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ANÁLISE TÉCNICA DO DEFEITO E O VÍCIO DO PRODUTO
À LUZ DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR
Wilson Saiki

INTRODUÇÃO
“Todos nós, por definição, somos consumidores”, anunciou John F. Kennedy,
então presidente estadunidense, em discurso histórico ao Congresso norte-americano,
em 1962. Na ocasião, Kennedy defendia a necessidade urgente de proteger o
consumidor a partir da indicação dos seus direitos fundamentais: informação, segurança,
escolha e participação. Em sua opinião, sem isso, o mundo colocava em risco a
economia capitalista. Embora as palavras do estadista tenham lançado as primeiras luzes
sobre a importância do movimento consumerista para a humanidade, só em 1985 a
Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) adotou a resolução n° 39/248, que
estabelece objetivos, princípios e normas para os governos dos Estados membros
desenvolvessem ou reforçassem políticas de proteção ao consumidor.
Neste sentido, e em total consonância com a filosofia do jurista italiano
Norberto Bobbio, a doutrina jurídica não poderá ficar enclausurada somente em sua
seara, e leciona: “a Ciência do Direito precisa estabelecer novos e chegados contatos
com as Ciências Sociais”1, para assim, complementar as diversas lacunas que carecem de
informações, outras fontes devem-se agregar ao meio jurídico para que juntas dêem
sentido, se não o real, mas, o mais próximo da realidade.
Em que pese as definições de defeito e vício pelos legisladores, este trabalho
tem por objetivo discorrer sobre o conceito do defeito e do vício à luz do CDC, pois
existem, para muitos, grandes questionamentos quanto à sua real aplicabilidade prática,
visto que, os entendimentos dos doutrinadores sobre os artigos referentes ao defeito e
vício, respectivamente os artigos 12 e 18 do CDC, remetem a dúvidas e controvérsias
que pairam entre os textos publicados desta singela temática e até mesmo nas
jurisprudências adiante expostas.

Formado em Engenharia Mecânica Industrial pela Universidade Brás Cubas-Mogi das Cruzes, em 1991.
Bacharel em Direito pela UNIABC-Santo André, em 2010. Engenheiro de Produto Sênior , residente na
planta de São Caetano do Sul, onde tem como responsabilidade principal dar suporte técnico à produção,
processo de manufatura, Controle de Produção, Qualidade e fornecedores, sendo especialista em análise e
causa raiz dos defeitos.
1
BOBBIO, Norberto. Teoria do Ordenamento Jurídico. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.
p. 18.

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Desta maneira pode-se definir o defeito e o vício do produto antes mesmo dos
seus efeitos e repercussões jurídicas a que são submetidos, sendo que alguns destes
consumidores nem chegaram a utilizar o produto, e outros o utilizaram, mas já o tiveram
danificado no primeiro uso. Além disso, alguns produtos podem causar lesões, de
gravidades diferentes, e nos casos mais graves podem causar acidente à segurança,
como ferimentos, mutilações e até mesmo a morte, onde cada um de nós está sujeito às
armadilhas destes defeitos e vícios dos produtos.

1. O DIREITO DO CONSUMIDOR E SEUS NOVOS DIREITOS
O jurista italiano Norberto Bobbio definiu em sua obra “A era dos direitos” que o
atual momento está sendo caracterizado por novos tempos de reconhecimento dos
direitos humanos, buscando um equilíbrio entre pessoas e sociedades, e destaca esta
tendência dizendo com sabedoria que: “o problema grave de nosso tempo, com relação
aos direitos do homem, não era mais o de fundamentá-los, e sim os de protegê-los”.2
Este parecer aduz o reconhecimento do direito do consumidor na proteção da
necessidade de consumir dentro da sociedade consumerista brasileira, ou seja, nos dias
de hoje consumir é uma questão fundamental de existência da sociedade de consumo,
dando-lhe qualificação jurídica do ato de consumir nas suas relações de consumo.

1.1. A base e previsão constitucional do CDC
A definição do CDC Brasileiro veio de encontro com a carência da defesa do
consumidor como um dever do Estado, assim disposto no art. 5°, XXXII, da CF/88
onde este dispositivo constitucional realizada pela Assembléia Nacional Constituinte
assegurou antes de tudo, a proteção à vida, à saúde, à segurança e ao patrimônio do
consumidor.
Tema este tratado em três oportunidades na Constituição Federal: no capítulo I do
Título II, quando afirma que “o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do
consumidor”; no artigo 170, inciso V, cuja menção é de que a defesa do consumidor é
um dos princípios que devem ser observados no exercício de qualquer atividade
econômica no país; e finalmente, no artigo 48 do Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias (ADCT), que determina que o Congresso Nacional elabore o Código de

2

BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Campus. 1992.
p. 25.

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4. ou então representar risco à vida. cabendo também neste quesito a menção do processo de fabricação. é necessária a existência de um defeito no produto e um nexo causal entre este defeito e o dano sofrido pelo 3 Texto extraído da RT informa. “no sistema do CDC. que os defeitos são anomalias constatadas em produtos ou serviços. onde dependendo da robustez e repetibilidade do processo produzirá um produto plausível. 2012. “um pressuposto essencial da responsabilidade do fornecedor é que o produto seja defeituoso.1/2. Programa de Direito do Consumidor. isto é.1. confrontada com o estágio técnico e as condições específicas do tipo do produto ou do serviço. e assim descreve: A responsabilidade pela reparação de danos ao consumidor. pelo fato do produto. razoável. que leva ao que se denomina de acidente de consumo. 12 do CDC diz que o produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se espera. saúde ou segurança dos efetivos ou potenciais consumidores. p.118 Defesa do Consumidor (CDC) . 4 FILHO. O CONCEITO DE DEFEITO E DO VÍCIO DO PRODUTO Pode-se dizer de forma geral. Para o Professor Sergio Cavalieri Filho. p. . o 1º do art. consequentemente sem a presença dos defeitos e dos vícios.4 O Critério adotado pelo Professor Sergio Cavalieri Filho é dotado de uma análise técnica onde aborda “a capacidade do fabricante de eliminar os riscos de um produto”. será defeituoso. Conforme Cláudia Marques. como também causar danos aos seus consumidores. aceitável. 242 e 243. no momento em que foi colocado no mercado apresente um defeito potencial ou real e que esse defeito seja a causa do dano”. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais – Ano XI – n°61 – junho/agosto 2010. 2008. e que não apenas tornem inadequados para os fins a que se destinam. Buscando facilitar a caracterização do defeito. São Paulo: Editora Atlas. um dos critérios utilizados na definição de defeito é: a falta de capacidade do fabricante de eliminar os riscos de um produto sem prejudicar sua utilidade. que enseja. N. REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. A expectativa de segurança é legítima quando. a qualidade esperada do produto e que dependerá justamente do “estágio técnico e as condições específicas do tipo do produto ou do serviço”. O Professor Agostinho Oli Koppe Pereira tem a seguinte visão para a presente questão. Se o produto não corresponder a essa segurança legitimamente esperada. provém de um defeito desse produto. Sergio Cavalieri. 3 2.o que aconteceu em 1990. razoável e aceitável pelo consumidor. mostra-se plausível. Nas palavras de Ferreira da Rocha.

e neste mesmo sentido o Professor José Geraldo Brito Filomeno. sem que esta diferenciação possa definir o caso mais danoso ao consumidor. pois o vício. José Eduardo Duarte Saad e Ana Maria Saad C. A distinção. konstruktions. fato este que concordamos por demais.119 consumidor. onde é certo que poderá haver falhas. mas há de se destacar a evidente diferenciação. Instruktionsfehler)”. extraí-se nas doutrinas existentes. 2. senão vejamos: “(a) os vícios ocorridos na fase da fabricação. que difere da nossa definição no seu efeito. (b) vícios ocorridos na concepção técnica do produto.fehler). os Professores Eduardo Gabriel Saad. proveniente de uma falha pontual. uso determinado pela comum intenção das partes”. já o vício abrange uma série. um dos autores do Anteprojeto do CDC. um lote. cita os vícios de acordo com os Direitos anglo-americano e alemão. de um defeito capaz de impedir a perfeita utilização do produto com consequências que podem estar ligadas a danos tantos físicos. quanto patrimoniais ao consumidor. ou. N. afetando exemplares numa série de produtos (miscarriage in the manufacturing process. que o vício é pressuposto de um defeito. pois dependemos das infinitas e variáveis etapas do processo de um produto.1. . De fato elas se permeiam. 2012. pois o defeito é isolado. um dia.” Desta feita. Fabrikationsfehler). Branco recorre à interpretação dos aplicadores do art. nada mais é que. é meramente teórica. no campo do direito comum.1. e não só entre dano e produto”. De outra visão. em outras palavras. E deste artigo ora comentado. um defeito que atinge uma série da produção. entretanto. afetando toda uma série de produção (improperly designed product. não produzindo qualquer efeito prático. onde: “defeito é a inaptidão do objeto ao uso para o qual tinha sido vendido ou comprado. 1641 do Código Civil francês. Atenta-se. um tempo qualquer de produção. aduz que o defeito do produto pode ter várias causas. No comentário do Professor José Fernando Simão sobre o defeito e o vício é de se destacar os seguintes dizeres: “Poder-se-ia estabelecer a diferença entre vício e defeito quanto a seu significado: há vício quando ocorre uma alteração de um elemento específico da coisa e há defeito quando falta na coisa esse elemento específico. certa divergência entre o defeito e o vício.1/2. O Defeito e o Vício à luz do CDC REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. (c) os vícios nas informações e instruções que acompanham o produto (breach of duty of warn.

Antes da ocorrência do acidente. uma vez que não se tem nenhuma razão prática ou teórica para adotar essa diferenciação”.. sendo o fornecedor responsabilidade nos termos do artigo 12 do Código7. como ao defeito. passará a ser um defeito. pode-se classificar as imperfeições dos produtos em duas grandes categorias básicas. é antecipada por um vício. como um vício de qualidade do mesmo produto. por exemplo. como. Cit. Agostinho Oli Koppe. A segunda compreende as imperfeições que têm como consequência a inservibilidade ou mera diminuição do valor do produto. 213. 92. Legislação Referenciada e Prática Processual. Responsabilidade civil por danos ao consumidor causados por defeitos dos produtos. pois essas expressões se implicam. Gisele de Lourdes. “parte da doutrina se posiciona pela inexistência dessa dicotomia. classifica o defeito e o vício à luz do CDC como duas categorias básicas. podemos dizer que se trata de um vício. muitas vezes. 2) vícios dos produtos.1/2. diferenciadas pela sua natureza e pelo regime jurídico a que se submetem: 1) defeitos dos produtos. ocorrendo um acidente ocasionado pelo problema nos freios. 6 DENARI. 2003.”6 A Professora Gisele de Lourdes Friso assim distingue defeitos de vícios: Note que a ocorrência de um defeito. Tanto posso aludir ao vício de qualidade como um defeito de um produto. São Paulo: Primeira Impressão. REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V.5 O Professor Agostinho Oli Koppe Pereira subdivide os defeitos em duas categorias: a primeira grande categoria abrange as imperfeições chamadas de “defeitos dos produtos” (de natureza mais grave que os vícios) e que são capazes de causar danos à saúde ou segurança do consumidor.103. e aduz o Professor Zelmo Denari na corroboração desta opinião: “A nosso aviso.1. assim descrito: O Código de Defesa do Consumidor se inclina no sentido de estabelecer uma dicotomia entre defeito e vício de qualidade. Para o meu entendimento. de forma precisa. ob. Interpretação Doutrinária. p. conforme exemplificação da Professora 5 PEREIRA. E comenta que. Porto Alegre: Livraria do Advogado. . Código de Defesa do Consumidor Comentado. 214. 2012. Jurisprudência Comentada. a corrente dos Professores Agostinho Oli Koppe Pereira e Zelmo Dalari possui uma análise voltada ao campo técnico e que vem de encontro com a minha opinião. p. N. Agostinho Oli Koppe. Apud: PEREIRA. pois não podemos definir o que é defeito ou vício vislumbrando apenas o tempo do acontecimento de um fato. 2003. dentro da sistemática do CDC. p. Zelmo. e. 2007. um vício nos freios de um veículo. a dicotomia não existe. Porém. Responsabilidade civil por danos ao consumidor causados por defeitos dos produtos. reciprocamente. assim. 7 FRISO. Porto Alegre: Livraria do Advogado. p. gerando a responsabilidade do fornecedor pelo presente artigo.120 O Professor Agostinho Oli Koppe Pereira. atendendo rigorosamente a composição jurídica estabelecida em lei.

num objeto. assim como por aqueles decorrentes da disparidade. 18. 18.1/2. entre as quais. vício. da embalagem. III – a época em que foi colocado em circulação”. UOL 2009. Imperfeição. 2012. deve-se analisar as causas que provocaram um determinado fato gerador de dano ao consumidor. rotulagem ou mensagem publicitária. falha. este já um defeito por natureza. ou lhe causa ou impede a utilização. pois.2. 2. que. levando-se em consideração as circunstâncias relevantes. 2. II – o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam. e todo defeito ou vício pressupõe da falta de qualidade em alguma fase da concepção do produto ou processo de fabricação. o significado da palavra defeito em latim: “defectu” tem as seguintes definições: 1. se afetar a segurança do consumidor poderá desencadear o chamado “recall”. podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.121 Giseli de Loudes Friso. Irregularidade a aparência. caput. . I – sua apresentação. labéu. com as indicações constantes do recipiente. 3. deformidade.3. O DEFEITO E O VÍCIO À LUZ DOS DICIONÁRIOS No Moderno Dicionário da Língua Portuguesa – Michaelis. No tocante ao “vício de qualidade”. Falta ou REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. respeitada as variações decorrentes de sua natureza. que descreve: “O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se espera. em que. O Defeito à luz do CDC A definição para o defeito no Código de Defesa do Consumidor está descrita no parágrafo primeiro ao terceiro do art.1. e a partir desta análise é possível definir se a falha foi consequência de um defeito pontual ou. ou lhe prejudica imperfeição: Quebrou devido a um mancha. 12. assim transcritos: Art. lhe estraga enfraquecimento. se a falha ocorreu por um vício em algum momento da cadeia produtiva deste produto. O Vício à luz do CDC A definição para o vício no Código de Defesa do Consumidor está descrita no art. 3. defeito do material. 2. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor. N.

1. 4° Ed. Fato do produto está ligado a defeito. UOL 2009. mas em vício. inoperantes ou inaptos para o fim a que se destinam. ou seja. podendo assim. deformidade. ação indecorosa que se pratica por hábito. Portanto. 4. termina por causar danos físicos ou patrimoniais aos consumidores. comprometendo a segurança que legitimamente se espera da fruição dos produtos e serviços. o defeito e o vício são definidos da seguinte forma: Defeito é. Disposição ou tendência habitual para o mal. 2. que. por sua vez. Para o vício. Falta. está ligado a dano. esta diferenciação técnica da linguagem morfológica faz do vício um hábito ou costume maléfico. mesmo porque. a definição do Professor João Batista de Almeida não exterioriza a realidade dos fatos técnicos dentro dos 8 ALMEIDA. 3. portanto. no Moderno Dicionário da Língua Portuguesa. Defeito que torna uma coisa ou um ato impróprios. João Batista. pode-se dizer que. 4. 6. imperfeição.122 escassez de algo essencial à perfeição ou integridade de alguma coisa. REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. ou para o efeito que devem produzir. algo que se repete constantemente. deficiência. viciação.8 Trazendo para o campo técnico. ou mesmo. viciamento. Hábito de proceder mal. O que não é conforme às regras da arte”. quando se fala em vício do produto é óbvio que se refere à sua qualidade. 4. Michaelis. pode-se concluir que. a falta de qualidade deste produto. Defeito físico ou moral. toda anomalia que. em que pese a postura de alguns doutrinadores. 92. atingir uma determinada quantidade da produção. far-se-á o “recall”. N. defeito. São Paulo: Editora Saraiva. sua abrangência é maior. 2012. de toda a produção. considero que o significado da palavra vício seja mais danoso a pessoa humana do que o defeito. p. Manual de direito do consumidor. O DEFEITO E O VÍCIO À LUZ DOS DOUTRINADORES Para o Professor João Batista de Almeida. 5. Se essa anomalia apenas compromete o funcionamento do produto ou serviço. imperfeição grave. e nestes casos. se constatado que o vício afeta a segurança do consumidor. fato pelo qual. ou melhor. Consubstanciando neste sentido. 2010. não se fala em defeito. o significado da palavra vício em latim: “vitiu” tem as seguintes definições: 1. . o vício do produto enseja também uma abrangência quantitativa seriada da sua produção.1/2. onde se conclui que o vício do produto é mais danoso do que um defeito devido a sua massificação. Costumeira. erro.

então. Sérgio Cavalieri Filho e James Eduardo Oliveira. Temos. um grande contra senso de interpretação da nossa Lei 8. que o vício pertence ao próprio produto ou serviço. Vício. conforme entendimento dos Professores Antônio Rizzato Nunes. .123 processos produtivos em que se enquadram os produtos manufaturados atuais. que causa um dano maior que simplesmente o mau funcionamento. O vício é uma característica inerente. O defeito compromete a segurança do produto ou serviço. Há vício sem defeito. REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. São Paulo: Editora Saraiva. Curso de Direito do Consumidor. estão sujeitos ao mesmo processo de fabricação. Segundo o Professor Antonio Rizzatto Nunes. já que o produto ou serviço não cumprem o fim ao qual se destinaram. 2004. 285 e 286.9 Assim. o nãofuncionamento. em termos de dano causado ao consumidor. definir que o “defeito é mais grave e devastador que o próprio vício”. e dentro deste campo.078/90 e seus dispositivos. Consubstanciando com o Professor Antônio Rizzato Nunes. É no defeito que o consumidor é atingido. e em contrapartida. intrínseca do produto ou serviço em si. por sua vez. p. a quantidade errada. é o que realmente gera o “recall”. temos a seguinte interpretação do Código: O defeito. portanto.1/2. outro ou outros danos ao patrimônio jurídico material ou moral do consumidor. mas. pressupõe o vício. Por isso somente se fala propriamente em acidente de consumo em caso de defeito. onde o vício por sua vez. o Professor Sergio Cavalieri Filho define: A palavra chave neste ponto é defeito. observa-se. só que no fato do produto ou do serviço o defeito é tão grave que provoca um acidente que atinge o consumidor.1. O defeito é o vício acrescido de um problema extra. a perda do valor pago. uma falha pode ser somente um defeito isolado ou um vício que abrangerá uma série de produtos. mas não há defeito sem vício. pois as anomalias que podem causar danos físicos ou patrimoniais e também comprometer o funcionamento dos produtos. 2012. é 9 NUNES. Logo o defeito tem ligação com o vício. O defeito vai além do produto ou serviço par atingir o consumidor em seu patrimônio jurídico e/ou material. N. onde caberá discussão salutar sobre o tema no decorrer desta pesquisa. alguma coisa extrínseca ao produto ou serviço. por sua vez. Luiz Antônio Rizzato. onde o defeito é mais grave e devastador do que o vício. pois não é concebível se falar em vício capaz de comprometer a segurança de um produto no “recall”. jamais atingindo o próprio consumidor ou outros bens seus. além desse dano do vício. causando-lhe dano material ou moral. Ambos decorrem de um defeito do produto ou do serviço. O defeito causa. é mais devastador.

e que na prática não produz efeito algum”. consubstanciando com o conhecimento técnico dos processos 10 FILHO. SIMÃO. conforme o disposto. 2012. Sergio Cavalieri.”12 Portanto.10 Desta feita.11 O destaque está no final no parágrafo em tela. onde pretendo demonstrar que os conceitos dos art. entretanto. 2003. A nosso aviso. Tanto posso aludir ao vício de qualidade como um defeito do produto. e aduz: “Existe uma tendência doutrinária que se preocupa em estabelecer uma dicotomia entre vício de qualidade e defeito. pois as expressões se implicam reciprocamente. o vício de qualidade por inadequação ou insegurança seria sinônimo de defeito. José Fernando. e que merecem mais detalhes do campo técnicoprático para deflagrar várias interpretações errôneas e confusas a respeito deste tema. N.1. circunscrito ao produto ou serviço em si. A distinção. Com relação ao CDC.1/2. Ob. São Paulo: Editora Atlas. ps. um defeito que lhe é inerente ou intrínseco. é meramente teórica. E neste sentido é a premissa desta pesquisa. O comentário a seguir do Professor José Fernando Simão sobre o defeito e o vício merece destaque em parte da sua interpretação. 58. para o Professor Zelmo Denari. bem como. p. Cit. já que. mas categoricamente não se aplica ao entendimento do Professor Zelmo Denari que discorda com esta distinção. posição esta que compartilho mediante a pesquisa em tela. como ao defeito como um vício de qualidade do produto. pois não se pode assegurar de forma categórica que um vício é menos grave que um defeito. 12 Ibidem. 11 REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. pois quando se faz o “recall” é porque um vício oculto surgiu neste produto afetando a segurança. tenho ressalvas a tecer. a dicotomia não existe.124 defeito menos grave. no campo do direito comum. . Vícios do Produto no Novo Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor. onde descrevo abaixo e explico posteriormente: “Poder-se-ia estabelecer a diferença entre vício e defeito quanto a seu significado: há vício quando ocorre uma alteração de um elemento específico da coisa e há defeito quando falta na coisa esse elemento específico. a própria vida do consumidor. não produzindo qualquer efeito prático”. 241 e 265. 12 e 18 do CDC são definições no campo teórico-jurídico. que apenas causa o seu mau funcionamento ou não funcionamento. no tocante às relações de consumo esta sinonímia não é comumente utilizada. onde o Professor José Fernando Simão salienta que “a distinção entre o defeito e o vício é meramente teórica no campo do direito. 240. alguns doutrinadores propõem a distinção entre os vocábulos vício e defeito.

13 No que se refere ao primeiro grupo.229. estão relacionados ao processo produtivo do produto. só ao produto pertence. AS ESPÉCIES DE DEFEITO DO PRODUTO Em termos de classificação dos defeitos. 5. formulação. em que pese opor a maioria dos doutrinadores que entendem tal distinção entre o defeito e o vício. 5. mas que estão relacionados ao produto de forma informativa ou de comercialização do mesmo. que estão consolidados dentro do produto.2 O Defeito de Fabricação ou Produção Defeitos de produção ou fabricação correspondem aos defeitos de construção. 5.1 Os defeitos intrínsecos Os defeitos intrínsecos. que não fazem parte das características do produto em si. p. são eles: 5.1/2. 5. montagem. a doutrina costuma apresentar dois parâmetros distintos: um primeiro restrito ao momento em que o defeito é consolidado. fabricação. Cit.125 produtivos dos produtos. REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. e design dos produtos. seguindo a mesma distinção do CDC. da sua estrutura.1. fazendo parte do componente físico. manipulação e acondicionamento dos produtos. e um segundo que envolve a interiorização ou exteriorização do defeito.1 O Defeito de Concepção ou Criação Defeito de concepção ou criação são os que comportam os defeitos de projeto. .2. Ob. como defeito relativo ao material empregado no produto ou mesmo um erro dimensional. N. Ainda neste item. se tem outra subdivisão de defeitos de produção.. Agostinho Oli Koppe.3 O Defeitos de Comercialização ou de informação 13 PEREIRA. três modalidades de defeitos são apresentadas. 2012.2 Os defeitos extrínsecos Os defeitos extrínsecos. onde se adota a seguinte nomenclatura: 5.2.

e nestes termos. quando um produto for vendido por peso padrão e este não possuir o peso estipulado na embalagem. o dispositivo mais adequado é o art. o vício de quantidade cabendo as devidas tratativas para que o consumidor não tenha nenhum prejuízo. é quando o produto coloca em risco a integridade do consumidor não oferecendo a segurança que dele se espera. denota-se. mas quando pesado está com 470 g em todas as embalagens. 6. Em que pese o tratamento dos vícios no art. AS ESPÉCIES DE VÍCIO DO PRODUTO Cabe ao fornecedor responder pelos vícios do produto conforme preceitua o CDC em seu artigo 18 e pode ser classificado em 3 modalidades: Vício de qualidade.126 Defeitos de comercialização ou de informação apresentam defeitos relativos a apresentação do produto. estar-se-ia diante de um vício de quantidade. fazendo distinção entre vício de qualidade por inadequação e vício de qualidade por insegurança. 12 do mesmo código.1/2. conforme abordado de forma genérica no artigo referenciado no início do item tem associação a números e unidade de medidas. que é principio da Política Nacional das relações de Consumo. 6. .3 Os Vícios de Informação Vício de informação. que surge no Brasil através do CDC. portanto. decorre da boa-fé objetiva. não é unânime o entendimento de que vícios graves possam ser solucionados neste dispositivo. 6.2 Os Vícios de Quantidade Vício de quantidade. 18 do CDC. N.1 Os Vícios de Qualidade Para o Vício de qualidade é importante salientar o que a doutrina convencionou chamar de teoria da qualidade. cito um pacote de macarrão que consta na embalagem 500g. Como exemplo. e todos as outras caixa também possuem tal vício. Vício de quantidade e Vício de informação. sobre sua utilização e riscos. ou seja.1. 6. uma caixa de parafusos que especifica 100 parafusos e ao contar consta somente 95. 2012. constituindo-se em uma regra básica de convivência social REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. e grave ao meu entender. as informações insuficientes ou inadequadas e a publicidade.

e descreve: Entendemos que os conceitos de vício oculto e de vício aparente podem ser aplicados tanto ao regime do Código de Defesa do Consumidor como ao regime do Código Civil.33ss. 69. ou temos a falta de informação no manual do proprietário de um determinado produto. Cit. Paulo Luiz Neto. A novidade (no Código de Defesa do Consumidor) vem por conta do vício aparente que revoluciona o regime de responsabilidade por vício. p. sendo certamente diferentes as consequências de cada tipo. dependendo da relação em que ocorre . Assim. p. 2012. 1995. 7. 7. Responsabilidade por vícios nas relações de consumo. n° 14. p. José Fernando. Portanto. O mais conhecido é quando temos informação errônea na embalagem de algum produto. 69. ou quando se coloca uma informação técnica que não corresponde ao produto. distinguindo-se somente nas suas consequências jurídicas. LÔBO.1 O Vício Aparente 14 SIMÃO. Ob. estampada nas embalagens ou nos manuais técnicos de informações em diversos produtos e também nos manuais de proprietários de veículos. 15 REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. este caberá apenas tratativas dentro de uma relação civil. a acepção de vício aparente deve ser tratada de igual maneira tanto nas relações de consumo como nas relações civis. José Fernando. sem restrições.1/2. São Paulo: Revista dos Tribunais. não é outra a opinião de Paulo Luiz Neto Lobo:14 O sentido de vício oculto é o mesmo que a doutrina construiu desde o direito romano.127 que passa a ter relevância jurídica para o asseguramento dos demais princípios decorrentes da constituição do vínculo de direito. quando especifica um peso e é outro. O VÍCIO APARENTE E VÍCIO OCULTO Nos dizeres do Professor José Fernando Simão o conceito de vício oculto e de vício aparente podem ser aplicados por dois códigos distintos. ao comprar um automóvel na concessionária com um amassado na porta estamos diante de um vício aparente (ou defeito aparente) de uma relação de consumo.Aliás.1. N. abr/jun. distanciando-se do modelo tradicional dos vícios redibitórios. os vícios de informação estão relacionados as informações que estão presentes de forma seriada. ao meu entender. Cit. Apud: SIMÃO. .15 De qualquer sorte. Ob. Vícios do Produto. mas se o amassado foi provocado por um vizinho desafeto. Revista Direito do Consumidor.

Assim. bastando.128 O Professor José Fernando Simão expressa a definição de vício aparente da seguinte forma: Vício aparente. ou seja. Como é comum na doutrina.1. ou seja. ao meu entender. Cit. assim podendo ser outro motivo. estamos claramente diante de vício oculto. e poderá surgir do nada. Ibidem. para tanto. mas que com o uso se deteriora com facilidade através destes indesejáveis vícios ocultos. acionar o farol. pois pode-se trocar a lâmpada e o farol continuar inoperante. REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. tal vício é chamado de redibitório. N.17 Assim. além do que. rescindir o contrato. como queima de fusível. é aquele de ser notado por meio de simples observação e exame atento do homem médio (standard jurídico do bonus pater familiae). encoberto. este exemplo está associado a um defeito.. após meses de uso. mal contado do fio aterrador. visto que. Ob. mas de vício aparente que pode ser percebido por meio da visão. a contrario sensu. bateria arreada e outros. p. p. pois confere à parte prejudicada o direito de redibir. .2 O Vício Oculto Para o Professor José Fernando Simão a definição para vício oculto se dá como: Vício oculto é aquele defeito cuja existência nenhuma circunstância pode revelar.1/2. se o farol do carro não funciona. 62. 7. dependendo da maneira do uso e das condições adversas em que o produto será submetido e obviamente que também dependerá da qualidade produtiva em que este do produto foi projetado e produzido. senão mediante exames ou testes. devolvendo a coisa e recebendo do vendedor a quantia paga.3 Classificação 16 17 SIMÃO. apresenta um problema de aquecimento fora do normal.16 Neste exemplo dado pelo Professor José Fernando Simão. pois se tem produtos que aparentemente se mostra robusto. se o motor do carro. 69. cabe um comentário técnico. José Fernando. o oculto é aquilo que não está visível aos olhos da pessoa mediana. não necessariamente é um vício aparente. está escondido. não estamos diante de vício oculto. 2012. pois outros defeitos podem estar associados ao não funcionamento do farol. É o vício que desvaloriza a coisa ou torna-a imprestável ao uso a que se destina. Porém. 7. o farol que não funciona ao seu acionamento.

onde foi verificado apenas este caso desde que o veículo entrou em produção há 3 anos. por excesso de aplicação de tinta no mesmo local devido a um erro de tempo na programação do robô e se tornará um “defeito com vício aparente”. suscetível de falha humana. ou seja.129 Como já é de conhecimento a definição de defeito e do vício. este mesmo defeito poderá gerar um defeito com vício. 2012.1/2.1. e desta feita. portanto. analisado a falha constatou-se que a falha foi motivada por vazamento do fluído hidráulico. pois existem muitas teorias que não se concatenam com a realidade prática. agora se acrescenta mais a variável aparente e oculto determinando. porém. Exemplo 2 Defeito oculto . apenas um “defeito oculto” isolado. assim coloco a seguir 4 (quatro) exemplos possíveis de ocorrer nos produtos exemplificados. ocorrendo num determinado período ou quantidade da produção. por uma conexão solta. REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. característico de falha humana e de fácil reparo. porém. N. quais sejam: Exemplo1 Defeito aparente .4 Exemplos A Exemplificação destas condições de defeitos e vícios aparentes ou não se torna fundamental para clarificar estas definições. alterando o processo de pintura para automatizada ou robotizada.Num veículo semi-novo foi constatado defeito no sistema do freio que provocou acidente grave e lesões ao motorista. a seguinte classificação para os defeitos: A) Defeito aparente (normalmente não afeta segurança) B) Defeito oculto (pode ou não afetar a segurança) C) Defeito com vício aparente (normalmente não afeta segurança) D) Defeito com vício oculto (pode ou não afetar a segurança) 7.Utilizando-se do exemplo 1. portanto. Exemplo 3 Defeito com Vício aparente . este defeito do tipo casca de laranja ou escorrido aparecerá em todos os veículos por falha do processo. neste caso considera-se que o processo desta operação seja executada com pistola manual.Uma falha de pintura no capô de um veículo com aparência de “casca de laranja” ou mesmo um escorrido no pára-lama caracteriza-se um “defeito aparente”. . caracterizando. Exemplo 4 Defeito com Vício oculto – Utilizando-se o mesmo exemplo 2.

nos últimos 2 meses de produção. ou seja.1/2. outros 20 veículos também sofreram o mesmo acidente entre graves e leves. 2012. 4] mais grave que um defeito aparente [ex.1. neste diapasão. Branco. que atinja uma proporção quantitativa no mercado consumidor é que será deflagrado o “recall”. 2] mais grave que um vício aparente [ex. 1] Concluí-se então. após concluída a análise técnica verificou-se uma falha do material da conexão. . cabe a citação dada pelos Professores Eduardo Gabriel Saad. somente através de um “vício oculto” que comprometa a segurança que dele legitimamente se espera. onde não é possível garantir a qualidade em 100% dos produtos colocados no mercado.130 considera-se que além do veículo com defeito oculto acidentado. que a gravidade do defeito nestes exemplos não depende necessariamente se a falha é apenas um defeito ou um vício. N. José Eduardo Duarte Saad e Ana Maria Saad C. em 1963. mas que. vazamento do fluído hidráulico por uma conexão solta. com o mesmo diagnóstico de falha. independentemente se é defeito ou vício. o PROCON. AS CONSEQUÊNCIAS DO DEFEITO E DO VÍCIO – RECALL Cabe aqui tecer alguns comentários. órgão fiscalizador. onde uma parcela dos consumidores experimentarão os dissabores de um produto defeituoso ou vicioso e a árdua peregrinação para obter seu devido ressarcimento pelos seus prejuízos. determina a execução do “recall” baseado no artigo 10º e seus incisos do CDC. 8. provocando micro fissura e posterior rompimento da conexão pela pressão do sistema hidráulico exigido em freadas bruscas. Fazendo a correlação de gravidade entre os 4 exemplos anteriores podemos fazer a seguinte analogia entre defeito e defeito vicioso: A] pode-se ter um defeito oculto [ex. vai depender de como esta falha ou anomalia vai comprometer a segurança do veículo e consequentemente ao consumidor motorista e os demais ocupantes. onde descrevem: Revela Jean Bigot que nos Estados Unidos registraram-se. quando ocorre um evento danoso ao consumidor. onde o fabricante de um produto necessita chamá-lo para a devolução ou substituição de algum componente que poderá comprometer a sua segurança. é quando temos o conhecido “RECALL”. 3] B] pode-se ter um vício oculto [ex. 50 REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. Esta situação é provocada pela massificação dos produtos manufaturados.

nos EUA. Para corroborar neste tema específico.1. o NHTSA possui um sistema independente de testes de segurança e levantamento de informações sobre defeitos em veículos e autopeças. foram computadas mais de 270 mortes relacionadas com a referida falha técnica.131 mil reclamações contra defeitos e vícios dos produtos. mas que no Brasil. é possível rastrear falhas técnicas preventivamente bem como realizar investigações regulares. sob a pressão da concorrência e do progresso tecnológico.” Diante destes fatos. É importante esclarecer que enquanto a aludida agência norteamericana responsável por recalls é especializada unicamente em produtos da indústria automobilística. valor que poderia comprometer a sobrevivência das duas multinacionais processadas.1/2. autor do livro “4 milhões de carros com defeito de fábrica”. cito o Professor Rodolfo A. Neste sentido. determinando-se o recall sempre que for necessário. está muito aquém do desejado. de 24 de agosto de 2001. o nosso DPDC tem sob a sua responsabilidade milhares de outros produtos que podem ser objeto de recall. além da incumbência de coordenar e executar a política nacional de proteção ao consumidor. Acrescenta que o fenômeno parece ligado a várias causas. Ações ajuizadas por consumidores contra a Bridgestone Firestone pleiteavam na justiça norte-americana mais de US$ 50 bilhões de dólares. o recall dos Estados Unidos tornou-se referência para o nosso CDC. o texto do Professor Rodolfo A. concluímos que o “recall” no Brasil. onde destaco o texto abaixo com detalhes sobre o caso da Pick-up Explorer e a fabricante de pneus Firestone & Bridgestone: “Em poucos meses. onde descreve: Enquanto no Brasil o DPDC toma ciência de eventuais defeitos através da informação do fabricante. N. Desta feita. Dessa forma. comparativamente aos EUA. cabe ressaltar mais uma vez. pois temos as leis de proteção ao consumidor. 2012. mas não há órgãos e profissionais tecnicamente treinados e especializados para o controle da REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. . Rizzotto. dificilmente conciliáveis com medidas eficazes de controle do produto. em 1969 – 6 anos depois – elas subiram para 500 mil. as exigências da produção em série são por vezes. os fabricantes por vezes são obrigados a comercializar produtos insuficientemente experimentados ou testados. especialmente: a produção em série dos produtos manufaturados. o recall foi regulamentada somente com a edição da portaria 789. independentemente da manifestação do fabricante. a sofisticação e a complexidade de certos produtos e materiais tornam sua utilização por vezes perigosa. Rizzotto.

v. ao aplicar aos casos concretos o novo Código. j. Cível.1. de início indisfarçável vacilação. rel. em parte. o consumidor decai da ação respectiva em noventa dias. capaz de obstar a decadência" (TJRS. . 9. a fim de que. Caso em que propôs a ação após tal prazo e não há prova de reclamação oportuna. onde a dificuldade de sair da inércia foi lenta e com o passar do tempo criou corpo na sua plena aplicabilidade jurídica. p. pois o mesmo não se constata de plano. e complementa a Professora Odete Novais Carneiro Queiroz: Entretanto.1/2.u. percebeu-se. bastando lembrar a aplicação reiterada. que atualmente se observa. Em tal hipótese.132 qualidade e segurança nas diversas categorias dos setores produtivos. mas alguns percalços são observados desde a criação da Lei nº 8. Ementa: "1. Ano de fabricação do veículo. pois ocorreu apenas neste veículo 18 QUEIROZ. 19 REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. contados da data em que se constatou o vício. na nota fiscal e no certificado de propriedade.19 Na decisão anterior. p.º 595204884. pois automóvel é bem durável (. se possa investigar antecipadamente possíveis casos suspeitos de risco a segurança dos consumidores. Acessado em 25/08/10 as 23:15 h. muito embora essa fase nos pareça. http://www.078/90 e sua aplicação. 3ª C.. em 15.diaadiaeducacao. superada. N.pr. RJTJRGS 175/443445). nota-se o seu desconhecimento técnico. porém há controvérsias nas suas decisões. Defeito oculto. AI n. 16. pois o erro quanto ao ano de fabricação de veículo é característico de apenas um defeito dentro do seu processo de gravação ou por colagem de placa de identificação do ano no veículo. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais Ltda.18 Segue abaixo algumas jurisprudências sobre o defeito e o vício onde se destacam as diversas aplicações legais do CDC..).br/diaadia/diadia/arquivos/File/coddefconsumidorcomentado. Odete Novais Carneiro. Exemplo do art. por parte de alguns magistrados. 2012. OS COMENTÁRIOS À JURISPRUDÊNCIA Nossa jurisprudência em relação à defesa do consumidor agora é farta. Araken de Assis..2. A jurisprudência abaixo foi dada como exemplo para o art. 1998. 12 caput do CDC.96. 12.pdf CDC Comentado. des. 14. em que pese o conhecimento jurídico do eminente julgador. Decadência. da sanção penal (privativa de liberdade) em casos de publicidade enganosa e abusiva.gov. Constitui vício oculto o erro quanto ao ano de fabricação de veículo.

II. num segundo momento diz: “Contagem do momento em que ficar evidenciado o defeito”. 2012. A jurisprudência a seguir foi dada como exemplo para o inciso II do art. Art. sejam eles materiais ou morais. conforme o disposto inciso II do art. Consumidor.1/2. Lei n. 18 do CDC assim disposto: “a restituição imediata da quantia paga. monetariamente atualizada.)20 No caso anterior. Exemplo do art. rel. 27 do CDC.12. j. caso em que não são. . mas se for defeito decai no art. (TJSP. Orlando Pistoresi. Civil. Acessado em 25/08/10 as 23:18 h.. Restituição da quantia paga.br/diaadia/diadia/arquivos/File/coddefconsumidorcomentado. e a informação quanto ao ano de fabricação é obrigatório constar na nota fiscal e no veículo. sem prejuízo de eventuais perdas e danos”. 18. 22. do Código de Defesa do Consumidor. fato este que propicia o autor da ação requerer seus direitos de reclamação e seus respectivos direitos de indenização pelos danos causados por este fato. Legitimidade passiva configurada.8741. 26 do CDC.º 238. 4ª C. a partir do momento em que constatou-se tal defeito. p. Dispositivo.133 de uma série de produção. Ementa: "Na hipótese de defeito do produto que o torne impróprio ou 20 http://www. contrariando a decisão proferida na sentença. v.94. Vício oculto. Veículo com vício oculto que o torna impróprio para o uso e diminui seu valor. observa-se que. de forma que não caracteriza vício oculto mas simplesmente um defeito de produção por uma falha no processo de gravação.”. decaindo portanto no art. Prazo decadencial. dando uma conotação de igualdade.”.º 8. 3º e 18. § 1º. Contagem do momento em que ficar evidenciado o defeito. N. REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V.gov. conforme já exposto anteriormente nas suas definições. logo depara-se em controvérsia terminológica do vício e do defeito. Veículo. AI n. Ação ajuizada contra vendedor e fabricante. num determinado momento utiliza-se “vício oculto”. 26. Recurso não provido... o prazo decadencial inicia-se no momento em que ficar evidenciado o defeito”. Ação contra o comerciante fornecedor do produto.078/90.. ademais.. Legitimidade passiva. 26 do CDC. contrariando a decisão proferida na sentença onde decai o prazo em 90 dias.pdf CDC Comentado.1. JTJ-Lex 172/221222. onde estatui: “Tratando-se de vício oculto. onde “prescreve em 5 (cinco) anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto.pr. que se refere a direito de reclamar e não de propor ação.diaadiaeducacao. 27 do CDC.u.. des. arts. § 3º. em 22. onde “prescreve em 5 (cinco) anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto. de fato o julgador seguiu o disposto no § 3° do art.

iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria. ou que lhe diminua o valor. 2012.pdf CDC Comentado. ora classificado como vício oculto.u. 23. mas que poderá ser simples na visão técnica e esclarecer todas as dúvidas que pairam sobre o defeito e o vício inerentes aos produtos manufaturados.pr. nada surgiu de novo a ponto de influenciar as decisões judiciais. um simples defeito. sua interpretação não é unânime quanto ao defeito e o vício. podendo gerar dúvidas a todos os operadores do direito até mesmo para os ilustres julgadores. rel. v. a empresa distribuidora ou comerciante tem legitimidade para figurar no pólo passivo da ação que objetiva a restituição da quantia paga" (TJPR. onde o tipo de falha pode ser pontual. 26 e seus incisos. Em que pese o julgado dos ilustres Desembargadores. em 14.gov.566-7. onde estatui que “Prescreve em 5 anos à pretensão pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo. PJ 41/29). constata-se também a utilização de vício e defeito com se fossem sinônimas.” Desta simples observação técnica.diaadiaeducacao. Acessado em 25/08/10 as 23:30 h. em que pese as disposições legais vigentes por esta codificação. mas espero que os operadores do direito tenham a sensibilidade e consciência para entender a real necessidade de uma proximidade com os profissionais das áreas técnicas que possuem o “expertise” de informações específicas capazes de elucidar questões controvertidas para a seara jurídica. II refere-se exclusivamente ao vício. e neste sentido. Exemplo do art.134 inadequado ao consumo. 27. Civil. mas que em certas circunstâncias.1/2. REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V.º 26. j. Em que pese a existência de uma codificação brasileira. torna-se fundamental a análise técnica para distinguir a real causa do defeito. 18. des.21 Neste último exemplo de jurisprudência. 4ª C. a decadência não seria de 90 dias conforme o art. sendo que o art. nada foi alterado durante estes 20 (vinte) anos do CDC. onde o consumidor teria um prazo decadencial mais dilatado para buscar seus devidos direitos legais protegidos pelo CDC. caracterizando portanto.93. para se ter uma efetiva 21 http://www. far-se-á a utilização do art. § 1º. p. AI n. N. pode-se mudar o rumo das decisões jurisprudenciais.. 10. . 18. as sentenças são desfavoráveis ao consumidor não se fazendo a devida justiça esperada. não abrangendo uma série de veículos. REVISÃO NECESSÁRIA APÓS 20 ANOS DO CDC Referentes ao defeito e o vício.1.br/diaadia/diadia/arquivos/File/coddefconsumidorcomentado. Troiano Netto.4.

1. porém. informações que lhe são disponíveis. cabe o seguinte comentário de AULOY.22 Em face desta explanação. e às vezes ainda. as montadoras de veículos. 4° Ed. 2012. é possível haver um controle maior. em outro sentido. podem reajustar o valor para mais com a propaganda de um novo produto. Paris: Dalloz. e neste sentido.1/2. Jean Calais. (tradução livre). e – sobretudo – por sua capacidade financeira. na realidade um dispositivo inútil. propicia modificações na lei vigente para assegurar maior proteção ao consumidor indefeso. abastecimento de água e vários outros. pois nenhum consumidor reclama quando um produto tem melhorias. TV a cabo. Apud: SODRÉ. Droit de La consommation. Jean Calais. em relação aos produtos defeituosos ou com vícios. é necessário que se faça uma revisão dos artigos em foco neste trabalho e o acréscimo de dispositivos complementares em face da notada fragilidade do consumidor diante de monopólios de empresas privadas e públicas. sem que haja um dispositivo eficaz para a devida punição pela prestação de um serviço de má qualidade bem como os produtos e seus defeitos e vícios. cito como exemplo as empresas de telefonia. o legislador não se atentou em proteger o consumidor e punir o fabricante ou o produtor que coloca no mercado produto inferior ao produto antigo e com o mesmo preço. REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. 12 que: “o produto não é considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor qualidade ter sido colocado no mercado”. pouco a pouco vem lesando o consumidor com produtos inferiores em sua qualidade e durabilidade. A Construção do Direito do Consumidor. A distinção entre profissional e consumidor é a base do direito do consumidor.135 proteção do consumidor. 1996. Fato este que. e ao mesmo tempo controlar a qualidade produtiva 22 AULOY. onde ainda o consumidor é refém de abusos contratuais. 7. energia elétrica. A intenção do direito do consumidor é restabelecer o equilíbrio na relação profissional/consumidor de acordo com os direitos de fazer contrapeso às vantagens naturais do profissional. 2009. Há de se destacar que muitas das ações de redução de custo que estão sendo praticados provocam a deterioração da qualidade do produto. sem que exista um dispositivo legal para esta prática abusiva. . e neste sentido o CDC preocupou-se em estabelecer no seu § 2º do art. p. São Paulo: Editora Atlas. os profissionais estão em situação de superioridade em relação aos consumidores em razão de seus conhecimentos técnicos. 31. visto que as empresas manufatureiras de produtos de alta escala produtiva. de modo geral. A existência desta brecha no direito repousa sobre a constatação de que. N. Marcelo Gomes. p.

BIBLIOGRAFIA 23 NUNES. quanto a sua gravidade lesiva ou danosa ao consumidor. . tenham acesso somente a produtos com qualidade e não com defeitos ou vícios. o fato é que. que defendem a teoria que “há vício sem defeito. 2012. é necessário uma conscientização e conhecimento técnico para sua efetivação. entre eles os Professores Antonio Rizzatto Nunes e Sergio Cavalieri Filho. Nestes termos. CONCLUSÃO Em que pese distinção entre os dois casos no CDC.136 das empresas. falha ou erro dentro de todo o processo para a execução de um produto para depois analisar com cautela se a causa foi somente um defeito esporádico proveniente de falha humana. Luiz Antonio Rizzatto. é a maneira produtiva que gerou um “simples defeito” ou um “defeito com o vício”. REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. ou seja. ou seja. “há defeitos sem vícios. exponho aqui minha versão técnica profissional onde coloco justamente o oposto. ou foi um vício deflagrado dentro do processo produtivo ou mesmo na concepção do projeto. ou falhas ou anomalias. Desta maneira. mas não há defeito sem vício”23.1/2.1. mas jamais haverá vícios sem defeito”. ambos genericamente são defeitos. mas com uma ressalva técnica peculiar. além da ampliação dos PROCONS para que exerçam a fiscalização qualitativa dos produtos. e o vício disposto no art. Ousando contradizer alguns doutrinadores. para que os consumidores. 12. 157. o defeito articulado no art. N. A real distinção se um é apenas defeito e outro é um vicio. mas para tanto. pois para existir o vício do produto é pressuposto a existência primeiramente do defeito. São Paulo: Editora Saraiva. pode-se concluir que o defeito e o vício devem ser tratados de forma igualitária para os efeitos do CDC. a fim de que os consumidores lesados possam ter real respaldo protecionista do seu direito de consumidor. p. no sentido de uma real necessidade da análise pericial técnica quanto a sua causa. 2000. onde estas duas situações de falhas não possuem nenhuma co-relação. 18. espera-se que este trabalho venha despertar novos caminhos para uma discussão salutar e agregar informações técnicas sobre os defeitos e vícios dos produtos na seara jurídica. conforme o pensamento de alguns doutrinadores. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. anomalia.

Carlos Nelson Coutinho. AULOY. BOBBIO. São Paulo: Primeira Impressão. 2009. 1995. Sergio Cavalieri. São Paulo: Editora Atlas. Responsabilidade por vícios nas relações de consumo. Manual de direito do consumidor.33ss. n° 14. Apud: SIMÃO. Porto Alegre: Livraria do Advogado. 1996. p.1/2. Responsabilidade por vícios nas relações de consumo. Curso de Direito do Consumidor. 1999. 2012. NUNES. Vícios do Produto no Novo Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor. p. Cit. Revista Direito do Consumidor. Luiz Antônio Rizzato. PEREIRA. Ob. Paulo Luiz Neto. Agostinho Oli Koppe. Ob. Revista Direito do Consumidor. Jurisprudência Comentada. Vícios do Produto.229. 4° Ed. n° 14. São Paulo: Editora Saraiva. 2000. abr/jun. 1992. 2007. LÔBO. PEREIRA. 2010. José Fernando. Código de Defesa do Consumidor Comentado. 2008. p. p. Droit de La consommation. Agostinho Oli Koppe. DENARI.1. A Construção do Direito do Consumidor. SIMÃO. Paulo Luiz Neto. Programa de Direito do Consumidor. São Paulo: Editora Atlas. Responsabilidade civil por danos ao consumidor causados por defeitos dos produtos. Apud: SIMÃO. São Paulo: Revista dos Tribunais. Apud: PEREIRA. São Paulo: Revista dos Tribunais. NUNES. p. João Batista. FRISO. Interpretação Doutrinária. Teoria do Ordenamento Jurídico. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. Jean Calais. Luiz Antonio Rizzatto. 2003. Responsabilidade civil por danos ao consumidor causados por defeitos dos produtos. Rio de Janeiro: Campus. 2004. Trad. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Apud: SODRÉ. LÔBO. 4° Ed. 1995. A Era dos Direitos. Norberto. (tradução livre). N. José Fernando. Norberto. Paris: Dalloz. ob. 7. Vícios do Produto.103. São Paulo: Editora Atlas. São Paulo: Editora Saraiva.. Cit. abr/jun. BOBBIO. FILHO.137 ALMEIDA. Brasília: Editora Universidade de Brasília. 2003. São Paulo: Editora Saraiva.. Cit. Agostinho Oli Koppe. Ob. Gisele de Lourdes. Legislação Referenciada e Prática Processual.33ss. Marcelo Gomes. 2003. Cit. REVISTA DESTAQUE JURÍDICO (ONLINE) ULBRA Gravataí – V. Zelmo. . José Fernando.