”. terá o reconhecimento público de Luís da Câmara  Cascudo.  sinceridade. emoção”.  Marx. “Crucifixo”. com ímpeto  juvenil. EMBAIXADOR DO PARÁ Trabalhando  como  tipógrafo. dos tambores e do luar livros acima das posses medianas.  e  as  que  vêm  depois  de Batuque – “como sua periferia”. de postas de peixe de 200 réis. “Papai não foi um homem de um livro só”. e sabia que interessariam ao leitor onívoro Bruno de Menezes.  faces  de uma  mesma  moeda”. em 1916. comenta Benedito Nunes.  a  caminho  do modernismo.  autores  que  lhe  abriram  as  portas. Engels.  será  o  embaixador  do  Pará.  Ao  sabor  das  andanças boêmias de Bruno. Mas que não se tome. até pelo acesso que o trabalho numa gráfica  eventualmente  possibilitava.

 dos tambores e do luar Bruno.  “Se  papai  era  um homem muito calmo. É que mamãe.  cujo primeiro número.php?idnot=148262 3/4 . Um ataque cardíaco o derrubou. avançasse esses temas na música que comporia em seguida”. Morreu como um personagem de Jorge Amado.  é  velado  e enterrado no dia quatro. estejamos outra vez ao lado desse personagem imortal que é o próprio Bruno de Menezes. pergunta­se a autora no artigo. Célia Coelho Bassalo assina um excelente estudo sobre o livro. Em 1963.  “São  Benedito  da  Praia: Folclore do Ver­o­Peso”. Sobra espaço apenas para dizer que Bruno morreu como viveu.com. Ao que responde: “Prioritariamente. de 1951). Ao saber­ lhes a paternidade.  “É  um  retrato  de  Belém. O  segundo  trabalho  que  compõe  o  volume  da  coleção  do  DIÁRIO. observa Lenora.  nos  encantando. O subúrbio e o terreiro. terno.  certamente  calcado  em  Flaubert  (“Madame  Bovary. o já consagrado poeta disse­lhes: “Ele era o mais jovem de todos nós”. Subiu ao palco. Lua Sonâmbula.  era  rigorosa  com  o  português”. Belém.  mas  ao  mesmo  tempo. os  filhos. por exemplo. espírito boêmio e conversador. participava como jurado de um festival folclórico. aos 70 anos de idade.diariodopara. cabeça branca. Bruno de Menezes também poderia dizer: “O folclore sou eu!”.” ‘O FOLCLORE SOU EU!’ Em 1931.br/impressao.  expunham  a  sinuosidade  de  suas formas esbeltas. Maria de Belém.  pela  filha  Lenora. que amava como amava a mulher. professora normalista. A  exemplo  do  que  disse  Heitor  Villa­Lobos. no cemitério de Santa Isabel.  e  que  acaba. fazendo com que.  como  quem  ergue  um  brinde. recorda.  amigo. no dia 2 de julho.  história  do  Umarizal. com a autoridade de quem defendeu mestrado em musicologia na USP sobre a presença do negro na literatura e na música paraense.  como  consequência  de  sua  prosa  irresistível. recebeu influência decisiva do autor de “Boi­Bumbá – Auto Popular”. de setembro de 1923.  minha  irmã. que nunca brigou com os filhos. “bailarina imemorial dos ares”.  gritou  da cozinha:  ‘A  bilha  quebrou­se’.  No  dia  seguinte. contador de anedotas.  o  corpo  chega  a  Belém. Entre  “Crucifixo”  e  “Bailado  Lunar”  há  um  acontecimento  capital  na  vida  do  poeta.  os  amigos. para dançar.  o  fundador  da  revista  “Belém  Nova”. Tu quebraste a bilha’. “O que era ‘surra de língua’?. nos traz o Bruno folclorista.  menino  chegado  do  interior.  Vicente  Salles. Discursou.  em  Belém.  “A  riqueza  musical.  Muitos  poemas desse  livro  foram  grafados  musicalmente.  que.  “Que  canta  agora  o  poeta  de  simbólicos  detalhes  literários  ‘art  nouveau’?”. c’est moi!”). “Batuque” celebra a negritude e  a  modernidade  poética.  “Um  dia. com um sorriso. Bruno publica sua obra mais cultuada. do cais e das velhas docas. Muito  ainda  se  teria  a  dizer  de  Bruno  de  Menezes. como já se disse.  identificando­se  como  filhas  de  Bruno.  da  Pedreira  e  da Cremação. a nos conduzir por aquele Ver­o­Peso festeiro e povoado de crenças do final da década de 1950.  E  levou  logo  um  ralho  de  mamãe:  ‘Um  objeto  não  pode  exercer ação verbal.  folclórica  e  negra  de  ‘Batuque’  abriu  portas  para  que Waldemar Henrique.  a  pedido  de  Bruno. como ainda hoje. encantado pesquisador das artes e crenças  populares. estão dançando e  cantando”. http://www.  com  a  professora  Francisca  Sales  Santos. Mas em vez da cidade da Bahia. a lua (que comparece também no título de outro de seus livros. vizinho de Cidade Velha. mamãe nos dava ‘surras de língua’”.  carinhoso. elegantes”.  explica  Belém. varando madrugada. sereno. À noite.  registra  o  amigo  Dalcídio  Jurandir.  Ruth. Falar do Bruno que pregou e lutou pelo movimento cooperativista.  em 1921.  Casa­se. a figura feminina; a ‘coquette’ que exibe o corpo gracioso; a mulher amada; a mulher que fascinou por suas roupas colantes ou esvoaçantes  que  fingiam  esconder.25/08/2016 Diário do Pará ­ O poeta da negritude. fez com que Belém se tornasse a terceira capital a aderir ao modernismo no Brasil. se reunia com os rapazes do Clube da Madrugada de Manaus. “Bruno de Menezes ou a sutileza da  transição”. em suas páginas.  Maria  de  Belém  e  Ruth  são apresentadas ao poeta amazonense Thiago de Mello. que era do Clube da Madrugada. no momento da leitura. brado endossado pelo mais  importante  folclorista  paraense  atual. Deu cursos de folclore e cooperativismo.  ainda  menina  e estudante  de  música. em Manaus. Certa  vez.  futura  dona  Francisquinha. de 1959.

com.diariodopara.php?idnot=148262 4/4 .25/08/2016 Diário do Pará ­ O poeta da negritude. dos tambores e do luar (Diário do Pará) http://www.br/impressao.