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Apresentação

A revista Perspectiva Teológica foi criada em 1969 como revista da Faculdade de Teologia Cristo Rei (São Leopoldo, RS). A partir de 1982, passou
a ser publicada pela Faculdade de Teologia do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus no Brasil (Belo Horizonte, MG). Atualmente
é editada pelo Departamento de Teologia da Faculdade Jesuíta de Filosofia
e Teologia – FAJE (Belo Horizonte, MG) e pelo programa de Pós-Graduação de Teologia desta faculdade. A publicação é quadrimestral, com o
seguinte cronograma: 1º número (abril), 2º número (agosto) e 3º (dezembro).
Insere-se no conjunto de meios de que a Faculdade dispõe para alcançar seu
objetivo de contribuir para o pensar filosófico e teológico e o debate relacionando o saber teológico com as demais ciências com as quais entra em
diálogo no mundo atual. Para tanto, publica artigos que são avaliados
segundo critérios acadêmicos científicos e técnicos visando a manter a
qualidade dos conteúdos. Tais textos concentram-se principalmente em
duas áreas teológicas que correspondem às duas linhas e projetos de pesquisa desenvolvidas pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade, como
seguem. 1. Teologia da Práxis Cristã (Espiritualidade Cristã e Pluralismo
Cultural e Religioso; Tendências Éticas Atuais). 2. Teologia Sistemática
(Fontes Bíblicas da Tradição Cristã; Interpretação da Tradição Cristã no
Horizonte Atual).
Nesta oportunidade dirigimo-nos a todos os leitores(as) e colaboradores(as)
de Perspectiva Teológica, para informá-los(as) a respeito de algumas mudanças que se introduzem no periódico a partir de agora. São alterações
sobretudo de caráter técnico, mas também de explicitação da composição
dos fascículos.
A partir deste número, cada fascículo terá estas secções: Apresentação,
Editorial, Artigos principais (dossiê) que refletem sobre o tema proposto
pelo fascículo; Artigos diversos, tratam de assuntos distintos do tema do
fascículo, porém poderão ter alguma ligação com o assunto central;
Recensões e Notas bibliográficas.
Para o ano de 2012, quando celebramos o 50º aniversário do início do
Concílio Vaticano II, os temas serão estes: Teologia Pública (n. 122), O
Concílio Vaticano II (n. 123) e Igreja e consciência (n.124).
Este primeiro fascículo, portanto, traz como tema “Teologia Pública”. Trata-se de um assunto ainda incipientemente tratado em nosso País. Porém
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já ganha espaço em alguns centros acadêmicos de Teologia e de Ciências
da Religião.
Indicamos a perspectiva de cada artigo. Em primeiro lugar, Rudolf von
Sinner traça um panorama da “Teologia Pública”, mostrando sua gênese e
o caminho percorrido até hoje no Brasil. No segundo artigo, de David
Tracy, encontra-se uma visão da relação entre a teologia e a esfera pública,
considerando-se três noções de discurso público. Paulo Sérgio Carrara
aproxima-se do tema central deste fascículo ao abordar o problema do
niilismo no mundo moderno, o que constitui um desafio à fé cristã, que
deve procurar nova configuração. O artigo de Víctor Codina propõe a
recuperação da Pneumatologia, acentuando a ação do Espírito no âmbito
eclesial e no mundo, remetendo-se, pois, à ação divina no “público”. João
Batista Madeira e Marina Massimi apresentam a epistemologia presente na
teologia subjacente aos sermões do missionário Pe. Antonio Vieira. Finalmente, Amauri Carlos Ferreira e Leonardo Lucas Pereira ocupam-se do
pensamento teológico de Frei B. Leers, mostrando sua contribuição para a
renovação da teologia moral católica.
O Editor

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ou não é teologia. tanto no Areópago como nos escritos de Justino ou na Carta a Diogneto. magisterial até. sacramentos e mandamentos de Deus e da Igreja). Explicava o evento Cristo e o fato cristão aos outros. Contudo. 1Pedro 3.OK. 11:42 7 . nos anos recentes. Apologética no sentido original era apresentar aos não cristãos “as razões de nossa esperança” (cf. O que nada tinha a ver com passiva submissão ao magistério. nem mesmo aos fiéis leigos. porém. que na realidade significa o dar ouvido à Palavra que é (o evangelho de) Jesus. não se limita ao anúncio de Jesus. p.pmd 7 24/5/2012. ao mundo. supondo-se que o outro parceiro do diálogo expressasse também a sua convicção ou suas dúvidas. devemos lembrar que a primeira teologia cristã era pública. refletidos em conjunto também com o não cristão. quando os cristãos assumiram o papel majoritário e dominante na sociedade. a expressão “teologia pública”. no Brasil. como sugere certa interpretação errônea da “oboedientia fidei”. desenvolveu-se um processo dialético. a teologia ou é pública. que não se dirigia às pessoas fora da Igreja e. precisamente. Belo Horizonte. mas implica todos os aspectos da vida humana. pelo menos não em termos de diálogo. não parceiros de diálogo. deixou de ser convicção privada e tornou-se pressuposto público. A alguns. 7-10. tal termo parece pleonasmo: se a teologia como discurso sobre Deus não for pública. Ano 44. pois eram meros destinatários de doutrinas. Com o surgimento da Cristandade. o Cristo. Voltando às origens. em pé de igualdade. articulada no âmbito aberto deste mundo e dirigida a toda pessoa humana disposta ao diálogo. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . O diálogo genuinamente teológico. As brigas teológicas dos grandes concílios no início da era constantiniana lePerspectiva Teológica. A fé cristã (entendida como dogma. é preciso levar em consideração o contexto histórico que deu origem a esse modo de falar: o contexto de uma teologia meramente eclesial. a nova iluminação a partir de Jesus e seu evangelho. a ponto de a sociedade se identificar com a Igreja Católica. muitas vezes.Editorial TEOLOGIA PÚBLICA Ouve-se.15). Vista assim. ela não corresponde ao que deveria ser. para mostrar. Número 122.

as coisas mudaram. Já antes do Concílio Vaticano II vivia-se a preocupação com uma teologia do mundo. reveste-se de atualidade especial no Brasil e na América Latina. Não basta um discurso teológico para o mundo. retomado na exortação Evangelii Nuntiandi do papa Paulo VI: a meta não é a conversão à religião cristã. a teologia da libertação. a judaica). A teologia confinou-se nos temas para o ensino do clero e pelo clero. Número 122. Hoje. na virada das eras medieval e moderna.pmd 8 24/5/2012. até a Gaudium et Spes. No momento em que compomos este texto. Paulo não quis converter os gálatas a uma religião (no caso. o caminho que fez o Concílio Vaticano II. B. J. a Igreja percebe que o discurso da fé deve atingir o mundo como tal. Porém. de “Entprivatisierung”. sobretudo a partir da Aufklärung e da Revolução Francesa. Belo Horizonte. o Rio Grande do Sul. o risco de não mais falar ao mundo – mundo não só “leigo”. o estado talvez mais secularizado do Brasil. Não basta uma palavra dirigida pelos cristãos ao mundo. 11:42 . A emancipação moderna em relação à Cristandade medieval privatizou a religião católica. culturais. é preciso um diálogo teológico com o mundo. Essa sensibilidade. Por outro lado. neste sentido. conforme a palavra de J. que até então era pública. mas entende – apesar das discussões em sentido contrário levantadas por determinados ambientes – que tal ensino esteja acima da 8 Perspectiva Teológica. o mister teológico hoje necessita. por um lado. enquanto o povo foi deixado no ambiente leigo. Metz. outro fora do qual não há. sair do âmbito privado intraeclesial (ou meramente magisterial) para ir ao encontro do mundo. Paradigmático é. Moltmann e muitos outros. Necessita-se de um diálogo sobre Deus e sobre a dimensão transcendente na existência humana em sociedade. expressa por J.vavam as multidões à rua. sob o efeito de múltiplos fatores históricos. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . teologia da realidade terrestre – em cuja esteira se desenvolveu. O pressuposto cristão sumiu. com isso. mas “laicizado”. e as discussões teológicas medievais eram travadas em público. p. da Sacrosanctum Concilium e Lumen Gentium. “secular”. por outro. decreta a retirada dos símbolos religiosos dos espaços da Magistratura Jurídica. alheio ao âmbito confessional cristão. B. no Terceiro Mundo. nossas regiões estão saindo rapidamente da configuração da Cristandade.OK. a atual Constituição da República prevê o Ensino Religioso nas escolas públicas. correndo. Mas isso não é suficiente para se ter uma teologia pública. participado em pé de igualdade por todos aqueles que a buscam de coração sincero. A fé tornou-se coisa privada. Ano 44. servido por alguma instância hierárquica. 7-10. D. mas o anúncio do Evangelho ao mundo. Nos últimos decênios. Com a emancipação de um mundo leigo no espaço da antiga Cristandade. Metz. E neste percurso surge também o decreto Ad Gentes. fez-se sentir uma inversão. Visto contra esse pano de fundo histórico. mas anunciar-lhes o evangelho de Jesus Cristo. com uma teologia reduzida a um prato feito de dogma e moral. Tracy. políticos e sociais.

Pretende-se simplesmente “driblar” o gentio. hoje. Percebese também a urgente necessidade de um diálogo aberto que una. pois o que ela diz vale para a sociedade como tal. no seu fórum. p.. ecológica. Qual seria. a questão do gênero etc. talvez em primeiro lugar. de modo secular. especificamente. A teologia pública torna-se uma realidade na América Latina e. razão pela qual a “cientificidade” da Teologia se torna um assunto constante no debate acadêmico-científico. não só da parte de seus competentes órgãos confessionais. o sentido da vida etc. A autenticidade exige que o interlocutor seja visto como parceiro e ouvido com seriedade. A teologia é lógos theou . Ano 44. Por um lado existe o perigo da inautenticidade. o conteúdo de uma teologia pública? Moltmann responde: Deus. como quem se apresenta com uma seleção de textos da Bíblia ou do Magistério debaixo do braço..divisão confessional e tenha característica laica. reflexão-discurso sobre a autocomunicação de Deus e que leva Deus à fala. no mesmo foro. em jornadas de estudo de Faculdades de Teologia ou de Ciências da Religião. Número 122. A teologia ética social não pode confinar-se num discurso intraeclesial. o Areópago. no Brasil. 10:26 9 . surge a pergunta se se está falando somente para os quadros cristãos e as comunidades de fé ou para todo ser humano. Por vários meios são assim trazidos ao debate as grandes questões da humanidade e de nosso povo que interessam ao fazer teológico. Também para a teologia latino-americana. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . E deste assunto primeiro derivam-se os assuntos específicos. a Teologia e as outras ciências. quanto à teologia como tal. o teólogo não tem razão de antemão. como quem procura falar a verdade. como se percebe naqueles setores da teologia que focalizam a questão ecológica. como “O olhar do Teólogo” de nosso colega João Batista Libanio e semelhantes. 7-10. o outro mundo possível. que é o da teologia como tal – o humanodivino –. Belo Horizonte. Isso seria inautêntico. política. O específico da teologia pública não está no seu assunto. isto é. E as Faculdades de Teologia ganham reconhecimento. em contribuições pessoais e colunas jornalísticas de teólogos. Acontece nos congressos da SOTER (Sociedade de Teologia e de Ciências da Religião) e da ANPTECRE (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Teologia e Ciências de Religião). No fórum da teologia pública. quando se vai ao pátio dos gentios convencido de que se tem toda a verdade. o “Pátio dos Gentios’. Empreendimento perigoso. e nomeadamente para a corrente que se expressa na teologia da libertação. mas no seu modo e. É diálogo de verdade. então. mesmo se sua fala questiona nossa proposição. O mesmo deverá ser reconhecido quanto a outros campos da ética e. Ou também de ordem comportamental. segundo a orientação do filósofo Martin Buber: a verdade do diálogo nasce no meio entre o Eu e o Tu.OK. em iniciativas como o Instituto Humanitas (IHU) da Unisinos-São Leopoldo. de ordem ética.pmd 9 23/5/2012. sobretudo. finalmente. mas da parte da instituição pública que é o Estado. Eis o desafio Perspectiva Teológica. especialmente a teologia fundamental.

10:26 . Número 122. Ora. sem perder o fogo do Espírito. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .pmd 10 23/5/2012. o diálogo inter-religioso e. 10 Perspectiva Teológica. como será interpretada a frase do recente documento da Comissão Teológica Internacional “Teologia hoje: perspectivas. há certos assuntos que lhe são mais conaturais: os que envolvem o bem público. observe-se também a conhecida lei da comunicação: o meio determina a mensagem. “Eu falei abertamente ao mundo. afirmando que a teologia é um serviço prestado à Igreja e à Sociedade e que o texto em pauta quer prestar um serviço aos colegas teólogos “e também àqueles com quem os teólogos católicos entram em diálogo” (n. é preciso conhecer bem o Areópago. e seu paradigma é a parresia de Jesus e dos Apóstolos. 100). a teologia voltada para a ecologia. princípios e critérios”. na sociedade que não está mais sendo orientada nem pela Igreja nem pelo Estado. O que se fala no Areópago pode aprisionar a mensagem. p. o gênero. Nada falei às escondidas. Tudo depende de o diálogo ser diálogo mesmo. Por isso.20). Eu sempre ensinei nas sinagogas e no templo. Ano 44.da teologia pública. Resta ver. 7-10. E precisamente nestes assuntos o diálogo sincero e sem presunção é fundamental.” (João 18. Belo Horizonte. que diz respeito à pólis de todos. onde todos os judeus se reúnem. Por outro lado. A teologia pública é a teologia que sai do gueto. mesmo sendo o assunto da teologia pública o de toda teologia. agora. uma ética mundial. Situam-se aqui a teologia política. o bem-estar e a justiça social. que diz respeito tanto aos que creem em Cristo quanto aos que não se chamam com o nome cristão.OK. sobretudo. a busca de uma ética acima das nações e confissões.

– Agradeço à doutoranda Eneida Jacobsen e à bolsista de iniciação científica Alessandra Hünemeier pelas valiosas sugestões e correções que fizeram em relação a versões anteriores do texto. São Leopoldo. 11-28. Ano 44. the discussion on the presence of crosses in courthouses in the state of Rio Grande do Sul. Artigo submetido a avaliação em 20/ 03/2012 e aprovado em 23/03/2012. mostra a diversidade de origens e usos do conceito em várias partes do mundo. inequívoca. PALAVRAS-CHAVE: Brasil. bem como de perigos contidos neste conceito. quaisquer erros e fraquezas porventura permanecentes são da minha única responsabilidade. this article ventures into a first balance of reflection on a public theology in Brazil. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . mostra uma variedade de origens do termo e de oportunidades.OK. o artigo propõe-se fazer um primeiro balanço da reflexão sobre uma teologia pública no Brasil. It seeks to respond to the question “what is public theology?” not with a clear and uniform definition. the article presents four lines of thought present in * Faculdades de Teologia EST. Rather. p. procura responder à pergunta “o que é teologia pública?” não de forma definitória. Número 122. In a first step. Cidadania. Brasil. as well as on the activities of evangelical Congressmen. ABSTRACT: In view of actual challenges present in the Brazilian public space. o artigo apresenta quatro linhas de abordagem presentes na emergente discussão brasileira.pmd 11 23/5/2012. as well as dangers contained in the concept. Por fim. Belo Horizonte. procura evidenciar a pertinência e o potencial de uma teologia pública no Brasil – com ousadia e humildade. Teologia pública. Religião e Espaço público. it shows a variety of origins and opportunities. recorrendo ao sul-africano Dirk Smit. Em seguida. Evidentemente. Antes. 10:26 11 . uniformizante.Artigos TEOLOGIA PÚBLICA NO BRASIL: UM PRIMEIRO BALANÇO Public theology in Brazil: a first balance Rudolf von Sinner * RESUMO: À luz de desafios atuais presentes no espaço público brasileiro. Num primeiro passo. a discussão sobre a presença de crucifixos em tribunais gaúchos e a atuação de políticos evangélicos no Congresso. Assim. Perspectiva Teológica.

html (acesso em 12 mar 2012). prefeituras etc. KEYWORDS: Brazil. 11-28. bem como o grupo que a recorreu: nem tanto secularistas ou ateus confessionalmente organizados. no caso brasileiro. p. Then. alegando que “não há postura preconceituosa e que a presença dos crucifixos presta homenagem à religiosidade independente de qualquer credo”3. with reference to the South African theologian Dirk Smit.the emerging Brazilian discussion. O que é teologia pública? Está posta a contínua pergunta que pretendo abordar neste artigo. interpretar e avaliar a presença da religião. Public space.pmd 12 23/5/2012. 2007. neste caso da religião cristã. 1 Sobre isto. Confiança e convivência: reflexões éticas e ecumênicas. 10:26 . por exemplo. hospitais.com. e de sua configuração de espaço público.clicrbs. pode-se dizer que a teologia pública busca analisar. Hermenêutica ecumênica. mas a Liga Brasileira de Lésbicas. 2 “TJ determina retirada dos crucifixos dos prédios da Justiça gaúcha”. situação e mensagem. 12 Perspectiva Teológica. Ainda em dezembro. cf.clicrbs. São Leopoldo: Sinodal. a retirada dos crucifixos dos prédios da Justiça gaúcha. no espaço público. em repartições públicas como tribunais. 3 “Grupo pede a retirada de crucifixos de órgãos da Justiça gaúcha”. nomeadamente de crucifixos. it seeks to show the pertinence and the potential of a public theology in Brazil – both with boldness and humility. disponível em http://zerohora. Crucifixos em tribunais? Evangélicos no Congresso? No dia 6 de março de 2012.br/rs/geral/noticia/2012/ 03/tj-determina-retirada-dos-crucifixos-dos-predios-da-justica-gaucha-3686238. Novidade é a decisão a favor da retirada. Zero Hora online de 6 de março de 2012.html (acesso em 12 mar 2012). Para tanto. e as interpretações. é preciso considerar a especificidade do contexto. disponível em http://zerohora. aos desafios concretos da atualidade em diálogo com o que lhe é próprio: a tradição cristã.com.2 Não é novidade a polêmica acerca da presença de símbolos religiosos. portanto. o Conselho de Magistratura do TJ tinha rejeitado o pleito. Religion. Citizenship. Ao mesmo tempo. confessionais. Como toda teologia. p. o Tribunal da Justiça gaúcho determinou. Belo Horizonte. De modo geral. in ID. Zero Hora online de 13 de fevereiro de 2012. por unanimidade. relevância e identidade. a teologia pública se encontra no círculo hermenêutico entre contextualidade e catolicidade. particularidade e universalidade.br/rs/geral/noticia/2012/ 02/grupo-pede-a-retirada-de-crucifixos-de-orgaos-da-justica-gaucha-3662734. it shows the diversity of origins and uses of the concept in different parts of the world. 87-118. considerar-se-ia o texto bíblico na sua tradição pelo tempo e espaço. ou seja. escolas. Finally. ao longo dos séculos e ao redor do mundo.1 Responde. Ano 44. Número 122. Rudolf von SINNER. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Public theology.OK. que se fez historicamente e que se faz hoje.

(1) São tradição cultural do estado.tjrs. Belo Horizonte. pois é específico ao âmbito de tribunais – como foi. Brossard continua: A meu juízo. 5 P. funcionaria como um tipo de “espinho na carne” (cf. também a decisão do TJ –. disponível em http://www.tjrs/ elements/noticias_controller. é instigante a interpretação oferecida por Brossard.786. construtor do famoso decreto 119-A (1890) que aboliu o padroado e estabeleceu a plena liberdade religiosa. 19) (3) Ou são.br/site/imprensa/noticias/#. ainda. 11-28. afinal. ao Distrito Federal e aos Municípios: I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas. salas de aula. Zero Hora de 12 de março de 2012. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . de março de 2012. pois. de uma invocação de transcendência semelhante à invocação da “proteção de Deus” no preâmbulo da Constituição Federal? O relator da matéria na nova decisão. segundo a teologia cristã. sem nomear que “Deus” seria este. Ao contrário disso. Constituir-se-ia um paralelo à presença de “Deus” na constituição.Paira. Desembargador Cláudio Baldino Maciel. a colaboração de interesse público” (Art. que tendo consciência da inocência do perseguido. os crucifixos existentes nas salas de julgamento do Tribunal lá não se encontram em reverência a uma das pessoas da Santíssima Trindade. e. 2 Cor 12. sobre a presença ou não de crucifixos em espaços do poder público. como sugere a decisão inicial do TJ/RS. preferiu lavar as mãos. BROSSARD. 10:26 13 . ano 19.br. p. afirmou que “resguardar o espaço público do Judiciário para o uso somente de símbolos oficiais do Estado é o único caminho que responde aos princípios constitucionais republicanos de um estado laico. n. a questão de o que. para não esquecer que 4 “Determinada a retirada dos crucifixos dos prédios da Justiça gaúcha”. a quem fazem mal? (2) Alternativamente. Perspectiva Teológica. 13. são símbolos de uma religião específica? Então. “Tempos apocalípticos” [!]. mas a alguém que foi acusado. na forma da lei. para quem a decisão do TJ constitui-se num “equívoco”. processado. ressalvada. estes representam.OK. ainda vítima da pusilanimidade de Pilatos. com ofensa às regras legais históricas. símbolos de uma religião geral. do país? Então. aos Estados. nem irreligiosa”.jus.. portanto. devendo ser vedada a manutenção dos crucifixos e outros símbolos religiosos em ambientes públicos dos prédios”4..pmd 13 23/5/2012. Decisão publicada no Diário da Justiça (RS) eletrônico./.jsp?acao=ler&idNoticia=172854 (acesso em 12 mar 2012). julgado. Invoca a voz de Rui Barbosa./system/modules/com.workroom. de fato. p. hospitais). e com isso passar à História. quem também defendeu que “a nossa lei constitucional não é antirreligiosa. condenado e executado. embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança. executivos e legisladores. por fim. por que estão lá num Estado cuja constituição reza que “é vedado à União. enfim justiçado até sua crucificação. 1 e 2. Ano 44. p. subvencioná-los.7) dos tribunais. Número 122.5 Embora este argumento não explique por que deveria haver cruzes em outras repartições públicas (escritórios. 4. uma singela interpretação é oferecida pelo exministro do Supremo Tribunal Federal Paulo Brossard.

1981. Número 122. conforme resolução do 1º Senado de 16 de maio de 1995. A primeira e segunda instância recusaram o pleito. “o espírito religioso da população”. 10:26 .unibe. 11-28.7 Na prática. as cruzes e os crucifixos deveriam ser retirados. especialmente p. contudo. Zero Hora. trata-se “de um análogo do que se passa no American Way of Life. isto não significava que. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Uma lei estadual obrigava as escolas públicas a terem crucifixos nas salas de aula. Religião civil brasileira: um instrumento político. católicos e protestantes” (ibid. Para Azevedo. E com o que ocorre na legislação de numerosos outros páises. ao mesmo tempo. Porto Alegre.1. 14 Perspectiva Teológica. diz-se que a expiação pública do secretário-geral da Presidência. p. estado alemão de expressiva população católica. sob o título de “Governo vigiado – como os evangélicos freiam o PT”. nestes quesitos. com 80 membros parlamentares. 79-87. Governo vigiado: Como os evangélicos freiam o PT.6 Em 1995 houve um conflito semelhante. O Tribunal de Constituição (o supremo tribunal do país). em local onde estava obrigado a comparecer diariamente.. além de representar. três deixaram registrada sua discordância da decisão. necessariamente. Ano 44.ch:8080/tools/ainfo. mas que era inconstitucional obrigar as escolas a colocá-las. julgando tal lei ser contrária à liberdade religiosa e à neutralidade do Estado em assuntos religiosos. reconheceu como procedente a causa em juízo.respondem a algum poder transcendente. na constituição. “fonte última do direito” e “força coercitiva do comportamento civil”. Ela tem. Outra matéria da Zero Hora mostrou parlamentares evangélicos em oração. afastando uma auto-percepção de onipotência.8 Sem dúvida é forte a articulação da bancada evangélica. No lead da matéria. “Deus” se torna. Houve o pleito de um casal ligado à antroposofia. Gilberto Carvalho. que não admitia seu filho estar exposto.pmd 14 23/5/2012. Considero que fica mais forte ainda tal musculatura.OK. descobrindo-se como falhos. p. 6. “musculatura política”. disponível em http://sorminiserv. Belo Horizonte. sobre crucifixos em escolas públicas na Baviera. como afirma o artigo. 19 de fevereiro de 2012. uma vez que a posição dos evangélicos nos assuntos mencionados (aborto. a cruz seria símbolo de uma “determinada convicção religiosa” e não apenas “expressão da cultura ocidental formada também pelo cristianismo”. Dos oito juízes. Petrópolis: Vozes. como a legalização do aborto e o combate à homofobia. 87). No entender dos juízes. com sua substância religiosa preponderantemente cristã ou judáico-cristã. p. 8 Fábio SCHAFFNER.exe?Command=ShowPrintText&Name=bv09 3001 (acesso em 12 mar 2012). Thales de AZEVEDO. a um símbolo religioso que não aceitava. 7 BVerfGE 93. homos- 6 Cf. E se alguém requeresse a retirada em prol da educação do seu filho livre de símbolo religioso. resume com nitidez como a conjunção de religião com política encurrala o governo e inibe iniciativas históricas da esquerda. ela teria que ser feita.

com John Rawls. Richard Rorty). necessariamente. Número 122. por exemplo. A sociedade brasileira. contudo. 2006. Cambridge: Cambridge University Press. 9 Klécio SANTOS. 1997. comum quando igrejas mantêm opinião contrária à dos intelectuais. 1994. que “por mais que temas como a legalização do aborto e o casamento homossexual ainda sejam tabus. Stefan GROTEFELD. 11 Este ponto representa uma discussão acirrada existente nos EUA (p. Religion in the Public Square: The Place of Religious Convictions in Political Debate. Os próprios citados vêm modificando seu discurso de proibição de linguagem religiosa no espaço público. Religiöse Überzeugungen im liberalen Staat: Protestantische Ethik und die Anforderungen öffentlicher Vernunft. p. é demasiadamente apressado e mostra pouca compreensão da nova dinâmica política que emergiu pela presença dos evangélicos. é prudente que esse debate seja despido de convicções ideológicas ou crenças doutrinárias” – desde que “despido” não signifique “isento”. mas aponte para o esforço necessário de todos em chegar a consensos que não impliquem adotar. 19 de fevereiro de 2012. apresentarei um primeiro balanço do debate. Lanham: Rowman & Littlefield. é uma parcela muito expressiva da população (20%). simplesmente. e nenhum político pode dar-se o luxo de deixá-la de lado. as obras de Paul FRESTON. Considero isto um exagero. veja Richard AUDI. Cambridge: Cambridge University Press.11 Esses são apenas dois exemplos do que está. Africa and Latin America. 2006. intitulado “cruzada obscurantista”.pmd 15 23/5/2012. que está numa situação de pluralismo religioso nunca antes vista.OK. Ainda assim. sim. a mando dos pastores. Religião e Política. 2001. 10:26 15 . atualmente. Religion and the Obligations of Citizenship. Paul J.ex. Chama a atenção o comentário de Klécio Santos. onde considera o governo “refém de anacrônicas pregações religiosas”. 11-28. mas também na Europa (p. WEITHMAN. Sobre esta questão. Evangélicos na Política Brasileira: História ambígua e desafio ético. propriamente. especialmente na política e na comunicação pública. Porto Alegre. Curitiba: Encontro. não: os evangélicos e a participação política. 10 Sobre esta presença política evangélica veja.sexualidade) coincidem em grande parte com a posição da Igreja Católica. Viçosa: Ultimato.9 Este julgamento. Perspectiva Teológica. não por último após os atentados de 11 de setembro. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . embora esta não tenha. A seguir. Outrossim. 6. p. com Jürgen Habermas): a que medida deve-se ou pode-se utilizar linguagem religiosa no espaço público. a matéria diz haver um “eficiente canal de comunicação dos pastores com quase 40 milhões de fiéis que o governo teme”. precisa de soluções pragmáticas aceitáveis a pessoas de diferentes convicções. Igreja e Estado. Stuttgart: Kohlhammer. Belo Horizonte. Ano 44. Cruzada obscurantista. 2006. Zero Hora. uma bancada articulada no Congresso. Nicholas WOLTERSTORFF. os mesmos pontos de partida. pois este grande número de fiéis é de modo algum unido e não funciona.ex. Evangelicals and Politics in Asia.10 Concordo com Santos. em pauta para uma teologia pública no Brasil.

teologia na universidade. E duas obras importantes de Jürgen Moltmann. mais especificamente. não seu livro especialmente pertinente ao assunto. então.pmd 16 23/5/2012. O Programa Teologia Pública propõe-se a abrir e articular novas possibilidades de engajamento da teologia no âmbito acadêmico e sociocultural propondo uma Teologia que participa ativamente nos debates que se desdobram na esfera pública da sociedade e da academia e explicitando a relevância publica da teologia e da fé cristã. ecologia. Isto sublinha os dois principais aspectos da teologia pública na compreensão do Instituto: uma teologia em diálogo com a sociedade contemporânea e. A imaginação analógica. Ano 44. Neste ano. 2006.). mas. São Leopoldo: Unisinos. 14 Essa é também a direção geral da coletânea de entrevistas (muitas das quais feitas em torno do simpósio mencionado) de. Michael Amaladoss. principalmente no campo sistemático (diálogo inter-religioso.). participando nos Fóruns Mundiais de Teologia e Libertação. o Instituto organizou um simpósio internacional sobre “Teologia na universidade do século 21”. política. Em 2004. este programa está localizado em uma universidade que se originou de um seminário fundado no início do século 20 por missionários jesuítas alemães. bem como na vida eclesial. Inácio NEUTZLING (Org. Andres Torres Queiruga e John Milbank entre seus palestrantes.OK. 2/8).12 De acordo com o website do programa. tendo David Tracy. acesso em: 14 mar.13 Um tanto ironicamente. mas deixou de abrigar uma Faculdade de Teologia. surpreendentemente. Trad. Minneapolis: Fortress Press. São Leopoldo: Unisinos. Nélio Schneider. Fundado em 2001. 16 Perspectiva Teológica. econômica e cultural da sociedade. atenta aos desafios e possibilidades que se apresentam na vida social. Teologia pública.br/areas/teologia-publica/58627-programa-teologia-publica. ética. culturas e religiões. publica livros e artigos sob o título de “Teologia Pública”. de modo interdisciplinar e transdisciplinar. é parceiro também na contínua reflexão sobre a Teologia da Libertação. p. etc.14 Ao mesmo tempo. 2012. e homenageando o centenário do nascimento de Karl Rahner. Número 122.unisinos. o Instituto organiza anualmente simpósios. método na teologia. a obra de David TRACY. com a comunidade científica. Nessa perspectiva busca articular a reflexão teológica em diálogo com as ciências. É. 10:26 . Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . que celebrará os 50 anos da inauguração 12 Entre estas. universidade jesuítica em São Leopoldo.Teologia pública no Brasil: uma discussão emergente No Brasil. 13 Disponível em: http://www.ihu. God for a Secular Society: The Public Relevance of Theology. A teologia cristã e a cultura do pluralismo. o Instituto Humanitas que garante mais explicitamente a presença da religião e da teologia no ambiente de uma grande universidade confessional particular com aproximadamente 25 mil alunos. Belo Horizonte. 11-28. a teologia pública começou a ser discutida a partir do assim denominado programa do Instituto Humanitas da Unisinos. com um espectro muito amplo de temas. 1999. hoje. 2006 (Cadernos IHU em formação. hospedará o grande Congresso Continental de Teologia.

São Paulo: Paulinas. João Décio PASSOS. p. Nairobi 2007.org. 3. Teologia pública – desafios éticos e teológicos. 11-28. Teologia pública em debate. 2011.pmd 17 23/5/2012.).17 A EST. Raimundo Barreto e Rudolf von Sinner. vol. Teologia pública. (Org. e um terceiro volume está em preparação. Teologia pública. Um livro já foi publicado. uma teóloga que não seja. 17 Rudolf von SINNER. Rudolf von SINNER. Teologia da libertação: perspectivas [1973]. e uma teologia de seminário introspectiva e sob mais ou menos forte tutela eclesiástica. Rudolf von SINNER (Org. Maria Clara Lucchetti Bingemer. International Journal of Public Theology. Eneida JACOBSEN. 2012. Teologia pública vol. http://www. p. também essa discussão entrou em pauta. necessariamente. Rudolf von SINNER.).16 A Rede publica o International Journal of Public Theology. O último número está dedicado. Numen. começou uma série de publicações para fomentar o debate ao redor do conceito e suas implicações. Teologia pública – desafios sociais e culturais. vol.wftl. Eneida JACOBSEN. (Org. Belém/PA 2009 e Dakar 2011). 2012). A EST é membro fundador da Rede Global de Teologia Pública. 2012 [no prelo]. 16 Cf. Teologia pública vol.). Principalmente entre teólogos católicos interessados neste diálogo. à emergente teologia pública no Brasil. n. com contribuições de Eneida Jacobsen. Public Theology in Brazil. L. periódico que já adquiriu notoriedade na área nos apenas seis anos de sua existência.OK.br/ eventos/congresso-de-teologia/index. Ronaldo CAVALCANTE. 1 e 2. São Paulo: Loyola.15 Desde 2007. ministro religioso ou ministra religiosa? Trata-se da busca de uma mediação entre uma universidade brasileira que tem. Ano 44. São Leopoldo: Sinodal. As compreensões são diversas e em elaboração. Gustavo GUTIÉRREZ.18 Outros autores têm também começado a utilizar o termo. 2. 2010. 325-357. 2011. de tradição evangélicoluterana. “Teologia Pública: Novas Abordagens numa Perspectiva Global”. na íntegra. 18 . por um lado. 10:26 17 . que já teve quatro edições (Porto Alegre 2005. São Leopoldo: Sinodal. vizinha da Unisinos em São Leopoldo. um segundo está no prelo. Diante de projetos de Lei que buscam regulamentar a profissão do teólogo. articuladora de centros de pesquisa e militância sob o conceito de teologia pública.do Concílio Vaticano II e os 40 anos da publicação do livro seminal de Gustavo Gutiérrez. 1. 13. Perspectiva Teológica. SOARES. 2000. Roberto ZWETSCH. v. 19 Afonso M. sobre o Congresso. a partir dos respectivos pareceres do Conselho Nacional de Educação. mas é possível desenhar algumas linhas de pensamento.19 Qual seria o perfil de um teólogo.unisinos. São Leopoldo: Sinodal. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Júlio Paulo Tavares Zabatiero. historicamente.). Rudolf von SINNER.php (ambos os sites com acesso em 14 mar. 6. forte tendência positivista e anti-religiosa (leia-se anti-clerical). por um lado. Roberto ZWETSCH (Org. n°1. Número 122. (1) Destaca-se. por sua vez. Reflexões sobre uma área de conhecimento e sua cidadania. veja http://www.). a teologia pública é assunto de destaque também na Faculdade EST. João Décio Passos. 2012 [em preparação]. Ronaldo CAVALCANTE (Org. uma reflexão acerca da cidadania acadêmica e da epistemologia específica da teologia. mas inconformados com o cerceamento episcopal dos 15 Sobre o Fórum. Belo Horizonte.

12.teólogos. colocado no espaço da sociedade plural. que o conceito de secularização enquanto “racionalização ou desencantamento do mundo”. há uma reflexão buscando o resgate da tradição liberal e libertadora do cristianismo protestante frente a fundamentalismos e neo-puritanismos. Número 122. 20 Márcio Fabri dos ANJOS. n. Teologia da Solidariedade e da Cidadania: Ou seja: continuando a Teologia da Libertação. A cidade e o gueto.. 18 Perspectiva Teológica. in SOARES. Rudolf von SINNER. mais do lado protestante. Sobre a Fraternidade Teológica Latinoamericana. in SOTER (Org. Religião e transformação social no Brasil hoje. para esta necessidade foi a intenção da minha modesta contribuição sobre Teologia como ciência. in ID. 2. 21 Ronaldo CAVALCANTE. p. na minha percepção. in ID. p. Estudos Teológicos. na advogação de uma teologia pública. Advoga. veja Júlio P. p. São Paulo: Fonte Editorial.22 (3) Num ponto de partida parecido. ainda pouco trabalhado no Brasil. Um movimento teológico e sua contribuição para a transformação social. p. 25 Cf. onde advoga a continuação da Teologia da Libertação como “teologia da solidariedade e da cidadania”.). São Paulo: Paulus.20 (2) Em outra chave. algo que é. Conforme afirma Márcio Fabri dos Anjos: “O discurso sobre Deus e suas correspondentes crenças. por exemplo. A Fraternidade Teológica Latino-Americana. precisamente. 133-158. São Paulo: Fonte Editorial. vol. 24 Hugo ASSMANN. Confiança e convivência: reflexões éticas e ecumênicas. uma variante desta vertente procurou um diálogo com autores contemporâneos. Teologia como profissão: da confessionalidade à esfera pública.T. n. seja deslocado.T. São Paulo. a qual ele contrasta com a “confessionalidade: espaço da teologia na esfera privada”. como desafio e auto-crítica – por mais rejeitada que tal teologia possa ser pelas igrejas.. 2008. PASSOS. p. Teologia pública. Introdução a uma teologia pública protestante.. 22 Apontar. p.25 Detectei uma falta de propostas mais concretas na linha libertadora.23 (4) Minha própria motivação inicial para enveredar no projeto de uma teologia pública deu-se com a leitura de um artigo de Hugo Assmann. Crítica à lógica da exclusão. 2007. p. ZABATIERO. Religião e esfera pública. 11-28. pode ser chamado de teologia pública”. 2011. 10:26 . nomeadamente Habermas. ZABATIERO. p. 57-66.21 Mostra-se que uma teologia academicamente qualificada também é urgente para dentro dos espaços eclesiásticos. São Paulo: Paulinas. São Leopoldo: Sinodal. 47.24 Descobri a cidadania como termo-chave da democracia brasileira pós-transição e como desafio à teologia. Para uma teologia pública. representantes do pensamento pós-metafísico e pós-secular. p.OK. 127 e 124. 23 Júlio P. 1. 2011. 1994. 122-133. vol. debruçando-se sobre a presença da religião e da teologia na esfera pública. 156s. 13-36. “movendo-o das esferas ontológica e epistemológica para a esfera do político”. Ano 44.pmd 18 23/5/2012. 2007. Cadernos de Ética e Filosofia Política. ID. principalmente.. a partir da tradição protestante dentro da Fraternidade Teológica Latino-Americana. este movimento tem resultado na criação de programas de ciências da religião no Brasil e. 2007. 2010. 139-159. São Leopoldo. publicado em 1994. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Belo Horizonte. 43-67.

br/periodicos/ index. mas permanece pecador in re. mas por ser um ser humano. Eugene/OR: Wipf & Stock. de incertezas. que reivindica esferas de responsabilidade distintas entre o poder público e a igreja. comecei a esboçar uma teologia pública com enfoque na cidadania. livre e submisso a ninguém. Reconhecer. ao mesmo tempo. A partir disso é possível arriscar-se numa nova tentativa de confiar – e mostrar-se digno da confiança dos outros – resultando numa confiabilidade tão fundamental para qualquer democracia. antes. numa situação de falta de confiança nas outras pessoas.php/nepp/article/view/29/67 (acesso em 15 mar. uma liberdade de opções. 11-28. Assim.por exemplo em diálogo com o direito. (c) A situação do ser humano é uma situação de ambiguidade. Apontamentos sobre a teologia pública hoje.28 Achei importantes aportes na tradição luterana. na esperança. a chamada doutrina dos dois reinos ou. The Churches and Democracy in Brazil: Towards a Public Theology Focused on Citizenship. melhor. não é um percepção pessimista da humanidade.edu. 2012). mas. realista. junto com uma teologia da criação focada no ser humano feito à imagem e semelhança de Deus fundamenta a cidadania. Nico KOOPMAN. (a) A insistência luterana na justificação por graça e fé extra nos. na realidade. pode-se perseverar como cidadão. p. que o cristão é justo (justificado) in spe. como Lutero. mas em Deus. Diante do ocasional esquecimento de que a cidadania não consiste apenas em direitos. São Leopoldo. e interagindo com colegas da África do Sul27 que já vinham trabalhando o conceito há mais tempo. e servo e submisso a todos. ao presenciar a criação da Rede Global de Teologia Pública durante meu semestre de pesquisa em Princeton (EUA). pode-se descobrir a cidadania também como serviço. (b) Outro aspecto. Ninguém pode roubá-la dele. cinco elementos que me parecem fundamentais. pode-se viver como cidadão. é o embasamento da confiança não no ser humano. 38-49. mas uma liberdade de serviço: ser. mas também em deveres. por exemplo.pmd 19 23/5/2012. Rudolf von SINNER. (d) No seu famoso tratado sobre a liberdade cristã. 27 Cf. que recentemente voltou ao seu país de origem para participar intensamente de um think-tank sobre políticas públicas: Ivan PETRELLA.est. 28 Cf. Ano 44. apresento. Assim. não por obrigação. por opção própria.26 Posteriormente. The Future of Liberation Theology: An Argument and Manifesto. aqui. Podendo aguentar tais ambiguidades como fazendo parte da vida. 22. que tem sua dignidade intrínseca atribuída. Número 122. London: SCM. como continuação de uma teologia libertadora em tempos democráticos. esta postura é de especial importância. Perspectiva Teológica. simplesmente. p. (e) Por fim. Disponível em http:// www. Belo Horizonte. falho como é. recebida como dádiva. 2012 [no prelo].OK. 2010. ajuda em contextos onde esta distinção nem sempre é feita apropriadamente para garan- 26 Isto também é apontado pelo argentino radicado nos EUA. de acertos e falhas intercaladas. Protestantismo em Revista. em 2007. vol. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . A pessoa é cidadã não por característica ou méritos específicos. com a necessária profundidade. brevemente. 10:26 19 . Lutero mostra claramente como esta liberdade não é. Sem poder desenvolvê-los. regimentos. ainda pouco aproveitada no Brasil. 2006.

escreveu isto numa contribuição preparada para o seminário sobre Teologia Pública e Cidadania. Cf. Belo Horizonte. não deixam de ser sinais disto. num pluralismo religioso e Estado secular. 2012 [no prelo]. como reflexão construtiva. 31 Este é o propósito da tese de doutorado de Felipe Gustavo Koch Buttelli. a ingerência do Estado na religião é pequena.OK. Assembleia de Deus e teologia pública: o discurso pentecostal no espaço público. 32 Iuri Andréas Reblin. a dissertação de mestrado do jurista assembleiano MAJEWSKI. Dissertação (Mestrado). In the Days of Caesar: Pentecostalism and Political Theology. Para Lutero. Mas pode ser também que seja algo que se torne útil para o debate por um bom tempo. o de servir Deus sob dois regimentos. de ambos os lados. 2012). realizado em setembro de 2011. Grand Rapids: Eerdmans. Bem diz Iuri Reblin partindo de Rubem Alves: “Teologia é um jogo que é jogado quando a vida está em jogo”. p. na sociedade. religiosamente neutro. No Brasil hoje. Isto não tem mais cabimento hoje. em conjunto com colegas da Universidade de Stellenbosch e da Universidade da África do Sul (UNISA). ainda.edu.31 É possível que o interesse pela teologia pública que emergiu nos últimos anos seja apenas um fogo de palha. a posição do teólogo pentecostal. Sobre isto. comunicando-se com outros saberes e com o mundo real. Mas a distinção de papéis me parece muito importante para impedir uma indevida ingerência. 2010. ou seja. que se doutorou na EST em março de 2012.br/tede/ tde_busca/arquivo.php?codArquivo=253 (acesso em 15 mar. Número 122. Falar de teologia pública é algo que serve para uma reflexão apurada sobre o papel da religião no mundo contemporâneo. crítica e autocrítica das próprias igrejas. É um desafio para cada cidadão cristão. na academia.30 Ao mesmo tempo tenho plena consciência de que a relação entre Teologia da Libertação e teologia pública – estreita. Veja também. com apoio do Edital Pro-África do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). a meu ver. 2010. pois consegue abarcar abordagens pentecostais – exatamente daquelas igrejas para onde foram e estão indo os mais pobres. capítulo IIIA. Já a ingerência (ou tentativa de ingerência) de igrejas no âmbito do Estado é considerável. Rodrigo Gonçalves. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . uma moda passageira. 29 30 20 Perspectiva Teológica. veja SINNER. 10:26 .29 Descobri. África do Sul. ainda que talvez com pouco efeito concreto. mesmo que não fala de teologia pública. Os crucifixos mencionados no início deste artigo.tir a cidadania de todas e todos. a meu ver. que o termo teologia pública permite uma maior abrangência e inclusão de aportes do que o rótulo da Teologia da Libertação (sem ter que abandonar suas contribuições fundamentais como a opção preferencial pelos pobres). Ano 44. Amos YONG. na época da Cristandade. que para tal fim passou um ano de estudos na Universidade de Stellenbosch. Disponível em http://tede. em seu conteúdo central – precisa ser melhor analisada. 11-28. na política.32 É uma teologia da vida ligada ao Deus da vida procurando contribuir na sociedade para que haja vida digna de ser vivida para todas e todos. era claro que Deus reinava nos dois regimentos. São Leopoldo: EST.est.pmd 20 23/5/2012.

e a teóloga brasileira Eneida Jacobsen identificou seis modelos de teologia pública no seu mapeamento internacional. p. From Political to Public Theologies: The Role of Theology in Public Life in South Africa. Teologia pública: um olhar global. The Paradigm of Public Theology – Origins and Development. 2007. The Quest for a Global Public Theology. 151-172. Forrester. SINNER. também a crítica em Kathlen Luana de OLIVEIRA. teologia pública e a configuração ética da organização política em uma era global.OK. Mas não se parte. 2007. Nico KOOPMAN. 1. a ser testada em contextos específicos. afinal. tanto aqui quanto alhures. 2011. 37 Dirk SMIT. Münster: LIT. Ano 44. SINNER. mas somente teologias que procuram abordar o âmbito político dentro de localidades particulares”. 2012 [no prelo]. às seis narrativas de Smit: (1) A primeira. “uma ‘teologia pública’ universal. 2011. Rudolf von SINNER. n.” Evidentemente. Jr BREITENBERG. “um significado único e autoritativo de teologia pública nem uma forma normativa única de fazer teologia pública”34. de GRUCHY. in JACOBSEN. em tom ao mesmo tempo de interesse e de ceticismo: “O que é isso?” Parece uma coisa complicada para se entender. teologia pública? Já apontei para algumas direções nas quais anda a teologia pública no Brasil. Max L. in CAVALCANTE. Theology in the Public Square vol. vol. n. p. p. por outro. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .pmd 21 23/5/2012. p. 443.). To Tell the Truth: Will the Real Public Theology Please Stand Up? Journal of the Society of Christian Ethics. 431-454. Contextuality and Intercontextuality in Public Theology. de um conceito unívoco. 36 Cf. parece dizer apenas o óbvio. p. 45. International Journal of Public Theology. 10:26 21 . SINNER. p. 2003. e de atuação. p.36 Mas também em outros contextos não é unívoco o conceito. Harold. Igrejas e os discursos públicos na África do Sul democrática.). Não há uma “teologia pública uniforme e monolítica”33. Perspectiva Teológica. é especialmente importante testar sua viabilidade e pertinência em nosso contexto brasileiro e latino-americano. 2011. 45-62. p. ainda que se postule uma “teologia pública ecumênica” emergente. Florian HÖHNE. n. 159. 2. 1. 2012 [no prelo]. situa a origem do termo num artigo de 33 Clive PEARSON. Número 122. SINNER. STORRAR. Public Theology for the 21st Century: Essays in Honour of Duncan B. Notions of the Public and Doing Theology. 73-84. por um lado. p. 2. aqui. v. in Heinrich BEDFORD-STROHM. alternativamente. in CAVALCANTE. Andrew MORTON (Org. Leiden. Leiden. é persistente a pergunta. Direitos Humanos. 2004. não é que não se sabe nada. 5596. já clássica. STACKHOUSE. Belo Horizonte.35 Nesta linha. 35 John W. o eticista norte-americano Breitenberg aponta para a diversidade do uso do termo inclusive nos EUA. 11-28. International Journal of Public Theology. p. 2011. Sociedade civil. inserindo-os em duas perspectivas principais: de fundamentações teóricas. Tobias REITMEIER (Org. E. in CAVALCANTE. p. Ou. 3-4.37 Restrinjo-me. 34 Dirk SMIT. uma vez que se trata de um conceito “importado”. religião e teologia: desafios e convergências. in CAVALCANTE. A resposta mais direta e honesta seria: “Não sabemos. SINNER. propositalmente. p. London: T & T Clark. 53-70. 23. ZWETSCH. O teólogo reformado sul-africano Dirk Smit identifica seis narrativas de origem do termo. Modelos de teologia pública. 3751. vol. Eneida JACOBSEN. 4. in William J. 11-36. Ainda assim.O que é. cunhado nos Estados Unidos nos anos 1970 e descoberto na África do Sul no período pós-apartheid.

Aqui. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . 41 Para um estudo recente que analisa a qualidade da “neutralidade ideológica” (“weltanschauliche Neutralität”) do Estado alemão e sua tradicional valorização das igrejas dominantes (também do judaismo e. realmente pública)”40. e sim obedecer ao fato de que o Mestre é público” (ibid. p. Foi seguido por muitos neste caminho assumidamente pretensioso de uma teologia como discurso público. 19 March 1974. das “ordens da criação” e da autonomia do mundo supostamente regido por leis próprias. 2006. Agradeço ao colega por ter-me disponibilizado seu texto antecipadamente. Ocupou-se.pmd 22 23/5/2012. 2012. unidas. 332-359. do islã). 54. com Jürgen Habermas. fontes. Kirche und Öffentlichkeit: Zur Grundlegung einer lutherischen Kulturethik. cada um com seu discurso específico. 2. publicado em 1974. Journal of Religion. resultando num “espaço público nu” (Richard John Neuhaus). 123-128. São Leopoldo: Escola Superior de Teologia. publicou um texto sobre “teologia como discurso público”39. Para uma abordagem brasileira na linha de uma teologia pública. “de natureza ética” e “disponível e aberto para todos”.Martin Marty sobre Reinhold Niebuhr. As citações de SMIT estão sem número de página. 1974.php?codArquivo=300 (acesso em 14 mar.. ele acentuou uma relação personalista e especialmente a responsabilidade do ser humano – pecador e justificado – diante de Deus. em 1974. vol. Seu argumento se encontrava sob o seguinte “canto firme”: “Não nos cabe perguntar se podemos dominar a esfera pública. onde diz que Niebuhr teria oferecido “um paradigma para uma teologia pública”38. TRACY. ainda. Rejeitando uma relação ontológica com a realidade. Leipzig: Evangelische Verlagsanstalt. reformadas) são de direito público. 1949. Para Smit.edu. mas o que “estaria permitindo à teologia como tal que seja uma forma de discurso público”. 2012). 280-284. p. um contexto claramente diferente do norte-americano.br/tede/ tde_busca/arquivo. (2) Praticamente no mesmo período. cf. Öffentliche Religion in der Demokratie. Thielicke se distanciou claramente do chamado “protestantismo cultural” e do direito natural católico. The Christian Century. Public Theology and the American Experience. p. o que está em pauta não é tanto uma contribuição para assuntos éticos na vida pública. 22). A teologia ancorada no mundo da vida e dialogicamente situada na esfera pública: uma contribuição ao debate contemporâneo sobre teologia pública. 39 David TRACY. Belo Horizonte. três públicos do teólogo – a igreja. Reinhold Niebuhr MARTY.41 Retomando um título de livro de Helmut Thielicke42. Dissertação de Mestrado. cf. crescentemente. (3) Uma terceira narrativa seria a “öffentliche Theologie” defendida por Wolfgang Huber e outros na Alemanha. 11-28.est. 10:26 . nesta linha. vol. 1947. Estudos Teológicos – Studien und Berichte. Ano 44. disponível em http://tede. onde a questão que se coloca é como os teólogos poderão contribuir em debates sobre assuntos públicos. um “discurso teologicamente informado”. Tübingen: Furche. n. Teologia pública seria. 4. Tracy distinguiu. Eneida JACOBSEN. o professor de teologia católica de Chicago. n. pois o texto ainda não foi publicado. p. p. David Tracy.OK. pretensões de verdade e formas de argumentação. Paul TORNQUIST. 2009. intensamente. Kirche und Öffentlichkeit. a academia e a sociedade –.e. pois este enfatizaria o “poder emancipatório da razão crítica [e] de diálogo autêntico e de comunicação não manipulativa (i. 3. conquistou 38 Martin E. Theology as Public Discourse. 42 Helmut THIELICKE. onde as igrejas dominantes e territoriais (católica romana e evangélicas – luteranas. veja Christian POLKE. Número 122. 2011. 40 Apud SMIT. 22 Perspectiva Teológica. seria específico da situação norte-americana do “muro de separação” (wall of separation) entre religião e Estado.

2001. 2006. Leonardo BOFF. a única referência em alemão (!) encontrada até 1992 foi na tradução do livro dos irmãos Boff “Como fazer teologia da libertação?”44. como conta o aluno de Huber. Enquanto. Com todas as diferenças contextuais. teologia profética.. ressalta Smit. civil e política. 10:26 23 . 2000-2007. as abordagens teóricas e estudos de caso em. 4 vols. como diz Tinyiko Maluleke. que estaria “pertencendo hoje ao domínio público”. p. 45 Cf. 8. Gütersloher Verlagshaus.45 Nessas lutas. Essays in Honor of Max L. uma igreja pública envolvida com os assuntos da sociedade de forma construtiva e crítica. Clodovis BOFF. 5. Peter CASARELLA.47 Smit recorda a longa trajetória do movimento ecumênico. Deirdre K. na época. fica em evidência a relação entre teologia e lutas públicas. foi e permanece uma luta pela transformação da sociedade rumo a uma sociedade “secular. 158. p. Kirche und Öffentlichkeit in Transformationsgesellschaften. (4) Tendo em mente a natureza contextual de toda teologia pública.. Grand Rapids: Eerdmans. 43 44 Perspectiva Teológica. Grand Rapids: Eerdmans. God and Globalization. publicado em 1973. 1973. 421. Não se trata de uma mera conversa acadêmica. Kirche und Öffentlichkeit. Este afirma que “a própria sugestão de que tudo deveria ser chamado por um nome só é uma sutil estigmatização do local”. sobre fé e vida pública. Gütersloh: Kaiser. p. 2011.). 1.). Stuttgart: Kohlhammer. p. teologia “kairos”. n. em ambiente protegido. antes. raramente se falou de teologia pública. Número 122. constitui-se numa relação disputada de poder.. PAETH (Org.46 (5) Uma quinta narrativa defende a temática de teologia e vida pública num mundo globalizado. Wolfgang VÖGELE. HAINSWORTH. The Elusive Public of Public Theology: A Response to William Storrar. Zivilreligion in der Bundesrepublik Deutschland. Max STACKHOUSE et alii. Acrescento aqui que Huber.pmd 23 23/5/2012.livre-docência com um estudo sobre Kirche und Öffentlichkeit (igreja e esfera pública). A World for All? Global Civil Society in Political Theory and Trinitarian Theology. Muitas vezes. Public Theology for a Global Society. “teologia pública” poderá funcionar como “termo guarda-chuva” para todas estas teologias em sua dimensão pública. Stackhouse. ed. Leiden. ainda estaríamos compartilhando um só mundo. Ano 44. Scott R. preferindo o conceito de teologia política. mas de teologia da libertação. entre outras. München: Kaiser. 47 Cf. teologia negra. Belo Horizonte. 2011. v. 46 Tinyiko MALULEKE. Wolfgang Vögele. 88. não há explicações sobre o termo “público” ou “teologia pública”. 11-28. p. William F STORRAR. Christine LIENEMANN-PERRIN. New York: Continuum. No mais. é aqui que também encontra forte resistência. International Journal of Public Theology.43 Defendeu. Ironicamente. 137: a Teologia da Libertação seria “uma Teologia pública e profética”. Parece ser um termo demasiadamente harmonioso para uma “nação raivosa” (angry nation). teologia feminista. por um lado. em Wolfgang HUBER. Wolfgang LIENEMANN (Org. discursiva e democrática”. como teólogo e mais tarde como bispo e presidente do Conselho da Igreja Evangélica da Alemanha.OK. 1994. n. 2011. pois “está tocando em questões que envolvem toda a sociedade”. Paul Louis METZGER. ainda não falava de teologia pública. Apenas a partir de 1992 começou a falar de teologia pública e criou uma série de publicações (principalmente de teses de doutorado e livre-docência) sob este nome. Como fazer teologia da libertação. Petrópolis: Vozes. 79-89. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .

citado no caderno especial do The Economist.especial em sua vertente de Vida e Ação (Life and Work). 1989. 48 Cf. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . a formulação de uma teologia pública vai mover-se de singularidade em singularidade. Nesse sentido. aqui. 2010. há apenas momentos históricos de teologia pública. afirma Smit. Rogério S. Chicago: University of Chicago Press. Buenos Aires: Adriana Hidalgo Editora. Belo Horizonte. o desafio da interculturalidade. instrutivos e inspiradores precisamente em sua singularidade. Europas Angst vor der Religion.OK. 51 José CASANOVA. Roberto ZWETSCH. o específico. se a teologia pública pode ser considerada um novo paradigma teológico. ZWETSCH. Stellenbosch: Evangelical Reformed Church & Uniting Reformed Church. baseado em Thomas Kuhn e sua compreensão de paradigma como estado “normal” da ciência num momento histórico específico. na conclusão. 53 Cf. Número 122. Politik. Smit apresenta uma sexta narrativa. 10:26 .pmd 24 23/5/2012. 2009.50 Especialmente a Europa. conforme José Casanova. Religiones y culturas indígenas: a propósito de una teología pública intercultural. teria uma “ansiedade diante da religião”51. como ressalta Smit. Philip Jenkins. Acrescento: está claramente lançado. 49 Cf. algo visto. LINK.: Lembeck. Johann WEUSMANN. Konrad RAISER. Auf der Suche nach einer zukunftsfähigen Weltordnung. 52 Cf.53 Não há. o depoimento do historiador e estudioso do cristianismo mundial hodierno. “uma disciplina nova e normativa de teologia pública. Macht. Giorgio AGAMBEN. SINNER.. outra noção de paradigma. Ano 44.M. p. 11-28. Berlin: Universitätsverlag. Dreaming a different world: Globalisation and Justice for Humanity and the Earth – The Challenge of the Accra Confession for the Churches. 50 Cf. 2: “a religião é a principal força animadora e destruidora em assuntos da vida humana” (religion is the prime animating and destructive force in human affairs). de 3 de novembro de 2007. In: ibid. David TRACY. Gütersloh: Kaiser. Hans KÜNG. sob o título “In God’s Name: A Special Report on Religion and Public Life”. 24 Perspectiva Teológica. Frankfurt a. Allan BOESAK. 54 Cf.). Religion. por muitos. sobre teologia e o retorno público do religioso. sobre a temática em geral veja também o já clássico Public Religions in the Modern World. 1994. 2012 [no prelo].49 (6) Por fim. o próprio Kuhn apresenta. in JACOBSEN. paradigma não é a regra geral. 1994. p.” Portanto. como evento ambíguo. Charles AMJAD-ALI (Org. Sentando na rede indígena para ouvir melhor: desafios da questão indígena para a teologia. buscando tratar de questões de uma teologia pública (sem utilizar o termo) sob condições mundiais. 2009. Ökumenische Sozialethik. Smit pergunta. Uma teologia pública incapaz de auscultar expressões culturais em sua diversidade e de respeitá-los perde qualquer capacidade de fomentar o diálogo e formular conceitos54. em diálogo entre igrejas do Norte e do Sul. mas o particular. Ao descrever estas narrativas. Paradigm Change in Theology: a Symposium for the Future. Graciela CHAMORRO. retomada por Foucault e enfatizada por Agamben. New York: Crossroad. Martin ROBRA.48 Sonha-se com um mundo diferente. 2010. particularidade em particularidade. uma pergunta já levantada por David Tracy.52 Contudo. Signatura rerum: sobre el método.

11-28. nas quais participaram não poucas pessoas evangélicas. conforme nos recorda Michel Foucault. de fato.56 O fato de Jesus ter sido morto pelas autoridades públicas mostra como. especificamente.pmd 25 23/5/2012. 55 Perspectiva Teológica. a partir de anotações do depoimento de um teólogo presbiteriano nordestino. disponível em http://tede. e nada disse em oculto” (Jo 18. como diz Eneida Jacobsen. como dizia o teólogo alemão Johann Baptist Metz. 2012). Petrópolis: Vozes. 1995. feitas na época. interessar-se pelo bem estar não apenas dos seus membros. São Paulo: Fonte Editorial.20). acreditando tratar-se de um codinome. 2011. as quais passo a apresentar de forma sintética.57 A Bíblia contém. com ousadia. sua mensagem foi ouvida é tida como risco à sociedade. 13-35. a Bíblia. no “mundo de vida” brasileiro. onde todos os judeus se reúnem. 57 Agradeço ao colega Antonio Carlos Teles da Silva por ter-me propiciado esta informação. é que o cristianismo é uma religião intrinsecamente pública. Seu texto-base. mas também daqueles que não fazem parte de uma igreja ou comunidade. in Jaci MARASCHIN. Sobre a conexão entre Julião e “os Bíblia” (evangélicos pentecostais). Frederico Pires PIEPER (Org.br/tede/tde_busca/arquivo. 2008. Ed. e com frequência as igrejas se pronunciam sobre assuntos de interesse público. p. Também mais tarde não seria diferente. E não pode ser diferente: Como disse Jesus diante do sumo sacerdote: “Declarou-lhe Jesus: Eu tenho falado francamente ao mundo. São Leopoldo: Escola Superior de Teologia. esp. mas também igrejas protestantes e pentecostais fazem amplo uso de meios de comunicação para transmitir o que entendem serem contribuições para o bem público. 56 Michel FOUCAULT. p.OK.Por que uma teologia pública a partir do contexto brasileiro? Por vários motivos. as autoridades do regime militar emitiram um mandado de prisão para o tal de Isaías. No Brasil. Teologia e pós-modernidade: novas perspectivas em teologia e filosofia da religião. a Igreja Católica Romana. Vítor WESTHELLE. citou-se o profeta Isaías. (1) A religião cristã é uma religião pública. Eneida JACOBSEN. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . “ancorada”. Nas ligas camponesas de Francisco Julião. suas celebrações e atividades são públicas. Número 122. “Parrhesiastes”. veja Francisco Cartaxo ROLIM. 27. portanto. Fearless Speech.edu. considero quatro elementos centrais para este meu postulado. cf. Ano 44. no sentido de transmitir sua mensagem ao público mais amplo. Prontamente.55 Sem pretensão de ser exaustivo. 105ss. 2001. creio que o termo “teologia pública” poderá ser e está sendo útil para uma discussão inovadora sobre o papel da teologia e das religiões no espaço público brasileiro. Pentecostalismo: Brasil e América Latina. Jesus falou com “parrhesia”. Joseph Pearson. é aquele que diz a verdade ainda que signifique risco para ele dizê-la. Dissertação de Mestrado. Los Angeles: Semiotext(e). Belo Horizonte. 10:26 25 . A teologia ancorada no mundo da vida e dialogicamente situada na esfera pública: uma contribuição ao debate contemporâneo sobre teologia pública. A primeira tese. Traumas e opções: Teologia e a Crise da Modernidade.php?codArquivo=300 (acesso em 14 mar. ensinei continuamente tanto nas sinagogas como no templo. uma “memória perigosa”. como é a palavra grega aqui traduzida como “francamente”. p.est.).

na minha percepção. não confessional.475.(2) O Brasil passou de um período de alta repressão política e econômica para uma democracia estável e para uma economia própria e forte. 2011. Leonardo AVRITZER. no Brasil um espaço 58 Cf. de públicos participantes. Uma teologia pública procura refletir sobre e dar orientações para uma atuação saudável das igrejas neste novo espaço público. que é membro do Conselho) colaborou na reformulação do artigo 33 da Lei das Diretrizes e Bases da Educação (LDB). 10:26 . e preza por maciça presença pública mediante mídia impressa. “vedadas quaisquer formas de proselitismo”. São Leopoldo: Sinodal. ainda. para assumir o poder. que definiu o Ensino Religioso em escolas públicas como “parte integrante da formação básica do cidadão”. que evitou uma discussão com os organismos cabíveis. 2008. Remí KLEIN. Belo Horizonte. é a reconstrução do templo de Salomão como templo da IURD. em São Paulo. nem impor-se para dominar o mundo.59 Outro exemplo é a pretensão de poder cada vez mais explícita da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). 2008. já em execução. Número 122. para o qual já “não tem jeito”.html (acesso em 14 mar. de 22 de julho de 1997. p. 61 Cf. e. São Paulo: LTr. Os desafios do Ensino Religioso na escola pública. SINNER.61 Foi ousado na humildade. Sobre a construção do templo de Salomão. Democracy and the Public Space. mostrando sua força pela fraqueza. Rio de Janeiro: DP&A. Veja. Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9. Sem idealizar ou esquecer-se da gritante pobreza e desigualdade que ainda persistem. A mensagem de Jesus crucificado é tão forte precisamente porque venceu a morte pela morte. edição e notas Antonio de Paulo.r7. O segundo pressuposto é. Diplomacia Pontifícia: Acordo Brasil-Santa Sé: Intervenções. que dá nova redação ao art. 26 Perspectiva Teológica. 2002. 2012).com/sao-paulo/noticias/ comeca-a-construcao-da-replica-do-templo-de-salomao-em-sao-paulo-20100914. 2012 [no prelo]. por implicação. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil. Princeton: Princeton University Press. “Saudável” quer dizer que não procure nem rejeitar o mundo como algo intrinsecamente mau. Geraldo Korndörfer. o núncio papal Lorenzo BALDISSERI. de igrejas e da própria teologia deverá ser marcada por ousadia. como algo amplo. Plano de poder: Deus. mas também com humildade.393/96). O próprio CONIC (com participação da Igreja Católica. 60 Cf. BRASIL. 2005. eletrônica e prédios gigantescos.pmd 26 23/5/2012. o espaço público brasileiro mudou e hoje permite ampla participação de diferentes públicos. firmado em 2008 e ratificado em 2009. inclusive o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC). Vítor WESTHELLE. p. 58 Um exemplo importante de tal participação é o orçamento participativo. Carlos OLIVEIRA.60 Ao contrário disso. Apresentação Carlos Roberto Jamil Cury. 59 Cf. in JACOBSEN. O Deus escandaloso: O uso e abuso da cruz. 11-28.OK. Edir MACEDO. os cristãos e a política. ambas em fase de ascensão e aprofundamento. onde fala de “participatory publics”. ZWETSCH. que já no seu nome compete com a Igreja Católica Romana. a abordagem do arquiteto do acordo. uma atuação pública de cristãos. Ano 44. Trad. portanto: Há. Exemplos do último. humilde na ousadia. 42 e 90 (onde consta a Lei 9. hoje. 9ª ed. O último projeto. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . são a introdução forçada de um Ensino Religioso confessional através do Acordo entre o Estado brasileiro e o Vaticano. 33). onde também se encontra o texto completo do acordo. veja a notícia de 14 de setembro de 2010 em http://noticias. enxergando-as como instituições da sociedade civil.

Surgiram. os questionamentos quanto a uma teologia pública demasiadamente “igrejeira”. mujerista nos EUA e em outras partes do mundo. compreender em vez de ficar no preconceito. 2012 [no prelo]). Rosino GIBELLINI. in JACOBSEN. Gozam de ampla confiança da população. quanto da mobilidade religiosa e dos sincretismos que há na população brasileira (BARTZ. p. bem como a teologia pública que ali está sendo desenvolvida num período pós-apartheid. Perspectiva Teológica. neste mesmo sopro do vento libertador. 11-28. Da mesma forma. para muitos. 2011. womanista. p. Este é. portanto. as contribuições na publicação de SOARES.pmd 27 23/5/2012. as teologias feminista. 2012 [no prelo]). uma sociedade civil forte. com dados de pesquisas. 63 Cf. Nenhuma instituição neste país tem tanta capilaridade como as igrejas. Alessandro. no âmbito acadêmico da EST ou de outras instituições. à sua região de origem. (4) A teologia no Brasil adquiriu notoriedade internacional. SINNER. interagir em vez de polemiszr.63 A teologia. mas não por último para ficarmos atentos em questões de racismo num país como o Brasil que nunca teve 62 Veja Rudolf von SINNER. o terceiro elemento: uma teologia pública se faz com propriedade científica. Teologia. com documentação e reflexão. 9-25.62 É um grande potencial. 2007. A teologia da libertação brasileira e latino-americana repercutiu no mundo inteiro.. na Coreia do Sul. Aprendem a argumentar em vez de decretar. pela primeira vez. 10:26 27 . Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . novamente. disto estou convicto. construindo parâmetros curriculares em diálogo com a própria comunidade teológica cristã e de outras religiões. o que chama por grande responsabilidade. formando teólogas e teólogos críticos e comunicativos sob supervisão do MEC.OK. são inspirações para nosso contexto em vários aspectos. informada. para a paz religiosa e social neste país. assim. Iuri Andréas. da qual também fazem parte as comunidades religiosas. Essa plataforma de conversa e aprimoramento acadêmico contribui. a teologia do minjung.64 Assim. o Brasil é uma referência nas suas experiências e reflexões teológicas. 1998. Não poucas vezes. ZWETSCH. as teologias negras nos Estados Unidos e na África do Sul. Número 122. crítica e autocrítica. 64 Cf. contudo. arte e cultura: os caminhos da teologia do cotidiano. Vendo a amplitude do estudantado na EST. quanto à sua formação prévia. Belo Horizonte. Confiança e convivência. A teologia no século X.. in JACOBSEN. a teologia queer e outras mais. 347s. Abriram-se novos espaços para a teologia entrar num verdadeiro diálogo na universidade. São Paulo: Loyola. in ID. a teologia negra de libertação na África do Sul. por exemplo. Ano 44. que ali dão sua importante contribuição. Noto. mas também interdisciplinar. a teologia dos Dalits. (3) A teologia no Brasil adquiriu maioridade acadêmica. mostra-se que a contribuição desta formação vai bem além dos muros de qualquer igreja. SINNER. p. tanto do ponto de vista de uma teologia do cotidiano (REBLIN. pessoas oriundas de tantas tradições diferentes se falam. do povão. PASSOS. Limites para uma agenda pública das igrejas na alta modernidade. se mostra confessional e ancorada na tradição. a seu interesse específico e à sua religiosidade (incluindo-se pessoas agnósticas).público vibrante. ZWETSCH. dos sem-casta da Índia.

Entendo essas minhas linhas como primeira tentativa de colher frutos da emergente reflexão sobre teologia pública no Brasil. Ano 44. a discriminação de acordo com a cor da pele. Minha esperança é que. como disse. e Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa. sobre a pertinência dos crucifixos em tribunais (e outras repartições do poder público) e as atividades políticas de evangélicos (e quaisquer outros grupos religiosos) precisam de ampla reflexão não apenas a partir de um Estado neutro em assuntos de religião que garanta a liberdade religiosa.br 28 Perspectiva Teológica. Portanto. mas onde também reina a “pigmentocracia”. RS www.pmd 28 24/5/2012. África do Sul). Rudolf von Sinner é doutor em teologia pela Universidade de Basileia.est. o colega Rothney Tshaka. 467 Caixa Postal 14 93001-970 São Leopoldo. Norteadas pelo bem comum. Professor de Teologia Sistemática.segregação sistemática de raças. este é o quarto pressuposto.OK. Lidera o Grupo de Pesquisa Teologia Pública em Perspectiva Latino-Americana. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . mas das próprias igrejas e da teologia. nos honra. 11:42 . em recente seminário.edu. de compará-la com abordagens em outros contextos e de identificar seus principais desafios e oportunidades. Esta inserção internacional. tornando-a reconhecida e participante na construção da cidadania. no Brasil. dessa maneira. 11-28. Eis a importância de uma teologia pública. devem atuar com ousadia e humildade em vez de corporativismo. e livredocente pela Universidade de Berna. da UNISA (Pretoria. nos inspira e nos responsabiliza. Belo Horizonte. uma maturidade social. Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso na Faculdades EST em São Leopoldo. a teologia na qual labutamos todos esses anos adquira. ambas na Suíça. os desafios incialmente citados. E n d e r e ç o : Rua Amadeo Rossi. p. Número 122. RS.

by focusing on three distinct notions of public discourse. Subsidiarity. como pela razão contemplativameditativa e profética da Publicidade Três. i. Ano 44.. from ancient Greeks until today: hence. Publicness. Subsidiariedade. concretized in its central ideas of the person. Publicidade. the hermeneutical reason of Publicness Two. Publicness One. a solidariedade. a sua auto-compreensão de comunidade. ABSTRACT: The author suggests reopening the discussion on religion. Hermenêutica. conceitos centrais sobre o bem comum. all these resources should play a strong role in the public realm of our society through either the argumentative reason of Publicness One.pmd 29 23/5/2012. not the individual.A TEOLOGIA NA ESFERA PÚBLICA: TRÊS TIPOS DE DISCURSO PÚBLICO Theology in the Public Realm: Three kinds of Public Discourse David Tracy * RESUMO: O autor sugere reabrir a participação da religião na esfera pública.OK. its communal self-understanding. As afinidades da teologia católica com a filosofia e a razão. 29-51. 10:26 29 . pela razão hermenêutica da Publicidade Dois. tanto por meio da razão argumentativa da Publicidade Um. concretizada na sua ideia central de pessoa e não de indivíduo. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Catholic theology’s natural affinities for the role of philosophy and reason.CHAVE : Esfera pública. considerando três noções de dimensão do discurso público. P ALAVRAS . solidarity. Dois e Três. o seu repensar sempre novo da relação intrínseca entre o amor e a justiça. or the contemplative-meditative and prophetic reason of Publicness KEYWORDS: Public Realm. Perspectiva Teológica. central concepts on the common good. Hermeneutical. que o autor vai chamar de: Publicidade Um. its ever new rethinking of the intrinsic relationship of love and justice.Belo Horizonte. todos esses recursos deveriam desempenhar um papel forte na esfera pública de nossa sociedade. subsidiarity. publicness. Reason. as a public contribution to the public realm. Razão.e. Número 122. a subsidiariedade. Two and Three. p.

pmd Perspectiva Teológica. Belo Horizonte. caráter. qualquer modelo de teologia – do clássico fides quaerens intellectum a qualquer modelo contemporâneo – exige questionamento e. Ano 44. pública. índole. ou combinando diversos termos. porém. ora por “argumento”. Envolver-se num debate é apresentar afirmações e dar as evidências. Daí: “Publicness Um. Dar razões é estar disposto ao debate. transparência. “publicidade”. 3 NT: traduzimos argument ora por “debate”. Talvez seja útil reabrir a discussão sobre religião na esfera pública com foco em três noções distintas de razão ou discurso público – publicness – desde os gregos antigos (Hannah Arendt versus Martin Heidegger) até hoje. dialética e debate 3 A verdadeira discussão pública deve ser investigação ou questionamento livre. mas porque a investigação como tal exige liberdade. A questão central desta primeira reflexão deve ser: o que é investigação? No nível mais simples. ser coerente. Ser razoável não inclui a necessidade de ser lógico. “Publicness Um”. Dois e Três”. 2 NT: dependendo do contexto.Introdução N as sociedades democráticas pluralistas e seculares.OK. a principal característica da esfera pública é que a noção de publicness 1 é definida pela compreensão subjacente acerca do que é razão. por conseguinte. os neo-escolásticos tardios. 30 perspectiva 122 . nem pelos procedimentos dedutivos do silogismo tradicional. Dar razões é tornar a afirmação compartilhável. discurso público ou. Jan/Abr 2012 30 23/5/2012. a rigor. traduzimos inquiry por “investigação” ou por “questionamento/interrogação”. pertencente aos direitos humanos. 10:26 . a investigação 2 racional: análise lógica. Por exemplo. mas não é a única. nem pela compreensão estreita da lógica ou da evidência. 29-51. garantias e fundamentos para o que foi afirmado. Traduzimos de acordo com o contexto. “argumentação” ou “arguição”. O debate não se exaure. participar de uma investigação é providenciar razões para as afirmações que alguém faz. p. O debate é a forma mais óbvia de investigação disciplinada. pensavam de modo diferente. Os teólogos escolásticos clássicos sabiam isso muito bem. liberdade para que a investigação possa funcionar. Ser lógico é não se contradizer. Às vezes – especialmente em questões de religião – a 1 NT: publicness: razão. Número 122. por estarem mais preocupados com certezas do que com a compreensão e a investigação. não apenas porque a liberdade é um valor básico. Argumentar é ser tão coerente quanto o tema assim o permitir.

mas não podem substituir essa afirmação. o idealismo. lógica. Número 122. o positivismo. chamou seu posicionamento em questões religiosas de “on the wholism”. corretamente insistiu. Por ora. Como Aristóteles. Ano 44. Assim alcançamos um juízo virtual. garantias e fundamentos relevantes para o assunto concreto em discussão. tem-se o direito racional de afirmar ter chegado a um juízo razoável. as questões relevantes e as evidências são dirigidas à relevante comunidade de investigação. geralmente determinada por um duplo condicionamento: uma noção de racionalidade muito estreita (por exemplo. Tal juízo de adequação relativa de nenhum modo equivale ao relativismo moderno.OK. James. mas jamais um juízo absoluto (geralmente em questões religiosas um juízo de adequação relativa). Esses critérios se mostrarão – em qualquer caso em que não se trate de mera coerência – critérios de adequação relativa quanto ao assunto apropriado e quanto às evidências atualmente disponíveis em relação ao assunto. os argumentos devem ser sempre adequados ao tema em discussão (por exemplo. Como consequência do compromisso com o debate público aparece a disponibilidade de tornar explícitos os critérios adequados ao assunto específico sob discussão. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . juízos de adequação relativa. no caso de Aristóteles) serão válidos quando alguém tem uma afirmação metafísica ou teológica estabelecida. Menos criativo do que James. com o tipo de evidência apropriada ao assunto em discussão.coerência será uma “coerência tosca”. Perspectiva Teológica. 29-51. Argumentar é. ou o que William James. Quando se permite que a razão funcione normalmente. Neste caso. também. se juntou a uma noção muito fraca da capacidade da razão de autocorrigir-se. acompanhando a excelente descrição de Bernard Lonergan sobre o julgamento verdadeiro como virtual e condicionado. chamou de coerência no geral. em The Varieties of Religious Experience [As Variedades da Experiência Religiosa]. um juízo público (quer como conhecimento ou como crença razoável). em tom tão jocoso quanto sério. ela pode ser confiável se queremos alcançar juízos que são virtualmente incondicionados. Argumentos políticos (mais precisamente ético-políticos. Argumentar é engajar-se – para defender e corrigir suas afirmações diante da comunidade maior da investigação – oferecendo provas adequadas. on the whole. o cientificismo) que. p. Em juízos de coerência. no entanto. De fato. eu chamei as evidências e a coerência que se deseja no que é estritamente religioso (assim como as exigências estéticas e éticas da publicness) de exigências de “adequação relativa”. que é uma posição desesperada. política etc. poética. metafísica. ou seja.Belo Horizonte.pmd 31 23/5/2012. como insistem Aristóteles e Tomás de Aquino.). retórica. isto é. não absoluto. ética. curiosamente. o “mestre da argumentação”. Assim. usar um juízo político como argumento adequado para a metafísica ou a teologia (e vice-versa) é cometer um erro de categoria. ficar satisfeito. é racional mudar a decisão anterior. Depois podem aparecer questões mais sofisticadas e novas evidências relevantes. 10:26 31 .

as suas filosofias geralmente têm origem em implicações cognitivas da teologia católica. por exemplo. Muitas posições originariamente religiosas. tanto da igreja quanto do estado. Quando isso acontece. por Marsílio de Pádua.OK. ou no conceito relacional de pessoa (por primeiro.Se existe uma “comunidade de investigação”. Sem dúvida. pode-se e deve-se confiar no processo de autocorreção da investigação. devidamente instituída por uma secularidade comunitariamente respaldada (democrática. nos entendimentos analógico-teológicos da relação entre graça e natureza. em princípio. p. Toda investigação séria submete seus resultados a determinada comunidade de investigação.pmd Perspectiva Teológica. Isso se tornou ainda mais claro na modernidade. distinto do indivíduo liberal moderno) e em outros relacionamentos sociais. um conceito filosoficamente relacional. num moderno “personalismo” histórico e sociológi32 perspectiva 122 . uma comunidade de investigação deve ser democrática e. Como em toda investigação. onde todos são iguais e todos estão obrigados a produzir e a fornecer evidências. para detectar e corrigir os erros quando se articulam os argumentos. Todo silenciamento secular de afirmações religiosas no discurso público é uma posição claramente irracional. radicalmente igualitária. um conceito teológico e. “salário justo”. desde Leão XIII. mesmo. O personalismo não teve origem. John Courtney Murray e Jacques Maritain) defendendo suas posições com argumentos puramente filosóficos. 29-51. a esfera pública societária. por exemplo. entre caridade e justiça social. Número 122. em princípio – e isso acontece quando os temas religiosos são. pluralista e igualitária) vai se abrir a uma ideologia do secularismo (por exemplo. Nesse sentido. garantias e fundamentos. isto é. pode haver erro. Ano 44. “bens” e “direitos” humanos. “tolerância religiosa” e “pluralismo” para as modernas sociedades seculares democráticas. No entanto. Belo Horizonte. existe uma esfera pública na qual argumentar não é apenas permitido. a qual é ciente dos critérios e evidências do assunto particular em discussão e guiada por eles. como frequentemente se afirma na história da filosofia moderna. 10:26 . mesmo antes da modernidade secular. inevitavelmente. mas exigido de todos os participantes. Isto significa que a verdade pode conduzir a algum consenso – um consenso razoável da comunidade de investigação. pública no sentido mais fundamental: no sentido de que ninguém tenha status privilegiado no debate. quando as tradições católicas de justiça social. O consenso que emerge deve ser um consenso que corresponda à melhor evidência. empregaram uma noção tomista de razão para argumentar a favor de noções como “bem comum”. Este permanece sendo o coração epistemológico-ético de qualquer noção séria de investigação e a primeira noção de publicness (“transparência pública”). a laicidade em 1905 na França). Jan/Abr 2012 32 23/5/2012. Não é difícil encontrar filósofos e teólogos católicos na ética e na política (por exemplo. foram amplamente debatidas na esfera pública. “solidariedade”. posteriormente. silenciados e tratados de modo não adequado à esfera pública.

Recusar-se a apoiar tais contribuições públicas religiosas na esfera pública é. amiúde não reconhecido (por muitos teóricos liberais). evento. como Charles Taylor persuasivamente argumenta. dificilmente podem ser distinguidos do debate. como nova categoria filosófica. Isto. Número 122. por considerar a religião como parte da esfera pública: assim. que defende – corretamente. na ética ou na religião). que procura o discurso público e que. igualdade entre todas as pessoas e todos os outros “participantes” (por exemplo. outro candidato. “Publicness Dois”: diálogo com os clássicos A primeira incumbência da investigação e da razão pública é. é distinto do debate: o fenômeno do diálogo com todas as expressões clássicas (de qualquer texto. tradicionalmente. a moderna separação secular da Igreja e do Estado (como a defendeu o Concílio Vaticano II) auxilia todas as posições publicamente arrazoadas nas questões públicas sobre a justiça. símbolo. Com a possível exceção do caso historicamente complexo da França (a lei de 1905). acolhe esse primeiro modo de publicness. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .Belo Horizonte. história.OK. a responsabilidade de dar as razões e de prover o debate. no sentido epistemológico geral. trair tanto a razão quanto a publicness. A esfera pública é esfera de conversação civilizada antes de ser esfera do debate. Reconheçamos que a conversação ou o diálogo são fenômenos que. Estes critérios gerais de razoabilidade são praticamente idênticos aos que Jürgen Habermas desenvolveu para a comunicação. na minha opinião – o diálogo/conversação acima do debate como forma primária de questionamento racional. A noção de pessoa individual como realidade intrinsecamente relacionada (pros-ôpon. probatórios em relação à justiça social. ao contrário de Hans-Georg Gadamer. portanto. verdade (garantias/evidências). o personalismo se mantém distinto do individualismo liberal. ironicamente. os argumentos fundamentados. levantadas por instituições e pensadores religiosos. p. Assim. Ano 44. ainda. por analogia. música. O debate. um texto: a leitura é também um diálogo). imagem.co. debatidos. per-sona) tem origem nos Padres Capadócios. seja na arte. necessária para ajudar a compreender as relações trinitárias e posteriormente aplicada. a “separação” entre Igreja e Estado. intrinsecamente relacional. porque não há conversa ou diálogo verdadeiro se não forem observados os critérios gerais válidos para toda investigação: inteligibilidade (coerência).pmd 33 23/5/2012. 10:26 33 . Perspectiva Teológica. aos seres humanos como imago dei. Há. Gadamer está para Habermas como Platão está para Aristóteles. embora lhe seja relacionado. É uma noção fundamentada na relação trinitária e. portanto. 29-51. embora o próprio Habermas focalize o debate puro. significado certo/exato (o que você diz significa o que você quis dizer). foi e continua a ser a principal aspiração da investigação. Na maioria das modernas democracias seculares.

só o debate técnico sobre meios eficientes pode ser debate racional. precedem as dificuldades da religião na esfera pública. Não é apenas a religião que fica excluída da esfera pública. Os “Fundadores” não previram uma situação em que a esfera pública do debate e diálogo político fosse tragada pela esfera tecnoeconômica. 29-51. a invasiva esfera tecnoeconômica. proporcionam poderosas visões do Deus que valem para a sociedade são impedidas de adentrar a esfera pública. nessa linha de pensamento. o resto sendo questão de preferência pessoal. Alegará que tal debate é tão impossível (por causa do pluralismo de bens na sociedade moderna) quanto irrelevante. e não os bens. uma vez que o nome de seus autores era um segredo guardado a sete chaves. seculares e democráticas. da razão exclusivamente técnica) gradualmente vá conquistando e colonizando a esfera política em que todos nós nos encontramos – restringe o debate aos termos da “Publicness Um”. A questão é recorrente: existe uma segunda forma de publicness que possa permitir uma discussão sobre os bens. juntamente com as artes. cada vez mais acontece o mesmo com uma razão que pretenda abranger mais que os argumentos cientificistas ou tecnoeconômicos (ou exclusivamente técnicos) que consideram apenas os meios. confinará o debate aos meios eficientes e rejeitará o debate político tradicional como sendo de metas ou objetivos. Belo Horizonte.pmd Perspectiva Teológica. 10:26 . embora nela exista maciço sofrimento global de povos e regiões inteiras. Ano 44. uma vez que. a menos que debatam em termos da “Publicness Um” (como o fazem nas questões de justiça social) ou em termos da razão meramente técnica. de um modelo cientificista (não científico) de racionalidade e de uma esfera tecnoeconômica sufocando toda discussão racional e político-ética na esfe4 NT: The Federalist Papers é uma coletânea de 85 artigos que promoviam a ratificação da Constituição dos EUA. podem ser racionalmente debatidos. James Madison e John Jay e publicados em jornais entre 1787 e 1788. Mesmo Habermas – que analisa de forma convincente o perigo de que a esfera tecnoeconômica (portanto. sob pseudônimos. Sem uma noção de razão mais ampla do que a moderna racionalidade cientificista e meramente técnica no espaço público aberto da esfera política. tão poderosa tanto nas diversas sociedades como no âmbito mundial. Número 122. 34 perspectiva 122 . p. Mesmo Habermas acredita que apenas os direitos. As religiões que. Daí excluir-se qualquer discussão pública da justiça para os pobres e marginalizados na sociedade sempre mais globalizada do capitalismo tardio. Foram escritos pelos Pais da Pátria: os ¨Fundadores Americanos¨: Alexander Hamilton. à luz da razão? Os “Fundadores Americanos” achavam que seria viável uma discussão genuinamente pública envolvendo fins e valores políticos (como ocorreu nas extraordinárias discussões políticas tornadas públicas nos The Federalist Papers 4). com exclusão dos fins. Jan/Abr 2012 34 23/5/2012. amiúde aliadas.OK. As graves dificuldades intelectuais das posições.As dificuldades de uma esfera verdadeiramente pública em nossas sociedades contemporâneas.

ra pública de valores compartilhados numa sociedade democrática pluralista
e secular como a nossa, colocam em risco qualquer esfera pública. Às vezes
parece que a metáfora pessimista de Max Weber sobre a “gaiola de ferro”
é até mais exata do que a metáfora da “colonização” usada por Habermas,
ou mais do que a leitura bem mais otimista da secularização feita por
Charles Taylor (secularização distinta, é claro, do secularismo). Existe suficiente evidência social para sugerir que é bom prestar atenção tanto à
nova e brilhante narrativa de Taylor, com forte ênfase do que é ordinário
e comum num mundo secular, quanto às leituras mais pessimistas de Weber
e Foucault. Às vezes parece que a religião tem sido privatizada a tal ponto
que se tornou apenas mais um item de consumo segundo a preferência
pessoal. A esfera pública corre o risco de se tornar comercializada (ou
colonizada?) pelo rolo compressor ( Juggernaut ) dos poderes
tecnoeconômicos e tecnológicos do capitalismo tardio, que esmaga qualquer realidade alternativa – religião, arte, ética e, eventualmente, a razão
como tal.
Alguns pensadores religiosos defenderam admiravelmente a religião como
contribuição pública para o domínio público. Porém, essa visão foi abandonada por outros, que vivem o testemunho cristão, mas parecem relativamente despreocupados com a necessidade de aprofundar como as religiões podem desempenhar o papel de testemunho (que é com certeza um
papel admirável – nós sempre precisamos de testemunhos, tais como os
Amish ou as ordens de clausura), bem como o de mostrar sua relevância
como razão pública. Tal entrada na esfera pública da religião baseada na
razão pública pode acontecer por meio de debates (“Publicness Um”) ou
através do diálogo com os grandes clássicos, especialmente os clássicos
religiosos para as visões do Bem, incluindo a vida boa do indivíduo e da
sociedade.
Os grandes clássicos religiosos (textos, eventos, pessoas, rituais, símbolos),
mesmo para o não crente, têm muito a sugerir para a reflexão de qualquer
pensador sério na esfera pública. Ninguém precisa tornar-se budista para
aprender do budismo a extraordinária habilidade de pensar e de sentir-se
parceiro, e até coparticipante, de todos os “seres que sentem”. As tradições
budista e taoísta são tão perspicazes nas questões ecológicas como as tradições proféticas (judaísmo, cristianismo, islã) o são em questões de justiça
social. No primeiro caso, as tradições budistas e taoístas me parecem fornecer recursos mais sofisticados para repensar nossas relações com a Terra
do que as tradições proféticas. E quanto a estas, George Orwell estava certo
ao dizer corajosamente aos seus colegas pensadores seculares que as nossas sociedades seculares viveram ética e politicamente dos juros das tradições judaico-cristãs da justiça e do amor. Agora, porém, passamos a gastar
o capital e não só os juros. Sem aprender novos modos de diálogo com os
clássicos de todas as tradições (a começar pela nossa própria tradição cristã
católica), o pesadelo de Weber se torna mais e mais plausível: a religião
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ficará privatizada e sem pretensão de verdade pública; a arte será marginalizada, sem pretensão de revelar alguma verdade sobre a nossa condição, a ciência será interpretada apenas cientisticamente; a esfera
tecnoeconômica, com seu alcance global, manterá o seu brilhante sucesso
por meio da razão técnica. Assim, todas as antigas tradições particulares e
todos os seus recursos públicos para refletir sobre o Bem, nos seus clássicos, serão mais e mais nivelados pela tecnologia contemporânea global
(por exemplo, as novas tecnologias da informação) e pelas grandes economias capitalistas.
Neste cenário de pesadelo (que não é de todo implausível) qualquer esfera
genuinamente pública vai se tornando uma vaga lembrança do que um dia
foi um espaço aberto para todo debate sustentado na razão ou no diálogo
mantido por pessoas atentas, discutindo as visões do Bem, nos clássicos da
religião e da arte. Neste caso, a própria razão torna-se tão tecnificada que
pode somar-se a uma religião privatizada, a uma arte marginalizada. Eu
espero – e na verdade, eu rezo – para que este possível cenário não se torne
realidade. Mas as sementes estão aí. Talvez a religião – quando aparece na
esfera pública – possa não apenas enriquecer a discussão pública sobre os
fins (por exemplo, uma sociedade boa, promovendo o bem comum, a dignidade humana e os direitos de cada pessoa), mas também – e parece
irônico dizê-lo – ajudar a própria esfera pública para que ela mesma resista
à contínua colonização tecnoeconômica. Aqui, nem o otimismo, nem o
pessimismo é totalmente adequado. Ambas as perspectivas, das quais ora
uma, ora a outra parecem plausíveis, são baseadas em evidências sociais e
históricas parciais, bem como no estilo e na história de vida do autor que
as evoca. Para o cristão, no entanto, a esperança (com a fé e o amor) é uma
virtude sobrenatural, não natural. A esperança é puro dom da graça. Vivemos na esperança, e certamente podemos encontrar melhores modos de
comunicar publicamente a singularidade e a necessidade dessa esperança
para todo otimista ou pessimista que se disponha a ouvir.
É interessante observar o percurso intelectual de Jürgen Habermas. Originalmente, sua teoria da comunicação não considera nem a arte, nem a
religião como candidatas a gerador-da-verdade na esfera pública. Nos últimos dez anos, Habermas, com sua característica honestidade intelectual,
mudou de ideia: ele agora reconhece tanto a arte quanto a religião como
candidatas a gerador-de-verdade na discussão da justiça na esfera pública.
Contudo, Habermas ainda sustenta o que eu chamo de “Publicness Um”
(a arguição racional) como o único caminho para a religião e a arte serem
geradoras-de-verdade, à diferença dos recursos motivacionais na esfera
pública. Embora isto seja tão infeliz quanto desnecessário, Habermas não
está sozinho, pois, até recentemente, os teóricos católicos sociais (por exemplo, John Courtney Murray) relutavam em empregar seus recursos explicitamente religiosos (por exemplo, bíblico-proféticos) como recursos na
esfera secular, distinta da eclesial. É igualmente infeliz a relutância intelec36

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tual em ponderar como os clássicos da religião e da arte podem clamar
audiência pública e verdade mediante seu poder altamente “disclusivo”5 e
gerador-de-verdade (aletheia), distinto e anterior em relação à verdade
como correspondência que se alcança mediante diálogo, arguição ou método científico.
Daí a importância de outra forma de publicness. Há formas de conversação
tão diferentes no tipo de verdade que se pretende atingir (a saber, o
desvelamento ou manifestação – aletheia) que exigem uma reflexão: uma
conversação pública com os clássicos que se candidatam ao ingresso na
esfera pública.
Um clássico é um fenômeno cuja própria extraordinariedade e manutenção
de significado resistem à interpretação definitiva. Os clássicos da arte, da
razão e da religião são fenômenos cujo valor-de-verdade depende das possibilidades desveladoras e transformadoras que têm para seus intérpretes. Isto
significa que os clássicos da arte, da razão e da religião são susceptíveis de
manifestar significados desveladores e transformadores, bem como verdade,
num modo que não é redutível ao debate.
A verdade como desvelamento-transformação é o principal entendimento
hermenêutico da verdade (Heidegger, Gadamer, Ricoeur), disponível, em
princípio, a todos os que arriscam entrar em uma autêntica conversação
com os clássicos e com suas visões desveladoras-transformadoras do Bem.
Isto é especialmente apropriado para o principal modo de investigação
utilizado por teólogos como intérpretes críticos de textos clássicos, símbolos, doutrinas, narrativas, eventos etc. de determinada tradição religiosa.
No modelo hermenêutico está em primeiro lugar, na conversação-diálogo,
a entrada do intérprete no vai-e-vem de perguntas e respostas do “outro”
que é o clássico. O intérprete, naturalmente, entra com alguma pré-compreensão dessas questões e mantém sua atenção crítica ao longo da conversa, reconhecendo, por exemplo, que se apresenta uma visão clássica do
Bem necessitando crítica mais séria. Não obstante, o intérprete pode arriscar esta pré-compreensão, quando percebe a necessidade de atentar ao
clássico como autêntico outro. Esta necessidade de atenção pode variar
num espectro largo, desde uma tentativa de ressonância a um choque de
reconhecimento. Choque de reconhecimento é uma categoria estética análoga à graça da fé como reconhecimento da revelação. A experiência originária de qualquer clássico autêntico é a de uma realidade que é primeiramente reconhecida como importante e verdadeira na experiência de con-

5
NT: Traduzimos disclusive por “desvelador” e disclosure por “desvelamento”, por se
referir à potencialidade interna do texto, à diferença de “revelador/revelação”, termos que
em nossa tradição evocam uma instância externa. Disclosure aproxima-se de “manifestação” (cf. Ricoeur), “desclausuramento”, “abertura (de sentido)”.

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também de interesse para a esfera pública. Tomás de Aquino). Belo Horizonte. mas no movimento de vai-e-vem entre eles. Todo clássico é particular em sua origem e expressão. em princípio. uma interpretação diferente daquela de seu autor ou público original. mas por adentrar-se tão profundamente em sua particularidade (contexto histórico e pessoal. os erros – assim como a comunidade da esfera pública pode detectar quais clássicos religiosos são susceptíveis de ajudar na questão dos fins. assim. É importante notar que essa moderna compreensão hermenêutica de investigação enquanto conversação com os clássicos. haverá erros (como aconteceu para Agostinho. No entanto. O momento central da verdade nesta conversação com os clássicos da arte. adentrar numa conversação autêntica com. 10:26 . 29-51. o universal – por meio de sua profunda particularidade (assim Dante. Anselmo. mas público em seus efeitos. cristianismo e islamismo nas questões de justiça). Agostinho. Jan/Abr 2012 38 23/5/2012. Todos os grandes teólogos e filósofos (por exemplo. necessariamente. podese confiar que a grande comunidade de investigação teológica detectará. dos valores e do Bem (por exemplo. É o efeito do clássico que permanece público. Todas as pessoas razoáveis (não só os crentes) podem. da razão e da religião é o momento do desvelamento-transformação que pode ocorrer quando o intérprete arrisca chamar a atenção para o clássico (e. família. Quando eles a alcançam – inclusive quando empregam a razão crítica para purificar a visão desvelada pelo clássico (como quando Agostinho “desliteraliza” a apocalíptica cristã) – eles enriquecem a sua fé. Anselmo. O clássico alcança publicness não por rejeitar sua particularidade. p. no entanto. Simone Weil.OK. por exemplo. isto significa que a interpretaçãocomo-conversação será. nos grandes clássicos. nem no intérprete. não sua origem. temperamento pessoal) que ele. nesse empreendimento delicado de investigação crítica teológica. Se estamos realmente comprometidos com um clássico (e não meramente com uma peça de determinado período). Número 122. nem o destinatáriointérprete como meramente passivo. de todas as tradições. não vê o texto como puramente autônomo. provavelmente. Todos os clássicos autênticos. Claro que. Virginia Woolf). A origem do clássico é. Tomás de Aquino. se for o caso. essa interação é autêntica investigação que. paradoxalmente. atinge o status público – até mesmo. as declarações de Calcedônia). Como conversação.pmd Perspectiva Teológica. Proust. são candidatos ao desvelamento de alguma verdade na esfera pública. Os clássicos de todas as culturas funcionaram como fenômenos na esfera pública de alguma cultura particular através de suas compartilháveis pos38 perspectiva 122 . também produzirá uma reflexão crítica. Edith Stein) buscam a compreensão. Joyce.versação com o clássico. Ano 44. judaísmo. enquanto evento público adequado para a entrada nas discussões da esfera pública sobre bens e valores. A chave para a conversação com qualquer clássico não está nem no texto. fazer parte da conversação ampla com um clássico religioso. budismo e taoísmo nas questões ecológicas.

mais através da vaga. muito embora nenhum deles compartilhasse explicitamente a fé e a teologia cristã de Niebuhr. Morton White etc. uma vez que as possibilidades da visão “disclusiva” no clássico são percebidas como possibilidades. do que por meio de formas mais usuais de debate. porém não menos real. antes. Como parceiros de conversação. etc. Perspectiva Teológica. que gerou efeitos públicos. símbolos. 10:26 39 . Nós. sobre o pecado original) e suas interpretações de A Cidade de Deus. eles não vêm para receptores passivos. elas se nos apresentam como candidatas a um consenso sobre a nova possibilidade como tal para toda a comunidade de investigação – candidatas que agora funcionam com o impacto público de uma verdade como desvelamento. os questionadores. Santos. Eles leram a interpretação de Niebuhr sobre as doutrinas clássicas cristãs (por exemplo. Mas. bem como de conversação por parte de qualquer questionador curioso de fora da comunidade de fé ou de arte. profetas. devemos permanecer abertos à necessária recuperação de seus desvelamentos clássicos. – acharam o realismo cristão de Reinhold Niebuhr muito mais realista.sibilidades de disclosure e transformação. muitos agnósticos e pensadores políticos ateus daquele período – Arthur Schlesinger Jr. de Agostinho. com pretensão à verdade. toda tradição clássica. um bom coração atravessa todas as fronteiras. um clássico ou uma leitura que sejam inocentes. Os clássicos geralmente apelam primeiro à imaginação. Não existe uma tradição. Número 122. p. 29-51. politicamente falando. Por mais estranho que possa parecer.. como Walter Benjamin observou. Como parceiros de conversação. Visto que os desvelamentos nos clássicos da arte e da religião chegam a nós como questionamentos. o fenômeno da década de 1950 chamado “Ateus com Reinhold Niebuhr”.. no velho provérbio italiano. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . reivindicando nossa atenção. pessoas. não como resultado de explícita conclusão de argumentos. precisa tanto de recuperação quanto de crítica/suspeita. do que o de John Dewey. Todo grande trabalho de civilização. forma de investigação como conversação com os textos clássicos. devemos permanecer igualmente abertos a qualquer crítica necessária ou suspeita de eventuais erros. assim como a quaisquer distorções sistêmicas que podem estar presentes nos clássicos e na história dos seus efeitos. os santos nos ensinam que.Belo Horizonte. Todo grande clássico. na esfera pública.OK. Ano 44. Por exemplo. rituais. é também trabalho de barbárie. Eles aparecem. entre outras coisas. sábios podem passar à esfera pública e fornecer novos recursos para a nossa busca comum de valores. Todo clássico necessita de uma conversação contínua na comunidade constituída por sua história de efeitos. Essas possibilidades vêm a nós. místicos. para retratar e desvelar as ambiguidades. somos aqueles dispostos a entrar numa conversação com os clássicos particulares e autenticamente públicos. Podemos considerar como um bom exemplo de clássico cristão. não ao argumento ou à preferência.pmd 39 23/5/2012. apenas interessados em reconstruir suas origens (embora este possa ser um momento valioso na investigação).

uma vez expressa. as possibilidades utópicas nos clássicos escatológicos). 29-51. de um lado. Mas. Isso. por definição. enquanto os “Ateus com Niebuhr” não tinham tal choque de reconhecimento dos clássicos cristãos. razoáveis e responsáveis. sujeito às regras de publicness de toda a comunidade de investigação e interpretação. então também fornecem possibilidades públicas e desveladoras acessíveis a todos como apelo a outras possibilidades imaginadas (por exemplo. por um lado. 10:26 . Martin Luther King Jr. embora tivessem percebido. atentos. por meio da leitura de Niebuhr. os que a interpretam “de fora”. possuía um choque de reconhecimento (fé) quanto à verdade dos clássicos. bem como os expoentes da Teologia da Libertação ou da Teologia Política. Jan/Abr 2012 40 23/5/2012. de qualquer tradição. instintivamente sabem discernir quais os clássicos (especialmente místicos e proféticos) que geram verdade para todos os seres humanos sensíveis. A comunidade de investigação como interpretação dos clássicos também é responsável pela explicitação de seus critérios de relativa adequação para discernir a boa. por outro. A recepção efetiva de qualquer clássico incomoda e provoca. Grandes teólogos sociais. p. altamente pessoal. Eles deveriam apresentar também os seus recursos clássicos (especialmente bíblicos) como candidatos plausíveis à aceitação pública do valor-verdade embutido na totalidade de sua resposta – do extremo do choque de reconhecimento. ativistas como Dorothy Day.OK. Qualquer texto clássico.pmd Perspectiva Teológica. Mas se os clássicos religiosos de qualquer tradição particular forem clássicos autênticos. os participantes (crentes) desta tradição e. É improvável. portanto. a má e a melhor (mais adequada) leitura dos clássicos. um retrato mais verdadeiro e “disclusivo” da história humana e da sociedade. é público em seus efeitos. essa compreensão torna-se um tema público. É por isso que os clássicos são excelentes candidatos à discussão dos fins e valores para qualquer investigador na esfera pública. Ano 44. Número 122. Qualquer resposta pessoal ao potencial de desvelamento do clássico é. como crente e pensador cristão. Este é o paradoxo do clássico que. os pensadores religiosos não se devem limitar apenas ao debate racional na defesa de suas posições para se tornarem “recursos” na esfera pública.a tragédia e a esperança na história. como mencionado acima. Nesse contexto. Para toda a gama de respostas aos clássicos cristãos (mais exatamente os agostinianos) quanto ao ser humano e a história humana. embora sem choque de reconhecimento. e Dietrich Bonhoeffer. à totalidade de possibilidades do outro lado. É exatamente essa 40 perspectiva 122 . desencadeia uma reivindicação de atenção da qual é difícil escapar. correspondia o bastante ao clássico agostiniano para desvelar uma possibilidade humana pública. Belo Horizonte. guarda um certo resto e excesso de sentido que resiste a uma interpretação definitiva. que a mesma resposta aos clássicos de qualquer tradição religiosa particular seja encontrada entre. Niebuhr. embora particular em sua origem e expressão.

Belo Horizonte. Eles são como um ator autoconsciente que destrói a peça (a menos que seja uma peça de Brecht. no movimento de vai-e-vem do jogo. pelo contrário. a ponto de ficarmos. Esta provocação é pública e. A pior coisa que pode acontecer num jogo são os jogadores autoconscientes. Então surge a questão significativa: qual modelo pode ajudar a explicar essa interação pública? Aqui.reivindicação de atenção que faz com que a pré-compreensão de qualquer pessoa se divida num duplo reconhecimento. No vai-e-vem da conversação. Em segundo lugar. na qual a autoconsciência deve ocorrer como parte desse tipo de jogo dramático). de um lado. do ritual etc. Fundamental para esse fenômeno é o movimento de vai-e-vem do jogo em si. 10:26 41 . Primeiro. Como analisaremos na próxima seção. você assume a lógica da interrogação. possível portadora de verdade desveladora.OK. já que todas as três são relevantes para o debate público. A analogia do jogo é a primeira inovação de Gadamer para a compreensão da investigação como conversação. do evento. Por conseguinte. Eles literalmente não relaxam para entrar em interação. A segunda inovação vem de sua leitura de Platão. se atualizada no diálogo com o clássico. Partimos da crítica menos Perspectiva Teológica. você permite o pedido de atenção do outro. e o intérprete. o jogador tem que superar essa atitude autoconsciente para jogar. Como a hermenêutica se desenvolve a partir da fenomenologia. Ano 44. na “Publicness Três”. Ao mesmo tempo. existe sempre alguma interação entre um texto clássico.pmd 41 23/5/2012. Os Diálogos de Platão sugerem que há um tipo peculiar de jogo público que implica questionamento como conversação ou diálogo. 29-51. Número 122. pública e dialógica. evento ou símbolo. O que eu apresentei até agora é o modelo Gadamer-platônico básico de interrogação como diálogo ou conversação com clássicos. Gadamer está tentando descrever o fenômeno do jogo. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . do símbolo. reconhecemos o incômodo ou a provocação suscitados pela exigência de atenção que vem do texto. um texto que esteja lendo ou um evento histórico como o Concílio Vaticano II. seja este outro uma pessoa real com quem você esteja falando. ou seja. Você vai aonde quer que a pergunta o carregue. Dessa forma. totalmente absorvidos. você entra em conversação com aquele texto ou evento com uma crítica tão afiada quanto possível se o questionamento autêntico deve ocorrer na esfera do raciocínio. É preciso também que se considerem três críticas do modelo de Gadamer. do outro. Pense em qualquer jogo: o ponto alto do jogo não está na atitude dos jogadores. p. Hans Georg Gadamer causou grande inovação na investigação da conversação como um tipo particular de jogo. às vezes. deveremos até aceitar que nossa pré-compreensão muitas vezes precise ser perturbada por uma voz autenticamente profética para que ocorram questionamento e ação verdadeiros. passamos a conhecer quão contingente e histórica é a origem de cada uma de nossas précompreensões.

muitas vezes uma das partes necessita interromper a interrogação da conversação para permitir explicações. Em Aristóteles. às vezes. ao contrário. mas infelizmente só temos fragmentos deles. obviamente. no âmbito dos diálogos de Platão. mas nem sempre. Gadamer 42 perspectiva 122 . As teorias contemporâneas e os modelos explicativos são mais difíceis. p. Número 122. As primeiras interrupções de conversação. para conversar bem é preciso estar familiarizado com as teorias explicativas e métodos que informam os debates em todas as disciplinas: ciências sociais. O modelo hermenêutico de Ricoeur também insiste em que a interpretação é fundamentalmente uma conversação que tenta desenvolver a compreensão. se quiser fazer uma pergunta específica sobre um assunto particular. 10:26 . antropologia. mas não leva suficientemente em conta as interrupções ou rupturas necessárias em muitas conversações. a fim de desenvolver. Belo Horizonte. observando. teologia ou qualquer disciplina. desafiar ou alterar a sua própria compreensão originária. Essas teorias informam os tipos básicos de debates que.difícil. por exemplo. Também a segunda crítica a Gadamer não devasta o modelo de interpretação de clássicos como diálogo público e conversação. a de muitos críticos de Gadamer e que Paul Ricoeur desenvolve de modo mais persuasivo. sejam elas debates. pelo menos. que é também um teórico da hermenêutica. para usar a expressão conhecida de Ricoeur. Também Aristóteles escreveu diálogos de conversação. esclarece que. do modelo da “hermenêutica da suspeita”. teorias e métodos. necessariamente. Ricoeur. uma conversação precisa de interrupções. encontra-se uma discussão sobre quais tipos de debate você necessita. O que temos dele são coleções parecidas com tratados. teoria literária. É isso que torna tão complexa a esfera pública hoje. muitos diálogos em Platão. precisam de relativas interrupções do debate ou das teorias explicativas. Ano 44. isto é exatamente o que aconteceu quando Aristóteles interrompeu a conversação dialógica ocidental platônica e insistiu no debate de modo aristotélico. Qualquer investigação ou questionamento contemporâneo sério. mas. Esta crítica parte. algumas das quais ele mesmo provavelmente escreveu. as teorias explicativas básicas de Durkheim. com razão. Weber e Marx e seus sucessores. Jan/Abr 2012 42 23/5/2012. especialmente na esfera pública.OK. Na verdade. enquanto outras são anotações de aula de seus alunos. muitas vezes. tem que entender. incidem na tentativa de compreensão de qualquer fenômeno social particular. filosofia. Há. a sociedade moderna. a fim de serem entendidos. Na conversação. são debates.pmd Perspectiva Teológica. sustenta que o modelo de conversação que Gadamer desenvolve é basicamente correto. Os diálogos com os clássicos (“Publicness Dois”). embora o desafie mais ainda do que a primeira. teorias ou explicações. Também na nossa contemporaneidade. mas não são qualitativamente diferentes daquela interrupção aristotélica centrada nos modos de debates empregados pelos escolásticos clássicos. 29-51.

inicialmente. Ano 44. 29-51. mas também do paradigma pecado-graça. Ideologia. A “Publicness Dois”. mas a ilusão inconsciente. os místicos)? Aprender a discernir – interpretar – esses recursos e disponibilizá-los para a esfera pública é tarefa altamente necessária. importa uma afirmação mais forte da alteridade e da diferença na esfera pública da nossa sociedade secular. 10:26 43 . Número 122. A terceira correção é a que podemos chamar de insistência crescente (desde a formulação original da hermenêutica de Gadamer) sobre a alteridade e a diferença no debate. A esfera pública deve acolher todas as teorias críticas para ajudar a garantir que ela permanecerá genuinamente pública e não apenas um cockpit para amortecer o choque de egos poderosos e grupos exclusivistas. É por isso que o modelo da teoria psicanalítica clássica era tão caro à Escola de Frankfurt. Mas. Perspectiva Teológica.pmd 43 23/5/2012. Quem quer que aceite (como eu) que o sexismo. numa conversação particular com um clássico. as narrativas escatológicas. o racismo. Ambos têm uma grande confiança na tradição ocidental por ter em si os recursos necessários para quaisquer problemas com a tradição que possam surgir da conversação e do debate públicos. não é erro consciente. não o erro consciente. se possível. é que. e se surge a suspeita de que o problema. o que hoje chamamos de teoria crítica. o antissemitismo. precisa incluir uma hermenêutica da suspeita. a homofobia etc. É claro que o modelo platônico e gadameriano de debate como conversação insiste bastante na alteridade. sistêmica. Por que pensadores religiosos deveriam ignorar – como recurso público – os mais ricos aspectos de uma tradição (por exemplo. democrática e pluralista. sanar. no sentido rígido. a seu modo. mas de erros inconscientes e de ilusões que ocorrem sistematicamente (de onde a expressão “hermenêutica da suspeita”)? Logo começamos a encontrar um problema diferente para qualquer esfera pública. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . ou pelo menos ajudar a desfazer. o classismo.está para um clássico do humanismo europeu assim como Hans Urs von Balthasar para um clássico humanista cristão. ou a praticamente toda forma de ideologia crítica. os santos. ao contrário da “Publicness Um”. Pecado como desorientação do ser a respeito de si mesmo (como também pode acontecer a uma nação) é a suprema distorção sistêmica. porém. na conversação e nos debates tradicionais. p. as explicações e teorias funcionam bem quando o único problema é o erro consciente.OK. assim como a antropologia teológica precisa não só do paradigma natureza-graça. são mais provavelmente distorções inconscientes funcionando sistematicamente do que erros conscientes. A teoria crítica é uma forma de teoria desenvolvida para iluminar e. No entanto. não se contenta apenas com o simples consenso racional de valores compartilhados.Belo Horizonte. A dificuldade. o profeta. Ignorar a “Publicness Dois” (como muitos admiráveis pensadores religiosos o fazem) é empobrecer a esfera pública. mas inclui também meios capazes de permitir que as diferenças entre culturas distintas possam desempenhar um papel público. Precisa-se então de um novo tipo de debate. não é apenas de erros conscientes.

Primeiro. Sem essa atenção ao outro da conversação.pmd Perspectiva Teológica. 10:26 . complexa – e necessária. Jan/Abr 2012 44 23/5/2012. A hermenêutica é. como vimos acima. Devo permitir que me invada a autêntica alteridade. nunca se aprende nada.O primeiro passo nas conversações. em segundo lugar. Cada uma das três correções da interpretação como conversação. A conversação com os clássicos na esfera pública é difícil. um símbolo. o Incompreensível. é admitir a séria exigência de atenção do outro. como mencionado acima. Ano 44. embora Gadamer não a explicite como tal. O questionamento público – tanto a “Publicness Um” como debate e a “Publicness Dois” como diálogo com os clássicos – poderia granjear um ganho modesto. e por isso devemos considerar o modelo de questionamento na esfera pública não apenas como debate. à esfera tecnoeconômica e cultural) não se feche num sistema totalitário onde toda a realidade social. Belo Horizonte. mas num modelo mais amplo e flexível de questionamento público. Assim temos mais razão ainda para voltar a defender as duas reivindicações principais deste artigo: primeiro. “Publicness Três”: recursos para além dos limites da razão Ao contrário das duas primeiras formas de discurso público. mostrando como os clássicos religiosos podem funcionar na esfera pública. 44 perspectiva 122 . ninguém jamais está interagindo verdadeiramente com o outro. pois não há o outro. um evento. incluindo a conversação com os clássicos na esfera pública. A terceira forma de publicness baseia-se num paradoxo: a esfera pública necessita da ajuda de realidades além da razão pública. no entanto. cada um respeitando cada outro diferente. O questionamento público como diálogo com os clássicos. Número 122. a interação é não-interação. a Revelação/fé. p. caso contrário. ajuda qualquer comunidade pública de investigação numa esfera onde todos são em princípio iguais. mas real. e assim. o Inefável). é preciso cuidar mais radicalmente da alteridade de cada outro do que a hermenêutica já faz. o questionamento público não se constitui apenas no debate. todos devem ser ouvidos e todos são chamados a responder na conversação. seja esse outro uma pessoa. com seus apelos quer à razão dialética debatedora (“Publicness Um”). mas como diálogo. No pensamento contemporâneo (especialmente no chamado pós-moderno). para assegurar que a esfera política (relacionada. um ritual. 29-51. todos nós estamos sempre interpretando a fim de buscar a compreensão – portanto. o diálogo com os clássicos. um texto. baseada na noção de alteridade. porque já se sabe tudo o que se pensa ter que saber. Esta necessidade é dupla. de fato. questionando –. há o fato importante do valor público das realidades para além dos limites da razão (por exemplo.OK. quando bem montado. de fato. quer à razão dialógica hermenêutica ou à interpretação dos clássicos (“Publicness Dois”). é importante em si e está relacionada às outras duas.

Numa sociedade que funcione bem. a esfera cultural se encontra também sob ameaça se tudo. Uma das principais funções da esfera pública é assegurar. Ambos são necessários para a compreensão do cristianismo em sua plenitude. Em princípio. Na verdade. Ora. a “consumerização” da religião (especialmente nas crescentes megaigrejas) pode ser forte: a religião como mais um item de consumo para o indivíduo possessivo. tanto quanto for racional e legalmente possível. como mencionado acima. 29-51. Número 122. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Perspectiva Teológica. As “Publicnesss Um” e “Dois”. de fato. a meu ver. Rahner aceitou essa crítica “política” de Metz. Robert Bellah e outros estão certos: o individualismo possessivo é o principal problema da nossa sociedade. A separação entre Igreja e Estado destina-se a assegurar que as igrejas não controlem a esfera política e que o Estado não controle a esfera das religiões. nenhuma esfera domina as outras duas. a política e a cultural. É triste ver como o nobre ideal dos direitos humanos individuais degenerou até o individualismo possessivo. Se a religião se torna apenas mais um item de consumo para o indivíduo radicalmente autônomo. a qual inclui a arte. A “opção pelos pobres” é uma ideia valiosa. mas pelo que não fizeram: trabalhar a dimensão política (teologicamente: a profético-mística) de suas teologias. a esfera pública se situa tanto na esfera política quanto na cultural. Mesmo na religião.é constituída pelo político. um dos últimos artigos de Rahner é em defesa de Gustavo Gutiérrez.Belo Horizonte. destinam-se a defender a razão e a resistir às invasões sérias da poderosa e onipresente esfera tecnoeconômica. que compreende três esferas: a tecnoeconômica. for lido como político. que cada esfera execute a sua própria tarefa. 10:26 45 . estão corretos em suas críticas a Karl Rahner e Hans Urs von Balthasar – e a todas as outras tradições sapienciais – não pelo que eles fizeram tão bem (por exemplo. p.OK. os clássicos das diversas grandes tradições – sendo particulares e diferentes – fornecem novos recursos culturais e religiosos para a esfera pública. o marginalizado (a cristã opção preferencial pelos pobres). Nenhum teólogo precisa escolher entre o profético (éticopolítico) e o meditativo-místico-metafísico-estético. especialmente o pobre. e aquilo que exigem as obrigações e a responsabilidade para com os outros (o próximo não escolhido. Como já sugeri acima.pmd 45 23/5/2012. Metz continua a reconhecer sua grande dívida para com Rahner. mas para toda a esfera pública. Em princípio. Ano 44. Johann Baptist Metz e Gustavo Gutiérriez. Ambos contribuem para a discussão de valores na esfera pública. A esfera cultural da sociedade é tão ameaçada quanto a política pela invasão da esfera tecnoeconômica e pela consequente colonização da esfera cultural. o oprimido. não apenas o amigo próximo). a religião e a cultura popular. a religião trai dois aspectos centrais de sua natureza: a noção do eu intensamente relacional e comunitário. a teologia transcendental de Rahner e a teologia estética de Balthasar). e. na verdade. a sociedade é servida pela esfera pública. não só para a Igreja.

14). assim como a compaixão transformada pelas exigências implacáveis da justiça. uma pessoa ligada a todas as outras pessoas. Esses recursos místico-proféticos são empregados. são ambas compartilháveis. a toda comunidade de cren46 perspectiva 122 . Qualquer pensador que tenha fé-confiança na revelação de Deus acredita que nos foi dado. da razão pública desenvolvida de modo argumentativo pelos gregos. política e economicamente sobre sua responsabilidade para com os membros mais pobres na sua própria sociedade e sobre sua responsabilidade para com os pobres e oprimidos no mundo inteiro. Os judeus e os cristãos. Voltando aos contornos do paradoxo da “Publicness Três”. a revelação possuía implicações para as esferas pública e política. 10:26 . mesmo em termos seculares. mas real” da revelação. reconhecer os limites da razão é uma das maiores conquistas da razão. No século IV. Número 122. é claro. por exemplo. um novo caminho pessoal e público. escatológicas. como puro dom. extraordinárias. Em nosso próprio período pós-kantiano e pós-moderno. parcial. Achar que tal revelação só é relevante para o indivíduo é recusar perceber que o homem religioso. as tentativas filosóficas e teológicas de nomear e empregar a realidade além-dos-limites da razão (por exemplo. havia debates sobre esta questão em todas as três comunidades intelectuais. com sua profunda fé pessoal. 29-51. ou seja. Estes debates estavam nos limites da dialética e do diálogo. exigências de interrupção).pmd Perspectiva Teológica. Além disso. na “Justiça por vir” e na “Democracia por vir” de Derrida) voltam a exigir a atenção de todos os pensadores para realidades paradoxais (“Publicness Três”). são ideais públicos dignos da mais séria atenção na esfera pública de toda sociedade democrática. A justiça transformada pelo “impossível” ideal do Amor. Apresenta-se desde o “Bem além do Ser” em Platão. Ano 44. embora até o presente não tenha sido completada pela razão. a cristã (os Capadócios e Agostinho) e a judaica (com os rabinos articulando o que se tornou o Talmude Babilônico). a pagã (Plotino). é um indivíduo relacional. Como Kant argumentou. além da “Publicness Um” e “Dois”). Belo Horizonte. por pensadores como Walter Benjamin em sua brilhante e perturbadora obra “Teses sobre a História”. tomavam a “revelação” como puro dom da automanifestação de Deus (Êxodo 3. somos capazes de atingir um “entendimento análogo. como dotados de razão. porque essas realidades além-dos-limites-da-razão incluem movimentos de “excesso” (sabedoria mística como distinta do conhecimento comum) e movimentos de demandas “excessivas” e ético-politicamente perturbadoras (demandas proféticas. pluralista e secular. A questão dos limites da razão tem sido central no pensamento ocidental. p.onde a sociedade deve decidir cultural. Jan/Abr 2012 46 23/5/2012. vemos a necessidade de incentivar a discussão pública de realidades para além dos limites da razão (portanto. imperfeito.OK. Além disso – como argumentou Agostinho em A Cidade de Deus –. além de qualquer coisa que a razão pudesse alcançar. a toda a sociedade.

Estas opções contemporâneas não são antidialógicas ou antirracionais. bem como o trabalho mais tardio de Derrida sobre uma nova maneira de pensar que se adeque à categoria do Impossível. o uso explícito da razão teológico-bíblica na Caritas in veritate de Bento XVI. Em vez disso. à Igreja. 29-51. como interrupção. A fé é um novo conhecimento. na “Publicness Dois”. à natureza e ao cosmo. nem apenas como um clássico cultural-religioso (“Publicness Dois”). como eu prefiro. sob a rubrica precisa do pensamento pós-moderno. e. ou hermeneuticamente. na tentativa de encontrar um novo modo “meditativo” de pensar. A Cidade de Deus.pmd 47 23/5/2012. que nos leva a todo novo e. que é deliberadamente mais fragmenting (ou. Essas novas formas de pensar para além dos limites da razão (quer filosoficamente meditativa ou diretamente teológica) merecem consideração como uma terceira e paradoxal forma da publicness para além dos limites da razão. frag-eventing. ou seja. o conhecimento místico (que não é tão raro entre os crentes quanto frequentemente se acredita) também deveria entrar na esfera pública diretamente. Ano 44.tes. a crítica que Derrida faz a Gadamer no famoso nãodiálogo sobre o diálogo (1981). mas também de um novo fundamento para o conhecimento – um fundamento de confiança radical (a fides fiducialis). de Agostinho. p. o realismo cristão de Niebuhr. profético-mística) do que dialógica ou dialética nos moldes tradicionais. mas têm o intuito de manifestar o conhePerspectiva Teológica. iniciando com o Heidegger tardio. entrando na arena pública. operando dialéticoargumentativamente na “Publicness Um”. e eu me atrevo a mencionar as minhas próprias tentativas de desenvolver uma “nova” hermenêutica (paralela à “nova” fenomenologia). infinito conhecimento (a epéktasis de Gregório de Nissa). Como conhecimento. não apenas de novas crenças cognitivas. as teologias política e da libertação.Belo Horizonte.OK. Na fenomenologia e na hermenêutica. há vários novos modos de pensar pós-dialéticos e pós-hermenêuticos. ao Deus incompreensível. todos estes são exemplos de conhecimento místico-profético operando na esfera pública. acima de tudo. Número 122. cada vez mais. especialmente a busca de Heidegger por um pensamento meditativo. que é Amor. como conhecimento além dos limites da racionalidade moderna (contra Kant) – encontra-se. O conhecimento místico está além do limite usual de razão. não como resultado de um debate racional (“Publicness Um”). o conhecimento místico-profético – como excesso. Mesmo Max Weber (ao contrário de Durkheim) defendeu a necessidade ocasional de profetas na esfera pública de qualquer sociedade. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . 10:26 47 . culminando na união mística com Deus. e ainda. interruptiva e “excessiva”. o debate de Levinas com o pensamento dialógico de Buber. na verdade. Tentativas similares de nomear a realidade (o “Real além do limite da razão”) também podem ser observadas em alguns debates filosóficos centrais do nosso tempo. o pensamento social católico. a nova fenomenologia do dom e da caritas de Marion.

do Inefável em nosso meio. portanto. não como dado. chegam ao fim de sua eficácia. A dialética e o diálogo. nos deve ser dado pelo Infinito em si. uma bem positiva razão filosófica: a dialética e o diálogo podem alcançar seus limites naturais. ao contrário de Kant. não pela interferência de algum poder. Jan/Abr 2012 48 23/5/2012. A necessidade de pensar e falar além dos limites da razão kantiana – mesmo antes de qualquer pretensão reveladora ou iluminadora de um evento de arte. em sua leitura da terceira Meditação de Descartes. do Impossível. Derrida de “o Impossível” e Levinas. como sugestivamente manifestado nestas novas formas de filosofia e como reveladas decisivamente na revelação automanifestadora de Deus. Deus (em contraste: Kant sobre Deus. como seres finitos. outra dimensão da publicness). 10:26 . p. portanto. Buda). Os traços similares entre o debate no século IV e na contemporânea “pós-modernidade” são impressionantes. mesmo na esfera pública. Belo Horizonte. algumas vezes. Número 122. Assim. A razão pode “revelar” seus limites – e além de seus limites. 29-51. há alguns anos atrás. nos rabinos do Talmude Babilônico e nos teólogos cristãos nicenos. pensado. É isso que Heidegger chamou de “o Intransponível”. não podemos alcançar o infinito através da razão. sobre a forma do diálogo na Antiguidade. Alguns filósofos contemporâneos continentais [europeus] debatem os limites da razão dialética e dialógica. diversos eventos de manifestação religiosa do sagrado fascinans et tremendum (Otto) ou da iluminação (Plotino. mas como conceito-limite. com as recentes análises históricas do deslocamento da argumentação dialética e do diálogo para o pensamento contemplativo da Antiguidade tardia nos neoplatônicos. a saber. 48 perspectiva 122 . demonstrando semelhança impressionante. ética ou religião – é também uma necessidade intrinsecamente filosófica. no entanto. a partir de uma conferência importante em Oxford. Alguns dos grandes pensadores fenomenológicos e hermenêuticos propõem modos de pensar além dos limites da filosofia analítica moderna (“Publicness Um”) ou mesmo além do diálogo gadameriano com os clássicos (“Publicness Dois”): novos modos de pensar para descrever e avaliar tanto obras de arte (Heidegger) ou o radicalmente outro na ética (Levinas). editado pelo professor Simon Goldhill. Esse conceito. mas não conhecido ou experienciado). como Hegel argumentou contra Kant: não poderíamos sequer apontar um limite como limite a não ser que já estivéssemos de alguma maneira além dele. em grande parte neoplatônicos.pmd Perspectiva Teológica. possuímos o conceito do Infinito. Este debate da Antiguidade tardia é analisado no livro intitulado O Fim do Diálogo na Antiguidade.cimento e o pensamento da realidade presente-ausente do Incompreensível. de “o Infinito”.OK. como mencionado acima. com base numa nova experiência do “Real para além dos limites da razão”. Para Descartes. mas por uma razão diferente. esses pensadores fornecem uma oportunidade para se tentar algum novo modo de pensar (e. Ano 44.

Número 122. que Platão afirma estar preparada para todo o percurso intelectualmoral da linha dividida em A República. de o Intransponível. o Impossível se torna possível. o apelo de um novo modo de pensar é “razoável”: o pensamento meditativo do Heidegger tardio sobre as grandes obras de arte e a influência crescente. assim. o pensador descansa e espera. o Inefável. em seu trabalho. Aí. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . se a maré subir. Como Plotino insistiu em seu sereno e meditativo modo de raciocinar – embora também rigorosamente dialético e dialógico – um pensador intensifica gradualmente sua jornada de volta à sua verdadeira casa. Por meio de cuidadoso labor intelectual. Os interlocutores parecem muito mais peças do jogo do questionar do que efetivos jogadores que estão jogando. nos medievais. Por conta própria. por meio de rigorosas purificações morais e intelectuais. embora não plenamente alcançaPerspectiva Teológica. ela vai erguer a pessoa que. a realidade última – o Uno e o Bem.pmd 49 23/5/2012. poderá vislumbrar o que a razão pode não alcançar por si mesma. Na imagem do movimento que Plotino usa. Ou então. o Incompreensível. o transcendente Incompreensível. esperando a maré subir. Se acontece a rica experiência de um evento (da arte. em Nicolau de Cusa e Descartes. p. no entanto.Belo Horizonte. às vezes eles se encontram “in the zone” [totalmente envolvidos]. apofaticamente. do meditativo modo taoísta de pensar. do outro ético). dentro do diálogo racional e de sua fidelidade às condições racionais de possibilidade. podem ser tomados pela lógica da questão em si a ponto de se encontrarem cativados no vaie-vem do questionar. incluindo o raciocínio dialético e dialógico. em Gregório de Nissa e Agostinho. Quando um debate dialético ou um diálogo (como a razão discursiva. Temos que aprender a esperar atentamente. Ano 44. Os diálogos são temporais.A dialética e o diálogo são constituídos pela razão em suas funções discursivas. esta revelação para além do diálogo pode acontecer mais serena e gradualmente. o pensador se move sempre para cima na busca de um momento final na esfera do Inteligível. Nesse ponto – como em Platão e Plotino. Como atletas. O Impossível como nova possibilidade se torna um novo candidato para a discussão aberta na esfera pública. como se estivesse em uma praia. o Infinito pode acontecer “de repente”. a pessoa experimenta e compreende o limite como a própria finitude inevitável. incluindo debates dialéticos e diálogo. da religião. bem como em certos filósofos contemporâneos – o pensador pode receptivamente atentar e aguardar a possível experiência do que.OK. a Experiência Infinita de sua verdadeira casa e origem. não podemos ir mais longe. como a própria inelutável historicidade. o Impossível. parecia impossível. não negativa. 10:26 49 . ou num debate sério. A experiência daquilo que diferentes pensadores rotulam. como o tempo normal) atinge seu limite natural. a recuperação kierkegaardiana da categoria do “Impossível” como categoria positiva. 29-51. literalmente “tomam tempo”. em sua crítica de Kant. Claro. a maré pode não subir durante o tempo em que a pessoa estiver lá. como na experiência do Bem além do Ser. como acontece a experiência do Belo no Banquete de Platão. Mas. Os interlocutores num bom diálogo.

do por ele. Lá, a pessoa se eleva a partir da opinião e da crença à matemática, ao argumento elênquico e à razão dialética até o ponto onde o Bem
além do Ser pode, ou não, ser vislumbrado. Na minha leitura, a experiência do Bem além do Ser, para Platão, é uma experiência fora do alcance da
razão discursiva, mesmo sendo o melhor do dialógico e do dialético em
Platão. Ao mesmo tempo, o Bem além do Ser é profundamente relevante
(para a “Publicness Três”) na discussão crucial do Bem e dos bens, em
qualquer verdadeira esfera pública. O próprio texto (da República) em que
Platão descreve o movimento da razão para além da opinião e da crença
– via argumentos dialéticos platônicos, socraticamente elênquicos e cada
vez mais complexos – rumo ao lugar onde uma manifestação do Bem além
do Ser possa ocorrer, é o mesmo texto em que descreve os bens e a boa
ordem necessários para uma boa polis.
Nós podemos, pessoalmente, alcançar o diálogo e a dialética com o nosso
desempenho racional. No entanto, uma experiência do Bem além do Ser é
impossível como conquista racional. A razão a prepara, mas o evento acontece ou não acontece, por si só, independentemente do nosso empenho
racional. Se o evento acontece, podemos dizer, com Heidegger, “es gibt ”,
“it gives ”. Se o evento não acontece só se pode dizer, com Blanchot e o
primeiro Levinas, “il y a ”, ou seja, o Real não está dando, não é generoso,
não é transbordante (como “es gibt ” sugere e o “Bem além do Ser” insiste).
O Real, então, está simplesmente aí (il y a). Em ambos os sentidos, é dado:
ou como um dom (es gibt), ou simplesmente está aí (il y a).
Derrida utiliza motivos escatológicos para defender a necessidade, na esfera
pública, da política para uma impossível Justiça por vir, escatológica, não
teleológica. De forma semelhante, o uso da nomeação cristã de Deus como
Amor e de nós mesmos como incumbidos (empowered) de e mandados a
amar o próximo – especialmente mediante o amor que opera pela justiça –
tem sido adotado por alguns novos fenomenólogos (por exemplo, Jean-Luc
Marion, Jean-Louis Chrétien). Esses pensamentos estritamente filosóficos fornecem novos recursos de “Publicness Três” para a esfera pública e sugerem
de que maneira uma teologia filosófica (sobre o Impossível que se fez possível na revelação) pode funcionar também na esfera pública.

Conclusão
“Sem visão o povo perece”. A “Publicness Três”, unida à “Publicness Um”
e “Dois”, pode ajudar, e muito, a deprimida esfera pública de nossa sociedade, pondo à disposição os ricos recursos das tradições religiosas cristãs
(e outras também). Uma vez somadas a teologias que sejam sensíveis às
próprias responsabilidades públicas, tais filosofias da publicness podem
desempenhar um papel fundamental – público e não sectário – na esfera
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pública compartilhada. O cristianismo católico é uma igreja, não uma seita.
Conhecemos as afinidades naturais da teologia católica com o papel da
filosofia e da razão, a sua autocompreensão de comunidade concretizada
em suas ideias centrais de pessoa, não de indivíduo. Tais conceitos centrais
sobre o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, o seu recente giro
para o status privilegiado do místico-profético dos pobres e oprimidos, o
seu repensar sempre novo da relação intrínseca entre o amor e a justiça,
todos esses recursos particulares católicos devem desempenhar um forte
papel na esfera pública da nossa sociedade, quer por meio da razão
argumentativa da “Publicness Um”, quer pela razão hermenêutica da
“Publicness Dois”, quer pela razão contemplativo-meditativa e profética da
“Publicness Três”.

David Tracy: Mestrado e Doutorado pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma,
Itália. Professor de Teologia Contemporânea e Ciências da Religião na Divinity School da
University of Chicago. Principais obras: The Analogical Imagination: Christian Theology
and the Culture of Pluralism, On Nassing the Present: Refletions on God, Hermeneutics
and Church.
Endereço Switf Hall 227
1025 E. 58th St.
Chicago, IL 60637
e-mail: tracy@uchicago.edu

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ITINERARIUM MENTIS IN DEUM PER NIHILUM
O NIILISMO COMO DESAFIO AO CRISTIANISMO

Itinerarium mentis in Deus per nihilum
Nihilism as a challenge to Christianity

Paulo Sérgio Carrara CSsR *

Resumo: O artigo busca refletir as chances do cristianismo no contexto pós-moderno, cuja característica principal se define como niilismo, traço fundamental das
filosofias de Nietzsche e Heidegger. A hipótese apresentada parte do pressuposto
de que o abandono da metafísica clássica não representa somente uma ameaça à fé
cristã, mas lhe desafia a uma nova configuração. O filósofo Gianni Vattimo aproxima cristianismo e niilismo, apontando para os cristãos um caminho possível,
mesmo se os cristãos não acolhem todos os pressupostos de sua filosofia. A fé cristã
encontra na sua vertente mística os elementos de que necessita para enfrentar os
desafios do niilismo, pois sua dimensão prático-existencial tem mais chances de
falar ao homem de hoje do que seu discurso metafísico. Por outro lado, muitos
místicos enfrentaram o nada na sua busca de Deus, mostrando que o niilismo não
é estranho à experiência de fé.
Palavras-chave: Metafísica, Cristianismo, Niilismo, Gianni Vattimo, Mística.
Abstract: The article seeks to reflect on the possibilities of Christianity in the postmodern context, the principal characteristic of which is defined as nihilism, a fundamental trait of the philosophies of Nietzsche and Heidegger. The hypothesis
presented starts from the presupposition that the abandonment of classical
metaphysics not only presents a threat to Christian faith but also challenges it to
form a new configuration. The philosopher Gianni Vattimo compares Christianity
to Nihilism, showing to Christians a possible path, even when Christians do not
accept all the presuppositions of his philosophy. Christian faith finds in its mystical

* Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, Instituto Santo Tomás de Aquino (Belo
Horizonte). Artigo recebido em 15.10.2011 e aprovado em 25-10-2011.

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fechando-se a um possível encontro com a divindade. o homem pós-moderno só voltaria a vislumbrar a autêntica experiência mística depois de haver atravessado o deserto do niilismo1. VOLPI. 54 Perspectiva Teológica. 89. Gianni Vattimo. no seu opúsculo sobre filosofia e mística. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . O homem grego não precisou negar sua filosofia para aceitar Cristo. 2 F. showing that nihilism is not foreign to the experience of God. parece estender-se cada vez mais. talvez. Mas. Mystical. Cada época exigiu grande esforço epistemológico dos cristãos para reinterpretarem a verdade cristã. Ela possuía elementos de verdade. p. o que inviabiliza a experiência mística. because its practical and existential aspect has more possibilities of speaking to the contemporary person than its metaphysical discourse. Seu encontro com a cultura grega obrigou os pensadores cristãos a interpretar o evangelho com categorias filosóficas novas. 99. H. Ele nega a transcendência e crê apenas na imanência. no sentido de que se torna um aspecto essencial e constitutivo da realidade.dimension the elements which it needs to face the challenges of nihilism. 1 Cf. que o niilismo se configura como “um deserto que cresce”3. porque a mística postula um inusitado encontro da pessoa com a transcendência. que permitiram a acolhida da verdade de Jesus. O niilismo. Número 122. tornando-a plausível ao longo da história. Atualmente. “quem atravessa a linha alcança apenas a zona em que o niilismo passa a ser a condição normal. Christianity. por outro lado. a mensagem cristã se confronta com o niilismo que. 2009. p. correta tanto do ponto de vista filosófico como teológico. afirma que não há mística sem transcendência. desponta nesse deserto novo interesse pela mística. paradoxalmente. Por que razão? O niilismo realmente se opõe à experiência mística? O cristianismo necessita irradiar sua mensagem no contexto em que está inserido. p. no entanto. Segundo o filósofo Franco Volpi. 10:26 . os cristãos concluíram que a verdade buscada pela filosofia se expressava plenamente na revelação de Jesus Cristo. 53-68. 3 Cf. São Paulo: Loyola. Ano 44. Keywords: Metaphysics. L. Sem negar a afirmação de Henrique de Lima Vaz. Neste caso. São Paulo: Loyola. Introdução H enrique de Lima Vaz. Experiência mística e filosofia na tradição ocidental.pmd 54 23/5/2012. Esse deserto. uma vez que o niilismo caracteriza a pós-modernidade. O homem pós-moderno encontra no niilismo o seu novo habitat. Foi assim ao longo da histórica. VAZ. Nihilism. sementes do Verbo. não se deixa facilmente conter e muito menos extirpar”2. constata-se. para que permaneça plausível. Belo Horizonte. 89. Por isso. Num grande esforço hermenêutico. p.. Many mystics face the “nothing” in their search for God.OK. 1999. ibid.

Em resumo.). São Paulo: Vozes. REB n. O niilismo O niilismo evoca sempre os mestres da suspeita. sem rumo certo. 4 Perspectiva Teológica. “A possibilidade do conhecimento de Deus em São Boaventura”. porque se a vida carece de um fundamento último. 53-68. Cf. Aqui interessa o aspecto mais filosófico do niilismo. p. Cf. São considerados pais da pós-modernidade niilista especialmente Nietzsche e Heidegger. Vontade de potência. MAGNUS. o homem vislumbrará o rosto de Deus? São Boaventura cunhou a expressão itinerarium mentis in Deum. 7 F. sobretudo seu essencialismo e seus argumentos transcendentais5. Como pensar esse itinerário a partir do confronto com o niilismo? Seria possível um itinerarium mentis in Deum per nihilum? 1. ANDI (Org. 10:26 55 . B.OK.. “não é exagero considerar Nietzsche o profeta máximo e o teórico maior do niilismo. 8 Cf. Número 122. 43. 139. A negação da metafísica provoca descrença num mundo verdadeiro8. Ano 44. como pretendia a metafísica clássica em sua visão objetivista. Nietzsche6 nega que se possa conhecer a verdadeira estrutura do real. Freud e Marx. 144. o niilismo consiste numa reação à filosofia moderna e seus pressupostos. Nesse artigo. pp. quer-se avaliar as chances da vertente mística do cristianismo num contexto niilista. p. Nietzsche. A história não tem um fim último. Belo Horizonte. p. in: R. 69-86. porque não vê-lo como o novo deserto onde. 5 Uma boa síntese sobre o niilismo e a pós-modernidade se encontra no Dicionário de Filosofia de Cambridge. quem sabe. 281 (2011) pp. Ele define o niilismo como falta de finalidade. o homem se sente à deriva. ibid. The Cambridge dictionary of filosofhy. MANNES. psíquica e social. para os quais a religião anestesia as feridas da alma causadas pelas realidades filosófica. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .pmd 55 23/5/2012. VOLPI. “Postmodern”. tão significativo para o cristianismo. falta-lhe um princípio organizador que lhe dê unidade.contenha suas próprias sementes do Verbo. sem que se queira aprofundá-lo exaustivamente. alguém que cedo intui a doença do século”. 2001. Cada subjetividade constrói a sua J. Ele teologizou os caminhos para o conhecimento de Deus4. Uma vez que o niilismo se tornou o contexto no qual a mensagem cristã deve ainda ressoar. p. Não há resposta para a pergunta: para quê? “Que significa o niilismo? Que os valores supremos se depreciaram”7. O próprio conceito de verdade. Parte-se da hipótese de que a rica experiência mística testemunhada pela tradição cristã não se mostra totalmente estranha ao niilismo. 6 Segundo Franco Volpi. O niilismo. 725-726. O desaparecimento dos valores tradicionais causa a sensação de ausência de sentido. pulverizase no tempo da interpretação hermenêutica. porque não há uma ordem objetiva do mundo que o pensamento consiga dominar totalmente. Cambridge: Cambridge Press. O filósofo se recusa a pensar o ser como fundamento. NIETZSCHE.

613-616. Rio de Janeiro/ São Paulo: Record.verdade sem referência a uma possível verdade última. abandono de Deus como hipótese explicativa dos fenômenos do mundo. Depois da cristandade: Por um cristianismo não religioso. 10 G. O filósofo alemão quer encontrar uma resposta para a questão do ser. interpretação e discurso. aqui p. Seu trabalho focaliza a tradicional questão metafísica. A linguagem emerge como a casa do ser.OK. p. A antropologia nietzschiana resume-se numa visão de homem sem referência religiosa e sem apelo ao transcendente. O ser. p. in: R. Segundo Vattimo. é desprovido de objetividade e o erro da metafísica clássica está na consideração do ser como substância. cujo conhecimento se revela condicionado pela situação histórica do sujeito. uma vez que o real carece de fundamento. segundo ele. “Nietzsche”. 10:26 . VATTIMO. O único sentido possível para a realidade encontra-se no imanente. uma vez que o pensamento humano não consegue mais se organizar a partir de um fundamento que lhe dê consistência. Critica filosofias anteriores que quiseram pensar o ser como uma propriedade ou essência presente nas coisas. 370-373. 11 Cf. The Cambridge dictionary of philosophy. 53-68. O ser só pode ser pensado a partir do sujeito que o conhece na sua concreta existência no mundo (dasein).pmd 56 23/5/2012. The Cambridge dictionary of philosophy.). A linguagem fala ao homem e expressa a modalidade do ser11. As estruturas humanas criam o acesso ao ser. Belo Horizonte. “o que Heidegger chama de metafísica é. p. C. A fidelidade ao mundo supõe uma ruptura radical com os valores religiosos. 615. 371. Ano 44. R. fazendo-o viver na ilusão de uma verdade transcendente e estável. enquanto ruptura da interpretação da vida e do mundo pela moral cristã. pp. GUIGNON. Único meio através do qual o ser torna-se acessível e inteligível. quanto um desenvolvimento filosófico. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . porque separam o homem do verdadeiro mundo. O anúncio da morte de Deus foi tanto um evento cultural. 56 Perspectiva Teológica. Heidegger. O filósofo proclama a morte de Deus. in: R. como se o ser se identificasse com o fundamento e a objetividade. AUDI (Org. SHACHT. nesse caso. AUDI (Org. B. “Martin Heidegger”. A razão. A interpretação substitui a idéia de verdade. na verdade. por sua vez. Para enfatizar o caráter provisório de todo conhecimento. a crença em uma ordem objetiva do mundo que o pensamento deveria reconhecer para poder adequar tanto suas descrições da realidade quanto suas escolhas morais”10. o filósofo rejeita a idéia da possibilidade de um saber absoluto e transcendente. aqui p. O dasein articula-se em uma tríplice estrutura: compreensão. A estrutura central do ser humano no mundo se dá num círculo 9 Cf. 22.). postula uma antropologia de desapropriação do ser. A morte de Deus não é só o abandono da idéia de Deus. 2004. mas de todo tipo de metafísica que poderia substituí-lo9. Número 122. não apreende totalmente a verdade e a linguagem determina o homem e não vice-versa.

de compreensão e interpretação. Na realidade, o ser-no-mundo não significa estar em contato com tudo que constitui o mundo, mas estar familiarizado com um uma totalidade de significações. Tal familiaridade se define
como compreensão. Todo ato de conhecimento surge como articulação e
interpretação de tal familiaridade12. Não há, para Heidegger, objetividade
universal como fundamento de uma racionalidade partilhada e aceita de
forma unânime13. Ao criticar o pensamento metafísico, o filósofo não se
opõe à existência de Deus, mas à do Deus metafísico, ou seja, recusa a
conceber Deus como ser absoluto, eterno, imaterial e criador da ordem do
mundo. Essa concepção, enraizada no pensamento grego, acaba por domesticar Deus, porque o compreende, segundo a lógica da racionalidade
humana, como organizador do mundo 14. De acordo com Grondin,
“Heidegger procura um Deus fora da metafísica, um Deus que não está aí
para nos tranqüilizar, mas para enlouquecer nossas certezas”15.
Não há duvida de que o niilismo expressa o mal-estar da civilização e
revela uma imagem do mundo fragmentada, carente de sua unidade clássica. Segundo Gianni Vattimo, os meios de comunicação aprofundam o
niilismo, porque esfacelam a realidade, apresentando-a destituída de um
princípio unificador. Nos meios de comunicação, a realidade emerge
diversificada, com vários matizes. É como se a profecia de Nietzsche se
cumprisse: o verdadeiro mundo se transformou em fábula. A realidade,
em si mesma, é ilusão de ótica, porque atravessada por múltiplas imagens,
interpretações e reconstruções desconectas, sem uma lógica central. Nesse
contexto, o ideal de emancipação sustentado pela razão iluminada da
modernidade desaparece. Eis que surge novo ideal de emancipação, mais
individual e menos coletivo, mais subjetivo e menos histórico, alicerçado
na oscilação e no pluralismo. Corrói-se o próprio princípio de realidade16.
O niilismo se caracteriza como dissolução de todo fundamento. Numa
paráfrase de São Boaventura, foi designado como “itinerarium mentis in
nihilum17”. Com a proclamação da morte de Deus tornou-se impossível
pensar em valores e fundamentos que dêem sentido à vida. Nega-se a
finalidade do homem e do cosmo. A realidade configura-se como um compor-se de horizontes sem significado. A existência se mostra privada de
um sentido último e a energia vital a nada tende. Desconfia-se dos ideais
de progresso, uma vez que o devir característico da história humana não

12
Cf. G. VATTIMO, El fin de la modernidad: Nihilismo e hermenéutica en la cultura
posmoderna, Barcelona: Gedisa, 2000, p. 103-104.
13
Cf. VATTIMO, La società trasparente, Roma: Garzanti, 2000, p. 19-20.
14
Cf. J. GRONDIN, J. “O retorno espetacular de Deus na filosofia. Manifestações e razões
de um fenômeno”, Concilium (Br) n. 337 (2010) p. 91-99, aqui p. 95-96.
15
Ibid., p. 96.
16
Cf. VATTIMO, La società trasparente, p. 15.
17
VOLPI, O niilismo, p. 7.

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tem porto de chegada. O sujeito se reduz a mera função, perdendo sua
dignidade de pessoa. Os juízos de valores se equivalem, o que anula a
validade dos juízos de valor18. São lapidares as palavras de Franco Volpi:
O niilismo deu-nos a consciência de que nós, modernos, não temos raízes,
navegamos sem destino por entre os arquipélagos da vida, do mundo, da
história, porque, no desencanto, não existe mais bússola para orientar; não
há mais rotas, percursos conhecidos de que lançar mão, nem metas
preestabelecidas a ser alcançadas19.

Tanto o niilismo de Nietzsche quanto o de Heidegger mostram que o ser
não coincide com aquilo que é estável, fixo e permanente, mas com o
evento, o diálogo, a oscilação e a interpretação. Como se a vida transgredisse todos os a priori dogmáticos com os quais se quis interpretá-la. Como
se ultrapassasse as leis rígidas que a amarram. Não se encontra mais onde
sempre se acreditou que estivesse. “Ela é lábil, furtiva, lúdica e, também,
um pouco maliciosa”20.

2. O desafio do niilismo
O niilismo tornou-se um ar que se respira, “vivemos em meio dele”21. Do
ponto de vista coletivo, a conseqüência mais óbvia do niilismo se encontra
no relativismo ético e moral. Num contexto em que se nega um fundamento transcendente para o mundo e a histórica, acentua-se a crença na ciência
e na técnica, que passam a organizar a vida no planeta. E quando a ciência
e a técnica assumem o lugar dos valores, “os imperativos morais lembram
freios de bicicleta, usados em avião a jato”22. Os valores permanecem no
âmbito das crenças pessoais, sem incidência no coletivo. Nesse caso, “a
ética e a moral têm a beleza de fósseis raros”23.
A falta de referência ética provoca um hedonismo desenfreado e cria a
cultura do prazer. O eclipse da ética dos fundamentos eternos faz despontar a aurora da ética do instante, com a conseqüente acentuação das situações vividas, válidas por elas mesmas, sem referência ao transcendente ou
apelo à verdade, sem nenhuma projeção para um amanhã previsível24. O
Cf. V. POSSENTI, Terza navigazione: Nichilismo e metafisica, Roma: Armando, 1998,
p. 24.
19
VOLPI, O niilismo, p. 142.
20
M. MAFFESOLI, O instante eterno: O retorno do trágico nas sociedades pós-modernas,
São Paulo: Zouk, 2003, p.77.
21
NIETZSCHE, Vontade de potência, p. 145.
22
VOLPI, O niilismo, p. 140. Sobre a complexa relação entre teologia e ciência, ver o que
diz Libanio. Cf. J. B. LIBANIO, “Teologia e ciência”, REB n. 281 (2011) p. 4-16.
23
VOLPI, O niilismo, p. 140.
24
Cf. MAFFESOLI, O instante eterno, p. 26.

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sujeito niilista vive o cotidiano, sem preocupar-se com o passado e o futuro. Substitui a macro historia da humanidade por sua micro história. Ele
não chega a identificar o eticamente correto, já que desconfia da verdade
objetiva e se sente no epicentro de um tornado de interpretações possíveis.
A concorrência entre referenciais diversos leva o indivíduo a integrar elementos totalmente contraditórios numa síntese muito singular. Afinal, “o
que é é plural. A beleza do mundo é polissêmica e, portanto, ambivalente.
É a aceitação de tudo isso que, empiricamente, para além dos diversos
dever-ser abstratos, constitui o único deve-ser vivido: a complexidade”25. A
liberdade não exige comprometimento com ideais duradouros, consiste na
possibilidade de fazer o que se quer e o que dá prazer.
A Igreja critica, com razões plausíveis, o niilismo, considerando-o uma
consequência da crise do racionalismo. Mostra-se preocupada com o fascínio exercido pelo niilismo, cujo calcanhar de Aquiles se encontra na negação da possibilidade de se alcançar a verdade, o que concentra as sensações
e experiências no efêmero e no provisório. A razão, por sua vez, incapaz
de conhecer a verdade, não chega ao absoluto, como afirma João Paulo II,
na encíclica Fides et Ratio (FR 46-47). Ele insiste na necessidade de uma
filosofia de alcance metafísico, única em condições de transcender os dados
empíricos e chegar a algo absoluto, definitivo e básico. Apresenta como um
dos maiores desafios atuais a passagem do fenômeno ao fundamento. Se
se nega o fundamento, ou seja, a metafísica, a própria teologia perde o seu
sentido. Nesse caso, o intelectus fidei não consegue expressar o valor universal e transcendente da verdade revelada (FR 83). Bento XVI, por sua
vez, reforça a posição de seu predecessor, afirmando a razão forte, uma
vez que a razão fraca proposta pelo niilismo se mostra incapaz de oferecer
orientações precisas para a conduta humana que, entregue a si mesma, se
restringe ao efêmero e passageiro, caindo no relativismo. Se a verdade não
existe, o ser humano se torna incapaz da moralidade26.
O niilismo, no entanto, mesmo reforçando o relativismo, não postula o
abandono de causas nobres, fundamentadas na ética e na espiritualidade.
Essas causas permanecem válidas, mas apenas como dimensões de uma
existência bem mais ampla e indefinível. São causas, ao mesmo tempo,
autênticas e efêmeras. O egoísta pode, em determinado momento, de acordo com sua sensibilidade, tornar-se solidário, sem que essa mudança signifique uma conversão em sentido profundo. É o que Michel Maffesoli
chama de coincidentia oppositorum. Em épocas passadas, o libertino se
distinguia do homem ético e altruísta, religiosamente convicto. Hoje, valores opostos se encontram num mesmo indivíduo e são vividos em hipo ou

Ibid., p. 133.
Cf. BENEDETTO XVI, Luce del mondo: Il Papa, la Chiesa e i segni dei tempi. Una
conversazione con Peter Seewald, Vaticano: Libreria Editrice Vatincana, 2010, p. 80.
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Perspectiva Teológica, Belo Horizonte, Ano 44, Número 122, p. 53-68, Jan/Abr 2012

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2002. A busca do bem permanece. acolhe a finitude humana. ou seja. Abandona-se a ética como uma instância crítica e propositiva a partir da qual a pessoa organiza sua vida. do domínio à liberdade. Tecnica ed esistenza: Una mappa filosofica del Novecento. que se opõe ao pensamento forte da modernidade. 1991. Milano: Garzanti. O esposo fiel e bom pai de família aceita participar de uma orgia sexual para dar livre curso às suas fantasias. Seu niilismo. 319. MAFFESOLI. Santander: Sal Terrae. O niilismo. construídas de cima para baixo. 2010.OK. intérprete das filosofias de Nietzsche e Heidegger. abandona a metafísica como busca de uma explicação total sobre o ser. 19. Aparecida: Santuário. Ao renunciar. o que torna desnecessário resgatar a unidade perdida e as hierarquias fortes. 53-68. assim. 10:26 . VATTIMO. se dedica a uma obra humanitária que demanda tempo e energia. Cf. G. como ponto de chegada da modernidade e só resta ao pensamento aceitar o fim da metafísica29. p. p. GIRARD. no qual os autores estabelecem uma mútua apreciação e crítica. a instabilidade e a pluralidade constituem positivamente o real. O instante eterno. Para uma crítica mais teológica. VOLPI. ver o que diz Ruiz de la Peña. Cristianismo e Relativismo. o diálogo entre René Girard e Gianni Vattimo. O filósofo italiano afirma que a passagem do moderno ao pós-moderno se caracteriza por uma mudança que vai “da unidade forte à multiplicidade frágil. Cf. R. p. o filósofo inaugura o pensiero debole (pensamento enfraquecido). As estruturas fortes da metafísica cedem lugar às estruturas frágeis do pensamento enfraquecido. por exemplo. a ser aceito como inevitável e como característica essencial do mundo contemporâneo. Cf. p. El don de Dios: Antopología teológica especial. L. 122-123. 3. Número 122. 97. ou seja. Milano: Bruno Montadori. à reconstituição da racionalidade metafísica. O otimismo de Vattimo o distancia de outras interpretações niilistas possíveis30. Credere di credere. preocupada com sua beleza. p.em hiper. como uma dimensão dentro de tantas outras. 66. J. como o de Nietzsche. R. Os exemplos se multiplicam. Belo Horizonte. na esteira de Nietzsche e Heidegger. VATTIMO. do autoritarismo à democracia”28. 31 Ver. DE LA PEÑA. VATTIMO. com suas alegrias e sofrimentos melhor do que a metafísica. p. G. Ano 44. A aceitação de um valor nobre não implica renúncia à multiplicidade de significados que a vida oferece. mas de maneira fragmentada. O hedonista ávido para satisfazer seus desejos assume um trabalhado abnegado numa instituição de caridade27. 1999. A proposta do filósofo italiano recebe importantes críticas que não interessam ao escopo desse artigo31. 30 Cf. M. Cristianismo e niilismo em Gianni Vattimo Vattimo. 29 Cf. é gaio. A jovem fútil e egocêntrica. O filósofo acentua o aspecto positivo do niilismo. dando-lhe uma direção precisa. O niilismo se configura. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . O gozador libertino não dispensa sua sessão mensal de zen.pmd 60 23/5/2012. A fragmentação. 27 28 60 Perspectiva Teológica. G.

Depois da cristandade. com toda sua pujança. Uma vez que perece a pretensão metafísica de explicar Deus.OK. 53-68. PIRES. porque se revela intrínseca ao próprio Cf. o que Vattimo demonstra a partir dos conceitos bíblicos de encarnação e kénosis. A participação na banca examinadora dessa dissertação inspirou esse artigo. 18. VATTIMO. Niilismo e cristianismo não se excluem. 36 F. Se a secularização se compreende como enfraquecimento do ser. Niilismo e Cristianismo em Gianni Vattimo. Com o advento do niilismo. A revelação de Deus em Jesus se dá através do enfraquecimento do ser. tanto a morte de Deus em Nietzsche quanto o fim da metafísica em Heidegger não são obstáculos para o cristianismo. paradoxalmente. O filósofo redescobre o cristianismo a partir da tradição filosófica contemporânea do enfraquecimento do ser. 10:26 61 . Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . p. não se pode mais pensá-lo com as categorias fortes da metafísica. Não que haja razões fortes – metafísicas – para crer. como se deduz da kénosis de Deus em Jesus. P. que deixa de se definir como ipsum esse subsistens. permanecendo sempre mistério. P. Se Deus se fez homem em Jesus. Juiz de Fora: UFMG. A crise da modernidade jogou por terra todas as teorias filosóficas que pretenderam eliminar a religião.34 O Deus de Jesus. A vocação niilista da hermenêutica: Gianni Vattimo e Religião. VATTIMO. Na visão do filósofo. p. A encarnação desconstrói a visão forte de Deus. p. provoca o seu renascimento. rebaixando-se e assumindo a condição humana. Depois da cristandade. 32 33 Perspectiva Teológica. 35 Cf. p. ao contrário. Credere di credere. se esvazia de sua própria divindade e onipotência. p. o cristianismo atua como “o elemento operante niilista dentro da metafísica”36. VATTIMO. pela encarnação. O racionalismo ateu que se manifestava como crença exclusiva na ciência experimental e no desenvolvimento da história rumo a uma plena emancipação do homem perdeu força. 34 A articulação entre niilismo e cristianismo em Gianni Vattimo foi apresentada de modo muito consistente na dissertação de Vicente de Paula Ferreira. Cf. Belo Horizonte. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista: 2007. FERREIRA. apenas não há razões para não crer. as razões filosóficas que justificam o ateísmo ou a recusa da religião não fazem mais sentido32. Ano 44. Segundo ele. A morte de Deus. 27.Surpreende em Vattimo que sua proposta não exclua a religião. 2011. desaparecem também as razões do ateísmo. a religião ressurge com novas expressões. porque a kénosis dissolve a própria metafísica35.pmd 61 23/5/2012. mas com o ser como evento que se mostra e ao mesmo tempo se esconde. mas a possibilidade de reencontrá-lo em sua feição de caritas. A secularização não exige o abandono da hipótese Deus. com o fim da modernidade. assumindo esse mundo. numa experiência de fé mais parecida com aquele encontro não com o ser da assertiva metafísica. o cristianismo é niilismo. 185. Número 122. porque “o fim da metafísica e a morte do Deus moral liquidam as bases filosóficas do ateísmo”33. 101. V. ele se rebaixa. O niilismo acabou criando um terreno fértil para que a religião pudesse brotar novamente.

Vattimo compreende a caridade como movimento relacional capaz de acolher a diferença na idade da interpretação.OK. um fato arquetípico de secularização”37. mas na sua vertente prático-vivencial. ibid. p. p. Cf. 126. Belo Horizonte.. 82. Por outro lado. A partir da kénosis. Depois da cristandade. Ano 44. 70. se encontra na sua vertente dogmática e disciplinar41. Número 122. Sua visão positiva da secularização estabelece a caridade como critério decisivo para o agir humano. p. “Usando uma linguagem mais explicitamente espiritual. p.. a encarnação de Jesus é ela mesma. fundamentada no conceito metafísico de moral natural 42. poderíamos dizer que o único limite para a secularização é o amor. ibid. p. 39 Ibid. 41 Cf. cujo aspecto mais crítico. mas sua leitura desses temas bíblicos se situa para além de uma interpretação teológico-eclesiástica. mais centrado na caridade e menos na moral. mantém sua admiração pela história da santidade cristã. Deus não se enquadra mais na definição ipsum esse (metaphysicum) subsistens40. 87. VATTIMO. lamenta que ela tenha sido mais moral e política e menos mística44. acima de tudo. Vattimo sugere que o cristianismo pós-moderno não se baseie em idéias fortes sobre Deus. virgens e confessores43. ibid. que lhe deu consciência política. O filósofo afirma ter abandonado a fé cristã católica por causa da sua rígida moral sexual. Um cristianismo que assuma o diálogo. 53-68. com seus mártires. 44. que pensa Deus como absoluto. o que o tornaria capaz de respeitar a multireferencialidade conflituosa característica da pós-modernidade. O cristianismo reencontrado a partir do abandono da metafísica se enraíza na caridade. Credere di credere. ibid. a possibilidade de comunicação com uma comunidade de intérpretes”39. para o filósofo.. 58. o cristianismo passaria do universalismo à hospitalidade38. O filósofo pensa a secularização a partir dos conceitos de encarnação e de kénosis. p. no dogma e na disciplina.. 86. ibid. “A secularização não é um termo que se choque com a essência da mensagem e sim um aspecto constitutivo: como evento salvífico e hermenêutico. p. 37 38 62 Perspectiva Teológica. Mesmo reconhecendo aspectos positivos de sua formação católica. O filósofo propõe um cristianismo amigável (amichevole).. respeitando sua vocação à laicidade.. porque o próprio Jesus fez da caridade a dimensão crucial da experiência religiosa cristã. onipotente e transcendente. p. Só a caridade desfaz a sabedoria do mundo e o sonho metafísico da religião. VATTIMO. 40 Cf. mas não coincide exatamente com aquele proposto pela Igreja. 43 Cf. uma vez que o eterno secularizou-se em Jesus. 70. fundamentadas na metafísica. Assim.pmd 62 23/5/2012. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . 42 Cf.cristianismo. 44 Cf. p. 10:26 .

de FIORES. que Vattimo diz admirar.75-82. P. 1999. Concilium (Br) n. 769-780. Rhema. conceitualização. Hoje se assiste a um renovado interesse pela mística. o moralismo e a forte disciplina do cristianismo institucional.OK. há três tipos de mística: da essência. “Mística Cristã”. p. o dado desta unidadecomunhão-presença e não reflexão. como afirmaram alguns místicos. Sob o Fogo do Espírito. 770. Segundo o teólogo. pp. pp. Niilismo e experiência cristã Vattimo representa uma corrente hermenêutica do cristianismo europeu que busca dissociá-lo da metafísica clássica para torná-lo mais aberto. 53-68. Paradoxalmente. ARAÚJO. A mística. 339. de um ponto de vista mais filosófico. G. esponsal e da ausência. não seria um caminho para um cristianismo mais aberto e dinâmico? O filósofo rejeita o dogmatismo. Uma perspectiva a partir do Sul”. Ano 44. 321-322. Um saber para além do conceito ou que não cabe num conceito 45 Cf. Cf. É um saber não sabendo. Em todo caso. Belo Horizonte.). 34-93. São Paulo: Paulus. 82-95. 487. 1998. “Perspectivas da experiência religiosa para o novo milênio”. A. tal crítica encontra eco em teólogos contemporâneos. pp. L’esperienza spirituale: Lezioni introdutive. denuncia o déficit espiritual por parte da Igreja. p. 46 Cf. MOILI. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . 35 (2004) pp. 11 aqui. 47 Cf. DOS ANJOS (Org. 76. 11-26. Henrique de Lima Vaz. por exemplo. às vezes. a preocupação mística ou espiritual não é o forte da instituição46.). T. El fenômeno místico: Estudo comparado. Cf. 48 Cf. p. Clodovis Boff. Experiência mística. assumindo um discurso de cunho doutrinário. VELASCO. 10:26 63 . VAZ. Mas o que aportaria a experiência mística ao homem pós-moderno. partindo dos relatos dos próprios místicos. in: M. aqui p. in S. 303-344. Número 122. C. São Paulo: Paulinas. “Mística e cristianismo no início do Novo Milênio. J. M. O mistério inefável que se anuncia com a vida se revela mais consistente do que qualquer explicação47. 49 Segundo Giovanni Moioli. 50 G. Algumas notas apressadas”. apresenta também três tipologias místicas: especulativa. moralista e disciplinador. se define a mística como “uma experiência religiosa particular de unidade-comunhão-presença.4. A lógica do testemunho parece mais convincente. Milano: Glossa. acostumado com o silêncio de Deus e refém do niilismo? O que teriam a dizer os místicos a uma cultura da ausência de Deus?48 Seria possível imaginar um itinerarium mentis in Deus per nihilum? A variada tipologia mística torna difícil sua conceitualização49. aqui pp. p. talvez os místicos possam se tornar contemporâneos daqueles que escutaram dos lábios de Nietzsche o anúncio da morte de Deus. “Da missão mundial aos cristianismos globais. onde aquilo que ‘se sabe’ é precisamente a realidade. Dicionário de Espiritualidade. mistérica e profética. 2011. que. Se se define a dimensão prático-existencial do cristianismo como a mais importante. parece se ocupar mais de problemas burocráticos e administrativos. BOFF.pmd 63 23/5/2012. F. 1993. aqui p. MOIOLI. dinâmico e flexível45. F. racionalização do dado religioso vivido”50. WILFRED. Perspectiva Teológica. GOFFI (Org. Madri: Trotta. pp.

ao contrário. Roma: Paoline. 10:26 . quando a solidariedade ilimitada faz descobrir o outro como próximo. O relato de sua experiência de Deus. O excesso do sensível na sua narrativa fala ao homem de hoje. Cf. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .OK. escravos e livres. “O cristão de amanhã ou será um místico.pmd 64 23/5/2012. in: Nuovi Saggi II. no qual se apreende uma realidade para além do lógico e do pensamento conceitual52. Ela pertence ao trans-lógico. Mesmo admitindo a transcendência. Como se dissesse: Deus acontece no mundo quando o amor supera o ódio através do perdão. mais poética e menos conceitual. “Pietà in passato e oggi”. a tipologia mística que mais fala ao cristão pós-moderno é a que se define como mística da ausência. Mas a irracionalidade mística não se revela mais razoável do que discursos racionais que dão a impressão de domesticar Deus? Ela inaugura uma nova linguagem para falar de Deus. pois. alguém que experimentou alguma coisa. embora possa incluir momentos de prova. É o caso de Santa Teresa de Ávila. homens e mulheres. como Jesus. atrai leitores de diversas áreas do saber. Sem abandonar o dogma. p. quer comunicar o inefável e transmitir mais o sabor de Deus do que o saber sobre Deus. mas sua palavra sobre Deus se centra na unidadecomunhão-presença e não no conceito. ou deixará de ser cristão”51. Os místicos não negam o discurso metafísico sobre Deus. quando a fraternidade destrói o muro de separação entre ricos e pobres. aliás. pp. profunda e consistente. cuja característica principal se encontra na inefabilidade. no Livro da Vida. Rahner considera a experiência o dado místico mais importante da própria existência cristã. 64 Perspectiva Teológica. 53-68. de um conhecimento incomunicável. 24. Na mística esponsal. Falam de Deus mais de modo narrativo que discursivo. insuficiente para traduzir a incompreensibilidade do mistério. que. do ponto de vista existencial. Belo Horizonte. a moral e a disciplina. apresenta-se como pensamento enfraquecido. VAZ. Número 122. p. 34-35. cuja mística permanece um paradigma insuperável. seu encontro com Deus se realiza na dimensão prático-existencial. até irracional. No entanto. Experiência mística. Claro que o domínio da mística não é o do alógico ou irracional. Teresa testemunha uma experiência sensibilíssima de Deus e nem por isso superficial. Trata-se. mostrou como Deus age na história. a mística ilógica. Heidegger afirmara: “conhece muito pouco nossa época quem não experimentou a força do Nada e não foi 51 52 RAHNER. nas parábolas. por exemplo. os místicos da ausência se defrontaram com o nada no seu caminho rumo a Deus. do ponto de vista do discurso. a experiência de Deus se realiza de modo gratificante e saboroso. A mística. às vezes. Sua linguagem. Considera-se. Exatamente essa dimensão trans-lógica a torna tão atraente num contexto marcado pelo niilismo.racional preciso. Ano 44. mais atento ao estético do que à razão. Um encontro que é a refundição do próprio ser em Deus.

. que Ele não está ali56. no meio das mais densas trevas. católica. nem fé. p. em última instância. mas sua pequena via é prático-existencial. 10:26 65 . Oltre la linea. p. eu canto simplesmente o que eu quero crer55 ”. Não há Deus em mim. Apenas anseia por Deus. Ela é cristã. sentindo o vestígio do nada. seja minha luz. nada a não ser a dor contínua de ansiar por Deus”57. Mutatis mutandis. Teresa de Calcutá sente a presença de Deus no padecimento de sua ausência. certezas anestesiantes ou compensações humanas. Abalada em suas certezas. O niilismo. 104. Seu caminho se faz na nudez. p. 53-68. Rio de Janeiro: Thomas Nelson. encontra Deus no amor abnegado e desinteressado. 217. M. Santa Teresinha. E. Santa Teresinha. que realmente não vejo nada – nem com a mente nem com a razão. p. 2008. Experiência semelhante viveu a beata Teresa de Calcutá. Nem oração. 86. acolhe o que diz a Igreja. sua proposta faz pensar no cristianismo amigável de Vattimo: enfraquecido. Milano: Adelphi. destituído da idéia de substância e de essência. sem gratificações afetivas. p. 234. no qual sente a vertigem do nada. a eterna posse de Deus. 217. E há casos ainda mais 53 E.OK. em crise de fé. O texto citado foi tirado das cartas que o autor do livro analisa. que te dará não o que esperas. 1989. p.tentado por ela”53. sustentado pela confiança inabalável na misericórdia de Deus. 56 B. Não busca uma resposta metafísica que a console. Número 122. Quando a dor da ânsia é tão grande. burlando de mim: Sonhas com a luz. p. solidária com os que padecem a ausência de Deus. a ser percorrida com confiança ilimitada em Jesus na banalidade do cotidiano. mas uma noite mais profunda ainda. não sinto nisso nenhuma alegria. Apud F. 55 Ibid. 57 Ibid. VOLPI. Ano 44.. a noite do nada54. só anseio e anseio por Deus. HEIDEGGER. nem amor. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .pmd 65 23/5/2012. 2001. ousa se entregar ao amor na simplicidade do quotidiano. JÜNGER . Belo Horizonte. O lugar de Deus na minha alma é um espaço vazio. propõe a pequena via do amor. 218. A ausência de Deus se mostra o traço fundamental dessa experiência. na dúvida e na desolação. e é então que sinto que Ele não me quer. Por fim. “Tenho apenas a alegria de nada ter. em um oásis às avessas. Histoire d’une âme. tentada pela força do nada. Madre Teresa: Venha. me dizem. Paris: Sarment. nem sequer a realidade da presença de Deus. com uma pátria aromatizada com os mais suaves perfumes? Sonhas com a posse eterna do Criador de todas essas maravilhas? Crês poder sair um dia das brumas que te rodeiam? Adiante! Aproveite a morte. A escuridão é tal. apropriando-se da voz dos pecadores. 54 THERÈSE DE LISIEUX. Seu caminho é o da nudez total. Transforma seu deserto. desabafa: Parece-me que as trevas. KOLODIEJCHUK. traço marcante da filosofia do final do século XIX. exclama: “Quando eu canto a alegria do céu. Perspectiva Teológica.

481. alguém que experimenta o mistério de Deus. Só encontra o rosto de Deus quem atravessa o deserto do nada. Mas a conversio cordis supõe experiência do mistério. prático-existencial. Experiencia mística y psicoanálisis. O discernimento desses casos é complexo. F. em alguns casos. p. que. 461. Dá-se uma forte percepção do sentido do nada. 1999. apenas uma etapa de um processo espiritual. A mística cristã faz despontar para o niilista um caminho possível rumo ao mistério último. palavras.. 1999. L’esperienza spirituale. a São João da Cruz. há um elemento místico na experiência cristã que precisa ser sempre resgatado. RUIZ. Trata-se de um mistério que jamais será totalmente sentido. o relativismo ético que tanto se combate. normalmente. 27. porque. Os místicos atestam que Deus se situa para além de nomes. todo cristão é chamado a ser místico. num estudo minucioso sobre mística. Místico e mestre São João da Cruz. Sexo. 53-68. à qual ela está referida. Ele se torna um itinerarium mentis in Deum per nihilum. Cf. C. faz uma leitura teológica muito profunda e consistente sobre a temática. a pessoa se sente envolvida por uma presença misteriosa e insondável. do nada de Deus. assim. ibid. especialista em João da Cruz. Santander: Sal Terrae. em última instância. p. paradoxalmente. 256-289. MORANO. a conversio moris brota da conversio cordis60. Por outro lado. Le vie dello Spirito: Sintesi di teologia spirituale. desde o mais profundo do seu ser. Bologna: EDB. 92-94. 359-360. RUIZ. 62 Ruiz. ainda que sofrida. O itinerário rumo a Deus. 61 As observações de González Faus sobre as consequências da falta da mística para a moral sexual da Igreja são muito pertinentes. VELASCO. de forma amorosa e gratuita. como afirmara Rahner. 10:26 . em Jesus Cristo. I. A mística potencia a vida moral. 53-66.OK. Cf. alguns se tornaram suspeitos de niilismo. mas de modo fraco. Os espirituais recorrem. mas. Número 122. Cf. nesse caso. 66 Perspectiva Teológica. em muitas ocasiões. A presença de Deus é sentida como ausência sofrida. p. Ano 44. a partir de um discurso metafísico. inclusive. diferencia experiência cristã e experiência cristã mística. do nada das idéias. dos sentimentos. novas energias para a vida moral. Belo Horizonte. A ausência sentida por alguns místicos pode ser provisória. Segundo o autor. possuído e dominado. p. São Paulo: Loyola. o conceito de noite escura. dura a vida toda. 1995. provoca conversão e gera.pmd 66 23/5/2012. faz do niilismo um momento imprescindível da autêntica experiência do mistério. As exigências morais da existência cristã passam pela conversão do coração. redescobrese o Deus verdadeiro como o sentido último da própria existência. 59 Cf. p. mas não de maneira teórica. p. A experiência mística. Supera-se. por isso. No vazio de idéias sobre Deus. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . 60 Cf. magnificamente. p. como afirmou Rahner. que permanece uma possibilidade. Federico Ruiz. Nesse sentido.desconcertantes58. D. Cf. GONZÁLES FAUS. aproximou-se da humanidade. J. p. mas o 58 Cf. verdades e discurso eclesiástico. 1999. daquele Deus construído com limitadas palavras humanas59. F. MOIOLI. que elabora. Nem todo cristão é chamado a ser místico em sentido estrito62. sem a qual serão sempre sentidas como um fardo pesado imposto pela autoridade61. Apesar disso. Petrópolis: Vozes. a maioria dos cristãos não faz uma experiência mística de Deus. El fenômeno místico. definições e é sempre inefável.

Mas a experiência exige. Sem o fenômeno místico. O reforço doutrinal não consegue esconder. como se por milagre essa palavra que retorna fosse cada vez adequada por razões diferentes. Também é capaz de tirar do evangelho energias novas com as quais falar ao coração do homem. 435. C. p. 1. Cf. 2004. com sua linguagem poética e até subversiva. Mas. de todo entusiasmo.elemento místico da existência cristã se torna indispensável para uma redescoberta de Deus em tempos de niilismo. Há uma propensão a criar leis para tudo e a falar sobre diversos assuntos para cada vez menos pessoas. por outro lado. 52. como se imitar pudesse deixar de ser sentido como uma imitação: palavra sem cerimônia. Belo Horizonte. R. Roland Barthes. Conclusão Assiste-se hoje. ajuda a sair do verbalismo vazio e estereotipado64. Sth II-II q. que pretende a consistência e ignora a sua própria insistência”. às vezes. Trata-se de um discurso repetitivo. uma espécie de aridez espiritual que parece ter se apoderado da interioridade da experiência de Deus. Passar do fun- 63 Cf. a mística. famoso linguista francês. no âmbito dos organismos eclesiais. 5. mimético e estereotipado. como se fosse natural. THEOLBALD. p. Ninguém nega a necessidade do fundamento. Num tempo de niilismo e de desconfiança dos discursos racionais. deixa a impressão de ser apenas mera construção ideológica que não chega a irradiar o mistério e o sabor da transcendência. BARTHES. fora de toda magia. ad 2. Perspectiva Teológica. a dimensão experiencial da fé. Afirmações absolutas e teologicamente duvidosas são repetidas ad nauseam. o atravessamento do nada como condição para o verdadeiro encontro com o mistério inefável de Deus. não se chega ao fundamento. Ano 44. 64 Infelizmente. sem o qual o conceito de verdade se esvazia. p.OK. hoje há discurso que banaliza o mistério de Deus.pmd 67 23/5/2012. a. Todos os problemas da Igreja estão resolvidos em documentos e decretos. ou seja. O prazer do texto. à graça in factu esse. mas chega à realidade)65. no entanto. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . 53-68. Le christianisme comme style: Une manière de faire de la théologie en postmodernité. A pressão pós-moderna sobre o catolicismo provoca o reforço das estruturas discursivas e doutrinais63. ou seja. 2008. 2. Ela tem potencial para devolver à palavra da fé seu respiro original e sua linfa mais expressiva. Número 122. São Paulo: Perspectiva. 10:26 67 . Paris: Cerf. faz uma afirmação sobre estereótipo que se adequa bem a muitos discursos hodiernos sobre Deus: “o estereótipo é a palavra repetida. 65 TOMÁS DE AQUINO. sed ad rem (o ato de quem crê não se conclui com o enunciado. não haveria também a necessidade de uma passagem do fundamento ao fenômeno? Ao fenômeno místico. uma inflação de textos. E quando a fé se reduz a um esqueleto conceitual. Santo Tomás de Aquino afirmara: actus enim credentis non terminatur ad enuntiabile. o que sinaliza incapacidade de se concentrar no essencial.

com.pmd 68 23/5/2012.damento ao fenômeno significa passar do enunciado à realidade da experiência de Deus. p. Levando em consideração o aspecto positivo da crítica de Vattimo. Mestrado em teologia (2003) com especialização em Espiritualidade na Pontifícia Faculdade Teresianum de Roma. que o excede enormemente. talvez o niilismo pós-moderno esteja exigindo um cristianismo menos apologético e mais epifânico.br 68 Perspectiva Teológica. 10:26 . Número 122. Endereço: Rua Tupis. que mostre mais e demonstre menos. 164 (Centro) 30190-060 Belo Horizonte – MG e-mail:pecarrara@terra.OK. menos racionalista e mais mistagógico. Um cristianismo mais místico. Paulo Sérgio Carrara CSsR licenciou-se em filosofia (1990) pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Atualmente é professor de teologia no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA) em Belo Horizonte. 53-68. Fez bacharelado em teologia (1996) na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte (FAJE). como atestam tanto místicos quanto niilistas. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Ano 44. Doutorado em teologia (2010) na FAJE. Belo Horizonte.

Advent season. Basil) Víctor Codina SJ * RESUMO: O artigo se propõe recuperar a Pneumatologia – em contraposição ao esquecimento do Espírito na teologia latina – e refletir não só em torno à presença pós-pascal do Espírito na Igreja e no mundo. Artigo submetido a avaliação em 27/02/2012 e aprovado em 02/03/2012.PRIORIDADE TEOLÓGICO-PASTORAL DA PNEUMATOLOGIA HOJE: “O ESPÍRITO PRECEDE A VINDA DE CRISTO” (SÃO BASÍLIO) * Theological-Pastoral priority of pneumatology today: "The Spirit precedes the coming of Christ" (St. Pmanência cósmica. Tempo de advento. Mistagogy. 11:42 69 .pmd 69 24/5/2012. Ano 44. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Ethical prophetism. Número 122. Universidad Católica Boliviana de Cochabamba (Cochabamba. PALAVRAS-CHAVE: Cristologia e Pneumatologia. which implies major consequences for the pastoral care of today. Bolívia). o que implica importantes consequências para a pastoral de hoje. mas também sobre o Espírito como condição necessária para o acesso ao Senhor.OK. p. KEYWORDS: Christology and Pneumatology. ABSTRACT: The article intends to recuperate the Pneumatology – before the forgotten dimension of the Spirit which has happened in Latin theology – and reflect not only on the paschal presence of the Spirit in the Church. but also on the Spirit as a prerequisite for access to the Lord. Mistagogia. Belo Horizonte. Profetismo ético. 69-86. Cosmic immanence. Perspectiva Teológica.

da Igreja. de uma nova era axial. Segundo. J. O característico do ser cristão é a pessoa mesma de Jesus e Ele é o que determina o ser. etc. A cristologia se desenvolveu e se renovou amplamente na segunda metade do século XX. Fora dele não há salvação (At 4. I. L. Bravo. de um terremoto seguido de um forte tsunami que tudo sacode e invade. a verdade e a vida (Jo 14. o agir e a doutrina do cristianismo. integrando o Cristo da fé com o Jesus histórico.pmd 70 23/5/2012. J. I. econômico. da evangelização e da missão. Belo Horizonte. C. de mudança de época e de paradigma. ressaltando a importância da ressurreição em sua missão salvífica. Ano 44. M. 10:26 . J. entre os teólogos europeus e os de L.12). M. Cristocentrismo da fé eclesial Comecemos reafirmando que Jesus Cristo constitui a identidade básica da fé cristã. Castillo. Deve-se afirmar claramente que uma coisa é desocidentalizar. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Número 122. redescobrindo a centralidade do Reino e da opção pelos pobres em sua práxis messiânica. F. X.6). p. sua vida e seu mistério pascal. Tanto a encíclica Redemptoris missio de João Paulo II (1990) como a própria declaração Dominus Iesus (2000). Schillebeeckx. deselenizar ou 70 Perspectiva Teológica.A s profundas mudanças que experimentamos no mundo de hoje nos âmbitos social. Este capítulo é bem conhecido e basta recordar os nomes de K. questionável em muitos aspectos. das Igrejas e de sua missão evangelizadora? Que elementos da identidade cristã são irrenunciáveis e que novos desafios interpelam nossa fé e nossa práxis cristã? Como ser cristãos e cristãs no século XXI? Que novos acentos e impulsos temos de assumir em nossa vida e missão cristã de hoje? I. González Faus. C. Rahner. J. Palacio. os primeiros concílios foram cristológicos para defender a divindade do Filho e a verdade de sua encarnação em Jesus de Nazaré. Sobrino. político. entre os latino-americanos. Neste contexto globalizado como ressituar a fé e a vida dos cristãos. cultural e climático repercutem necessariamente no âmbito religioso e espiritual da humanidade. da liturgia e da diaconia da Igreja. etc. E. 69-86. Boff. ele é o caminho. Jesus Cristo é o centro do querigma. técnico. nem em uma filosofia religiosa que existam independentemente de Jesus de Nazaré. Hurtado etc. Durrwell. J. já que a essência do cristianismo não consiste em uma doutrina nem em uma ética. com razão insistem na centralidade salvífica de Jesus Cristo diante das tentativas de relativizar o mistério de Cristo na história da salvação sob o pretexto do diálogo inter-religioso em que a figura de Cristo poderia parecer dificultar a aproximação entre as religiões e espiritualidades. Já é um lugar-comum falar de crise.OK. aprofundando suas raízes bíblicas. Ellacuría. Moingt.

Concilium nº 342.14) e aquele que nos promete e confere o Espírito (Jo 14-16. inflação do magistério eclesiástico com pouco respeito ao sensus fidelium do Povo de Deus. BINGEMER. inquisição e antissemitismo. a um cristomonismo. p. 10:26 71 . Creo en el Espíritu Santo. é algo que damos por suposto. M. Tudo isto é amplamente conhecido. na expressão do teólogo ortodoxo Nikos Nissiotis. teve consequências muito negativas na práxis cristã: prevalência do doutrinal. inflação do jurídico. p. Número 122. cruzadas. 1994. jovens e atualmente as mulheres. 69-86.: Creio no Espírito Santo: revelação e experiência do Espírito. bras. Barcelona: Herder. CODINA.descolonizar o cristianismo e outra muito diferente é descristianizar o cristianismo ou limitar-se a uma cristologia light. bras. p. morte e ressurreição de Jesus se discernem todos os espíritos (1Jo 4).OK.L.49. guerras religiosas. El Espíritu Santo. São Paulo: Paulinas. com a conseguinte debilitação da fé do povo. O amor escondido. Sal Terrae. favorecimento de um cristianismo puramente sociológico e cultural. Indubitavelmente esta fé cristológica sempre se situou em um contexto trinitário: Jesus é o Filho do Pai. V.pmd 71 23/5/2012. (trad. 1 Y. no qual o Espírito sempre fica como um apêndice final. 54-65. cientistas políticos. At 2). Notas sobre a kenosis do Espírito no Ocidente. a Palavra feita carne (Jo 1. 1.1 Este esquecimento do Espírito na Igreja latina além de ter reduzido praticamente a teologia trinitária à trilogia Deus-Cristo-Igreja. perda do simbólico e poético. 42-50. sobretudo no Ocidente. Santander. levou a certo esquecimento do Espírito. Este tema também já foi amplamente estudado. algo irrenunciável e que nos serve como pedra de toque para discernir qualquer corrente ou movimento espiritual: em confronto com a vida. setembro 2011.: Creio no Espírito Santo: pneumatologia narrativa. 1997). V.C. 2005). O custo eclesial deste olvido do Espírito tem sido muito sério e merece uma profunda reflexão. o carismático e místico.. M. São Paulo: Paulinas. Belo Horizonte. distanciamento da Igreja e da fé por parte de grandes setores da sociedade (intelectuais. Ano 44. do institucional e estrutural da Igreja sobre o comunitário. 188 (trad. arrogância eclesial e fechamento ao mundo secular e a seus avanços modernos. 1983.). centralismo universalista romano diante da legítima autonomia e sinodalidade das Igrejas locais. do moral e ritual sobre o vivencial e experiencial. operários. Olvido do Espírito Mas muitas vezes o centralismo de Cristo. II. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . imobilismo. CONGAR. postura apologética e proselitista na missão. Perspectiva Teológica.. Lc 24. divórcio entre teologia e espiritualidade. p.

ao ver a devoção do povo a Maria se perguntou se não se poderia falar de uma espécie de união hipostática entre o Espírito e Maria. devem ser corrigidos à luz de uma evangelização plena da Palavra e do lugar que ocupa a devoção a Maria dentro da história da salvação. Mariologia Dos sucedâneos do Espírito centremo-nos no principal que é a Virgem Maria e a Mariologia. também no não tão simples.. na expressão de Mons. Maurício Lefèbvre. Ano 44. 188-194. Maria exerce sua maternidade para conosco. Número 122. defensora dos fiéis ante o juiz Cristo e ante o Pai. exigente e duro. como expressa a célebre formulação “a Jesus por Maria”. a “boazinha”. 10:26 . muitas vezes excessivas. é vida.Mas por outro lado este esquecimento do Espírito espontaneamente suscita sucedâneos e provoca reações contrárias. Evidentemente todos esses excessos que não negam a boa fé do povo. Por trás desses excessos há uma falta de evangelização realmente trinitária sobre o Cristo. Mas há certamente outro aspecto desta devoção mariana que não podemos esquecer. Muitas vezes os primeiros missionários promoveram a devoção a Maria com uma clara intenção apologética antiprotestante.. 1.. Sobre este ponto e o da mariologia se pode ver o que afirma Congar em seu livro clássico já citado. encarnada na geografia e na história. É preciso recordar que à diferença da pessoa de Jesus que é visível. dá-nos a vida da graça. à semelhança da encarnação do Verbo em Jesus. El Espíritu Santo. com uma espiritualidade e uma pastoral que deixa na sombra a encarnação do Filho e o compromisso cristão que daí deriva. junto com Maria constituem “as três brancuras que Deus nos deu”. consoladora. 69-86. o Espírito e o amor do Pai. Belo Horizonte. leva-nos a Jesus. Inclusive um conhecido teólogo latino-americano. p. que visibiliza a misericórdia e ternura compassiva de Deus. com fatos e palavras que se 2 Deixamos de lado outros dois sucedâneos do Espírito que segundo alguns autores também têm sido reais.. em comparação com um Deus justo juiz. com risco de pneumatomonismo. 72 Perspectiva Teológica. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Muitas vezes o povo cristão atribui a Maria características do Espírito: rosto materno e feminino de Deus.OK. Certamente esta devoção mariana pode desembocar e às vezes desemboca em uma hipertrofia mariológica. doçura e esperança nossa. um sentimento latente de medo e terror ante o juízo final e a possibilidade de condenação: Maria é boa. a eucaristia e o Papa que. mostra-nos e revela-nos Jesus. advogada.2 Na América Latina a devoção do povo a Maria e a peregrinação a seus santuários é um fato que marca profundamente a fé. há risco de cair em uma mariolatria como os cristãos da Reforma nos criticam continuamente. persiste no povo simples.pmd 72 23/5/2012. com um déficit de Cristologia e de Pneumatologia. p.

anônima. o perfume. setembro 2011. Concilium nº 342. “O Espírito derramado sobre toda carne”. em meio a seu grande pluralismo.recolheram na tradição dos evangelhos. Testemunhos pentecostais e experiências do Espírito Santo. dedicado à onda pentecostal e os artigos de Veli-Matti KÄRKKÄINEN. p. Número 122. Présence de l´Esprit Saint dans la tradition orthodoxe. a tradição patrística oriental viu em Maria um ícone não só da encarnação e da Igreja. Belo Horizonte. mas também do Espírito Santo. “Pentecostais clássicos” e “neopentecostais” brasileiros. Pneumatologias em conflito. Paris: Cerf. 4 De fide ortodoxa III. setembro 2011 e de Leopoldo Silveira CAMPOS.. silenciosa. João Damasceno afirma que Maria. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Concilium nº 342. crescimento tão importante que alguns autores o comparam com o surgimento do movimento da Reforma do século XVI. os movimentos carismáticos que existem nas Igrejas históricas. Perspectiva Teológica. enquanto Mãe de Deus (Theotókos). “a virginal Maternidade da Theotókos (Mãe de Deus) é considerada como uma figura do Espírito Santo”3. 6 Veja-se o nº 119 da Perspectiva Teológica. concretamente no Brasil. Pentecostalismo Outro fenômeno a se considerar é o auge do pentecostalismo em todo o mundo.. pneumatológicas e trinitárias que estão contidas no ícone de Maria. Pois bem. 85-97. 12. a ave e a pomba que voa. 69-86. 26-27.OK. PG 94. pois. Como escreve o teólogo russo Paul Evdokimov. simplesmente de criticar a devoção popular a Maria. p. quenótica e obscura. mas em uma imagem simbólica e em um sinal visível que revele a ação do Espírito na história da salvação e em toda a vida cristã. dinâmica. expressa-se biblicamente através de símbolos cósmicos como o alento vital e o vento. fria. 3 P.4 Não se trata. tanto católica como evangélicas. mas de explicitar as dimensões cristológicas. pois sob esta palavra se incluem o pentecostalismo clássico de inícios do século XX. sem nome próprio. O tema foi amplamente estudado por sociólogos e teólogos6. p. 1969. 10:26 73 . 5 A exortação apostólica de Paulo VI Marialis cultus. a pessoa do Espírito é invisível. expressa bem a relação entre Maria e o Espírito Santo. contém toda a história da economia divina no mundo. e o neopentecostalismo recente. a unção com óleo.pmd 73 23/5/2012. também na América Latina. 1029C. verbo mais que substantivo. de modo que Maria não se converta em um sucedâneo do Espírito. pouco humana e pouco sensível aos problemas e necessidades vitais do povo que num mundo tão duro e cruel como o atual. por isso nos limitamos a constatar que este acontecimento. 78. p. fluida. 1974. Ano 44. é uma crítica séria a uma religiosidade cristã excessivamente racional. EVDOKIMOV. Na realidade deve-se falar de pentecostalismos. 75-84. graças à especial vinculação de Maria com o Espírito na encarnação e em toda sua vida. o fogo. janeiro/abril 2011.5 2. a água. E mais.

necessidade de conversão. alegria. Hacia un tiempo de síntesis. É evidente que todos esses movimentos pentecostais precisam ser discernidos à luz do mistério de Jesus de Nazaré. a Igreja serve ao Espírito de Cristo. Ano 44. do Filho e do Espírito. etc. respondendo aos desejos e orações de João XXIII que pedia que o Concílio fosse um verdadeiro Pentecostes para a Igreja. saúde e cura espiritual e corporal. Barcelona: Fragmenta Editorial. festa. No fundo postulam um maior reconhecimento teórico e prático do Espírito na vida cristã de hoje. 10:26 . III. mas isso não impede reconhecer sua importância e o desafio pastoral e teológico que eles representam para as Igrejas. o espontâneo. sobretudo atra- Ver: La New Age ¿mística o mistificación? in X. a New Age é uma crítica a uma espiritualidade fria. Congar enumera alguns dos avanços positivos da pneumatologia conciliar: sua pneumatologia não é um pneumatocentrismo mas uma pneumatologia claramente cristológica.pmd 74 23/5/2012. onde se integrem o corpo e o cosmos. o Espírito é o Espírito de Cristo. 3. consolo. em meio a muitas ambiguidades e confusões que necessitam de um contínuo discernimento à luz do evangelho. é uma comunidade unida pela unidade do Pai.OK. Busca de novas espiritualidades Finalmente queremos dizer uma palavra sobre a New Age. o Espírito se acha presente nos sacramentos. Número 122. etc. nebulosa esotérica e confusa. ligada à passagem da constelação de Peixes à de Aquário. As críticas dos observadores ortodoxos. 69-86. a reconciliação com o presente imediato. 145-162. desencarnada. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . um anelo por experiências e realidades que a partir da fé cristã podemos identificar como uma busca anônima do Espírito. por outra parte. que busca a fluidez.busca experiência espiritual. foram amplamente escutadas. racionalista e voluntarista e. MELLONI. uma espiritualidade holística. 2011. Necessidade de uma complementação pneumatológica O Concílio Vaticano II (1962-1965) impulsionou uma renovação pneumatológica na Igreja. e por isso recorre ao Espírito de Pentecostes. com muitos elementos das cosmovisões orientais. pp. p. Belo Horizonte. 7 74 Perspectiva Teológica. inclusão social. muitas vezes assumidos como religião à la carte. a harmonia e a paz interior. protestantes e anglicanos que apontavam a falta de pneumatologia dos textos que se discutiam.7 Sem dúvida.

é o momento de renascer (ou melhor. 170. p. recuperam-se os carismas na Igreja. deve suceder um estudo novo e um culto novo ao Espírito Santo justamente como complemento que não deve faltar ao ensinamento do Concílio”9. Simón Pedro Arnold. à experiência espiritual e à presença do Espírito na história. CONGAR. Quer dizer. 201. Número 122. cita em CONGAR. nas pessoas e na própria Igreja. 10 Ver um comentário atualizado desta encíclica em Paul D. 14 Ibid. p. 264. 13 Pedro TRIGO. nº 17. El método en teología. maio-agosto 2011.c. Caracas: ITER. como mediação que prepara os caminhos do Senhor na criação. os Santos Padres. 1983. João Paulo II também deu contribuição à pneumatologia com sua encíclica Dominum et vivificantem (1986)10. Belo Horizonte. a atualidade do Espírito deve ter primazia” 14. a saber: o Espírito. l. ainda hoje surgem vozes pedindo uma revolução pneumatológica: “Uma vez que se levou a cabo (pelo menos parcialmente) a revolução cristológica. Leitura da encíclica Dominum et vivificantem hoje. o que certamente contrasta com uma visão da Y. 12 S. em consonância com a teologia oriental. XXX años de Itinerancia (1979-2009).8 Mas apesar desses avanços positivos do Vaticano II. porque nunca esteve viva) uma revolução pneumatológica. 11 J. setembro 2011. Audiência geral de 6 de junho de 1973.OK. Puno-Cochabamba: Verbo Divino. Trata-se. mas que aprofundasse também em chave pneumática como condição necessária de acesso a Cristo. ao falar de nossa relação com ela. Isso estaria conforme com estas afirmações de Pedro Trigo: “O que ao falar da Trindade em si vem em último lugar. p. I.32) a uma cristologia trinitária e à pneumatologia. 2010.vés da epiclese. P. as religiões originárias12. MURRAY. in INSTITUTO DE TEOLOGIA PARA RELIGIOSOS (Org. pois. ARNOLD. Concílium nº 342. E: “Também por este motivo. Por sua parte. como dom do Ressuscitado. de dar uma prioridade teológico-pastoral à pneumatologia na Igreja de hoje. Não obstante. pp. Barcelona: Herder. La Iglesia católica-romana no es la verdadera Iglesia de Cristo.pmd 75 23/5/2012. GONZÁLEZ FAUS. p. 69-86. El Espíritu Santo. p. p. nº 83. Parece-me que a exigência atual e o mais interessante seria elaborar uma espécie de pneumatologia fundamental que não se limitasse a reconhecer a presença do Espírito na Igreja e no mundo depois da Páscoa-Pentecostes. teólogo radicado no Peru. Esta poderia ser a tarefa para a teologia do futuro”11. 97-114. Ano 44. na história. 203. 10:26 75 . ele ocupa o primeiro” 13. p. etc. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . o Espírito atua na história (GS). afirma que se deve passar da cristologia do Jesus histórico e da Gaudium et Spes (GS 22. 2009. Paulo VI não duvidou em afirmar que: “À cristologia e especialmente à eclesiologia do Concílio. Ensayos andinos. 8 9 Perspectiva Teológica. simplesmente de nascer. 139-143.). 195-201. Revista Latinoamericana de Teología. uma perspectiva pneumatológica mais na linha de Lucas e Atos que na de João. os movimentos carismáticos. M.

Comentários recentes procuram um meio termo entre a perspectiva dogmática e a histórico-crítica.. 2011. 69-86. Una teología del Espíritu creador.22)15. de iniciação.pmd 76 23/5/2012. 30-40. 15 Marie-Theres WACKER.. 67s (trad. 14. A exegese histórico-crítica opõe a esta interpretação que em Gn 1. palavras. cursos de formação. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . patrística e litúrgica da Igreja. confusão). está presente desde o começo no alento de Deus. 10:26 . e as trevas cobriam o abismo.12). magistério. O que fica claro é que a presença amorosa do alento vital.17) alento (1Rs 19. p.: Sopro de vida: uma teologia do Espírito criador. O primeiro relato da criação nos diz que “a terra era woho – wa-bohu (caos. Qo 1.. em comparação com um déficit de experiência espiritual. seria preciso recuperar a tradição bíblica. 2007). 16 D. que se move com a vibração do pairar de uma ave (Dt 32. A interpretação cristã tradicional reconhece na ruach elohim uma referência ao Espírito Santo. de formação bíblica e catequética.10.12) e espíritos de diversa índole. inseparavelmente unido à Palavra16.16. O Espírito de Deus no espaço público das comunidades cristãs – Inspirações a partir da Bíblia hebraica. no sentido de forte vento. 2008. Mas não vivemos uma inflação de doutrinas.2 se trata de uma descrição do caos típica do Oriente. Ano 44.evangelização prioritariamente querigmática.2). mas somente dar algumas pistas que ajudem a recordar que o Espírito prepara os caminhos do Senhor. bras.7. São Paulo: Loyola. de anúncio da Palavra. de silêncio contemplativo e de mistagogia? Para que nossa proposta não pareça estranha.3). na qual o Espírito está fora de lugar e que se deveria traduzir como a presença da tempestade de Deus. IV. catecismo. Aproximação bíblica Não pretendemos apresentar aqui uma fundamentação bíblica da pneumatologia. aulas de religião. Lc 3.2 uma menção ao alento de Deus: a Palavra de Deus que se expressará em forma criadora.. Aliento de vida. transmissão de conceitos e tradições. p. de interioridade. homilias. enquanto a ruach elohim pairava sobre as águas” (Gn 1. Estella: Verbo Divino. uma presença anterior à Palavra criadora que se refere a Cristo (Gn 1. princípio divino que capacita um universo emergente para ser e evolucionar e que a tradição cristã interpretará como o Espírito criador. Concilium nº 342 p. Número 122. prestando mais atenção à tessitura do texto e vendo em Gn 1.4) e que pode ter-se desenvolvido logo na imagem do Espírito como pomba (Mc 1. ave que antecipa as asas divinas que protegem o povo (Sl 91.OK. E as três traduções assumem significados convergentes da palavra hebraica ruach que pode significar vento (Gn 2. Belo Horizonte. Mt 3. 76 Perspectiva Teológica. EDWARDS.

que anunciam que o futuro rei messiânico estará cheio do Espírito (Is 11). p. 5. Jo 1. IRINEU.34). Mt 3.7.11) e que prosseguirá a obra de Jesus a partir de Pentecostes (At 2).20. O D.6. 4.pmd 77 23/5/2012. 57. Ele está ativo em cada etapa da história da salvação”17. como Lucas ressalta continuamente (Lc 4. Os Atos dos Apóstolos nos narram como o Espírito anima a evangelização apostólica e como se derrama inclusive sobre os gentios num Pentecostes semelhante ao da primeira comunidade (At 10). 7. que preparará os caminhos do Senhor.3.4.34.10.4. a não ser movido pelo Espírito (1Cor 12. 10:26 77 . Número 122. 2008. Belo Horizonte. também aqui.32) e guia toda a vida de Jesus.28. Aliento de vida. 4.Este Espírito é que moverá com força as figuras que conduzem Israel. se está movido pelo Espírito. 3. para evitar que o messianismo de Jesus fosse mal compreendido antes da Páscoa (Mc 1. Este Espírito desce sobre Jesus no batismo (Mc 1. juízes.15).25. quereríamos insinuar que se deve ter também em conta a importância do segredo messiânico nos evangelhos. 5. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Paulo resumirá graficamente esta relação estreita entre o Espírito e Jesus ao dizer que ninguém pode dizer “Maldito seja Jesus”. 8.).1. sobretudo em Marcos. a dar algumas referências de como alguns Padres da Igreja unem estreitamente cristologia e pneumatologia e insinuam uma precedência do Espírito no tocante ao acesso a Jesus.21. p.3). 1995.30.. Lc 3.12. Espírito é quem desce sobre Maria de Nazaré (Lc 1.13. mas uma visão que reduzisse o Espírito para depois da ressurreição de Jesus não daria plenamente conta do mistério do Espírito na criação e na história.38.14.44. 19. As duas mãos do Pai. reis e sobretudo profetas. 5. Ver sobre este tema o estudo teológico de Luiz Eustáquio dos Santos NOGUEIRA. Este Espírito é quem suscitará o nascimento de João Batista (Lc 1. 22).43. 69-86.30. Ademais de tudo isso. Adv. EDWARDS. Nas palavras do teólogo e pneumatólogo Denis Edwards: “Não deveríamos pensar que o Espírito vem só depois da ressurreição de Jesus. Haer.OK. Aproximação patrística Limitar-nos-emos. o Filho e o Espírito. 5. Este Espírito é quem ressuscitará Jesus dentre os mortos (Br 8. 17 18 Perspectiva Teológica. 9.9).4. Não deveríamos hoje praticar também certo segredo messiânico em algumas circunstâncias? Sem dúvida esta linha teológica segundo a qual o Espírito antecede e prepara os caminhos do Senhor não pode desconhecer nem muito menos estar em contradição com a teologia joanina que liga estreitamente o Espírito ao mistério pascal de Jesus (Jo 7.1.1. 26. 36. O Espírito e o Verbo. 4. Estella: Verbo Divino. e ninguém pode dizer “Jesus é o Senhor”. São Paulo: Paulinas. É já muito conhecida a afirmação de Irineu sobre as duas mãos do Pai. V.39.3. para fazer dela a mãe de Jesus.1.. Ano 44. 28. 20. 4. com as quais Deus nos cria e acompanha sempre18.

87. o que demonstra esta prioridade do Espírito em toda a vida da Igreja. Adv. Nédio Pertile demonstrou com profundidade que a teologia pneumatológica de Paul Evdokimov se expressa sob o signo da epiclese23.PERTILE. E também em outro lugar Basílio afirma que o Espírito antecede ao fato crístico: “O caminho do conhecimento de Deus vai desde o único Espírito. Número 122. 19 20 78 Perspectiva Teológica. realiza a comunhão dos fiéis com Cristo e entre si. 5. Paris: Cerf. p. o grande teólogo do Espírito. manifestação de Cristo"22.OK. mas pelo único Filho. De São Basílio. bom conhecedor da patrística oriental pode concluir que: “Pode-se dizer de uma maneira geral. EVDOKIMOV. já que Deus não é violento. 10:26 . 69-86. mas pedagogicamente espera o tempo oportuno para cumprir seu desígnio salvador de recapitular tudo em Cristo19. também corrobora esta presença e prioridade do Espírito na ação deificante dos sacramentos. a bondade criativa.39. Belo Horizonte. O diabo é rechaçado. que a ação santificante do Espírito precede todo ato onde o espiritual toma corpo. temos esta conhecida formulação: “A vinda de Cristo. a santidade natural e a dignidade régia fluem do Pai. Haer. De Spiritu Sancto 16.próprio Irineu para explicar por que o Filho não se encarnou no início da criação. se encarna. O axioma lex orandi.1. As ações milagrosas.pmd 78 23/5/2012. 21 BASÍLIO. Tese doutornal. A redenção dos pecados acontece na graça do Espírito” 20. se converte em cristofania. lex credendi revela-nos que a invocação ao Espírito nos sacramentos expressa esta fé e confiança da Igreja orante na ação do Espírito. Manifestado pelo Espírito Santo. o Espírito a precede. Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. IRINEU. Paul Evdokimov: Teologia sob o signo da epiclese. Présence de l´Ésprit Saint dans la tradition orthodoxe.47. 1977. insinua que Deus devia acostumar-se com a humanidade e a humanidade teria que ir acostumando-se com o modo de atuar divino. BASÍLIO. 22 P. A encarnação: dela é inseparável o Espírito.1. p. tão característica do Oriente. De Spiritu Sancto 18. E Paul Evdokimov. Esta linha de pensamento teológico se pode estender ao conjunto dos Padres e teólogos da Igreja oriental. Ano 44. os carismas de cura: ocorrem por meio do Espírito. A epiclese litúrgica. ante a presença do Espírito. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Belo Horizonte. não quer impor a comunhão divina. O Espírito é que santifica. pelo Filho até o Espírito21. 23 N. transforma os dons. 2005. até o único Pai. E ao contrário.

Durrwell afirma que Deus é Pai e engendra o Filho pelo Espírito e isto se manifesta na teologia econômica ou ad extra enquanto Jesus nasce do Espírito e é ressuscitado pelo Espírito26. Roma acrescenta o Filioque ao credo latino. 71. Paris: Cerf. e esta potência divina é o amor. bras. nos concílios III e IV de Toledo.OK. Número 122. em um clima mais ecumênico. ato que o Oriente não aceita e que em 1054 será uma das causas da ruptura entre Oriente e Ocidente24. como Evdokimov. p. Los caminos del Oriente cristiano. pois ordinariamente a teologia trinitária ocidental ressaltou sobretudo que o Espírito procede do Pai e do Filho. 1997. Encontramo-nos certamente diante de duas teologias diversas da Trindade. Nuestro Padre: Dios en su misterio.Mas todo o caminho recorrido nos leva a perguntar-nos se esta precedência do Espírito com relação ao fato cristológico tem fundamento trinitário. com a afirmação de que o Filho é gerado pelo Pai com a presença amorosa do Espírito25. por pressões sobretudo políticas. 26 F. para expressar claramente em contraste com os arianos da Espanha que o Filho é Deus. Séculos depois. Após séculos de infrutuosas discussões. Salamanca: Sígueme. X. p. Fundamento trinitário último Resumindo muito brevemente o contexto da problemática do Espírito entre o Oriente e o Ocidente. e a oriental que ressalta a monarquia do Pai e não limita o Espírito a ser o vínculo da comunhão intratrinitária. Não há de pôr-se o 24 Pode-se ver um maior desenvolvimento histórico do Filioque in V. chegam a admitir que se pode aceitar o Filioque se se completa com o Spirituque. 69-86. 1990. CODINA. O Pai engendra o Filho amando e o ressuscita amando. Belo Horizonte.: O Pai: Deus em seu mistério. F. 25 P. o Espírito de Deus é amor. Também da parte católica. Perspectiva Teológica. O Oriente crê que o Filioque discrimina o Espírito e provoca uma dualidade na Trindade entre o Pai-Filho que atuam como um só princípio e o Espírito que procede de ambos. Présence de l´Esprit Saint dans la tradition ortodoxe. p. 22-24. Mais tarde. Ano 44. 1977. acrescenta-se ao credo Niceno-constantinopolitano que o Espírito procede do Pai e do Filho (Filioque). atualmente alguns teólogos do Oriente. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . EVDOKIMOV. São Paulo: Paulinas. 1990). p. Sal Terrae. X. VI.pmd 79 23/5/2012. recordemos que o credo de Niceia professa a fé no Espírito Santo e o de Constantinopla acrescenta que o Espírito é Senhor e vivificante e procede do Pai. 90-102 (trad. a ocidental que Agostinho desenvolverá mostrando que o Espírito é o laço de comunhão entre o Pai e o Filho. DURRWELL. 10:26 79 . Santander. isto é.

RAHNER. deve marcar e influir nos diversos campos da pastoral. 27 28 80 Perspectiva Teológica. Sermo 11.. mas Cristo é causa final da ação do Espírito28. bras. está no começo e no final. agostiniana e latina do Filioque com a mais lucana e oriental do Spirituque. 1997. intercompenetração. K. onde cita um texto de Mestre Eckhart: “A aspiração suprema de Deus é engendrar”. pois toda teologia em última instância se refere à práxis eclesial. O Espírito será sempre o Espírito de Jesus. é a própria fecundidade de Deus.: Curso fundamental da fé: introdução ao conceito de cristianismo. Bobrinskoy. a Igreja sempre oscilou entre o esquema Pai-Filho-Espírito e o esquema Pai-Espírito-Filho29. é coeterno com o Pai em seu engendramento e com o Filho em sua filiação. Jésus Fils de Dieu dans l´Esprit. 97-99. como afirma o teólogo ortodoxo B. circunsessão entre ambos. mas tampouco é o final. 10:26 . Indubitavelmente esta concepção teológica do Espírito pode causar estranheza na mentalidade latina acostumada a situar o Espírito no final da Trindade.OK. 369-371 (trad. chame-se sapiencial. como uma Pessoa estéril: o Espírito nem é o começo. Neste sentido toda cristologia é pneumatológica. Le Mystère de la Trinité. pois o Pai engendra o Filho no Espírito. Dimensão mística Esta prioridade do Espírito sobre a cristologia significa que não se pode ter acesso à fé cristã e à Igreja sem uma experiência interior. 1979. F. Organizaremos a problemática à luz das três dimensões do Espírito: a mística ou interior. pois Jesus de Nazaré é o ungido pelo Espírito e é constituído Messias e Cristo. o Espírito é causa eficiente do evento crístico. as duas mãos do Pai são inseparáveis. 30 F. Atualidade pastoral Se esta reflexão pneumatológica é correta. cuja essência é engendrar infinitamente o Filho no Espírito30. 78. que corresponde ao Pai. filiação e processão coexistem eternamente em igualdade e reciprocidade de comunhão. Impletum est tempus Elisabeth. 1989). Não é estéril. Em palavras técnicas e um tanto escolásticas de K. p. Barcelona: Herder. É necessário complementar dialeticamente a perspectiva joanina. Rahner. 69-86. p. 1997. Curso fundamental sobre la fe. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .. por isto recebe dos fiéis a mesma honra e glória que o Pai e o Filho27. BOBRINSKOY. Belo Horizonte. São Paulo: Paulinas. 1. DURRWELL. Jésus Fils de Dieu dans l´Esprit Saint. Ano 44. 29 B. p. a Fonte última é o Pai. X. Paris: Cerf. X. Paris: Cerf.! VII. p. Paris: Desclée. DURRWELL.pmd 80 23/5/2012. há pericorese. Número 122. Estamos diante do Mistério. mas. a profético-ética e a cósmica. 1975.Espírito em terceiro lugar. 113.

A missão antes de ser um anúncio do querigma cristológico e eclesial há de ser experiencial e dialogal. como a de Deus na história da salvação e inclusive assumir certo silêncio messiânico. VII. v. p. Número 122. para preparar pneumaticamente os caminhos do Senhor. 31 32 Perspectiva Teológica. n. Madrid: PPC. En el fuego de la zarza ardiente. Como afirma um teólogo espiritual católico de rito oriental: “Sem paternidadematernidade espiritual a nova evangelização não terá a penetração e profundidade necessárias para cumprir de verdade sua própria missão em uma Europa que está profundamente descristianizada”32. 1994). antes do anúncio do querigma pascal. A missão evangelizadora se parece mais com a tradição da paternidade espiritual que do professor. 34 “Believing without belonging” (cf. Isso significa que tanto a primeira como a nova evangelização não pode começar ministrando ideias ou normas. 1967. Belo Horizonte. Escritos de teología. quer dizer. Paris: Flammarion. O Espírito chegou sempre antes dos missionários evangelizadores cristãos. Esta prioridade da experiência espiritual hoje se reveste de uma urgente atualidade. É preciso possuir uma paciência pedagógica e histórica. Gracie DAVID. 1. Deus é amor.pmd 81 23/5/2012. 1999) que se pode traduzir como pertença sem crer. p. GONZÁLEZ-CARVAJAL. incrédulos pós-cristãos que querem manter símbolos cristãos porque pertencem à cultura ocidental (cf. uma experiência fundante. ou seja. mas deve ser mais que tudo mistagógica. de modo que o cristão do futuro ou será um “místico”.espiritual ou mística. É necessária uma abertura previa à Transcendência. mas sem uma autêntica crença cristã. 69-86. um encontro. 10:26 81 . Concilium nº 340.. Marko I. foram batizados na Igreja de Cristandade mas muitas vezes não creem nem são discípulos35. Madrid: Taurus. sem o qual não se pode começar a ser cristão31. 35 “Être sans croire” (cf. quer dizer. do mestre. ao Espírito. Esta atitude está muito longe do proselitismo e da pressa por ganhar novos adeptos. mas também cristãos.. Espiritualidad antigua y actual.OK. algo assim como Paulo faz no areópago de Atenas ao partir de sua adoração ao Deus desconhecido (At 17. Cristãos sem Igreja. como já afirmou profeticamente K. 98-104. 25. 102. p. ao Absoluto. Rahner nos anos do pósconcílio: necessita-se de uma mistagogia ou iniciação à experiência espiritual. p. que têm sentido de pertença eclesial. Por que Aparecida tomou BENTO XVI. do catequista. reconhecendo sua presença. 1998. iniciando a experiência e partindo da experiência dos demais. Ano 44. 33 K. abril 2011. RUPNIK. uma pessoa que “experimentou” algo. uma iniciação à experiência espiritual. antes de dar nome a esta experiência mística e profética que brota do Espírito de Jesus morto e ressuscitado. Hoje em dia não só encontramos cristãos que têm certa crença sem pertença eclesial34. L. Danièle HERVIEU-LÉGER. tanto nos países do Norte como na América Latina. RAHNER. 23). do doutrinador. Oxford: Wiley-Blackwell. ou não será cristão33. um evento. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .

O Espírito que falou pelos profetas. pois cremos que o Espírito é quem rege e move a história e enche o universo (GS 11). da América Latina. como New Age e outros projetos um tanto gnósticos de uma espiritualidade secular. MELLONI. Ano 44. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . muito distantes do expansionismo imperialista ou do isolamento tribal36. que chegou à cabeça. Dimensão profético-ética O Espírito não nos encerra em um misticismo intimista e distanciado da realidade. o continente com maior número de cristãos. 2. p. Número 122. por exemplo. senão que é fruto da unção do Espírito que nos faz descobrir nos demais uma dimensão sagrada. O diálogo exige uma postura de humilde purificação.OK. 36 82 Perspectiva Teológica. 69-86. mas também com os que buscam uma espiritualidade à margem das instituições religiosas. X. é o mesmo que nos move hoje a nos abrir a seu clamor e a discernir os sinais dos tempos. há ação do Espírito antes de Cristo. O mesmo vale para o diálogo inter-religioso. Mas esta dimensão profético-ética não é algo meramente voluntarista ou moral. 10:26 . mas não experiencial. que ungiu Jesus de Nazaré e o impulsionou a evangelizar os pobres e levar a boa nova aos que sofrem. laical. Hacia un tiempo de síntesis. sem deuses nem crenças. mas não penetrou no coração? Esta atitude mistagógica não só pode ajudar o diálogo com o mundo secular agnóstico ou ateu.. o Espírito permite associar-se ao mistério pascal na forma só por Deus conhecida (GS 22). 21-41. é o mesmo impulso que nos leva a nós a prosseguir o caminho de Jesus.pmd 82 23/5/2012.. é o mais injusto e desigual? Não será porque houve uma evangelização doutrinal. desde o princípio (DV 33). Barcelona: Fragmenta Editorial. de fecundação e de busca de sínteses superiores. O Espírito que fez com que os profetas discernissem os sinais dos tempos e descobrissem no clamor do povo a voz do Espírito que clama por justiça e equidade. 2011. há mediações parciais de salvação que alcançam unicamente seu sentido pela mediação de Cristo (RM 5). a graça de Cristo comunicada pelo Espírito permite chegar à salvação todos (RM 10). Seguramente a partir de suas buscas e experiências espirituais é possível entabular um diálogo respeitoso e construtivo. enriquecedor para ambos. o Espírito está presente nas perguntas existenciais e religiosas da humanidade (RM 28-29). pois o Espírito do Senhor foi derramado sobre toda a humanidade. tanto com as grandes religiões da humanidade como com as religiões autóctones. As religiões são fruto do Espírito (RH 6).como lema o ser discípulos de Jesus Cristo em um continente em que a maioria são batizados? Por que os ditadores da América Latina assassinavam em nome da civilização cristã ocidental? Por que a América Latina. Belo Horizonte. p.

E tudo isso não se explica sem a presença atuante do Espírito: o dedo de Deus está aqui (Lc 11. reducionista ou marxista. passa-se da Segunda Ilustração. Ano 44. 1984. 3). 10:26 83 . 69-86. igualdade de direitos. Muitas incompreensões com respeito à teologia da libertação nascem em grande parte de que seus censores críticos não tiveram esta experiência espiritual. humanização para a mentalidade moderna ocidental. tem a ver com os pobres (Aparecida. a teologia da libertação nasce de uma verdadeira experiência espiritual. 393). idade. verdadeira divinização para o Ocidente cristão37. p. Deste modo. religião. não são somente pobres excluídos. objeto de nossa atenção solidária. La Tercera Ilustración. centrada na injustiça e nos pobres. 38 V. 163-180. das mulheres. Santander: Sal Terrae. mas não são só pobres. 449476. in Mysterium liberationis. II. No nível teológico. clama o Espírito. à chamada Terceira Ilustração aberta à alteridade e diversidade38.OK. O Espírito é o Espírito da diversidade e alteridade pentecostal. in Una Iglesia nazarena. Se não é possível reconhecer Jesus como Salvador se não é pelo Espírito (1Cor 12. O Espírito Santo e a libertação. Sem esta experiência espiritual prévia não se compreende esta teologia que facilmente pode ser tachada de sociológica. converte-se em nós em fonte de vida plena. Espiritualidad y seguimiento. mas movida interiormente pelo Espírito que a fazia descobrir nos rostos doloridos destes irmãos excluídos o rosto do Senhor crucificado (Puebla 31-39) e afirma em Aparecida (2007) que a opção pelos pobres está implícita em nossa fé cristológica e que tudo que tenha a ver com Cristo. optou pelos pobres não o fez por motivos puramente sociológicos e humanitários. CODINA. SOBRINO. J. p. G. desde Medellín (1968) e Puebla (1979). só o Espírito nos pode fazer descobrir no rosto do pobre o rosto do Senhor. 2ª ed. GUTIÉRREZ. Madrid: Trotta. de experimentar a presença do Senhor no clamor dos pobres e a sacralidade dos irmãos e irmãs pobres. Os pobres têm sexo. Belo Horizonte. necessidade de serem escutados e acolhidos e de constituirem-se em agentes de uma nova sociedade e de uma nova Igreja. Petrópolis: Vozes. Perspectiva Teológica. O pobre na América Latina tornou-se um autêntico lugar teológico e a teologia da libertação se converteu com o tempo em uma teologia martirial. cultura.A Igreja da América Latina que. Petrópolis: Vozes. 37 J. sob a unção e a força do Espírito. Beber em seu próprio poço. pedindo respeito a sua identidade e dignidade. seguir Jesus pobre implica optar pelos pobres e este seguimento. Isso levou a discernir o Espírito no clamor dos jovens. senão sujeitos de grande riqueza e potencialidade humana e espiritual. 20). p.pmd 83 23/5/2012. Número 122. sabedoria. dos indígenas e afro-americanos que são certamente uma alteridade excluída. 2010. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Mas a partir da década de 90 há uma mudança de nível cultural e teológico. 1990. 1988. Através de seu clamor. COMBLIN.

da qual os seres humanos fazemos parte juntamente com as galáxias. Que estas afirmações de Inácio se refiram ao Espírito. afro-americana. indígena.. Barcelona 2011. pássaros. 235. nos animais dando sensação. p. tentei mostrar in: V. em meio à situação de morte biológica e de 39 V. Santander: Sal Terrae. 10:26 . 178-216 (trad. São Paulo: Paulinas 2010). nos elementos dando ser. Elizabeth A. Ano 44. estrelas. bras. CODINA.OK. presença que está atravessada tragicamente pela gravíssima crise ecológica que padecemos.. dá vida e alento a toda a criação.: “Não extingais o Espírito” (1Ts 5. 40 Ver o magnífico estudo de L.pmd 84 23/5/2012. 2010. Una presencia silenciosa. 3. 41 INÁCIO DE LOYOLA. Como reação se produz hoje um forte descobrimento e revalorização do corpo e uma grande preocupação pela ecologia. Esta presença do Espírito criador no irmão sol e na irmã lua do Cântico franciscano. Número 122. répteis. Em resumo.24-30)40. discernir antes de pretender evangelizá-la. atitude que contrasta com as experiências do mundo oriental. intercultural. p. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Isto nos leva a redescobrir também o sentido do Espírito criador que desde o big bang inicial até o final da história. 2008. Cochabamba: Editorial Itinerarios. o vento e alento da ruach que dá vida e renova a face da terra.19): iniciação à pneumatologia. nas plantas vegetando. índia. Johnson estabelece três dimensões desta presença imanente do Espírito na realidade cósmica: uma presença criativa. bosques e flores. CODINA. Dimensão cósmica Por uma ampla série de motivos o Ocidente cristão assumiu uma postura negativa sobre o corpo e o mundo. El Espíritu Santo en los ejercicios ignacianos. No extingáis el Espíritu. Exercícios espirituais n. Detrás de tudo isso está a força vivificante da ruach que é preciso acolher. o Espírito nos impulsiona a seguir Jesus e suas opções.. sem uma experiência prévia do Espírito do Senhor. escutar. E.O tema já foi amplamente estudado39 e estamos diante do surgimento de uma teologia feminista. Belo Horizonte. não há ética nem profecia sem uma mística. 84 Perspectiva Teológica. Cuadernos Eides 62. cristão e não cristão. CERVIÑO sobre esta passagem in Otra misión posible. juvenil. este Espírito de Deus que “habita nas criaturas. cetáceos. nos homens dando entender” dos Exercícios inacianos41. e das religiões autóctones ou aborígenes estreitamente ligadas à terra. podem servir-nos de pontos de partida para repropor hoje a presença do Espírito na criação. as belas páginas de Teillard de Chardin sobre o dinamismo da matéria rumo ao ponto Ômega. ao contrário. toda verdadeira mística leva ao compromisso ético. rochas.. como Jesus escutou a mulher cananeia e mudou de parecer (Mc 7. uma presença imanente cruciforme do Espírito que. 69-86.

. Indubitavelmente esta visão pneumatológica de toda a criação fundamenta pela raiz uma ética ecológica que olha a criação como sacramento e não como objeto de consumo e depredação. Conclusão: tempo de advento Evidentemente esta defesa da pneumatologia e da prioridade do Espírito na teologia e na pastoral não quer suscitar nenhum movimento de entusiasmo selvagem.. por exemplo. a terra é sagrada. O que quisemos expressar é não só a urgência de recuperar a pneumatologia. 2011. É claro que esta dimensão ecológica e cósmica do Espírito antecede à proclamação do evangelho de Jesus ressuscitado e pode ser compartilhada por pessoas de boa vontade de todas as culturas e religiões e estendida a todos os que buscam o respeito à vida. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . O preceito “não matarás” inclui hoje também. p. sua quênose.violência. está em dores de parto (Rm 8. I. Precisamente a vida que a ruach gera em meio ao caos do tohu-wa-bohu. Belo Horizonte. 22-23) e uma presença prometedora que avança desde a gênese inicial rumo à novidade do futuro de Deus e nos leva à terra nova e aos céus novos (Ap 21. p. sua cruz e sua ressurreição se devem confrontar e discernir todos os movimentos de espíritos existentes.5)42. Perspectiva Teológica.pmd 85 23/5/2012. Espírito criador e ética ecológica: uma fronteira antiga. mas também a importância de destacar que o Espírito é que desde a cria42 Elisabeth A. do amor que move as estrelas. A criação é um ícone do amor divino. nem atualizar o joaquinismo medieval. Número 122. que a estima como parte do projeto de comunhão do Deus Trinitário que quer que todos participemos da terra e a respeitemos como Terra Mãe para todas as gerações. o salvar a floresta tropical. JOHNSON. às pessoas e ao resto da criação. 69-86. é uma vida que alcança sua plenitude em Jesus de Nazaré morto e ressuscitado e que tem na Igreja seu sacramento visível. sacramento da presença de Deus. nem de anarquia eclesial. 10:26 85 . Ano 44. que nas palavras de Tomás de Aquino participa do ser divino43. Concílium nº 342. O Espírito é o Espírito do Senhor Jesus e em conformidade com sua vida. q. 43 ST. Esta presença e inabitação do Espírito na matéria cósmica e em nosso próprio corpo nos oferece uma visão holística e sacramental da realidade criada. sem Cristo e sem Deus. nem propiciar uma espiritualidade gnóstica sem Igreja. 20-29. 8. Daí nasce também uma postura profética contra todo abuso da criação e o compromisso por salvaguardá-la. nem tampouco separar.OK. As mãos que são o Filho e o Espírito não se podem confundir.

Senhor Jesus” (Ap 22. da Igreja e da humanidade. Santander 1998. um advento que não é simplesmente um memorial litúrgico de primeira vinda de Jesus. no advento da história. Neste caminhar. o Espírito continua presente e atuante.19). 2010. prepara seus caminhos e leva adiante sua missão. Alguns de seus livros são: Creio no Espírito Santo. 10:26 . Estamos ainda em tempo de advento.20). Belo Horizonte. profética e cósmica.es 86 Perspectiva Teológica. como esteve desde o começo da criação. São Paulo.OK. o Espírito prepara os caminhos do Senhor: “Vem. Los caminos del Oriente cristiano. foi professor de teologia na Espanha e na Bolívia. É tempo de espera e de esperança.pmd 86 23/5/2012. que seguramente muitas vezes deverá preceder ao anúncio do querigma. tanto a Igreja como a humanidade ainda estão a caminho rumo à plenitude do Reino. através de Israel. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .ção nos conduz a Cristo. através dos movimentos. Santander 2010. à Parusia e aos novos céus e à nova terra. Sob a força deste Espírito temos de iniciar antes de tudo uma pastoral mistagógica. Ano 44. São Paulo 1997. epiclese cósmica que se expressa nas palavras da Esposa que juntamente com o Espírito pedem ao Senhor que venha (Ap 22. Hoje como ontem. culturas e religiões. E embora desde a Páscoa tenha irrompido a presença da escatologia. de diálogo e de anúncio. tempo de silêncio apofático e de oração anônima de toda a humanidade. p. Número 122. atualmente é professor emérito da Universidade Católica Boliviana de Cochabamba. de paciência e vigilância.17). 69-86. Endereço: Pasaje Escudaño 101 Casilla 2175 Cochabamba – Bolívia e-mail: victorcodina@yahoo. “Não extingais o Espírito” (1Ts 5. Víctor Codina SJ é doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Una Iglesia Nazarena. mas um advento histórico e escatológico que com toda a humanidade espera a vinda definitiva do Senhor.

Verbum. Artigo submetido a avaliação no dia 13/03/2012 e aprovado para publicação no dia 15/02/2012. but also the attempt to preserve the possibility of knowing something directly * Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Ano 44. Verbum and the Shadow: Ways of knowing in the sermons of Antonio Vieira João Madeira * Marina Massimi ** RESUMO: Na epistemologia escolástica havia não somente a preocupação de aplicar a doutrina aristotélica da abstração. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Número 122. taking into account the external and internal senses. Tal possibilidade baseava-se no fato de haver um conhecimento que aconteceria pela força própria do objeto de dar-se a conhecer. visto que os sentidos somente podem perceber o que é comensurável a eles. Belo Horizonte. 87-100. ** Universidade de São Paulo. VERBUM E A SOMBRA: MODOS DE CONHECIMENTO NOS SERMÕES DE ANTÔNIO VIEIRA Excessus of God.pmd 87 23/5/2012. Excessus divino.EXCESSUS DE DEUS. PALAVRAS-CHAVE: Epistemologia. Conhecimento intuitivo. de Mariologia e da doutrina do conhecimento intuitivo. O componente interno que permite tal conhecimento intuitivo na tradição agostiniana era o verbum intus prolatum. aparecem claros elementos da Teologia Negativa. 10:26 87 . Na refinada teologia de Vieira no sermão da Madrugada da Ressurreição pregado na Igreja de Nossa Senhora da Graça. considerando o funcionamento dos sentidos externos e internos. Perspectiva Teológica. mas também de garantir a possibilidade do conhecimento direto ou intuitivo. que seria palavra anterior a toda fala humana e diferente do discurso da racionalidade humana. em Belém do Pará. p. Teologia Negativa. que permitiria conhecer algo excedente à experiência sensorial humana.OK. que se daria sem a mediação de representações mentais. ABSTRACT: In the scholastic epistemology there was not only the attempt to apply the Aristotelian doctrine of abstraction.

without any mediation of a mental representation. 1. Contudo. Vieira também demonstra que o verbum. there are clear elements of Negative Theology. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Obviamente que nem todos os conhecimentos adquiridos por Vieira podem ser identificados em cada um dos seus sermões. revela sua insistência para que todos os fiéis daquela região fossem àquela igreja. entendido como palavra não-humana presente na interioridade das pessoas é a chave para compreender a maneira com que os anjos falam. a escolha de enfatizar o papel de Maria Mãe de Jesus. porém. preached in the church of Nossa Senhora da Graça. 87-100. sabendo do seu sucesso como orador e como pregador. since the senses can only perceive something commensurate to them. somente se descortina ao notar que Vieira utiliza a Teologia Negativa para indicar como se deve compreender o excessus divino e o fato de que não encontrar a Cristo morto é melhor do que o encontrar. com que Deus revela a João e a Maria Salomé que Cristo estava com Maria e com que a Estrela é língua dos céus e que fala conosco. pode-se supor que sua escolha criteriosa dos temas e das doutrinas a serem utilizadas em cada situação particular revele sua visão acurada dos mecanismos e dos modos de conhecimento de que sua audiência dispunha e da melhor maneira de ativar estes mecanismos e modos de conhecer para que sua pregação fosse otimamente eficaz. intuitivo. No sermão pregado na igreja matriz de Nossa Senhora da Graça.. This was the guarantee that there could be a kind of knowledge derived from the object’s own force of revealing itself. In Vieira’s sophisticated theology of the sermon of Madrugada da Ressurreição. A riqueza do sermão. dizendo que todos os que quisessem encontrar a Cristo deveriam buscar sua Mãe.pmd 88 23/5/2012. of Mariology and of the doctrine of intuitive knowledge. da patrística.e. da escolástica e do Renascimento. 88 Perspectiva Teológica. Tudo isto se soma e permite compreender o conhecimento direto que Maria tem de Deus. i. Negative Theology. in Belém do Pará. Divine excessus. which is the word before any human speech and distinct from the discursive human rationality. Sabe-se também que as primeiras gerações de jesuítas produziram suas próprias obras de filosofia e de teologia. para encontrar o Menino e sua Mãe em Belém. which makes possible the knowledge of something that exceeds the human sensorial capacities. 10:26 . p. na abordagem trinitária que remonta a Agostinho.OK. Ano 44. Antônio Vieira estu dou os principais autores da antiguidade clássica. KEYWORDS: Epistemology. Introdução D urante sua formação em filosofia e em teologia. Verbum. mas conhecimento direto. Belo Horizonte. Número 122. em Belém do Pará. Intuitive knowledge. The internal component responsible for this intuitive knowledge for Augustine was the verbum intus prolatum. que não é conhecimento abstrativo.or intuitively.

para além das bondades limitadas. 1005. o fogo. Deus não pode ser reduzido a estas imagens por Ele ser sempre transcendente: uma Luz que é muito maior do que o sol. Por exemplo. é através das experiências com o mundo material. ou ainda as do fogo ou do âmbar. lhes sugerem nomear segundo a diversidade de suas funções causais e de seus poderes. suprema. e de lhe atribuir formas e figuras humanas. Teologia Negativa A Teologia Negativa está ligada ao pensamento de Dionísio Areopagita.OK. inclusive como confirmação da importância da phantasia. 1589. Nesta obra. Isso não significa que Deus se identifica com essa realidade material. as estrelas. este Bem superior a todo esplendor e a todo nome. mas que esta última indica de certa maneira a direção para se chegar até Ele. que segundo ele englobaria os três sentidos internos da imaginação. p. para o conhecimento de Deus. Perspectiva Teológica.pmd 89 23/5/2012. P. FONSECA. coloca que Deus é algo absoluto. Número 122.2. No entanto. 87-100. Toda a realidade natural. o contato entre os sentidos e as coisas boas faz antever ou mesmo ter ‘visões’ de uma Bondade maior. entre os primeiros jesuítas. para os debates a respeito do conhecimento humano e de sua capacidade de conhecer a Deus pode-se apontar para o fato de que os conimbricenses em seu comentário ao De anima de Aristóteles citam Pseudo-Dionísio 17 vezes. pois mesmo se não pode alcançar tudo o que Deus é. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . que inspirou Tomás de Aquino. Como certamente não se trata daquele personagem bíblico dos tempos da pregação de Paulo aos atenienses. da cogitativa/ aestimativa e da memória. por estar além da alçada da razão humana. um Calor que é muito maior do que o fogo. Nesta perspectiva. iluminando iniciados e profetas. Todavia. a dimensão sensorial do ser humano é também muito importante do ponto de vista teológico. a tradição filosófica recente acrescentoulhe o termo ‘pseudo’ ao nome. ou seja. João Duns Escoto. que nós chegamos a conhecer a Deus. pelo conhecimento da realidade. Pedro da Fonseca1 e os Conimbricenses. a pedra. pode nos introduzir ao conhecimento de Deus. Ano 44. a água. Fonseca cita Pseudo-Dionísio inúmeras vezes. 10:26 89 . muito embora não se trate de abstrair o que Deus é das coisas no mundo. Cf.2 Viveu provavelmente entre o século quinto e o século sexto depois de Cristo e entre outras obras escreveu o tratado Os Nomes de Deus. 2 Apenas para ilustrar a importância da Teologia Negativa. É assim que louvamos seus 1 Pedro da Fonseca foi o primeiro dos grandes filósofos e teólogos jesuítas. Commentariorum in libros Metaphysicorum. etc. c. permite conhecer algo de Deus a partir das coisas. já experimentadas. Portanto. Pseudo-Dionísio Areopagita foi um filósofo e teólogo muito importante. o sol. por exemplo. Citamos um trecho do texto: ocorre ainda que as aparições divinas que se produzem nos templos sagrados ou alhures. que é impossível de conhecer diretamente. Belo Horizonte. nós podemos chegar ao conhecimento dEle. por analogia ao seu Criador.

modelo contemplativo e místico. 90 Perspectiva Teológica. desta forma se exclui a substância e o fim. ou à recusa do sensível e da matéria. 87-100. manifestando-se por meio da mediação de sinais que o sinalizam. suas asas. 82. descuidando de que o ser é analogia do Ser. No período tridentino. O “engano do mundo” é lugar comum do século XVI e XVII: na ótica cristã. que eles lhe atribuem coroas e tronos. a partir da afirmação de que os próprios sentidos podem nos reconduzir a Deus. p. 2004. Paulo: Paulus. cálices e crateras. a imagem é valorizada como veículo que leva do visível ao invisível. Nesta perspectiva. 232. ou seja. sua visão. Deste modo. e todos esses emblemas que procuraremos elucidar3. mas também pode ser ignorado. A essência do engano barroco é atribuir eternidade ao temporal. este engano não se refere à atribuição maniqueísta do mal à realidade mundana. Isto é evidente em Loyola. poderia ser enganosamente 3 PSEUDO-DIONÍSIO. seus braços. o sensível poderia absolutizar-se. 151. 91). Obra completa. 66. o mistério de Deus que é a consistência de toda a realidade.olhos e suas orelhas. p.pmd 90 24/5/2012. é norteada pelo desejo de ser e pela afirmação de sua liberdade. 115. pode ser conhecido pelo homem. De outro modo. onde as imagens compartilham com o sacramento a função de instrumentos de subida do visível e terreno para o invisível e espiritual. o sinal traz para o homem a função do arbítrio: pois deste depende que a leitura do real seja realizada em chave correta. seu dorso. no pensamento pós-tridentino explicitado por Vieira. isto é. mas também ocultam-no à vista. libertação do engano possível. o conhecimento da verdade é definido como “desengano”. Pois a vista do sinal pode enganar. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . nos Exercícios (1542). 92. seus cabelos. O Areopagita. de modo que seja interpretado como o todo a que alude: a decifração do sinal pode ser enganosa. 19. seus pés. 103. causado pela “ignorância do homem”. Por outro lado. Ano 44. mas à ilusão de perpetuidade e de autonomia substancial daquilo que adquire significado somente na relação participada do divino. O Ser se apresenta necessariamente por mediações. Em suma. Retoma-se assim um elemento próprio da sensibilidade tardo-medieval. Uma consequência das diversas possibilidades de posicionamento da liberdade humana diante da realidade é a do “engano”. 112. restringe-se o desejo do Ser à esfera do imediato do que pode ser visível. implícito na aparência das coisas. Isso implica a escolha e o risco da liberdade humana. sobretudo na proposta do método contemplativo da compositio loci e nesta da composição visual (n. S. 116) e da vista pela imaginação (65. suas mãos e seus ombros. 11:42 . estabilidade ao provisório. 91. Com efeito. espécie ou forma. Número 122.OK. pois cabe a esta a decisão diante do real. Belo Horizonte. afirma-se que a posição do homem no que diz respeito a esta comunicação do divino.

Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .pmd 91 23/5/2012. contudo. Dessa forma. ou seja. Com efeito. que. sem. são objetos da Teologia Negativa. a razão é sempre razão natural. quanto os atributos que pertencem somente a Deus. Ano 44. Em suma. o que acarretaria a negação de sua finalidade última e substancial. potência humana que participa da lei natural inscrita por Deus em todo o criado e cujo funcionamento por tal Causa tende a tal Fim. Um grande medida do Ser de Deus somente pode ser conhecido através da revelação e não pelo esforço natural da razão humana.OK. e que não têm analogia com os demais seres. nem por torná-la referência exclusiva. reafirma a capacidade da razão humana de conhecer o desígnio de Deus. 10:26 91 . 87-100. colocase a importância decisiva da liberdade humana para a interpretação dos sinais. de ‘palavra’. quanto o intelecto humano. ou vela-se neles. ser resultado da fala ou das experiPerspectiva Teológica. uma medida em que se conhece a Deus pela proporção que o seu Ser tem com o ser das coisas e do intelecto humano. ou seja. indica que há três tipos de verbum. “conhecer o real” é afirmar o que é sensível nele como sinal da substância que deseja ser conhecida. Verbum intus prolatum Bernard Lonergan (1904-1984) aponta para um desenvolvimento da noção de verbum em Agostinho. trabalhada e aprofundada por Tomás de Aquino. excedem a tudo o que esta pode conhecer por abstração. mesmo descobertos pela razão. em oposição ao luteranismo. tanto a verdadeira dimensão dos atributos de Deus. que. “a natureza mesma é um meio seguro de iniciação à fé”. A teologia contrarreformista. 3. Desta maneira. cujo sentido. portanto. Afirma-se como verdadeiro a realidade que conjuga o natural e o sobrenatural. que dá consistência e significado à realidade e afirma a possibilidade – inerente à liberdade . O conhecimento do universo não se realiza nem pela recusa da natureza. os atributos de Deus não se restringem àqueles que se podem conhecer pela analogia entre seu Ser e os outros seres. O saber humano é participação ao Ser de Deus.de posicionar-se a favor do Bem. revela-se. pelo papel que a liberdade assume no percurso da razão. proposição esta típica da filosofia escolástica. são análogos ao Ser de Deus. Por outro lado. p. na perspectiva do tomismo. Número 122. Belo Horizonte.tomado pelo objeto definitivo e total de satisfação do desejo. Trata-se de assumir a realidade como “discurso real” daquilo que continua oculto. O conhecimento da realidade reveste-se assim de tensão dramática. Se o universo é sacramental. Tanto os objetos naturais. encoberto. mas também uma palavra que é falada e interna ao mesmo tempo. o que significa reconhecer a forma do mistério inserido na natureza. Não somente a palavra falada da linguagem humana e a palavra interna da racionalidade humana inata. Há.

Toronto: Lonergan Research Institute Regis College. p. seja em sonhos ou em visões extáticas. J. portanto a algo que deveria ser evitado. É palavra verdadeira que se refere à coisa verdadeira. 350. 87-100. Número 122. Belo Horizonte. p. seja em situações cotidianas. Verbum: Word and Idea in Aquinas. B. cf. Toronto: Lonergan Research Institute Regis College. fenômenos naturais. p. sendo que apenas nos comentários ao De anima. Se no que se refere ao Cf. 6. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . F. Os primeiros jesuítas eram seguidores confessos de Aristóteles e de Tomás de Aquino. B. pois é anterior a qualquer uso da linguagem humana e. Pedro da Fonseca’s Isagoge Philosophica and the Predicables from Boethius to the lovanienses. é distinta da própria mente e das potências anímicas do sujeito. astros celestiais. Bem aos moldes da introspecção agostiniana. pelo seu excessus. mas pela via do autoconhecimento. é palavra do espírito dentro do espírito. sendo que sua Mariologia foi particularmente importante. não somente por suas contribuições filosóficas. não quer dizer que deixaram de lado as relevantes contribuições de outros autores escolásticos. Ano 44. Esta abordagem do verbum tem clara ligação com a abordagem trinitária de Agostinho de Hipona. sendo que o primeiro era muito respeitado. S. Isto. Conhecimento abstrativo e conhecimento intuitivo A distinção entre conhecimento direto ou intuitivo e conhecimento abstrativo aparece em João Duns Escoto6 e em seu confrade. Deus seria conhecido não somente pelos seus traços nas coisas no mundo. mas também por sua teologia refinada. sem. Estes dois autores eram amplamente estudados nos séculos quinze e dezesseis. todavia. O conhecimento de Deus se daria principalmente pela revelação ou transbordamento de Deus. p. Em torno da recepção do pensamento de João Duns Escoto no Portugal quinhentista: o caso dos jesuítas de Coimbra. 10:26 . MADEIRA. 48. M. são 44 citações. 5 Cf. CARVALHO. contudo.ências sensoriais do indivíduo4. e nos Conimbricenses. e outros seres não-humanos poderem falar diretamente com as pessoas. 1997. o também franciscano Guilherme de Ockham. p. J.OK. É palavra de nenhuma linguagem humana. LONERGAN. O segundo frequentemente era associado ao nominalismo. 6 A influência de João Duns Escoto na filosofia e na teologia dos primeiros jesuítas é atestada pelas inúmeras citações feitas de suas obras e de suas principais doutrinas em Pedro da Fonseca. F. 1997. 2006. 6. 4. LONERGAN. ser fruto da abstração da essência da coisa depois do contato desta com os sentidos5. Verbum: Word and Idea in Aquinas. 2008. que se refere ao objeto conhecido de maneira direta e não através de representações no entendimento humano.pmd 92 23/5/2012. É uma palavra que não sofre as limitações e equivocidades da fala humana e dos phantasmata. 4 92 Perspectiva Teológica. J. B. contudo. É parte do conhecimento que a mente tem de si mesma. cf. O verbum intus prolatum é a condição de possibilidade de anjos.

permitiria ao novo tipo de ciência incipiente no século XVI que julgasse possível ao físico descobrir e demonstrar a data e os efeitos de um eclipse solar futuro. Contudo. era de natureza distinta da abstração. 7 Cf. O conhecimento direto do objeto era o conhecimento intuitivo. Epistemologia. Teologia Negativa e Mariologia em Vieira O Sermão na Madrugada da Ressurreição pregado por Vieira na Igreja de Nossa Senhora da Graça em Belém do Pará7 é centrado no tema do método de conhecimento da realidade e do divino que a cria e a transcende. Ano 44. portanto. todas as particularidades e singularidade de Pedro. Este processo pressupunha a mediação dos phantasmata para acontecer. bem como a acontecimentos não presentes. Assim o que se conhece é diretamente ligado ao que se percebe. Sermões. A. ou seja. intuitivo. que é particular em medida imensa. Número 122. ou seja. ou seja. Belo Horizonte. VIEIRA. onde o objeto próprio do conhecimento é o universal. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . conhecer algo sobre o ser humano significa abstrair. 1951. p.OK. Nesta modalidade de conhecimento. o conhecimento direto. por outro lado. 10:26 93 . no caso de Deus se pode dizer que o intelecto pode conhecer algo a respeito dEle pois ele tem o poder de se fazer conhecer. no caso do conhecimento direto. portanto. A possibilidade de tal conhecimento é a garantia de que se pode conhecer a Deus. no qual o resultado era obtido ao separar as ideias e os conceitos de suas associações com os dados sensíveis e individualizantes. diretamente entre o objeto conhecido e o entendimento. sejam estas imagens ou similitudes de objetos percebidas pelos sentidos. não há dúvidas de que os jesuítas estavam atentos para o fato de que este tipo de conhecimento deveria se dar sem representação e que. pois pressupunha um contato direto entre o intelecto e a vis cognitiva do objeto. V. quando se tratava do conhecimento de Deus. por exemplo.conhecimento havia uma ênfase especial para a abstração (doutrina aristotélica). se dá de maneira imediata. 123-136. o ato de ‘separar’ ao nível do entendimento o que na realidade se encontra unido. na visão que os bem-aventurados têm da natureza de Deus.pmd 93 23/5/2012. Este último caso é menos dramático do que o conhecimento de Deus que se daria. pode-se conhecer o individual sem a intermediação de representações. p. O conhecimento atingido através da abstração era o conhecimento abstrativo. 5. deixar de lado. vol. A abstração é. Perspectiva Teológica. Por outro lado. O exemplo seria o conceito de ‘ser humano’ que é abstraído a partir do indivíduo concreto ‘Pedro’. abstrativo. Contrariamente ao que acontece no caso do conhecimento abstrativo. A distinção fica mais clara ao se ter em vista que o processo de conhecimento iniciado com as experiências sensoriais. visto que as ideias e os conceitos são livres de toda nota particularizante e individuante. Porto: Lello @ Irmãos. 87-100.

Cristo representa a riqueza e a delícia que excede qualquer cobiça. Número 122. e coroado de raios. Tem prometido Deus que todos os que de madrugada o buscarem o acharão: Qui mane vigilant ad me. Assim não cumpre Deus sua palavra. nem a imaginar se atreviam. Cristo representa o culto que excede qualquer hipocrisia10.pmd 94 23/5/2012. Se no palácio de Jerusalém parecia haver muita riqueza. isto era porque desconheciam que honra maior e justiça maior são as que Cristo merece. p. 124. prevenidas de preciosos unguentos para ungir o sagrado corpo que tinham acompanhado à sepultura. ainda quando parece que falta ao que tem prometido. invenient me. Esta afirmação suscita a pergunta: “Se não estava ali. não porque falta. 10:26 . Cristo representa a honra e a justiça que excedem qualquer tirania. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . nem a desejar.OK.. O excesso divino também aparece na quinta parte do sermão. para honra e para justiça. o palácio real e o templo se tornassem lugares onde não se podia encontrar o Cristo. o Sol: Erat autem aspectus ejus sicut fulgur. ibid. dentro lhes apareceu ou amanheceu um anjo. que é o verdadeiro critério para riqueza. a delícia maior e a honra maior estavam ligadas ao Cristo que desconheciam. Se no pretório e no templo julgavam fazer justiça e atribuir honra a quem era devida. foram tão venturosas que não o acharam. 10 Cf. 8 9 94 Perspectiva Teológica. fazendo com que o pretório. non est hic”.. e madrugando esta manhã as três Marias. e este anjo foi o que lançou fora da porta a grande pedra que cerrava a Ibid. mas porque excede o que promete9. p. parecia a alva. que mais se mostrava coberta de trevas. e entrando no santo sepulcro as primeiras três romeiras dele. muitas delícias e honrarias. mas acharam o que nem a buscar. para delícia. onde Vieira aponta para “as riquezas”. 87-100. o transitório e o insatisfatório. p. Melhor é sempre Deus que quem o busca. Belo Horizonte. pois estavam marcados pela cobiça. Ano 44. aonde estava? ”8. 123. O excesso divino adquire a devida dimensão quando comparado com as limitações da ação humana inconsequente. isto acontecia porque não tinham nenhum conhecimento de que a riqueza maior. pois é próprio da natureza divina o transcender as condições espaço-temporais que normalmente determinam a presença dos objetos do conhecimento humano. 133. o qual vestido de branco. et vestimentum ejus sicut nix. pela tirania e pela hipocrisia. que de sombras: Cum adhuc tenebrae essent. Não acharam o que buscavam.O sermão inspira-se no versículo do Evangelho de Marcos 16: “Surrexit. p. tomado como convite para buscar uma presença desejada e dada por certa “surrexit” num lugar não habitual (“non est hic”). “as delícias” e “as honras” que reinavam em Jerusalém. Esta é a gala dos anjos nos dias de grande festa. Ibid. isto era porque desconheciam o excesso superabundante do divino.. Era ainda a madrugada tão escura. Se em Jerusalém cobiçavam o passageiro.

A primeira modalidade de conhecer é aquela vivenciada por Maria e pressupõe a experiência da união mística. e é bem seja nesta hora: Ave Maria11. em que o objeto transcendente é unido ao sujeito por uma comunhão misteriosa e real que faz com que haja uma espécie de identificação entre ambos. M. vol. VIEIRA. non est hic.OK. portanto. nem a desejar.. Número 122. 1951. assombradas do que viam. como costuma ser. ad 3 apud K. O pregador parte da consideração de que. 84a. nem a imaginar”12 a ação divina. que Jesus Nazareno crucificado. ressuscitara. de modo que o conhecimento daquilo que acontece com o outro se realiza no sujeito através da união mística. Milado: Vita e Pensiero. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . 87-100. Belo Horizonte. 13 Cf. isto não ocorre pela falha de Deus em cumprir suas promessas. segundo a acepção de Agostinho. p. delineado por Vieira nesta peça de oratória. podendo alcançar o ser absoluto sem representá-lo (e. 1987. p. V. Ano 44.” É importante desde já assinalar que na visão tomista que Vieira segue. 11 12 Perspectiva Teológica. a quem buscavam.sepultura. do desejo e da imaginação são elementos importantes para entendermos o dinamismo do conhecimento que permite ao ser humano atingir o objeto desejado. 14 Cf. e o que pôs em fugida os presídios de Pilatos. Sermões. o “excessus” é um dos princípios formais do conhecimento na metafísica13. Tomás de AQUINO. o que fez tremer a terra. própria de Cristo e de Maria: Cristo após a ressurreição não estava em companhia dos A. q. Trata-se de um conhecimento afetivo do objeto. p. 123-124.pmd 95 23/5/2012. p. e o anjo depois de as animar. Spirito nel mondo. 1989. Bologna: Il Mulino. Acompanhemos o percurso através do qual Vieira descreve esta modalidade de conhecer. quando o ser humano “não acha” Deus. superando o terreno da imaginação). DE CERTEAU. 10:26 95 . 123. Summa Theologiae I. Ibid. Nela. Estas três dimensões: da busca. e não estava ali: Surrexit. realiza-se no ato do juízo e expressa o dinamismo pelo qual o homem tende ao ser. mas pelas limitações da busca humana diante dos “excessos” divinos. que leva à identificação com este. Mas se não estava ali. o que derrubou amortecidas as guardas. 369. Este tipo de conhecimento foi analisado em outros sermões do período bem como na literatura de espiritualidade da Idade Moderna14. Não falaram palavra as Marias. Vieira nos apresenta duas possíveis modalidades de conhecimento do objeto divino: a vivenciada pela Mãe de Cristo e a vivenciada pelas demais mulheres que seguiam a Jesus e que chegaram ao sepulcro encontrando-o vazio: a elas se dirigia a afirmação do anjo “Surrexit. non est hic. Esta desproporção brota pelo fato de que a capacidade do conhecimento humano não se atreve “nem a buscar. Fabula misitca: la spiritualità religiosa tra il XVI e il XVII secolo. RAHNER. lhes disse nas palavras que propus. aonde estava? A resposta desta pergunta será a matéria do sermão tão breve.

A tematização do conhecimento místico no sermão é retomada na discussão final sobre o “ubi ”16: a experiência do conhecimento realizado por união mística constitui-se num lugar. p. o corpo do Filho e da Mãe. ambos ressuscitaram15. Número 122. arrancar e tirar por força” que é importante assinalar (pois terá uma função significativa na continuação do sermão). p. o imaginar torna-se impossível. Ano 44. Ou seja. conforme o próprio pregador ressalta. 1951. Em virtude da união mística. 87-100. De sorte que por milagre da dor e do amor. Este tipo de conhecimento. apesar da manifestação evidente da vista e do ouvido (os dois anjos no sepulcro vazio são vistos e ouvidos pelas mulheres e discípulos que para ali correram) que conforme a teoria aristotélica constituem-se nas bases do humano conhecer. na normalidade da existência humana. que é indicada no fim do sermão como sendo não apenas a relação entre a Mãe e o Filho. lá estava também a alma da Mãe.pmd 96 23/5/2012. num espaço de comunhão. entre os dois ocorreu um misterioso intercâmbio pelo qual em todo o tempo destes três dias e noites em que Cristo esteve na sepultura.discípulos porque estava com sua mãe (“este era o lugar. tornando triunfante do Limbo. O amor entre a Mãe e o Filho é gozoso e saudoso e o afeto de saudade da Mãe possui uma força tal que pode ser assimilada à força do Pai que extraiu o Filho das entranhas maternas. vol. se introduziu no seu corpo. 96 Perspectiva Teológica. o buscar e o desejar constituem-se condições eficazes de um processo de conhecimento que alcança seu objeto pelo fato de o sujeito num certo sentido possuí-lo e ser por ele possuído. a cidade onde Vieira está pregando.. VIEIRA. porém. na sepultura estava o filho morto com alma. 10:26 . Belo Horizonte. e fora da sepultura estava a Mãe viva sem alma. V. a realidade sensível por si mesma (o “phantasma”. Não tendo estas duas vivências. Cf. não se encontra ao alcance de todos. 124. 134. de modo que. p. destaca-se a analogia entre a Belém bíblica e Belém do Pará. o processo de conhecimento ocorre de outro modo. mas não é suficiente para alcançar o objeto na 15 16 A. e esta a pessoa”). a nenhum deles ocorreu a ideia do lugar onde poderiam buscar o corpo de Cristo. que juntamente se sepultou com ele. na terminologia aristotélico-tomista) é condição essencial para o conhecimento intelectivo. Mas no ponto em que a alma do Senhor. mas também a Igreja e sua particularização na igreja local: na conclusão do sermão.. Aqui Vieira faz uma consideração também sobre a “energia da palavra extraxisti.OK. sendo submetido também à possibilidade do erro: com efeito. Em suma. ibid. ressuscitando-a. porque a ambos se lhe restituiu a alma própria. Sermões. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .

OK. conforme Vieira: “se o Evangelista não o dissera. “eu o não imaginara”21. 1951.pmd 97 23/5/2012. Sermões. ou seja. q. Pode-se conhecer o que não é imediatamente sensível através da “sombra”. 84a. p. aquela interface entre o supra-sensível e a corporeidade. vol. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . er per remotionem”19. VIEIRA. 131. A imaginação na teoria aristotélico-tomista integra os sentidos internos. Belo Horizonte. Com efeito. Summa Theologiae I. portanto. os sentidos externos e internos e também da palavra deriva da filosofia aristotélico-tomista e é lugar comum da Idade Moderna18. necessita da sensibilidade e de sua estrutura espaço-temporal. V. p. eu o não imaginara”17. De modo que ela tem um conhecimento direto de Cristo pela sua estreita união com Ele. Lonergan ao tratar da teoria do conhecimento em Aristóteles e Tomás aponta para a necessidade da palavra interior no dinamismo do conhecer (“verbum cordis”. 1951. 1989. Spirito nel mondo. 1951. 369. 20 A. vol. 131. mas também pode superá-lo pelo “excessus”: “ Deus cognoscimus ut causam et per excessum. ad 3.medida em que este transcende o alcance dos sentidos. vol. S. 2005. p. A realidade sensível assim vivida por alguém em união mística com o divino seria a sombra do Sol divino. O fato de que o conhecimento humano acontece num corpo não glorioso e. ou seja. 127. V. O conhecimento que passa através do sensível precisa da mediação do verbo. M. se o evangelista não “dissera” que a Mãe de Jesus estava nas núpcias de Caná. RAHNER. VIEIRA. realizada em Maria. V. Milado: Vita e Pensiero. Sermões. a metafísica tem sempre como referência o fantasma produto da atuação da imaginação. 21 A. Vieira desenvolve o tema através do recurso ao conceito de “sombra”. Paulo: Loyola. 19 Tomás de AQUINO. apud K. 17 18 Perspectiva Teológica. p. MASSIMI. O “fantasma” necessário para conhecê-lo é produzido por um ato da imaginação. recolhe numa totalidade as impressões sensíveis recebidas pelos sentidos externos e é uma capacidade necessária e antecedente ao dinamismo da potência intelectiva. 87-100. Número 122. almas e corpos no Brasil colonial. em dois pontos do sermão Vieira ressalta a função mediadora da palavra: ao falar sobre a “energia da palavra”20 comparando-a com a força de Deus Pai e com a força das “saudades da Mãe”. Os objetos da metafísica são acessíveis ao conhecimento humano pelo mundo físico. 10:26 97 . Sermões. p. que é uma verdadeira identificação pela qual Ela conhece tudo o que acontece n’Ele e vice-versa. Cf. VIEIRA. No sermão. “verbum interius”. Palavras. esta “interface” brota da união entre a dimensão transcendente e a terrena. Para que a imaginação possa realizar seu percurso. e ao colocar que. “verbum mentis”) e para o fato de A. Ano 44. Na verdade conforme Rahner. o conhecimento da realidade transcendente. deve ocorrer também a revelação proporcionada pelo verbo.

p. 87-100. não só é conveniente saber onde está. 133. segundo Dionísio. 374. Ano 44. de modo que este conhecimento do transcendente se daria por aproximações revelando o que é através do que não é. sempre o conhecimento de Deus passa pela união de Cristo com o homem. p. Para o ser humano. RAHNER. o conhecimento sensível é a condição do entendimento. recoloca a possibilidade do sujeito elaborar o “phantasma” e desencadeia assim o dinamismo do conhecimento de outro modo impossível. os objetos do entendimento nunca são separados de sua extensão concreta. pela encarnação do Verbo de Deus no corpo de Maria. 1951. Neste sentido. V. Vieira parece fazer referência à Teologia Negativa de Dionísio Areopagita. Rahner também aborda a questão do humano conhecimento na perspectiva tomista e coloca que a “conversio ad phantasma”22. segundo Vieira. “Buscar a Mãe”. não só onde se acha.pmd 98 23/5/2012. senão também onde não está. Belo Horizonte. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . ou seja.que esta é causa eficiente da palavra exterior. Milado: Vita e Pensiero. senão também onde se não acha”23. vol. não seria possível ter um conhecimento puramente abstrativo de Deus. quando diz: “A quem busca a Cristo. o intelecto sempre precisa do seu objeto: a palavra interior.OK. Desse modo. pelo menos neste sermão. parece que. qualquer coisa se diga de Deus por palavras humanas é necessariamente imprecisa e limitada. 10:26 . Na quinta parte do sermão. em qualquer caso (mesmo que se trate do conhecimento de realidades transcendentes) obtido pela presença do objeto sensível e pela apreensão deste pelas potências psíquicas do sujeito. K. podemos pensar que a palavra é concebida por Vieira de modo tal que se for dotada de toda a sua força. a mediação sensível do Deus transcendente. Desse modo. ou seja. Cada ato do espírito relaciona-se assim a um correspondente sensível. Vieira também acena a uma possível superação deste tipo de conhecimento por negação justamente no momento em que introduz de novo o fato que é possível “achar” Cristo em Maria. Spirito nel mondo. voltando ao texto do sermão. p. corresponderia então ao percurso possível ao humano conhecimento. 98 Perspectiva Teológica. A. Não é possível achar a Deus e conhecê-Lo sem passar por este caminho que envolve a constituição psicossomática do sujeito humano e o revelar-se no mundo material do próprio divino. 1989. Número 122. Com efeito. Sermões. Todavia. VIEIRA. 22 23 Cf. ou seja.

. 348-357. Porto: Lello e Irmão Editores.OK.. (Org.pmd 99 23/5/2012. São Paulo: Editora Globo.libis. Exercícios Espirituais. Tendo a pregação sido feita em uma igreja dedicada a Maria. Toronto: Lonergan Research Institute Regis College. VIEIRA. Referências VIEIRA. (Tese de doutorado apresentada ao Instituto Superior de Filosofia da Universidade de Lovaina). de que não encontrar o Cristo morto era preferível. M. e de que o caminho para chegar a Cristo passava pela sua Mãe e pelo modo de conhecer com que ela por sua vez conhecia a Deus. V. contudo. 2008. MASSIMI. M. a Estrela e as outras coisas do mundo são sinais que levam a Deus. p. A.). Sermões. A. Bragança Paulista: EDUSF. S. M. que congrega todos estes elementos com o intuito de levar seus ouvintes a descobrir o verdadeiro valor das riquezas. L. In: Aquinas. Fabula mistica: la spiritualità religiosa tra il XVI e il XVII secolo. I. 87-100. Número 122. Por analogia se pode conhecer a Deus. Verbum: Word and Idea. A. 1990. Em torno da recepção do pensamento de João Duns Escoto no Portugal quinhentista: o caso dos jesuítas de Coimbra. Carta. somente pelo que Deus revela de si é que se podem descobrir as verdadeiras riquezas. Perspectiva Teológica. LONERGAN. DE CERTEAU. J. Antônio Vieira utiliza uma epistemologia sofisticada para persuadir e exortar os seus ouvintes de que era possível conhecer a Deus. comparando com as realidades do mundo. 2005. Os anjos.1951. vol. Disponível em https://repository. João Duns Scotus (1308-2008). LOYOLA. 10:26 99 . São Paulo: Loyola.. São Paulo: Loyola. 1987. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Belo Horizonte. B. B. Acesso em 03/04/2009. MADEIRA..kuleuven. pois assim se poderia encontrá-Lo vivo. fica ainda mais evidente a sutileza do sermão de Vieira. Contudo o sinal mais visível é a Sombra da Trindade que é Maria a Mãe de Jesus. Palavras. Homenagem de scotistas lusofonos. Ano 44.pdf. 1997.6. Pedro da Fonseca’s Isagoge Philosophica and the Predicables from Boethius to the Lovanienses.be/dspace/bitstream/1979/ 409/5/thesis-docto. Bologna: Il Mulino. pois somente em Cristo é que tudo adquire a real dimensão. In: DE BONI. CARVALHO. das delícias e das honrarias. Porto Alegre: EST Edições. 2008... almas e corpos no Brasil colonial. delícias e honrarias. p. Conclusão No Sermão da Madrugada da Ressurreição. 7.

OK. 111-135. São Paulo: Paulus. PSEUDO-DIONÍSIO. p. Ciências e Letras de Ribeirão Preto Universidade de São Paulo Av. Endereço: R. Ano 44. G. Belo Horizonte.. M. 2007.. 2004... Professora Titular da Universidade de São Paulo. Obras completas. vol. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . de. Acomodação Retórica e Adaptação Psicológica na Pregação Popular dos Jesuítas na Terra de Santa Cruz. Bandeirantes 3900 14040-901 Ribeirão Preto – SP João Madeira: Doutorado em Filosofia pelo Katholieke Universiteit Leuven. In: NOVAES. Endereço: Faculdade de Filosofia.pmd 100 23/5/2012.). O olhar. nº1. (Org. Marina Massimi: Doutorado em Psicologia (Psicologia Experimental) pela Universidade de São Paulo (1989). 1988. São Paulo: Companhia das Letras. 87-100. Número 122. 10:26 . Bélgica (2006). 301-316. SP. Professor Adjunto da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. MS. O Areopagita. 3. A. Campo Grande. PÉCORA. FREITAS. Mnemosine.MASSIMI. p. O demônio mudo. p. Ourinhos 74/14 A Vila Carvalho 79005-270 Campo Grande – MS 100 Perspectiva Teológica. R. A.

10:26 101 . Conflitos. p. Ano 44.pmd 101 23/5/2012. ** Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Tal atitude de ser e viver reconstrói a morada do ethos moral. Perspectiva Teológica. 101-124. PALAVRAS-CHAVE: Teologia Moral. que o considerou importante. Com este objetivo. Belo Horizonte. LEERS. Número 122. revisitaram-se algumas das suas obras numa tentativa de entender de que maneira seu pensamento influenciou o modo de fazer teologia moral. RESUMO: Este artigo discute a importância do pensamento de Frei Bernardino Leers para a virada pragmática da teologia moral. 82. Frei Bernardino Leers propõe aos moralistas católicos um olhar para a pessoa em sua singularidade. Belo Horizonte. Em Plena Liberdade. Nesse processo de investigação. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Pessoa. Belo Horizonte: Lutador. and identify how they influence the * In memoriam a Frei Bernardino. encontram-se alguns fundamentos da ética aplicada. 2010a.OK.A MORADA DA MORAL NO PENSAMENTO DE FREI BERNARDINO LEERS: A PESSOA* Ethos in the thinking of Father Bernardino Leers: the person Amauri Carlos Ferreira** Frei Leonardo Lucas Pereira*** A consciência moral não é monopólio dos moralista1. Essa reflexão evidencia dilemas e conflitos no que se refere à prática dos moralistas tradicionais em relação ao mundo vivido. Uma versão preliminar deste artigo foi entregue a Frei Bernardino. chamando-os para uma escuta de cuidado e respeito ao ser humano. Instituto Santo Tomás de Aquino. ABSTRACT: In this paper we discuss the importance of Father Bernardino Leers’ thoughts for the pragmatic reorientation of moral theology. em 2009. Dilemas. Ética aplicada. De forma especular. We try to understand his trend of thought by revisiting his works. *** Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. 1 B. Belo Horizonte. Artigo submetido a avaliação em 18/ 03/2012 e aprovado em 03/04/2012. p.

Conflicts. lugar. que não pretendia e nem Ethos – termo grego que significa casa. 101-124. No dizer de Lima Vaz (Escritos de Filosofia II: Loyola. La Taille3 afirma que em 1902. 15-16.making of moral theology. entre outros. É um ser que tenta desentranhar do reino da quase necessidade a liberdade de ser e de estar com os outros no mundo. perfeita. 10:26 . and conflicts to the traditional moral practice experienced in the world. morada. bom. p. During the investigation. a filosofia moral anglo-saxônica preocupouse com discussões em torno da meta-ética. justo e dever. Número 122. verdadeiramente. 3 Cf. Introdução A condição humana é o lugar privilegiado do ethos2. que vem a ser. Such an attitude of living and being underlies the construction of an ethos.pmd 102 23/5/2012. Person. Vergonha a Ferida Moral. Belo Horizonte. 2 102 Perspectiva Teológica. This analysis brings to light dilemmas. destacando a importância da moral e chamando a atenção para que ela se tornasse objeto da ciência. no início dos anos 30. No século XX. As questões de conteúdo moral eram discutidas a partir de perspectivas disciplinares que defendiam posições ideológicas. de LA TAILLE. Piaget publica. é atitude ética dos seres humanos. 2002. a casa. KEYWORDS: Moral Theology. em seus conflitos e dilemas. In a specular manner. as reflexões em torno do comportamento moral dos indivíduos estavam circunscritas à relação lógica de julgamentos morais e também a outras formas. Y. Nos anos 20 Freud publicava seu texto sobre o Id e o Ego. Quanto mais se aventura no estudo da moralidade mais se percebe a complexidade do homem em suas buscas.OK. we identify the principles of applied ethics in Father Bernardino’s thoughts. Ano 44. A busca pela construção e reconstrução de uma moradia que nunca está pronta. Father Bernardino summons Catholic moralists to focus on a person’s singularity. 4 Durante a primeira metade do século XX. p. a morada da liberdade”. Lévy-Bruhl publicou La Morale et La Science des Moeurs. 16). No mesmo ano Durkheim ministrava cursos sobre educação moral. fossem dogmáticas ou relativistas. Applied ethics. a contribuição da filosofia moral anglo-saxônica no campo da metaética4. o estudo do significado dos termos morais da relação lógica entre os julgamentos morais e outras formas de julgamentos. a questão central em torno de reflexões a respeito da vida e da relação com o outro aponta um caminho para melhor compreensão sobre a moralidade. Durante a primeira metade do século XX. Dilemmas. Uma preocupação com os enunciados morais que tangenciavam predicados neutros de moralidade. “Ethos como lei é. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . listening carefully and respecting the human being. 1988. tais como bem. Petrópolis: Vozes. p. O julgamento Moral da Criança.

Assim. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . revisitamos algumas das suas obras numa tentativa de entender essa virada pragmática e de que maneira influenciou o modo de se fazer teologia moral e de que forma se aproxima da ética aplicada. Este passa a ser o eixo da ética aplicada5. Frei Bernardino Leers demonstra preocupação desde o início de sua vida acadêmica com conflitos e dilemas em torno da pessoa com especificidade no campo da teologia moral.pretende determinar o que o ser humano deve fazer. Sem falar em ética aplicada. no campo da moral. Tal preocupação. A preocupação daqueles autores era procurar fundamentos para a moralidade fora de espaços a ela atribuídos. direito dos animais.OK. em seu magistério. Número 122. circunscrita às mudanças sociais que marcaram a sociedade ocidental dos anos 50 do século passado: liberação sexual.pmd 103 23/5/2012. evidenciou conflitos do ser pessoa em relação ao mundo vivido. o que proporcionou uma virada pragmática no fazer teológico. 5 A expressão ética aplicada surgiu nos Estados Unidos nos anos 60 do século passado. Uma virada reflexiva estava sendo gerada. ética e educação. direitos sociais e coletivos. Termo que gera desconforto para a teoria geral da ética. como nas instituições religiosas ou familiares que estabeleciam o caráter prático e normativo da moral. Nos anos 70 as questões de ordem ética sedimentaram-se em áreas do conhecimento que tangenciavam o campo interdisciplinar como bioética. ética ambiental. Belo Horizonte. Perspectiva Teológica. p. a pessoa como morada da moral. substrato primeiro de reflexões morais que irão se seguir a posteriori. desde sua origem. 101-124. Pelo caminho do vivido. Sua reflexão aponta. Para compreender seu pensamento inovador. está centrado na pessoa. nessa práxis. ética profissional. desafios da teologia moral em tempos de mudanças e a morada da ética aplicada e desafios ao confessor. esse artigo está circunscrito aos seguintes percursos: a morada da moral teológica em seus dilemas e conflitos. uma vez que a mesma está voltada diretamente à filosofia prática. O eixo reflexivo da morada do ser humano volta-se para questões de ordem prática e de sua aplicação. o que o levou a refletir sobre a subjetividade na práxis da moral teológica. Ano 44. preocupações ambientais. manipulação de técnicas da matéria animada. Frei Bernardino Leers insere-se nesse contexto discutindo temas que se tornaram centrais a partir do período pós Segunda Guerra Mundial. 10:26 103 . O pensamento e a ação desse autor. dentre outras que caracterizam um ramo específico da ética geral.

sempre existiu.L. Em sua acuidade de saber escutar. e especificamente católico. em que escolher é sempre sinônimo de perda. no que se refere à moral em torno de escolhas e decisões. vindo de um doutorado em Teologia Moral em Roma. p. Isso requer a compreensão dos valores de cada geração que chega ao mundo. Essa aplicabilidade da ética. voltada para a humanidade. seus conflitos e dilemas. 10:26 . p. O dilema moral. uso da pílula. normas e proibições. O apego rígido à tradição moral pode levar a um distanciamento do mundo vivido. Ano 44. Entender o momento atual é permitir olhar para além da teoria e do pensamento dogmático. acham-se circunscritos ao campo do dever. S. e de que maneira eles se interagem na práxis do ethos cristão. no campo de situações-limite enfrentadas. bem como o conflito. abre possibilidades para ampliar sua percepção sobre a moral oficial católica no contato com a cultura local. apreende o movimento dinâmico do ethos mineiro e o amplia na compreensão de dilemas e conflitos vividos pelo ser pessoa. 74. entre outros. eventualmente.OK.F. Temas esses que estavam sendo discutidos.pmd 104 23/5/2012. situa-se no mundo do sujeito em suas escolhas temerárias. sexualidade humana. leva-o a assumir responsabilidades circunscritas ao plano da ação ética. moralizados e inseridos na tradição teológica. conjunto de palavras e frases. no que alude ao dever e ao conflito.P. deveres e conflitos na dimensão da moral teológica. “Frei Bernardino – Um jeito de Viver: Sociedade religião e moral”. no interior de Minas Gerais. a questão atual é que as perguntas voltam-se para o sujeito em situações dilemáticas. É a pergunta de ordem da moral: “o que devo fazer”? A resposta a essa pergunta. aborto. Petrópolis: 2000. a partir do mundo vivido. Compreender dilemas. subsiste e se realiza na prática do agir. 101-124. Número 122. LEERS. é entender o modo de refletir de Frei Bernardino em seu fazer teológico. divórcio. problematizados. na sociedade contemporânea. vividos e. foi capaz de polemizar assuntos como a limitação de filhos. Daí que as situações dilemáticas conduzem o sujeito a repensar sua ação no mundo e a reconstruir seu ethos. no entanto. É assim que sua consciência. 6 B. TOSTA (Org. in L.A morada da Teologia Moral é a pessoa: dilemas e conflitos Aqui eu descobri ainda um clero que era realmente de mando 6 A chegada de Bernardino Leers no Brasil dos anos 50 do século XX. Tal perspectiva. Belo Horizonte. São situações nas quais as ações que emergem levam o sujeito à realização de uma delas. homossexualidade. Segundo ele. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . PEREIRA. A moral não é em primeiro lugar teoria. ao se voltar para o sujeito em sua autonomia. 104 Perspectiva Teológica.).1 .

interpretar.] Anterior a qualquer teorização. RIBEIRO (Org.] Um quadro só de valores não corresponde à realidade humana.. o pensamento de Frei Bernardino vai aperfeiçoando. Segundo Arendt. 1987. 101-124. de acordo com a sua consciência. Para Frei Bernardino9. “Filosofia. São Paulo: Perspectiva. p. p. estão submetidas ao tempo e espaço mutáveis. de justiça. Belo Horizonte. o 7 B. [. Uma crise de valores leva-nos a entender qual é a origem dessa mudança valorativa. Ano 44. p. ela (moral) é subjetividade. Entre o passado e o futuro. 10 Ibid. a partir dele. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . a injustiça. cria sua família e morre. querer. isto é. Ao contrário. Entender o momento atual no espaço do vivido é permitir olhar para além da teoria e do pensamento dogmático. importa a práxis dos agentes morais que agindo. Sociedade Brasileira Contemporânea-Família e Valores.). 11:42 105 . Assim. Sociedade Brasileira Contemporânea-Família e Valores. É esse freqüentar o mundo. 127... p. RIBEIRO (Org. É a vida comum anterior a qualquer teoria.. como as pessoas mesmas. A historiografia geralmente se ocupa da elite e dos heróis. a procura incessante do ser humano em viver bem. Número 122. numa perspectiva de crise de valores. in I. decidir. fazem sentir em profundidade a humilhação. querem realizar o que possuem em potencialidade humana. Com essa virada para a pessoa em sua singularidade e intersubjetividade. moral. 9 Cf. A moral é fruto de valores atribuídos a pessoas concretas que precisam ser compreendidas e percebidas sem conceito prévio. Essa reflexão ética nasce do mundo vivido e. Compreender valores do tempo vivido conduz a conflitos na área já sedimentada como o certo para uma determinada sociedade e geração. [.OK. 1992. realização de sujeitos.. de amor. o ódio e a escravidão7. que nas palavras de Frei Bernardino está situado o campo da práxis moral. “Filosofia. São Paulo: Loyola. 125. casa-se.). ética família e sociedade no Brasil (1964-1984)”. executar das pessoas concretas que. E a grande multidão de construtores morais na sociedade é o povo simples que nasce. na experiência humana os desvalores da realidade fazem perceber os valores como projetos históricos de dignidade humana. ARENDT. p. um fenômeno humano que participa intimamente das duas dimensões da existência do pensamento e da ação das pessoas: o tempo e o espaço vividos. intersubjetividade. LEERS.pmd 105 24/5/2012. LEERS. ética família e sociedade no Brasil (1964-1984)”. com preconceitos”8. 129. de liberdade. São Paulo: Loyola. 223. B. 1987. in I. para perceber a escala de valores da geração que chega ao mundo. o fazer dos homens em seu tempo e seu espaço constrói uma vida boa e possível. 8 H. Perspectiva Teológica. “Uma crise só se torna um desastre quando respondemos a ela com juízos pré-formados. moral. mas o material humano que fornece a base e o substrato da peregrinação histórica das nações costuma ser o anonimato popular10. em sua convivência.

conflitos e desafios da vida cotidiana. Centrar sua reflexão no mundo vivido. 106 Perspectiva Teológica. A sabedoria. 2010a. é preciso refletir sobre o vivido e estar atento à pessoa do agora. numa perspectiva do antes e do agora.OK. pois leva facilmente olhar para trás e estudar na biblioteca do passado”11.itinerário flexível do ethos. estando na vida eclesiástica. sua morada moral vai ao encontro de problemas que a ética aplicada passou a refletir tendo em vista dilemas e conflitos vividos pelo ser humano em diálogo com a ordem prescritiva da ética teórica. Para Frei Bernardino. a escolha acertada foi pela sua práxis no meio das pessoas simples. examinando com pensamento crítico as deformações históricas da “moral tradicional”. 19. conflitos e deveres que a morada da moral voltase para a pessoa. numa práxis que 11 12 B. aprofunda seus estudos bíblicos e cristológicos. acompanhar a vida a partir de princípios cristãos e a apontar a rigidez da moral católica em seu apego à “tradição”. Segundo Lima Vaz. p. Com base em sua fé. p. LEERS. e sim um desafio. Escritos de Filosofia II. Essa práxis de estabelecer o que é certo e o que é errado utilizando vozes antigas e moralistas distancia a percepção do ethos em seu movimento de mudança. Assim. 101-124.pmd 106 23/5/2012. H. em seu caso particular. enfrentando dilemas. Sua contribuição na origem do ethos popular nos convida a compreender sua atitude transgressora e cuidadosa em relação a morada da ética católica. 1988. seu caminho seria o do triunfo do ser humano em sua busca da felicidade. que para ele não é um problema. Ano 44. para ele. No entanto. Belo Horizonte: Lutador. 13. O comportamento humano é dinâmico e a flexibilidade da morada ética está em abrir possibilidades para se viver bem com o outro. Não que a tradição seja um problema. Em Plena Liberdade. Como sua unidade de referência valorativa é cristã e católica. É no campo dos dilemas. Frei Bernardino afirma que. 10:26 . Belo Horizonte. tenta refletir sobre o mundo. nasce da simplicidade. A moral existente como certa é surda em relação à condição dilemática do drama humano. São Paulo: Loyola. Mas de que maneira o pensamento de Frei Bernardino descortina uma nova forma de pensar? Consideramos que se o autor estivesse fora da vida religiosa. Número 122. “a tradição se mostra ordenadora do tempo segundo um processo de reiteração vivente de normas e valores que constitui a cadência própria da história do ethos”12. O ethos tradicional conserva unidades de referência valorativa que permitem agir no mundo. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . trazendo de volta experiências que ficaram perdidas no tempo. LIMA VAZ. mostrando que as temáticas morais são do nosso tempo e do nosso lugar. o apego à tradição moral pode levar a um distanciamento do mundo vivido. “a palavra ‘tradição’ é uma palavra perigosa. p. Ele sabe que a mudança a partir da crítica só faz sentido se fizer parte do que se critica e.

a atenção. Mas é possível ser feliz com a formação de um imaginário de culpa construído no pecado? Esse é o maior desafio de Frei Bernardino Leers. O que é um moralista numa perspectiva religiosa? O que é fazer teologia moral no território de conflitos e dilemas? Essas indagações atravessam o dever ser do comportamento humano. sua unidade de valor. 2010a. Em Plena Liberdade. Entender esse comportamento é se confrontar com a tradição e os ares do novo na práxis religiosa. 62. há o interesse de se compreender o que vem a ser o teólogo moralista. LEERS. é o momento de refletir sobre a ação do moralista em seu apego ao passado. que parecem centrados na práxis das pessoas. Número 122. Nesse sentido. Relação que funda a ética e instaura a necessidade de convivência mútua entre seres pertencentes à mesma espécie. à medida do possível. Belo Horizonte: Lutador. p. Pelos escritos do autor isto parece não ocorrer com teólogos e vários moralistas. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . mas estão apegados ao passado sem vislumbrar o futuro. Sua finalidade ficaria frustrada se seu acervo e conhecimentos. se limitasse ao silêncio das bibliotecas esquecidas. 15 B.pmd 107 23/5/2012. ao se deparar com o sopro da mudança na rocha da tradição. 2010a. Ano 44. 120. Belo Horizonte. No caso do teólogo é fundamental o olhar para frente pois “a teologia moral não é um olhar para trás. 10:26 107 . Segundo Frei Bernardino Leers14.). e orientálas em sua caminhada dentro da perspectiva da fé cristã. Para Frei Bernardino. São Paulo: Santuário. B. trazendo de volta o conceito de pessoa numa ação voltada para a relação com o outro. circulava em redor do ato humano ou ato do homem e não da pessoa humana em seu agir. que tenta compreender o agora e seguir em busca da felicidade. p. 13 14 Perspectiva Teológica. Nos textos de Frei Bernardino Leers. tradicionalmente. Daí ocorre sua crítica aos teólogos moralistas apegados só ao ethos legal. provocar reflexões que possam ser consideradas unidades de referências valorativas. é olhar para o futuro”13. LEERS. É a práxis do puramente humano que atravessa as reflexões morais de Frei Bernardino. o que nos faz lembrar de B. Belo Horizonte: Lutador. O modo como a religião cristã enuncia. 13. Na Teologia moral ocidental.mostra a atitude e a responsabilidade de suas escolhas. 101-124. LEERS.F.OK. DOS ANJOS (Org. diretivas e normas. p. o medo torna-se uma única mão sem contra-mão. p. a teologia moral é considerada uma ciência prática que intenciona refletir sobre o agir das pessoas e sociedades. Frei Bernardino está nesse contexto da possibilidade de voltar a responsabilidade de escolhas do indivíduo para ele mesmo e a partir daí tentar. Em Plena Liberdade. sobre ele e sobre as pessoas que com ele convivem ou com ele conviveram. in M. É no caráter de igualdade da espécie humana que se abre a possibilidade de um diálogo em que o respeito ao outro se instaura numa atitude de compaixão e de sabedoria. 1986. distanciados do mundo da vida. às vezes. segundo Frei Bernardino15. Articulação da Teologia na América Latina. “Ensinar Teologia Moral”.

Assim a teologia moral “precisa comunicar-se com o público. no que se refere ao grupo social. “Moral Tradicional”. Tal perspectiva aponta a inflexibilidade da religião em relação às culturas e em relação ao ensino da moral cristã. como sendo “um conjunto social estruturado daqueles que se confessam oficialmente a ela. 101-124. 1975. mas de qualquer maneira sinais de surgimento dum novo ethos ou do desenvolvimento pluralista e várias formas de vida17. gerando um conflito dentro do legalismo moral do éthos religioso. Belo Horizonte: Lutador. no sentido de trazer a possibilidade de transformar a sociedade em relação à tradição. Segundo Leers. a obediência cega. 16 17 108 Perspectiva Teológica. 19 B. 18 Ibid. para daí se construir um novo ethos. sem tomar em consideração se participam de suas práticas públicas ou observam suas leis”18. O exemplo dado por Frei Bernardino Leers. aju- Cf. precisa aprender a arte de transgredir. São Paulo: Brasiliense. ao caminhar para o futuro. ano II / nº 4 . Belo Horizonte. Divinópolis. W. É no contexto de mudanças que a crise surge. LEERS. Revista logos. a teologia deve ser prática. a aprendizagem de valores religiosos imposta ao ser humano. Ano 44. Nesse sentido. LEERS. com sutileza e ironia. p. cresceram as críticas e começaram as mudanças do comportamento moral. Os novos valores precisam insurgir contra o que já está estabelecido. A religião católica traz dentro de sua estrutura eclesiástica a necessidade de formação moral da perspectiva cristã. 8. desbanca o poder da tradição ao apontar que a teologia moral. Uma vez que “da parte dos cristãos há a fácil invocação do nome de Deus para encobrir a imposição autoritária de normas éticas”19. A crise com seus conflitos é um fenômeno da atualidade e do contexto dinâmico sóciocultural de hoje. pois obedece à consciência da pessoa. Consciência que é construída no viver bem. BENJAMIN. Em Plena Liberdade. 1993. é do segmento religioso da Igreja Católica. A moral tradicional quer se manter na condição de estabelecer o que deve ser para todo o ser humano. p. Mas como formar um novo ethos quando a práxis moral religiosa está sob o signo do poder violento que dilacera e impede o novo de surgir? Frei Bernardino. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .OK. No entanto. A moral que entrou em crise é uma forma histórica da moral humana que se formou no ocidente e se irradiou sobre os povos dos outros continentes pelo processo de colonização em grau variado de penetração. Neste contexto limitado é que nasceram as dúvidas a respeito do sistema herdado dos antepassados.Walter Benjamim16 em sua Rua de Mão Única na qual: Toda rua de mão única é também uma contra-mão. B. impede que o novo tome seu lugar na dinâmica da vida. 2010a. talvez por agora de pouca estabilidade. Qual é a contra mão da história no que se refere à moral? É sem dúvida nenhuma a tirania do medo. Obras Escolhidas: Rua de Mão Única. 114.pmd 108 23/5/2012. a partir da pedagogia do medo. Número 122. a impossibilidade de agir de acordo com o espírito do tempo. que é efetivamente ética. out. p. 10:26 .

L. Uma moral fora de seu contexto. Frei Bernardino – Um jeito de Viver: Sociedade religião e moral. Cf. com sua formação em parte na Psicologia e outra em Teologia. A Teologia Moral tinha uma preocupação constante com normas. mas se animou quando poderia dar nova vida a essa área. em sua trajetória num país distante do seu. se preocupava com a missa. p. “Ensinar Teologia Moral”. com sua regulamentação.OK. 120. M.. L. A repetição dos manuais sem enxergar a realidade é de certa forma o mecanismo de continuidade da tradição. pois o que se tinha no período pós-guerra é a marca dos manuais teológicos: Genicot. tabus. o que era a Teologia Moral quando ele chega em terras brasileiras e mineiras? A Igreja no Brasil significava o clero. P. Noldin. p. S. TOSTA (Org. Número 122. S. dos ANJOS (Org. Tudo registrado. porque podiam impor a norma e o coitado do súdito que se virasse22. 21 Depoimento dado aos pesquisadores do grupo de pesquisa Catolicismo e Sociedade da PUC-Minas. F. 22 L. Foi uma experiência marcada pela aventura.).P. o que lhe possibilitou voltar- 20 B. leis. encarnação evolutiva do Reino de Deus”20. na formação histórica de um mundo mais humano. obediência e sensibilidade para Frei Bernardino. Frei Bernardino – Um jeito de Viver: Sociedade religião e moral. Teologia Moral na América Latina. São Paulo: Santuário. LEERS. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Para Frei Bernardino. 23 Ibid. Petrópolis: Vozes. “A igreja era o clero. 10:26 109 . Ano 44.pmd 109 23/5/2012. Foi o que ocorreu em sua vinda para Brasil. 101-124. in Articulação da Teologia Moral na América Latina. se preocupava com o casamento. A Igreja não se preocupava e nem se voltava para a pessoa. Tratava-se de uma aplicação dos manuais e anotações de pecados.). As autoridades estavam interessadas nessas normas. Aproximou-se da convivência com o povo simples. Belo Horizonte. 2000.F. F. Perspectiva Teológica. em seu depoimento21 em 1998 mostra que não ficou animado ao ser convocado a estudar Teologia Moral. A tradição da teologia moral indicava o que se deve fazer. e ele se ocupava dos sacramentos. 1986. PEREIRA. na área da Moral. o que evidentemente interessava muito às autoridades. Era simplesmente um bloco de normas. o que caracterizava o conservadorismo da Igreja Católica. 80.dar nas consciências morais. como ciência prática. Frei Bernardino. TOSTA (Org. Esse era o projeto que estava em vigor quando Frei Bernardino inicia sua caminhada no campo da moral.L.). transformado em livro em 2000. 2000. A teologia moral. Tanquerey entre outros: uma formação nos moldes da tradição como forma de conservadorismo. aliando Teologia Moral à Psicologia. PEREIRA. Mas. em seus conflitos e dilemas. 58. Petrópolis: Vozes. com papéis de casamento. p. proibições. burocracia da igreja e assim por diante”23. estava circunscrita à casuística.

L. Teologia Moral na América Latina. É interessante notar que o sujeito autônomo se forma a partir de uma norma heterônoma. Catolicismo e Sociedade da PUC-Minas. Esse ethos é formado a partir do conflito como possibilidade de mudança e não de conservação irrestrita e absoluta. Os mandamentos eram uma selva de entradas proibidas. de modo que não podia escandalizar os pobres leigos25.se para o outro. achar que Jesus é menos importante do que um homem. transformada em livro. F. 110 Perspectiva Teológica.pmd 110 23/5/2012. na 24 Entrevista concedida ao grupo de pesquisa. Realmente. “Ensinar Teologia Moral”. Belo Horizonte.L. O bispo Dom Cabral quando nos visitava era o príncipe da Igreja. Em sua entrevista24 declara: Eu aprendi ainda a começar certas missas e solenidades com saudações às autoridades eclesiásticas. o sacrifício da missa era o sacrifício de alto risco mesmo. visto que todas as muitas rubricas tinham o carimbo de pecado mortal. 1986. provável. Então descobri um clero de mando. venial.. 122. A teologia moral servia-se dessas anotações de uma vida em pecado. respeitem o príncipe. Ano 44. na ânsia de evitar tantos pecados. mais aprendizagem e pecados do que estímulo à vida cristã. a religião. 2000. S. para ele depois dar a comunhão. Um absurdo pra mim. Frei Bernardino – Um jeito de Viver: Sociedade religião e moral. TOSTA (Org. certo. Número 122. especialmente de alto clero. 101-124. p. Os manuais de Teologia Moral apontavam o que. LEERS. entender essas atitudes de formação eclesiástica para com o povo é compreender de que maneira os valores são formados e como podem ser modificados. O tratado sobre a vida sexual era uma lista só de pecados mortais de vida solteira e vida casada. entre outras. p. Segundo ele: Os textos serviram para desanimar qualquer cristão. 10:26 . PEREIRA. que podia ser eu também. uma teologia autoritária na qual o dever exigia a submissão.F. que impedia a formação de uma práxis a partir do vivido pelo povo.P. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . com os políticos do lugar. A formação de valores morais vem de instituições como a família. Era a própria oposição ao que Cristo havia deixado. o que inviabiliza o caráter inovador do ethos. LEERS. e assim entender o ethos popular e a maneira como o clero tratava ou ainda trata o povo. in M. A religião católica era sinônimo de valores clericais. Um absurdo. dos ANJOS (Org. O que gerou. Ora. Para Frei Bernardino. a escola.. civis e militares. do Brasil e do Vaticano atrás do altar. para Frei Bernardino. isso eu nunca engoli.B. graças a Deus era escrito em latim.). a gente tinha que primeiro beijar o anel dele. especialmente do alto clero. 25 B. Um absurdo essa mistura de clero. Petrópolis: Vozes. sem a possibilidade de transgressão.OK. Articulação da Teologia Moral na América Latina. era um absurdo pois não deixavam o indivíduo tornar-se pessoa. Cf. com a bandeira de Minas. São Paulo: Santuário. A norma da moral religiosa tradicional passa a estabelecer o caminho do que é a verdade.).

pmd 111 23/5/2012. econômica e política. Ciências Humanas e Sabedoria Popular: Um Tripé que deu certo. Número 122. é pensar a pessoa para além dos manuais e do especialista em pecados. numa linha quase abissal nesse fazer Teologia moral. um ser que duvida.OK. ética família e sociedade no Brasil (1964-1984)”.A morada da teologia moral em tempos de mudança Cada gesto. no tempo do agora. 101-124. vivem e se movimentam na terra comum 27 Janus. Considerado um deus das portas. um tipo de cristão que vê na vida eclesiástica o óbvio: Contra o divórcio. enfim um ser humano que merece respeito das autoridades eclesiásticas. a outra para o futuro. No museu do Vaticano é possível contemplá-lo em sua opulência divina. determina o término e prenuncia o começo. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . os teólogos moralistas não entram num acordo em relação ao seu dever ser. A grande virada no pensamento de Frei Bernardino. um deus dos começos — a ele é consagrado o mês de janeiro. como diminuir o número de aborto por ano. Teologia Moral. de pessoas reais que pisam. cada decisão e realização humanas são expressões e produtos de uma pessoa real. Sociedade Brasileira Contemporânea-Família e Valores. como a comunidade cristã pode dar maior estabilidade às vidas dos casais. A preocupação é a partir da formação da pessoa no campo de sua autonomia. nem suas interpretações precisam ser uniformes. 2010b. passivo. 2. propondo de forma sutil sua crítica aos teólogos moralistas. contra o aborto. que questiona. inerte. Há uma coexistência nas cabeças de Janus. mas um ser em pura atividade e com novos valores. São Paulo: Loyola. in I. fazendo se realiza nas pessoas e pelas pessoas. uma vez que a porta abre-se em lados diferentes. A pergunta fundamental é. surdo. Uma cabeça está voltada para o passado.). LEERS. p. p. por meios de quais sacrifícios reformar a vida social. contra a corrupção e abusos de poder. 132. em relação à tradição. “Filosofia.opinião de Bernardino. não um ser como objeto. moral. contra a escravidão. Representado por duas cabeças. Perspectiva Teológica. 27 B. É assim que o pensamento de Frei Bernardino se abre para compreender o passado a partir do presente. mas um ser de sentimentos. no sentido de percebê-la não como um ser em pecado. mudo. Se por um lado. Petrópolis: Vozes. RIBEIRO (Org. há mais coisas que entram na realização do que apenas certas instruções dadas pelas autoridades eclesiásticas26. LEERS. 10:26 111 . a dupla face de Janus continua apontando para a morada 26 B. Ano 44. Se a moral focaliza o fazer e. cada palavra. Belo Horizonte. Mas os problemas morais que a vida real coloca não se resolvem com proibições globais. 1987.

Se surge um novo problema social ou novidade científica. Como se os valores estivessem atrelados ao ethos legal. sou obrigado não a estudar a história da teologia normativa. Belo Horizonte. 101-124. p. 2010a. Bernardino surpreende com sua fidelidade à moral da pessoa e a sua crítica ao modo de se fazer teologia moral. Espera-se um ethos normativo. sobre pobres. A exemplo. A resistência ao modo de se ensinar o que é certo e o que é errado abre possibilidades para um personalismo abstrato de João Paulo II. de preguiça e comodismo que ameaça o moralista. apresenta-se nos muitos discursos sobre assuntos e pessoas. Ano 44. daí uma dificuldade de encontrar um teólogo moral que acompanhe o tempo vivido. o passado formou. É o presente iluminando o passado na expressão de Walter Benjamim. Belo Horizonte: Lutador. É um termo que pode ser usado em várias direções. Assim afirma. na expressão de Bernardino Leers. 112 Perspectiva Teológica. o apego ao passado centrado no ethos legal é mais forte do que acompanhar o mundo vivido da pessoa. homossexuais.pmd 112 23/5/2012. Nesse sentido. Este vive até hoje em nosso meio. acompanhando-o em suas escolhas. É a espera institucionalizada do saber moral que impera sobre a consciência do moralista.do ser enquanto passagem. No entanto. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Essa mediação do agora para o passado é encontrada em seu pensamento como uma forma de apontar que a vida moral se realiza construindo um processo de aprendizagem contínua. Um outro sentido. Se o passado ensinou pecados objetivos na escuta do confessionário. Encarar a moral dessa maneira propicia uma outra base para reflexão. Frei Bernardino caminha numa direção de pensar a pessoa em sua concretude numa nova perspectiva do ser moral. o especialista em pecados. No entanto. ou nos sonhos acordados de Ernest Bloch. que vão das questões ambientais. é só esperar um tempinho e já sai publicada uma resposta eclesiástica do Vaticano ou da CNBB. Porque eu. 28 B. agora. A moral parece descer de cima para baixo e desconhecer o princípio da subsidiaridade. Número 122. sobre sexualidade ou política. Em Plena Liberdade. ou o profissional não quer perder o emprego.OK. 20. passando por questões da sexualidade humana até chegar às reflexões em torno da fé. que abre possibilidades de se perceber a força do leigo. 10:26 . mulheres. LEERS. p. Para ele ocorre um elitismo na teologia moral. como vimos. O modo de se fazer teologia moral católica a partir do povo é inspirado na proposta do Vaticano II. mas não há sinal de que a reflexão saia destes agentes morais ou de pessoas que estão envolvidas neste ou naquele desafio moral28. Escutar o ser humano com seus dilemas e conflitos. é dever cristão. é a moral dos manuais que formou uma boa parcela da vida eclesiástica daqueles que assumiram a hierarquia católica. Um primeiro sentido aparece na forma da tentação. Frei Bernardino chama a atenção para a quase ausência de teólogos morais frente às diversas demandas do mundo contemporâneo.

sua problemática.pmd 113 24/5/2012. como atitude reflexiva sobre os valores morais. Petrópolis: Vozes. “Moral Tradicional”. Dessa forma. não por cima dela. Dessa forma. p. Número 122. na qual a direção é o outro. Com essa perspectiva de pessoa em sua concretude. É a categoria povo criticada na academia. Frei Bernardino – Um jeito de Viver: Sociedade religião e moral. P. aprende com ela a utilizar o que há de mais belo na ação ética. 4. a maneira de agir no mundo de acordo com sua consciência e com o que se vive: A moral da Igreja católica ocidental. é o portador de uma linguagem oficial e cristã que. 101-124. Aponta um caminho na práxis da moral teológica. 29 L . LEERS. outubro 1975. 30. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . um jeito de viver. Tem em vista que a morada do sujeito ético está circunscrita à sua condição de ser pessoa. o itinerário da sabedoria de Bernardino se faz. TOSTA (Org. o dever ser. abre-se no que se refere à práxis do povo. n. Assim um modo particular de viver uma vida que é mais dura para alguns. Ninguém muda de uma vez e totalmente29. na sua condição de presbítero. manda o que deve ser feito. Perspectiva Teológica. Belo Horizonte. os termos ética e moral indicam os costumes. p.mas estou obrigado a escutar calmamente o que esse homem. Tenho que interrogar a motivação. essa mulher têm a falar. numa escuta respeitosa e cuidadosa do ser humano. p. Compreender a vivência do ethos popular é identificar os termos ética e moral sem diferenciá-los. 11:42 113 . o que se pode nomear como ethos popular em seus costumes e crenças. a capacidade de indignação e o insurgir-se contra normas estabelecidas. Aliás. o medo sempre foi considerado um mau conselheiro”30. e com um acolhimento religioso na maioria das vezes carregado de conceitos e juízos já formados. atitude que o povo aprendeu em sua obediência religiosa. Esse aprender e fazer com o povo funda uma moradia. da paciência. 2000. trazendo o outro em cena numa relação possível de convivência mútua. maltratado pela vida. no sentido tradicional. Tenho de estudar.L. Com todo o problema da tolerância. A morada do povo independente da religião. Ano 44. Frei Bernardino aprende que a ação do povo caminha numa outra direção. para descobrir com ela. A ética. com sua tirania do medo.OK. muito mais as pessoas na sua concretude. mostrou sua ineficácia para os novos tempos. Frei Bernardino. 9. um jeito brasileiro de ser. S. Em sua atitude moral frente ao outro. Frei Bernardino Leers. PEREIRA. mas vivida em sua prática. então. segundo Frei Bernardino. a uma identificação com a moral. Ela é construída numa ação solidária da boa vivência e convivência na solução de conflitos e de dilemas. como um sacerdote que abre caminhos para que a pessoa seja. Revista logos ano II. F.). É uma ação de quem aprende a escutar e a escolher o que é possível fazer. Levando em conta seu aprendizado de uma escuta cuidadosa do outro. É uma ação de quem vive independente da lei e do que se espera. “na sabedoria popular. 30 B.

como se negasse a possibilidade da diferença e do novo. de tal maneira. especialmente. Ibid. No que se refere ao controle de natalidade. por transformações profundas em suas relações mútuas e em relação com mundo cósmico em que vive. p. questões dos métodos ligados ao controle de natalidade estavam demarcando a moral sexual.Quando as pessoas vivem a vida de acordo com suas consciências. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . ou aplicam estes meios com a 31 Cf. Número 122. É o campo da consciência moral que muda o foco que antes estava vinculado a princípios considerados eternos e eram aplicados casuisticamente. ao aborto..OK. alguns moralistas católicos tem dificuldades em discutir essa temática. mais desafiante se a insegurança das atitudes e normas da vida é colocada no seu contexto.pmd 114 23/5/2012. e será transgredido pelo outro novo. A crise é fundamental na dinâmica do ethos ao fazer com que os indivíduos retornem às origens do problema que se apresenta. a tirar conclusões lógicas de como devem ser as coisas. enquanto os moralistas estavam à procura de pecados. Ano 44. Contexto real duma humanidade que passa. a crise moral se torna também mais compreensível. Na área da sexualidade é evidente tal reação. Um vício dos manuais de Teologia. Frei Bernardino. passou a discutir a sexualidade centrando-se na idéia do ser pessoa. Para Frei Bernardino31. que se tornará velho. ao que tudo indica. à pessoa homossexual. aprendem que um sistema de normas é fundamental para a vida em sociedade. 10:26 . A queixa em relação à crise do “mores-costumes” não é nova. os especialistas em pecados. como um homem de seu tempo. assim por diante. Desde os estudos de Freud é impossível pensar na pessoa sem levar em conta sua sexualidade. p. de plantão anunciam o fim do mundo. 114 Perspectiva Teológica. em ritmo acelerado. no que se refere ao uso da pílula. Bernardino aponta para a responsabilidade dos casais cristãos e faz a crítica aos moralistas: O pastor das almas não pode duvidar da seriedade responsável de muitos casais católicos de elevada vida moral que. formadas ao longo do tempo. Nesse campo. Foi assim com questões ligadas à natalidade. É o comportamento moral que vai delineando a face do ethos nessa dinâmica quando compreendemos a pessoa em seus dilemas e conflitos e ao mesmo tempo percebemos a tentativa inócua de conservação da moral constituída. É curiosa a maneira pela qual a moral religiosa responde a questões ligadas à vida em geral. Dentro da religião cristã sempre que um sistema de costumes se modifica. ele aponta para uma reflexão em torno da vida amorosa e de que maneira será possível viver de modo cristão com essa mudança de costumes. Na metade dos anos 60. Belo Horizonte. 12. Aprendemos ser preciso estar aberto à mudança para o novo que surge. 101-124. e.

O mais simples instrumento de trabalho e o mais primitivo método de cultivar a terra já provam o contrário. como atividade humana. 123. não deixam32. p. Quanto a isso. o que abre possibilidades para se compreender a pessoa em suas relações. o padre. 2010a.. ou não os querem aceitar. Em Plena Liberdade. Ibid. não porque a consciência pessoal os acusa. Belo Horizonte: Lutador.. 121.OK. LEERS. mas exclusivamente porque a Igreja.consciência tranquila. Ibid. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Essas dimensões estão no cerne do matrimônio. 101-124.] Não importa se é o homem ou a mulher quem toma a pílula. Frei Bernardino volta-se para a questão da pílula. mostrando a necessidade dos moralistas compreenderem melhor qual é a função da teologia moral. procriativa e social. p. B. p. 32 33 34 35 B. É essa ousadia de tocar no que era considerado intocável. A natureza que o homem encontra e decifra é o ponto de partida da cultura humanizadora35. Perspectiva Teológica. o autor toca na importância de se pensar o matrimônio e sua significação. 10:26 115 . É “o conjunto de vida-casa” numa experiência que se abre em várias dimensões apontadas por Bernardino: abordagem religiosa. auto-limitação do casal em seu amor matrimonial”34. interpessoal. A reflexão de Frei Bernardino no que se refere ao uso da pílula foi a de remontar à questão dos fundamentos do matrimônio cristão de modo a mostrar que uma revisão dos princípios utilizados pela moral era necessária.pmd 115 23/5/2012. “A serviço da Igreja e dos homens. que talvez possam esclarecer a verdade e orientar a atitude moral a tomar”33. 142. O fato sai da questão prática em direção a vida da pessoa em sua vivência do espaço constituído de convivência. 143. Como a formação da lei moral vem também da instituição religiosa. é preciso ampliar a compreensão dos novos valores dentro da Igreja. p. p. Nesse voltar para pessoa. 2010a. bissexual. para saber orientar os fiéis que são pessoas e que de uma certa forma legitimam o poder da instituição. LEERS. sexual. que Frei Bernardino avança na reflexão moral. Frei Bernardino coloca a questão da pílula como um método que “se elucida no conjunto da comunhão encarnada dos esposos [.. Limitação de filhos significa. de braços cruzados sem tocar em nada. A natureza do mundo e do homem não é um museu em que a liberdade humana apenas pode orar e admirar. Mostra que a pílula não seria uma infração à natureza humana ou contra a ordem divina quando afirma: A obediência fundamental do homem a Deus nunca significou um respeito passivo que apenas segue as linhas que a natureza do mundo e do homem parece indicar. Ao transformar uma questão de ordem prática em teórica. Ano 44. Belo Horizonte: Lutador. a teologia moral há de procurar novas perspectivas na discutida questão da pílula.. Número 122. Belo Horizonte. Em Plena Liberdade.

homossexualidade somente ganha face humana se é colocada pela pessoa humana concreta em sua história própria. Só assim pode-se compreender a dignidade do ser pessoa. sempre duas vidas humanas estão diretamente envolvidas: a vida de quem é abortado e a vida de quem aborta. O ser humano não é uma essência parada no tempo e isolada no espaço38. É assim que. Belo Horizonte. Concomitante a essa situação. levando em conta a condição de tempo e de espaço vividos e a condição concreta das pessoas envolvidas no drama humano. Com essa perspectiva atenta aos costumes é possível refletir sobre a vida que tem seu fim no aborto ou na eutanásia. J. 148-149. as principais agentes e vítimas destas histórias”36. Se o aborto é considerado um pecado mortal. LEERS.pmd 116 23/5/2012. p. antes de se apegar ao formalismo da lei e a pressupostos que estão longe da proposta original cristã. Frei Bernardino volta-se para a pessoa. No que se refere à homossexualidade. Ano 44. 2002.. pp. 36 37 116 Perspectiva Teológica. problemas de uma ética aplicada estão presentes em seu pensamento ao estar atento às mudanças do tempo vivido. que leva o estigma de crime hediondo e pecado mortal e excomunhão reservados?37. Frei Bernardino aponta para a inabilidade dos moralistas que se esquivam discutir os novos valores. p. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . 57. Ao formular a problemática do aborto. 10:26 . Homossexuais e Ética Cristã. Ao compreender a situação do homossexual em relação ao heterossexual. não se corre o risco de deixar na sombra a segunda. p. Frei Bernardino o redimensiona na perspectiva da pessoa. no campo da moral. Os temas polêmicos surgem e ressurgem e Frei Bernardino lida com eles sendo fiel a sua proposta em centrar sua reflexão na pessoa.. Nos casos de aborto. Segundo ele. Campinas: Atomo. Pela focalização epocal na vida do primeiro. Frei Bernardino aponta para a questão do gênero feminino uma vez que “os dramas de aborto talvez digam pouco aos homens.É essa cultura humanizadora que faz Frei Bernardino. mas são sentidos tanto mais profundamente pelas mulheres que são. E de forma crítica aponta que a identidade sexual da pessoa homossexual felizmente não se evidencia “somente Ibid. afinal de contas. 38 B. 101-124. buscar no prático o fundamento teórico para mostrar que a teologia moral tradicional carece de se atualizar. mesmo se são co-responsáveis pela origem do problema. TRANSFERETTI.OK. Ibid. 154. Número 122. a pessoa deve ser compreendida no território da sexualidade e não do preconceito. Para ele.

Como se o mundo fosse do e para os heterossexuais.. Pena que Eva fosse tão surda. Para ele. Frei Bernardino aponta para a ausência de formação e informação do clero em relação às mudanças sociais e ao mesmo tempo para o despreparo em lidar com temas da sexualidade.OK. Na história de um homossexual. que a pessoa se sente rejeitada em sua igreja e fixa em seu coração a imagem de um deus cruel que castiga e abandona no deserto social a ovelha perdida40. p. Os maus tratos.pmd 117 23/5/2012. Ao chamar a atenção para a questão discriminatória em relação aos homossexuais. É uma nova forma de compreender os fiéis nesse conflito de desejos e de dilemas humanos. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Essa preocupação com o mundo vivido da pessoa e essa escuta sábia do povo levaram-no a propor uma ética do confessor centrado na pessoa. É o campo da autonomia e da liberdade sendo construído em conjunto. podem criar tanta desilusão e fortalecer tanto senso de isolamento e exílio. 101-124. Ocorrem discriminações sociais embutidas em códigos de conduta. o desespero. Ibid. 3 . Se a árvore do bem e do mal está implantada simbolicamente nas consciências morais das pessoas e a fé faz também dos homossexuais cristãos templos do Espírito santo. 168. Ibid. E pena que eu não soube me fazer entender. É como se sua identidade sexual não existisse. É preciso ficar atento ao mundo vivido e a partir daí ter uma escuta verdadeira de sofrimentos em relação a conflitos e dilemas. são eles os responsáveis históricos diante de Deus e diante da comunidade que participam41.. Adão e Eva eram os primeiros seres humanos que nasciam 39 40 41 Ibid. 170. p. a zombaria.A morada do Confessor Errata: onde o Antigo Testamento diz o que diz. especialmente no meio dos moralistas católicos.quando um grande talento artístico ou intelectual é capaz de desviar bastante a atenção curiosa e maligna pelo fato de ser o portador um homossexual”39. sofridos nas mãos de cristãos. p. p. Belo Horizonte. Esse é um campo fértil para a questão moral e ética das pessoas principalmente aquelas que se consideram cristãs. Perspectiva Teológica. sem eles participarem com voz ativa e finalmente liberada do processo decisório. Ano 44. Número 122. Adultos e maduros. 170. dentro da verticalidade religiosa. não há sentido de decidir normas sobre a conduta deles.. Essas perspectivas de educação para o ser pessoa livre e responsável coloca Frei Bernardino em destaque na vida eclesiástica. Uma vez que. 10:26 117 . a religião pode desempenhar o papel de apoio e animação ou provocar afastamento e ódio. deve dizer aquilo que provavelmente seu principal protagonista me confessou: Pena que Adão fosse tão burro.

Ano 44. Onde anunciei pradaria em festa. deve ser sensível às novas demandas da pessoa em seu processo de libertação. levaria a uma idéia de bem e de responsabilidade da pessoa em relação à vida? Essa indagação é respondida quando se investiga a intenção de Frei Bernardino em relação ao ideal de se viver bem e em harmonia a partir dessa luta entre contrários.OK. p. e a de se fazer de uma ética aplicada que tematize conflitos. Porto Alegre. Eles não estavam preparados para escutar. Elas o colocam numa situação paradoxal. É nessa situação paradoxal que o campo da ética aplicada torna-se fundamental para problematizar questões ligadas à vida. entenderam vale de lágrimas..]42. 89.pmd 118 23/5/2012. a monogamia. Eu disse que quem desama peca: entenderam que quem ama peca. se dá na ação e nessa escuta cuidadosa em relação à pessoa na sua singularidade. Acharam que um pecado merece castigo se for original. E acreditaram [. dilemas e deveres circunscritos ao campo da prática pastoral e confessional. vieram os equívocos. 118 Perspectiva Teológica.. 10:26 . tanto as sanções do 42 GALLEANO. na ação do confessor. Ao refletir sobre a moral brasileira.. violência. e reconheço que tinham certos defeitos de estrutura. ficam claras quando o autor reflete essas questões polêmicas que. Igreja e Estado. Belo Horizonte. 1991. A situação do confessor no mundo contemporâneo provoca reflexões que problematizam duas perspectivas: a de uma escuta cuidadosa no que se refere a questões polêmicas como vida conjugal. Por outro. No entanto. [. a compreensão de um ethos popular.da minha mão. deveriam estar no dia a dia do teólogo moralista. sexualidade. Assim. De um lado.]. distanásia. Estar em consonância com os princípios da Igreja e a prática do povo é um exercício de humildade e sabedoria. legitimidade da prole eram normas da moral católica e das leis civis. é servo de uma Igreja que se posiciona à contramão dos novos tempos. Então. Eduardo. Bernardino chama a atenção para valores tradicionais da família. de uma ou de outra maneira.. segundo ele. Essas perspectivas. construção e acabamento. Eu disse que a dor era o sal que dava gosto à aventura humana: entenderam que eu os estava condenando. nem para pensar. eutanásia. homossexualidade que exigem do teólogo moralista posicionamentos em relação a pessoa e não a ethos legal/eclesiástico. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . chama a atenção para a importância da Igreja no processo de formação cultural que o próprio Honnaert já tinha sistematizado. 101-124. Eles entenderam queda onde falei vôo.. tendo em vista que a Igreja Católica no Brasil sempre esteve à volta com questões instigantes. p. o autor traça a origem dessa moralidade em Portugal e no processo de romanização da religião católica. aborto. Entenderam tudo ao contrário. indissolubilidade.. De que maneira a ética aplicada. no pensamento de Frei Bernardino. Número 122. L&PM. O Livro dos Abraços. nessa interação com o código moral. ao outorgar-lhes a glória de serem mortais e loucos.

RIBEIRO (Org. Daí que reflexões em torno da sexualidade. casamento e família exigem do confessor uma escuta apurada e cuidadosa. Para ele. Assim formula a questão que de uma certa forma incomoda aos moralistas de plantão: Quais são as pessoas concretas de carne e osso que desfilam pelo discurso dos teólogos morais e autoridades. Belo Horizonte.pmd 119 23/5/2012. Belo Horizonte: Lutador. Várias questões ligadas à vida do povo levaram Frei Bernardino a problematizar. no confessor. Seu pensamento aborda desde a família nuclear. Sociedade Brasileira Contemporânea-Família e Valores. Esse jeito de se esquivar de temas cruciais colocou os teólogos moralistas em situação de conservadorismo em relação à vida do povo. Ano 44. Em Plena Liberdade. A ética do confessor proposta por Bernardino situa-se nesse campo da aplicação. 44 B. “Filosofia. até ao modo contemporâneo de se pensar essa instituição. chamado liberdade”44. o aborto voluntário. A experiência de uma vida voltada a escutar dilemas e conflitos levou-o a um refinamento no modo de pensar e de agir de forma autônoma. o adultério43. um lugar para a responsabilidade com a pessoa. moral. Número 122. fechada em torno de pai mãe e filhos. ética família e sociedade no Brasil (1964-1984)”. tenho a impressão de que ainda é Adão. in I. Assim. dos olhos. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . É preciso tornar-se um pedagogo que aprende a conduzir. os fiéis independente da cor da pele. o ideal necessário para qualquer pessoa. no campo da fé. 10:26 119 . a partir do ethos legal eclesiástico. 20. 2010a.pecado. é o mundo do ethos legal num retorno a uma nova forma de obedecer a manuais de conduta. LEERS. de forma lapidar. é inconcebível a prática de alguns teólogos moralistas ao estabelecer o que deve ser. sua escuta cuidadosa do outro. tal atitude conduz a um elitismo que é o da ausência de liberdade. Para Bernardino. quanto as determinações do direito penal encobriram o homossexualismo. 1987. Nessa ética. 101-124. p. ao mesmo tempo. das escolhas sexuais. quando formulam normas? E faz o seguinte comentário: “As vezes. p. Perspectiva Teológica. quando andava ainda puro e livre pelo Paraíso. A construção e reconstrução do ethos religioso tem. o que é próprio da pessoa e a ter uma postura crítica em relação ao ethos eclesiástico. Ou melhor. a prostituição. 43 B. Essa preocupação de Bernardino conduz sua forma de agir moralmente e. 132.OK. o confessor tem o compromisso primeiro com a pessoa em seus dilemas e conflitos. São Paulo: Loyola. o homem perfeito completo que ainda não abusara do investimento de alto risco que Deus lhe fez. para ele o confessor deve estar atento a toda manifestação da vida do outro. Perpassa questões ligadas à sexualidade e faz sua crítica de forma irônica aos confessores que invadem a vida das pessoas sem conhecer o mundo vivido por elas.). p. LEERS.

Ibid. “A teologia moral não é para os perfeitos. o ministro não está em primeiro lugar no nível das normas. é para Frei Bernardino uma missão. tomadas por outras pessoas concretas. LEERS. p. em situações próprias. de 1988. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . mas uma pessoa aberta à possibilidade permanente de conduzir ao caminho do que é o bem. mas para pessoas em caminho. Atento ao tempo e às mudanças no campo da moral.. Em seu livro.É nessa possibilidade de ser livre e autônomo que Bernardino aponta para a teologia moral como um lugar em construção assim como a morada do ser humano que não está pronta acabada. catequista. Petrópolis-RJ: Vozes. aponta para questões delicadas que o ethos legal/moral. Essa perspectiva de Frei Bernardino. 1988. Ter a paciência de esperar. tem dificuldade de compreender e conduzir: são as situações dos recasados e dos homossexuais. Nesse caminho. no mundo concreto. da virtude de saber ouvir. independente de suas escolhas sexuais. numa perspectiva eclesiástica tradicional. 101-124. levando-o a entender a pessoa concreta. p. sem tirar dele a possibilidade de se reconciliar. Para ele. Belo Horizonte. em construção ainda não prontas”45. Ano 44. se quiser.pmd 120 23/5/2012. leva-o a compreender processos sociais e a entender melhor dilemas e conflitos humanos. 158. Frei Bernardino dá o tom e a dobra para essa possibilidade de reconciliação. políticas e/ou pessoais. 45 46 120 Perspectiva Teológica. na postura do confessor. Número 122. Conversar com o outro. O Ministério da Reconciliação — uma ética profissional para confessores.OK. clama aos teólogos moralistas pela sua obrigação de ser pedagogo. as situações familiares e sexuais são abordadas de forma ética ao pensar no outro em suas escolhas e ao mesmo tempo. perfeita. mas no nível das decisões históricas de consciência. p. se voltar para o mundo da pessoa e a partir daí acompanhar seus dilemas e desafios. 10:26 . Questões que no campo da ética aplicada não são moralizadas. a tolerância de suportar e escutar o que não se deseja. Uma vez que. O confessor não é um especialista em pecados. B. fazer com que o individuo se sinta parte da vida. O Ministério da Reconciliação: Uma Ética Profissional para Confessores. que a condenação posta pelo ethos legal/ moral numa perspectiva eclesiástica tende a mudar uma vez que: Dentro do ambiente do confessionário. 21. pela qual o ministro é responsável pela mediação necessária de libertação. É o caminho do meio. acolhê-lo sem excluir. a pastoral centrada na pessoa humaniza o teólogo moral. De tal forma. Assim. Em seus escritos de teologia moral. ele se posiciona frente a essas situações que chamam à reflexão: Um homem mutilado fracassado e mutilado pela experiência negativa de seu primeiro casamento não dispõe das mesmas condições de se recuperar. discute de forma lapidar o que é essa escuta cuidadosa ao acolher o outro. Frei Bernardino46 as coloca no território de conflitos e dilemas para o confessor.

aos poucos aos moralistas.. a pergunta que surge em Bernardino e no mundo do vivido é a seguinte: Agir dessa forma é justo? De forma lapidar. às vezes. De um lado a lei eclesiástica determinando o que deve ser e do outro aquilo que é. uma vez que: Passou a época em que o teólogo moralista ensinava “ex cathedra”. De um lado. escutá-la de seu lugar puramente humano. 10:26 121 . o teólogo moralista precisa acompanhar a memória e a história da pessoa. Frei Bernardino ensina ao confessor ou aos aspirantes da teologia moral: A Igreja impõe regras gerais de conduta pastoral. O dilema que sempre volta entre a lei institucional e o bem estar das pessoas merece ser resolvido prudentemente em favor das pessoas48. e o clero dominava o espetáculo. Ano 44. 47 Perspectiva Teológica. Em latim ou. Número 122. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Para ele. 1988. lembrando-lhe leis que ele não consegue alcançar mais. Mais fácil é obedecer cegamente aos primeiros. Independente da moral do confessor. Discussões essas que Bernardino apresenta.. enquanto praticamente pode. Qualquer sugestão do confessor em direção ao matrimônio seria condenar a uma vida de inferno47.pmd 121 23/5/2012. o peso dos decretos eclesiásticos.emendar-se. vinte centímetros acima de seus ouvintes. o que está em jogo é a pessoa em sua dignidade.. Pecados e confissões eram prato B. mas ignorante. no confessionário apresentam-se pessoas com esta orientação que as torna incapazes de se casarem com pessoas do mesmo sexo. p. Para variar. A questão não é a aprovação da solução limitada de emergência que o penitente deu.] Sem entrar no mérito das questões de como as pessoas evoluem para tal forma de orientação sexual. Compreendendo prudentemente a necessidade relativa em que ele se encontra. p. 48 Ibid. 159. Belo Horizonte. como pressionado entre duas forças. LEERS. 161. p. É mais fácil seguir a lei e não ver o que diz a realidade. Estas podem tornar a posição do ministro dolorosa. de que dispõe aquele que está acertando seu casamento. é mais justo e bem pensado dar preferência ao penitente e ajudá-lo a viver como cristão. muito menos há de condená-lo ou tratá-lo com dureza farisaica. seu monólogo era intercalado com um ou outro caso ou piada ou resposta a uma pergunta de um ouvinte atencioso. 101-124. controlada pelo Santo Ofício. No entanto. explicava a doutrina fixa da moral oficial. A separação entre o padre pregador e o mestre e o público em silêncio era clara. Na mão segurava o manual da teologia moral para uso de confessores de um ou outro autor em latim.. O Ministério da Reconciliação: Uma Ética Profissional para Confessores. o ministro não o jogará mais ainda no abismo.OK. Passou a época em que nosso povo era bom. É essa ética profissional que Frei Bernardino demonstra em seus escritos e em sua vida. do outro o penitente. ao afirmar que o ministro encontra-se numa situação eclesiástica paradoxal. Petrópolis-RJ: Vozes.. consertar a situação. se tinha coragem em língua vernácula. O mesmo se verifica com os homossexuais [.

ao aliar. a formação valorativa religiosa aos novos tempos. pois há poucos teólogos moralistas atentos aos dilemas e desafios da pessoa. 13-14. a vida é abrilhantada pela insurgência transgressora na arte de viver bem de acordo com a sua consciência. em seus comentadores. Ter contato com algumas obras permitiram-nos compreender a complexa teia de crise de valores e de formação para a estruturação do pensamento moral. Hoje existem temáticas que exigem do sujeito reflexões aprofundadas para tomada de decisões que envolvem a pessoa em sua responsabilidade diante da vida. É importante ressaltar que a escolha e a fundação do ethos popular propicia uma reflexão que. p. aprendido no convívio com a sabedoria popular.comum. 101-124. e nós completamos. Por outro. Ano 8. O autor oferece pistas para uma moral teológica aplicada. Essa aproximação faz de Frei Bernardino um autor indispensável no campo da filosofia e no da teologia. dilemas. Horizonte Teológico. Frei Bernardino Leers tem mostrado que a dignidade ética pode também ser cristã e católica. 2009. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . 11:42 . situam Bernardino como um homem do povo na compreensão do Catolicismo Popular. O lugar da moral é na escuta cuidadosa do outro. Considerações finais O pensamento em torno das questões morais propostas por Bernardino vai ao encontro da chamada ética aplicada. às vezes. p. O pensamento de Frei Bernardino Leers aponta para a morada da moral a partir de uma perspectiva cuidadosa. Belo Horizonte. Tal perspectiva é incorreta no momento em que se debruça sobre sua obra. 122 Perspectiva Teológica. 16. direitos e deveres. uma vez que a morada da moral está circunscrita na pessoa em seus conflitos. Por um lado. e que sejam justos. Número 122. Passou o tempo e a formação do moralista mudou muito pouco na percepção de Frei Bernardino. n. E de forma irônica conclui que no canteiro de obras humanas está afixado “vagas para teólogos moralistas que têm coragem”. especialmente no que se refere às questões morais. Ano 44.OK. Temas polêmicos exigem do moralista a autonomia e a sabedoria de se relacionar com o outro. com alimento aberto na frente e a morte uma luta brava entre anjos bonitos e demônios-monstros49. A vida ética só tem sentido na relação com o outro em seu mundo vivido.pmd 122 24/5/2012. a vida religiosa dos teólogos apegados à tradição é renovada pela normatividade de um ethos puramente legal. LEERS. “Formação Teológica e Formação Presbiteral”. A 49 B. dentro da própria religião católica em regime de exceção.

o que afirmou várias vezes em seu aprendizado. cor da pele. os direitos. São Paulo: Santuário.. aprender a ser mais cristão. e o outro um leitor de suas obras. Ano 8. pensar na pessoa é aprender com ela. Campinas: Atomo.OK. “Moral Tradicional”.pmd 123 23/5/2012. Sociedade Brasileira Contemporânea: Família e Valores. os deveres e os dilemas. Ano 44. O Ministério da Reconciliação: Uma Ética Profissional para Confessores. reside a morada do ser em seu processo contínuo de construção e reconstrução da vida. sendo um dos autores desse artigo seu discípulo. ao conhecêlo de perto podemos afirmar: uma vida moral e ética é uma extensão do que se acredita e se vive. 1987. B.. a sabedoria de olhar para trás e dar forma ao conteúdo do vivido. In: M. 1986. Revista logos (Divinópolis MG) ano II. ______. ______. antes de partir deixou inscrito no tempo da memória. ______. p. Aprender a fazer mediações daquilo que se é e se deseja ser. Escutar o que não se deseja. língua. ______. 10:26 123 . São Paulo: Loyola. É no ethos da pessoa que. 2009. “Filosofia. antes da reflexão moral. in RIBEIRO. Perspectiva Teológica. 101-124. Assim. procede como os grandes sábios do passado que foram pessoas do seu tempo. independente de sua condição social.vivência de Bernardino no mundo rural proporciona uma compreensão do mundo vivido. ______. No caso do autor. é cultivar a esperança de ser a cada dia mais justo e. numa construção e reconstrução do ethos que tem no indivíduo a sua universalidade. Referências Bibliográficas: LEERS.). sua reflexão aponta para além desse vivido. n. 16. moral. em sua unidade de referência. 1988. Uma vez que sua preocupação é com a pessoa. “Formação Teológica e Formação Presbiteral”. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . ao chegar aos seus noventa anos. com o outro. Sua reflexão a partir do povo apenas mostra e reforça sua opção religiosa e sua escolha a quem servir. Articulação da Teologia Moral na América Latina. outubro 1975. 4. Ensinar Teologia Moral. Número 122. ética família e sociedade no Brasil (1964-1984)”. Sua relação de tolerância que se abre ao outro é um processo longo de ensinar e aprender. (Org. J. Em sua ética aplicada ao confessor. faz parte da sua condição os conflitos. Viver com dignidade e justiça é aprender a cada dia com o outro nesse tempo de chegar e partir.). escolhas sexuais etc. I. Independente de estar na vivência do mundo rural. Ao debruçarmos sobre o pensamento de Frei Bernardino. Belo Horizonte. Horizonte Teológico. n. estando no magistério da fé. FABRI DOS ANJOS (Org. Petrópolis: Vozes. TRANSFERETTI. Homossexuais e Ética Cristã. O ser humano é um só. 2002.

Petrópolis: Vozes. C.______. especializado em Sociologia do Desenvolvimento e Urbana (Sorbonne. Em Plena Liberdade. Belo Horizonte: Lutador. 2000.pmd 124 24/5/2012.). H. Teologia Moral. ______. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Ano 44. LA TAILLE. LIMA VAZ. L.OK. 1993. 1988. p. Amauri Carlos Ferreira é graduado em Filosofia ( PUC Minas). S. PEREIRA. mestrado ( PUC São Paulo). (Org. 101-124. H. 124 Perspectiva Teológica. Petrópolis: Vozes. Ciências Humanas e Sabedoria Popular: Um Tripé que deu certo. W. F. L. Número 122. França). 11:42 . 2010a. Escritos de Filosofia II. São Paulo: Brasiliense.. Entre o passado e o Futuro. 2010b. 2002. São Paulo: Loyola. de. 2000. Vergonha a Ferida Moral. Frei Bernardino – Um jeito de Viver: Sociedade religião e moral. doutorado (UMESP) em Ciências da Religião e pós-doutorado em Educação (UFMG). ARENDT. Y.. Obras Escolhidas: Rua de Mão Única. Petrópolis: Vozes. BENJAMIN. P. Belo Horizonte.. PEREIRA TOSTA.. Leonardo Lucas Pereira é graduado em Filosofia e Teologia. São Paulo: Perspectiva.

. Dunn reúne. Israel. segundo a tradição judaica. “O nascimento de um novo gênero literário: Marcos e os evangelhos sinópticos”. na Primeira Parte (“Que são os evangelhos?”). ed. a Faculdade de Teologia de Barcelona. intitulados respectivamente: “Fato ou Ficção? Quão fidedignos são os evangelhos?”. a continuidade entre o judaísmo do Segundo Templo e Jesus. avança quatro pressupostos: Jesus existiu historicamente. é conhecido pela prudente audácia de suas publicações. O livro em nossas mãos reúne diversas conferências. “Uma versão muito diferente: João como fonte para o Jesus Histórico”. Entenda-se: distintivo é o que distingue Jesus do judaísmo de seu tempo. 125-149. Índices. U. 10:26 125 . 2011. Quanto ao Jesus Histórico. causou impacto e viveu numa sociedade caracterizada pela oralidade..pmd 125 23/5/2012. Depois da cativante Personal Introduction (p. protestante. Era mestre falando em aforismos e parábolas. ix). enquanto de sua característica faz parte o ser judeu. A teologia do Apóstolo Paulus. mas de perspectiva ampla — como o título sugere —. James Dunn. mas o que é característico. 23 X 15 cm.OK. D. ed. p.G. Espanha. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Paul and the Gospels. portanto. Relativamente conciso. Academia Cristã/Paulus. em Ariccia. E nosso professor. Número 122. era judeu. Itália. acentua. Proclamou a chegada do reinado de Deus. Christianity in the Making. E sua denominação como “Filho do Homem” Perspectiva Teológica. não esconde sua alegria pelas palavras do colega católico que lhe disse que ajudaria os católicos “não a redescobrir. Este iniciou sua atividade a partir do encontro com João Batista. xx + 201 pp. Belo Horizonte. professor emérito da Universidade de Durham (Reino Unido).K. das quais algumas traduzidas em português (A Nova Perspectiva Sobre Paulo.: Eerdmans. que já tem dois de três volumes publicados (Jesus Remembered e Beginning from Jerusalem). Grand Rapids.Recensões DUNN. “Entre Jesus e os evangelhos”. D. Ano 44. mas a descobrir Paulo (p. as “Deichmann Lectures” na Universidade Ben Gurion na Universidade de Beer-Sheva. Michigan / Cambridge. na espera do arremate de seu opus magnum. o Instituto Ecumênico de Estudos Teológicos de Tantur. Israel. ISBN 978-0-8028-6645-5. xii-xvii).. James D.: Jesus. quatro capítulos. Conviveu com a espiritualidade farisaica da Galileia. Não procura apenas o que é distintivo em Jesus. Paulus). pronunciadas diante de públicos diferenciados: a Società San Paolo. o presente estudo nos oferece oportunidade para conhecer as intuições fundamentais do autor.

Marcus. Assim. Ora. 10:26 . mas também por causa da atenção pouco convencional que dedicava aos pecadores. primeiro oral. como fez certa tradição moderna.só se entende na tradição original a seu respeito. Mas isso não significou ruptura com a tradição oral. não apenas por causa de seus exorcismos e curas. Marcus e Lucas) não pode ser discutido sem levar em consideração que a tradição oral continuou ainda depois de escritos os primeiros evangelhos. Entre o Jesus assim descrito e os evangelhos abre-se o campo da tradição a seu respeito. Será que a fonte comum de Mt e Lc. Também Q (assumido em Mt/Lc) atesta o prístino uso cristão do termo. nas cartas. 39). Mc mostra que são inseparáveis (p. 58). que estava viva nas comunidades e que se reflete no resumo de Atos 10. 56).7 e Is 61. mediante a tradição que deu tão claramente corpo ao caráter de sua missão” (p. Reuniu discípulos. Ano 44. 45). A tradição escrita herdou a relativa flexibilidade da tradição oral. mas sem que a oral parasse. A comum tradição tomou formas diferentes nas narrativas di126 Perspectiva Teológica. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . As memórias de Cristo formuladas naquele espaço “mostram como o Jesus que fez impacto durante sua missão continuava fazendo impacto sobre os que nunca o viram na carne. segundo a tradição oral que ele mesmo recebeu. o problema sinóptico (interdependência de Mateus. Por isso. usa com insistência o termo “evangelho” (Lc-At: “evangelizar”). mas — visto o caráter profundamente judaico de Paulo — se enraíza sobretudo na tradição isaiana.17-21). Na tradição sinóptica. 54). Is 52. p.1-2 (cf. Paulo. “evangelho/evangelizar” pode ter afinidade com os “noticiários” do Império Romano. 44). Lc 4. “Era na realidade uma versão escrita de uma recitação oral da tradição sobre Jesus” (p. mas falar de tradição original é arriscado (p. Para descrever o nascimento do “gênero evangelho”. O caráter oral da primeira tradição explica em parte que os sinópticos dizem a mesma coisa em palavras diferentes (p. 48-50). 125-149. 38). palavras de Jesus que não estão nos evangelhos? O espaço entre Jesus e os evangelhos escritos não é vazio.OK. depois escrita. recua à tradição: “o Evangelho antes dos evangelhos” (p. Mas unindo o relato da morte e ressurreição salvíficas com a vida do pregador galileu. pode ser considerada como um único documento? E a transição de tradição oral a escrita deu-se de uma só vez? Como aparecem.36-40 (p. Isso recorda o “evangelho salvífico” de Deus e de Jesus Cristo em Paulo. falando do “evangelho de Deus” e “de Jesus Cristo”. Mc foi definido como “relato da Paixão com extensa introdução” (Kähler). mas supõe uma exposição sobre o que Jesus disse e fez. Transformou o gênero bios (relato da vida) em “evangelho” (gospel) porque essa vida era salvadora (p. então. Número 122. Relata a missão do Filho querido de Deus. Belo Horizonte.pmd 126 23/5/2012. não reduz o “evangelho” ao perdão dos pecados pela morte de Jesus. pode-se falar de um evento originante. 53). D. “o impacto comum de Jesus foi expresso de modo diferente. cuja atuação messiânica não pode ser entendida sem inclusão de sua morte e ressurreição (p. a Quelle (Q). Era notório. Na pregação de Paulo. notadamente em Marcos.

apresenta material bastante diferente e preenche espaços deixados abertos pelos outros evangelhos. abrange um único capítulo: “Da proclamação de Jesus ao evangelho de Paulo”. 98). Ano 44. a boa-nova para os pobres. 70). 72. o alegre anúncio para os “pecadores”. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Paulo se distingue pela pregação da justificação dos “ímpios” agora (pela fé). “De Jesus a Paulo”. insistindo ainda mais que este na perspectiva da paixão e morte. é diferente mesmo. como atestam Mt e Lc. Ambos Jesus e Paulo ensinam a caridade como mandamento fulcral. 10:26 127 . “Neste contexto. A pregação de Jesus se distingue do seu ambiente em três tópicos: a reinado de Deus “presente já” no ministério de Jesus. Número 122. adaptou-o para. num momento novo. a projeta sobre o pano de fundo da tensão escatológica e da efusão do Espírito. Tanto o incipiente cristianismo quanto o judaísmo rabínico de Jâmnia se mostram atingidos por estas tendências. ordenando para este os demais. João foi mais longe. Os sinópticos estabeleceram. julga que o pensamento de Paulo corresponde ao impacto feito por Jesus durante sua pregação pública. que retomam de Mc o padrão do evangelho escrito (gospel). antes da morte e ressurreição (p. 87). a unidade entre a atividade de Jesus na Galileia e sua morte e ressurreição. A cristologia joanina. especialmente no Prólogo. Essa analogia. no Espírito como penhor e primícia. 125-149. deixam transparecer a tradição geral (oral): são “o fruto de longa meditação sobre sentenças particulares de Jesus ou sobre feições características daquilo que ele disse ou de como ele agiu” (p. Neste particular convém observar que Paulo Perspectiva Teológica. A Segunda Parte da obra. D. pela alegre notícia levado aos “pecadores” da gentilidade. revela o Espírito como a força já presente do Reino. o “já e ainda não” se manifesta na dimensão futura da justificação.vergentes do mesmo material” (p. Isso se verifica em Mt e Lc. embora não sejam elaborações de textos sinópticos. Jesus ensina a viver à luz do Reino que advém. Paulo se inspirou somente da morte e ressurreição de Jesus ou tem uma continuidade maior com ele? D. Sem por em xeque o padrão do evangelho criado por Mc. 79). pela solicitude pelos pobres. Quanto ao “padrão evangelho”. como mostra a comparação na p. a apresentação do Quarto Evangelho de Jesus exatamente em termos de revelação divina torna-se iluminadora e significativa” (p. no contexto do primeiro anúncio cristã. Embora conserve o “padrão evangelho” criado por Mc. a situa no quadro do anseio pela revelação de Deus que se percebe também no misticismo judaico no final do período do Segundo Templo. D. ao mesmo tempo que já se percebem reações contra os excessos neste sentido. D. A discussão moderna viu um contraste entre Jesus que pregava em termos próximos do judaísmo e Paulo que teria rompido com este.OK. mas no fato de o formato marcano ter-se imposto amplamente como “evangelho”. falar aos (judeus) que procuravam um conhecimento mais profundo de Deus. p. não procura a explicação no conhecimento de Mc por Jo. Os discursos joaninos.pmd 127 23/5/2012. Jo adotou o formato marcano. Embora sua matéria facilmente poderia ter originado um escrito no estilo gnóstico. Belo Horizonte. Em Paulo. Já o evangelho de João não é “o mesmo de modo diferente”.

114). ele não é um apóstata do judaísmo. embora relativize a circuncisão (vale para os judeus. o que os justifica é a fé operando na caridade. “O Evangelho: para todo o que crê”. não para os gentios). p. Pois mesmo para os que observam a lei ritual. “A Igreja: a teologia trinitária de Paulo”. mas tornou-se encarregado da missão neste sentido. Belo Horizonte. Mas. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . E coisa semelhante se diga do Espírito. A Terceira Parte aproveita a coincidência com o Ano Paulino proclamado pela Igreja Católica em 2008-2009 e é intitulada “O Paulo bimilenário”. em razão de sua missão. 131). que ecoam em Gl 1. O que era uma seita messiânica no âmbito do judaísmo do Segundo Templo. como alguns pretendem. ele não está mais “no judaísmo”. 147). extremamente consciente da exclusividade de Israel. Número 122. 115).1-6 (LXX).15-16. Esse Paulo.OK. embora profundamente sensibilizado por seu povo. “A inconfortável tensão entre o já o ainda não que Paulo mantém no processo da salvação espelha com bastante clareza do modo como Jesus mantém a tensão entre o Reinado de Deus já presente e atuante e o Reino de Deus que ainda está por vir” (p. Paulo tinha certeza de que Jesus não era o Messias. A esperança escatológica de Israel inclui o congraçamento com todos os povos. podem perder a força do Espírito que Paulo manifesta. Paulo se vê como judeu e como apóstolo de Cristo para os “fora da Lei”. Paulo. Agora assumiu que os que ele perseguia estavam certos em sua abertura para os gentios e não apenas se converteu. Embora a messianidade de Jesus não fosse razão suficiente para perseguir seus irmãos judeus em Damasco.pmd 128 23/5/2012. mas sem solução de continuidade. Sua identificação se muda. entendendo-a como uma missão (também) de Israel: a justificação ou 128 Perspectiva Teológica. 141). mas apóstolo de Israel (p. Assim como os judeus perderam possibilidades latentes de sua própria tradição fechandose a Paulo. mas também de Jesus de Nazaré” (ibid. o é também para muitos cristãos hoje. “Apóstolo ou apóstata”. que era inconfortável para seus compatriotas e para as primeiras comunidades cristãs. ele está “em Cristo”.5 e Is 49. também os cristãos. 125-149. Apóstolo de Cristo enviado aos gentios. pois o cristianismo vem do judaísmo e nele se cumpre a promessa feita a Abraão de ser bênção para todos os povos (p. “Em nenhum ponto a linha de continuidade e influencia indo de Jesus a Paulo é mais clara que no mandamento do amor” (p. Os títulos são provocadores: “Quem Paulo pensou que era?”. Geralmente se prega o Paulo eclesiastisado de Atos e das Cartas Pastorais.. Paulo não é o fundador do cristianismo. o transformou numa religião que podia abrigar os gentios do mundo greco-romano.. evitando diversidade e tensões.tem grande amor à Lei (Rm 3. inclusive. 10:26 . Ano 44. entre outros. Assim. “Sua reivindicação de um apostolado conferido diretamente por Cristo e independentemente do igreja mãe da Cristandade cria um precedente inconfortável” (p.). na linha dos textos de Jr 1. Paulo converteu-se do “zelo” farisaico. para Cristo. Paulo pode ser caracterizado como “um dos mais fiéis discípulos de Jesus — não somente do Senhor Jesus Cristo exaltado. desejando levar seu povo consigo (Rm 9—11).31!). mas o segundo fundador.

que se reúne em pequenos grupos pelas casas das cidades helenísticas. mostrase ciente de que o ecumenismo é uma caminhada difícil.5 cm. Santander: Sal Terrae. 245 pp. Ano 44. inclusive para a academia judaica). Walter: Cosechar los frutos: Aspectos básicos de la fe cristiana en el diálogo ecuménico.pmd 129 23/5/2012. o A. reanimação. justamente a amplitude dessa visão permite ver possibilidades pouco exploradas — sobretudo em relação a Paulo — para uma compreensão mais profunda e mais relevante para nossa atualidade. não dispensa de certa retórica. que é seu corpo constituído de múltiplos membros interdependentes. sua valiosa contribuição neste processo. 21. pode estar imprecisa em alguns detalhes (os exegetas da “escola de Louvaina” não concordarão plenamente com sua opinião sobre a questão sinóptica e a relação entre João e os sinópticos). Presencia Teológica. No capítulo final D. bem aplicada.. Kasper se restringe a cinco sujeitos do diálogo teológico ecumênico. a saber: católicos. antigo professor de teologia em Münster e Tübingen. Otimista quanto ao diálogo ecumênico – ele não concorda com os que se lamentam de um atual “inverno ecumênico” (p. retomada. porém. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Belo Horizonte. a “Igreja de Cristo”. nos oferece uma obra importante em prol do delicado processo de recepção dos conteúdos do diálogo teológico ecumênico pelas comunidades eclesiais de diversas tradições cristãs. ressalta o caráter trinitário da teologia paulina: a “Igreja de Deus” (terminologia inspirada pela LXX). Em seu estudo.. anglicanos e metodistas. Perspectiva Teológica. mas exigiu também as “boas obras” da fé operante na caridade. contudo. 10:26 129 .3 X 14. não mais separados por sua dependência nacional. A obra de D. reformados. D.“justiça salvadora” de Deus para todos. é empolgante. Tradução do original inglês de 2009 por José Manuel Lozano-Gotor Perona. aplica isso à compreensão individualista da justificação na Reforma protestante. luteranos. 125-149. ISBN 978-84-293-1853-1. ressalta o diálogo judaico-cristão e a dimensão ecumênica do evangelho de Paulo. com sua intenção agradecida de “colher os frutos” dos esforços. e seguir adiante nesta labuta. Número 122. que requer avaliação. 29) –.OK. Pelo contexto em que nasceu (conferências. Porém. 175. Paulo pregou “a justificação não pelas obras da Lei”. hoje presidente emérito do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. confirmada pelo Espírito e pelo dom da graça. D. Como visão muito ampla. cultural ou religiosa. Johan Konings SJ KASPER. Na mesma linha. Daí. 2010. Igrejas fundadas pelos apóstolos de Cristo e animadas e unidas pelo Espírito. Col. O Cardeal Walter Kasper. p.

bem como aquela do Deus dos cristãos como Santíssima Trindade. mas busca conjunta da verdade. o diálogo pode seguir avante. para dar frutos. Não por acaso o capítulo primeiro da obra de Walter Kasper volta-se para os fundamentos de nossa fé comum: Jesus Cristo e a Santíssima Trindade. justificação. controvérsias entre cristãos em torno às indulgências ou ao papado. convém que seja feito criteriosamente entre duas Igrejas ou comunidades eclesiais. Ademais.sendo tal diálogo articulado pelos seguintes e respectivos órgãos: o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. e o diálogo metodista-católico. os leigos se mostram mais interessados neste processo. cada Igreja deve ter em conta sua própria identidade. as Escrituras e o testemunho dos Padres da Igreja (cf. nem indiferença diante da doutrina. cap. O A. 125-149. Belo Horizonte. de 1970 até hoje. 27). 27-28). constituem a base necessária a partir da qual se pode avançar no diálogo ecumênico. Kasper chama a atenção para a nova realidade do cenário ecumênico hodierno. O livro é composto de quatro capítulos. a Comunhão Anglicana e o Conselho Metodista Mundial. de 1967 até hoje. de 1970 até hoje. e dar frutos. Número 122. Ora. há mais de quatro décadas. quando temos. a Aliança Mundial de Igrejas Reformadas.pmd 130 23/5/2012. um diálogo de amor e vida. de um diálogo espiritual” (p. na medida em que impulsionam e animam o esforço de busca da unidade visível das Igrejas cristãs em diálogo. Com efeito. são naturalmente preliminares. por parte das confissões não católicas. p. Tal opção é de considerável significado metodológico. e cap. de 1967 até hoje. ao cabo destes mais de quarenta anos de diálogo entre as confissões cristãs do Ocidente. santificação”. Uma parte final traz “algumas conclusões preliminares”. a Federação Luterana Mundial. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . 2: “Salvação. cap. trata-se. 4: “Os sacramentos do batismo e da eucaristia”. 130 Perspectiva Teológica. a confissão de Jesus Cristo como nosso Senhor e Salvador. toma como material de análise os documentos firmados a partir dos diálogos internacionais bilaterais oficiais realizados entre a Igreja católica e as Igrejas de tradição protestante no Ocidente. uma vez que “o diálogo ecumênico é um diálogo teológico na verdade e na cooperação prática. com suas respectivas delimitações temporais: o diálogo luterano-católico. em seu núcleo. pp. o diálogo reformado-católico. há pontos de convergência reconhecidos por todas elas. já que o próprio diálogo teológico ecumênico. como terreno comum. Ele constata que. Kasper não esconde as dificuldades que decorrem da falta. 1: “Os fundamentos de nossa fé comum: Jesus Cristo e a Santíssima Trindade”. o diálogo anglicano-católico. “Jesus Cristo […] é a base e a meta de todos os nossos diálogos”. Com efeito. já que o ecumenismo não é relativismo. de uma instância de referência como o Magistério vivo da Igreja católica. todavia. e a partir de determinados pontos controversos.OK. correspondentes a grandes temas do diálogo teológico ecumênico: cap. 3: “A Igreja”. Já no início de sua obra. O entusiasmo dos primeiros tempos cedeu lugar a uma atitude de sobriedade. Para se praticar o autêntico ecumenismo. Ano 44. 10:26 .

o panorama é diverso. por exemplo. 184). “existe um consenso essencial sobre a Trindade. O A. Tal controvérsia. o que ficou evidente na Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação. isto é. O segundo capítulo da obra de Kasper mostra como têm sido discutidos. 51). por parte de Lutero. merecem entrar na pauta do diálogo teológico ecumênico contemporâneo quando está em questão a salvação/justificação do homem. Kasper faz ver que as respectivas posições católica e luterana a respeito da justificação. nosso Senhor e Salvador. p. de ecumenismo básico. no diálogo ecumênico entre as Igrejas cristãs do Ocidente. que não existiam ao tempo da Reforma – como. suscitada pela Reforma. coexistir e inclusive realçar-se mutuamente” (p. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Apesar do consenso alcançado quanto à justificação. a das indulgências. o A. antes de tudo. uma vez que aponta para a realidade que une os crentes: a comum fé apostólica. família e sexualidade.OK. O A. 59). contudo. a ética pessoal em matéria de matrimônio. O terceiro capítulo – sobre a Igreja – é o mais extenso. o que sinaliza a importância dada às questões eclesiológicas no diálogo teológico ecumênico (cf.por exemplo. entre a Igreja católica e as Igrejas cristãs de tradição protestante no Ocidente. explicações e acentos podem. o fundamento e a meta última da fé cristã. teve como ponto de partida a negação. como. como se sabe. da razão de ser das indulgências. 10:26 131 . uma renovada compreensão e apreciação recíproca de nossa fé comum tal como se expressa nos símbolos de fé que compartimos” (pp. o que levou à discussão sobre o valor das boas obras para o homem alcançar a salvação/justificação. agrupa os frutos do diálogo em torno ao tema da Igreja segundo grandes Perspectiva Teológica. de tal modo que luteranos e católicos puderam alcançar o consenso básico em torno do tema da justificação. muito mais do que aquilo que nos divide. Número 122. O A. Ano 44. antes vistas como inconciliáveis. reconhecida formalmente pela Igreja católica e pela Federação Luterana Mundial mediante o Comunicado Oficial Comum de 1999. acabaram por eclipsar aquilo que é essencial à vida da comunidade cristã: confessar a Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Ademais.88 %). 52-53). por exemplo. O terreno que temos em comum pode ser uma sólida base para superarmos as divisões existentes entre nós” (p. os temas da salvação. Hoje. Este voltar-se das Igrejas e comunidades cristãs para o conteúdo dos credos da Igreja antiga (dos Apóstolos e o nicenoconstantinopolitano) – fruto do diálogo teológico ecumênico – é de vital importância. Kasper indica que. questões de antropologia teológica. inicia o capítulo com a contextualização histórica da controvérsia sobre a justificação. 125-149. e a Deus como comunhão trinitária. p. reconhece que ainda há outras questões a serem aprofundadas. Também existe consenso sobre Jesus Cristo. Aquilo que compartimos na fé é. uma vez que “diferentes linguagens. portanto. hoje podem ser harmonizadas. o Filho encarnado de Deus. e os recentes dilemas da bioética –. de fato. Belo Horizonte.pmd 131 23/5/2012. Ocupa mais da metade do livro (em torno de 53. da justificação e da santificação. conclui o primeiro capítulo com esta afirmação essencial: “O que necessitamos é. que é o núcleo.

Número 122. 97). O A. 103). na Igreja. No diálogo luterano-católico. 73). os católicos não deixam de associar a apostolicidade da Igreja a uma série de sinais visíveis. a saber: a) Perspectivas comuns sobre a natureza e a missão da Igreja. ainda que o diálogo ecumênico tenha alcançado convergências e chegado a pontos em comum. entre os quais tem lugar de destaque a sucessão apostólica dos bispos (cf. no diálogo teológico entre a Igreja católica e as Igrejas provindas da Reforma. No que concerne à natureza e à missão da Igreja. redescobriu-se que a Igreja é mistério de comunhão (koinonía) (cf. Belo Horizonte. a saber. 111). 98. 77. cuja discussão deve-se iniciar pela consideração da “autoridade primordial de Jesus Cristo”. muitas perguntas permanecem em aberto. também no diálogo entre reformados e católicos persistem visões diferentes: enquanto os reformados. Pontualmente. por outro. b) A fonte da autoridade na Igreja. acena para a questão do ministério petrino em relação aos anglicanos (cf. Já no diálogo anglicano-católico reconhece-se que há questões pendentes: se por um lado representou avanço no diálogo ecumênico o propósito de reavaliação da carta apostólica Apostolicae curae (1896). os desequilíbrios na teologia do ministério são consequência e sinal de uma teologia trinitária insuficiente” (p. p. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . e c) O ministério na Igreja. p. Ano 44. “até o momento não emergiu nenhuma concepção coerente e sistemática da Igreja” (p. A partir sobretudo da releitura da Bíblia e dos Padres da Igreja. Em todo o caso. destaca a distinção que se faz entre “a sucessão apostólica na fé” e “a sucessão apostólica como sucessão ministerial de bispos” (p. reconhece que. de modo particular os luteranos. admite que. 10:26 . p. Kasper aponta para o consenso dos interlocutores quanto às raízes trinitárias da Igreja (cf. em eclesiologia. ainda que a associação do uso da linguagem sacramental à visão da Igreja como creatura Verbi – cara aos reformadores – tenha redundado em progresso ecumênico (cf. o A. do Vaticano II – não é bem aceita pelos interlocutores dos católicos. a autoridade dos apóstolos – vale dizer. Depois. para a compreensão da sucessão apostólica – como “uma das principais causas de divisão e uma das questões mais debatidas e difíceis do diálogo ecumênico” (p. 108). 125-149. o diálogo teológico ecumênico chegou à conclusão de que. 74). em que o papa Leão XIII se pronunciou contra a validez das ordenações anglicanas.blocos temáticos. p. enfatizam a continuidade da confissão de fé e o ensinamento da doutrina do Evangelho. 113). o A. a decisão pela ordenação de 132 Perspectiva Teológica. 75). pp. o problema das indulgências como suscitador dos questionamentos de Lutero a respeito da autoridade do papa e dos concílios (cf. menciona Calvino no que respeita ao tema da sucessão episcopal (cf. “[c]om grande frequência. o conceito de Igreja como “sacramento” – enunciado pela constituição dogmática Lumen gentium. no que concerne à apostolicidade da Igreja. 77). 110).OK. Por sua vez. Tema ecumênico dos mais delicados é o da fonte da autoridade na Igreja. Em seguida. pp. p. Kasper inicia as considerações destes temas com uma nota histórica sobre a Reforma luterana. Não por acaso. Kasper aponta para a compreensão do modo segundo o qual se faz presente. 95).pmd 132 23/5/2012. p.

p. p. 139-140). mesmo “porque o próprio Novo Testamento é produto da primitiva tradição cristã” (p. 120). Em todo o caso. clássico nas controvérsias entre os reformadores e a Igreja católica. no diálogo teológico ecumênico. 151). a ser tratado desde uma nova perspectiva. O A. Belo Horizonte. nº 17). “que considera […] que Perspectiva Teológica. é tranquila a ideia de que “o ministério ordenado é um elemento essencial da Igreja” (p. a propósito. o A. 114. p. na medida em que se entende que a “Palavra de Deus” é a fonte comum de ambas (cf. Ao encerrar o tema da fonte da autoridade da Igreja. Como era de se esperar. 152). sobretudo a compreensão sacramental da Igreja e seus ministérios” (p. 115). Para o diálogo anglicano-católico. desta forma. 138). “se bem que matizada”. um documento do diálogo anglicano-católico de 1994 constata que “[n]os confrontamos com um tema que traz em si muito mais que a questão do ministério enquanto tal. merece destaque. O ponto de partida comum para a análise deste problema ecumênico é a certeza de que a missão e o ministério de Jesus Cristo prolongam-se na missão e no ministério de todo o Povo de Deus (cf.pmd 133 23/5/2012. p. Ainda no amplo contexto da interrogação sobre a fonte da autoridade na Igreja. o tema do ministério na Igreja ocupa o maior número de páginas do terceiro capítulo da obra que aqui resenhamos. No diálogo luterano-católico. Coloca profundas questões de eclesiologia e autoridade relacionadas com a Tradição” (p. O problema da articulação entre Escritura e Tradição passa. refletem tradições distintas. Ademais. Kasper conclui que “[d]estas espinhosas questões derivam problemas fundamentais. a Confessio Augustana. 125). do diálogo luteranocatólico. 125-149. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . 132). e a fixação do cânon do Novo Testamento deu-se como parte do desenvolvimento da Tradição (cf. Ano 44. até porque no princípio do século II já havia o ministério tripartido centrado no episcopado (cf. diversos como são. Grosso modo. Número 122. Relación de Malta [Malta 1972]. Os escritos neotestamentários. quando se discute o ministério na Igreja. 139). p. 150). continua pendente a questão da sucessão apostólica no ofício episcopal (cf. 116: citação do documento “El Evangelio y la Iglesia”. reconhece que o diálogo teológico ecumênico tem propiciado “uma compreensão crescentemente comum da episkopç como ministério essencial na Igreja” (p. 128). de alguns diálogos com relação aos concílios posteriores à era patrística (cf. Menciona. “no sentido de vigilância ou supervisão na Igreja” (p. “exercido ‘em nome de Cristo’ e para o serviço da Igreja” (p. o tema da relação entre Escritura e Tradição. p. p. 10:26 133 .OK. pp. 148). menciona o fato de que há abertura. livre das simplificações resultantes de discussões ácidas.mulheres para o presbiterato e para o episcopado em numerosas províncias anglicanas provocou um retrocesso na caminhada ecumênica (cf. aos poucos vai se impondo a compreensão arejada de que Escritura e Tradição não se opõem. a distinção entre “Palavra de Deus” e “Escritura” tem contribuído para a evolução de uma reta compreensão da relação entre Escritura e Tradição. 128).

como se sabe. 152). a propósito deste tema. externam aqui a dificuldade em aceitarem que ela possa ser atribuída a um indivíduo particular (cf. 10:26 . Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . 171). 171: citação do documento “Hacia una declaración sobre la Iglesia”. Ano 44. que existe um elevado grau de convergência no diálogo anglicano-católico e uma abertura inicial no diálogo luteranocatólico. p. tem grande importância a Conferência cristã. nº 59). “assim como sobre a função ou o papel que compete a este epískopos” (p. Para o diálogo anglicano-católico. assinalam. Todavia. ou ministério petrino. Que a Igreja tenha duas dimensões – a local e a universal – é algo reconhecido pelo diálogo teológico ecumênico (cf. 163). a questão da autoridade magisterial é sobremodo difícil nas conversações ecumênicas. “[P]ode-se dizer que as antigas polêmicas sobre o ministério petrino foram superadas. p. porém o pleno consenso está longe de se divisar. p. O A. “uma abertura prudente ou matizada” (p. p. “na qual os leigos. Os anglicanos não hesitam em afirmar que a indefectibilidade da Igreja – termo preferido por eles a “infalibilidade” – é 134 Perspectiva Teológica. discernem com autoridade a vontade de Deus e a verdade do Evangelho” (p. […] [A]inda resta um longo caminho a ser percorrido” (p. Os anglicanos consideram pouco útil o termo “infalibilidade” (cf. 171). p. mas que persistem hesitações nos diálogos com os reformados e com os metodistas (cf. Já “os metodistas continuam reticentes às pretensões universais e apostólicas do papado” (p. 157). E para os metodistas. No âmbito do diálogo reformado-católico. reconhecem que “a autenticidade do ensino dos bispos individuais é evidente quando este ensino é solidário com a totalidade do colégio episcopal” (p. Walter Kasper conclui. há questões ainda por resolver. 174). quanto a este problema. Questão das mais delicadas no diálogo ecumênico. “[a] Igreja local que não participa na tradição viva não pode ver-se a si mesma como autossuficiente” (p. 169). 174). neste ponto particular.um ministério de unidade e governo situado acima dos ministérios locais é essencial para a Igreja” (p. “há desacordo […] sobre quem deve ser considerado epískopos” nos diferentes níveis local. Reconhece-se que tem havido. assim como o tema do primado universal. cara à tradição católica. outrossim. com efeito. 175). Mas há também convergências. como. p. 125-149. é a do primado universal. Número 122. conjuntamente com os ministros ordenados. o que aponta para o necessário caráter eclesial da vocação cristã. regional e universal. do diálogo metodista-católico [Nairobi 1986]. 166). que “algumas das funções ordinárias realizadas pelo Bispo de Roma […] não respondem à essência de seu ministério universal” (p. aponta desiguais progressos nos quatro diálogos. 162). Belo Horizonte. Não é de se estranhar que o tema da autoridade magisterial ocupe um bom número de páginas no livro de Kasper. 161).OK.pmd 134 23/5/2012. 171). Já o diálogo metodista-católico reconhece que “não pode existir um cristianismo privado e individualista” (p. Quando se discute o tema da infalibilidade do magistério solene do Bispo de Roma. por exemplo. entre os luteranos (cf. 165).

a fidelidade de Deus a sua aliança. Aceita-se tranquilamente como ponto de convergência no diálogo anglicano-católico o que foi expresso pelo Concílio Vaticano II. juízos definitivamente vinculantes no que respeita aos conteúdos da revelação divina ou a como devam ser resolvidas as controvérsias doutrinárias” (p. Somente à luz desta afirmação fundamental podem ser entendidas as noções de “indefectibilidade” e de “infalibilidade”. 179). Número 122. tenha adquirido conotação quase que exclusivamente jurídica. Kasper enumera as diversas fases do diálogo luterano-católico respeito ao tema particular da autoridade magisterial. aplicada ao ministério do Bispo de Roma. Ora. Em todo o caso. mas a seu serviço” (DV 10). enfatiza-se que é o Espírito Santo – dom concedido a todo o Povo de Deus – quem introduz e mantém a Igreja na verdade. 178). Ademais. que “o magistério não está acima da Palavra de Deus. 179). 10:26 135 . Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . 177: citação do documento “La apostolicidad de la Iglesia”. Ano 44. p. “para os reformados […] o único infalível é.dom do Espírito Santo e está vinculada à recepção. o fato de que a noção de infalibilidade. propriamente falando. a saber. em determinadas circunstâncias. (c) e que consiste na combinação de funções construtivas e críticas na tarefa do ensino (cf. “O diálogo reformado-católico centra-se na Igreja como creatura Verbi” (p. Belo Horizonte. p. por exemplo. O diálogo metodista-católico. os luteranos explicitam que não dispõem de um ofício magisterial desempenhado “por um grupo específico de indivíduos autorizados […] para emitir juízos vinculantes e. p. que ele dificilmente seria tido como “um achado feliz” (p. por toda a Igreja (e não por um grupo ou indivíduo a ela pertencentes).OK. fato que determina a compreensão do ofício magisterial nela exercido. 178). em sintonia com os demais diálogos. 180: citação do documento “La presencia de Cristo en la Iglesia y en el mundo ”. do diálogo luteranocatólico [2006]. por meio da qual corrige e protege sua Igreja pelo Espírito até à consumação de seu reino” (p. do diálogo reformado-católico [1977]. como ocorre. dos conteúdos da Escritura e da Tradição (cf. nos sínodos. a torna “tanto mais irreconciliável com o pensamento reformado” (p. Já na quarta fase. 175). p. (b) exercido sem monopólio de pessoas e/ou grupos. A interpretação frequentemente maximalista de tal termo pelos católicos leva a concluir. 179). nº 42). Os reformados afirmam que a expressão “infalibilidade da Igreja” não é usada em sua tradição e reconhecem que é relativamente recente no vocabulário teológico católico (cf.pmd 135 23/5/2012. pode-se aqui falar de uma “diversidade reconciliada” em razão dos seguintes pontos de consenso: (a) reconhece-se a existência de um ofício magisterial em nível local e em nível supralocal. da mesma forma ressalta o lugar central da Escritura e a atuação amorosa do Perspectiva Teológica. No primeiro estágio. 125-149. os luteranos expressam algumas dificuldades quanto à tomada de decisões por autoridades eclesiásticas competentes. Na segunda fase do diálogo. em todo o caso. nº 376).

p. p. 136 Perspectiva Teológica. Kasper encerra o capítulo terceiro reconhecendo que os problemas eclesiológicos têm ocupado amplo espaço no diálogo ecumênico. Basta citar dois temas. A Lutero correspondia uma posição realista. católicos e interlocutores. mencione-se o esforço “por situar a presença real de Cristo na eucaristia no contexto do mistério pascal e do desejo de Deus de transformar toda a humanidade através dele” (p. demandam grandes e pacientes esforços. p. fato de suma importância para a aproximação ecumênica entre o Ocidente e o Oriente (cf. Por outro lado. 197. 209). bem como de algumas Igrejas anglicanas. os quatro diálogos bilaterais progridem quando os sacramentos são situados no horizonte da Igreja. No diálogo anglicano-católico. apontem-se particularmente o diálogo reformado-católico (cf. Ainda traz dificuldades a prática da Igreja católica. Número 122. a aprofundar nossa compreensão da Igreja e seus ministérios (cf. o tema da participação dos leigos no processo de discernimento sobre o que deve ser ensinado autoritativamente pela Igreja –. para os católicos. peculiar à tradição católica (cf. bem como aquela da noção de infalibilidade – e relacionada a esta. “[o]s metodistas […] também assinalam importantes problemas com a noção de infalibilidade e insistem na recepção prévia das declarações doutrinais” (p. 191). p. 212). muito deve ser ainda feito em vista da solução dos problemas eclesiológicos.OK. Quanto à eucaristia. Como se percebe. 228). A propósito disto. 125-149. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Ano 44. pp. os reformadores eram unânimes em repudiar a noção de transubstanciação.Espírito Santo no que respeita à autoridade magisterial da Igreja. Ora. 186). O quarto capítulo apresenta os frutos e as dificuldades do diálogo ecumênico no que concerne aos sacramentos do batismo e da eucaristia. os desafios que se colocam às Igrejas em diálogo hão de levar a todos nós. Resgata-se. Kasper recorda que já entre as concepções dos reformadores havia divergências respeito à presença real de Cristo no sacramento do altar. Aponta como ganho significativo. 195). p. por sua vez. p. o valor fundamental da liturgia para a vida da Igreja (cf. da adoração de Cristo na reserva sacramental. por exemplo. A questão do episcopado em sucessão apostólica. em particular. pp. desta forma. 209-210). a Zwinglio. 221). Digna de menção é a redescoberta da epiclese pelas tradições cristãs ocidentais. como algo que obscureceria a verdadeira finalidade do sacramento da eucaristia (cf. 231). uma concepção pneumatológica e atualista. também na questão da autoridade magisterial Kasper conclui que ainda há muito que fazer no diálogo ecumênico. p. Belo Horizonte. Todavia. Todavia. incomoda os católicos o fato de que. a Calvino. ela própria vista como sacramento da salvação (cf. 231).pmd 136 23/5/2012. em algumas comunidades cristãs. p. “a redescoberta de sua própria tradição do sacerdócio comum de todos os batizados” (p. 10:26 . 182). Em todo o caso. uma concepção simbólica. 220) e o metodista-católico (cf. Na verdade. seja permitida a presidência da celebração eucarística por pessoas não ordenadas (cf.

Na penúltima página de seu livro escreve Kasper: “O que obtemos com a graça de Deus nos permite confiar em que daremos novos passos positivos em nossa peregrinação ecumênica” (p. À p. por exemplo. 86: “Este es el Paráclito […] confortador”. Passemos a enumerar algumas falhas desta edição de Cosechar los frutos. À p. 217. linha 3ª. O intercâmbio de dons proporcionado por uma atmosfera de confiança. À p. Temas ainda a serem discutidos e aprofundados são a antropologia teológica. naturalmente se chega à conclusão de que é o Espírito Santo quem introduz e mantém a Igreja na verdade. 11]: “The 1948 Assembly of the WCC spoke of itself as …”). Os subtítulos de seção final são elucidativos: “Uma rica colheita”. Desta forma. é até positivo que nestes anos todos de diálogo ecumênico não tenha emergido uma concepção coerente e sistemática de Igreja (cf. e a redescoberta das raízes trinitárias da Igreja. 5) lê-se “diálogo académico”. e “Um panorama esperançoso”.OK. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Perspectiva Teológica. “Temas para continuar debatendo”. à p. 17. em si mesmos. lê-se “Las fundamentos”. Ano 44. e como tal. Sem sombra de dúvida. Ou ainda. apost. 77). Número 122. a sugerir que o diálogo ecumênico entre as tradições cristãs do Ocidente deve prosseguir. não há como não se chegar a Jesus Cristo. a natureza sacramental da Igreja e os ministérios. pelo simples fato de que nunca será possível “definir” a Igreja. obviamente. ARCIC Autoridad I Aclaración = La autoridad en la Iglesia I: Aclaración. belos frutos do diálogo ecumênico. um dos grandes frutos do diálogo teológico ecumênico é o resgate da concepção tradicional de que a Igreja é mistério. quando se pensa em sua dimensão escatológica. À p. reconhece-se que ela é exercida em nome de Jesus Cristo. inserida no conjunto do mistério da salvação. p. uma maneira nova de se entender a relação entre Escritura e Tradição. p. quando o correto seria.Kasper conclui a sua obra apresentando algumas “conclusões preliminares”. Quando se discute. linha 7ª. Quando se aborda o tema da episkopç. 10:26 137 . a tradução correta seria “La asamblea del CEI de 1948 se definió a si misma como …” (cf. À p. leia-se “una marcada conciencia”. “diálogo ecuménico”.pmd 137 23/5/2012. Leia-se. Já na folha de rosto (p. quando deveria ser “Los fundamentos”. leia-se “evocación mental”. ou seja. Não por acaso. 244). quando se fala da “indefectibilidade” – ou da “infalibilidade” – da Igreja. No título à p. a Igreja sempre se reconhece em peregrinação rumo à Casa do Pai. o original inglês [p. leia-se Trad. 31. constituem fatos que são. faltaram os dois-pontos como sinal de pontuação para indicar que os documentos em questão trazem explicações sobre temas anteriormente tratados. o tema da autoridade. os temas de alguns documentos do diálogo anglicano-católico (ARCIC) deveriam ser assim indicados: ARCIC Eucaristía Aclaración = Doctrina sobre la eucaristía: Aclaración. 33. 125-149. autoridade primordial na Igreja. Significativa aqui é a convicção de que a Igreja se alimenta de suas raízes trinitárias. Belo Horizonte. 148. 163. ARCIC Ministerio Aclaración = Ministerio y ordenación: Aclaración. linha 4ª de baixo para cima.

o Novo Testamento e o Alcorão. EUA. F. Volume II: As palavras e a vontade de Deus. o enfoque desloca-se para as Escrituras dos três livros sagrados: a Bíblia (termo que o A. Esses estudos trouxeram perplexidades para os fiéis das respectivas religiões. leciona na Universidade de Nova York.OK. é um livro de grande valor. Religiões e Estudos do Oriente Médio. Ambos os volumes se articulam. sob certo sentido. E. Belo Horizonte. Número 122. F. Trata-se de três “religiões do Livro”. a evolução no tempo nas suas semelhanças e diferenças. a revelar o otimismo do autor em relação ao movimento ecumênico. como Palavra de Deus. cristão e muçulmano. discute a questão da autoria dos livros. ISBN 978-85-7244-399-9. São Paulo: Contexto. São Paulo: Contexto.Cosechar los frutos. 2008. Mantêm autonomia no nível da compreensão. Ano 44. No presente volume II. menos expressiva para os cristãos que para os outros dois grupos religiosos. usa para o Antigo Testamento). a evolução das idéias. p. as liturgias tanto no nível das crenças populares como no das devoções oficiais. 10:26 . mostrou-lhes as raízes comuns. do estudo crítico escriturístico do texto em si e de sua composição. escrita por quem. há de ajudar os estudiosos e pesquisadores deste campo específico a amadurecem a visão dos delicados problemas concernentes à unidade da una e única Igreja de Cristo. 23 X 15. E. cristãos e muçulmanos em conflito e competição.. Aqui apresentamos o 2º volume. O presente volume compara os povos. Detendo-se diretamente sobre a Bíblia. 469 pp. Estuda cada livro à parte na sua especificidade com rápido toque sobre a sacralidade da própria língua. especializando-se nas crenças monoteístas. cristão e muçulmano – na perspectiva da história dos respectivos povos e comunidades [Peters. os cultos. entendidos. e que como tal contribuirá na animação do mesmo. do cardeal Walter Kasper. O 1º volume trabalha a mesma trilogia – judeu. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . O caráter de obra séria. Paulo César Barros SJ PETERS. Clasen. das verdades especialmente religiosas e das instituições.. O A. ex officio. trabalha as grandes questões ecumênicas. a compreensão de revelação subjacente aos três momentos da co138 Perspectiva Teológica. O A.pmd 138 23/5/2012. cristãos e muçulmanos: os povos de Deus. 125-149. rico de conteúdo. Tradução do original inglês de 2008 por Jaime A. as festas. as crenças. Mereceu certa referência o fato da necessidade de traduções. precisamente História. situa os três livros no tempo e no espaço da religião do correspondente povo judeu. Os monoteístas: judeus. mas não se exigem mutuamente para a intelecção.8 cm. o seu desenvolvimento. O A. 2007] .: Os monoteístas: Judeus.

Mostra que via neles prenúncios da nova aliança. prolongando-lhe a compreensão e as suas diversas expressões. da visão de Maimônides respeito a Torá. Significa também a soma de costumes. p. Começa com a polarização entre puro e impuro para a lei judaica. Nas décadas que se seguiram à volta do exílio ocorreram processos exegéticos entre os judeus com midrash e midrash hagádico. Detém-se depois o A.municação oral de Deus (a mensagem). Todo um capítulo trata da relação entre Escritura e Tradição. recorrendo aos escritos da comunidade de Qumran. O problema da tradição afeta as três comunidades como instrumento para prolongarem a própria revelação além dos livros sagrados. Ano 44. Autores cristãos continuam o processo exegético até os dias de hoje com enormes avanços. rituais. abordando as questões do judaísmo pós-exílico. a interpolação e anulação de palavras por outras corretivas e o sentido de canonização-clausura do texto. Isso não acontecia sem dificuldades graves. O segundo capítulo avança oferecendo elementos para compreender a Palavra de Deus. Explica como a questão da inspiração se colocou para os cristãos. Tema assaz amplo. A própria Bíblia interpreta a si mesma de dentro. desde práticas concretas. Número 122. texto e cânone. O Novo Testamento pratica também uma exegese a partir dele a respeito de textos da Bíblia. tanto nos grupos que defendem tradições rígidas até em outros que as flexibilizam. A exegese escriturística visa a que o texto torne inteligível e o que ele diz à comunidade dos fieis. trata dos clássicos pontos da sua noção. 10:26 139 . o A. Escribas introduziram acréscimos elucidativos ou eliminaram textos. da relevância dos rabis depois da destruição do Templo. Percorre-se longo trajeto em que se estuda o processo de interpretação dos textos. 125-149. Termina o capítulo debruçando-se sobre o Alcorão: sua organização. compilação. A lei de Deus e sua observação alimenta o quarto capítulo. no campo exegético do mundo islâmico respeito à complexidade da relação entre Bíblia e Alcorão.OK. das ambigüidades do Alcorão e de outras questões afins. instituições que constituem a identidade do grupo. leis. do Mishná. Refere-se também à questão da sola scriptura luterana em tensão com a posição católica de valorizar a Tradição. Pontualiza momentos da tradição legal judaica. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . a língua na grafia e pronúncia. Belo Horizonte. O A. edição. Acena para o problema da inerrância da Escritura que parece conter contradições. composição. persegue a sina dessa realidade nas três tradições religiosas. Sob o termo tradição. conselhos dotados de autoridade ou orientações exemplares até ação costumeira. cabem muitas coisas. Sobre o Novo Testamento. o pronunciamento público desta e a sua redação escrita com as respectivas autenticações.pmd 139 23/5/2012. Perspectiva Teológica. Entra em jogo a compreensão da maneira como Deus revela a si e a seu desígnio salvífico e como os livros se tornavam obras celestes intocáveis. dos Talmudes.

Delineia-se com o xaria verdadeiro caminho de vida para o muçulmano. sem faltar os espinhosos problemas da relação natureza e graça. às imagens. do perdão. passando pelo pensamento medieval no encontro com Aristóteles na Escolástica depois da fase platônica até a crise da Reforma. o jejum e a peregrinação. predestinação no Islã e outros aspectos dessa moral. Avança para dentro da teologia e das profissões de fé de Niceia a Calcedônia do lado cristão. a lei xiita. na expressão inquisitória.OK. da justificação. Desenvolve a doutrina sobre Deus elaborada pelos muçulmanos no encontro com o pensamento grego. desde os aspectos sacrificais até as devoções populares aos santos. Enfim. Ano 44. desce a aspectos da vida judicial islâmica: a administração da lei. da temática da salvação eterna e a vontade absoluta de Deus.Um conjunto de parágrafos se concentra na Lei para Jesus. do de auxiliis e semelhantes. do pecado. começando com o mundo grego no corte entre mito e logos. da predestinação. uma série de elementos da cultura jurídica e acadêmica islâmica. as escolas de interpretação legal. no Cristianismo com os santos e no Islamismo na corrente mística do sufismo. O A. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . das indulgências. Pontos muitos interessantes são tratados a respeito do mal. do purgatório. do diabólico. a catequese e o catecismo. o A. as figuras de Pascal e Afonso de Liguori merecem atenção. Outro bloco de considerações se orienta para o campo dos mandamentos de Deus e da moral humana. de suas colunas religiosas: a profissão de fé.pmd 140 23/5/2012. Belo Horizonte. a sua aplicação da justiça. 125-149. os juízes. Número 122. considera a questão da penitência. do sistema sacramental. do maniqueísmo. do confronto entre Santo Agostinho e Pelágio. de São Paulo. a lei do sultão. 10:26 . a codificação por parte da Igreja. A espiritualidade desempenha papel importante no ascetismo judeu. seu significado. a lei costumeira e governo no Islã. na elaboração dos próprios credos. O capítulo 6º gira em torno do culto divino nas três religiões. os pronunciamentos legais. para os cristãos. nas elaborações filosóficas da kalam. A crise da moral católica. A parte teológica trabalha o pensamento sobre Deus. na reação da ortodoxia conservadora. 140 Perspectiva Teológica. a Jihad. o dízimoesmola. O próximos capítulos aprofundam as questões litúrgicas e teológicas. dos diversos ensinamentos morais de Jesus. a oração. na Escola de Isfahan e sob outros aspectos mais. Prosseguindo a reflexão. na pena dos seus teólogos. Procedimento semelhante acontece com o Islamismo a propósito de seu catecismo. suas fontes. a teologia de Filo de Alexandria e a tensão entre Atenas e Jerusalém. mas na sua adaptação cristã. os ulamas. p. E esse capítulo fecha com a moral muçulmana. o encerramento das interpretações da lei. os intérpretes da lei. Traça o itinerário muçulmano que entra em contacto com a teologia não na sua forma grega. o jansenismo. a figura importante de Graciano. os primórdios do direito canônico ocidental.

Maimônides. a morte. À guisa de conclusão. a fidelidade ao Espírito. da singular figura de Joaquim de Fiore. do habad. desde o vale de Josafá para ao juízo final até o mapa do inferno e do paraíso. desde os começos. o que vem depois dela. teológicas e místicas dessas três grandes religiões do livro. o sionismo religioso e político têm toques escatológicos. S. o A. CumPerspectiva Teológica. os funerais muçulmanos. 10:26 141 . o exemplo espiritual de Maomé. tão rico nas três religiões. A figura dos anjos ocupa lugar de relevância. 125-149. sobressaindo a visão de Dante na Divina Comédia. temos os santos do deserto e na cidade. a volta de um salvador e o mahdi. dedica um capítulo a esse setor. a Montanha Santa). as regras de vida religiosa (S. O estudo pretendeu mostrar como na história se relacionaram as três religiões nas semelhanças e oposições. do quiliasmo. Belo Horizonte. No judaísmo. conheceu a tendência mística. clérigos regulares. expressões gnósticas. os Exercícios Espirituais de Santo Inácio mereceram consideração. no capítulo 10. Unem-se pela fé num único Deus que interveio na história e se vinculam a uma Escritura sagrada. O hesicasmo. Desfilam ante nossos olhos as realidades últimas: final dos tempos com traços apocalípticos.OK. Trata-se do ponto alto do caminho espiritual. Por sua vez. A visão de Deus desperta a reflexão teológica. os alumbrados. busca do Paraíso. frades mendicantes e pregadores. a intercessão no Islã. No Cristianismo. Todos se dizem filhos de Abraão. o Cristianismo. Ano 44. a Companhia de Jesus. o ascetismo muçulmano. sociais. Os textos religiosos criaram verdadeira cosmologia do outro mundo. os conventos e as ordens sufis. ele trata das fraternidades judaicas na Galileia. trata da escatologia realizada. nas realidades escatológicas. No cristianismo. termina o capítulo. os sufis no serviço do Islã.O A. No mundo judaico. do apocalipse cristão. dos hassidistas. o quietismo. Voltando de novo ao Cristianismo. Retoma elementos do capítulo anterior. a ressurreição ocupa lugar central. o eschaton alcorânico. IV). ampliando-o. Há algo nessa trajetória de “briga de família”. O A. a ressurreição do corpo. ''o juízo. o A. religiosas. p. Mas quem merece ser o “verdadeiro filho”? Aí está a disputa. Número 122. do milenarismo. o fecha a reflexão apontando para a relevância estatística dessas três religiões que somam mais de 3 bilhões de pessoas. alongando-se na mística islâmica. Entre elas há desconhecimento ou até rivalidade. No mundo islâmico. cistercienses. o Livro da Criação (séc.pmd 141 23/5/2012. Ainda no campo diretamente ligado à espiritualidade. Ele mergulha. Entram em questão a seita de Qumran. cartuxos. embora filhas do mesmo pai Abraão. Focaliza principalmente a busca da realização aqui na terra de uma experiência imediata de Deus. Basílio. Bento. os illuminati. viagens celestes. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . a exegese mística do Cântico dos Cânticos. Conclui com a escatologia islâmica: a figura de Abraão intercessor. O livro serve de manancial inesgotável de informações culturais. fundada na vida de Jesus e em textos bíblicos paulinos. aprofunda o campo da mística. ordens militares.

cristianismo e islamismo. 2010. com argúcia e bom nível de informação. O narcisismo genuíno. Ano 44. Em geral. p.pmd 142 23/5/2012. sem mergulhar em profundidades de análise da realidade presente. Merece boa visita! João Batista Libanio SJ URIARTE. é ne142 Perspectiva Teológica. José Mª: Ser sacerdote en la cultura actual. a Companhia de Jesus de Sociedade de Jesus e outros pequenos senões literários. Santander: Sal Terrae. 127 pp. Analisa-o sob a dupla face positiva e negativa.. sem dar valor de precedência. O tema central versa sobre a influência no ministério e na pessoa do sacerdote das mudanças culturais da atual sociedade. 21 X 14 cm. o A. 27-29 de maio de 2009) como contribuição para o Ano Sacerdotal convocado por Bento XVI. O leitor encontra-se em face de obra de peso que juntamente com o primeiro volume forma belo edifício de conhecimentos das três religiões. Servidores y testigos. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Alguns termos não foram bem traduzidos ou não bem empregados pelo A. proferida por Mons. O pressuposto teórico da reflexão se impõe: o sacerdote vive imerso em determinada cultura cujos problemas lhe afetam a vida. os traços principais da sociedade atual. se intitula: Ser presbíteros no seio de nossa cultura. O conferencista elenca sete características básicas da cultura atual. garantido pela erudição e seriedade do trabalho. O livro contém três conferências pronunciadas nas Jornadas Nacionais de Delegados para o Clero (Madri. 10:26 . ele a segue. chamado de primário. Belo Horizonte. Em estilo simples. Ángel / FERNÁNDEZ-MARTOS. Em momento seguinte analisa o impacto que eles causam sobre a vida presbiteral. 118. chamar a Escolástica de escolasticismo. o livro teria ganhado em clareza e didática.. O narcisismo constitui o primeiro aspecto. 125-149. Juan María / CORDOVILLA. descreve-nos.pre função enciclopédica e presta serviço para esclarecimento em inúmeras questões. o ministério e aos quais responde de diferentes maneiras. ISBN 978-84-293-1845-6.OK. tais como. se o tratamento da temática seguisse rigorosamente a sucessão das três religiões: judaísmo. Número 122. Uriarte. A primeira conferência. Col. presidente da Conferência Episcopal Espanhola e bispo de São Sebastião. numa ordem descritiva aleatória. mas no texto passa de uma para a outra e volta à anterior. a mística de misticismo. Em relação à estrutura interna.

Um segundo aspecto. E o sacerdote? Também ele se vê bombardeado pela sede consumista. O termo liberação indica a positividade de superar uma cultura da repressão. E o sacerdote vê-se confrontado na vida de celibatário com tal onda envolvente como desafio sério e constante. Madri. perde o vigor e a força para abrir-se ao outro. Valoriza-se a pessoa humana na sua originalidade. sofre do mesmo dilaceramento. de desconfiança generalizada. ao promover-se a liberação sexual. humanizando-os. Nesse contexto. E a cultura atual dificultalhe consolidá-la por causa de fatores familiares desagregadores. Então degenera e gera pessoas mendigas de amor. porém.pmd 143 23/5/2012. Ela persegue o sacerdote pela via da ansiedade. de apreço. Como viver a simplicidade evangélica nesse meio? O ser humano carece de uma confiança básica. Mas depende de que maneira e à custa de que se saciam os desejos. Para captá-los parte da identidade do sacerdócio. Enfim. parecido com o anterior. sem fidelidade a outra realidade que não ao próprio eu.OK. Um terceiro traço afeta a vida sexual. de elogio. O conferencista assinala um quarto traço: o enfraquecimento do sentido de pertença. No entanto. Vai-se de A a Z. A sociedade atual acentua esse narcisismo secundário. ele se torna amor narcísico. Nada mais justo. Mas exagera quando se degrada em individualismo sem perspectiva comunitária. Quando. voltado intensamente para si mesmo. Analisa os dilaceramentos que afetam o habitante da modernidade e por conseguinte também o sacerdote. De uma sociedade gregária caminha-se para o descompromisso com as instituições. por definição. o sacerdote é dilacerado pelos dois lados: valorizar-se a si para abrirse ao ministério ou fechar-se num mundo centrado nele mesmo. da insegurança existencial ou por afã doentio de hiperresponsabilidade. metido em tal movimento. E o presbítero carece da experiência profunda de Deus para viver a própria vocação. Tudo gira em torno da satisfação dos próprios desejos. Belo Horizonte. Número 122. p. que dissolve os vínculos de solidariedade. Associa-se a tal sofreguidão o consumismo que açula os desejos até o extremo. Palavra mágica de nossa cultura. privilegia a individualidade. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . E o sacerdote. Então sofre o dilacerante problema de crescente busca de autonomia. professor na Pontifícia Universidade de Comillas. sem perder os laços de pertença e representatividade eclesial. 10:26 143 . caminha-se para uma sexualização generalizada. Um quinto ponto fundamental se refere ao desejo. 125-149. E o sacerdote. Ano 44. vive-se numa cultura que põe Deus à margem. recebe a ordenação presbiteral como inserção ministerial na Igreja. recorrendo ao Concílio Vaticano II – Perspectiva Teológica.cessário para estruturar um eu sólido com autoestima capaz de regular os impulsos eróticos e agressivos. elabora uma reflexão antropológica tendo em vista o homem e a mulher modernos. Angel Cordovilla. de admiração acrítica.

insuperável. no amadurecer a intimidade e na espiritualidade da comunhão. No fundo. Elas se resumem em três relações: corpo e espírito. discernindo nele os aspectos posi144 Perspectiva Teológica. vive-se nele verdadeiro drama. Postos esses pressupostos. 10:26 .Presbyterorum ordinis – e à epístola aos hebreus.pmd 144 23/5/2012. levado por uma saída de si apaixonada. do narcisismo. Na leitura da Gaudium et spes. Belo Horizonte. enquanto cabe ao sacerdote responder a tal desafio acentuando o espírito. a caça se trava em face da superficialidade. Essa identidade se confronta com o mundo moderno. o comunitário e Deus. Cabe-nos amá-lo. jesuíta. Estabelece-se novo ritmo dessa tensão a partir da pessoa de Cristo. Numa terceira tese. Ano 44. o A. E onde buscar a estratégia: no adentramento de si mesmo. José Maria Fernández-Martos. Fora desse duplo mergulho e dessa ida aos outros. do indivíduo e do mundo. as raposas se postam nos extremos de prescindir dele ou só criticá-lo. do individualismo. tal situação se faz campo de evangelização para o sacerdote. de forma especial. Em relação ao mundo. por causa de proximidades culturais. Com efeito. radicaliza-as. não dramatizável. Cristo não anula as tensões inerentes ao ser humano. O A. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Toca-nos vivêlas na cultura atual que acentua o polo do corpo. visa ao contexto da Espanha. o subjetivismo que se derrotam pelo esmero na fidelidade. O judeu como jogo entre graça e pecado. ao assumi-las. O grego a viu como destino. psicólogo e terapeuta. O sacerdote está jogado aí dentro com o desafio de vivê-la como graça. indivíduo e comunidade.OK. O homem moderno como conquista e o pós-moderno como algo conatural. apresenta a situação atual com a comparação da caça às raposas culturais nos três campos do eu. Aí se trata do sacerdote na concepção do Novo Testamento. mas sim. mundo e Deus. analisa tensões que vive todo ser humano e. onde o ser humano vive esse dilaceramento. Existem outras como o relativismo. No mundo do eu. integra-as em sua pessoa e leva-as à consumação. 125-149. Clássicas tensões que se configuram diferentemente em cada momento da história. do mundo e de Deus. mas as reflexões falam também a outras situações geográficas. estão em questão dois polos: a liberdade humana e as imposições de fora. E numa quarta tese. elabora uma primeira tese: o dilaceramento antropológico que o sacerdote experimenta em sua vida pode ser compreendido como um lugar privilegiado da realização do homem e da revelação divina. fatalidade. do mistério de Deus e no misturar-se com os demais. Número 122. Enfim. p. a história concreta. não “caçamos essas raposas” do mundo do eu. é. o sacerdote experimental real dilaceramento. constatamos que ao viver no mundo e na cultura atual e ao querer ser fiel a seu ser e missão ministerial. o sacerdote. em certa medida. Para tanto oferece estratégias.

OK. Romero: Les exigences historiques du Salut-Libération. CARRIER conjuga série de qualidades e circunstâncias que lhe permitiram escrever obra tão significativa sobre o Mons. n. Superamo-las pela contemplação e cuidado. 271-274]. Romero. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . indiferentismo enquanto que as caçamos pondo a Deus na sua real situação de meu Senhor. com inserção profunda no contexto salvadorenho e com a distância de ser de outro país e língua. E na Eucaristia. Destinée d’un homme. que oferece elementos para uma reflexão tanto de sacerdotes. E em face da cultura de informação com gigantesca avalanche de palavras. Yves: Le discours homilétique de Mgr. pela justiça que sana as feridas. Fez longos estágios em El Salvador tomando contacto com a realidade em que viveu Mons. 117. sabemos que sem pedir a Deus tal graça. fiz recensão do mesmo [CARRIER. bem escrito. L’histoire à vif. ISBN 978-2-204-09165-7. imagens sugestivas. doutorou-se na Université de Laval. Paris: L´Harmattan. Belo Horizonte. Número 122. 346 pp. com toques literários. Pude apreciar o trabalho e ouvir os elogios dos professores. p. E finalmente. a estratégia de resposta consiste em apropriar-se do Livro Sagrado e em anunciar a sua mensagem com entusiasmo.5 cm. Aí temos um livro. Romero. João Batista Libanio SJ CARRIER.5 X 13. Paris: Du Cerf. Com a experiência latinoamericana. ao participar da banca examinadora. Ano 44. com toques filosóficos e psicológicos. 2003 in Perspectiva Teológica 42 (2010).pmd 145 23/5/2012. Oscar A. Yves: Mgr Oscar A. 125-149. Perspectiva Teológica. o sacerdote não caça as raposas do momento atual. Québec. acadêmico. Romero: Histoire d’un peuple. conseguiu conhecimento e equilíbrio para estudar a vida tão rica e questionadora do arcebispo de San Salvador. as raposas têm o nome de ateísmo. como de leigos sobre o desafio que a situação atual levanta à fé cristã. Esteve como aluno extraordinário da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte onde frequentou cursos em vista do doutorado que fazia no Canadá. Nada de sofisticado. p. Romero. fazendo-nos homens de oração e construindo-nos uma ermida para o silêncio. Antes de tudo. Enfim. 10:26 145 .. Mais tarde publicada em livro. 21. Antes pastoral. simples.tivos em contraste com os negativos. E também atacam-nos as atitudes de explorá-lo ou consumi-lo. 2010. respeito a Deus. pela pobreza e consumo responsável. deparamos com a Palavra feita sacramento. Romero. com o estudo pormenorizado das homilias de Mons. com tese sobre as homilias de Mons. Col.

Romero e de tantos homens e mulheres que deram a vida na luta por sua dignidade. CARRIER consagra as primeiras 80 páginas a introduzir o leitor no mundo de El Salvador. no coração do conflito social e eclesial que viveu Mons. O segundo. E o terceiro.O prefácio merece relevo. vale ter uma ideia do processo histórico do país. Há nessa vida e nesse povo lição para a consciência universal. persegue a trajetória do profeta convertido aos pobres até a entrega de sua vida no martírio. praticada pela oligarquia crioula que 146 Perspectiva Teológica. A época colonial inicia o processo de confiscação da identidade do povo e da destruição de seu mundo. renomado sociólogo. Para entender esse breve lapso de tempo. superando o medo e o fatalismo. A atividade conflituosa de profeta e mártir aconteceu no curto período de arcebispo de San Salvador (1977-1980) depois do assassinato do jesuíta Pe. 10:26 . Ano 44. em breves páginas. apresenta-nos a primeira face do arcebispo. na condição de bispo da Igreja católica e na terrível realidade repressiva de brutal regime militar. como Bartolomeu de las Casas. Ele envolve a vida de Mons. gerando fatalismo e morte simbólica e física dos índios. Síntese única e heróica.pmd 146 23/5/2012. 125-149. A colonização rouba-lhes o presente e proíbe-lhes o futuro com seqüelas profundas e indeléveis. Este fato provocou-lhe profunda conversão. E dentro dela acontece o destino trágico e grandioso de Mons. Escrito por F. À invasão seguiu-se a exploração agrícola com conseqüente submetimento do índio e escravidão do negro. Menciona rapidamente a presença intelectual dos jesuítas e a catástrofe que significou sua expulsão na segunda metade do séc. Este divide-se em três partes bem distintas e de tamanho diverso. A independência decorre diretamente da decadência do poder da Espanha na Europa no início do século XIX. Cobria tal empreendimento o manto civilizatório religioso de que a Igreja católica foi o principal instrumento com raras vozes proféticas de protesto. O subtítulo do livro revela bem a intenção fundamental dessa obra de retratar a vida de um povo que luta por sua existência em confronto com oligarquia opressora. Romero na história do seu povo. cultura e religião pela invasão colonialista da espada e da cruz que se impuseram pelo medo. mas vive intensa espiritualidade na tríplice condição de fiel seguidor de Jesus na radical opção pelos pobres. profundo conhecedor da América Latina. Romero e oferece excelente prisma de leitura do livro. situa o leitor. Belo Horizonte. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . Não flutua em certa universalidade que caberia em qualquer lugar numa santidade monacal. Romero não se entende fora do contexto atribulado de seu país. imersa em mundo de tanta injustiça. O primeiro capítulo situa o leitor no contexto salvadorenho. p. XVIII. homem conservador e desejado pela burguesia como seu arcebispo. Houtart. sustentada por violenta repressão militar. exigindo submissão. A vida de Mons. bem pequenino. Rutilio Grande (12/03/1977). Para captá-la. o mais amplo.OK. Número 122.

Influencia tal situação uma intelligentsia de esquerda. universidade dirigida pelos jesuítas e o surgimento das comunidades eclesiais de base. Não se pode esquecer o papel do Partido Democrata Cristão. sobretudo a Central. ligado ideologicamente à Igreja católica que não deixou de servir de instrumento para interesses oligárquicos. eles se julgam no direito de invadir o território em questão e impor sua lei. A América. 125-149. que consolidam o poder hegemônico explorador do povo. No correr de 25 anos. No século XX. Romero. como Mons. Ano 44. Aprofundando a análise da realidade social. descreve os subterrâneos da façanha da independência do país. culturais e militares peculiares de El Salvador. As oligarquias locais tiravam proveito de tais intervenções. surtos revolucionários armados com membros de ideal cristão influenciado pelo Concílio Vaticano II e Medellín (1968). Qualquer exercício realmente democrático se torna ameaçador e perigoso. Os EUA desenvolveram verdadeira política internacional militarista sob o pretexto da “Aliança para o Progresso”. na Exortação apostólica de Paulo VI Perspectiva Teológica. Não se cria nenhuma identidade própria do povo. entrava o segundo ator social: os militares locais mancomunados e doutrinados pela Ideologia da Segurança Nacional. O A. presente na UCA. em Medellín. as insurreições e os processos econômicos. Romero denunciou. os novos impérios dominadores. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . interregnos liberais. agora pertence a eles. Implantam-se a lógica da dominação e a organização do trabalho para o mercado exportador.OK. o neocolonialismo se reforça pela substituição da GrãBretanha pelos EUA. Para tal estavam as forças armadas americanas de prontidão com a colaboração da CIA e da Escola (militar) das Américas no Panamá. mas introjetam-se as estruturas de dominação e submissão. como grandes fazendas para alimentar outros à própria custa. eles intervieram no Caribe e na América Central 35 vezes por perceberem os investimentos americanos em perigo. Para entender essa situação de Igreja. A Igreja progressista do pós-Vaticano caiu sob sua suspeita e perseguição. Belo Horizonte. políticos. p. CARRIER descreve os três principais atores sociais a partir de 1960 que configurarão mais de perto o contexto político da vida de Mons. organizações de massa. traça excelente síntese da trajetória da Igreja católica desde João XXIII no referente à opção preferencial pelos pobres.perpetua a dominação sobre os índios e a grande massa de mestiços. Número 122. o A. Aí estão os americanos a controlar qualquer despertar da ideologia marxista em territórios sob sua hegemonia no quadro da guerra fria. Aí acontecem diversos fluxos e refluxos democráticos e autoritários. 10:26 147 . na Encíclica de Paulo VI Populorum progressio (1967). Romero. No final desse período temos um punhado de famílias (catorze) crioulas que gozam de importantes benefícios. Esses matarão a Mons. Por qualquer razão que fira os interesses americanos. E por fim situa-se a sociedade civil. imperialistas e militares. com ditaduras militares. A seu serviço. apoiado em intensa repressão militar. Conhecemos melhor esse percurso que encontra os pontos referenciais no Concílio Vaticano II.pmd 147 23/5/2012.

distanciando-se de irmãos seus no episcopado. Mostrou reservas. a situação social do país inquieta-lhe a consciência até consumar seu lento despertar para nova fase marcada pelo já citado fato do assassinato do jesuíta Rutilio Grande. de cujos membros se torna muito próximo. Seria longo percorrermos nessa breve recensão essa trajetória. vem o affaire de Aguilares. No entanto.OK. mas intensos e de enorme riqueza. 125-149. alimenta-se da espiritualidade inaciana na fidelidade à prática anual dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. a respeito da teologia da libertação que alimentava a Igreja dos pobres. organizador da Legião de Maria. O livro se expande na terceira parte ao tratar do papel de arcebispo de San Salvador entre os anos de 1977 e 1980. Em Puebla já aparece a tensão que atravessa a Igreja. se deve a seu caráter conservador e de defensor da ordem estabelecida com assentimento dos dirigentes da sociedade salvadorenha. Participa de Puebla. ele se transforma no peregrino que caminha com seu povo. EUA. Chama o Opus Dei de “mina de riqueza para a Igreja”. Romero. Seguem-se entreveros com as forças de repressão de El Salvador. A nomeação de Mons. recebe o título de Doctor honoris causa da Universidade de Georgetown. CARRIER o apresenta na fase anterior de um homem de formação piedosa e tradicional. CARRIER estuda esse período. de Santa Teresa. Rutilio Grande desempenha papel pastoral de conscientização e de organização popular até ser assassinado. onde o Pe. ao texto de Medellín. Eles simbolizam momentos fundamentais da constituição da Igreja dos pobres. o Corpo de Cristo na História onde reafirma a opção pelos pobres e suas consequências. especialmente nos aspectos sociais. Número 122. p. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . de São João da Cruz. onde vive a tensão existente no epis148 Perspectiva Teológica. Os itens abordados por CARRIER já nos apontam as balizas de tal percurso. como arcebispo de San Salvador.pmd 148 23/5/2012. Sofre pressões dos EUA para não se opor ao regime salvadorenho. de Santo Agostinho. Devoto de Nossa Senhora da Paz. Fato decisivo na vida de Mons. Investe nas organizações populares políticas. em testemunhos dos que o acompanharam de perto. publica a segunda carta pastoral: A Igreja. pessoa de caridade insuperável. dos Cavaleiros de Cristo-Rei. Fica o sabor de curiosidade para o leitor. Três anos. de outro lado. Em seguida. Romero aderiu depois de sua conversão. Daí em diante. sobretudo o episcopado latinoamericano. Romero. Sua prática pastoral ultrapassa o território de seu próprio país. como bispo. Mas antes de mostrar esse personagem profético e libertador. e. Ano 44. Belo Horizonte. 10:26 . já bem conhecida entre nós. Assim começa o ministério arquiepiscopal. de sacerdote zeloso e bom orador. A esta Mons. do seu discurso em Louvaina em fevereiro de 1980. de Marmion. como já disse mais de uma vez. de um lado. baseado na leitura de suas 4 cartas pastorais. O começo foi difícil. Em 1977.Evangelii nuntiandi (1975) e em Puebla. unida com a obediência no estilo Opus Dei. Verdadeira conversão como obra do Espírito Santo.

sobretudo nesse momento de pós-modernidade líquida.OK.copado em relação à teologia da libertação e à opção pelos pobres. Cresce a crise do país. estamos diante de obra que merece ser lida. Romero verdadeira interpelação para prosseguir o testemunho profético no campo social. desaba verdadeira tormenta sobre ele até o desenlace final. 10:26 149 . João Batista Libanio SJ Perspectiva Teológica. 125-149. Realmente. Ano 44. Já me referi ao excelente estudo de CARRIER sobre elas. Número 122. Belo Horizonte. Nesse tempo. p. ele ocupava o cenário religioso do país com suas longas e aplaudidas homilias. Este livro vem muito a propósito por bater em tecla de suma importância. cujo som se esvai no horizonte de outros interesses.pmd 149 23/5/2012. Romero: “[Ele] permanece um personagem perturbador para o mundo contemporâneo porque ilumina as lacunas das pessoas e as faltas imperdoáveis de um sistema desigual que sacrifica vidas humanas para manter-se”. No epílogo CARRIER resume muito bem a relevância de Mons. não se prendendo simplesmente à questão do neopentecostalismo e da moralidade sexual. Soa profética sua frase: ressuscitarei no povo salvadorenho. A hierarquia Igreja católica da América Latina encontra em Mons. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .

Propõe também o que provavelmente teria sido a sua formulação original (em aramaico). 155 p. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft. Belo Horizonte. situa a formulação mais própria da tradição das Igrejas oriundas da Reforma. as quais concluem o pai-nosso com uma doxologia (“pois teu é o Reino. um temático e outro dos autores citados. ao fato de que Jesus chama a Deus de “Pai”. Na primeira. já nos inícios do cristianismo. situando essa oração dentro das orações da tradição do judaísmo do tempo de Jesus (entre elas. as “Dezoito Bênçãos”). discutindo a origem dessa fórmula conclusiva e seu sentido. 151-154. o A.pmd 151 23/5/2012. a três índices: um para as passagens bíblicas. 22 X 14 cm. Número 122. o A. presidente da União Mundial da Sociedade Bíblica e presidente do Conselho da Igreja Evangélica da Alemanha. Eduard: Vater unser: das Gebet der Christen. Na terceira e última parte. Na conclusão desta parte. Ano 44. As últimas páginas são dedicadas à bibliografia. apresenta a história da formação do pai-nosso em suas duas versões (a de Mateus e a de Lucas). A obra é dividida em três partes. o Poder e a Glória para sempre”). analisando o processo em que. aborda cada um dos sete pedidos que formam o pai-nosso. O A. o A. 10:26 151 . o A. Foi bispo da Igreja Luterana de Hannover.Notas Bibliográficas LOHSE. dando atenção. ISBN 978-3-534-21619-2. p. Claudio Paul SJ Perspectiva Teológica. trata do valor perene da oração do painosso. inicialmente. essa passagem do evangelho foi destacada e ganhou “autonomia” como a oração mais própria do cristão O livro apresenta ainda um capítulo suplementar que aborda a influência do pai-nosso no catecismo dos reformadores e ainda a importância ecumênica dessa oração.. é professor emérito de Novo Testamento da Universidade de Göttingen. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 .OK. 2009. Na segunda parte da obra.

de S.5 cm. simbolizados nos fariseus. A figura de Jesus aparece sob diversos ângulos. Jesus pedia fé em sinais que ele dava. O livro passeia belamente pela epístola aos romanos na temática da fé. Jesus se revela como caminho. O caráter de meditação dá ao livro duas vantagens. nem de conceitos teológicos e permite incursões existenciais. o anúncio do Reino não se impunham sob o império da evidência. João Batista Libanio SJ 152 Perspectiva Teológica. entendido sem a sofisticação exegética. Esse livro conjuga. Acolhedora para com os pecadores. Insiste na figura de Jesus como revelador do Pai e na do Espírito como hermeneuta de tal revelação na história. ISBN 978-85-349-2634-8. aprofunda o desígnio. o A. recorrendo a textos dos sinóticos. despretensiosa. Logo de início. embora conheça a hermenêutica moderna. os católicos tiveram dificuldade de trabalhá-la. Une profundidade e atualidade com a dimensão de oração. indemonstrável à luz da simples razão. o dado bíblico. Jesus. como aparece nas Cartas do Cativeiro.COMBLIN. Belo Horizonte. Termina as meditações com São João. mas hoje já se fez consenso a respeito da autenticidade da descoberta fundamental de Lutero. nutrindo o texto com muitas citações bíblicas. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . severa para com os arrogantes. 101 pp. paradoxal. Espiritualidade bíblica. o mistério de Deus. aparece como profeta a questionar-nos e a pedir-nos fé na sua mensagem. Metáfora para traduzir a sabedoria que ele manifestava de maneira simples. Excelente material para oração pessoal. São Paulo: Paulus. Ano 44. humilde. na sua vida histórica. Nela reconhece a mensagem paulina por excelência. Em todas essas reflexões. 151-154.pmd 152 23/5/2012. apresenta seis meditações bíblicas sobre a fé.OK. A fé implica aceitação do mistério último e insondável de Deus que aponta para futuro inverificável por nós.. 10:26 . sujeitos a interpretações até mesmo opostas. códigos. O leitor se vê confrontado em sua maneira de viver como cristão fiel ao evangelho. Vale a pena conferir tal livro. O A. como mostram os evangelhos. Não os carrega de erudições exegéticas. 21 X 13. José: A fé no Evangelho. Paulo. em excelente equilíbrio. guardando proximidade fiel a eles. Col. a fé permanece como pano de fundo. A gratuidade da salvação ocupa lugar central. pessoais e atualizadas nos textos bíblicos. especialmente na epístola aos Efésios. 2010. p. Desenvolve pedagogia que privilegia o amor respeito a leis. Por causa da Reforma luterana. João e de S. Número 122. mas dentro da hermenêutica moderna. Noutro momento. Verdadeira leitura orante da Escritura. com criatividade teológica. normas.

O livro retrata as apresentações dos participantes. mas enquanto uma estrutura. Renata (Orgs. Esse livro vem ao encontro de tal interesse. Ano 44. midiático (F. Campos). A pluralidade de viver o catolicismo salta aos olhos. Perspectiva Teológica. milenarista e messiânico (R. A conjuntura internacional católica defronta-se com o fenômeno das outras tradições religiosas nos pontificados de João Paulo II e Bento XVI (F. história e teologia. F. sincrético.57 (Censo de 2000). Menezes). Petrópolis: Vozes. 212 pp. Teixeira). Belo Horizonte. tocado por movimentos de reavivamentos. 2009.OK.pmd 153 23/5/2012. p. Faustino / MENEZES. Sanchis). Fecham o livro breves palavras sábias de quem pensou alto sobre o conjunto das pesquisas (O. cambiantes. Menezes a tarefa de preparar a publicação e de brindar-nos com excelente introdução. Steil). ISBN 978-85-326-3882-3. Leite Lopes). Velho). de comunidade eclesial de base (I. sentam-se nos mesmos bancos pessoas cujas visões da fé católica variam enormemente. reafiliado. Número 122. Esta já abre o apetite do leitor para ir ao encontro do seu interesse específico. E se sairmos das igrejas. vista como delimitação essencial e clara de fronteiras numa unidade identitária em face da alteridade ou como articuladora dialética de temporalidades diversas e de espaços definidos (C. de Almeida). Esse livro nasce de um seminário organizado pelo ISER Assessoria (abril de 2005) do qual fizeram parte diversos especialistas brasileiros das áreas de ciências sociais. 10:26 153 . 23 X 16 cm.TEIXEIRA.): Catolicismo Plural: Dinâmicas contemporâneas. Teixeira e a R. Os dados estatísticos estão aí para mostrar a mudança significativa da posição da Igreja católica. Acontece fácil trânsito entre as confissões (A. Predomina o tom analítico com os instrumentais próprios da especialidade de cada autor/a. E apontam-se as perspectivas antropológicas do Catolicismo. A temática se espraia por diversos campos de saber. Rumstain-R. Numa mesma celebração. se complementa com reflexões teóricas sobre a atual cultura brasileira. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . resultantes dos escritos preparados e discussões travadas. Lesbaupin).. poroso. O pluralismo externo à Igreja católica cresce enormemente e também no seu interior. princípio regulador que escapa à concepção puramente racional e sim expresso em fórmulas dinâmicas. antes maioria esmagadora para a faixa dos 73. Teixeira). Tal princípio se caracteriza por uma sacramentalidade institucional (P. e oficial (R. aí encontraremos outras maneiras de viver o catolicismo. V. Tal fenômeno tem atraído a atenção de estudiosos. É fácil ser católico (A. significativas. Mariz-P. não restrito à Igreja católica. como o caso da Toca de Assis (C. Coube a F. daí sê-lo de muitos modos: santoral com sua concepção de santidade e de devoção. 151-154. Pierucci). sem falar de duas ou mais pertenças. a cujos títulos apenas acenei. Esse caleidoscópico florilégio do catolicismo brasileiro.

. Número 122.A aparente homogeneidade da Igreja católica. Belo Horizonte. Nilo Ribeiro Júnior SJ 154 Perspectiva Teológica. A segunda parte da obra se debruça sobre temas atuais da relação entre consciência social e consciência moral. Nesse sentido. surge da leitura muito mais plural. que se define por um credo. a novidade da obra encontra-se desenvolvida nesta parte em que o tema da consciência moral é abordada desde o ponto de vista do perdão de si. 151-154. Javier: Psicología y conciencia moral. leis canônicas. da questão delicada da consciência frente à decisão da autoridade no contexto de rechaço da heteronomia. 287 pp. sempre tendo em conta a perspectiva psicológico-ético-moral. Ano 44. 10:26 . ordens religiosas e outros elementos institucionais.5 X 13.OK. A obra está dividida em três partes. Em suma. movimentos de apostolado e espiritualidade. Santander: Sal Terrae. João Batista Libanio SJ BURÓN OREJAS. do perdão do outro e do perdão social no contexto jurídico e político das sociedades contemporâneas. práticas litúrgicas. cognitivistas e conductista de modo que o leitor tem acesso à linguagem específica da psicologia e da moral a respeito do conteúdo da consciência.5 cm. Trata-se de uma obra de grande envergadura uma vez que o Autor trata de retomar de maneira criativa o tema candente da consciência moral na perspectiva da teorias psicológicas. 2010. Vale a pena conferir tal leitura. 21. fragmentada de um lado e porosa de outro. Somente depois desse passo debruça-se sobre o problema de difícil acesso como o da culpa e da culpabilidade da consciência.pmd 154 23/5/2012. Jan/Abr 2012 perspectiva 122 . ISBN 978-84-293-1871-5. 113. a obra aparece no cenário da produção da literatura ético-moral em que se faz notar novos desafios para a compreensão da questão da consciência moral no contexto da complexidade da relação entre a estrutura do sujeito e da vida social no que tange à experiência da consciência moral. A terceira parte sobressai se comparada às anteriores porque aborda largamente a relação entre consciência moral e perdão. Col. Proyecto. Em seguida procura repropor o tema da consciência moral enfatizando especificamente sobre a questão de sua formação e dos passos de seu desenvolvimento a partir do confronto com as teorias psicológicas de Piaget e Kohlberg. Na primeira o Autor procura aproximar do tema propondo uma análise dos conceitos básicos da consciência moral no confronto com as teorias: freudiana. p. pastorais organizadas.