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Centro Universitário de Belo Horizonte

Política Internacional Contemporânea | Marinana Andrade
Mariana Oliveira | 4A | Noite
BLAKELEY, Ruth. Why Torture? Cambridge University Press. Review of
International Studies, Vol. 33, No. 3 (Julho 2007), p. 373-394.
O objetivo do artigo de Blakeley é explicar as justificativas dos Estados
liberais e autoritários para o uso da tortura, questionando se há e quais são as
diferenças entre estes Estados. Ao fim, Blakeley procura justificar, por que a
tortura não é uma ferramenta viável na obtenção de informações.
Primeiramente é preciso desmistificar que Estados liberais não se
utilizam da tortura, a realidade é que eles se utilizam de redes transnacionais
de terror a favor de seus próprios interesses elitistas, em colaboração com as
elites dos Estados autoritários. Nestes casos a tortura não é favor da
segurança e sim para evitar oposições politicas que podem afetar os interesses
das elites transnacionais. Considerando estes fatores a autora levanta alguns
questionamentos como o porquê da tortura ser por vezes considerada efetiva.
A maior justificativa daqueles que defendem o uso da tortura, é por que
tal ferramenta pode ajudar na obtenção de informações. Deste modo, eles
justificam que a vítima irá responder a tais ações por que eles preferem falar a
continuar sofrendo. Outra justificativa é de que a tortura instiga o medo e esta é
a principal justificativa dos Estados autoritários, que querem assegurar que não
haverá nenhum tipo de oposição ao seu governo.
Diante destes cenários, os Estados liberais decidem quando a tortura é
legitima ou não, dependendo de seus interesses. Normalmente a tortura pode
ser utilizada quando o Estado chega a conclusão que determinado ator está
ameaçando seus preceitos liberais.
A autora traça três modelos em que a tortura é utilizada: o de segurança,
de estabilidade e de legitimidade. Em cada um deles é destrinchado quem usa
desse tipo de tortura e se ela é realmente efetiva.
O MODELO DE SEGURANÇA
A tortura no modelo de segurança é "defendida" pelos Estados que a
praticam, como um meio de obter "inteligência" (informações referentes a
segurança) para derrotar ameaças. Este modelo vê a tortura como “uma
ferramenta que incrementa a segurança contra ameaças” (Blakeley, 2007, p. 7
tradução livre). O argumento aqui é aquele da bomba-relógio: se a tortura não

para instigar o medo nos outros. mostrada pelo próprio Estado. Justificar o uso da tortura por razões de segurança não é comprovadamente eficaz. na verdade é mais provável que a vítima dê informações falsas para dar fim a tortura do que ao contrário. milhares de pessoas podem morrer. por parte daqueles que defendem este modelo que a tortura é efetiva. que possam ser utilizados como exemplo. Neste cenário a probabilidade é que a tortura não é contida a grupos e indivíduos e acaba perdendo o controle. Começam com a família e pessoas próximas. mas que é financiada por elites liberais externas. O MODELO DE ESTABILIDADE O modelo de estabilidade explica a tortura quando ela é utilizada em Estados autoritários. dessa forma não é possível nem mesmo estabelecer se o individuo é inocente ou não. sindicatos e grupos que reclamam suas liberdades. por que aqueles que usam da tortura para conter as força oposicionistas falham em achar seus inimigos e não conseguem nem mesmo distinguir entre quem é inocente ou não. A oposição aqui pode ser movimentos revolucionários. pois há uma diferença entre a possibilidade e a real efetividade dessa ferramenta. O objetivo é instigar o medo. a fim de deter uma possível oposição política presente na população. mas acaba espiralando para indivíduos que tiveram contatos completamente superficiais. Neste caso a tortura é pública. por meio de sua mídia. por conseguinte muitas informações obtidas são falsas. Esse tipo de discurso foi muito utilizado na Guerra ao Terror. É incontestável. Neste modelo a tortura é uma ferramenta utilizada com o fim de disciplinar e suprimir uma população com potencial para oposição aos interesses das elites.for utilizada contra um possível terrorista. Há também o . Isso acontece. Além de não ser comprovada como ferramenta bem sucedida a tortura não pode tão pouco ser considera o único meio para obter informações relativas à ameaça de segurança. entretanto não há provas de que a tortura é realmente efetiva. É preciso considerar que muitas vezes o individuo acusado de terrorismo admite culpa por que já não aguentava mais as torturas. Inicialmente a tortura é aplicada a indivíduos específicos. partidos opositores. para justificar os atos de tortura por parte dos EUA.

Mas por outro lado. A conclusão é que alguns modelos acabam obtendo seu objetivo através da tortura. entretanto em nenhum dos modelos a tortura é realmente necessária. O direito a tortura é reclamado na tentativa de assegurar e concertar as identidades. porém estes mesmos estados apoiam a tortura em Estados do sul. pensando em seus interesses. Quando a tortura chega a esse ponto é comum acontecer mortes e detenções em massa. O senso comum é de que Estados liberais não se utilizam de tortura por razões de estabilidade. Há neste modelo a construção do bem e do mau. as dores físicas e psicológicas infligidas à um ser humano somam um custo muito maior do que os benefícios e os paradoxos que estes modelos apresentam justificam a condenação da tortura como um mecanismo efetivo. A tortura aqui é vista como um meio determinado de assegurar os valores e estilo de vida. tentam garantir o direito a tortura a fim de proteger identidades específicas. Ambas as identidades são construídas por meio do discurso das elites liberais. O medo é maior quando as torturas são acompanhadas de desaparecimentos e mortes. Por um lado a tortura funciona para fins de instigar medo na população e reter uma oposição política. A justificativa é que as elites liberais são os defensores da justiça. Com a tortura indiscriminada os indivíduos evitam qualquer tipo de atividade política com medo de serem associados com aqueles que são politicamente ativos. a tortura leva a uma resistência ainda maior da oposição contra o regime. liberdade e paz e por isso tem a legitimidade para usar da tortura. . conseguindo o apoio de sua população. mas a cumplicidade com a tortura mina a legitimidade internacional do Estado. pois dentro de seu território não é preciso. O MODELO DE LEGITIMIDADE Legitimidade: Neste modelo os Estados liberais. Este modelo é mais comum entre as elites liberais. Esse tipo de cenário foi muito comum na época da Guerra Fria. O discurso funciona dentro dos Estados liberais.problema na interpretação de quem é uma ameaça e com o tempo. todos serão considerados oposição. quando os EUA apoiaram diversas ditaduras no continente latino americano a fim de satisfazer os interesses de suas elites. onde o lado do bem pode usar de tortura para assegurar que o mau não acabe com sua identidade.

e os civis.R. A participação nas forças armadas aumenta a tolerância em relação ao uso de violência. Ademais. and Support for Torture. 501-514. o grupo de veteranos é propenso a apoiar à tortura. Veteranos da guerra do Vietnã. Pois. em ocasião de grande parcela de civis irem contra o uso de métodos coercitivos. entre eles há um temor de que o uso da tortura como um mecanismo de obter informações pode causar uma revolta na população ligada à vítima. International Studies Quarterly. 2014). mas que atualmente não exercem mais este ofício. do que aqueles civis da mesma idade que não participaram da guerra. Eventos assim são mais comuns em países como . 58. é costumeiro que o apoio ao uso da tortura diminua no grupo dos veteranos. O autor dividiu suas amostras de pesquisa em dois grupos: os veteranos. os veteranos serão mais propensos a acreditar que certos grupos são uma ameaça nacional. ou seja. 2014. Contudo. quando contraposto ao grupo de civis e que. há a possibilidade de constrangimento do governo na utilização de tais métodos. International Law. Vol. de acordo com pesquisas anteriores a dele. Portanto os veteranos costuma apoiar meios coercitivos como a tortura (WALLACE. as normas são mais precisas e há a possibilidade de punição por violação da regra. apresentam níveis mais altos de violência e raiva. que procura responder qual o impacto da lei internacional e da experiência militar. Logo no início de seu texto Wallace afirma que. Mesmo após anos do término de seu serviço militar. Todavia. transformando os colegas militares em alvos. os indivíduos que ainda se encontram em exercício militar e presenciaram os horrores das guerras atuais. portanto eles costumam apoiar politicas mais coercitivas e um otimismo de que elas são realmente efetivas. indivíduos que não tiverem nenhum tipo de experiência militar prévia. relutam em apoiar práticas coercitivas como a tortura. À medida que. as leis internacionais relativas ao não uso da tortura em cenários de guerra influenciam mais a opinião civil do que a militar. há algumas divergências dentro de cada um desses grupos. na opinião dos indivíduos em relação à tortura. de acordo com o nível de vínculo do Estado com leis humanitárias contra tortura. indivíduos que já estiveram no serviço militar. Martial Law? Military Experience. O artigo de Wallace é uma pesquisa. Geoffrey P.Centro Universitário de Belo Horizonte Política Internacional Contemporânea | Marinana Andrade Mariana Oliveira | 4A | Noite WALLACE. por exemplo.

os pactos vinculativos costumam ter um impacto maior na população. pois a precisão evita a confusão de qual tipo de comportamento é esperado. o autor entende que “a lei internacional tem a capacidade de alterar a opinião do indivíduo. 2014. p. sendo que o civis são propensos a não apoiarem medidas de violência. 3). mas esse efeito depende tanto dos atributos específicos da lei. A primeira hipótese. precisão e delegação. A precisão é sobre a clareza e falta de ambiguidade em um tratado ao definir seus principais segmentos e expectativas de comportamento. A obrigação refere-se a normas quando elas são vinculativas ou somente princípios voluntários. segundo Wallace (2014). O autor desenvolve essa hipótese considerando um sistema de classificação que foca na legalização de acordos e que é dividido em: obrigação. A Declaração Universal dos Direitos do Homem é um dos primeiros acordos a proibir a tortura. p. mas não é considerada uma norma legal ao contrário do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (PIDCP). A delegação costuma ter mais impacto nas ações individuais. tendo. por causa de suas experiências como indivíduos. uma vez que a delegação é considerada atores como a Corte Internacional de justiça . que têm ligação com normas humanitárias. é preciso cuidado com tal afirmação. Portanto. 2014. Muitas justificativas para violações dos direitos do homem são resultado da ambiguidade das regras do que a própria violação da regra em si. portanto um dever perante a sociedade civil e internacional. Tal constrangimento é observado com os veteranos que possuem em si um código de conduta que é enfatiza a disciplina. Alguns pactos trazem mais constrangimento do que outros. pois as regras e normas internacionais podem ter pouco efeito na massa da população que tem carência de referências políticas consistentes. é que a opinião entre veteranos e civis diverge. quanto da natureza da audiência” (WALLACE. O que leva à segunda hipótese que diz: “a lei internacional deveria diferenciar a opinião sobre a tortura entre civis e veteranos” (WALLACE. À vista disso o autor traça três hipóteses. É necessário um delineamento preciso do que é tortura.os EUA. a obediência e o cumprimento de ordens bem delineadas. devido suas obrigações formais. No entanto. Veteranos são especialmente afetados pelo nível de precisão de uma lei do que pelos valores gerais internacionais. 2 tradução livre). Destarte. que no caso do PIDCP é mais preciso do que na Declaração.

Isto posto. as características institucionais dos acordos e a forma como estão organizados dentro do âmbito jurídico. dado que os veteranos retiram seu apoio com o aumento do nível. Por meio da pesquisa de Wallace é possível concluir que. . a terceira hipótese é que quando o nível de legalização aumenta a diferença de opinião entre civis e veteranos diminui.que tem o poder de julgar casos que envolvam a violação dos direitos do homem através da tortura. têm a capacidade de formar e reformar as ações individuais para o que deve ou não ser considerado legítimo durante uma guerra.