VIA CAMPESINA DO BRASIL

SOBRE A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE CAMPESINATO1

Eduardo Sevilla Guzmán y
Manuel González de Molina

BRASILIA, MARÇO DE 2005

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O texto original foi escrito em castelhano. A tradução literal, para uso interno da Via Campesina do Brasil,
foi realizada por Ênio Guterres e Horacio Martins de Carvalho, no final de dezembro de 2004.

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APRESENTAÇÃO, PELA VIA CAMPESINA
A Via Campesina do Brasil, articulação formada pelo Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA),
Movimento dos Atingidos por Barragems (MAB), Movimento de Mulheres Camponesa
(MMC), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Pastoral da Juvemtude Rural (PJR) e a
Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil (FEAB) tem uma oportunidade impar de
apresentar à sociedade brasileira um estudo de Eduardo Sevilla Guzmán e Manuel
González de Molina, com o título Sobre a Evolução do Conceito de Campesinato.
Os autores são notórios pesquisadores e professores de universidades espanholas
que desde 1980 vem pesquisando e escrevemdo sobre o campesinato na Europa e América
Latina com uma visão global e sistemática dos marcos teóricos, resgatando conceitos e
formas de desenvolvimento do campesinato a partir do “Pensamento Social Agrário” desde
o século XVIII até a atualidade.
Esta obra vem trazer, como dizem os próprios autores, “importantes ferramentas
teóricas com as quais se poderá neutralizar a ofensiva neoliberal que desde a academia e na
prática política esta se desenvolvendo na América Latina ao pretender apresentar uma
inevitável evolução da Agricultura “Familiar” para o Agronegócio, no contexto da
Agricultura Industrializada em sua atual versão transgênica”. Assim como os autores,
cremos em outra solução para os problemas sociais e ambiemtais que atravessamos. E o
campesinato, como veremos no texto, nos traz elementos que contribuirão muito para a
solução da crise em que vivemos.
Com essa publicação, queremos possibilitar aos leitores e aos estudiosos das
questões emvolvemdo o campesinato uma visão histórica sobre a evolução do conceito,
afirmando e reafirmando no campesinato seu modo de ser e de viver nas mais diferentes
formas de sociedade. Temos ainda, como meta, o fortalecimento do conceito de camponês,
o que é uma questão estratégica para o debate com o pensamento neoliberal e ortodoxo,
através de uma leitura crítica sobre as diferentes interpretações feitas sobre o futuro do
campesinato nas sociedades capitalistas.
Cremos que esta obra é de fundamental importância para os movimentos
camponeses do Brasil, num momento em que estamos oportunizando, enquanto movimento
social, a participação de vários estudos que estão sendo realizados por diversos
pesquisadores que tem, gentilmente, dedicado tempo para oferecerem contribuições na
ampliação do debate sobre o campesinato entre os intelectuais e os Movimentos
Camponeses do Brasil.
Com este trabalho queremos oferecer à sociedade brasileira uma visão de quem
acredita que o campesinato tem papel fundamental para um processo de desenvolvimento
rural sustentável. Pretendemos ainda oferecer estes subsídios teóricos, historicamente
fundamentados, a outros pesquisadores, professores, estudantes e a cidadãos interessados
na temática e na realidade camponesas. Oferecer principalmente aos camponeses e suas
organizações, mais uma ferramenta de luta, agora no campo da batalha de idéias.

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SUMÁRIO
1. Introdução....4
2. O campesinato na antiga tradição dos estudos camponeses....7
3. Da nova tradição dos estudos camponeses à agroecologia....25
4. A modo de conclusão: o campesinato na agroecologia....36
5. Bibliografia....39

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1. INTRODUÇÃO
O presente trabalho é um complemento de nossa intervemção no Seminário sobre o
Campesinato que, organizado pela Via Campesina, teve lugar em Brasília nos dias 19 e 20
de Novembro do 2004; nele pretendemos caracterizar a evolução do conceito de
Campesinato no que definiremos mais adiante como o Pensamento Social Agrário
Alternativo. Dito conceito é apresentado através dos discursos que, consciemte ou
inconsciemtemente, encontram-se por trás dos atores coletivos que configuram o que aqui
chamamos “orientações teóricas”, como categorias intelectuais, nas que se articulam
explicações e valores sobre algum nível da realidade, geradoras de processos de
legitimação ou deslegitimação sobre determinadas parcelas de tal realidade, neste caso
relativa ao campesinato, à agricultura ou à sociedade rural (2).
A perspectiva que vamos utilizar pretende ter uma natureza holística, no sentido de
que é, à sua vez, histórica e totalizadora, tentando captar a complexa diversidade das
manifestações do debate e de seu permanemte processo de transformação. Esta é
considerada não só desde uma perspectiva multidisciplinar senão em sua mais ampla
gemeralidade, e aceitando a articulação das diferentes “orientações teóricas” num processo
de configuração de um “pensamento científico convencional” confrontado, nas diversas
conjunturas históricas, com “um pensamento alternativo”. O primeiro, como conseqüência
das inter-relações da “ciência” com a “sociedade”, não questiona o sistema de relações
sociais existentes. As ações de desenvolvimento realizadas como conseqüência da
profundidade sócio-política de cada “orientação teórica” tende a legitimar a ordem social
existente. Pelo contrário, o pensamento alternativo tende a transformá-lo.
Nas páginas que seguem pretendemos fazer uma incursão pelo Pensamento Social
Agrário para apresentar aqueles marcos teóricos que se movem numa práxis intelectual e
política “contra o capitalismo”. E isso, independentemente de que atribuam ao campesinato
um papel histórico progressista (potencial revolucionário) ou reacionário (saco de batatas),
desde o século XIX até a atualidade. Nossa contribuição à VIA CAMPESINA pretende
trazer ferramentas teóricas com as quais se poderá neutralizar a ofensiva neoliberal que
desde a academia e da prática política está se desenvolvendo na América Latina ao
pretender apresentar uma inevitável evolução da Agricultura “Familiar” para o
Agronegócio”, no contexto da Agricultura Industrializada em sua atual versão transgênica.
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A presente investigação só adquire seu sentido cabal no contexto de outras anteriores ( Cf. Giner, S., and E.
Sevilla Guzmán (1980) ; E. Sevilla Guzmán (1983);Newby, H. e E. Sevilla-Guzmán (1983); E. Sevilla
Guzmán, (1984 :41-107); Sevilla Guzmán, E. (1988 ); Sevilla Guzmán ( 1990 ); e Eduardo Sevilla-Guzmán e
Manuel González de Molina (1992) onde se desenvolvem, em forma mais detalhada aspectos concretos desta.
Gonzáles de Molina e Sevilla Guzmán (1993a e 1993b) Uma visão global, muito esquemática, considerando a
implementação prática destes marcos teóricos através de suas formas de desenvolvimento apareceu em
português em Sevilla Guzmán (1997) e em inglês como E. Sevilla Guzmán and Graham Woodgate,
“Susttainable Rural Developmemt: Form a Industrial Agriculture to Agroecologyy” em Michel Redclift and
Grahm Woodgate (eds) The International Handbook of Emvironmemtal Sociology (Chaltenham: Edwuard
Elgar, 1997); há tradução castelhana em (Madri: Mc Graw Hill, 2002).

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Cremos, pelo contrário, que a única solução para o problema sócioambiental que
atravessamos está num manejo ecológico dos recursos naturais, em que apareça a dimensão
social e política que traz a Agroecologia e que esteja baseada na agricultura sustentável que
surge do “modelo camponês” em sua busca de uma soberania alimentar.3
Necessidade de estabelecer um marco teórico para a
Agroecologia latino-americana.
Cremos ser necessário adicionar uma reflexão para assinalar que a análise do
campesinato no Pensamento Social Agrário Alternativo que apresentamos a seguir teria de
ser completado com uma interpretação do processo histórico latino-americano que
queremos esboçar aqui (Cf. Ottmann, 2005, no prelo) esquematicamente. E isso pela
importância política que sua introdução na Agroecologia pode ter. Tal interpretação parte
de uma estratégia metodológica que rastreia os processos geradores de identidade ao
apresentar conteúdos históricos que foram gerados pelas memórias sociais procedemtes da
visão dos vencidos. A inclusão, na reflexão teórica e análise histórica, de uma série de
autores-chave permitiria construir uma interpretação desde a visão do sul. Com tal
contextualização histórica se rastreariam aqueles processos que, em nossa opinião,
estabeleceram os conteúdos históricos de uma matriz sociocultural especificamente latinoamericana.
O primeiro deles, que se estende ao longo de todo o período colonial, ressalta o
último terço do século XVIII, quando surge a Ilustração européia e têm lugar os
levantamentos incaicos no cone sul latino-americano; isso permitiria ressaltar a
3

Estes materiais provêem da pesquisa que os autores estão desenvolvendo sobre Os camponeses e a
Agroecologia, onde pretendem analisar o papel do campesinato nas estratégias de desenvolvimento rural
sustentável, além de apresentar a evolução deste conceito nas Ciências Sociais e no pensamento agrário. Para
isso, e nos termos desenvolvidos neste artigo, partimos de recuperar as raízes de um pensamento alternativo
em torno do campesinato. Isso nos permitirá obter uma nova consideração do campesinato e seu papel no
desenvolvimento rural sustentável. Assim, depois de mostrar que os camponeses também contaminam e
degradam o meio ambiemte, apresentaremos uma “teoria da degradação da condição camponesa”. E ao fazêlo, consideraremos aos movimentos camponeses e o desenvolvimento rural sustentável como estratégia desde
o potencial de mudança do campesinato e o desenvolvimento endógeno. “O conceito de potencial endógeno
em Agroecologia faz referência, não só ao nível de conhecimento local que possui um indivíduo sobre seus
agroecossistemas, senão ao grau de compromisso que possui com a identidade vinculada a dito conhecimento
e às comunidades locais que o compartilham. Isto é, à identificação que os sujeitos estabelecem com os
conteúdos históricos de suas próprias experiências vinculadas com as de seus antepassados, que sem dúvida
possuem uma articulação com seus agroecossistemas. O grau de identificação dos agricultores com a matriz
sociocultural gerada em sua interação com seus recursos naturais, constitui a dimensão agrária do endógeno.
Nesse sentido, descrever a aparição de uma ética e de uma cultura alternativa à racionalidade globalizadora
que esteve e está presente a muitos movimentos camponeses. Esse é o ponto de partida de qualquer estratégia
de desenvolvimento rural sustentável, no que aparece uma propemsão à mudança baseada na resistência
camponesa, com sua estrutura organizativa que estabiliza e organiza a reivindicação e o leva para adiante de
maneira autônoma e participativa; não é a única via, o Estado pode realizar algo parecido, mas à vista do que
faz o Estado na América Latina e a lentidão com que aborda o problema da reconversão ecológica da
produção agrária no Ocidente, é imprescindível a presemça e o empuxo de movimentos sociais camponeses
e/ou ecologistas.

entre outros. incapazes de compreender o caminho marcado pelos centros civilizados: era necessária a mudança dos sangues nativos por raças “trabalhadoras”. ainda que foram legitimadas pelo . tal como nós a definimos (Guzmán Casado. articuladas não poucas vezes a um catolicismo popular (como sincretismo das cremças ancestrais das cosmovisões de suas etnicidades profundas) com um potencial liberador. (2) desde a homogeneidade de uma elite crioula. de origem européia. as resistências aos projetos oligárquicos que pretendiam outorgar um status real de cidadão aos grupos indígemas ainda não exterminados foram interpretadas pelo despotismo ilustrado neocolonial como manifestações regressivas de oposição ao progresso.6 heterogeneidade de formas conflitivas de luta e resistência à invasão e ocupação européia. Os elementos centrais em que aparecem os contornos da matriz de pensamento popular latinoamericano são: (1) a existência de etnicidades profundas negadas por um marco de legalidade no que se constrói um imaginário que nega. o reconhecimento social da mestiçagem. como corrente precursora da Agroecologia. mantendo-se o domínio ideológico do ocidente. Aqui a reflexão histórica concluiria mostrando como na prática da totalidade do território que hoje constitui a América Latina a descolonização se realizou numa forma incompleta. O pensamento científico emergente. nunca se chegou a eliminar a estrutura interna da colônia. como reparação crítica a formas passadas de legalidade e a instituições que jogaram um papel histórico negativo. igualmente. como um “saber submetido” no sentido que dá Foucault a este termo. compreemdemdo a conjuntura histórica da dinâmica de emancipação americana. a existência desta matriz sociocultural pode contribuir com um elemento essencial na configuração de um potencial endógeno humano que mobilize a ação social coletiva em que se baseia a Agroecologia. com a consolidação do liberalismo e do socialismo na Europa e a construção da independência na América Latina. O segundo processo abarca o primeiro terço do século XIX. (3) que controla as bases legais e morais das formas históricas de dominação política. A introdução da interpretação de José Carlos Mariátegui do processo histórico latinoamericano nos permitiria conceitualizar-lo desde o Neomarxismo dos Estudos Camponeses. O terceiro processo se move na segunda metade do século XIX. ainda que se obtivesse a independência dos reinos ibéricos. No entanto frente a isso. interpretaria as rebeldias populares como forças irracionais. González de Molina e Sevilla Guzmán. ao ser reconstruído pode atuar. No amplo mapa latinoamericano persiste uma sincronia manifestada pelas realidades políticas e pela homogeneidade das classes privilegiadas. Eric Wolf e Jacques Chonchol. 2000). neste contexto. Esta matriz sociocultural de pensamento popular latinoamericano se nos apresenta. O processo nunca chegou a concluir já que. portadoras de (5) diferentes formas de conflictividade latente vinculadas à heterogeneidade sóciocultural. aparece uma (4) heterogeneidade sociocultural nas classes oprimidas. E que. Nele. no mesmo. tanto desde posições liberais como socialistas. Alcira Argumedo. Isso permitiria o esboço dos conteúdos de uma matriz de pensamento popular latinoamericano com os materiais historiográficos de Guillermo Bonfil Batalha. Dado que a Agroecologia supõe o manejo dos recursos naturais surgido desde as identidades dos “etnoagroecossistemas locais”.

7 poder. a matriz de pensamento popular latino-americano aparece desde a perspectiva da Agroecologia. Neste sentido. os marcadores de identidade local assim obtidos terão de situar-se nos contextos mais amplos outorgados pela matriz “de pensamento popular latino-americano” em sua aplicação às realidades de cada país. cujo objetivo é evitar a desorganização social. a utilização da história oral. do “evolucionismo naturalista” (Lamarck. o papel que atribuímos à matriz de pensamento popular latino-americano constitui o início de um processo de identificação coletiva para sua aplicação posterior em identidades locais mais concretas vinculadas ao manejo dos recursos naturais. Com respeito aos aspectos “sociais” da Agroecologia. 1992: 23). O CAMPESINATO NA ANTIGA TRADIÇÃO DOS ESTUDOS CAMPONESES Ao longo dos séculos XVIII e XIX tem lugar o que. Com isso se desloca a outros enfoques mais integradores e holísticos desemcadeando os processos de degradação da agricultura e a sociedade que combate a Agroecologia. podem resultar de grande valor. Efetivamente. de cada região e inclusive de cada macro-etnoecossistema. pelo contrário. em seus aspectos técnicos. O processo de transformação social que acompanha à implantação no Ocidente do modo de produção capitalista e as repercussões que dito estabelecimento tem sobre o campesinato constituem a situação histórica em que surge a “Antiga Tradição dos Estudos Campesinos” (Palerm. no que poderia falar-se de uma genealogia do processo histórico latino-americano.. junto às metodologias qualitativas e participativas (Guzmán. 2000: cap. 2. entre outros) e do “socialismo utópico” (em sua ampla gama desde Pierre Joseph Proudhom a Claude Hemri de Rouvroy. Newby e Sevilla Guzmán. a Agroecologia se enfrenta ao falso discurso científico que legitima à agricultura industrializada. Mais ainda. Tal cristalização teórica não é em absoluto um fenômeno casual. esta nasce como uma tentativa desesperada de impedir o desenvolvimento do capitalismo através de formas de ação social coletiva (que hoje podiam muito bem se qualificar como de desenvolvimento rural participativo). As ferramentas para fazê-lo não diferem das empregadas para obter e revalorizar o conhecimento local. ou como revalorização daquilo que sofreu uma desvalorização ou desqualificação por parte da hierarquia para algo que se resistia a ser submetido e ocultado. 5) comumente utilizadas para isso. desde uma perspectiva científica. resulta fundamental ir gerando metodologias que permitam registrar a visão da própria identidade local dos atores emvolvidos. No entanto. Desde esta perspectiva. 1980. Não obstante. Darwin e Malthus. . poderia definir-se como a gênese do pensamento social agrário. difundindo a biotecnologia como paradigma hegemônico e proclamando a necessária prioridade dos cultivos transgênicos. conde de SaintSimon). É. et al. neste sentido. 1983: 140-43). responde a todo um processo de acumulação elaborado pelo legado das teorias evolucionistas provenientes da “filosofia da história” (desde Giambattista Vico até George Hegel). como uma genealogia que “deve conduzir a luta justamente contra os efeitos de poder de um discurso considerado científico” (Foucault.

que veremos. desde esta perspectiva. Os autores centrais de tais movimentos são. (1. Sevilla Guzmán. situa a este autor como central na configuração da Antiga Tradição dos Estudos Campesinos. (1. 4) August von Haxthusem. apresentou a organização social camponesa da marca germânica como um valor histórico da antiga civilização germânica que era preciso conservar. Ademais. 2) Lewis H. 5) Makxim Makximovich Kovalevski.903) e ( 1. Morgan. Jogou um papel central na bifurcação teórica do Marxismo Ortodoxo Agrário e o Narodnismo Marxista que consideramos esquematicamente nas seções seguintes deste texto.885:177-233). desde a Universidade de Munich. supõe partir necessariamente de esboçar os traços básicos dos movimentos intelectuais. que consideraremos depois.891a). . 3) Hemry Summer Maine. (1. A obra de todos estes autores se inscreve num esquema explicativo do processo histórico. quem em seu Anciemt Society estabelece pela primeira vez um esquema do processo histórico interelacionando a evolução técnica com variáveis sociais como o paremtesco. 1992): 1) George Ludwin von Maurer que. Village: Communities in the East and West e Lectures on the Early History of Institutions. Seu trabalho se realiza por encomenda de Nicolás II. não só por seu trabalho senão por sua “amizade acadêmica” com Marx. Rastrear a gênese teórica do campesinato no Pensamento Social Agrário. num 4 Cf. quem estudou a estrutura social do campesinato medieval europeu. 1990 e Sevilla Guzmán e González de Molina. em que aparece como protagonista central a estrutura social do campesinato.906). a organização social da obshina russa. a propriedade privada e o Estado jogaria um papel chave na configuração da orientação “teórica” do Marxismo Ortodoxo Agrário. supõe partir necessariamente de esboçar os traços básicos dos movimentos intelectuais que. que poderiam ser definidos como pensamento evolucionista sobre o campesinato e Direito Consuetudinario Camponês. a influência de Maine sobre o Anarquismo Agrário mediante sua utilização por Kropotkin. Rastrear a gênese teórica do debate que se estabelece entre as “orientações” do Marxismo Ortodoxo e o Narodnismo (que definiremos mais adiante) em torno dos envolvimentos econômicos sociais e culturais do desenvolvimento do capitalismo na agricultura. também esquematicamente mais adiante.8 exploração econômica e depredação sociocultural que tal processo gerava nas comunidades rurais. quem tenta explicar o progresso da humanidade com seu esquema teórico de passagem das relações sociais baseadas no status às regidas pelo contrato. os seguintes (Cf. Sua importância radica em que é a primeira visão completa do processo histórico desde a perspectiva do evolucionismo unilineal. ao menos. constitui um elemento imprescindível para elaborar o contexto teórico da gênese dos estudos sobre o campesinato. decisiva na configuração do que definiremos mais adiante como “orientação teórica” do Narodnismo Marxista(4). É importante. primeiro desde a Universidade de Moscou e depois desde seu exílio londrino. As obras chave de Kovalevsky para nosso argumento são (1. quem estuda pela primeira vez. referências em E. A utilização dos trabalhos de Maurer por Engels na origem da família. Maurice Godelier (1.970). como relatório técnico antes de levar a cabo a abolição da servidão na Rússia e joga um papel central na configuração do Populismo em suas três correntes.891b: 480-516). A análise de suas obras Anciemt Law. Angel Palerm (1974) e (1980) e Teodor Shanin (1984). desde uma perspectiva científica. a organização política e a propriedade.

sua concepção do campesinato no processo histórico. do marxismo ortodoxo. Ao estabelecer tal contextualização teórica aparecerá. um período clássico no que Takchev. através do direito consuetudinário camponês. Esta surgiu. (E. depois e. desde a perspectiva da teoria social agrária. obviamente como elemento central. Daí surgiu uma reconsideração por parte deste autor sobre o papel do campesinato na evolução das sociedades que denominamos em outro lugar como Narodnismo marxista. sua rejeição à propagação do capitalismo que atingia . como etapa final. que se encontra nas origems do que chamamos a Antiga Tradição dos Estudos Campesinos e que passamos a considerar através da definição das orientações “teóricas” do Narodnismo. em que aparece como protagonista central a estrutura social do campesinato. Tal pensamento só se vê recuperado nos anos sessenta e setenta do século passado pela Nova Tradição dos Estudos Campesinos. Paralelamente se gera um ramo anarquista (ou anarquismo agrário) cunhado teoricamente por Bakunin e Kropotkin. Sevilla Guzmán. 1990). do Anarquismo agrário. poderiam ser definidos como a elaboração de um esquema explicativo unilinear do processo histórico. socioeconômico e político das comunidades rurais. O campesinato no Narodnismo russo O Narodnismo constitui a primeira corrente de pensamento dentro da esboçada plataforma intelectual que definimos como Antiga Tradição dos Estudos Campesinos. Por outro lado.9 esforço de síntese. Lavrov. Apesar de sua marcada diversidade. como conseqüência do debate intelectual e político gerado na Europa do oitocentos sobre a vigência das instituições emcarregadas do manejo autônomo dos recursos naturais. A similitude de seus esquemas teóricos permite falar de uma corrente conflitivista de estudos agrários. mercantilização e urbanização que introduz o capitalismo nas sociedades camponesas. e uma efêmera práxis revolucionária. finalmente. primeiro. Mikhailovsky e Bervi-Flerovsky destacam como formuladores de uma teoria do campesinato. esta corrente intelectual recolheu e assimilou o conteúdo do O Capital de Marx em forma tal que as polêmicas sobre sua aplicação na Rússia de então constituíram algumas das circunstâncias determinantes que romperam os antolhos ocidentais de Marx com respeito à sua interpretação do processo histórico. os dois traços que caracterizam seu pensamento global são: por um lado. a qual se valoriza como um resultado de igualdade e solidariedade social ameaçado pelos processos de privatização. O elemento central de sua análise é o conflito gerado na organização social camponesa pela penetração do capitalismo. que analisaremos mais adiante. O tema central era a possível pertinência de uma adaptação ao novo palco vinculado ao desenvolvimento do mercado ou pelo contrário sua drástica substituição perante as exigências de um progresso material que impunha cruéis sacrifícios sociais. No interior deste heterogêneo conjunto de correntes com múltiplas diferenças e correntes internas surge uma dinâmica que permite diferenciar uma etapa de gênese representada por Herzem e Chernychevsky. No seio do narodnismo russo coexistiram diversas orientações teóricas com diferentes práxis intelectuais e políticas que propugnaram e perseguiram para Rússia um modelo de desenvolvimento econômico não capitalista em que aparecia como protagonista central do campesinato.

no meio das dificuldades impostas pela cemsura. na Rússia era o próprio Estado quem defendia e criava as classes exploradas contemporâneas. intelectual e moral da maior parte dos indivíduos. clássica e revolucionária). utilizando a literatura como marco gerador de processos de consciemtização e contestação. Para isso elaboraram uns esquemas teóricos nos quais eram admissíveis diversas vias. mais ainda. 5) os intelectuais críticos devem “fundirse com o povo” para desenvolver com ele. Analisaremos a “orientação teórica” do Narodnismo russo considerando. em privilégio revolucionário” (Teodor Shanin. Ao escrutinar tais vias introduziram como uma variável de análise o bem-estar social do povo. ao qual subordinam os demais objetivos de sua investigação. que se correspondem com três momentos de sua prática intelectual e política. mecanismos de cooperação solidária que permitam criar formas de progresso às que se incorpore a justiça e a moral. 2) os sistemas de legalidade assim estabelecidos desenvolvem uma prosperidade material que vai contra o desenvolvimento físico. Ainda que não se pode negar a influência de Aleksandr Ivanovich HERZEM. plenamente expressado pela Vontade do Povo era a assunção de que o Estado Tzarista era o maior inimigo do povo russo já que. mediante a análise da “experiência européia” ---fundamentalmente França e Inglaterra --. convertendo-se assim na principal força capitalista. antes citadas. quem desde a revista Sovrememnik (Critica Literária) realizou uma atividade publicista revolucionária. a figura chave deste período é Nicolai Gavrilevich CHERNYSHEVSKI. pauperização e desorganização social das comunidades rurais que provocava o avanço do capitalismo: era possível “dar marcha atrás” e saltar sobre a etapa do capitalismo chegando diretamente ao “progresso do socialismo”. Etapa fundacional: Teoria da marcha atrás. enquanto na Europa ocidental eram as classes latifundiárias quem exploravam o campesinato. “O desenvolvimento desigual ia levar a Rússia a uma posição proletaria entre as nações ao observar as desvantagens desta com respeito às potências do oeste.984. formulada claramente no esquema teórico narodnista. substantivamente diferemciadas.escrutina as vantagens e desvantagens do desenvolvimento capitalista chegando à conclusão de que a Rússia podia ainda eleger “outra via”. Assim. na rota para o progresso do processo histórico. a idéia de um desenvolvimento desigual. 4) era possível freiar o desenvolvimento do capitalismo na Rússia mediante a extensão das relações sociais do coletivismo camponês ao conjunto da sociedade. Em cada uma delas consideraremos ao menos um “marco teórico” que será utilizado como seu elemento caracterizador. socialista. Um terceiro traço do populismo russo.10 já uma dimensão hegemônica na Europa Ocidental. chegou a proporcionar a sua análise uma clara dimensão política. Ademais. 8-9). sem a descomposição do campesinato. Isso seria possível . Isso fazia necessário um “salto revolucionário no que o atraso podia transformar-se numa vantagem. Num esforço de síntese. pp. 3) nas formas de organização coletiva do campesinato russo existia um “estado de solidariedade” contrário à natureza competitiva do capitalismo. 1. em pé de igualdade. evitando a proletarização. e por outro a assunção e o desejo de que a Rússia saltasse a etapa capitalista para atingir uma sociedade mais justa. o narodnismo russo pode ser definido como uma práxis intelectual e política que elabora uma estratégia de luta contra o capitalismo caracterizada pelos seguintes traços: 1) Os sistemas de organização política gerados no seio do capitalismo constituem formas de submissão e dominação sobre o povo que gera uma minoria que pretende se legitimar mediante falsas fórmulas de participação democrática. as três etapas (fundacional. cronologicamente.

nas que poderiam aparecer homems e mulheres novos (Shanin. a cooperação simples camponesa podia ser “melhorada” para formas de progresso real (Edie.172-178).membro ativo da organização narodnista “Terra e Liberdade”. Mas a ciência não é objetiva: os indivíduos de pensamento crítico podem --.11 mediante o fortalecimento das formas de ação solidária do coletivismo camponês para evitar o sofrimento e a exploração que sobre a comunidade rural gerava a mercantilização das formas de vida e da natureza.com o povo --. Neste contexto. os falsos ciemtistas “apologetas do capitalismo” justificam os sofrimentos e a exploração do povo com leis objetivas da história e com leis de ferro da Economia Política. dentro de um contexto teórico mais amplo: a sociologia subjetiva. A coincidência entre eles e os representantes da anterior etapa em sua rejeição ao capitalismo e em seu desejo de que Rússia desse o salto ao socialismo sem passar pela descomposição do campesinato cristaliza numa formulação definitiva do marco teórico anterior. 1983: pp. 1965: II. Os ideais dos pesquisadores aparecem em seus “produtos”. 1864). Seus elementos teóricos são claramente precursores da atual investigação ação participativa e do desenvolvimento rural participativo. 1972:274-290. obviamente o pequeno campesinato --. Esta idéia foi desenvolvida nos anos sessenta e setenta do século passado como “dívida com o povo” no contexto teórico da sociologia subjetiva (Walicki. Assim. o desenvolvimento ficaria. Para Petr Lavrovich Lavrov --. 132. Vemturi. que veremos a seguir. al. Nicolai Konstantinovich Mikhailovskii via na obshina (comunidade rural russa) a possibilidade de evitar a homogemeização da sociedade que estabelecia o capitalismo através da “industrial divisão do trabalho” que impõe sua lei da especialização para o aumento da produtividade. 1974:434453. subordinado ao bem-estar social do campesinato. . com a “teoria das vantagens do atraso” que permitiria elaborar ou estratégia através da qual seria possível evitar a Rússia “descer ao inferno do capitalismo” como passo necessário para obter o progresso. Tal construção teria de fazer-se mediante uma cooperação solidária de caráter simétrico entre os camponeses e os técnicos e intelectuais (“pessoas de consciência pressionada”). LAVROV. 1984:179-188. 1969). 1982:316-18 XX). Chernyschevski. Vemturi. dado que a ciência não é objetiva.incluído. O progresso tem de medir-se pelo impacto das transformações técnicas e sociais nas classes trabalhadoras --. Kolakowski. MIKHALOVSKI e BERVI-FLEROVSKI (Teodor Shanin. Desta perspectiva. cujos representantes são TKACHEV.pelo que tal conceito tem de incorporar a ética para poder ser realmente científico. aliás. O Narodnismo clássico: Teoria das “vantagens do atraso” e sociologia subjetiva É esta uma segunda fase. et. através da comuna rural como núcleo do socialismo. Ao contrário. Esta teoria se encontra.incorporar a ética e a justiça à ciência mediante o fator subjetivo com o qual se construiriam as instituições sociais partindo da organização autônoma do campesinato. o campesinato se considera a instância moral que engloba as potencialidades para transformar sua estrutura e organização produtivas em “modernas cooperativas”. em todo caso. que parte do axioma de que a história não segue leis objetivas senão que é possível “selecionar dentre a massa amorfa de dados históricos” a via a seguir por nosso ideal social.

204-205 e pp. continuar a ação emcaminhada ao aumento da consciência camponesa. isto é. desenvolvendo uma propaganda. pelo seu reduzido tamanho e falta de meios. pp. 69-71.887. que numa primeira fase foi demominada “causa do livro”. Esta “ida para o povo” tem seu ápice na metade dos anos setenta. estabelecendo conexões entre os novos grupos ali formados. evoluiu com grande rapidez: o sucesso da “causa do livro” os levou a substituir esta pela “causa dos operários”. surgindo deles mesmos.I. Pelo contrário. 212-218 e Fernando Claudín. depois de várias tentativas. O processo supunha procurar uma análise da realidade conjunta com os camponeses para encontrar fórmulas que. com predomínio de jovems. “Prólogo” a V. trouxessem soluções a cada situação. A implementação prática das idéias esboçadas nos dois marcos teóricos anteriores tem lugar a partir dos anos sessenta do século XIX com o início de uma verdadeira migração de população urbana. ainda que a brutal repressão sobre a organização e os simpatizantes desta significou uma onda de detenções e execuções em massa. 1. O movimento anarquista pode ser definido como um sistema de pensamento . Passava-se assim de uma situação clandestina de diferentes grupos nas cidades a uma ação aberta em todo o território. 1971.738-52. Walicki. pp. A partir de 1. a maioria de seus líderes emigraram e 1. Os grupos assim criados pretendiam ser legais.881. que pretendia criar a estrutura organizativa para passar à ação transformadora. chegando a abranger uma grande parte do território russo. Anarquismo agrário: o campesinato como agente revolucionário e seu apoio mútuo como fator de evolução. 1974. ao campo. Em 1. (Vemturi. I. Lenine. Vol. pp. pp.883 abraçaram o marxismo. adotando o nome de Emancipação do Trabalho (Grupa osvobozhdemiya Truda). convencida da necessidade de uma ação conjunta com os camponeses para transformar as precárias condições de vida em que a abolição da escravidão tinha deixado os estratos camponeses pobres ao privar-lhes do uso comunal de suas terras depois da privatização destas. a primeira organização dos marxistas russos liderada por Plejanov (Teodor Shanin. 11 e 51-52). 1975. Simultaneamente. pp. o grupo majoritário da Vontade do Povo mostrou uma incrível capacidade de luta e habilidade organizativa para enfrentar de forma armada o Estado Tzarista.172-178). conseguiram matar o Tzar Alejandro II e. A ação destes grupos mediante a lenta tarefa da propaganda e a penetração de uma cultura moral. Shanin 1983. O núcleo central que articulava a rede de intercâmbios era Zemia i Volia (Terra e Liberdade). A resposta do poder estabelecido se traduziu em múltiplas detenções e o forte debilitamento da organização. ao conseguir a ajuda de editores para a publicação de textos e panfletos que se difundiam nas comunidades rurais. Esta organização. continuou a luta até 1. “fracassou em obter o mínimo impacto.879 se dissolve esta e a maioria cria o Partido Social Revolucionário da Vontade do Povo.984. social e política.12 A “Ida para o povo” como precedemte da Pesquisa Ação participativa: De “Terra e Liberdade” à “Vontade do Povo”. Sua estratégia de ação política era o desafio armado direto ao Estado Tzarista procurando sua derrota como prelúdio necessário para a transformação da sociedade russa. uma minoria estabelece a organização rival Partilha Negra (Cheryi Peredel) que pretendia continuar a tática e o programa de Terra e Liberdade.

livremente unidas. O ideal de uma revolução popular e camponesa cristalizaria numa federação de comunidades rurais. os traços positivos. bem como do modelo da futura sociedade ideal. distingue-se por alguns traços teóricos comuns que se concretizam na negação do Estado e a busca do estabelecimento de inter-relações humanas na base da cooperação voluntária expressa mediante pactos livres. A consciência histórica do povo russo se encontrava. a comuna russa supunha para Bakunin algo mais do que a alavanca para do que o povo russo chegasse a “redimir-se a si mesmo”. na Rússia da segunda metade do oitocentos. Woodcok. Assim.13 aberto e nada rígido que. existiam as condições objetivas precisas para o desencadeamento de uma revolução social. A rejeição da participação política nas instituições burguesas se configura. O fato de que Bakunin o elaborará para um caso concreto não é óbice para apreemder a análise teórica subjacemte e suas pretemsões de gemeralidade. isto é. Desde os interesses deste trabalho. o que se produziria de maneira efetiva e completa pela via da revolução social. no que se refere ao conceito de campesinato.973. Destruídos os elementos negativos. as figuras-chave configuradoras do “anarquismo agrário” são Bakunin e Kropotkin. pp. atrasavam a emancipação do povo russo: 1) o patriarcalismo. compartilhando com outras correntes radicais diversos elementos de seus pressupostos filosóficos. 1. . c) a autonomia política quase absoluta. C. 2) a absorção do indivíduo pelo mir. No exame da consciência histórica do povo russo. 1976. acima do mir. b) a posse da terra era um direito que não correspondia ao indivíduo senão à comunidade rural (ao mir). Bakunin distinguiu elementos positivos e negativos (Bakunin. no entanto. da crítica à sociedade atual. 3) a confiança no Tzar. como o elemento mais destacado e amplo (G.9). desde o campesinato. 19-20. entre outros. Bakunin identificava estas condições com a situação das massas populares camponesas russas definida pela conjunção da extrema miséria com uma servidão feudal que era modelo em seu gênero. particularmente a autonomia política e administrativa. 367-369). que provocava a hostilidade manifesta daquele em relação ao Estado.979. ficariam potenciados e poderiam se desenvolver até sua total realização. segundo a qual. A correção do ideal do povo russo numa orientação positiva supunha a destruição dos traços negativos. A debilidade do mir radicava. conseguissem estender a revolução a toda Europa. então. Álvarez Junco. em seu isolamento. Na obra de Bakunin subsiste uma “teoria do campesinato como agente revolucionário”. 5 e ss. VI: pp. bem como a capacidade administrativa e gerencial do mir. pois. a quem passamos a considerar. significava também a possibilidade de encontrar aqueles fatores que. os camponeses somente colocavam o Tzar e não percebiam a necessidade de estreitar laços e relações com os camponeses membros do resto de comunidades rurais. que se emcarregava de repartí-la entre seus membros por prazos temporários definidos. desde o ponto de vista da práxis política. Díaz. O marco teórico do “campesinato como agente revolucionário” consiste. pp. no estabelecimento de um sistema de fatores como estrutura analítica para explorar a potencialidade revolucionária do campesinato. 1. desnaturalizando-a em parte. Entre os positivos incluía: a) a convicção fortemente arraigada de que a terra pertencia integralmente ao povo. pp. à que adicionava uma consciência histórica de emancipação social. obscurecida por outros três traços que.

890-1. pp. Díaz. características do estádio animal e próprio de uma vida humana selvagem. mas se integrava dentro da organização estatal. é esta. junto à emancipação social. pp. quem adjudica a seus membros a utilização da terra para obter o acesso aos meios de vida. (1. Em Kropokin. onde ainda existia o “ideal proletario dos países latinos”. as teorias anarquistas obtiveram um alto nível de desenvolvimento e elaboração científicas.978.7-19). suas contribuições ao pensamento anarquista se centraram na questão social. pp. a outro definido pela paz a evolução . 1976. Resumindo. 328-336).896 na revista The Nineteemth Cemtury em resposta ao artigo “A luta pela existência na sociedade humana” que. Peter Alekseievich Kropotkin (1. de lutar contra ele e de destruí-lo. “o uso da terra não pertence ao indivíduo senão à comunidade”. Vemturi. Um resumo e balanço do pensamento de P. em P. a valoração dada por Bakunin a respeito do mir dependia de suas relações com o Estado: enquanto este se contrapunha ao Estado. VI: pp. que a trabalha”. (1. Kropotkin. considerava-o reaccionário. atingindo uma reputação e respeito universais.14 Para Bakunin as zonas vazias do capitalismo permitiam gerar uma revolução que culminaria numa Europa socialista. Woodcock. como o fator desencadeante de uma revolução social que tinha como ideal a destruição do Estado e. 1. portanto. algo coletivo que não admitia a apropriação individual. 689).895) publicou no número de fevereiro de 1. a introdução de elementos como a autonomia política das comunidades rurais e a federação como modelo da organização política (F. Huxley (1. no esquema teórico de Bakunin ressalta a dimensão política que conceitualiza o mir como núcleo social com vida própria e com capacidade para resistir às ingerências do Estado.Arvon. descemdemte da alta nobreza russa. Herzem e Chernyschevsky. expresso em miséria e dominação social. 372-3769). pp. Por conseguinte. Em contraste.Escola.888. os fundadores do populismo russo. supõem discrepâncias com seu mestre. Estas eram a periferia européia. C.921) foi claramente um discípulo de Bakunin que.981: p. a moral solidária. pp.D. aceitando o núcleo central de seu pensamento. o reputado naturalista T. alguns dos quais. A. portanto. (1. 62-64 e 123-124). a qual faz parte de uma lógica econômica alheia ao capitalismo e às formas de concorrência que introduz no sistema de valores da coletividade (Bakunin. como veremos.825-1. Como vimos anteriormente.975. Huxley expressou a idéia de que a civilização humana nasceu no trânsito de um estado de guerra mútua e amoralidade. o comunismo e a crítica ao darwinismo social. desenvolveu muitos de seus aspectos. e em H. ao mesmo tempo em que ampliaram e combinaram os conteúdos agrários com os industriais (o anarcocomunismo).153-156). Entre todas suas contribuições. 1. O campesinato russo possuía os elementos capazes de gerar essa dinâmica revolucionária. na referida revista. Em tal artigo. Os critérios de tal distribuição constituem parte da “ética camponesa”. Igualmente. era revolucionário. A propriedade era. O conceito de propriedade capitalista não tinha sentido para a terra dentro da cultura camponesa russa. 1978) recopila os artigos que Kropotkin foi publicando no período 1.H. Bakunin interpretou o atraso russo. Palerm. Kroptkin pode encontrar-se em G. Apoio mútuo (Kropotkin.976.842-1. quiçá a que tem uma maior relevância seja a conversão do apoio mútuo numa categoria científica.981. 172-206). viram no atraso econômico a razão que poderia permitir à Rússia tirar proveito dos progressos técnico-econômicos dos países europeus capitalistas encurtando as etapas transitórias entre capitalismo e socialismo. (1.979. O núcleo central de tais elementos se baseava na convicção “de que a terra pertencia ao povo. G.

Kessler. 151-156). Todos estes artigos reunidos num livro foram publicados com o título e subtítulo seguintes: O apoio mútuo. professor da Universidade de São Petesburgo. fazia-se justiça. A comuna rural no pensamento de Kropotkin. predominava a luta individual ou associada contra algumas condições naturais desfavoráveis. Kropotkin. Kropotkin considerou de interesse o tema. Kropotkin pôde contrastar as teorias darwinianas com a realidade observada e. publicado pela revista Nineteemth Cemtury nos meses de setembro e novembro de 1. São de ressaltar as contribuições de Kropotkin ao debate sobre a propriedade comunal sobretudo aquelas que se cemtram na dimensão ética das formas instituições comunais criadas a partir da sociabilidade humana como mecanismo de sobrevivência e luta em condições desfavoráveis de existência e no papel do Estado enquanto agente classista de desmantelamento e destruição de formas e instituições nascidas desde uma perspectiva de solidariedade e cooperação humanas.976 . a persistência de certas condições próprias de uma vida natural na história humana provocava que. além de uma associação que facilitava a cada família membro o acesso igualitário ao cultivo da terra e regulava o cultivo em comum da mesma. os sistemas de posse da terra e métodos . Um fator de evolução. a luta pela existência mantivesse uma intensidade tão aguda como a existente num estado de guerra (A. articulava-se a participação democrática nos assuntos comuns e se desenrolava o progresso econômico. Palerm. estimando-a como uma representação inexata do mundo animal. dentro de cada espécie animal. em vez da esperada luta cruel pelos meios de subsistência. No capítulo de méritos da comunidade rural. ao pretender fundamentar historicamente o liberalismo econômico então emergente desde o “núcleo duro” do pensamento científico. Assim que quando Huxley publicou sua tese da luta encarnizadas nas espécies animais. deu-lhes a possibilidade de desenvolver progressivamente as instituições sociais e. na cidade medieval e na época moderna. pode dar-se conta de que. em concreto. permitiu-lhes atravessar os períodos difíceis e sombrios da história humana. Knowles. estepes e desertos. Assim. Durante sua estadia na Sibéria. entre os bárbaros. pântanos. a Huxley e A Kropotkin para persistir na polêmica obteve a negativa do primeiro e a aceitação do segundo. por isso Kropotkin considerou um dever inevitável mostrar a falsidade de tal proposta teórica. organizava-se a defesa mútua contra inimigos externos. aprofundou na questão e foi publicando artigos na citada revista. O convite efetuado por J. cobrindo os diferentes estádios da história humana. a luta mútua e a ajuda mútua.890. nessa comparação. intelectual e moral da época.15 moral. 1. quem via a evolução das espécies como o resultado da ação de duas leis. no entanto. Este trabalho teve uma importante repercussão no “sistema científico” da época. rebateu-a mediante o artigo “A ajuda mútua entre os animais”. pp. Kropotkin incluiu a exploração agrícola de bosques. representava o marco organizativo através do que se desenvolvia em suas múltiplas variantes o apoio mútuo. Estas primeiras idéias foram maturando com o conhecimento do pensamento desenvolvido nesta linha por outros autores. destacando o papel desta sobre aquela. analisou a ajuda mútua entre os “selvagems”. apesar dos controles morais nascidos do progresso civilizador. A comuna rural uniu os homems. assim. diretor da revista The Nineteenth Century.

Os mecanismos desta ruptura são os que requerem diferentes tipos de análises segundo as “condições históricas” e o lugar que ocupem no sistema capitalista. poderia definir-se como uma teoria da revolução na que o campesinato é uma classe revolucionária em potencial. Kropotkin. crescimento e extensão pelo território das comunidades rurais (P. a infra-estrutura de serviços. sobre o campesinato e a revolução. P. atuantes como preconceitos. 2) a estrutura organizativa e material de sua organização econômica possui. ao invés. Kropotkin interpretou o processo de formação das nações européias como um resultado. 76-79 e 11-123.979.977. 1. XXCC p. vol. 1. realizado tomando como evidência empírica a França (Cartas a um francês) diferem de sua análise da periferia . A teoria do apoio mútuo como fator de evolução faz uma caracterização das diferentes formas históricas de organização social do campesinato e critica as intencionadas políticas de extinção das comunidades rurais. permite definir a “orientação teórica do anarquismo agrário” como um populismo especificamente anarquista que não vê em Rússia “os privilégios do atraso” a partir da perspectiva de uma recondução do processo de avanço das força produtivas senão o desencanto. etc. derivado do surto. o avanço da produção doméstica. Seu escrutínio diferencial nas condições da semiperiferia do capitalismo. já que: 1) o apoio mútuo constitui um elemento central da natureza das relações sociais existentes no interior das comunidades rurais que é possível potenciar frente a elementos inibidores. um “atraso” que pode ser superado em formas de ação social coletiva de caráter revolucionário ao “reter este a energia da natureza popular”. posto que se supunha que a posse comunal da terra era incompatível com as exigências contemporâneas do cultivo da terra. Mas a verdade é que em nenhuma parte desapareceu a comuna aldeana por própria vontade. Assim mesmo. dentro de uma dinâmica de exploração crescente em que “trabalhar com as mãos lhes condiciona moralmente” fazemdo-os odiar os “exploradores do trabalho”. 143-146 163-166. 1978: 143-68). de forma tal que: 4) só determinados aspectos tradicionais.16 de cultivo. Ademais mostra como o então emergente liberalismo econômico não tem nada que ver com a evolução biótica das espécies. Kropotkin. pelo que. O “atraso” não permite a “marcha atrás” senão o avanço para a revolução social. lhes separam. de um populismo anarquista ou anarquismo agrário que. rompidos tais preconceitos pela comunidade “de interesses da classe trabalhadora”. o direito comum e penal. as sociedades humanas não podem ser regidas pela concorrência do mercado e umas falsas leis que justificam a exploração do trabalho. pp. por tanto. é possível desatar a autêntica “rebeldia natural” existente na estrutura social do campesinato (Bakunin.pp. num esforço de síntese.292-309. certamente. a miséria e como conseqüência o desespero do campesinato. Uma leitura do pensamento de Bakunin. em suas características fundamemtais. José Alvarez Junco. 7. pp. 9-29). contextualizada pela práxis intelectual e política do populismo russo. dos comuns “interesses dos trabalhadores urbanos”. realmente. vol. Assim se pode falar. 3) a condição subordinada a que se vê submetida sua forma de produzir. Kropotkin. e 1974. 228). Nas próprias palavras de Kropotkin: “as teorias correntes dos economistas burgueses e de alguns socialistas afirmam que a comuna morreu na Europa ocidental de morte natural. 46-61. em todas partes as classes dirigemtes precisaram em vários séculos de medidas estatais persistentes para desenraizar a comuna e confiscar as terra comunais”. completada com o de Kropotkin. 2 pp.

ao escrever A origem da família. O operário urbano é o setor marginal da cidade em cada situação específica. estabeleceu que “o marxismo era uma visão total do mundo” e introduziu o termo “materialismo dialético” para expressar a estratégia teórica e metodológica do marxismo. Neste contexto. 353-374. pp. seu conceito de “operário urbano” varia segundo a posição deste no capitalismo. realizados a partir da Segunda Internacional (1889). Alexander I. onde os “camponeses estão castigados pela pobreza”. 1972b. ali. Herzem. sendo os outros dois volumes editados e publicados por Engels (1885 e 1894) a partir dos manuscritos e notas de Marx. e Shanin. Por conseguinte o conceito de marxismo ortodoxo se refere à assimilação por parte do proletariado da crítica à economia política efetuada pelo materialismo dialético para levar a cabo a revolução socialista. tanto naturais como sociais. 1. máximo representante do marxismo russo.17 onde trata em forma diferemciada a Rússia. ao ser assumidos por este. Mas Marx rejeitou várias vezes. ainda que sempre aceitou que este se realizava desde os interesses das classes trabalhadoras. do qual só o volume I foi publicado em vida de seu autor (1867). III. Bakunin.pretendeu desenvolver uma teoria geral do processo histórico. que culminasse a obra realizada conjuntamente por ambos autores.uma vez morto Marx e utilizando os materiais (conhecidos como cadernos ou anotações etnológicos) que Marx elaborou durante a última década de sua vida . atribuiu ao trabalho de Marx e Engels o status de uma teoria geral da evolução que incluía tanto a natureza como a sociedade e à qual subsaía uma ética naturalista e uma visão materialista do mundo. surgiria sem nenhum tipo de imposição. 1. Sobre o marxismo ortodoxo O marxismo ortodoxo constitui o conjunto de desenvolvimentos sobre o pensamento de Marx e Engels. 1884. o qual era. e encaminhados a gerar uma estratégia teórica e metodológica desde os interesses do proletariado para. Vol. que seu trabalho constituísse um sistema teórico do qual desprendesse uma visão do mundo. pp. de Engels. 5-40).975. a existência de uma ética natural contrária à que introduz o capitalismo e reproduz o Estado com a propriedade privada como instituição central. pp. Bottomore.. 1978. Karl Kautsky --. 1878. 1983). M. pp. considerado como uma nova ciência que a modo de filosofia “natural” generalizaria as contribuições das ciências especiais. Não obstante. O trabalho chave do que se supõe que se desprende esta concepção científica do mundo é o Anti-During. da propriedade privada e do Estado (Engels. deve-se a Engels o conhecimento cabal da obra chave de Marx: O Capital. Engels . de Espanha ou o sul de Itália (Circular a meus amigos de Itália). é algo que a cultura camponesa mantém como algo impresso em sua natureza. A justificativa teórica disso está no conceito de “apoio mútuo” como contribuição de Kropotkin. De igual forma. durante sua vida. tomo I. Foi então quando Plejanov. 176-177. mas nunca a “aristocracia operária”. . e tomo II.um dos autores clássicos da sociologia rural.979. Pelo contrário. (Franco Vemturi. Hobsbawm. 1ª edit. 1983. 1972a. como veremos mas adiante. O papel central no processo revolucionário do coletivismo camponês só seria explicável lá onde existam instituições com tal natureza. No entanto. atingir o socialismo. 1ª edit. assim. depois da guerra “civil no campo”. construindo teorias gerais da natureza e da sociedade.688-689. que conserva o mir. a ação social coletiva transformadora como uma conseqüência lógica do “instituto socialista camponês”.

1961 . e Mais vale pouco e bom (1923) ( Cf. em Cuba por Fidel Castro e seus guerrilheiros. Na Rússia. I : Lenin. Desta forma se inverteu a relação entre classe operária e sua consciência de si mesma: em primeiro lugar com a ajuda dos intelectuais que pertenciam ao partido. 3 Vol. Assim. que há que diferenciar. tal consciência era transmitida à classe operária. O marxismo se converteu na doutrina oficial do Estado e do partido. os quadros do mesmo desenvolviam esta consciência de classe cujo núcleo estava constituído pela visão marxista do mundo e.). Duas táticas da socialdemocracia na revolução democrática (1905). aproximadamente a partir de finais dos anos vinte. sobre a base das circunstâncias empíricas. com Stalin a doutrina da visão do mundo ficou congelada em dogma durante o período da construção de um socialismo burocrático de Estado. o marxismo Leninismo tem de ser entendido como o conjunto de desenvolvimentos da obra de Lenin encaminhados a obter a assimilação. como gerador da tática e estratégia da ação social coletiva revolucionária. .tinha por objeto assegurar a disciplina e exclusividade dos quadros do partido e sua indiscutível orientação de liderança. Um passo à frente dois passos atrás (1904). como contexto teórico geral. “consciência de classe em si e para si”. chamou-se a esta doutrina do marxismo enquanto visão do mundo --. 1984. e era um ponto obrigatório para todos os cidadãos soviéticos. Baseia-se esta nos conceitos teóricos de “vanguarda”.18 É importante não confundir o marxismo ortodoxo desde uma perspectiva acadêmica. durante a época de Stalin e de forma verdadeiramente pouco crítica. desde uma perspectiva acadêmica. consequentemente. Enquanto Lenin estava ainda disposto a aceitar revisões de sua teoria. senão também à ciência e à arte” (Bottomore. com o marxismo Leninismo. e na Nicarágua pelo Sandinismo respondiam à ação social coletiva desenhada pelo marxismo Leninismo para provocar a mudança social revolucionária. A respeito do infantilismo esquerdista e do espírito pequeno burguês (1918) . as práxis intelectuais e políticas elaboradas na Rússia pré-revolucionária. de especial relevância para a sociologia rural. pp. uma elite intelectual transmitiu à pequema população já empregada na indústria em grande escala sua práxis política de libertação na infraestrutura organizativa delimitada pela teoria de Lenin do partido político. 496.tal como mais tarde. desenhados por Lenin em Que fazer ? (1902). Assim. tal como vai ser definido mais adiante. a sua vez. por parte do proletariado de uma prática intelectual e política para levar a cabo a revolução em coordemadas de tempo e espaço determinadas. 1988). “A ideologia --. depois. da obra de Vladimir Ilich Ulianov “Lenine” vinculada às realidades sociopolíticas da Rússia prerrevolucionária. Desta forma. primeiro e da URSS. O Estado e a revolução (1917). Shanin. Contexto teórico do Marxismo ortodoxo O Marxismo ortodoxo. Foi neste período. e pode ser . V. constitui o primeiro enfoque construído como desenvolvimento do pensamento de Marx e Engels. naquele momento histórico. funcionou a estratégia desenhada por Lenin ainda que suas adaptações a cada conjuntura histórica mostraram que seu esquema possuía uma ampla flexibilidade analítica. que depois da revolução cresceu rapidamente. quando a visão do mundo se converteu numa camisa de força que se impôs. Foi bem como surgiu o marxismo ortodoxo que passamos a definir. a importância da organização “na ação social coletiva” e “tática e estratégia na dinâmica da mudança planejada”. não somente aos cidadãos.

o desconhecimento da intencionalidade explícita de Marx em cada um dos seus escritos. também influenciou nele um conjunto de fatores. Eric Hobsbawm. e que a excelente síntese que escreveu a partir deles como prefácio à sua Contribuição foi por ele suprimida ao publica-la. i) Incompreensão do O Capital. centrada no primeiro país industrializado. iii) unilinearidade do processo histórico. 1970. na opinião de alguns estudiosos. escravista.19 caracterizado através dos seguintes traços teóricos: i) incompreensão do contexto teórico de O Capital. 1971: pp. Lawremce Krader. Não obstante. realizam do O Capital se deve. Vejamos. os “teóricos ortodoxos” do movimento operário. e uma terceira de aproximação ao campesinato. 615-642 e 1973. pp. entre os quais se destaca a peculiar forma de escrever de Marx. e iv) consideração da agricultura como um ramo da indústria. tem muito a ver com a práxis política do Marxismo . como demonstrou Shanin (1983). Marx já se havia proposto. com anterioridade. onde começa a analisar o papel do campesinato no processo histórico e inclusive. cada um desses traços. Teodor Shanin. sobretudo. já “que adianta resultado. ao nível de conhecimentos existentes naquela época sobre a obra de Marx. sobretudo. é sim necessário. possivelmente. que consideraremos com maior detalhe adiante. pp. 1964. 7-11). 1983). se. quer dizer. O fato de que estes “manuscritos” foram publicados em 1939-41. 1971. como se depreende do “Prefácio” da Contribuição à crítica da economia política. a existência de uma via camponesa (Shanin. 1988. é possível detectar a aceitação de determinados elementos dos marcos teóricos esquematizados na orientação teórica do narodnismo como a diversidade de vias para o socialismo e. ao relegar elementos centrais de seu discurso a notas de rodapé de pé de página ou a lugares periféricos de seu método expositivo e. 1976b. ainda que de maneira esquemática. reconhecer a virada narodnista que se operou no pensamento de Marx em seus últimos dez anos. apesar de que Marx os realizara “não para serem publicados senão para esclarecimento de suas próprias idéias”. 1978 e 1996. Tal incompreensão radica na generalização a todo o mundo das apreciações que Marx havia obtido através de uma evidência empírica européia. Inglaterra. toda a vez que elevam a categoria de lei universal a seqüência de modos de produção (comunal. 1986 e 1987). Sem chegar a aceitar a conhecida diferenciação do pensamento de Marx em três etapas: uma hegeliana e idealista da juvemtude. não somente construir uma teoria geral do processo histórico (Marx. quase um século depois. foram escritos no final dos anos cinquenta quando preparava a revisão publicada um ano depois de O Capital. a possibilidade de articulação entre vários modos de produção dentro de uma mesma formação socioeconômica (Marx. 106-107). obviamente. ii) Esquecimento do último Marx. senão a possibilidade da existência “em todas as formas de sociedade de uma determinada produção que indique a todas as outras sua correspondente classe e influência”. ou dito em outras palavras. A incompreensão do enfoque teórico que. E isso. ainda por demonstrar”. ii) interpretação errônea do último Marx por parte de Engels. outra madura e materialista de caráter científico. feudal e capitalista) utilizados por Marx tão somente como modelos ou cortes históricos em seu processo de contrastação no interior de seu método de regressão histórica. conhecidos a partir dos anos sessenta do século passado após uma rigorosa pesquisa de seus materiais de trabalho (Maurice Godelier. Outro erro consiste no desconhecimento da metodologia utilizada por Marx na citada obra. 1983 e Angel Palerm.

nos quais se produz um desajuste entre as formas de produzir e a maneiras de pensar e atuar. se aplica a qualquer sociedade histórica para conhecer seu estado de evolução para o progresso: a sociedade sem classes.20 ortodoxo. em que a exploração do trabalho se produz através dos mecanismos do mercado e na base do surgimento da propriedade privada dos meios de produção. no qual a caça e a coleta constituíam a base material do sustento da sociedade. O primeiro modo de produção conhecido é o “comunismo primitivo”. ideológica e cultural. após a morte de Marx. pois. e cai nos citados erros com respeito à existência de uma seqüência única. quando. pelo contrário. consolidando-se assim um novo modo de produção. inexorável. Por outro lado. Isso só se pode compreender sob o prisma da incompreensão de Engels ao ler os Apontamentos Etnológicos de Marx (Lawremce Krader. 1988). numa seqüência taxonômica única através de períodos de transição até alcançar uma coerência entre a base material e a superestrutura política. 1976. onde a apropriação do trabalho alheio implica inclusive o domínio sobre as vidas e fazemdas de pessoas submetidas a tal forma de dominação. compartimentada de modos de produção. seu amigo e companheiro de trabalho Engels empreende a tarefa de reconstruir seu pensamento nesse período. pensar e atuar do modo de produção anterior. Palerm. Deste modo de produção se passa ao modo de produção “escravista”. quer dizer. o socialismo. iii) Processo histórico unilinear. no qual se superam as contradições deste Assim. da propriedade privada e do Estado” (1972 a). Assim. Para os marxistas ortodoxos esta periodização. modo de produção posterior ao capitalismo. que estamos caracterizando em sua dimensão acadêmica (Marx. A dinâmica de mudança das sociedades implica o trânsito de uns modos de produção a outros mediante determinadas leis do movimento econômico das sociedades. seguindo a necessidade histórica marcada pelos clássicos do pensamento social da época. pp 9-66 e 106-1079. Tal erro supôs uma legitimação da interpretação dos marxistas ortodoxos. Os teóricos do Marxismo ortodoxo consideram que Marx subscrevia uma teoria geral dos modos de produção e formações socioeconômicas aplicável universalmente a todas as sociedades históricas. uma determinada estrutura socioeconômica se construirá sobre as bases das antigas formas de produzir. E finalmente aparece o modo de produção capitalista. dando a falsa evidência de que Marx havia alcançado tal propósito em sua obra. obviando os citados achados de seu companheiro. que corresponde em linhas gerais à realizada por Engels na “A origem da família. A . Aparece assim novas lógicas sociais que transformam as relações entre os homems e a maneira de atuar sobre a natureza para extrair dela as condições materiais da vida social. ele considerava que ainda não havia alcançado a maturidade de pensamento nem a evidência empírica suficiemtes para formula-la. 1973.b). A passagem de um modo de produção a outro se realiza segundo períodos de transição. como vimos anteriormente. Engels tenta elaborar uma teoria geral da evolução das sociedades. um modo de produção é uma espécie de estrutura que articula formas de produzir com maneiras de pensar a atuar. como se depreende dos Grundisse e do Prefácio à Contribuição. O Modo de Produção feudal se caracteriza pela vinculação pessoal do campesinato usufrutuário da terra com o senhor que possui o domínio eminemte sobre ela. como veremos mais adiante. surgidas delas de certa maneira.

como acabamos de ver os planos de Marx eram muito distintos ao considerar que seu trabalho ainda não estava maduro para a letra impressa. de fato. tenha sido “descoberto” nos anos sessenta do século passado (Séc. Sem dúvida. os quais em 1899. a natureza da agricultura e. analisaram a passagem da agricultura feudal para a capitalista. em seus respectivos trabalhos. i) O contexto teórico do O Capital. quando a morte o surpreendeu. 1983). portanto. iv) o marxismo ortodoxo agrário. iv) Consideração da agricultura como um ramo da indústria. Al. 1986. no O Capital. de natureza marxiana. pois. todavia. Para analisar os elementos básicos da agricultura Marx. Consistia este em estabelecer desde o presente diferentes hipóteses sobre o futuro da agricultura. 1987. O marxismo ortodoxo considera que.21 mudança social na história se produz através de leis de transformação dos modos de produção irreconciliáveis entre si numa seqüência compartimentada de fases históricas. iii) o marxismo clássico heterodoxo. portanto. . O Desenvolvimento da Agricultura na Rússia e A Questão Agrária. Shanin. a agricultura no modo de produção capitalista tem que atuar como um ramo da indústria já que o desenvolvimento das forças produtivas havia permitido ao homem dominar a natureza para extrair dela o acesso aos meios de vida. Presumia. 1972: pp. Os “marcos teóricos” surgidos do debate sobre a “questão agrária”: do marxismo clássico heterodoxo a um narodnismo marxiano? A questão agrária constitui o debate intelectual e político estabelecido na Rússia do oitocentos com relação ao papel da forma de manejo dos recursos naturais no processo histórico. Seu tratamento da agricultura se encontrava. Ignora. em plena análise do campesinato (cf. de outro. através de um processo unilinear (Godelier. Trabalho esse que atribuíam a Lênin. quer dizer. Deste debate surgem várias correntes teóricas que vamos aqui considerar: i) o Contexto teórico do O Capital. A partir do modelo hipotético assim construído. estabeleceu a hipótese de que a agricultura européia já era um ramo da indústria. Por isso não fez uma análise específica para ela senão em formações sociais précapitalistas. e Kautsky. em sua obra chave. O Capital (18671869) perscrutou os mecanismos através dos quais funcionava e se desenvolvia o capitalismo. limitado pela estratégia metodológica dotada em tal obra. Shanin. Lawremce. de um lado. XX). que O Capital possuía um vazio teórico que havia de preencher. ii) o narodnismo marxiano (ainda que este. da evolução do campesinato. Marx. que se conhece com o nome de estratégia da “marcha para trás” ou “método regressivo”. tomando como base empírica a Rússia e Alemanha. 1983 e 1985-87. toma aqueles elementos que se postulam como essenciais para perceber assim sua evolução. 1-70). a agricultura industrializada é uma ferramenta heurística para desvelar os mecanismos de evolução do manejo dos recursos naturais até a agricultura industrializada. Esta se obtém ao ser confrontado cada elemento com seus homólogos tal e como aparecem no modelo de cada modo de produção correspondente aos períodos históricos anteriores. 1976 b). que no “método regressivo” através do qual Marx perscruta a realidade. quer dizer. respectivamente (Godelier et. Palerm.

Em estreita relação com estas últimas colocações se situa uma série de autores que mostram claras discrepâncias com a corrente . quer dizer. enquanto que as formas materiais de manejo dos recursos naturais possuem entretanto múltiplos elementos do modo de produção feudal. não fez uma análise específica para ela no presente histórico. se introduz na análise do campesinato no processo histórico. a mais-valia fica em poder do proprietário individual a quem pertence o escravo. ao faze-lo. 1966. ao modo de produção capitalista. Shanin.22 Para analisar os elementos básicos da agricultura. já que nesse período as formas de organização social e de pensamento vinculadas à agricultura se correspondem. para depois adquirir a dimensão da renda no sentido moderno da palavra. aparece como conseqüência lógica o possível desenho de múltiplas vias para obter o progresso. Segundo mostra Shanin e seus colaboradores na sua análise do último Marx. Serve-nos como exemplo da aplicação do método regressiva à agricultura a consideração do funcionamento da renda da terra como mais-valia. retoma os problemas colocados em seus esquemas aclaratórios sobre a evolução das sociedades como crítica à economia política. e que denominou “forma de produção mercantil simples na agricultura”. o que se alcançou mediante um trânsito da renda em trabalho a esta em produtos e em dinheiro (Marx. Marx aprende russo e. que considerou que englobava desde o último terço do século XV até o momento em que escreve. Por isso. 1983 e 1985-87. iii) O marxismo clássico heterodoxo. Por isso. no O Capital. este parece chegar a aceitar um evolucionismo multilinear do processo histórico. nos últimos dez anos da sua vida. como uma remanescente “sobre a parte proporcional que corresponde a cada capital concreto na mais-valia produzida pelo capital global da sociedade”. a renda como uma remanescente sobre o lucro médio é apropriada pelo senhor feudal na forma de trabalho. A projeção desta ao passado o leva a demonstrar que na agricultura comunal não existe mais-valia agrária. estabeleceu a hipótese de que a agricultura européia seria no futuro um ramo da indústria. Marx. abrindo com isso imemsas possibilidades para o estudo dos processos que têm lugar na agricultura. 1976b). E. com ou sem terra. Marx pensa que quando o sistema capitalista está plenamente consolidado já terá deixado de existir a agricultura parcelaria ou camponesa na sua modalidade de “produção simples de mercadorias agrárias” e já se terá imposto a industrial. assim como a coexistência de distintas formas de exploração na estrutura socioeconômica de uma determinada sociedade. se introduzirmos a problemática populista com relação à valoração do conhecimento local e em parte deste no manejo dos recursos naturais. ainda que este não possa. Pérez Touriño. ii) O narodnismo marxiano. Como assinalamos anteriormente. E. Palerm. No feudalismo. denominar-se como tal. 1983. numa boa parte. pp 7 e 1986. quando é camponês. 1987. e motivado pela riqueza que adquire na Rússia os debates populistas em torno do primeiro tomo do O Capital. e no período em transição do feudalismo ao capitalismo. sob a influência desses debates. pp. a “produção mercantil simples na agricultura” como forma de produção só desempenha um papel “subordinado” na reprodução da sociedade (Godelier. senão que o fez para os elementos teóricos chaves da agricultura em cada uma das formações sociais precapitalistas. rigorosamente. No escravismo. De fato. à qual alguns qualificam como “modo de produção camponês”. 766).

de forma tal que assinala a necessidade de um período de pequema produção para a consecução de um modo de produção socialista através de uma acumulação primitiva específica. num esforço de síntese o Marxismo Ortodoxo Agrário poderia definir-se como o esquema teórico que interpreta a evolução da estrutura agrária no processo histórico através das seguintes características: 1) Evolução unilinear: As transformações que se operam na agricultura respondem às mudanças que se produzem na sociedade global. através das vantagens das “economias de escala”. a sucede a servidão. Portanto. Assim. 1985. e o trabalho assalariado nos tempos modernos”. Preobrazhemsky. Preobrazhemsky ao analisar a transição ao socialismo elabora uma “teoria da acumulação primitiva socialista”. 5) Contraposição entre a . Nikholai V. as transformações que têm lugar no campo se produzem seguindo uma seqüência histórica de modos de produção inconciliáveis entre si. uma “socialização da circulação” (Luxemburgo. 1965. em suas próprias palavras. Bujarin. 1971).23 teórica do marxismo ortodoxo antes considerada. 4) Superioridade da grande empresa agrícola: as grandes possibilidades de adaptação da grande exploração ao funcionamento da agricultura capitalista. 1972. Preobrazhemsky. Bujarin e E. 140-41. Palerm. Bujarin desenvolve uma estratégia para o campesinato segundo a qual junto à exploração parcelaria no nível da produção apareceriam formas de integração vertical no processo de circulação. pp. como um ramo a mais da indústria. 2) Sequência histórica: Tais formas de exploração se inserem em fases históricas de evolução das sociedades em que a reprodução das relações econômicas e sociais responde à lógica de funcionamento do desenvolvimento das forças produtivas. como modo de produção prévio ao socialista. Em forma análoga. na Idade Média. Uma vez clarificado o conceito marxismo ortodoxo e as correntes teóricas que se afastam de tal codificação do pensamento revolucionário é possível a nós considerar a interpretação que este faz da questão agrária. segundo o qual em toda sociedade se produz a coexistência de “regimes de produção diferentes assim como um forte intercâmbio entre eles. 3) Dissolução do campesinato: A aparição do capitalismo. o campesinato como estrutura social não capitalista possui mecanismos de funcionamento que marcaram fortes peculiaridades em seu intercâmbio com a forma de exploração dominante nessa determinada sociedade. gerando assim infraestruturas de caráter comunitário ou. 1976 b. Nesta linha. Entre eles nos interessa considerar ainda que em forma esquemática a Rosa Luxemburgo. avançando assim para a socialização da produção agrária. gerando formas de polarização social nas quais se produz um processo acumulativo de formas de exploração social. dotam o latifúndio de uma potencial superioridade técnica que. iv) O marxismo ortodoxo agrário. Neste sentido. permitiriam o crescimento de sua composição orgânica do capital. “a escravidão é a primeira forma de exploração. Assim. A centralização e concentração como processos necessários ao capitalismo industrial eliminam o campesinato da agricultura por ser ele incapaz de incorporar-se ao progresso técnico. já que suas contribuições permitem delimitar os contornos de uma corrente teórica distante das rigidezes da doutrina oficial. Shanin. determina a dissolução do campesinato como organização socioeconômica característica dos modos de produção prévios a ele. a forma própria do mundo antigo. É possível atribuir à Rosa Luxemburgo o estabelecimento de um marco teórico sobre os “espaços vazios do capitalismo”. Estas mudanças estão determinadas pelo crescimento das ‘forças produtivas’ e a configuração do progresso como resultado.

E ao faze-lo. ao atribuir ao capitalismo um “trabalho histórico progressista”. o qual atuaria como uma forma de exploração gérmem de uma tendência para a socialização da produção. quer dizer. por outro. Deve-se à Plejanov e outros intelectuais revolucionários que se afastaram do narodnismo a elaboração do esquema teórico central desta corrente teórica. o marxismo ortodoxo atribui à Kautsky e Lenin a formulação do contexto teórico das transformações que se produzem na agricultura durante o desenvolvimento do capitalismo. “o desenvolvimento das forças produtivas”. Os marcos teóricos do marxismo ortodoxo: da função histórica progressista do capitalismo à agonia do campesinato Como acabamos de ver.24 grande e a pequema exploração: Como resultado do anterior. como defendiam os anarquistas. Não seria. senão os avanços tecnológicos materiais. à investigação realizada por Marx no primeiro tomo do O Capital. De forma análoga.contraditoriamente à tese central de seu trabalho --.o “setor camponês da economia política capitalista” como uma fonte de “acumulação primitiva contínua”. a dinâmica do capitalismo gera uma confrontação entre o campesinato e o latifundismo que tem como desenlace a proletarização do campesinato e a polarização social no campo. as matizações de Kautsky em relação à tendência geral do capitalismo em dissolver e eliminar o campesinato o levam a explicar os mecanismos da “maior lentidão” dos processos de centralização e concentração na agricultura. Nessa caracterização aparecem múltiplas contradições com relação à forma de exploração camponesa e o latifundismo. e o enfrentamento social que este provocaria. para estes autores. Tais características apontadas esquecem que a riqueza da análise realizada por ambos. a caracterização que faz Lênin dos mecanismos de proletarização do campesinato é interpretada em um contexto teórico geral e não somente aplicada à Rússia. formula propostas teóricas com respeito às pressões políticas dos grandes proprietários de terras e o papel do Estado. Tal proposição aparecia subjacemte. eleva a teoria geral o processo histórico europeu. Aparece assim um novo marco teórico segundo o qual “para alcançar o céu do socialismo torna-se inelutável descer ao inferno do capitalismo”. o elemento chave na evolução do processo histórico. permite encontrar em seus trabalhos inúmeros elementos teóricos plenos de fertilidade analítica claramente contraditória com tal formulação. o “apoio mútuo”. De fato em seu Desenvolvimento do Capitalismo na Agricultura chega a demonstrar “a polarização social da agricultura” e a conseqüemte “proletarização social do campesinato” na Rússia do oitocentos. O . ao contrário da intencionalidade do próprio Marx ao escrever dito trabalho. É esta uma interpretação que. a luta de classes. São estes os marcos teóricos centrais do marxismo ortodoxo com relação à questão agrária. ao tentarem explicar a evolução do campesinato na agricultura. Chega assim a definir --. portanto. e as formas de resistência do campesinato. Apresenta-se esta como uma lei objetiva constatável mediante uma contrastação com o processo histórico. por um lado. Assim.

colocar em questão tais axiomas. uma convergência com o pensamento liberal agrário: a agricultura haveria de transformar-se num ramo da indústria. O triunfo do “marxismo ortodoxo” (baseado na interpretação dogmática dos trabalhos de Lênin e Kautsky. paradoxalmente. mutilaria no fundo qualquer tentativa de reflexão teórica sobre a dimensão histórica das estruturas agrárias. da mesma forma que o marxismo oficial aceitaram que os processos evolutivos agrários teriam de seguir inelutavelmente distintas etapas de um processo que se assume seqüemcial e taxonomicamente único” (Howard Newby e E. Concretamente. integração e apego à terra e aos cultivos” . até capitais metropolitanas. Resumindo. e a classe operária industrial. o “marxismo ortodoxo”. Sevilla Guzmán. 1983: 137-165 y 145). como defensor da vigência do campesinato. (que premiaria os honrados negociantes e castigaria os que vagabundeavam). por outro.como veremos --. Carecem de isolamento. mas. com um potencial de adaptação histórica. dado seu caráter socializador imanente. mas suas unidades locais conservam sua velha identidade. Por um lado o “narodnismo”. por outro. “Pelo contrário. se configuram duas categorias intelectuais nas quais se articulam duas práxis sociopolíticas claramente definidas. 3. formando um segmento de classe de uma população maior que engloba geralmente centros urbanos e. dentro da literatura sobre o campesinato. e. o pensamento científico convencional. no avanço irrefreável das forças produtivas e estas seguem consideradas como o demiurgo que finalmente conduziria os povos a graus superiores de bem estar. se constituiriam no foco de atemção de suas reflexões. Somente a crise ecológica e o questionamento subseqüemte tanto do impacto do desenvolvimento tecnológico como do conceito mesmo de progresso poderia --.25 proletariado seria o agente propulsor da mudança ao reagir de forma revolucionária contra a exploração a que se encontrava submetido pela burguesia. as quais se veriam sempre tomadas pela visão marxista da ‘agonia do campesinato’ (anteriormente considerada). às vezes. a questão agrária no marxismo ortodoxo atribui um sentido histórico e alguns condicionamentos estruturais ao desenvolvimento do capitalismo de forma tal que o campesinato se converte em resíduo anacrônico condenado inelutavelmente a desaparecer ante o inexorável desenvolvimento das forças produtivas. e sua cremça cega na “judiciosa mão invisível do mercado”. DA NOVA TRADIÇÃO DOS ESTUDOS CAMPONESES À AGROECOLOGIA Existe uma aceitação geral. por um lado. e na repressão da burocracia estalinista para impor uma realidade formalmente distinta. a Mass Society. em sua raiz última. a autonomia política e a autarquia dos grupos tribais. Foi então quando Kroeber caracterizou a sociedade camponesa como uma forma de organização social com estruturas “rurais apesar de viver em relação com os mercados das cidades. Isso unido à hegemonia política e intelectual dos EEUU. para quem o campesinato não seria mais do que um resíduo anacrônico que haveria de ser sacrificado nos altares do progresso. Assim. no decorrer do século XIX. em situar 1948 como o ponto de partida da “nova tradição de estudos camponeses”. ainda desejável. Não poderia ser de outra maneira na medida em que o capitalismo fosse considerado um estádio superior da racionalidade possível e. Constituem sociedades parciais com culturas parciais. coativamente uniformizadora) supunha.

8 R. Karl A. Wolf. Ainda quando nesta definição se emcontrem já os elementos chaves que serão posteriormente utilizados para definir o campesinato. Caribbean Contours (1985). cf. 1956. (1982). que se inscreve teoricamente como o evolucionismo multilinear ou a ecologia cultural. Redfield. Daqui surgem as teses doutorais de Sidney Mintz e Eric Wolf gerando uma acumulação téorica que incorporava o legado teórico de Childe y White. 11 Sidney Mintz. Steward. Redfield estuda. (1956: 29-30 y 64-68). depois (ajudado por quem mais tarde seria seu discípulo e colega. dentro desta tradição teórica. suas últimas análises sobre o campesinato caribemho das quais surge o marco teórico que temos denominado de “Campesinato com encaixe histórico” (11). Sem dúvida. Publicados todos eles em The University of Chicago Press). a Mexican Village: a Study of Folk Life) (1930) e. Seu traço central. professor rural). 6 . então. Redfield leva a cabo um estudo de várias comunidades camponesas mexicanas centrando sua análise nas mudanças que nelas têm lugar como conseqüência das inter-relações existentes entre elas e a sociedade urbanoindustrial” (6).L. Para o marco teórico do campesinato como encaixe histórico Cf. 9 A configuração deste grupo surge do trábalo interdisciplinar que Steward dirigiu em Porto Rico ao final dos anos quaremta Cf. o marco teórico dos Ecotipos Camponeses que anos mais tardem se completaria com o enfoque conflitivista do processo de expansão européia para a Latinoamérica em sua excelente análise sobre os “povos sem história” (10). Robert Adams e Angel Palerm. o conjunto de estudos mais relevantes sobre o campesinato. y . cabe destacar como figuras mais relevantes a Sidney Mintz. é constituído pela forma de dependência que possui com a sociedade maior em termos de exploração(8). senão que ademais incorpora à sua análise relevantes aspectos da antiga tradição dos estudos camponeses e em especial os trabalhos de Chayanov. Há edição em espanhol de 1988 (Rio Piedras: Edições Huracán). "The Natural history of the Folk Society". Aparece assim. Assim. Redfield. em companhia de sua esposa e filhos.The Folk Culture of Yucatán (1941). (1953: 224-228). Desde um ponto de vista teórico. Recuperando a “antiga tradição” Provavelmente a caracterização mais completa do campesinato desta tradição teórica se deve a Eric Wolf. (1960). 10 Erick R. Junto a Steward. primeiro. surge do grupo vinculado a Julián H. Este não só recolhe os elementos mais interessantes da contribuição de seus companheiros.: University of Illinois Press. Wittfogel. quatro comunidades yucatecas (Chan Kom: A Maya Village) (1934). de fato foi Robert Redfield quem inicia realmente este novo processo de acumulação teórica. sobretudo. Eric Wolf. E. Sem dúvida é este trabalho um dos primeiros estudos onde o conhecimento do campesinato 5 A. Tem grande interesse a caracterização que faz Sidney Mintz dos operários agrícolas como parte do campesinato. Sobre seu caráter de modelo teórico. entre muitos outros(9).Kroeber. Redfield dedicou seus esforços para a formulação de um tipo ideal de sociedade camponesa que passou ao pensamento social como a FolkSociety(7). (1948: 284).26 (5) . uma população azteca próxima à cidade do México (Teopozland. Alfonso Villas Rojas. Para Redfield os camponeses são um segmento de classe de uma sociedade maior (Part-society com Part-culture) vinculados ao mercado ainda quando o grosso de sua produção vai para o autoconsumo da unidade familiar. The People of Puerto Rico (Urbana Ill. 7 R. sem dúvida. (1947: 293-308).

Tem um grande interesse sua recopilação de trabalhos publicada como Defining Peasants(15).V. An Introduction to the Sociology of Rural Developmemt (London: Tavistock. 1987). Lênin. (1972: 100-133). em A. sobre as “teorias da modernização” e os “marcos da dependência”. E sobretudo seu De la economía ecológica al ecologismo popular (Barcelona: Icaria. o que pode definir-se como o marco teórico da estrutura social rural(12). 17 Cf. Outro autor de grande relevância. são estes os estudos sobre desenvolvimento rural vinculados a Norman Long que. que incidirá nesta orientação teórica é Michael Redclift. se dedicará à análise do Terceiro Mundo. 15 London: Basil Blackwell. 1977). Aparece. provavelmente a figura inovadora desta tradição intelectual é Joan Martinez Alier(16). Teodor Shanin. Perú e outros países latinoamericanos. 20 Michael R. Outra figura destacada da sociologia rural inglesa. o marco teórico do Narodnismo Marxiano. 14 Teodor Shanin (1983). Ecological Economics (Oxford: Basil Blackwell.27 sobre o manejo dos recursos naturais é tomado como uma das variáveis definidoras do mesmo aproximando-se da posição da Agroecologia. (1988). o valioso legado de sua “multilinearidade” para o desenvolvimento dos paises periféricos (14). assim. 1990. Lênin e Kautsky rompe com a perspectiva unilinear do marxismo ortodoxo agrário(13) e gera. (1978). assim como seus trabalhos sobre Cuba. Redclift. recuperando assim. Haciemdas. Chayanov. o que temos aqui denominado. desde uma perspectiva neomarxista e utilizando materiais recolhidos sobre Ásia. A eles é obrigado acrescentar ao núcleo de trabalhos mais impactantes nas transformações da sociologia rural européia para um enfoque mais interdisciplinário.I. o levam a formular propostas de desenhos de métodos de desenvolvimento rural. 18 Cf. que consideraremos mais adiante. centrando-se nos estudos sobre A Reforma Agrária no Equador(20) e México. apesar de certas incursões nos estudos de comunidade na Inglaterra e Espanha. 19 Norman Long (1989 y 1992). dentro desta tradição teórica é Boguslaw Galeski. exploram os problemas das sociedades rurais do Terceiro Mundo. onde analisa o fenômeno do populismo 12 Boguslaw Galeski. Plantations and Collective Farms (London: Frank Cass. também há versão castelhana em Agricultura y Sociedad. 1977). elabora uma estratégia metodológica para encarar o problema do emcontro entre diferentes identidades para a construção de processos de desenvolvimento local. Seu trabalho chave é constituído pela análise que. (1986). reelabora o conceito de estrutura social aplicando-o à análise do campesinato. 1971). quem. quem recolhemdo o legado de V. 1992). quem introduz uma dimensão agroecológica na sua análise dos movimentos sociais nos paises periféricos construindo assim o marco teórico da “A ecologia dos pobres” (17). em Karl Kautsky. Junto com Teodor Shanin e Hamza Alavi (articuladores dos estudos camponeses com a Sociologia do Subdesenvolvimento). nº48. Constitui assim uma interessante equipe à que se integraria uma das que serão mais relevantes figuras do panorama atual do pensamento social agrário Jan Douwe van der Ploeg. emergente naqueles anos. descolando assim definitivamente da sociologia da vida rural. y con Hamza Alavi. 13 . Mas sem dúvida o grande impulsionador dos novos estilos camponeses é Teodor Shanin que em seus trabalhos sobre Chayanov. África e Latinoamérica. 16 Landlabourers and Landowners in Southern Spain (London: Allem and Unwin. Há tradução em español em Agricultura y Sociedad. Primeiro desde a Inglaterra(18) e depois desde a Universidade de Wagemingem (19).

30 y 40 citado no trabalho de Leff da nota de rodapé seguinte. A contribuição de Enrique Left aos Estudos Camponeses no período de sua virada ecológica na segunda metade dos anos oitenta. 1. sem dúvida. apesar de promover a autonomia cultural e a gestão tecnológica das comunidades. El desarrollo y el medio ambiemte. Esta avaliação se desprende do sentido explícito das propostas do discurso ecodesenvolvimentista no marco político internacional em que se insere. 2. Founex.981: 20-22). Um de seus mais relevantes discípulos. O conceito de ecodesenvolvimento(26) constitui uma tentativa de introduzir o manejo ecológico dos recursos naturais no desenho de esquemas de transformação das sociedades rurais(27). 24 Michael Redclift. ao caracterizar o processo histórico em suas interações com a política agrária e rural desenhada pelos organismosinternacionais. de alimentos) do momento atual. Cf. Suiza 4-12 junho 19 8 7 XXX?. p. seu livro com David Goodman. 27 Sachs. Não obstante. Founex. 1981). O que denominamos em outro lugar como marco teórico do Ecodesenvolvimento poderia. . onde Michael Redclift destacará como principal introdutor do enfoque (meio) ambientalista na sociologia rural das “sociedades avançadas” (24). situa ecodesenvolvimento no seguinte contexto: “As estratégias do ecodesenvolvimento tem sido desarticuladas do marco geral das lutas sociais pela apropriação dos recursos. esta valorização dos recursos implica a apropriação capitalista da natureza. situar-se dentro dos estudos camponeses. From Peasant to Proletarian constitui a mais lúcida análise dos marcos teóricos do subdesenvolvimento(22). seu trabalho "Production Programs for Small Farmers: Plan Puebla as Myth and Reality" em (1983:.28 agrário como via camponesa de transição para formas de organização política mais igualitárias(21). Mas. pp. Ignacy Sachs(25). 28 Naciones Unidas. mais que como uma práxis de transformação produtiva e de mudança social para assentar as bases de um desenvolvimento eqüitativo e sustentável.551-570). 26 Naciones Unidas. 1. os propósitos de ecodesenvolvimento foram definidos como “a valorização (mise em valeur) dos recursos específicos de cada ecoregião(28). Mais tarde. É obrigatório considerar aqui a Hamza Alavi e Teodor Shanin(23) como iniciadores deste processo de confluência. isso fez do ecodesenvolvimento. Existe uma versão castelhana no FCE tão mal traducida que é praticamente inteligível. pela relevância que dá ao conhecimento do campesinato. (1. 29 Enrique Leff. de emergéticos. radica em sua busca de uma racionalidade ecológica nos processos de 21 Michael Redclift. (1980: 492-502). 30 y 40 citado no trabalho de Leff na nota de rodapé adiante. Sociology of "Developing Societies" (London: MacMillan Press. Sem dúvida.984). Enrique Leff. (1987) e seu estudo com David Goodman (1991). 1982). apareça como uma resposta do capital à crise ecológica (de recursos. Uma análise do Ecodesenvolvimento no contexto de outras posições ambientalistas européias podem ser apreciadas em Michael Redclift. 135. (1. 25 Ibid. pp. o separa sensivelmente desta orientação teórica. sua introdução no processo produtivo de mais-valia e sua circulação como mercadorias no mercado(29). Suiza 4-12 junho 19 8 7 XXX?. a contribuição fundamental de Robert Redclift ao pensamento social agrário tem lugar no processo de confluência desta orientação teórica com a sociologia do subdesenvolvimento que acabamos de ver. 2. 22 (Oxford: Basil Blackwell. é dentro da sociologia da agricultura que veremos depois. também. 23 Cf. (1994: 320-321). El desarrollo y el medio ambiemte. mesmo quando a cooptação desta categoria analítica por parte dos organismos internacionais o tenha constituído uma forma de desenvolvimento convencional.. o enfoque utilizado pelo seu principal elaborador.

2001: 12). Sem dúvida tal expressão. por um lado. 1). 1985. Guzmán Casado. Friederick H.. 30 Enrique Leff. o núcleo central destas contribuições surgia em torno do problema do desenvolvimento do capitalismo na agricultura. Goodman y Retclift. 2002. 2002: 57-81). Buttel. fonte. em especial: 118-119. e muito especialmente seu trabalho em Philip Lowe. o dilema último radicava em se a agricultura familiar estava condenada a desaparecer ante uma mercantilização incontida ou se pelo contrário possuía mecanismos de resistência para manter sua natureza socioeconômica. 1998). 1991). Pelo contrário a expressão “marxismo chayanoviano” que procede de Lehman (1986: 601-607). 2000.29 transformação levados a cabo através do movimento ambiental e sua introdução na perspectiva ecológica do marxismo(30). alcançando uma transdisciplinariedade que incorpora na sua pesquisa . 1991) não incorpora nas suas análises a valiosa tradição dos Estudos Camponeses que analisamos anteriormente e que geram um contexto teórico possivelmente suscetível de assumir a demominação de um Marxismo Chayanoviano. gerada desde a América Latina. E ademais. Ele tem sido provocado pelo “pragmatismo de cemtrar-se na literatura norteamericana e especialmente em USA”. González de Molina y Sevilla Guzmán. tem sido amplamente aceita pela comunidade científica da sociologia da agricultura norteamericana conforme os citados trabalhos de Butell. 1992. Sevilla Guzmán. 1983. 1988: cap. com ele colabora na construção da orientação teórica da Agroecologia. que consideraremos mais tarde. 1989. 1990. em seu último e documentado trabalho (2001: 18 e 19). 1986: 334-345. ou desde propostas para reformular as políticas européias de desenvolvimento rural (Ploeg. González de Molina y Sevilla Guzmán. não passa de ser uma metáfora. 31 Cf. Lehman.. 2000... Fridland. 1992). Marsdem. 1981. Friedland et. (1986). Com isso se desconhece tanto a rica acumulacão teórica desta tradição intelectual como sua contribuição fundamental na lingua castelhana. A expressão “economia política Leniniana” não é senão uma variante atual do Marxismo ortodoxo. 1986 e. 1990. Sevilla Guzmán y Grahan Woodgate. em tal contexto teórico (Cf. 1988. 1995). Al. Assim. Martínez Alier y Guha. et. como desde a agroecología atual (Altieri. (1985: 139-149. Sevilla Guzmán em Sarandon. quando considera apropriada a discussão pela sua influência na economia política agrária de US e Canadá” (Butell. Una crítica a la pobreza teórica del marxismo utilizado em Sevilla Guzmán. A edição de 1994 supõe uma reavaliação substantiva deste trabalho introduzindo contribuições de grande valor. Ploeg et. Sevilla Guzmán et. desenvolvida por Alain de Janvry (1981 e Deere and De Janvry. a vasta literatura que analisa este debate (De Janvry. 1995. 1995. e como Economia e Sociologia Política Leniniana à primeira31. al. María Fonte e a valiosa tentativa de Margaret Fitz Simmos para integrar esta tradição sociológica com a geografia Cf. Terry Marsdem and Sarah Watmore. Sevilla Guzmán. 1979). e sua utilização “tão somente ocasional da literatura Européia e outras. quando na realidade emvolve todo um marco teórico gerado pelos fortes conteúdos históricos. A seletiva interdisciplinariedade desta corrente tem impedido que seus desenvolvimentos teóricos incorporem achados fundamemtais. desenvolvidos por uma práxis intelectual e política que permitiu uma fértil teorização geradoras de proposta produtivas socioeconômicas de grande valor. 2001. 1979. sobretudo. Marsdem. Até meados dos novemta. 1981. Butlle et al. al. tanto desde o contexto teórico anteriormente definido do último Marx e o narodnismo russo (Shanin. al. Da Sociología da Agricultura Existe uma ampla literatura sobre a removação teórica que experimemta a sociologia rural na década dos oitenta do século passado conhecida como Sociologia da Agricultura (Buttle. 2003). como desde o ecologismo popular ou neonarodnismo ecológico (Martínez Alier. demomina esta polêmica como o debate sobre a Questão Agrária (desconhecemdo o anteriormente caracterizado) e qualifica como correntes do Marxismo Chayanoviano a última postura. Como veremos mais adiante esta rompe a interdisciplinariedade das ciências sociais em que se movia até os anos oitenta. Esquematizando um rico e complexo debate. Altieri and Hecht. Friedland. 1997. Sevilla Guzmán and González de Molina.

De fato. colaborando decisivamente na direção assinalada por Howard Newby para sair da crise teórica em que se encontrava a Sociologia Rural no início dos anos 80 (Newby. 1981 y Newby e Sevilla Guzmán. o que demomina “a revolução burguesa peruana de 1963” (sic) ou o governo de Lara no Equador. detrás de uma crítica ao contexto neoclássico em que se movia. que temos analisado ao definir o Marxismo ortodoxo. que se tem destacado entre os mais francos analistas do processo de agonia do campesinato” (Sevilla Guzmán. 1995:40). quando formula o surgimento da internacionalização dos sistemas agroalimemtários. Altieri. como tentativas falidas de conseguir o “estabelecimento do domínio de uma aliança de classes articulada na América Latina” (1981: 42). . Chega. tentando introduzir uma dimensão temporal nas conceituações deste. Alain de Janvry. depois de trabalhar no marco teórico da Modernização Agrária durante a década dos setenta. 2000. realiza uma análise da evolução do conceito de Desenvolvimento Desigual estabelecendo um modelo de acumulação de capital na estrutura Cenria do sistema mundial capitalista. Sem dúvida. camponês e indígema (Cf. tanto as ciências naturais como o conhecimento local. Seu trabalho The Agrarian Question and Reformism in Latinoamérica (1981) é normalmente considerado como a peça de caráter teórico de maior influência nesta tendência. desta forma De Janvry a estabelecer o contexto macroteórico da Economia e Sociologia Leniniana. onde realiza uma excelente análise das formas de extração do campesinato. já que a acumulação desarticulada da periferia é diferente em cada período histórico. D. o primeiro trabalho que encara. Mediante a referida análise teórica Janvry conclui com o estabelecimento de um engenhoso modelo para interpretar as alianças de classe. ainda que lamentavelmente a partir de um modelo ahistórico do mais puro funcionalismo marxista. y Gliessman. Sevilla Guzmán. as transformações que a internalização dos sistemas agroalimentares estão provocando na agricultura.30 Este grupo da “mercantilização incontida”. 1979). 1983). já que para ele “o problema radica em que a questão agrária é um sintoma da natureza da estrutura de classes da periferia e do processo particular da acumulação de capital que subjaz a esta” (1981:7 e 8. González de Molina. senão. 1985. 2002). porque dá um impulso teórico importante ao “marxismo acadêmico”. e Alain De Janvry. Guzmán Casado. gera um esquema teórico radicalmente distinto. que seria completado pelo enfoque microteórico da sua teoria da Descamponeização (Deere. dos paises periféricos de grande interesse analítico para emtender o pacto social peronista de 1973. E isso não somente porque é. e 9-22). que Buttel cataloga como corrente teórica da Economia e Sociologia Política Leninianas (cuja demominação vamos aceitar para designar a vasta heterogeneidade que aponta uma clara práxis intelectual e política vinculada ao desaparecimento do campesinato) tem como configurador do contexto teórico inicial a Alain de Janvry “um economista agrário de formação e vocação. ainda que acadêmico com fortes laços na comunidade sociológica. provavelmente. Provavelmente o conceito teórico central de seu esquema analítico seja o de acumulação desarticulada que elabora a partir de uma crítica a Samir Amin. o mais relevante de seu esquema teórico é constituído pela sua revisão da “formulação clássica” da Escola do “Desenvolvimento do Subdesenvolvimento” para analisar a crise do capitalismo dos anos setenta do século XX. desde as novas premissas da Sociologia da Agricultura. D.

as corporações metanacionais acumulam uma importante fração dos benefícios em seus centros bancários. O fato de que tenhamos participado com os dois últimos num projeto para a União Européia (Ploeg. a Metanacionalização. Marsdem. O cooperativismo rural supunha para Chayanov a consecução de uma democracia de base. o crescimento econômico sustentável. A emergência da crise esteve fundamentalmente enraizada em dois fenômenos que foram criados pelo processo de crescimento. al. Da Agronomia Social de Chayanov ao “Marxismo Neochayanoviano” Teodor Shanin (1988. e que Friedmann (1978. 1980) seja considerado como a figura central da corrente chayanoviana do referido debate (Lehman. 1986. que não é senão o último divórcio entre o capital e os estados/nação. pp. enquanto se incrememtam os custos de produção como conseqüência da antipoluição. Ao fazer um balanço do decorrer de 2000 desta produção científica Buttle (2001: 21-22) constrói uma tipologia dos marcos teóricos dominantes nos quais aparece Harriet Friedmann. Fonte. Sevilla Guzmán. 2000). Em segundo lugar.. colocando este último como cabeça da “Neochayanoviana escola de Farming Styles de Wagemingem”. Os ótimos diferenciais têm sido considerados como a possibilidade de que o conhecimento local atue como elemento gerador de tecnologias autóctones capazes de captar o potencial endógeno dos . produzidos através de modos locais de conhecimento adaptados aos subsetores agrícolas concretos podem variar substantivamente os resultados. Em primeiro lugar. 141-172. por um lado. p. 148) destaca três conceitos como elementos chaves na proposta teórica de Chayanov: as cooperativas rurais. 1973). 2001). Enquanto as corporações multinacionais repatriam seus benefícios por detrás da cena do desenvolvimento das corporações multinacionais e transnacionais para os paises maternos. senão também dentro dele (cf. Tery Marsdem e Jan Douwe van der Ploeg como autores centrais. 1988. e as leis do estado de bem-estar” (1981: 56).. nos moveu a elaborar um possível marco teórico com este conteúdo que passamos a considerar.31 Em sua análise macrosocioeconômica De Janvry mostra como a dinâmica do capitalismo nos anos setenta culmina num “reforçamento do desenvolvimento desigual chegando a criar novas formas de contradições ainda que não se eliminaram as características fundamemtais do sistema econômico mundial: sua unidade. É de lamemtar que estas inteligemtes conceituações se movam num contexto teórico de uma práxis não somente convergemte com o Neoliberalismo tão de moda com respeito ao inelutável desaparecimento do campesinato que há de salvar-se através do agronegócio.. a segurança no trabalho. al. et.conduziu ao congelamento dos benefícios como os baixos níveis de emprego pressionaram os salários imprevisivelmente à alta. referindo-se a que os próprios agricultores estabeleciam suas fórmulas de ação coletiva para manter a socialização do trabalho própria da forma de exploração familiar. sua heterogeneidade e suas relações de dominação.. De Janvry. os ótimos diferenciais e a cooperação vertical. Buttle et. Ao articularem-se estas com os processos tecnológicos existentes em zonas concretas. a proteção ao consumo. a crescente internacionalização de amplos setores do capital social. O conceito chayanoviano de “ótimos diferenciais” se refere à combinação de estruturas econômicas e sociais que nas formas de exploração agrária introduz certas peculiaridades. 1990 e Burell. por outro lado..

Gonzalez de Molina e Sevilla Guzmán. 1918. a articulação destes três conceitos permitiria “a introdução extensiva da racionalidade nos processos espontâneos. 1980: 169. tomando seletivamente seus elementos extraprodutivos” e retirando uma parte substantiva das rendas. senão também a utilização de algumas das características da agricultura e da vida social rural que. Ploeg (1990: 272-274) demomina esse processo como mercantilização parcial. 1992).a penetração do capital pode ser evitada ao debilitar sua capacidade transformadora mediante “as organizações dos camponeses e/ou as políticas de Estado e/ou as contradições internas entre capitalistas ” (Shanin. de unidades de produção de diferentes tamanhos” para as diferentes formas de exploração ou tipos de agricultura. a proposta de Chayanov para o “desenvolvimento da agricultura russa” era uma nova proposta que haveria de se contemplar dentro de seu esquema teórico da agronomia social (Teodor Shanin. que inclusive pode cegar a desempenhar um papel crucial na transformação socialista da sociedade”. 1993: 88-94. citado em Sperotto. Tal proposta supunha “uma forte e remarcavelmente realista précritica da coletivização do tipo estaliniano. “Para Chayanov a economia familiar não é simplesmente a sobrevivência dos débeis por meio de seu empobrecimento que serve a benefícios muito superiores (superbenefícios) em outros lugares. assim. 89. 1988: 148). Sem dúvida. 1988: 141-172). em ocasiões. podem proporcionar vantagens à economias não capitalistas sobre as formas de produção capitalistas num mundo capitalista” (Shanin. (32) Propõe-se. 1988: 150). F. demominada ‘cooperação horizontal’ ” (Shanin. O terceiro elemento teórico chave atribuído ao esquema chayanoviano para “o progresso da agricultura russa” é a cooperação vertical. Para Chayanov32 sua proposta de cooperação vertical surge como algo evidente ante o fato de que em sistemas agrários de pequemas explorações. Desta forma. o capital comercial pemetra e transforma “a agricultura camponesa através da ‘concentração vertical capitalista’. Observe-se a clara similitude existente entre a proposta de Agronomia Social de Chayanov e a moderna Agroecologia: “o conhecimento formal social e ecológico. Victor M. É esta uma proposta de “combinação flexível em forma de cooperativa.32 recursos naturais (Angel Palerm. como ‘democracias de base” formas de coordemação que controlem o capital comercial no nível de processos de comercialização. Toledo. 1988: 151). 1985:7. o conhecimento obtido do estudo dos sistemas tradicionais. para Chayanov "se pode estabelecer um tipo de ‘concentração vertical diferente. cf. Esta realidade histórica não era um processo necessário já que --. Sánchez de Puerta.. mediante formas de organização cooperativas que a modo de sistemas de “socialização do trabalho” se articulem. Nela a maximização dos tamanhos das unidades de produção era substituída pela sua otimização de acordo com os contextos específicos da forma de exploração (ou tipo de agricultura) e no que jogava um papel crucial o desenvolvimento dos modos locais de tecnologias existentes em cada ramo de produção agrícola. Para Chayanov. o conhecimento e alguns dos insumos desenvolvidos pela ciência agrícola convencional e a experiência com as instituições agrícolas ocidentais podem se combinar para melhorar significativamente tanto os agroecosistemas mais tradicionais como os agroecosistemas mais modernos (Altieri. . 1989: 26). no nível da produção.para Chayanov --. o que constitui a essência da obra da agronomia social” (Chayanov.

são repetidos na "La Agricultura de Europa Occidemtal em transición: la producción simple y el desarrollo del capitalismo em Agricultura y Sociedad (nº 43. A contribuição que nos interessa aqui de seu extemso contexto teórico é sua conceitualização de uma forma de produção simples de mecadorias agrárias para caracterizar a agricultura familiar predominante nas sociedades capitalistas avançadas. as “condições de reprodução” com que encontra qualquer tipo de pequema agricultura no processo histórico.etnoecosistema --. Será assim o grau em que as relações sociais de produção da produção simples de mercadorias agrárias estejam baseadas nos vínculos familiares (de gênero e geração) o que permitirá suas possibilidades de continuidade33. M. pecuária. independentemente de que sua produção esteja mercantilizada (Friedmann. a forma em que estas se inserem no âmbito da formação social em que se encontram. 1987) ainda que sejam difíceis de identificar dada as deficiemcias de tradução castelhana deste trabalho. p. petty commodity production and the farm’s emterprise" em Sociología Ruralis Vol. em seu manejo dos recursos naturais.33 A figura mais destacada do --. O conceito de Style of farming cunhado por Jan Dowe van der Ploeg é em certo sentido uma proposta para definir operativamente a natureza da agricultura familiar (1994: 7-30) através do tipo de tecnologia utilizada e do grau de implicação no mercado que esta possue. 186-193. cabe assinalar que quem maneja os recursos naturais joga um papel ativo no processo de mercantilização e que esta se encontra vinculada aos processos de trabalho e ao âmbito local --. para nós poucos convincemtes.metaforicamente denominado por Buttel --Marxismo Chayanoviano é Harriet Friedmann. “consumo produtivo” (técnicas. muito frequemtes no debate da mercantilização. terra e outros meios de produção que permitam a continuidade da produção) e o excedente do trabalho (em forma de excedente de valor. A reply to Goodman and Redclift" em Sociología Ruralis Vol 26 nº 1. Sem dúvida as condições de reprodução de uma forma de produção são tanto sociais como técnicas. coexistindo tanto com a forma de produção camponesa como com a capitalista sempre que as referidas condições de reprodução --. Goodman argumemtam que o trabalho assalariado ocasional ou anterior desvirtuaria a conceitualização de Friedmann assim como tal conceito não pode ser utilizado como tipo ideal. Sucede que a forma de produção simples de mercadorias agrárias pode constituir uma forma de manejo dos recursos naurais estável. dada uma realidade histórica passada ("Capitalism. renda ou juros) no caso que a pequema agricultura utilize trabalho assalariado (1978: 555). Constitui um elemento teórico central para medir o grau de mercantilização (1993) das explorações familiares no desenho de métodos 33 Harriet Friedman. bemefício. por outro lado. 187.consumo pessoal e produtivo e excedente de trabalho --. 1978: 545-586 e 1980: 158-184). São estas condições as que permitem a continuidade de uma forma de produção ou. por isso Friedmann diferemcia entre “consumo pessoal” (aquele que permite ao produtor continuar participando na produção). E. Redclift e D. Ambos argumentos. Fugindo de raciocínios puramente dedutivos. o deterioro ou transformação de suas bases técnicas e sociais.ainda quando joguem um papel ativo em tais processo os âmbitos espaciais e sociais mais amplos. . pp. Por um lado. caso de que alguma falhe. 231-247).se mantenham. 25 nº 3 pp. Para Friedmann o conceito de “forma de produção” é a combinação de dois elementos teóricos fundamemtais. "Patriarcrhy and Property. 1986.

34 de desenvolvimento endógeno.984). (1. 1. uma posição epistemológica precursora da Agroecologia atual. entretanto. já foi considerada ao analisarmos a nova tradição dos estudos camponeses. Sevilla Guzmán. 34 Cf. octubre-diciembre. ainda quando Perú.987). além de analisar as três dinâmicas do desenvolvimento rural. Marsdem. (1. Bolívia e outros países contribuiram rapidamente ao conservar sistemas de agricultura tradicional de grande valor agroecológico. se necessita uma teoria da sua continuidade e uma práxis derivada da sua permanência histórica”(35) que “não somente subsiste modificando-se. Sobre a Agroecologia A evolução teórica dos Estudos Camponeses para a inclusão da ecologia como uma dimensão essencial para a sua pesquisa surge da América Latina. maig/novembre.981. 1.980: 169). é obrigatório assinalar aqui que seu marco conceitual da “ecologia dos pobres” supõe o contexto em que se move a corrente central. sem lugar a dúvidas. Nossos trabalhos "In memorian. também Susana Glantz (compiladora). 1. Trata-se de uma proposta agroecológica da teorização que permite estabelecer os casos de experiências alternativas mais exitosas que parecem apontar para uma recamponeização da agricultura européia (Ploeg. et. atualmente em concorrência na ruralidade européia. A contribuição do primeiro ficou truncada com a sua morte em 1980(34). pp. 2000). referindo-se ao campesinato estabelece: “Resulta evidente que em lugar das hipóteses e as práticas de seu desaparecimento. "Camperols i marxisme em l'obra de Angel Palerm" em Quaderns de l'institut catalá d'antropologia. ainda quando assentara já as bases desta orientação teórica. se articula com a obra de José Manuel Naredo. e da Espanha. Cf.978 e a Iberoamericana de México em 1. que Terry Marsdem (2003) constrói. Deles se depreende. La significación de Angel Palerm em los estudios campesinos" em Agricultura y Sociedad. assim. adaptando-se e utilizando as possibilidades que lhe oferece a mesma expansão do capitalismo e as contínuas tansformação do sistema”. sua obra basicamente desde a teoria e história econômicas. A contribuição deste último. Talvez se possa personalizar os primeiros passos da agroecologia na obra de dois autores já considerados neste trabalho: Angel Palerm e Juan Martínez Alier. nº 17. 169-180 y "L'evolucionisme multilineal em els etudis pagesos sobre el llegat teòric d'Angel Palerm" em Historia i Antropologia. Ademais. e em minha opinião mais rica da agroecologia.979. 129-158 e o trabalho citado em (50) versão castelhana do anterior. 35 Angel Palerm. O modelo de Desenvolvimento Rural Dinâmico. . senão que subsiste também mediante as “vantagens econômicas perante as grandes empresas agrárias” que possuem suas formas de produção. por outro.980. As expressões em negrito são nossas. al. como proposta para a elaboração de políticas de desenvolvimento local (Ploeg. nº 3/4. por um lado. pp. 2000 e 2002). Angel Palerm dedicou seus últimos trabalhos à análise do papel do campesinato no capitalismo. De fato. 2004). constitui o elemento de fechamento de nosso marco teórico. A la memoria d'Angel Palerm (Monserrat: Publicacions de l'Abadia de Montserrat/Departamemt de Cultura de la Gemeralitat de Catalunya. ainda que realmente emerjam das márgems do regime agroalimentar mundial como uma resposta de resistência ao impacto sobre a agricultura do neoliberalismome a da globalização econômica (Sevilla Guzmán e Martínez Alier. centrando-se basicamente no México. Artigo baseado nos cursos divididos entre a Universidade de Texas em 1.

depois. pouca terra e pouca energia inanimada. também Raúl Iturra. "Ecología. elabora toda uma proposta teórica que pode “ser considerada potencialmente como um novo paradigma”. Campesinado e Historia (Madrid: La Piqueta. Gliessman. Angel Palerm começou criando equipes de pesquisa interdisciplinares ---. García Mora y M. que de imediato daria excelentes resultados(36). Efraim Hernández X. al. Tal proposta pode ser formulada nos seguintes termos: “Em contraste com os mais modernos sistemas de produção rural. e depois desde a Universidade Iberoamericana. Sustainable Agicultural Systems. as culturas tradicionais tendem a implememtar e desenvolver sistemas ecologicamente corretos para a apropriação dos recursos naturais. ecólogos e agrônomos ---. 1993).” A esta assunção subjaz a tese de que existe uma certa racionalidade ecológica na produção tradicional ainda que todavia não haja sido analisada de forma a desenvolver a “protoforma do sistema camponês” numa forma de produção ecologicamente sustentável (Victor M. 1980: 196 y 197). 1990. 36 Cf. já que somente a partir deste. cf. e Stephem Gliessman (1978). deve-se a Vícto Manuel Toledo o qual. no prelo). González de Molina e E. Villalobos Salgado (1988: 55-189). 37 Eduardo Sevilla Guzmán e Manuel González de Molina. recopilando e integrando trabalhos realizados em comunidadesa camponesas por diferentes pesquisadores. Stephem Gliessman. Stephem R. Ecología. pode-se chegar a explicar-se realmente seu comportamento. Para estudar adequadamente o comportamento ecológico do campesinato é necessário contextualiza-lo na matriz global de seu universo sócio-cultural. Desde o Centro de Investigaciones del INAH. Sevilla Guzmán (eds. cf. Paralelamente. E. 1990). elabora o marco teórico do “contexto da sustentabilidade da agricultura” (cf. abstrair seu “conhecimento ecológico” padrão que permite desenvolver as novas tecnologias que procura a Agroecologia(37).35 Tais vantagens procedem de que “produz e usa energia da matéria viva. através da forma em que cria e desenvolve seu conhecimento. Toledo. primeiro. tambem seu trabalho em Clive ª Edwards et. do ponto de vista da ecologia. fundamentalmente antropólogos. que inclui seu próprio trabalho e a reprodução da unidade doméstica de trabalho e consumo”. Campesinado e Historia" em M. 1990). utilizando pouco capital. A excelente bibliografía comemtada de Alba González Jacome em C. Esse modelo antagônico à empresa capitalista tem já sua protoforma no sistema camponês” (Palerm.). Sem dúvida a contribuição mais chamativa. Conclui este trabalho. mas considerando como elemento central os aspectos sociais. biólogos e agrônomos. e como uma implementação das idéias de Angel Palerm que veremos em seguida.básicamente o processo de institucionalização do enfoque agroecológico. o profesor Palerm. . realizam diversos estudos ecológicos sobre tecnologia agrícola tradicional e iniciam um processo de interação com os discípulos do mestre Palerm. adiantando as suposições que configuram as bases epistemológicas da Agroecologia: “ O futuro da organização da produção agrícola parece depender de uma nova tecnologia centrada no manejo inteligemte do solo e da matéria viva por meio do trabalho humano. através de tais explicações. Será este.com antropólogos. um dos construtores primeiros da agroecologia desde a perspectiva ecológica.

(Witzemhausem: Verlagsgruppe). (London: Earthscan Publications. et al.A Vital Elememt for Pest Control in Sustainable Agriculture" em Edems. dos volúmemes). mais tarde.985): Sustainable Agriculture & Integrated Farming Systems. emfraquecidos portanto do potencial analítico de mudança da estratégia Agroecológica. por um lado. Conway(40). assim como os pesquisadores vinculados ao Information Cemter for Low-External-Innput for Sustainable Agriculture (ILEIA). 16-24. 20:31-55. 24:95-118. e se esta o era “em si ou para si”. Gadgil. 1994). . nº 1. (1990). limitando-nos a assinalar o caminho teórico. entre eles poderiam destacar-se Vandana Shiva e Ramachandra Guha (cf. 1992). Barbier. seu trabalho com M. Richard B. Vol. Ian Scoones and John Thompson. 1. Peter Rosset como parte do grupo que Altieri nucleia na Universidade da California (Berkeley) realizam numerosas contribuições de grande interesse(39).986): The importance of biological agriculture in a world of diminishing resources. se constituía um “modo de produção” ou somente era uma “sociedade parcial”. et al. pp. 1. Conway. (1. 1. com respeito à conceituação do campesinato. 39 Cf. A MODO DE CONCLUSÃO: O CAMPESINATO NA AGROECOLOGIA A natureza deste trabalho nos tem impedido de aprofundar no debate sobre o campesinato que existiu internacionalmente durante os anos setenta no seio da Nova Tradição dos Estudos Camponeses. Norgaard.987): "The properties of Agroecosystems" em Agricultural Systems. y. em nossa opinião mais fértil. esta polêmica deu lugar a eternas e pouco clarificadoras discussões sobre se o campesinato constituía ou não uma classe.991c): "Incorporando la agroecología al currículo agronómico" para CLADES/FAO. os camponeses constituiam fração de classe. analisam a depredação ecológica e a exploração social que o desenvolvimento do capitalismo na agricultura tem provocado no terceiro mundo. (1. 40 Cf. sobre todo su trabajo con Edward B. (1. ou se pelo contrário. Altieri. por outro. así como sus trabajos de tipo metodológico. Susana B. Miguel A. desde o marco teórico da “ecologia dos pobres”. Se este grupo constituía uma categoria social integrante de uma parte da sociedade maior estruturada em classes que se resiste à modernização. Em definitivo. Não obstante. Esta aparece com muita força em diversos autores que. Hecht.36 Pela agronomia. (1. 4. há ediçao inglesa em (Boulder: Westeview Press. Miguel Angel Altieri. (1.991 em Santiago de Chile. Vol. retardatária análoga a um “saco de batatas”.991. se como classe ou grupo pertencia a um regime de produção já concluído (como o feudalismo por exemplo) ou se sua manutemção sob o capitalismo lhe valia a consideração também capitalista. se tratava de encontrar o termo mais correto para demomina-lo: se este era o camponês. A ele haveria que acrescentar a contribuição de diversos autores europeus como Gordon R. e o grupo de pesquisadores em torno do International Institute for Emvironmemt and Developmemt (cf.985): "Agroecosystem Analisis" em Agricultural Administration. Proceedings of the 5th. T.984. 2-6 Septiembre. "Diversification of Agricultural Landscapes . 38 Cf. realiza a contribuição fundamental à agroecologia através do Consórcio Latinoamericano de Agroecologia e Desenvolvimento (CLADES) e por meio da sua revista Agroecologia e Desenvolvimento(38). H. IFOAM International Sciemtific Conferemce. ou se pelo contrário possui uma racionalidade econômica que repudia as tecnologias não apropriadas. After the Greem Revolution. é Miguel Angel Altiéri quem. ainda quando estes todos percam bastante da capacidade crítica dos primeiros.R. 1987).985a). "The ecology of insect pest control in organic farming systems . (1. "¿Por qué estudiar la agricultura tradicional?" em Agroecología y Desarrollo CLADES.984 Conferemce Procee-dings (Michigan State University Press. G. 1.Towards a gemeral theory" em Vogtmann. 1990).

talvez para evitar problemas --identificam o campesinato unicamente com a exploração familiar e acabam utilizando este conceito. quando ainda produzem para o uso e consumo em pequemas comunidades indígemas. desde uma perspectiva agroecológica que é a que utilizamos aqui. O motivo desta confusão reside. referindo-se ao campesinato num texto bastante conhecido (1979).37 agricultor familiar. Desta maneira não existe uma teoria que dê conta das mudanças ocorridas nos traços definitórios mais comuns do campesinato e suas causas” (ibid: 242). cada dia mais evidente. Para nós. trabalhadores rurais. entre outros) e uma enorme variabilidade com relação às suas práticas conflitivas onde a atividade agrária e os agricultores estiveram. parceiros. mais que uma categoria histórica ou sujeito social. E quais poderiam ser as diferenças substantivas entre tais demominações. 2000): “foi precisameme Shanin. arrendatários. “na incompreensão das distintas etapas e tipos de capitalismo que existiram e na inexistência de um acordo também mais ou menos geral sobre como foram se desenvolvendo no processo histórico. quem chamou a atemção sobre o absurdo de definir com precisão ou exatidão um grupo social que havia existido desde sempre. outros. Uns seguem falando de camponeses para referir-se aos agricultores familiares da Europa atual. Esta advertência. gerando-se assim distintos “graus de camponesidade” (no original “grados de campesinidad”). não somente na especificidade latinoamericana: ele era um problema teórico chave desde a perspectiva desta tradição intelectual. em troca. e estão submetidos. já que. colonos com posse precária da terra. E isto é algo que se revelava como fundamental nos anos 70 e 80 do novecemtos (século XX). outros --. . como assinalamos em outro lugar (González de Molina e Sevilla Guzmán. plenamente justificada não deu lugar. a uma clarificação conceitual sobre a qual haja um acordo mais ou menos geral. de tal maneira que ainda segue existindo uma confusão considerável sobre as categorias que se deve utilizar. uma forma de manejar os recursos naturais vinculada aos agroecosistemas locais e específicos de cada zona utilizando um conhecimento sobre tal entorno condicionado pelo nível tecnológico de cada momento histórico e o grau de apropriação de tal tecnologia. ou pequeno produtor de mercadorias. entre outras propostas conceituais. de que o campesinato não havia desaparecido a pesar das teorias proféticas dos clássicos do pensamento social agrário e inclusive dos setores acadêmicos mais liberais. pequenos proprietários. De fato. sem dúvida. Era necessário definir uma categoria que desse conta desta permanência e ao mesmo tempo das mudanças. falam de pequenos produtores de mercadorias em referência aos pequenos cultuvadores do altiplano andino tanto no século passado como neste. o campesinato é. a questão camponesa baseada nestes termos é um falso debate. como veremos mais adiante. Todo esse debate surgia da constatação. a uma profunda mudança social como consequência da natureza que adquire o capitalismo em nossos dias. O caso do campesinato argemtino resulta especificamente esclarecedor porque contempla dentro de sua história uma grande diversidade social (distintos tipos de etnicidades pertencemtes a culturas indígemas muito diversas. que por certo deixa na obscuridade muitas das mudanças e a variedade de situações que se escxondem atrás de uma demominação tão gemérica”.

num contexto cultural em que funcionara uma ética.38 É possível. como uma estratégia de diversificação perante riscos climáticos ou sociais (cf. Ainda que exista uma sequência histórica. em nossa opinião. ao mesmo tempo. Toledo. No contexto teórico que estabelece a Agroecologia. neste tipo de sociedades. vizinhança ou amizade. 1995). existência de relações de apoio mútuo mediado por relações de paremtesco. apesar de 41 As economias de base orgánica só podiam funcionar com um tipo de produtores que apresentaram as seguintes características: economia de base familiar e mobilização de todo o pessoal disponivel para o trabalho agrícola. se emtendem e contextualizam melhor seus traços comuns através do espaço e do tempo. mediante o consumo de uma quantidade determinada de energia e materiais e o emprego de um saber e instrumentos de produção adequados” (González de Molina e Sevilla Guzmán. e o uso múltiplo do território. como forma de produção. A relação histórica do homem com os recursos naturais. pode ser definido da seguinte forma: “o objetivo essencial das relações sociais é a satisfação das necessidades materiais. citados em González de Molina y Sevilla Guzmán. o conceito de campesinato evoluiu desde sua consideração como um segmento social integrado por unidades domésticas de produção e consumo que. 1992 y 1993. 1990. Construi-se. assim. a fase de prevalência de cada um deles. O modo de uso camponês “coexistiu com diversos sistemas sociais. campesinato ou secundário (de acordo com as distintas demominações que tem recebido) e campesinato”. V. o campesinato ou secundário. 1989. e o industrial ou terciário. e se organizam ainda hoje. Isso requer e requereu sempre a apropriação dos recursos naturais para a produção de bems com um valor de uso histórico e culturalmente dado. os quais possuiam distintos graus de complexidade. em determinados interstícios do sistema capitalista. Assim. não obstante. Sieferle. Desta forma é possível discriminar umas formas de produção de outras dentro de um mesmo sistema de produção e. Wrigley. 1993. sem dúvida. 2000: 243). . desde a aparição da agricultura até o feudalismo. desde esta definição aparece uma teoria explicativa de sua evolução ou de sua transformação em outras categorias sociais nova e distintas. emfocar o tema desde a problemática meioambiental atual estabelecendo uma interpretação do processo histórico desde o manejo dos recursos naturais tal como foi realizada. Ademais. Concluindo. um tipo ideal de manejo dos recursos naturais que responde aos contextos históricos anteriormente assinalados. as atividades agrárias no que tem sido denominado como “sociedades de base energética solar ou sociedades orgânicas41. os sistemas tributários asiáticos ou o próprio capitalismo incipiemte”. 1990. supõe uma coexistência. de igual forma que na atualidade tal “prática socioprodutiva” tem sua existência. como Toledo (1995). Pfister. o “campesinato é o grupo social em torno do qual se organizavam. 2000). tanto por Guha e Gadgil (1993). Isso significa estabelecer uma identificação bastante forte entre Modo de uso agrário. tinham como base de sua economia as atividaddes agrárias. ao diferenciar três grandes modos de uso dos recursos naturais: o primário ou próprio dos caçadores recoletores. identificar o campesinato como uma categoria unida a um específico modo de uso dos recursos naturais (Guha e Gadgil.

1993). y Teodor Shanin. inclusive pelas vias muito mais expeditivas. pp. com a introdução de organismos genéticamente modificados. mantinha “algo genérico” (Archetti. o que lhe proporciona uma alta capacidade entrópica e antrópica dos ecosistemas. 1978. f) produtividade ecológico-energética. c) autosuficiência. 1993) e o conhecimento que a sustenta com relação ao manejo dos recursos naturais. "Peasantry and Capitalism: Karl Kautsky and the Agrarian Question" em Karl Kautsky. Este último. a hipótese de que “os sem terra” podem se considerar como camponeses. . abril-junio. Isso é. Victor Manuel Toledo operacionalizou este conceito mediante os seguintes indicadores: a) energia utilizada. Consequentemente. BIBLIOGRAFIA   Alavi. por último. uma versão castelhana em Agricultura y Sociedad. È por tudo isso que a Agroecologia identifica como “o genérico” do campesinato na história sua forma de trabalhar (Iturra.39 sua mudança histórica. 1994) que configurou “um modo de uso dos recursos naturais” ou uma forma de manejo dos mesmos de natureza sócioambiental (Toledo. Cf. o modo de uso industrial. nº 47. Alavi. 1995). Shanin. The Agrarian Question (Zwan). é algo que se deve explorar no contexto da composição dos distintos tipos de camponeses que integram cada movimento social que luta pela terra. pode ser caracterizado como aquele que “utiliza como base energética os combustíveis fósseis ou a energia atômica. Shanin (eds. d) natureza da força de trabalho. 1995). Isso explica que se tenha produzido com sua introdução uma mudança qualitativa no grau de artificialização da arquitetura dos ecosistemas. até sua conceituação agroecológica atual. h) natureza do conhecimento e. que desenvolvemos em outro lugar (Sevilla Guzmán e González de Molina. na atualidade.) (1982) Introduction to the Sociology of "Developing Societies" (London: MacMillan). H. H. uma enorme capacidade expansiva.” (González de Molina e Sevilla Guzmán. e do trabalho. 1971 e 1990). Este sistema de indicadores tem de ser aplicado desde seus extremos: o modo de uso do campesinato e o modo de uso industrial ou terciário do manejo dos recursos naturais. e) diversidade. b) escala ou tamanho do âmbito espacial e produtivo de seu manejo. o campesinato aparece como uma forma de relacionar-se com a natureza ao considerar-se como parte dela num processo de coevolução (Nogaard. y T. o campesinato é uma categoria histórica por sua condição de saber manter as bases da reprodução biótica dos recursos naturais. Neste sentido. i) cosmovisão (Toledo. culminando. ao estarem submetidos também à degradação de seus traços camponeses. 43-54. 2000: 245). A pesquisa aplicada aos solos e à genética deu lugar a novas formas de manipulação dos componemtes naturais ao introduzir fertilizantes químicos e novas variedades de plantas e animais. Desta perspectiva é possível falar de camponeidade ou grau de camponeidade com relação aos grupos sociais de produtores. subordinante e transformadora (através de máquinas movidas por combustíveis fósseis). (1988). 5.

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