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Editorial

PENTECOST
ALISMO: A LIBERDADE DO ESPÍRITO
PENTECOSTALISMO

O “pentecostalismo” constitui hoje importante componente do universo
religioso cristão no Brasil. Trata-se de realidade complexa em que se aproximam e interpenetram diversos elementos de expressão religiosa e de fé
tanto de não católicos como de católicos. O contato com diversos dados e
análises a partir de diferentes ângulos – antropológico, sociológico e teológico – proporciona uma visão desse fenômeno e oferece base para adequado posicionamento teológico, ecumênico e eclesial. Esclarecer, enquanto
possível, o significado e o alcance da experiência pentecostal é tanto mais
necessário quanto mais se amplia e se torna mais complexo esse campo.
Sinal de tal complexidade é a distinção que atualmente fazem estudiosos
do assunto diferenciando pentecostalismo e neopentecostalismo. De certa
maneira se reconhece a existência de mais de uma forma de manifestação
religiosa através de grupos que invocam a ação do Espírito Santo. Daí
poder-se falar também no plural, “pentecostalismos”.
Do ponto de vista histórico, o pentecostalismo em nosso País inicia-se no
alvorecer do século XX. Em 1910, chega a São Paulo a primeira Igreja
pentecostal em terras brasileiras. No Bairro do Brás, na capital paulista,
instala-se então a Igreja Congregação Cristã do Brasil, que posteriormente
passou a se chamar Congregação Cristã no Brasil. Realizou essa iniciativa
Luigi Francescon, de origem italiana, mas que procedia dos Estados Unidos da América. Celebramos, portanto, em 2010, o primeiro centenário da
presença pentecostal em nosso País. A segunda Igreja a se estabelecer foi
a Assembleia de Deus, em Belém do Pará, sendo fundada pelos missionários Daniel Berg e Gunnar Vingren, suecos, mas também provenientes dos
EUA. Assim se plantaram as sementes do pentecostalismo em dois locais
que, por coincidência ou não, se tornaram pontos importantes para a sua
difusão, conforme mostram estudos históricos. Observe-se também que
nos dois lugares onde foram fundadas essas Igrejas já havia a presença
protestante. Em São Paulo havia a Igreja Presbiteriana e em Belém, a Igreja
Batista. Desta originou-se a Assembleia de Deus.
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As raízes do pentecostalismo encontram-se no protestantismo. Na verdade, atribui-se sua criação a John Wesley, fundador da Igreja Metodista. No
entanto, concretamente, o ponto de partida do movimento deu-se na Igreja
Metodista da Rua Azzuza, em Los Angeles, EUA. Os frequentadores desse
templo, que eram majoritariamente negros, buscavam a “santificação pelo
Espírito”, recorrendo para tanto a longas orações. Entre eles, um negro e
não um branco apareceu, em dado momento, falando em “línguas estranhas”. Houve então uma divisão entre os evangélicos de raça branca e os
de raça negra. Desde então, os negros já não tinham mais acesso às reuniões e cultos. Ficavam fora do templo e aproveitavam “as migalhas” que
caíam da mesa dos brancos. São literalmente “pro-fanos” em relação aos
que impedem que participem nas liturgias realizadas no interior do templo. Finalmente, os marginalizados começam a realizar os próprios cultos
e a ensinar os irmãos. É-lhes “professor” o próprio Espírito Santo, confirmando-se assim a sua livre ação.
Do ponto de vista da relação com as questões da sociedade, os negros se
situavam no horizonte de busca de libertação da raça. Já os brancos afastavam-se das lutas sociais e se aferravam à experiência religiosa. Os fundadores das duas Igrejas acima mencionadas provinham do grupo dos
brancos.
O fato acima mencionado e outros tantos exemplos de ação do Espírito
Santo nos mostram que o pentecostalismo constitui afirmação histórica da
liberdade do Espírito, que suscita o surgimento de novos discípulos que
agem profeticamente. Caracteriza-se pela efusão do Espírito Santo, por
intermédio do “batismo no Espírito”. Já no Antigo Testamento fora feita a
promessa do derramamento da força de Deus “sobre todos os viventes” e
eles “falarão como profetas”. Até os escravos serão contemplados com o
dom do espírito (cf. Jl 3,1-2). O Novo Testamento relata o envio do Espírito
Santo sobre os discípulos de Jesus: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo
e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia
expressar-se” (At 2,4). O surgimento de comunidades eclesiais pentecostais
nos remete, portanto, ao caráter livre, gratuito e surpreendente da iniciativa de Deus que age por meio de seu Espírito. Fala-nos também o aspecto
missionário e apostólico original do cristianismo, que se revelou no acontecimento de Pentecostes conforme relatam os Atos dos Apóstolos (cf. At
2,1-12). A efusão do Espírito se atualiza ao longo da história, gerando
“novos pentecostes”. O fato pentecostal por excelência, portanto, está na
origem do Cristianismo. Assim como conduziu Jesus em seu ministério
entre nós, o Espírito vai à frente de todo aquele que se torna discípulo de
Jesus, para continuar a missão do Mestre.
Considerando o desenvolvimento desse movimento e as múltiplas práticas
pentecostais efetuadas através das Igrejas, observam-se diferentes fatores
que constituem o “rosto pentecostal”. Ressaltamos primeiramente aspectos
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Mc 2.1-4. mas também a extorquir. At 3. conjugal e angústias diversas. Lc 5. deixando-se de lado a instituição. mas assinala o relacionamento com uma Perspectiva Teológica. A Bíblia é. procuram-se forças para soluções urgentes de problemas pessoais. Neste sentido. Um traço por demais importante é o rigor na exigência do dízimo que os fiéis devem dar. Belo Horizonte. 2005. o que tem gerado dissidências nas Igrejas e consequentemente a sua multiplicação. Se.pmd 7 31/3/2011. de modo que o pastor. Quase sempre os que são atingidos pelas investidas de obreiros de determinadas Igrejas são pessoas pobres e em situação de vulnerabilidade por causas que vão desde desilusões existenciais ao luto e à situação de insolvência financeira. buscam-se saídas mágicas para dificuldades de ordem amorosa. expulsar demônios e ressuscitar os mortos (cf. portadora de um poder imanente. Dá-se ênfase ao moralismo que aparece ligado à ideia do mal e do castigo. aparece como alguém que tem o poder de curar. De fato. A relação passa a ser determinada não mais pelo institucional.12-16. 23).OK. da Deus é Amor. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 .1-10. Dispensa-se a autoridade tradicional. Mt 8. pois.9). “estamos vivendo uma mudança que consiste em que a relação institucional está sendo substituída pela relação pessoal” (J. Fator muito forte no meio neopentecostal é a ideia de prosperidade. com certa violência psicológica. Utiliza-se de textos dos evangelhos e dos Atos dos Apóstolos que mostram o poder taumatúrgico de Jesus. 08:16 7 . do Evangelho Quadrangular. p. enquanto tal. particularmente o neopentecostalismo. está a busca de santidade e da libertação social. 5-10. o batismo não é mais rito de pertença a determinada Igreja. entre outras. familiares. São exemplos as práticas da Igreja Universal do Reino de Deus. mas pela ênfase na pessoa. Ano 43. Número 119. conforme os interesses imediatos de quem prega ou dos ouvintes. Outro aspecto significativo do pentecostalismo de modo geral. o pentecostalismo que conhecemos no contexto brasileiro. acentua o poder de Jesus para solucionar dificuldades pontuais imediatas. CASTILLO. incluindose aqui a vertente católica. O pentecostalismo faz leitura bíblica bastante pontual e seletiva de textos bíblicos. fazendo uso da palavra de Deus e de sua própria palavra. financeira.não construtivos em relação à verdadeira fé cristã e ao seguimento de Jesus. Prova-se tal capacidade performativa utilizando-se textos como: “Pedi e vos será dado. Bilbao: Desclée De Brouwer. é a relativização da instituição. batei e vos será aberto” (Lc 11. Cria-se certo personalismo. recursos de frequentadores de seus templos. Isto que leva os pastores não só a convencer os adeptos a fazerem doações de quantias financeiras. Tomam espaço nova linguagem religiosa. La ética de Cristo. em suas origens. invoca o nome do “Senhor Jesus” para operar curas.2934. Passa-se a valorizar a relação pessoal direta. e a autoridade religiosa pela invocação de símbolos de poder. buscai e achareis. A linguagem aí usada tem poder performativo.17-26). p. Veicula-se a teologia da “prosperidade”. que aparece como algo do passado e portador de imposições. seus textos detêm autoridade transcendente que transforma a vida das pessoas.M. 5. que aparecia mais burocrática e formal que pessoal.

Há desequilíbrio teológico e. em 1976. Número 119. presença e força geradora de unidade (cf. vários representam interesses corporativistas evangélicos. Com isso configura-se nítido traço de elementos teológicos que se contrapõem. que significa fechamento aos outros em vista de interesses grupais. trata-se antes do corporativismo. Constata-se uma antropologia forte e uma teologia fraca. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . O pentecostalismo se verifica também no interior da Igreja Católica. constitui a versão católica do pentecostalismo. como que intrinsecamente. sobretudo em se tratando do “batismo no Espírito”.pessoa. comunidade ou grupo. pois se prega que “Deus é fiel”. No neopentecostalismo.2728). Ano 43. Exige-se de Deus que satisfaça à vontade humana de acordo com o que se lhe apresenta na oração.4-5. Não existe nesse horizonte a perspectiva ecumênica. o isolamento com relação às outras Igrejas. em 1994. a autodefesa. Cristo é posto a serviço do movimento promovido por determinado ministro. p. chega a vez da Renovação Carismática Católica. Essa problemática foi tema de discussão na 32ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Por isso fala-se em ministério de tal pastor ou mesmo de ministério coordenado por responsável tal. Ecumenismo para muitas lideranças soa como proselitismo ou cooptação. Gl 3. Ainda no sentido corporativista se verifica tendência de autoafirmação também no campo político. Mina-se assim toda e qualquer possibilidade de aproximação e diálogo. Sete décadas depois de o pentecostalismo evangélico instaurar-se no Brasil. Ef 4. pois o Espírito é. 08:16 . 5-10. As orientações visam a salvaguardar a unidade da ação pastoral da Igreja no Brasil. porque estão sob o poder do Espírito. Em decorrência dos vários elementos negativos acima considerados formase posição antievangélica e antipentecostal. Belo Horizonte. por antonomásia. seja o pastor ou outro membro influente nas atividades da Igreja. Isso é frequente. como corriqueiramente é chamada.pmd 8 31/3/2011. Posteriormente. Cada instituição ou iniciativa que se organiza traz. o tema foi retomado em diálogo com a Comissão Nacional da RCC e com “Bispos e padres a ela mais ligados”. pneumatológicos e eclesiológicos. grupo ou Igreja. houve sérios desencontros entre o movimento e várias Igrejas Particulares. Desenvolveu-se processo de reflexão sobre o assunto que resultou na publicação do documento Orientações Pastorais sobre a Renovação Carismática Católica (1994). porque não dizer. Portanto. Tal afirmação do indivíduo acaba levando à criação de novas “igrejas” a partir de iniciativas meramente individuais. a Renovação. o sectarismo. a teologia em seu sentido próprio está ausente. a presença de elementos cristológicos.OK. e a orientar a 8 Perspectiva Teológica. sobretudo. Nos primeiros anos. evitando o paralelismo eclesial. Entre os integrantes do atual Congresso Nacional brasileiro. pelo menos com fundamentos claros. Neste caso já não há. Isso se verifica em vários núcleos da doutrina cristã. Os ministérios se tornam algo personalista. Uma cristologia fraca e uma pneumatologia forte.

O contato com a Bíblia e o fato de lê-la e falar a partir dela garante aos evangélicos certa liberdade da tutela da hierarquia já que muitos deles vêm da Igreja Católica. Os pobres que são acolhidos experimentam certa emancipação. Belo Horizonte. o neopentecostalismo. Conta com boa estrutura de organização interna. Concluem o texto afirmando: “Seja este um ponto de partida para uma nova e mais fecunda etapa em que a RCC há de buscar sua maior integração nas Igrejas Particulares. que representa uma tomada de posição contrária a regras morais. p. O vestir-se com dignidade diferencia tanto o pastor como as mulheres pentecostais de outras pessoas. o que se pode chamar de “cisma branco”. há dissidência silenciosa. Não se pode contestar que vários membros de Igrejas pentecostais se sentem dignificados pela oportunidade de se manifestar em público. 15). Número 119. seguindo orientações e organização próprias.pmd 9 31/3/2011. 70). Eles têm contribuído positivamente para a vida de muitas pessoas. A Renovação Carismática emerge na Igreja Católica como força. não são apenas negatividade. O documento dos Bispos é expressão de solicitude pastoral por toda a Igreja. os leigos têm mais espaço para a expressão de fé por meio de efetivo engajamento em ministérios específicos. Afirma que “ele continua renovando a Igreja através de múltiplas e novas expressões de fé e coerência cristã” (n. 5-10. Em muitos casos. o movimento dispensase de normas eclesiais. Aspecto simbólico significativo é o traje. dá-se oportunidade para o exercício do poder laico. inclusive de membros da hierarquia. em conformidade com as Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil” (n.OK. Atualmente ela está presente em praticamente todas as dioceses do País. ocorre. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . em alguns casos. No pentecostalismo católico consideramos como aspecto importante para a vida da Igreja. Em virtude do protagonismo de algumas lideranças. Isso repercute na vida familiar e nas condições financeiras. o que os leva a sentir-se formando um grupo que se distingue de outros grupos religiosos e dos demais membros da sociedade.atuação da RCC em vista da correção de certas posições pessoais e práticas no interior dos “grupos de oração”. ou seja. 08:16 9 . Ano 43. Atinge muitos católicos por meio de atividades permanentes e é capaz de realizar eventos que atraem multidões de jovens e adultos. isto é. liturgia. promovendo sensível mudança de vida. leitura e interpretação da Bíblia. O documento apresenta os fundamentos bíblico-teológicos da atuação do “Espírito Santo no mistério e na vida da Igreja”. a maior presença de católicos em ambientes da sociedade Perspectiva Teológica. dimensões de vivência da fé e questões particulares. Pessoas presas ao vício do alcoolismo ou de outra forma de escravidão são estimuladas a afastar-se de tais prisões. bem como para a recuperação de alguns aspectos importantes do compromisso batismal. As orientações incidem sobre aspectos relativos às Igrejas Particulares. de prestar testemunho de alguma transformação acontecida em sua vida. Mas o pentecostalismo ou sua forma mais moderna.

pastores e ministros hão de agir com prudência e discernimento. Temos que discernir o que realmente provém do Espírito de Deus e o que tem outra origem.2-3). o povo de Deus.não contemplados pela forma de atuação tradicional da Igreja. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . “Nisto reconhecereis o espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus veio na carne é de Deus: e todo espírito que não confessa Jesus não é de Deus. A capacidade de uso de modernos meios de comunicação e da música como instrumentos de evangelização. Requer ainda a participação das comunidades das diversas Igrejas no diálogo e mútuo enriquecimento. Número 119. o desafio do testemunho de Jesus e seu evangelho sem perder de vista o compromisso com a defesa da vida humana e do Planeta e a unidade da fé em Cristo. o pentecostalismo apresenta-se rico em diversidade de experiências e com nuances que exigem exaustivo estudo e permanente e ampla análise. Ou seja. Deste modo. especialmente teólogos. o pentecostalismo por si mesmo lança às Igrejas. traz a marca do mistério transcendente e a ambiguidade da limitação do ser humano. movimento que envolve atores e fatores diferenciados. é este o espírito do Anticristo” (1Jo 4. os pentecostais católicos experimentam liberdade em organizar as suas atividades e expressar as suas propostas. p. 5-10. São João na primeira Carta nos dá o critério fundamental para averiguação da origem das iniciativas e manifestações religiosas. Sendo realidade que conta com a livre ação e presença do Espírito e o engajamento humano influenciado por circunstâncias e interesses. tornam os encontros públicos e as liturgias dinâmicos e alegres. Belo Horizonte. Tendo coordenação acessível e próxima.pmd 10 31/3/2011. a revelação de Deus em Jesus de Nazaré é a referência primeira da fé cristã e a referência para avaliar os fenômenos atribuídos ao Espírito. Por ser. bem como a utilização de cantos litúrgicos atraentes. A confissão de Jesus e o consequente reconhecimento da ação do Espírito implicam a participação de todos os envolvidos na tarefa de refletir sobre a fé cristã e os responsáveis por organizar a ação eclesial. Ano 43.OK. ao povo de Deus. Por isso. em último termo. 08:16 . 10 Perspectiva Teológica. O fato de ter uma organização que independe da estrutura das dioceses e paróquias garante à RCC condições para desenvolver seus projetos livre do autoritarismo clerical. a fim de não pretender pôr-se no lugar do Espírito.

Brasil. Pentecostalism.OK. Procura mostrar que essa teoria responsabilizou prioritariamente as transformações estruturais da sociedade pelas mudanças nas escolhas religiosas de parte dos migrantes rurais e dos estratos mais pobres da população. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . which. K EY-WORDS : Pentecostal growth.Artigos SOCIOLOGIA DO CRESCIMENTO PENTECOST AL NO PENTECOSTAL BRASIL: UM BALANÇO (Sociology of Pentecostal growth in Brazil: a review) Ricardo Mariano * RESUMO: O artigo apresenta um balanço sumário da teoria sociológica sobre a expansão pentecostal no Brasil. Analisa as obras mais importantes que a conformaram. Finally. ABSTRACT: The article presents a summary balance of sociological theory about the Pentecostal expansion in Brazil. que. Por fim. Brazil. the article presents the perspective of the rational choice theory of religion. sua perspectiva modernizadora e destaca as críticas que recebeu. Sociologia da religião. Modernization. 08:16 11 . p. Ano 43. * Departamento de Ciências Sociais da PUCRS. It analyses the most important works that led to the birth of Pentecostalism. 11-36. The article seeks to show that this theory blamed primarily the structural transformations of society through changes in religious choices by rural migrants and the poorest strata of the population. apresenta a perspectiva da teoria da escolha racional da religião. em contraste. Belo Horizonte. Sociology of religion. focuses its analysis on the religious offering. Artigo recebido em 28/02/2011.pmd 11 31/3/2011. PALAVRAS-CHAVE: Expansão pentecostal. in contrast. Perspectiva Teológica. Pentecostalismo. Modernização. Número 119. Autor convidado. foca sua análise na oferta religiosa. its modernizing perspective and the criticism it has received.

). o pentecostalismo chileno e brasileiro. 11-36. WILLEMS. in As religiões da humanidade. “Religiões em São Paulo”. de CAMARGO. São Paulo: Espírito.OK. 3 E. C. Esses pesquisadores partilhavam a tese de que os intensos processos de mudanças sociais. instituição. 1973. 785-800.M. apresenta a perspectiva da teoria da escolha racional da religião. protestantes. p. de CAMARGO (org. Os sociólogos Christian Lalive d’Epinay2 e Emilio Willems3 investigaram. 1970. organizado por Procopio Camargo. 08:16 . espíritas.A teoria sociológica funcionalista sobre a expansão pentecostal O artigo1 apresenta um balanço sumário da teoria sociológica de matiz funcionalista sobre a expansão pentecostal no Brasil. Com isso.pmd 12 31/3/2011. mostra que essa teoria responsabiliza prioritariamente o processo de modernização e suas deletérias consequências socioculturais e econômicas pelas mudanças nas escolhas religiosas de parte dos migrantes rurais e dos estratos pobres da população. São Paulo: FFLCH-USP. 4 O livro Católicos. B. Followers of the new faith: culture change and rise of protestantism in Brasil and Chile. o pentecostalismo aparece. do pluralismo religioso e do mercado religioso sobre os produtores e consumidores religiosos. 1969. povo. vol. nos efeitos da desregulação estatal da religião. que. São Paulo: Pioneira.L.V. Análise sociológica do crescimento pentecostal no Brasil. Católicos. 2 C. pp. Petrópolis: Vozes. in J. urbanização e migração de grandes contingentes rurais para as cidades. Belo Horizonte. Número 119. protestantes. A experiência da salvação: pentecostais em São Paulo.F. acima de tudo. como uma “resposta” a problemas macroestruturais derivados das transições rural-urbano. São Paulo: Duas Cidades. São Paulo: Editora Abril. expondo e analisando as principais obras que a conformaram. R. representados pela rápida industrialização.F. de SOUZA. Ambos inspiraram os trabalhos de Candido Procopio Ferreira de Camargo4 e de Beatriz Muniz de Souza5 a respeito das características e do crescimento do pentecostalismo no Brasil. em meados dos anos 60. tidos como ineptos cultural1 O presente artigo retoma análises e discussões presentes em minha tese de doutorado sobre o crescimento pentecostal no Brasil (cf. 1967. 5 B. provocaram uma situação de anomia em parte dos migrantes e dos estratos pobres. 12 Perspectiva Teológica. foca sua análise na oferta religiosa. isto é. 1968. 2001).P. tradicional-moderno. MARCONDES (org. espíritas. “Pentecostalismo”. respectivamente. Por fim. Rio de Janeiro: Paz e Terra. da liberdade religiosa. O refúgio das massas. Ano 43.M. Nashville: Vanderbilt University Press. Tese de doutorado em Sociologia. é uma obra coletiva elaborada por cinco pesquisadores: C. em contraste com a ênfase teórica anterior.). 1973. culturais e econômicas ocorridos a partir da década de 1930. Em seguida. de SOUZA. D’EPINAY. Destaca sua perspectiva centrada na teoria da modernização e as críticas de que foi objeto. e delimitaram a abordagem e os núcleos temáticos das pesquisas efetuadas sobre esse movimento religioso no Brasil e na América Latina até o final da década de 1970. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 4.P. MARIANO.

como resposta à anomia. Belo Horizonte. que viveu no Brasil entre 1931 e 1949. afirma que industrialização e urbanização acarretam a crise do sistema oligárquico e da cultura tradicional. se deve. Followers of the new faith: culture change and rise of protestantism in Brasil and Chile. na transformação sociocultural e na modernização do país. reorientar sua conduta.. pp. 133-135. 11-36. o sociólogo alemão Emilio Willems6. seus valores e sua visão do mundo conforme os estritos preceitos bíblicos pregados por sua comunidade sectária. valores adequados à vida nos centros urbanos. a aceitação social e a expansão do pentecostalismo. Defende também a ideia de que a continuidade cultural entre catolicismo popular e pentecostalismo – que compartilham crenças em experiências místicas. suas modernas técnicas agrícolas. as perspectivas desses pesquisadores sobre a relação entre as mudanças socioculturais. afinidade emocional. feiticeiras e demônios – facilitou a transição para o pentecostalismo7. Número 119. nessas análises. por recriar modalidades de contato primário preexistentes na sociedade tradicional. espíritos do mal. 08:16 13 . a modernização econômica e a expansão pentecostal. promovidas por sua ética puritana.pmd 13 31/3/2011. sua contribuição para a redefinição dos métodos pedagógicos e dos princípios e objetivos educacionais. milagres. 6 Perspectiva Teológica. Ano 43. Camargo e Souza. Por isso. 7 Ibid. p. segurança psicológica e econômica. fenômenos modernizantes que favorecem a apostasia religiosa. a seguir. a seu ver. incentivar o auxílio mútuo nos planos material e espiritual. que são. disciplina. mediante o fornecimento de novas comunidades. O pentecostalismo aparece. Willems avalia que a inserção do protestantismo histórico no país constituiu uma espécie de carro-chefe do liberalismo norte-americano e desempenhou papel ativo. nova identidade social. fundamentalmente. funcionais em relação às normas de ação da sociedade capitalista emergente. promover a participação do fiel nos cultos. Eles interpretaram o fluxo migratório e a rápida modernização como processos que favoreceram o êxito da prédica pentecostal. Apresento. segundo Willems. WILLEMS. sua difusão de noções de higiene e boa alimentação. firmar laços de solidariedade entre os irmãos de fé.mente diante dos desafios da vida numa sociedade urbana em vertiginosa transformação sociocultural. A rápida expansão das seitas pentecostais.OK. possessões. desenraizam as massas de origem rural e promovem a democratização da sociedade. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . embora limitado. migrantes e parte dos pobres tinham necessidade de reconstruir um sistema significativo de relações primárias para ajustar-se à vida urbana. Em Followers of the new faith: culture change and the rise of protestantism in Brazil and Chile. à sua capacidade de suprir certas necessidades e aspirações de indivíduos desfavorecidos e desenraizados dos tradicionais modos de vida rural e de adaptá-los às mudanças socioculturais.

por exemplo. Willems destaca o relacionamento funcional entre seu crescimento e a transição da sociedade tradicional para a moderna. 11-36. contudo.pmd 14 31/3/2011. visto que o autor. “como o da hacienda. a seu ver. sobre os conceitos antitéticos: opressão e proteção. Enfatiza. Em O refúgio das massas. baseada na monocultura de exportação. Sua avaliação sobre as aspirações educacionais. Esse movimento religioso “inspira-se na sociedade tradicional”. paradoxalmente. 219. 136. não cultivam ideais de avanço econômico e profissional. destacando a “primazia dos leigos” nas seitas pentecostais em oposição à tradição clerical católica. busca de distinção social que se nota. O refúgio das massas. 221.. 228. 130-131. mantendo continuidades e descontinuidades com a tradição cultural chilena. pp. o sociólogo suíço Lalive d’Epinay afirma que “o pentecostalismo apresenta-se como resposta religiosa comunitária ao abandono de grandes camadas da população. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . pp.. uma imagem fortemente negativa dos crentes pentecostais. configura-se como “esforço de restauração” e “elemento de resistência à mudança”. baseado. 210-211. a paridade ética da conduta de ambos os sexos perante Deus.Quanto ao pentecostalismo. contudo. para uma sociedade urbana e industrial10. pp. são indiferentes ou antagônicos aos progressos educacionais e contentam-se meramente com a capacidade de ler a Bíblia8. abandono provocado pelo caráter anômico de uma sociedade em transição” da economia agrária. pp. arbitrariedade e graça. vestido longo para as mulheres9. ao afirmar que o pentecostalismo reproduz “o modelo paternalista de família ampliada”. Número 119. Belo Horizonte. em seus tradicionais trajes usados nos cultos: terno e gravata para os homens. “apresenta-se como reconstituição especializada (se bem que puramente religiosa) de uma sociedade moribunda” e é “o herdeiro das estruturas do passado mais do que o precursor da sociedade emergente”12. 60. p. Ibid. econômicas e mesmo teológicas desses religiosos não correspondem à realidade atual. se é que corresponderam no passado. A religião pentecostal. afirmando que eles têm orgulho de ser incultos e despreparados para qualquer tarefa intelectual. a continuidade cultural. reconstrói a sociedade senhorial para as camadas pobres que vivem em estado de anomia e em condição marginal nas cidades. 12 Ibid. Ano 43. 8 9 14 Perspectiva Teológica.OK.. p. 08:16 . 189. Ibid. Em suma: tirania e paternalismo”11. considera que ele favorece a modernização sociocultural e democratiza o acesso ao sagrado e à hierarquia eclesiástica. a mudança comportamental do crente resultante da adesão à ética religiosa. Esboça.. 11 Ibid. 10 D’EPINAY. menciona que a conversão pentecostal reflete aspiração a uma “vida melhor” e a procura de uma respeitabilidade pequeno-burguesa.

o apelo pentecostal. “El crecimiento del movimiento pentecostal en América latina”. 10. Para d’Epinay. fornece a todo fiel acesso às forças sobrenaturais e abre caminho a cada um para as funções dirigentes. em contraste com o sacerdotalismo católico. p. pois. pp. sobretudo do alcoolismo. aqui p. 236-239. d’Epinay considera que o pentecostalismo constitui uma sociedade sem classes. a expansão pentecostal aproveita bem tanto os efeitos perversos da modernização capitalista quanto a bre- 13 J.pmd 15 31/3/2011. pp. Admite que o pentecostalismo ajuda o converso a livrar-se de vícios. o crente pentecostal não parece “dotado do espírito de empresa e de iniciativa”. que. de preservar o tradicional “exercício de poder autocrático” do sistema oligárquico latino-americano. 239-240. 17 Ibid. Pois. Costa Rica: DEI. “o que parecia um traço transitório de uma sociedade em mudança se torna uma característica estrutural de uma sociedade dependente.. conclui-se que essa religião tende a proliferar somente enquanto não findar a transição da sociedade tradicional para a moderna. ALVAREZ (org. Recusa a extrapolação da tese weberiana sobre a afinidade entre a ética protestante e o espírito do capitalismo para a América Latina e rejeita a ideia de que a mobilidade econômica individual possa aumentar a riqueza e transformar o desenvolvimento nacional16. senão permanente”. pp. Pentecostalismo y liberación: una experiencia latinoamericana. Belo Horizonte. Cadernos do ISER 6 (1977) 5-10. Com o triunfo desta. Acusa o pentecostalismo de omissão social.). espiritualidade e sociedade: estudo sociológico do pentecostalismo latino-americano”. 205. portanto. O refúgio das massas. não introduz uma ética do trabalho. de alienação e de ser uma “força apolítica mais favorável ao passado e à ordem do que ao futuro”. 16 Ibid. e o protestantismo. D’EPINAY. Número 119. Ano 43. SEPÚLVEDA.. Segundo o sociólogo Procopio Camargo. 84. nem proporciona êxito socioeconômico a seus adeptos superior ao obtido pelo conjunto da população15. aqui p. “Religião. à medida que a sociedade chilena passa a integrar o sistema capitalista mundial. Perspectiva Teológica.OK. 241-246. posteriormente. Juan Sepúlveda13 afirma que d’Epinay. 227.Ao reconstruir comunidades baseadas em valores e tipos de dominação e de sociabilidade em processo de transformação e extinção. com ela.. C. criando a figura do “pastor-patrão”17. Assim. 14 D’EPINAY. in C. restaura a família e ensina uma forma de ascetismo. 15 Ibid. ao assumir que “a ideia de transição é ilusória”.L. em simbiose com a cultura latino-americana tradicional. San José. mas nega que tal ascetismo propicie poupança e valorização da atividade econômica14. 08:16 15 . pp. 11-36. 1992. Tal como Willems. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . a crise a que o pentecostalismo parece oferecer resposta não é uma crise transitória. o pentecostalismo é conservador e autoritário e nada tem de modernizador e democratizante. pp. a anomia causada pelo processo de transição ao capitalismo deverá retroceder e. 77-88. reviu em parte essa tese.

14-15. Por isso. Assim. o apelo de religiões densamente sacrais tende a minguar com o avanço do modo de vida urbano. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . obra baseada em tese de doutorado orientada por Camargo. MICELI (org. Católicos. Mecanismo transitório porque. Católicos. Souza destaca a função terapêutica. 18 19 16 Perspectiva Teológica. p. por substituir suas relações de contato primário presentes na sociedade tradicional. porém. centrada nos ritos de cura divina. 20 CAMARGO (org. 10. Belo Horizonte.OK. em A experiência da salvação: pentecostais em São Paulo. Camargo critica a ênfase do funcionalismo “em caracterizar o fenômeno religioso por suas funções de integração social e de conservação de valores e normas” e procura se apoiar igualmente em Weber. protestantes. A adesão ao pentecostalismo. P. São Paulo / Brasília: Editora Sumaré (ANPOCS) / CAPES. constitui “resposta religiosa à situação de anomia e privação para segmentos populacionais desenraizados de formas tradicionais de organização econômica e social”. ao incorporá-lo para compreender “as funções da religião no processo de mudança social”20. espíritas. Para tanto. No prefácio do livro de Souza22 . não obstante se caracterizarem por intensa sacralidade. 354. constitui um “mecanismo transitório” de ajustamento e integração dessa população desenraizada social e marginalizada nas cidades.cha aberta pela dessacralização ou secularização da Igreja Católica na segunda metade do século. 21 SOUZA.pmd 16 31/3/2011. ressaltando as funções terapêuticas e de integração social do pentecostalismo. e a moral puritana (que prescreve ao crente como agir e se relacionar na sociedade) como fatores responsáveis pela expansão pentecostal. avalia que o pentecostalismo ajusta os indivíduos à sociedade moderna. a três meses da edição do AI-5. dos que se encontram despreparados para participar de modo efetivo na sociedade urbano-industrial” e desempenha funções de integração social e de natureza terapêutica18.). 22 Ibid. Número 119. Procopio Camargo mostra-se otimista em relação ao potencial político do associativismo pentecostal. in S.). 18. grifo meu. protestantes. espíritas. pp.). MONTERO. do incremento da escolaridade e da secularização. atribuir sentido sacral aos eventos do cotidiano e confortá-los em face das frustrações causadas por doenças e dificuldades de relacionamento social21. segundo Paula Montero19. mas mantém-se no quadro da perspectiva funcionalista. concebe “o abandono da visão sacral do mundo como inerente ao avanço da vida urbana e da educação formal”. pp. 08:16 . propicia uma “reorientação da conduta. p. A experiência da salvação. 1999. os CAMARGO (org. O que ler na ciência social brasileira (1970-1995). “Religiões e dilemas da sociedade brasileira”. uma versão internalizada de religião. em termos sacrais. adepto da teoria weberiana da secularização. p. libertá-los da anomia. 11-36. escrito em setembro de 1968. Afirma: As seitas pentecostais representam. Beatriz Muniz de Souza. Ano 43. 147.

Número 119. adotando forma religiosa que supõe: opção pessoal e voluntária. Estas constituem. um tipo de explicação que trata a expansão pentecostal como variável dependente. Tal perspectiva prioriza. que são supridas pelo pentecostalismo e que facilitam sua prédica e impulsionam seu crescimento. de sua capacidade comunicacional. ao discorrer.). “respostas”. 11-36. participação na liturgia e diminuição da distância social entre o laicato e o clero. de sua flexibilidade organizacional etc.. mesmo que coadjuvante. E também analisa o pentecostalismo como variável independente – embora não o faça para explicar sua expansão – toda vez que o percebe como potencial ou real agente promotor. Camargo define. sobretudo. de identidade. Em suma. CAMARGO (org. À alienação e ao conservadorismo. e a inclinação a favor do regime militar. 149. protestantes. Ibid. de seu proselitismo. não se furta a complementar-se com explicações baseadas em fatores internos ao campo religioso. como estando a reboque de fenômenos exteriores. p. de suas funções terapêutica e “nomizadora”.. 12. em germe. sobre o êxito pentecostal por meio de sua acolhida comunitária. de um lado.). Para a perspectiva funcionalista.. Contudo. a modernização da sociedade cria determinadas demandas sociais (de sentido. p. acresce o caráter sectário do moralismo pentecostal. Católicos. Como até então predominavam no pentecostalismo a passividade política. p. de mudança favorável ou desfavorável à modernização e à democracia. um obstáculo à realização de seus padrões éticos”25. Estes traços constituiriam. por exemplo. o pentecostalismo não colaborava para restabelecer a democracia. que necessariamente traz mudanças de papéis e de comportamento. como conservadora a função social dessa religião. Camargo reavalia sua posição. Belo Horizonte.pmd 17 31/3/2011. em 1973. com o recrudescimento da repressão militar. atuando basicamente como mecanismos de integração dos contingentes populacionais vitimados por tais processos macroestruturais. declarando que o pentecostalismo desempenha “funções eminentemente conservadoras” e que sua “alienação política” não dá “ensejo para o aparecimento de modalidades contestatórias ao status quo”24. de forma taxativa. de outro. Em contraste com o ativismo político da vertente católica progressista da época. de segurança psicológica e emocional. p. os problemas sociais causados pela modernização econômica e pelas transformações socioculturais favorecem e estimulam a expansão das igrejas pentecostais..OK. cabe observar. dramático senso de coerência em relação às normas e ao comportamento. Ano 43. 23 24 25 Ibid. Perspectiva Teológica. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . espíritas. que “dirige sua crítica ao que entende por ‘mundanismo’ e vê no progresso. 153.pentecostais abandonam a passividade da orientação de vida de tipo católico–tradicional. Apesar disso. as bases formadoras de uma consciência política independente das estruturas tradicionais e capaz de levar a uma atuação intensa23. 08:16 17 . assim.

enfatiza a “existência de estratificações e redes de poder bem formadas no interior das favelas” em oposição ao pressuposto da anomia do migrante.R. 32 A. Cadernos do ISER 6 (1977).A. ALVES. 1985. a “tese de que as religiões populares em expansão eram compostas sobretudo de migrantes”. “Duas respostas à aflição: umbanda e pentecostalismo”. 29 R. Belo Horizonte. Pentecostais no Brasil: uma interpretação sócio-religiosa. 28 R. Tese de doutorado em antropologia.OK. Os escolhidos de Deus: pentecostais. marginalização-integração”. New York: New York University. PAGE. DROOGERS. ROLIM.N. questiona a aceitação acrítica da “equação Catolicismo = Tradição. “Visões paradoxais de uma religião paradoxal: modelos explicativos do crescimento do pentecostalismo no Brasil e no Chile”.H. Rubem Alves28. ressalta a superação da filosofia da história baseada no “esquema evolucionista do tradicional ao moderno”. 84-85. Número 119. John Page30. Rubem César Fernandes27. 4) “a urbanização e a industrialização afetam o modo pelo qual qualquer indivíduo (seja ele migrante ou não) se relaciona com a sociedade à sua volta”. Francisco Cartaxo Rolim31 e André Droogers32. “Duas respostas à aflição: umbanda e pentecostalismo”. 2) “os migrantes rurais nem sempre sofrem de profundo choque cultural. Debate e Crítica 6 (1975) 75-94. d’Epinay. 08:16 . 34 FERNANDES. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 27 R. 19. Propriedade Senhorial. Rio de Janeiro: Vozes. Rio de Janeiro: Marco Zero e Cadernos do ISER. Peter Fry e Gary Howe33 criticam as teorias de Willems. “A volta do sagrado: os caminhos da sociologia da religião no Brasil”. 3) “não podemos aceitar o uso do conceito de ‘integração’ por causa da distinta dicotomia folk-urbano e porque ela implica que a cidade é num sentido uma entidade homogênea e consistente dentro da qual é possível se integrar”. Regina Novaes29. FERNANDES. Estudos de Religião 8 (1992) 6183 [São Bernardo do Campo: IMS-Edims]. Entre os principais críticos constam: Peter Fry e Gary Howe26. p. ordem-anomia. pp. FRY / G. Democracia. Capitalismo. Rubem César Fernandes critica os trabalhos de Willems e Lalive por não demonstrarem. pesquisadores passam a criticar a perspectiva funcionalista e a teoria da modernização presentes na interpretação sociológica sobre o pentecostalismo até então. 56-57. 31 F.pmd 18 31/3/2011. 11-36.Críticas à explicação funcionalista Nos anos 70. 33 FRY / HOWE. P. Sacralização da Sociedade / Protestantismo = Modernidade. trabalhadores e cidadania. 1984. porque: 1) “eles aduzem seus argumentos de certos estereótipos sociológicos baseados em dicotomias clássicas tais como folk-urbano.C. eles frequentemente seguem redes de parentesco”.C. com dados. pp. 1985. nem são totalmente ignorantes a respeito de problemas da cidade quando chegam. “O debate entre sociólogos a propósito dos pentecostais”. Patriarcalismo. Camargo e Souza. 30 J. “O debate entre sociólogos a propósito dos pentecostais”. Brasil para Cristo: the cultural construction of pentecostal networks in Brazil. NOVAES. 54. Religião e Sociedade 3 (1978) 109-141. HOWE. Secularização”34. 26 18 Perspectiva Teológica. Ano 43.

New Brunswick / New Jersey / Londres: Rutgers University Press. 122. 125.A. Mostra que grande parte dos migrantes membros de quatro congregações da Igreja O Brasil para Cristo. “empresas de cura divina” administradas “segundo normas empresariais da organização capitalista”36. patrões (6. 1.1% foram para a casa do patrão ou ficaram em suas adjacências (empregadas domésticas).8% nas proximidades da casa de parentes.4% não conheciam ninguém no Rio antes de migrar. 11-36. mesmo se sua conversão decorresse de uma situação de anomia.3%). amigos (16. pp.4% migraram para o Rio para ficar na casa de parentes. dos que arrumaram emprego depois de chegar à cidade. a proporção de migrantes crentes (79. pp. 22. caso em que.3%). amigos e parentes (21. caso de empregadas domésticas). Conclui que as religiões populares. Ibid.9% haviam migrado sozinhos. 08:16 19 .5% o fizeram por intermédio de parentes e 15. além de seguir redes de parentesco e amizade a fim de receber auxílio de familiares e amigos para encontrar casa e emprego. Os escolhidos de Deus. “A volta do sagrado: os caminhos da sociologia da religião no Brasil”.2%) e de migrantes favelados não crentes (82%) era praticamente idêntica. contudo.9%. Regina Novaes37 relativiza “a ideia do migrante perdido na grande cidade e que encontra na associação pentecostal uma forma de substituir as redes de relações primárias deixadas no local de origem” e questiona a classificação de migrantes atribuída descuidadamente aos crentes que se converteram depois de já estarem vivendo há vários anos fora da terra natal. Rubem Alves35 critica tanto a abordagem funcionalista. pp.9% mudaram-se para o Rio já com emprego arranjado antecipadamente. A seu ver. 44. as seitas pentecostais “são mecanismos ideológicos de dominação”. Page (PAGE. Born again in Brazil: the pentecostal boom and the pathogens of poverty. não podem ser interpretadas como meros mecanismos de integração do rural ao urbano. Ano 43. já possuía ampla experiência urbana. 38. Brasil para Cristo. enquanto os demais tinham parentes (50. ela não poderia resultar da migração em si. apenas 11. que “vê na modernização. 37 NOVAES..Na mesma toada. 39 Ibid. 6. industrialização e secularização.pmd 19 31/3/2011. 1997. choque cultural e ruptura da comunidade pessoal à expansão pentecostal. tendo vivido em uma ou mais cidades de pequeno e médio porte antes de migrar para a periferia carioca39. Brasil para Cristo. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 135-136. Andrew Chesnut40. processos inevitáveis e desejáveis”. 126.3% na casa de amigos. anomia.6%. p. Belo Horizonte. trabalhadores e cidadania. 41. Em Os escolhidos de Deus: pentecostais. pentecostalismo e umbanda em especial. conclui que a migração rural–urbana não ex- ALVES. Da mesma forma.2 anos. 35 36 Perspectiva Teológica.OK. 89-140) revela que o tempo médio entre a migração para a cidade e a conversão perfazia 25. apenas 4. cuja ideologia só vê ‘anomia’ e ‘regressão’ fora da integração funcional na esfera ‘desenvolvida’. moradores da Zona Norte do Rio de Janeiro. John Page38 também se opõe à tese que associa migração rural–urbana. 22. 3. p. Número 119.9% na vizinhança da casa de amigos. 40 R. CHESNUT. p. 38 PAGE. em pesquisa conduzida em Belém em meados da década de 1990. 9.6%). quanto sua filosofia da história. de amigos.

. A noção de indigência esposada por Rolim. Rolim compartilha com os funcionalistas. perda e multiplicação de referenciais de sentido e comportamento. 41 42 20 Perspectiva Teológica. insegurança psicológica. pp. Número 119. 44 DROOGERS. “Visões paradoxais de uma religião paradoxal”. contudo. Ano 43. Contudo. 64. a pobreza. portanto.pmd 20 31/3/2011. Resta saber se é possível conciliar teorias com premissas discrepantes e antagônicas numa “abordagem eclética”.1% dos quais eram migrantes – aderiu ao pentecostalismo antes de migrar para a capital do Pará. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . a fim de compor um “mosaico” explicativo desse fenômeno. André Droogers44 critica a unilateralidade das principais teorias sobre o crescimento do pentecostalismo brasileiro e chileno. a ideia de que a expansão pentecostal é favorecida por contextos socioeconômicos que acarretam marginalidade social e econômica. escudado numa perspectiva marxista e crítico do funcionalismo. 354. apresenta conotação política e denota a possibilidade de superação das injustiças e desigualdades sociais neste mundo pela via religiosa43 – via que nada tem de marxista. A filiação das massas pobres ao pentecostalismo resulta de sua exclusão social produzida pelo capitalismo42. 08:16 . já que a maior parte de seus informantes – 75. as mudanças socioculturais decorrentes da modernização socioeconômica. anomia e privação social. Em Pentecostais no Brasil: uma interpretação sócio-religiosa. privação da identidade social. Camargo e Souza. percebe certos efeitos perversos da modernização capitalista como condicionantes socioculturais das motivações e dos interesses religiosos dos pentecostais. ambas as análises convergem ao perceberem o pentecostalismo como “resposta” (ou solução) para problemas sociais e individuais. a opressão social e patronal. como a dominação de classes. na explicação da expansão pentecostal. Francisco Cartaxo Rolim41.OK. 244-251) na presença de pentecostais nas Ligas Camponesas e em sindicatos rurais durante a ditadura militar. Belo Horizonte. 43 Daí a ênfase de Rolim (ROLIM. enfatiza as esferas política e econômica. Pentecostais no Brasil. pp. 79. Propõe a elaboração de uma “abordagem eclética” que sistematize os diversos modelos teóricos – já que é “possível encontrar algo positivo em cada modelo” –. Willems. Ao passo que a noção de anomia remete para a possibilidade de o converso encontrar solução individual ou refúgio religioso para lidar com seus problemas de sentido. anomia. A análise funcionalista. porém.plica a afiliação evangélica. p. d’Epinay. 62. das preferências ideológicas e das idiossincrasias dos pesquisadores. sem cair em paradoxos insolúveis. priorizam. ROLIM. como quebra de controles normativos da estrutura social tradicional. Rolim. p. 11-36. defende que o pentecostalismo constitui “resposta” aos interesses de classe das “camadas pobres”. Ibid. em contraste. Pentecostais no Brasil. mudanças axiológicas. como vimos. derivada da parcialidade científica.

STOLL. cultural e econômico. da quebra do monopólio religioso do catolicismo. segundo Martin. da fraqueza institucional da Igreja Católica e da permanência de uma cultura não secularizada. Is Latin America turning protestant?: the politics of evangelical growth. migração rural–urbana. pp. devido à sua crônica escassez de sacerdotes. 11-36. econômicas e políticas seriam semelhantes às ocorridas na Europa do século XVI. Tongues of fire: The explosion of protestantism in Latin America. entre eles princípios sociais fraternos. afirmando que o pentecostalismo arrebanha.C. intensamente religiosa47. Assevera que a expansão pentecostal se beneficiou da ruptura da união entre Igreja e Estado. Pois. os estratos sociais deslocados do campo e desorientados nas grandes cidades – largados à própria sorte no “mundo anômico da favela” – em função do advento do capitalismo48. Para Willems (ibid. 1990.E.. 49 Ibid. David Martin45 e David Stoll46. 12. p. 37). o pentecostalismo. igualitários e democráticos favoráveis ao desenvolvimento individual. sobretudo. in R. Número 119. detinha pouco controle. 48 MARTIN. exerceu forte influência nas pesquisas sobre o movimento pentecostal e fomentou o interesse de pesquisadores norte-americanos pela investigação da “explosão” protestante na América Latina. Tongues of fire: the explosion of Protestantism in Latin America. autoritária. 5. a seu ver. Oxford: Blackwell.Modernização e pentecostalismo Apesar de forte crítica efetuada nos anos 70 e 80 à teoria funcionalista. Por isso. retomaram o núcleo central da tese sociológica que associa modernização. em detrimento da organização social hierárquica. machista e patriarcal da cultura latino-americana50. anomia e conversão pentecostal. 46 D. testing what we have learned”. 292. de David Martin. Novo Perspectiva Teológica. FERNANDES. Belo Horizonte. p. A ruptura do monopólio católico favoreceu o ingresso e a atuação de novos movimentos religiosos e viabilizou o pluralismo cultural. p. Martin retoma o argumento central de Willems e d’Epinay. Tongues of fire. Followers of the new faith: culture change and rise of protestantism in Brasil and Chile. p. p. Berkeley: University of California Press. difunde traços da cultura anglo-americana. segundo a qual a cultura camponesa do Brasil e do Chile era uma “cultura sagrada” sobre a qual a Igreja Católica. 47 Martin parece ter incorporado essa ideia (e a estendido para os setores urbanos) da afirmação de Willems (WILLEMS. na década seguinte pesquisadores estrangeiros. 1990. 106. A América Latina. os camponeses do Brasil e do Chile viviam “em um mundo encantado de espíritos do mal.. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . condição fundamental para a democratização das sociedades latino-americanas.. o avan45 D. Ano 43. estaria passando por uma “reforma protestante”. D. cujas implicações sociais.pmd 21 31/3/2011. poderes mágicos e santos poderosos”. 36).OK. MARTIN. DIXON. 50 Ibid. “The new protestantism in Latin America: remembering what we already know. 08:16 21 . Destaca como fatores cruciais para a expansão evangélica a capacidade das igrejas locais de comprometer os leigos com o trabalho proselitista e a habilidade de comunicação de seus pastores49.

Stoll observa que as igrejas pentecostais incentivam a responsabilidade individual. a iniciativa pessoal. promove a autoestima. em grande medida. Número 119. 479-492. cria estruturas terapêuticas. a cultura. 51 MARTIN. instituições educacionais e de lazer. os argumentos centrais dessa tese conspiratória foram reproduzidos no livro Os demônios descem do Norte. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . promovem padrões éticos universais. autogoverno e iniciativa pessoal promovida pelo pentecostalismo encontra-se em estado latente nos países sul-americanos. 480. Para Martin. reestruturam relações faNascimento: os evangélicos em casa. de Délcio Monteiro de Lima. aqui p. na igreja e na política. estimula a participação. Difundidas por membros do clero católico. pp. perspectiva que reproduz o tradicional ideário missionário protestante de que sua missão salvífica é também uma missão civilizadora. 1996. rejeita o álcool. portanto.ço pentecostal teria o potencial de transformar a moral individual. constrói redes protetoras de apoio mútuo. essa religião desempenha. voluntarismo. o machismo e a promiscuidade masculina. agora na América Latina. a CNBB enviou relatório ao Vaticano no qual acusava governos de direita e a CIA de estimular a implantação e expansão de movimentos religiosos alienantes na América Latina para frear o crescimento da igreja progressista. o sentido de valor pessoal. ética do trabalho. principalmente. do aporte de grandes investimentos financeiros do governo norte-americano em projetos missionários da Direita Cristã para recrutar e alienar as camadas pobres da população. 52 STOLL. parcimônia. papel redentor. Ano 43. 11-36. Tongues of fire. O pentecostalismo desenvolve.pmd 22 31/3/2011. Martin reedita. em sua opinião. inculca disciplina. oratória. 53 Em 1984. Embora afirme que as evidências da relação entre pentecostalismo e sucesso econômico são recentes e fragmentárias. em países da América Central e a compreende como um “movimento popular”. David Stoll52 investiga a expansão evangélica. p. a tese weberiana que associa expansão protestante e modernidade. honestidade. Em Is Latin America turning protestant?: The politics of evangelical growth. pontualidade. civilizador e modernizador. sobriedade. habilidades de expressão. 22 Perspectiva Teológica. Em 1987. contrapô-las a grupos e partidos marxistas revolucionários e barrar o avanço da ala católica progressista e da Teologia da Libertação. com a primeira reforçando o avanço da última. na América Latina. Martin51 defende que os indícios dessa correlação só não são mais visíveis porque a lógica cultural de participação. tais teorias afirmavam que o vertiginoso crescimento pentecostal abaixo do Rio Grande decorria. Belo Horizonte. comunicação e liderança.OK. Is Latin America turning protestant?. a política e a economia latino-americanas. Rio de Janeiro: ISER (mimeo). organização. 08:16 . o voluntarismo. ao promover valores. inclusive no Brasil53. considerando incorretas as teorias conspiratórias acerca do sucesso numérico dos evangélicos na América Latina. habilidades e virtudes individuais consentâneos ao fortalecimento da democracia e da racionalidade econômica capitalista.

Cecília Mariz54. PRANDI. cumpre investigar.L. 219.F. Revista Brasileira de Ciências Sociais 19 (2004/n. recrutá-los. 58 STOLL. “Crescimento pentecostal no Brasil: fatores internos”. ver R. “Religião na metrópole paulista”. Contudo. constituindo verdadeiros “veículos de sobrevivência” onde os pobres pegam carona. 55 A. Pierucci e Prandi55 afirmam que os pentecostais buscam lideranças e instituições religiosas que os ajudem a organizar a própria vida. 13. mobilizá-los e cativá-los57. 1994. 59 E. 331. A realidade social das religiões no Brasil: religião. 57 Sobre alguns dos fatores internos do crescimento pentecostal no Brasil. 56 R. Is Latin America turning protestant?. segundo Stoll. GARRARD-BURNETT (org. Quanto a isso. cabe investigar por que esse movimento religioso é mais eficiente que seus concorrentes no recrutamento dos estratos pobres. econômicos etc.pmd 23 31/3/2011. pp. entre outras coisas. Para compreender por que o pentecostalismo cresce mais entre os estratos pobres e socialmente mais vulneráveis da população do que as religiões concorrentes. BRUSCO. corretamente. Número 119. 08:16 23 . nos quais a participação é voluntária e a liderança é carismática. aponta 54 C. Este não pode ser interpretado como mera “resposta” a fenômenos socioculturais. sociedade e política. Compostas de grupos flexíveis. Philadelphia: Temple University Press.). em Coping with poverty: pentecostals and christian base communities in Brazil. MARIANO. que o pentecostalismo ajuda os fiéis a lidar com a pobreza. São Paulo: Hucitec. Baseando-se em trabalhos de Elizabeth Brusco59. enfatiza. o que lhes promete e oferece. de ALMEIDA.miliares e de gênero. MARIZ. 1996. PIERUCCI / R. Coping with poverty: Pentecostals and Christian base communities in Brazil. Ronaldo de Almeida56. incapazes que são de fazê-lo por conta própria em razão de sua baixa renda e escolaridade. Em suma. Rethinking protestantism in Latin America. que estratégias emprega para atraí-los. as igrejas pentecostais – em oposição ao clericalismo católico –. cabe fazer um parêntese para enfatizar que a pobreza e a privação social não explicam a expansão pentecostal. ajudam os pobres a reorganizar a vida.OK. 11-36. Belo Horizonte. mostra a importância do associativismo religioso para as camadas mais pobres da população. Perspectiva Teológica. como se vincula a seus interesses materiais e a suas visões de mundo. in D. p. Revista de Estudos da Religião Rever (2008) 68-95. da mesma forma. “The reformation of machismo: asceticism and masculinity among colombian evangelicals”. adaptam-se rapidamente às mudanças sociais provocadas pela modernização capitalista e ajustam-se mais facilmente às demandas e necessidades das massas de migrantes pobres em busca de refúgio fraternal58. 1993. Ano 43. p. Philadelphia: Temple University Press. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Elas não criam nem expandem a necessidade de as pessoas aderirem especificamente ao pentecostalismo.56). destacando o papel que as igrejas pentecostais desempenham na formação de redes comunitárias de solidariedade e sociabilidade e na atenuação da vulnerabilidade social. Não há dúvida de que o pentecostalismo cresce na pobreza ou na base da pirâmide socioeconômica. STOLL / V. como ele se organiza para convertê-los.

pp. social e política da América Latina contemporânea. de Sérgio Buarque de Holanda63. 11-36. São Paulo: Companhia das Letras. Número 119. Ano 43.). de fumar e de frequentar bares e passam a dedicar mais tempo à convivência com a família e a poupar recursos para o sustento familiar60. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . “Weber e a interpretação do Brasil”. SOUZA (org. aqui p. 26ª ed. 08:16 . Como se pode observar. 1999. Essa tradição convoca Max Weber para “explicar o atraso da sociedade brasileira” e. pp. in J. abandonam atividades sexuais extraconjugais. O malandro e o protestante: a tese weberiana e a singularidade cultural brasileira. 17. 60 61 24 Perspectiva Teológica. V.. Struggle for the spirit: religious transformation and popular culture in Brazil and Latin America. temática recorrente no pensamento social brasileiro desde fins do século XIX. portadora e disseminadora dos mesmos efeitos modernizantes gerados e difundidos pelas seitas do protestantismo ascético anglo-saxão a partir do século XVI. que. Virginia Garrard-Burnett61 considera que a expansão pentecostal constitui uma reforma (protestante) no sentido mais literal da palavra. ancoradas tradicionalmente no catolicismo. Rethinking protestantism in Latin America. Mobilizadas por tal inquietação. priorizam enfoque analítico cujo objetivo central consiste em desvendar se o pentecostalismo promove ou não a modernização capitalista e a democracia. de HOLANDA. Brasília: Editora UnB. subdesenvolvido e socialmente iníquo.pmd 24 31/3/2011. in STOLL / GARRARDBURNETT (org. 318-319. age como um “catalisador da modernidade” na América Latina e constitui extraordinário empreendimento de conquista cultural para tentar transformar a cultura popular brasileira e latino-americana. GARRARD-BURNETT. Em Struggle for the spirit: Religious transformation and popular culture in Brazil and Latin America. 173-193.a afiliação pentecostal como estratégia feminina para romper com a dupla moral sexual e domesticar os maridos. autoritário. VIANNA. 63 S. 64 L. 174. na tradição do pensamento social brasileiro iniciada em meados dos anos 30 por Raízes do Brasil. 1999. Raízes do Brasil. sobretudo com a herança do patrimonialismo ibérico. “como passo necessário para a conclusão dos processos de mudança social que levam ao moderno”64.W. A sociologia da religião elaborada para analisar a expansão pentecostal en- STOLL. ao mesmo tempo. p. 62 D. Tal como David Martin. A teoria da modernização expressa na literatura sociológica sobre o crescimento pentecostal no Brasil insere-se. sobretudo. Oxford: Polity Press. as principais pesquisas e reflexões sobre a expansão evangélica retomam a velha preocupação intelectual acerca da superação do Brasil arcaico. Reforma religiosa. 225. pp. pp. convertidos. para reivindicar a ruptura com nosso passado e nossas tradições. 199-210.). “Is this Latin America’s reformation?”.B. Is Latin America turning protestant?. embora fundamentalista. LEHMANN. Belo Horizonte.OK. deixam de beber. David Lehmann62 também considera que o pentecostalismo. 1996.

patriarcal. São Paulo: Anpocs. 28. as estruturas e os valores encontrados nas sociedades denominadas ocidentais como o parâmetro universal que define o que são sociedades modernas”. portanto. segundo Sérgio Costa66. faz coro também à propaganda ideológica (que permanece forte69) de que o “progresso”. porque sem conhecimento bíblico. o típico “viés desenvolvimentista e modernizador das nossas ciências sociais”. e da noção de modernidade entrelaçada. 69 Tal propaganda ideológica ainda é frequentemente empregada pelas lideranças evangélicas de nosso país.OK. E. SOUZA. autoritário. insistem em culpar o catolicismo pelos males brasileiros e. MARTINS / H. O malandro e o protestante. o povo não recebeu uma boa educação religiosa e foi amaldiçoado por causa da sua idolatria. atacam sistematicamente a Igreja Católica e apontam a obediência ao Evangelho como panaceia para os problemas dos fiéis e do país: “Por que o Brasil está em situação tão precária? Em primeiro lugar. é notório seu pendor para contrapor nossa herança cultural ibérica e católica à cultura nórdica protestante. elaborada por Eisenstadt. Ano 43.T.B. 65 Perspectiva Teológica. porque foi colonizado por um país vassalo de Roma. pp. Cabe observar que a teoria sociológica da modernização foi formatada inicialmente nos Estados no pós-guerra e “dominou o debate macrossociológico das últimas seis décadas em todo o mundo”. tendo sido colonizado pelos portugueses e ‘catequizado’ pelos jesuítas. 08:16 25 . Vide. 11-36.. COSTA. que aqui implantou uma religião que só trouxe corrupção e miséria para o nosso povo. Belo Horizonte.).pmd 25 31/3/2011. que. 29. proposta pelos estudos pós-coloniais. MARTINS (org. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 18. “Teoria por adição”. Foi somente a partir de meados dos anos 1990 que a interpretação eurocêntrica da modernidade típica das “teorias macrossociológicas dominantes” passou a ser criticada de “forma contundente e consistente”. Horizontes das Ciências Sociais no Brasil: Sociologia. uniforme e em expansão global68. para o qual nos chama a atenção Jessé Souza65. Número 119. “A ética protestante e a ideologia do atraso brasileiro”. Em segundo lugar porque.S. 2010. ou o desenvolvimento J. publicados semanalmente na Folha Universal. que solaparam a perspectiva da modernidade como um processo linear. os seguintes trechos de artigo de Mary Schultze. não se cansam de alardear as virtudes morais e econômicas do protestantismo. de um lado. 68 Ibid. 66 S. de outro. tal como em Raízes do Brasil. aqui p. sempre ressaltando as desvantagens da primeira e os obstáculos que ela impõe à modernização e à democracia. A perspectiva sociológica que vislumbra a existência de uma “afinidade eletiva” entre religião evangélica e modernidade capitalista foi influenciada sobretudo pela obra de Max Weber e pela atávica preocupação dos intelectuais brasileiros com a superação do Brasil arcaico. in C. 67 Ibid. 17-54. Tal perspectiva teórica estabeleceu “as normas sociais. p. que se identifica como “pesquisadora de religião” e cujos textos. Tal perspectiva sociológica.H.cerra. levando a que as sociedades não-ocidentais fossem medidas e avaliadas por tais padrões67. in SOUZA (org. p. por meio da ideia das múltiplas modernidades. por exemplo.). p. Em terceiro lugar. contudo.

pp. muito mais rico em território. 10/12/2000). praticando os vícios típicos dos países dominados pelas falsas religiões. envidou esforços para dar proteção jurídica. continua paraplégico. 11-36. 08:16 . 74 Ibid.G. tanto do ponto de vista social quanto espiritual.pmd 26 31/3/2011. aparece nas revistas missionárias e é consenso geral dos protestantes”. o Brasil. pp. p. água e metais preciosos. 51-52. o ingresso e. a “doutrina do progresso socioeconômico ligado ao protestantismo”. depois da Reforma Protestante se tornaram prósperos e felizes no hemisfério ocidental. O protestantismo. desenvolveram-se por causa de um livro [a Bíblia]. em especial dos Estados Unidos. norte-americana e alemã. entre as décadas de 1850 e 1870. anticlerical e ardoroso defensor das causas protestantes. foi negada a posse desse livro. depois de 500 anos. Na esteira do projeto expansionista das potências capitalistas. p. americana e alemã. Pela falta desse livro. VIEIRA.técnico e industrial. 95-112. O protestantismo. pp. que o transforma em nova criatura. Ano 43. e jamais conseguiu sair da precariedade” (Folha Universal. 230). Número 119. Tavares Bastos patrocinou imigrações inglesa. em parte. Difundida originalmente por propagandistas protestantes na América Latina71. No Chile. a Alemanha e os Estados Unidos. a maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil. Brasília: Editora UnB. e as demais nações protestantes. 71 O pastor metodista James Cooley Fletcher foi. Entre eles. 72 VIEIRA. 75. Enquanto a Inglaterra.. O refúgio das massas. Tavares Bastos insistia em defender que “a solução dos problemas econômicos e de desenvolvimento do Brasil se encontravam na importação maciça de imigrantes protestantes dos estados germânicos. defendeu a instituição do casamento civil e ampla liberdade de culto e de propaganda religiosa73. Os imigrantes e missionários protestantes foram acolhidos pelos setores liberais da elite o povo cresceu numa sucessão de gerações analfabetas. a maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil. o Brasil permaneceu na ignorância moral e religiosa. “era monopólio das nações protestantes”70. 26 Perspectiva Teológica. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . da Inglaterra e dos Estados Unidos”74. Belo Horizonte. que abre os olhos do povo. o maior propagandista religioso da ideia de que a imigração protestante era fundamental para o progresso do Brasil. Tal propaganda foi difundida desde as primeiras décadas do século XIX no Brasil por missionários e negociantes protestantes de origem inglesa. política e policial aos missionários evangélicos contra os ataques e interesses institucionais do clero ultramontano. enveredando pelo caminho da corrupção moral e espiritual. afirma d’Epinay (D’EPINAY.OK. que o conduz à liberdade e à honestidade de caráter. a tese que associa protestantismo ao progresso econômico reiterava opiniões manifestas em debates parlamentares e na imprensa já nos anos 1830 e era compartilhada por elevado número de políticos e intelectuais liberais brasileiros72. a difusão do protestantismo de missão no país foram bem-sucedidos. Liberal. para citar apenas três países. 52. Os três países referidos. destaca-se o escritor e deputado liberal alagoano Aureliano Cândido Tavares Bastos. Ao Brasil. “embora não ensinada oficialmente. p. 70 D. 73 Ibid. 52. a propaganda. 1980.. Em 1862. dileto amigo dos missionários protestantes. nas Cartas do Solitário.

capitalista. p. “A volta do sagrado: os caminhos da sociologia da religião no Brasil”. ex-pastores. p. Tese de Doutorado em sociologia.OK.pmd 27 31/3/2011. ex-líderes leigos forçados a deixar suas funções [por dirigentes protestantes que apoiavam a ditadura militar]. ALVES. Pablo Semán79.P. Para pesquisadores brasileiros protestantes ou de origem protestante. Campinas: IFCH-Unicamp. uma vez que o percebiam. MENDONÇA / VELASQUES FILHO.P. alguns investigadores consideram que o paradigma teórico da modernização engessou o debate e tornou pouco fecunda a pesquisa sociológica sobre a expansão pentecostal. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . conclama 75 A. O protestantismo ascético descrito por Weber nem sequer aportou no Brasil. pontifica o ex-presbiteriano Rubem Alves77. Protestantismo y cultura en América Latina: aportes y proyecciones. Quanto às críticas de sociólogos e historiadores contra a suposta relação de afinidade entre pentecostalismo e modernidade. MENDONÇA / P. Ano 43. conservadoras. in T. 1976. 1979. Número 119. por exemplo. FRESTON. Introdução ao protestantismo no Brasil. O iluminismo num protestantismo de constituição recente. autoritárias e passivas76. 76 Sobre as críticas de pesquisadores evangélicos ao protestantismo histórico. 1988. Dogmatismo e tolerância. Perspectiva Teológica. pp. porém. e E. 1990. VELASQUES FILHO.] O protestantismo é analisado como uma ideologia repressora. 134135. dogmáticas. São Paulo: Ática. A seu ver. Rio de Janeiro: Zahar. Ideologia e prática educativa. o protestantismo servia como contraponto aos privilégios das autoridades eclesiásticas católicas e à deletéria influência do catolicismo no Estado imperial e na sociedade brasileira. como uma das fontes do atraso social e econômico do Brasil. O refúgio das massas. isolacionistas. RAMALHO.G. acusam-no de adotar ética e mentalidade alienantes. Protestantismo e repressão.brasileira como “arautos do liberalismo e do progresso”75. J.A. 74. R. GUTIERREZ (org.G. a virulência das críticas decorre do fato de que “os cientistas que se dedicaram a fazer uma análise crítica do Protestantismo são. Estes pesquisadores criticam seu conservadorismo teológico e sua ética pietista.). “La mutación del protestantismo latinoamericano: una perspectiva socio-histórica”. 127. que se encontra em casa num Estado capitalista e totalitário”78. fundamentalistas. SEMÁN. [. 08:16 27 . BASTIAN. p. São Paulo: Loyola. 78 ALVES. São Bernardo do Campo: Programa Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião. ver D’EPINAY. 1993. R. Para eles. totalitária.. 11-36. Equador: Clai-Cehila. 1994. São Paulo: Paulinas. Protestantes e política no Brasil: da Constituinte ao impeachment. Newsletter de la Asociación de Cientistas Sociales de la Religión en el Mercosur (1998/ n. Em sua crítica aos referidos trabalhos de David Martin e David Stoll. 77 ALVES.A. Dogmatismo e tolerância.6). ALVES. nada resta da velha ética e da ascese protestantes promotoras da racionalização da conduta e da modernidade ocidental no protestantismo brasileiro. e P. ver J.. Belo Horizonte. LÉONARD. Introdução ao protestantismo no Brasil. “Para nuevas perspectivas en los estudios sobre el pentecostalismo”. especialmente a partir do último terço do século XIX. ex-seminaristas. 1982. 79 P. todos eles (na medida em que conheço). Quito. Alheios às avaliações dos pesquisadores protestantes sobre o protestantismo brasileiro.

Ano 43. a teoria da escolha racional da religião. Tempo Social – Revista de Sociologia da USP 20 (2008/ n. in N. é. “uma função de suas estruturas organizacionais. Em seu lugar. 359. ver A. em campos religiosos desregulados pelo Estado ou em que imperam liberdade e pluralismo religiosos. Tendo em conta a expansão do “protestantismo à brasileira” da Igreja Universal. critica o apego dos pesquisadores do campo protestante a essa “simplificação. 83 R. Laurence Iannaccone e Roger Finke. p. The Handbook of Economic Sociology.pmd 28 31/3/2011. Montero81 argumenta que “o crescimento de um protestantismo marcadamente mágico e taumatúrgico obriga a repensar as bases da postulada relação entre protestantismo e modernidade”. algumas vezes caricatural. “Teorias econômicas aplicadas ao estudo da religião: em direção a um novo paradigma?”. e MARIANO. cuja formação ocorre em meados dos anos 80 nos Estados Unidos. p. “Crescimento pentecostal no Brasil: fatores internos”. sobretudo. Rodney Stark. Princeton e Oxford / New York: Princeton University Press / Russell Sage Foundation.. FRIGERIO. 82 Sobre as principais ideias defendidas pela teoria da escolha racional da religião.OK. de uma sociologia weberiana da modernização”. defendem a ideia de que a desregulação estatal da religião favorece a expansão do pluralismo religioso e aumenta a mobilização religiosa dos agentes e grupos religiosos e. Belo Horizonte.2) 17-39. p. “New directions in the study of religion and economic life”. 2005. William Sims Bainbridge. “O paradigma da escolha racional: mercado regulado e pluralismo religioso”. SWEDBERG (org. “Religiões e dilemas da sociedade brasileira”. A ênfase analítica na oferta religiosa Na última década. por tabela. 356. relegando a segundo plano a investigação da religiosidade individual e de mudanças nas demandas religiosas de segmentos populacionais resultantes de transformações socioculturais. de seus representantes de vendas.). os debates e polêmicas acadêmicos que ensejou e as críticas que recebeu. 615. prioriza a investigação da oferta religiosa e de sua maior ou menor regulação pelo Estado. da mesma forma. tal como fizeram as teorias funcionalista e marxista em relação à expansão pentecostal no Brasil.50) 125-143 [Rio de Janeiro]. Paula Montero80. Os expoentes dessa teoria. da poMONTERO.os pesquisadores do protestantismo a ultrapassar os limites reducionistas enfeixados pelo núcleo temático contido na relação entre o devir da modernidade e a esfera religiosa. 08:16 . Sua ênfase analítica na oferta religiosa parte do pressuposto de que o destino dos grupos religiosos. de seus produtos e de suas técnicas de marketing”83. econômicas e políticas. 11-36. Ela opõe-se à perspectiva sociológica que deriva o crescimento religioso de mudanças macroestruturais da sociedade. 80 81 28 Perspectiva Teológica. Ibid. A. SMELSER / R. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . FRIGERIO.J. Número 119. p. BIB – Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais (2000/n. WUTHNOW. tornou-se importante chave heurística e analítica para a investigação da dinâmica do campo religioso e do crescimento institucional de grupos religiosos82.

pulação. Ferrenhos oponentes da teoria da secularização, invertem, assim,
a clássica tese de Peter Berger84, segundo a qual o pluralismo religioso
enfraquece a religião, seculariza a sociedade, gera ceticismo e descrença,
relativiza os discursos religiosos concorrentes, reduz sua plausibilidade,
tornando-os privados e subjetivos.
Em contraste com a posição de Berger, Stark e Iannaccone85 defendem que
“a participação religiosa é mais alta onde um número proporcionalmente
maior de empresas religiosas competem”. A desregulação estatal da religião e, sobretudo, o fim de monopólios religiosos sustentados pelo Estado
asseguram liberdade e tolerância religiosas e possibilitam a emergência de
novos grupos religiosos e de novas religiões concorrentes. Num contexto
de liberdade e de pluralismo religiosos, os diferentes grupos religiosos se
veem mais ou menos compelidos a disputar mercado para sobreviver e
crescer diante da concorrência, acirrando a competição, estimulando e reforçando seu ativismo e a eficiência proselitista de seus dirigentes e leigos,
diversificando e ampliando o volume da oferta de bens e serviços religiosos e ajustando-a a diferentes públicos e clientelas, criando novos nichos de
mercado etc. Propiciados pela desregulação estatal da religião, liberdade e
pluralismo tendem a ampliar, assim, a concorrência religiosa, o dinamismo
religioso, a mobilização e participação religiosa da população. Em contraste, a regulação estatal, que tanto pode reprimir, privilegiar ou suprimir
determinadas religiões, tende a restringir a competição religiosa e a diversidade de opções religiosas disponíveis aos consumidores religiosos, a gerar
comodismo e menor vitalidade nos produtores religiosos86. Essa corrente
teórica interpreta, portanto, as variações quantitativas na atividade religiosa nos diferentes países como consequência direta das variações no vigor
dos grupos religiosos, vigor que tenderá a ser maior quanto menor for a
intervenção estatal no campo religioso e quanto maior for a liberdade religiosa.
A liberdade de escolha dos consumidores religiosos tende a constranger
mais fortemente os grupos religiosos onde há menor regulação estatal da
religião e maiores pluralismo e competição religiosos, segundo Iannaccone87.
Nesse contexto pluralista e concorrencial, na defesa de seus poderes sacerdotais e interesses institucionais, as lideranças religiosas se veem impelidas
84
P.L. BERGER, O Dossel Sagrado: Elementos para uma sociologia da religião, São
Paulo: Paulinas, 1985.
85
R. STARK / L.R. IANNACCONE, “Sociology of religion”, in E.F. BORGATTA / M.L.
BORGATTA (org.), Encyclopedia of Sociology, vol. 4, New York: MacMillan Publishing
Company, 1992, pp. 2029-2037, aqui pp. 2031-2032.
86
R. FINKE, “The consequences of religious competition: supply-side explanations for
religious change”, in L.A. YOUNG (org.), Rational choice theory and religion: summary
and assessment, New York: Routledge, 1997, pp. 45-64, aqui pp. 49, 51.
87
L.R. IANNACCONE, “Rational choice: framework for the scientific study of religion”,
in YOUNG (org.), Rational choice theory and religion, pp. 25-44, aqui p. 27.

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a fazer concessões e a moldar o conteúdo de seus bens e serviços religiosos
às preferências de fiéis e clientelas flutuantes. Contudo, os constrangimentos derivados da liberdade religiosa dos indivíduos tanto podem levá-las
a diversificar a oferta de seus bens e serviços religiosos como a homogeneizálos, algo imprevisto por esses pesquisadores. No campo religioso brasileiro, constituem indícios de homogeneização, por exemplo, a ênfase na cura,
no louvor musical e na emoção e a cópia de práticas e estratégias proselitistas
bem-sucedidas da Igreja Universal do Reino de Deus por parte de igrejas
pentecostais e da própria Renovação Carismática Católica.
O foco analítico centrado na oferta religiosa procura compreender o efeito
do contexto jurídico-político sobre a dinâmica da economia religiosa. Nesse intento, prioriza a análise dos efeitos do grau de regulação estatal da
religião (a relação entre Igreja e Estado, religião e política, a maior ou
menor liberdade de culto e de religião), da existência ou não de monopólio, do pluralismo, do mercado, da concorrência e das organizações religiosas sobre os produtores e consumidores religiosos. Tal abordagem
contextual, porém, se revela deveras limitada para compreender as escolhas e os comportamentos dos produtores e consumidores religiosos.
O fato é que essa perspectiva teórica padece de inúmeras críticas, como as
que seguem: 1) desconsidera, em boa parte, mediações e constrangimentos
sociais, culturais, políticos, institucionais e estruturais que influenciam,
moldam e limitam as preferências e escolhas religiosas individuais e coletivas; 2) desconsidera a ação orientada por valores e o “papel dos fatores
afetivos, simbólicos e emocionais no desenvolvimento de identidades coletivas”88; 3) hipertrofia a racionalidade instrumental dos agentes religiosos, tratando crenças, práticas e compromissos religiosos como ações
autointeressadas ou que visam tão somente maximizar benefícios pessoais89; 4) seu enfoque restringe-se às economias religiosas dominadas por
religiões congregacionais que exigem exclusividade de compromisso de
seus adeptos90; 5) peca pela parcialidade ao não incorporar, como complemento de suma importância, a análise da demanda religiosa para explicar
o que se passa na denominada economia religiosa.
Um de seus principais defensores na América Latina, Alejandro Frigerio91,
destaca os méritos dessa perspectiva teórica, afirmando que ela trata, por
88
P.A. MELLOR, “Rational choice or sacred contagion? ‘Rationality’, ‘non-rationality’ and
religion”, Social Compass 47 (2000/n.2) 273-292, aqui p. 277.
89
C. JEROLMACK, “Religion, rationality, and experience: a response to the new rational
choice theory of religion”, Sociological Theory 22 (2004/n.1) 140-160, aqui p. 157.
90
S. SHAROT, “Beyond christianity: a critique of the rational choice theory of religion
from a weberian and comparative religions perspective”, Sociology of Religion 63 (2002/
n.4) 427-454.
91
FRIGERIO, “Teorias econômicas aplicadas ao estudo da religião: em direção a um novo
paradigma?”, p. 132.

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definição, como racionais escolhas e comportamentos religiosos, em vez de
cair em preconceitos presentes, por exemplo, em interpretações marxistas
e freudianas do fenômeno religioso, que os analisam como opiáceos, irracionais e produtos da ignorância, de anomia e de crises sociais.
A ênfase na oferta religiosa tem como mérito, também, permitir focar a
investigação no que as igrejas pentecostais fazem efetivamente para crescer – considerando-se o contexto de regulação estatal da religião e os constrangimentos singulares propiciados pela liberdade dos agentes religiosos,
pelo pluralismo e pelo mercado religioso –, visando compreender por que
muitas crescem pouco, por que algumas decrescem e perecem e por que
outras granjeiam extraordinárias taxas de crescimento de membros, congregações, templos, além de visibilidade pública, emissoras de rádio e TV,
representantes parlamentares etc. Assim, a pesquisa pode se concentrar
em verificar o que elas fazem – e se e como e por que o fazem – para
enfrentar a concorrência, evangelizar, melhorar a eficácia proselitista em
certos nichos de mercado, formar pastores e dilatar seu número, abrir novas
frentes de missão e evangelização, aumentar o compromisso religioso dos
adeptos, ajustar o discurso e os ritos religiosos a interesses e demandas dos
leigos, ampliar e diversificar a oferta de bens e serviços mágico-religiosos,
estender a captação de recursos, empregar técnicas publicitárias, estratégias de marketing e métodos modernos de gestão e organização.
Não é à toa que se tende a priorizar a análise de fatores internos ao campo
religioso quando se procura compreender o acelerado crescimento, por
exemplo, da Igreja Universal do Reino de Deus, destacando determinadas
ações e estratégias de seus dirigentes, como segue: 1) a funcionalidade da
concentração de poder eclesiástico e de governos eclesiásticos verticais para
a centralização dos recursos financeiros da denominação e para a realização de grandes investimentos em meios de comunicação de massa, construção de templos, envio de missionários e abertura de novos campos de
missão, sustento de amplo número de pastores trabalhando em tempo
integral; 2) a racionalização empresarial da gestão e da organização
institucional; 3) a formação rápida e em larga escala de pastores; 4) a opção
estratégica pelo evangelismo eletrônico para amplificar a atração das massas aos cultos; 5) a hipertrofia da oferta sistemática e organizada de serviços mágicos (curas, exorcismos, libertações espirituais, ritos e promessas
de prosperidade material e financeira, resolução de problemas familiares,
afetivos, emocionais, psicológicos etc.) para ajustar-se a visões de mundo,
interesses e demandas de largas parcelas da população e, assim, ampliar
a demanda por seus bens e serviços religiosos92 .

92

MARIANO, “Crescimento pentecostal no Brasil: fatores internos”.

Perspectiva Teológica, Belo Horizonte, Ano 43, Número 119, p. 11-36, Jan/Abr 2011

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ao lado do islamismo. seu ativismo eleitoral e políticopartidário. segundo estimativas dos institutos Ibope e Datafolha efetuadas durante a eleição presidencial de 2010. da imprensa e da opinião pública nacional. sobretudo feministas e homossexuais. de suas ramificações e de sua complexidade. a cultura.OK. com escopo empírico recortando de forma mais circunscrita e especializada seus objetos de investigação.pmd 32 31/3/2011. isto é. as pesquisas antropológicas e sociológicas sobre essa religião no Brasil têm se tornado crescentemente mais setoriais. p. entre um quinto e um quarto da população. avançam as pesquisas sobre. Ano 43. musical e fonográfico93. “Sociologia da religião. como se sabe. Horizontes das Ciências Sociais no Brasil: Sociologia. como força demográfica. A despeito das limitações teóricas das análises sociológicas sobre a expansão pentecostal. sua rivalidade com grupos laicistas. Tanto que o pentecostalismo já alcança entre 20 e 25% dos brasileiros. ainda há muito que pesquisar para compreender as enormes mutações religiosas pelas quais o país tem passado nas últimas décadas.). a democracia. as relações de gênero.F. Considerando sua crescente relevância como movimento religioso. Atualmente. in MARTINS / MARTINS (org. é o que mais cresce no Brasil e na América Latina e. entre as quais sobressai a vertiginosa expansão do pentecostalismo. os mercados editorial. 11-36. movimento religioso que.À guisa de conclusão. Cf. como player político e como empreendedor midiático no país. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 93 32 Perspectiva Teológica. Número 119. Belo Horizonte. o fato é que já se percorreu longo caminho na compreensão desse fenômeno religioso. O pentecostalismo constitui o fenômeno religioso mais estudado no Brasil pelas ciências sociais da religião nas últimas décadas. uma sociologia da mudança”. PIERUCCI / R. Assim. sua ocupação religiosa da esfera pública. sua crescente presença e atuação na mídia eletrônica e seu impacto sobre o campo religioso. até por conta da ampliação de seu tamanho. 08:16 . continuará sendo objeto de grande atenção acadêmica. MARIANO. por exemplo. um dos que mais crescem no mundo. A.

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70. WUTHNOW. SWEDBERG (org. 11-36. SMELSER / R.G. autor do livro Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (São Paulo: Loyola.OK. Princeton e Oxford / New York: Princeton University Press / Russell Sage Foundation. p. apto. E. Brasília: Editora UnB. 1980. Ano 43. Followers of the new faith: culture change and rise of protestantism in Brasil and Chile. Nashville: Vanderbilt University Press. 1999) e de diversos artigos na área de sociologia da religião.). 08:16 . professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUCRS.. Belo Horizonte. Número 119. pesquisador do CNPq.. O protestantismo. “New directions in the study of religion and economic life”.VIEIRA.pmd 36 31/3/2011. D.. The Handbook of Economic Sociology. a maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Ricardo Mariano é doutor em sociologia pela USP. Endereço: Rua Guararapes. 2005. WILLEMS. R. 601 90690-340 Porto Alegre – RS e-mail: rmariano@pucrs.J. in N.br 36 Perspectiva Teológica. 1967.

so that.OK. Número 119. one might direct oneself to the center of social and ecclesiastical processes. Busca descobrir a possibilidade de encontro dos centros da vida mesmo quando se está ainda à margem da sociedade.VINDOS DESDE AS MARGENS DO MUNDO: TIR DAS UMA LEITURA DO PENTECOST ARTIR PENTECOSTALISMO ALISMO A PAR TEORIAS DA MARGINALIDADE (Coming from the margins of the world: A reading of the Pentecostal Movement in the light of theories of marginalization) Alessandro Rocha Ana Maria Tepedino * RESUMO: O artigo aborda o tema do pentecostalismo privilegiando a margem (social e eclesial) como lugar de tomada de consciência. ABSTRACT: The article takes up the theme of Pentecostalism. Gender. Imaginary theory. * Departamento de Teologia da PUC (Rio de Janeiro). Marginalization. Ao final pondera-se sobre as potencialidades do sacerdócio de todos os cristãos como elemento de pro-vocação que vem desde os lugares (teológicos) marginais. 08:16 37 . Ano 43.Belo Horizonte. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . dirigir-se ao centro dos processos sócioeclesiais.pmd 37 31/3/2011. It seeks to discover the possibility of an encounter with the centers of life even while one is on the margin of society. giving priority to the margin (social and ecclesiastical) as the local of a coming to consciousness. PALAVRAS-CHAVE: Pentecostalismo. there is a reflection on the potentialities of the priesthood of all Christians as an element of pro-vocation which comes from the theological places of marginalization. Autores convidados. 37-53. Gênero. Artigo recebido em 09/03/2011. At the end. Para. from this local. KEY-WORDS: Pentecostalism. Perspectiva Teológica. a partir desse lugar. Marginalização. Teoria do imaginário. p.

O elemento que Durand percebe como potencializador do que se encontra à margem é o imaginário. surgiu das margens mais improváveis. daquilo que pode fecundar a realidade para novos momentos e projetos. Do ponto de vista epistemológico. mais especificamente. ao contrário. Aquilo que ele chama de “ciência do imaginário”2. • Das margens da margem ao centro da margem. Belo Horizonte. Seguindo a intuição de que das margens do mundo emergem novos elementos capazes de renovação percorreremos nesse artigo sobre o pentecostalismo o seguinte caminho: • A margem como lugar de tomada de consciência. G. ou seja. antropólogo francês de enorme importância no âmbito dos estudos sobre teoria do imaginário.OK. é um reforço dinâmico da marginalidade do imaginário”1. 1998. • Por um centro com cara de margem. Ano 43. pode ser reduzida à inércia pelo imaginário. O que acontece. afirma que “nenhuma situação social. Uma nova configuração do poder surgiria. p. amplamente aberta à experiência como forma de percepção da realidade. onde os centros de poder sofreram duras críticas. mesmo a mais marginalizada. e com a cabeça no centro. • Descobrindo os centros da vida mesmo que ainda à margem da sociedade. 1 2 38 perspectiva 119 .. Num mundo de mudanças de paradigmas. 159. Grenoble: Ellug. Durand. uma abordagem à realidaG. Rio de Janeiro: DIFEL. dentro do universo conceitual de Gilbert Durand. p. DURAND.. 77. Jan/Abr 2011 38 31/3/2011. Desta forma Durand potencializa uma leitura da marginalização como lugar fértil para a emersão do novo. uma força espiritual capaz de desafiar as organizações sócio-teológico-eclesiais do Ocidente. Número 119. O imaginário: Ensaios acerca das ciências e da filosofia da imagem. dando espaço ao estético e a inúmeras formas de representação da realidade a partir de hermenêuticas particulares. 1. a razão forte ancorada no racionalismo mecanicista viu-se questionar por uma razão fraca. A margem como lugar de tomada de consciência Tomaremos o conceito de “margem” numa perspectiva teórica e. 08:16 . Champs de l’imaginaire. p. 37-53.pmd Perspectiva Teológica. DURAND. No que diz respeito ao cristianismo em suas várias tradições é preciso destacar aqui a emergência dos pentecostalismos que acabou por se constituir numa resposta de vanguarda às profundas mudanças na civilização ocidental. 1996.Introdução O século XX foi o palco de grandes e profundas transformações societárias.

poluidor. é reduzida à inércia do imaginário5. Eles experimentam a exclusão. O marginalizado é o negativo absoluto. Sendo um habitante de um universo ricamente simbólico. enquanto que os “senhores” do tempo constituem a sociedade dominante.. 6 Cf. 71-77. têm na teoria do imaginário o conjunto de elementos necessários para a leitura de suas realidades. Ano 43.Belo Horizonte. 4 Cf. vivem à sua margem. segundo Durand. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 159. bem como sua pertinência para a abordagem que aqui fazemos de um estrato do mundo religioso que tem sua origem e boa parte da sua história à margem das sociedades que o viram crescer (pentecostalismo). Durand dedica a segunda parte dessa obra (As ciências do imaginário) ao reordenamento das ciências humanas frente à emersão do imaginário como elemento estruturador da existência humana. Agora. aos poucos. e re-elaborar sua experiência e história. Em função da riqueza do pensamento de Durand. ibid. a marginalização! Mas.. Ora. Durand cita a “moda” como exemplo: o que era desprezado. que dentre outras coisas se encontram à margem dos saberes racionalistas. Nenhuma situação social. pp. ibid. O primeiro argumento da teoria do imaginário de Durand é a ligação entre os marginalizados e seu imaginário para sair desta situação: as “exclusões” na dinâmica social. Champs de l’imaginaire. são uma espécie de reserva cultural e social. de repente se valoriza. ameaçador. pp. como polo imaginário negativo.. é justamente este negativo que possui uma potência social tópica. 35-74.de que valoriza o universo dos símbolos e mitos como elementos de ordenação.OK.pmd 39 31/3/2011. assistimos a um reforço dinâmico da marginalidade através do imaginário. p. 3 Cf. vivemos esta experiência com a moda dos anos 60. o homo religiosus é capaz. aquele que não importa. considerado de mau gosto. Essas observações de Durand encontram sua maior expressão e dinamismo no universo do homo religiosus4. Ao contrário. A partir desse pensamento de Durand é possível dizer que os grupos marginalizados. primeiro. Este reforço negativo. ibid. estas pessoas são excluídas pela classe dominante. elencamos dois importantes argumentos que nos possam orientar na trajetória da valorização do lugar da margem como berço acalantador do novo que queremos colher para possíveis inspirações teológicas. mesmo estando à margem da sociedade. p. o rejeitado completo. Embora vivendo como todo mundo na sociedade. “as margens”. p. Número 119. de ler sua realidade com outras chaves. 160. O excluído entra. mesmo a mais excluída. com o nome positivo de “retro” e se torna uma antiguidade valorizada e colocada na vitrine6. vai sendo colorido por elementos positivos. 08:16 39 . 37-53. 5 DURAND. Perspectiva Teológica. desordenação e re-ordenação social3. bem como para a respectiva compreensão e superação da lógica perversa que os dominam.

símbolos ativos. pp. Número 119. este habitus se banaliza. mas. e significa uma voz indispensável no concerto de uma cultura e de uma sociedade. Levar a sério o imaginário parece ser uma renovação das ciências humanas e uma nova visão do mundo. símbolo feminino. algo que não tem a violência da razão instrumental. G. símbolos passivos. M. 77. São Paulo: Martins Fontes. Petrópolis: Vozes. Durand afirma que o regime noturno está substituindo o diurno. uma sintonia emocional. Ano 43. na pós-modernidade. agressivos.Cada sociedade tem seu habitus identificador. “As estruturas antropológicas do imaginário” e sua teoria dos dois regimes do imaginário7. p. E quando esta identificação torna-se certeza. As estruturas antropológicas do imaginário. em seguida. entrada numa energia nova. O Pentecostalismo que é caracterizado pela efusão do Espírito Santo. Durand apresenta o regime diurno como masculino representado pela espada e pelo cetro. pode ser considerado do regime noturno.pmd Perspectiva Teológica. será substituído pelo movimento de recepção representado pela taça. Jan/Abr 2011 40 31/3/2011. num ambiente coletivo representado pelo “continente”. mas se contenta em acompanhar o que cresce lentamente em função de uma razão interna8. e significa uma voz indispensável no concerto de uma cultura e de uma sociedade. Nela. O segundo argumento da articulação do Pentecostalismo com a teoria do imaginário está baseado na maior obra de G. O mito do “progresso”. 37-53. pelo “batismo no Espírito” (figura que aponta para a realidade de cada crente como “taça” que recebe o vinho novo). e pelo cofre. “A representação dos excluídos” é uma parte fundante na gênese do imaginário social. uma religião que está neste regime seria mais aderente a este momento que nos toca viver. apresenta o regime noturno como feminino. Assim. Levar a sério o imaginário parece ser uma renovação das ciências humanas e uma nova visão de mundo. é um símbolo guerreiro e conquistador. infunde uma segurança. Esta é uma outra maneira de entender a criação. pelo vazio. 2002. pelo vazio. o autor reflete que agora.OK. representado pela taça. processo que o sociólogo francês Michel Maffesoli chama de “ingressso”. DURAND. o marginalizado de ontem pode tornar-se o dominante de hoje. Elogio da razão sensível. MAFFESOLI. “A representação dos excluídos” é uma parte fundante na gênese do imaginário social. 2003. 8 Cf. Belo Horizonte. no caso da sociedade brasileira: o catolicismo. que imperou durante toda a modernidade. representava a penetração do mundo. isto depende de uma geração antropológica que consiga tomar outra posição. e neste caso. de recepção. Durand. p. pelo movimento de descida. 7 40 perspectiva 119 . e a outra parte se potencializa nas margens mitogênicas da cultura. 65-374. 08:16 .

Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Revista Compromisso 1 (2003/n.Belo Horizonte. 76 [Rio de Janeiro. em segundo lugar. O berço de onde o pentecostalismo se levantou foi o das periferias dos Estados Unidos da América. Juerp]. estaremos caminhando para o tópico seguinte onde trabalharemos a valorização do sacerdócio universal de todos os cristãos. da discriminação racial e das grandes restrições de direitos sociais. que por sua vez deve muito ao conceito wesleyano de perfeição cristã como uma segunda obra da graça. mas de perceber que é dali onde ela está que se pode começar um processo de reordenamento de toda a realidade. por último. quando ainda se está à margem dos processos sociais. Ano 43. No intuito de evidenciar tal potencial da vida à margem percorreremos o seguinte caminho em nossa leitura sócio-teológica do pentecostalismo em suas origens: em primeiro lugar. chamaremos a atenção para a centralidade da experiência. como é possível descobrir e se localizar nos centros de vida. não se trata de glorificar a vida que se obriga à margem. Ou ainda. Ele surgiu no início do século XX do movimento de “santidade”. reconstruiremos a geografia social do pentecostalismo no sentido de evidenciar que esta se constitui no horizonte dos pobres. ou seja. Número 119. Nesta problematização já está de alguma forma dito que. Isso. “Surgimento e consequências do pentecostalismo”. na Escola Bíblica de Topecka. De forma mais específica. nesse momento.OK.1) 70-80. Perspectiva Teológica. Desta forma. “Desvalorizados pelo mundo e eleitos de Deus” Na perspectiva da teoria de Durand acerca da marginalização e do imaginário como instrumento capaz de impulsionar mulheres e homens da invizibilização marginal ao protagonismo dos processos de vida. peculiaridade da gnosiologia própria a esse movimento de margem que tanto privilegia a lógica do imaginário. um negro operário. veremos o quanto tal gnosiologia opera um re-ordenamento sócio-religioso que se evidencia na relativização das estruturas eclesiais hierárquicas. 9 A. sob a direção do Pastor branco Charles Paham9. distinto da justificação. é possível criar um novo ordenamento para a vida que se encontra à margem sem que a opressão desta impere sobre aquela. O Pentecostalismo em sua origem tem uma geografia marcada pelos traços da pobreza. Descobrindo os centros da vida mesmo que ainda à margem da sociedade. Queremos problematizar a seguinte questão: como os desvalorizados pelo mundo se compreendem como eleitos de Deus.2. ROCHA. a partir da valorização do imaginário como forma de percepção da realidade e sua dinâmica. 08:16 41 . 37-53.pmd 41 31/3/2011. tomamos o pentecostalismo em sua origem nos Estados Unidos da América (USA). no entanto. aqui p.R. passamos agora a uma aproximação de um dos vários grupos à margem da sociedade. p. a partir das experiências de William Seymour. subvertendo os valores ditados pelo racionalismo é possível construir uma vivência ainda nos espaços marginalizados que antecipem de forma profética os valores que se encontram em maior evidência nos centros.

deixamos o Espírito guiar os crentes e dizer-lhes o que ofertar. Ano 43. Quando alguém fica cheio do Espírito. 38. A novidade daquele movimento estava. p. devido à sua cor. Nós. 29. 1990. 255-256. Introdução ao protestantismo no Brasil.G. o da promoção da justiça11. mulheres e crianças12 foram se constituindo protagonistas na pregação e vivência eclesial do evangelho. 42 perspectiva 119 . SEYMOUR. pelo racionalismo teológico de um lado. na condição destes agentes. leva para a periferia de Los Angeles aquela mensagem que iria revolucionar a vivência da fé. Como narra Seymour. 11. mas também social. Belo Horizonte. Número 119. O avivamento da Rua Azuza. mais especificamente pneumatológica. e muitos tornaram-se fanáticos. porém. especialmente 10 R.. VELASQUES. MENDONÇA / P. Se Deus lhe ordenar: Venda! Ele vende13. chegando mesmo a apontar que o pentecostalismo – como de forma geral as religiões do Espírito – cumpre um papel que o cristianismo tradicional. O pentecostalismo gerou uma nova perspectiva teológica onde o Espírito é quem capacita os agentes religiosos para as diversas funções na Igreja. a sua carteira se converte e Deus o torna mordomo. que só podia assistir da varanda da casa às exposições bíblicas de Paham.pmd Perspectiva Teológica. Essa experiência de partilha e cooperação é fundamentalmente teológica. CESAR. 13 W. São Paulo: Loyola. esse proto-teólogo da experiência pentecostal: “a verdadeira evidência de que o crente recebeu o batismo com o Espírito Santo. 2001. 14 Ibid. 37-53. sobretudo dos negros e pobres norte-americanos. SHAULL / W. e pelo rigor litúrgico e o objetivismo doutrinário por outro. que é a caridade”14. Jan/Abr 2011 42 31/3/2011. venderam o que tinham. p. o pentecostalismo em sua origem marca também uma posição teológica (mesmo que não sistematizada em seus inícios) em face ao mundo religioso de seu tempo. 11 A. católico e protestante não atende mais. 08:16 . todavia. o pentecostalismo foi uma resposta ao sofrimento dos pobres10. Petrópolis: Vozes. Também Antônio Gouvêa de Mendonça e Prócoro Velasques refletem sobre esta íntima relação do pentecostalismo com as classes mais pobres da sociedade norte-americana. Este era marcado. p. Como observa Richard Shaull. mas também a brasileira. Rio de Janeiro: CPAD. Esse grupo foi se transformando no movimento de comunhão e cooperação em nível religioso. Diante de tal situação o pentecostalismo assumiu o protagonismo em tornar relevante a fé para grandes parcelas do povo. 2000. e para o pentecostalismo nascente.OK. é o amor divino. entre outras coisas. p. Operários negros. Além da geografia marcada pela desigualdade social e racial. 12 Segundo os historiadores do pentecostalismo a primeira manifestação do dom de línguas se deu num garoto negro de oito anos. Como diz Seymour acerca da ação do Espírito: Houve mestres que ordenaram às pessoas. pp. Pentecostalismo e o futuro das Igrejas cristãs.Seymour.

Frente ao universo religioso protestante marcado por racionalismos críticos ou apologéticos. Em primeiro lugar ocorreu uma expansão gigantesca que se deve. Espírito Santo: Aspectos de uma pneumatologia solidária à condição humana. a partir daí. Isso produz. a possibilidade de que cada crente pentecostal faça a experiência pneumatológica e simultaneamente se torne seu próprio sistematizador. o pentecostalismo marca sua presença afirmando o lugar irredutível da experiência. Para isso recorremos a um texto do próprio Seymour onde afirma: Cada filho de Deus deve buscar o seu pentecostes pessoal. Não é preciso que lhe anuncie a doutrina do Batismo com o Espírito Santo e com fogo. formar grupos de vivência da fé com toda a dignidade eclesial. pois você pode obedecer ao que Jesus diz: Onde estiverem dois ou três reunidos em meu Nome. A centralidade da experiência no pentecostalismo acabou por exercer enorme incidência sobre a eclesiologia. O crente como aquele que experimenta e sistematiza a fé torna-se ao mesmo tempo objeto e sujeito na relação com o Espírito. Radicalmente isso significa que cada fiel reúne todas as condições (dons espirituais) para exercer o ministério da pregação e. 08:16 43 . ROCHA. A ideia de clero e laicato é amplamente relativizada nesse ambiente. vale a pena ver o documentário Santa Cruz. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Número 119. em boa medida. Ano 43.OK. São Paulo: Vida.. Desta forma torna-se necessário enfatizar alguns aspectos que essa centralidade da experiência gera na teologia e prática pentecostal. 2008. de João Moreira Salles. e que se evidencia nos dons carismáticos. mas Ibid. p. Esse acento na experiência difusa que se dá sem qualquer mediação necessária da Igreja institucionalizada possibilita ao pentecostalismo uma capacidade de mobilidade e penetração e. a que os cânones doutrinários objetivos são de menor importância. 155. pp. no interior do pentecostalismo16. 36-37. No Pentecostalismo se encontra o elemento relativizador das estruturas eclesiásticas de maneira mais evidente17. aí eu estou no meio deles (Mt 18. p. E isso não como rebeldia. 37-53. pois onde se dá a experiência com o Espírito. ao mesmo tempo.20)15. tanto eclesial quanto social.onde a carência na área social e o vácuo experiencial se mostravam de forma mais evidente. uma enorme mobilidade. além da vasta bibliografia teológica e das ciências da religião. 15 16 Perspectiva Teológica. Sobre a questão da mobilidade social e eclesiástica produzida pelo pentecostalismo.Belo Horizonte. que se apresenta como chave hermenêutica para a teologia. além de outras coisas. se dão também os elementos necessários para a vivência eclesial.pmd 43 31/3/2011. 17 A. Neles o crente é quem faz a mediação da palavra teológica sem uma necessária recorrência a um corpus doutrinário externo.

Ibid. 137. p.. ou seja. onde nem mesmo as estruturas eclesiais e o próprio texto bíblico passam incólumes de uma reinterpretação e até mesmo de uma ressignificação. A experiência com o Espírito é de tal forma elevada ao status hermenêutico que opera mesmo uma ressignificação do texto bíblico. p. p. pois Ele disse: Sobre esta pedra edificarei minha Igreja. Como observa Seymour: Quão maravilhoso é termos o bendito privilégio de sermos cooperadores do Espírito Santo! Ele nos inspira com fé na palavra de Deus e dota-nos com poder para servir ao Mestre. O coração é o locus theologicus 21. para uma centralização da experiência de subjetividade. O templo não é a Igreja. Percebe-se um deslocamento das estruturas teológicas objetivas. Número 119. Não que seja errado haver um homem na direção. 88. se confirmadas por Ele18.OK. Espírito Santo.. A noiva não é mais a Igreja enquanto corpo. 44 perspectiva 119 . Todo homem ou mulher que recebe o batismo com o Espírito Santo é a Noiva de Cristo. e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16. como compreensão da ação do Espírito na vida de homens e mulheres. Eles têm um espírito missionário e pentecostal: O Espírito e a esposa dizem: Vem! E quem ouve diga: Vem! E quem tem sede venha. o ser humano é a noiva de Cristo e o Espírito é quem revela estas verdades. e quem quiser tome de graça a água da vida (Ap 22. SEYMOUR. Jan/Abr 2011 44 31/3/2011. p. mas tal indivíduo deve estar cheio do poder do Espírito22. Ano 43.como interpretação pneumatológica. Jesus [.17)19. O avivamento da Rua Azuza. dos cânones doutrinários estritos.. 37-53. 119. a Igreja está implantada em nosso coração pelo sangue de Jesus Cristo. 157. p. Devemos reconhecer que o templo é apenas um lugar onde o povo de Cristo se reúne para cultuar. O ofício ministerial também é reinterpretado: “É o ofício do Espírito Santo presidir todo o trabalho de Deus na terra.. Belo Horizonte. Cf. 160. Em cada assembleia. mulheres e homens puderam fazer experiências de vida que há muito eram destinadas somente aos centros. a primeira coisa a ser verificada é se o Espírito Santo está empossado como Presidente. Desta descoberta queremos destacar um elemento capaz de potencializar vários outros aspectos da vida eclesial e social: o sacerdócio universal de todos os cristãos.pmd Perspectiva Teológica.. mas cada homem ou mulher que faz a experiência do Espírito... O Espírito é quem toma o espaço no lugar das hierarquias e estas só são possíveis.18). Na margem do mundo religioso e teológico de onde emergiu o pentecostalismo. Eles descobriram o centro da vida mesmo ainda estando à margem da sociedade. ROCHA. Ibid. 18 19 20 21 22 Ibid.] enviou o Espírito Santo para assumir o seu lugar – não os homens”20. p. 08:16 .

Ano 43. fazer experiência do “batismo no Espírito”. p. A saber: a presença das mulheres na organização e na dinâmica da igreja. porque o sacerdócio nos torna dignos de aparecer diante de Deus e rogar pelos outros23.OK. Número 119. “Sobre a liberdade cristã”... à margem da margem iniciou-se nos inícios do século XX o movimento que aos poucos desafiaria os centros – sobretudo os centros da fé – à vivência da maior radicalidade do evangelho.Belo Horizonte. Além de serem mulheres (interdito ao sagrado) eram também negras. as mulheres foram muito importantes na difusão da nova experiência. Ele afirmava: De posse da primogenitura e de todas as suas honras e dignidade. e com a cabeça no centro. principalmente da igual dignidade de todas as pessoas. Contudo. Perspectiva Teológica. 37-53. Cristo divide-a com todos os cristãos para que por meio da fé todos possam ser também reis e sacerdotes com Cristo. homens e mulheres. 2000. São Leopoldo / Porto Alegre: Sinodal / Concódia. Não apenas os cristãos ordenados participam da missão. Faremos isso tomando como exemplo a vida e o ministério de Frida Vingren. dentre todos esses importantes aspectos. Este o princípio do sacerdócio universal de todos os crentes como Lutero o entendia. 444. Somos sacerdotes. queremos salientar um dos mais importantes.. porque o Espírito Santo não faz acepção de pessoas. p. ao mesmo tempo em que um dos menos investigados. isto é muito mais que ser reis. in ID. Diversas faces dessa igualdade da dignidade humana estão contempladas na temática bíblico-teológica do sacerdócio universal de todos os cristãos: a superação do sacerdotalismo que aliena a vocação de todos os cristãos. 2. Cada pessoa é chamada a este compromisso. tal como diz o apóstolo Pedro em 1Pd 2. 08:16 45 . Jan/Abr 2011 perspectiva 119 .. Eram pastoras e missionárias. Isso significa que ser margem na margem é ainda mais perverso do que ser margem no centro. O caminho de afirmação do sacerdócio de todos os cristãos: Mulheres e Homens Do pentecostalismo norte-americano surgiram os primeiros agentes. pois todo trabalho humano é resposta a um chamado divino a serviço do povo 23 M. Obras Selecionadas.. Aqui. Das margens da margem ao centro da margem.pmd 45 31/3/2011. a inclusão dos negros nos quadros eclesiásticos de liderança etc.9. para a promoção do pentecostalismo brasileiro. a valorização dos pobres e a mobilidade social que ocorre a partir da vida eclesial. LUTERO.3. Poderíamos dizer que das margens do centro (USA) o pentecostalismo chega às margens da margem (Brasil). porque juntavam pessoas nas suas casas para orar. aprofundar na espiritualidade. No início da igreja Assembleia de Deus nos USA. vol. mas todos os membros das igrejas. Pela experiência com Jesus todas as pessoas são vocacionadas a serem sacerdotes que anunciam o amor e a misericórdia de Deus.

in Y. que veio para se casar com seu conterrâneo Gunnar Vingren24. mas em 1917 chega a Belém uma jovem sueca. quando são consagrados 5 pastores brasileiros. 28 Ibid. E podemos afirmar que testemunhar não deixa de ser uma forma de ensinamento! Frida viveu apenas treze anos no Brasil: sete em Belém e seis no Rio de Janeiro. Sua atuação criou uma série de problemas para os missionários suecos e os pastores brasileiros. inclusive este sobre Frida. afirma que em sua pesquisa de doutorado. enfermeira. a tal ponto que a Convenção de 1930 toma a seguinte decisão: as mulheres são proibidas de dirigir e ensinar na igreja: podem apenas testemunhar25. fato que dá origem ao Mensageiro da Paz (existente até hoje) e do qual é a redatora26. investigando os jornais da época.P. então. Ano 43. começa a luta entre 24 G. em presídios. deixou muitas marcas. que elas dirigiam e ensinavam na igreja. OROZCO. Ele se pergunta: quantas mulheres na década de 20 eram redatoras principais de um jornal? 27 Ibid. p. Número 119. em solenidade no Maracanã. toda instituição na sua origem tem seus heróis fundadores. Belo Horizonte. 15:20 .pmd Perspectiva Teológica. 46 perspectiva 119 . 70. Enquanto esteve em Belém redigiu o jornal Boa Semente. Berg e Vingren assumem a posição de fundadores “heroicos”.. 2009. Jan/Abr 2011 46 4/4/2011. 25 Ibid. p. nas casas e nos templos. segundo relatos de contemporâneos. Ela se tornaria uma líder na Assembleia de Deus no Brasil. embora nos anos anteriores. ALENCAR.. Religiões em diálogo: violência entre as mulheres. embora a história oficial da igreja não reconheça. em 1961. o jornal Som Alegre. tocava instrumentos e compunha hinos. Isto nos revela. Desde 1913. que posteriormente. não se faz menção ao trabalho das mulheres. no entanto. encontra numerosos nomes de mulheres. e depois no Rio. quando chegam ao Brasil mais de 30 suecos28.. e entre 1910 e 1930.OK. e abandonado na periferia de São Paulo27. pregava. 37-53. p. No Rio dirigia cultos na Praça Onze. porque a instituição precisava de “heróis” para se legitimar e legalizar. As mulheres então faziam a experiência do “batismo no Espírito” e começavam a anunciar. p. Nesta data. 69. “Frida Vingren (1891-1940): quando uma missão vale mais do que a vida”. Esta novidade alvissareira. a valorização dentro da igreja voltou a permanecer nas mãos dos homens. 71. em 1930. Portanto. Daniel Berg. autor de inúmeros textos sobre a AD. Era missionária. cantava. são unidos. Quando Daniel Berg e Gunnar Vingren vieram para Belém do Pará (1910). Em 1960 celebrou-se o cinquentenário da fundação da AD no Brasil. tivesse vivido em grande pobreza. especialmente o de Frida. o que demonstra a importância da sua atuação. esquecido. e a questão de gênero logo se opôs à participação das mulheres.F. não durou muito tempo. Apesar do pouco tempo em que aqui permaneceu. 26 Ibid. Nos USA o problema do racismo logo dividiu brancos e negros. São Paulo: Católicas pelo direito de decidir. p. Afinal. 69.de Deus. Existem 24 hinos registrados em seu nome na Harpa Cristã. O pesquisador Gedeon Alencar. recebe uma placa folheada a ouro.

ao contrário. portanto. ela liderava os obreiros. cantar nos cultos nas igrejas. “Frida Vingren”. 74. p. 37-53. Número 119. p. onde morre pouco depois29. p.T. mas como podemos perceber hoje. capital da República! A igreja crescia muito.estes e os fundadores. os artigos. J. 72. sofreu uma forte “violência simbólica”33. “Contribuições feministas para o estudo da violência de gênero”. dentro do cotidiano de suas vidas. E isto no Rio de Janeiro. poesias e jornais que escreveu.. Vingren era formado em teologia. pois. 31 Apud ibid. Por isso. Ibid. Estas podiam fazer cultos em suas casas. no espaço público quem apareciam eram os homens.OK. em 1925. atrapalhava. 74. REGO.1-2). porque detestava mulheres na pregação) em Belém e vem para o Rio. 35 Há registro de uma polêmica entre missionárias solteiras suecas no Ceará na década de 20 com o missionário Bruno Skolimowski. a história oficial não fala de Frida. e o profano era para as mulheres.. Ano 43. Além de ser uma pessoa doente. No entanto. Não foi nomeada para isso. Breve histórico da “Assembleia de Deus” no Ceará. embora extraoficialmente já houvesse igrejas dirigidas por mulheres35. e por isso. Vingren escreve: “minha esposa tem levado a responsabilidade da obra”32. porque se dizia que esta formação era uma “fábrica de pastores”. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Fortaleza: Indústrias Gráficas.pmd 47 4/4/2011. Gunnar Vingren é valorizado neste momento. Isso em vez de valorizá-lo. O sagrado era para os homens. 29 30 Perspectiva Teológica. não viu seu projeto se realizar. 34 ALENCAR. 32 Apud ibid. 75). condição que nenhum outro pastor ligado ao pentecostalismo possuía naquele tempo. porque conhecia bem os dotes e a atuação da sua esposa30. 1942 (apud ALENCAR. assim que chegou a Belém logo pegou malária. falam dela os hinos que compôs. mas ela ocorreu assim mesmo em 1930. cf. e precisava de um pastor. p. mas. ano do início de seu ministério. p. ela foi consagrada diaconisa (pelos registros a primeira e a única). mas fora voto vencido em diversas questões discutidas nas ADs de sua época. A Harpa Cristã aponta 24 hinos compostos por Frida e mais 16 por outras mulheres. “Frida Vingren”. pois ela infringia um interdito.Belo Horizonte. Assim Vingren apresenta sua mulher num documento: “Ela tomou a frente dos cultos ao ar livre”31. Após 22 anos de Brasil volta à Suécia. Isso devia causar grande espanto. Vingren deixa o Pr. p. Tanto dela como das outras mulheres assembleianas34. e calaram sua memória depois de morta.. 33 Cf H. marginalizaram-na em vida. mas. Vingren manteve-se contrário à organização de uma convenção nacional que congregaria de forma institucional todas as ADs. Simplesmente tomou a frente. 73. esta mulher excepcional. Labrys: Estudos Feministas (2002/nn. Vingren era a favor do exercício do ministério pelas mulheres. Samuel Nystron (inimigo de Frida. 15:20 47 . Não há registro de que ela tenha sofrido “violência física”. Ibid. SAFFIOTI.

pois em 1917 viaja sozinha de navio. Infelizmente. 39 DANIEL (org. Todos/as se calaram! Seu filho Ivar. não obedecia às pressões humanas. debates e resoluções do órgão que moldou a face do Movimento Pentecostal no Brasil. 38 Laura Sá Aragão escreveu um livro com este título: Chamadas por Deus. Belo Horizonte.). Jan/Abr 2011 48 31/3/2011. nem dos seus e suas compatriotas. Frida escreve no Mensageiro da Paz 19 artigos e Gunnar apenas 6. e por causa disso sofreu perseguição”37. Ela se sentia chamada por Deus. Sua luta foi grande. 2004 (apud ALENCAR. apesar da falta de apoio dos obreiros nacionais. As irmãs têm todo o direito de participar na obra evangélica. Sua vida foi uma doação contínua. Mas não Cf. 36 48 perspectiva 119 . com uma liderança ímpar. p. Foi a única comentarista mulher das Lições Bíblicas em 100 anos de história! Numa foto oficial da Convenção de 1930 ela aparece sozinha. da Suécia para os USA e depois para Belém. não podia suportar esta mulher corajosa. deu uma entrevista a Isael Araújo onde afirma: “Minha mãe tinha o dom de ensinar e pregar como ninguém. DANIEL (org. O machismo nordestino ligado ao reacionarismo sueco. p. perfazendo o total de 40. e seu cargo precisa ser inferior ao dele. Número 119. uma mulher não pode aparecer mais que seu marido. Rio de Janeiro: CPAD. testificando de Jesus e sua salvação. Silas Daniel é o primeiro autor a lhe dar destaque. apesar de ter escrito muito mais no jornal do que o marido. 1980 (apud ALENCAR. aconteceu a 1ª Convenção das ADs do Brasil para discutir vários problemas. Chamadas por Deus. e uma grande capacidade e preparo espiritual! Ela era muito independente para sua época. uma luta pelo crescimento da igreja e pelo protagonismo das mulheres! Ela foi uma grande heroína não reconhecida pela história. p. “Frida Vingren”.influenciadas por ela. ARAUJO. destemida. 76). “considerando-a uma das mais preparadas evangélicas que já pisaram o solo brasileiro”39. História da Convenção geral das Assembleias de Deus no Brasil: Os principais líderes. Depois da Convenção de 1931.). no meio de 10 homens.OK. missionário na Argentina. 08:16 . Ano 43. No mundo religioso. mas o principal era a atuação das mulheres na igreja. como quase todas. que Paul Freston chamou de “ethos sueco-nordestino”. Em 2004. Ela foi boicotada. Viçosa: CEM. audaciosa. e tinha uma profissão.pmd Perspectiva Teológica. Dissertação de Mestrado. ignoradas pelos homens!38 Assim poderia ser considerada a vida desta mulher corajosa. tem uma historiografia que dá visibilidade apenas aos homens. com uma cultura invulgar. isto ainda é pouco conhecido. por isso. destemida. “Frida Vingren”. ignoradas pelos homens: Reducionismo cultural em relação ao trabalho missionário feminino. 76. em Natal (RN). que tudo enfrentava com uma fé forte. p. 2004. 76). Em setembro de 1930. S. Rio de Janeiro: CPAD. pois esta igreja. 37 I. 37-53. Ele sofre por ela não ser reconhecida e valorizada36. e também ensinando quando for necessário. mas não desanimava. Dicionário do Movimento Pentecostal. era enfermeira formada. História da Convenção geral das Assembleias de Deus no Brasil.

unia-se o fato de serem mulheres! No entanto. No princípio do movimento em todos os três lugares as mulheres tinham espaço. segundo. nos USA ou no Brasil. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . sua capacidade. ao escrever um livreto intitulado “O direito da mulher de pregar o evangelho”42 é dos poucos que ousava se expressar a favor delas e a valorizar o ministério das mulheres! Este é um ponto difícil quer seja na Suécia. Embora.Belo Horizonte. alistando-nos nas Suas fileiras. As mulheres foram proibidas de falar. conclamando as mulheres a não se deixarem dominar: Despertemo-nos para atender o chamado do Rei. p. e escreve um texto no Mensageiro da Paz mobilizando as assembleianas a entrarem na guerra. títulos. 1976. e portanto. As críticas mais ferrenhas feitas ao pentecostalismo no início do século se deviam ao fato de ser um movimento de liderança negra e feminina41. o que nós hoje valorizamos! Ao racismo da época. no caso de necessidade. O diário de um pioneiro. 1982 (apud ALENCAR.OK. p. 41 Cf. Ora. apesar da proibição se mantém a possibilidade da exceção. Perspectiva Teológica. na época existiam mulheres pastoreando. mas não de escrever. Por isso. E com este trabalho não considerado. seu chamado. Assim deve ser somente quando não existam na igreja irmãos capacitados para pastorear ou ensinar40. salvo em casos excepcionais mencionados em Mateus 12. para atender todas as igrejas em todas as cidades do Brasil. John Ongman (1845-1931). HOLLENWEGER. e Frida elabora um texto antológico. cargos e liberdade para exercerem o ministério. p. mas quando o movimento se consolida são marginalizadas. Buenos Aires: La Aurora. nos USA. VINGREN. caso contrário.pmd 49 31/3/2011. ALENCAR. isto é. com a expansão da AD. sem exceção”. 77). 42 Cf. El Pentecostalismo: historia y doctrinas.3-8. Esta declaração nos faz perceber: primeiro. não havia número suficiente de irmãos capacitados. As irmãs das “Assembléias de Deus” que igualmente. privadamente. possuem a mesma responsabilidade 40 G. 78. “Frida Vingren”. a igreja crescia e se expandia. Rio de Janeiro: CPAD. nem valorizado. seria desnecessária a proibição. na década de 30. em 1900. 08:16 49 . continuassem a exercer a vocação a que se sentiam chamadas. Frida não aceita a determinação da Convenção de 1930. na ausência de “irmãos capacitados”. “Frida Vingren”. 37-53. A partir da década de 30 elas começam a sofrer restrições. como os irmãos tem recebido o Espírito Santo.se considera justo que uma irmã tenha a função de pastor de uma igreja ou ensinadora. a interpretação teológica afirmava que o “Espírito Santo concede seus dons a todos/as. as mulheres viviam sua vocação. Número 119. um dos líderes do pentecostalismo sueco. E a maioria dos pastores não tinha o seu conhecimento. sua missão sem publicidade. W. Desde o início do movimento da Rua Azuza havia mulheres pregando e exercendo o ministério pastoral. Ano 43.

ao contrário. Ela parte da realidade. envia-me a mim”. 80. buscando colocar mais luz sobre a figura desta mulher ímpar. as irmãs brasileiras hão de ficar atrasadas? Será.. p. 08:16 . ou que Deus não quer? Creio que não. podem. 50 perspectiva 119 . quer sueca. mas afirma que podem fazer mais. Número 119. Se na Suécia as mulheres estavam trabalhando exclusivamente na obra. e falam da Palavra. no período entre guerras. p. onde as mulheres ainda não votavam. Dirigem cultos. convém buscarem santificação e consagração. Berg e Vingren sempre foram voto vencido na instituição. para articular a necessidade de mão de obra. para o marido. Claro que este texto extraordinário causa grandes problemas para ela. Não se opõe aos afazeres domésticos. Não há tempo a perder. que é a mais importante. de modo que convoca para uma guerra divina. mas. que o campo não chega. Seu título: “despertemos para atender ao chamado do Rei” atrai corações e mentes. se oficializa a sua liderança sueca no sul e a brasileira no norte e nordeste. as irmãs tomam grande parte na evangelização. e proclama o grande final. dois anos depois.. muito doente. Na Suécia. Apesar de serem mencionados sempre como fundadores. Alencar. também. Será falta de coragem? As irmãs. se pergunta: quem na liderança assembleiana. Por que razão. existe um grande número de irmãs trabalhando exclusivamente no Evangelho. 37-53. quer brasileira. apesar disso. testificam. e especialmente no trabalho pentecostal. Ano 43. E acima de tudo. em 1930 a possibilidade de 43 44 Ibid. O Senhor diz: ‘A quem enviarei. porque as brasileiras deveriam ficar atrás? Termina o texto com o escatologismo típico da época: “não há tempo a perder.. e quem há de ir por nós?’ Diremos nos: ‘Eisme aqui. Ibid. envia-me a mim’43. seria capaz de responder a este texto? Ele mesmo responde demonstrando a esperteza de Frida. e provavelmente desgostoso com o tratamento dado à esposa. Em todas as partes do mundo. pais pequeno de 7 milhões de habitantes. quando chamadas pelo Espírito Santo sair e anunciar o Evangelho.de levar a mensagem aos pecadores precisam convencer-se de que podem mais do que tratar dos deveres domésticos. Frida foi a grande diferença em termos de liderança. 82. Irônico que. a argumentação bíblica é fundamental: o Espírito Santo age igualmente nas irmãs e nos irmãos. o grande chamamento e a resposta que devem dar os/as missionários/as: “a quem enviarei . Jan/Abr 2011 50 31/3/2011. Belo Horizonte. G. ela ousava afirmar a igualdade feminina..OK. para que o Senhor as possa dirigir e abençoar.eis-me aqui. Sim. deixa o Brasil voltando para a Suécia. e para as demais igrejas no Brasil onde o jornal é lido!44 Na Convenção de 1930 não se fala em Vingren deixar o Brasil. Jesus vem em breve”. Jesus vem em breve. Numa sociedade como a brasileira. p.pmd Perspectiva Teológica. para a igreja local.

embranquecedores. “Elas estão chegando. Ano 43. São Paulo: Católicas pelo direito de decidir. OROZCO. teólogas e teólogos. ARAUJO. O assunto volta à discussão na Convenção de 1983. orando. 37-53. e é rejeitado por unanimidade. dando-lhes feições de margem. irmãs e irmãos de Jesus. São Paulo: Católicas pelo direito de decidir. pelas portas e janelas. naquilo que há de fértil e capaz da novidade. Silas (org. História da Convenção geral das Assembleias de Deus no Brasil: Os principais líderes. Gedeon Freire. na calada. Mas. masculinizadores. p. transformando tais lugares. vivendo a missão. DANIEL. in Yury Puello OROZCO. DURAND. avenidas e vielas. É das margens que emerge o advento do novo. Número 119. e é rejeitado por um grande número. mesmo oficialmente rejeitado. Gilbert. “Frida Vingren (1891-1940): quando uma missão vale mais do que a vida”. Rio de Janeiro: CPAD. As provocações que vêm desde os lugares (teológicos) marginais O pentecostalismo em sua trajetória das margens das margens rumo aos centros sócio-eclesiais tem um enorme potencial de nos pro-vocar. 2009.as mulheres pastorearem poderia existir. Portanto. Religiões em diálogo: violência entre as mulheres. Grenoble: Ellug. geralmente nos encontramos nos centros). 2009. Das margens nos podem chegar a coragem de um Seymour.. Rio de Janeiro: CPAD.Belo Horizonte. elas continuavam. sobretudo. debates e resoluções do órgão que moldou a face do Movimento Pentecostal no Brasil. capaz de recuperar uma gnosiologia compreensiva.OK. Religiões em diálogo: violência entre as mulheres.pmd 51 31/3/2011. 1996. 2004. pregando. enfim. Referências bibliográficas ALENCAR. evangelizando. Ele vem nos chamar a vivenciar a fé onde estamos (nós. Na Convenção de Brasília em 2001 o tema da possibilidade de as mulheres exercerem o ministério volta de novo. racionalizadores. Das margens aguardamos o sopro do Espírito que virá sobre “toda a carne”. Champs de l’imaginaire. uma teologia efetiva e afetiva. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1980.. apenas se não houvesse irmãos preparados. a intrepidez de uma Frida. Yury Puello. de propor uma experiência renovada de nossa vocação de filhas e filhos de Deus. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . oficiosamente as mulheres continuam exercendo seu ministério construindo a igreja. uma eclesiologia igualitária etc. Elas estão chegando!” Conclusão: Por um centro com cara de margem. 08:16 51 . Um centro com cara de margem. Perspectiva Teológica. Ivar. daquilo que não foi esterilizado pelos acessos da instituição e seus vícios hierarquizadores.).

Introdução ao protestantismo no Brasil. Fortaleza: Indústrias Gráficas. in ID. SEYMOUR. Rio de Janeiro: CPAD. 1990. 2001. Petrópolis: Vozes. São Leopoldo / Porto Alegre: Sinodal / Concódia. Revista Compromisso 1 (2003/n. Petrópolis: Vozes. “Surgimento e consequências do pentecostalismo”. Buenos Aires: La Aurora. 52 perspectiva 119 . 2. Walter. Rio de Janeiro: CPAD. Obras Selecionadas. _______. Ano 43. 08:16 . São Paulo: Loyola. Juerp]. Belo Horizonte. 1982. São Paulo: Vida. Elogio da razão sensível. O diário de um pioneiro. O imaginário: Ensaios acerca das ciências e da filosofia da imagem. 2002. Alessandro Rodrigues. 1976. REGO. Número 119. São Paulo: Martins Fontes. 2003. El Pentecostalismo: historia y doctrinas. José Teixeira. Prócoro. Martinho. vol. MAFFESOLI. SHAULL. _______. As estruturas antropológicas do imaginário. HOLLENWEGER. “Sobre a liberdade cristã”. Pentecostalismo e o futuro das Igrejas cristãs. MENDONÇA. Michel. Antonio Gouvêa / VELASQUES. 1942.pmd Perspectiva Teológica. p. 2000. Waldo. Richard / CESAR. Gunar. LUTERO. Breve histórico da “Assembleia de Deus” no Ceará. O avivamento da Rua Azuza. Jan/Abr 2011 52 31/3/2011.OK. ROCHA. Rio de Janeiro: DIFEL. VINGREN.. William. 1998._______.1) 70-80 [Rio de Janeiro. 37-53. Espírito Santo: Aspectos de uma pneumatologia solidária à condição humana. 2008. 2000.

A.teo. 2007. ciência e transdisciplinaridade.).br Perspectiva Teológica. Petrópolis: Vozes.M. ROCHA (org. DOLAMO / D.OK. 1990. 2010. Número 119. Paulinas. AQUINO (org. 2009. TEPEDINO / R. 2007. São Paulo: Paulinas. Cleveland: The Pilgrim Press. São Paulo: Paulinas. Gender voices for gender justice. São Paulo: Fonte Editorial. É autora de vários artigos. TEPEDINO / A.). 2008. Ano 43.). A. M. p. Endereço Endereço: PUC-Rio Rua Marquês de São Vicente 225 Cardeal Leme.M. Bogotá: Indo-american Press. É professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e coordenadora de pesquisa do programa de pós-graduação da mesma instituição (linha de pesquisa: Pentecostalismo e renovação carismática). São Paulo. Experiência e discernimento: Recepção da palavra numa cultura pós-moderna.pmd 53 31/3/2011. Espírito Santo: Aspectos de uma pneumatologia solidária à condição humana. 2009. É autor das seguintes obras: Teologia Sistemática num horizonte pós-moderno: Um novo lugar para a linguagem teológica. experiência e razão no horizonte das igrejas. Amor e discernimento. 37-53. 1998.P. TEPEDINO / M. São Paulo: Paulinas. 11º andar 22543-900 Rio de Janeiro – RJ <anamariatepedino.com Ana Maria Tepedino é doutora em teologia pela PUC-Rio e pós-doutora em Sociologia pela Sorbonne. dos quais se destacam: As discípulas de Jesus. Entre la indignación y la esperanza: Teología feminista en America Latina.). A teia do conhecimento: fé. A. São Paulo: Vida. Endereço Endereço: Rua General Marciano Magalhães.Alessandro Rocha é doutor em teologia pela PUC-Rio. Celebração dos sentidos: Itinerário para uma espiritualidade integradora. A Teia do Conhecimento (org. São Paulo: Vida. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 907 (Morin) 25630-021 Petrópolis – RJ e-mail: buenomartir@gmail. HOPKINS (org. 08:16 53 . pós-doutorando em Letras pela PUC-Rio e Pesquisador da Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio. 2009.br> email: tepedino@puc-rio.Belo Horizonte. 2003. livros e publicações coletivas.

Belo Horizonte. Artigo submetido a avaliação no dia 22/11/2010 e aprovado para publicação no dia 03/12/2010. então caracterizada no passado pela passividade. up until now characterized in the past by passivity. 55-82. abordamos a necessidade de se criar uma nova mentalidade no laicato. como a liberdade interior e o amor à Igreja para um juízo objetivo e um comportamento correspondente por parte do indivíduo na comunidade eclesial. Igreja local. No final. Entretanto. * Departamento de Teologia da PUC (Rio de Janeiro). Assim. depois de descrever em breves traços a Igreja que herdamos do passado.OK.pmd 55 31/3/2011. p. Ecclesiastical subject. we mention the requirements of a spiritual nature. ABSTRACT: The present affirmation in the Document of Aparecida that the layperson is an ecclesiastical subject led us to examine the suppositions supporting that he is in fact. Holy Spirit. KEY-WORDS: Ecclesiastical configuration. Ano 43. Love of the Church. Local Church. Thus. 08:16 55 . mencionamos ainda as exigências de cunho espiritual. Perspectiva Teológica. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . However. In the end. Sujeito eclesial. after describing in brief traces the Church that we inherit from the past. since an interaction between both already exists. Espírito Santo. we approach the necessity of creating a new mentality in the laity. Número 119. já que existe uma interação entre ambas. PALAVRAS-CHAVE: Configuração eclesial. Amor à Igreja.É POSSÍVEL UM SUJEITO ECLESIAL? (Is an ecclesiastical subject possible?) Mario de França Miranda SJ * RESUMO: A afirmação presente no Documento de Aparecida de que o laicato é sujeito eclesial nos levou a examinar os pressupostos para que ele o seja de fato. as the interior freedom and the love of the Church for an objective judgment and a corresponding behavior on the part of the individual in the ecclesiastical community. constatamos que a esta nova mentalidade exige também mudança na configuração eclesial para que possa fazer emergir um laicato adulto e ativo. we report that this new mentality demands change in the ecclesiastical configuration so that it can allow the emergence of an adult and active laity.

estavam conscientes das mudanças requeridas. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Belo Horizonte. mas também saber “abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favoreçam a transmissão da fé” (DA 365). maior abertura de mentalidade para que entendam e acolham o ‘ser’ e o ‘fazer’ do leigo na Igreja” (DA 213)1. “da parte dos pastores. Se fôssemos examinar com cuidado as causas subjacentes a 1 Infelizmente nada se diz sobre uma preparação adequada do clero em vista de uma eclesiologia. e entre a sociedade e a Igreja” (DA 497a).OK. p. examinar se certa crise que hoje experimentamos na Igreja também aflorou na Assembleia Episcopal de Aparecida e se ela evoca mudanças importantes para o futuro da Igreja. Dotados de uma formação adequada (DA 212) devem os fiéis leigos “ser parte ativa e criativa na elaboração e execução de projetos pastorais a favor da comunidade” (DA 213). Número 119. I. Ele afirma ainda a urgência de uma “conversão pastoral” por parte de todos na Igreja (DA 366). seja no que diz respeito a uma nova mentalidade. entretanto. Os pressupostos necessários A finalidade deste estudo é refletir mais a fundo sobre os pressupostos para que a meta visada em Aparecida possa ser realmente alcançada. elementos valiosos para sua compreensão. Portanto. seja no que se refere a uma nova configuração institucional da Igreja. 08:16 . mas também no interior da própria Igreja. na mentalidade e na vida da própria Igreja. Por outro lado. ao exigir. 56 Perspectiva Teológica. Pois a história da Igreja nos apresenta momentos críticos e tumultuados que. Embora não tenha definido expressamente o que entendia por sujeito eclesial deixou. os bispos em Aparecida. não de dominação. Assim observa que “sua [dos fiéis leigos] missão própria e específica se realiza no mundo” (DA 210). a qual implica não só escrutar o que diz o Espírito em nossos dias (DA 366).Introdução O Documento de Aparecida afirma que “na elaboração de nossos planos pastorais queremos favorecer a formação de um laicato capaz de atuar como verdadeiro sujeito eclesial e competente interlocutor entre a Igreja e a sociedade. 55-82. Ano 43. demonstram terem produzido mudanças positivas.pmd 56 31/3/2011. profundas e duradouras. mas de comunhão (ver DA 314-327. ao almejar uma Igreja toda ela missionária. mais ainda. o mesmo documento adverte para a necessidade de uma mudança de mentalidade no próprio clero. E. 191-200). à luz de leituras mais tranquilas feitas por gerações posteriores. de tal modo que os bispos devem “abrir para eles espaços de participação e confiar-lhes ministérios e responsabilidades em uma Igreja onde todos vivam de maneira responsável seu compromisso cristão” (DA 211).

mudanças em certas estruturas. Todo o sentido da Igreja é continuar a missão salvífica de Jesus Cristo anunciando sua pessoa e sua mensagem à sociedade. pois implica conhecer esta atual sociedade complexa e plural. heterogênea. Tarefa bastante árdua. Mas devemos igualmente reconhecer que ela já não logra ser captada e entendida por nossos contemporâneos em sua identidade teológica. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . familiar. pois a cultura das grandes cidades é fragmentada. de diferentes desafios e aspirações. causas decorrentes das mudanças na sociedade como podemos igualmente constatar fatores atuantes no próprio interior da comunidade eclesial. proximidade de outras culturas e religiões. Prova disso são os problemas e os desafios experimentados pela pastoral urbana em nossos dias. de imaginários e culturas diversas. Tarefa muito difícil em nossos dias. Esta afirmação não desconhece nem desmerece os ganhos e os méritos desta Igreja que nos é legada. p. como nos adverte o Documento de Aparecida (DA 365 e 367). pois as transformações de mentalidades. incidem na vida da própria Igreja. geradas no passado e hoje empecilhos à evangelização. constituindo uma barreira para um discurso universal e uma pastoral que sirva igualmente para todos. impacto da globalização. de práticas. Deste modo tanto podemos apontar. Vejamos algumas de suas características: rápidas e sucessivas mudanças socioculturais. sociedade pluralista. Pois apresenta uma configuração do passado. ambas se condicionam e se influenciam mutuamente. Naturalmente a Igreja não é a única instituição a se ver questionada pelas transformações culturais e sociais em curso. diversificada. portanto. Comecemos pela sociedade. de hábitos que nos são familiares só se realizam lentamente. 55-82.pmd 57 31/3/2011. pois a sociedade de cristandade deu lugar à sociedade pluralista e secularizada. Herdamos uma instituição eclesial do passado que não mais consegue responder aos desafios da nossa sociedade. certa desilusão e desconfiança diante da capacidade da razão humana. político. mesmo Perspectiva Teológica. democrática e de consenso. forte emergência da subjetividade. Eis alguns fatores que transformaram nossa sociedade e nossas vidas e que. Mesmo que reconheçamos não ter a Igreja hoje o mesmo significado para a sociedade que teve no passado.períodos de crise constataríamos que as mesmas provêm tanto da sociedade como da própria Igreja. Belo Horizonte. inevitavelmente. E a razão é simples: ambas interagem continuamente. Tarefa sumamente difícil. na atual instabilidade da instituição eclesial. Urge. pois seus membros são também membros desta sociedade. pois verificamos crises semelhantes no setor educativo. 08:16 57 . para só citar algumas. crise ecológica.OK. dotada de múltiplas linguagens e práticas. bem como na área da medicina e do direito. Ano 43. Porém o mal-estar que hoje sentimos pode provir também da própria Igreja. hegemonia do fator econômico na vida social e familiar. que apresenta características estranhas aos anseios e aos valores determinantes na atual cultura e em sua vivência cotidiana. Número 119.

Na falta deste conhecimento a pessoa pode ser presa de sonhos irrealizáveis. agravada ainda por deficiências morais no interior da própria instituição? Depois do Concílio Vaticano II temos hoje lúcida consciência da urgente necessidade de que os fiéis leigos participem ativamente na vida e na missão da Igreja. O objetivo desta reflexão é. da parte de outros.quando pressionadas pelo contexto vital onde nos encontramos. de representações ideais. Como tem sido difícil levar à realidade as orientações do Concílio Vaticano II! Daí certo mal-estar que todos nós. que deixam entrever a complexidade da questão. 08:16 . Como conseguirmos um juízo objetivo e equilibrado nesta situação? Como avaliarmos objetiva e maduramente a atual situação eclesial. por desconhecer componentes importantes da realidade em questão. teológico. adequada diante de uma situação concreta. pelo desânimo e pelo pessimismo. primeiramente. assumir sua vocação de autêntico sujeito eclesial implica em cada membro da Igreja uma correspondente maturidade humana. trazer à tona os empecilhos do passado e apontar fatores que os possam neutralizar. tal como a entende o senso comum: uma atitude adulta. membros da Igreja. sociocultural. equilibrada. A ausência desta forma de maturidade pode se extravasar numa crítica constante. nota-se uma tendência a rejeitar sem mais a herança recebida e a identificar novidade com verdade. a maturidade social. se nos depara uma série de razões de cunho histórico. A maturidade intelectual é outra componente da maturidade humana captada pelo sentido comum. a ânsia por segurança os leva a rejeitar qualquer evolução e a se agarrar às aquisições do passado. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . p. não construtiva. mas também pela impossibilidade de a hierarquia absorver as atividades e as iniciativas pastorais exigidas pela hora presente. bem como elementos básicos de eclesiologia. mais próprias. Podemos ainda mencionar uma outra modalidade de maturidade humana. Naturalmente. exagerada. uma maturidade emocional capaz de não se deixar subjugar pelas reações sentimentais provindas do interior da pessoa. Ela implica. Ao refletir sobre os fatores que impediam o laicato de sê-lo. da infância e da adolescência. Ela pressupõe um conhecimento da realidade tanto proveniente do estudo pessoal quanto da própria experiência com a realidade. acompanhada. experimentamos em nossos dias e que pode provocar reações inadequadas e negativas. e que devem ser abordadas. Belo Horizonte. mas que se potencialize como autêntico sujeito eclesial. de objetivos inalcançáveis. em geral.OK. No caso da Igreja ganha especial importância conhecer como se constituiu ao longo da história a atual configuração eclesial. O que nos aparece como decisivo na atual conjuntura é a urgente emergência de um laicato que seja não apenas objeto e destinatário da cura pastoral. embora limitadamente. 55-82. Número 119.pmd 58 31/3/2011. segundo alguns. não só porque lhes compete tal. Ano 43. pelo contrário. que implica comportamentos sociais condizentes com 58 Perspectiva Teológica. Da parte de alguns.

Ano 43. já implicado na precedente visão eclesiológica. 08:16 59 . sem as quais dificilmente se realizarão as primeiras. O primeiro é de cunho teórico. Nem todos serão expressamente tratados neste estudo. sua regulamentação jurídica bem como suas estruturas sociais. Vamos privilegiar três fatores que nos parecem decisivos para nosso tema. responsáveis pela gestação desta mesma imaturidade. reflita. a saber. nas modalidades abordadas. Bem conhecemos o que sucedeu no tempo pós-conciliar com a doutrina da colegialidade afirmada no Vaticano II. um fator Perspectiva Teológica. São muitos fatores em jogo que atuam como condições de possibilidade para que possa emergir devidamente um sujeito eclesial. Número 119. pois não bastarão. Caso contrário poderá se tornar um membro passivo e omisso do grupo social.pmd 59 31/3/2011.OK. mas serão também exigidas mudanças de ordem estrutural ou institucional. Belo Horizonte. 55-82. como veremos. embora as instituições sociais sejam produzidas pelo próprio ser humano. Este fato terá consequências sérias para esta nossa reflexão. Ambas interagem continuamente e exigem uma abordagem mais ampla do nosso tema que não as deixe de fora. Deste modo já podemos perceber a complexidade que envolve o nosso estudo. já que nem toda eclesiologia favorece esta decisão. Afirmar que a Igreja é uma comunhão sem oferecer estruturas de comunhão significa confinar ao mundo da teoria uma compreensão verdadeira da Igreja. Pois tanto as normas de direito canônico como as estruturas vigentes podem tornar inócuas as conquistas teológicas por melhor fundamentadas que estejam.o grupo social ao qual pertence o indivíduo. De fato. esta modalidade pressupõe as anteriores e capacita a pessoa a participar efetiva e positivamente da vida social de sua comunidade humana. p. que pense. a imaturidade conota não somente uma mentalidade deficiente diante da realidade. à semelhança de um satélite girando no espaço sem incidência real em nosso planeta. Sem uma correta eclesiologia não teremos um católico ou uma católica que seja realmente sujeito ativo na Igreja. mudanças de cunho pessoal. ou mesmo se constituir num crítico impiedoso que. Ela saberá tanto acolher ou rejeitar responsavelmente o que a comunidade lhe oferece. mesmo que uma determinada configuração institucional resulte de várias causas. ao menos em parte. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . estando de fora. O outro fator. Observemos ainda que. Observemos ainda que. nada vê de bom em sua comunidade. como também pressupõe estruturas que podem ser. tome posições e aja em prol da comunidade. porque diz respeito a uma eclesiologia que tanto respeite as linhas mestras presentes no Novo Testamento quanto seja adequada aos desafios socioculturais do mundo contemporâneo. teológica ou espiritual. elas acabam por influir e moldar sua respectiva visão da realidade. concerne à configuração institucional da Igreja. Naturalmente. como também contribuir com seu parecer ou sua crítica para o bem da mesma. seja psicológica. pois optamos por uma abordagem teológica desta questão.

Já que estes contextos mudam no curso da história. O terceiro fator para um autêntico sujeito eclesial é de ordem existencial. ela nasceu por vontade livre de Deus. examinaremos sob o ponto de vista da organização social as estruturas eclesiais requeridas para que o indivíduo na Igreja possa realmente alcançar este status de sujeito. a quem deve também suas características fundamentais. o fator teórico e o fator institucional necessariamente interagem. Por um lado. ela deixaria de ser a comunidade dos seguidores de Jesus Cristo tal como podemos verificar nos relatos neotestamentários. Vejamos. Caso contrário. que a distinguem de qualquer outro grupo social. que não podem ser excluídos de sua vida de fé. Numa terceira parte. sendo assim não em seu objeto. constitutivamente teologal porque dirigida a Deus. sem a qual sucumbiríamos às nossas inclinações e jamais chegaríamos à necessária objetividade em nossos juízos e em nossas ações na Igreja. pois diz respeito à vivência cristã de cada um na Igreja. ela é uma comunidade de homens e mulheres. Esta dificuldade vai exigir de nós uma reflexão prévia sobre a Igreja. II. mas em sua modalidade também eclesial. Tenhamos bem presente que a Igreja é uma realidade humano-divina. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Belo Horizonte. Em seguida. Pois a Igreja Católica é sempre a mesma desde seu início. abordaremos alguns elementos eclesiológicos que permitem e favorecem o surgimento de uma mentalidade necessária ao emergir do sujeito eclesial. Veremos também que a atitude correta para podermos ser agentes idôneos. p. Pois a fé nos ensina que a maturidade cristã é fruto da ação do Espírito Santo que nos proporciona a liberdade interior. que denunciem falhas e apontem soluções na Igreja. 08:16 . Daí decorre nosso amor e nossa gratidão para com a comunidade eclesial que nos anunciou Jesus Cristo e nos formou na fé em sua pessoa.pmd 60 31/3/2011. Deste modo temos já os eixos principais deste estudo. Por outro. Numa parte final veremos como nossa fé cristã. vivendo em contextos socioculturais e históricos bem determinados. A Igreja que herdamos Esta expressão pode provocar estranheza por parte de algum leitor. Ano 43. Primeiramente surge a questão se a Igreja de hoje possibilita ou impede a existência de um autêntico sujeito eclesial. implica um autêntico amor à Igreja por tudo o que nos deu para nossa vida de fé. examinaremos primeiramente suas principais características e como foram sendo geradas no curso dos séculos. Para respondê-la. já que é exatamente no interior deles que Jesus Cristo pode ser anunciado e a resposta livre na fé pode ser dada. Numa palavra. muda também a forma 60 Perspectiva Teológica.OK. 55-82. não pode prescindir da Igreja. Número 119.determinante de sua realidade vem a ser a eclesiologia que a justifica e fundamenta.

Daqui também podemos entender porque a Igreja. RATZINGER / H. sem os quais ela deixaria de ser a comunidade dos seguidores de Jesus Cristo. 220. Logo. Assim a resposta da fé. E por esta mesma razão devemos afirmar não estar completa a revelação sem a Igreja. sob pena de não ser simplesmente revelação. os desafios da época. em sua configuração institucional. das expressões. ela é também parte constitutiva da revelação. 55-82. p. sempre presente nas expressões doutrinais. p. a acolhida da mesma na fé. portanto. Não nos deve admirar. A revelação não pode ignorar o contexto sociocultural em que vive esta comunidade de fé. as categorias sociais. fundamental conhecer a linguagem dominante. J. A Palavra de Deus não cai num vazio antropológico. 1996. pertence ao próprio conteúdo do que é Palavra de Deus para nós. Ano 43. 9. da resposta. enquanto comunidade dos que creem2. Era. nos preceitos éticos ou nas normas e estruturas jurídicas presentes na Igreja. tenha se apropriado de linguagens e de elementos institucionais à mão para se organizar como comunidade3. as práticas sociais. as estruturas organizativas presentes e atuantes em seu respectivo contexto sociocultural. DULLES. Sem a fé. para se fazer entender e ser significativa para a vida real de seus contemporâneos. Demokratie in der Kirche. sua característica principal de ser mediaA.3).pmd 61 31/3/2011. possibilitada também por Deus (1Cor 12. tenha se transformado no curso dos séculos devido às mudanças na própria sociedade. De fato. Templo do Espírito Santo. RATZINGER. Daqui podemos concluir que a comunidade cristã sempre se constitui e se compreende com as representações mentais. não podia a Igreja se furtar ao diálogo com seu contexto sociocultural e político. "Demokratisierung der Kirche?". portanto. num ser humano abstrato ou numa sociedade indeterminada. pois exatamente nele viviam não só os cristãos. das celebrações e das estruturas eclesiais. MAIER. Models of Revelation. p. Ela. só é alcançada na mediação histórica e mutável onde se faz presente. que a Igreja no curso de sua história.OK. in J. a saber. não podemos negar este substrato humano. Entretanto. 1970. São eles: a pessoa de Jesus Cristo. 08:16 61 . Podemos caracterizar o que compete a Deus como os componentes teológicos da Igreja. enquanto comunidade encarregada de viver e proclamar a salvação trazida por Jesus Cristo. especialmente do batismo e da eucaristia. Comunidade Salvífica. Mais ainda. 2 3 Perspectiva Teológica. Número 119. o acolhimento da revelação acontece através da fé. a celebração dos sacramentos. sendo sempre a mesma. Estas características provindas da revelação é que nos levam a denominar a Igreja como Povo de Deus. mas ainda aqueles a serem evangelizados. Limburg: Lahn.do anúncio. a proclamação da Palavra. a ação do Espírito Santo. Portanto. sob pena de não ser simplesmente entendida. Belo Horizonte. Corpo de Cristo. a presença do ministério ordenado. New York: Orbis. Pois a Igreja muda para conservar sua identidade e sua finalidade. a autocomunicação de Deus não teria chegado à sua meta e nós a ignoraríamos. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 .

16s. constitutivos da comunidade de fé. Ao contrário. Esta conclusão é deveras importante para nosso estudo: a Igreja pode e deve mudar para poder realizar sua finalidade salvífica. Christian Community in History. os bispos são equiparados aos senadores e desempenham mesmo funções administrativas civis. Belo Horizonte. Le Marché. dispersa. 2004. Ano 43. fixar o provisório. RATZINGER. benefícios e poder. LÖHRER. O clero recebe importantes privilégios.OK. considerando-os isolados de seus contextos históricos. É nesse sentido que se diz que ela se auto-institucionaliza no curso da história. VERMEYLEN. Esta configuração institucional não deve ser vista como algo extrínseco à realidade eclesial. FRIES. Os componentes teológicos. o papa adquire posição imperial com as insígnias correspondentes. FEINER / M. mas simplesmente narrá-los enquanto elementos responsáveis pela hodierna situação. Assim a era constantiniana representa um marco importante na configuração da Igreja. New York: Continuum. a oposição entre a fé plasmada e vivida no século XIII com a fé do século XX5. que a Igreja da época das catacumbas seja diferente daquela da época do renascimento. Número 119. suficientes para a finalidade deste estudo. NOCETI. Brescia: Queriniana. Não negamos S. Mysterium Salutis IV/2. Trattato sulla Chiesa. Identificar as modalidades de configuração com os componentes teológicos seria absolutizar o relativo. L'Église de saint Augustin à l'époque moderne. 2004. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . W. que poderia dela prescindir mantendo sua verdade e sua existência. 1975. Imaginer l'Église catholique. Paris: Cerf. Petrópolis: Vozes. Der Primat des Bischofs von Rom. assumindo então a estrutura organizativa do Império Romano. 445. só serão uma realidade viva se encontrarem expressões. Não pretendemos julgar e condenar fatos passados. J. HAIGHT. O aparente embate entre a fé e o mundo pode ser. in J. DIANICH / S. perseguida. ou que a eclesiogênese é um evento contínuo na Igreja4. ver ainda: G. "Modificação e evolução histórico-dogmática da imagem da Igreja". 08:16 . pp. este fato repercute danosa e negativamente para dentro da própria Igreja. O tema requer uma exposição mais completa.. 55-82. impedir novas configurações eclesiais. 143. (org. 6 Pioneira foi a obra de Y. R. Dogma e anunciação. que não mais consegue transmitir para seus contemporâneos o que crê e o que vive (DV 8). portanto. São Paulo: Loyola. embora sempre estejamos nos referindo à mesma Igreja. 4 5 62 Perspectiva Teológica. Antes tolerada. LAFONT. Paris: Cerf. CONGAR. eternizar o histórico. formas e estruturas adequadas através das quais eles possam ser acolhidos e vividos pelos membros da comunidade.pmd 62 31/3/2011. passa a ser com Teodósio a religião oficial dotada de favores. le Temple et l'Évangile. Quando acontece. Paris: Cerf. 2ª ed. 2002. de fato. 1977. 2010. como algo meramente organizatório. 1995.ção da salvação de Jesus Cristo na história. 1997. Em nossos dias muito se escreve sobre a gênese histórica da atual configuração institucional da Igreja Católica6. Freiburg: Herder. 7 H. KLAUSNITZER.). ou que a Igreja da era patrística tenha sido diversa daquela do século XX. J. p. p. Aqui vamos nos limitar a mencionar alguns pontos. p. a liturgia adota um cerimonial com muitos elementos provenientes do cerimonial da corte7. Historical Ecclesiology. Não nos deve admirar.

Esta reação marcará profundamente a eclesiologia da Igreja Católica até hoje9. 55-82. veste etc. à qual os bispos serviam e prestavam contas. À semelhança dos imperadores. passa a ser sem mais toda a população cristã do Império com suas características culturais. sociológicas e políticas. CONGAR. então entendida como “comunidade dos fiéis”. mas entre o clero e o laicato no interior da comunidade8.OK. erigindo-se como grandeza superior diante da comunidade e deixando em segundo plano o fato de que ele só se justifica a serviço da mesma comunidade. então. 1964. possui ornamentos imperiais. 60-66. 8 9 Perspectiva Teológica. o Povo de Deus. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . bem como o seu senado e os seus legados. alicerçada principalmente em princípios jurídicos para poder se enfrentar com o poder civil e garantir a autonomia da autoridade hierárquica. 10 Ibid. status e prestígio social. Poderíamos citar como exemplo a crítica de São Bernardo ao observar que o papa mais parecia sucessor de Constantino do que de Pedro. pp. que a Igreja se tornou uma cúria mais Y. 90. eixo este sustentado pelas estruturas jurídicas do feudalismo10. o único legislador. bem como para o fortalecimento institucional da Igreja. p. CONGAR. Naturalmente. Número 119. direitos e deveres. L'Église de saint Augustin à l'époque moderne. 08:16 63 . fonte e norma de todo direito. A distinção não predomina tanto entre a Igreja e a sociedade civil. Ele é a origem de todo o poder eclesiástico. 105-107. Igreja serva e pobre. A figura do papa se assemelha cada vez mais à de um imperador. deixando aparecer os bispos em alguns textos da época como seus “vigários” nas diversas partes do mundo. tal situação gerou reações no interior da Igreja. pp. O papa goza de grande poder. começa a ser considerada como a Igreja dos clérigos pelo poder e honrarias que gozavam. Tudo acaba por se encontrar devidamente hierarquizado: categorias de pessoas. sua figura deixa transparecer um monarca de tipo imperial. Lisboa: Logos.pmd 63 31/3/2011. ofícios e funções. Belo Horizonte. O regime feudal irá agravar essa tendência pela influência que exerce. A intromissão indevida dos príncipes na nomeação dos bispos (questão das investiduras) bem como os abusos do clero (nicolaísmo e simonia) provocarão como reação da Igreja a conhecida reforma gregoriana. p. Assim acontece uma indevida centralização romana na Igreja em detrimento da autoridade apostólica dos bispos. bem como por um modo específico de vida (celibato. A sede romana se torna o eixo pelo qual Deus leva adiante seu desígnio salvífico. As tensões entre seu poder sagrado e o poder dos imperadores irão marcar os séculos posteriores. No interior da Igreja o institucional (estruturas) ganha realce cada vez maior.). Com o tempo a comunidade eclesial. Ano 43. juiz universal e supremo dotado de uma jurisdição (potestas) sobre a Igreja universal (Dictatus Papae de Gregório VII). Algumas características desta época persistem até nossos dias. na Igreja.as importantes vantagens decorrentes desta situação para a propagação da fé cristã. Apesar de saber que sua autoridade provém de Deus. A Igreja. Essa tendência irá se acentuar nos anos seguintes..

as tradicionais imunidades eclesiásticas. compostas de cardeais e de secretarias.voltada para negócios meio seculares ou um tribunal inspirado não nas leis do Senhor. a Igreja Católica tem no papa. com suas congregações. dotada de tudo o que necessita para realizar sua finalidade12. Jesus Cristo fundou a Igreja e o Espírito Santo atua como garantia da autoridade do Magistério. atingindo o culto. o seu nervo central.. pp. Igreja significa assim. atualizar sua pastoral pelo conhecimento do contexto real onde viviam os católicos. KOMONCHAK. p. 11 12 64 Perspectiva Teológica. Pois aceitou dialogar com a sociedade civil. a comunidade dos fiéis (congregatio fidelium) e mais a própria instituição. o direito e mesmo a teologia. Desse modo. Aparece como uma sociedade organizada como um Estado. A tendência absolutista progride. pp. 127s. Belo Horizonte. mas fechado em si mesmo. O Concílio Vaticano II significou uma mudança decisiva para esta configuração eclesial. Características do Antigo Regime são questionadas depois da queda de Roma (1870). "Modernity and the Construction of Roman Catholicism". diminuindo a autoridade dos bispos e eclipsando o sentido de serviço próprio do múnus pontifício11. mas nas de Justiniano. e cada vez menos. com suas instituições e prescrições. intervindo os núncios mais fortemente nas disputas locais e deixando os bispos com menor autonomia. a unidade religiosa como fundamento da unidade civil. Nos séculos XIX e XX a Igreja Católica assumirá uma configuração específica como uma contrassociedade. bem como a outras religiões. reconhecer a importância das Igrejas Locais e a necessária inculturação da fé. Ano 43. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . procurando fazer renascer uma cristandade perdida. canônicas e devocionais segundo o modelo romano. diminuindo a força dos sínodos locais. 55-82. o monopólio da educação e da assistência social. Também se observa uma crescente centralização da vida católica em torno do papa. reforçando assim as prerrogativas papais. Cristianesimo nella Storia 18 (1997) 353-385. assumir alguns de seus elementos.pmd 64 31/3/2011. a influência do direito canônico na legislação civil. 381-384. Número 119.OK. 13 J. tendo em seu cume o papa. avaliar a cultura da modernidade. uniformizando devoções e práticas litúrgicas. 08:16 . ou as pessoas encarregadas de conservá-las e promovê-las. A teologia da Contrarreforma defende as posições católicas mais confessionais.A. O diálogo se estendeu às Igrejas nascidas da Reforma.. Conhecemos os anos turbulentos que se seguiram ao Concílio Vaticano II. Atrás de um modelo para um projeto político e cultural. a Igreja vai buscá-lo numa visão idealizada da Idade Média. Ibid. Ibid. a discriminação e a intolerância religiosas. como o catolicismo enquanto religião oficial. A monarquia aparece como a melhor forma de governo. legitimada por uma contracultura em oposição à sociedade liberal que emergia13. Ela aparece então como uma sociedade perfeita. gerando o sistema católico-romano dinâmico e conquistador para fora. assistido pelas congregações romanas.

2009. que o convite feito aos leigos e às leigas para ser membros ativos e verdadeiros sujeitos eclesiais não vem acompanhado das condições requeridas para tal. Número 119. que a estrutura jurídica dificulta sobremaneira a ação renovadora do Espírito Santo. possibilitando assim seu desenvolvimen14 Como reconhece o sociólogo reformado francês J. que a padronização de práticas e expressões doutrinais fomenta uma vida religiosa formalista e rotineira. Ano 43. pp. O sujeito eclesial pressupõe uma nova mentalidade eclesial Para se sair desta situação impõe-se uma mudança que não é nada simples. que o controle da produção teológica desanima vocações intelectuais que muito ajudariam à Igreja a se enfrentar com a atual sociedade. a uniformização da liturgia e a modesta abertura proporcionada ao laicato na Igreja.pmd 65 31/3/2011. Devemos reconhecer que a ênfase na salvaguarda da dimensão institucional muito contribuiu para a manutenção da unidade eclesial14. ele é capaz de se confrontar com ela para avaliá-la e mesmo criticá-la. que a mulher ainda continua discriminada em muitos setores da Igreja embora sejam seus membros mais ativos e generosos. o controle da produção teológica. que o discurso magisterial sobre a inculturação da fé não consegue se traduzir na prática pelos vetos disciplinares da Cúria Romana. a relação entre o indivíduo e a instituição na qual vive é de natureza dialética. que a formação dos futuros sacerdotes ainda deixa a desejar para que tenham uma atuação significativa nesta sociedade e não se refugiem apenas nos atos de culto. 15-29.como já havia acontecido com outros Concílios no passado. 15 Ver ainda P. que os cargos eclesiásticos são vistos como instâncias de poder e não tanto como carismas de serviço gerando no novo clero a ideia de carreira eclesiástica15. Belo Horizonte.-P. pp. TIHON. que o sistema para a nomeação de novos bispos não permite uma participação maior das Igrejas Locais. 15-29. a volta de uma hegemonia acentuada da hierarquia. que as Igrejas Locais não são respeitadas como deveriam. que a preocupação pastoral pelos pobres tenha se arrefecido nos anos pós-conciliares. De fato. 1992. Paris: Cerf. Pour libérer l'Évangile. "L'organization religieuse et la gestion de sa verité: modèle catholique et modèle protestant". WILLAIME. e a reação posterior da cúria romana que acentuou novamente a centralização. por um lado.OK. III. que o aspecto doutrinal relegou ao segundo plano a dimensão experiencial da fé. 08:16 65 . Já se afirmou que a eclesiologia se transformou então numa hierarcologia. p. Genève: Labor et Fides. Se. em sua obra La precarité protestante: Sociologie du protestantisme contemporain. Perspectiva Teológica. 55-82. mas deu origem também a uma configuração eclesial que apresenta características que pedem correções para que a Igreja desempenhe a contento sua finalidade salvífica. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 .

ela jamais poderia ser concebida. Começaremos por esta última tendo presente sua conexão e mesmo sua dependência de uma nova configuração das estruturas eclesiais. em geral sem maiores consequências. Número 119. sua visão da realidade com sua escala de valores é também. 2008. Todos são membros da Igreja. e mesmo expressar seus sentimentos num protesto. Numa eclesiologia como a de Roberto Bellarmino. Deus precisa da Igreja?. por outro. foi decisiva para o nosso tema. estritamente hierarquizada. 16 17 66 Perspectiva Teológica. ou mesmo. como da mentalidade nela dominante. Esta missão primeiO mesmo vai ser afirmado da participação ativa de todos nos atos de culto (SC 14). 55-82. 08:16 . ou na formação de uma nova sociedade marcada pela justiça e pela caridade (LG 9. Belo Horizonte. está na realização do Reino de Deus. o próprio funcionamento institucional acaba fazendo a pessoa aceitar como “normal”.pmd 66 31/3/2011. poderíamos mesmo dizer. Como este fenômeno já aconteceu no passado da Igreja com repercussões até nossos dias. De fato. Sem a menor pretensão a sermos completos vamos apresentar alguns elementos de cunho eclesiológico que poderão nos ajudar nesta questão. a sua razão de ser.to e aperfeiçoamento. todos participam ativamente da ação evangelizadora da Igreja no mundo16. Sem estar esclarecido por esta fundamentação de seu agir ele pode se sentir mal na Igreja. por sua vez. Ver o excelente livro de G. tratando em seguida dos diversos membros presentes na Igreja. fortemente influenciada pela instituição. Ano 43. que não acontece naturalmente a menos que o indivíduo conheça as razões (e esteja delas convencido) que o levam a este novo modo de se comportar. LOHFINK. na constituição de uma nova humanidade que consista na família de Deus. São Paulo: Loyola. A missão da Igreja. 1. óbvio. A opção dos bispos no Vaticano II de iniciar a Constituição Dogmática sobre a Igreja a partir de todo o Povo de Deus. O indivíduo na Igreja como sujeito A verdade de que cada membro da Igreja é sujeito eclesial e não apenas destinatário (para não dizer objeto) da ação pastoral da hierarquia implica certamente uma compreensão adequada da Igreja. AA 2)17. com membros ativos e membros passivos. um modo determinado de se compreender ou de se comportar pelo simples fato de que se encaixa perfeitamente naquela configuração institucional existente e é confirmada pelos demais membros da mesma. Portanto faz-se mister apresentar explicitamente a argumentação que dê suporte à sua reivindicação e que consiga assim sensibilizar outros para as mudanças necessárias. Uma nova mentalidade eclesial pode se originar de um determinado comportamento e ação do indivíduo na Igreja. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . vista como uma sociedade perfeita. o tema do sujeito eclesial implica na revisão tanto da configuração institucional. p. todos gozam de igual “dignidade e ação comum” (LG 32). 40.OK.

que ‘sopra onde quer’ (Jo 3. Pois a realização do Reino de Deus deve transformar o humano em sua totalidade. 21 Entre os direitos e deveres enunciados pelo Concílio Vaticano II este foi o único omitido no Código de Direito Canônico. ou que seja a missão deles. da economia. PHAN (org. e ao mesmo tempo na comunhão com os irmãos em Cristo. Contudo. ou ainda no papel Um dos erros mais graves de nosso tempo (GS 43). Os leigos ao contrário.A. e não apenas em seu aspecto espiritual18. pp. todos na Igreja (LG 30) pelo fato de serem batizados (LG 33). 18 19 Perspectiva Teológica. não funcionalmente. Entretanto esta concepção vem corrigida pela noção abrangente do Reino de Deus como tarefa comum de todos na comunidade eclesial. Portanto. ou no crescimento da Tradição pelo estudo. enquanto proclama e testemunha pela vida de seus membros a realidade do Reino para cuja plenitude caminha19. Tal escopo recebe o nome de apostolado. assumam suas próprias responsabilidades” (GS 43).OK. dentro da Igreja e do mundo. 08:16 67 . p. em todas as suas dimensões. cujo sentido último de seu existir é exatamente ser instrumento da promoção do Reino e seu sinal sacramental na história. das artes. a saber. “mesmo dos mais simples.]. 20 DIANICH / NOCETI..ra e fundamental diz respeito a toda a vasta complexidade da vida humana e faz de todos os membros da Igreja sujeitos da mesma. 55-82. Collegeville: Liturgical Press. mas constitutivamente20. pelo que é e não por alguma investidura ou delegação posterior. não julguem serem os seus pastores sempre tão competentes que possam ter uma solução concreta e imediata para toda a questão que surja. da própria Igreja. na liberdade do Espírito Santo. independentemente de sua condição no interior da mesma. Não podemos negar que alguns textos conciliares ainda (como predominava na época pré-conciliar) reservam aos fiéis leigos tarefas na sociedade. embora por modos diversos" (AA 2). Conforme os carismas que o Espírito Santo lhes outorgou. antes mesmo de se pensar na multiplicidade de seus carismas na Igreja. "Nasce a Igreja com a missão de expandir o Reino de Cristo por sobre a terra [. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Belo Horizonte. Deste modo. 2000. sobretudo com seus pastores” (AA 3). nota 18. bem como pela participação de todos na constituição do “sensus fidelium” (LG 12). não aludindo tanto a atuações no interior da Igreja. "The Significance of Vatican II for Ecclesiology". contemplação ou experiência dos que creem (DV 8). KOMONCHAK. Ano 43. todo cristão é sujeito eclesial ativo. The Gift of the Church. Número 119.pmd 67 31/3/2011. 410s.). da política. no mundo da cultura. nasce em favor de cada um dos fiéis o direito e o dever de exercê-los21 para o bem dos homens e a edificação da Igreja. Trattato sulla Chiesa. 84. esclarecidos pela sabedoria cristã e prestando atenção cuidadosa à doutrina do Magistério. mesmo grave. na própria Igreja e na sociedade onde vive. Daí a afirmação da Gaudium et Spes: “Os leigos esperem dos sacerdotes luz e força espiritual. p. in P. devem promover os valores evangélicos na sociedade.. Exerce-o a Igreja através de todos os seus membros. Ver J.8). sendo assim sujeitos ativos de um grande sujeito coletivo.

o Documento não especifica o que entende por “verdadeiros sujeitos eclesiais”. “com o auxílio do Espírito Santo. todos devem ser sujeitos ativos desta tarefa comum. Reconhece que. confiando-lhes ministérios e responsabilidades (DA 211). Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . melhor entendida e proposta de modo mais adequado” (GS 44). Número 119. A ação pastoral ad intra como própria de qualquer membro da Igreja vai ser incrementada depois da renovação dos ministérios na Igreja. no sentido mais amplo. Se desejarmos que sejam maiores na sociedade. assessorias das mais diversas. auscultar. tarefa que não é exclusiva de pastores e teólogos. discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo. 55-82. 08:16 . A ação do Espírito Santo em todos os membros da Igreja Intimamente correlacionada com a característica de que todo cristão é sujeito eclesial está a verdade de fé sobre a ação universal do Espírito Santo na comunidade eclesial. para que a Verdade revelada possa ser percebida sempre mais profundamente. obras de caridade. Insistem. por um lado. 2. especialmente da hierarquia (DA 213). é um só e único movimento” (DA 215). Esta lacuna vem parcialmente corrigida por determinadas recomendações presentes no Documento. pelo fato de que a missão de todos na Igreja é a realização do Reino de Deus. Esta verdade de fé nem mesmo era mencionada em muitos 68 Perspectiva Teológica. ensino teológico). Uma importante afirmação resume bem esta dupla atuação dos fiéis na sociedade e na Igreja: “A construção da cidadania. Este objetivo não será atingido sem uma séria e profunda mudança na mentalidade de todos na Igreja. coordenação pastoral. também devem poder sê-lo na Igreja. conforme os dotes e carismas próprios (catequese. A missão comum para os leigos se refere primeiramente ao mundo (DA 210). e julgá-las à luz da Palavra Divina. O Documento de Aparecida acolhe em suas linhas gerais a eclesiologia conciliar. mas também se realiza no interior da Igreja (DA 211). e. pela fé e pelo batismo. e a construção da eclesialidade nos leigos. todos “adquirem igual dignidade e participam de diversos ministérios e carismas” (DA 184). Entretanto. por outro. como já observamos. do planejamento e da execução” (DA 371). em sua melhor formação religiosa (DA 212) e cultural (DA 492). que abre novos campos de atuação para todos. Tanto num setor como no outro os bispos demonstraram que os leigos necessitam de maior autonomia e participação.ativo de todos nas celebrações litúrgicas (SC 7) e até na expressão mais adequada da Palavra de Deus. da tomada de decisões. a saber. Ano 43. promoção humana. participando “do discernimento.pmd 68 31/3/2011. Belo Horizonte. p. Portanto. reconhecem que eles são verdadeiros sujeitos eclesiais e competentes interlocutores entre a Igreja e a sociedade (DA 497a). Assim os bispos devem lhes conceder maior espaço de participação. de tal modo que sejam “parte ativa e criativa na elaboração e execução de projetos pastorais a favor da comunidade” (DA 213). Devemos mesmo afirmar que sem o Espírito não haveria Igreja. que não se limita somente à dimensão espiritual da vida humana.OK. animação litúrgica.

vos enviará. 23 E. Ver J. a saber. "The Contribution of Yves Congar's Theology of the Holy Spirit". Belo Horizonte. 25 H. CONGAR. São Paulo: Loyola. levando-nos a ousar invocar Deus como Pai (Gl 4. o Espírito vos ensinará. vos conduzirá.1). Ano 43. Basel: Johannes. 55-82. Portanto. (Jo 14 e 16).manuais de eclesiologia anos atrás. 5). Ao se tratar da graça de Deus apenas se mencionava a presença do Espírito Santo no fiel que. 24 Y. p.OK. vos fará conhecer. 1987. GROPPE. da Palavra que anuncia Jesus Cristo.15) e Paulo afirma que a diversidade dos dons concedida a todos constitui um único corpo.3). Seríamos incapazes de rezar se o Espírito não viesse em nossa ajuda (Rm 8. numa palavra. Reinava uma concepção mais jurídica da Igreja22. todas as ações salvíficas da Igreja são epicléticas26. 45. Também as celebrações litúrgicas da Igreja são obra do Espírito. A atuação do Espírito estava confinada apenas a garantir a autenticidade da tradição e a autoridade dos atos do magistério. Theologik III. pp. 1989. ao ser justificado. sua força e seus dons. poderíamos mesmo afirmar que toda a vida da Igreja é epiclética sem mais. tanto Paulo como João atestam que o Espírito Santo é dado à Igreja: o Pai vos dará o Espírito. fato este que implica uma opção eclesiológica distorcida. Je crois en l'Esprit Saint III. Número 119. 08:16 69 . Santo Tomás de Aquino bem como a tradição do Oriente testemunhem exatamente o contrário23.18). 343-351. atuante nos participantes e principal fator da eficácia dos sacramentos.15) e suscitando nossas preces e pedidos (Ef 6. p. "The Holy Spirit and Church Governance". p. Pois não haveria Igreja sem a escuta e o acolhimento na fé do querigma salvífico. os Santos Padres. 353.U. tão forte entre os orientais. CONGAR. A Palavra e o Espírito. “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5. Em Pentecostes o Espírito é derramado sobre os presentes (At 1. von BALTHASAR. e esta opção é obra do Espírito Santo (1Cor 12..6. Theological Studies 62 (2001) 452-456. Observamos que os destinatários do Espírito são nomeados sempre no plural.A. A antropologia teológica se encontrava separada da eclesiologia.pmd 69 31/3/2011.T.. Paris: Cerf. Perspectiva Teológica. Daí a afirmação de 22 No Novo Código de Direito Canônico o Espírito Santo é mencionado apenas em sete cânones limitados a algumas áreas da Igreja. O culto agradável a Deus consiste na oferta da própria vida (Rm 12. era patrimônio da hierarquia em vista da conservação da Igreja. Rm 8.3). 26 Y. mas este culto espiritual é fruto da ação do Espírito em nós (Fl 3. É o Espírito que nos orienta para uma interpretação correta do evento Jesus Cristo24. era “templo do Espírito Santo”.4-11).26). De fato. CORIDEN. The Jurist 66 (2006) 339-373. tal como vemos na epiclese da eucaristia. 1980. pois provém do mesmo Espírito (1Cor 12. Der Geist der Wahrheit. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Ainda mais. Entretanto esta teologia da inabitação trinitária no fiel não mencionava referência alguma à Igreja. embora tanto o Novo Testamento. que então lhe comunicava sua luz. “a Igreja da Palavra é necessariamente a Igreja do Espírito”25. Na verdade.

Santo Irineu: “onde está a Igreja (comunidade de fiéis) aí está o Espírito de
Deus”27.
É, sobretudo, a participação de todos no mesmo Espírito que constitui a
comunhão de todos: “a comunhão do Espírito Santo” (2Cor 13,13); note-se
que aqui se trata de um genitivo objetivo. Ela implica comunhão nos bens
provindos de Deus: no mesmo Evangelho (Fl 1,5), na mesma fé (Fl 1,6), no
mesmo Deus (1Jo 1,3), no mesmo Cristo (1Cor 1,9), na mesma eucaristia
(1Cor 10,16). Ainda mais. O Espírito que esteve presente e atuante durante
toda a existência de Jesus, testemunhado em seu nascimento (Lc 1,35), em
seu batismo (Mc 1,10s) e em sua ressurreição (Rm 1,4), bem como ao longo
de seus dias na obediência contínua ao Pai e na entrega de sua vida por
nós, é o mesmo Espírito que atua hoje nos cristãos (LG 7), o Espírito de
Cristo ressuscitado, para plasmar neles uma existência semelhante a de
Cristo (Fl 3,11s) constituindo-os assim filhos de Deus. Como afirma Congar:
“O Senhor e o Espírito atuam na mesma esfera e fazem o mesmo. O Senhor
atua como Espírito e o Espírito realiza a obra do Senhor”28. Uma correta
eclesiologia pneumatológica pressupõe assim uma adequada cristologia
pneumatológica.
Daqui seguem-se consequências importantes para o nosso tema29. A primeira delas indica ser o Espírito Santo a fonte última dos carismas na
Igreja. Ele atua nos cristãos dotados de talentos humanos diversos, estimulando-os a investir tais carismas na construção do Reino de Deus, bem
como lhes concedendo seus dons em vista da edificação da Igreja. Deste
modo a plenitude do Espírito na Igreja reside na totalidade dos diversos
carismas ou ministérios concedidos a todos os seus membros. Já que todos
são dotados de algum deles devem consequentemente poder exercê-los.
Daí silenciar autoritariamente, não dar espaço para a manifestação destes
carismas, ou tempo para seu amadurecimento, seria como procurar “extinguir o Espírito” (1Ts 5,19). Naturalmente não se nega a necessidade do
discernimento (1Ts 5,21), como já observara Paulo: “que seja para a
edificação da assembleia” (1Cor 14,12). Este discernimento dos espíritos
embora seja um carisma particular (1Cor 12,10), também pode ser realizado pela comunidade (1Cor 14,29; 1Jo 4,1).
É a partir destas mesmas verdades que o Concílio Vaticano fala de um
sentido da fé (sensus fidei) presente em todos os membros da Igreja, “excitado e sustentado pelo Espírito da verdade” e que lhes possibilita com
reto juízo mais profundamente penetrá-la e mais plenamente aplicá-la à
Adv. Haer. III, 24, 1.
Y. CONGAR, "Pneumatologie Dogmatique", in B. LAURET / F. REFOULÉ (org.),
Initiation à la pratique de la théologie II, Cerf: Paris, 1988, p. 508.
29
V. CODINA, "No extingais el Espíritu" (1 Ts 5,19): Una iniciación a la Pneumatología,
Santander: Sal Terrae, 2008, pp. 71-159.
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vida (LG 12). Daqui também se abre a possibilidade de um múnus profético igualmente “através dos leigos”, que não se limita só a uma atuação
na sociedade, mas que da mesma forma incide no interior da Igreja (LG
35). Podemos assim concluir que a representação tradicional de uma parte
ativa e de outra passiva na Igreja contraria os dados da Escritura, empobrece a comunidade e deve ser eliminada. Toda a ação do Espírito nos fiéis
é eclesial, pois fundamenta, vivifica, enriquece e desenvolve a comunhão
com Deus e com os demais membros. E, no fundo, a Igreja é esta comunidade humana vivendo no Espírito de Cristo e continuando sua obra de
propagar o Reino de Deus.

IV. O sujeito eclesial pressupõe uma nova configuração
eclesial
1. A instituição condiciona o indivíduo
Já observamos que o indivíduo sofre forte influência da sociedade na qual
se encontra e que, portanto, a consciência de ser sujeito eclesial não pode
prescindir da Igreja concreta na qual vive. Esta afirmação merece uma
maior reflexão de nossa parte30. Pois a sociedade, de modo geral, se
institucionaliza a partir dos próprios seres humanos enquanto agem como
atores sociais, expressando uma determinada visão do mundo, bem como
comportamentos e práticas partilhadas. Finalmente, para que possam perdurar as cristaliza em instituições a serem respeitadas por todos. Deste
modo a institucionalização organiza sensatamente as experiências humanas e oferece unidade para um grupo social. Esta produção humana aparece aos olhos dos que nela vivem como uma realidade objetiva, devidamente justificada, que acaba por plasmar compreensões da realidade e
comportamentos correspondentes. Afastar-se dela significa não só um desvio
social, mas uma oposição à realidade.
Esta visão da realidade (com seus comportamentos e instituições respectivas) se sedimenta e passa para as gerações posteriores, constituindo a tradição que lhes oferece a orientação na vida, a identidade social, o lugar ou
o papel no respectivo grupo humano. Novas gerações se apropriam desta
herança social através de um processo de interiorização, que já acontece na
fase infantil (socialização primária), mas que prossegue na vida do jovem
e do adulto (socialização secundária).

30
Ver P. BERGER / Th. LUCKMANN, A construção social da realidade, 4ª ed., Petrópolis:
Vozes, 1978.

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Apliquemos esta análise à Igreja. Não vamos nos referir aos aspectos
institucionais da Igreja provenientes da revelação. Estes não são mera produção humana e, portanto, não podem ser tocados. Tratamos dos aspectos
institucionais enquanto criações humanas e que constituem uma determinada configuração eclesial, histórica, conjuntural, oportuna e adequada aos
desafios de uma determinada época. Esta configuração condiciona necessariamente o cristão que nela vive, já que a vê como uma realidade objetiva, devidamente respeitada pelos demais membros da Igreja e à qual se
ajusta sua mentalidade e seu comportamento. Deste modo, se a herança
recebida apresentava uma configuração eclesial onde só a hierarquia tinha
voz ativa e o comando das iniciativas, naturalmente o laicato se comportava como uma massa silenciosa, obediente e passiva. Mesmo que alguns
tivessem a lucidez crítica de não aceitarem o status quo que receberam, de
manifestarem publicamente suas razões e seu descontentamento, o peso
da instituição neutralizava tais protestos, pois a grande maioria continuava
condicionada pela configuração respectiva que aparecia a seus olhos como
objetiva e verdadeira.
Apliquemos esta análise ao nosso tema. Sem dúvida a ausência de um
sujeito eclesial, como pedem os recentes documentos do magistério e como
exige uma eclesiologia católica, se deve em grande parte à configuração
medieval da Igreja, autoritária, vertical, clerical e com participação mínima
dos fiéis. Se desejamos ter discípulos missionários faz-se mister uma configuração que permita emergir uma nova mentalidade entre os fiéis na
Igreja, que possibilite e estimule os novos comportamentos e as urgentes
iniciativas que desejamos. Caso contrário, vamos banir importantes e oportunos pronunciamentos do magistério às prateleiras das bibliotecas, privando-os de uma real incidência na vida concreta da Igreja. Daí a necessidade de uma adequada configuração institucional para a constituição de
um autêntico sujeito eclesial.

2. O Espírito Santo como co-instituinte da Igreja
Do que vimos anteriormente já deve ter ficado claro que nada acontece
na Igreja do ponto de vista salvífico sem a presença e a atuação do
Espírito nos cristãos. Porém esta ação apresenta uma dimensão eclesial
que lhe é intrínseca, a tal ponto que repercute na própria configuração
institucional da Igreja. Trata-se, portanto, de se ter em devida consideração o que está implicado, também do ponto de vista institucional,
numa eclesiologia pneumatológica. O que resulta para o status de alguém na Igreja o fato de ter acolhido na fé a pregação da Palavra de
Deus e de ter esta fé celebrada nos sacramentos, especialmente no batismo e na eucaristia? Em todos estes eventos está presente e atuante
o Espírito Santo. Daí nasce a pergunta: sua ação restringe-se somente
ao âmbito da individualidade ou tem inevitavelmente uma consequência
no âmbito comunitário e institucional?
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Révue de Sciences Philosophiques et Théologiques 91 (2007) 265-284. da competência dos bispos residenciais. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . dada a fraqueza dos fundamentos teológicos de algumas normas vigentes. 1979. na consciência de que são sujeitos na comunidade eclesial. mais correto seria o direito legislativo ser medido pelo direito da graça. 1989. o caso do celibato do clero latino. Goza assim de uma dignidade comum a todos os que pertencem à comunidade eclesial e é nela incluído através dos sacramentos. que pode estar privando os fiéis de uma participação frequente da eucaristia. Naturalmente ela vai exigir um longo processo de institucionalização na Igreja. mais d'approfondir l'action de l'Esprit qui doit s'exprimer aussi dans le droit de l'Église". 08:16 73 . aqui p. Ele menciona uma alocução de Paulo VI que corrobora sua tese34 e cita. Ver deste autor. ad 3um. São Paulo: Loyola.pmd 73 31/3/2011. porém mais especificamente para temas centrais como a Igreja Local. mas. dada a 31 H. Vejamos. 2. Porém as normas legislativas não deveriam impedir o direito institucional como se observa hoje com a desvalorização da Igreja Local. os sacramentos não são apenas “sinais da graça”. A Palavra e o Espírito. Belo Horizonte. a inculturação da fé. o papel do bispo em sua diocese. 95. p. 33 Esta é para Y. cujas estruturas devem não impedi-los. Congar a visão do Vaticano II. 32 Summa Theologica. "Grâce et institution dans l'Église". Ver ainda R. 139-172. L'Église: institution et foi. p. como exemplo que não deveria acontecer. "Les Retractationes d'Yves Congar sur le rôle de l'Esprit Saint dans les institutions ecclésiales". Para Legrand. "Grâce et institution dans l'Église". a múltipla participação dos fiéis na ação pastoral. pp. nota 36. para citar alguns exemplos.A resposta a esta pergunta tem sérias consequências não só para uma concepção de Igreja em geral. membro de Jesus Cristo e templo do Espírito Santo. 64. IIIa. "Alocução ao Congresso Internacional de Direito Canônico (17/ 09/1973)".-M. La Documentation Catholique 70 (1973) 804.OK. citado por LEGRAND. pois a comunidade eclesial deve estar organizada e ser devidamente administrada. art. 55-82. 167. De fato. sobretudo. "Grâce et institution dans l'Église: les fondements théologiques du droit canonique". Citado por LEGRAND. da participação dos fiéis na vida da Igreja. O batizado se torna cidadão do Povo de Deus. CHÉNO. PAULO VI. Os sacramentos são responsáveis por uma institucionalidade fundamental 31 da Igreja. 162. mas estimulá-los a assumir sua condição de membros da Igreja em toda a sua amplitude. 34 "Votre première préoccupation ne será donc pas d'établir un ordre juridique calqué sur le droit civil. no próprio governo e mesmo na configuração concreta da Igreja Local. determinando relações peculiares com Deus e com os demais irmãos. 161. Sua tese aponta para uma das causas das atuais dificuldades com a instituição eclesial por parte dos fiéis. verdade esta que não passou desapercebida a Santo Tomás de Aquino32. Perspectiva Teológica. mas introduzem os cristãos num status novo. Bruxelles: Publications des Facultés Universitaires Saint-Louis. do papel das Conferências Episcopais. Ano 43. sem negar que este último seja legítimo e necessário. Número 119. q. p. Por ter a sua procedência em Jesus Cristo é este direito da graça mais fundamental que o direito legislativo33. p. LEGRAND.

Being as Communion. Através dele leva os fiéis a enfrentarem com criatividade e coragem os novos desafios postos pela história. carisma e função” (AG 28). Além do que já foi mencionado anteriormente sobre a ação do Espírito Santo é necessário enfatizar que esta ação visa à construção da comunidade. A instituição permanece exterior ao indivíduo. ZIZIOULAS. e ao mesmo tempo na comunhão com os irmãos em Cristo. Número 119. Já desde o início do cristianismo o Espírito não é apenas o princípio de comunhão entre os fiéis. dando uma configuração institucional adequada à sua Igreja.complexidade da matéria. Poderíamos reforçar esta tese com as consequências negativas que resultam de uma carência pneumatológica na eclesiologia. Aí temos a função do Espírito Santo.14). Witten. Surge então um hiato entre a hierarquia e a comunidade Das Recht der Gnade. Daí a afirmação de Congar: “A Igreja não foi fundada somente na origem: Deus a constrói ativamente sem cessar. 55-82. A Palavra e o Espírito. Deste modo “os fiéis devem colaborar no Evangelho. p. e assim torna os fiéis “aptos e prontos a tomarem sobre si os vários trabalhos e ofícios” (LG 12). 38 J. E como princípio de comunhão entre os fiéis dá origem a instituições que possibilitem esta comunhão. 1985. mesmo dos mais simples. Daí a afirmação taxativa do Concílio: “Da aceitação destes carismas.OK. 170. 140. não se esgotando apenas no cristão como indivíduo. podendo ser considerado como princípio coinstituinte da Igreja38. No fundo Legrand assume a posição de H. sujeito transcendente da Tradição viva e garantia de sua fidelidade (2Tm 1.D. Ökumenisches Kirchenrecht. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Ano 43. É o Cristo glorificado que continua agindo na Igreja por seu Espírito. nasce em favor de cada um dos fiéis o direito e o dever de exercê-los para o bem dos homens e a edificação da Igreja. p. já que a ação do Espírito se limita ao âmbito de sua vida espiritual. 1969. "Grâce et institution dans l'Église". na liberdade do Espírito Santo. dentro da Igreja e do mundo. 35 36 74 Perspectiva Teológica. p. que não contribui institucionalmente. 08:16 . mas através deles continua agindo em vista da edificação do Corpo de Cristo (1Cor 12 e 14). faculdade. 94. O Concílio Vaticano II expressa também claramente esta ação do Espírito na Igreja “que a dota e dirige mediante os diversos dons hierárquicos e carismáticos” (LG 4). Dombois35 que considera “a Igreja como a concreção jurídica dos processos e das relações constitutivas da realidade cristã”. London: Darton / Longman / Todd. LEGRAND. sobretudo com seus pastores” (AA 3). cada um conforme sua oportunidade.8). que ‘sopra onde quer’ (Jo 3. p. não conseguindo uma expressão social e jurídica e favorecendo uma concepção individualista da salvação. ou como “um conjunto orgânico de processos institucionais e sacramentais”36. Esta é a ideia expressa em 1Cor 12”37.pmd 74 31/3/2011. Belo Horizonte. 37 CONGAR.

pp. Este tema pede de nós uma reflexão posterior. gratuita. o Templo do Espírito Santo. O Novo Código de Direito Canônico preferiu a expressão "Igreja Particular" para designar a diocese. Daí a emergência de uma classe clerical. Trattato sulla Chiesa. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . com suas riquezas e limitações. de uma mentalidade anti-institucional ou mesmo de um pentecostalismo como reação a esta situação. o Corpo de Cristo. Klostermann. pois deixará de fora sua dimensão transcendente: a presença e a atuação do Espírito Santo em cada membro e na comunidade. Pois a Igreja Local é Igreja Católica como as demais Igrejas Locais. Lanne. 3.dos fiéis39. pp. Ano 43. Ao afirmarmos ser a Igreja o Povo de Deus. Observemos ainda que a Igreja existe por pura iniciativa de Deus. Em que se distingue ela das outras? O que a caracteriza? Pode ela sofrer uma transformação de cunho institucional sem perder sua identidade? O Concílio Vaticano II emprega tanto a expressão “Igreja Particular” (designando especialmente dioceses) como também o termo “Igreja Local” (designando dioceses. Ver DIANICH / NOCETI. A. "La réalisation de l'Église en un lieu". in Initiation à la pratique de la théologie III. localizada no tempo e no espaço. Estas afirmações têm sua fonte no testemunho do Novo Testamento. Conferências Episcopais Nacionais ou Continentais). Preferimos esta última expressão para designar comunidades eucarísticas. patriarcados e também comunidades em torno da eucaristia)40. J. que assume este termo e ainda menciona E. em sua Igreja Local o cristão encontra maior possibilidade de chegar a ser nela um sujeito verdadeiramente consciente e ativo. 145s. J. mais facilmente escutá-la. Número 119. LEGRAND. mais diretamente nela participar. LEGRAND. 55-82. a Comunhão de todos os seus membros com Deus e entre si. na própria revelação de Deus. Por habitar o mesmo contexto sociocultural de sua comunidade o cristão pode melhor compreendê-la. Ratzinger. Komonchak como sendo de igual parecer. Amato. F. 1993. 08:16 75 . Belo Horizonte. que preferem falar de "Igreja Local". pp. "Grâce et institution dans l'Église". H. primeira. 148-154. com sua linguagem e suas práticas. estamos caracterizando-a a partir de Deus. Podemos também afirmar que elas deitam suas raízes numa realidade teologal vivida e experimentada pelos primeiros cristãos.pmd 75 31/3/2011. fundante. fato este lamentado por bons eclesiólogos. Numa palavra. A importância da Igreja Local para a emergência do sujeito eclesial Todo cristão se encontra inserido numa comunidade eclesial através da qual teve acesso e pôde acolher a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo. p. 345s. Paris: Cerf. 39 40 Perspectiva Teológica. Jamais uma compreensão da Igreja que prescinda da fé conseguirá determinar corretamente sua identidade. Igreja para ele será principalmente esta comunidade concreta.OK. mais objetivamente avaliá-la.A. dioceses ou conjunto de dioceses (Regionais.

práticas. numa eclesiologia de comunhão. 76 Perspectiva Teológica. constitui uma Igreja Particular. A fé da comunidade. ritos. The Jurist 66 (2006) 70-92. a constituição de uma comunidade presidida pelo ministério ordenado. aproveitando a sabedoria. como mediação que facilita e promove este encontro.O Documento do Concílio Vaticano II Christus Dominus (n. a atuação do Espírito Santo nos fiéis que os capacita a confessarem na fé a divindade de Cristo. liturgias. pois a ação de Deus se encontra contextualmente sedimentada nas doutrinas. a novas formas de organização da comunidade. assim. Porque. sobretudo. que significam a institucionalização de uma experiência salvífica primeira. esta tarefa de configuração não deve ser realizada apenas pelo bispo41. como vimos até aqui. a ação salvífica de Jesus Cristo. da qual participa a fé do indivíduo. "Igreja Local". a novas dimensões da fé. Eles captam melhor o que implica ser cristão neste contexto particular. E podem.pmd 76 31/3/2011. a saber. Já vimos anteriormente ser a fé o fundamento da Igreja. a celebração desta fé nos sacramentos. Uma Igreja devidamente inculturada possibilita melhor a vivência da fé de seus membros. Assim esta porção. tende naturalmente a se expressar e se transmitir por meio de doutrinas. Atualidade Teológica 14 (2010) 51-54 e. Só assim a Igreja pode ser realmente sacramento da salvação de Jesus Cristo para o mundo. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Daí a importância da Igreja Local em nossos dias. Número 119. e aberta a novos modos de viver o seguimento de Cristo. Santa. reconhecendo que houve pronunciamentos do magistério que limitam afirmações conciliares e que acabam por incidir negativamente em nosso tema. Este processo está a serviço do encontro salvífico do ser humano com Deus. Ver M. já que todos os 41 Intencionalmente não entraremos na questão das relações da Igreja Local com as demais Igrejas e com a Sede Romana. como vimos anteriormente. Para isto deverá se inserir no contexto sociocultural onde se encontra (AG 10).OK. Católica e Apostólica Igreja de Cristo”. LEGRAND. Deste modo podemos elencar os elementos teológicos que constituem a Igreja sem mais: a iniciativa do Pai. organizações sociais. práticas. Realmente a fé de uma comunidade tende a se institucionalizar para poder perdurar. H. 11) assim define a Igreja Local: “Diocese é a porção do Povo de Deus confiada a um Bispo para que a pastoreie em cooperação com o presbitério. funções e papéis. Nela verdadeiramente reside e opera a Una. "The Bishop in the Church and the Church in the Bishop". Só assim ela consegue ser uma realidade significativa para seus membros e para a sociedade. sempre professada dentro de um contexto sociocultural e de uma época histórica. melhor colaborar na construção e na irradiação apostólica de sua Igreja. 08:16 . p. Belo Horizonte. Daí a recomendação do magistério eclesiástico: a Igreja Local deve assumir as características próprias de cada povo ou região (LG 13). especialmente no batismo e na eucaristia. que deverá estar atenta à ação do Espírito. aderindo ao seu pastor e por ele congregada no Espírito Santo mediante o Evangelho e a Eucaristia. DE FRANÇA MIRANDA. 55-82. pastorais. Ano 43. as artes e as instituições dos povos para expressar a glória do Criador (AG 22).

Finalmente. Naturalmente aparecerá uma figura ideal. a ciência adquirida. intelectual e social. Portanto. 55-82. como o poder. 1998. Papal Primacy and the Episcopate: Towards a relational Understanding.J. Caso contrário. inspirados nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. 23-31. pp. voltar-se para o que significa serviço autêntico e escondido. Ano 43. outros elementos podem ditar nosso juízo. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . através do estudo e da meditação de sua vida. vejamos os requisitos no próprio indivíduo para que este possa desempenhar o papel ativo que lhe cabe na construção e na missão da comunidade eclesial. quanto ajudar o cristão. Somente a liberdade interior nos livra da ambição. mas que surge como uma meta para a qual todos nós deveríamos tender. Belo Horizonte. os quais constituem.OK. desprovido de poder e prestígio.pmd 77 31/3/2011. O sujeito eclesial pressupõe liberdade interior e amor à Igreja Depois de termos abordado a necessidade de uma nova mentalidade e de uma nova configuração para que possamos ter realmente na Igreja um “sujeito eclesial”. do 42 Ver M. 1. Perspectiva Teológica. cujos traços dificilmente poderão ser encontrados na mesma pessoa. sem dúvida. abrir espaços de participação e potenciar os fiéis. Primeiramente seguir em tudo o modo de proceder de Jesus Cristo. a vaidade. V.membros da comunidade. New York: Crossroad Herder. BUCKLEY. ao professarem sua fé e viverem o seguimento de Cristo. estão enfrentando os mesmos desafios postos pelo contexto. eles poderão ser realmente sujeitos eclesiais. buscando expressões e práticas adequadas para sua vida cristã e para sua ação missionária. devidamente preparado. A liberdade interior Se a maturidade eclesial implica a capacidade de avaliar objetivamente e de agir coerentemente por parte do indivíduo. Número 119. uma autêntica pedagogia da liberdade. Não pretendemos tanto apresentar soluções para determinadas tensões que ocorrem no interior da Igreja. Também não precisamos repetir que esta maturidade tanto mais autêntica será quanto mais estiver construída sobre uma maturidade emocional. dialogar. p. a melhor entendê-las. Em segundo lugar buscar sempre como meta o Reino de Deus para não ceder a qualquer outro objetivo de cunho humano. Como desmascará-los? Podemos elencar três critérios que nos parecem decisivos42. a honra. só na medida em que a autoridade eclesiástica é capaz de ouvir. o cargo hierárquico. abordá-las e posicionar-se diante delas. então se impõe o exame prévio da existência ou não da liberdade interior. 08:16 77 .

Deixemos claro. Já foi observado que hoje nossa visão do mundo deve vir envolta no reconhecimento e na humildade de quem tem profunda consciência da limitação de seus conhecimentos43. Número 119. que a liberdade interior não significa primeiramente uma conquista humana. para a hierarquia eclesiástica. "Der mündige Christ". Só assim 43 K. de seus conhecimentos e.J.medo. pelo Espírito pautemos também nossa conduta” (Gl 5. bem como sujeito ao imperativo de estar sempre interpretando a realidade a partir de suas experiências.OK. Daí também a necessidade de estarmos abertos aos outros e sabermos dialogar. que impedem de início um juízo objetivo sobre questões surgidas no interior da Igreja. constituindo pequenos mundos que nos são estranhos. que ostente a mesma consistência e o mesmo valor que gozava no passado. p. atitude que deveria ser assumida por todos na Igreja. Podia-se presumir uma visão da realidade com seu ethos correspondente (sua escala de valores e suas práticas) como patrimônio comum partilhado por todos na sociedade. Pois há setores da sociedade que desconhecemos e locais onde jamais pisamos. Pois somos continuamente interpelados e bombardeados por uma enorme e sucessiva massa de novos dados que não conseguimos absorver.pmd 78 31/3/2011. RAHNER. Washington: Georgetown University Press. Daí a dificuldade intransponível de chegarmos honestamente a um juízo objetivo e a um comportamento responsável diante da realidade. aderir ou rechaçar o que o seu entorno lhe oferece. 08:16 . pois a cultura era homogênea. 55-82. com visões e práticas múltiplas que coexistem lado a lado. pp. dado o papel importante que desempenha na comunidade eclesial44. Common Calling: The Laity & Governance of the Catholic Church. portanto. reagir.1) pode sintetizar com outros termos o que significa a salvação que trouxe para nós. Mas ela implica também que esta liberdade não constitui apenas um dom. partilhada de certo modo por todos os membros da sociedade. 44 S. pautando assim tanto os juízos como as práticas de seus habitantes. 2004.25). Jan/Abr 2011 perspectiva 119 .). 1983. Einsiedeln: Benziger. inserido numa sociedade com seu horizonte cultural e sua estrutura organizativa. Só assim ele poderá tomar posição. de seus pontos de vista. 78 Perspectiva Teológica.17). mas também uma tarefa: “se vivemos pelo Espírito. Esta afirmação não oferecia tanta dificuldade no passado. Schriften zur Theologie XV. autoridades ou não. entretanto. do desejo de granjear favor ou de descarregar ressentimentos. De fato “Cristo nos libertou para a liberdade” (Gl 5. Hoje vivemos outra situação. cuja linguagem e prática de vida ignoramos e que só no diálogo franco e aberto poderão alargar nossos sempre limitados horizontes. pois ela é fruto do Espírito Santo (2Cor 3. Esta afirmação vale. Ano 43. Entretanto esta ação libertadora do Espírito de Deus se exerce num ser humano dotado de um corpo com suas exigências. pois a sociedade é pluralista. POPE (org. Belo Horizonte. 120-122. sobretudo.

poderemos tornar realidade a eclesiologia de comunhão subjacente aos textos do Concílio Vaticano II. Saber acolher o que não pensa como nós. saber aceitar o diferente dentro da Igreja. apesar de nossa boa vontade e de nossa reta intenção. hoje mais do que nunca. Mais sorrateiros são os condicionamentos de cunho psicológico camuflados em posicionamentos extremos e unilaterais. que enquanto insuficiente. Ambas as partes. devem gozar de liberdade interior para ouvir e seguir o que lhes diz o Espírito não só através dos eventos. preconceitos latentes ou patentes. 1997. consequentemente. 98. acaba por repercutir em nossa atitude diante dela. Pois cada um só pode crer e viver sua fé a partir de sua própria realidade. 55-82. p. A começar por nossa visão teológica da própria Igreja. Perspectiva Teológica. Due ecclesiologie: Ecclesiologia giuridica ed ecclesiologia di communione nella Lumen Gentium. Temos que vencer o equívoco do passado que entendia unidade como uniformidade.pmd 79 31/3/2011. podemos sucumbir a diversas modalidades de condicionamentos. embora saibamos que nem o Concílio Vaticano II chegou a uma só compreensão teológica da Igreja46. talvez bem diversa da de outros que professam a mesma fé cristã. Número 119. 95112. a sua formação. a suas experiências. sendo a atual sociedade pluralista este fato acaba por incidir no interior da própria Igreja. Belo Horizonte. Também a cultura onde nos encontramos nos impõe vermos a Igreja a partir de suas características fundamentais. ignorando como vivia a Igreja no primeiro milênio e impedindo a urgente inculturação da fé. 46 A. São Paulo: Loyola. 45 M. sejam de teor revolucionário. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . p. pois nossa concepção de Igreja consiste sempre num amálgama do dado revelado e do nosso horizonte cultural. Existência cristã hoje. Entretanto. deformada. 1975. Nós somos. sejam de cunho tradicionalista. sem considerá-lo uma ameaça ou um adversário. São Paulo: Loyola. prisioneiros de visões do mundo. pois o mesmo. M. devido a seu contexto.OK. Além disso. ao se expressar. Faz-se mister. 2005. ou idealizada. mas também dos demais interlocutores. ACERBI. que não significa privar o ministério ordenado da autoridade que lhe cabe. um comportamento correspondente em relação à Igreja. 08:16 79 . hierarquia e não hierarquia. práticas sociais. Embora confessando a mesma fé nenhum de nós detém o monopólio do discurso único e universal. de certo modo. Ano 43. KEHL. mas ajudá-lo a melhor exercê-la. Bologna: EDB. que podem impedir um olhar objetivo e. pp. DE FRANÇA MIRANDA. Do mesmo modo temos enorme dificuldade em transcendermos a nossa classe social. inevitavelmente denuncia o solo particular de onde brotou45. linguagens. preconizada pela Igreja em nossos dias. Conhecimentos fundamentais de eclesiologia garantem uma apreciação mais correta dos fatos. A Igreja: Uma eclesiologia católica.

Igreja e Reino de Deus. 47 80 Perspectiva Teológica. Nossos pais. mas enquanto comunidade dos fiéis à qual pertencemos. hoje reinante. colegas de trabalho. se nos vemos rodeados de tanta gente boa que nos ajuda e estimula para o bem.Temos ainda de estar atentos às tentações em relação à Igreja. Paris: Aubier.pmd 80 31/3/2011. Este amor à Igreja concreta nos leva a uma atitude prévia de respeito. Igreja não enquanto apenas hierarquia. Só assim. 1646). É a Igreja que nos gera. se vivemos a aventura da vida guiados pelos valores evangélicos. considerada incompatível com a sociedade atual. Belo Horizonte. que se possui o Espírito Santo”48. 48 In Johannem 32. nossos párocos. sempre que alguns presumem poder emitir um juízo sobre uma realidade que as ultrapassa. nossos amigos. Como já dizia Santo Agostinho: “É na medida em que se ama a Igreja de Cristo. DE LUBAC em sua obra Méditation sur l'Église. Confunde-se. enfim todos aqueles que deixaram marcas em nossa caminhada pela vida. influência social. Amor à Igreja concreta Se aceitamos na fé a pessoa de Jesus Cristo como sentido último de nossas vidas. acatamento e estima. e que demonstrou a força de Deus na fraqueza humana47? 2. Número 119. devido a sua maneira de ser e de agir. Nivela-se. nossas mães. 08:16 . não como afirmação alheia que repetimos. p. que instaurou e propagou o Reino de Deus através dos mais pobres e insignificantes da sociedade. nossos parentes. Sucumbimos a elas quando consideramos a Igreja exclusivamente a partir de nossa ótica. corrige. Tentação forte em nossos dias pelo aparecimento e desenvolvimento das ciências da religião. nossos catequistas e educadores. deste modo. educa. Aplicam-se à Igreja os critérios empresariais de sucesso ou de fracasso.OK. 8 (PL 35. alimenta. assim. Só assim amaremos a Igreja como mãe. anima e conduz para Deus e para os irmãos. pp. tanto Quão atuais são as reflexões de H. tudo isto devemos à Igreja. Ano 43. só assim sofreremos as falhas humanas que acontecem em seu interior. só assim nos alegraremos com o testemunho de muitos de seus filhos. só assim sentiremos em nós os ataques feitos a ela. nos faz considerar a Igreja como uma instituição com escassos resultados visíveis. recursos. a Igreja a qualquer outra instituição social. 1968. Também a cultura da eficácia e da produtividade. finalmente. seremos autênticos sujeitos eclesiais. eternizando uma configuração que nos seja familiar e cômoda e criticando qualquer mudança realizada pelos responsáveis. Não estaremos esquecendo que a salvação nos veio pela “kênose” do Filho de Deus. Talvez subjacente às nossas tentações esteja a Igreja da cristandade dotada de poder. Mas é importante que esta verdade brote de nossa própria existência de cristãos. 55-82. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . que aos olhos do mundo fracassou em seu objetivo. mas como vivência pessoal que expressamos. 232-265. prestígio.

10) e aprendemos a servir não a uma Igreja idealizada. esta crítica brotava do amor pela Igreja. pela força persuasiva dos meios de comunicação social. Pois através da tensão. o amor à Igreja não nos obriga a renunciarmos ao uso da razão ou a cairmos numa obediência mecânica. da autossuficiência intelectual. 1970. A fecundidade deste gesto pode passar desapercebida aos contemporâneos. que lhes possibilitava um discernimento correto do que convinha ser dito (Fl 1. Assim nossa sempre frágil adesão a Cristo e nosso inconsistente amor fraterno são sustentados pela caridade de todo o Povo de Deus50. Portanto. Perspectiva Teológica. mas à Igreja real.pmd 81 31/3/2011. a crítica à Igreja. 1989. do sofrimento e da decepção nos identificamos mais com o Crucificado (Fl 3. La foi chrétienne: Essai sur la structure du Symbole des Apôtres. 216-226. pode prejudicá-la bastante. Este mesmo amor nos faz vibrar com o heroísmo de alguns de seus filhos. São Paulo: Paulinas.9s). 2ª ed. A história da Igreja nos ensina que também os santos souberam criticar pronunciamentos e comportamentos da hierarquia quando se fez necessário. todos somos construtores de uma nova mentalidade e de uma nova configuração. Betrachtungen zum ignatianischen Exerzitienbuch. não do amor próprio. p. 08:16 81 . Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . mas também quando somos contrariados mesmo injustamente. Belo Horizonte.diante dos pronunciamentos e decisões da hierarquia. 1965. como nos atestam tantos exemplos de teólogos e de santos cujo reconhecimento. sobretudo. DE LUBAC. Curso Fundamental da Fé. Nossa fé individual é sempre limitada. Pois todos somos Igreja. Paris: Aubier. Chegados ao final desta reflexão sobre o que implica a emergência do sujeito eclesial constatamos que ela não é nada fácil pelos pressupostos que exige. pp. 49 H. 268. como igualmente diante das expressões simples da religiosidade popular. 50 K. p. todos somos responsáveis. da vaidade. 51 K. München: Kösel. embora tardio. Por outro lado. Ano 43. RAHNER. bem como saber ter paciência com a mediocridade de outros. As mudanças que desejamos dependem de todos nós. Eles testemunhavam uma lucidez que provinha da própria experiência pessoal de uma vida fiel à ação do Espírito Santo. 55-82. não deixou de acontecer e de influenciar todo o corpo eclesial. mas se expande e se completa na fé de toda a Igreja. Hoje. mas a história nos ensina que ele acaba por sensibilizar a própria Igreja nas gerações posteriores. Porém observemos que elas acontecem não somente quando conseguimos vê-las tornarem-se realidade. constituída por nós todos51. do desejo de aparecer. RAHNER. da qual ela participa49.. Número 119. todos somos sujeitos eclesiais. p. Mas é necessário que todos nós promovamos este processo de transformação na Igreja.OK. 452. quando levada à mídia.

Aparecida: a hora da América Latina.pmd 82 31/3/2011.br 82 Perspectiva Teológica. São Paulo: Paulinas. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 1996. 2006.Chegados ao final desta reflexão. A Igreja numa sociedade fragmentada. p. conta claramente com o empenho dos fiéis leigos e leigas. e Igreja e Sociedade. 55-82. São Paulo: Loyola. Mario de França Miranda SJ é doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). seja na própria Igreja. Endereço Endereço: R. A salvação de Jesus Cristo: A doutrina da graça. Só assim a Igreja da América Latina realizará a contento sua missão de proclamar e implantar o Reino de Deus em nosso continente. já que todos nós somos Igreja. Para isto é preciso que os pressupostos anteriormente elencados sejam levados a sério pela hierarquia e demais responsáveis. 2004 (2ª ed. Publicou entre muitos livros e artigos: Um catolicismo desafiado: Igreja e pluralismo religioso no Brasil. São Paulo: Paulinas. 389 22451-041 Rio de Janeiro – RJ e-mail: mfranca@puc-rio.. 2009). seja na sociedade. Pois o projeto missionário de Aparecida afeta a todos na Igreja e. 08:16 . 2007. que se reconhece imperfeita e incompleta.OK. Ano 43. O cristianismo face às religiões. 2009. 1998. Atualmente é professor de teologia sistemática na Pontifícia Universidade Católica (Rio de Janeiro). São Paulo: Loyola. São Paulo: Loyola. sobretudo. Número 119. Belo Horizonte. São Paulo: Paulinas. Marquês de São Vicente. já podemos deslumbrar a importante tarefa que nos incumbe.

explicitarmos o caráter práxico da teologia (III). com o caráter interessado dessa atividade e com o processo de verificação e historicização da teologia. KEY-WORDS: Theology. situarmos a discussão sobre o processo de conhecimento teológico no horizonte dessa problemática (II) e. spell out the praxis character of theology (III). with the character concerned this activity and with the verification process and the historicity of theology. Caráter práxico. Neste sentido. finalmente.pmd 83 31/3/2011. It is related to the scope of the reality of theology. by the same way it is treated. Artigo submetido a avaliação no dia 12/12/2010 e aprovado para publicação no dia 15/12/2010. but also and above all. Teoria-práxis. não apenas como assunto da teologia. p. mas como momento constitutivo e determinante do conhecimento teológico enquanto tal. ABSTRACT: Theology is essentially a praxis activity. Belo Horizonte. PALAVRAS-CHAVE: Teologia. * Faculdade Católica de Fortaleza. 83-102. our approach is limited strictly to the scope of the theorypraxis problematic. Número 119. finally. In this sense. We’ll start sketching the theory-praxis problematic (I) in order to then put the discussion about the process of theological knowledge on the horizon this problematic (II) and. De modo que a práxis será abordada. In the way that praxis will be discussed here not only as a matter of theology. And not just insofar as this is a reality characterized by praxis. Momento. Praxis character. aqui. pelo modo mesmo de tratá-la.O CARÁTER PRÁXICO DA TEOLOGIA: ABORDAGEM EPISTEMOLÓGICA (The praxis character of Theology: an epistemological approach) Francisco de Aquino Júnior * RESUMO: A teologia é uma atividade constitutivamente práxica. Ano 43.OK. Moment. Theory-praxis. Ele tem a ver com o âmbito de realidade da teologia. em seguida. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . nossa abordagem circunscreve-se rigorosamente ao âmbito da problemática teoria-práxis. mas também e. Perspectiva Teológica. 08:16 83 . but as a constitutive and determinant moment of theological knowledge as such. Começaremos esboçando a problemática teoria-práxis (I) para. sobretudo. E não simplesmente na medida em que trata de uma realidade práxica. with the development of reflective activity. com o desenvolvimento da atividade intelectiva.

situando-se. I. das intuições e elaborações de Ignacio Ellacuría. De modo que a práxis não será tratada.A. A. M. nossa discussão circunscreve-se rigorosamente ao âmbito da problemática teoria-práxis. como se o fazer teológico enquanto tal não fosse condicionado e determinado por ela. Teología práctica: teoría y praxis de la acción pastoral. certamente. Roma: L. BRIGHENTI. Introdução à teologia pastoral. MIDALI. Para isso. é determinado pela práxis que procura inteligir. Neste sentido. São Paulo: Paulinas. sobretudo. será tratada como o conjunto das atividades pastorais desenvolvidas pela comunidade eclesial e que constitui a área de estudo da disciplina teologia pastoral. 08:16 . SZENTMÁRTONI. portanto. C. aqui. em grande parte. Perspectiva Teológica 98 [2004] 99-124). Trata-se. esboçaremos de modo mais elaborado a problemática teoriapráxis (I). Belo Horizonte. servindo-nos. E o faremos dentro da tradição teológica latino-americana (Teologia da Libertação). A questão é saber que tipo de vínculo se dá aqui e se esse é o único vínculo possível entre ambas. Trata-se. VIGERAS. 84 Perspectiva Teológica.pmd 84 31/3/2011. Ano 43. Menos ainda. na área da metodologia teológica. p. situaremos a discussão sobre o processo de conhecimento teológico no horizonte da problemática teoria-práxis (II) e explicitaremos o caráter práxico da teologia (III). Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 83-102. ninguém nega que há algum vínculo ou nexo entre teoria e práxis. A.. BENTUÉ. Isso é evidente.A problemática do caráter práxico da teologia será abordada do ponto de vista estritamente epistemológico. Teologia pastorale o pratica: camino storico de una riflessione fondante e cientifica. Número 119.S. 2006. Salamanca: Sígueme. A problemática teoria-práxis Certamente. M. FLORISTAN. “Que cabe à Igreja fazer hoje? A concepção de teologia prática em Karl Rahner”. Ela será abordada enquanto momento constitutivo e determinante do conhecimento teológico enquanto tal. como mero objeto/assunto/tema e/ou meta/ finalidade da teologia. mas um aspecto ou elemento fundamental e decisivo. A. Vejamos: 1 São as diferentes perspectivas e abordagens da teologia prática ou pastoral (cf. “La pastoral como categoría teológica fundamental”. Nosso intento é mostrar como o conhecimento teológico. 1999. pois. 1991. Teología y Vida 36 [1995] 7-20. 2009. de determinar os vínculos constitutivos e determinantes do processo de conhecimento teológico (teoria) com a realidade a ser conhecida pela teologia (práxis).OK. como se as demais áreas e disciplinas da teologia não tivessem um caráter intrinsecamente práxico1. Pelo menos na medida em que a práxis pode se tornar assunto ou objeto da teoria e que a teoria pode orientar ou auxiliar a práxis. A pastoral dá o que pensar: a inteligência da prática transformadora da fé. São Paulo: Loyola. de um aspecto ou elemento do método teológico.

No fundo. Na verdade.Poderia acontecer que teoria e práxis fossem realidades completas e autossuficientes e que entre elas não se desse mais que mera relação entre relatos que. p. E o estranho é que o mesmo aconteceu com o sentir na filosofia. Madrid: Alianza. Número 119. Tratar-se-ia. pp. pp. 83-102. essa postura se enraíza e se fundamenta naquele dualismo radical que constitui e caracteriza a civilização ocidental desde suas origens até os nossos dias (inteligência X sensibilidade)2 e que está na origem de muitos outros dualismos (sensível X suprassensível. são completamente independentes um do outro. mas não nos disse o que seja inteligir. tratou-se sempre de ‘unificação’. 24. como fez Xavier Zubiri em sua trilogia sobre a Inteligencia sentiente (realidade. 79. 297-317. quando se analisa mais detidamente o sentir e o inteligir humanos. Inteligencia sentiente: Inteligencia y realidad. 2001.. Inclusive quando alguma vez tentou com Kant unificá-los. Foi a tese inicial da filosofia desde Parmênides que vem gravitando imperturbavelmente com mil variantes sobre toda a filosofia europeia”5. em si e por si. Esse modo de abordar a sensibilidade e a inteligência contém uma afirmação fundamental e decisiva: “inteligir é posterior a sentir e essa posterioridade é uma oposição. “Por estranho que pareça. 4 ZUBIRI. diz Zubiri. a filosofia não se fez questão do que seja formalmente o inteligir. Mas se se pergunta em que consiste a índole formal do sentir. ou seja. Neste caso. simplesmente determina o tipo de vínculo que se dá entre elas: relação entre relatos já constituídos. aqui. material X espiritual)3. ZUBIRI.. Ano 43. Foram estudados os diversos sentires segundo os diversos ‘sentidos’ que o homem possui.OK. 79. Perspectiva Teológica. Limitou-se a estudar os diversos atos intelectivos. “La nueva obra de Zubiri: Inteligencia sentiente”. aqui p. ibid. 25. teríamos duas realidades ou relatos (teoria e práxis) que poderiam ou não estabelecer algum contato entre si (relação). p. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Na verdade. E “como não se determinou o que sejam o inteligir e o sentir enquanto tais. San Salvador: UCA. 11s. 2006. I. resulta que sua suposta oposição fica então no ar”7. de um vínculo puramente externo. 6 Cf. na medida em que nem a teoria seria um momento constitutivo da práxis nem muito menos a práxis seria um momento constitutivo da teoria.. Inteligencia sentiente. 24s. X. 3 Cf. pp. mas constituem em sua 2 Cf. 24s). pp. “a filosofia clássica sempre opôs o inteligir ao sentir. chega-se a outra conclusão: “o sentir humano e o inteligir não apenas não se opõem. 5 Ibid. 08:16 85 .. p. encontramo-nos com o fato de que no fundo a questão mesma sequer foi formulada” (ibid.pmd 85 31/3/2011. mas não de ‘unidade’ estrutural formal”4. p. 7 Ibid. 312. ELLACURÍA. o que é o sentir enquanto tal. in Escritos Filosóficos III. logos e razão). O mais estranho é que tal oposição se deu sem que se explicitasse em que consiste propriamente o sentir e em que consiste propriamente o inteligir6. Isso não nega a possibilidade e mesmo a necessidade do vínculo entre teoria e práxis. Belo Horizonte.

. aqui p. E assim. “La obra de Xavier Zubiri sobre la inteligencia humana”. “Relación teoría y praxis en la teología de la liberación”.. San Salvador: UCA. Há. entre o inteligir e o sentir “uma unidade estrutural radical pela qual o sentir mesmo é intelectivo e a intelecção mesma é sentiente”11. a qual deixa o vivente em um novo estado”). Não há práxis que não seja.] ‘nesta’ impressão está o momento de realidade [. San Salvador: UCA. Com isso. Belo Horizonte. E Ibid. afecção (“esta suscitação modifica o estado no sentido de alterar o tono vital que o vivente possui”) e resposta (“esta afecção é uma tensão para uma resposta adequada. teoria e práxis não constituiriam relatos completos e autossuficientes entre os quais se pudesse ou mesmo se devesse estabelecer alguma relação. pp. o vivente é uma atividade constitutiva”. pp. 2001. Nesta perspectiva. 13. 12 Ibid. 10 “Mas podemos descrever a impressão de realidade partindo do momento de realidade. ELLACURÍA. p. sentimento e volição (cf. inteligente: “é inevitável algum modo de teoria em qualquer práxis humana e mesmo em qualquer práxis sócio-histórica”14. Neste caso. 8 9 86 Perspectiva Teológica. o momento de impressão está estruturalmente ‘no’ momento de realidade [.unidade intrínseca e formal um só e único ato de apreensão. enquanto sentiente é impressão. De modo que não haveria práxis sem teoria nem teoria sem práxis. 83). ZUBIRI. 2000. ‘no’ inteligir. Inteligencia sentiente. esta intelecção é intelecção sentiente” (ibid. 1998. “a partir da intelecção sentiente dá-se uma superação radical de toda forma de dualismo entre inteligir e sentir”12. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Portanto. 11ss) que na realidade humana se configura como intelecção. 13 “Como ser vivente. portanto. diz Ellacuría.. podemos superar também a clássica separação e/ou oposição entre teoria e práxis. Inteligir é um modo de sentir e sentir é no homem um modo de inteligir”8. ELLACURIA. umas externas. 83-102. in Escritos Filosóficos III. o homem se encontra entre coisas.. Sobre el Hombre. mas primária. 08:16 . que o mantêm em uma atividade não apenas constante.. Noutras palavras. 336. pp. p. pensando o vínculo entre ambas como algo constitutivo e não como mera relação.OK. pp. o ser humano sente inteligindo (“sentir intelectivo”)9 e intelige sentindo (“intelecção sentiente”)10. Número 119.. a práxis.] O sentir está. p. 235-245. 282ss). 14 I. de alguma forma e em alguma medida. E essa atividade tem uma estrutura bem determinada constituída por três notas ou momentos fundamentais: suscitação (“o próprio das coisas para o vivente é suscitar uma ação vital”). p. Em virtude disso... Ano 43. o ato único e unitário de intelecção sentiente é impressão de realidade. 333-342. Na verdade. Madrid: Alianza. enquanto intelectivo é apreensão de realidade. 82). Este ato.. 15ss.pmd 86 31/3/2011. 11 I.] Dizer que o momento de realidade está ‘na’ impressão é o mesmo que dizer que a intelecção está estruturalmente ‘no’ sentir: a impressão de realidade é sentir intelectivo” (ibid. 235. “Na impressão de realidade podemos partir da impressão mesma [. enquanto ação humana13. in Escritos Teológicos I. Este é “o esquema das ações de todo ser vivente” (X.. tem como uma de suas notas constitutivas a intelecção. outras internas. ID. aqui p. ibid. pp. mas seriam momentos constitutivos uma da outra: a teoria seria um momento da práxis e a práxis seria um momento da teoria. assim..

não basta afirmar que a práxis pode se tornar assunto ou objeto da teoria e que a teoria pode orientar ou auxiliar a práxis. à sua “mera atualidade intelectiva”. neste sentido.a teoria. Madrid: Alianza. antes e para além de qualquer relação. 2000. Mas o que a inteligência faz. Noutras palavras. sentimento e volição) coerentemente ou sistematicamente articuladas entre si. “Precisamente por isto. “respectividade é um caráter metafísico da realidade e não simplesmente uma relação ou propriedade entre outras das coisas reais” (X. por mais irredutível que seja. Realidade sua. “Relación teoría y praxis en la teología de la liberación”. Perspectiva Teológica. nada teriam a ver um com o outro. de respectividade (de notas). Ela diz respeito tanto à “constituição mesma da coisa real enquanto real”. cada um fundamenta o seguinte. é uma nota fundamental da ação humana que. 173-215. aspectos e dimensões e em sua unidade radical. 215). 206s). enquanto intelecção. quanto. quanto à sua “atualidade” mundanal. p. em última instância. como se se tratasse simplesmente de relacionar relatos já constituídos que.. E. há que se falar. 08:16 87 . Belo Horizonte. constitui-se como um momento fundamental. Ano 43. pp. no qual teoria e práxis se constituem em respectividade17 uma para com a outra (a teoria é um momento da práxis e a práxis tem como uma de suas notas fundamentais a teoria). San Salvador: UCA. sem dúvida. uma estrutura própria. estruturada por uma diversidade de notas (intelecção. Número 119. “A inteligência humana tem. o faz em unidade primária com todas as demais notas da realidade humana. só atua “em unidade primária com todas as demais notas da realidade humana”15: é “um momento de uma práxis unitária da qual recebe sua última determinação”16. Escritos menores: 1953-1983. pp. nem realidade sua. 187-218. ela diz respeito à “estrutura transcendental da abertura do real como ‘realidade mundanal sua’. “Hacia una fundamentación del método teológico latinoamericano”. ainda. ser. Mais que de relação (entre relatos). portanto. pois sempre está condicionada e determinada pela unidade primária que é o homem como ser vivo” (ibid. em sua riqueza irredutível de elementos.. aqui. constitutivo e determinante de uma práxis. 17 Para Zubiri. ZUBIRI. por mais formalmente irredutível que seja.. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . são. aqui p. 2006. 206. in ID. de modo que só a inteligência intelige e o que outras notas fazem é algo formalmente distinto deste inteligir. constitutivas e determinantes a intelecção e que toda teoria. aqui. Trata-se. simultaneamente. irredutível ao que é próprio de outras notas da realidade humana. esta estrutura própria permite uma precisa especialização. nem ser nem intelecção são relação. 16 ELLACURIA. em princípio. p. A distinção zubiriana entre “relação” e “respectividade” é algo fundamental na filosofia e na teologia de Ellacuría. respectividade metafísica” (ibid. de um vínculo interno. enquanto intelecção. 83-102. Enquanto “aspectos da abertura da formalidade de realidade”. Portanto. Ela permite superar muitas formas de dualismo e apreender a realidade.OK. portanto. in Escritos Teológicos I. 15 ID. pela qual se diferencia de outras notas da realidade humana. intelecção. 173). o reconhecimento desta estrutura própria não implica que se atribuam a ela uma substantividade e uma autonomia totais.pmd 87 31/3/2011. aqui p. são três momentos estruturais da respectividade do real”. “Respectividad de lo real”. pp. do real como ‘realidade atual’ no mundo e do real mundanal como ‘meramente atual’ na intelecção.. É preciso reconhecer que toda práxis tem como uma de suas notas fundamentais.

A teologia no horizonte da problemática teoria-práxis Depois de esboçar a problemática teoria-práxis. Ano 43. 83-102. mais ou menos consciente e/ou elaborada. não obstante o risco de simplificação e reducionismo. elaborando e desenvolvendo esse vínculo. embora não se possa negar que a teologia sempre manteve conscientemente algum vínculo e/ou interesse práxico. Evidentemente. o concebe de 88 Perspectiva Teológica. Em todo caso. Pouquíssimos teólogos se confrontaram explicitamente com esta questão. De modo que não nos perguntaremos. faz-se teologia. Sequer pretendemos mostrar como se dá esse vínculo nas teologias desenvolvidas atualmente. o fazer teológico implica sempre uma determinada concepção do saber (respeito à práxis). E é isso que nos permite situar o fazer teológico no horizonte da problemática teoria-práxis. Certamente. Mas é claro também que na Bíblia se fala muito de conhecimento e que. ainda que em diálogo com o horizonte cultural helenista e assimilando alguns de seus elementos ou aspectos. É o que tentaremos esboçar a seguir. Pelo contrário. Número 119. Normalmente.II. Em todo caso. É claro que na Bíblia não se encontra nenhuma teoria do conhecimento nem sequer uma definição rigorosa do mesmo. elaborado de modo satisfatório e desenvolvido e assumido de modo consequente. O que nos interessa é ver como ela vem compreendendo. aqui. situaremos a discussão sobre o processo do conhecimento teológico no horizonte dessa problemática. para não falar dos interesses sociais e políticos mais ou menos explícitos. pode-se discutir se esse vínculo foi explicitado de modo suficiente. confrontando-se ou não com essa questão. não se pode negar sem mais o caráter e o interesse práxicos da teologia ao longo da história. se a teologia teve/tem ou não vínculos e interesses práxicos. p. 08:16 . Belo Horizonte. De vez em quando. ao fazer. não tem a pretensão de mostrar como se dá o processo de conhecimento nem de definir o conhecimento enquanto tal. Isso é evidente.pmd 88 31/3/2011. De modo que a problemática do vínculo da teologia com a práxis está sempre presente. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . pelo menos enquanto atividade eclesial e enquanto serviço à fé. sendo ou não explicitada e tematizada.OK. desenvolvida no horizonte cultural semítico. O primeiro período corresponde à teologia bíblica. circunscreveremos e formularemos a questão do fazer teológico nos termos da problemática teoria-práxis. podemos identificar na história da teologia cristã três períodos nos quais predominaram determinadas concepções do fazer teológico no que diz respeito ao vínculo da teologia com a práxis. portanto. Essa é outra questão. Ela não é um livro de epistemologia e. problematiza-se o fazer teológico. não podemos nem é nossa pretensão aqui mostrar como se deu esse vínculo nas mais diversas teologias desenvolvidas ao longo dos séculos. De qualquer forma. É claro que isso não foi sempre abordado e desenvolvido pela teologia. Isso não significa que o fazer teológico tenha sido sempre compreendido e formulado nestes termos. ou seja.

. de práxis. p. depois de descrever tão bem o modo bíblico de conhecer frente ao modo grego de conhecer. VANHOYE. ‘acontecimento’ e inclusive ‘coisa’. adorá-lo. o qual pode significar tanto ‘palavra’ como ‘fato’. a teologia não é justamente o esforço de conjugar as duas [concepções].. 08:16 89 . Ano 43. “o conhecer bíblico se dá por dois caminhos: o do phatos: pelo sentir. p. I. vol. confiar nele. é observar a Torá. Conhecer a Deus. Poderíamos traçar a equação: Conhecer = Amar = Fazer. ZIENER. as traduções indo-europeias (tanto o logos conceitual helenístico. “o conhecer bíblico é propriamente um conhecer concreto. conhecer a Deus é. na práxis dá-se real e verdadeiramente conhecimento. pp. J. e isso sim é conhecer-me – oráculo do Senhor” (Jr 22. Mas quem cumpre sua palavra tem de fato o amor de Deus plenamente. “quem não ama não conheceu a Deus.um modo muito concreto18. 188. CORBAN / A. Noutras palavras.OK. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 1972. Petrópolis: Vozes. G. evitando uma contraposição pura e simples entre eles. Como diz Clodovis Boff. por um lado. já que Deus é amor” (1Jo 4. 19 BOFF. Dicionário de teologia bíblica.4ss). pp. Assim. praticar. ZIMMERMANN. in J. mas de experiência. não teria porque falar de modo bíblico de conhecer. no sentido de articular a sabedoria bíblica e a ciência grega? Não é a tentativa de dar ao conteúdo da Sabedoria (bíblica) a forma da Ciência (grega)? Enfim.. Não se trata tanto de especulação abstrata e de conceitos formais. Belo Horizonte. Boff acaba negando o modo bíblico de conhecer em função do modo grego de conhecer: “Ora. 165-169. Nas palavras de São João: “Sabemos que o conhecemos se cumprimos seus mandamentos. ao tentar articular ambos os modos de conhecimento. Por isso. 794-798. Teoria do método teológico. como bem adverte Antonio González. “Conhecimento”. Petrópolis: Vozes. realizar sua vontade. H.). pp. por outro lado. LEÓN-DUFOUR (org. Tal é a síntese da gnosiologia bíblica”19. BAUER (org. pp. é praticar a solidariedade e a justiça”. 1998. corretamente harmonizadas” (ibid. se a Bíblia não oferecesse mais que o conteúdo da teologia e se o único modo possível de conhecer fosse o modo grego. in X. E aí o conhecimento aparece sempre como algo fundamentalmente experiencial. “Palavra”. 192). Cl. in ibid. Nesta perspectiva. p. Ele tem um conteúdo ativo. Tal concepção não aparece numa definição abstrata do conhecimento (ela não define o conhecimento enquanto tal). mente e não é sincero. São Paulo: Loyola. mas na descrição de processos concretos de conhecimento (ela descreve o conhecimento de determinadas realidades). como o verbum psicolinguístico de Agostinho ou o Wort luterano) são enormemente unilaterais e se movem [. mas com a Grécia. E ei-las.pmd 89 31/3/2011. Teoria do método teológico. é viver em comunhão com ele. Quem diz que permanece com ele deve agir como ele agiu” (1Jo 2. Nas palavras do profeta Jeremias: “Fez justiça a pobres e indigentes.. não é com a Bíblia que se aprende a fazer teologia. “Conhecer”. E vice-versa: não é com a Grécia que se aprende teologia como conteúdo. 188-192.16). O estranho é que. incluindo uma dimensão afetiva e volitiva. práxico. pois. Perspectiva Teológica. Mas. experimentar. 204-210. o da práxis: pelo fazer. amá-lo. Só na experiência. Nisso conhecemos que estamos com ele. Quem diz que o conhece e não cumpre seus preceitos. BOFF.8). “convém não esquecer que o termo hebraico habitualmente traduzido por ‘palavra’ e que está por trás do logos joanino não é outro senão dabar.] dentro do fenôme18 Cf. 1988. Número 119. por exemplo. mas sim com a Bíblia.). ‘sucesso’. Vocabulário de teologia bíblica. 83-102.

Belo Horizonte. pp. 20 A. conhecimento e ação não só não se opõem. pp. matéria X espírito.pmd 90 31/3/2011. vemos como o vínculo entre o dualismo inteligência X sensibilidade e o dualismo teoria X práxis é muito mais estreito do que parece: o primeiro conduz ao segundo e o fundamenta. “na passagem do que era uma experiência fundamentalmente biográfica e histórica. o segundo supõe o primeiro e o aprofunda. mas também distintos e até contrapostos”20. San Salvador: UCA. San Salvador: UCA. inteligência e sentido. Os processos de inculturação são mais complexos do que parecem. O não permanente e univocamente repetível caía fora do âmbito do saber e ficava reduzido a mera opinião. Daí porque a teologia desenvolvida nesse horizonte teórico seja marcadamente uma teologia dualista (corpo X alma. como afirma Xavier Zubiri. p. explicitada ou não.. p. também a realidade das relações de Deus com o homem e do homem com Deus”21. O conhecimento bíblico tem um caráter fundamentalmente práxicoexperiencial. “Só podia haver ciência do universal. Respeito à natureza.. Não é que o horizonte bíblico tenha sido pura e simplesmente substituído pelo horizonte grego sem influenciá-lo ou alterá-lo em alguma medida. As vicissitudes das biografias pessoais e os sucessos da história dos povos podiam se converter em exemplos e em impulso. a “filosofia helenística. mundo X Deus etc. é marcado por um dualismo entre inteligência e sensibilidade com consequências decisivas para a concepção do fazer teológico e para o seu desenvolvimento.no [. 21 I. que a descrever o que é a essência da natureza humana” (ibid. 22 Ibid. em virtude do qual palavra e ação aparecem como dois âmbitos não só diferentes. O segundo período corresponde ao desenvolvimento e à elaboração da teologia cristã no horizonte cultural greco-helenista. platônica e aristotélica foi durante séculos o marco teórico escolhido para interpretar toda a realidade. Mas esta não é a perspectiva bíblica do conhecimento. Ano 43. Quase toda a teologia cristã foi desenvolvida nesse horizonte cultural. diz Ellacuría. a historicidade tinha ficado diluída em beneficio de uma essencialidade estática”.. aqui. aqui p. a história carecia de realidade e de razoabilidade (científica)”22. 597s. mas não era base suficiente para alcançar um saber sólido sobre o qual fundamentar o conhecimento do mundo e a conduta do homem [. ELLACURIA. Na verdade. Em todo caso. 60. E este horizonte teórico. 90 Perspectiva Teológica.]. 598). in Escritos Teológicos I.. a propósito do caráter histórico da salvação. mas se implicam e se determinam mutuamente. para uma formulação metafísica.] denunciado por Nietzsche da cisão entre inteligência e sentir no pensamento ocidental desde Parmênides. apoiada na natureza. A história e o histórico tinham ajudado mais a obscurecer a límpida e refulgente firmeza da razão. 2000. Na Bíblia. Pelo contrário. com sua própria interpretação teórica. E. 83-102. p. GONZÁLEZ.) e que a concepção do fazer teológico a ela subjacente. 597-628.OK. 597. Número 119... 08:16 . Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Trinidad y liberación: La teología trinitaria considerada desde la perspectiva de la teología de la liberación. uma vez que “o paradigma de interpretação racional era a explicação da natureza com suas próprias categorias metafísicas. “Historia de la salvación”. 1994.

Belo Horizonte. 83) e ela consiste em conceber o sensível. particularmente em sua 23 Cf. entre teoria e práxis. 323-345.. “El problema de la historia en la teología de Gustavo Gutiérrez”. pp. 1971. Assim é que Tomás de Aquino. aqui pp. a inteligência seria então o que chamo inteligência sensível. mas concepiente. 08:16 91 . Por mais que os sentidos possam oferecer à inteligência o material a ser inteligido. pp. 63-77. DE OLIVEIRA. Einsiedeln / Zürich / Köln: Benzinger. p. consequentemente. 341-349. in P.pmd 91 31/3/2011.A. “juízo”. 214s. 24 Cf. Teología de la praxis evangélica: Ensayo de una teología fundamental. para usar a formulação de Zubiri24. RAHNER. PAUL (org. pp.] Dizer que os sentidos dão ‘à’ inteligência o que esta vai inteligir é supor que a inteligência tem como objeto primário e adequado o que os sentidos apresentam ‘a’ ela. 1954. É que.1. a. Karl Rahner em Perspectiva.. Fala. GONZÁLEZ. Em virtude disso. M. Curso fundamental da fé. Santander: Sal Terrae. ID. especialmente pp. in ID. com toda a influencia da tradição espiritual inaciana e com toda sua abertura ao mundo moderno e às ciências contemporâneas. 27 Vale a pena ver a crítica lúcida e consequente de Antonio González a Rahner (cf. O terceiro período corresponde à renovação teológica que se desenvolve na Europa depois da segunda guerra mundial e se consolida na Igreja católica no movimento de renovação conciliar. “A filosofia clássica [. pp. Schriften zur Theologie I. K.. Perspectiva Teológica. dentro da tradição filosófica ocidental. teoria X práxis). Inteligencia sentiente. 1999. Daí seu caráter “concepiente” (ibid.. pp.. p.). no fundo. mas não chega a tematizar o caráter mundano do espírito (weltlicher Geist). embora admitindo que a sagrada doutrina tenha questões ou dimensões “especulativas” e “práticas”. A. certamente. Ano 43. K. 83ss. Mesmo que se trate de histórias “co-extensivas” (koextensiv)26. do “espírito no mundo” (Geist in Welt). Revista Latinoamericana de Teología 18 [1989] 335-364. 26 Cf.R. São Paulo: Paulus. continua falando de “duas histórias” (profana X sagrada).4). 25 Cf. acaba defendendo que ela é “mais especulativa que prática” (STh I. não conseguiu se livrar completamente do dualismo sensibilidade X inteligência. 1989. tratase de duas histórias27. 32-43). Inteligência sensível é inteligência ‘do’ sensível” (ibid. Número 119. Rahner tampouco conseguiu superar totalmente o dualismo teológico reinante. 201-218. p.seja caracterizada por um dualismo epistemológico mais ou menos radical (inteligência X sensibilidade. ZUBIRI. Provavelmente por isso. DE OLIVEIRA / C.. Hörer des Wortes: Zur Grundlegung einer Religionsphilosophie.. RAHNER. “conceituação”23. E mesmo um Karl Rahner. K. “Über das Verhältnis von Natur und Gnade”.OK. München: Herder. De modo que a teologia ocidental é marcada por um dualismo mais ou menos radical entre inteligência e sensibilidade e. 86s).] pensa que há dois atos: o ato de sentir dá ‘à’ inteligência o que esta vai inteligir [. 176. 2004. pp. Embora tenha superado o dualismo clássico “natureza X graça” através do conceito “existencial sobrenatural” (übernatürliches Existential) e tenha reduzido o conceito “natureza” a um “conceito residual” (Restbegriff)25. q. São Paulo: Loyola. RAHNER. o inteligir mesmo não é sentiente. “ ‘É necessário filosofar na teologia’: unidade e diferença entre filosofia e teologia em Karl Rahner”.. ele continua compreendendo a intelecção como “abstração”. 83-102. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 .

pp. Seja pela necessidade e urgência de transformações sociais. Sal Terrae 983 (1995) 667-675. políticas. 35 Cf. atividade social e política. ibid. como 28 Em 1975 constatava Juan Alfaro em um encontro sobre o método da teologia latinoamericana no México: “A teologia católica está vivendo nos últimos trinta anos um processo de mudanças profundas. I. seja pela descoberta do caráter histórico do conhecimento (filosofias hermenêuticas. SOBRINO.pmd 92 31/3/2011.). ASSMANN. 1993. GUTIÉRREZ. 145-160. Ano 43. in Escritos Teológicos I. 1973. realidades terrenas. progresso humano. Liberación y cautiverio: Debates en torno al método de la teología en América Latina. ID. El principio-misericordia: bajar de la cruz a los pueblos crucificados. esperança. 32 Cf. culturais etc. 29 Cf. Cambio social y pensamiento cristiano en América Latina. 34 Cf. in E. econômicas. 31 G. BOFF. “La teología como momento ideológico de la praxis eclesial”. 409). movimentos de libertação na América Latina. intramundana da existência cristã” (J. mediações. Teologia e prática: teologia do político e suas mediações. SOBRINO.). Cl. 33 Cf. Toda essa temática nova tem uma orientação comum: o interesse pela dimensão histórica.OK. pp. 1976. práxis]. Salamanca: Sígueme. os teólogos da libertação sempre entenderam a TdL como uma teologia da práxis: “um momento do processo por meio do qual o mundo é transformado” (Gustavo Gutiérrez)31. “teologia do político e suas mediações” (Clodovis Boff)34. “momento consciente e reflexo da práxis eclesial” (Ignacio Ellacuría)33. mundo. Metz. 2000. 1992.. México: Venecia. Embora com concepções distintas da práxis (vida cristã. Petrópolis: Vozes. COMBLIN / J. ciências sociais. política. in J. Trata-se realmente de um fenômeno novo em sua história que desde o século XIII tinha se mantido (salvo raras exceções) em uma surpreendente homogeneidade de problemas e de método [. culturais e religiosas (Europa pós-guerra. Número 119. A. Schillebeeckx)29. 2000. Teología desde la praxis de la liberación: Ensayo teológico desde la América dependiente. da práxis. p. GONZÁLEZ. Santander: Sal Terrae. embora nem sempre tenha conseguido perceber e formular adequadamente o caráter práxico do conhecimento enquanto tal. aqui p. Primeiro na Europa (Moltmann. filosofias da linguagem.. Vaticano II – Medellín etc. “La vigencia del ‘método teológico’ de la teología de la liberación”. 74. RUIZ MALDONALDO. 08:16 . especialmente. círculo hermenêutico. “intelectus amoris” (Jon Sobrino)35.) e de seu vínculo com a teoria (ato primeiro – ato segundo. filosofias da vida. 409-429.I. H. ELLACURÍA.] A partir da segunda guerra mundial iniciou-se um movimento acelerado de evolução que se torna visível antes de tudo na renovação da temática teológica [história. reinado de Deus etc.. 30 Cf. comunitária. libertação. 421-429. Belo Horizonte. San Salvador: UCA.recepção e desenvolvimento na América Latina com a teologia da libertação28. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 83-102. ALFARO. 92 Perspectiva Teológica. insistiu-se no vínculo teoria-práxis. entre outros. “El significado filosófico de la teología de la liberación”. cultura popular. Aqui. 47-80. GONZÁLEZ FAUS / J. São Paulo: Loyola. momento da práxis). pp. históricas. “Problemática actual del método teológico en Europa”. pp. Madrid: Trotta. 1993. 163-185. Teologia da libertação: perspectivas. a teologia foi aos poucos explicitando e enfatizando sua origem e sua finalidade práxicas. 62-65. p. J. uma espécie de praxeologia da libertação (Hugo Assmann)32. pp. da ação. Depois na América Latina com a teologia da libertação30. pp.. O problema é que isso sempre foi muito mais pressuposto que explicitado e elaborado.

403-430. “Retorno à arché da teologia”. in L. até mesmo contrárias. SUSIN (org). Clodovis Boff. Foi o grande descobrimento de Platão no Sophistes que culminou em Aristóteles.. ID. p.C. ibid. 38 ID. tão admiradora de Aristóteles em suas diferenças com Platão que não se deu conta das consequências gravíssimas que implicava a teoria aristotélica da inteligência para um verdadeiro realismo” (I. 377. SUSIN (org. 86. Althusser)36. p. É como se o conhecimento fosse autossuficiente. pp. 86).se fosse algo evidente e indiscutível e como se todos pensassem e dissessem o mesmo ao falarem de teoria-práxis.). San Salvador: UCA. 39 ID. 83-102. 111. aqui p. Teologia e prática: teologia do político e suas mediações. Teologia e prática: teologia do político e suas mediações. aqui p. 796. pp. independentemente de se esse sistema discursivo. pp. aqui p. São Paulo: Loyola. 385. 2001. por mais coerente e lógico que seja. os teólogos da libertação quase nunca se confrontaram de modo mais profundo e consequente com essa problemática. do conjunto das regras que organizam seu discurso”39. 40 Cf. é claro. p. expressa/traduz ou não a realidade tal como ela é e se dá a conhecer. 79-95. completamente independente da realidade. Teoria do método teológico. O mar se abriu: Trinta anos de teologia na América Latina. aqui pp. in Escritos Filosóficos III. 147. REB 36 (1976/n. 157. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 .pmd 93 31/3/2011. 41 ID. 37 BOFF. Na formulação de Boff. 405). reduzido a seu momento discursivo e como se a verdade se reduzisse à coerência interna e ao rigor da argumentação.OK. ID. É o que chamo logificação da inteligência” (ZUBIRI. sob certos aspectos. 08:16 93 .. Perspectiva Teológica. “Por esse mesmo caminho. 148s.. 22. Teologia e prática: teologia do político e suas mediações. pp. 2000. a práxis não é um momento constitutivo do processo de conhecimento teológico enquanto tal. Nesta perspectiva. in L. 29ss. que “a práxis não é mediação teórica alguma”38 e que “uma prática teológica como tal só é ‘culpável’ dos critérios de sua gramática. mas.. Número 119.. “Teologia e prática”. Desde Parmênides foi-se dando um processo de subsunção da intelecção à “declaração do que a coisa é”. mas jamais “meio com o qual” se faz teologia (medium quo) 40 . para quem o logos mesmo é apóphansis do que a coisa é. apoiado numa concepção idealista do saber e do conhecimento (Aristóteles. isto é. embora reconheça que em seu fazer teológico a teologia oriental tenha privilegiado a dimensão experiencial da fé (fides qua) e a TdL tenha privilegiado a 36 BOFF. “Como vejo a teologia latino-americana trinta anos depois”. “La superación del reducionismo idealista en Zubiri”. partiram de pressupostos teóricos tão diferentes que chegaram a conclusões não apenas distintas. foi-se desviando a filosofia escolástica. Com raríssimas exceções. Clodovis Boff e Ignacio Ellacuría.. p. Belo Horizonte. Consequentemente. chega a afirmar que “as coisas reais permanecem atrás do processo cognitivo”37. ela pode ser “matéria prima” da teologia e/ou “meio no qual” o teólogo vive (medium in quo).C. 2000. “foi-se identificando intelecção e logos predicativo. Ano 43. Teologia na América Latina: prospectiva.144) 789-810. o ponto de partida e o princípio fundamental da teologia só podem ser para Boff a positividade da fé (fides quae)41. Inteligencia sentiente. Tomás de Aquino. pp. São Paulo: Paulinas. 60. Sarça ardente. E os poucos que o fizeram. p. 145-187. ELLACURÍA.

Nuevo diccionario de teología. certamente. (3) fala da teoria como um momento da práxis: “momento teórico da práxis”48 e.. p. Boff assume. 94 Perspectiva Teológica. 171. Evidentemente. p. claro. Ano 43. que. a “práxis teologal” não fica simplesmente atrás (pressuposto) ou na frente (visada) da “teoria teológica”. está vertida à realidade”47. ID. não nega o dinamismo e mesmo a atividade próprios da mente humana em seu afã de arrancar da realidade toda sua luz mediante enfoques distintos que a própria inteligência vai gerando” (ibid. ibid. portanto. ID. assim. como se o conhecimento fosse neutro e estivesse acima dos interesses e conflitos sociais. p.dimensão práxica da fé42. Teologia e prática: teologia do político e suas mediações. in ibid.. San Salvador: UCA. (2) afirma que “a principal fonte de luz [da teoria] é.OK. além de reduzir o conhecimento teológico a seu momento discursivo e de não assumir de modo consequente a mediação práxica de toda linguagem (também teológica). 1993. com exigências. sem negar ou anular a prioridade da realidade.pmd 94 31/3/2011. por sua vez.. apoiado numa concepção práxico-realista do saber e do conhecimento (Xavier Zubiri)45. trata a “teoria teológica” como um momento da “práxis teologal”49. na qual a práxis não interfere diretamente na teoria teológica: fica antes (pressuposto) ou depois (visada)43. E. 147. 235. in Escritos Políticos I.. Ignacio Ellacuría. 83-102. uma concepção do saber e do conhecimento. in J. Madrid: Trotta... 866s. aqui p. “La teología como momento ideológico de la praxis eclesial”. “A realidade faz seu trabalho. 43 ID. Número 119. 08:16 . aqui p. “Función liberadora de la filosofía”. TAMAYO-ACOSTA (org. “Hacia una fundamentación del método teológico latinoamericano”. 44 ID. p. de42 Cf. Seja na medida em que constitui a realidade a ser teologizada e. III-XII. mas é parte do próprio processo de construção da “teoria teológica” (medium quo). 93-121. pp. 105. como para Boff. Belo Horizonte. atividades e aparato técnico específicos.. (1) compreende a intelecção humana como apreensão da realidade e enfrentamento com ela46. uma das intuições e um dos princípios teóricos mais fecundos e mais determinantes dessa “maneira nova de fazer teologia” que é a TdL: o primado da práxis. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . embora precisando que “essa realidade só é fonte de luz referida à inteligência.. aqui pp. 206. p. 2005. p.. pp. por sua vez. acaba negando a “densidade epistemológica da práxis” que. V. nega. 47 ID.).). a realidade e não – quem sabe – que condições aprióricas do sujeito humano”. 866-870. de fato. nota 32. “Teología”. ID. p. trata-se de um momento irredutível com estrutura e dinamismo próprios. acaba negando a outra intuição fundamental e determinante da TdL enquanto teoria: a perspectiva do pobre e oprimido como lugar teológico fundamental. ELLACURÍA. assim. ao menos teoricamente. a uma inteligência. Com isso. mas de um momento de um processo mais amplo que é a práxis teologal – a realização histórica do reinado de Deus. E ao negar o caráter práxico do conhecimento. 46 Cf. consequentemente. “Relación teoría y praxis en la teología de la liberación”. 48 Ibid. 111. pp. mas a inteligência também faz o seu e a respectividade entre ambas adquire modalidades distintas que. 49 Cf. 207. chega a admitir em algum momento44. “Prefácio auto-crítico”. Nesta perspectiva. 45 Cf.J.

2000. “Fe y justicia”. Trata. ID. ID. ID. Trata de Deus. pp. “Teología de la liberación frente al cambio socio-histórico en América Latina”. de modo consequente. 315. ID. seja na medida em que se constitui em lugar de historicização e de verificação da teoria teológica. 1. pp. re-ação frente a determinadas situações e acontecimentos (salvação) e inter-ação com pessoas e povos concretos (povo de Deus – Igreja). com o caráter interessado dessa atividade (3) e com o processo de verificação e de historicização da teologia (4). Ele tem a ver com a realidade a ser inteligida pela teologia (1). seja na medida em que direciona o fazer teológico em função de determinados interesses mais ou menos legítimos do ponto de vista evangélico. pp.. aqui p. “La teología como momento ideológico de la praxis eclesial”. da ação de Deus na história que é sempre.. “Aporte de la teología Perspectiva Teológica. a “densidade epistemológica da práxis” e. teórica e teologicamente. Belo Horizonte. 83-102. 2002. portanto. a teologia não trata de Deus sem mais. 307373. Diferentemente do que se costuma pensar e do que dá a entender uma abordagem meramente etimológica da expressão (Theós = Deus e logia = palavra). Número 119. resta-nos explicitar o caráter práxico da teologia. p.. in Escritos Teológicos I. “Relación teoría y praxis en la teología de la liberación”. 311. mas o reinado de Deus50. ID. Vejamos. Realidade a ser inteligida pela teologia O caráter práxico da teologia diz respeito antes de tudo à própria realidade a ser inteligida por ela. sim. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . E é nesta perspectiva aberta por Ignacio Ellacuría que abordaremos a seguir o caráter práxico da teologia. de alguma forma e em alguma medida. O caráter práxico da teologia Tendo formulado adequadamente a problemática teoria-práxis e tendo situado a teologia no horizonte dessa problemática. portanto. pp. com o desenvolvimento da atividade intelectiva (2). San Salvador: UCA. conceitos etc.termina. ou seja. Daí a insistência de Ellacuría em que o assunto ou o objeto da teologia cristã não seja Deus sem mais. enquanto e na medida em que se faz presente e atua na história. com ela. Ellacuría parte. Nosso intento é mostrar como a práxis teologal é determinante e constitutiva da teoria teológica. seu acesso intelectivo.pmd 95 31/3/2011.. 50 Cf. de uma concepção do saber e do conhecimento que lhe permite superar a tradicional e dominante visão idealista do conhecimento teológico. 240s. in Escritos Teológicos III. 235. aqui p. em alguma forma. Ano 43.. como o processo de conhecimento teológico é um processo constitutivamente práxico. 313-345.). 08:16 95 . San Salvador: UCA. III. da qual Boff é um exemplo exímio. seja na medida em que produz e/ou medeia as próprias possibilidades intelectivas (estruturas de pensamento.OK. 175s. e assumir. o caráter determinante do lugar social dos pobres e oprimidos no fazer teológico.

a determinação do reinado de Deus como assunto da teologia é. com a realidade a ser inteligida (reinado de Deus como práxis) e com a determinação do próprio de la liberación a las religiones abrahámicas en la superación del individualismo y del positivismo”. 57 Cf. pp. “Teología de la liberación frente al cambio socio-histórico en América Latina”. 178ss. pp.. Mas tampouco trata-se. San Salvador: UCA. “Iglesia como pueblo de Dios”. ID. Ano 43. “La teología como momento ideológico de la praxis eclesial”. in Escritos Teológicos II. 314s. ID.. O caráter práxico da teologia tem a ver. 307-316. pp. por mais espiritual que seja. com o caráter determinante da realidade a ser inteligida no próprio processo de intelecção.pmd 96 31/3/2011. aqui pp. portanto. pp. sobretudo. “Recuperar el reino de Dios: Desmundanización e historización de la Iglesia”. “Recuperar el reino de Dios: Desmundanización e historización de la Iglesia”. ID. 2000. aqui. Número 119. quanto por seu caráter salvífico (parcialidade pelos pobres e oprimidos)56. pp. por seu potencial englobante e totalizador do assunto da teologia cristã (Deus e seu reinado na história)57. ID. de uma mera “fórmula verbal ou de um rodeio estilístico para falar de Deus sem mais”52. a intelecção de uma realidade puramente espiritual (se é que é possível) é distinta da intelecção de uma realidade histórica. 202s. 202s. 315s. 182ss.. 51 ID. ID. 83-102. ID. a determinação de seu próprio processo de intelecção. pp.“Evidentemente. 08:16 . in Escritos Teológicos II. 315s. 52 ID. pp. ainda. 176. pp. p. “Recuperar el reino de Dios: Desmundanización e historización de la Iglesia”. 193-232. ID. “Hacia una fundamentación del método teológico latinoamericano”. de uma práxis..OK. 53 Cf. não se trata da materialidade do termo”51. 313s.. 167s. uma vez que o acesso intelectivo a uma realidade qualquer depende em grande parte do modo como esta realidade está constituída e se deixa inteligir. quanto. em boa medida. San Salvador: UCA.. É que o modo de intelecção depende em boa medida da realidade a ser inteligida: a intelecção de uma realidade puramente biológica é distinta da intelecção de uma realidade pessoal. como se não fosse possível formular o assunto da teologia cristã de outro modo. 176ss. 2000. ID. A opção de Ellacuría pela expressão reinado de Deus se dá tanto por seu caráter práxico (ação de Deus na história)53. 317-342. 96 Perspectiva Teológica. Mas com isso ainda não dissemos tudo. 54 Cf. “La teología como momento ideológico de la praxis eclesial”. Belo Horizonte.. San Salvador: UCA. “La teología como momento ideológico de la praxis eclesial”. pp.. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . p. O caráter práxico da teologia enquanto teoria não se deduz simplesmente da afirmação de que ela trata do reinado de Deus ou da ação salvífica de Deus na história. “Aporte de la teología de la liberación a las religiones abrahámicas en la superación del individualismo y del positivismo”. aqui p.. 175s. ID. 55 Cf. portanto. 2000. “La teología como momento ideológico de la praxis eclesial”. quanto por sua referência direta a Jesus Cristo (centro de sua vida e missão)54 e a sua Igreja (povo de Deus – Igreja)55. 212s... in Escritos Teológicos II.. 56 Cf. pp. ID. ID. pp. pp. 312. como se não houvesse razões objetivas para preferir esta expressão a outras. Ele tem a ver. “Recuperar el reino de Dios: Desmundanización e historización de la Iglesia”.. “La teología como momento ideológico de la praxis eclesial”. Sendo assim. pp.

60 Ibid. 61 “Não era possível. Aliás. Como vimos anteriormente. Sem falar que. dependendo da realidade a ser inteligida. 83-102. em sentido estrito.processo de intelecção pela realidade a ser inteligida (reinado de Deus como determinante de seu acesso intelectivo). “Hacia una fundamentación del método teológico latinoamericano”. enquanto atividade intelectiva. Ano 43. p. situações concretas e mediações históricas diversas” (ibid. mas também para pôr-se em contacto com a fonte de muitos de seus conteúdos”59. 58 59 Perspectiva Teológica. em cada situação. Segundo. Desenvolvimento da atividade intelectiva Mas o caráter práxico da teologia não diz respeito apenas ao reinado de Deus enquanto assunto da teologia e enquanto determinante de seu acesso intelectivo. em cada povo.. 209. das possibilidades intelectivas disponíveis em um determinado momento. Número 119. 2. E isso é distinto em cada época. Não se conta sempre com as mesmas possibilidades teóricas61. como é o caso do reinado de Deus. Da mesma forma. 08:16 97 . de sua apropriação e. Belo Horizonte. Elas “se constituem como resultado de uma marcha histórica e representam o substrato a partir do qual se pensa”60. por mais irredutível que seja e por mais importante e determinante que seja. por ser ela mesma “um dos momentos essenciais de toda práxis possível”58: a teologia é um momento da práxis do reinado de Deus. determinadas leituras da fé não são realmente possíveis senão a partir de determinações históricas bem precisas que tornam possíveis. Seu desenvolvimento depende. a partir dela. depende em cada momento das “possibilidades” teóricas disponíveis. Deveríamos falar sempre de uma nota ou de um momento da ação humana. Tanto pelo assunto. o conhecimento. fundamentar a teoria da relatividade senão a partir de possibilitações teóricas determinadas. necessita da práxis “não apenas para sua comprovação científica. pelo caráter intrinsecamente práxico do momento intelectivo da ação humana. Por um lado. Ibid. p. Mas. realmente possíveis. por exemplo. em grande parte. nem deveríamos falar de atividade intelectiva. É que a atividade intelectiva é uma atividade intrinsecamente práxica. conta-se sempre com algumas possibilidades e somente a partir delas e com elas dá-se o processo de intelecção. quanto pelo modo de tratamento. como se fosse uma atividade completa frente a atividades não intelectivas. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Diz respeito também ao próprio quefazer teológico. além de ser um momento da práxis.pmd 97 31/3/2011.). ID. Primeiro. da criação de novas possibilidades intelectivas. 211..OK. proporcionadas pela história real da matemática e da física. a teologia é uma atividade fundamentalmente práxica. a atividade intelectiva é apenas uma nota da ação humana e só se dá em respectividade e interação com as outras notas da ação humana. p.

Seja enquanto momento constitutivo da práxis. Enquanto momento da práxis (intelecção-sentimento-volição) e enquanto momento práxico (apropriação e criação de possibilidades intelectivas). por mais abstrata e especulativa que seja. De modo que nenhuma formulação teórica.OK. mas que abre um âmbito ou outro de possibilidades: mais que a atualização de uma ou outra possibilidade.Elas o condicionam positiva (possibilitando-o) ou negativamente (dificultando-o ou impedindo). ID. ela é condicionada por interesses mais ou menos explícitos. “a inteligência. E. aqui. 08:16 . não apenas se faz algo novo. tem um momento de opção”62. 83-102. [. enquanto tal. p. É preciso optar entre as possibilidades disponíveis em cada momento e a partir delas ir criando novas possibilidades intelectivas. Além de ser um momento da práxis. o caráter práxico da teologia tem a ver também com os interesses inerentes a toda atividade intelectiva. 62 63 98 Perspectiva Teológica.. 3. a intelecção tem uma origem e uma finalidade páxicas e. seja enquanto processo de apropriação e criação de possibilidades intelectivas. Ibid. como um processo fundamentalmente práxico. 1999. a capacitação é um processo pelo qual se vai incorporando ao sujeito em questão um poder-poder.] com ela nos deparamos com algo que diz respeito não simplesmente ao exercício de umas potências. portanto. assim também seu momento intelectivo. Filosofía de la realidad histórica. simplesmente. assim. Depende. Belo Horizonte.. sempre. a partir de si mesma. San Salvador: UCA. “O conceito de capacidade busca expressar esta constituição do poder enquanto logra fazer um poder. 209. Assim como toda práxis está condicionada por e responde a certos interesses. no caso das capacidades encontramo-nos com a constituição do âmbito mesmo de um tipo de possibilidades ou de outro. é um momento práxico. 560). O processo de apropriação de possibilidades intelectivas vai-se constituindo. p.. um poder possibilitar. Caráter interessado da atividade intelectiva Além da realidade a ser inteligida (reinado de Deus como assunto da teologia e como determinante de seu acesso intelectivo) e do próprio processo de intelecção (momento da práxis e momento práxico). explica-se. reside o caráter fundamentalmente práxico do momento intelectivo da ação humana.. Ano 43. Por outro lado. mas constitui-se o princípio histórico do humanamente possível” (ibid. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Número 119.. em alguma medida. p. p. não apenas se atualiza uma possibilidade. das possibilidades intelectivas disponíveis e apropriadas e da capacitação para a criação de novas possibilidades intelectivas. o desenvolvimento da atividade intelectiva se constitui. inclusive nos casos mais teóricos. Neste sentido.pmd 98 31/3/2011. 554. como um processo de capacitação intelectiva: “a constituição da possibilidade real é ela mesma processual e é o que formalmente deve entender-se como capacitação. um poder fazer possível”63.

p. ID. vale. p. Já vimos que o processo de intelecção se dá mediante a apropriação e a criação de possibilidades intelectivas. enquanto momento da práxis. faz-se sempre por alguma razão ou por algum interesse que pode estar em conflito com outros interesses. p.. por seu caráter práxico. na medida em que “se converte em favorecedora ou contraditora de determinadas forças sociais”65. mas está a serviço dessa mesma práxis (finalidade). o momento mais propriamente intelectivo da práxis. 214. Daí a necessidade de 64 65 66 67 ID. pp. Se a intelecção é um momento da práxis e se a práxis está estruturada a partir e em função de determinados interesses. Belo Horizonte.Não existe práxis desinteressada. para o pensamento teológico.. por sua origem e finalidade práxicas. mas que dependem de condições e interesses biográficos e históricos. E assim se dá com a teologia: não apenas procede da práxis do reinado de Deus (origem).. de alguma forma e em alguma medida. “La teología como momento ideológico de la praxis eclesial”. está condicionada e dinamizada por um interesse muito concreto: a realização do reinado de Deus. Primeiro. 209s. E isso. Isso que vale para o pensamento em geral. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . junto à sua função de contemplação e de interpretação. mas acaba favorecendo os interesses inerentes a essa mesma práxis. particularmente. Ao se reagir a certos acontecimentos ou situações de um modo ou de outro. optando-se por determinadas possibilidades de re-ação/interação dentro do conjunto de possibilidades disponíveis. 210. é claro que esses interesses estruturam e determinam. condiciona e determina a atividade intelectiva. Número 119. De uma forma ou de outra. A opção por investigar uma realidade concreta ou algum aspecto ou dimensão dessa realidade e a opção por certas mediações teórico-conceituais nunca são neutras nem se dão por razões meramente teóricas. muito mais propenso a “desfigurações e manipulações nem sempre conscientes”. em boa medida. p. sobretudo em disciplinas como a teologia que faz referência explícita a realidades humanas. “O conhecer humano [. mas interessada. uma função práxica que vem de e se dirige à configuração de uma determinada estrutura social”64.. Toda ação. Ano 43. Perspectiva Teológica. 08:16 99 . Segundo. dado o caráter “aparentemente” inverificável de muitas de suas afirmações67. Tampouco a práxis do reinado de Deus. toda práxis está estruturada e dinamizada a partir e em função de determinados interesses que podem estar ou não explicitados e que podem ser mais ou menos legítimos do ponto de vista evangélico. é uma ação interessada: no bem do outro. “Hacia una fundamentación del método teológico latinoamericano”.OK.pmd 99 31/3/2011. Não poderia ser diferente. Não apenas procede de uma práxis interessada. Ibid.. Ibid. desempenha. 165.. E esse processo está condicionado “por uma multidão de elementos que não são puramente teóricos”66. 83-102. Mesmo a ação mais gratuita.].

que sua verificabilidade de forma indireta não seja constringente. “Relación teoría y praxis en la teología de la liberación”.“se perguntar temática e permanentemente a que mundo social respondem. 83-102. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . De modo que a práxis. 241. seja por seu caráter práxico (apropriação de possibilidades teórico-conceituais). ela está sempre condicionada por interesses mais ou menos legítimos do ponto de vista evangélico. ela verifica sua veracidade nessa práxis e o faz praxicamente. Ibid. além de lugar de experiência ou provação da teoria (onde). De uma forma ou de outra. Por outro lado. Belo Horizonte. “a atividade teológica. 210. “Hacia una fundamentación del método teológico latinoamericano”.. 100 Perspectiva Teológica. vale a redundância. Por um lado. tem que encontrar como totalidade alguma forma de verificação histórica desse caráter salvífico”70. além de estar submetida a múltiplas pressões de ordem social. 08:16 . Na verdade. a teologia pode e deve ser testada/provada nessa práxis (lugar) e pode e deve ser praticável-historicizável (princípio). p.. a teologia está a serviço do reinado de Deus e deve encontrar alguma forma de realizá-lo. p. ID. Mas na medida em que a teoria teológica é um modo de teorização de uma fé que é salvífica. Ano 43. Ora. Podem dar-se partes ou aspectos de uma teoria que não sejam verificáveis de forma direta e. inclusive. Enquanto intelecção de uma realidade histórico-práxica (reinado de Deus).pmd 100 31/3/2011. implícita ou explicitamente. tem que lançar mão de recursos teóricos que podem ser resultado de ideologizações mais o menos larvadas”69. carece ao menos de uma de suas dimensões essenciais que é a historicidade.OK. a teologia está a serviço dessa práxis e tem nela seu lugar e seu princípio de verificação. Número 119. constitui-se em princípio com o qual se mede ou se pondera sua veracidade (como). a teologia tem na práxis do reinado de Deus seu lugar e seu princípio de verificação fundamentais. já que nem sequer uma formulação puramente teórica se explica em todo seu sentido só a partir de si mesma”68. p. Seja por sua origem e finalidade práxicas (reinado de Deus). Verificação e historicização da teologia Por fim. Se é teoria de uma práxis.. o caráter práxico da teologia tem a ver com sua verificação e com sua historicização. que se não são desmascaradas mistificam seus resultados. Enquanto momento intelectivo da práxis do reinado de Deus. p. Não está interessada apenas em inteligi- 68 69 70 ID. 214. o fazer teológico está sempre condicionado e dinamizado por determinados interesses que o tornam uma atividade constitutivamente práxica. diz Ellacuría: “uma teoria teológica que não seja verificável na práxis teologal. 4.

Ano 43. como se o interesse práxico não fosse inerente ao desenvolvimento do momento intelectivo da práxis. ela é muito mais determinante e decisiva no fazer teológico e tem muito mais implicações práticas do que parece à primeira vista. p. com pouca ou nenhuma relevância e incidência práxicas. 71 72 Ibid. como afirma Antonio González. Belo Horizonte.lo. GONZÁLEZ. a teologia enquanto intelecção tem um caráter intrinsecamente práxico. Por isso mesmo. mas está orientada a essa mesma práxis (sua meta) e. mas também em torná-lo realidade. p. 241s.. No entanto. E esse interesse condiciona e determina em alguma medida o próprio processo de intelecção. A eleição adequada do ponto de partida da teologia pode determinar decisivamente a formulação da mensagem que o cristianismo quer transmitir a uma humanidade atravessada por enormes conflitos”72 . Afinal. ecológicos etc.]. por exemplo. deixa de ser um intelectus fidei para ser um estudo de inoperatividades”71. o diálogo cultural entre as distintas cosmovisões se situaria no primeiro plano de interesse. Conclusão Toda essa discussão sobre o caráter práxico da teologia pode parecer excessivamente especulativa e abstrata e. além de despotencializar a práxis teologal requerida. a teologia está condicionada e orientada pelos interesses inerentes a essa práxis (sua realização histórica). enquanto que outros problemas humanos seriam relegados a um segundo termo ou seriam excluídos do campo da teologia. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . ironicamente. Número 119. seja por sua finalidade (realização ou historicização do reinado de Deus). Se a teologia partisse. Seja por seu lugar e princípio de verificação (práxis do reinado de Deus). Perspectiva Teológica.OK. “La vigencia del ‘método teológico’ de la teología de la liberación”. Não é uma atividade neutra ou des-interessada nem se desenvolve de modo absolutamente objetivo: suas opções teóricoconceituais estão intimamente ligadas a seus interesses práxicos. diz Ellacuría. pp. econômicos.pmd 101 31/3/2011. Enquanto momento intelectivo de uma práxis concreta (reinado de Deus). “o ponto de partida da teologia determina decisivamente a perspectiva utilizada para abordar teologicamente esses problemas [sociais. 08:16 101 . 669. por isso. a propósito da “primazia da prática” na TdL. da pergunta pelo sentido da vida. Não é que primeiro se faça a teologia (teoria) e depois se procure realizá-la (práxis). 83-102. não apenas provém da práxis (seu momento intelectivo). deve encontrar alguma forma de realização (historicização). “uma teologia absolutamente irrelevante para uma situação histórica determinada.

fazer justiça aos pobres e oprimidos (Jr 22. 08:16 . verificação e historicização da teologia). Ano 43.16. 2010. caráter interessado do conhecimento. Endereço: Caixa Postal 27 62930-000 Limoeiro do Norte – CE e-mail: axejun@yahoo. 2010 e A dimensão sócio-estrutural do reinado de Deus: escritos de teologia social.com. portanto. professor de teologia na Faculdade Católica de Fortaleza e presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte (CE). São Paulo: Loyola. São Paulo: Paulinas. Número 119. processo de intelecção.8). além de tornar o fazer teológico mais crítico.31-46)? Francisco de Aquino Júnior é doutor em teologia pela Westfälische Wilhelms-Universität de Münster (Alemanha). o que é conhecer a Deus senão amá-lo (1Jo 4. porque mais consciente de si. É autor das obras: A teologia como intelecção do reinado de Deus: o método da teologia da libertação segundo Ignacio Ellacuría. 83-102.br 102 Perspectiva Teológica.3ss). p. Belo Horizonte. o caráter práxico da teologia (realidade a ser inteligida.pmd 102 31/3/2011.OK. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . praticar sua vontade (1Jo 2.Assumir. Mt 25. de modo consciente e consequente. tornao mais bíblico (conhecer–experimentar–fazer) e mais relevante historicamente (busca de mediações práticas e teóricas para a realização do reinado de Deus em nosso mundo). Afinal.

Junto desses fatores encontra-se ainda a catástrofe provocada pela Primeira Guerra Mundial e. e a emergência do pensamento existencialista. Pneumatologia. Relationship I-You.FERDINAND EBNER: FILÓSOFO-TEÓLOGO DA PALA VRA ALAVRA (Ferdinand Ebner: Philosopher-Theologian of the Word) Luiz Carlos Sureki SJ * RESUMO: O pensamento de Ferdinand Ebner (1882-1931) se caracteriza pela busca da dimensão propriamente espiritual do existir humano. a fé cristã. Palavra. The peak of his search is characterized by a return to the source of Christian faith. The consequence of this will be the enhancement of personal relationships in contrast to the general tendency of an Ego totally closed in itself.OK. O auge de sua busca caracteriza-se pela volta à fonte da fé cristã entendida como Palavra criadora de Deus. que vagueia entre os destroços do idealismo. ÁUSTRIA). Jesus Cristo. Perspectiva Teológica. Belo Horizonte. understood as the creative Word of God. the Christian faith. PALAVRAS-CHAVE: Pensamento Dialógico. and the exaltation of existentialism on the other. 08:16 103 . Artigo submetido a avaliação no dia 29/11/2010 e aprovado para publicação no dia 10/12/2010. de modo particularmente decisivo. por outro. como pneumatologia. 103-115. KEY-WORDS: Dialogical Thought. por um lado.pmd 103 31/3/2011. Ano 43. Jesus Christ. A consequência disso será então a valorização das relações pessoais frente à tendência de se conceber um Eu fechado sobre si mesmo. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Número 119. Word. as pneumatology. original dialogue. Pneumatology. p. O ponto de partida de tal busca pelo espiritual encontra-se na realidade de sua própria vida açoitada pela enfermidade e na filosofia dos inícios do século XX. Relação Eu-Tu. In addition to these factors is the experience provoked by the catastrophe of World War I and. in a particularly decisive manner. ABSTRACT: The thought of Ferdinand Ebner (1882-1931) is characterized by the pursuit of the truly spiritual dimension of the human existence. The starting point of his search for meaning is the reality of his own life marked by illness and the philosophy of the early twentieth century that oscillates between the crash of idealism on the one hand. * Universität Leopold-Franz (Innsbruck. diálogo originário.

1982. com Deus e com o mundo. ou nenhum contato com a obra do filósofo alemão. Das Dialogische Denken: Franz Rosenzweig. não somente porque não podem ser situadas e representadas no espaço. 08:16 . no entanto. apesar de termos tão pouco.OK. distanciada do sujeito. mas também porque são realidades de natureza dinâmica. pesquisado e razoavelmente conhecido na América Latina. existencial e espiritual do ser humano na sua interatividade dialógica entre si. Ano 43. causam uma sensação de obscuridade. 104 Perspectiva Teológica. 3 O próprio Lévinas afirmara que a presença de Franz Rosenzweig em suas obras é “demasiado frequente para ser citado”. Cf. de modo que as inevitáveis traduções e interpretação de conceitos e títulos das mesmas são de responsabilidade do autor. Innsbruck. Madrid: UPCM. compreende-se o movimento filosófico surgido nas primeiras décadas do século XX que inspirou obras relevantes e suscitou novo interesse na busca e aprofundamento da compreensão da dimensão pessoal. O filósofo lituano judeu Emmanuel Lévinas (1906-1995) é provavelmente o representante mais recente dessa corrente filosófica que. Apesar de encontrarmos atualmente à disposição algumas traduções no idioma espanhol de obras importantes dos representantes do Pensamento Dialógico. VÁZQUEZ. o autor que mais influência exerceu sobre o pensamento levinasiano3. Número 119. CASPER. A característica principal das relações humano-pessoais é a de que elas não se deixam determinar ao modo de objeto. À guisa de introdução diremos apenas que esses autores dedicaram singular atenção àquelas realidades que se constituem na tensão vivente. Belo Horizonte. como “La estrella de la Redención” de Franz Rosenzweig (18861929). Lévinas. Ferdinand Ebner und Martin Buber. ainda em curso. entre outros. “La Palabra y las Realidades Espirituales” de Ferdinand Ebner (1882-1931).1. 2002. por isso mesmo. O Pensamento Dialógico e seus principais representantes 1 S ob a designação “Pensamento Dialógico”2. Como as obras de Ferdinand Ebner não foram traduzidas para o português. 2 Excelente introdução ao Pensamento Dialógico é o livro: B. p. as citações são tomadas do original alemão. que nos nossos centros acadêmicos latino-americanos de filosofia e teologia pouco contato e afinidade se tem com tais pensadores e com a problemática por eles abordada. labilidade e imprecisão quando vistas sob uma perspectiva objetivista ou objetivante. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 1 O presente artigo constitui parte da investigação e reflexão teológica do autor surgida no processo de pesquisa e elaboração da dissertação doutoral. Freiburg / München: Karl Alber GmbH. instável. é mais citado. 103-115. El discurso sobre Dios en la obra de E. “Yo y Tu” de Martin Buber (1878-1965).pmd 104 31/3/2011. Franz Rosenzweig. atualmente. U. junto à Universität Leopold-Franz. que passam e perpassam os seres pessoais quando eles se relacionam entre si e com Deus. 105. percebe-se. p. também comumente referido como “Personalismo Dialógico”. também judeu. Áustria. flexível e.

se não há quem fale e quem ouça. que cria relação. sem alguém que ame alguém. 5 “Wir reden von Gottes Allmacht. amor. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . salvação. E é justamente esse caráter performativo que distingue a teologia de outras ciências da religião. 08:16 105 . pois quem pronuncia a palavra é sempre um Eu. In F. p. revelação. 6 Cf. esperança. escrita em 1914). portanto. palavra. Diálogo implica a liberdade de uma pessoa dirigir a palavra à outra. no “entre” Eu e Tu7. Schriften I. pois não há fé. entre outros. Belo Horizonte. Número 119. p. Allwissenheit usw. p. als ob damit auch wirklich etwas von Gott gesagt wäre”. É por isso que os filósofos fundadores do Personalismo Dialógico entenderam a relação autêntica. Fora da relação pessoal com Deus. Perspectiva Teológica. Aufsätze. os conceitos mais importantes do Personalismo são liberdade. 1963.pmd 105 31/3/2011. p. Ethik und Leben: Fragmente einer Metaphysik der individuellen Existenz (obra não publicada. não há autoconsciência do [meu próprio] viver enquanto contínuo acontecer. promessa. por sua vez. Não há autoconsciência do Eu como Eu sem o Tu como pressuposto. Der dialogische Personalismus. não há conhecimento de Deus. insere a pessoa na relação e abre a possibilidade da compreensão dessa mesma realidade relacional como constitutiva do “ser pessoa humana”. são conceitos relacionais. o pressuposto fundamental dessa busca de autocompreensão e de sentido. Contudo. não simplesmente Bewusstsein) somente existe no “espaço” da relação. Deste modo. Zu einer Pneumatologie des Wortes. 9. palavra e relação4. B. pelo viés da religião. LANGEMEYER. 12. 109. Fora da relação entre primeira e segunda pessoa não há vida vivida propriamente dita6. não há amor. especulações. Entre Eu e Ele não há diálogo. Notável fecundidade encontra o Pensamento Dialógico no campo da teologia. Com efeito. e pelo descobrimento dessa interação como fundadora de novas realidades e criadora de sentido para o existir humano na liberdade que lhe é própria. Ano 43. continua sendo o da relação com Deus. München: Kösel. sem alguém que creia em alguém. somente o Tu designa uma relação pessoal sujeitosujeito. 4 Cf. mas tão somente ideias sobre Deus. sondern umgekehrt. como Pessoa.OK. 1963. na medida em que sou Eu quem digo “ele/ela é”. E é a palavra. Paderbon: Bonifacius-Druckerei. EBNER. A terceira pessoa do singular não pode.A filosofia dialógica se caracteriza em geral pela revalorização da relacionalidade. 911. projeções5. Conceitos centrais da teologia como fé. original e verdadeiramente espiritual como relação eu-tu. „Brenner-Archiv“ der Universität Innsbruck. porque ele/ela já é uma objetivação minha. In EBNER. 7 “Die Existenz des Dus hat nicht die des Ichs. 103-115. ser pressuposto da minha autoconsciência de ser-vivente. e assim por diante. do acontecimento do encontro e a vinculação deste ao amor e à palavra. Aphorismen. O “Ele” não fala de si próprio como Ele. pois a palavra que me possibilita ser-consciente (Bewusst-Sein. diese jene zur Vorausetzung”. não há palavra. p. Schriften I: Fragmente. à luz dos quais o ser humano religioso procura compreender-se e dar sentido à sua vida. EBNER. F.

Vida e Pensamento de Ferdinand Ebner: da poética à pneumatologia Ferdinand Ebner10 nasceu no dia 31 de janeiro de 1882 em Viena (Wiener Neustadt) e faleceu aos 49 anos de idade no dia 17 de outubro de 1931 em Gablitz (Niederösterreich). agradecendo. como é o caso da língua portuguesa que utiliza na liturgia o pronome mais formal “Vós” para dirigir-se a Deus. desse instigante pensador que encontra no Deus da experiência bíblica o Tu por excelência de sua vida e pleno sentido de sua existência. O presente escrito almeja apresentar ao leitor cristão latino-americano algumas contribuições do praticamente desconhecido filósofo austríaco Ferdinand Ebner para a reflexão teológica. München: Kösel. Lebenserinnerungen. 106 Perspectiva Teológica. apontaremos algumas implicações de caráter antropológico. eram já falecidos (ele recebeu o mesmo nome de seu finado irmão). louvando.OK. estaríamos sempre pronunciando algo sobre Ele. especialmente em situações em que o ser humano é acometido pelo sofrimento. 10 Uma biografia pormenorizada de Ferdinand Ebner encontra-se no site oficial da Internationale Ferdinand Ebner Gesellschaft: http://www.ebner-gesellschaft. A linguagem litúrgica nos faz perceber claramente o que assinalamos acima. Schriften II.pmd 106 31/3/2011. Somente Tu designa a pessoa a quem dirigimos a palavra. p. EBNER. Maria. 1963. Os outros irmãos. Após apresentarmos os principais traços biográficos desse autor e nos situarmos nos três períodos (poético. pedindo. p. pelas incompreensões. mas nunca falando com Ele. Schriften II: Notizen. O Eu é por excelência o nominativo originário (Urnominativ) e o Tu. Quando Ferdinand nasceu. acessado em 15/10/2010. suplicando. na qual e para a qual o Prólogo do Evangelho de João ocupa um lugar central. o vocativo originário (Urvokativ)9. e dois de seus irmãos. nos deteremos na chamada fase pneumatológica. Se nos dirigíssemos a Deus na terceira pessoa. 2. Ebner dirá que Eu e Tu não são meramente pronomes.Com raras exceções. 08:16 . metafísico e pneumatológico) de sua vida. Ano 43. ainda que muito sucinta. Anna. Hans e Josefine eram bem 8 Cf. seu pai contava já com 62 anos. outros idiomas empregam “Tu”. onde respectivamente nascem suas intuições fundamentais. Oriundo de uma família austríaca cristã tradicional. Número 119. Susanne e Ferdinand. Dada a sintonia de Ebner com a fé cristã e com os desafios da vivência concreta dessa fé. teológico e espiritual do pensamento de Ebner que certamente hão de enriquecer nossa própria reflexão teológica e filosófica. Herausgegeben von Franz Seyer. 9 Cf. pelas enfermidades. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . acreditamos ser oportuna uma apresentação. Tagebücher. p. 253. em estreita relação existencial8. era o sétimo filho do agricultor Johann Ebner. Belo Horizonte. EBNER. F. Finalmente. 103-115. 27.org/ueberebner/biographie.

103-115. EBNER. p. Pascal. A maior parte dos seus fragmentados escritos estão contidos em seus diários (Tagebücher). Frequentou a escola pública da época e. dedicou o tempo que podia à filosofia. 11 Perspectiva Teológica. H.G. Belo Horizonte. russa e escandinava. Decodierungen der Metaphysik: Eine religionsphilosophische Interpretation von Ferdinand Ebners Denkweg auf der Grundlage unveröffentlicher Manuskripte. Confrontado permanentemente com tais limitações. desde sua infância. Kant. experimentava-se não poucas vezes profundamente deprimido. Número 119. München: Kösel. notas. como também para aprofundar-se no universo da fé cristã14. sofria de insônia e sentia-se esgotado. inglesa.mais velhos que Ferdinand. breves ensaios e centenas de cartas. HÖDL. pensamentos soltos. 20. Desse “período Cf. Era acometido frequentemente por fortes dores de cabeça. acontecimento este que foi para Ebner (então com 21 anos) não somente ocasião para refletir criticamente a situação existencial humana. Schopenhauer. Kierkegaard. o concreto “Tu” humano de sua vida. Inicialmente interessava-lhe sobremaneira a literatura alemã clássica e romântica. Herausgegeben von Franz Seyer.OK. nem um trabalho continuado como escritor. De 1903 a 1913 são os escritos dos filósofos (Platão. 1998.pmd 107 31/3/2011. Bergson) e algumas outras então impactantes publicações do campo da Psicanálise (Freud). Fichte. Frankfurt-am-Main: Peter Lang. Seus primeiros escritos são poemas. Dezenas de cartas13 escreveu ele a Luise Karpischek. Como sua precária saúde não lhe permitia amplas leituras. 08:16 107 . Feuerbach. que passam a interessar cada vez mais a Ebner. 14 Cf. O pensamento de Ebner é caracterizado pela assistematicidade. encontram-se atualmente no “Brenner-Archiv” da Universidade de Innsbruck. A formação acadêmica do jovem Ebner foi interrompida por longo tempo (entre 1900 e 1902) devido a uma enfermidade pulmonar grave. como “Ethik und Leben – Fragmente einer Metaphysik der individuellen Existenz” (1913/14) e os “Ferdinand Ebners Notizheften” (1914/15) nunca chegaram a ser publicados12. Ferdinand tinha uma saúde muito frágil e possuía um temperamento marcadamente nervoso. Um exemplo significativo deste “período poético” é o “GolgothaGedicht” elaborado por ele por ocasião do falecimento de seu pai em 1903. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Ano 43. fez um curso para ser professor de escola pública primária (Volksschullehrer)11. com o intuito de buscar e descobrir um sentido do espiritual que pudesse trazer certa plenitude à sua vida quebrantada. bem como as tragédias gregas e outros clássicos da cultura literária francesa. Por meio dessas correspondências compartilhava com ela suas investigações e expressava seus pensamentos. de modo que ele teve uma infância bastante solitária. Seus escritos são fragmentos. Decodierungen der Metaphysik. 12 Tais manuscritos. Jakob Grimm. 13 Todas as cartas de Ebner encontram-se publicadas em: F. aforismos. a quem conhecia desde muitos anos e por quem nutria grande amizade e afeto. Luise foi sem dúvida a pessoa mais significativa na vida de Ebner. p. 27. p. HÖDL. 1965. posteriormente. Nietzsche. Schriften III: Briefe. Aliás. Alguns de seus manuscritos. assim como todo o legado de Ebner.

In EBNER. in R. “Die Wirklichkeit Christi”. ao mesmo tempo. arquivo de literatura do Tirol (Tiroler Literaturarchiv) e recebeu o nome “Forschungsinstitut Brenner-Archiv” por esse motivo.. o esmorecer do impulso vital. positivista. Bergson se pronunciava contra uma ideologia mecanicista. Depois tornou-se um instituto de pesquisa da Universidade de Innsbruck e. SEEKIRCHER. Philosophie und Metaphysik. 353.. “Zum Problem der Sprache und des Wortes”. XII. publicada na forma de livro em Innsbruck em 1920. a fase pneumatológica se caracteriza pela “descoberta” da Palavra como origem de todo Ser/Existir e.). 2001.. 171. Arquitetando sua filosofia a partir do conceito central de “élan vital”. Seu péssimo estado de saúde foi a razão que o manteve relativamente distante das batalhas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). 16 Trata-se dos “Tagebücher de 1916/17” (diários de Ebner que já contêm vários Fragmentos e Aforismos de caráter explicitamente pneumatológico). 17 “. A leitura desse cristão radical significou para Ebner o retorno à fé pessoal e. casou-se em outubro desse mesmo ano com Maria Mizera.1920. Nos inícios de 1918 redigia sua mais importante obra.07-28. Ano 43. Nos anos seguintes. Folge.08. portanto. 08:16 . Dentre os mais significativos estão “Die Wirklichkeit Christi”18 e “Zum Problem der Sprache und des Wortes”19. 19 F. Brenner Aufsätze.pmd 108 31/3/2011. pp. como fundamento do próprio pensar. Após duas grandes crises que o levaram às portas do suicídio por duas vezes. A partir da leitura de Bergson. EBNER. numa “metafísica da existência individual”15. ao mesmo tempo. que expressava no subtítulo essa nova fase da sua vida: “Das Wort und die geistigen Realitäten. Ebner publica outros textos. p. Der Geist des Christentums fordert vom Menschen etwas ganz anderes. 370.filosófico” é mister assinalar a influência do filósofo francês Henry Bergson no desenvolvimento inicial do pensamento filosófico-existencial de Ebner. Número 119. 15 108 Perspectiva Teológica. Pneumatologische Fragmente”. para o período comumente denominado pneumatológico. A revista chamada na época de “Der Brenner” tinha sua sede em Innsbruck e foi editada entre os anos 1910 e 1954. das ist ja alles nur ein Traum vom Geiste – er fordert das Erwachen des Menschen zu den geistigen Realitäten des Lebens. Um ano mais tarde. SEEKIRCHER (org. Os chamados “Fragmente von 1916”16 representam como que a passagem da metafísica. um distanciamento do poder eclesial institucional. Herbst 1926. Esta última interpretava Bergson como congelamento do Espírito. respectivamente em março e maio de 1923. “Ferdinand Ebner”. 29. percebida por ele então como “sonho do espírito”17. als vom Geiste zu träumen – und Kultur und Kunst. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Schriften II. p. Belo Horizonte. p. e ressaltava a liberdade e a consciência. Wien / Köhl / Weimar: Böhlau. EBNER. nasceu seu filho único Walter Ebner.OK. wie sie durch das Leben und Wort Jesu geoffenbart wurden”. Concebia Espírito e Vida como origem de todo ser e também de toda matéria. Ver também: M. materialista. Folge. pp. p. X. Muito significativo nesse período de guerra foi o encontro de Ebner com os escritos de Søren Kierkegaard. Ostern 1928. 3-50. 18 F. Ibid. Ferdinand Ebner: Mühlauer Tagebuch 23. para sua alegria. Dito sinteticamente. a reflexão de Ebner lança raízes numa filosofia da vida. HÖRMANN / M. 103-115. Brenner Aufsätze.

Schriften II.ebner-gesellschaft. e a Palavra estava junto de Deus. Ano 43. é no campo da espiritualidade que sua contribuição se fará sentir com mais força. cuja expressão encontra maior claridade quando refletida não como ser. 1851 [Berlin. Ebner pode ser considerado o “filósofo da palavra”. In EBNER. 20 Textos e projetos de pesquisa acerca do pensamento ebneriano. mas antes como tornar-se. p. 1866]. bem como álbum de fotos. O legado completo de Ebner encontra-se em Innsbruck no “Forschungsinstitut Brenner-Archiv”20. Seu propósito não era o de ser um homem que somente pensa o mistério da vida. 112.Em 17 de outubro de 1931. Número 119. Wissen vom Wort. após receber a unção dos enfermos. Perspectiva Teológica. 23 A análise abrangente dessa concepção da anterioridade da ética frente à ontologia encontrar-se-á. Ursprung der Sprache: Aus den Abhandlungen der Königlichen Akademie der Wissenschaften. Ela existia no princípio junto de Deus. no pensamento de Lévinas. mas sim um problema ético. Viver é mistério e precisa ser vivido como tal21. p. falece Ferdinand Ebner de tuberculose em Gablitz (próximo a Viena). Deste modo. Ver E. GRIMM. 4ª ed.pmd 109 31/3/2011. Belo Horizonte. documentos e testemunhos acerca de sua vida encontram-se à disposição em: http:/ /www. 3. p. O caminho que conduz Ebner à fonte inspiradora da compreensão profunda da vida e da realidade pneumatológica da existência tem início com a leitura do livro de Jakob Grimm24 “Der Ursprung der Sprache” (a origem da linguagem) e culmina na leitura do Prólogo do Evangelho de São João25: No princípio era a Palavra..OK. O ser jamais está no tornar-se. 24 J. relacional23. EBNER.. criatividade. und eine Interpretation des Introitus zum Johannesevangelium”. Ele realiza uma fenomenologia da Palavra que nos fornece ricos elementos para uma reflexão teológica de caráter pneumatológico-existencial. La Haye: Nijhoff. A reflexão teológico-pneumatológica de Ebner Assim como Buber é por vezes referido como o “filósofo do encontro”. consultado em 15/11/2010. movimento22. 25 “Jede wahre Pneumatology ist Sprachwissenschaft in tieferem Sinne. e a Palavra era Deus. um tornar-se. p. como um constante vir-a-ser. Autrement qu’être ou au-delà de l’essence. Schriften II. 103-115. não é primeiramente um problema ontológico. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 21 Cf. senão o homem que o vive em profundidade. O tema da vida exerce um papel central no pensamento de Ebner. mais tarde. LÉVINAS. nem de teoria do conhecimento. 22 Ibid. Trata-se de uma realidade primária. como realidade dinâmica. 1974. A vida é força motriz em si mesma que. Tudo foi feito por meio dela. 65: “Das Leben – das ist das große und tiefe Mysterium in uns selber”. 249. 08:16 109 .org/ueber-ebner/.

saída de si. Belo Horizonte. O chamado “terceiro” na relação é a própria relação. Nela estava a vida e a vida era a luz dos homens.e sem ela nada foi feito de tudo o que existe. mas “segunda” pessoa27.2). A Palavra de Deus é a força criadora. 08:16 . e não o de fechar-se sobre si mesmo. pois o evangelho de João. A relação entre Deus e a Palavra foi determinada desde a eternidade pelo amor do Pai para com o Filho. na Encarnação. Porque na Palavra de Deus estava a vida dos homens (Jo 1. um princípio na eternidade. In EBNER. pois. (Jo 1. Schriften I. que a relação entre Deus Pai e o Filho não é unilateral e encerrada sobre si mesma. não no tempo. pois o Espírito Santo é a expressão “objetiva” dessa relação pessoal-dialogal existente.. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 .pmd 110 31/3/2011. que se revelou plenamente em Jesus. p.1ss). para depois dizer: “e a Palavra era Deus” (Jo 1. “In der Geistigkeit seines Ursprungs in Gott war der Mensch nicht »erste«. ou seja. Assim como é inconcebível um Deus que não se diz. “Das Leben Jesu ist die Offenbarung des Wortes”. através da qual tudo veio (respectivamente vem) à existência.. alcança sua mais profunda radicalidade. O sentido profundo da compreensão bíblica é o de que Deus é Pessoa. Daí que o fruto característico da experiência do Espírito Santo seja justamente o da abertura. A Palavra não somente dá vida.4). Número 119. “A vida de Jesus é a revelação da Palavra”26. Somente Deus é o que chama a ser o que (ainda) não é.2-3). que desde o princípio estava com o Pai (Jo 1. inteligibilidade e cumprimento. sondern »zweite Person« – die erste war und ist Gott”. começa com “no princípio”. O princípio do Filho é o princípio de Deus. diz Ebner.OK. ou seja. pois a Palavra não é nenhuma criatura. p. Por isso se diz primeiramente: ela estava “junto de Deus”. da origem de Jesus Cristo como a Palavra. 97. 103-115. Jesus promete vida eterna a todos os que escutarem e acolherem a Palavra. A história da Palavra diferencia-se de todo discurso acerca da sabedoria na e da criação. p. mas a contém em si. também o é pensar a Palavra sem diferenciá-la de Deus mesmo. inclusão do diferente. por exemplo. Na sua origem espiritual em Deus. assim como o livro das origens “Gênesis”. O tu da palavra criadora divina conserva sua prioridade “ontológica” absoluta. que não se expressa. Ano 43.. Somente assim é possível compreender. Ibid. Somente porque a Palavra estava-com e era Deus é então possível falar de um Deus que se “falou”. O prólogo fala. mas trata-se antes da história do Filho unigênito com seu Pai. que não se revela. na qual Deus desde o início da criação se revelou e que. o ser humano não é “primeira”. Com isso é possível responder à crítica de que a relação eu-tu seria uma relação simétrica e bilateral sem espaço para a inclusão do diferente. significando “antes da criação”. 26 27 110 Perspectiva Teológica. é a Palavra mesma que revela o que há de “objetivo” no estarem-relação de um Eu com um Tu. 468.

ou melhor. H. Palavra como tal não existe fora de uma relação do tipo pessoal. wenn er nicht der »Täter des Wortes« ist. Tendo parte na vida originária de Deus. A Encarnação da Palavra eterna representa para João a compreensão central da fé. No começo da vida espiritual do ser humano está a Palavra. que lhe confere valor. a Palavra do Pai (cf. ela é a própria relação. Schriften I. a que estava no princípio.pmd 111 31/3/2011. Resgatar esse mistério da origem do existir humano é também perceber-se como aquele/aquela a quem foi dirigida a palavra para que realmente existisse como tal e. porém como criatura que porta a Palavra em si30. o primeiro versículo do Prólogo de João se apresenta assim: no princípio era a relação do Eu com o Tu e a relação estava com Deus e Deus era a relação do Eu com o Tu29. para Ebner. pela Palavra da verdade. Schriften I. portanto. que o distingue de todas as demais criaturas. 30 “Und der Mensch hat Gott nicht in sich.24). que o homem e a mulher trazem em si a possibilidade de entrar em relação com Deus. Dizer que Deus criou o ser humano significa dizer que Ele lhe falou. p. dignidade31. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Schriften II. veio para o que era seu. Para a reflexão de Ebner. a saber. Ferdinand Ebner: Ort in der Moderne. Pela Palavra o Ser se torna (é). 2000. In EBNER. que abrigamos em nós o sopro (pneuma) divino vivificador (cf. pois. 213. 263. a Luz que vindo ao mundo a todos ilumina” (Jo 1. pois a Palavra “era a Vida. a fim de sermos como que as primícias de suas criaturas” (Tg 1. Ora. traduzido comumente pelo vocábulo “palavra” deve. vivacidade (Lebendigkeit) e orientação de sentido. wenn er nicht die Liebe in sich hat”. e a verdadeira humanidade do ser humano será sempre criada e sustentada pela Palavra até o fim dos tempos. 1Cor 6.19). É a Palavra no ser humano. ao mesmo tempo. o ser humano recebe vitalidade.a todos os que crerem que Ele é o Filho enviado do Pai. descobrir o viver humano como sendo resposta ou recusa a essa palavra: “. a característica essencial da Palavra. 29 Cf. p.OK. 08:16 111 . Na carta de Tiago encontramos: “De livre vontade ele nos gerou. Das Johannesevangelium geht noch einen Schritt weiter. 33. 31 Cf.9). pois. Perspectiva Teológica. p. veio ao mundo para salvá-lo. EBNER. ser entendido literalmente e não ser identificado exclusivamente com a vida espiritual do Jesus histórico. p. denn Christus ist das Geheimnis des lebendigen Wortes und seine Offenbarung”. Essen: Die Blaue Eule.. mas os seus não o acolheram” 28 “Vom Geheimnis des Geistes im Worte lebt der Mensch als Mensch. 963. pois Cristo é o mistério da Palavra viva e sua Revelação”28. A relação do Eu com o Tu era. Número 119. Diz Ebner: “Do mistério do Espírito na Palavra vive o homem como homem. In EBNER. Por isso pode-se dizer que somos templos do Espírito Santo (cf. como Luz. Significa. indem es lehrt: Vom Geheimnis im Worte lebt der Christ. Jo 5.22). BRAUN.18). pois Deus cria o ser humano por meio da Palavra. quando ensina: do mistério da Palavra vive o cristão. Belo Horizonte. O termo grego “Logos”. Importante percebermos com Ebner que a Palavra está no princípio do Ser. Também o homem foi criado pela Palavra. p.. que o homem Jesus é o Filho de Deus que. Ano 43. Ef 2. 103-115. O Evangelho de João dá ainda um passo à frente.

pmd 112 31/3/2011. busca seu interlocutor originário. portanto. denn es existiert nur im Verhältnis zum Du”. Grundlage der gesamten Wissenschaftslehre. Schriften I. fora da qual não há verdade. no seu “autoisolamento” ou. A Palavra. p. que ele designa como “o caso oblíquo do Eu”: das Mein-Mir-Mich. sem o qual “Eu” na primeira pessoa do singular – e não “o” Eu (ideia) da terceira pessoa (ele) – absolutamente não existe36. Ano 43. como um pensar-se a si mesmo. aqui p. Somente assim poderá ele compreender-se realmente. 34 Ebner refere-se aqui ao conceito kierkegaardiano de “enfermidade para a morte” (Krankheit zum Tod) e o utiliza várias vezes como sinônimo de “Icheinsamkeit”. o encerramento do Eu sobre si. por isso.OK. mas sim na sua relação para com o “Tu”.G.(Jo 1. Síntese Nova Fase 24 (1997/ n. A verdade está na Palavra32. Schriften I. de absolutizar o Eu como no idealismo de Fichte37. necessariamente. nem autocompreensão alguma33. Número 119. In EBNER. mas principalmente saída-de-si. 37 Ver J. 502.J. filhos de Deus nascidos do alto. die Wahrheit im Wort”.79) 497-512. FICHTE. “não o escutaram”. p. bem como a possibilidade. para Ebner existem somente duas realidades espirituais que se encontram sempre em relação: Eu e Tu. o homem também traz constitutivamente a necessidade de “falar”. de expressar-se e. p. In EBNER. 16. pois como ser-portador-da Palavra. correção e veracidade. um “ensimesmamento”. ou de relativizá-lo totalmente. HERRERO. Com efeito. 1997. 103-115. na sua “Icheinsamkeit”. O conceito de “verdade”. 35 Ebner utiliza muitas vezes a expressão “Moi de Pascal” para apontar o Eu não verdadeiro. 36 “Das Ich hat keine »absolute« Existenz. p. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 .11). do Espírito (cf. como linguagem. “A pragmática transcendental como ‘filosofia primeira’ ”. A existência verdadeira do Eu não se encontra na sua relação consigo mesmo. da consciência do Eu. na terminologia de Ebner. Deus é o Tu por excelência da vida do homem. a pretensão de verdade. encontra estreita relação com a justa compreensão da “palavra”. Jo 3. 112 Perspectiva Teológica. O viver é o próprio conteúdo. a solidão do Eu. com o “Não-Eu”. e sim de compreendê-lo na sua relação 32 “Nicht die Wahrheit eines Gedankes muss geglaubt werden. em sua vida. aquele que por primeiro lhe falou. p. de comunicar-se. mas sim a um Eu abstrato e irreal no pensamento e na especulação à semelhança do Moi de Pascal35. Ver EBNER. sondern die Aussage des Gedankes. é medium instransponível. 96. A tentativa da filosofia do idealismo de salvar a existência do Eu falhou e deveria necessariamente falhar porque não se voltava ao Eu verdadeiro. Schriften I. nem falsidade. poderíamos dizer. A crítica de Ebner se estende à filosofia ocidental. Não se trata.3). 451. no sentido de que até então o Eu vinha sendo entendido sempre na referência exclusiva a si mesmo. 08:16 . Hamburg: Meiner. 176. Fora da viva relação com Deus o espírito adoece34. Toda sentença pronunciada com sentido levanta. Belo Horizonte. igualmente central na filosofia. especialmente ao idealismo. não se tornaram “filhos da luz”. 33 Ver F. Tal consciência não é um contínuo voltar-se a si mesmo.

pois. Sendo Cristo. pois. os seres visíveis e os invisíveis. entendemos a Palavra de Deus Encarnada em Jesus Cristo como realização plena da antropologia: “Ele é a imagem do Deus invisível. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . 08:16 113 . 38 39 Perspectiva Teológica. RAHNER. ou seja. é o de que ela é espiritual 38.16).constitutiva com o Tu. insofern er sich selbst als das Produkt des ihm radikal Fremden vor sich bringt”.4).28) e que fará novas todas as coisas (cf. não se esgota no seu significado. A Palavra (Cristo) se revela. Algumas implicações antropológico-teológicas A antropologia teológica cristã mantém no centro de sua reflexão a concepção bíblica da criação do ser humano “à imagem e semelhança de Deus”. como promessa. verdade e vida (cf. A dimensão pneumatológica está na gênese da concepção protológica e escatológica. como “o Eu”. K.15-16). Jo 14. Belo Horizonte. p. por Ebner. o primogênito de toda a criação. pois. fechando sobre si. se entende como teologia da Palavra-Promessa de Deus que nos lança para frente. criatividade. À luz da fé cristã. 4.. 1976. e que. que “será tudo em todos” (1Cor 15. à medida que esperamos O espiritual no homem é entendido. através do qual e no qual ele (ser humano) existe. p. no céu e na terra. transformando-o em objeto. por exemplo. para o futuro. portanto. Número 119. A fé se diz como credibilidade na Palavra de Deus que.OK. Outro pressuposto que daí decorre é o de que o ser humano está sempre remetido a algo/alguém espiritual fora dele. 103-115. pois é nele que foram criadas todas as coisas. Ano 43. como caminho.” (Cl 1. Nas palavras de Karl Rahner: “o homem experimenta-se como sujeito e pessoa à medida que se torna consciente de si como produto do que lhe é radicalmente estranho”39. Daí se segue que o cristão se compreende como criatura chamada a conformar-se ou configurar-se com Cristo. autor da Palavra (não somente um ouvinte). alimenta nossa esperança para o futuro da ressurreição e da reconciliação de toda criação com Deus. a Palavra de Deus segue-se que é essa Palavra que aponta o caminho: “Nela [na Palavra] estava a vida e a vida era a luz dos homens” (Jo 1. Ap 21. nega a realidade constitutivamente pessoal (espiritual) do “Tu”. a sua afirmação no mundo criado objetivamente.. Herder: Freiburg / Basel / Wien. O encerramento do Eu sobre si mesmo (Icheinsamkeit) não é. Um pressuposto central da existência humana. Grundkurs des Glaubens: Einführung in den Begriff des Christentums.pmd 113 31/3/2011. mas resultado de um ato intelectivo sobre si. A criação surge da Palavra de Deus e o ser humano. Uma Teologia da Esperança. o ser humano plenamente realizado. colocado no centro dessa criação. 40: “Der Mensch erfährt sich nämlich gerade als subjekthafte Person. algo originário no Eu. surge do sopro divino vivificador e é portador do mesmo.5). É isso que torna o homem também criador.

por um lado. é abertura. Com efeito. mas recebestes o Espírito que. é sintonia espiritual com Deus. e que a filosofia ocidental da Modernidade (de Descartes a Hegel). assim. nos falaram os grandes místicos. De igual modo. vos torna filhos. Ferdinand Ebner chama nossa atenção para essa realidade espiritual. Essa atitude. 103-115. sem perder. deverá partir sempre da Palavra de Deus criadora-salvífico-redentora revelada. que deve dar “razões da nossa esperança” (1Pd 3. que esquece o próximo e a promessa e que. transforma todo não-eu em mero conceito. em distintas épocas e de diferentes modos. que Ebner denomina Icheinsamkeit (literalmente “solidão do Eu”). sua realização. descentralidade em relação a si mesmo. para que assim fosse mais fácil perceber sua ação silenciosa e sua presença discreta “entre nós”. a desobediência (no sentido próprio de não colocar-se à escuta da Palavra de Deus). nas nossas relações dialógicas. lidar com o sofrimento. Belo Horizonte. Contudo. do mundo e de Deus. por conseguinte. ou a uma relação com Deus marcada pela superficialidade. A enfermidade do espírito que conduz à morte é o encerramento sobre si. a “surdez” à palavra que me interpela e o consequente enrijecimento das relações interpessoais. por adoção. contudo. remete ou a uma fé titubeante que desacreditou a promessa. oração é diálogo. objeto de reflexão. Deus colocou muitas pessoas na vida de cada um de nós. 114 Perspectiva Teológica. expressa e deve expressar nossa situação existencial. dinamismo. cujo movimento em nós tem o sentido de “de-dentro-para-fora”. o distanciamento do Tu.pmd 114 31/3/2011. como o pronunciar a Palavra expirando o ar. por excelência. a Teologia Fundamental. Deste modo toda crise de esperança se assenta de algum modo no esquecimento da promessa que. não há esperança. por sua vez. vós não recebestes espírito de escravos. e que. resultando num individualismo egoísta. que esse caminho para Deus passa pelo amor e pelo serviço aos irmãos e irmãs. e não a repetição mecânica de uma fórmula que decoramos e a pronunciamos na forma de monólogo.15). a saber. Fora da relação com Deus não há promessa e. Acerca desse “caminho para a fonte”. Nas palavras do apóstolo Paulo: “De fato. 08:16 . sobre a ideia que o Eu faz de si mesmo. para recairdes no medo. p.15). traz consigo.OK. na fé. foi o reflexo do império do Eu que desabou por ter “edificado sobre a areia”. É o nosso ser-espiritual que se eleva em busca da “fonte” onde possa repousar e saciar a “sede”. o coração da espiritualidade. Ano 43. e no qual clamamos: Abbá Pai!” (Rm 8. eles têm algo em comum. Número 119. inevitavelmente. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . por outro lado. não encontrará no seu isolamento as forças de que precisa para superar os fracassos. a estreita relação desta com o próprio ser humano. portanto. confrontar-se com a própria limitação e com a morte. enfim. Mérito de Ebner e dos pensadores do diálogo foi o de nos alertar para o fato de que o pensamento. é o que a tradição do Gênesis entendeu e expressou como pecado. A dimensão pneumatológica é.confiantes.

é salutar para a fé. Nesse caso.Para o cultivo e aprofundamento da relação espiritual com Deus. Ano 43. abertura. recebeu o espírito. o mistério da vida de Jesus Cristo revela que o caminho de Deus para o homem e do homem para Deus passa pela humanidade e envolve o ser humano. pois. 08:16 115 . onde atualmente prepara doutorado na área de Teologia Fundamental em torno à temática bíblico-teológica: “Hoffnung und Verheißung”. ter-se tornado humano (Menschwerdung Gottes).pmd 115 31/3/2011. Tendo presente a revelação cristã. afetividade. da pneumatologia (Deus “fala”) à ontologia: “Então o Senhor Deus formou o ser humano com o pó do solo. diálogo. mas é também impulso. inclinando a cabeça. o mistério da Encarnação da Palavra de Deus revela o processo que vai da Palavra ao Ser. p. os conceitos centrais para uma teologia da graça. A vida humana é não somente racionalidade.com EBNER. Belo Horizonte. não parcial. não faz do ser humano um Deus (Gottwerdung des Menschen)40 . p. Enfim. mas totalmente. MG). ou seja. mas criamos um deus à nossa imagem e semelhança. bem como para vida de toda a Igreja. Perspectiva Teológica. enfim. a vida é o espelho do mistério que subjaz à sua origem. mas antes aponta o caminho para Deus. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . criatividade.7). graduado em Filosofia (2003) e Teologia (2007) pela FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Endereço Endereço: 40 Sillgasse 6 6020 Innsbruck – ÁUSTRIA e-mail: luizsureki@hotmail. por iniciativa do próprio Deus. pois se trata da vida do homem e da mulher concretos. soprou-lhe nas narinas o sopro da vida. através da sua Palavra dirigida a nós no e pelo Filho. Deste modo. O mistério da ressurreição revela o caminho inverso: “E. em Jesus Cristo. dinamicidade. Belo Horizonte. não nos percebemos como seres criados à imagem e semelhança de Deus. e Mestre em Teologia (2009) pela Leopold-Franz Universität Innsbruck (Áustria). Luiz Carlos Sureki SJ é sacerdote jesuíta. sempre é importante levantarmos a questão se não estamos nos relacionado com a ideia que fazemos de Deus. A pneumatologia oferece. 103-115.OK.30). e ele tornou-se um ser vivente” (Gn 2. entregou o espírito” (Jo 19. Número 119. Schriften II. não esquecermos que o fato de Deus. 443. ou seja.

a saber.OK. 117-134. Ele confessa que o Apocalipse de S. Para uma leitura atualizada dos textos bíblicos apocalípticos da Escritura e Tradição. E no horizonte amplo está a regula fidei como princípio hermenêutico.Recensões HERKERT. PETER STRASSER trata da morte. Número 119. Os coordenadores do conjunto de artigos atuam no campo da teologia. Na Perspectiva Teológica. Cada tema foi abordado por um autor diferente. Assume a opção básica de Rahner de uma escatologia cristologicamente orientada. Thomas / REMENYI. 08:16 117 . 2009. Ano 43. mas de expressões de experiências humanas e de situações políticas de perseguição. usando a expressão paulina. 224 pp. sobretudo para entender as dramáticas imagens desse gênero literário.5 X 15 cm. João lhe é um “espinho na carne”. Essa compreensão cristológica produz uma desmitologização das fantasias apocalípticas próprias de certos momentos difíceis. Essa realidade afeta toda a criação. também na Alemanha. cristologicamente fundada. O título do livro anuncia já a preocupação escatológica com as Últimas Realidades em nova perspectiva.): Zu den letzten Dingen: Neue Perspektiven der Eschatologie. REMENYI provê a introdução. Ele segue a distinção rahneriana entre a escatologia como tal e o mundo das imagens apocalípticas. Não se trata de nenhuma reportagem antecipada do fim. ROMAN A. Darmstadt: WBG. REMENYI colabora no Instituto de Teologia Católica em Aachen. Guarda reserva em face dos cenários apocalípticos. Ela não só nos estimula à esperança. ISBN 978-3-534-22150-9. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Mathias (org.. mas também levanta a mais pesada questão sobre a nossa finitude e condição de mortais. Enfrenta tal desafio e busca uma interpretação desses textos apocalípticos. a próxima vinda do Reino de Deus na vida. 22. A escatologia levanta questões sobre as promessas do presente a caminho da sua realização no futuro de Deus. morte e ressurreição de Jesus Cristo. Belo Horizonte. limite de nossa existência. como afirmação universal salvífica de Deus no Espírito Santo. O ponto de leitura da escatologia deve ser uma teologia da esperança. Na reflexão seguinte.pmd 117 31/3/2011. Interpreta-os a partir do cerne do evangelho do Reino de Deus. Recorre às regras fundamentais da atual exegese para interpretar os textos apocalípticos. HERKERT dirige a Academia Católica da Arquidiocese de Friburgo na Alemanha. p. SIEBENROCK apresenta teses sobre a hermenêutica das imagens e afirmações escatológicas numa época da apocalíptica secular.

Ele conclui que a fé na ressurreição só é existencialmente crível. confessa Habermas que a perda da esperança na ressurreição deixa um perceptível vazio. Não cabe nenhum salto irracional nem uma universalização racional da ressurreição. mas vivemos em relação. mas um filósofo do direito.expressão de E. a negação do problema da morte – morte é morte – e os ingênuos mitos religiosos. 08:16 .pmd 118 31/3/2011. O poder natural do amor na aceitação incondicional do amado já transcende o limiar da morte. não sendo teólogo. A esperança na ressurreição se vincula com a fé do amor que nos está a dizer: tu deves existir. Ela não é um acontecimento da vida. Buscam-se consolos em sugestões artificiais de vida ou se recorre à reencarnação ou à fé no Nirvana. desde fonte abissal. Mostra os impasses das posições que defendem a perda pessoal no abismo do ser. Para nossa morte não existe nenhuma apropriada imagem e a construção de uma identidade depois dela padece de precariedade. Deus mostrou no Jesus crucificado um amor que o chamou da morte à vida. tem razão para esperar. 117-134. Não somos uma mônada fechada. p. Teve opositores em todas as épocas desde o pagão Celso aos mestres da suspeita e aos biologistas atuais. mas se expande como promessa de que não voltaremos ao nada. O A. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Não contradiz. Não existe metáfora para a morte. Quem experimentou esse amor que vence a morte e a quem tal amor foi testemunhado. Não se experimenta a morte. Ano 43.OK. faz belíssima fenomenologia do amor para dar o salto dele para a ressurreição. O ponto central consiste em mostrar como a ressurreição é fé no amor que se visibiliza na ressurreição de Jesus. Abre-se o caminho de mostrar sua eficácia performativa. O acontecimento da ressurreição como esperança cristã não fica preso ao grupo do Crucificado. O autor. A teologia corre o risco de passar muito rápido da morte para a manhã da ressurreição. No entanto. MARTIN 118 Perspectiva Teológica. O morto-ausente não existe em lugar nenhum deste mundo. A ressurreição nunca foi um dado evidente e plausível. Belo Horizonte. Isso implica promessa de superação do limite da morte. Tal dimensão intersubjetiva tem valência escatológica. Para alguns não passa de uma projeção subjetiva e ilusória do desejo. O A. pergunta-se sobre que há de novo a respeito da morte. a descreve como ausência radical. Estuda a ressurreição pessoal na perspectiva teológica. antes realiza perspectiva da razão e da pessoa humana. A morte como fracasso pessoal e sua banalização implica necessária desumanização e uma dissolução do cerne humano da existência humana. se fazemos experiências pessoais nas quais a incondicionabilidade da vida e da dignidade do outro aparece. na ressurreição de Jesus se encontra um fundamento de esperança. Com efeito. como horizonte de esperança. Bloch nela vem à tona. a mais “dura contra-utopia”. FRANZ GRUBER lança a tese de que só o amor pode crer na ressurreição. Número 119.

Verdade tem dois sentidos. Assim o purgatório não se pensa como uma punição para depois da morte ou como lugar de purificação das cargas terrestres. O julgamento de Jesus é um processo dinâmico. Proporciona-nos a possibilidade de confessar a própria culpa sem medo da condenação definitiva e assim relacionar-nos com o lado culpado de nossa vida sem desespero. as vítimas com os carrascos. Ele traumatizou a muitos através das obras de pintores. É uma esperança contra toda esperança. já que o juiz não é nenhum outro a não ser Jesus Cristo. O purgatório. Em outro sentido. ensombrecido. Momento da veracidade da vida.pmd 119 31/3/2011. Perspectiva Teológica. sim. Ele tematiza o término do tempo por obra de Cristo e nega o mito moderno de uma história que se prolongaria sem limite. No final estará a memoria Dei. Desvenda o que está escondido. Psicólogos estigmatizam as “neuroses eclesiogênicas”. 117-134. O purgatório garante certa espécie de segurança de negociação e de direito em face das Últimas Coisas. A mensagem do juízo é libertadora. O juiz se opõe a nossa culpa para conduzir-nos ao arrependimento e à verdade. entre céu e inferno. como terceira grandeza. Ano 43. A verdade que nos julga é a mesma que veio para salvar-nos. sem violar a justiça em relação às vítimas. Torna-se possível por ajuda de Deus sermos purificados em nós. que. o crucificado ressuscitado. Continua a existir um dualismo escatológico ou acontece redenção total? O inferno se esvaziaria pela força do amor de Deus? Ou contamos com a seriedade da liberdade humana e da fé. oferece-nos certo direito de segurança em face de Deus. não. que tudo guarda. p. por sua vez. com os outros e diante de Deus. misericórdia. J. JAN-HEINER RÜCK aborda o tema do juízo. coloca em consideração um inferno de condenados? Há uma resposta. que é Juiz e Salvador do mundo. Está em função da conversão do pecador e não de sua condenação. 08:16 119 . aberto de chegar à verdade: consigo. todos se reconciliam com todos. O juízo do mundo consiste na dramática confrontação com Cristo. Reflete nova consciência de que a condenação eterna por pecados veniais não se coaduna com a justiça de Deus. Belo Horizonte. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . que defende a apocatástase em sentido novo: Ensinamento da redenção total. mas como uma certeza da fé de que a misericórdia de Deus se mostra justiça e esta. Seguiramse naturalmente reações de rejeição de tal visão atemorizante até o extremo da banalização da imagem de Deus. Número 119. Não se trata de um evento de nosso eixo histórico. Permanece aberta a questão se. a verdade nega o esquecido. reprimido. em face do céu dos bemaventurados. chamada terceiro caminho. que foi ao encalço dos perdidos até o extremo para salvá-los. o encara na perspectiva de um processo de vir à verdade. na vida e com os outros irmãos. o Crucificado ressuscitado. O A. Permanece escatologicamente a diferença entre vítimas e algozes. trazendo-o à luz. Mas esperança. no fim. de uma pastoral do medo e de uma catequese moralista.DÜRNBERGER com o termo purgatório se conecta com a esperança.OK.

Ele seria uma perpetuação modificada da realidade do pecado. João Batista Libanio SJ 120 Perspectiva Teológica. Ela critica o dualismo escatológico tradicional. O esforço dos autores converge para superar a leitura tradicional que reflete uma imagem pré-científica do mundo e foi usada como força atemorizante e moralizante. Número 119. redenção do demônio. obscurecendo a imagem salvífica de Deus.OK. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Belo Horizonte. 08:16 .CHRISTINE JANOWSKI opta por ela com bons fundamentos e decididamente. Uma ideia unitária da relação de corpo e alma permite pensar como modelo unitário escatológico o mundo orgânico e inorgânico. Que se entende pela afirmação do apocalipse de João sobre um novo céu e uma nova terra? Como entender essas imagens apocalípticas no contexto cultural e científico de hoje. Excluir o mundo da ressurreição parece afetar o próprio conceito de Deus. p. Esse eterno existir do pecado. Trata-se aqui de uma longa e sofisticada elaboração teórica. possibilidade de uma segunda queda do pecado com a consequente nivelação da unicidade da história com o eterno retorno) e não à esperança da redenção total. A esperança para todo o cosmos com reflexões sobre a escatologia cósmica fecha o livro. as colocações feitas num Simpósio da Academia Católica da Arquidiocese de Friburgo em novembro de 2007. seria atribuído a Deus. 117-134. em última análise. Ao estudar a condenação da apocatástase. conclui que ela se deve a implicações problemáticas do modelo de visão da época (preexistência da alma.pmd 120 31/3/2011. MATHIAS REMENYI vê o evento pascal além da escatologia pessoal e histórica para atingir o cosmos. estão. Está em questão o pressuposto criatural da também plenificação da criação material não pessoal. Ano 43. A apocatástase que ela defende se orienta para o desaparecimento da realidade e possibilidade do pecado e evita as implicações problemáticas. O mundo criado tem certo grau de capacidade de resposta. em parte. Há reflexões extremamente sofisticadas que supõem bom nível teológico de intelecção. Fazem-se reflexões sobre a relação entre escatologia pessoal e cósmica. sem cair numa imagem de mundo pré-científica? Está em jogo teologicamente a relevância da ressurreição de Jesus Cristo como primícias da nova criação e a fidelidade de Deus ao mundo criado por ele. não equivalente à liberdade humana. A ressurreição de Jesus abriga a promessa de salvação para toda a criação. Por trás dessa publicação. velha e nova criação. Os temas escatológicos fascinam.

Os seres humanos possuem um alvo. membro da Real Academia Nacional de Medicina. suas grandes linhas de investigação. o melhor do outro. aquilo que é a meta da bioética. em oposição ao mal. mas o aristón.pmd 121 31/3/2011. a antropologia médica e os fundamentos da ciência empírica moderna. uma série de escritos. com o objetivo de configurar uma bioética que sirva de apoio a suas reflexões sobre os fundamentos da mesma. com regularidade. Exposições breves e iluminadoras de problemas cruciais na teoria e na prática da medicina. Diretor do Instituto de Bioética da Fundação de Ciências da Saúde. É herdeiro de uma longa tradição de médicos humanistas. Medicina. 24 X 17 cm. amigo de Ignacio Ellacuría. kakós. No ano em que se comemoram os 40 anos da bioética.OK.. Psicologia Clínica e Psiquiatria. p. Titular da cátedra de História da Medicina da Universidade Complutense de Madri.GRACIA. Ano 43. de Aristóteles). ou melhor. A análise dos valores éticos. Sobre o autor: Diego Gracia Guillén é espanhol. discípulo de Xavier Zubiri e Laín Entralgo. Este livro tem como título em espanhol Como arqueros al blanco (a expressão é tomada da Ética a Nicômaco. Desde a sua obra monumental Fundamentos de bioética (1989) e o manual Procedimientos de decisión en ética clínica (1991). o fenômeno da enfermidade e os cuidados paliativos. 2010. Número 119. Este livro recolhe. de forma sistemática. a bioética e o mistério da morte. a ética não é a busca do bom. mas com duas características próprias. 08:16 121 . presentes nos fatos clínicos. formado em Filosofia. Como médico que Perspectiva Teológica. Segunda: examina os novos desafios da medicina junto a questões inéditas de sua própria investigação. Diego Gracia vem publicando. os princípios filosóficos e a história dos conceitos morais. mas do melhor! O melhor de si. o ótimo. Belo Horizonte. chega ao Brasil uma obra de um autor de referência mundial. 566 pp. a busca do bom. filosóficas e antropológicas mais recentes. A organização da obra facilita sua compreensão. Como arqueiros. ISBN 978-85-15-03743-8. Primeira: retoma alguns temas previamente tratados e os modifica e aprofunda de acordo com as investigações científicas. Mas o fim último da vida não é o agathós. encontrou na bioética uma ponte para superar o abismo entre o progresso tecnológico-científico e a reflexão ético-antropológica. 117-134. são de um rigor acadêmico digno de nota. todos de alto nível. a metafísica do humano. São Paulo: Centro Universitário São Camilo / Loyola. superlativo de bom. agathós. em que investiga as teorias éticas e os dilemas legais. Ou seja. sejam eles individuais ou sociais. Tradução do original espanhol de 2004 por Carlos Alberto Bárbaro. Diego: Pensar a bioética: metas e desafios. A plenitude da vida: eudaimonía. onde ocupa a cadeira 41 (reservada à bioética). Pensar a bioética: metas e desafios representa a continuidade desta linha de pensamento. Dedicado a pensar o lado mais humano da medicina. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . temos que mirar o centro do alvo.

mas acessível. eutanásia. são. o ser humano é sobremaneira complexo. em última análise. Antes de abordar as questões éticas da biomedicina atual. esta obra põe o leitor diante de uma forma de fazer bioética.OK. fundamentos da bioética. No desenvolvimento da maioria de suas reflexões vai dando a conhecer as diferentes etapas pelas quais passaram cada problema. são os principais beneficiados de sua reflexão rigorosa. p. determinados procedimentos em lugar de outros. e está organizado da seguinte forma: vinte capítulos distribuídos em cinco partes: transições da medicina na passagem do século XIX ao XX. Mas todo seu trabalho está regido pelas palavras de Ortega y Gasset: “história como sistema”. ética do início e do final da vida. Gracia procura manter-se atualizado sobre os problemas concretos do cotidiano de médicos. transplantes. cuidados paliativos). é mais importante oferecer ao leitor brasileiro uma chave de leitura para situar todo o pensamento deste autor. como daria a entender. que. Ou seja. células embrionárias. ética das profissões da saúde. agentes sanitários e demais profissionais da área de saúde. Ano 43. Partindo de uma visão geral da evolução da medicina e de suas perspectivas para o século XXI. o fio condutor de todos os seus escritos. O autor tem consciência de que a bioética se apoia em 122 Perspectiva Teológica. a compreensão da enfermidade e as concepções científicas que determinam as escolhas e as rejeições implícitas na relação médico-paciente.nunca deixou de ser. bioética clínica. o autor passa em revista a fundamentação da bioética. a saber: Diego Gracia fez da história da medicina a base de apoio de toda sua obra. Evidentemente. 117-134. Ora. Mas sem descartar a metafísica. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . os conceitos tradicionais e a profissão sanitária. por essência. enfermeiros.pmd 122 31/3/2011. drogas) e debates sobre o início e o fim da vida (sexualidade. Em vez de apresentar em poucas palavras o desenvolvimento deste livro em particular. O livro aborda três grandes áreas: medicina. questões de ética clínica (confidencialidade. nas atuais circunstâncias. interpela criticamente os racionalistas europeus. 08:16 . também. Esta tarefa supõe um esforço hercúleo de uma reconstrução histórica que esteja unida a um pensamento teórico sistematizador (“a ética é assunto extremamente complexo que exige muito tempo e enormes esforços”). de modo que resulta compreensível as razões pelas quais se elegem. mas também Heidegger e Gadamer dissiparam qualquer dúvida de que todo o propriamente humano é. teórico-históricas. enfermidades crônicas. o pragmatismo e o relativismo da cultura atual. Não só Ortega y Gasset. Belo Horizonte. histórico. Não se trata de mais uma sistematização teórico-histórica da bioética. Gracia consulta os gregos clássicos. e entabula um diálogo franco com o niilismo. Uma bioética inspirada pela historicidade dos dilemas médicos. teoria da bioética e deontologia sanitária. ou seja. Número 119.

portanto. Hegel. Iluminador tanto para as ciências da saúde como para os teóricos da medicina. Escrito contando sempre com o interlocutor. E uma decepção para aqueles que se dizem “especialistas” em bioética. Ano 43. quando necessário. Habermas. que não admite distrações. Número 119.OK. mas não os aceita como normas imperativas e absolutas de validade universal. Elas são apenas um dos muitos elementos a tomar em conta no complexo caminho dos procedimentos da bioética.pilares metafísicos que calam muito mais profundamente que a ciência clínica. Kant. ou que tal é a sua missão” (GS 43). Mas. para citar alguns. dedica sua reflexão aos problemas fundamentais do ser humano. faz pensar sobre a condição moral da existência. que suas propostas são apenas isso: hipóteses racionais que devem ser confrontadas com os fatos. a outros pensadores: Hume. Livro denso. como Zubiri. não há como não concluir que não existem verdades absolutas em bioética. Aristóteles. 08:16 123 . Além disso. p. e que devem ser acatadas em qualquer situação. 117-134. Não obstante. aqueles encontrados em manuais de bioética. Mas também esta é uma decisão que deve ser justificada com argumentos da razão. O autor não pretende chegar a procedimentos estandardizados. Ao se chegar ao final da obra. E. Diego Gracia se apoia essencialmente em Xavier Zubiri e sua filosofia da realidade. Leibniz. ou ainda as reivindicações de “autonomia”. esperem os leigos a luz e força espiritual. Explica como entende cada situação bioética concreta conforme cada postulado específico de Zubiri. mais grave ainda é o fato de que seja quase desconhecida fora da Espanha. Cabe ao leitor apropriar-se das conclusões de Zubiri ou rejeitá-las. Platão. Diego Gracia tem a preocupação de esclarecer. o que acontece se o leitor não conhece o pensamento de Xavier Zubiri? Este dado pode se tornar um problema. ou a experiência profissional. É oportuno recordar aqui as palavras do Concilio Vaticano II: “Dos sacerdotes. Um alívio para a teologia moral e para os comitês de Bioética espalhados por todo o Brasil. a filosofia de Zubiri é tão discutível quanto as outras. Mas não pensem que os seus pastores estão sempre de tal modo preparados que tenham uma solução pronta para qualquer questão. mesmo grave. Estimulante a ponto de levar ao questionamento permanente das próprias convicções. rico em questionamentos muito oportunos. Perspectiva Teológica. Gracia leva em consideração as declarações e os códigos profissionais. logo de saída. mas em linguagem técnica sem concessões. ou enumerar declarações de princípio frente às situações que desafiam os profissionais da saúde. mas recorre. também está sujeita à rejeição ou aceitação nos círculos filosóficos e éticos. tão presentes no individualismo contemporâneo. Por isso. sob pena de ser submetido a constrangimento ou taxado de conservador e reacionário. e.pmd 123 31/3/2011. que surja. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . exigente com o leitor. Husserl. Rorty. Scheler. sem dúvida. Belo Horizonte.

Com a bioética não é diferente. em uma sociedade civil caracterizada pelo pluralismo religioso. São Paulo: Paulus. A linguagem das suas obras caracteriza-se pela profundidade. seu tempo é agora. 08:16 . diante da complexidade do momento atual. 117-134. Élio Estanislau Gasda SJ LIBANIO.5 cm. É paternalismo autoritário pretender impor determinadas normas em nome da religião. Temas da atualidade.pmd 124 31/3/2011. como propõe este livro. Atitude inconcebível em Estados laicos das sociedades democráticas da era da biotecnologia. 21 X 13. eutanásia. permite a reflexão e favorece ao leitor alçar voos. Número 119. Esta obra vem preencher uma lacuna no estudo da bioética no Brasil. Libanio anuncia a fé humana e teologal como estradas para percorrer tais “caminhos da existência”. escreveu 69 livros discorrendo sobre os mais diferentes assuntos. Fé humana para ele significa “confiança no existir humano” e Fé teologal como “dom de Deus e acolhida do ser humano”. Leitura obrigatória para todos os envolvidos nas acaloradas discussões sobre estatuto do embrião. células-tronco. ISBN 978-85-349-3129-8. O autor. ousadia e simplicidade no modo de tratar o tema. homossexualidade etc. 2009. Ano 43. Pensar a bioética: metas e desafios é um excelente ponto de partida para pensar a tarefa da ética teológica nos dias atuais. João Batista Libanio consagrou-se no elenco dos principais teólogos da libertação do Brasil e da América Latina. Na introdução. Novas traduções dos escritos deste autor e outras de mesmo nível em bioética serão bem-vindas. João Batista: Caminhos de existência. vantagens. Os 40 anos representam a entrada na maturidade. Dialogar com seriedade científica e mentalidade aberta é o melhor caminho a seguir. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 .OK. A escolha de um livro tem ao menos duas motivações: o tema e o autor. A leitura torna-se agradável. professor emérito da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). A obra Caminhos de existência congrega a ambas. Parabéns aos editores de tão oportuna publicação. Jesuíta. interroga quais diferentes caminhos se apresentam para a existência humana a fim de que o ser humano realize sua vocação e encontre a felicidade.. Belo Horizonte. Tal grupo integra o programa nacional de grupos de pesquisa do CNPq. Todos iniciam com breve fenomenologia seguida de análise crítica.ideólogos de certos ambientes eclesiais. Recentemente publicou Em busca da lucidez: o fiel da balança e Juventude. p. Caminhos de existência resulta do trabalho do grupo de pesquisa Fé e Contemporaneidade realizado na FAJE. Col. 188 pp. O leitor encontrará oito caminhos existenciais. segundo Diego Gracia. Esta propõe oferta. 124 Perspectiva Teológica.

A negação de Deus torna-se necessária para a Perspectiva Teológica. A devoção aos santos e a Nossa Senhora cumpre papel relevante. Reconhecem a fé anônima naqueles que não creem. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . predomina neste caminho. cai-se no subjetivismo. Com a ascensão da cultura pós-moderna. A existência precede a essência. a subjetividade e a autonomia. Valorizam-se na família aspectos como a autoridade paterna e a religiosidade materna. Nas vias apresentadas. 117-134. ao acentuar o existencial. Em relação às instituições autoritárias. terrestres e a realização pessoal”. dificuldades e o futuro de tal caminho. O imaginário religioso católico. a tranquilidade e a objetividade confundidos com comunhão. A análise crítica aponta tal caminho válido para ateus e cristãos. A análise crítica de Libanio indica como vantagem de tal caminho a segurança.problemas. Privilegia-se a dimensão existencial do ser humano e opta-se pela vida de Jesus. O risco aparece quando. se aproximem dele. embora. Belo Horizonte. Mostra o valor da imanência do humanismo sem perder a transcendência nele contido. mas como sugestão para cada leitor “repensar a si mesmo” e avançar na história com maior lucidez. em sentido material. Perde-se a dimensão da alteridade e pouco se valoriza o social. nesse caminho. Dinâmicas finalizam cada capítulo e estas incluem perguntas para reflexão pessoal ou grupal e breve bibliografia sugestiva para aprofundar o caminho existencial. A tradição cede lugar à decisão autônoma. Privilegia-se a consciência em relação às normas.OK. Supera-se a concepção teística de Deus.pmd 125 31/3/2011. p. O segundo capítulo apresenta a via cristã da secularização existencial em busca de um humanismo. Número 119. Ano 43. A catequese e o ensinamento do magistério complementam a formação religiosa tradicional. O primeiro capítulo trata da religiosidade tradicional católica. A via ateia militante e sapiencial como realização humana constitui-se como tema do terceiro capítulo. O futuro de tal caminho tende a desaparecer. Não admitem o estereótipo de secularismo. A religiosidade tradicional católica oferece a promessa de “um sentido último. Revela-se a busca de autenticidade e veracidade. Libanio vê como limite nesse caminho restrições à liberdade e à autonomia do sujeito. Apresenta-se tal caminho na esteira da virada hermenêutica do sujeito em que se valorizam a razão científica. tal caminho tende ao crescimento e a maior adesão. Ela apresenta uma primeira via de sentido para a vida de fé. O catolicismo tridentino reforçou ainda mais a religiosidade popular tradicional. Libanio ainda afirma que. encontram-se itinerários distintos não como oferta de mercado. “valorizam-se as realidades humanas. 08:16 125 . Deus que se fez gente. surgem crises. Apela-se para mitos sobre o futuro de salvação e condenação eterna a fim de manter a tranquilidade da consciência dos fiéis. Os cristãos optam por tal via certos de que realizam a fé cristã. transmitido há séculos pela Igreja. Predomina a submissão a deliberações normativas de fora do sujeito sem questionamentos profundos. final e global para a vida na terra e além dela”. O clero assume a função de orientar os fiéis com autoridade inquestionada. embora resquícios surjam resistentes em novas estradas.

A efervescência religiosa atual corresponde a “um colorido pagão natural”. a religiosidade moderna e pós-moderna 126 Perspectiva Teológica. O futuro desse caminho liga-se à cultura do consumismo. 08:16 . pois não reconhece tal necessidade. Aparecem duas tendências: o ateísmo aguerrido e o sapiencial. O quinto capítulo trata da via da religiosidade moderna e pós-moderna carismática. passando pela experiência do convertido até o neopaganismo. das injustiças sociais e do crescimento da pobreza. A fé cristã e eclesial manifesta-se na caminhada das CEBs e das pastorais populares. Caracteriza-se tal caminho pela desconstrução de práticas religiosas alienantes e explicita-se a opção pelos pobres em perspectiva da sua emancipação. p. Apenas apresenta a sabedoria humana que conduz naturalmente à supressão de qualquer crença na existência divina. expressão livre da religiosidade e negação da institucionalidade religiosa. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Libanio. “Propugna-se por uma terceira revolução da subjetividade para além da pós-modernidade em que o aspecto relacional seja o fundamental e não a pura interioridade das consciências e liberdades”. Somam-se o compromisso ético e o engajamento sociopolítico. Belo Horizonte. mas explicita em tal busca o reaparecimento do paganismo sob diversas formas. A desvantagem está no ambiente pós-moderno que afasta os cristãos desse compromisso. ao ver o futuro de tal caminho. Autonomia do sujeito. constrói-se novo caminho. O ateísmo sapiencial não combate a Deus. Libanio reconhece o valor da busca religiosa após a crise do socialismo. Proclama-se o fim da história e nega-se qualquer utopia.OK. Ano 43. A partir daí. Ampliam-se perguntas sem respostas diante do sofrimento humano. A oferta desse caminho aponta respostas imediatas ao momento atual da cultura pós-moderna. Cristãos que optam por tal caminho articulam-se em movimentos sociais na luta contra o sistema capitalista e na construção de nova sociedade. Como vantagem de tal caminho revela-se o “sentido altruísta que habita o coração humano”.pmd 126 31/3/2011. Nutre-se da teologia da libertação. revela o clima de tal via. Como desvantagem.felicidade humana. Revela-se o caráter libertador da fé. A exemplo da vida de Jesus. Eis a ditadura do presentismo. combate-se a crença em Deus. os seguidores dessa via conduzem seus passos envolvidos de compaixão pelo sofrimento e pelo grito dos empobrecidos. Número 119. 117-134. O silêncio do presentismo de tal caminho não oferece possibilidades para tais problemas. sublinha que não há nada que aponte o reavivamento dessa via manifestada com entusiasmo em décadas anteriores. Haverá futuro para uma sociedade neoliberal pautada nesse paradigma? O compromisso social cristão aparece como caminho de existência desenvolvido no quarto capítulo. Apresenta como vantagens de tal caminho a responsabilidade intransferível dos atos humanos sem recorrer a qualquer transcendência e a libertação das culpas impostas pelas religiões através da moral negativa de um Deus punitivo. Libanio recorre a alguns autores para falar de uma espiritualidade ateia. O autor lança como dificuldade da via ateia o terrível anúncio da morte. No primeiro. A tese central do capítulo baseia-se na teoria de Denis Lecompte.

O egoísmo torna-se um inferno. pois esta não suporta o cinismo globalizado. Revelam-se nesse caminho extremo o hedonismo.carismática caminha em lado oposto à via anterior. Enquanto há prazer. Desenvolve-se em tal via a perversão da transcendência. Surgem dificuldades nesse caminho. Leva o ser humano ao afastamento do seu profundo desejo de convivência com os outros. Guillebaud fala da tirania do prazer. Libanio explicita como tal via desmascara a cultura atual. Prosseguir em tal caminho representa a morte da cultura e da humanidade. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . surge novo caminho de existência. consequentemente ampliam-se as patologias sexuais. revolucionaram os meios de produção. da convivialidade e do compromisso social. Caminho da subjetividade ao extremo. do executivo. mas na vulgaridade de saciar a qualquer custo os próprios instintos. Belo Horizonte. Como futuro. constata-se que as novas tecnologias da informação revolucionaram a vida em vários aspectos. Na análise crítica de Libanio. face a face. O desejo se satisfaz não apenas na imanência da sabedoria do amor. Para satisfazer o gozo. 117-134. O futuro promete o esgotamento de tal via. O cinismo caracteriza a via do “tudo vale”. pelas relações virtuais a partir das novas tecnologias da comunicação. Busca-se consolo em práticas espiritualistas e esconde-se o caráter ético e solidário do evangelho. Tudo se reduz ao virtual. Depende unicamente da decisão pessoal. o beijo na face. p. do homem da instituição (clero. Transformaram a economia mundial. basta “deletar”. tal via encontra força na atualidade devido às características próximas da condição pós-moderna próprias do tempo presente. yuppie).OK. J. O abraço apertado. Acende-se novo tipo de liberdade. A vida centra-se na Perspectiva Teológica. a radicalização do presentismo e a explosão da satisfação imediata do prazer. permanece-se conectado. até a perversidade da transcendência. Número 119. Numa análise crítica. Assombra-nos a irresponsabilidade diante da vida. permitem superar os excessos da subjetividade e contribuem para democratizar os meios de comunicação. Libanio aponta um futuro tenebroso. O aspecto principal sintetiza-se “no equilíbrio da tensão entre a vida dos sentidos e o desejo ilimitado”. Ao menor sinal de infelicidade. O último caminho proposto pelo autor trata da via do profissional. Em escala crescente. 08:16 127 . da internet e das redes de relações virtuais. Ajudanos a compreender melhor a cultura pós-moderna com seus desvios decadentes e doentios. Explodem páginas virtuais com incentivo à pornografia. mostram-se promissoras no campo intelectual e profissional. Apresenta-se no sexto capítulo a via do “tudo vale”. tudo vale. A via virtual aparece como tendência predominante. o cinismo representa a negação da emersão da consciência. Acentua-se o imperativo da realização dos sentidos. hackers invadem a intimidade dos navegadores.pmd 127 31/3/2011. contas bancárias encontram riscos de privacidade. Substituem-se as relações pessoais. o prazer imediato e a felicidade banal. a boa conversa olho a olho cedem espaço para os encantos da telefonia celular. A trajetória espiritual prometida revela-se anticristã e neopagã. Ano 43. Na concepção darwiniana.

Natalio: Septuaginta: la biblia griega de judíos y cristianos. Introducción a las versiones griegas de la Biblia (Madri. p. 12. a glória e o poder dependem da realização profissional. bem como uma sinopse dos livros presentes na Bíblia Hebraica e na Septuaginta. Pode alcançar duplo destino. 117-134. Biblioteca de Estudios Bíblicos Minor. Aqueles que optam por esse caminho existencial tendem a alcançar resultados econômicos altos e a sentir o vazio das relações próximas e da convivência pessoal. apresenta a origem do nome “Septuaginta” na Antiguidade e o seu uso hoje. A bibliografia geral é complementada com indicações bibliográficas específicas adicionadas ao final de cada capítulo.. muito breve. A qualificação e a especialização garantem sucesso e sensação de segurança. é doutor em filologia clássica e licenciado em Filologia bíblica trilíngue pela Universidade Complutense (Madri). É editor do livro dos Juízes no projeto internacional Biblia Hebraica Quinta (Stuttgart). 157 pp. O segundo capí128 Perspectiva Teológica. É responsável pelo grupo de investigação de “Filologia e Crítica Textual Bíblicas” do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) de Madri. a “extrema profissionalização” ou a “reação humanizante”. O A. A vocação para determinado trabalho torna-se secundária. Publicou. como colaborador. orientadores espirituais e leitores interessados em livros de espiritualidade. 1998).profissão. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Fernández Tejero. A obra está dividida em 10 capítulos. Salamanca: Sígueme. espírito crítico e aponta perspectivas. Sobressaem-se na profissão os melhores. 2008. o dinheiro. Livro bem fundamentado. O primeiro capítulo. à tradução da Septuaginta ao espanhol. 19 X 12 cm. Biblia y Humanismo (com R. a especialização e o reconhecimento social através do acúmulo dos títulos. Madri. precedidos por um prólogo e uma bibliografia geral e sucedidos por um epílogo. ISBN 978-84-301-1689-8. O futuro de tal caminho acena-se duvidoso. Examinam-se com atenção o prestígio e a capacidade de liderança.OK. Consegue apresentar questões existenciais com propriedade. Daniel Higino Lopes de Menezes FERNÁNDEZ MARCOS. entre outras obras. “paga-se alto preço existencial pelo sucesso”.pmd 128 31/3/2011. El Texto Antioqueno de la Biblia Griega I-III (com J. Priorizam-se o estudo. Ano 43. Excelente obra para leitura pessoal ou grupal. Ocorre verdadeira jornada de sucesso e frustração. A família. Busto Saiz. Por outro lado. Número 119. Col. Belo Horizonte. Recomendado para lideranças pastorais. Madri 1997). Esbanja possibilidades para a reflexão. R. o sucesso. 19891996). Dedica-se ainda. 08:16 . Tal caminho apresenta-se profícuo na sociedade atual diante da lógica da concorrência.

II. início do séc. A partir do séc. a tradução “literal” de Áquila e a de Teodocião. Existem ainda outras versões anônimas (as assim chamadas Quinta. 3) a introdução de abreviaturas para os nomina sacra.OK. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . a tradução oral e ad hoc dos textos hebraicos para o aramaico na liturgia. O terceiro capítulo trata da cronologia e do processo longo e complexo da tradução dos vários livros que comporão o que depois será chamado de “Septuaginta”. O cap. e ainda a de Símaco (final do séc. anterior à versão de Luciano.! No quarto capítulo. IV. Ano 43. Outra hipótese sugere que a Septuaginta surgiu da necessidade de os judeus apresentarem sua própria legislação ao rei Ptolomeu II a fim de que recebesse reconhecimento oficial. inicia seu trabalho de tradução da Bíblia. Há duas hipóteses ligadas ao uso litúrgico nas sinagogas. 08:16 129 . cf. o A. novas versões da Septuaginta. apresenta como os textos traduzidos vão sendo recolhidos e revisados. Septima). de modo que. Quando São Jerônimo. II. a Igreja é quem garantirá a transmissão da bíblia grega. que pleiteava o retorno ao uso das letras hebraicas antigas na transcrição do nome sagrado. analisa as várias hipóteses sobre a razão que levou os judeus a traduzirem seus escritos para o grego. p. II. ou seja. Sexta. podendo a tradução dos últimos livros (Cântico dos Cânticos. surgem. contudo. no ambiente do judaísmo. propõe que o trabalho deve ter durado por volta de quatro séculos. no séc. depara-se com três versões da bíblia grega (a trifaria Perspectiva Teológica. conhecidas apenas através de alguns fragmentos que chegaram até nós.pmd 129 31/3/2011. o empenho em “dizer em grego as coisas judaicas” (p. no final do séc. o A. A segunda. Quanto à data da conclusão da tradução. Belo Horizonte.C. no judaísmo. Número 119. o que levou a novas traduções com pretensão de maior fidelidade ao texto hebraico. 5 apresenta o percurso da Septuaginta no ambiente da Igreja nascente. bem cedo. sem que necessariamente se lesse o texto hebraico.tulo recolhe as várias “lendas” e referências históricas ao redor da origem desse primeiro esforço de tradução dos textos sagrados do judaísmo (começando pelo Pentateuco) para o grego. A transmissão cristã da Septuaginta é marcada por três fenômenos importantes: 1) a substituição dos rolos (cada rolo correspondendo a um livro ou a uma parte do conjunto) por códices (os livros todos reunidos em um único volume). abaixo). 29). Na verdade. Trata-se de versões revisadas. Uma quarta hipótese associa a tradução grega ao ambiente do estudo: a Septuaginta teria surgido como texto interlinear sobre o qual os estudantes aprendiam o hebraico. ou seja. I ou até II d. 117-134. como a revisão kaige (assim chamada devido à preferência por essa palavra na tradução do hebraico gam [= também]). percebe-se certo descontentamento. 2) a generalização do emprego do grego kýrios como tradução do tetragrama [yhwh]. ou a revisão protoluciânica (ou seja. em reação a uma tendência arcaizante no judaísmo. com relação à Septuaginta. A primeira aproxima o fenômeno da Septuaginta ao do targum. afirma que as leituras na liturgia já seriam feitas diretamente da tradução grega. O A. III). Eclesiastes) ser datada do séc. Surgem assim.

no período do nascimento do cristianismo. por que deveríamos preferir textos estabelecidos por escribas judeus nos séc. uma forma da koiné calcada no modelo da Septuaginta. seis versões. As relações entre a Septuaginta e as descobertas do deserto de Judá são discutidas no capítulo sexto. Dessa obra. De fato.C.pmd 130 31/3/2011. I a. em seguida. tinham como base a Septuaginta. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Além disso. nas traduções cristãs modernas. mas sim a Septuaginta. a de Luciano (Antioquia e Constantinopla) e a de Hesíquio (Alexandria). ao ponto de esta praticamente “esquecer” de que se trata de uma tradução. infelizmente. como uma “porta para Cristo” (S. os próprios judeus dispunham de diferentes versões. se.). A recensão de Luciano (antioquena) é importante por ter sido a base para as traduções ao gótico (Wulfilas. p. confirmando que os autores neotestamentários. p. sua transliteração para o grego. Número 119. foram descobertos em Qumran os “originais” hebraicos (e aramaicos) de (partes de) livros dos quais. na configuração da língua nele empregada.C.) e ao eslavo (Cirilo e Metódio. VIII-IX d. No final desse capítulo. Encontraram-se também textos em grego cuja tradução permite perceber que o texto usado como base para a tradução claramente diverge do texto massorético (como é o caso. o A. as versões de Áquila. Ano 43. lado a lado. principalmente numa tradução ao siríaco. sendo a de Orígenes a mais famosa dentre elas. segundo o qual a base para a tradução de alguns textos bíblicos. IX d. sendo que algumas inclusive com melhores alternativas de leitura? O cap. Essas revisões aproximam o texto grego a um texto hebraico prémassorético. só se dispunha de versões em grego. até então. Ulrich. não deveria ser o texto hebraico tradicional. de fragmentos de Samuel e Jeremias). (texto massorético).OK. a descoberta de fragmentos de textos bíblicos em grego nas grutas de Qumran demonstrou a existência de atividade de revisão do texto da Septuaginta já antes do final do séc. de Símaco. bem como de inspiração para a redação de muitas passagens do Novo Testamento. chegaram até nós. A influência da Septuaginta nos escritos do Novo Testamento reflete-se em vários aspectos.. ou seja. a Septuaginta é a principal fonte de citações do Antigo Testamento. apenas fragmentos. Além disso. A Septuaginta é muito valorizada como uma providencial “preparação para o evangelho”.C. o A. da Septuaginta e a de Teodocião. ex. uma vez comprovado que nem sempre o texto massorético conservou a melhor forma do texto para cada livro. apresenta a proposta de E.varietas): a de Orígenes (Palestina). séc. o texto hebraico. Segundo Ulrich. IV d. na sua leitura do Antigo Testamento. em colunas. na qual estão dispostos. Orígenes resolve fazer uma edição da Bíblia colocando. Surge assim a Hexapla. Belo Horizonte. 08:16 . séc. João Crisóstomo). apresenta o fenômeno da adoção da Septuaginta como “bíblia” pela Igreja nascente. 7 aborda a relação entre a Septuaginta e o Novo Testamento. especialmente porque permitiu o conhecimento da Palavra de Deus àqueles que não faziam parte do povo de 130 Perspectiva Teológica. No capítulo oitavo.C. Diante das dissonâncias entre os vários textos de que dispunha. 117-134. que deveria perfazer cerca de 50 volumes. Em primeiro lugar.

comentários. perguntas e respostas. VI). p. Número 119. E mais: o fato de a Igreja considerar confiável uma tradução encorajou os cristãos. A tradução para o alemão acaba de ser publicada pela Deutsche Bibelgesellschaft. Através de vários gêneros literários. em Göttingen. Contudo. com texto hexaplar. cujo primeiro volume foi publicado em 1986. Rahlfs publicou. etc. o Ambrosiano (séc. Harl lançou o projeto da tradução para o francês (La Bible d’Alexandrie). os Padres expuseram sua exegese e interpretação dos textos da Escritura: sumários. A Bíblia Perspectiva Teológica. o Alexandrino (séc. Está também em andamento um projeto de nova tradução para o inglês.Israel. Comenta depois os códices Vaticano (meados do séc. Marguerite et alii. Em 1935. Ainda em Oxford. gótico. com base no códice Vaticano. homilias. no ambiente cristão. o A. apresenta a história do texto da Septuaginta. muito cedo. latim. V). vêm sendo feitas também traduções da Septuaginta para as línguas modernas. havia já uma tradução feita por G. apresenta as edições impressas da Septuaginta. O códice Alexandrino foi publicado entre 1707-1720. V). Ano 43. no qual falta boa parte do Pentateuco e dos livros históricos. considerando-os um corpus único. Belo Horizonte. uma nova tradução está sendo preparada por um grupo de estudiosos do Conselho Superior de Investigações Científicas de Madri. Em italiano já existe a tradução do livro dos Salmos e do Pentateuco. No décimo e último capítulo. 08:16 131 . florilégios e catenae. Nesse sentido. V).OK. começando pelos fragmentos de manuscritos encontrados nas covas 4 e 7 de Qumran. em Oxford. a preocupação com a interpretação do texto. foi publicada a edição chamada Sixtina. o Sinaítico (também do séc. 117-134. todos com excelentes notas e comentários. Além da publicação do texto grego.C. No caso da língua espanhola. usavam-na. a também fazerem novas traduções para outras línguas (copta. Na Sorbonne. sob os auspícios do Papa Sixto V. Em seguida.). tomando assim um caminho muito diferente do judaísmo e islamismo. O capítulo nove trata do uso da bíblia grega pelos Padres da Igreja. sendo a editio princeps a Poliglota de Alcalá (1514-1517). Holmes e Parsons editaram o texto da Sixtina acrescido de aparato crítico com as variantes de muitos manuscritos (1798-1827). IV d. V-VI).pmd 131 31/3/2011. já incompreensíveis aos fiéis). que contém de Gn 31 até Js 12. e o “Gênesis de Viena” (séc. quase completo. tendo chegado já a 14 volumes. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . a Profa. apenas nas línguas originais (na maioria das vezes. os quais continuam lendo seus textos sagrados. georgiano. por Joannes Grabe. Outras se seguiram. Jünemann no Chile (1928). o A. armênio. Em 1587. juntamente com o Novo Testamento. M. eslavo. o Sarraviano (séc. Tendo adotado o Antigo Testamento na forma da Septuaginta.). recuperado quase completo. uma edição crítica da Septuaginta em dois volumes que se tornou standard. elaboram-se introduções e comentários. IV). Ainda que o público brasileiro tenha recentemente recebido a tradução de uma excelente obra sobre a Septuaginta (HARL. o Marcaliano (séc. Muito cedo também começa. O fato de que se dispusesse de uma versão das Escrituras em grego facilitou muito a expansão do Cristianismo. antologias. na liturgia. ge’ez.

se dedica à quarta viagem de S. Como uma viagem de S. Ano 43. 132 Perspectiva Teológica. o livro nos conduz à percepção de que a Septuaginta é um verdadeiro e importante fenômeno. as informações sobre as fundações das comunidades paulinas e a teologia que as envolve. Na verdade o que interessa aqui é de natureza histórica. 2006. A pergunta que se coloca é: o autor deste relato teve a intenção de fornecer dados históricos confiáveis. Não se pode descartar.grega dos Setenta. 206. se tem da Septuaginta como uma tradução feita por um grupo de judeus em Alexandria no séc. foi bem sucedida. pura e simplesmente. tem a grande qualidade de apresentar muitas informações de forma concisa e organizada. mesmo que filtrálos seja uma árdua tarefa. assim como em relação ao que nos interessa prioritariamente.16. II. Belo Horizonte.5 cm. as sete epístolas “protopaulinas”: Rm. em geral.OK. 117-134. portanto. mostrando-se um instrumento útil para qualquer estudioso da Escritura. vai contra a corrente e se dedica ao estudo rigorosamente científico de At 27.pmd 132 31/3/2011. a viagem em que parte prisioneiro dos romanos. Ao contrário. especialmente com os dados apresentados no capítulo 10. Paulo. pode despertar tamanho interesse a ponto de lançar uma pesquisadora de elevado nível a um trabalho tão exigente como rigorosamente científico? Do ponto de vista teológico tem pouco a oferecer. At 27. São Paulo: Loyola. a de At 27.1 – 28. 1 e 2 Cor. Gl. 21 X 13. Número 119. Claudio Paul SJ REYNIER.. verídicos? Ora. Harl. cuja história complexa e instigante muito nos pode ensinar.1 – 28. a opinião generalizada hoje em dia. Fl.16). A riqueza das referências bibliográficas apresentadas pelo A. uma tradução da obra de Fernández Marcos não seria supérflua. A obra complementa ainda o livro de M. Paulo. A Autora ensina teologia do Novo Testamento em Paris. como se verá. Lectio Divina. isto é. Paris: Cerf. O livro de Fernández Marcos. 08:16 . No presente trabalho a A. os dados históricos que o livro dos Atos oferece à biografia de S. 288 pp. O A. Paulo.16. Uma de suas áreas de pesquisa são os escritos paulinos. com rigor científico. 1Ts e Fm. oferece também bons pontos de partida para que o leitor continue aprofundando os temas. Col. de Cesareia Marítima até Roma. consegue. quanto ao estudo da biografia de S.1 – 28. Chantal: Paul de Tarse en Méditerranée: Recherches autour de la navigation dans l’Antiquité (At 27. é de que não se deve apelar para o livro dos Atos como fonte histórica primária e sim para os escritos considerados autênticos de S. ISBN 978-2-204-07930-3. Paulo.1 – 28. desconstruir a imagem muito simplificada que. p. 2007). Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . além de ser de leitura agradável. Paulo. E sua conclusão.16 é praticamente um diário de viagem. A A. mais que teológica.

Esta obra vem precisamente mostrar como é necessário distinguir entre
diferentes níveis de veracidade dos fatos narrados no livro dos Atos. Antes
de tudo é preciso separar diferentes passagens. Se os textos de At 1– 26
contêm desacordos em relação às epístolas “protopaulinas”, algumas explicações devem existir; mas não são explicadas por esta obra que tem
outro objetivo. No caso do relato da quarta viagem de S. Paulo, do ponto
de vista histórico é praticamente seguro tudo o que contém. A linguagem
que At 27,1 – 28,16 emprega quanto à navegação, dados geográficos, e
inúmeros detalhes de diversa natureza, é muito precisa e equivalente à
linguagem de outros relatos contemporâneos. Uma obra pseudepígrafa
jamais entraria em detalhes tão exatos. De fato At 27,1 – 28,16 é detalhista
quanto aos tipos de navios, o embarque da mercadoria respeitando sua distribuição em relação ao equilíbrio do barco, as rotas marítimas, as escalas
entre os diferentes portos, os modos com que os marinheiros resolviam os
problemas relativos às tempestades e naufrágio, o comportamento das pessoas perante riscos de vida em alto-mar, as condições meteorológicas, os
procedimentos de embarque e desembarque de pessoas e mercadoria, etc.
Para quem lê os Atos dos Apóstolos a partir das traduções atuais da Bíblia
passa desapercebido o problema que os exegetas enfrentaram quanto à
escolha da atual versão deste livro. Dele existem duas versões gregas. A
adotada nas Bíblias corresponde à versão chamada “Alexandrina”. Outra,
chamada “Ocidental”, é evitada porque está incompleta e fragmentada nos
manuscritos que a contêm. A A. se ocupou com a “Alexandrina”, que
traduziu especialmente para esta obra, e a apresenta às pp. 29-33.
Esta viagem de S. Paulo a Roma foi feita em três navios. No primeiro foi de
Cesareia Marítima a Myra, na Lycia (At 27,1-5). No segundo foi de Myra até
Malta (At 27,6-44). No terceiro foi de Malta à atual Pozzuoli (At 28,1-13).
Entre uma Introdução (pp. 13-27) e uma Conclusão (pp. 171-192), são quatro
os capítulos. O primeiro capítulo trata da linguagem sobre o mar e a navegação (pp. 35-51).
O segundo acompanha a viagem de S. Paulo no primeiro navio, conforme
At 27,1-5 (pp. 53-74).
O terceiro é sobre a viagem no segundo navio, de Myra a Malta, de At 27,6
– 28,10 (pp. 75-153). Os passageiros com S. Paulo são 275, número que não
é exagerado, uma vez que naquele tempo havia barcos bem maiores, como
o mencionado por Flávio Josefo, que levava 600 pessoas (p. 81). Os prisioneiros vão sob a escolta de um centurião. O comandante do barco é de
grau militar inferior e não tem autoridade sobre os passageiros. A carga do
navio é variada, não apenas de trigo. O navio e a tripulação eram provenientes de Alexandria, o que os recomendava como competentes, apesar
de não poderem resistir às tempestades que os levaram ao naufrágio. Não
se pode determinar com exatidão o local do naufrágio, embora a tradição
o localize em Malta, sem mais (pp. 129-142).
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O capítulo quarto estuda a viagem feita no terceiro navio, de Malta a
Pozzuoli, e posterior chegada a Roma a pé, conforme At 28,11-16 (pp. 155170).
São quatro os anexos que se seguem. O primeiro anexo (pp. 195-215) é
sobre a linguagem náutica especializada de At 27,1 – 28,16, variando entre
os elementos naturais, a térrea, o mar, o fogo, os astros, as condições
meteorológicas dos ventos, da chuva etc.; sobre o espaço de navegação,
isto é, o mar, os golfos, praias, ilhas, portos etc.; sobre os países: Cilícia,
Lycia, Panfília, Ásia, Macedônia, Itália; sobre cidades e muito mais.
O anexo II (pp. 217-221) apresenta o vocabulário relativo ao mar,
meteorologia, náutica e geografia marítima.
O anexo III (pp. 223-232) traz o vocabulário grego sobre o mar como espaço geográfico, os fenômenos meteorológicos, as profissões marítimas, os
barcos, a arte da navegação etc.
O anexo IV (pp. 233-234) traz os termos marítimos gregos usados apenas
uma vez em At 27,1 – 28,16.
O anexo V traz as diferenças entre a versão “Alexandrina” e a “Ocidental”
de At 27,1 – 28,16.
Segue-se um léxico, em francês, com as medidas de navegação, sobre os
barcos, as manobras marítimas e o mar em geral, nas pp. 237-240.
Há cinco mapas, nas pp. 278-283.
A Conclusão mostra como o relato de At 27,1 – 28,16 é historicamente
fidedigno. O estudo de seu gênero literário conclui pelo gênero de relato
de viagem em que se entrelaçam relatos de odisseia, tempestade e itinerários marítimos. Seu valor é, antes de tudo, histórico e técnico sobre a arte
da navegação. Como tal lança nova luz quanto ao valor dos dados históricos oferecidos pelos Atos. O mais importante é a conclusão de que esta
viagem não resultou de uma ficção literária, nem de um romance, mas foi
um fato histórico verídico, e que S. Paulo, herói deste relato, não é um
mito, mas personagem histórica verdadeira.
Uma pergunta que qualquer leitor deste livro apresentaria a sua Autora é
a seguinte: afinal, o Lucas que escreveu Atos foi companheiro desta viagem de S. Paulo e possivelmente de outras? Infelizmente a Autora não
responde a esta intrigante questão, porque se trata de um problema tão
intrincado que nem os exegetas mais preparados estão em condição de
responder. Por outro lado, se Chantal Reynier quisesse responder a esta
pergunta, teria que se dedicar outro tanto de tempo como o que dedicou
a este livro, e produziria outra obra completamente autônoma e diferente.
Valdir Marques SJ

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Perspectiva Teológica, Belo Horizonte, Ano 43, Número 119, p. 117-134, Jan/Abr 2011

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Notas Bibliográficas

VISCHER, Lukas / LUZ, Ulrich / LINK, Christian: Ökumene im
Neuen Testament und heute. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht,
2009. 333 pp., 12,5 X 20 cm. ISBN 978-3-525-56355-7.
O livro é fruto do estudo feito em forma de seminário realizado na Suíça
(Berna e Friburgo) no qual participaram 13 membros de diversas confissões cristãs (evangélica, veterocatólica e católica). Já tinha sido feita uma
primeira publicação dos resultados daquele seminário aproximadamente
quinze anos atrás. Desejando reeditá-la, o grupo de pesquisadores sentiu
a necessidade de retrabalhar a obra e atualizá-la para poder reapresentála ao público. Essa nova edição revista é também uma homenagem ao Prof.
L. Vischer, falecido em 2008.
O ponto de partida das reflexões sobre o desafio do diálogo e da mútua
compreensão entre as Igrejas é o Novo Testamento. A tese fundamental do
livro é a de que a unidade é uma tarefa constante da Igreja já desde os seus
inícios.
O livro é composto em três partes. A primeira, de autoria de L. Vischer,
apresenta o estudo do tema da unidade da Igreja. Inicialmente aborda-se a
relação entre Escritura e Tradição, buscando-se uma compreensão da relação
entre ambas de modo a superar as divergências que as várias confissões têm
a esse respeito. Em seguida, Vischer trata especificamente da compreensão
do conceito de “unidade” nos textos do Novo Testamento e hoje.
A segunda parte da obra, escrita por U. Luz, mas agregando contribuições
de outros pesquisadores, estuda o esforço por manter a unidade no primeiro século da era cristã. Partindo de Jesus como origem da comunhão na
Igreja, o cap. 4 aborda os primeiros conflitos já registrados no cânon
neotestamentário: a questão da unidade entre a Igreja e Israel discutida no
assim chamado “Concílio de Jerusalém” (At 15) bem como em alguns
textos de Paulo. No cap. 5, é apresentada a compreensão de Paulo a respeito da comunhão na Igreja, a qual se baseia no batismo, na ceia, no dom
do Espírito e na confissão de Cristo como Senhor. Tomado como exemplo,
o texto de 1Cor é analisado na perspectiva do esforço pela conservação da
unidade nas relações internas à comunidade cristã. Em seguida, estuda-se
o período imediatamente posterior à morte dos apóstolos e os desafios
então surgidos. Os primeiros esboços de eclesiologias presentes na Carta
aos Efésios, na Epístola de Tiago, no Apocalipse, no díptico lucano e no
evangelho de João são analisados. Concluindo essa segunda parte, estudaPerspectiva Teológica, Belo Horizonte, Ano 43, Número 119, p. 135-140, Jan/Abr 2011

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Belo Horizonte. 08:16 . Col. Böttrich parte do conceito de “amigo de Deus”. Christentum. Na segunda parte da obra. 2009. Ego. 135-140. atribuído a Abraão em Is 41. 13 X 21 cm. Eissler. Ego examina como o personagem Abraão é assumido na leitura cristã dos textos veterotestamentários.se o segundo grande conflito dos inícios do cristianismo. B. a ceia e o ministério. Em seguida aborda-se o aspecto da conciliariedade na busca pela comunhão. a confissão de fé. Christentum und Islam. Judentum. as tensões entre a comunidade cristã e certo cristianismo de matriz gnóstica. ISBN 978-3-525-63398-4. Beate / EISSLER. Por fim. Estudam-se então as tradições sobre Abraão presentes em vários textos do Antigo Testamento.OK. Christfried / EGO. Islam. Link. Cristianismo e Islamismo. doutor em teologia e professor de Novo Testamento na Universidade de Greifswald (MecklenburgVorpommern). Böttrich resume sua pesquisa apresentando como Israel vê em Abraão uma figura da sua própria memória e como base para a sua existência.pmd 136 31/3/2011. ou seja. Böttrich. doutor em filosofia e assessor científico na Evangelische Zentralstelle für Weltanschauungsfragen (EZW) em Berlin. a Profa. dos pontos candentes da questão da unidade: a compreensão do papel da Escritura. denotando uma especial relação de proximidade. A obra faz parte de uma coleção de livros de bolso que se propõe tratar temas comuns às três grandes tradições monoteístas. Link apresenta brevemente o caminho já percorrido na busca pela unidade.. doutora em teologia e professora de Antigo Testamento na Universidade de Osnabrück e F. Número 119. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht. referente ao Judaísmo. ou 136 Perspectiva Teológica. Na primeira parte. oferece uma reflexão sistemático-teológica sobre os temas desenvolvidos na segunda parte. em seguida. mas também na literatura extrabíblica do Judaísmo antigo. apresentando o(s) significado(s) do personagem Abraão nos escritos sagrados e na tradição dessas religiões que se remetem a ele como o Pai da fé. A obra oferece ainda um índice dos temas trabalhados e outro das referências aos textos do Novo Testamento e dos Santos Padres. são C. A terceira parte se conclui com um capítulo sobre a relação entre a unidade da Igreja e a missão. 188 pp. O livro dirige sua atenção ao personagem Abraão. p. Os AA. tratando inicialmente da relação entre a Igreja e Israel e. Nesse sentido. Friedmann: Abraham in Judentum. Ano 43. Claudio Paul SJ BÖTTRICH. Judaísmo.8. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . mas agora com vistas a tirar conclusões para a situação hodierna. composta por C. A terceira e última parte.

-T.pmd 137 31/3/2011. 135-140.OK. O segundo seminário (1995) tratou da história deuteronomista. Le Monde de la Bible.): L’Enfance de la Bible Hébraïque: l’histoire du texte de l’Ancien Testament à la lumière des recherches récentes. versam principalmente sobre a história da formação do texto da Bíblia Hebraica. ISBN 2-8309-1172-5. Se. mostrando as dificuldades e possibilidades de tal proposta. Ano 43. 22. No Brasil.5 X 15 cm. Apresenta ainda a presença de Abraão nas tradições posteriores à elaboração do Alcorão. Número 119. chamando a atenção para os pontos de divergência com relação aos relatos bíblicos. permite também perceber e aproximar o que há de comum entre elas.]. 2005. Ao final de cada uma das três partes.]. Philippe (orgs. Belo Horizonte. na terceira parte do livro. Por fim. 1996]). / RÖMER. o livro que resultou do primeiro seminário (1986). introduz o leitor na tradição muçulmana. seu lugar no Alcorão. A. Adrian / HUGO. os AA. [éds.. Claudio Paul SJ SCHENKER. Israël construit son histoire: l’historiographie deutéronomiste à la lumière des recherches récentes. O Pentateuco em questão [Vozes. 318 pp. cujos autores são de matriz cultural tanto cristã quanto judaica. assinala as diferenças nas interpretações dadas à figura de Abraão em cada uma delas. a obra é uma excelente introdução ao tema. os artigos. Em linguagem acessível ao público mais amplo. 1996). 08:16 137 . T. por um lado. p. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Albert [org. Conclui-se esta segunda parte da obra apresentando sugestões de aproximação entre todos os que têm a Abraão como figura referencial.seja. Col. Apresenta a leitura que o Islamismo faz de Abraão. Entram em questão as Perspectiva Teológica. sendo uma contribuição valiosa para o diálogo entre as três tradições religiosas. temos. / MACCHI. Já Eissler. oferecem indicações bibliográficas das obras consultadas bem como para a continuação do estudo do tema. A obra recolhe estudos apresentados nas várias sessões do terceiro seminário (2002) sobre o Antigo Testamento realizado nas universidades de línguas românicas da Suíça. em tradução. 52. Genève: Labor et Fides. Os trabalhos foram publicados em 1996 (DE PURY. “antigas histórias em nova perspectiva”. J. Examina a presença e o significado de Abraão nos escritos do Novo Testamento bem como na tradição cristã. Genève: Labor et Fides. sobre o estado da pesquisa sobre o Pentateuco (DE PURY. Eissler coloca a questão de um “ecumenismo abraâmico”. Como o subtítulo da coletânea sugere.

Ano 43. 1 e 2 Reis. 135-140. de A. há um índice dos autores citados e outro. algumas perícopes de Jeremias). que são de caráter mais especializado. Isaías. em geral. fazendo um percurso histórico sobre o tema.pmd 138 31/3/2011. referidos nos vários artigos. O primeiro. ocupa-se da consciência sobre os problemas textuais do Antigo Testamento. Trata-se de duas apresentações do status quaestionis da pesquisa sobre a história do texto do Antigo Testamento.18-28. Critique Textuel de l’Ancien Testament [CTAT]. 08:16 . seletivo. dos textos bíblicos ou de fontes judaicas e cristãs antigas. possa mover-se também com certa facilidade na ciência da crítica textual.OK. certamente. No final. Os artigos são.10-12. além do conhecimento das línguas bíblicas. Biblia Hebraica Quinta). Himbaza. bastante técnicos. as questões discutidas e o caráter atual das informações apresentadas fazem com que esse volume seja uma boa fonte de pesquisa para quem estiver às voltas com questões sobre o estabelecimento de um texto confiável para a análise exegética e a tradução do texto hebraico do Antigo Testamento. Schenker e Ph. com muitas citações em hebraico (e ainda em grego e siríaco). Hebrew Old Testament Text Project [HOTTP]. Muito interessantes são os artigos que abrem a obra. Isso demonstra que o público alvo é o leitor especializado na área bíblica. que. da bíblia dos LXX. Inicia comentando a posição de Flávio Josefo a esse respeito e chega até a situação atual da questão. Belo Horizonte. bem como o recurso ao testemunho dos pergaminhos descobertos em Qumran e ainda o papel do Targum na reconstituição de versões antigas dos textos veterotestamentários.relações do texto veterotestamentário com as versões do Pentateuco Samaritano. Esses dois artigos iniciais cumprem muito bem sua função de introdução aos demais trabalhos. como Juízes. Hugo. Estuda-se também o trabalho dos massoretas na preservação do texto hebraico. de I. apresenta informações atualizadas sobre vários projetos em andamento com o intuito de produzir edições críticas da Bíblia Hebraica (Biblia Hebraica Stuttgartensia. o livro dos Salmos. O caráter de especialização da pesquisa que o livro apresenta faz com que. A obra apresenta também estudos sobre a história dos textos de alguns livros em particular. Sir 48. não seja obra para o grande público. Contudo. Oferece também a análise de algumas passagens que ilustram o estudo das variantes textuais (2Rs 10. Número 119. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . O segundo. com a Peshitta. Claudio Paul SJ 138 Perspectiva Teológica. p. Hebrew University Bible.

o cap. Beiträge zur Wissenschaft vom Alten und Neun Testament. é professor de exegese e teologia do Antigo Testamento e de hermenêutica bíblica na Evangelisch-Theologischen Fakultät da Universidade do Ruhr (Bochum). A obra está estruturada em 12 capítulos. a idade. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . Stuttgart: Kohlhammer. esposo de Maria. o título de “justo”.OK. encontrou-as mescladas com muitas imagens de José. estuda a árvore genealógica de ambos os “Josés” e a sua relação com Judá. no contexto do relato do assassinato das crianças por ordem de Herodes. 16 X 24 cm. 9 trata da adoração dos magos do Oriente. O cap. os sonhos e seu papel nas narrativas.18. pôs-se a estudar as perícopes que tratam dos dois personagens. O A. 7 aborda mais um ponto comum entre os dois personagens: a permanência no Egito. três temas são estudados. O quinto e brevíssimo capítulo (5 páginas) é dedicado ao estudo do emprego da preposição grega ek em Mt 1. debruça-se sobre um dos temas mais importante nos relatos sobre ambos os personagens. o A. Número 119. Após a colocação do problema. O cap. esse tema é a ligação mais evidente e mais forte entre o José do Antigo e o do Novo Testamento.20. terra que para ambos é chance de sobrevivência após situações muito difíceis e terra que oferece a ambos a oportunidade de providenciar o cuidado de suas famílias. Belo Horizonte. Jürgen: Josef und Josef: literarische und hermeneutische Reflexion zu Verbindungen zwischen Genesis 37-50 und Matthäus 1-2. ou seja. a estrela e a adoração. 08:16 139 . 2009. Nesse âmbito.16. Perspectiva Teológica. 6. Segundo ele mesmo relata no prefácio.pmd 139 31/3/2011. buscando-se neles os pontos de contato: a peregrinação dos povos a Sião. 8.EBACH.18. 187. três elementos paralelos entre os dois personagens chamados “José”: o próprio nome e o nome paterno. trabalha. De fato. 1. Rute). o A.3. mostrando o uso diferenciado daquela preposição quando se trata de personagens do Antigo Testamento e depois. p. 135-140. Raab. Ela é a mãe de José do Egito e é citada explicitamente em Mt 2.5. o A. quando se trata da geração de Jesus. Ano 43. No cap. encontrando uma expressiva série de pontos de contato que o levaram a aprofundar ainda mais a pesquisa. 3. 165 pp. no cap. 2. 4 trata das mulheres presentes na genealogia apresentada por Mateus (Tamar. A partir daí. ISBN 978-317-021036-3. apresentada no cap. o A. na busca por imagens sobre José do Egito no Google. o papel dos reis. o estímulo para pensar o tema e escrever a obra surgiu de uma série de mal-entendidos quando. Outro ponto de contato é a personagem Raquel. dentro do quadro da genealogia de Jesus. No cap. Col.. a esposa de Urias. no cap. Ainda no âmbito da genealogia.6. ou seja.

no cap. esposo de Maria. No caso de José. também não os têm. 11. por fim. mas. 135-140.22s. Ebach demonstra como a expressão “nazareno” (Mt 2. Ambos têm filhos. A seguir. tira uma série de aproximações. p. 08:16 . bem como um índice dos autores citados. Belo Horizonte. Ano 43. Em Mt 2. tece considerações interessantes a esse respeito.23). em Gn 49. nazir. seu filho adotivo. apresenta suas conclusões. o que serve de pretexto para que ele (e depois. Jesus não é verdadeiramente seu filho. seus filhos são adotados por seu pai Jacó (Gn 48). O A.OK. um índice das citações e referências aos textos bíblicos. Jesus) seja chamado de “nazareno” (Mt 2. em certo sentido. em hebraico. José decide instalar-se em Nazaré. A obra oferece ainda uma extensa bibliografia sobre os temas abordados. Número 119.Outro tema que toca ambos os personagens é o da adoção. Jan/Abr 2011 perspectiva 119 . o A. Claudio Paul SJ 140 Perspectiva Teológica.23) também funciona como ponto de conexão entre os dois personagens. Segue.26. extracanônicos e da literatura rabínica tratados ou referidos ao longo do trabalho. A partir daí. o capítulo em que o A. José é chamado de “consagrado”. No caso de José do Egito. Ora.pmd 140 31/3/2011.