VAGSON LUIZ DE CARVALHO SANTOS

SOLUÇÕES TOPOLÓGICAS DE SPINS NO TORO

Dissertação
apresentada
à
Universidade Federal de Viçosa, como
parte das exigências do Programa de
Pós-Graduação em Física Aplicada,
para obtenção do título de Magister
Scientiae.

VIÇOSA
MINAS GERAIS - BRASIL
2008

VAGSON LUIZ DE CARVALHO SANTOS

SOLUÇÕES TOPOLÓGICAS DE SPINS NO TORO

Dissertação
apresentada
à
Universidade Federal de Viçosa, como
parte das exigências do Programa de
Pós-Graduação em Física Aplicada,
para obtenção do título de Magister
Scientiae.

APROVADO: 15 de fevereiro de 2008.

Prof. Silvio da Costa Ferreira Júnior
(Co-orientador)

Prof. Afrânio Rodrigues Pereira
(Co-orientador)

Prof. Daniel Heber Theodoro Franco

Prof. Oswaldo Monteiro Del Cima

Prof. Winder Alexander de Moura Melo
(Orientador)

À minha esposa Josemeire Dourado,
e aos meus filhos: Giulia Heloísa e Pedro Galileu.

ii

“O essencial é invisível aos olhos!” Antoine de Saint-Exupéri iii .

• Aos meus amigos de Senhor do Bonfim. pela oportunidade e confiança. que me apoiou em todos os momentos de minha vida.AGRADECIMENTOS • À comissão orientadora. iv . principalmente a Antonio e Bartolomeu (Valeu Toinho e valeu Bartô). mas quase nunca com tempo para eles. mesmo com minha pouca formação formal na área. que mesmo estando distantes. • Ao Departamento de Física da Universidade Federal de Viçosa. por tudo o que me ensinou e pelo incentivo. que me deu oportunidade de ingressar no curso de Pós-Graduação em Física Aplicada. que. mesmo estando dentro dela. sei que estão torcendo por mim. • A Josemeire. • Aos professores e colegas da física. e conseguiu manter a estrutura de uma família enquanto me aguardava. • A Pedro e Giulia. por tudo o que me ensinaram no período de nivelamento. que me disseram palavras de incentivo nos momentos em que me encontrava descrente de mim mesmo. que suportaram (quase) pacientemente as longas horas de ausência de um pai que estava em casa. assim como meus filhos teve muita paciência para suportar as longas horas que eu tinha de ficar distante de casa. sem o qual não teria segurança de seguir em frente no curso. • Aos professores Sílvio e José Arnaldo. • À direção da Escola Agrotécnica Federal de Senhor do Bonfim. Esta conquista não teria sido possível sem ela. • A minha mãe.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .2 Defeitos topológicos . . . . 46 4 Conclusões gerais e perspectivas 53 A Aproximação contínua do modelo de Heisenberg 55 B Limite contínuo da Hamiltoniana de Heisenberg no plano 58 v . .2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 3. . .2 Coordenadas polares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 1.2. . . . . . . . .2 O regime isotrópico e soluções solitônicas . . . . . . . 20 2. . . . . . . 23 3 Modelo de Heisenberg e soluções topológicas no toro 29 3.Sumário LISTA DE FIGURAS vii RESUMO viii ABSTRACT ix 1 Introdução Geral 1. . . . .1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .3 Modelo do Rotor Planar e soluções tipo-vórtice . . . . . . . . 42 3. . . . . . 4 2 Considerações gerais 14 2. . .1 O modelo de Heisenberg no toro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 2. . . 2 1. . . . . . . . . . . . . . . . . .3 A superfície do toro . . . . . . . . . . . .1. . . . .1 Magnetismo . . . . . . . . . . . . . . 33 3. . . . .1 Conceitos fundamentais 1 . . . . . . . . . . . . . . . 29 3. . . .2 O modelo de Heisenberg . . . . . . .1 Coordenadas peri-polares . . .1 Motivação . .

. .C Fenômenos magnéticos 60 C. . . . . . . . . . . . . . . .1 Diamagnetismo . . . . .3 Ferromagnetismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62 C. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .2 Paramagnetismo . . . . . . . . . . . . . 65 Referências Bibliográficas 70 vi . 60 C.

. 26 3. . . . . .2 Comprimento característico do sóliton para diferentes valores de R . . . .7 Representação de diferentes tipos de toro . . 37 3. . . . .5 Toro embebido num espaço tridimensional . . . . . . . . .5 Comportamento do potencial da equação de sine-Gordon . . . . . . . . . 63 C. .1 Rede quadrada de spins . 11 1. . . . . . . . .1 Material diamagnético na presença de um campo externo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 1. . . . . . . . . . . . .1 Comportamento de Θ em função de ϕ . .4 Representação dos estados tripleto e singleto para a função de onda . 38 3. . .1 Representação de diferentes parâmetros de ordem . . 36 3. . . . C. 67 C. 49 A. . . . . .6 Sistema de coordenadas adotado para descrever o toro . .4 Representação de um vórtice com carga topológica Q = 1 . . . . . . . .4 Comportamento do campo de spins clássicos na superfície do toro . .Lista de Figuras 1. . . . . . . . . . . . 22 2. . 56 ~ . .3 Comportamento da carga solitônica associada à solução (3. . 6 1. .3 Representação de um cristal com magnetização resultante nula . . .3 Representação de um spin clássico (esfera de spins) . . . . . . 24 2.6 Representação de um sóliton com carga topológica K = 1. 25 2. . . . .3 Loops no plano euclidiano . . 8 1. . . .2 Representação de um ferromagneto e de um antiferromagneto . 47 3. . . . . 68 2 vii . H. . . 5 1. . . . . . . . . . . . 21 2. . . . . . . 17 2. .19) . . . . . . . . . . . . . .2 Material paramagnético na ausência de um campo externo . . . . . . . . . . .4 Arranjos espaciais dos spins atômicos . . . . 12 2. . . no plano R . . 21 2. . . . .1 Representação de uma parede de domínio de 180 graus . . . . . . . . . 61 C. . . . .5 Gráfico da energia em função de R para o caso de um vórtice no toro . . . . .2 Exemplos de superfícies simplesmente e não-simplesmente conexas . . .

Se R é diminuído até se anular. Universidade Federal de Viçosa. equivalentemente). viii . Co-Orientadores: Afrânio Rodrigues Pereira e Sílvio da Costa Ferreira Junior Estudamos o modelo de Heisenberg para spins clássicos no suporte toroidal. Soluções topológicas de spins no toro. não tendo energia líquida. enquanto para R < r (self-intersectind spindle torus) duas singularidades deste tipo aparecem.. Configurações tipo vórtice também são suportadas: num ring torus (R > r) tais excitações não apresentam caroço onde a energia poderia divergir. Quando o tamanho do toro é muito grande. sem estabilidade topológica. são obtidas e discutidas com alguns detalhes. recuperamos a configuração de vórtice na esfera. Outras soluções formais. Entretanto. fevereiro de 2008. Por outro lado. em um horn torus (R = r) um caroço singular toma lugar. No limite R → ∞ estamos efetivamente descrevendo-o em um annulus infinito (ou cilindro. R → ∞. onde os spins aparecem praticamente paralelos um ao outro. Sc. para R = 0 a geometria esférica é recobrada e obtemos a configuração e a energia de um sóliton numa esfera. Orientador: Winder Alexander de Moura Melo.RESUMO SANTOS. M. Vagson Luiz de Carvalho. O regime isotrópico é caracterizado por uma solução solitônica fracionária. sua carga se iguala à unidade e o sóliton efetivamente se comporta como no caso do cilindro infinito.

Universidade Federal de Viçosa. At the limit R → ∞ we are effectively describing it on an infinite annulus (or cylinder. M. ix . are obtained and discussed with some details. equivalently). yielding no net energy. Sc. where the spins appear to be practically parallel to each other. Other formal solutions.ABSTRACT SANTOS. On the other hand. If R is further diminished until vanish we recover vortex configuration on a sphere. while for R < r (self-intersecting spindle torus) two such singularities appear. The isotropic regime is characterised by a fractional soliton solution.. Topological spins solutions on the torus. February. Adviser: Winder Alexander de Moura Melo. However. R → ∞. Vagson Luiz de Carvalho. for R = 0 the spherical geometry is recovered and we obtain that configuration and energy of a soliton lying on a sphere. Co-Advisers: Afrânio Rodrigues Pereira and Sílvio da Costa Ferreira Junior We study Heisenberg model of classical spins lying on the toroidal support. Vortex-like configurations are also supported: in a ring torus (R > r) such excitations present no core where energy could blow up. its charge equals unity and the soliton effectively lies on a infinite cylinder. 2008. Whenever the torus size is very large. in a horn torus (R = r) a singular core takes place. without topological stability.

produziria também certos efeitos curativos no corpo humano [2].Capítulo 1 Introdução Geral A palavra magnetismo tem sua origem ligada ao nome de uma cidade da região da Turquia que era rica em minério de ferro. um material encontrado na Natureza. atraindo interesse de boa parte da comunidade científica. Gilbert só descreveu as propriedades magnéticas dos ímãs e apresentou sua teoria de que a Terra se apresenta como um grande ímã. Os primeiros relatos de experiências com a magnetita são atribuídos aos gregos e datam de 800 a. Durante mais de dois séculos a tentativa do homem em entender a natureza do magnetismo foi frustrada devido à complexidade desse fenômeno. a Terra). físicos. em parte. magnetismo é um tema de pesquisa extremamente fértil. engenheiros. de composição química F e3 O4 . os Corpos Magnéticos e o Grande Ímã. Os principais objetivos da pesquisa que os cientistas têm nesse campo são a compreensão das origens microscópicas das propriedades magnéticas dos materiais.C. bem como diversas propriedades e características do comportamento magnético dos materiais. pois acreditava-se que como um ímã podia interagir com alguns materiais. etc. a Magnésia. Apesar de ter sido descoberto muito cedo. a partir de estudos realizados pelo médico inglês William Gilbert. No entanto. O interesse inicial de Gilbert pelos fenômenos magnéticos deveu-se. dentre estes. descoberta 1 . Só com o advento da Mecânica Quântica pôde-se compreender e explicar a origem do magnetismo. em seu livro De Magnete Magneticisque Corporibus et de Magno Magnete Tellure (Sobre o Ímã. Atualmente. às crenças de sua época. o estudo do magnetismo só se tornou mais sistemático no século XVII. Os fenômenos magnéticos foram os primeiros a despertar a curiosidade do homem sobre o interior da matéria [1]. A palavra surgiu durante a Antigüidade e está associada à capacidade que fragmentos de ferro têm de serem atraídos pela magnetita.

é diretamente proporcional ao campo H.1 1.1 Conceitos fundamentais Magnetismo Existem três quantidades importantes para a descrição do magnetismo na matéria: ~ o campo magnético B ~ e a magnetização M ~ . ∆V →0 ∆V i ~ = lim M 2 (1.2). pois o meio responde à presença do campo magnético com ~ que contribui tanto para B ~ quanto para H. A magnetização surge do ordenamento dos momentos magnéticos atômicos. No vácuo. As quanti~ eH ~ estão relacionados somente com a densidade de corrente elétrica J. ~ ou seja. Neste capítulo discutiremos alguns conceitos fundamentais sobre magnetismo e defeitos topológicos.2) onde a integração é feita sobre toda a região da corrente. que aparecem em átomos possuindo camadas eletrônicas incompletas. o campo magnético não terá mais a forma simples da equação (1. Na presença de um meio magnético. 1. bem como o desenvolvimento de novas aplicações tecnológicas [3].3) . ~ e suas dades B intensidades podem ser determinadas a partir da expressão de Biot-Savart (no regime não-relativístico: v/c ≪ 1): ~ x ) = µ0 B(~ 4π Z ~ ′ J(~x ) × (~x − ~x′ ) 3 ′ d x.1. a explicação das propriedades magnéticas adquiridas por um corpo está associada à existência de elétrons que se movem em torno dos núcleos dos átomos. ~ uma magnetização M Microscopicamente. ~ B (1. os quais serão importantes para o entendimento do restante deste trabalho.de novos materiais e fenômenos. o estudo das propriedades termodinâmicas e das excitações elementares dos materiais magnéticos. Ela é definida como a quantidade de momentos magnéticos por unidade do volume do material: 1 X ~µi . |~x − ~x′ |3 (1. o campo magnético o campo H. bem como ao momento angular intrínseco dos elétrons (spin). ~ = µ0 H.1) onde a constante de proporcionalidade µ0 é a permeabilidade magnética.

Qualquer material magneticamente ordenado o deixa de ser a uma temperatura suficientemente elevada.3). Ao passo que na equação (1. A relação entre o momento ~ é dada por magnético e o momento angular orbital L µ~l = −gl e ~ L. [4]. m é a massa do elétron e g é o fator de Landé.4). tem-se a relação com o momento angular intrínseco (vetor spin).6) onde µB = e~/2m é uma unidade usual de momento magnético. o campo de coercisividade.4) ~ e.5) Na equação (1. sua anisotropia |B| cristalina. similarmente. aqui denominada χ. o que ocorre se um campo magnético atuar no sistema e/ou a tem~ | vs. |H| ~ ou peratura for suficientemente baixa. chamada magneton de Bohr. ~ seguindo a relação: relacionado ao seu momento angular total J~ = L ~ ~µ = gµB J. com o qual os elétrons são dotados. e a mudança no momento induzido por um campo magnético aplicado [5].Podemos notar. as curvas de |M ~ vs. 2m (1. Em mecânica quântica o momento magnético ~µ de um átomo está diretamente ~ + S. ~ |B| 3 (1. que é uma grandeza admensional definida como: χ= ~| µ0 |M . etc.8) . como já foi dito. 2m (1. Momentos magnéticos interagem entre si e. que para haver magnetização é necessário que existam momentos magnéticos ~µi e que estes. tem-se a relação com o momento angular. seus momentos angulares orbitais. |H| ~ trazem informações sobre a dureza magnética do material. a magnetização remanente.5). O momento magnético de um átomo livre tem três fontes principais: o spin. na média. Experimentalmente. dado por: g =1+ J(J + 1) + S(S + 1) − L(L + 1) 2J(J + 1) (1. Esta temperatura é chamada temperatura crítica ou temperatura de Curie (Tc ). e gs ≈ 2 é o fator g de spin. onde gl = 1 é o fator g orbital. a partir de uma análise da equação (1. apontem na mesma direção.7) Outra característica importante para o estudo de materiais magnéticos é a suscetibilidade magnética por unidade de volume. (1. com campos magnéticos externos. entre o momento magnético intrínseco e o spin S: µ~s = −gs e ~ S.

• Ferrimagnéticos. a temperaturas suficientemente altas eles perdem a “imantação”. tornando-se paramagnéticos. tentaremos aplicar estas teorias ao estudo de defeitos topológicos. têm sido usados no estudo de teoria de campos desde a década de 1960. que associa a cada ponto da região um parâmetro de ordem.Os materiais magnéticos são classificados de acordo com sua resposta à aplicação de campos magnéticos. no entanto. que têm uma ordem magnética espontânea abaixo de uma determinada temperatura crítica e também têm uma dependência linear de χ com 1/T acima dessa temperatura. métodos e teoremas de topologia algébrica. • Ferromagnéticos. em especial. A discussão que será feita nesta seção é um rápido resumo das referências [6. que são caracterizados por uma suscetibilidade positiva que varia linearmente com o inverso da temperatura. Os tipos de materiais mais conhecidos são: • Diamagnéticos. que se caracterizam pela ausência de magnetização espon- tânea.2 Defeitos topológicos A linguagem. cuja suscetibilidade tem valor pequeno e é negativa.1. cujos possíveis valores constituem o chamado espaço interno (ou parâmetro de espaço ordenado). não devendo ser confundido. Então. com o caso paramagnético. e tal resposta pode ser quantificada através da suscetibilidade magnética. 10]. o leitor interessado em entender melhor o assunto é remetido a esses trabalhos. que embora apresentem uma magnetização espontânea não são classificados como ferromagnetos. • Antiferromagnéticos. vórtices e sólitons. 8. 1. f (~r). 7. • Paramagnéticos. mas sua aplicação em física de matéria condensada começou apenas em 1976 [6]. O conceito de defeito topológico está relacionado ao de meio ordenado. paramagnetismo e ferromag- netismo pode ser encontrada no Apêndice C. Uma melhor explicação acerca do diamagnetismo. em particular a teoria de homotopia. De qualquer modo. Se o valor do parâmetro 4 . Aqui. que pode ser definido como uma região do espaço descrita por uma função. A temperatura abaixo da qual um material paramagnético se torna atiferromagnético denomina-se temperatura de Néel (TN ). 9.

em pontos isolados. tal que |f~2| = 1). no qual o parâmetro de ordem é constante (Ex. 1. cuja dimensionalidade é menor do que a do meio ordenado. na qual o parâmetro de ordem está representado por vetores (no espaço interno). vemos um caso onde o parâmetro de ordem muda através do espaço (paramagneto). O estudo do sistema se reduz ao estudo do comportamento do caminho fechado em F . se f~ é por F o contorno dos possíveis valores de f. às vezes. o meio é dito uniforme (Ver Fig. de forma que os pontos imagem traçam uma curva fechada ancorada em f~0 . Na figura a esquerda.1). um vetor de duas componentes de comprimento fixo (f~ = f1 xˆ + f2 yˆ. cuja descoberta estimulou o desenvolvimento da teoria de homotopia e cujo parâmetro de ordem depende das fases e dos regimes adotados em cada fase. Denotaremos ~ por exemplo. exceto. ~ ~ Serão tomados apenas os campo que obedecem às condições f(0) = f(2π) = f~0 . Alguns exemplos de meios ordenados são: spins planares. de ordem é o mesmo em todo lugar.1: Representação de uma superfície plana. constituem os defeitos a serem investigados.Figura 1. isto é. parametrizado por 0 ≤ x ≤ 2π e algum ~ i ) ∈ F . Geralmente. Dado um sistema R unidimensional. linhas ou superfícies. À direita. tal que |f~2 | = 1). temos um meio uniforme. o interesse maior é em estudar meios nos quais o parâmetro de ordem varia continuamente através do espaço. 5 . spins ordinários. F = S 1 é um círculo. cujo parâmetro de ordem é um vetor de magnitude fixa e contido num plano. Seja um sistema ordenado caracterizado por um campo f~(~r) definido sobre os pontos ~r de algum domínio espacial R. Essas regiões. e assim sucessivamente. se f é constante. onde o parâmetro de ordem é um vetor unitário livre para apontar em qualquer direção do espaço tridimensional. hélio-3 superfluido. F = S 2 se f~ é um vetor de três componentes de comprimento fixo (f~ = f1 xˆ + f2 yˆ + f3 zˆ.: ferromagneto ideal). Antes de continuar discutindo sobre defeitos topológicos. é interessante falar um pouco a respeito de teoria de homotopia. temos que campo f~(~r) tal que a cada ponto xi ∈ R há um ponto imagem f(x o ponto imagem traça uma curva em F começando em f~(0) e terminando em f~(2π).

loops pertencendo a diferentes classes não podem ser continuamente distorcidos um no outro. por exemplo) não pode ser continuamente deformado para se obter o 1-loop (uma volta em torno de um ponto no plano euclidiano). Então. um 2-loop (duas voltas em torno de um ponto no plano euclidiano. Antes de trazer um exemplo para as classes de homotopia. representa uma classe de objetos cuja superfície é dita não-simplesmente conexa. essas três figuras pertencem a mesma classe topológica. são classificados em classes. 1. pois um loop em torno da “asa” da mesma. 2. Por exemplo. As classes são chamadas classes de homotopia e os membros de uma dada classe são ditos homotópicos um ao outro.2: A esfera representa uma superfície simplesmente conexa. temos que um triângulo ou um quadrado podem ser deformados continuamente para se obter um círculo. o espaço bidimensional euclidiano. que passaremos a chamar a partir de agora de “loops”. quaisquer loops pertencendo à mesma classe podem ser deformados um no outro. A xícara. também representa uma superfície simplesmente conexa. daremos o conceito de superfícies “simplesmente conexas” e “não-simplesmente conexas”: superfície simplesmente conexa é aquela na qual qualquer caminho fechado pode ser continuamente reduzido a um ponto.Figura 1. tais que: 1. não pode ser reduzido a um ponto. E . na qual há apenas uma 2 6 . De fato. qualquer loop nessa superfície pode ser reduzido a um ponto. Os caminhos fechados. uma superfície é dita não-simplesmente conexa quando nem todas as curvas fechadas sobre esta podem ser continuamente deformadas a um ponto. Além dos exemplos mostrados na Fig. por sua vez. Como exemplo.2.

De fato. Podemos então dizer que: π1 {E 2 − (0. teremos assim uma superfície não-simplesmente conexa (Ver Fig. O grupo em questão é π2 (F ). f~2 . onde f~0 é um ponto qualquer sobre a superfície. ou seja. isto é. O estudo deste grupo revela que suas leis são idênticas à adição dos correspondentes inteiros. isto é. e é chamado de primeiro grupo de homotopia em F em antecipação ao fato de que existem outros grupos de homotopia maiores em F . (1.classe de homotopia.}. 1. O grupo é chamado de “grupo fundamental” ou primeiro grupo de homotopia do espaço F . Tendo desenvolvido alguns conceitos em teoria de homotopia. o qual é topologicamente equivalente a um círculo. existe uma lei de combinação dos elementos que obedece aos axiomas da teoria dos grupos. É claro que mapeamentos pertencendo a diferentes valores de Q não são homotópicos. e é denotado por π1 (F ). enquanto vórtices (magnéticos. 0)} = Z. Considere o conjunto {f~0 . fica fácil perceber que qualquer loop que não envolva a origem pode ser continuamente deformado a um loop puntiforme em f~0 . Nos casos mais simples. um loop. S 2 . Este conjunto forma um grupo. Dado que f~0 ∈ F .. como por exemplo o ponto (0. Considerando agora que seja feito um corte no plano. R assumirá a forma de uma superfície bi-dimensional fechada. 0). podemos agora 7 .3). pois qualquer loop sobre essa superfície pode ser deformado em um outro. onde f~Q representa todos os mapeamentos onde o loop circula a origem Q vezes. tal grupo é π2 (F ). o mapeamento deve envolver uma esfera de spins. excluindo do espaço euclidiano um determinado ponto. em particular) são caracterizados por uma carga topológica (vorticidade) associada ao π1 (F ). em um loop puntiforme em f~0 . f~1 . S 1 .. Denotaremos por Z o conjunto de todos os inteiros que formam um grupo sob adição. e particularmente. isto é. as excitações solitônicas demandam grupos superiores. topologicamente equivalente a uma superfície esférica. como em magnetismo. .9) Se R é uma região bidimensional do espaço e todos os pontos no contorno estabelecido são mapeados em um ponto f~0 . isto é. cuja magnitude e sinal especificam o número de vezes e o sentido no qual a origem é envolvida. Ele foi introduzido por Poincaré em 1895. Tentaremos esclarecer essas sutilezas nos momentos oportunos. O índice subescrito 1 nos diz que R adquire a forma de uma superfície unidimensional fechada. enquanto aqueles que são fechados em torno da origem não o podem. Os loops que rodeiam a origem podem então ser classificados por meio de um inteiro Q. adquirem carga pelo mapeamento de um círculo de spins na superfície magnética em questão.

Q é o número que caracteriza o vórtice e é conhecido como “carga topológica do vórtice”. O parâmetro de ordem é finito em todo lugar. Fora dessa região. 1. etc. uma linha. gerando um caroço de raio arbitrário ζ0 . π1 .3: O círculo da esquerda representa o plano euclidiano completo. exceto na origem. Um defeito topológico é. Vê-se facilmente que ∇θ = 1/r é contínuo em todo lugar. exceto no núcleo. em geral. em coordenadas polares.0). O ângulo θ especifica a direção do parâmetro de ordem e muda por 2π em um circuito ao redor do núcleo. há um número infinito de singularidades distintas nas quais θ muda de 2Qπ em um loop ao redor do núcleo. Podemos então associar os vórtices ao primeiro grupo de homotopia. No caso do hélio-3 superfluido e no âmbito modelo XY.4. vemos que dado um inteiro Q. caracterizado como sendo uma região núcleo de dimensão menor do que o espaço em estudo (um ponto. vemos um vórtice planar com Q = 1. se o espaço é bidimensonal.) onde a ordem é destruída. onde há uma divergência. φ). Dado 8 . o parâmetro de ordem muda lentamente. se o espaço é unidimesional. de forma que um loop em torno desse ponto não pode ser continuamente reduzido a um ponto. Como o parâmetro de ordem é periódico. discutir os defeitos topológicos. bem como do rotor planar (mais detalhes sobre tais modelos são apresentados no Cap.Figura 1. os defeitos topológicos recebem o nome de vórtices. 3). Na Fig. onde θ0 é uma constante e x = (r. ao passo que a figura da direita representa o plano euclidiano no qual foi feito um cutoff do ponto (0. A configuração de spins assim definida é conhecida como vórtice. Considere o seguinte parâmetro de ordem: θ(x) = Qφ + θ0 . A singularidade no núcleo pode ser removida por um corte na superfície.

Então. Nos limitaremos apenas em dizer que para um vórtice com carga Q no plano.que essas excitações apresentam carga topológica não nula. a qual depende da energia livre de diferentes configurações. os sólitons se separam novamente (passam um através do outro). sólitons surgem como soluções especiais de equações diferenciais não lineares. representando configurações estáveis com energia bem definida e sem singularidades. Já que sólitons são soluções de equações não lineares. adquirindo então estabilidade topológica [7]. num vórtice de carga topológica Q = 1. implicando que. mas de carga unitária. Contudo. Este valor será útil na discussão levantada no Apêndice B. que está associada à destruição do parâmetro de ordem no caroço do defeito. o princípio de superposição não é obedecido. sendo. Q = 0. onde a é o raio do caroço e R o raio da amostra. adquirindo a mesma forma que possuíam antes. associada à lenta variação espacial do parâmetro de ordem. No caso do modelo XY . 1 A demanda energética é muito alta. Por outro lado. em muitos casos. Sabe-se que um vórtice está associado ao mapeamento do círculo (essencialmente do espaço interno) do parâmetro de ordem no espaço físico. s. a excitação resultante é complicada. os spins giram num circuito fechado. por exemplo. impossível mudar sua configuração globalmente para aquele de um estado perfeitamente alinhado sem interferir nos spins a uma distância arbitrária do núcleo. 2. devido ao fato de que eles não obedecem ao princípio da superposição. pois distorcer continuamente uma configuração desse tipo para trazê-la ao estado de spins completamente alinhado demandaria uma quantidade de energia considerável. Contudo. A estabilidade topológica é diferente da estabilidade física. assintoticamente.. Por outro lado. Por exemplo.. a estabilidade topológica implica na estabilidade física.. não podem ser destruídas por uma deformação contínua do parâmetro de ordem. quando dois sólitons se encontram. em geral. geralmente decaindo em similares. Não nos aprofundaremos aqui numa discussão acerca da energia do vórtice. é muito improvável que flutuações estatísticas na energia destruam o vórtice. dessa forma. isso implica que: I I dθ dθ = dφ = 2πQ. 1. Q 6= 0. e a energia elástica. . vórtices com carga Q > 1 dificilmente adquirem estabilidade física1 . como é o caso. onde podemos escrever θ = Qφ + θ0 . dos vórtices com carga Q = 1. a energia do vórtice aumenta com Q2 . 9 . já que. Uma outra propriedade interessante dos sólitons é que sua quantização não é trivial.10) A energia de um defeito topológico tem duas partes: a energia do núcleo. C dφ (1. a energia é proporcional a πQ2 ln(R/a) [7].

é preferível tal configuração.4: Representação de um vórtice com carga topológica Q = 1 numa superfície plana: A figura a esquerda representa uma visão bidimensional do vórtice.Figura 1. o desenvolvimento de uma componente na direção do eixo z (out-of-plane). energeticamente. Pode-se notar. Veremos ainda que um vórtice no toro não desenvolve a componente out-of-plane. A figura a direita mostra o comportamento do mesmo vórtice. o desenvolvimento dessa componente se deve ao fato de que a configuração na qual os vetores de spin (espaço interno) mantêm-se preferencialmente no plano xy (na região do núcleo) demanda energia infinita. de forma que. na última figura. a imagem é tridimensional. 10 . porém. Como veremos adiante no texto.

): φ= 2πn . não representa um estado no espaço de Hilbert.12) Dessa forma.V@ΦD 8 6 4 2 5 15 10 20 25 30 35 Φ Figura 1. A equação (1. Um dos contextos mais estudados e que apresentam soluções solitônicas é aquele descrito pela equação de sine-Gordon. . A equação de sine-Gordon (em uma dimensão espacial e uma dimensão temporal) é dada por: 1 ∂2φ ∂2φ − 2 + 2 sen(ρφ) = 0 2 ∂t ∂x ρ (1.11) possui um número infinito de soluções constantes (as quais possuem energia nula. como será demonstrado logo em seguida. ±1... 1. a densidade de energia da configuração de campo é:  2  2 1 ∂φ ∂φ H= + + V (φ). como pode ser visto na Fig. ρ n = 0.11) e descreve um campo escalar (φ) que possui soluções tanto estacionárias quanto dinâmicas.13) (1.5 (vácuo aqui. 5. ±2. mas simplemente uma classe de configurações de energia nula). Pode-se observar a degenerescência do estado fundamental nos pontos onde φ obedece à equação (1.12).14) (1. ρ2 Então. (1. a equação de sine-Gordon possui um vácuo degenerado.11) é: 1 L= 2 onde:  ∂φ ∂t 2 −  ∂φ ∂x 2 − V (φ). 2 ∂t ∂x V (φ) = 11 (1.15) . a qual tem sido usado para explicar uma larga gama de fenômenos.5: Comportamento de V (φ) com φ variando de 0 a 12π e ρ = 0. 1 [1 − cos(ρφ)]. A Lagrangiana para (1.

a cilíndrica e a esférica.Figura 1. ou seja. novamente.6: Representação de um sóliton com carga topológica K = 1. Além disso. Assim como o vórtice. Esse fenômeno pode ser observado em superfluidos [7].6 traz a representação de um sóliton com carga K = 1. com topologa toroidal) magnéticos são freqüentemente sintetizados e estudados por apresentarem. os quais são dados quando φ é descrito por (1. quando pares se dissociam. Dentre outras possibilidades. estados de 12 . O comportamento de V (φ) pode ser visto na Fig. Os vórtices. no plano R2 . dentre outras possibilidades. Por exemplo. estão associados à transição de fase topológica. eles podem desempenhar um papel importante em mecanismos de gravação e lógica no âmbito nanomagnético. o sóliton também é um objeto topológico cuja estabilidade permite a existência de uma lei de conservação. de onde pode-se ver que a energia se anula no mínimo absoluto de V (φ). 1.5. A Fig. 1. não fossem os recentes avanços na fabricação e caracterização de nanodispositivos magnéticos. Os estudos de fenômenos magnéticos (dentre outros) em superfícies curvas e/ou com topologia não-trivial não passariam de meros exercícios acadêmicos. seus estados de “polarização” e de “quiralidade” poderiam armazenar bits de informação. Podemos associar K a uma carga topológica e. Excitações de origem topológica são importantes tanto na caracterização dos sistemas físicos onde se apresentam como em potenciais aplicações tecnológicas a elas atribuídas. deve haver uma quantidade K que se conserva e é igual a um inteiro n. paredes de domínio são largamente utilizadas como elementos básicos de gravação magnética [1]. por sua vez. Além de magnetos com geometrias mais conhecidas como por exemplo.12). não podemos deformar um sóliton com carga igual a 1 ao estado de um campo vetorial perfeitamente alinhado (estado fundamental). nanorings (portanto.

os quais podem se constituir em elementos de lógica binária [11. 13 . Neste capítulo levantamos ainda algumas discusões sobre nossos resultados.magnetização remanente (estável na ausência de campo externo) com configuração de vórtice. os quais podem ser omitidos pelo leitor familiarizado com as técnicas e conceitos aqui descritos. bem como algumas perspectivas para trabalhos futuros. Este trabalho tem como objetivo estudar algumas propriedades do modelo de Heisenberg para ferromagnetos clássicos na geometria/topologia toroidal. Na seqüência. de onde podemos observar o aparecimento de sólitons como soluções e o modelo do rotor planar (ou XY estático). aquelas úteis e importantes para a análise que faremos em seguida. onde estudamos excitações tipo vórtice. estudaremos o modelo de Heisenberg (anisotrópico) e faremos uma descrição da superfície do toro explicitando algumas de suas propriedades geométricas e topológicas. 12]. O Capítulo 3 trata do estudo do modelo em questão na superfície toroidal. em especial. Para tal. são apresentados alguns apêndices que visam facilitar o estudo do presente texto. no Capítulo 4 apresentamos as conclusões gerais. o restante do texto é dividido em três capítulos: no Capítulo 2. Aí obtemos soluções especiais como o modelo isotrópico. Finalmente.

com o surgimento da Mecânica Quântica que a origem microscópica do magnetismo pôde ser compreendida [4]. que estudou engenharia em Edinburgh e começou a estudar magnetismo enquanto lecionava na Universidade de Tóquio. com o qual ele tentava explicar a ordem ferromagnética de certos materiais. a idéia de campo molecular surgiu antes da formulação da Mecânica Quântica do magnetismo.Capítulo 2 Considerações gerais 2. as teorias não tiveram tanto sucesso assim. pois esse fenômeno ainda era entendido de acordo com o conceito de campo molecular. Em 1930. proposto por Weiss1 . no caso dos materiais hoje conhecidos como ferromagnéticos. foi somente no primeiro quarto do século XX. no Japão. Em seu modelo. e um dos pesquisadores que mais se destacou nessa área foi Sir James Alfred Ewing. Durante esse período as pesquisas em materiais magnéticos começaram a avançar. Van Vleck aplicou a Mecânica Quântica ao cálculo de suscetibilidades magnéticas. Entretanto. um efeito que podemos associar aos domínios magnéticos e ao movimento dos contornos desses domínios. como se pensa atualmente. Um passo importante foi dado quando Heisenberg propôs 1 Historicamente. A principal contribuição de Ewing para as pesquisas em magnetismo foi a descoberta da histerese magnética [13]. Weiss postulou que cada momento magnético de uma amostra sente um campo magnético proporcional à magnetização total do espécime [4] (Bm = λm M ). Ele propôs um modelo de magnetismo para o ferro baseado em bússolas que eram livres para girar. onde λm é chamada constante de campo molecular.1 Motivação Embora os materiais magnéticos sejam conhecidos há cerca de três mil anos. e por volta de 1935 uma compreensão razoável da suscetibilidade paramagnética em sólidos cristalinos já havia sido desenvolvida. 14 .

o N iF e2 O4 . F. como o método de Monte Carlo [3].2. a predição de que elas causavam momentos ferromagnéticos que variavam como (1 − aT 3/2 ). Dentre os principais motivos para a importância dada às pesquisas em magnetismo nos dias atuais podemos destacar o fato de que os materiais magnéticos desempenham um papel muito importante nas aplicações e no surgimento de novas tecnologias. levava ao cancelamento parcial do momento magnético [13]. havia um problema teórico devido ao fato de que o momento magnético medido para esses materiais era sempre menor que o momento calculado. geradores. transfor2 3 Na Seção 2. como motores. entraremos em mais detalhes sobre a Hamiltoniana de Heisenberg. Néel não resolveu apenas o problema das ferrites. tornando posível estudar o comportamento magnético em uma e duas dimensões. o que levou a um interesse em aproximações teóricas para sistemas magnéticos em baixa dimensionalidade. 15 . diversos outros sistemas foram estudados. Com essa sugestão e com o desenvolvimento da teoria de campo molecular. pois o número de materiais que apresentavam magnetização não nula na ausência de um campo externo aumentou bastante. no entanto. Serres.que a origem do campo molecular estava associado a trocas quanto-mecânicas. Posteriormente. Parece ter sido o estudo desse tipo de material. O estudo das ferrites permitiu ainda aos cientistas de materiais a possibilidade da descoberta de uma vasta gama de compostos que exibissem ordenamento magnético. o M nF e2 O4 . mas a descoberta das ferrites3 mudou este contexto. o níquel. Dentro de poucos anos. mas tornou o antiferromagnetismo inevitável. o CoF e2 O4 e o CuF e2 O4 . por consequência. Nas aplicações tradicionais. São exemplos de ferrites alguns óxidos de ferro com a estrutura cristalina do espinélio natural tais como o M gF e2 O4 . Foi graças a ele que poderosas ferramentas desenvolvidas nas últimas décadas foram postas à prova. como a granada de ferro e ítrio Y3 F e5 O12 . foi verificado em cuidadosas medidas [13]. levado a cabo por A. Bloch mostrou que a Hamiltoniana de Heisenberg2 levava ao conceito de ondas de spins. inclusive estruturas cristalinas que permitiam arranjos em planos e folhas. No entanto. que levou Néel a sugerir que o baixo momento magnético era provocado pelo alinhamento antiparalelo de momentos iônicos de diferentes magnitudes o que. como as expansões em altas temperaturas da Teoria de Grupos de Normalização e dos métodos de simulação por computador. o cobalto e suas ligas eram quase que as únicas substâncias magnéticas conhecidas. sendo ainda o campo da Física de maior aplicação da Mecânica Estatística. além de óxidos de ferro com a estrutura cristalina da granada. as quais são excitações magnéticas coletivas que não podiam ser observadas diretamente na época. em baixas temperaturas. o ferro. Por volta de 1939.

as quais orientam acentuadamente o futuro social. os materiais magnéticos são utilizados como ímãs permanentes e têm a propriedade de criar um campo magnético constante. dessa forma. torna-se interessante o desenvolvimento de novos materiais que diminuam perdas magnéticas e aumentem o rendimento dessas máquinas [14]. faz-se necessário um estudo das paredes de domínio. A idéia de simetria.madores. A figura 2. Ela é essencial para o funcionamento dos gravadores de som e vídeo. a aplicação de compósitos magnéticos na resolução de problemas ambientais têm recebido considerável atenção nos últimos anos [15]. remoção de radionucleotídeos do leite e remoção de corantes orgânicos [16]. político. os quais estão intimamente ligados ao desenvolvimento da chamada era da informação e dos conceitos daí derivados. Conceitos geométricos e topológicos são uma ferramenta de muita importância em muitas áreas de Ciências Naturais. é crucial para classificar e dar es16 . Além disso. Um outro desafio para os cientistas que trabalham com magnetismo é o desenvolvimento de novos polímeros para a aplicação na blindagem de radiações eletromagnéticas [17]. econômico. Topologia. aplicação automotiva. magnéticas e ópticas semelhantes às dos metais. geração e distribuição de energia elétrica. após a adsorção. por sua vez. por sua vez. as paredes de domínio. em especial. intimamente relacionada à geometria. são separados por estruturas topológicas. inseparáveis das mudanças radicais ocasionadas pelas novas tecnologias. uma das mais importantes aplicações dos materiais magnéticos que adquiriu grande importância nas últimas décadas é a gravação magnética. Física. cultural e ambiental das populações [18]. bem como de inúmeros equipamentos acionados por cartões magnéticos e tonou-se muito importante nos computadores [15]. Tais compósitos poderiam ser utilizados para adsorver contaminantes e efluentes industriais que. para que haja uma boa compreensão acerca da gravação magnética. Esses polímeros são denominados metais sintéticos pelo fato de possuírem propriedades elétricas. usada na tecnologia eletrônica para armazenamento não-volátil de informação e que permite regravação. Finalmente. separando dois domínios cujas magnetizações têm sentidos opostos.1 representa uma parede de domínio de 180 graus. A existência da possibilidade de gravação magnética está intimamente relacionada com a existência de domínios magnéticos. Esses conceitos são. por sua vez. é base para o estudo de propriedades fundamentais de muitos sistemas físicos. Essas paredes têm espessura da ordem de 100 a 1000 nanometros. Assim. esses. Alguns exemplos desta tecnologia são a utilização de partículas magnéticas para acelerar a coagulação em esgoto. eletrônicas. seriam separados por um simples processo magnético.

Nesta área. Além do magnetismo. 35]. etc. de excitações não-lineares em sistemas magnéticos são de fundamental importância para a caracterização desses sistemas. 21. É importante notar que a presença de propriedades. esférica [28]. esférico [28]. fica evidente a influência da geometria do espaço físico nas características de tais objetos. em teorias altamente não lineares. quando se pensa em aplicações tecnológicas 17 . Além disso. tabilidade a certas excitações. respectivamente.Figura 2. como sólitons e vórtices. G. Witten [33] propuseram uma generalização dessa teoria. As espessuras da parede e do domíno são representadas por ξ e L. 25]. Por outro lado. Em todos esses trabalhos. Os sólitons foram ainda estudados em superfícies não simplesmente conexas. 27]. etc. o estudo de tais estruturas. tais como o plano sem um disco central e o cone truncado [31]. tais como: cilíndrica [20. As excitações tipo sóliton associadas ao modelo sigma não linear (NLσ M) foram estudadas em diversas geometrias não planas. estruturais e dinâmicas. mais comumente) quanto em sistemas correlatos. 22. superfluidos. em especial. como por exemplo a Cromodinâmica Quântica. também é importante para o entendimento de processos biofísicos e biológicos [34. t’Hooft [32] e E. cuja análise dos resultados levam a conceitos de cromodinâmica Quântica nos quais os “barions” aparecem como excitações topológicas de energia bem definida (sólitons). excitações tipovórtice foram estudadas em um suporte cônico [30]. Além disso. que é de fundamental importância para o entendimento das interações fortes.1: Representação de uma parede de domínio de 180 graus. pseudo-esférico [29]. propriedades básicas de excitações topológicas têm sido também investigadas em geometrias curvas. 23. pseudo-esférica [29]. cônica [26. como supercondutores. 24. o estudo dos sólitons é muito importante para diversas áreas da Física. Essas e outras excitações têm sido observadas tanto em magnetismo (planar.

Uma outra descoberta interessante foi a decodificação da estrutura tridimensional de um vórtice magnético do tamanho de um glóbulo vermelho de sangue. onde exibem uma estrutura planar. 37] e as referências lá citadas). para o toro do tipo anel (ring torus). utilizando para isso. Vórtices são excitações estáveis. por exemplo. A descoberta dessa estrutura. rings. por exemplo. poderá permitir a construção de discos rígidos para computador com capacidade maior do que os atuais [41]. uma pequena quantidade de energia. em nanodiscos ferromagnéticos. o que os torna estruturas excelentes para o armazenamento de dados (caso de vórtices magnéticos). supercondutores. além de servir de teste expermental para a teoria de cordas (ver por exemplo [39] e os trabalhos aí relacionados). como é o caso de nanomagnetos com topologia toroidal (cilíndricas com buracos. Isso cria uma magnetização oposta na borda do vórtice original. por exemplo. leva a uma regularização da estrutura do vórtice. transistores que funcionam utilizando o fluxo de vórtices magnéticos [40]. ao estudar excitações topológicas na geometria do toro. contudo uma grande quantidade de energia é necessária para alterar o estado de um vórtice de 1 para 0.que presumem o controle dessas excitações. o genus. O resultado é um par vórtice/antivórtice. exceto no núcleo.) [38]. no qual um pulso de energia é utilizado para construir um campo magnético a determinados ângulos do vórtice. Vórtices têm sido encontrados em muitos sistemas magnéticos. o qual. Os vórtices também estão presentes em diversas situações físicas além do magnetismo. Além disso. no entanto. No entanto. tal caroço pode deixar de ser exibido se o vórtice nuclear ao redor de um defeito (cavidade) suficientemente grande. Por outro lado. veremos na seção 2. podendo ser observados no escoamento de água pelo ralo de uma pia. no hélio superfluido. [36. o aprimoramento de técnicas teóricas e práticas para o estudo dos vórtices podem levar ao desenvolvimento de novas tecnologias. prevenindo o desenvolvimento do caroço. vê-se claramente que o estudo de excitações topológicas tem uma 18 . Em conexão com esse ponto. cientistas alemães descobriram um fenômeno que foi batizado de reversão dinâmica do núcleo do vórtice.3. onde os spins desenvolvem uma componente outof-plane (fora do plano) (veja Ref. em estruturas galácticas. que a topologia toroidal exibe um cutoff natural. etc. Dessa forma. restando apenas o vórtice com polarização reversa [42]. de modo que toda a estrutura é forçada a executar um movimento contínuo de alteração de spin. de tal forma que o antivórtice cancela o vórtice original. que se assemelha a um tornado. desejamos realizar algumas aproximações assintóticas e comparar nossos resultados com outras soluções que serão discutidas mais tarde neste texto.

Só para citar um exemplo. Arranjos de alguns poucos átomos com dimensões da ordem de nanometros têm sido fabricados e manipulados. entre muitas outras. os quais serão aqui discutidos. De fato. com o advento da nanociência. isto é se estivermos falando a respeito de “nanorings” magnéticos. Até onde sabemos. 29. 12]. uma vez que essas aparecem em diversas áreas do conhecimento humano. pois nessa superfície. 52]. Por que essa geometria é tão abundante nesses processos e a razão pela qual o processo de evolução a escolheu. bem como o controle de sua magnetização estável pode potencializá-los a ser utilizados em dispositivos magneto-eletrônicos. a forma toroidal tem sido observada em um grande número de proteínas envolvidas no metabolismo do DNA. Além disso. mas também as formas de tais estruturas são cada vez mais intrigantes. o outro com face elíptica apresentam magnetização remanente bem distintos: enquanto no primeiro caso há o aparecimento de um vórtice isolado. embora essas proteínas tenham funções bastante distintas e sem conexões nesse mecanismo. 45]. estamos interessados em estudar excitações tiposóliton e tipo-vórtice numa geometria toroidal. 25. pois. as teorias de ordem cristalina e elasticidade estão pouco desenvolvidas [47]. um com face circular. Assim como os autores desses trabalhos. no segundo. 44. 49]. estruturas que se encontravam há pouco tempo restritas à imaginação. utilizaremos o limite con19 . 28. sua topologia também torna possível a realização de transistores de efeito de campo para aplicações tecnológicas [50]. soluções solitônicas no toro elástico foram desenvolvidas a partir do modelo de Heisenberg isotrópico nos trabalhos [20. torna-se importante a compreensão da própria geometria de tais objetos. um par vórtice/antivórtice é observado [46]. 31.grande potencialidade interdisciplinar. 43. permanece um quebra cabeças na literatura especializada [51]. Nanotubos de carbono com forma de anel (topologia toroidal) são providos de sistemas quasi-zerodimensonais sempre que o tamanho do anel for muito pequeno [11. Como as formas e tamanhos distintos dos objetos conduzem a propriedades fundamentais diferentes para tais estruturas. a geometria toroidal tem recebido considerável atenção. vários estudos teóricos e experimentais têm sido reportados recentemente [24. A geometria do espaço físico influencia consideravelmente o comportamento dessas excitações. logo. No caso do presente trabalho. Não só o tamanho. torna-se importante o estudo de tais objetos em diferentes geometrias. estão se tornando realidade. dentro dos quais os átomos desenvolvem comportamento quasiunidimensonal sujeitos a condições de contorno periódicas [48. dois nanomagnetos cilíndricos. Em biologia. Em adição. por exemplo: armadilhas para condensados de Bose-Einstein.

No entanto. A partir dessa idéia. é dado por: Hlatt = −J ′ X <i. que formulou a teoria de campo molecular: cada molécula é um dipolo magnético e está sob a ação dos campos magnéticos gerados pelas outras moléculas. temos o vínculo S 2 = Sx2 + Sy2 = 1.tínuo da Hamiltoniana de Heisenberg para o ferromagneto clássico. 2. estudaremos também soluções no modelo de Heisenberg anisotrópico. a Hamiltoniana descreve um sistema ferro ou antiferromagnético.j> onde J ′ denota a constante de acoplamento entre os primeiros vizinhos e.j> Hi. S z ) é o operador de spin no sítio i e o parâmetro λ está i i i relacionado à anisotropia da interação entre os spins. 20 . Regime de eixo fácil). a primeira tentativa para descrever esse fenômeno se deve a Weiss.3 para visualizar a orientação do spin clássico no espaço interno. leva ao modelo XY ou ao modelo do Rotor Planar (MRP). encontrando excitações tipo-vórtice.1) <i. tem-se o caso isotrópico. esse modelo é incapaz de descrever o ordenamento ferromagnético. os spins tendem a se alinhar ao longo do eixo z (do espaço interno. 2. Veja a Fig. S~i = (S x . ao passo que no XY temos S 2 = Sx2 + Sy2 + Sz2 = 1 (mas apenas Sx e Sy aparecem no Hamiltoniano). A diferença básica entre o MRP e o modelo XY está nos vínculos do espaço interno. Como já foi dito na seção 2. numa rede bidimensional. baseado em argumentos quânticos e envolvendo interações de troca de natureza coulombiana que seriam suficientemente fortes para dar conta de um estado ferromagneticamente ordenado mesmo a temperaturas mais altas [53]. temos o regime de plano fácil.j = −J ′ X (Six Sjx + Siy Sjy + (1 + λ)Siz Sjz ) (2. para λ = 0. O Hamiltoniano de Heisenberg para interação entre primeiros vizinhos. Para λ > 0. em especial. que nesse suporte apresentam-se sem caroço (caso do ring torus). enquanto o caso λ = −1 . S y . Heisenberg e outros propuseram um novo mecanismo. o chamado modelo XY.1. para −1 < λ < 0. No caso do MRP. a depender se J ′ < 0 ou J ′ > 0.2 O modelo de Heisenberg Sabe-se que o comportamento paramagnético de compostos cristalinos pode ser bem explicado por meio de um modelo de spins localizados interagindo apenas com um campo magnético externo (mais detalhes no Apêndice C). Além do modelo isotrópico. respectivamente. no qual um cristal permanece com magnetização não nula mesmo na ausência de um campo magnético externo.

Sy . Figura 2. Sy 6= 0 e Sz = 0 teremos um círculo de spins. e toda dinâmica de spins estará contida a variável Φ(x.3: Esquema de um spin clássico com orientação determinada pelos ângulos ~ 2 = constante. Sz 6= 0 e λ = 0) enquanto. o espaço interno esféricos (Esfera interna de spins). 21 . Note que como |S| será equivalente a uma esfera. y). Neste caso. se Sx .2: Configurações de mínima energia para os casos ferromagnético (esquerda) e antiferromagnético (direita). S 2 (se Sx .Figura 2. Θ = π/2.

Heisenberg propôs apresentar essa interação diretamente da função de onda dos ~1 e S ~2 . Considerando a equação de Schrödinger completa para duas partículas pode-se obter energias diferentes para cada um desses estados: ES para o estado singleto e ET para o estado tripleto. De acordo com os princípios da Mecânica Quântica.4: As direções dos spins dependem da distribuição espacial (função de onda espacial) de carga dos elétrons dos íons vizinhos. Funções de onda anti-simétricas podem ser obtidas de duas formas distintas: i) a função de onda espacial é simétrica e a função de onda relacionada ao spin é antisimétrica (spins antiparalelos). No primeiro caso.3) Numa aproximação contínua das variáveis espaciais e de spin. ela é um tripleto. as funções de onda que descrevem as partículas devem ser simétricas ou anti-simétricas mediante a troca dessas partículas (ver seção C. a energia da interação será: ~1 · S ~2 . H = −J S (2.3). A diferença entre essas duas energias é associada ao parâmetro de troca J através da relação: J = ES − ET . é a constante de troca. ii) a função de onda espacial é anti-simétrica e a função de onda relacionada ao spin é simétrica (spins paralelos). válida para grandes 22 . esse parâmetro mede o custo de energia para que o sistema vá de um estado ao outro.Figura 2. A interação entre primeiros vizinhos é chamada de interação de troca e J ′ . um estado singleto. (2. no segundo. a função de onda correspondente ao spin é um estado singleto. nos íons 1 e 2 e spins correspondentes: sejam dois elétrons cujos spins são S descritos por funções de onda anti-simétricas (uma vez que os elétrons são férmions).2) Logo. A explicação para esse fenômeno é dada pela mecânica quântica e pela propriedade da indistinguibilidade de partículas idênticas. As representações para esses dois estados pode ser vista na Figura 2. À direita vemos a representação de um estado tripleto e à esquerda.4.

isto é. cos Θ) é o campo vetorial Além disso. η2 ) e Φ = Φ(η1 . Um toro com n buracos internos é um “n-torus” (genus n). B.1) pode ser escrito como (detalhes de tal obtenção são apresentadas no Apêndice A. g ij são os elementos contravariantes da métrica da superfície (então g ij gjk = δik ) e hab são os elementos da métrica do espaço interno (spins). dessa forma.6).4) onde (J ≡ J ′ /2).b=1  ij   ∂S b p |g|dη1 dη2 ∂ηj (2.j=1 a. Seja R a distância do centro do buraco ao centro do tubo do toro. dessa forma. 2. B com D e da junção desses pares de vértices. η1 é e η2 são as coordenadas curvilíneas da superfície. η2 ). é semelhante a uma rosquinha (donut). |g| = |det[gij ]|. um toro é formado a partir da identificação dos vértices A com C.5) . senΘsenΦ. O toro mais comum. Sy .comprimentos de onda e temperatura suficientemente baixa. superfluidez e supercondutividade. ~ = (Sx . o modelo dado por (2. e. Então.5 representa o retângulo que pode dar origem ao toro e a aparência de um toro mergulhado num espaço tridimensional. seja um retângulo com vértices A.): H1 = J Z Z X 2 X 3 ∂S a g hab (1 + δa3 λ) ∂ηi i. δa3 é o delta p p de Kronecker. 2. ocupando uma posição numa geometria bidimensional arbitrária. mergulhado num espaço tridimensional. e as equações paramétricas são: 23 (2. A Fig. a equação do toro em coordenadas cartesianas com simetria azimutal sobre o eixo z é dada por:  2 p R − x2 + y 2 + z 2 = r 2 . particularmente em dimensões maiores [54]. Ele pode ser construído a partir de um retângulo colando-se os vértices opostos sem voltas. pos- suindo um buraco. 2. como por exemplo hidrodinâmica. essas considerações podem ser relevantes em outras áreas. C e D. Vamos agora discutir algumas propriedades básicas de alguns tipos de toro. e seja r o raio do tubo (Ver Fig. Sz ) ≡ (senΘ cos Φ. logo Θ = Θ(η1 . S de spin clássico avaliado numa esfera unitária (espaço interno). A Hamiltoniana (2.4) pode ser vista como sendo o modelo σ não-linear anisotrópico. geralmente representado por T n .3 A superfície do toro Um toro ordinário é uma superfície contendo “genus” um. mas seu conceito matemático é mais sutil e complexo.

y. θ. φ). uma vez que no modelo aqui desenvolvido. z) para qj constante.Figura 2. Os elementos gij da métrica serão determinados a partir da definição dada na referência [55]. B. Estes são os três toros padrão. e à esquerda. Esses coeficientes especificam a natureza do sistema de coordenadas (q1 . o retângulo e os vértices A. estudaremos excitações na superfície 24 . 2. (2. x = (R + rsenθ) cos φ y = (R + rsenθ)senφ z = r cos θ.6) sendo θ e φ ∈ [0. 2π]. equivale a (r. será importante conhecer a métrica e o elemento de linha do toro. estamos interessados nos elementos da métrica com relação a θ e φ. Para os nossos propósitos. ele é chamado “ring torus”. O toro pode ser classificado de acordo com a relação entre R e r: • se R > r.5: À direita vê-se a representação de um toro embebido num espaço tridimensional.6). q3 ). C e D. q2 . que. • se R = r temos o “horn torus”. que. cujas ilustrações são feitas na Fig. • finalmente. se R < r o toro é chamado “self-intersecting spindle torus”.7. ou seja: gij = ∂~r ∂~r · . no caso das coordenadas descritas na equação (2. Neste trabalho. ∂qi ∂qj (2.7) de onde pode-se ver que os elementos da métrica são produtos escalares dos vetores tangentes ∂~ r ∂qi às curvas ~r = (x. dão origem ao toro. ao serem identificados.

7). não nos preocuparemos com os elementos da métrica relacionados a r. Além disso. do toro rígido.6) e (2. g ij . respectivamente.10) onde δij é a delta de Kronecker. as próprias equações paramétricas dadas em (2. (2. que é definida como δij = 1 se i = j e δij = 0 se i 6= j. a partir dos elementos da métrica covariante gij a partir da relação g ik gkj = δij (2.11) . temos que: ij (g ) = " 1 (R+rsenθ)2 0 0 1 r2 25 # .6) se reduzem ao caso esférico. Vemos o sistema de coordenadas adotado.6: Corte feito no toro perpendicularmente ao eixo z. Dessa forma.Figura 2. temos que: gφθ = gθφ = 0 gθθ = r 2 gφφ = (R + rsenθ)2 .9) se reduz à métrica de uma esfera parametrizada pelos ângulos polar e azimutal θ e φ. dessa forma.8) que são válidas para os três tipos de toro. temos: " # (R + rsenθ)2 0 (gij ) = 0 r2 (2. das equaçôes (2. (2. Logo. a expressão (2.9) É interessante observarmos que quando R = 0. Pode-se definir os elementos da métrica contravariante. Dessa forma.

z

z

x

x

Figura 2.7: Vista global (acima) e seção transversal (abaixo) de um horn torus (esquerda) e self-intersecting spindle torus (direita). Os parâmetros são aqueles da Fig.
2.6. Note que na seção transversal, o horn torus e o spindle torus apresentam, respectivamente, um e um par de pontos onde eles se auto interceptam. De fato, no caso do
spindle torus tais pontos correspondem a dois círculos ao longo dos quais essa superfície
se auto-intercepta.

Pode-se determinar agora o elemento de linha para o toro, dado por:
ds2 = gij dq i dq j = (R + rsenθ)2 dφ2 + r 2 dθ2 ,

(2.12)

onde adotou-se a convenção de Einstein, na qual índices repetidos (uma vez co e outra
contravariante) representam somatórios.
A definição para o operador gradiente numa superfície arbitrária qualquer é
dada por [55]:
~ =

X

qˆi

i

26

1 ∂
,
hi ∂qi

(2.13)

onde h2i = gii e qi é a coordenada generalizada. Então o operador gradiente para
superfície do toro será escrito como:
~ = φˆ

1

1 ∂
+ θˆ
.
R + rsenθ ∂φ
r ∂θ

(2.14)

Finalmente, a curvatura gaussiana do toro é [56]:
K=

senθ
,
r(R + rsenθ)

(2.15)

de onde pode-se notar que o toro possui uma curvatura não trivial, pois, além de
não ser constante4 ao longo da variável5 θ, possui regiões onde a curvatura é positiva
(0 < θ < π), regiões onde a curvatura é negativa (π < θ < 2π) e regiões onde a
curvatura é nula (θ = 0 e θ = π).
Pode-se notar, a partir da análise da equação (2.15), que no limite R → ∞

temos K = 0, o que corresponde à curvatura do cilindro ou do plano. Entretanto,

isso não quer dizer que nesse limite a topologia do toro seja a mesma do cilindro
(ou plano). Isso é verdade apenas para a geometria, pois mesmo nesse limite, o toro
continua apresentando o genus. Além disso, quando R = 0, vemos que além da métrica,
a curvatura do toro também é a mesma da esfera (K = 1/r 2 ), mas, assim como no
caso anterior, isso só é verdade para a geometria e não para a topologia.
Além do sistema de coordenadas dado pelas equações (2.6), existe uma representação mais sutil para o toro, a qual foi utilizada no trabalho da referência [34] para
estudar a família de soluções exatas e analíticas da estabilidade de membranas. A
família de toros gerados pela revolução de círculos ao redor do eixo z pode também ser
descrita por:
~r = 

asenhb
asenhb
asenη
cos ϕ,
senϕ,
cosh b − cos η
cosh b − cos η
cosh b − cos η 

,

(2.16)

onde os parâmetros constantes a e b são ambos reais e positivos, enquanto η varia de
−π a π. As relações
a=

p

e

(R + r)(R − r)

cosh b =

R
,
r

(2.17)

permitem uma simples interpretação geométrica para os novos parâmetros, que podem
ser chamados, assim como na referência [20], de raio geométrico (a) e ângulo excêntrico
4

Alguns exemplos de superfícies com curvatura gaussiana constante são a esfera, K = 1, o cilindro

ou o plano, ambos com K = 0 e a pseudo-esfera, onde K = −1.
5
Apesar de não ter curvatura constante em θ, o toro possui curvatura constante em torno de φ.

27

(b). Deve-se observar então este sistema de coordenadas só é bem definido para o ring
torus, ou seja, para R > r. Reciprocamente, os parâmetros naturais R e r satisfazem
às relações:

a
a
e
r=
.
tanh b
senhb
Então, as transformações levam a: 
 r 

1
1
R−r
tan
η =
tan
θ ,
2
R+r
2

(2.18)

R=

(2.19)

onde θ é o parâmetro utilizado no sistema de coordenadas descrito na equação (2.6) e
representado na Fig. 2.6.
Pode-se determinar então os elementos das métricas covariante (gij ) e contravariante (g ij ) nesse sistema de coordenadas. Temos que,
gηϕ = gϕη = 0,
gϕϕ =

a2 senh2 b
(cosh b − cos η)2

gηη =

a2
.
(cosh b − cos η)2

e

Tomando então as definições dadas pelas equações (2.7) e (2.10), tem-se que:
"
#
a2 senh2 b
0
2
(gij ) = (cosh b−cos η)
a2
0
(cosh b−cos η)2
e
(g ij ) =

"

(cosh b−cos η)2
a2 senh2 b

0

0
(cosh b−cos η)2
a2

#

.

(2.20)

(2.21)

Nesse caso, o operador gradiente para esse sistema de coordenadas será dado por:
~ = ϕˆ cosh b − cos η + ηˆ cosh b − cos η .

asenhb
a

(2.22)

Finalmente, encerrando nossa discussão acerca da superfície do toro, temos que
o elemento de linha para o sistema de coordenadas (2.16) é:
ds2 = gij dq i dq j =

a2 senh2 b
a2
2

+
dη 2 .
(cosh b − cos η)2
(cosh b − cos η)2

28

(2.23)

Capítulo 3
Modelo de Heisenberg e soluções
topológicas no toro
Na seção 2.2 foi apresentado o limite contínuo da Hamiltoniana de Heisenberg
para o ferromagneto clássico. No entanto, a forma como ela está escrita é diferente da
forma como aparece em diversos trabalhos [20, 28, 29, 52]. Pode-se testar a validade
da Hamiltoniana descrita na equação (2.4) aplicando-a a um problema cujos resultados
já são bem conhecidos. Optamos aqui por tratá-la no caso do plano, o que é feito no
Apêndice B.
Nosso intuito, no entanto, é estudar o modelo de Heisenberg no toro, para a
obtenção de excitações tipo-sóliton e tipo-vórtice nessa superfície.

3.1

O modelo de Heisenberg no toro
Nosso objetivo é encontrar excitações topológicas numa geometria toroidal, a

qual se apresenta como uma superfície não-simplesmente conexa, uma vez que nem
todos os “laços” (loops) definidos em sua superfície podem ser contraídos a um ponto
através de deformações contínuas sucessivas.
Diante disso, resolveremos as equações de movimento para os dois sistemas de
coordenadas que foram apresentadas na seção 2.3, uma vez que ambos serão úteis para
o desenvolvimento deste trabalho.
Tomando o sistema de coordenadas dado pela equação (2.6), os elementos da
métrica contravariante definidos em (2.11), a matriz da métrica covariante (2.9) e
parametrizando o espaço de spins (espaço interno) em coordenadas cartesianas, de
29

3) que representa a equação de movimento para o campo ϕ. a coordenada canônica. A densidade da Hamiltoniana para o nosso caso é dada por: ( h=    r 1 + λsen2 Θ (∂φ Θ)2 + sen2 Θ (∂φ Φ)2 + R + rsenθ )   R + rsenθ  + 1 + λsen2 Θ (∂θ Θ)2 + sen2 Θ (∂θ Φ)2 . q). obtemos: Tomando agora a representação de S Z π Z 2π (    r H =J 1 + λsen2 Θ (∂φ Θ)2 + sen2 Θ (∂φ Φ)2 + R + rsenθ −π 0 )   R + rsenθ  + 1 + λsen2 Θ (∂θ Θ)2 + sen2 Θ (∂θ Φ)2 dφdθ. h. ˙ H e L são. xµ = (x1 . ∂θ ∂θ (3. Adotaremos aqui a forma como ela é definida na referência [8]. porém com sinal negativo. Essas expressões são obtidas a partir da equação de Euler-Lagrange para campos. ∂ϕ ∂xµ ∂(∂µ ϕ) (3.2) ∂ . Aqui.   ∂L ∂ ∂L − = 0. π(q. θ) e novamente é adotada a convenção de Einstein na qual índices repetidos (um co e outro contravariante) representam somatórios.4) . ∂φ Agora.1) ~ em termos de Θ e Φ. r 30 (3.forma que hab = δab . a Hamiltoniana e a Lagrangiana do sistema. a Hamiltoniana (2. o papel desempenhado por L em (3. o momento conjugado. Como estamos procurando por soluções estáticas. onde q. r onde adotamos ∂θ ≡ ∂ ∂θ e ∂φ ≡ (3. análoga à segunda equação de Newton para o movimento de pontos materiais. x2 ) = (φ.4) toma a forma:  x 2  y 2  z 2  Z π Z 2π ( r ∂S ∂S ∂S H=J + +(1 + λ) + R + rsenθ ∂φ ∂φ ∂φ −π 0 R + rsenθ + r  ∂S x ∂θ 2  y 2  z  2 ) ∂S ∂S + +(1 + λ) dφdθ.3) é assumido pela densidade da Hamiltoniana. podemos determinar as equações de movimento para a Hamiltoniana dada. ou seja: H= X π(q. respectivamente. ou seja. q) ˙ q˙ − L ⇒ H = −L.

uma vez que esta representação nos leva a expressões de resolução mais simples. que serão estudadas em detalhes quando nosso objetivo for encontrar soluções tipo-vórtice no toro.4) será escrita como: 1 Tal sistema de coordenada. cosh b − cos η cosh b − cos η cosh b − cos η 2 Novamente. tomando as equações (3.16) só é válida para o caso do ring torus. senϕ. realizando as devidas operações.16). chegamos à seguinte relação: ( )  R + rsenθ  r 2 2 2 2 senΘ cos Θ λ (∂φ Θ) + (∂φ Φ) + λ (∂θ Θ) + (∂θ Φ) = R + rsenθ r   R + rsenθ  cos θ 1 + λsen2 Θ (∂θ Θ) + (1 + λsen2 Θ)∂θ2 Θ + 2λsenΘ cos Θ (∂θ Θ) + r   r + (1 + λsen2 Θ)∂φ2 Θ + 2λsenΘ cos Θ (∂φ Θ) . eq. além do fato de ela ser válida para qualquer tipo de toro.4).5) ∂Θ ∂φ ∂(∂φ Θ) ∂θ ∂(∂θ Θ) Logo.6) R + rsenθ Analogamente. (2. Trabalhando agora com o sistema de coordenadas1 (2.j=1 a. eq. em especial aquelas onde λ = −1. Este procedimento será útil para determinar as soluções para o modelo de Heisenberg isotrópico no toro. lê-se:   asenhb asenhb asenη ~r = cos ϕ. (3.4): H1 = J Z Z X 2 3 X i.7) Após desenvolvidas as equações de movimento para o sistema de coordenadas dado por (2.16).16). temos que a equação de movimento em Θ é:     ∂ ∂h ∂ ∂h ∂h − − = 0.6) também é interessante para os nossos objetivos devido a algumas analogias que serão feitas nas discussões dos resultados.3) e (3. (2.b=1  a  b  ∂S ∂S p g hab (1 + δa3 λ) |g|dη1 dη2 ∂ηi ∂ηj ij 31 . obtem-se a equação de movimento em Φ: cos θsen2 Θ∂θ Φ +   R + rsenθ r ∂θ sen2 Θ∂θ Φ + ∂φ sen2 Θ∂φ Φ = 0. reescrevemos a Hamiltoniana geral. temos que a Hamiltoniana2 (2.6). No entanto o sistema de coordenadas (2. r R + rsenθ (3. enquanto (2. Isto também é verdade para as soluções anisotrópicas. podemos fazer o mesmo para o sistema de equações dado em (2.Então. (3.

de forma que a procura por soluções gerais é uma tarefa muito complicada.10)     ∂ξ sen2 Θ (∂ξ Φ) + ∂η sen2 Θ (∂η Φ) = 0. (3.6) e (3. 2 (3.11) e Como esperado.H=J Z π dϕ −π Z π dη −π + senhb  (   1  1 + λsen2 Θ (∂ϕ Θ)2 + sen2 Θ (∂ϕ Φ)2 + senhb 2 1 + λsen2 Θ (∂η Θ) + sen2 Θ (∂η Φ)  Fazendo a substituição ξ = ϕsenhb ⇒ dϕ = reescrita na forma: Z πsenhb Z H=J dξ −πsenhb π −π dη  dξ .7).8) a Hamiltoniana acima pode ser    2 2 2 2 2 1 + λsen Θ (∂ξ Θ) + (∂η Θ) +sen Θ (∂ξ Φ) + (∂η Φ) . As equações de movimento são:    2 2 2 2 senΘ cos Θ λ (∂ξ Θ) + (∂η Θ) − (∂ξ Φ) − (∂η Φ) + + (1 + λsen2 Θ)(∂ξ2 Θ + ∂η2 Θ) = 0 (3. (3.2 e 3. 32 .3. senhb ) 2 . (3.7).9) Pode-se determinar então as equações de movimento procedendo da forma utilizada para encontrar os resultados dados em (3. (3. Desse modo.6).10) e (3. as equações (3. Algumas dessas soluções especiais serão desenvolvidas nas seções 3.11) que descrevem o regime anisotrópico geral do modelo de Heisenberg são altamente não-lineares. apenas soluções especiais parecem ser passíveis de um estudo analítico.

os autores encontraram soluções topológicas tipo-sóliton com frustração geométrica devido à não-conectividade do toro.3. onde Θ(ξ. η) = Φ(η).2. Para obter mais detalhes.2 O regime isotrópico e soluções solitônicas Teorias de campo clássicas não-lineares podem apresentar soluções comumente chamadas sólitons as quais representam configurações estáveis. com energia finita. η) = Θ(η) e Φ(ξ. η) = Θ(ξ) e Φ(ξ. (3.9) simplifica-se para:  Z πsenhb Z π    2 2 2 2 2 H =J dξ dη (∂ξ Θ) + (∂η Θ) + sen Θ (∂ξ Φ) + (∂η Φ) . implicando que argumentos de homotopia não podem ser usados para garantir a estabilidade de tais excitações. η) = Φ(ξ) quanto aquelas que admitem simetria toroidal Θ(ξ. a Hamiltoniana (3. −πsenhb (3. Veremos que suas soluções mais simples são sólitons com carga fracionária. 52].12) −π ao passo que a eq. encontrou-se uma equação de Lamé não-homogênea. Aí. Aqui.13) já a eq. Simetria toroidal Até onde sabemos. consideraremos tanto as soluções que admitem simetria cilíndrica Θ(ξ. η) = Θ(ξ) e Φ(ξ. No modelo rígido correspondente. na qual foi adotada a simetria toroidal. Ao assumir pequenas e suaves deformações.10) toma a forma:   ∂ξ2 Θ + ∂η2 Θ = senΘ cos Θ (∂ξ Φ)2 + (∂η Φ)2 .11) permanece inalterada. Determinaremos agora a solução das equações no modelo isotrópico (λ = 0). os autores estavam basicamente interessados em estudar o modelo de Heisenberg no limite contínuo (modelo σ não-linear) numa seção do toro elástico exibindo condições de contorno homogêneas. a seção do toro é encolhida globalmente e um inchaço aparece na região do sóliton. 3. o que leva a um novo efeito geométrico: um encolhimento global com inchaços.1 Coordenadas peri-polares No caso isotrópico. bem definida e sem singularidades. o leitor é remetido à referência [52]. ou seja. (3. Para essa simetria teremos a Hamiltoniana: 33 . (3. η) = Φ(η). o modelo isotrópico no toro foi considerado previamente nos trabalhos das referências [20.

então essas decaem em qη = 1. Θ não sofre uma variação entre 0 e π para valores de R e r finitos e maiores que zero. 34 . temos que onde qη ∈ Z.17) e De (3. entre outros. Dessa forma. (3.H=J Z πsenhb dξ −πsenhb Z π −π   dη (∂ξ Θ)2 + sen2 Θ (∂η Φ)2 (3. se R variar. 2 cuja solução mais simples é: (3. sem perda de generalidade. vê-se facilmente que quando ϕ varia de −π a π. pois demandam energia considerável para manter a configuração. como o estudo de fluxo magnético em funções de Josephson e pêndulos de torção acoplados (ver Ref. Substituindo este último resultado em (3. Inicialmente. soluções com qη > 1 são instáveis. por sua vez.18) Θ(ξ) = 2 arctan(eξ ) ⇒ Θ(ϕ) = 2 arctan(eϕsenhb ).16) ∂η Φ = qη . seguindo a relação: senhb = r R2 − r 2 ⇒ b = arcsenh r2 r R2 − r 2 r2 ! .19) só representará um π-sóliton no limite em que R → ∞. o sistema está no estado fundamental [7]. obtemos a equação de sine-Gordon (ESG): 1 ∂ξ2 Θ = senΘ cos Θ = sen(2Θ).15). A solução também depende de b. É fácil perceber que nesse limite a curvatura 3 O comprimento característico de um sóliton pode ser interpretado como uma região na qual há uma mudança do parâmetro de ordem.14) e as equações de Euler-Lagrange para os campos de spins: ∂ξ2 Θ = senΘ cos Θ (∂η Φ)2 (3.20) Então. senhb No entanto. (3. de forma que a solução (3.15)   ∂η sen2 Θ (∂η Φ) = 0 ⇒ ∂η2 Φ = 0. está relacionado com R e r. tomaremos. Fora dessa região. Θ também o fará. no restante desta seção. (3.16). este valor para qη . parece que a equação (3. que.19) representa um π-sóliton cujo comprimento característico3 é 1 . (3. [20] e trabalhos aí relacionados).19) Sabe-se que a ESG aparece em uma ampla variedade de sistemas físicos. Entretanto.

As Figuras 3. onde Q é a carga do sóliton. definida como [58]: Z 1 senΘdΘdΦ. Já é bem estabelecido que a energia mínima de um sóliton pertencendo à primeira classe 1 de homotopia.1 e 3.23) é independente 35 . O resultado dado em (3.24) Consequentemente. Q= 4π (3.2 mostram. este valor está em desacordo com nossa solução. ou ao plano punturado. 57]).23) (3.22) Mas o último integrando da expressão acima é sempre maior ou igual a zero. neste caso.21) Esoliton(ξ) = 8πJ tanh(πsenhb). de forma que seria interessante calcular a 1 energia mínima para o nosso caso e compará-lo com Eisotropico e (3. no entanto. Ou seja. que a energia do sóliton também é dependente do ângulo excêntrico b.14) pode ser escrita como: H=J Z πsenhb dξ −πsenhb H=J Z πsenhb dξ −πsenhb H=J Z Z dξ −πsenhb π −π   dη (∂ξ Θ − senΘ∂η Φ)2 + 2senΘ(∂η Φ)(∂ξ Θ) ⇒ π 2 −π πsenhb Z Z dη (∂ξ Θ − senΘ∂η Φ) + 2J π −π Z πsenhb dξ −πsenhb 2 dη (∂ξ Θ − senΘ∂η Φ) + 2J H = 8πJ|Q| + J Z πsenhb dξ −πsenhb Z π −π Z Z π −π dη[senΘ(∂η Φ)(∂ξ Θ)] ⇒ 2 arctan(eπsenhb ) 2 arctan(e−πsenhb ) Z π −π dη (∂ξ Θ − senΘ∂η Φ)2 . A energia da configuração pode ser determinada se substituirmos o resultado dado em (3.19) na equação (3. π] e a variação do comprimento característico do sóliton em função de R. senΘdΦdΘ ⇒ (3. Q = 1. o comportamento de Θ quando ϕ varia de [−π.15). a um cilindro infinito. Então. o toro se assemelha. a decomposição de Bogomol’nyi leva à expressão: Emin = 8πJ|Q|.14). respectivamente. S 2 . nesse limite. de forma que a energia mínima para o sistema será dada exatamente no limite em que ∂ξ Θ = senΘ∂η Φ (equação auto-dual [25.21). Vê-se assim. é mapeada no suporte físico em questão. Efetuando a decomposição de Bogomol’nyi [57]. Q é o número de vezes que a esfera de spins. do grupo π2 (F ) é dada por Eisotropico = 8πJ. de forma que obteremos: (3. é K = 0 (curvatura nula). a equação (3.do toro dada pela equação (2. o toro. geometricamente.

parece que estamos diante de um π-sóliton.8 Figura 3.5 -3 -2 -1 1 2 3 j -5.00004 3.5 1 0.1: Comportamento de Θ em função de ϕ. ao analisar a figura da esquerda.6 5.14135 0. após uma melhor observação.5 -6 j 5.14145 3.5 0.Q Q 0.00001 3.5 -4 j Q 3.00003 3. Θ só assumirá o valor π nesse limite. também para a primeira figura.5 -7 -6.0005 0. 36 6 j . π].00005 3. para ϕ > π. porém. no entanto.1413 0. As figuras acima à direita e abaixo à esquerda mostram um zoom feito na primeira figura para ϕ < −π.1414 0. Este valor só é obtido quando R → ∞.4 5. ao passo que a figura abaixo à direita mostra um zoom.2 5. vemos que Θ não está variando de 0 a π quando φ ∈ [−π.14125 -7. Inicialmente. Da mesma forma.1415 0.001 1.5 -5 -4.00006 3. mas não chega a zero. Note que o valor de Θ diminui.14155 0.002 3 2.0015 2 0.1416 Q 0.00002 3.

e ainda.2: Comprimento característico do sóliton para diferentes valores de R. Este resultado está de acordo com o obtido para o cilindro rígido infinito [21]. com Q podendo assumir apenas valores inteiros. Na primeira figura. uma vez que a energia mínima da excitação tipo sóliton depende do raio do toro. pode-se pensar que a solução dada em (3.26) nos mostra o comportamento de um sóliton fracionário.Q -3 -2 -1 Q 3 3 2. r = 2. quando o nosso suporte se torna o cilindro rígido infinito. e na segunda. de fato. temos: Esoliton(ϕ) tanh(πsenhb) = ≤ Emin . e este resultado está em aparente desacordo com um resultado bem estabelecido [57. ela exibe uma carga solitônica fracionária. Aqui. Entretanto. Determinando a relação entre o nosso resultado e Emin . R = 10. nesse caso.24). A expressão (3. para R finito. um completo mapeamento da esfera de spins na superfície do toro é possível.25) À primeira vista.5 1 2 3 j -3 -2 -1 1 2 3 Figura 3. ou seja. Contudo.21) não obedede à desigualdade de Bogomol’nyi.5 0. 58]. mantendo r fixo. Note que com o aumento de R. Se observarmos a definição (3.26) e então a relação E/Emin passa a obedecer a desigualdade de Bogomol’nyi.5 1 1 0. e aplicarmos os limites em Θ e Φ.5 2 2 1. tal mapeamento é incompleto e argumentos de teoria de homotopia não podem ser usados 37 j . da métrica da superfície em questão [21. Para o nosso resultado.5 1. o comprimento característico do sóliton diminui. teremos que |Q| = tanh(πsenhb). 57. qη = 1 e J = 1. 58]: a de que a energia mínima independente da métrica é dada por Emin = 8πJ|Q|. correspondendo então à primeira classe de homotopia do grupo π2 (S 2 → T 1 |R→∞ ) = Z. R = 4. Q só assumirá valores inteiros quando R → ∞. 25. Emin Q (3.5 2. (3.

8 2 0 1 1.999 1. O comportamento da carga Q com o valor de R pode ser visto na Fig.4 1. uma vez que a parametrização de ~r. pode haver estabilidade para a solução se a topologia não-trivial do suporte assim o garantir. Embora Q se aproxime da unidade muito rapidamente (e.19) como uma excitação com estabilidade topológica.99995. O fracionamento da carga está associado ao fato da superfície em estudo ser topologicamente não-trivial (não-simplesmente conexa) e apresentar curvatura variável.4 0.000 0.8 2 R/r Figura 3. 38 .6 1.6 0.8 1.. Q só assume um valor inteiro e diferente de zero no limite R → ∞. 1 0. veja gráfico auxiliar). Os casos em que R ≤ r não podem ser analisados para esse sistema de coordenadas. para R/r = 2 obtemos QR=2r ≈ 0. Contudo.g. Como a energia está diretamente relacionada ao valor da carga Q.3: Como a carga solitônica associada à solução (3. de forma que podemos fazer uma análise do comportamento da energia da excitação em função do valor de R. no qual Q se torna praticamente estável.6 1.19) se comporta no ring torus como função de R/r > 1.para classificar a solução (3. Tais características são conhecidas por induzirem frustração geométrica. No entanto. devemos chamar atenção para o fato de que só no limite R → ∞ nós obteremos Q = 1. Qualquer outro valor para R implica numa carga topológica fracionária.2 1.2 1. Pode-se notar que a carga varia rapidamente com R até um certo valor. 3. mesmo com Q < 1.001 Qring 0. ela também varia com R.3. o que impede o mapeamento completo da esfera de spins no espaço físico.

39 . Ao observarmos o ring torus. em analogia com o caso do plano punturado. o buraco. o genus. de forma que a energia do sóliton nesta superfície pertence ao intervalo (0. obtemos assim um π-sóliton. Vemos então que a geometria toroidal assume soluções tipo-sóliton com carga fracionária. o que implica em um aumento de δ. não assume valores reais e positivos para este caso. o sóliton se apresenta estável devido à presença de um buraco. na qual o valor da energia da excitação solitônica fracionária é inversamente proporcional ao tamanho da obstrução topológica [29]. de forma que não há invariância de escala. podemos notar. respectivamente. analisando o valor da energia no limite em que R → ∞ e r é mantido fixo. que a presença do genus mantém a estabilidade do sóliton fracionário na superfície toroidal. Finalmente. podemos notar também que a energia crescerá com o aumento do valor da relação R/r. os autores mostram que a estabilidade do sóliton fracionário é garantida pela presença da obstrução topológica do suporte físico em questão. estudando apenas superfícies toroidais onde R é sempre maior que r. Tal comportamento é inverso ao que acontece no caso da pseudo-esfera.dado em (2. Nesse trabalho. que tanto a carga Q quanto a energia da configuração crescem com o valor de R. Neste caso. Fazendo a análise do nosso resultado. Nos casos que acabamos de citar. a curvatura do toro anula-se (ver seção 2. ou seja. 8πJ). pois a energia não pode decair ao estado fundamental. entretanto assumindo que a relação R − r = δ > 0 é sempre válida. ou seja. Nesse caso.3). têm sua estabilidade garantida pela introdução de um buraco (uma obstrução topológica). A energia tende a zero (decai ao estado fundamental) no limite em que R → r. Devemos então analisar estritamente os casos onde R > r (ring torus). onde os autores testaram a estabilidade dessas soluções no plano punturado finito e no cone truncado. aquele no qual E = 0. pois. pode-se ver. que são estabilizadas pela presença de uma obstrução topológica. nesse limite. isto é. temos Q = 1 e E = 8πJ. obtemos o cilindro rígido infinito e a esfera de spins é completamente mapeada. isto é. tal carga fracionária depende da relação existente entre os raios R e r. vemos que ele apresenta uma obstrução topológica natural (o genus). assim como no caso do plano finito e do cone truncado. Um outro caso no qual soluções solitônicas fracionárias aparecem é na superfície da pseudo-esfera [29]. o que previne o decaimento da solução ao estado fundamental. Soluções solitônicas fracionárias com carga topológica variando de 0 a 1 e energia variando entre 0 e 8πJ já foram estudadas em superfícies não-simplesmente conexas [31]. Além disso. nota-se que tanto a carga quanto a energia assumem valores sempre menores que 1 e 8πJ.16). que. Além disso.

(3. temos a ESG. esse suporte não tem espaço suficiente para tal mapeamento. dada por: Θ(η) = 2 arctan(eqξ η ).29) e Da última equação. impedindo que o sóliton fracionário decaia ao estado fundamental. (3. nesse caso devemos levar em conta a topologia do suporte geométrico: embora o genus previna o mapeamento completo da esfera de spins sobre o toro. Para a simetria cilíndrica. η) = Φ(ξ). e a solução será análoga ao caso anterior.31) A energia calculada para este caso é: Esoliton(η) = 8πJqξ senhb tanh(πqξ ). a princípio. Entretanto. mapear a esfera de spins completamente. vemos facilmente que: ∂ξ Φ = qξ . 40 (3. Veremos que a solução encontrada também é um sóliton fracionário. (3. Simetria cilíndrica Uma segunda simetria que pode ser analisada é aquela na qual Θ(ξ.30) Novamente. ao mesmo tempo ele assegura a estabilidade topológica.28)   ∂ξ sen2 Θ (∂ξ Φ) = 0 ⇒ ∂ξ2 Φ = 0. aparentemente.32) . se R/r for finito. Então. temos: H=J Z πsenhb dξ −πsenhb Z donde seguem-se: π −π   dη (∂η Θ)2 + sen2 Θ (∂ξ Φ)2 . porém com um comportamento ligeiramente diferente do caso tratado na seção anterior. (3.27) ∂η2 Θ = senΘ cos Θ (∂ξ Φ)2 (3.podendo assumir um valor inteiro apenas no limite em que R/r → ∞. temos que: ∂η2 Θ = qξ2 senΘ cos Θ =  q 2 ξ 2 sen2Θ. η) = Θ(η) e Φ(ξ. Uma outra característica importante dessa solução é que apesar do toro ser uma superfíce na qual pode-se.

ou seja. τ ∈ Z. garantir a estabilidade de tais sólitons fracionários. como veremos a seguir. a obtenção de soluções solitônicas é mais difícil. pois. essa mesma característica pode. (3. Fazendo então as devidas operações.34) senhb Como dito anteriormente. 2π C (3. Uma análise mais simples pode ser feita partindo-se da definição: I   1 ~ τ= ∇Φ · d~l. a excitação continua apresentando carga fracionária (no caso do ring torus). aparentemente. partindo de um valor máximo (8πJ) quando R → r.Precisamos discutir agora o papel de qξ na solução acima. existe um limite no qual as duas soluções assumem o mesmo valor. podemos tomar τ = 1. Veremos que essa característica também é verdade quando estivermos discutindo o modelo do rotor planar. diminui à medida que o valor de R aumenta.35) Desta vez. de forma que a energia dada em τ = qξ senhb ⇒ qξ = (3. um sóliton inteiro aparece. a topologia não-trivial do toro não permite o mapeamento completo da esfera de spins quando estamos nos referindo ao ring torus. Aqui. entretanto.22) e d~l é o elemento de caminho fechado C. podemos notar um comportamento diferente daquele apresentado pela energia da excitação solitônica no caso da simetria toroidal.32) será escrita como: Esoliton(η) = 8πJ tanh  π  . e vai diminuindo seu valor até se anular quando R → ∞. em coordenadas peripolares. diferentemente do caso anterior. quando √ R = r 2. ∇ linha no toro. Apesar das diferenças entre as energias dadas pelas expressões (3. No caso do horn torus.aparentemente. a qual. pois as equações de 41 . de forma que a energia da excitação corresponde à energia mínima (Emin = 8πJ) de uma excitação solitônica pertencendo à primeira classe do segundo grupo de homotopia.35). no qual. Entretanto. temos que: τ . esse parâmetro não é necessariamente um número inteiro. isto é. A integração é feita ao longo do ~ é o operador gradiente definido em (2. a esfera de spins pode ser completamente mapeada nesse limite.21) e (3. temos que Esoliton(ξ) = Esoliton(η) . assim como a energia. Os mesmos argumentos utilizados para discutir a estabilidade da solução solitônica dada na seção anterior são válidas para esse caso. senhb (3. ou seja. a energia decresce com o tamanho do toro.33) de onde pode-se notar que τ é um número inteiro. Passemos a estudar agora o sistema de coordenadas polares.

7) serão escritas.38) A partir de agora.2 Coordenadas polares Começando a estudar agora o sistema de coordenadas dado por (2.36) será simplificada. θ) = Φ(φ). Contudo.40) (3. seguindo dois tipos principais de simetria: a simetria esférica.37) e cos θsen2 Θ∂θ Φ +   R + rsenθ r ∂θ sen2 Θ∂θ Φ + ∂φ sen2 Θ∂φ Φ = 0. θ) = Φ(φ) Adotando a simetria esférica. podemos determinar soluções particulares. θ) = Φ(θ). mas são não-lineares.2) e as equações de movimento (3. como: H=J Z π −π Z 2π 0 (   r (∂φ Θ)2 + sen2 Θ (∂φ Φ)2 + R + rsenθ )  R + rsenθ  + (∂θ Θ)2 + sen2 Θ (∂θ Φ)2 dφdθ. θ) = Θ(θ) e Φ(φ. R + rsenθ r cujas equações de movimento serão dadas por:   r R + rsenθ 2 2 senΘ cos Θ (∂φ Φ) = cos θ (∂θ Θ) + ∂θ Θ R + rsenθ r e  r ∂φ sen2 Θ∂φ Φ = 0 ⇒ ∂φ2 Φ = 0. Primeiro caso: Θ(φ. r   r R + rsenθ 2 2 senΘ cos Θ (∂φ Φ) + (∂θ Φ) = R + rsenθ r cos θ (∂θ Θ) + R + rsenθ 2 r ∂θ Θ + ∂φ2 Θ r R + rsenθ (3. r R + rsenθ (3.6) e (3. R + rsenθ 42 (3. temos que a Hamiltoniana (3. na qual Θ(φ.41) . Começaremos então a determinar soluções que exibem simetria cilíndrica. veremos algumas soluções particulares que não se comportam como sólitons.39) (3. 3. onde Θ(φ.36) (3. respectivamente.Euler-Lagrange para esses casos não têm a forma de uma ESG.2. θ) = Θ(φ) e Φ(φ. temos que a Hamiltoniana (3. θ) = Θ(θ) e Φ(φ. ou uma simetria mais peculiar.6). levando à expressão: Z π Z 2π  H =J −π 0  r R + rsenθ 2 2 2 sen Θ (∂φ Φ) + (∂θ Θ) dφdθ.

Lá. remetemos o leitor à referência [25]. cuja equação de movimento para Θ pode ser escrita como: senΘ cos Θ . temos que: R + rsenθ 2 ∂θ Θ + cos θ (∂θ Θ) = 0. é fácil perceber que a solução válida para o caso da esfera.44) senθ cuja solução mais simples é o “hedgehog” (ouriço).45) cuja solução é dada por: arctan √ Θ(θ) = 2QS1 4  R+r tan( θ2 ) √ R2 −r 2 R2 − r 2  + θ0 . dado por ΘSoliton = ±θ. É fácil perceber que se fizermos R = 0 em nosso sistema de coordenadas.43) Este resultado pode ser comparado com o obtido na referência [25]. (3. Isto se deve ao fato de que nesse limite a métrica e a curvatura do toro igualam-se às da esfera. na qual os autores investigaram o modelo de Heisenberg isotrópico na esfera.43) torna-se idêntica à expressão (3. 43 . sem perda de generalidade4 . não podemos simplesmente assumir Θ = ±θ pois uma simples substituição mostra que a solução só é válida no caso de R = 0.42) qφ ∈ Z. procuraremos por soluções onde Φ(φ) = k. a equação (3. Isto sugere que a solução encontrada para a esfera é um caso particular das soluções solitônicas na superfície do toro. Substituindo este resultado em (3.43) continua sendo uma equação diferencial não-linear de difícil solução. Para uma melhor compreensão dos resultados e dos detalhes envolvidos no desenvolvimento das soluções na superfície esférica. não é válida para a equação (3. (3. os autores estavam basicamente interessados na simetria esférica. (3. fazendo qφ = 1. sendo assim instáveis. a qual tem senθ(∂θ2 Θ) + cos θ(∂θ Θ) = uma carga topológica (|Q| = 1) e apresenta energia finita igual a 8πJ.40) e. A expressão (3. (3. r (3.43). obtemos: R + rsenθ 2 ∂θ Θ + cos θ (∂θ Θ) = senΘ cos Θ r  r R + rsenθ  . onde k é uma constante. decaindo geralmente naquelas com qφ = 1.46) Soluções com qφ > 1 demandam considerável energia. Devido a isto. ou seja.A última equação tem solução simples. Apesar da semelhança entre as duas equações de movimento. que pode ser escrita na forma: ∂φ Φ = qφ .44). Com isto.

com k ′ sendo uma constante.49) e cos θsen2 Θ∂θ Φ + onde ζ =  R+rsenθ 2 . de (3. dessa forma. temos. (3. a solução desenvolvida aqui é apenas uma solução formal. Segundo caso: Θ(φ. r p  ζsen2 Θ ∂θ2 Φ = 0.50) será escrita como: ∂φ2 Θ = 0. 44 QS2 ∈ Z.51) cuja solução mais simples é dada por: Θ(φ) = QS2 φ + φ0 . podendo. θ0 é uma constante de integração que não tem influência para a energia da excitação. sendo então escrita como:  Z π Z 2π  r R + rsenθ 2 2 2 (∂φ Θ) + sen Θ (∂θ Φ) dφdθ H=J R + rsenθ r −π 0 (3.50) Se tomarmos Φ(θ) = k ′ .46) e (3.onde QS1 é uma constante com dimensão de distância e que não pode estar associada a uma carga topológica.7) se tornam. (3. Com estes resultados em mãos. Uma análise mais cuidadosa dessa solução será feita na seção 3. não é garantida. e sua estabilidade topológica.52) . Dessa forma.46). na qual λ = 0. ser discutida em termos de uma solução tipo vórtice. Naturalmente.2) é simplificada.48) enquanto as equações (3. as equações (3. para o segundo grupo de homotopia.47) são idênticas àquelas soluções para Φ(θ) no modelo anisotrópico. uma vez que a solução desenvolvida naquela oportunidade é idêntica à expressão (3.3. que a energia da solução será: Q2S1 2 Eθ = 4π J √ . veremos que tal solução pertence ao primeiro grupo de homotopia. a Hamiltoniana (3. respectivamente: ζsenΘ cos Θ (∂θ Φ)2 = ∂φ2 Θ (3. θ) = Φ(θ) Adotaremos agora uma segunda simetria. uma vez que a exigência de que Φ seja constante implica no não mapeamento da esfera de spins na superfície do toro. Nesse caso. (3. Nessa ocasião.6) e (3. a equação (3.47) r R2 − r 2 Como veremos um pouco mais adiante neste trabalho. (3. Θ = Θ(φ) e Φ = Φ(θ).39). θ) = Θ(φ) e Φ(φ. não se trata de uma solução tipo-sóliton.

φ) é interessante para a comparação com outras superfícies bem como para determinar soluções tipo vórtice. o que poderia dar uma estabilidade topológica a essa solução. como pôde-se notar.16). entretanto. A parametrização (θ. é bom deixar claro que este resultado não se trata de uma solução topológica tipo sóliton: a esfera de spin não é completamente mapeada na superfície em estudo. De fato. Contudo. a solução tipo-vórtice admite o mapeamento de um círculo sobre uma superfície bidimensional e sua estabilidade é garantida. No entanto. Então. deixaremos as discussões sobre este resultado para a seção 3. como será visto mais adiante.53) − r2 Novamente. (3.Aqui.3. este resultado está intimamente relacionado com o caso anisotrópico Eφ = 4π 2 JQ2S2 √ R2 onde Φ = Φ(φ). 45 . sendo preferível trabalhar com a parametrização dada em (2. a qual é dada por: r . não é tão simples encontrar soluções solitônicas mais gerais. há o mapeamento de um círculo de spins em torno de φ. φ0 é uma constante que não influencia no cálculo da energia.

apenas para seu aspecto global. A configuração de spins dessa solução está representada. com o sistema (2.2) para este sistema passa a ser escrita como:  Z π Z 2π  r R + rsenθ 2 2 HRP = J (∂φ Φ) + (∂θ Φ) dφdθ. R + rsenθ (3. como: I   1 ~ κ= ∇Φ · d~l. esférico ou pseudo-esférico. (3. e ainda. Ou seja. Rsenθ ou ̺τ .56) cujas soluções são da forma: Φ(φ) = κφ + φ0 . como estaremos lidando com soluções estáticas. apenas a variável de spin Φ terá dinâmica (espacial) enquanto Θ permanecerá constante.55) então: ∂φ2 Φ = 0. uma hipérbole). enquanto φ0 é uma constante de integração. no limite contínuo. Essas soluções estão associadas ao Modelo do Rotor Planar (MRP). (3. esquematicamente. (3. se R + rsenθ for identificado com r. na Fig.6). aquela expressão recupera os seus análogos planar. isto é. que não contribui para a energia do vórtice. a Hamiltoniana (3. consideraremos as soluções confinadas ao plano XY. temos. iremos trabalhar. 29] (aqui.54) R + rsenθ r −π 0 Assumindo que existam soluções não-triviais com simetria cilíndrica em Φ.3. A razão dessa escolha se deve ao fato de que esse sistema é válido para qualquer tipo de toro (independente da relação entre R e r). da equação (3. 3. R é o raio em coordenadas esféricas enquanto ̺τ responde pela distância medida ao longo de uma geodésica na pseudo-esfera. de forma que tomaremos λ = −1 e Θ = π/2.3 Modelo do Rotor Planar e soluções tipo-vórtice Apesar do sistema de coordenadas dado por (2. Então. isto é. essas expressões se assemelham a suas componentes para os casos planar. r = |~r| responde pela distância radial em coordenadas polares. Φ = Φ(φ). que: Z Z r HRP = J (∂φ Φ)2 dφdθ. 2π C 46 (3.54).16) possuir soluções mais simples para o modelo anisotrópico.57) onde κ é a carga do vórtice. a partir de agora. A carga (vorticidade) é formalmente definida. Para alcançar nossos objetivos. κ ∈ Z.58) . enquanto φ mantém seu papel de ângulo azimultal. quer dizer. esférico ou pseudo-esférico [28.4.

57) e (3. 29]. geralmente associadas ao centro do vórtice. a energia do vórtice no ring torus não apresenta divergências espúrias. Para maiores detalhes sobre tal procedimento. o leitor é remetido às referências [28.57) e substituindo na Hamiltoniana (3. respectivamente. Nos outros casos (R = r ou R < r). não permitindo que essa solução possa apresentar um caroço singular. apropriada. As discussões que seguem a partir de agora para a solução em Φ(φ) também valem para as soluções Θ(φ) encontradas naquela oportu47 . Na figura da esquerda. e não sólitons na superfície do toro. R2 − r 2 (3.55).52) e (3. Θ = π 2 e φ0 = 0. esférico. temos uma visão global. As setas ~ representam o campo de spins neste suporte.59) donde se nota que. Podemos agora calcular a energia do Dessa vez.4: Comportamento do campo de spins clássicos na superfície do toro para o caso onde λ = −1. planar ou pseudo-esférico. é necessário introduzir um cutoff de para impedir as divergências no núcleo do vórtice. o genus é um regularizador natural para a configuração de vórtice no ring torus. Isso sugere que as soluções encontradas naquele caso eram vórtices. as soluções para o modelo isotrópico em coordenadas polares são idênticas àquelas encontradas no modelo anisotrópico. diferentemente dos casos.59) com as expressões (3. onde a aproximação contínua não é. Em outras palavras. uma visão superior de um vórtice com carga κ = +1. ∇ vórtice tomando a solução dada em (3. Como foi dito anteriormente. muitas vezes. ∇Φ.Figura 3. e na figura da direita.14). o que pode ser visto comparando as equações (3. ~ é dado pela expressão (2.53). de forma que a energia dessa excitação no ring torus (R > r) é: Evφ = 4π 2 Jκ2 √ r .

nota-se que a energia diminui com o aumento de R/r. isto é. até um valor crítico. pois o tratamento contínuo não resolve o problema do cálculo da energia do núcleo (de fato. se mantivermos a relação r/R constante. mas não no MRP).nidade. para o caso do horn torus. os spins aparecem praticamente paralelos (no caso ferromagnético) um ao outro. de tal forma que ao invés de um vórtice. respectivamente. Da análise da Fig. estamos lidando com um vórtice num annulus infinito (não um plano infinito) com raios interno e externo dados. a partir do qual a energia cresce ligeiramente.5 e da expressão (3. introduzindo um buraco de tamanho l0 no núcleo do vórtice. tendendo a infinito quando r → R. No entanto. Fazendo isso. de onde conclui-se que esta configuração não pode ser aquela do estado fundamental para um ferromagneto toroidal. o que não está nos objetivos deste trabalho. Já que o genus do toro é reduzido a um ponto. efetivamente. o que agora é possível já que o tamanho do buraco vai a zero. se r aumentar proporcionalmente a R. de forma que estaríamos adentrando o núcleo do vórtice. 48 . que é possível no modelo XY. se R for mantido constante enquanto r varia no intervalo [0. temos que a energia do vórtice permanece constante. cuja energia normalizada se anula. Finalmente. entretanto. ao longo do eixo de simetria. temos o estado fundamental. pode sim desde que os spins neste caroço desenvolvam Sz diferente de zero. R]. Esse resultado é esperado.59). torna-se necessário induzir um cutoff na superfície para regularizar a energia. Este cutoff pode ser conseguido. Isto poderia sugerir. 3. uma vez que neste limite. Nesse caso. a energia cresce praticamente linearmente. a princípio. que a configuração em questão seria o estado fundamental do ferromagneto para a superfície do toro. também podemos pensar que nesse limite o vórtice é levado à superfície de um cilindro infinito. Entretanto vemos que existe uma carga topológica mesmo neste limite. o que não ocorre para o estado fundamental de um ferromagneto cilíndrico. A divergência da energia do vórtice no toro. 3.5. o genus do toro se reduz a um ponto. Este comportamento pode ser visto na Fig. Uma discussão melhor acerca do estado fundamental para um toro ferromagnético poderia ser feita se a energia magnetostática for levada em conta. no limite R = r pode ser explicada pelo fato de que quando R → r o limite contínuo falha. por R − πr e R + πr. Analisando o limite onde R → ∞. ou seja. Alternativamente. tem-se que a energia do vórtice se anula. cuidado deve ser tomado a curtíssimas distâncias.

5 3 4 3.5 R 2.a energia do vórtice pode ser facilmente calculada: "Z 3π l0 # Z 2π −r 2 1 1 2 2 Ev−horn = 2πJ (∂φ Φ) dθ + (∂φ Φ) dθ ⇒ l 3π 1 + senθ 0 + r0 1 + senθ 2   l0 2 ⇒ Ev−horn = 4πJκ cot . Notamos que a energia tem inicialmente um valor muito grande.55) não é bem definida nos dois pontos onde a superfície do toro se auto-intercepta. devemos introduzir dois cutoffs ao redor dos pontos onde a densidade de energia é mal definida (com o objetivo de evitar as singularidades). J = 1. Nesta figura. (3. No caso do self-intersecting spindle torus (R < r). e só após isso podemos valorar a energia do self-intersecting spindle torus.61) O resultado acima deve ser avaliado num intervalo próprio. com r variando de 0 até R. Nesta figura. com R variando de 2 até 4. Vemos que a energia cresce praticamente linearmente até um determinado valor. Nesse caso. isto é.5 4 Figura 3. ou seja. mantendo θ arbitrário. em θsing1 = arcsin(−R/r) e θsing2 = π − θsing1 . (3. foi feito r = 2.5 3 3. a densidade da Hamiltoniana (3.60) 2r a qual depende apenas da relação entre os tamanhos do buraco e do raio do vórtice. J = 1. Entretanto. este trabalho é muito tedioso e as expressões resultantes têm 49 . e diminui rapidamente com o crescimento do raio. o gráfico da energia do vórtice em função de r. temos o gráfico da energia do vórtice e função de R. e. para tal. foi feito R = 4. a energia do vórtice será dada por [60]: ln 2 E = 2πJκ r   √ r+R tan( 2θ )− r 2 −R2 √ r+R tan( θ2 )+ r 2 −R2 √ r 2 − R2 . l0 /r. onde o seu valor aumenta muito rapidamente e tende a infinito no limite r → R.5: À esquerda. À direita. κ = 1. nos pontos onde R + rsenθ = 0. κ = 1. 100 Energia 300 80 250 200 60 150 40 100 20 50 2.

Obviamente. Diminuindo ainda mais o valor de R. A característica principal é que a energia de vórtice definida nessa superfície mostra claramente o aparecimento de dois caroços singulares localizados em θsing .64) onde κ′ e θ0 são constantes. eventualmente obteremos o horn torus.65) Podemos discutir o papel de κ′ nas últimas soluções encontradas. além da esférica. Para essa simetria. r (3.55) para a solução (3.54) será escrita como: Z Z R + rsenθ HRP = J (∂θ Φ)2 dφdθ. um self-intersecting spindle torus é obtido e o vórtice apresenta agora um par de caroços singulares nos pontos de auto-interceptação. (3.62) e (3. onde um caroço é formado.57) nos dá exatamente o resultado obtido no caso esférico [28]. logo κ′ não deve exercer o papel de carga 50 .comprimento muito grande. isto é.63) cuja solução é dada por:  r+R tan( θ2 ) √ R2 −r 2 2κ′ arctan √ Φ(θ) = R2 − r 2  + θ0 . Em resumo. r (3.59). procuraremos aqui por soluções que exibem um outro tipo de simetria. enquanto κ é adimensional.62). Assim como no caso do sóliton.7) tomará a forma: cos θ∂θ Φ + R + rsenθ 2 ∂θ Φ = 0. de forma que esse limite não será analisado. onde o vórtice é anucleado (sem caroço singular) e formos diminuindo o valor de R. onde a integração da Hamiltoniana (3. de forma que não serão apresentadas aqui. a Hamiltoniana (3. exibindo um par de caroços singulares nos pontos antipodais. dado acima. Encontraremos agora soluções onde Φ = Φ(θ) e logo depois compararemos este resultado para a energia com aquele expresso na equação (3. Substituindo o último resultado em (3. esses pontos se localizam em posições diametricamente opostas e. r R2 − r 2 (3. essa solução não é válida para o caso no qual R < r. temos que a energia da configuração será: 4π 2 Jκ′2 Eθ = √ . temos um vórtice numa esfera de raio r. efetivamente. se começarmos a analisar o ring torus (R > r). Um outro caso interessante é aquele no qual R = 0. No limite R = 0. Obviamente uma simples análise dimensional mostra que que esse parâmetro deve ter dimensão de distância.

64). no qual a energia decrescia com o tamanho do toro. Devemos lembrar ainda que uma solução idêntica a essa foi encontrada em5 (3. vê-se facilmente que a energia da configuração assim definida diverge com o tamanho do toro.46) é dada por:   R+r tan( θ ) arctan √R2 −r22 √ Θ(θ) = 2QS1 + θ0 R2 − r 2 51 .33) e da equação (2. efetivamente. por definição. tornando a solução aqui descrita topologicamente estável. Podemos concluir então que a solução encontrada em (3. associado a uma carga topológica não inviabiliza a existência de tal característica associada à solução (3. como veremos adiante. ∂θ Φdθ = √ 2π C R2 − r 2 (3.12). Um outro ponto interessante a se notar é o fato de que existe uma relação específica entre R e r na qual a energia das duas simetrias aqui discutidas (Φ = Φ(φ) e Φ = Φ(θ)) se tornam iguais (para κ = κθ ).46). Substituindo este último resultado em (3.65). temos que: I 1 κ′ κθ = . temos que κθ tem as propriedades exigidas para que ela seja considerada uma carga topológica. em torno da superfície do toro. temos que a energia da configuração será dada por: √ R2 − r 2 Eθ = 4π 2 Jκ2θ . r (3. r). Dessa forma.64).66) onde κθ representa um número inteiro. Pode-se observar ainda que no limite R → r. garantindo assim sua estabilidade. Entretanto. o fato desse parâmetro não estar. κ′ é função de R e r.67) Analisando a última expressão. de forma que efetivamente obtemos o estado fundamental ferromagnético.topológica da solução. Tal relação é: √ R = r 2. de forma que os argumentos 5 A equação (3.64) apresenta uma carga topológica κθ . a energia da excitação no toro se anula. Esse fato torna-se ainda mais interessante quando lembramos que a mesma expressão possibilitava que as duas soluções estudadas para a energia das excitações no modelo isotrópico (em coordenadas peripolares) fossem iguais. Pode-se notar então um comportamento inverso ao observado na análise da expressão (3.59). ou seja. Partindo da definição (3. Isto é facilmente explicado pelo fato de que nesse limite (R → ∞) existem “infinitos” vórtices (um para cada valor de φ) que obedecem à equação (3. κ′ = κ′ (R. Além disso.

3. os resultados dados pelas equações (3. Nanomagnetos com topologia toroidal têm sido estudados tanto teoricamente (cálculos analíticos e simulação computacional) quanto experimentalmente. Apesar da simplicidade do modelo utilizado. 52 . tais excitações podem ser importantes na aplicação em armazenamento de dados.4 aparece como o estado de menor energia e tal excitação pode ser usada para o armazenamento de informação [62.utilizados aqui são válidos para esclarecer o comportamento de tal solução. 63].57) tornam-se importantes por ter estabilidade topológica. a configuração tipo vórtice mostrada na Fig. Em tais estruturas.52) e (3. o que pode ser útil para o entendimento das propriedades magnéticas dos nanorings. Logo. Dessa forma. As soluções apresentadas neste trabalho também são discutidas num artigo submetido à Physical Review B [61]. o presente trabalho vai servir como ponto de partida para um estudo mais detalhado de excitações tipo vórtice no toro.

se anulando no limite em que o toro se torna o cilindro infinito. a obstrução topológica natural do toro se reduz a um ponto. a qual decresce com o tamanho do suporte. de fato. Para evitar divergências espúrias na energia do vórtice. Além dessa solução. Nesse caso. geometricamente igual ao cilindro infinito. entretanto. analogamente ao caso que acontece no plano punturado. Além desse caso. O valor da energia dessa solução cresce com o tamanho do suporte. Tal divergência decorre do fato de que nesse limite.Capítulo 4 Conclusões gerais e perspectivas Estudamos o modelo de Heisenberg para spins clássicos na superfície do toro e vimos que. tendo um valor limite quando o toro se torna. obtemos duas soluções que se caracterizam pelo mapeamento do círculo do espaço de spins num círculo no espaço físico. Tais excitações têm a mesma energia. para o caso do horn torus. no cone truncado e na pseudo-esfera punturada. o que garante a sua estabilidade topológica. o que regulariza sua energia. apesar de suportar soluções solitônicas fracionárias em sua superfície. a energia é interpolada entre 0 e 8πJ. O regime XY foi utilizado para encontrar soluções tipo vórtice em tal superfície e. Vimos ainda que o self-intersecting spindle torus aceita soluções tipo vórtice. tais excitações não são estáveis para o caso do horn torus. Uma outra característica importante de tais excitções reside no fato de que. podemos simplemente introduzir um buraco de tamanho l0 . no caso do ring torus. contudo o comportamento de sua energia. tais excitações apresentam dois caroços singulares. de forma que o genus do toro se torna uma obstrução topológica de suma importância para a estabilidade de excitações não-lineares nesse suporte. os quais precisam ser removidos pela introdução de dois cutoffs para a regularização da energia. vimos que o modelo isotrópico pode levar a outras soluções solitônicas fracionárias. mas não indefinidamente. a energia diverge (simetria esférica). é inverso ao que foi 53 . outras soluções tipo vórtice são possíveis.

os resultados discutidos aqui estão presentes num artigo submetido à Physical Review B [61]. para que as aproximações de spins clássicos sejam válidas. 38. isto é.observado quando estamos trabalhando com a simetria esférica. por exemplo). 54 . 3. Aí. aumenta com o tamanho do toro. Apesar de ser uma aproximação. 51. o estudo de superfícies toroidais ainda tem muito a oferecer para o entendimento de fenômenos físicos sensíveis à geometria e topologia tanto das soluções quanto dos espaços nos quais elas são definidas. parece-nos que no caso de tal perfil. de forma que uma possível configuração que minimiza a energia total seja aquela de um vórtice distribuído por todo o magneto. Como citado anteriormente. a energia magnetostática anula-se. 48. sendo localmente normal à superfície (análogo àquele apresentado na Fig. um nanomagneto com geometria toroidal (ring torus. Preliminarmente. 65. Dessa forma. além da energia de troca (aqui considerada) devemos acrescentar também o termo magnetostático. o modelo utilizado aqui tem a propriedade de fazer previsões muito próximas tanto dos resultados experimentais obtidos quanto daqueles obtidos via simulação computacional (boas concordâncias já são observadas em sistemas magnéticos com spin & 5/2). Como nesse caso. nossos resultados podem ser úteis para um estudo mais detalhado do comportamento magnético de nanotoros. Dessa forma. pretendemos analisar. Os resultados apresentados aqui podem ser relevantes em estruturas ferromagnéticas. advindo de cargas magnéticas superficiais e volumétricas associadas à distribuição da magnetização. 64. deixando-nos apenas o termo de troca. o vórtice não apresenta caroço e a energia é regular em todo o magneto.4). um estudo da minimização da energia total (troca + magnetostática) será de suma importância para decidirmos se e como aparece magnetização com perfil de vórtice em tais sistemas. nas quais as componentes do material possuam spins suficientemente grandes. 66]. 49. Nesse contexto. Além disso. estruturas com topologia toroidal são abundantes na natureza e diversas têm sido as publicações referentes a tal geometria nas mais diversas áreas [12. Neste caso. em futuro próximo.

z z z z z Siz (Si+1 + Si+2 + Si−1 + Si−2 )]. Essa Hamiltoniana pode ainda ser escrita como (fazendo J = J ′ /2): X X α α α α Hlatt = −J[ Siα (Si+1 + Si+2 + Si−1 + Si−2 )+ i +λ X α=x..j> ~i é o operador que atua no sítio i da rede que interage com os sítios i + 1.2.. como uma boa aproximação.. S i − 1 e i − 2 (ver Figura A.. ∂y 2 ∂y 2 (A.Apêndice A Aproximação contínua do modelo de Heisenberg Neste apêndice obteremos a equação (2.. até segunda ordem: α Si+1 ≃ Siα + a ∂Siα a2 ∂ 2 Siα + + . i + 2.1) <i..5) 55 .j = −J ′ X (Six Sjx + Siy Sjy + (1 + λ)Siz Sjz ).j> Hi.4) α Si+2 ≃ Siα + a ∂Siα a2 ∂ 2 Siα + + .y. Como foi visto na seção 2. (A. Aqui.3) α Si−1 ≃ Siα − a ∂Siα a2 ∂ 2 Siα + − . que é a expressão para o limite contínuo do modelo de Heisenberg anisotrópico. ∂x 2 ∂x2 (A.. numa rede bidimensional.2) i Mas..1).4). podemos expandir as componentes de spin numa série de Taylor.. a Hamiltoniana de Heisenberg para interação entre primeiros vizinhos. ∂x 2 ∂x2 (A. é dada por: Hlatt = −J ′ X <i. (A.

7) 2 2 ∂x ∂y i R R dxdy Em seguida.1: Rede quadrada de spins indicando os quatro sítios que interagem com o sítio genérico i.z i  2 z  X  ∂ Si ∂ 2 Siz z z 2 − Jλ Si 4Si + a + . ∂x2 ∂y 2 X Z Z α  (A.. (A. devendo ser subtraídas da Hamiltoniana original. temos que: a2 # " Z Z ~2 Z Z 4JλS z 2 4J S Hlatt = − 2 dxdy − dxdy a a2 X X Siα  ∂2S α ∂2S α −J S + dxdy ∂x2 ∂y 2 α=x. ∂y 2 ∂y 2 (A.2) poderá ser escrita como:    2 α ∂ 2 Siα ∂ Si α 2 + Hlatt ≃ −J 4Si + a 2 ∂x ∂y 2 α=x. a Hamiltoniana (A.y  2 z  Z Z ∂2S z z ∂ S − J(1 + λ) S + dxdy..6) onde a é o espaçamento de rede. substituindo o somatório em i pela integral dupla . α Si−2 ≃ Siα − a ∂Siα a2 ∂ 2 Siα + − .Figura A.y. onde o tamanho do sistema tende ao infinito. Assim. obtemos: 56 . as integrais entre colchetes divergem. Dessa forma.8) No limite termodinâmico..

b=1  ∂S a ∂xi  ∂S b ∂xj  dxdy.10) ∂x ∂y α=x. ∂x2 ∂y 2 X Z Z α  (A. chegamos à seguinte expressão: " 2  α 2 # Z Z X ∂S α ∂S Hlatt = J (1 + δα3 λ) + dxdy. A transformação do elemento de superfície de coordenadas cartesianas para um sistema qualquer é dada por [55]: . caso contrário. será dado por hab = δab . (A. ∂2S α ∂2S α + dxdy Hlatt = −J S ∂x2 ∂y 2 α=x. (A. o qual.j=1 a.y  2 z  Z Z ∂2S z z ∂ S − J(1 + λ) S + dxdy. no caso de parametrizarmos os spins em coordenadas cartesianas.9) Integrando por partes os termos que sobraram.11) onde δij assume o valor 1 se i = j e 0.z que pode ainda ser reescrita como: Hlatt = J Z Z X 2 X 3 δij hab (1 + δa3 λ) i. hab o elemento da métrica do espaço de spins.y.

.

.

dxdy = .

.

∂x ∂η1 ∂y ∂η1 ∂x ∂η2 ∂y ∂η2 .

.

.

.

dη1 dη2 . .

j=1 a.10) numa superfície arbitrária qualquer.b=1  ∂S a ∂xi  ∂S b ∂xj  .12) então. (A. Temos então que: Hlatt = J Z Z X 2 X 3 δ ij hab (1 + δa3 λ) i. essa transformação pode ser usada para escrever a Hamiltoniana (A.

.

.

.

.

∂x ∂η1 ∂y ∂η1 ∂x ∂η2 ∂y ∂η2 .

.

.

.

dη1 dη2 .13) . (A.

a última expressão será escrita como: H1 = J Z Z X 2 X 3 ∂S a g hab (1 + δa3 λ) ∂ηi i.b=1  ij  . No caso de trabalharmos numa superfície arbitrária qualquer.j=1 a. com os elementos da métrica dados por g ij . O termo δ ij conta para o elemento da métrica no espaço parametrizado em coordenadas cartesianas.

.

.

4). Aqui. que é a expressão dada em (2. definimos .

.

57  ∂S b p |g|dη1 dη2 . ∂ηj ∂x ∂η1 ∂y ∂η1 ∂x ∂η2 ∂y ∂η2 .

.

p .

.

. ≡ |g|.

(A.14) .

precisamos testar a validade da Hamiltoniana na forma como ela foi escrita na seção 2. isto é. tem-se que hab = δab . parametrizando S ~ Tomando agora a representação de S ~ = (senΘ cos Φ. (B. φ). temos que: (gij ) = " 1 0 0 r2 # ⇒ (g ij ) = " 1 0 0 1 r2 # (B. logo. obtemos: na forma S  2  2 # Z Z ( " ∂Θ ∂Φ H=J r (1 + λsen2 Θ) + + ∂r ∂r "  2  2 #) 1 ∂Θ ∂Φ (1 + λsen2 Θ) + .4) será escrita como:  z 2 # Z Z ( " x 2  y 2 ∂S ∂S ∂S + + + (1 + λ) H=J r ∂r ∂r ∂r 1 + r " ∂S x ∂φ 2 +  ∂S y ∂φ 2 + (1 + λ)  ∂S z ∂φ 2 #) drdφ.2) ~ em termos de Θ e Φ. r ∂φ ∂φ 58 (B.3) . cos Θ).Apêndice B Limite contínuo da Hamiltoniana de Heisenberg no plano Como foi dito.2 Descrevendo o plano em coordenadas polares (r. senΘsenΦ. a Hamiltoniana (2.1) Tomando o espaço de spins parametrizado em coordenadas cartesianas.

O resultado acima está de acordo com o que foi discutido na seção 1. logo.1.Com um pouco de manipulação. a onde L é a distância medida do centro do vórtice até um dado ponto no plano. e a é o raio do núcleo do vórtice. que é dada por1 : Evórtice   L ∝ 2πJ ln . 1 As contas necessárias para se chegar a esse resultado são semelhantes às que foram desenvolvidas para o caso toro. pode-se determinar a energia de um vórtice no plano. 59 .2.4) foi escrita está correta. podemos concluir que a forma como a equação (2.

Apêndice C Fenômenos magnéticos Nesta seção iniciaremos uma discussão mais detalhada acerca dos fenômenos magnéticos na matéria. haverá uma variação na velocidade orbital do elétron.1) onde R denota o raio da órbita do elétron. Se um campo magnético externo for aplicado. discutiremos o diamagnetismo. C.1 Diamagnetismo A origem do diamagnetismo pode ser explicada a partir do teorema de Larmor. o paramagnetismo e o ferromagnetismo. 2πR (C. o movimento de giro dos elétrons em torno do núcleo atômico. ele fornece a idéia básica acerca de como o diamagnetismo se processa [67].1 mostra o comportamento de um material dia~) e a magnético na presença de um campo magnético aplicado. Essa corrente gera um momento de dipolo m. Apesar de ser um modelo clássico. Em particular.2) onde ~µ aponta na direção do eixo z. Dado que um elétron tem uma velocidade v e percorre sua órbita num período T . mas no sentido negativo do eixo. de forma que o momento de dipolo orbital também irá variar. ao aparecimento de um momento magnético atômico. ~ que pode ser facilmente calculado ~=− ~µ = I A ev evR ˆ πR2 kˆ = − k. 2πR 2 (C. A magnetização (M 60 . que associa o momento angular orbital dos elétrons. ou seja. mas no sentido oposto ao do campo aplicado. a corrente eletrônica associada é dada por: I= ev . A Figura C.

4) onde E0 (H) é a energia do estado fundamental na presença do campo H. T ) = P Mn (H)e−En/kB T nP −En /kB T ne 61 . quântico. 4me i (C.3). Da expressão (C.~ Figura C. H. pode-se notar uma suscetibilidade negativa de um material diamagnético. suscetibilidade magnética (χ) do material serão. na verdade.3) onde cos θi aparece para dar conta da orientação da órbita com relação ao campo externo e N é o número de moléculas por unidade de volume.5) .1: Material diamagnético na presença de um campo externo. temos que a magnetização de um sistema quântico de volume V em um campo magnético H é definido como: M(H) ≡ − 1 ∂E0 (H) . Se o sistema está em equilíbrio térmico a uma temperatura T . a magnetização pode ser definida como a média da densidade de magnetização de cada estado excitado de energia En (H): M(H. V ∂H (C. No entanto. essa expressão é apenas uma aproximação clássica para um problema que é. (C. Tratando o problema com o formalismo quântico. respectivamente [67]: 2 ~ = − Ne µ0 H ~ M 4me χµ = − X Ri2 cos2 θi i Ne2 µ0 X 2 Ri cos2 θi .

62 . não é perfeita. já que os momentos de dipolos intrínsecos dos elétrons podem se orientar no sentido do campo magnético externo aplicado. Esta orientação. Comparando os valores de suscetibilidades magnéticas pelo formalismo quântico com os resultados clássicos. N é o número de moléculas e h0| 2 i ri |0i P (C. o paramagnetismo ocorre normalmente em átomos ou moléculas com um número ímpar de elétrons. Esta equação é conhecida como a suscetibilidade magnética de Larmor e descreve a resposta magnética de alguns sólidos tais como NcCl.8) é o valor médio da soma dos quadrados dos raios das órbitas eletrônicas em torno dos núcleos nos íons.6) A suscetibilidade magnética é definida como χ≡ ∂M . muito pequenos quando comparados com o campo externo. sendo da ordem de 10−5 . o paramagnetismo é caracterizado por uma resposta linear a um campo magnético aplicado. pode ocorrer o aparecimento do paramagnetismo. Então. vemos que os últimos são uma boa aproximação para os cálculos de suscetibilidades de materiais diamagnéticos. que afirma que elétrons num dado átomo aparecem em pares com spins opostos. em geral.2 Paramagnetismo Quando temos um meio magnético cujos átomos possuem elétrons desempar- elhados1 . em geral. C. uma vez que ela sofre a influência da temperatura do sistema. que tende a destruir o alinhamento. As suscetibilidades magnéticas de materiais diamagnéticos são. Materiais paramagnéticos não apresentam uma magnetização espontânea porque colisões térmicas tendem a desalinhar a ordem. tornando os 1 A exigência desse desemparelhamento é devido ao Princípio da Exclusão de Pauli. o que neutraliza o momento magnético total do material. ∂H (C.7) Com uma série de cálculos simples podemos encontrar a suscetibilidade de um material diamagnético [68]: χ=− X e2 N h0| ri2 |0i.onde Mn (H) = − 1 ∂E0 (H) . 6mc2 V i Aqui. V ∂H (C. Do ponto de vista macroscópico. LiF e dos gases nobres. KBr.

A energia de 63 . um momento de dipolo magnético.Figura C. podese ver a diferença entre o comportamento de um material paramagnético na ausência e na presença de um campo magnético externo. Uma possível interpretação seria considerar o elétron como uma esfera que gira em torno de si mesma. Entretanto. pois o elétron é descrito. o raio clássico do elétron. a velocidade de giro do elétron sobre seu próprio eixo pode ser estimada em 6 · 1010 m/s [69]. e o mesmo material na presença de um campo externo H direita). supondo que o elétron seja uma esfera de 3 × 10−15 m (este valor é. aqui aparece uma diferença importante. violando etão um dos princípios da relatividade especial: v = c é a velocidade limite de propagação. e imaginá-lo como uma esfera é uma descrição pictórica. onde me é a massa do elétron. Uma análise clássica para o paramagnetismo pode ser feita a partir de uma análise estatística no Formalismo Canônico da Mecânica Estatística. o qual é dado por re = e2 /4πε0 me c2 . Essa grandeza não pode ser explicada em termos clássicos. entretanto. consequentemente. em termos de probabilidades. já que os momentos de dipolo magnético possuem valores discretos e bem definidos denominados spins. Assim como no caso diamagnético. Além disso. momentos magnéticos atômicos distribuídos aleatoriamente [70]. pode-se fazer uma aproximação clássica para o estudo do paramagnetismo. aproximadamente. de modo que a carga do elétron gera uma corrente elétrica e. não se deve levar essa visualização ao pé da letra. ε0 é a permissividade elétrica do vácuo e c é a velocidade da luz no vácuo).2: Representação de um material paramagnético na ausência de um campo ~ (à externo (à esquerda).2. quanticamente. Na Figura C.

Dessa forma. tem-se que a suscetibilidade magnética é dada. Os cálculos clássico e quântico para a suscetibilidade paramagnética podem ser encontradas de forma clara e concisa nas referências [5. torna-se (C. por: χquant = Ng 2 µ0 µ2B J(J + 1) 3kB T (C. O motivo para isso é que quando J → ∞. É interessante notar que o caso clássico corresponde a tomarmos J → ∞ e concomitantemente µB → 0.interação relevante no caso dos dipolos magnéticos intrínsecos é dada pela expressão ~ U = −~µ · B (C. ou seja. encontramos a suscetibilidade µ0 H magnética clássica [67]: χcl = Nµµ2 . dada por Υ = ge . quanticamente. −J + 1. permite-se que o momento de dipolo magnético aponte em qualquer direção espacial..10). como já foi dito. relacionado à indução magnética por B ~m = onde H ~ m . sendo m um número inteiro que só pode assumir os valores m = −J.9) que. A análise quântica do problema também pode ser dada a partir do formalismo canônico da Mecânica Estatística. aproximadamente. 3kB T (C.11) É importante notar que a suscetibilidade depende da temperatura de uma forma conhecida como lei de Curie.. A partir da análise estatística do problema. no entanto. Essa expressão é válida. Tomando então a expressão (C. ~ onde a componente Jz segue a regra de quantização dada por Jz = m~. que é o que ocorre quando fazemos uma aproximação clássica. J − 1.12) sendo g o fator de Landé. 68]. para o caso de um dipolo magnético elementar. os valores dos momentos de dipolo magnético devem ser relacionados ao seu momento angular ℓ através da relação ~µ = Υ~ℓ ondeΥ é a razão giromagnética.13) que também segue a lei de Curie do tipo inverso da temperatura. pode-se determinar a componente do momento de dipolo magnético na direção do campo magnético µz = gµB Jz .10) E = Um = −µ0 µHm cos θ ~ m é o campo auxiliar molecular. 2m (C. 67. quando a temperatura não é muito baixa. 64 .. J. a temperatura tende a desalinhar a ordem do sistema. de forma que µ2B J(J + 1) permaneça finito.

.. então. a(ν) i. |a(µ) . Como consequência 65 . |j (ν) .. O nome dado a essa propriedade é histerese magnética. Considere os elementos do espaço de Hilbert.14) Seja P(µν) o operador que representa a permutação das partículas µ e ν. k (µ) i = eiα P(µν) |j (µ) . k (ν) i. Tal retenção está intimamente ligada ao comportamento não-linear da magnetização com o campo externo nesses materiais. e quando o campo externo é desligado. |b(µ) . k (ν) i (C. que retêm magnetização residual mesmo quando o campo externo é retirado.15) pode ser escrita como P(µν) |j (µ) . .. j (ν) i. isto é. a(ν) i.3 Ferromagnetismo É nos materiais ferromagnéticos que o fenômeno do magnetismo se apresenta mais nitidamente. Aplicado o operador P (µν) novamente.. escritos sucintamente como: |a(µ) . que apresentam uma magnetização que se comporta de forma praticamente linear com o campo externo. para campos fracos e moderados. k (ν) i (C. k (ν) i (C. k (ν) i por um fator de fase. pois são esses materiais que apresentam a propriedade de serem fortemente atraídos por um ímã. |k (µ) . Hµ ⊗ Hν . A natureza do ferromagnetismo não pode ser explicada classicamente.18) ou seja. k (µ) i = eiα |j (µ) . para duas partículas. k (ν) i = e2iα |j (µ) . P(µν) |j (µ) . |j (µ) . (C. k (µ) i (C. o vetor de estado para ter significado físico tem de ser simétrico ou antisimétrico com relação à permutação de partículas indistinguíveis. temos P(µν) |j (ν) . é interessante uma breve revisão de alguns conceitos quânticos. Existem dois tipos de materiais ferromagnéticos: os doces.C. Para entender o ferromagnetismo. k (ν) i = ±|j (µ) . . Então (C. por razões físicas (Condição de normalização da função de onda). só pode diferir de |j (µ) . b(ν) i. k (ν) i = |j (ν) . a magnetização também se anula. os duros. pois sua origem é de natureza puramente quântica.15) e o segundo membro.17) o que resulta em e2iα = 1 ⇒ eiα = ±1.16) onde α é uma constante real.

Este é o Princípio de Exclusão de Pauli. por exemplo. k (µ) i) 2 1 |j (µ) . logo. que existem entre os elétrons do material [67]. então cada estado só poderá ser ocupado por no máximo uma partícula. e não podem ocupar o mesmo orbital. Assim. Essas regiões contêm milhões ou mesmo bilhões de spins orientados numa certa direção. k (ν) iA = √ (|j (µ) . o que faz com que a magnetização macroscópica seja muito pequena. No entanto. o mecanismo responsável pelo aparecimento do ferromagnetismo são as fortes interaçoes eletrostáticas de origem quântica. No caso do ferro. chamadas interações de troca. Esse favorecimento da situação em que os spins estão alinhados produz no material o aparecimento de regiões chamadas de domínios magnéticos.18) a base do espaço de Hilbert para partículas indistinguíveis tem de ser formada por vetores simétricos ou vetores anti-simétricos. Como o elétron é descrito por vetores anti-simétricos. k (µ) i) 2 (C. k (ν) i + |j (ν) . Portanto. ou até mesmo nula antes de um campo magnético ser aplicado no material. mas esse princípio não se aplica a sistemas de partículas indistinguíveis descritos por vetores de estado simétricos. pois se o sistema de partículas for descrito por vetores de estado anti-simétricos. de modo que os momentos magnéticos gerem uma magnetização não nula. quando seus elétrons da camada de valância têm spins paralelos. de modo que existe um momento magnético resultante. k (ν) iS = √ (|j (µ) . eles não podem estar muito próximos um do outro. Na Figura C. a interação coulombiana entre dois elétrons "prefere"configurações que privilegiam distâncias maiores entre os elétrons. Essas expressões têm consequências diferentes. considerando dois átomos vizinhos. Para compreender o formalismo do comportamento de um sistema com N partículas.19) são os vetores anti-simétrico e simétrico. a orientação dos domínios dentro do material é aleatória. se os spins forem antiparalelos. Por outro lado. remetemos o leitor à referência [71].3 está representada uma região de um material ferromagnético e alguns 66 . dois elétrons não podem ocupar o mesmo estado quântico.de (C. eles obedecem ao Princípio de Exclusão de Pauli. o que corresponde a termos momentos magnéticos de spin paralelos entre si. que podem ser construídos com os vetores de estado dados em (C. respectivamente. temos que: 1 |j (µ) .14). no entanto. dois elétrons na camada 3d tendem a ficar mais afastados se seus spins forem paralelos. Então. eles podem ocupar o mesmo orbital. k (ν) i − |j (ν) .

incorporando spins dos domínios adjacentes. domínios. O primeiro modelo teórico para explicar a 67 . passando a se comportar como um material paramagnético.3: Representação de um cristal com magnetização resultante nula. embora cada domínio esteja magnetizado. É importante notar que a temperatura do sistema influecia essa orientação. conhecidas como paredes de domínios. A descrição quantitativa do ferromagnetismo é mais complexa do que aquelas para os materiais diamagnéticos e paramagnéticos. denominada temperatura de Curie. Quando um campo magnético externo é aplicado. pois ela pode depender do material específico e do modo como foi produzido. que depende do campo aplicado. e as interações entre os dipolos nessas regiões são menores. Já nas froteiras entre os domínios. tais como impurezas e tensões. os dipolos intrínsecos dos elétrons tendem a orientá-los na direção e sentido do campo. Isso faz com que o material adquira uma magnetização apreciável. cuja orientação é desfavorável. os dipolos vizinhos não estão necessariamente paralelos. No entanto.Figura C. o que faz com que os domínios orientados na direção e sentido do campo cresçam. tornando-a mais aleatória com o aumento da temperatura. os ferromagnetos sofrem uma transição de fase. até que se atinja um certo valor máximo. nas regiões internas dos domínios as interações quânticas entre os dipolos são muito fortes e é muito difícil girar esses dipolos. os limites das paredes de domínio não retornam todos à sua posição de origem. O efeito de histerese está relacionado ao fato de que quando o campo magnético externo é retirado. É por isso que nem todo pedaço de ferro é um ímã. A uma temperatura crítica. o que permite que eles possam sofrer alterações em seu alinhamento. o que pode ser ocasionado por imperfeições na rede cristalina. mas pode vir a sê-lo se um campo magnético for aplicado. chamado de magnetização de saturação.

o modelo clássico de Weiss reproduz. Quantitativamente. teremos os casos ferrimagnético ou antiferromagnético. 68 . temos o caso do ferromagnetismo. e está relacionada com a diferença entre as energias eletrostáticas de dois elétrons na situação de spins paralelos e antiparalelos. que já foi discutido na seção 2.20). Atualmente. Retirado de http://www. que quando T → TC . com o advento da Mecânica Estatística Quântica. existem modelos teóricos que tentam descrever o ferromagnetismo e as transições de fase apresentadas por determinados materiais. A suscetibilidade magnética de materais ferromagnéticos acima da temperatura de Curie.htm magnetização foi proposto por Pierre Weiss. esses modelos tentam fazer uma aproximação do campo molecular de Weiss. fenômenos associados ao ferromagnetismo. o leitor é remetido às referências [4. o qual supunha que cada dipolo magnético de uma rede sofre a ação de um campo efetivo criado pelos dipolos vizinhos.4: Representação dos arranjos espaciais dos spins atômicos nos casos: ferromagnético. no início do século XX. em certos regimes.geocities. Caso contrário. à esquerda. e isso corresponde ao material passar da fase paramagnética para a ferromagnética.20) onde TC é a temperatura de Curie. N é o número de átomos ou moléculas e kB a constante de Boltzman.com/castanhola2000/figura. no modelo de Weiss é dada por: χ= 1 Ng 2 µ0 µ2B S(S + 1) 3 kB (T − TC ) (C. e ferrimagnético. Vê-se assim. à direita. Em geral.2 . Entretanto. antiferromagnético. Para maiores detalhes do cálculo da equação (C. Um dos modelos mais famosos e que é base dos modelos de magnetismo nos sólidos é descrito pelo Hamiltoniano de Heisenberg [4]. no centro.Figura C. S é o número quântico relacionado ao momento de dipolo intrínseco do elétron. a suscetibilidade diverge. 67]. Quando o estado de menor energia corresponde a spins paralelos. a origem do campo molecular só foi compreendida anos mais tarde.

Para o leitor interessado.Os casos ferrimagnéticos e antiferromagnéticos também podem ser explicados. 69 . há uma magnetização residual. A temperatura na qual um material antiferromagnético se torna paramagnético. nesses dois casos.4 trás a representação de diferentes tipos de arranjos de spins atômicos originados da interação de troca. nos materiais antiferromagnéticos. é chamada temperatura de Néel. apesar de os spins de elétrons adjacentes se orientarem antiparalelamente. uma vez eles possuem magnitudes diferentes. A Figura C. 69] nas quais os autores estão mais interessados nos conceitos e aplicações do comportamento magnético de materiais do que no desenvolvimento das equações relacionadas aos fenômenos aqui discutidos. não existe magnetização espontânea. os spins dos elétrons dos átomos vizinhos tendem a se orientar antiparalelamente de forma que. pela teoria de Weiss. uma explicação sucinta e com pouco formalismo matemático sobre o magnetismo é feita nas referências [1. No entanto. No caso dos materiais ferrimagnéticos. numa primeira aproximação.

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