3 cm.

Elizabeth Pippi da Rosa

3 cm

CORRE MANUSCRITO
2 cm
Resenha crítica apresentada na disciplina
de Metodologia Científica, do Curso de
(indicar o curso), da Faculdade Projeção,
para avaliação referente ao 5° Módulo de
ensino.

Taguatinga (ou outro local a indicar), setembro 2013.
2 cm

Figura 1- exemplo de folha de rosto do trabalho

Faculdade Projeção- Educação à Distância
Prof. Elizabeth Pippi da Rosa

uma forma de comunicação ultrapassada pela difusão tipográfica. “Lo que hay de Nuevo que avisar es. em boa medida profissionalizado. no Século de Ouro espanhol e português. c. Bouza sustenta que. de Fernando Bouza foi publicado em 2001 pela editora Marcial Pons de Madri. As práticas de escrita e de leitura são regidas por normas e disposições que respondem às convenções de uma dada sociedade e época. Ao construir sua argumentação. Dos argumentos apresentados pelo autor ressalta-se a descrição. longe de corresponder a uma vontade não-difusionista e a usos privados ou bibliofílicos. por meio das quais procura sustentar as hipóteses discutidas ao longo da obra. Las Biografias Manuscritas como Manual de Corte. Neste livro Bouza apresenta os resultados de sua investigação associada ao Projeto “Cultural exchange in Europe. numa sociedade dominantemente iletrada tal como Espanha e Portugal dos séculos XVI e XVII. Robert Darton. Nóminas. Escribir em Monipodio. De los Libelos de vecinos a las Críticas al Rey. promovido pela European Science Foundantion-Standing Committee for the Hummanities. Sob esta ótica. de uma rede de atores e intermediários relacionados à produção e recepção dos manuscritos. Os posicionamentos e conceitos adotados pelo autor remetem a estudos como os de Michel de Certeau.”. 1700”. Bouza desmonta a idéia do manuscrito como documento avulso ou. o manuscrito atendia a finalidades e objetivos específicos. Faculdade Projeção. Vidas de Palácio. A circulação dos textos manuscritos apoiava-se num ágil sistema de cópias. (1998-2003).1400 – c. Majestad y Autoria em la Alta Edad Moderna. assim distribuídos: Corre Manuscrito. Tocar las Letras. Roger Chartier. segundo a memória fabricada pela cultura do impresso. assim como às competências e expectativas de diferentes públicos. A obra enfoca o papel desempenhado pelos manuscritos na vida cultural da Alta Idade Moderna ibérica. As formas pelas quais os textos são recebidos e apropriados por seus leitores ou ouvintes governam sua possível compreensão. Defende a tese de que o texto manuscrito era largamente difundido e.. no qual a relação entre texto e leitor não se reduz a uma recepção passiva de idéias. Archivos y Lucha Política em la Espana de los Austrias. La Estafeta del Búfon. Cartas de Toque. Bouza opera com um conjunto variado de fontes primárias.. dentre as formas de expressão. apoiada em diversas fontes documentais. Alguns capítulos retomam artigos anteriormente publicados em periódicos acadêmicos. Trata-se de uma obra composta de 8 capítulos. e combinam-se numa perspectiva analítica que aproxima a história do livro e da leitura de uma história da comunicação e da memória. o autor contesta os pressupostos tradicionais da historiografia hispanoportuguesa: a ênfase nos “avanços” das prensas nacionais e a valorização do livro impresso como principal referência da cultura escrita da Alta Idade Moderna. constituído a partir de inventários de bibliotecas e de editoras. incluindo iletrados. atendia às necessidades de um público numeroso e diversificado. Cédulas. de acordo com o método clássico de análise documental.Educação à Distância Prof.O livro Corre Manuscrito: uma historia cultural del Siglo de Oro. La Circulación de Manuscritos em España y en Portugal durante los Siglos XVI e XVII. De Memória. O autor procura retratar as práticas culturais de sociabilidade realizadas através da escrita e da leitura. Tal perspectiva apóia-se numa concepção de leitura enquanto processo criativo. Neste sentido. Elizabeth Pippi da Rosa . O manuscrito é por ele considerado uma prática de escrita que. Cartas de Gente de Placer em la Corte de los Austrias. Próprio Marte. distintos do tipográfico. dominada pelas intenções do autor. Cartas Secas y Cartas de Nuevas. competia com o impresso. difusão e memória disponíveis na época. Não obstante reconhecer a importância da tipografia na consolidação de uma “República das Letras”. Resguardo e Daño em el Siglo de Oro. Adota um procedimento descritivo das fontes selecionadas. além de complementar.

Tal função também era desempenhada por “memorialistas” e seus “escritorios de asuntos y negócios”. Documentos do Santo Ofício. tais como “cartas de tocar”. de modo geral. são focalizadas as práticas cortesãs da escritura. para entende-la e escrevela” (1948). das crônicas escritas por bufons e das chamadas instruções de herdeiros. apresentando os manuscritos tal como eram vistos na época. Seus efeitos atuavam por contato e não por um ato racional de leitura. Elizabeth Pippi da Rosa . Faculdade Projeção. As cartas constituem um gênero de escritura submetido a prescrições que regulam sua composição. as epístolas pareciam seguir as pautas do oral. Bouza evidencia que a escritura hológrafa constituía um signo de deferência na corte. e as formas de sociabilidade a eles associadas. e os chamados textos de orientação mágica. Os usos das cartas de notícias. conforme os procedimentos de conversação nas audiências. diz respeito à compilação de relações de acontecimentos e de avisos em obras consagradas à narração de acontecimentos históricos. o autor assinala a prática da escritura por delegação. os ofícios e os lugares de difusão manuscrita. ou ainda dos ornatos da retórica. satisfazendo determinados usos para os quais parecia especialmente indicado. Ao mesmo tempo apresentam-se como uma forma de sociabilidade e de comunicação historicamente situada. muitos panfletos apresentavam-se na forma de cartas familiares e de avisos ou de notícias. assim como o controle do número de cópias e de seus presumíveis leitores. alimentado por uma rede de intermediários da qual fazem parte copistas ou escreventes profissionais e livreiros. Dentre as formas de contato. instrumento que permitia conversar à distância. contextualiza o tema e analisa o gênero do documento. Esse mercado respondia às demandas de gêneros como a literatura cortesã. seja por meio de fórmulas de saudação. Outra forma habitual de uso e reprodução do manuscrito. que escreviam cartas ou firmavam documentos em nome de analfabetos. em sua De história. aparece com freqüência. das relações e avisos como fontes para a escrita da história são atestados por Cabrera e Córdoba. exercida por letrados. do repertório dos temas tratados pelos correspondentes. Acerca da circulação dos manuscritos. além do castelhano. libelos baseados em pleitos por injúrias. As cartas e os manuscritos. podendo estar vinculado tanto ao jogo paródico de “fuga da aldeia”. como o “Novus Index” de 1640. textos de crítica ao governo. Em vista dos efeitos de veracidade. dos avisos.Educação à Distância Prof. O manuscrito em circulação permitia a rápida transmissão de notícias. A partir dos originais de correspondência nobiliária dos séculos XVI e XVII. apropriados como um amuleto ou talismã. atestam a difusão manuscrita e o contato da população iletrada com a cultura escrita e seus meios. gozavam de um estatuto de originalidade e veracidade. Nos capítulos 1 a 3. Bouza ressalta a leitura em voz alta. como à expressão de uma ingenuidade “natural” imposta pelo modelo de retórica da corte. As epístolas eram consideradas um substituto da voz. ao passo que a escrita tipográfica era identificada com a difusão de um produto comercial e corruptível. De modo geral. focalizando os usos e as práticas da escritura. Nos capítulos 4 a 6. Assinala a importância dos documentos epistolares como objeto privilegiado da historiografia atual. a posse de manuscritos de orientação mágica. o autor aborda as condições de produção e de circulação dos manuscritos. a predicação. o volume e as características dos textos que circulavam. Além desses meios. O sistema de reprodução manuscrita desenvolvia-se a par da difusão tipográfica. nas quais Bouza destaca o gênero das cartas. tratados políticos. as fontes que apresenta mostram a existência de um mercado de cópias manuscritas. O recurso a outros idiomas da Monarquia dos Áustrias. cuja ampla difusão entre letrados e iletrados escapava ao controle dos agentes inquisitoriais e pastorais. dos limites argumentativos dos seus modelos de autoridade. no gênero de diários e crônicas de novidades. assinalada por Bouza. o sistema de cópias. localizados nas cidades e vilas.Em cada um dos capítulos.

A escrituração dos despachos do Rei e a progressiva implantação da consulta escrita nas audiências evidenciam uma prática de governo. Na rede de informação internacional. “vidas de palácio”. Procura mostrar o modo como na Espanha dos Áustrias e em outras monarquias européias do século XVII a criação de arquivos e a conversão de príncipes em autores articularam-se à legitimação do poder real e à afirmação do Estado Moderno. Da circulação manuscrita podia-se recorrer à tipográfica. servia ao exercício da política. Na difusão de notícias. os bufons desempenhavam um papel destacado. ainda que numa estratégia de difusão muito mais controlada que a suposta no impresso. Cartas.armários ou estantes em que se guardavam livros e documentos). mercadores e homens de negócio. Da literatura seiscentista. A partir da correspondência da alta nobreza. inventários e instruções ilustram o gênero da documentação recolhida nos arquivos dos nobres. Em suas composições literárias. o autor destaca as Cartas de Jesuítas. A circulação manuscrita servia à transmissão de notícias.Essa rede de informação era mantida por um “comércio de notícias”. gerada no século XVI. Para a Monarquia. avisos e “instruções de herdeiro” eram empregados como signo de distinção. que retratam a cultura palaciana. cartas. associando aos ofícios carnavalescos sejam as funções de correio e mensageiro de notícias. seja a de escritores. Além desses correspondentes da corte. A gestão do patrimônio e a própria memória das casas nobiliárias apoiava-se na organização de arquivos e “escritórios” (na época também chamados “arquivillos”. frente ao mundo comum dos letrados. que se reforçavam mutuamente. ressalta Bouza. testemunho exemplar das práticas epistolares que acompanharam a Companhia desde sua fundação. modelo e espelho para príncipes e cristãos. A formação da Régia Biblioteca Laurentina no El Escorial é assinalada por Bouza Faculdade Projeção. nos capítulos 7 e 8. Bouza evidencia a presença de diversos gêneros de escrita em circulação na corte. Cédulas. de estilo paródico. atividade exercida por “avisadores” profissionais. em contraste com obras impressas. O recurso ao manuscrito na cultura nobiliária contribuía à criação de um “ethos aristocrático”. tal como esta se expressava nos arquivos de seus ministros. políticos da corte. Elizabeth Pippi da Rosa . Os jesuítas foram também responsáveis pela impressão de numerosas obras que serviram à difusão de seu próprio Instituto. segundo fossem os interesses e necessidades. na qual a escrita mediava o controle administrativo e simbolizava o poder do Estado. Bouza constata a dupla circulação: manuscritos e impressos apresentam-se como meios complementares. sob os encargos de secretários. O recurso ao impresso atendia a objetivos de ampla difusão de textos que se desejavam programaticamente fechados em si mesmos e destinados a um público indeterminado. o autor analisa o uso público do manuscrito. a opção por manuscritos ou por impressos respondia a uma clara consciência da dimensão e beneficiários de notícias. consideradas vitais para a tomada de decisões de príncipes. Por último. Seguindo o modelo dos príncipes “virtuosis” da Itália. como também remetiam cópia e tradução de textos manuscritos em circulação no continente europeu.Educação à Distância Prof. memoriais constituem um corpus de escritos que se apresentam como retrato para políticos. descrevem as representações de personagens. que se encarregavam não somente de transmitir novidades ao Rei e aos membros da nobreza. Enquanto a reprodução manuscrita atendia às demandas de textos abertos à contínua atualização ou aos interesses de quem quisesse controlar a difusão dos escritos e leituras ou daqueles que desejavam distinguir-se da vulgaridade comum dos livros impressos. festas e celebrações. títulos. membros da nobreza hispânica dedicaram-se à composição de obras de caráter histórico ou genealogias e à erudição antiquária. a posse da memória de seu tempo. Destaca o gênero biográfico e seu uso pedagógico: genealogias.

cuja formação era pautada pelo conhecimento dos clássicos e a condição de autores ou compositores. A autoria dos reis era usada para fins propagandísticos de sua condição egrégia. difusão e memória ao seu alcance. O Rei tem valor em si. Elizabeth Pippi da Rosa . a autoria e a escrita davam provas de sua extraordinária condição “próprio Marte”. denotam um período da história cultural do Século de Ouro que empregou contínua e conscientemente as formas de expressão. A educação dos nobres aparece relacionada com a distinção literária. Faculdade Projeção. sem a pretensão de apresentar uma síntese explicativa. Na perspectiva por ele adotada. governa conforme a sua vontade programática. À exceção dos príncipes herdeiros do trono. que se fundamentava no conhecimento de códices e escrituras e. os usos e circulação dos manuscritos. A imagem de um soberano virtuoso e sábio concorria à personificação emblemática da comunidade e à representação da autoridade do poder monárquico. a aristocracia palatina mostrava-se avessa ao saber regrado das letras. Através de uma linha narrativa coerente. num complexo sistema de cópias e tradução de manuscritos. sem recorrer a um sistema totalizante. descortina o universo da escrita na cultura hispânica dos séculos XVI e XVII. Bouza apresenta nessa obra um modelo de escrita da história próximo do paradigma indiciário: dá voz ao documento e por seu intermédio tece a reflexão teórica. na prática.Educação à Distância Prof.como a melhor expressão dessa erudição antiquária. paralelos aos dos impresso.