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Os Mistérios da Morte
e da Reencarnação

Philippe Deschamps

CO O RD E N AÇÃO E SUPERVISÃO
Charles Vega Parucker, F. R. C.
Grande Mestre

BIBLIOTECA RO SACRUZ
ORDEM ROSACRUZ, AM O RC
GRAN DE LO JA D A JU R ISD IÇÃO DE
LÍN G U A P O R T U G U E SA

Edição autorizada por:

\sfe DDFFUSION
V ROS1CRLC1ENNE
Cháteau d’Om onville
2 7 110 Le Tremblay
France

Os Mistérios da Morte
e da Reencarnação
In trodução........................................................................................................ 7
Culturas e religiões ante os mistérios da m o rte...................................... 13
A alma é im ortal?.......................................................................................... 87
Traduzida da versão francesa de setembro 1999
Reencarnação, uma das mais velhas teorias do m un do .............. ....... 137
Ia Edição em Língua Portuguesa
setembro 2003

A morte na história ocidental................................................................... 183
A experiência de morte im in en te............................................................195
O acompanhamento de a g o n iz a n te s ..................................................... 21 7
O lu to ............................................................................................................ 239

ISBN - 8 5 -3 17 -0 17 1-6
O contato com os m o rto s..........................................................................267
Todos os direitos reservados pela
ORDEM R O SACRUZ, AM O RC
GRAN DE LO JA D A JURISD IÇÃO
DE LÍN G U A P O R T U G U E SA

Causas e antídotos do medo da m o rte ................................................... 277
Breve tratado da a lm a ................................................................................ 287
A morte: comparações com o sono e o nascim ento............................ 299
O suicidio.....................................................................................................325

Proibida a reprodução em parte ou no todo
Símbolos da alma e da m orte................................................................... 331
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Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa
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O destino da a lm a .......................................................................................339
C onclu são.....................................................................................................343
B ibliografia...................................................................................................351
Biblioteca R osacruz................................................................................... 355

«_!v níw cáição
Há alguns anos, grande parte dos livros editados sobre o
tema da morte ressaltava que esta havia se tornado assunto
tabu por excelência nas sociedades modernas. Seus autores
explicavam que nossa sociedade do materialismo triunfante
exaltava a vida, a força e a saúde, que as pessoas en­
fraquecidas ou deficientes eram afastadas dela, que os velhos
eram cada vez mais isolados em asilos e que morria-se cada
vez menos em casa e mais no hospital. Nos círculos médicos
da época, o doente era cercado de mil meios técnicos cujo
único objetivo consistia em perpetuar a vida. A morte não
era mais aceita, tornara-se sinônimo de fracasso; fracasso
para a vida, fracasso para o corpo médico, e a ceifeira metia
medo.
Apesar de continuar válido em muitos casos ou cir­
cunstâncias, hoje esse fato precisa ser diferenciado. Unidades
de tratamentos paliativos, para ajudar os doentes terminais,
foram criadas. Graças à ação de médicos e psicólogos de países
anglo-saxões, depois de toda a Europa, a noção de acom­
panhamento do paciente terminal veio à luz do dia. As
experiências de morte iminente, relatadas por milhões de
testemunhos, obrigam nosso mundo a reconsiderar seu ponto
de vista sobre a morte ou, pelo menos, sobre suas fronteiras.
Regularmente, nos últimos vinte anos, o assunto tem aparecido
nos jornais, por vias indiretas. E só lembrar-se dos debates sobre
a eutanásia, das reflexões sobre o aumento da taxa de suicídios,
dos conflitos em torno do aborto, do surgimento dos
tratamentos paliativos...

Tudo isso poderia fazer crer que o homem e a mulher
modernos finalmente estão reconciliados com sua morte e que
ousam encará-la. As aparências, porém, são enganosas. A
transformação veio de uma pequena elite do mundo médico,
mas o modo como a imprensa aborda o assunto é superficial.
Nenhuma verdadeira pesquisa profunda jamais foi empre­
endida pelo grande público, e isto é lamentável. A escatologia,
a ciência da morte e dos fins últimos, é um daqueles temas que
não deveriam ser delegados a uma outra pessoa, por mais sábia
que fosse. Nenhuma sociedade deveria se poupar de uma
reflexão profunda acerca do assunto, levado ao nível das
individualidades. Se as seitas proliferam tanto hoje em dia, é
por causa da pobreza e mesmo ausência de respostas quanto
ao sentido da vida.
O ser humano tem necessidade de dar significado àquilo
que ele vive. Se não se sente ajudado nessa busca, ele vai
procurar as respostas não importa onde, mesmo à custa de
grandes riscos. E evidente, até mesmo após uma análise
superficial, que as respostas para os mistérios da morte
condicionam o significado dado a cada vida. Se a morte não
tem nenhum sentido, então, a vida também não possui sentido
nenhum, e vice-versa. A evolução do espírito humano, no
momento em que este ganha profundidade e altura, cedo ou
tarde passa por essa meditação. Trata-se de uma questão de
amadurecimento.
Este livro se propõe a ser uma baliza para aqueles que não
sabem por onde começar sua busca do sentido da grande
viagem. Sem ser exaustivo, ele procura agrupar conhecimentos
atuais, sintetizando-os e explicando-os à luz da filosofia
Rosacruz.

Ao se abordar pela primeira vez o tema do falecimento, logo
se percebe, com surpresa, que ele se assemelha à roca daquela
fiandeira mágica, de onde se puxa um fio que nunca chega ao
fim. Suas ramificações são bem numerosas e tocam praticamente
todas as áreas da vida. A medicina, a economia, a filosofia, a
física, a própria arte, são interpeladas, bem como muitas outras.
Sob sua influência, todo um trabalho pôde ser empreendido na
música. Algumas das mais belas peças musicais foram, com efeito,
requiem e outros stabat mater. Mozart estava familiarizado
(alguns diriam obcecado) com a idéia da passagem; ele legou ao
mundo um dos mais belos requiem , que foi terminado por outro
compositor, após sua morte.
Mais que outras questões, a morte insinuou-se sutilmente
no coração de todos os campos da atividade humana, enquanto
o ser humano se recusava a reconhecê-la. Estaria fora de
questão apresentar tudo neste livro; para isso, seria preciso uma
“E nciclopédia da m orte”, que ainda está por ser feita. Não
obstante, o método utilizado foi o de observar o maior número
possível de campos em que a morte se sinalizava. Tratava-se
de compreendê-la melhor, esclarecê-la, até mesmo acostumarse com ela. Ao leitor, cabe fazer a sín tese intuitiva, sem a qual
não há conhecimento verdadeiro. Para compreender a morte,
deve-se, em primeiro lugar, partir para a descoberta de
diferentes culturas e aperceber-se de que, apesar das
divergências, elas possuem inúmeros pontos comuns.
Será que se pode efetivamente abordar o assunto sem se
levantar uma reflexão sobre a noção da imortalidade, tão
freqüentemente aceita como um postulado? A reencarnação é
uma doutrina compartilhada por mais da metade da população
do globo. Pode ela significar um fator importante de
compreensão da vida e, por extensão, da felicidade?

Se as atitudes do ser humano face à morte evoluíram no
curso dos séculos, os principios básicos de suas reações
psicológicas são geralmente os mesmos. Conhecê-los nos ajuda
a dominar melhor nossas próprias emoções diante do evento,
quando ele fustiga nós mesmos ou outrem. E para esses pontos
e muitos outros que este livro tentar propor algumas respostas.
Não se trata aqui de assumir uma posição dogmática, mas
simplesmente de dar o que pensar e expor questões motivadas
por conhecimentos e fatos exatos. A morte não faz parte das
nossas categorias habituais de conhecimentos. Logo, não pode
ser abordada da mesma maneira que qualquer outro assunto
acadêmico. E preciso proceder diferentemente e também
recorrer tanto às faculdades da imaginação humana como às
suas dimensões racionais e intuitivas. Por esses motivos, estão
reunidos aqui os aspectos rituais ou simbólicos e elementos
mais objetivos ou psicológicos.
Para abordar o tema da morte, na forma como explicaram
os ocultistas de antigamente, é preciso querer se lançar a ele;
ousar fazê-lo, pois a busca é repleta de armadilhas; saber, mas
isto vem do buscar e do aceitar jogar fora antigos preconceitos;
depois, calar-se, pois os frutos das descobertas são inco­
municáveis. A síntese só pode ser pessoal, como uma convicção
adquirida à custa de uma busca tenaz. Esse processo, aliás,
não deixa incólume seu autor. Forçosamente, haverá para ele
um antes e um depois; assim como para a maioria dos que,
algum dia, perderam um ente querido pela primeira vez.
Se a velha ceifeira fascina cada mais vez nossa época (como
Ankpu, o Velho Homem-Morte, da Bretanha), é porque nossas
sociedades vivem uma transformação sem precedente. Essa

morte simbólica das coletividades acompanhada de dificuldades
ainda maiores para os indivíduos. Cada pessoa, então,
questiona-se frente ao desconhecido amanhã. Sutilmente, a
humanidade volta a ganhar consciência de sua mortalidade
(pela qual poderá, pela primeira vez, tornar-se responsável),
após os delírios científicos do século 19. A tendência natural é,
portanto, questionar a morte. Longe de constituir um sintoma
de fatalismo ou de medo do futuro, trata-se de uma prova de
maturidade, que só precisa ser generalizada. Confrontado com
a realidade daquela que não é mais oculta, o ser humano
geralmente volta a situar suas ambições num quadro mais
modesto que, em si mesmo, é portador de futuro. Assim, ele
ganha consciência daquilo que um poema de Paul Fort
descreve tão bem:
“Na terra, devem os nos amar.
Enquanto vivos, devem os nos amar.
Não con fies em cem itérios.
Antes deles, devem os nos amar.
Teu p ó e m eu p ó
Serão sem entes de ventos. ”
Em todos os tempos e lugares, os místicos sempre tiveram
maior alcance nesse gênero de reflexão. A particularidade do
presente trabalho consiste, entre outros, em demonstrar que
os espiritualistas do mundo conheciam e codificaram, há
muitíssimo tempo, o que a ciência parece estar redescobrindo
após dois séculos de ocultação.

(u i/ ü iiaj

e ze/ú/tóej

an te o) m htezioj d a m oiie
Ao se estudar as crenças dos povos em relação à morte, ficase imediatamente espantado com a diversidade das atitudes.
Não se morre na índia como no Ocidente, e os ritos e
convicções que cercam um falecimento mostram-se tão
diferentes quanto a índole de cada uma das nações que lhes
deram origem. Conhecer as práticas e as idéias de um povo
sobre o assunto significa desvendar uma parte de sua alma.
Mas poderíamos nos perguntar: Por que explorar um mosaico
de culturas para compreender o incompreensível?
É que, através da aparente multiplicidade, existe, parado­
xalmente, certo número de pontos comuns que se repetem
como um leitm otif. "Onde háfum aça, h á fo go ”, diz o provérbio
popular. Pode-se, portanto, apostar no seguinte: se várias
tradições diferentes concordam num determinado número de
detalhes, então, certamente elas refletem uma verdade sutil ou
uma corrente de pensamento subterrâneo que as engloba todas.
Poderíamos igualmente estabelecer um a priori que nos levaria
bem longe: mesmo as diferenças de crenças, como a
reencarnação dos orientais ou o Julgamento Final das religiões
monoteístas, longe de serem irreconciliáveis, poderiam até ser
complementares. Uma passagem do Corão explica que cada
povo recebeu, em sua história, um profeta enviado pela
Divindade. Se isso se mostrasse exato, então as divergências
entre as culturas corresponderiam não mais que a uma
diferença de acento, colocado em tal ou qual aspecto de um

conhecimento muito mais amplo. Claro está que essa
particularidade levaria em conta a mentalidade, a cultura e
até a própria terra dos povos aos quais fosse direcionada.
Assim, através dos pontos comuns e das divergências
comparadas e depois sintetizadas, o observador poderia ter
uma idéia intuitiva dos verdadeiros mistérios que o aguardam
no além. Nenhuma cultura ou religião pode ter a pretensão
de possuir, sozinha, o conhecimento total do assunto. Se um
dia a história da torre de Babel foi narrada, talvez o tenha
sido porque o futuro da humanidade passe forçosamente por
uma aproximação voluntária, compreensiva e respeitosa das
diferentes crenças locais. É a esse exercício que este capítulo
o convida.
O único conselho que se poderia dar pode ser expresso
assim: o leitor poderia imbuir-se de cada tradição, uma a uma,
e, em seguida, deixar seu subconsciente fazer o trabalho de
síntese. Assim, dessa diversidade brotará a unidade de uma
concepção que será totalmente pessoal. Essa síntese intuitiva,
bem mais útil que um dogma recebido de fora, permitir-lhe-á
então, por uma melhor compreensão da morte, equilibrar sua
vida para que ela tenha mais luz, otimismo e alegria.
Desde logo, podemos classificar as culturas em três grupos.
Essa classificação, atribuída a Isola Pisani, parece ser a mais
simples e a mais rica de significados. Comecemos pelo
sobrevivencialismo. E a concepção segundo a qual o ser
humano, após sua morte, sobrevive num mundo paralelo. Os
celtas, como também as tribos da África, da Indonésia e da
América, aderem ou aderiam a essa crença. O culto dos
ancestrais é geralmente formulado a partir de conceitos
sobrevivencialistas.

Em seguida, vem o imortalismo. Segundo essa idéia, a alma
seria imortal, num estado intraduzível e completamente diferente
da vida na terra. E o credo das religiões monoteístas que pregam
o Julgamento Final, depois do qual a alma se une ao seu Deus.
Finalmente, vêm as doutrinas reencarnacionistas, às quais estão
ligadas as religiões orientais, alguns grupos animistas e grande
maioria dos esoterismos dos cinco continentes.
Essa separação das culturas em três grupos fechados foi aqui
intencionalmente exagerada a fim de facilitar a orientação do
buscador em meio à aparente selva das convicções. Na realidade,
as três concepções muitas vezes coexistem dentro da mesma
tradição. E assim que o islã descreve o paraíso em termos
sobrevivencialistas (uma vida de felicidade em meio a todos os
objetos amados); já a esperança de vida do ser humano, após o
julgamento, é descrita em linguagem imortalista. Por fim, o
esoterismo muçulmano recorre à doutrina da reencarnação.
Pode-se ainda acrescentar que, em certos aspectos, algumas
crenças religiosas assemelham-se mais ao materialismo do que
à idéia de imortalidade. Os primeiros hebreus, por exemplo,
ensinavam que o corpo e a alma estão indissoluvelmente unidos
e que o desaparecimento de um provoca o do outro. Isso não é
a mesma coisa que a posição materialista segundo a qual a alma
é o produto teórico das reações físico-químicas do cérebro?
De acordo com essa opinião, com a morte do cérebro, a alma
desaparece concomitantemente.
Dentro de uma mesma religião, pôde-se igualmente observar
a evolução das idéias no curso da História. Que há de comum,
por exemplo, entre as crenças judaicas modernas e as do início
do Antigo Testamento, a Torah hebraica?

O judaísmo
Para abordar a concepção judaica da morte, é útil debruçarse sobre os textos da Torah (a lei judaica) e do Antigo
Testamento. Não obstante os israelitas de hoje aderirem
claramente à noção da imortalidade da alma, nem sempre foi
assim de m aneira tão clara. Além disso, m uitas vezes
esquecemos que não existe apenas um judaísm o, mas
judaismos, assim como também existem divisões dentro do
cristianismo. Esse é um dos motivos pelos quais devemos ter
prudência ao analisarmos concepções religiosas. Conforme as
correntes ou os interlocutores, podemos nos defrontar com
diferentes sutilezas de idéias.
Ao longo de toda a história do povo judeu, a questão
da morte foi considerada secundária (conforme eles
mesmos confessam). O importante, dentro da comunidade
judaica, é a vida, que deve ser aproveitada ao máximo:
segundo alguns judeus, o ser humano está na terra para
cumprir a lei divina e render graças ao Criador. Sua missão
cessa com a morte. Mesmo que hoje o pensamento judeu
im agine que a personalidade, após a passagem, una-se à
Alma Universal, os textos abordando a questão do além
não sao tantos assim.
Alguns estudiosos, aliás, explicam que os saduceus da época
do Cristo (dos quais fazia parte o sacerdote Caifás) não
acreditavam na imortalidade da alma. Para eles, o ser humano
está na terra para cumprir os desígnios divinos e a morte põe
fim à sua função. O historiador judeu Flavius Josefo assim se
expressou, por volta de 50 d.C.: "A opinião dos saduceus é de
que as almas m orrem com os corpos; que a única coisa que som os
obrigados afa z er é observar a lei, e que é uma ação virtuosa jam ais
renunciar, sabiamente, àqueles que nô-la ensinam ”.

Mas a posição dos saduceus era a de uma elite pensante
que se tornou a elite social da comunidade. Não se sabe ao
certo se eles fizeram muitos rivais no meio do povo, que aspirava
a um outro futuro. Os saduceus reclamavam do sacerdote
Sadoque, sacerdote do rei Davi, e cuja família manteve o
sacerdócio no tempo de Salomão. Já mesmo no Eclesiastes,
que se supõe ter sido escrito pelo próprio Salomão (mas, mais
provavelmente, obra de um mestre de sabedoria), encontramse alusões a essa crença. "Vaidade das vaidades”, nos diz o
Eclesiastes, "tudo é vaidade e p ersegu içã o de v en to ”. O ser
humano estaria na terra para comer, beber e trabalhar; tudo o
mais seria, segundo o autor, “perseguição de ven to ”, e a morte
viria encerrar o baile. "Nunca mais eles tom arão parte em tudo
que é fe ito sob o so l”.
Outros textos fazem da morte o desaparecimento completo
do ser humano: "E neste m esm o dia seus anseios p erecem ” (Salmo
146,4); "Não são os m ortos que celebram o Eterno, nem nenhum
dos que descem ao lugar do silên cio ” (Salmo 115, 17). Trata-se
de uma visão que exclui toda possibilidade de imortalidade
para o ser humano. Somente mais tarde, foi que apareceu a
tese da ressurreição no final dos tempos. E mais adiante, no
Eclesiástico: "Dá, recebe e ilude tua alma, porque, no Hades, ela
não há de encontrar delícias. Toda carne en velh ece com o uma
vestim enta; pois assim é a lei eterna: certam ente morrerás. Na
folh a gem de uma árvore frondosa, folh a s caem e folh a s brotam,
assim tam bém as gera ções de carne e sangue: um a morre, outra
nasce. Toda obra corruptível desaparece, e seu autor se voltará
contra ela ”. Que outro modo melhor de enaltecer a vida e fazer
da morte uma inimiga?
Naqueles tempos, a exemplo dos povos da Antiguidade,
alguns hebreus acreditavam, vale dizer que de maneira um

tanto nebulosa, que os mortos vagavam num lugar de trevas
situado embaixo da terra, chamado cheol. A geena, que se
tornou sinônimo de fogo do inferno, era um vale situado a
certa distancia de Jerusalém, o vale de H innom, onde eram
jogados os cadáveres incinerados. E difícil saber se o ch eol, que
se sucedia à morte, era considerado um lugar ou simplesmente
um sinónimo para o nada. Aqui não estamos num terreno muito
científico. Contudo, parece que essa idéia e a da geena foram
algumas das origens do inferno cristão, a outra origem sendo
provavelmente egípcia.
O pensamento judaico, como todo pensamento religioso,
esconde outras sutilezas, e pouco a pouco revelou-se a espera
de um messias (messias significa “ungido de Deus”, como o
Christos grego) que iria julgar os vivos e os mortos. Concepção,
aliás, muito mais sustentada por movimentos ortodoxos, do
tipo L ubavich. Os fariseus, na época de Jesús, foram os
portadores dessa esperança messiânica. Segundo o historiador
judeu Flavius Josefo, eles representavam, com os saduceus e
os essênios, uma das três correntes judaicas, na época de Jesús.
Um conflito importante opôs saduceus e fariseus com relação
à ressurreição. Um saduceu disse a Gehiha B. Pesica: “—Ai de
vós, crim inosos ¡fariseus], que dizeis que os m ortos retornarão]
pois, uma vez que os vivos m orrem , reviverão os m ortos? —Ai de
vós, crim inosos fsaduceus], respondeu ele, que declarais que os
m ortos não vivei‘ão, pois, uma vez que os que não existiam ganham
nascim ento, quanto mais ainda os que já viveram !"
Ao contrário do que geralmente costumamos acreditar, a
ressurreição não é sinônimo de imortalidade. Os antigos
hebreus não aderiam a essa crença e o além não é questionado
no Antigo Testamento. Muito mais tarde, sob influência dos

gregos e dos neoplatônicos, foi que a noção de imortalidade
deitou raízes. Entre os filósofos judeus mais tardios, a tônica
foi igualm ente colocada mais na im ortalidade que na
ressurreição. Maimônidas, no século 12, fez da imortalidade
da alma um parâmetro supremo. Mas desde o segundo século
antes de nossa era, havia duas correntes de pensamento no
judaísmo: a primeira, entre os judeus alexandrinos, impre­
gnados de filosofia grega, defendia a imortalidade da alma; a
segunda, entre os judeus da Palestina, afirmava a ressurreição
dos corpos.
A primeira tradição, a exemplo de Platão, apoiava-se na
dualidade do ser humano: uma alma encarnada num corpo,
do qual podia se separar, prosseguindo numa existência
autônoma. A segunda baseava-se numa interpretação
fragmentária da frase bíblica: “D eusfez o hom em do p ó da terra,
insuflou em suas narinas o sopro de vida e o hom em tornou-se
um servivente". A interpretação palestina dessa frase (retomada
hoje no cristianismo) faz do ser humano, “ser vivente”, um
todo indissociável. A morte do corpo corresponde, então, ao
seu completo desaparecimento (inclusive a alm a) e a
ressurreição, a uma nova criação decretada por Deus. Se o
homem desaparece em sua totalidade, ele só pode renascer
nessa mesma totalidade não dualista, de onde a idéia de uma
ressurreição de corpos.
A menos que essa concepção fosse uma perversão de idéias
esotéricas mais profundas, ensinadas somente aos iniciados.
Perversão acarretada por iniciados que não alcançaram a meta
de suas iniciações. Para a “Enciclopédia Judaica”, não há dúvida
de que: “A crença na im ortalidade da alma veio aos ju deu s a partir
do contato com o pensam ento grego e, mais especialm ente, através
da filosofia de Platão, seu principal representante

Sabemos também que a tradição da Cabala judaica (a lei
oral e oculta do judaismo) faz referencia à possibilidade de
reencarnação da alma humana. Urna das seções do Zohar, a
biblia dos cabalistas, denomina-se “Livro da Transmigração das
Almas". Explica ele que enquanto a alma humana não tiver
desenvolvido toda sua perfeição, cujos germes ela contém,
deverá recomeçar várias existências, até que sua condição
permita-lhe retornar a Deus. Outras correntes judaicas aderem
ou aderiram a essa doutrina. Por exemplo, ohassidismo, nascido
no século 18 e do qual alguns grupos sobrevivem ainda nos
Estados Unidos.
Há também uma crença popular de que crianças que
morrem com pouca idade são reencarnações de almas mortas
prematuramente (por acidente ou assassinato, por exemplo) e
que não tiveram tempo de terminar seu período de existência
terrena. Assim, elas precisam voltar por um curto período a
este mundo, a fim de que seu mandato seja plenamente
cumprido.
Quanto ao contato com os mortos, é condenado pelo
judaísmo, ainda que a possibilidade dessa comunicação seja
admitida. Sobre essa questão, um dos raros textos do Antigo
Testamento baseia-se no contato realizado pelo rei Saúl e o
profeta Samuel, por intermédio da feiticeira de En-Dor, que
praticava a necromancia ou invocação dos mortos. Não
obstante, no curso desse episódio fantástico, mencionado em
Samuel 28, 3, conta-se que Saul havia banido do país os
necromantes e os adivinhos. No Deuteronômio 18, 9,
encontramos a seguinte passagem: “Que não haja em vossa casa
ninguém que exerça a fu n çã o de adivinho, astrólogo, m ágico,
bruxo, encantador, invocador de fantasm as e espíritos, consultador

de mortos. Pois quem quer que fa ça isso é uma abom inação para
Yahvé...". Para Isaías, consultar os mortos é uma absurdidade:
“Se vos disserem: consultai os que invocam os m ortos e os que
predizem o futuro, os que provocam assobios e suspiros, respondei:
Um p ovo acaso não consultará seu D eus? D irigir-se-á aos m ortos
em fa v o r dos vivos?". Tratava-se de uma posição lógica para
um povo cujas concepções acerca da imortalidade estavam
longe de serem claras.

O cristianismo
Para apresentar a posição do cristianismo, o melhor consiste
em citar o catecismo oficial da Igreja Católica, que se exprime
sem ambigüidade sobre a questão: “A m o rte é o fim da
peregrinação terrena do ser humano, do tem po da graça e da
m isericórdia que Deus lhe oferece para realizar sua vida terrena
segundo o desígnio divino e para decidir seu destino supremo.
Quando chega ao fim o curso suprem o de nossa vida terrena, não
voltam os mais a outras vidas terrenas. Os seres hum anos m orrem
som ente uma única vez. Não existe reencarnação após a morte".
Segundo este ponto de vista “a m orte é a conseqüência do pecado
origin al". Antes desse famoso pecado, “em bora o ser hum ano
possuísse natureza mortal, Deus o destinara a não morrer. A morte,
portanto, era contrária aos desígnios de Deus criador, e entrou no
m undo com o conseqüência do pecado". E a essa frase acrescentase um comentário que toma uma dimensão toda especial em
nossa época moderna: “A m orte corporal, da qual o ser hum ano
teria sido poupado se não tivesse pecado, é, assim, seu últim o
inim igo a ser vencido".
Assim, a originalidade da posição cristã reside nessa idéia
que alega que a morte não existia no estado de Éden. Ela foi a

conseqüência da Queda do ser humano. Embora essa idéia
seja de difícil concepção para nossa mentalidade moderna, um
aprofundamento pode nos trazer algumas luzes novas.
A interpretação cristã da história da Queda do ser humano
e do aparecimento da morte é estritamente literal. Baseia-se
no texto da Gênese 2, 17: “Quando com eres do fru to da árvore
do con h ecim en to do bem e do mal, m orrerás”. Deve-se crer,
então, que antes da australopiteca L u de existia na Terra um
ser humano imortal? E bem mais fácil admitir que esse texto
faia de uma tomada de consciência do fenômeno “morte”, num
dado momento da evolução humana.

E que o ser humano rompeu seus laços com o mundo
natural e sua consciência se individualizou o suficiente para
que a morte representasse a n ega çã o d e sua p erson a lid a d e.
Não é isso, ao mesmo tempo, uma queda e uma evolução sem
precedente? Ao invés de explicarmos que a morte foi uma
conseqüência da Queda, podemos entender que a consciência
da morte e a consciência do bem e do mal representam as
conseqüências da perda do estado de inocência do animal. Essa
ruptura ocorreu provavelmente há várias dezenas de milhares
de anos, e a consciência da morte tornou-se um dos produtos
dessa evolução. Toda moeda tem sempre duas faces. O ser
humano, portanto, merece o qualificativosapiens também por
saber que é mortal. Alguns antropólogos consideraram que os
primordios da civilização coincidiram com a tomada de
consciência da morte e com a utilização de ritos acompanhando
infalivelmente essa conscientização. Esses mesmos pesqui­
sadores concluíram, então, que toda civilização que negasse,
escondesse ou se desinteressasse pelo assunto apresentaria, por
isto, sinais de barbárie e de d eca d ên cia inevitável.

A posição da Igreja Católica quanto à escatologia tomou
forma definida e quase clara por volta do século 13, na época e
sob a direção do Papa Benedito XII, chamado de o “cardeal
branco” antes de sua eleição para esse posto. Isso não significa,
claro, que antes desse período a Igreja não tivesse idéias sobre
a questão. Foi nessa época, porém, que o dogma se estabeleceu
de maneira duradoura. As idéias de inferno e paraíso que
aguardavam as almas após seu julgamento, foi acrescentada a
do purgatório. Para a Igreja de hoje: "a principal pena do inferno
consiste na eterna separação de Deus, o único no qual o ser humano
p od e ter a vida e a felicid a d e para as quais e le fo i criado e às quais
ele aspira", enquanto que a noção de céu supõe uma vida
perfeita de comunhão e amor com a Santíssima Trindade.
Podemos facilmente considerar que a noção de purgatório
foi introduzida sob a pressão de pensadores e do povo, os quais
decidiram que não compreendiam mais essa justiça divina. Uma
justiça impunha aos errantes ou pecadores finitos uma sanção
eterna. Então, os prelados im aginaram um período de
purificação que operaria em prol das almas impuras mas
suscetíveis de redenção, a fim de que fossem preparadas para
o julgamento final redentor. Pelo menos, isso é o que afirmam
alguns historiadores modernos, como J. le Goff. Mas a verdade
é que a idéia do purgatório “estava no ar” há muito mais tempo.
Santo Agostinho já afirmava sua existência, ainda que seu
pensamento não fosse nem claro nem exato. Do mesmo modo,
Orígenes, no século 3, expôs a existência de uma purificação
pelo fogo. A Igreja soube, a partir do século 12, limpar e clarear
essa idéia, a fim de que a noção de justiça divina ficasse
preservada no pensamento das massas.
Na verdade, a doutrina cristã, em matéria de escatologia,
esteve longe de ser estável e unificada ao longo dos séculos.

Delicadezas de linguagem ou de concepção foram surgindo
através da História. Por exemplo, a respeito da ressurreição
dos corpos. Seguindo as epístolas de Paulo, a Igreja ensina
que, no fim dos tempos, as almas consideradas dignas assistirão
a uma ressurreição de seus corpos carnais. Uma das passagens
do Símbolo dos Apóstolos (o principal artigo da fé cristã,
adotado nos concilios de Nice e Constantinopla) alude a essa
crença. Sem dúvida alguma, a Igreja, nessa época, ensinava o
renascimento do corpo, em carne e osso, após sua putrefação
no seio da terra-mãe. Segundo teólogos modernos, essa noção
da ressurreição do corpo carnal presumiria a crença na
preservação da individualidade humana na presença divina.
Eles a opõem à idéia budista do Nirvana, que corresponde a
uma fusão na qual o ser humano perde sua identidade própria.
Mas isso pouca importância tem para o estudante imparcial.
Ele observa que, tanto num caso como noutro, o estado descrito
ultrapassa grandemente toda e qualquer tentativa de descrição
humana. A natureza da suprema e derradeira experiência
escatológica representa, de fato, o mistério dos mistérios.
K curioso notar que, alguns milhares de anos antes da era
cristã, uma outra civilização aderiu a essa idéia de renascimento
material do ser humano. O Egito embalsamava os cadáveres
de seus grandes governantes. Acreditava-se então que a múmia
poderia ser reanimada pelo sopro de vida, após 3000 anos
passados na mansão da morte. Teria sido por causa dessa
similitude nos conceitos que o cristianismo pôde se impor mais
tarde no Egito, num terreno já preparado para a nova religião?
No entanto, desde o começo da Igreja, um de seus Pais - e
não um de seus ministros - argüiu contra a idéia da ressurreição
do corpo. Orígenes, no século 3, numa concepção mais

próxima à dos neoplatônicos com os quais estudou, ensinou,
por sua vez, a sobrevivência de um corpo espiritual ou de um
corpo glorioso. Nesse sentido, ele fez eco fortemente às palavras
de São Paulo: ‘Assim dá'se a ressurreição dos mortos. Somos
sem ea d os co rru p tív eis, elev a m o -n o s in co rru p tív eis; som os
sem eados desprezíveis, elevam o-n os gloriosos; som os sem eados
fracos, eleva m o-n os fo rtes; som os sem eados corpos psíquicos,
elevam o-n os corpos espirituais. Se há um corpo psíquico, há um
corpo espiritual. O prim eiro hom em , tirado do solo, é terreno; o
segundo hom em vem do céu. Eu os declaro irmãos: A carne e o
sangue não podem herdar, do reino d e Deus, nem a corrupti­
bilidade da incorruptibilidade”. I Corintios 15, 42-45. Aliás,
será que devemos acreditar na ressurreição dos corpos carnais?
O mundo científico nos prova hoje que o mundo material (e,
portanto, a carne) são ilusões decorrentes das limitações
inerentes aos nossos cinco sentidos físicos. Sabemos, por
exemplo, que um átomo, longe de apresentar a opacidade que
percebemos, é na verdade formado de imensos espaços vazios.
Se a carne renasce, como descrevem as religiões monoteístas,
isto significa que as ilusões renascem também com ela. E se as
ilusões não renascerem, então é porque todo nosso mundo
será transformado e o termo “carne” não terá mais razão de
ser, no sentido como o entendemos habitualmente.
Mas a singularidade de Orígenes não cessa aí. Ele escreveu,
por exemplo, que a alma é preexistente à sua manifestação
terrena (o que não é um conceito óbvio para os teólogos, que
não sabem determinar se a alma é ou não criada no nascimento
da criança), e que depois da conflagração do nosso mundo, no
fim dos tempos, outros mundos se sucederão. Explica ele “que
irem os todos para o paraíso”\em outras palavras, que até mesmo
os demônios serão salvos. Mas isso não é tudo. A exem plo de

outros Padres da Igreja primitiva, como São Justino, Clemente
de Alexandria ou Sinésio (em seu tratado sobre os sonhos), a
História atribui-lhe uma crença na reencarnação. Eis a tradução
de um trecho do "Tratado dos Princípios” de Orígenes: “Os corpos
possuem apenas im portância secundária e aparecem de tem pos a
tem pos em resposta às con d ições variáveis das criaturas racionais.
As que necessitam de corpos se revestem deles e, ao contrário,
quando as almas caídas se elevam e se tornam melhores, seus corpos
são outra vez aniquilados. Assim, elas desaparecem e aparecem
incessantem ente”. Por tudo isso, Orígenes foi um dos primeiros
homens realmente místicos a propor oficialmente uma
interpretação alegórica dos grandes textos sagrados. Sua
filosofia foi condenada pelo II Concilio de Constantinopla, no
ano 553.
Ao menos é nisso que se acredita geralmente, pois não há
nenhuma prova indiscutível de que o Papa Vigílio, que presidia
a Igreja nessa época, tenha dado sua aprovação a essa
condenação. Ele estava em conflito com o imperador bizantino
Justiniano, que estava tentando fazer do cristianismo uma
religião de estado. O Papa Vigílio havia protestado então contra
a convocação do Concilio de Constantinopla. Em todo caso,
foi depois dessa época que o mundo cristão passou a ignorar a
reencarnação.
Entretanto, depois dessa época, outros eclesiásticos cristãos
se pronunciaram a favor da reencarnação. O Cardeal Mercier,
por exemplo, escreveu em 1923 que “as idéias de reencarnação e
m etem psicose ou transm igração das alm as p odem ter sentidos
diferentes: ou bem significam uma série de existências sucessivas,
a tra vés das q u ais a a lm a co n serv a a c o n s ciê n cia d e sua
personalidade e à qual está destinado um fim determ inado; ou

então um a seq üên cia d e vidas repetidas sem fim determ inado,
d u ra n te a q u a l a alm a não gu a rd a a co n sciên cia d e sua
personalidade, ou seja, um a sucessão in defin ida de existências
qu e a alm a atravessa, sem gu arda r a con sciên cia d e sua in d i­
vid u alid ad e”. Por fim, concluiu: “No que con cern e a prim eira
dessas hipóteses não vem os q u e a razão deva n ecessariam en te
tê-la co m o fa lsa ou im p ossível”.
Na verdade, uma tradição oral porém tenaz, visto que
perdura até nossos dias, explica que os primeiros cristãos
aderiram sem dificuldade à idéia da reencarnação. Já vimos
que essa crença era comum entre muitos judeus da época
do Cristo. Seria mero acaso o fato de o Novo Testamento
refletir isso complacentemente em um diálogo envolvendo
o Cristo e seus discípulos? (Mt 16, 13-18). Por que, em vez
de se contentar em dar razão a Pedro quando ele deu sua
compreensão da verdadeira identidade de Jesus, este não
aproveitou a oportunidade para fustigar as crenças de então
referentes à suposta reencarnação de profetas?
Mas voltemos à questão da ressurreição dos corpos. A
Igreja atual coloca a tônica numa posição mais espiritualista,
visto que hoje ela ensina que o corpo no qual o ser humano
está destinado a ressuscitar no fim dos tempos será seu corpo
transfigurado em um corpo de glória ou corpo espiritual.
Em outras palavras, a antiga atitude relativa a uma
imortalidade do homem dentro do mundo material está
sendo progressivamente abandonada por uma posição mais
espiritual. Contudo, resta uma ambigüidade mantida e não
claram ente resolvida em relação às duas concepções:
ressurreição com um corpo espiritual ou com um corpo
carnal.

Associado ao tema da ressurreição, é difícil esquecer o
do Julgamento Final, revelado no Apocalipse de São João
(a palavra A pocalipse significa Revelação). Aqui, vemos
surgir a figura central do Cristo que, acredita-se, julgará os
mortos quando de seu advento ou parusia. Nessa ocasião,
está escrito que a morte e o Hades serão julgados e
destruídos como resultado da lógica inversa, que vê a morte
aparecer no mundo em razão do pecado. Nesse Julgamento,
vemos irromper toda uma plêiade de temas simbólicos. Os
mortos serão examinados segundo suas obras, gravadas no
livro da vida. Os que forem considerados injustos serão
lançados num lago de fogo, o que corresponde a uma
segunda morte. Curiosamente, o grande juiz dos mortos, a
segunda morte na aniquilação, o lago de fogo e o triunfo do
ser humano sobre a morte são temas que se encontram...
no Livro dos Mortos dos egípcios antigos! Do mesmo modo,
o livro, na qualidade de memória das ações, é um símbolo
encontrado sob diversas formas em muitas tradições, e que
há de falar m uito elo qüen tem en te aos verdadeiros
buscadores.
Podemos nos guardar de fazer sincretismo primário.
Entretanto, aqui seria preciso complicar as tradições e se
concentrar demais nos detalhes para não se perceber o elo
evidente que as une em suas linhas principais. Um elo que
certamente não deve nada ao acaso. O medo do sincretismo
muitas vezes subentende a angústia, muito legítima, em relação
a um totalitarismo que, longe de desenvolver o conhecimento,
tornar-se-ia um pensamento único”. Mas a verdadeira síntese,
que seria o reflexo de uma religião universal, deve preconizar
a tolerancia e o direito de cada indivíduo de exprimir sua
própria compreensão de determinadas leis gerais. É então que

o sincretismo aproximaria os seres humanos numa compre­
ensão superior, ao invés de negar ou de nivelar suas
particularidades.
O Cristo Salvador e Redentor da religião cristã intervém
igualmente no âmago de algumas crenças antigas. Com efeito,
os cristãos, até a Idade Média, acreditavam que, antes da vinda
do Salvador, até mesmo as almas dos santos teriam domicílio
no inferno após a morte. Tratava-se, todavia, de uma zona
superior do inferno, denominada “limbos” ou “seio de Abraão .
Nesse lugar obscuro, separado do resto dos infernos, as almas
dos justos gozavam do repouso, mas aguardavam a vinda da
luz. Uma lenda cristã explica que durante os três dias de sua
Paixão, o Cristo desceu até esse lugar para libertar os justos,
que aguardavam sua vinda. Também aqui a mensagem fica
clara: o ser humano não pode salvar a si mesmo completamente.
Somente o Deus Salvador veio, há dois mil anos, tirar a raça
humana de sua situação perdida. Mais tarde, por ocasião da
grande conjunção, o próprio mal e a própria morte serão
erradicados.
Em geral, o cristão tem medo da morte. Conseqüência do
pecado, ela representa para ele uma inimiga implacável que
será vencida somente no fim dos tempos. O ser humano não e,
em si mesmo, imortal, mas reviverá graças à intervenção divina.
Um teólogo, o professor Olafsson, assim se expressou numa
revista judaico-cristã: “O ser hum ano não é um ser com posto corpo, alma e espirito —mas, sim, um ser form a n d o um todo,
[ ...] assim sendo, no m om ento da m orte, a alma deixa de existir
[...]. Na morte, é a pessoa inteira que morre". Trata-se, para ele,
de uma primeira morte; mais adiante, porém, ele evoca o

grande julgamento que deverá preceder a ressurreição ou a
aniquilação: % segunda m orte ép erm a n en te, é o fiim definitivo
da vida no tem po da suprem a elim inação do m al no universo"
Agora podemos entender por que motivo o cristão teme a
morte. Ela corresponde ao desaparecimento completo de sua
existencia, seguido de um período de vazio cuja coroação será
um julgamento. Esse verá os bons se elevarem a um paraíso e
os maus serem ou lançados no inferno ou aniquilados. Raras
são as pessoas que podem afirmar sua santidade no momento
da grande partida.
Em contrapartida, os judeus não temem a morte. Os de
hoje aceitam a idéia da imortalidade da alma e não fazem da
morte uma inimiga, mas uma necessidade inerente aos ciclos
naturais. Para eles, não haverá um tempo em que a morte será
abolida. “Pessoalmente, não creio nisso; existe um ciclo b iológico
que nos perm ite pensar que isso durará assim p or todos os tem pos ",
confidencia o dirigente de uma sociedade cultural israelita. Por
conseguinte, a morte é compreendida pelo mundo judeu como
uma lei natural.
Paradoxalmente, as religiões monoteístas não aceitam
oficialm ente a idéia da reencarnação, mas fazem da
conservação da individualidade inteira o tema central de sua
ressurreição. O budismo, por sua vez, ensina a ilusão do ego
e seu desaparecimento, ao mesmo tempo em que afirma a
idéia da reencarnação. Há ou não há contradições flagrantes
no âmago de cada corrente de pensamento? Não haveria uma
posição capaz de realizar a síntese dessas concepções, na
forma de um mistério que transcende a compreensão
humana?

O Islã e a morte
A concepção clássica da morte, entre os muçulmanos, é de
fato diametralmente oposta à do mundo judeu. Enquanto esse
último glorifica a vida, fazendo de sua suspensão uma fatalidade
decidida por Deus, o muçulmano, sem chegar a louvar o suicídio,
vê na morte um propósito desejável. Os textos do Corão incitam
o combatente do Djihad, a Guerra Santa, a morrer por sua fé:
“E não digais, dos que são assassinados na senda de Alá, que eles
estão mortos. Ao contrário, eles estão vivos, mas vós sois inconscientes
disto’’. Corão 2,154. A eles, o paraíso onde serão acolhidos: uNesse
dia, os com panheiros do jardim se deleitarão no trabalho, com suas
esposas purificadas (as huris de grandes olhos negros), à sombra,
recostados em divãs. Lá, no deleite a que aspiram ... terão por
morada jardins onde correm riachos. E os farem os fica r sob uma
copa sombrosa. E terão ju n to a si belas de olhos grandes (as huris),
de olhar casto, semelhante ao branco bem preservado do ovo. Faremos
circular entre eles uma taça de água retirada de uma fo n te alva,
saborosa de b eber... ”, etc.
A compreensão da morte, pelo mundo muçulmano, pode
ser comparada à de Platão (o que, aliás, provavelmente explica
a facilidade com que os sufis se assenhoraram das doutrinas
platônicas). O ser humano vive em exílio na terra, tendo perdido
o contato com Deus. Sua vida deve constituir um exemplo de
submissão à Divindade (uma das interpretações da palavra islã
é “submissão”). Somente depois da morte, graças a uma
reconciliação, ele terá novamente acesso à visão do Altíssimo,
numa paz inefável. Assim, a morte seria uma espécie de
libertação cheia de promessas para o muçulmano. A ela,
sucede-se um julgamento no “dia da retribuição”. Existe aqui
uma visível distinção em relação ao cristianismo. A medida com
que o mortal é julgado não pesa diretamente as virtudes que

ele praticou durante sua vida. Não se trata aqui de moral
cristã. Na realidade, será considerado digno do paraíso aquele
que aceitou a mensagem do Corão. A adesão à fé é tão
importante que, segundo a palavra do profeta, “Deus con ced e
o paraíso a todo m orto atrás do qual se alinhem três fileira s
para a p r e c e ”. Não se faz referencia ao seu modo de vida. No
entanto, trata-se de uma diferença superficial, pois, ñas
entrelinhas, o Corão contém efetivamente um código de vida
moral.
Em seguida ao julgamento final, assim como no cristianismo
mas de m aneira mais direta, faz-se referencia a urna
ressurreição do corpo ou a urna eterna estada no inferno. Devese reconhecer que, embora o texto possa ser interpretado
também de maneira simbólica (como a maioria dos textos
sagrados), a força das imagens conseguiu nutrir por muito
tempo a fé simples dos beduinos e dos árabes no renascimento
de seu próprio corpo físico. A surata 75 do Corão assim exprime
a ressurreição:
“3. Pensa o ser hum ano que nunca reunirem os seus ossos?
4. Ah, sim l S om os ca p a z es d e c o lo c a r n o lu g a r as
extremidades de seus dedos.
24. E, nesse dia, haverá visões assombrosas,
25. Que aguardam catástrofes p or sofrer.
40. Não é Ele (Alá) capaz de fa z er reviver os m ortos? ”
Mas, ainda aqui, pode-se perguntar se o texto não deve
ser visto como uma alegoria. Nesse caso, ele poderia
descrever a ressurreição do ser humano espiritual, no sentido
com que Orígenes, um dos Pais da Igreja Católica, o
entendia.

Existem algumas crenças difundidas no mundo árabemuçulmano. Por exemplo, a que explica que o morto, enterrado
conforme os preceitos do Corão, aguarda que Azráel (o anjo da
morte) venha conduzi-lo, pela mão direita ou pelos cabelos, até
o paraíso de Alá. Azrãel é tido também como aquele que separa
a alma do corpo daquele que acaba de morrer. Chegando ao seu
destino, dois anjos visitam o recém-chegado e o interrogam acerca
de questões relativas aos principais artigos de fé do muçulmano.
É por isso que os vivos recitam, depois do enterro, certos textos
que lhe sugerem as respostas a serem dadas.
A atitude do moribundo pouco antes de sua partida é muito
importante no islã. Várias frases atribuídas ao profeta referemse à atitude necessária: "Que qualquer um de vós m on a som ente
tendo boa opinião de Deus. Lembrai aos vossos moribundos, em
seus últim os m om entos /a fórm u la da fé]. Alá é o único Deus.
Aquele cujas últim as palavras fo rem Alá é o único D eus’ irá para
o paraíso”.
Depois de morto, o corpo da pessoa é lavado, em seguida
envolvido em três peças de tecido, de preferência branco.
Depois, é enterrado sobre seu lado direito (nos países árabes),
com o rosto voltado para a qibla (a meta), representada pela
Ka’aba ou Pedra Negra de Meca. Preces para o morto podem
então ser feitas, mesmo na ausência do corpo.
É claro que no islã, como em muitas outras religiões, existem
correntes mais esotéricas. Movimentos, como o sufismo, aceitam
de bom grado a doutrina das reencarnações sucessivas. Um
pensamento atribuído a Maomé possui informações ricas de
implicações: “R ecebi do m en sageiro d e D eus dois tipos de
conhecim ento. Ensinei um deles, mas se eu houvesse lhes ensinado

o outro, ter-lhes-ia calado a voz”. A respeito disso, aliás, algumas
suratas do Corão dão estranhamente o que pensar, aínda que
não constituam provas irrefutáveis: “Como podeis renegar Alá,
urna vez que Ele vos deu a vida quando éreis mortos, depois Ele
vosfa rá m orrer e depois Ele vosfa rá reviver e, p orfim , retornareis
a E le” 2, 28. “Não vistes os que saíram de suas m oradas (há
milhares delas) p or m edo da m orte? Depois Alá lhes disse: Morrei.
Após o quê, Ele os d evo lveu à vida. Sim, Alá é d eten tor da
m isericórdia para com as gentes; mas a maioria delas não é grata”
2, 243.
Os sábios sufis apresentam-se como detentores de fato do
conhecim ento esotérico evocado pelo profeta. Desse
conhecimento, algum as luzes, como raios fulgurantes,
perpassam, de tempos em tempos, o Corão. Um outro
movimento semelhante ao islã também defende a idéia da
reencarnação. Os drusos do Líbano ensinam que a alma, após
sua transmigração, reencarna-se imediatamente. Acreditam
também que, entre eles, nascem somente almas de antigos
drusos que morreram.
Vale dizer que a visão da reencarnação do esoterismo
muçulmano é totalmente diferente daquela do budismo.
Enquanto o budismo vê no renascimento uma maldição que o
ser humano lança contra si mesmo, o islã esotérico vê nele uma
nova chance para a alma chegar à perfeição. Entretanto, mais
uma vez, para além das divergências de visão, a conclusão da
história, tanto para o sufi como para o budista, é a mesma, ou
seja, o fim das encarnações quando a mestria é alcançada. Aliás,
é possível que a diferença de análise tenha uma relação direta
com o caráter dos dois fundadores dessas religiões. Maomé
era um guerreiro, abocanhava a vida com todos os dentes (teve

nove esposas). Ao passo que Sidarta Sakyamuni era, segundo
a lenda, filho de um rei, muito protegido na infância, que
conheceu tarde a morte, a velhice e a miséria dos homens. Essa
experiência o marcou para sempre. Não podemos ser parcos
na compreensão da personalidade dos grandes fundadores de
religião. O ensinamento deles foi forçosamente tingido por sua
educação, sua cultura e sua psicologia própria, bem como as
de seu povo. Seus discursos, relativamente ao verdadeiro cerne
de sua doutrina, são como a casca que envolve a polpa da noz;
nada mais são que o invólucro. Alguns devotos só se interessam
pela casca, ao passo que os mais clarividentes aspiram a comer
apenas a polpa viva.
Existe ainda um assunto interessante a ser abordado. Trata­
se da viagem, quase miraculosa, que o profeta Maomé teria
feito, certa noite, pela graça do Altíssimo, entre a mesquita AlHaram de Meca e a mesquita Al-Aqsa de Jerusalém. Esse
milagre está narrado na Sira, a biografia oficial do profeta. A
Sira foi composta no século 8 por Ibn Ishaq, um letrado que
consagrou sua vida à pesquisa das tradições relativas ao profeta.
A história relata que, por um meio miraculoso, o profeta foi
transportado a Jerusalém. Chegando ao local que se tornou a
mesquita de Jerusalém, Maomé subiu ao céu por uma escada,
conduzido pelo anjo Gabriel. Se os exegetas não concordam
entre si sobre os detalhes dessa experiência, a um só tempo
viagem fabulosa e ascensão celestial, os teólogos muçulmanos
vêem nela uma viagem da alma rumo a Deus e um modelo
escatológico. São as seguintes as etapas da ascensão: Maomé
sobe uma escada, a mesma que se estende para o moribundo
no instante de sua morte. Chega diante de um portal, chamado
“Grade dos sobreviventes”, que é guardado pelo anjo Ismael,
enquanto Gabriel lhe serve de guia durante toda sua elevação.

Maomé chega, então, ao primeiro céu, onde todos os anjos lhe
sorriem, exceto Malik, o guardião do inferno. Esse primeiro céu
contém, na verdade, o inferno. O profeta assiste, então, aos
sofrimentos terríveis que se desenrolam ante seus olhos. Ele
encontra Adão, o primeiro homem, que julga seus descendentes.
Depois, Maomé entra no segundo céu e encontra os “doispnm os”
de Jesus e o apóstolo João. No terceiro céu, ele vê José, filho de
Jacó, e, no quarto céu, Idris. No seguinte, um homem barbudo,
de cabelos brancos, aborda-o: trata-se de Aarão, irmão de Moisés.
O próprio Moisés, ele encontra n o sexto céu e, no sétimo, Abraão
pega sua mão e o conduz ao paraíso.
Essa ascensão é, de fato, muito útil para ilustrar o tema de
que nos ocupamos. Como em m uitas tradições, nela
encontramos um condutor, Gabriel; um guardião, Ismael; e
um guardião dos infernos, Malik. Encontramos igualmente
um juiz, que é encarnado aqui por Adão, o primeiro homem.
Cada uma dessas personagens representa, na verdade, um dado
personificado da experiência. Na surata 17 do Corão, versículo
44, Al’Isra, a viagem noturna, alude a essa ascensão aos sete
céus: “Os sete céus e a terra e os que nela se encontram celebram
Sua gló ria ”. O versículo 21 também faz alusão a uma espécie
de hierarquia das almas depois da morte: “Vede co m o
fa vo recem o s algum as mais que a outras. E, no além, há classes
mais elevadas e mais privilegiadas”. Isso lembra aquela frase do
Cristo: “Na casa de m eu Pai há m uitas m oradas”, João 14,2.
Todos esses dados parecem ser um leitm otive, que, mais
adiante, veremos que aparece em grande número de culturas.
Se os teólogos muçulmanos viram na ascensão do profeta uma
prefiguração do destino das almas dos mortos, Ibn Arabi, um
dos sufis mais célebres do século 8, interpretou-a como o
modelo da emancipação da alma, a qual precede sua união

mística com Deus. Para ele, trata-se, portanto, de uma
experiência espiritual. Veremos, aliás, que é sempre muito difícil
desemaranhar as descrições das experiências ligadas às diversas
escatologias e a codificação de experiências místicas. Umas e
outras muitas vezes são parecidas. Ibn Arabi, em “R evelações”,
põe em cena um filósofo e um místico que fazem, juntos, a
viagem para o céu. O primeiro pára no sétimo céu, enquanto o
místico é admitido aos mistérios divinos. Segundo essa história,
haveria, portanto, outros níveis de experiências, superiores ao
sétimo céu. Do m esm o m od o, p od ería m os concluir daí que a
ascensão da alma após a morte aconteceria através de um
número superior a sete níveis.

O Egito antigo
Uma vez que as religiões monoteístas modernas foram
abordadas, convém agora nos debruçarmos sobre as culturas
mais antigas, começando pelo Egito antigo. O Egito foi um
dos principais berços da civilização, embora não tenha sido o
único. A Suméria e a índia podem igualmente reivindicar uma
antiguidade e uma influência fundamental. Alguns estudiosos
afirmaram que os próprios gregos teriam tirado sua inspiração
mitológica nos grandes mitos do Egito antigo. Deve-se
reconhecer, aliás, que alguns deuses gregos possuem protótipos
egípcios. O deus grego Hermes, por exemplo, tem seu
equivalente em seu primo próximo, o egípcio Toth, tanto que,
quando da helenização do Egito, a partir do século 4 antes de
Jesus Cristo, os dois eram um só.
O Egito enfrentava a morte não sem um certo medo, mas
com a certeza da vitória. Isso constitui, de fato, a originalidade
dessa cultura. Grande parte das atividades políticas, sociais e
religiosas desse povo girava em torno do tema da morte. O

Egito fazia da conquista do além um verdadeiro empre­
endimento. Inicialmente, o privilégio de dominara morte era
exclusivo dos faraós, considerados representantes de Deus na
terra. Depois, a partir do fim do Antigo Império, essa prática
se democratizou. O Egito apresentou uma das primeiras
tentativas de balizar o percurso da alma depois da morte.
Tratava-se de delimitar a morte, de fazer triunfar a vida sobre
a morte. Nas tumbas, junto aos corpos mumificados, os
egiptólogos encontraram grande número de exemplares do
famoso Livro dos M ortos. Segundo a crença, esse livro indica
ao viajante do além as fórmulas que lhe permitem triunfar nas
provas que o aguardam antes de atingir a imortalidade. A
primeira noite depois da morte conduz o morto rumo à luz da
manhã, após uma jornada que, a exemplo do périplo noturno
do deus Rá, tem a duração de doze horas. O livro é um conjunto
ilustrado de fórmulas de poder e de cenas cujo objetivo é
permitir ao interessado evitar aquilo que ele temia acima de
tudo: a segunda morte. Nessa espécie de drama ritualístico, o
morto se vê confrontado por visões. Um a um, ele se identifica
aos deuses ou ao seu próprio medo de desaparecer, aludindo,
assim, à dualidade do ser humano.
Primeiramente, a alma cruza o portal da morte que leva ao
além. E, então, ofuscada pela “plena luz do dia ”. Notem aqui
que o lugar da luz do dia é, paradoxalmente, o além. A
propósito, o verdadeiro nome do Livro dos Mortos é “Saída
para a Luz do Dia”. Do mesmo modo, o deus Osfris, soberano
desse mundo, porta o título de “Sol dos Mortos”, como se a
esfera realmente desejável para o homem fosse esse reino. A
alma, ao retomar sua consciência, sente uma atração irresistível
por seu corpo, para o qual se volta. Entretanto, as entidades a
afastam do túmulo. Ela vai, então, atravessar uma região de

trevas, que a leva, depois de múltiplas peripécias (dentre as
quais um combate com a serpente do mal, Apófis), até diante
de Osíris, o deus bom e perpetuamente regenerado, que triunfa
eternamente sobre a morte. A morada do rei do mundo inferior
éA m enti ou País do Ocidente. Nesse país, encontra-se também
o Duat. Um lago de fogo e os campos de fogo que cor­
respondem ao inferno estão situados nele.
Ali, o morto glorifica Osíris, do qual emana um poder
extraordinário de redenção e salvação. /Osíris é o deus
sacrificado e desmembrado, cuja esposa, Isis, reuniu suas
partes espalhadas, dando-lhe assim acesso à imortalidade.
Trata-se de uma espécie de prefiguração do Cristo. Em
seguida, o morto comparece ante o tribunal de Osíris, na
presença de doze dos principais deuses do panteão egípcio.
Na ordem de distribuição, são eles: Anúbis, o deus com cabeça
de chacal, guardião do portal e guia dos mortos; Hórus, com
cabeça de falcão, cujo olho é o único que pode contemplar a
luz diretamente; Isis, esposa de Osíris, e Néftis, sua irmã; em
seguida, Toth, o deus com cabeça de íbis, deus dos escribas e
da sabedoria; Maat, deusa da verdade-justiça, com seu
emblema, a pluma de avestruz... Quarenta e dois juizes
assistem à então célebre pesagem do coração do morto. A
estrela desse tribunal (como o leitor já deve ter adivinhado) é
incontestavelmente Osíris, diante do qual ergue-se a balança
da justiça. No topo de seu eixo, zelando, vê-se um símio,
emblema de Toth.
Agora, deixe sua imaginação transportá-lo ao Egito antigo,
a fim de interpretar os símbolos. A pesagem do coração realiza­
se na presença de Maat, que representa a lei, a verdade
universal e a norma divina. Em outras palavras, a consciência

do morto (uma vez que o coração era tido como a sede da
consciência moral) vê-se confrontada com as leis e a ordem
universais. Um recipiente, no qual se encontra o coração ou Ab,
é colocado num dos pratos da balança. No outro está a pluma
de avestruz, símbolo de Maat. O coração deve ser mais leve que
urna pluma. Não é o que se diz da pessoa que possui uma
consciência tranqüila, que ela tem o coração leve? Toth faz as
vezes de escrivão; ele vai anotar os resultados do julgamento. Se
o morto é julgado digno, ele consuma a união mística com Osíris,
identificando-se assim com o deus. Deve também pronunciar a
confissão negativa de Maat e seus 42 preceitos.
A partir desse momento, uma nova vida, feita de liberdade
absoluta, começa para ele. Ele percorre o céu, a terra e o mundo
inferior, realiza uma viagem em companhia das estrelas, pode
se transformar à vontade em diversos animais ou plantas, e se
unir aos deuses. A viagem se efetua a bordo da barca do sol.
No caso em que sua culpabilidade fique estabelecida, ai dele!,
pois é devorado por Babai, o devorador, um monstro com
cabeça de crocodilo, corpo de leão e parte traseira de
hipopótamo. Em seguida, é lançado no nada, sofrendo a
segunda morte.
Os egípcios antigos acreditavam que o Livro dos Mortos
lhes fora ditado por Toth. Na verdade, ele contém numerosas
e extraordinárias verdades esotéricas, intencionalmente veladas
aos profanos. O morto declama, por exemplo, a seguinte
invocação, tida como capaz de atrair para si a assistência dos
grandes deuses:
“Eu sou o Ontem, Eu sou o Hoje, Eu sou o Amanhã. Através
de m eus m uitos nascim entos, Eu perm a n eço jo v em e vigoroso.
Eu sou a Alma Divina e misteriosa que, outrora, criou os deuses

e cuja essência oculta nutre as divindades do Duat, do Amenti e
do Céu. Eu sou o govern a n te do Oriente, Senhor das duas fa ces
divinas. M eu esp len d or ilu m in a tod o ser ressuscitado que,
enquanto passa no reino dos m ortos p or transfonnações sucessivas,
busca penosam ente seu cam inho através da região das trevas.
Em verdade, eu sou Rál
E, em contrapartida, Rá é eu!"
Alguns autores acham que esse livro descreve iniciações.
Aqui se acha o elo sutil que une, desde a mais remota
Antiguidade, a escatologia e a iniciação, tanto que a morte foi
denominada A Grande Iniciação. Por ocasião de sua descoberta
pelos egiptólogos, o caráter quase irracional desse livro levouos a considerá-lo como um sinal da esquizofrenia de seus
autores. E verdade que a abundância de suas imagens,
simultaneamente mágicas e mitológicas, consegue chocar a
mentalidade racionalista. De fato, ele funciona quase como um
sonho; a maior prova disso é que o morto assume, no drama,
várias características diferentes e contraditórias. Ele descreve,
portanto, um outro modo de se apreender “a verdade”, pela
face oculta do real. Não se poderia ver, aliás, em todos os
personagens e deuses do drama as diversas faces da mesma
pessoa falecida?
Cada deus ou neter representa um grande princípio ou uma
grande força do universo material ou espiritual. Sugeriria o
Livro que o morto, depois da passagem, une-se a essas grandes
forças, num casamento cósmico?
A morte, para os egípcios, consistia na separação de três
partes principais constituintes do ser humano: o B a ,

representado na forma de um pássaro e que pode ser
comparado à nossa alma; o K a, considerado como o duplo do
morto; e o K hat, que representa o corpo psíquico. De dia, Ba
assume diversas aparências e, à noite, retorna ao túmulo. As
superstições levaram o povo a crer que Ka, cuja tumba era
chamada de “a casa de K a ”, precisava ser alimentado. Mas a
verdade é um pouco mais complicada que isso. Entre Ka e Ba,
existe Khaibit, sombra e substrato dos desejos elementares, das
paixões animais, dos vícios... (a “lixeira do inconsciente” dos
psicanalistas). Em razão de seu estado negativo, Khaibit corre
o risco de ser destruido, devorado no além. Ele se manifesta
sob a forma de um fantasma, o involucro ou a concha vazia
dos cabalistas.
Acima
de Ba, a alma, vem o espirito santificado {IafyJm ou
y
K hu). E o atributo do iniciado que habita os campos da paz na
companhia dos deuses, longe dos lugares de perdição. Mais
acima ainda, está Sahu ou o corpo glorioso. Redenção da matéria
e do corpo material do morto, ele representa o supra-sumo da
espiritualização do falecido. E assim seria a estrutura
escalonada do ser humano. Os egípcios, todavia, mencionavam
ainda dois princípios muito importantes: o nome mágico ou
Ren e o poder mágico ou Sekjiem. Esquecer o nome significava
meter-se em apuros no além. Conhecer o nome de um espirito
ou de um deus significava ter poder sobre ele.
Iakhu, Sahu e Ren não correm o risco da segunda morte,
pois residem no amago de Osíris. Vale observar que o espirito
santificado constitui o produto da purificação ritualística do
falecido. Em outras palavras, de sua conduta moral e reta.
Assim sendo, para o egípcio de então, determinadas partes de
seu ser estavam sujeitas à segunda morte ou aniquilação,

enquanto outras estavam destinadas à imortalidade. Aqui,
estamos bem longe dos conceitos atuais relativos à passagem,
que implicam o desaparecimento do ser humano total. Assim,
comparemos essas concepções com as idéias relativas ao
Julgamento Final nas religiões monoteístas. O Apocalipse de
João fala de um julgamento separando os bons dos maus, os
justos dos ímpios, etc. Se, em lugar de dividir a humanidade
em dois campos, considerássemos a possibilidade de o bem e o
mal pertencer a uma mesma e única pessoa, então a escatologia
tomaria uma forma totalmente diferente. A morte corres­
ponderia então à purificação de um mesmo ser, à separação do
joio e do trigo nele mesmo. Para garantir a eternidade ao morto,
os egípcios utilizavam conhecimentos quase mágicos ou
técnicos. Acreditava-se, por exemplo, que algumas conjunções
astrais contribuíam para rejuvenescer o faraó, dando-lhe acesso
a uma relativa imortalidade.
A prática do embalsamamento visava conservar o corpo, em
vista de sua possível ressurreição. Uma outra razão tinha origem
na seguinte crença: para preservar o Ka, devia-se conservar
ileso o cadáver. Antes de sepultar o cadáver, era preciso
embalsamá-lo, pois acreditava-se que somente um corpo
preparado podia ter acesso às “moradas e t e r n a s O corpo era
primeiro lavado e uma pequena incisão feita no abdômen
permitia retirar as vísceras. A massa cerebral era extraída com
a ajuda de um gancho introduzido pelas narinas. A caixa
craniana era, então, preenchida com resina líquida. Em seguida,
o corpo ficava macerando em natrão durante sessenta dias, e
depois os embalsamadores untavam-no com preciosas
substâncias odoríferas à base de ervas e resinas. Por último,
envolviam-no em bandagens de linho. Na hora de colocar o
corpo no túmulo, realizava-se o ritual chamado “abertura da

b o ca ”, que permitia ao morto alimentar-se no além, mas
principalmente recuperar o alento e a fala que davam-lhe a
chance de alcançar a felicidade eterna. O papiro contendo o
texto do Livro dos Mortos era, então, colocado entre suas mãos.
O historiador grego Heródoto explicou que a origem da
crença na reencarnação, que pode ser atribuída a alguns gregos
(pitagóricos, platonianos, órficos, etc.), estava no Egito. Alguns
estudiosos acham que a fé na ressurreição dos
corpos surgiu

3000 anos depois da crença na reencarnação. E preciso admitir,
porém, que as pesquisas atuais dos egiptólogos não permitem
confirmar essas afirmações. Com relação a esses aspectos,
portanto, temos de nos contentar com a tradição oral e aguardar
confirmações futuras.

A Grécia antiga
As convicções dos gregos acerca da morte desenvolveramse em duas, senão várias etapas, cujo ponto de junção está
situado aproximadamente no século 5 a.C. Por volta de 1.450
a.C., a Grécia foi invadida por um povo ariano vindo dos
planaltos asiáticos vizinhos ao mar Negro: os helenos. Desse
tronco comum, vieram os aqueus, os eolianos, depois os dóricos.
Esses povos tinham em comum o culto dos ancestrais e do
fogo sagrado, que também é encontrado entre seus primos, os
arianos da índia védica. Suas primeiras crenças eram que a
alma permanecia perto do corpo, após a morte. Ela permanecia
ligada à sepultura e nenhuma idéia de um vasto mundo
subterrâneo havia ainda germinado na mente deles. Os
ancestrais, chamados de dem ônios pelos gregos, depois, lares,
penates ou m anes pelos romanos, tinham de ser nutridos por
seus descendentes. Alimentados não de forma simbólica, mas

efetivamente, porque a família derramava leite e vinho no solo.
Às vezes, cavava-se um buraco ao lado do túmulo para fazer
com que o alimento chegasse até o falecido. Acreditava-se,
portanto, que a alma ficava contida na sepultura. Se porventura
uma vítima era imolada, sua carne era queimada a fim de que
nenhum ser vivo se banqueteasse com ela.
Uma das punições mais terríveis infligidas aos criminosos
consistia na privação da sepultura. O povo acreditava que a
alma, assim privada de um lugar fixo, perambulava a esmo,
aspirando em vão ao repouso, sob a forma de uma larva ou de
um fantasma. Não usufruía dos alimentos e das oferendas, e
se tornava malfeitora. Os espíritos chamados lares eram
considerados deuses. Aquele que tivesse vivido de maneira
correta era considerado benfeitor, mas o espírito que fora
malfeitor na terra continuava perturbador sob a terra. “Rendei
aos deuses manes o que lhes é d evid o;”, diz o romano Cícero,
“eles são hom ens que deixaram a vida; tenham -nos com o seres
divinos
Os antepassados não deviam ser negligenciados, porque
podiam se vingar e atormentar os vivos. O culto dos ancestrais
corresponde provavelmente à mais antiga religião do planeta,
visto que o encontramos quase que em todos os continentes,
embora com algumas variantes. Quando o ser humano
primitivo pensa na morte, ele a vê segundo aquilo que seus
cinco sentidos lhe ditam. Ele associa a alma àquilo que ele vê:
o corpo. Daí ele considerar sua segunda existência como
estando ligada à do corpo. Muitas vezes ele a associa, mais
exatamente, aos elementos imperecíveis do corpo: os ossos,
como, por exemplo, no xamanismo. Logo, a alma é aqui
considerada como semi-material.

Do mesmo modo, ao tomar consciencia da morte e de urna
possibilidade de imortalidade, a criança muitas vezes associa
esta última ao local da sepultura. A prática atual de ir aos
cemitérios e a necessidade de encontrar-se com os mortos num
lugar fisicamente circunscrito representam uma sobrevivência
desse culto dos mortos. Na Grécia, somente mais tarde, com o
desenvolvimento da consciência e a contribuição de iniciados
como Orfeu, a noção de uma dimensão invisível da existência
tomou forma no pensamento humano.
O culto dos mortos entre os primeiros gregos, assim como
entre os arianos da índia védica, estava ligado ao culto do fogo.
Vesta, Héstia e Agni tornaram-se a personificação do altar do
fogo sagrado. Tratava-se de uma sobrevivência provável e
idealizada do respeito quase religioso que o ser humano préhistórico devotava ao fogo vital, civilizador e, finalmente, moral.
O fogo da lareira simbolizava a presença dos ancestrais. Na
“E neida”, Heitor diz a Eneu que vai dar a ele os penates
(ancestrais) troianos. Na realidade, ele entrega-lhe o fogo da
lareira. Em outros momentos, ao invocar esses deuses, Eneu os
chama indiscriminadamente de penates, lares ou Vesta. O
gramático latino, Servius, explica que havia um costume muito
antigo de guardar os mortos dentro das casas e que foi desse
costume que os lares e os penates passaram a ser cultuados nas
lareiras. As gerações mais antigas dos arianos, segundo Fustel
de Coulanges, não tiraram seus deuses da natureza física exterior,
mas do próprio ser humano (ou seja, dos ancestrais). Foi somente
bem mais tarde que Zeus, Brahma e Indra passaram a ser
adorados como divindades externas ao ser humano.
Na “Odisséia”, através da narrativa da invocação dos mortos,
feita por Ulisses, encontramos um exemplo das crenças

interm ediárias entre o primitivo culto dos mortos e a
emergência da idéia de um reino subterrâneo. Ao partirem do
reino de Circe, a feiticeira, Ulisses e seus marinheiros precisam
viajar até as portas do inferno, para ali invocar a sombra do
divino Tirésias. Circe indica-lhes o caminho a ser seguido, na
forma de uma sucessão de passagens iniciáticas: para chegarem
ao Hades, precisam atravessar vários rios e outras fronteiras
míticas —Aqueronte, Piriílegeton, Stix, Cócito (em alguns
textos, trata-se do Letes). Ali, têm de cavar um buraco e fazer
três libações, de vinho, leite e água, enquanto invocam os
mortos. São aconselhados a sacrificar uma vaca, um carneiro e
uma ovelha negra. Então, da terra saem as sombras, atraídas
pelo cheiro do sangue. E lhes pedem funerais e uma sepultura
como a de Elpenor, velho companheiro de Ulisses. Aquiles
chama esses habitantes de “povo extinto”. Numa outra
passagem, Circe os chama de “cabeças sem forças”. Por sua
vez, Tirésias chama o Hades de “lugar sem doçura”. E todos
os mortos atormentam Ulisses no tocante ao destino dos vivos,
como se o ignorassem. Adormecidos, parecem ter fome de
informações sobre os que vivem sob o sol. Dentre os mortos, o
iniciado Hércules possui posição especial. Ulisses se dirige à
sua sombra, enquanto o verdadeiro Hércules está feliz na
morada dos imortais. Vemos aqui a distinção entre a alma e a
sombra, à semelhança das crenças egípcias.
Hércules, respondendo às perguntas de Ulisses, recordalhe o último dos trabalhos que Oristeu lhe impusera: a captura
de Cérbero, o terrível guardião das portas do mundo
subterrâneo. Cérbero é um cão de três cabeças. Para dominálo, Hércules primeiro teve de participar nos mistérios de
Eleusis, a fim de se purificar. Em seguida, escoltado ao Tártaro
por Hermes e Atenas, ele se defrontou com Caronte, o

barqueiro, que o ajudou a cruzar o Stix. Depois de várias
peripécias, encontrou-se com Perséfone e Hades, os senhores
do lugar. Sob a orientação de Hades, Hércules conseguiu enfim
capturar Cérbero, usando apenas as mãos nuas. Assim,
conseguiu atravessar novamente o Stix, arrastando consigo os
despojos do guardião. O décimo segundo trabalho de Hércules
corresponde a um mito que, como aquele do Livro dos Mortos
egípcio, transmite um mapa simbólico do reino subterrâneo e
das “criaturas” que o povoam. Pode também descrever uma
fase precisa da iniciação do protótipo do iniciado que Hércules
representa.
Foi provavelmente graças ao despertar da consciência
humana, de sua maior compreensão da alma, que as idéias
relativas a um reino invisível e mais vasto apareceram na história.
Um império sombrio e vago, situado sob a terra, cedeu lugar a
noções morais orientadas por uma justiça cuja sanção tanto podia
ser o paraíso ou campos elíseos, como o tártaro ou érebo.
As mitologias gregas e romanas narram a viagem ao Hades,
empreendida por vários heróis. Além de Ulisses e Hércules,
Eneu, Psiquê, Dionisio e Orfeu também tentaram a terrível
aventura, e, em cada narrativa, uma lição é passada ao leitor.
No mito de Orfeu, por exemplo, o herói parte em busca de sua
jovem esposa, Eurídice, morta pela mordida de uma serpente.
Mas Hades (palavra cujo homônimo significa, de modo
eloqüente, in visível) impõe, como condição para a restituição
de Eurídice, que Orfeu, seguido de sua amada, em momento
algum olhasse para trás a fim de vê-la, enquanto não estivesse
de volta ao mundo da luz. O infeliz, porém, não consegue
resistir à tentação e ousa contemplar aquilo que é proibido aos
vivos; e perde Eurídice para sempre.

Como não relacionar essa alegoria com a desventura da
mulher de Lot, cuja história o Antigo Testamento hebreu nos
conta ? Quando destruiu Sodoma e Gomorra, Deus salvou Lot
e os seus. Uma única proibição: não olhar para trás durante a
fuga, para ver a destruição das cidades. A esposa de Lot
quebrou o tabu, ousou espiar o poder divino em plena ação e
foi, então, irremediavelmente transformada em coluna de sal.
Alguns escritores, dentre os quais o romano Vigílio,
deixaram-nos uma descrição exata das crenças dos gregos
acerca do reino dos mortos. O império era governado por
Hades ou Plutão (que significa “o rico”), cuja cabeça era coberta
por um capacete capaz de tornar invisível quem o usasse. Plutão
roubou sua companheira, Perséfone, de sua mãe, Deméter,
deusa das colheitas. Seus domínios compunham-se de várias
regiões, dentre as quais o Tártaro e o Érebo. Descia-se até ele
por uma estreita passagem que levava à confluência do Cócito,
rio das lamentações, e do Aqueronte, rio das aflições. Um
barqueiro, Caronte, levava as almas dos falecidos até a outra
margem. Por esse serviço, cobrava um preço: dentro da boca,
sob a língua, deviam trazer uma moeda, o óbolo, e as almas em
questão tinham de ter sido sepultadas. Caronte, o velho
barqueiro imortal e avaro, as conduzia, então, até o portal do
Tártaro, guardado por Cérbero, o cão de três cabeças. O
molosso deixava entrar qualquer um, mas nunca deixava
ninguém sair. E também interditava o acesso aos vivos. Em
sua chegada no invisível, as almas se confrontavam com três
juizes: Eaque, Radamante e Minos. Os três pronunciavam a
sentença, condenando as almas aos tormentos ou dando-lhes
acesso aos Campos Elíseos. Os heróis que foram recebidos vivos
no invisível, antes de retornarem à luz do sol, tinham de se
banhar nas águas do rio Letes, o rio do esquecimento. Aquele

que bebia ou se banhava no líquido maravilhoso era invadido
pelo torpor do esquecimento desse mundo espiritual. Mais
tarde, Platão, dissertando sobre a reencarnação, usou essa
passagem do mito para explicar o esquecim ento das
encarnações passadas.

entanto, reporta a intervenção do iniciado Orfeu, oito séculos
antes. Foi ele quem preparou o terreno para essas idéias mais
tardias, que evoluíram à sombra das antigas escolas de mistérios.
Não obstante, cinco séculos antes de Jesus Cristo, começou a
surgir a idéia da natureza imaterial ou espiritual.

O Tártaro e o Érebro eram povoados, além das almas dos
mortos, por certo número de habitantes míticos. As Furias ou
Eríneas, executoras da justiça, puniam os culpados. Tanatos, a
morte, e seu irmão Hipnos, o sono, habitavam o reino de onde
os sonhos ascendiam até os homens. Os gregos já sabiam
diferenciar entre os sonhos ditos iniciáticos e os outros. Para
eles, os primeiros, verídicos, passavam pela porta de chifre, ao
passo que os outros, mensageiros, usavam a de marfim. Cronos,
o destronado pai de Zeus, governava os Campos Elíseos. Esses
constituíam o local de todas as delicias, de onde os habitantes
podiam escolher renascer na terra. Não longe dali, ficavam as
Ilhas Venturosas. A elas só tinham acesso os que, nascidos três
vezes, mereceram por três vezes os Campos Elíseos.

O poder dos filósofos aos poucos se impôs na cidade. Um
dos que melhor desenvolveu o problema da morte foi, sem
dúvida, Platão. O tema situa-se num ponto central de sua obra,
na qual ele aborda os problemas do suicida, da pena de morte,
da recompensa post-m ortem , do julgamento das almas, da
reencarnação... Platão, para se exprimir, lança mão do mito,
como o de Er, soldado deixado para morrer durante doze dias
(livro 10 da “R epública”). Ele põe em cena os diálogos e faz
uso do raciocínio filosófico, como em “P hedo’\ para abordar o
problema da alma e de seu destino final. Para ele, a meditação
sobre a morte, a própria morte e o preparar-se para morrer
constituem a missão central do filósofo: “Todos aqueles que, no
sentido correto do termo, vinculam -se à filosofia [não têm ] outras
ocupações senão m orrer e serem m ortos” (“P hedo”). Não obstante,
Platão, pelos lábios de Sócrates, declara-se contra o suicídio e
cita uma frase dos mistérios: “Nós, humanos, estamos numa
espécie de crech e e não tem os o direito de nos liberar p or nós
mesmos, nem de evadirm o-nos d ela ”.

Neste ponto, pode ser útil fazer uma comparação entre os
mitos gregos e os egípcios. Neles, encontramos sempre um
condutor-guardião do reino: Anúbis, com cabeça de chacal, e
às vezes Toth, com cabeça de íbis, no Egito; a dupla CaronteCérbero, na Grécia. Algumas vezes, aparece a figura de Hermes
como psicopompo ou guia das almas. Nos dois casos, a alma é
julgada e enviada ou para o inferno ou para um lugar de
delícias. Assistimos aqui ao despertar da consciência moral nos
seres humanos. Os especialistas concordam em aceitar que foi
por volta do século 5 a.C. que ocorreu, na Grécia, uma oscilação
entre o culto dos mortos, as noções de reino subterrâneo e as
idéias mais sutis que acabamos de comentar. A Tradição, no

Mais adiante, Platão oferece uma definição filosófica para a
morte: ela nada mais é que a separação da alma e do corpo.
Para ele, o corpo contribui para o obscurecimento do
verdadeiro conhecimento. Desse raciocínio decorre que esse
conhecimento fica inacessível ao homem, por causa da união
do corpo com a alma no curso da vida. E a ele só retorna depois
da morte. E por isso que o verdadeiro filósofo platônico, que
faz tudo que é lhe possível para alcançar a sabedoria,

emancipando-se da escravidão e da prisão do corpo, ri da morte.
Na verdade, a morte pode realizar suas mais caras esperanças.
Essa grande iniciadora dar-lhe-á acesso ao pensamento puro,
ao mundo do belo, do bom e do bem, sem cisão ("P hedo”). A
morte corresponde, portanto, a uma purificação do pensa­
mento, no sentido dado pela tradição órfica.
Em sua demonstração da imortalidade da alma, Platão
desenvolveu o tema da reencarnação: "Existe uma velha tradição
a que já fiz em os m en ção: que, daqui, as almas são levadas para
baixo (para o Hades) e que é de lá que, uma vez mais, elas vêm
para cá, nascendo a partir dos que morreram ”. Justifica ele, assim,
a imortalidade e o nascimento a partir dos contrários. Dos vivos
vêm os mortos e dos mortos os vivos, do mesmo modo que o
belo vem do feio e o grande do pequeno. Habilmente, ele
compara o viver ao estar acordado, e o estar morto ao estar
dormindo. Com isso, Platão opõe a morte, na qualidade de
estado, à vida. Ele não a concebe como uma passagem, em
cujo caso ele a teria oposto ao nascimento. Para ele, o inverso
do nascimento reside no ato de morrer. E acrescenta: “Se os
vivos produzem os mortos, logo, destes devem nascer outros homens,
sob pena de que, no fim , tudo se congelasse na in ércia ”. Em
seguida, aborda o destino da alma após o falecimento. Aquela
que, em vida, sentiu-se atraída pelo invisível e pelos valores
elevados da vida encaminha-se para aquilo que lhe corres­
ponde, “para o que édivin o, im perectvel, sábio, para a m eta onde,
um a vez alcançada, p od e ela enfim ser fe liz ”. Inversamente, a
alma que foi corrompida na terra e cultivou somente o gosto
pela matéria, o luxo e as posses, ao ponto de nada mais ter
como verdadeiro, fica retida na terra e vaga junto aos túmulos.
E puxada para trás, para o lugar visível, por medo da região
invisível do Hades.

Neste ponto, é tentador abrir um parêntese: na aurora da
humanidade, os seres humanos acreditavam que as almas
moravam sob a terra, junto aos túmulos. Ao ler Platão, poderse-ia perguntar se o nível baixo da consciência de então, que
impedia de imaginar dimensões mais sutis, não obrigaria as
almas a ficarem, depois da passagem, em contato com o único
mundo que elas adoravam: a terra e o corpo que haviam usado.
Semelhante atrai semelhante.
E Platão prossegue: quando as almas renascem, são atraídas
para corpos cujos hábitos têm formas correspondentes às suas
afinidades —formas de asnos, lobos, falcões e, para outras,
formas de abelhas, de formigas; para as melhores, formas
humanas; e, finalmente, de deuses, para as mais puras. No
Bardo Thõdol, o Livro dos Mortos tibetano, também há uma
referência a seis possibilidades de reencarnação segundo a
existência vivida: ser infernal, ser ávido ou passional, animal,
demônio, humano e deus.
É difícil determinar se Platão ensina positivamente a
metempsicose (o retorno da alma em um corpo animal) ou se
ele se contenta em comparar as qualidades humanas às
qualidades animais. Essa comparação entre humano e animal
era freqüente nas tribos qualificadas de primitivas, da África
ou da América. Cada tribo tinha seu animal totem, símbolo da
alma daquela sociedade. Muitas vezes, o próprio indivíduo
ocultava um ser interior que podia ser representado por um
animal que aparecia para ele em sonhos. Platão, por exemplo,
compara o indivíduo que pratica a temperança e a justiça apenas
por um hábito desprovido de qualquer reflexão filosófica, a
uma abelha ou a uma formiga, em função de sua característica
de inseto altamente socializado.

Quando Platão discorre sobre o devenir da alma após a
morte, segundo aquilo que lhe era caro durante sua estada na
terra, será que devemos tomar ao pé da letra suas descrições?
No final de “P hedo’\ após sua descrição dos mundos do além,
considerados como terra superior e mundo subterrâneo, ele
acrescenta uma valiosa, porém discreta, informação: "Sem
dúvida, nada conviria m elhor ao ser que reflete do que querer,
com toda sua força , que tudo isso seja m esm o com o lhe expus”.
Assim, longe de ser levada a lugares específicos depois da morte,
não seria a alma confrontada com suas próprias tendências?
Livre do corpo e seus sentidos, nenhuma outra influência
externa poderia distraí-la de seus próprios impulsos. Disso
decorre que a alma inclinada ao materialismo ou à luxúria seria
confrontada com a tortura que lhe acarretaria essa atração
centrada no eu e nos desejos. Esses não poderiam mais ser
satisfeitos por intermédio do corpo.
Inversamente, a alma orientada para a sabedoria, a virtude
e a espiritualidade, que, para serem satisfeitas, nada mais exigem
que uma imaginação inspirada, poderia se elevar às esferas
etéreas, sem que nenhum obstáculo se opusesse à sua ascensão.
A um mundo sombrio e fechado sobre si mesmo, opor-se-ia o
infinito do firmamento cheio de estrelas. Uma condição
centrada no medo, na inveja, na possessividade, no ódio, no
pessimismo, veria sua antítese na alegria, no otimismo, no amor,
na aspiração, no ilimitado. Veremos que o Bardo Thõdol ou
Livro dos Mortos tibetano aproxima-se dessas noções através
de um subterfúgio mitológico.
Nos mitos gregos, uma das regiões do Hades denomina-se
érebo. Esse setor corresponde tradicionalmente ao cone de

sombra que a Terra gera atrás de si. Projeção de sua própria
sombra em sua jornada ao redor do Sol, esse cone é tido como
representando um lugar de férias para as almas presas à terra.
Entretanto, devemos ver nele propriamente um lugar ou, antes,
uma condição, um estado da alma? A definição do érebo traz
em si mesma a resposta. O cone de sombra da Terra corresponde
àquele lugar que se desloca junto com o planeta e que nunca
vê a luz do Sol; é o local do eclipse da Lua, da Besta de mil
sortilégios. Descreve a condição espiritual dos que rejeitam a
luz ou sofrem a sua privação. Assim, a alma, após sua passagem,
sofreria as conseqüências das escolhas feitas na existência, até
que o véu das ilusões e dos hábitos de ação e pensamento fossem
retirados, quando então ela atingiria a percepção de sua
verdadeira natureza. Lá, explica Platão, "cada qual [obtém ] do
Ser proporcionalm ente ao seu m érito”.
Em "P hedo’\ ele intensifica sua exposição acerca da
escatologia, pondo em cena Sócrates, que acabara de ser
condenado a tomar cicuta. Por meio de seu costumeiro
procedimento do diálogo entre o mestre ilustre e seus discípulos,
ele expõe suas idéias sobre a alma, sua origem e seus fins últimos.
Ao término desse discurso, narra a execução e a morte
digníssima e plena de mestria desse guia extraordinário. Platão
parece dizer ali ao seu leitor: “O que te f o i exposto acerca da
m orte f o i a reflexão de um hom em que se sabia condenado. Ele se
apresentou sem m edo ante o portal suprem o. Mestre na vida,
ensinou a imortalidade da alma epartiu com serenidade, consoante
suas convicções. Podes, portanto, con flar em suas palavras”.
Da mesma forma, procedendo por alusões, ele coroa sua
obra principal, a "R epública", com um mito escatológico. A
"R ep ú blica ” descreve as convicções do filósofo acerca da

constituição de uma sociedade ideal. Ao término de uma longa
exposição, ele aborda mais uma vez o tema da morte para talar
da lei do julgamento post-m ortem das almas. Subentende ele
que a meta que as sociedades fixam para si mesmas e a
orientação das vidas humanas dependem do sentido que os
seres humanos dão à morte. Nenhuma coletividade pode
desenvolver um futuro durável se a alma não é julgada em vista
de valores ou leis transcendentes.
É o civismo que fundamenta toda realização humana, do
ponto de vista laico, e são as virtudes morais que dão o sopro
de vida ao civismo. Aquele que dita o direito não pode
eternamente esquecer a moral, sob pena de se tornar arbitrário.
Se o jurista se contenta com uma leitura puramente jurídica
da lei, a lei humana, não se satisfará com ela a longo termo.
Aquilo que subentende toda moral tem sua fonte na certeza
de que os atos e os pensamentos humanos são pesados em
vista de uma justiça imánente. Por esse motivo, Platão conclui
sua "República ’ com o mito de Er. Além disso, ele introduz a
história por uma dissertação sobre as recompensas que as
sociedades reservam aos justos e os castigos prometidos aos
perversos. Depois acrescenta: “Eles não são nada, nem p or seu
núm ero nem p or sua grandeza, em com paração com aquilo que,
depois da m orte, aguarda o ju sto e o injusto . Como se o direito
cósmico legitimasse o princípio do direito humano.
Entre outros filósofos gregos, também Pitágoras foi
sensibilizado pelo tema. Longe de considerá-lo como impróprio
ou como a obsessão de uma consciência mórbida, ele
aconselhava aos seus discípulos o exame cotidiano da
consciência. Ele os incitava a considerarem, antes de dormirem,
que cada dia podia ser o último e como era importante fazerem

um acordo consigo mesmos, para um exame da jornada que
findava. Ele foi um dos primeiros a estabelecer uma distinção
entre a alma e o corpo, e a descrever o périplo desta através da
morte, passando por uma purificação que a leva a se reunir à
sua família espiritual.
Mas para ele, a morte física representava o menor dos males.
Outra coisa era a morte espiritual. Quando acontecia de um
neófito de sua escola de Crotona deixar a comunidade, ou
quando um deles traía um segredo do ensinamento do mestre,
os outros discípulos faziam um túmulo no interior do
estabelecimento, como se a pessoa em questão tivesse morrido.
O mestre dizia: “Ele está mais m orto que os mortos, posto que
retom ou à vida funesta; seu corpo cam inha entre os homens, mas
sua alma está m orta; ch orem o-la ”.
Mais tarde, por volta de 100 anos antes de Cristo, Cícero, o
romano platônico, discípulo de Posidonius, um pitagórico,
discorreu amplamente sobre o tema. Foi ele quem declarou
que “filoso fa r éap ren d er a m orrer”. Para ele, filosofar consistia
em liberar a alma dos prazeres, dos afazeres públicos e privados,
e de tudo o que é sinônimo de atividade. Assegurava ele que
separar a alma do corpo significava, em última instância,
aprender a morrer. Numa obra onde retoma e adapta as idéias
de Platão, ele narra a lenda de Cleobis e Bitão, filhos de uma
sacerdotisa argiana. Todo ano, ela devia ir até um santuário
para participar num sacrifício. Num certo ano, porque a parelha
que a transportaria estava demorando a chegar, seus dois filhos
fizeram as vezes dos cavalos, atrelando-se, eles próprios, à
carruagem. A sacerdotisa chegou, sem problema, ao santuário,
graças ao esforço deles. Rogou, então, à deusa uma recompensa
para seus filhos, em razão da devoção de que haviam dado

prova. Pediu que lhes fosse concedida a maior felicidade que
um ser humano pode receber de um deus. Depois de sua
participação no festim, na companhia de sua mãe, Cleobis e
Bitão foram se deitar. Pela manhã, foram encontrados
mortos...

As Crenças Celtas
Não obstante os celtas e seus druidas não terem colocado
por escrito suas doutrinas sobre a morte, suas idéias eram
conhecidas por todos. A alma é imortal, a vida humana continua
depois da morte, e a alma simplesmente muda de invólucro.
Os mortos vivem uma outra vida no coração de um universo
diferente, e tanto assim acreditavam nisto que, segundo os
romanos, “os celtas levavam para os infernos ate regisUos de
com ércio e cobranças de dividas . Os celtas e os gauleses eram
famosos por seu desprezo pela morte, nenhum vazio se
assomando no horizonte de sua passagem na terra. Para eles, a
vida do outro lado do espelho era venturosa, sem inferno nem
purgatório. O outro mundo correspondia a um universo
paralelo, o Sid, termo que significa paz. Situava-se simbo­
licamente no extremo ocidente, numa ilha oceanica, la onde o
sol se põe. Mas imaginava-se também que a ilha estava situada
no norte do mundo, sendo a mítica Avalon, o País das Maçãs.
O paraíso celta denominava-se TirNa Nog ou Terra da Eterna
Juventude. O Sid, mundo perfeito, era geralmente descrito em
termos que lembram o paraíso dos muçulmanos. Tudo nele é
eternamente belo, venturoso, encantador, isento de doenças e
pecados. Nele, o leite, a cerveja e o hidromel correm livremente,
e jovens mulheres acolhem os que chegam. A barca de pedra
transporta os mortos, como o lendário Rei Arthur. Elas os fazem
atravessar o oceano, fronteira misteriosa entre os dois mundos.

Como a lendária Atlântida, que alguns escritores afirmam ter
sido a origem do culto celta, Avalon é uma ilha situada além do
oceano. E o Monte Branco ou G wenva, em bretão.
A Gênese, na forma concebida pelos celtas, fazia aparecer
quatro níveis do ser, através dos quais progrediam as almas em
sua evolução. O mais elevado, Keugan ou Círculo da Divindade;
círculo vazio, infinito, eterno e único, no qual nem os vivos
nem os mortos podem evoluir, mas Deus somente. No mais
baixo, ou seja, no começo de toda existência, achava-se Anwn,
o estado da descida no abismo, fonte das almas antes do início
de sua ascensão. Depois, a evolução prosseguia em Abred, do
qual fazia parte nosso mundo. Por fim, vinha o Mundo Branco
ou Círculo de Gwended. Este último constituía a meta suprema
da existência humana.
Alguns escritores declaram, abusivamente, que os celtas
acreditavam na reencarnação. Parece, contudo, que a questão
seja um pouco mais sutil que isso. Os celtas pensavam, de fato,
que o ser humano, após a morte, ocupava um outro corpo ou
o seu próprio corpo, mas num outro mundo paralelo, que não
tinha nada a ver com um reino de sombras. Sua visão era
decididamente otimista. Júlio César, como escreveu em sua
Guerra dos Gauleses”, achava que eles tiravam sua coragem
dessa convicção. Essa doutrina bem pode ser chamada de
m etensomatose, termo que, na prática, é mais aplicável na língua
moderna. O fato, porém, é que a linguagem acerca da morte e
seus conceitos está singularmente empobrecida em nosso
século. Mais um sinal de visível repulsa.
O escritor romano Lucano, dirigindo-se aos druidas,
escreveu-lhes: “C onvosco aprendem os que o destino do espírito

hum ano não é o túm ulo nem o reino das sombras. O m esm o
espírito, em um outro m undo, anim a um corp o e, se vossos
ensinam entos são exatos, a m orte é o m eio para uma longa vida e
não o fim " .
Não há aqui nenhuma questão de reencarnação num corpo
físico presente na terra, mas, sim, uma espécie de transmigração
da alma para algum outro lugar. No limite extremo, essa crença
se aproxima do cristianismo e da noção de ressurreição num
corpo glorioso, num reino transfigurado. Isso explicaria por
que as convicções cristãs puderam coabitar tão facilmente na
Irlanda ou na Bretanha com os antigos costumes celtas. Nos
textos irlandeses antigos, praticamente não há nenhuma
menção à reencarnação. No entanto, é justo acrescentar, mais
uma vez, que muitos autores acreditam que as crenças celtas
sejam parecidas com as dos pitagóricos.
Na Bretanha de hoje sobrevive um antigo costume: o da
macieira. A árvore, cujos galhos estão cheios de maçãs,
representa simbolicamente, no Dia de Todos os Santos, a
imortalidade. Ela lembra aos vivos os desaparecidos do ano.
Evoca também a Ilha de Avalon (Ilha das Maçãs), e o fruto
cortado perpendicularmente ao seu eixo faz aparecer um
pentagrama, símbolo do conhecimento. Um dos símbolos da
Franco-Maçonaria é o pentagrama com a letra G no centro,
que significa gnose ou conhecimento. A macieira parece sugerir
aqui que o verdadeiro conhecimento só pode ser alcançado no
além.
Entre os celtas antigos, todo ano, por volta de 1Q de
novembro, data do ano novo, as aléias cobertas, os túmulos e

os dolmens coloridos tornavam-se os pontos de contatos
privilegiados entre os dois mundos. Heranças de uma
antiqüíssima civilização do neolítico (os Thuata de Danann),
esses monumentos estão sempre relacionados aos mistérios da
morte e do nascimento. Usados como locais de sepultura para
os grandes chefes, provavelmente eram também locais de
iniciação. Não obstante os arqueólogos terem encontrado
tumbas de dirigentes celtas, tudo indica, conforme testemunhos
da época, que eles incineravam os corpos.
A festa do Ia de novembro ou Saman, entre os celtas, é outro
exemplo do ecletismo ou da capacidade de absorção de
tradições antigas de que o cristianismo nos dá prova. Com
efeito, foi essa festa celta que deu origem ao nosso Dia de Todos
os Santos e, em seguida, também ao Dia dos Mortos. Os anglosaxões, mais fiéis à idéia original, criaram o H allow een, dia em
que os vivos se fantasiam de esqueletos, bruxas e outros
monstros do gênero.
Na verdade, o que se percebe é que a maioria das culturas da
Terra instituiu um dia simbólico no qual os tabus relativos à morte
podem cair por terra. Os vivos ficam tão lado a lado com os
mortos que, mesmo em nossos dias, fazem-se comemorações
bem floridas que acontecem nos cemitérios, durante um dia e
uma noite. Isso é particularmente notável no México. Em alguns
lares, servem-se refeições aos mortos, mas o caminho que eles
vão percorrer, dentro das casas, é previamente delimitado através
de flores, a fim de que as raias do racional não sejam transpostas.
A Festa de Saman, entre os celtas, deu origem ao Todos-os-Santos
cristão, no século 9. Até hoje, nessa data, a cerimônia do leilão
das macieiras, em Plougastel Daoulas, simboliza o ponto de
contato entre os dois mundos.

Havia uma lenda sobre D agda, um dos principais deuses
do panteão celta. Via de regra, as lendas transmitem uma
sabedoria e um conhecimento dificilmente transmissíveis de
outro modo. O Dagda tinha três filhos, um dos quais chamado
Oengus. Um dia, ele decidiu repartir o mundo subterrâneo
entre seus filhos e ele mesmo, mas esqueceu-se de Oengus na
hora da partilha. Este, aflito com a injustiça da situação - mas
ardiloso, o velhaco - pediu um favor ao seu pai. Solicitou que
ele lhe emprestasse sua própria parte do reino durante um dia
e uma noite, justamente durante o período de Saman.
Inconsciente do artifício que o faria perder o seu bem, o Dagda
aceitou o acordo. Mas chegou o dia em que ele desejou
recuperar suas posses e foi ter com o filho. Estupefato, recebeu
uma negativa. Oengus lembrou-lhe que na noite de Saman,
período em que os vivos ficam lado a lado com os mortos, no
reino onde as sombras disputam com a luz, o tempo, a
ampulheta de Saturno, pára. Uma noite e um dia tornam-se,
então, iguais à eternidade. O Dagda, por causa de sua
ignorância e de sua ingenuidade, nunca mais recuperou o seu
bem. Essa lenda nos oferece um precioso tesouro que pertence,
porém, a um outro mundo.

O Bardo Thõdol
Seria possível escrever um livro sobre o tema da morte sem
evocar, ainda que brevemente, o Bardo Thõdol, traduzido
como Livro dos Mortos tibetano? Esse tesouro de texto foi
descoberto no século 14. É o reflexo de um ensinamento mais
antigo, atribuído aos mestres do budismo chinês presentes no
Tibete por volta do século 8. Trata-se de um livro cuja finalidade
é ser lido ao ouvido do morto, a fim de guiá-lo em seu périplo
através da morte. O objetivo declarado dessa tentativa visa

libertaro ser da cadeia das existências sucessivas ou, pelo menos,
orientar o espírito para a vida seguinte, da melhor maneira
possível. O núcleo do texto dirige-se principalmente aos
monges que seguem o darma ou ensinamento do Buda. Mas
os anexos servem para guiar igualmente os laicos.
Entretanto, como explicam os próprios lamas, o título da
obra não apresenta de modo algum a palavra “morto”. A
tradução mais correta seria: a Liberação do estado intermediário
através do ouvir; o termo bardo significando “estado
intermediário de consciência”. O objetivo perseguido consiste,
portanto, assim como o Livro dos Mortos egípcio, mas com
um método diferente, em orientar o morto para uma libertação
pelo reconhecimento da resplandecente luz da verdade. O
Bardo Thõdol escolhe o momento privilegiado da morte para
propor a obtenção dessa libertação, mas não faz uma oposição
entre a vida e a morte. Para a filosofia budista, nascimento e
morte ocorrem para nós de maneira contínua. Existem diversos
Bardos e o da morte é apenas um deles. Como explica o lama
Govinda: "Ele não éu m guia dos mortos, mas, sim, de todo aquele
que quer ven cer a m orte m etam orfoseando seu processo num ato
de libertação
Mas a comparação com o Livro dos Mortos egípcio cessa
aqui. Se, por um lado, os egípcios vêem na morte o momento
de um encontro com os neter ou princípios divinos, concebidos
literalmente como fatos, os tibetanos, por sua vez, crêem-se
confrontados com as ilusões e as potencialidades de seu próprio
inconsciente. Assim expressa-se o texto: “N obrefilho, não temas
quando ela se apresentar; porque és um corpo-m ente, produto de
tuas tendências inconscientes, não podes m orrer realmente, m esm o
que te m atem ou te fa ça m em pedaços".

Na verdade, embora o budismo seja inegavelmente uma
religião, uma vez que desenvolve formas externas comuns a
todas as religiões (escrituras sagradas, um enviado especial,
uma doutrina), ele recorre a concepções que se aproximam
muito da psicologia. O Bardo Thõdol não foge à regra, visto
que se interessa, em primeiro lugar, pelos conteúdos da
consciência humana. Isso ele o faz nos termos do budismo
mahayana (grande veículo). Em outras palavras, as tendências
inconscientes são visualizadas aqui em formas macrocósmicas,
simbolizadas por divindades bondosas ou coléricas. Mais
simplesmente, a obra divide-se em três partes ou estados
intermediários que descrevem a experiência post-m ortem . A
palavra “trespassado” faz alusão a esses três passos que o morto
deve cumprir.
1) Ele ajuda a reconhecer a essência luminosa do espírito.
Quando cessa a respiração externa e o alento de vida aflui no
canal central, aparece então a luz do conhecimento supremo,
chamada de corpo de vacuidade ou darma \aya. Essa luz está
vinculada a shunyata, o vazio ou natureza profunda do ser. E a
mais elevada experiência do Buda ou Ser desperto. Se o morto
reconhecer essa luz fundamental como sendo a natureza
suprema de seu ser, a qual transcende as ilusões, obterá a
liberação. Caso contrário, assistirá a uma experiência de um
nível inferior.
O texto recorre a formulações bem diferentes e eloqüentes
para descrever a passagem. Elas traduzem uma concepção,
em vários planos, do ser humano cuja consciência emerge aos
poucos: “A gora, eis o sinal de que o elem ento terra se transforma
no elem ento água; o elem ento água, em elem ento fo g o ; o elem ento
fogo, em elem ento ar; e o ele 7nento ar, em cojisaência ”. A intervalos

regulares, o lama lembra ao indivíduo que ele está morto,
partindo do princípio de que ele pode estar completamente
perdido e desvairado, vendo-se confrontado com sua nova
provação. Face a uma consciência fragmentada e desmembrada,
ele lembra-lhe a necessidade de vigilância e atenção redobradas.
“A contece muitas vezes de se estar angustiado no m om ento da morte,
a despeito de com o possa ter sido a prática da m editação”.
Na realidade, a luz perfeita se decompõe em três princípios:
masculino, feminino e mediano, que são a verdade em si, o
co n h ecim en to não obstru íd o e o co rp o d e va cu id a d e que
corresponde à união dos dois primeiros. Detalhes relativos à
fisiología da passagem são dados aqui e ali no Livro: depois da
parada da respiração externa, resta ainda um alento sutil no
corpo, que pode subsistir por três dias e meio, ao longo do
primeiro estado intermediário. Durante esse período, a mente
mergulha no esquecimento. Não obstante, aquele que lê o Livro
persiste na tentativa de fazer o morto reconhecer a luz.
O mais curioso é que os tibetanos afirmam que o morto
ouve aquilo que é lido para ele e que, apesar de ele perder a
consciência, as informações coletadas cedo ou tarde voltarão à
sua memória, como acontece no caso dos sonhos. Hoje, a
ciência moderna de fato admite que o último sentido que se
retira, quando uma pessoa morre, é a audição. Do mesmo
modo, aconselha-se os familiares a conversarem com as vítimas
em coma, uma vez que, embora aparentemente sem cons­
ciência, comatosos reanimados costumam relatar tudo o que
ouviram.
Diversas tradições que não são orientais explicam, como os
Tibetanos, que a separação entre a aJma e o corpo pode levar

de meia hora (o tempo de consumo de uma refeição, segundo
o Bardo Thõdol) a três dias. Uma imagem simples permite
explicar como um alento sutil pode continuar presente no corpo
depois da morte clínica: basta imaginar urna jarra. Depois de
esvaziada, sempre ficam algumas gotinhas do precioso líquido,
que vão se evaporando lentamente.
Sabemos hoje que num corpo abandonado pela alma resta
uma espécie de energia vital que continua atuando e que faz
unhas e cabelos crescerem. Os jivaros da América do Sul,
famosos encolhedores de cabeças, sabem muito bem que nas
cabeças encolhidas continuam crescendo cabelos por vários
anos, como se uma energia vital, parecida com a das plantas,
continuasse a atuar na cabeça reduzida. A observação lúcida e
objetiva de um cadáver mostra bem que a vitalidade retira-se
gradualmente. Primeiro, a tonalidade rosada da pele desaparece,
conforme o caso, em algumas horas. Em seguida, o tônus vai
enfraquecendo e os traços vão ficando cada vez mais fundos.
Esses sinais externos manifestam a retração gradual da energia
vital, cujas formas mais arcaicas continuarão mantendo algumas
funções em atividade.
Pode-se observar que as modalidades da atividade do ser
vivo, do ponto de vista da decomposição, vão sendo atingidos
em função de seu lugar no plano da evolução. As primeiras a
desaparecerem são as fases superiores da consciência. Em
seguida, vem o aspecto animal, composto de músculos, órgãos
e carnes. Só depois se decompõem os aspectos mais visíveis
(unhas, cabelos, etc.), que são os vestígios do estágio de
evolução da planta. Por fim, os últimos aspectos que conservam
sua integridade são os elementos minerais, ou seja, os ossos e
os dentes.

Ao longo dos dias em que o espírito se separa do corpo,
muitas tradições explicam que o morto fica vagando junto ao
cadáver, ele vê e ouve seus entes queridos se lamentando, mas
que estes não podem vê-lo nem ouvi-lo. Entretanto, esse
sofrimento dos familiares atrai o espírito para a terra. E por
esse motivo que os tibetanos desaconselham os parentes a
chorarem seus mortos.
2.
Se, no curso do primeiro estado intermediário do
momento da morte, a luz não é compreendida em sua
verdadeira natureza, surge então o segundo estágio inter­
mediário, chamado de “a verdade em si”. Nele, o morto se
confronta com a percepção de suas próprias tendências latentes.
Em síntese, o Livro diz o seguinte: "N obre filh o, v ê as visões
que se apresentam a ti; elas são a p ro jeçã o d e teus próprios
pensam entos, p recon ceito s e fantasm as. Elas m anifestam teu
próprio carma, que corresponde ao con ju n to dos pensamentos,
palavras e atos que manifestaste na terra. R econhece que essas visões
vêm de ti, e obterás a liberação”. E essas visões, tesouros do
budismo mahayana, manifestam-se primeiro sob a forma de
sete divindades benignas ou pacíficas, seguidas de sete
divindades violentas. Sua descrição é carregada de terror,
sangue, violência ou, ao contrário, de beleza, compaixão,
doçura. O interessado vê luzes e ouve sons, ou percebe raios
luminosos que podem lhe parecer aterradores. Os três
princípios de verdade, conhecimento e corpo de vacuidade,
supracitados, não deixam de lembrar certos aspectos da cabala
hebraica.
Aspectos puramente psicológicos do indivíduo, as sete
divindades opostas representam a projeção de estados de
consciência positivos e negativos. Mas a sabedoria aqui implícita

revela algo muito mais vasto, ligando o homem ao infinito por
intermédio de deuses que estão dentro e fora dele. O professor
C. G. Jung, em seu comentário sobre esse livro, captou
perfeitamente seu conteúdo psicológico: “O Bardo T hõdol
con tém um a filosofia que se dirige aos seres hum anos e não aos
deuses nem a seres prim itivos. Sua filosofia é a quintessência da
psicologia crítica budista e, neste sentido, pode-se dizer que ela é
um a reflexão extrema".
Em suma, que é que se passa depois da morte? A intuição
nos indica que ela se refere apenas o corpo e que alguns aspectos
da consciência subsistem. Contudo, na ausência do suporte
m aterial, com o quê essa consciência sutil poderia ser
confrontada senão consigo mesma? O Bardo Thõdol descreve,
portanto, certos aspectos da consciência, desconhecidos dos
materialistas. Tão vasta quanto o universo, sua fonte éshunyata,
palavra traduzida como “vazio”. Trata-se de um vazio rico de
imensas potencialidades, simbolizadas pelas divindades
benignas e violentas. Tal é o pano de fundo com que o ser
humano se confronta em sua morte, e o Bardo Thõdol explica:
“Todas essas formas são ilusões; procura ver além delas, busca
o absoluto, realiza a união entre o observado e o observador, senão
serás atraído por um mundo semelhante às tuas próprias
aspirações, para uma nova encarnação de sofrimento”.
3.
Caso a compreensão não seja alcançada, vem o terceiro
estado intermediário, denominado “devenir". Nele, o espírito
vai em busca de um corpo; mas ele é dotado de poderes
paranormais que permitem que ele se transporte para onde
seus desejos estão. Assim como acontece nas tradições grega,
egípcia, monoteístas, ele passa por um julgamento no tribunal
de Yama, a morte. O gênio bom do morto conta os seixos

brancos, que representam seus atos positivos, enquanto seu
gênio mau conta os pretos. Quando tudo está qualificado,
Yama é desencadeado, mas também ele é ilusão. O morto,
então, é atraído, como nos mitos platônicos, para os reinos
correspondentes à natureza de suas ações.
Há seis possibilidades de reencarnação segundo o budismo
tibetano, a cada uma das quais corresponde uma lu ­
minosidade: a terna luminosidade branca dos deuses, a
vermelha dos titãs, a azul dos humanos, a verde dos animais,
a amarela dos espíritos ávidos e a cinzenta do mundo dos
infernos. O Livro dá explicações de como evitar a encarnação
humana ou, pelo menos, como evitar a encarnação num reino
inferior.
Mas, neste ponto, uma legítim a interrogação parece
merecer surgir. O texto aparentemente muda de estilo. Seriam
as passagens referentes a encarnações nos reinos inferiores
acréscimos posteriores ou a deturpação de uma mensagem
mais elevada? Que chance de obter a liberação teria um
espírito humano encarnado, por exemplo, num cachorro?
Um outro animal de sua espécie iria ler para ele o Bardo
Thõdol no momento de sua morte, a fim de ajudá-lo? Não
seria apenas um modo de o clero dominar as consciências,
suscitando nelas o medo e fazendo total abstração do princípio
de evolução, patente em toda a Criação?
O Bardo Thõdol é um livro que se lê ao ouvido do cadáver,
enquanto for possível. Mas essa leitura deve ser feita durante
quarenta e nove dias. Um lama, então, senta-se no lugar onde
a pessoa costumava se sentar ou dormir, e invoca seu espírito
por meio de uma fórmula sagrada. A constituição do livro

seria o resultado de testemunhos dados por lamas passando
pela morte, que teriam transmitido sua experiencia a outros
monges, por telepatia.
A filosofía tibetana adm ite seis bardos ou estados
intermediários, sendo que somente os tres últimos são
vivenciados por ocasião do falecimento. São eles: o estado
intermediário do reino da existencia, o do sonho, o da fronteira
da meditação profunda, o estado intermediário da morte, o da
verdade em si e o do devenir. Assim são descritas todas as
fronteiras com que se defronta o ser humano no curso de seu
interlúdio consciente. Vemos aqui por que o sono é irmão da
morte, por que a prática da meditação prepara para a boa
morte, como o nascimento e a morte representam dois portais
opostos do mesmo mundo. Observar um deles significa, sem
dúvida alguma, obter informações sobre o outro.
A morte representa um tema familiar para o monge tibetano,
uma vez que, segundo o Dalai Lama, ele pratica diariamente
uma meditação sobre ela. Mircea Elíade reporta igualmente
que “a m editação sobre a im agem d e seu próprio esqueleto ou
diversos ex ercidos na presença de cadáveres, esqueletos e crânios
d esem p en h a m um p a p el im p o rta n te". Trata-se de tomar
consciência da impermanência e da fragilidade de toda
encarnação. Romper com o ciclo das existências dirigidas pelo
carma e retirar o véu de Maya, a ilusão da vida cósmica, são os
eternos objetivos do budismo tântrico que se pratica (ou se
praticava) no Tibete.
Os tibetanos possuem conhecimentos muito exatos no que
concerne aos sinais externos da passagem: à aproximação da
morte, a pessoa percebe o peso de seu corpo mais fortemente

do que o habitual, sente ressecamento na boca e nos lábios, o
calor abandona seu corpo e o espírito se ensombrece
progressivamente. Quando a vitalidade vai embora, o espírito
entra numa luz branca parecida com o nascer do sol. Em
seguida, a obscuridade envolve a consciência que se desvanece.
A respiração externa cessa. Assim como determinadas fases
alquímicas, a consciência passa aqui do negro ao branco e
depois ao vermelho, antes de mergulhar num sono relativo que
precede os três passos entrevistos anteriormente.
Mas a própria atitude do cadáver ensina os observadores.
Os calores que deixam o corpo começando pelas pernas e
retirando-se para a região do coração, são o sinal de uma morte
serena. Se o moribundo fica crispado, empedernido, os calores
do corpo deixam primeiro a cabeça e a parte superior do corpo,
antes de ir para o coração, e isto é indubitavelmente, segundo
os tibetanos, o sinal de um falecimento infeliz. Esses sinais
permitem, inclusive, prever se a encarnação seguinte será
favorável ou não.
Alexandra David Neel, em suas anotações de viagem, relata
que os tibetanos (ao menos os do início do século 20) prestam
m u ito pouca atenção ao cadáver. Os ricos, que podem pagar o
preço da madeira, são queimados sentados sobre ela. Algumas
partes do corpo podem ser guardadas, como os crânios. Servirão
depois como copos, que os monges usarão para beber nas
cerimônias ou mesmo como utensílios de baixelas para os iogues
das seitas tântricas. Os pobres, que não dispõem de meios, são
jogados aos lobos ou às aves de rapina. Danças em honra de
Shiva podem ser realizadas usando-se esqueletos. Tudo isso
descreve a impermanência de todas as coisas sob o sol. A roda
das existências prossegue na insensatez dos seres humanos que

investem na busca de mil quimeras. Esse almeja a fortuna, aquele
a conquista, aquele outro o amor de um outro ser humano. Que
importa esta existência, aos olhos de uma outra realidade? O
budismo explica que tudo isso é a caça de ilusões do indivíduo
que se compraz na sensação. Aquele que deixou de ser tolo situa­
se, como um observador, acima das sensações.
Todas essas imagens da morte mostram ao leitor ocidental
que os tibetanos têm um ponto de vista diferente do nosso. Sua
vida e sua psicologia não se desenvolvem a partir das mesmas
condições. E a própria Alexandra David Neel relativiza esses
costumes, cujo verdadeiro significado alguns tibetanos conhecem
apenas bem pouco: “Uma noite, para satisfazer e com prazer a um
am igo tibetano, degustei dois dedos de cerveja de m ilho servida num
crânio, à guisa de com un hão tântrica e de brinde ao gra n d e
Padmasambhava, mas não transform ei isto num hábito. Tudo isso
é tão p ueril em seu ingênuo esforço para parecer terrível!”
a

A índia
Assim como na Grécia, as concepções indianas acerca da
morte evoluíram ao longo da História. Os Vedas, textos dos
primeiros arianos, faziam pouquíssima referência ao tema.
Entretanto, sabemos que suas idéias eram bastante parecidas
às do culto dos ancestrais. Mesmo hoje, as práticas relativas ao
uso do fogo sagrado continuam tradicionalmente em atividade.
Por ocasião do falecimento do Mahatma Gandhi, por exemplo,
a chama que acendeu sua pira funerária foi acesa no fogo do
seu próprio fogão. Mas as concepções mais elevadas da índia
podem ser descobertas nos Upanishads, textos compostos entre
o sexto e o quarto século antes de Cristo. Mais próximo ainda
do pensamento indiano atual, o Bhagavad-Gita contém algumas

informações valiosas. Começaremos, porém, citando algumas
passagens do Mahabharata, epopéia particularmente popular
na índia.
Depois da morte de seus cem filhos durante o combate
contra os heróis Pandavas, o rei Dhritarashtra é consolado por
um sábio, nos seguintes termos:
"O que é criado acaba sendo destruído, o que se eleva volta a
cair.
A união traz a separação, a vida traz a m orte.
H eróis e covardes, todos estão destinados à morte.
Quando a hora vem, não se escapa a ela.
No com eço, as criaturas são não-existentes,
Em seguida, passam a existir,
Depois do quê, retom am à não-existência.
E isso motivo para te afligires? Acaso a aflição levar-te-á aos mortos?
A m orte não odeia, não ama, não poupa nem m esm o os deuses.
A vida é uma caravana cujo destino é a morte.
Não fiq u es aflito pela m orte dos heróis,
As escrituras destinaram -nos ao paraíso.
O tem po não poupa ninguém . O tem po cria,
O tem po destrói, nada perdura exceto o próprio tempo.
O corpo é com o uma casa, diz o sábio: ele se deteriora.
Uma só coisa é eterna. Da mesma form a com o o hom em
Tira um a roupa velha ou nova e veste uma outra,
O atman se desfaz de um corpo e tom a um outro.
E o carm a que traz a alegria ou a tristeza.
Quer desejem os ou não,
Vivemos segundo nosso carma.
Alguns m orrem ao nascer, outros, no prim eiro dia,
Alguns ao cabo de quinze dias...

Alguns joven s, outros adultos, outros velhos.
Seu carm a determ ina tudo. Assim o m undo éfeito .
De que adianta a fligir-se?”
Aqui, vemos apontar as doutrinas fundamentais da índia: a
doutrina de atm an , a alma individual mas inseparável de
Brahman, a Alma Cósmica; a idéia da reencarnação, da qual o
budismo se apoderou mais tarde, com algumas modificações;
e, finalmente, a doutrina do carma, a justiça universal que
sanciona os atos bons ou maus do ser humano durante sua
vida.

reinam odores nauseantes, cadáveres em decomposição,
espíritos sugando sangue. Um verdadeiro inferno, sim­
plesmente. Então, Yudhishthira, invadido pela compaixão
(certa vez ele se recusou a livrar-se de um cachorro),
anuncia que prefere ficar nesse lugar para reconfortar seus
irmãos. Como que por milagre, o véu da ilusão se dissipa;
sua extrema compaixão, o esquecimento de si mesmo, abrelhe a porta do paraíso. Então, os deuses e mesmo seus irmãos
e parentes surgem diante dele, resplandecentes de luz.
Explicam-lhe que seus atos bons propiciaram-lhe o acesso
à imortalidade.

Segundo a filosofia indiana, “dois pássaros (a alma suprema
e a alma individual), sem pre unidos e de nom es iguais, m oram
na m esm a árvore (o corpo); um (a alma individual) desfruta os
d oces fru to s da figu eira ; o outro (a alma universal) contem pla
com o um a testem unha” (wetaswatara Upanishad) Há também
o ego transitório em perpétua transformação, ojiv a , que é uma
emanação da alma individual. Na morte, a alma vai para um
paraíso ou para um lugar sombrio. "Sem sol, assim são os m undos
en voltos em cega s trevas, para onde, partidos daqui, vão todos os
que assassinam sua a lm a ”. (Isha Upanishad)
No que concerne o paraíso, o M ahabharata põe em cena a
chegada de um dos cinco heróis Pandavas, Yudhishthira, a esse
lugar de imortalidade. Mas antes de sua admissão, são-lhe
apresentadas as ilusões. Primeiro, seu principal e único inimigo
lhe é mostrado, o qual, para grande escândalo de Yudhishthira,
havia sido, ao que parece, admitido nesse reino de delícias.
Mas nosso herói não se deixa impressionar; insiste em ver seus
próprios irmãos. E, então, levado a um lugar sombrio onde

Os sábios da índia sempre se debruçaram sobre a questão
da morte. A Katha Upanishad explica que a reflexão sobre a
morte constitui um sum m um bonum . A Nachif^êtas, que o
interroga sobre a questão dos fins derradeiros do ser humano,
Yama, o deus da morte, primeiro se recusa a responder,
advertindo que a natureza da resposta é sutil. Depois, diante
da insistência do buscador, explica que há uma diferença entre
o que é bom e o que é agradável. O ser humano terreno busca
tão-somente o agradável, perseguindo a satisfação dos sentidos.
Ele, Nachikêtas, escolhera o que é bom, uma vez que estava
ávido de ciência. Ensinou-lhe, então, que a alma dotada de
ciência não morre nem nasce; não é morta nem mesmo quando
o corpo é morto. No momento da passagem, as almas supremas
e inferiores recebem a recompensa de suas
obras e entram na
a
caverna, a morada da alma suprema. E o lugar das trevas ou
da luz do sol.
Mas especifica-se que “aquele q u e com preen d eu a natureza
d e Brahman, qu e é desprovido d e sentido, d e form a , e d e tato; que
não dim inui, que é eterno, que é desprovido d e sabor e d e odor,

que não tem nem com eço nem f i m . .. escapa à boca da morte".
Inversamente, aquele que é desprovido de sabedoria não chega
à meta, mas desce novamente ao mundo.
. O triunfo da morte, segundo os Upanhishad, reside no medo
que ela inspira. Mas a vitória sobre ela e a obtenção da
imortalidade dependem do conhecimento da natureza real da
alma. "C onhecim ento e ignorância, aquele que con h ece essas duas
coisas ao m esm o tem po, pela ignorância transpõe a morte, p elo
con hecim en to desfruta da im ortalidade". A morte é o produto
da distinção que o espírito faz entre as coisas. "Para o hindu, o
que está aqui está tam bém lá, e o que está lá está tam bém aqui.
Vai da m orte à m orte aquele que v ê a diferença". A morte é
considerada como o resultado da Criação, em sua dualidade.
Numa espécie de gênese, explica-se: ‘‘Ele fo rm o u um desejo:
fa ça -se um outro eu -m esm oí Através de seu espírito, ele criou a
palavra; ele criou a união, isto é, o devorador, a m orte". Da
semente da morte brota o tempo.
No Brhihda Aranyaka Upanishad, um combate opõe os
deuses aos demônios. Os primeiros pedem ajuda à palavra, à
respiração, ao olho, ao ouvido e ao espírito. A cada vez, os
demônios os pervertem, fazendo aparecer o pecado na ação
dos deuses, ou seja, a paiavra má, os odores e as cores
desagradáveis, as idéias falsas... Então os deuses pedem socorro
à vida. Ela triunfa sobre os demônios e dissipa o pecado dos
deuses. Esse pecado é a morte, e a vida, que triunfou sobre a
morte, salva a palavra e a transforma em fogo; depois, salva o
olfato e o transmuta em vento. Prossegue com o olho, que se
torna sol. O ouvido transforma-se em regiões (o espaço?) e o
espírito, a lua. Como no cristianismo, morte e pecado estão
aqui interrelacionados.

Em outros textos, explica-se que, quando o pai está
morrendo, ele instrui seu filho a propósito da natureza de
Brahman. Depois, quando o pai sai do mundo, ele entra na
vida de seu filho. A vida do filho dá continuidade à do pai e,
por isto, o pai não deve ser visto como morto. Assim, para os
textos sagrados da índia, triunfar sobre a morte é unir seu
espírito ao ilimitado, sobrepujar o egoísmo e compreender que
a essência da vida é universal e sem fim.
O Bhagavad-Gita, um dos mais comentados textos da índia,
também fornece informações valiosas sobre a compreensão desse
povo. Ele põe em cena o diálogo entre o guerreiro Arjuna, um dos
heróis do Mahabharata, e o condutor de sua carruagem, o divino
Krishna, encarnação do deus Vishnu. Num dado momento do
diálogo, Arjuna pede ao seu instrutor para lhe mostrar sua forma
divina, aquela sob a qual nenhum ser humano jamais o
contemplara. Krishna, então, mostra-lhe uma forma feita de
doçura, amor, compaixão e luz. Essa é sua forma de criador e de
reconciliador, a qual terrífica e fascmaAtjuna. Depois, mostra-lhe
sua face sombria: a do destruidor. Essa é a face do espírito do
tempo, o destruidor dos mundos, a morte. Mas aqui a sabedoria
da índia rapidamente pressentiu que esse aparente horror
representava a forma de corroborar um desígnio mais vasto. Ele é
o destruidor que destrói os destruidores: o mal, a ignorância, que
incessantemente estendem seus véus de trevas. A esse respeito,
Sri Aurobindo, o grande místico indiano, assim comentou o
Bhagavad-Gita: “O nom e e a presença do Divino têm qualquer coisa
que verte no coração do mundo o contentam ento e a alegria. E o
sentido profundo que tem os disso que nosfaz ver, na fa ce sombria de
Kali, a fa ce da Mãe, e perceber, no âmago da destruição, os braços
protetores do amigo das criaturas; no âmago do mal, a pura e inalterável
bondade; no âmago da morte, o mestre da imortalidade".

O Bhagavad-Gita divide a humanidade em três grandes
grupos, cujos membros são governados por determinadas
tendências chamadas sativa, rajas e tamas. Sattva corresponde à
busca do conhecimento e da iluminação; rajas, à inclinação aos
desejos que levam a perder-se na ação; tamas tem a ver com a
ignorancia, a negligência e a ilusão. Depois da morte, cada uma
dessas tendências corresponde a um determinado apego que
levará o ser humano a se reencarnar. Se, na hora da dissolução,
o ser humano tem sattva dominando sua consciencia, ele volta
ao mundo sem mácula dos que contemplam os princípios
supremos. Se rajas predomina, ele se reencarna entre seres
obcecados pela ação, pela agitação, pela ganância. Quando tamas
é o pólo de interesse, ele retorna num ambiente cercado de
obscuridade. Mas se a alma eleva-se acima desses três modos de
existência, ela se liberta de toda sujeição ao nascimento e à morte.
Não passa mais pelas vicissitudes do tempo, da velhice e da
doença, e atinge a imortalidade.
Ao lado dos conhecimentos filosóficos desse povo, existem
costumes que mostram o pouco apego que eles sentem pelo
corpo abandonado pela alma. A prática da incineração e
“moeda corrente” nas margens do Ganges e em outros pontos
do país. Mas a cidade de Benares, cortada por esse rio tido
como particularmente sagrado, é o lugar preferido para
terminar uma vida. Multidões de idosos e doentes de ambos
os sexos vão para lá a fim de esperar a morte, por dias a fio...
ou mesmo anos, com o objetivo de morrer ali, naquele ambiente
santo. Enquanto o comum dos mortais é queimado nas
plataformas crematórias, os seres considerados santos ou os
recém-nascidos têm o corpo jogado, intacto, no próprio rio.
Não é raro ver ali cachorros agindo como chacais e se lançando
sobre os cadáveres que chegam perto das margens.

Ali, a morte não é escondida, ela faz parte do cotidiano. Os
cortejos atravessam as cidades, acompanhados pelo ritmo de
tamborins. As plataformas crematórias servem a todo mundo, a
tumba é provisória, mas guirlandas de flores são colocadas ao
redor de bastões de madeira; flores, claro, como símbolos de
imortalidade. Antes de ser incinerado, o corpo é lavado e depois
envolvido com seu.ozn ou com seu dhotti. Em seguida, é coberto
por um véu azul, para os homens, e vermelho, para as mulheres.
Após a cremação, as cinzas são jogadas no rio. A imersão na
corrente do rio traz uma promessa de imortalidade. É o melhor
meio de entregar o corpo à natureza. De vez em quando, pouco
antes da incineração, o crânio do defunto é quebrado a fim de
permitir que, segundo a crença, a alma escape.
No Ocidente há uma fascinação pelo corpo. O ser humano
está integrado ao seu corpo. Eis o porquê de, nos ritos
funerários, cuidar-se tanto desse invólucro. No Egito,
embalsamava-se o corpo, futuro suporte de uma esperada
eternidade. Nos Estados Unidos, hoje, assiste-se a um
ressurgimento dessa prática, mas chegando-se ao ponto de
expor o corpo, embalsamado e maquilado, sentado numa
poltrona, fumando um cigarro! E preciso conservar, da
pessoa, tudo o que se possa, pelo maior tempo possível. Na
Europa, a profissão de tanatopraticante é relativamente
recente. Quando a questão é tornar apresentável aos
familiares um corpo desfigurado por um acidente, não há o
que criticar; trata-se de compaixão. O corpo sem vida e
acidentado torna-se muitas vezes sinônimo de deformidade
insuportável. Mas, aos poucos, a profissão tende a se desviar
para a prática comercial do embalsamamento sistemático.
Contudo, embora seja difícil colocar-se acima de sua cultura,
convem observar, com lucidez, que nossas reações de rejeição

face a um corpo morto representam os frutos da semelhança
que estabelecemos entre esse corpo e o individuo. Para nós, o
corpo é a pessoa.
No extremo oposto, a índia negligencia esse mesmo corpo,
já que ele não passa de uma concha vazia que pode ser jogada
como pasto para animais. A alma, ou seja, a realidade do ser
humano, alçou vôo. Embora o Egito embalsamasse seus reis
mortos, não há nenhuma certeza de que os iniciados antigos
aceitassem esse procedimento. A posição dualista de Platão,
que foi iniciado no Egito, provavelmente proibia todo excesso
de culto ao corpo morto. Demonstrar veneração pelo corpo,
pela tumba e por todas as formas materiais que pertenceram
ao defunto eqüivaleria não a negar sua morte, mas a considerar
o desaparecimento das formas materiais como um fim total e
definitivo. A esse desaparecimento, a experiência mostra que
as sociedades procuram se opor, mantendo as formas em bom
estado, pelo máximo de tempo possível.
Há, no entanto, um caso em que o objeto material pode ser
útil; é quando ele permite manter viva a memória da pessoa.
As comemorações anuais, as fotografias, os objetos de
recordação, preenchem assim uma função de imortalidade na
memória dos vivos. Tudo depende da compreensão das pessoas
envolvidas e de sua atitude mental. E possível ligar-se a um
objeto tanto como se ele fosse o próprio morto ou simplesmente
como representando uma imagem dele. Em cada um dos casos,
a atitude assume um caráter diferente, gerando conseqüências
diferentes.
Ainda na índia, uma outra cultura reserva um final diferente
para o corpo. Os parsis, sobreviventes da antiga religião de

Zoroastro, constróem as “ torres do silêncio”. Nesses
monumentos a céu aberto, os corpos ficam expostos à avidez
dos pássaros de rapina e à agressão dos elementos. Quando
um doente falece, um de seus amigos vai buscar um cachorro.
Quanto mais perto do corpo o animal chega, considera-se que
mais o morto se aproxima da felicidade; ao passo que se ele se
mantém afastado, isto é visto como um presságio desfavorável.
Como no Egito antigo ou na Grécia antiga, o cão continua
sendo um símbolo associado à morte. Nessa religião do fogo, o
inferno não é considerado como uma fornalha, mas, sim, como
um lugar úmido e sombrio.

Crenças
e ritos africanos
/^

A Africa é hoje uma terra onde todas as concepções da morte
coabitam. As idéias de sobrevivência, im ortalidade e
reencarnação expressam-se ali das mais diversas maneiras. Mas
no que diz respeito a esse continente, é útil ser prudente ao se
apresentar seus costumes. Tanto pior para o espírito de
exotismo, mas os próprios africanos explicam que as práticas,
hoje, perderam muito de sua força. A sociedade consumista
ocidental está causando ali devastações que provocam uma
espécie de aculturação selvagem. Tudo o que se segue
corresponde a casos ideais de culturas.
O culto dos ancestrais é o ponto comum das maioria das
etnias animistas. Aliás, algumas práticas africanas muito
interessantes podem nos dar algumas informações sobre as dos
Pais da Europa, os gregos e os romanos, na época em que estes
compartilhavam o culto dos manes. Sabemos, por exemplo,
que o ancestral grego tinha de ser alimentado e mimado, sob
pena de vir perturbar os vivos e lhes trazer a morte ou a doença.

Do mesmo modo, entre os bantos africanos, o chefe da familia
é enterrado na casa e um tubo liga a superficie do solo à sua
boca. A familia pode, assim, fazer chegar até ele bebidas,
comidas e até pitadas de tabaco... Atualmente, o ato de nutrir
tornou-se uma prática simbólica na Asia, onde a familia coloca
um pratinho guarnecido sobre o altar dos ancestrais, mas
originalmente essa ação era real, como se constata na Africa.
No culto dos ancestrais, o morto é considerado como
fazendo parte de um mundo paralelo ao nosso. Para os fa n gs
do Gabão, os que cometeram o mal vão "errando na noite,
sofrendo e chorando, pois serão encerrados no Otolane, a morada
m alévola onde só se vêem m i s é r ia s Já os bons, ficam nas cidades
e voltam para junto daqueles que conheceram e amaram,
inspirando-lhes sonhos agradáveis e aconselhando-os.
Ensinam como viver por mais tempo, como se tornar rico, ter
esposas fiéis e muitos filhos.
Os vivos precisam conquistar as boas graças dos m ortos,
para não sofrerem a desagradável irrupção desse universo em
suas próprias vidas. O duplo do morto é temido; por isto,
costuma-se cortar seus membros ou decepar sua cabeça, para
impedi-lo de vir assombrar os vivos. Em certos casos, ele é
enterrado longe da cidade e rituais mágicos são realizados para
mantê-lo à distância. Não apenas a África procura se proteger
da sombra dos mortos; os chineses, que são muito supers­
ticiosos, explodem bombas, por ocasião de um falecimento, para
afastar os maus espíritos.
Apesar de desconfiar da sombra, o africano recorre de bom
grado ao ancestral em caso de problema. Uma vez que Deus é
considerado como estando muito distante do mundo e dos

interesses humanos, é preciso, então, dirigir-se a inter­
mediários. Os ancestrais estão lá para cumprir essa função
mais próxima do humano. Essa necessidade de medição é
encontrada por todo o planeta. As elevadas concepções de
Deus ou as filosofias em geral não satisfazem as populações,
que reclamam elementos mais compreensíveis, que tenham
relação com seu cotidiano e suas necessidades afetivas. O
culto dos santos no islã chiita ou no catolicismo traz Deus
para mais perto do ser humano. Muitas pessoas preferem
orar à Virgem Maria, que lhes parece mais humana do que o
Cristo, envolto em sua supra-humanidade. A necessidade de
relacionamento com o ancestral pode ser considerada desse
modo, o que não exclui uma possível comunhão verdadeira.
Na África, o luto é feito em branco e alguns chegam até a
cobrir o corpo com uma argila branca, para simbolizar o
mundo luminoso a que pertencem os ancestrais. Entre os
bantos, interrompe-se toda atividade sexual durante esse
período. G ritos, danças e cerimônias sucedem-se por vários
dias, afirmando o contra-ataque das forças da vida à morte.
Ela é sinônimo de corrupção, de pecado. Um ritual de
purificação perm itirá, então, que os casais se unam
novamente, algumas semanas depois do falecimento. Nessa
ocasião, a muiher pega a semente do homem em suas mãos e
a usa para limpar o pecado. A morte como que suspendeu o
direito à vida. Por esse rito, o poder soberano da reprodução
é restabelecido, a vida pode continuar por tudo e contra tudo.
Constata-se aqui a evidente ligação entre Eros e Tanatos,
pressentida no campo da astrologia, como também na
psicanálise. Há uma relação dialética sutil entre as forças da
geração e as da destruição, representadas simbolicamente por
esses ritos.

A origem da morte, segundo as etnias, viria de uma
desobediencia às ordens do Deus supremo. Entre os dogões, a
morte tornou-se fato quando o homem adquiriu a palavra
articulada. Assim, com o início da civilização e o acesso
progressivo à autoconsciência e à linguagem articulada que
lhe é concomitante, a consciência da morte tornou-se fato para
o ser humano. Mas os dogões explicam também que o ser
humano é o reflexo do universo, e vice-versa. Podemos, então,
estabelecer uma relação entre a palavra humana e a Palavra
macrocósmica, o Verbo de São João. A morte é o produto da
palavra, ou seja, é o produto do ato criador. Não pode haver
criação sem a dimensão do tempo, que permite seu desenrolar.
No mito grego, Cronos, o tempo, é o pai dos deuses. Ele
apresenta o incômodo hábito de devorar seus filhos, à
semelhança do tempo, que é o responsável pela morte das
criaturas. Um de seus filhos, Zeus, vai depois destronar seu
pai e lança-lo nas regiões inferiores. Acontece que, no mito, os
deuses —ou o reino espiritual —são preservados da morte, que
pode causar estragos somente na terra. A imortalidade é
possível, pois o tempo não mais atua sobre a Palavra primordial.
Esse mundo de forças invisíveis irrompe na vida dos
africanos, na ocasião de um falecimento, por intermédio das
sociedades mascaradas. Danças e rituais são então conduzidos
por homens pertencentes às sociedades secretas africanas. Esses
indivíduos ocultam sua identidade, que deve permanecer
desconhecida, sob máscaras. Essas simbolizam o morto, os
ancestrais e as forças espirituais da natureza... seus jogos têm
por objetivo ajudar o morto a ser vitorioso em sua passagem.
De enorme importância em todo o continente africano, esse
emprego da m áscara está presente também em todo o
continente americano, entre os índios. A própria Europa antiga
usava a máscara para estabelecer essa relação entre os dois

mundos, dos quais a morte e o nascimento representam os
pontos de passagem. A com m edia deli 'arte italiana, de certo
modo foi a distante herdeira dessas práticas.
Por razões financeiras ou ritualísticas (se alguns objetos do
ritual desaparecem, é necessário obte-los ou fabricá-los de
novo), os funerais podem ter lugar vários anos após o
falecimento do indivíduo. Um boneco representando sua figura
é então exposto aos olhos de todos. Durante oito dias, é proibido
pronunciar o nome da pessoa. O nome está associado à
individualidade. No Egito antigo, esquecer o Ren ou nome
mágico era sinônimo de estar correndo perigo; analogamente,
a perda do nome, para o africano, provoca a perda do fluxo
vital. Essa importância ligada ao nome parece sugerir que a
morte corresponde a uma transformação da individualidade.
Muitas outras culturas poderiam ser apresentadas. Mas os
pontos principais foram abordados, alguns, aliás, por
intermédio de uma única cultura, uma vez que são comuns a
várias. A tabela que se segue apresenta alguns dos pontos mais
evidentes, sem, todavia, pretender esgotar os assunto.

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Tabela comparativa das diversas correntes

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"P orq ue a natureza é tã o bela? Porque a essência oculta, que
é sua fon te, é jubilosa, e a beleza representa a expressão visível
desse jú b ilo secreto
Quando a questão da imortalidade do ser humano é
abordada em público, a reação que observamos na maior parte
do tempo consiste ou em ceticismo total ou numa crença na
imortalidade, aliada a um materialismo indubitável. Cada um
se aferra à sobrevivência de seu ser de acordo com a concepção
que dele tem no plano material. O público em geral muitas
vezes imagina que sua consciência terrena será conservada.
Na realidade, essa necessidade ou essa certeza não se baseia
num conhecimento real sobre o ser humano. Ante a pergunta:
“Que é você realmente?”, a maioria não sabe o que responder.
O sábios antigos sabiam tão bem o valor desse conhecimento,
que formularam esta frase: "C onhece a ti m esm o e conhecerás o
universo e os deuses
Quando uma pessoa aborda a questão da imortalidade,
geralmente deseja ter certeza dela, sem se interrogar sobre o
quê é realmente imortal, ou então prefere negá-la. Os sábios
budistas, por sua vez, explicam que o ego é uma ilusão; disto
decorre grande parte de sua compreensão do fenômeno da
morte.
A compreensão da morte ou da imortalidade depende da
idéia que fazemos daquilo que permanece imortal, isto é, do
eu humano. O homem se aferra ao seu eu humano, sem se dar
conta de que ele é, antes de mais nada, evanescente. Um
exemplo pode ilustrar a fugacidade desse ego.

Uma pessoa pode ter uma visão negativa a respeito de uma
outra porque esta outra, acredita ela, fez-lhe algum mal. Todas
as suas decisões e declarações sobre esse oponente serão, então,
marcadas por esse ponto de vista desfavorável. Mas no dia em
que a relação com seu oponente evoluir, porque então, de novo
segundo o que ela acredita, ele lhe fez algo de bom, os discursos
e as atitudes mudarão diametralmente. Onde está o eu
verdadeiro nesse caso? Nossos pensamentos são constan­
temente influenciados por nossas emoções. Se, por um motivo
ou outro, a emoção muda, o pensamento pode mudar também.
Que acontece, então, com a suposta rocha que somos?
Acreditamos, na maioria dos casos, que somos unificados,
quando, na verdade, freqüentemente não passamos de
marionetes nas mãos de emoções contraditórias e mutáveis.
Assim sendo, podemos nos perguntar: afinal, que significa a
imortalidade?
“Longe dos olhos, longe do coração”, diz o ditado popular.
Se conhecemos uma pessoa, o conceito que temos a seu
respeito é quase sempre em função do fato de ela nos valorizar
ou preencher nossas necessidades afetivas, ou, ao contrário,
nos frustrar. Mas se passamos um longo tempo longe dela,
guardamos na memória outros aspectos de sua personalidade,
pelos quais não nos interessávamos então. Nosso ponto de vista
pode assim mudar. Qual é o eu que muda constantemente
sem que nos demos conta? Qual é a personalidade que é, na
verdade, o joguete dos afetos do momento e dos eventos que a
afetam? O eu comporta-se muitas vezes como um camaleão.
Na realidade, o ego, como elemento imutável, não existe. Ele
apenas representa uma sucessão de instantes de consciência
em perpétua transformação. Isso significa, em outras palavras,
que ele possui uma natureza essencialmente mortal.

É certo que quando alguma coisa se transforma, no novo
acaba um dia não restando mais nada do antigo. O adulto que
você é hoje formou-se a partir do bebê de antigamente, mas
não existe mais nada desse bebê em você agora. Essa infância
morreu talvez dezenas de vezes em você, antes de se transformar
nisso que você é hoje. O elemento fundamental que dá a ilusão
de uma continuidade de consciência é a memória. Recordome de como eu era aos dez anos, logo, eu existia nessa época.
No entanto, cabe perguntar: “Que é que existia?”. Quando
uma pessoa se lembra de sua infância, na maioria das vezes ela
faz isto a partir daquilo em que se tornou, não a partir daquilo
que ela era naquela época. A prova disso é que raramente vemos
homens de sessenta anos se pondo a brincar, como os meninos,
de soldadinhos. O estado de espírito mudou, a consciência
não é mais a mesma. Falta o lado emocional. Mesmo que uma
mulher consiga se lembrar do tempo em que brincava com
bonecas, ela não consegue voltar a sentir de maneira tão intensa
as emoções da menina que ela foi. Se consegue, por que não
brinca mais com bonecas? A verdade é que o coração não está
mais ali; aquela menina está morta nela e ninguém pode
ressuscitá-la. O que chamamos de saudade dos tempos antigos
corresponde a uma cerimônia de recordação de todas as pessoas
que já morreram em nós. A memória nos dá a ilusão de que
somos hoje aquilo que fomos ontem, e que seremos amanhã o
mesmo que somos hoje; numa palavra, a mesma pessoa. Mas
basta que aconteça um acidente seguido de perda de memória
para que a vítima tenha a impressão de estar morta. Quando
lhe são mostradas fotos dela mesma, datando de alguns meses
antes, ela as trata como se tratassem de fotos de um estranho.
Perder acesso à memória de nosso passado é o mesmo que
morrer é isto o que nos ensina esse tipo de acidentados. Mas
para pessoas sadias, que nunca sofreram nenhum acidente, a

memoria dá a ilusão de que, desde o nascimento até o suposto
fim, elas nunca experimentaram a morte. Isso é falso e macula
nossa compreensão das coisas. Certamente, podemos presumir
que um indivíduo seja o mesmo ao longo dos anos, porque
sua ação manifesta certa continuidade. Entretanto, conseguimos
realmente recordar tudo o que sentimos, do ponto de vista
físico, intelectual, emocional e qualquer outro, por exemplo,
há dez anos? De modo algum. Conseguimos conservar as
linhas principais, nosso inconsciente ficou impregnado por
aqueles instantes, mas sempre faltará às nossas lembranças algo
que nos permita dizer: “eu sou”. E que, na verdade, cada
instante dos miríades de anos-luz que nos precederam é único.
A permanencia não é deste mundo. Se compreendermos que,
no curso de nossa vida, de fato vivenciamos várias mortes
progressivas, então, não teremos mais nenhum motivo para
temer a cessação das funções do corpo físico e a decorrente
transição da alma.
A esse respeito, Leslie D. Weatherhead, pastor e escritor
britânico, “morto” em 1976, assim se expressou: “Vocêé William
Tompkjns, p o r exemplo. M uito bem . Você é o W illianzinhoTompkjns-de-nariz-escorrendo, que f o i punido porque ch egou
atrasado na escola. Quer continuar m antendo sua identidade com
ele? Vocêé o Will Tompkjns que escreveu aqueles versos tem os e os
deslizou para as mãos daquela m ocinha de dezesseis anos, de tranças
louras. Quer se identificar com ele? Você é o William Tompkins
que f o i despedido p orqu e não f o i capaz de explicar a origem do
dinheiro que v o cê recebeu em n om e da sociedade. Você vai fic a r
frustrado se ele sum ir do seu sentim ento de identidade? Você é o
W. Tompkjns que sofre de reumatismo articular, que tem a audição
fraca, a vista turva e um corpo que se tom ou um fardo. Faça essa
experiência: Repita, em voz alta, uma centena de vezes, "William

Tompkjns. .. William Tompkins... ". Im agine cem m il anjos ao seu
redor fazen do a mesm a coisa. E m esm o im portante que toda a
personalidade d e Tompkins se p erp etu e p o r cem , mil, dez mil,
cem m il anos? Uma vez e sem pre W. T.l 11 Nossa verdadeira
identidade nunca será perdida, o ouro puro do ego subsistirá,
purificado e fortifica d o" .
Mas por que essa acentuação posta na separatividade?!!
Intencionalmente, não uso nem mesmo as palavras “morte
física” para descrever o fenômeno, porque nosso próprio corpo
perde a maioria de suas células a cada sete anos, graças ao
processo do metabolismo. Isso significa que, fisicamente,
morremos regularmente de sete em sete anos. As raras células
que sobrevivem durante toda nossa vida são as do cérebro. Esse
fenômeno talvez seja o que nos dá a ilusão de uma imortalidade
relativa, durante nossos sessenta ou mais anos de existência.
Para sintetizar o que acabamos de expor, vale salientar que,
no curso de uma vida, morremos psicológica e fisicamente
várias vezes, de forma progressiva. A cessação das funções vitais
representam, de fato, apenas uma transformação a mais e, de
modo algum, “A Morte” única, da qual tanto se fala. O grande
erro do mundo ocidental materialista consiste em contrapor
esse fim ao resto da existência. No entanto, tudo o que
expusemos até agora demonstra largamente que esse evento
não representa mais que uma metamorfose complementar e
que a diferença está somente na sustentação, pelo cérebro, de
uma memória superficial ao longo da vida.
Outro elemento: uma teoria sedutora e profunda explica
que nossa compreensão da imortalidade depende da forma
como nos situamos no âmago da Criação. Ou nos apegamos à

idéia de que somos, em primeiro lugar e sobretudo, um ser
independente do resto da Criação, ou aceitamos a evidencia
que nos torna um produto do universo. Você pode se imbuir
do pensamento segundo o qual a vida se exprime através do
ser hum ano e que se serve dele para expressar suas
potencialidades. Sua verdadeira função consiste, nesse caso,
em servir de canal para essa vida universal que o transcende e
que constitui a essência de seu ser. O ego, nesse esquema,
representa tão-somente um meio para assegurar a expressão
dessa vida no tempo e garantir-lhe um modo especial para que
ela tome consciência de si mesma. Visto como um fim em si
mesmo, ele se torna uma ilusão. Já demonstramos que ele é de
fato mortal nesta presente existência. E com mais forte razão
ainda, é mortal quando da cessação das funções vitais.
Não obstante, se uma pessoa se identifica com aquilo que
ela é verdadeiramente, isto é, uma forma de expressão da
Grande Vida ou Alma Universal, então ela se torna imortal.
Na verdade, desde sempre ela foi imortal, sem o saber
realmente. E imortal no exato momento presente, a cada
instante. A única coisa que aconteceu foi uma mudança de
ponto de vista a respeito de si mesma e da vida em geral. Ao
fazer isso, simplesmente mudou seu estado de ser e sua
compreensão, e isto é tudo. A partir daí, ela pode usufruir uma
espécie de paz, com a certeza de que não precisa esperar a
morte para se tornar imortal, mas que já é. E tão admirável
que tantas técnicas orientais acentuem a necessidade de se dar
toda atenção ao momento presente, o eterno presente?
Muitas pessoas vêem nas idéias sobre reencarnação apenas
um meio de manter de pé o seu eu. Querem saber se vão
reencarnar junto aos seres que já amaram numa vida anterior.

Do mesmo modo, esse público interpreta os contatos com os
mortos como se existisse um possível diálogo com eles, idênticos
aos que podemos manter aqui na terra. As descrições do além
também costumam recorrer a cenas terrenas, como é o caso do
Corão. Tudo isso demonstra efetivamente que os homens se
apegam desesperadamente ao seu modo de conceber a vida
centrada no ego. Não queremos ou não podemos ampliar
nossos pontos de vista, abandonar nossas idéias preconcebidas.
Ainda não conseguimos sentir em nós a presença de uma Alma
Universal, que, sozinha, confere a condição de im ortal.
As pessoas preferem se apegar à sua família, seu ambiente,
seu estado de consciência limitado. E elas morrerão, porque
se apegam ao que é impermanente. E, no entanto, uma parte
de seu ser é tão imortal quanto o de qualquer místico ou sábio.
O despertar da consciência, de acordo com os escritos de
grandes místicos, visa ancorar a consciência no imutável, na
eternidade e na abertura da personalidade ao infinito.
Logo, é bem possível que a questão da imortalidade dependa
da concepção que se tenha da alma. Uma opinião acertada
sobre isso pode dar acesso ao infinito. Um sentimento de
participação na eternidade resultará em indizível paz e alegria.
Ao passo que uma idéia falsa pode levar à caça de quimeras, ao
longo de um caminho tortuoso e cheio de espinhos.
Tomemos um exemplo simples, cujo modelo já fora usado
pelo filósofo romano Cícero. Imaginemos, como Descartes, uma
pessoa que começa a procurar a sede da alma. A exemplo de
Platão, ela pode primeiro conceber a alma como uma idéia
arquetípica, evoluindo no reino da abstração. Ou então, tentar
demonstrar que um órgão do corpo constitui sua sede. Essa

poderia ser o coração ou o plexo solar ou, ainda, na opinião de
Descartes, a glándula pineal. Parece que a humanidade tem
sido muito imaginativa nessa esfera. Os iafares da Nova Guiñé
acham que a alma está situada no sangue, enquanto o Avesta
dos zoroastrianos revela uma ligação entre a alma e os ossos.
Os Upanishads hindus explicam o seguinte: “A alma, q u eém a is
sutil que aquilo que é sutil, m aior que aquilo que é grande, está
in stalada na ca v id a d e do ser v iv o (cavidade esta que é
tradicionalmente considerada como sendo o coração). Aquele
que é isento de desejos e angustias contem pla, pela tranqüilidade
dos seus sentidos, a m ajestade da alm a”.
Mas, então, que é feito dessa alma quando, com a morte,
o corpo desaparece? Sem dúvida, ela estaria destinada a
desaparecer com seu companheiro. De fato, toda concepção
que faz da alma o resultado de um processo físico-químico
condena-a a ser m ortal. O mesmo ocorre quando se
considera que ela está vinculada a uma parte do corpo ou a
qualquer corpo que seja. A mesma coisa, ainda, ao se
im aginá-la como passível de evoluir. Tudo que evolui
transforma-se, mas transformação também significa morte.
Por conseguinte, tudo que evolui morre à proporção que se
desenvolve. Se a alma é qualificada de imortal, não pode
ser outra coisa senão p erfeita .
Há grande diferença entre o fato de considerar que
determinadas partes do corpo possam servir de intermediárias
entre o mundo da alma e o da matéria, e a crença que situa a
sede da alma
no corpo. Veremos o porquê disso nos próximos

capítulos. E possível sermos imortais aqui e agora, e que tudo
dependa da nossa conscientização e da nossa identidade com
tal ou qual princípio.

Para os neoplatônicos, assim como para os indianos, existe
apenas uma única alma no todo da Criação, à qual poderíamos
dar o nome de alm a do m u n do. Nesse princípio único
participariam todos os seres vivos, qualquer que fosse sua
posição na escala de evolução. Os neoplatônicos consideravam
que a alma do mundo ocuparia a posição intermediária entre
o mundo sensível e o mundo inteligível. Segundo Platão, ela
representaria o princípio único automotor, isto é, capaz de se
mover por si mesmo. Como indica o discurso de Hermes a
Asclépio, é justamente ela que faz mover
todas as criaturas,
A
que dela recebem vida e consciência. E por isso que não se
pode situar a alma em nenhuma parte do corpo. Mais que
qualquer onda eletromagnética, ela penetra e interpenetra tudo.
Nenhuma barreira de chumbo pode opor-lhe obstáculo, pois
ela pertence a uma outra dimensão. Os Antigos acreditavam
que ela seria transportada pelas asas do ar. Outros insinuavam
que ela seria como um fogo penetrando todas as coisas. Na
verdade, sabemos que a vida vem, entre outras coisas, do calor
e da respiração. Tudo que vive respira. Sabemos também que
seres vivos extremamente surpreendentes se desenvolvem a
milhares de metros de profundidade, nas regiões abissais
oceânicas, perto de inesperadas fontes de calor. Havia, porém,
um sutilíssimo tesouro oculto no pensamento dos Antigos...
O ar, como também o calor, é um bem comum a todas as
criaturas. Assim, do mesmo modo, a alma deve ser um tesouro
comum à totalidade da Criação. De sua unicidade e de sua
perfeição depende sua imortalidade. A definição deA tm an,
segundo os U panishads (livros sagrados dos hindus), é
exatamente “aquilo que escapa a toda limitação de tempo,
espaço e causalidade”. Poderíamos, então, especular sobre sua
possível natureza vibratória, ígnea ou qualquer outra; mas,

neste caso, parece que traçaríamos uma rota falsa. O verdadeiro
espiritualista não procura dar forma e textura (por mais sutis
que sejam) a um princípio invisível, intangível e mesmo
inacessível à compreensão estritamente intelectual. Em outras
palavras, pode-se menos definir a natureza da alma do que
seus efeitos.
Enunciemos agora um postulado que tentaremos de­
monstrar da seguinte forma: devido à sua unicidade, a alma é
perfeita, imortal e constitui a essência de todas as coisas. Dessa
idéia decorre que tudo que vive nas águas, caminha na terra
ou voa nos ares recebe sua parte de imortalidade. Os animais
não têm nenhuma consciência da morte, porque permanecem
indissociáveis de sua essência imortal. A centelha de vida que
os interpenetra e os faz moverem-se segue seu caminho depois
do desaparecimento dos veículos que a transportaram e que
manifestaram alguns de seus atributos. Mas para o ser humano,
essa energia tornou-se fato secundário. Ele preferiu substituíla por seu próprio eu individualizado. Assim, ele se tornou
mortal, pois esse eu, aparentemente autônomo, sofre perpétuas
mutações.
O budismo teravada, aquele que o Buda ensinava, chamado
também de budismo do pequeno veículo ou hinayana, explica
o seguinte: o ego, o eu humano, é uma ilusão. Representa,
sobretudo, uma sucessão de instantes de consciência. Por
analogia, ele é como um rio. O rio, em si mesmo ou tomado
em seu todo, é uma miragem. Na realidade, ele é somente a
sucessão de uma multidão de partículas de água. Assim
também, segundo os budistas, o eu não passa de um agregado
de vários princípios em perpétuo movimento. O que parece
real no rio é a corrente que vai sempre na mesma direção visível,

até que um obstáculo desvie seu curso. Essa opinião referente
ao eu explica a causa da crença geral de que o budismo ensina
a inexistência da alma (a doutrina dean atm am ), ao contrário
das crenças da índia. Repetidas vezes os discípulos do Buda
questionaram seu mestre, tentando saber se o carma do homem
é pessoal ou impessoal. Todas as vezes, Gautama elucidou a
questão explicando que conhecer a resposta não contribuiria
para libertar o homem da ilusão do ser. Para ele, mais vale
meditar sobre o nascimento, a morte, a vida, a velhice, e sobre
as causas e os efeitos dos acontecimentos felizes ou não.
Dito de outro modo, mais vale tentar libertar-se do desejo e
de todas as coisas que prendem o ser. Isso é melhor do que
tentar solucionar uma questão que, ao longo da História, opôs
e continua opondo as religiões entre si, e mesmo os diversos
sistemas de humanismo. A fórmula “tudo se transforma”
expressa o lema budista, que vê o mundo como um calei­
doscópio incessantemente mutável.
Pode aquele que se identifica com algo que varia
constantemente ser imortal? Não seria a imortalidade, ao
contrário, o ancoramento da consciência no cerne de um
princípio imutável? O pensamento budista teve, na Grécia,
um equivalente contemporâneo: Heráclito de Efeso dissolvia
toda existência nas ondas do devenir. Inversamente, para
Parmênides, o ser eterno e imutável existia só. Foi preciso
esperar a chegada do mestre Platão para conciliar essas duas
concepções. Mas, segundo o pensamento budista, a pessoa que
só vive no nível de seu ego transitório já está morta, ainda que
as aparências pareçam provar o contrário.
Por que o mestre Jesus chamou os mestres da sinagoga de
“sepulcros caiados”? Teria sido porque, como um delinqüente

qualquer, ele quis simplesmente insultá-los? Seguramente, não!
O que ele fez foi revelar uma elevada e sutil verdade espiritual.
Aquelas pessoas ligadas a poderes, posses, bajulações, já
estavam mortas e não sabiam. Assim como eles, todos
possuímos, dentro de nós, uma parte de nosso ser que está
morta, porque nossos valores são os de um mundo em mutação.
Porque damos mais importância ao nosso eu do que à missão
que ele deveria cumprir.
Um mestre do passado explicou, certa vez, que o reino
humano, cujo hábito é de se apresentar como o ápice do
universo, representa um relativo ponto de morte no âmago de
um universo de vida. De fato, o universo inteiro vive ao nosso
redor, com suas miríades de expressões diferentes, mas não
nos apercebemos disso. Levei dez anos para compreender o
que esse autor quis dizer com isso e ainda não estou certo de
já ter abarcado todo seu significado.
Cada um de nós poderia fazer a seguinte pergunta: seria
esse eu, que acredito ser e ao qual me apego, o alfa e o ômega
de todos os valores? Se respondo afirmativamente, torno-me
efetivamente mortal. Mas se considero esse ser transitório uma
parcela útil, mas secundária, de um todo bem mais vasto, este,
sim, imortal, posso então, neste exato momento, participar dessa
imortalidade. Eis uma das concepções mais esotéricas que
existem da imortalidade.
Há outras que apelam totalmente a uma ampliação do
campo da consciência, até mesmo a uma renúncia ao eu. O
escritor judeu Elie Wiesel falou do dever da m em ória, referindose ao sustento da necessária recordação dos mártires
do
✓ ^
holocausto cometido na última guerra mundial. E fácil

compreender que uma das condições da imortalidade pode
estar na lembrança que os descendentes mantenham de seus
falecidos ancestrais. Enquanto houver alguém para se lembrar
do passado, ele conservará um pouco de sua imortalidade.
O culto dos ancestrais, entre os gregos antigos e os povos
animistas, têm uma parcela de sua origem nesse pensamento.
Enquanto nossos filhos se lembrarem de nós, seremos imortais
na consciência deles. Cada um de nós sabe isso vagamente. E
por isso que, segundo os psicólogos, um dos pesares mais difíceis
de assumir é aquele que advém da perda de um filho. A
progenitura representa, tácitamente, uma promessa de
imortalidade. Os Anciões de Israel sabiam isso perfeitamente,
eles que davam tanta atenção à linhagem. Sou o filho de meu
pai, e ele, o filho de fulano, e assim por diante, diziam os
hebreus. O mais importante para o povo do Exodo não era
tanto a sobrevivência do indivíduo quanto a da coletividade.
No Antigo Testamento, os filhos de Israel até mesmo pagam
pelas faltas cometidas por seus pais. O patriarca dessa nação,
Jacó, toma, ele próprio, o nome da pátria inteira.
Entre os muçulmanos, o termo/4¿«, muitas vezes acoplado
ao nome de família, significa “pai d e ...”. O qualificativoIbn,
também muito usado, como no caso do famoso sufi Ibn Arabi,
traduz-se como “filho d e ...”. Isso sugere que a imortalidade
reside mais na continuidade e na obra da humanidade coletiva,
que sucede a si mesma através de sua descendência. Parece,
no entanto, que as idéias defendidas nessa questão diferem
segundo as culturas. Para os muçulmanos ou os católicos
modernos, a morte individual é vista muitas vezes como uma
catástrofe. Entre os vietnamitas, mais íntimos da natureza, a
onipotência universal da vida é primordial. “Se tem os filhos,

a lg o d e nós p er m a n ece para se m p r e ”, diz um provérbio
compartilhado por eles, pois possuem, mais que nós, o
sentimento de serem parte de um todo vivo, com todas as
transformações das quais ele é a sede. \bltaremos a essa questão
quando tratarmos do acompanhamento dos agonizantes. Os
psicólogos e os clínicos gerais, com efeito, perceberam os
agonizantes conseguem partirem paz mais facilmente se estão
conscientes de que deixaram seus negócios em ordem e
transmitiram aos filhos que os sucederão tudo o que estes
precisam saber.
O filho representa, é verdade, a primeira obra, a primeira
criação de um ser humano, mas suas outras produções também
lhe conferem uma parcela de imortalidade. Não se costuma
dizer que os criadores se imortalizam em suas artes? Frank
Sinatra, por exemplo, não renasce um pouco toda vez que um
ouvinte se entusiasma com uma de suas canções? V ictorH ugo
não passou à posteridade graças à sua obra monumental? O
próprio termo “imortais”, pelo qual os membros de uma
Academia de Letras são qualificados, não é mais eloqüente que
qualquer discurso? Cícero comentou, em sua época, o epitáfio
do poeta romano Enius, conhecido de cor por todos os
habitantes da antiga capital: “Contemplai, cidadãos, essa bela
im agem do velho Enius, f o i ele quem celebrou os grandes feito s
de vossos pais: Não choreis p or m im ... afinal, estou vivo, porque
vôo de boca em b o ca ...
O inglês Francis Bacon, que, segundo algumas hipóteses,
pode ter sido o suposto autor das peças de Shakespeare, via no
conhecimento um meio de a lca n ça r uma form a de imor­
talidade: ‘A im ortalidade é tam bém buscada na form a çã o de uma
fa m ilia , que não cessarem os d e enobrecer, na con stru ção de

edificações e m onum entos fam osos, e ela é, de fato, o ápice de
todos os desejos humanos. Mas vem os tam bém quão mais duráveis
são os m on u m en tos do g ên io e do con h ecim en to, do qu e os
construídos p ela m ãos do hom em . O reflexo do con hecim en to de
um hom em p erm a n ece intacto em seus livros, ao abrigo das
vicissitu d es do tem po, e p o d e ex perim en tar um a p erp étu a
renovação. M esmo aqueles, entre os filósofos, que fora m os mais
profundam ente ligados aos sentidos e negavam a imortalidade,
adm itiram , todavia, q u e as a ções do espírito hum ano, não
requerendo o exercício dos órgãos do corpo, podiam continuar a
subsistir depois da morte, quais sejam, as do entendim ento e não
as das afeições; e que o con h ecim en to lhes parecia uma coisa
incorruptível e im ortal”.
Notemos, de passagem, que muitos grandes homens e
mulheres, após sua “morte”, adquirem, na consciência das
massas, uma dimensão que não existia qu an d o estavam vivos.
Em casos extremos, eles se transformam em totem de uma nação
ou de um povo. Sua personalidade torna-se um guia quase
fantasmagórico para uma coletividade. Tornada imortal, essa
personalidade emblemática é enriquecida pelas aspirações e
anseios das milhares de pessoas que porventura se identifiquem
com ela ou projetem nela suas próprias frustrações.
Por sua vez, a civilização do Egito antigo, em sua tentativa
de colonização do além, imortaíizou-se através de suas obras
monumentais e por intermédio do conhecimento que legou
ao mundo. Quantos sábios, quantos filósofos gregos, com efeito,
não foram estudar à sombra de suas pirâmides? O próprio rei
MausoJe, simples auxiliar do império persa, no século 4 a.C.,
consciente de que não passaria à posteridade graças às suas
obras políticas, mandou erigir o mais magnífico monumento

funerário que o mundo jamais teve. Assim, o Mausoléu,
conhecido c o m o um a das sete maravilhas do mundo, tornou o
seu autor célebre para os tempos futuros. O cínico Diógenes,
aliás, esca rn ecía dessa vã pretensão à imortalidade.
Quanto à questão das obras legadas à posteridade, pessoas
que vêm observando agonizantes salientam como partem mais
facilmente em paz os que têm o sen tim en to de terem feito de
sua vida uma boa obra. Aqui, as clássicas crenças acerca da
im ortalidade to r n a m -s e quase secundárias. O melhor
passaporte para o outro lado é o sentimento de ter cumprido a
obra ou a missão de sua vida. Então, o ser humano pode
repousar por uns tempos junto de seus pais, antes de passar
para uma missão mais elevada.
O professor Carl Gustavjung, n o livro "M emória, S onhose
Reflexões”, explica que o inconsciente do homem representa
também o reino dos mortos. “Supondo que haja uma continuação
“no além ”, não poderíam os con ceb er outro m odo de existência
q u e não a psíquica, um a vez qu e a vida da psique não precisa
nem de espaço nem de tem po. A existência psíquica e sobretudo as
im agens interiores de que nos ocupam os agora fo rn ecem a matéria
de todas as especulações m íticas sobre uma vida no além, e esta,
represento-a com o um a m archa progressiva através do m undo das
imagens. Assim, a psique poderia ser a existência na qual está
situado “o a lém ” ou “país dos m ortos”. O in consciente e o “país
dos m ortos” seriam, nessa perspectiva, sinônim os”.
Que sabemos sobre a consciência humana? Bem pouca coisa,
na verdade. Povos inteiros pretenderam conversar com seus
mortos por intermédio dos sonhos. Isso significa dizer que a
consciência humana não se limita ao aspecto objetivo da

existência. A psicanálise, no século 20, revelou às massas o
mundo do inconsciente humano (ou tornou-o admissível ao
nosso pensamento estritamente positivista?). No entanto, há
séculos, algumas pessoas conhecem e fazem uso dessa dimensão
oculta da psique. Para esses sábios, como os Rosacruzes do
passado, a consciência objetiva é tão-somente o lado visível de
uma árvore cujas raízes ou galhos se enterram ou se estendem
dentro de um campo infinito de consciência. Jung, afastandose da rota traçada por Freud, pressentiu vagamente a existência
desse campo de consciência transcendente. Chamou-o
“inconsciente coletivo”. Para ele, os mortos não desaparecem,
pois sua consciência tem sua base nesse inconsciente coletivo.
Por conseguinte, uma parte de nossos ancestrais viveria em
nós de um modo invisível. Seriam os, portanto, n um certo
sentido, “os fru tos dos que dorm em ”.
Se os dados de uma determinada psicologia pleiteiam em
favor da im ortalidade, co m o acabou de ser demonstrado, a
medicina e, mais particularmente, a genética também dão sua
contribuição nesse cam po. S abem os h o je q u e as informações
genéticas transmitidas pela dupla hélice do DNA (o código
genético que co n tém nossas características físicas e m entais)
são passadas de pai para filho. De certo modo, a frase bíblica,
“Os erros dos pais serão transmitidos aos seus filhos, a té a sétim a
gera çã o”, está sendo verificada pela ciência. Conhecemos a
origem g en ética d e algumas doenças hereditárias. Elas nos
ensinam que algumas de nossas características são transmitidas
de uma geração à outra. Teriam elas feito algum pacto de
imortalidade?
.
A imortalidade material representa um dos velhos sonhos
da humanidade. Na China, há alguns séculos, um imperador

enviou homens para explorar o mundo à procura dos imortais.
Os alquimistas ocidentais sonhavam co m a pedra filosofal que
poderia lhes conferir a imortalidade, na forma do chamado
elixir da lon ga vida. Hoje, porém, graças à contribuição dos
conhecimentos biológicos, esse sonho meio maluco está a um
passo de se realizar. A partir de uma célula tirada de um ser
vivo, o “doutor Jeckyll” pode reproduzir infinitas vezes o
mesmo ser vivo. Chama-se a isso clonagem. Ergue-se, então,
infalivelmente, a pergunta: com qual imortalidade você sonha,
a do corpo ou a da alma? Da resposta a essa pergunta provém
todo o valor dado ao ser humano, à vida e à verdadeira
liberdade. É por isso que esse tema suscita tantas reflexões em
nossas comissões de ética.
Mas isso ainda não é tudo. Físicos, como o francês Jean
Charon, estão considerando a possibilidade de uma
memória dentro do elétron, memória esta que poderia
conservar “a experiência” pela qual passou esse elétron ao
longo de suas diversas formas de manifestação dentro da
m atéria viva ou inerte. Assim, outra possibilidade de
imortalidade material poderia muito bem ser evidenciada
pela ciência moderna.
Um esforço de síntese permite compreender que, de fato,
há múltiplas maneiras de se considerar a imortalidade. Queira
o leitor notar que o ponto comum de todas as concepções que
virão a seguir reside na memória às quais elas recorrem, embora
sob formas diferentes. A imortalidade, portanto, pode ser
considerada de um ponto de vista individual, contanto que se
admita ou que se ponha em evidência a existência de uma
memória imaterial que conservaria as características da
personalidade morta. Ela pode ser imaginada, n u m sen tid o

mais coletivo, por meio do inconsciente coletivo de Jung. A
memória das células, dos átomos ou do DNA também pode
dar o que pensar em matéria de imortalidade.
As obras gravadas no papel ou na pedra representam, por
sua vez, a memória do pensamento de seu autor, e contribuem
para sua eternidade. Dá-se o mesmo com a progenitura, que,
por seu “dever de memória”, mantém viva a lembrança dos
antigos. Por último, as cerimônias, as tumbas, os sinais externos
da vida dos mortos, contribuem igualmente para a imortalidade.
Evidentemente, aqui estamos bem longe das idéias egoístas
de uma vida eterna centrada na individualidade. Há ainda uma
última e sutil idéia que pode orientar nossas concepções nessa
esfera. Muitos sistemas de moral e ética baseiam-se na noção
de que a virtude representa um fator de imortalidade. A virtude,
nesse sentido, constitui um meio de harmonizar o indivíduo
com as idéias eternas do bem, do belo e da verdade. Aqui estão
reunidos os grandes temas platônicos. Aquele que pratica a
virtude pressentida no interior de sua consciência une-se àquilo
que é mais vasto que ele. Ele ancora seu ser no âmago de valores
eternos e verdadeiramente portadores de futuro; ao passo que
a ausência de virtude leva apenas ao caos. Sua consciência
experimenta, então, um sentimento de im ortalidade e
plenitude. Esse ser servirá também de exemplo e de guia para
outros, em sua própria esfera de vida. Estenderá, assim, suas
faculdades, por contágio, tanto no tempo como no espaço.
Agora que algu m as c o n c e p ç õ e s da imortalidade foram
abordadas, convém voltarmos à nossa primeira pergunta: A
alma é imortal? Pergunta aparentemente única, m as que, na
verdade, esconde duas. Por um lado, será que existe, sim ou
não, um princípio mais ou menos visível a que se poderia

chamar alma; por outro, seria esse principio dotado da
faculdade da imortalidade? O mundo científico em geral evita
responder essas duas perguntas. Prefere recolher-se a uma
reserva prudente, ao mesmo tempo em que não as responde
negativamente. Para a ciencia, esse principio chamado alma,
que não se enquadra nas categorias que ela analisa habi­
tualmente (isto é, o campo do mensurável), deve ser sabiamente
deixado de lado. Se existe de todo um conluio tácito entre
ciência e religião para manter a ignorância sobre alguma coisa,
esta coisa é o campo da alma. A primeira ignora o assunto,
enquanto a segunda o isola no campo da fé. Para o sacerdócio,
a alma é assunto de crença religiosa indemonstrável. Segundo
ele, a alma existe porque Deus, através das escrituras sagradas,
disse que sim, e ponto final. Querer demonstrar a existência
da alma graças à observação seria, para uns e outros, uma
demência. Contudo, não haveria realmente nenhum argu­
mento demonstrável e sustentável, capaz de provar a qualquer
mente racional a existência dessa grande força eterna? A
sabedoria tibetana ensina que “a pessoa cuja f é não está enraizada
na razão é com o um curso de água que p od e ser conduzido para
qualquer lu ga r”. De fato, toda fé não ancorada na razão é como
um raminho de palha açoitado pelos ventos de uma ciência
cética. Ela não consegue resistir à dúvida gerada por uma mente
presa às suas categorias habituais de percepção.
A alma não pode ser medida, mas prova sua existência por
meio de seus efeitos, inumeráveis para olhos realmente abertos.
Ela representa o próprio fundamento de toda existência, sem
o qual nem mesmo aquele que a nega teria qualquer alento de
vida. Sem a alma, as galáxias, as estrelas e os planetas jamais
teriam vindo à luz. As incessantes rondas que fazem girar
universo após universo não teriam tido nenhuma razão de se

manifestar. Vejamos agora em que medida podemos afirmar
que a alma e sua im ortalidade representam “A” causa
importante, atrás da qual todas as outras se enfileiram. E, para
isto, laçamos uma pequena viagem ao lado dos filósofos da
Grécia antiga. Um desses filósofos, Pitágoras, ensinou que “No
princípio, D eusgeom etrizou”. Com essa fórmula, ele quis dizer
que o mundo dos fenômenos é regido por um conjunto de leis
e princípios acessíveis à razão, que os gregos denominavam
Logos. O filósofo moderno Michel Serres viu nessa idéia do
Logos (palavra que significa “discurso” ou “lei”) a origem da
marcha racionalizante da ciência. O apóstolo João, no começo
de seu Evangelho, faz eco a essa idéia, com a frase: “No com eço
era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era D eus”. O
Verbo de São João é o mesmo L ogos dos gregos; por isto,
podemos nos perguntar, hoje em dia, quem tem o direito de
reivindicar, se gregos ou judeus, a paternidade do conceito.
Tudo isso significa, na verdade, que esse mundo de princípios
ou leis universais (que Pitágoras afirmou ser regido pelo
número) presume, para sua origem, uma grande inteligência
organizadora. Essa grande inteligência pode ser comparada a
purusha, o ser ou a alma dos hindus, em oposição a pratyiti, o
devenir. Assim, a ordem patente do universo e da multiplicidade
de fenômenos não seria obra do acaso, mas dessa vasta
inteligência ou de uma alma que se poderia qualificar de
universal e que é imutável e perfeita em sua essência. Sem
dúvida, o ponto em questão não é demonstrar através de
instrumentos científicos a existência dessa alma de natureza
sutil demais para ser mensurada. A razão, porém, nos incita a
tomar essa hipótese por quase certa, por ser a única que pode
explicar a inteligibilidade do universo. Dessa alma, portanto,
emanou o mundo, graças a um conjunto de leis ou princípios,
chamados por nomes diversos em função das culturas.

Queiramos ou não, estejamos conscientes ou não, o fato é
que o edifício da ciência, cuja meta é pôr em evidência os
axiomas e leis da fonte da Criação, fundamenta-se nessa
concepção. Sua origem acha-se na Grécia, e os primeiros
estudiosos muçulmanos foram seus herdeiros tardios, antes
de transmitirem-na ao Ocidente cristão. A esse respeito,
o

físico Albert Einstein assim se expressou em 1922: “E fa to
que a con vicçã o —aparentada do sentim ento religioso —de que o
m undo é racional ou, ao m enos, in teligível está na base de todo
trabalho cien tífico com algum a elaboração. Essa con vicçã o,
profu n da m en te sentida, de um a razão superior que se m anifesta
no m undo da experiência, con stitu i m inha con cep çã o d e D eus”.
Em 1930, declarou num artigo: “Um contem porâneo afirm ou,
com razão, que os pesquisadores sinceros são, em nossa época, de
m odo g era l m aterialista, os ú n icos h om en s p ro fu n d a m en te
religiosos”.
De fato, o cientista moderno, no plano de fundo de seus
próprios trabalhos, é o único depositário dessa concepção do
mundo. Ele pesquisa, com efeito, a origem dos fenômenos,
buscando representá-los sob formas de equações matemáticas,
de representações gráficas ou geométricas. Alguns pes­
quisadores vão até mais longe e acalentam o sonho de
descobrir a grande equação, a força ou energia única que
poderia explicar a origem do universo inteiro. Chamam a isso
a gra n d e u n ifica çã o . A grande unificação é o sonho atual dos
físicos, que buscam a unidade das quatro grandes forças
subjacentes a todos os fenômenos naturais, as quais são: a
força de atração, de Newton, que rege o movimento dos
corpos celestes; as forças de interação fortes e fracas, que
regem as relações entre as partículas fundamentais dos
átomos; e a força eletromagnética.

Seguramente, o materialismo nega a preexistência de um
mundo de princípios ou de uma alma inteligente. Ele afirma
que as leis da natureza representam necessidades inerentes à
matéria. Se extrapolássemos esse ponto de vista, isto seria o
mesmo que considerar que a lei da gravitação universal fosse
uma conseqüência do fato de uma maçã ter, um dia, caído na
cabeça de Newton, e não a causa dessa queda. Isso significaria
que as leis são as conseqüências da simples existência da
matéria e dos fenômenos, e não suas causas. Todas as leis
existentes na Criação seriam, portanto, intrínsecas ao primeiro
aglomerado dessa “alguma coisa” que precedeu o hipotético
B ig-B ang. Im aginar as leis sem a m atéria seria, por
conseguinte, uma absurdidade. Nessa ótica, parece, porém,
bem difícil explicar como a imutabilidade das leis pode dar
nascimento à multiplicidade dos fenômenos. Parece também
difícil compreender como uma inteligência humana pode, a
partir de um conhecimento totalmente abstrato das leis
naturais, comandar ou mesmo recriar um mundo, afirmando,
com isto, a superioridade da mente sobre a m atéria.
Inversamente, a simples constatação de fenômenos, sem tirar
daí as leis subjacentes, não permite absolutamente nada. Se
seguirmos o ponto de vista m aterialista, chegaremos à
conclusão absurda de que a vontade é um produto da ação, e
não o inverso. A liberdade humana estaria singularmente
amputada. Do mesmo modo, fazendo falar o símbolo da roda,
acabaremos concluindo que o que faz girar a roda com
regularidade é apenas a sua periferia, e não o seu centro ou
núcleo.
Por conseguinte, podemos enunciar essa nossa hipótese, que,
mesmo repousando unicamente na fé, não é menos razoável.
Essa conjetura adquire, por isso mesmo, o caráter de uma

gnose: a pirâmide simbólica do universo presume, em seu topo,
uma vontade motriz ou urna alma eterna como origem dos
fenómenos transitorios.
Os poucos elementos precedentes visaram mostrar a
existencia soberana de urna inteligencia universal denominada
alma. Entretanto, eles ainda são insuficientes para permitir
considerar sua imortalidade. E necessário, portanto, para
vermos com clareza, que nos voltemos para as intuições da
ciencia, das quais o químico Lavoisier foi o porta-voz, no século
18. Lavoisier fez com que se tornasse conhecida do mundo,
desde aquela época, a seguinte idéia: °Nada se perde, nada se
cria, tudo se transforma". O aspecto fundamental dessa idéia
faz com que ela seja ensinada hoje em todas as nossas escolas.
No entanto, raramente é explicado que essa foi uma noção
descoberta intuitivamente já desde os séculos 4 e 3 a.C., pelo
filósofo Epicuro, que, por sua vez, foi discípulo de Demócrito.
Epicuro parte do principio de que nada nasce do nada e que o
universo formado de átomos não tem origem nem fim. “Nada
se p erd e... ” significa, em termos mais filosóficos, que tudo é
eterno em essência, ao passo que as substâncias estão em
perpétua transformação. “A velhice e a m orte só poupam os deuses;
tudo o m ais está sujeito aos golp es vitoriosos do tem p o ”, diz
Sófocles em “É dipo”.
Sem dúvida, Lavoisier, que se fez eco de Epicuro, queria
deixar claro apenas uma coisa: a matéria e seus componentes,
embora possam mudar de forma, permanecem eternos em seu
aspecto mais íntimo. Mais tarde, a física moderna pôs em
evidência, graças a Einstein, a possibilidade da conversão da
matéria em energia e o sacrossanto princípio da conservação
da energia.

Tudo estaria dito e nós estaríamos isolados no reino da
matéria se, segundo uma arraigada tradição que remonta
a uns milhares de anos, os maiores pensadores do Egito
antigo não houvessem vislumbrado a seguinte lei: “O que
está em cim a é co m o o q u e está em baix o”. Essa fórmula
pode ser lida na Tábua de Esmeralda, um texto filosófico
hermético cuja origem os historiadores fazem remontar
ao século 3 d.C. Uma história mais tradicional atribui esse
texto ao sábio Hermes Trismegistus. A frase corresponde
à importante lei da analogia, que tem guiado muitos
pensadores metafísicos ao longo dos séculos. “O q u e está
em cim a é co m o o q u e está em baix o” significa que aquilo
que é válido no que tange a eternidade da dupla matériaenergia vale também, com mais forte razão, para a essência
invisível da Alma ou da Inteligência Universal. Em outras
palavras, o que se aplica à essência da matéria, segundo a
doutrina de Lavoisier, aplica-se igualmente à alma ou aos
princípios cuja existência alguns filósofos gregos nos
fizeram perceber. Vemo-nos confrontados aqui com uma
decisão fundamental para o ser humano. O pensamento
m aterialista parte do postulado (que é um ato de fé)
segundo o qual o universo percebido pelos sentidos físicos
ou pelos instrumentos científicos, atuais ou por virem
(in strum en tos estes que, aliá s, correspondem sim ­
plesmente aos prolongamentos de nossos sentidos físicos)
é o único que existe. O pensamento espiritualista, por sua
vez, sem negar as realidades do mundo objetivo, considera
que nenhum argum ento racional ou científico pode
demonstrar a inexistência do mundo dos princípios. Esse
pensamento chega mesmo a afirm ar que é impossível
explicar nosso mundo e os mistérios da vida e da morte
fazendo-se abstração desse mundo invisível.

Vejamos de novo a fórmula “Nada se perde, nada se cria, tudo
se transforma” Analisemos mais particularmente a parte que diz
“nada se cria”, aprofundando nosso raciocínio. Isso significa, na
verdade, que a essência de todas as coisas nunca teve começo,
que é incriada. Isso pressupõe, então, que todas as coisas e os
fenômenos visíveis ou invisíveis são eternamente preexistentes
na Grande Inteligência do Universo. São potencialmente
preexistentes, antes de serem manifestados no mundo tangível.
Por analogia, poderíamos usar a imagem de um CD, que contém
simultaneamente todas as informações musicais em seu pequeno
volume, antes de permitir sua manifestação sonora tangível para
deleite de um ouvinte. Podemos também demonstrar que aquilo
que nunca teve começo também não pode ter fim. Com efeito, o
que não é criado também não pode ser destruído. Naquilo que
tem existência eterna, o tempo não põe suas garras.
Uma outra fórmula famosa é atribuída a Heráclito de Éfeso,
que viveu entre o sexto e o quinto século antes de nossa era. Em
essência, diz o seguinte: “Nada é, tudo se tom a". Isso descreve o
que se passa realmente no nível do mundo manifesto. Tudo está
em perpétua transformação. No exato momento em que
pensamos que uma coisa é isso ou aquilo, ela já se transformou
em outra coisa qualquer. Os átomos estão em perpétua vibração;
não há dois instantes idênticos nem duas situações espaciais
estritamente idênticas. Isso significa que nada pode pretender
ao estado de ser no mundo da forma. Os fenômenos inces­
santemente mutáveis não pertencem ao ser. Assim, o ser, que é
essencialmente imutável, não pode ser considerado como
pertencendo à matéria. A matéria não é, tende a vir a ser. O que
ê realmente é a alma, e aqui podemos nos fazer a seguinte
pergunta: que existe de comum entre o ser e o objeto, entre o
mundo e a alma?

Até o momento desenvolvemos argumentos, sobretudo
filosóficos, pleiteando em favor da eternidade da alma. No
entanto, a observação da natureza, de um determinado
ângulo, pode completar essa demonstração. Vamos fixar
nossa atenção exclusivamente no mundo vivo, uma vez que
nessa esfera a influência da alma se faz sentir de maneira
nitidamente mais patente. O mundo vivo dá provas de
animação e inteligência, além de direcionamento de sua
própria energia. Uma vontade invisível parece desabrochar
ali, conduzindo, cientemente ou às cegas, as formas de vida
no caminho da evolução. Os seres vivos, quaisquer que
sejam, manifestam igualmente determinado número de
tendências latentes. Uma ilustração dessas tendências é, por
exemplo, a vontade irreprimível de conservar a vida. Outra
tendência, tam bém irresistív el, visa a evolução e a
complexidade dos organismos vivos. Corolário dessa
complexidade, certa inclinação para a associação é evidente
entre os animais monocelulares, na gênese da evolução.
Assim, desde sua origem no oceano primitivo, a vida,
inicialmente manifestada pelos primeiros aminoácidos, não
parou de querer ser mais e melhor. Desejando experimentar
uma qualidade de ser mais e mais sutil, os primeiros animais
celulares, impelidos por esse desejo, associaram-se para
formar organismos mais complexos, origem dos órgãos dos
animais superiores. Em termos mais poéticos, vemos que o
amor —ou a necessidade de união das células —já estava
presente desde as origens da vida. Designa-se pelo nome de
“instintos” o conjunto dessas tendências. Instintos de
conservação, de evolução, de associação... Aqui, natu­
ralmente, nada mais faço que apresentar dicas para reflexão,
e espero que outros com mais informações que eu explorem

esse campo infinito de conhecimentos, mesmo que essa tese
pareça deixar de lado as indispensáveis contribuições de
Darwin ou Lamarck.
A questão que nos preocupa aqui é: qual é a verdadeira
origem dos instintos? A resposta do darwinismo foi: os
instintos representam o resultado de uma educação dos reinos
vivos, seguindo-se ou em reação à pressão do meio em que se
desenvolvem. Mas, para começar, podemos nos fazer a
seguinte pergunta: por que o ser vivo se desenvolve e
m anifesta, a p r io r i, as características de crescimento,
assimilação e reprodução? Como pode a pressão do ambiente
estar na origem do instinto de sobrevivência, desse instinto
que provavelmente impeliu a primeira célula viva, nascida
no oceano primitivo, a lutar para conservar sua vida,
justamente contra esse ambiente que tendia a destrui-la?
Onde se encontra, na matéria mineral, a fonte de tal impulso?
Acreditar que o ambiente possa ter engendrado uma reação,
sem admitir uma tendência inata, não seria tomar o meio pela
causa? Imaginar que a matéria possa se organizar espon­
taneamente, para produzir uma inteligência semelhante a de
um computador, é esquecer que por trás de um computador
há sempre um ser humano. Na verdade, não é difícil
pressentir que os instintos básicos representem um produto
inato da Alma Universal. A menos que eles não constituam
de fato o resultado do diálogo estabelecido entre essa Alma e
as formas vivas. Por intermédio dos instintos e da vida ou
energia vital, essa alma estruturaria a matéria em formas
sempre mais evoluídas, capazes de demonstrar faculdades
cada vez mais voluntárias. Graças a esse processo, as
faculdades mais nobres da alma exteriorizam-se pouco a
pouco em nosso mundo.

Existe um debate que há muitíssimo tempo vem opondo
filósofos e cientistas. Trata-se de saber se uma essência como a
vida poderia ter outra origem que não a material. Para a crença
materialista, a vida é apenas a conseqüência de uma organização
físico-química especial da matéria. Essa teria se tornado
orgânica e, portanto, capaz de mover a si mesma. A faculdade
da consciência decorreria igualmente dessa organização,
impulsionada aos altos píncaros da evolução.
Não há efetivamente nenhuma prova objetiva de que seja
assim ou o contrário. Poderíamos, aliás, nos perguntar: por
qual milagre uma matéria concebida como inerte poderia
produzir a consciência intencional? O debate não é nem um
pouco insignificante. Da resposta obtida ou escolhida
dependerá um determinado conceito da morte.
O século 19 assistiu a essa discussão de um ângulo
ligeiramente diferente. A idéia da geração espontânea de
pequenos organismos a partir de uma energia vital foi destruída
pelo biologista Louis Pasteur, que tornou evidente o papel dos
micróbios na gênese das doenças. Desapareceu, assim, o sonho
dos adeptos da geração espontânea da vida. No outro extremo,
o século 20 dedicou-se a produzir vida em laboratório a partir
apenas da utilização de blocos de matéria. Nos Estados Unidos,
em 1952, certa experiência foi realizada. Um pesquisador
tentou gerar vida a partir do que ele pensava ser as condições
ideais existentes na terra, há uns bilhões de anos. Usou, então,
água e uma mistura de gases contendo, entre outros, o metano.
Nesse ambiente confinado, em primeiro lugar ele simulou
relâmpagos, através da produção de arcos elétricos. Para
surpresa sua, viu aparecerem aminoácidos, constituintes
primários da vida. Contudo, conforme os próprios cientistas

confessaram, não houve surgimento da vida, pois, para isto,
é necessário um código genético, constituído pelo material
portador de informações hiper-organizadas, que é o DNA.
Em outras palavras, para que haja vida, é preciso um tipo de
inteligência, veiculada pelo DNA.
A esse respeito, o professor Daniel Cohén, que dirige o
programa francês de pesquisa sobre o genoma humano,
explicou que, no início de seus estudos sobre o assunto, ele
professava o ateísmo, mas quanto mais descobria a com­
plexidade inacreditável da organização desenvolvida dentro
das células humanas, mais a hipótese de uma Inteligência
Divina tornava-se plausível para ele. Invocar o acaso ou a
seleção natural, a p riori cega, parecia-lhe desmedido para
explicar a extraordinária organização do genoma humano.
Mas voltemos às tentativas de criação da vida. Desde 1952,
outras tentativas foram feitas, com resultados infrutíferos.
Mesmo que um dia se anunciasse que um laboratório
conseguiu fazer a síntese da vida, isto não provaria abso­
lutamente que essa en ergia ten h a sido criada, mas, quando
muito, que as condições m ateriais, físicas, quím icas,
eletromagnéticas, etc., foram reunidas de tal modo que a vida
pôde se manifestar dentro de receptáculos. Além disso, a
dificuldade da maioria dos modernos estudos da vida vem
do fato de que, cada vez que o ser humano quer observá-la a
partir de seu interior, ele se vê obrigado a destrui-la.
No que concerne o debate sobre a presença ou não da
vida, na qualidade de fenômeno que existe junto à matéria,
convém observar que o pensamento científico atual utiliza
atalhos abusivos de raciocínio. Tomemos o exemplo da

memória. A experiência da neurologia leva nosso mundo a
concluir que a sede da memória está situada totalmente no
cérebro. Lesões acidentais ou provocadas (em animais)
produziram em suas vítimas perdas de memória passageiras
ou irremediáveis. Tudo se passaria, então, como se o dano
causado às células ou aos centros nervosos afetasse
simultaneamente a capacidade de recordação das lembranças.
Concluiu-se daí que a memória de determinado assunto se
situaria num local específico do cérebro, ligado a esse assunto,
como numa gigantesca biblioteca. Hoje, com o progresso das
pesquisas, admite-se, porém, que todo o conjunto, e não mais
apenas uma parte dos neurônios do cérebro ou até mesmo
do corpo, está implicado no processo de memorização.
Contudo, a conclusão tácita dessas experiências é que o
conjunto da memória precisa ter um suporte físico, como no
caso de uma memória eletrônica (estocada em circuitos
integrados ou CDs).
E bem esse o caso de determinadas áreas daquilo que se
denomina memórias de curto, médio ou longo termo. Mas essas
experiências não permitem demonstrar que o desenvolvimento
de uma vida, naquilo que ela possui de mais emotivo e mais
sutil, deva forçosamente inserir-se num substrato material.
Admitir que uma estrutura material seja necessária para a
manifestação de um fenômeno não significa, automaticamente,
que essa matéria visível represente o alfa e o ômega de tudo o
que existe. Princípios como a alma ou a memória (veremos
depois que estão ligadas) podem ser, com toda liberdade e
independência, ao mesmo tempo em que precisam de um
mediador físico para se manifestarem. Precisamos aprender a
diferenciar entre o ser e sua manifestação, sem que um exclua
forçosamente o outro.

Quando se lesa uma parte do cerebro, o que se faz é somente
atacar o mediador que liga a sede da memoria à sua expressão
inteligível ou à sua tomada de consciência. Por analogia,
destruir algum dos componentes eletrônicos de um televisor
diminuirá parte da qualidade da imagem recebida. Todavia, as
ondas enviadas pela emissora ou pelo satélite continuarão
inalteradas.
Mas fiquem todos tranqüilos, promover a certeza da
existência da alma, como modo de explicação de alguns
fenômenos, não significa inserir um termo obscurantista nas
pesquisas científicas. A ciência deve estudar a organização
natural, e só pode fazer isto tendo toda liberdade. O estudo da
matéria, aliás, talvez até acabe ajudando a compreender melhor
a alma. Mas a ética, a responsabilidade e a objetividade
científicas não permitem hoje (e provavelmente jamais
permitirão) negar os fenômenos invisíveis. Os maiores
biologistas da atualidade não hesitam mais em reconhecer que
a descoberta do código genético contido no DNA não é
suficiente para explicar o conjunto dos fenômenos chamados
u • i yy u
• a.
• »
vida e consciência
.
De fato, o único “instrumento científico” capaz de sondar
o mundo das essências é o próprio ser humano e suas
experiências interiores; de fato, o ser humano é um produto
(até onde chega nosso conhecimento atual mais avançado)
desse mundo das essências. “Sem elhante com preen d e sem e­
lhan te”, como diz uma velha fórmula alquímica.
O desenvolvimento extraordinário da informática leva
muitas pessoas a acreditarem que a inteligência artificial está a
um passo de igualar, quem sabe, até superar a do homem. Em

conseqüência, segundo a lei do menor esforço, não pre­
cisaríamos mais invocar a inteligência da vida para explicar a
inteligência humana, uma vez que uma inteligência estri­
tamente material pode fazer isto igualmente bem. A derrota
retumbante do jogador de xadrez Gary Kasparov para um
computador foi largamente comentada e veio apoiar essa idéia.
Isso é esquecer um pouco rápido demais que por trás do
computador estão os seres humanos. Kasparov, aliás, revoltouse contra essa derrota, argumentando que os engenheiros
corrigiam todo o tempo os cálculos da máquina, à medida que
o grande mestre do xadrez a colocava em dificuldades. Em
outras palavras, Kasparov não jogou contra um simples
computador inerte, mas contra engenheiros que somavam sua
inteligência ao poder de cálculo da máquina.
Na realidade, nenhuma inteligência mineral até agora jamais
superou a inteligência e a criatividade biológicas desenvolvidas
pelo ser humano. O computador não tem alma, poder-se-ia
dizer, ou, se a tem, é indiretamente a de seus criadores. Todas
essas digressões pela memória e pela informática parecem estar
nos afastando do nosso assunto. No entanto, elas nos autorizam
a pensar livremente que, em nosso mundo científicotecnológico, existe uma inteligência contida numa vida e numa
memória que são independentes da matéria e que, portanto,
sua imortalidade continua sendo imaginável.
Todo o problema da reflexão atual sobre a vida vem do fato
de nosso mundo colocá-la em oposição à matéria, como se uma
pudesse se manifestar sem a outra. Recusamo-nos a considerar
que uma relação dialética possa uni-las, uma se sobressaindo à
outra. Paradoxalmente, Pasteur, que combateu a idéia da
geração espontânea, escreveu o seguinte, numa de suas

anotações: “Quem nos garante que o progresso incessante da ciência
não obrigará os cientistas de daqui a um século, m il anos ou dez
m il anos, a afirm arem que a vida sem pre existiu e não a m atéria?
Passamos da matéria à vida porqu e nossa inteligência atual, tão
acanhada em relação ao que será a inteligência dos naturalistas
do fu tu ro, nos diz que não se p od e com preen der as coisas de outro
m odo. Quem m e garante que daqui a m il anos não se acreditará
ser im possível não passar da vida à m atéria?”. Quanto a nós,
pensamos que uma inteligência realmente prudente e isenta
de preconceitos materialistas não pode racionalmente descartar
a hipótese dessa vida preexistente.
A lição que poderíamos tirar da questão da geração
espontânea é de todo original: a vida não pode nascer
espontaneamente, numa forma conhecida, dentro de uma
massa de matéria não preparada. Foram precisos milhões de
anos para que essa vida estruturasse pouco a pouco a matéria,
a fim de que esta se tornasse um suporte válido para a expressão
daquela. As formas mais evoluídas da vida só são transmitidas,
portanto, pela presença de células já existentes e muito bem
estruturadas geneticamente. Entretanto, no que concerne uma
visão espiritual da existência, milhões de anos não representam
nada. Mas recriar artificialmente uma organização material que
apresente certa vitalidade não é suficiente para provar que essa
energia seja o resultado exclusivo dessa organização da matéria.
Para compreender o surgimento da vida, é necessário ter em
mente a relação dualista que ela mantém continuamente com
a matéria, e a isto somar a intervenção das leis de evolução, do
tempo e, por que não, de alguns “acidentes” certamente não
devidos ao acaso.
A observação do mundo natural, aliás, provavelmente
poderia nos fornecer muitas outras informações acerca da

existência a priori da vida. Como responder à pergunta: por
que a natureza apresenta uma capacidade criadora tão
extraordinária? Os naturalistas sabem perfeitamente, por
exemplo, que essa vida aparentemente tão frágil dá provas de
uma capacidade surpreendente de renascer em seguida à queda
de uma mínima chuva nos desertos mais áridos. A luz dos
nossos conhecimentos atuais, o ser humano representaria a
forma de vida mais organizada que existe. Constituiria, acredita­
se, o ápice da evolução. A análise do ser humano, de suas
particularidades e faculdades também pode pôr em evidência
a existência da alma.
A primeira e certamente a mais evidente das características
humanas está em sua autoconsciência. Em outras palavras, o
ser humano desenvolve uma personalidade ou um eu. Isso
significa, em outros termos, que no estágio humano a evolução
pode assumir caráter consciente e voluntário, indepen­
dentemente da pressão do meio ambiente. O ser humano busca
e quer evoluir por si e para si, do ponto de vista psicológico.
Através dele, a consciência, que é um conceito totalmente
abstrato, buscaria se aperfeiçoar. Dissemos antes que, segundo
as teorias materialistas, as leis naturais seriam o resultado de
uma necessidade inerente à matéria. Isso parece significar que
a matéria seria, ao mesmo tempo, a causa e a conseqüência de
suas leis, independentemente da intervenção de uma
inteligência externa ou transcendente. Acontece, porém, que
o ser humano, ápice da evolução, pode, não só hoje como há
muito tempo, constituir essa inteligência exterior. O ser humano
é causativo, isto é, pode livremente decidir acionar forças e leis
naturais que, até certo ponto, submetem a matéria à sua
vontade. Como explicar que a necessidade ou a matéria inerte
tenha podido criar tal inteligência livre, capaz de se tornar

mestre dela? Através do ser hum ano, a consciência,
supostamente produzida por arranjos complexos da matéria,
buscaria se desenvolver por si mesma. De novo, onde é que se
encontra no mundo mineral a origem desse impulso? Nossa
compreensão científica atual não pode responder a essa
interrogação, a não ser (e isto colocaria em questão muitas
coisas, fazendo desaparecer uma certa concepção da natureza,
herdada da ciência do século 19) que se considerasse a matéria
como um ser vivo e consciente, capaz de apresentar uma
inteligência. O inerte não pode produzir consciência, mas a
inteligência, ao organizar o inerte, pode gerar consciência
objetiva.
É fato pragmático que um ser humano colocado num
ambiente desconhecido tentará estruturar aquilo que ele
percebe, para dar-lhe um sentido. Para isso, ele partirá do
conhecido: sua experiência atual. Tentará, então, comparar
aquilo que ele percebe como novo com aquilo que ele já
conhece. Assim, ele fará nascer nele a centelha de compreensão
dessas novas experiências. Essa tendência é irresistível no ser
humano. O que chamamos inteligência pode, aliás, ser
definida, entre outras coisas, por essa faculdade de adaptação
que transporta o desconhecido ao conhecido. Em última análise
e de modo extremo, pode-se remontar essa tendência ao seu
instinto de conservação. O ser humano sente necessidade de
compreender seu ambiente, a fim de dominá-lo e assegurar
sua sobrevivência.
Os antropólogos preferem muitas vezes situar os primordios
da civilização há mais ou menos cem mil anos. De fato,
constataram que foi por volta dessa época que o ser humano
começou a enterrar seus mortos. Nesse mesmo período, ele

considerou pela primeira vez a noção de uma alma imortal.
Nossa civilização materialista explica que a vontade humana
de considerar a sobrevivência da alma é um produto do medo
da morte ou, então, que trata-se da consideração e da
interpretação, pela consciência, do instinto de sobrevivência.
Que a consciência leve em consideração o instinto de
sobrevivência, isto parece, por si mesmo, evidente. Contudo,
recordemos a pergunta feita anteriormente: qual é a origem
do instinto de sobrevivência? Não a matéria inerte, com certeza,
mas, sim, a Alma Universal. Por conseguinte, se o ser humano
possui a intuição irreprimível da sobrevivência de sua alma,
esta vem-lhe justamente da existência dessa alma imortal.
Que dizer, então, do impulso sentido pelo mestre Leonardo
Da Vinci, de pintar a Gioconda? Alguns filósofos gregos, dentre
eles Platão, seguidos dos neoplatônicos, explicavam que o ser
humano possuía, em seu foro íntimo, de maneira mais ou
menos difusa, uma idéia do belo, de bem, do justo e do
verdadeiro. Platão acrescentou que seria perfeitamente possível
imaginar que as noções de perfeição, provenientes do mundo
arquetípico das idéias eternas, foram-lhe transmitidas por
intermédio da Grande Alma do Universo. Ele a considerava,
portanto, como um intermediário entre o mundo material da
transformação e aquele outro imutável, dos arquétipos.
Sócrates, mestre de Platão, por sua vez, ensinou a existência
de um conhecimento inato no ser humano, do qual ele poderia
se lembrar sob determinadas condições. Ele foi o divulgador
da m aiêutica ou arte de fazer a alma parir através de um
questionamento corretamente conduzido. A palavra m aiêutica
é formada de m aia, termo grego antigo que significava
“pequena mãe” ou “pequeno pai”. Um dos nomes freqüen­
temente utilizados para designar a Alma Universal é a “Mãe

Universal”. Segundo aqueles grandes filósofos, um ideal de
perfeição de conhecimento dormita no homem. A busca desse
ideal, seja ele material, intelectual, emocional ou espiritual,
compõe o fermento da evolução humana. E poderíamos
acrescentar que todas as tendencias que impelem o ser humano
para os elevados valores da vida (amor, arte, fraternidade, etc.)
vêm de sua alma.
É inegável que o ser humano, face à existência material, é
capaz de demonstrar certo livre-arbítrio. Essa capacidade só
pode lhe ser insuflada pelo mundo espiritual. A liberdade da
alma se contrapõe à necessidade de leis do mundo material.
Fonte dessas leis, ela só pode ser maior que elas. Toda a vida
humana constitui uma luta contra a necessidade. O advento
da tecnologia nos permite compreender que essa luta deveria
passar por um estágio de dominio, em vez de destruição da
natureza material. De fato, muitas tradições e filosofias
concordam em explicar que, por suas faculdades e poderes, o
ser humano representa uma imagem da Grande Inteligência
Universal que está na origem do mundo.
Um dos símbolos mais antigos usados para descrever o elo
e a relação existentes no ser humano entre sua alma e seu corpo,
ou entre os mundos espiritual e material, é a cruz. O braço
horizontal da cruz descreve, por sua relação com a linha do
horizonte terrestre, o mundo da matéria. O braço vertical, pelo
fato de sugerir a idéia de descida, representa a alma que se
infunde na matéria, para nela estabelecer uma relação dialética.
A barra horizontal ou material é regida pelos princípios de
evolução, transformação e multiplicidade de formas e estados.
A morte, que, em última análise, representa uma transformação,
pertence-lhe portanto. Note-se, lançando mão de um outro

símbolo, que a serpente do texto bíblico da Gênese é um animal
que rasteja horizontalmente, o corpo em contato com o chão.
“O mais ardiloso de todos os animais dos campos” está
qualificado no mito? O ser humano, por sua vez, desenvolve o
estágio vertical. Sua relação para com ambos ilustra o
simbolismo da cruz.
O réptil representa a necessidade de leis no mundo material,
enquanto o ser humano encarna seu velho inimigo, a liberdade.
Eis porquê, no mito bíblico, a serpente sentenciou a queda de
Adão. Eles representam duas ordens distintas. Um é o sujeito,
o outro, o objeto. Boa parte da história das sociedades foi
baseada nessa dualidade, nessa luta ou numa busca perpétua
de equilíbrio entre esses dois princípios, o da necessidade ou
totalitarismo sufocante e o da liberdade que dirige o ser humano
para o progresso. O braço vertical da alma fornece as idéias de
perfeição e infinito.
A essa altura, podemos dar uma nova definição ao termo
“milagre”. Ele representa a irrupção da liberdade no mundo
da necessidade. Nesse sentido, todo processo vivo torna-se um
milagre. Não precisamos evocar Lourdes, Mejugorje ou, ainda,
manifestações extraordinárias e inexplicáveis. O milagre se
encarna todo dia diante de nossos olhos, na medida em que
vivemos num mundo mesclado de liberdade e necessidade.
Compreender isso é resolver, de um só golpe, o problema da
morte.
A visão materialista da vida transforma o ser humano num
produto bioquímico do acaso e do nada. Nesse terreno,
nenhum humanitarismo coerente, portador de futuro, pode
realmente se desenvolver. Ela torna o ser humano uma simples

máquina que pode ser explorada e destruída. Pior ainda, faz
da poesia um produto de reações estritamente físicas. Mais
espaço, por favor, para uma concepção mais sutil ou sensível
do ser humano e da Criação! Passe a emoção pelas Forças
Caudinas da análise intelectual e materialista, e você a aniquila
irremediavelmente. Dizer “não existe alma im ortal", é o mesmo
que declarar que não há liberdade possível; é encerrar a vida
no absurdo e na ausência de sentido, e, por fim, afirmar que
não existe mais o próprio ente humano!. Sustentar a existência
da alma significa propor um acordo entre a liberdade e a
necessidade. Um sentido para nossa existência torna-se, então,
possível. E é por isso que a evidência da imortalidade da alma
é a única portadora de um futuro sempre a construir.
No simbolismo da cruz, o ponto de cruzamento dos dois
braços descreve um princípio que é evolutivo como o mundo
material e, ao mesmo tempo, perfeito e imutável como o mundo
espiritual. De fato, a relação entre a alma e a matéria, a alma e
o corpo, gera um principio que é afetado simultaneamente pelos
mundos espiritual e material. Parece que todo processo vivo
situa-se no ponto central de urna cruz desse tipo. Na tradição
islâmica, o ofício de tecelão, com suas
tramas, simboliza a
/
estrutura e o movimento do universo. E através dos seres vivos,
todavia, que a ação da alma dentro da matéria torna-se mais
evidente. Essa idéia sugere a presença de um mundo invisível,
o duplo ou a matriz do mundo visível. Por conseguinte, a morte
do corpo, representado pelo pote de cerâmica do oleiro, não
significa, ip sofacto, o desaparecimento do molde que o formou.
Existe um verdadeiro enigma em torno à identidade
verdadeira do ser humano, o qual pode influenciar nossa
compreensão da morte. Esse mistério pode ser assim expresso:

existe um eu humano? Vimos que o budismo oficial responde
negativamente a essa questão fundamental, apoiando-se, como
Héraclito, no fato de que nada é, tudo se torna. Algumas pessoas
sentem-se atraídas pelo budismo, por acreditarem (um tanto
apressadamente) que ele desenvolve uma visão muito próxima
da filosofia do materialismo, uma vez que nega a existência do
Ser Absoluto que é Deus. O filósofo André Comte-Sponville,
por exemplo, diz que a filosofia indiana sâmkliya, considerada
como a fonte do budismo, expõe o mesmo princípio de
inexistência do ser.
Platão, por sua vez, numa síntese superior, realizou a
unidade entre a idéia de um ser supremo e imutável e a de um
mundo em transformação. Para ele, portanto, há lugar para
que o ser humano participe no Ser.
Na filosofia do islã esotérico, encontramos idéias parecidas.
Para o sufi, o ser humano não é nada e absolutamente não existe.
No entanto, admite-se o mistério da existência humana, o qual
se está inteiramente nestes versos de Djalâl-od-Dtn Rümi:
“És nada e teu nada é m elhor que a existência.
Estás atrelado na perda e tua perda é um ganho.
Se fo res aniquilado, ser-te-á dado a existência.
Se te diminuíres, tom ar-te-ás m aior que o mundo.
Serás depois mostrado a ti mesmo, sem ti. ”
Maravilhosas fórmulas para reconciliar o ser e o devenir,
numa síntese que ultrapassa o entendimento. Isso, aliás, talvez
explique a prudência extraordinária do Buda, que sempre se
recusou a indicar a solução do problema relativo à impes­
soalidade ou não do carma.

Mas voltemos à nossa alma imortal. Até aqui, foram
desenvolvidos elementos em favor da existência eterna de um
princípio único, que foi qualificado de Alma Universal, do qual
emana uma grande força de vida. No entanto, o leitor certamente
há de convir que o que realmente interessa aos habitantes deste
planeta é a possibilidade de uma sobrevivência de seu eu, de sua
individualidade. Seja poderoso ou miserável, o indivíduo quer
saber se as tribulações que ele viveu neste mundo possuem um
sentido em relação a um destino mais vasto. Vamos, então,
examinar agora a questão da sobrevivência do eu.
Salientamos, em primeiro lugar, que o ser humano é
consciente de si mesmo. E justamente devido a essa consciência
de si mesmo, que é diferente daquela que os outros possam
ter dele, que ele desenvolve uma verdadeira personalidade. A
emergência da autoconsciência na corrente da evolução das
espécies constitui, de fato, uma ruptura em relação ao passado,
mesmo que se possa dizer, de alguns animais superiores, que
eles tenham desenvolvido uma autoconsciência embrionária.
A esse respeito, note-se que 99% dos genomas são comuns a
humanos e macacos. O 1% restante representa, en tre outras
coisas, a consciência de si, de Deus, da verdade e da morte.
C onsciente d e si m esm o, isto, para o ser humano, significa que
nele a evolução adquiriu caráter radicalmente diferente. O ser
humano pode aceitar ou rejeitar a ação de fazer evoluir sua
própria personalidade, multiplicando ou não os instrumentos
favoráveis ao fenômeno evolutivo. Quanto a isso, ele é dotado
de livre-arbítrio. A evolução representa nele um fator
consciente, ao passo que nos outros reinos essa consciência de
evoluir, tanto individual como coletivamente, não existe ou
existe em baixo grau. Nos reinos qualificados de inferiores, a
evolução parece mesmo ser sofrida.

Não há evolução sem memória. O que hoje é aprendido é
armazenado e serve de base para compreender ou adaptar-se
a experiências futuras. No mundo material vivo, conhecemos
essa memória que conserva a experiência evolutiva adquirida.
A genética chama essa memória de hereditariedade e explica
que a hereditariedade de características físicas ou mentais é
transmitida pelo código do DNA. Essa codificação está inserida
no núcleo de todas as células vivas.
Vimos antes que nada nos impedia de considerar a existência
autônoma de uma memória capaz de conservar a experiência
adquirida durante toda uma vida. Em outras palavras, é
possível imaginar a sobrevivência de um indivíduo depois da
morte? Por que pensar, por exemplo, que o conhecimento e a
maestria adquiridos voluntariamente por determinada pessoa,
ao longo de sua vida, sejam perdidos, sendo que a natureza
tomou o cuidado de conservar a experiência do campo material
através de uma memória genética? Por que a experiência
acumulada por meios mais sutis, mais espirituais, seria perdida?
Se a regra do menor esforço mostra-se verdadeira na natureza,
por que esta teria tido o cuidado de produzir uma consciência
tão evoluída quanto a do ser humano, se fosse para faze-la
desaparecer ao cabo de uns oitenta anos?
Se não admitimos a sobrevivência da personalidade humana,
fica difícil justificar esse desperdício de uma natureza que
produz uma criatura cuja principal característica é desenvolver
uma personalidade imperfeita, passível de evolução e
aperfeiçoamento. Parece evidente, ao observarmos hones­
tamente a nós mesmos e aos nossos concidadãos, que, numa
única existência, a personalidade fica bem longe de ter
manifestado o desenvolvimento máximo de todas as suas

qualidades latentes. Se a pessoa desaparece com a morte, fica
difícil compreender por que o universo dotou-se desse meio
de autoconhecimento que é o ser humano. Afinal de contas, o
universo se reflete na consciência humana. Quanto mais o
indivíduo cresce em conhecimento, sabedoria e maestria, mais
o reflexo se aproxima de seu molde, ainda que, ao longo do
progresso, cresça também nosso sentimento de ignorância.
Se a experiência de uma personalidade e esta mesma
personalidade desaparecerem sem estarem terminadas, será
que podemos realmente ter a esperança de que o ser humano
se torne, um dia, como no caso dos místicos mais evoluídos, o
instrumento através do qual o universo será consciente de si
mesmo? O espírito da poesia nos deixa pressentir: o universo
mira-se no pensamento dos entes despertos. O sonho
prometeico da humanidade é tácitam en te o d e acender o fo g o
do conhecimento. Todos os talentos da humana natureza de
hoje não preenchem esse vasto e brilhante destino. Arte, ciência,
religião, mística, poesia, meditação, não esgotam a totalidade
do conteúdo do real e do imaginário que se tornará o real de
amanhã.
No que diz respeito à existência de uma memória capaz de
conservar a experiência plena de uma pessoa, as tradições
orientais, bem como o esoterismo ocidental, aludem à existência
de arquivos que correspondem a uma espécie de Memória
Universal. Essa memória reteria, por toda eternidade, a
experiência adquirida pelos indivíduos. Ela constituiria um
quinto elemento, chamado akasha, em sánscrito, sendo os
quatro outros a terra, a água, o ar e o fogo. Note-se, de
passagem, que a maioria das religiões ou tradições aludem, de
maneira simbólica ou velada, a essa memória. A pesagem do

coração no Egito, por exemplo, acontece na presença do deus
Toth, o deus da escrita. Thot era o Senhor da Voz, o Mestre da
Palavra e, sobretudo, o inventor da escrita. Sobre esse último
atributo, diz ele num mito: "Ela representa a mais n otável de
minhas idéias. Ela perm itirá, aos egípcios, adquirir e conservar
uma ciência incom parável. Graças a ela, eles poderão guardar a
lem brança de todas as coisas. A escrita elim inará a ignorância e
com p en sa rá a fa lta d e m em ória " . Desse modo, pode-se
estabelecer o elo entre o livro, a escrita e a memória. Fazer com
que Toth intervenha na pesagem do coração é, portanto, uma
forma de explicar, pelo símbolo, que a evolução da alma ocorre
perante a Memória Universal.
Tomar o exemplo isolado do Egito não significaria grande
coisa se uma religião mais atual não utilizasse, ela própria, uma
imagem similar. No Apocalipse de João também se fala de livros
e, especificamente, do “livro da vida" (João 19, 11). E cada
alma “é ju lga da segundo o con teú do desses livros", os quais,
naturalmente, ela mesma escreveu. “E aquele que não está
inserido no livro da vida é lançado num lago de fogo" . Que
representam esses misteriosos livros senão a memória das
experiências e dos atos de cada um? Na verdade, a maioria das
tradições alude a um deus escriba, que anotaria a história de
cada pessoa. Na índia, o deus Ganesha, com cabeça de elefante,
escreve o texto da grande epopéia ou Mahabharata, ditada pelo
vidente Vyasa. Seria graças a essa memória imaterial que as
personalidades seriam conservadas, antes de renascerem para
um novo ciclo de evolução. Essa interpretação seria muito
cômoda, pois provaria que o ser humano evolui através de
sucessivas vidas de experiências e provas. Esse pensamento
coincidiria também com a idéia que geralmente se tem da
justiça. Explicaria, ainda, porque as crianças que nascem hoje

estão cada vez mais rápidas em sua adaptação às condições
sempre cambiantes do mundo moderno. Elas dão mesmo a
impressão de possuírem um conhecimento adquirido
anteriormente.
Nessa questão de memória e conhecimento passado, um
professor da universidade de Charlottesville, Virgínia/EUA,
estudou as lembranças de vidas anteriores relatadas por crianças
bem pequenas. Esse psiquiatra, Ian Stevenson, estudou, de
1961 até o presente, mais de 14.000 casos de reminiscências
surpreendentes, em todo o mundo. Para ele, se as recordações
de existências anteriores não provam cem por cento a doutrina
da reencarnação, essa idéia, velha como o mundo, constitui ao
menos a melhor explicação do fenômeno. Disse ele: "Todos os
casos que pud e estudar exaustivam ente sugerem o fen ô m en o da
reencarnação. E trago, no m ínim o, aprova de que entre algum as
crianças há elem entos de sua estrutura psicológica que certam ente
não fora m adquiridos em sua vida atual e que tam bém não podem
ser im putados a nenhum fa to r hereditário”.
Se essa idéia de reencarnação é um fato, isto significa que a
evolução, que conduziu a primeira célula viva até o ser humano,
não pára neste estágio, mas pode tomar outras vias para se
realizar. O ser humano pode escolher evoluir de modo
independente de seu ambiente físico, mesmo que ele tenha
oitenta anos de idade. Nada se perde, nada se cria, e todo
trabalho de uma vida, mesmo feito numa idade bem avançada,
produzirá frutos mais tarde. Que perspectivas imensas se abrem
assimí
Inversamente, se, a exemplo de alguns budistas, não
acreditamos na existência da alma, mas somente na de um

carma ou de uma sucessão de causas e efeitos, mesmo assim
podemos notar que, nessa sucessão de ações, a existência de
efeitos já está contida potencialmente na causa primeira. Isso,
portanto, significa que o conjunto das possibilidades —passadas,
presentes e futuras —está latente e eterno na lei que rege essa
seqüência de causas e efeitos. Em outras palavras, tudo está
em tudo, eternamente, sem que tenhamos necessidade de
invocar uma “memória”, no sentido clássico do termo.
Apresentar uma apologia da imortalidade da alma não é
coisa fácil. A argumentação poderá parecer insuficiente ao leitor
preocupado em obter provas tangíveis e absolutas. Na verdade,
é muito difícil provar de maneira filosófica a existência da alma
e sua imortalidade. Se fosse fácil, o debate já estaria encerrado
há milhares de anos. A razão dessa incerteza vem do fato de
que, para obter informações sobre essa esfera, seria preciso que
o pesquisador se comportasse como um peixe que põe a cabeça
para fora da água a fim de admirar o que se passa no outro
mundo, na terra. O pesquisador precisaria mudar de lógica e
de ponto de vista; precisaria aceitar sair daquilo que lhe é
costumeiro. Os pioneiros, na maioria dos campos, muitas vezes
são considerados como marginais, porque incomodam as
ideologias comumente aceitas, sem verdadeira análise. Ousar
imitar os egípcios antigos e ir conquistar o além, como quem
parte para a conquista de Marte... eis um desafio que faz
tremer nossos contemporâneos. No entanto, não existe
nenhuma outra solução, se queremos aprender a domar a
morte. Em relação a esse assunto, existem os mesmos tabus
que existiam na era vitoriana em relação à sexualidade. A
propósito, note que os astrólogos associam o signo de escorpião
ao sexo e à morte, assim como Freud acreditou poder associar
Eros a Tanatos. No entanto, para atingirmos a idade adulta, é

necessário questionarmos nossos tabus relativos à morte. A
única atitude válida face ao assunto é a do caminho do meio.
Nem fascinação nem repulsa, mas adaptação inteligente, só
isto. Um ponto de vista como esse deixa bem para trás o estado
de resignação e se opõe categoricamente à promoção do suicídio.
Repetindo, provar a imortalidade por meio de argumentos
filosóficos é difícil. E preciso salientar, no entanto, que provar
o contrário é impossível. A questão da geração espontânea e as
diversas pesquisas de criação da vida mostram: é impossível
demonstrar que a energia vital corresponde a um mero produto
da matéria.
Na verdade, grande parte do comportamento coletivo da
humanidade é reflexo de uma crença implícita na imortalidade
da alma: de onde vêm nossas idéias de justiça, fraternidade e
altruísmo? Por que defender o interesse coletivo antes ou junto
ao seu próprio, caso se acredite que o ser humano vem do
acaso e retorna ao nada? Por que construir civilizações ou
produzir obras de arte, se apenas a necessidade cega dirige o
mundo? Será que devemos, então, fazendo eco ao Eclesiástico,
entoar o canto niilista: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade e
perseguição de ven to ”}
A orientação moral das sociedades, para além mesmo dos
dogmas, repousa na idéia de que há um propósito sublime
para o ser humano. A humanidade, coletiva e às vezes
inconscientemente, está sempre em busca de sentido e
liberdade. Para progredir, ela tem necessidade de se sentir livre
e de conceber um universo inteligente, criativo e —por que
não? —imprevisível. Precisa sentir “o ser” à sua volta e imaginar
que o universo é concebido segundo o que ela crê ser a sua
imagem. O acaso traz consigo a liberdade, mas apresenta

somente o não-sentido. A necessidade, por sua vez, pode ser
concebida como inteligente, mas destrói a liberdade e o amor.
A esperança de que existe um futuro para o ser humano baseiase nessas idéias. Negar a alma conduz ao niilismo e ao caos. E
por isso, entre outras coisas, que, em nossas sociedades de
consumo e materialismo, mais e mais pessoas se sentem
desnorteadas e infelizes. Não tendo mais um objetivo
transcendente a ser alcançado, elas perderam sua orientação
ou não sabem mais a qual santo se devotar. Não sabendo mais
de onde vêm nem para onde vão, não sabem mais nem mesmo
quem são. Salvo se sua lucidez as fizer responder a charada
materialista: “você veio do nada por acaso e vai voltar ao nada
por necessidade, adivinhe quem é você?”
Foi certamente por causa dessa compreensão e consciente
do risco corrido pela humanidade, que Montesquieu, no século
18, apresentou a imortalidade da alma mais como uma
necessidade que uma certeza. Para ele, essa necessidade faziase tão imperativa que não era nem um pouco permitido duvidar
dela. Depois acrescentou: “Quando a im ortalidade da alma fo r
um equivoco, fica r ei m uito desolado de não acreditar nela". E
concluiu com as seguintes palavras: “Busco a im ortalidade e
ela está em m im mesmo. Minha alma, expande-te! Precipita-te
na im ensidão, penetra no Grande Ser!". Vale lembrar, neste
contexto, a frase lúcida de André Malraux: “O século 21 será
espiritual, ou não será"...
Para encerrar este capítulo, esclarecemos que a compreensão
do fen ô m en o da alma e sua imortalidade é sempre uma questão
de convicção interior. Todavia, isso pode resultar do despertar
de certas faculdades superiores do ser humano. Para utilizar
uma imagem, pode-se dizer que essas faculdades correspondem
a alguma coisa parecida com o despertar do senso artístico, ou

seja, àquilo que o indivíduo é capaz de produzir de melhor no
nível emocional. Acima do senso artístico, há uma faculdade
ainda mais sutil, mais espiritual. E esse meio de conhecimento
que pode nos informar de tudo quanto se refira ao reino da
alma. Aqui não é mais uma questão de fé, mas da cultura
deliberada de um instrumento de investigação suplementar para
o ser humano. Todo o objeto da busca do bem empreendida
pelos místicos, em especial os místicos Rosacruzes, consiste em
permitir que esse sentido se expresse neles.
Num campo mais próximo do paranormal, Mircea Elíade
estudou os xamãs, sacerdotes feiticeiros da Sibéria, Ásia central
e outras regiões do mundo. Observa ele que o aprendiz de
xamã, para se tornar mestre e receber a iluminação que o
tornará curandeiro e vidente, “d eve viven ciar a experiência da
m orte, durante 3 dias e três noites, e da ressurreição m ística”.
Então, nada mais lhe é oculto e ele pode ver o que se passa a
grande distância. Supõe-se mesmo que ele seja capaz de ver as
almas, "quer tenham sido levadas para o alto ou para baixo, no
país dos mortos". Na vasta categoria dos xamãs da Antiguidade,
Sócrates está numa boa posição graças à referência ao seu
Daimon, mas quem mais nos interessa aqui é o sábio Apológio
de Tilanta. Ele teria respondido a um jovem imprudente que,
depois de sua morte, invocou sua alma para obter informações
sobre a imortalidade. Falócrates, em sua biografia de Apológio,
relata-nos a seguinte resposta, supostamente do além-túmulo:
“A alm a é imortal, não é vossa, mas da Providência. Quando o
corpo é consum ido, tal com o um cavalo veloz que salta a barreira,
a alma se lança e se precipita nos espaços etéreos, cheia de desdém
pela triste e rude escravidão que sofreu. Mas que te im portam
essas coisas? Tu as conhecerás quando não mais fores. Enquanto
estás entre os vivos, p or que tentar desvendar esses mistérios?"

¿/leencazaaçãt?, um a ¿/ai m aà
n/Ao) íeo z iaj c/o /m im /¿>, ¿una
convicção unweua//nm ¿e cfí/unc/it/a
Na mente do público ocidental, a palavra “reencarnação”
muitas vezes remonta ao Oriente e seus misteriosos aromas.
No entanto, se é correto constatar que mais de dois bilhões de
habitantes da terra são acalentados pelas doutrinas budistas
ou hindus, que ensinam a multiplicidade de existências, nem
por isto é m en os verdade que o resto d o planeta conhece ou
conheceu esse conceito desde a noite dos tempos. No próprio
continente europeu, muitos grupos o transmitiram secre­
tamente.
Originalmente, a idéia de reencarnação decorreu prova­
velmente da observação 'dos fenômenos naturais, pelos
Antigos. No Livro dos Mortos dos egípcios, por exemplo, o
morto (que podia ser o faraó) geralmente se identifica com
o deus-sol Rá. Na índia, no Egito ou em qualquer outra
parte, que coisa melhor que o retorno diário do Sol no
levante para dar ao ser humano a idéia de um mesmo destino
à sua alma? A reaparição regular da vestimenta floral da
terra não representa a mais bela evocação do ciclo das
encarnações? Mesmo a data do solstício de inverno, que no
Hemisfério Norte coincide com o N atal, marca o tão
esperado triunfo anual do sol, em pleno coração da frieza e
das trevas invernáis.

Os egípcios antigos formularam a idéia segundo a qual "o
que está em cim a é com o o que está em baixo”, e vice-versa. A
Tábua de Esmeralda, texto cuja primeira apresentação
conhecida data do século 3 d.C., apresenta o testemunho
escrito desse princípio. Segundo essa concepção, a fim de obter
informações sobre o mundo invisível, o ser humano deve
proceder primeiro a uma observação do mundo visível. A
doutrina da reencarnação corresponde, portanto, à trans­
posição, para o reino da alma, da lei universal dos ciclos naturais
e cósmicos, cuja existência qualquer um pode verificar.
Os egiptólogos modernos ainda não conseguiram fornecer
a prova de que essa crença existia entre os antigos egípcios. E
apenas uma tradição tenaz que afirma que eles eram partidários
dela. Alguns estudiosos explicam que eles acreditavam na
ressurreição do corpo, a qual devia acontecer ao termo de 3000
anos. Não seria preciso ir mais longe para encontrar a origem
da prática do embalsamamento. Foi daí que veio a idéia de que
eles eram partidários da idéia da reencarnação. Na realidade,
seu conhecimento apresentava uma dupla face. A oficial, do
sacerdócio de Amon, era exibida às claras. Mas havia também
um conhecimento esotérico, uma sabedoria secreta reservada
a uns poucos iniciados. Nela é que se abria o verdadeiro conceito
de vidas sucessivas.
Mais tarde, filósofos gregos, como Platão e Pitágoras, foram
estudar à sombra das pirâm ides. Heródoto, o grande
historiador grego, afirmou que foi dos egípcios que eles
colheram suas idéias sobre a reencarnação e a transmigração.
Disse ele: "Foram os egípcios os prim eiros a dizer que a alma
humana é im ortal e que, no exato m om ento em que o corpo morre,
ela vai se alojar num outro ser vivo que nasça naquele instante;

que, após ter habitado, sucessivam ente, em todas as espécies
terrestres, [ ...] ela p en etra de n ovo num corpo hum ano, no
m om ento de seu nascimento, depois de um a m igração de três m il
anos. Os gregos, tanto os antigos com o os modernos, tom aram sua
essa teoria, apresentando-a com o de sua própria autoria”.
Platão, por exemplo, conta sob forma mítica, no livro dez
de sua “R epública”, a história de Er de Panfília. Er é um jovem
soldado que, após uma batalha, fica morto por dez dias e depois
retorna à consciência. Ao despertar, narra a experiência que
ele viveu no além da morte. Descreve o julgamento das almas e
seu retorno em corpos animais, para uns, e humanos, para
outros. Mas são as almas que fazem essa escolha; porém, antes
de tomarem um corpo, devem se banhar nas águas do rio Letes,
o rio do esquecimento. Na mitologia grega, esse rio separa o
além da vida terrena. E dessa maneira que Platão, precursor
de muitos escritores, explica a súbita amnésia das nossas
existências passadas. No mito, ele evoca também a possibilidade
de reencarnação das almas animais. Num outro texto, “P hedo”,
Platão nos entrega suas reflexões acerca do destino da alma
após a morte, e novamente fala da reencarnação: “Se elas voltam
em sua mesma form a hum ana”, explica ele, “dão nascim ento a
pessoas de boa con duta”.
Para explicar a lei da reencarnação, ele recorre ao princípio
da dualidade. Trata-se de um modo mais filosófico de abordar
o tema, ao passo que outros povos preferem considerá-lo a
partir da observação da natureza. Para Platão, a natureza de
uma coisa só pode lhe ser conferida através da relação com o
seu contrário. Por exemplo, a luz não existe sem as trevas, o
pequeno só faz sentido diante do grande, etc. Um produz o
outro, e vice-versa. Se essa concepção é válida na categoria do

sentido, também o é na das coisas sutis. Assim, para Platão, a
vida não existe sem a morte, a vida vem da morte e a morte, da
vida. No reino da matéria, constatamos esse fato. O húmus,
produto da decomposição das folhas, constitui o terreno ideal
das florestas. Do mesmo modo, Platão explica que as almas
dos vivos são almas mortas que tomaram um novo corpo, assim
como os mortos provêm dos vivos.
Outro grande filósofo grego, Pitágoras, professava, por sua
vez, a doutrina da metempsicose, isto é, a crença segundo a
qual a alma humana pode voltar à vida num corpo animal. Os
pitagóricos muitas vezes são acusados dessa opinião grosseira.
Muitos estudiosos afirmam que sua prática do vegetarianismo
provinha dessa crença. Entretanto, Hiéroclos, um neoplatônico
do século 5 d.C., insurgiu-se contra essa interpretação imatura
do pensamento do grande sábio. Comentando os "Versos de
Ouro” dos pitagóricos, disse: “S em preperm anecendo com o alma
de um ser humano, a alma (humana) vai se tom ar um deus ou
um animal, segundo tenha adquirido a virtude ou o vício. Por
natureza, ela não é nem um nem outro, e éso m en te seu estado de
ser que a tom a sem elhante ao prim eiro ou ao segu n d o”. Antes de
mais nada, ele explicava que o ser humano está situado no meio
entre os mundos superior e inferior. Por causa do uso de seu
livre-arbítrio, ele pode assumir interiorm ente as características
de um ou de outro mundo. Chama-nos a atenção, aqui, a
semelhança com as idéias tibetanas do Livro dos Mortos ou
Bardo Thõdol. Nessa obra, explica-se que o ser pode se
reencarnar como homem, demônio, animal ou deus.
Não há em nossa língua um termo específico que marque
definitivamente a diferença entre reencarnação num corpo
animal ou num corpo humano. Reencarnação e metempsicose

são utilizados indiferentemente, no sentido de renascimento
num co rp o qualquer. Com muita freqüência, a metempsicose
animal é usada no intuito de ridicularizar a idéia do retorno
num corpo humano. E preciso, portanto, imaginar novas
definições que façam da reencarnação a migração da alma de
um corpo para um outro do mesmo reino.
Para se chegar à compreensão das obras de Platão ou Pitágoras,
convém lembrar que, a exemplo dos mestres daqueles tempos,
eles exprimiram seus pensamentos sob forma de alegorias. No
fim das contas, nada evidencia que eles não nutrissem noções muito
mais sutis do que as que decidiram dar ao mundo. A respeito do
próprio Pitágoras, conta a lenda que ele teve a experiência da
recordação de suas vidas anteriores, quando de uma visita a
Heraum de Argolis. Nessa ocasião, ele identificou o escudo de
Euforbe como tendo sido seu, antes mesmo de ter visto a inscrição
que ele continha. Isso faz supor que Pitágoras fora Euforbe,
guerreiro morto diante dos muros de Tróia.
Em Elêusis, nas celebrações dos mistérios, o mito de
Deméter era representado nas iniciações secretas. Platão,
segundo consta, era um iniciado dessa escola, onde a revelação
ilícita dos arcanos condenava à morte os culpados. A deusa
Deméter, personificação da natureza e das colheitas, tinha uma
filha, Core, bela como o sol. Um dia, Hades, deus dos infernos
e irmão de Zeus, apaixonou-se perdidamente pela jovem.
Enquanto ela estava colhendo flores, ele decidiu raptá-la e levála para viver entre as sombras que povoavam seu reino
subterrâneo. De repente, a terra se abriu sob os pés da
adolescente, dando passagem à terrível carruagem de Hades,
puxada por seus cavalos infernais. Num piscar de olhos e num
barulho ensurdecedor, ele arrastou consigo a apavorada Core.

Algum tempo depois, Deméter se deu conta do desapa­
recimento de sua filha. Em prantos, ela peregrinou pela terra
durante nove dias e nove noites, numa procura que se mostrou
infrutífera. Interrogou todos os seres fantásticos e até mesmo
os outros deuses do Olimpo, que ficaram em silêncio, temendo
sofrer as represálias de Hades. Então, Deméter, senhora da
fecundidade da natureza, tornou a terra estéril, declarando
que só lhe devolveria seu poder de produzir frutos se sua filha
lhe fosse devolvida. Diante da iminência de um caos na ordem
da Criação, Zeus e os outros deuses intervieram junto a Hades,
com a seguinte mensagem: “Ou devolves Core, ou estamos todos
perdidos!”. E ele respondeu a Deméter: “Só recuperarás tua filh a
se ela atnda não tiver provado do alim ento dos m ortos”. E como
achasse que assim era, ele se dispôs a devolver a jovem à sua
mãe. Nesse momento, porém, Ascalafos, um jardineiro do
Hades, afirmou ter visto Core comer sete grãos de uma romã
do pomar infernal. Entretanto, era preciso encontrar um modo
de fazer um acordo entre o apaixonado repelido e a mãe, coisa
que aconteceu depois de longas discussões. Core passaria três
meses do ano no Tártaro, com o nome de Perséfone, a rainha
dos infernos, esposa de Hades. Os nove meses restantes, viveria
com sua mãe, na superfície.

encarnações, bem como o período vivido alternadamente
na terra e no invisível. Descreve também os laços que unem
o ser humano e a natureza, o ser humano e os deuses. Aqui,
Core representa a alma humana, filha da Alma Universal
encarnada por Deméter. Perséfone passa um quarto do
tempo num reino inferior, destituído de luz, ao passo que
vive os outros três quartos em estreita harmonia com sua
mãe. Se compararmos os doze meses do ano a um ciclo
completo de encarnação e se os multiplicarmos por doze,
obteremos cento e quarenta e quatro. Os nove meses
restantes podem, então, ser comparados, segundo esse
mesmo princípio, ao número cento e oito. Esse valor
representa relativamente bem uma duração de vida na terra,
que, embora acima da média, não é assim tão raro. Em
relação a cento e quarenta e quatro, restam trinta e seis anos
a serem passados no invisível. 108, 144, 36: esses valores
simbólicos, cujos dois primeiros são muito utilizados nas
tradições orientais e no esoterismo ocidental, têm em comum
o fato de poderem ser reduzidos a nove, que marca
excelentemente a noção de ciclo. A história de Deméter e
sua filha representa, portanto, de maneira alegórica, a lei
das reencarnações comparada à dos grandes ciclos.

Esse mito foi interpretado, na maioria das vezes, como a
representação do ritmo das estações. Perséfone simbolizaria a
germinação na primavera e Deméter, a colheita no fim do mês
de agosto, no signo astrológico da Virgem. O frio e as trevas
do Tártaro, por sua vez, representariam o período invernal.
Mas os mistérios de Elêusis, cuja chave teria sido dada aos
homens pela própria Deméter, encerram uma outra inter­
pretação - esotérica - para a história do rapto. Todo o drama
tem por função descrever o périplo da alma através das

Um outro povo da Antiguidade conhecia muito bem a noção
de reencarnação. Os judeus da Palestina admitem duas fontes
em suas doutrinas: a Torah escrita (os cinco primeiros livros do
Antigo Testamento) e a Torah oral (a lei oral). Essa última,
remontando a Moisés, foi transmitida de boca em boca por
intermédio dos rabinos cabalistas. O rabi Isaac Loria, no século
16, ensinava a metempsicose ou migração das almas, mas
igualmente a impregnação de duas almas num mesmo corpo,
em circunstâncias excepcionais. Os cabalistas geralmente

aceitam a doutrina das encarnações sucessivas, e a Bíblia relata
que o próprio Moisés tinha sido iniciado aos mais altos
conhecimentos do Egito. Deve-se ver aqui uma relação entre
esses dois fatos?

Filho do hom em tam bém de sofrer p or causa d eles”} Então, os
discípulos compreenderam que essas palavras eram para João
Batista. Como explicar, sem distorcer o texto, que Jesus não
estivesse falando da reencarnação de Elias em João Batista?

Por volta do ano 50 d.C., o historiador judeu Flávio Josefo
explicou, em seu livro “História Antiga dos Ju d eu s’’, que essa
crença era muito difundida na Palestina, na época de Jesus.
Afirma ele que na seita dos Fariseus, “tam bém é aceito que as
alm as são im ortais; que as dos ju stos passam, depois desta vida,
para outros corpos, e que as dos maus sofrem torm entos que duram
eternam ente”'. Uma passagem do Evangelho de Mateus faz eco
a esse fenômeno. A pergunta, "Que dizem de m im ?”, feita por
Jesus a seus discípulos, estes não hesitam em responder: “Para
uns, és Joã o Batista, para outros, Elias; para outros, ainda,
Jerem ias ou um dos profetas". Representaria Jesus, para uma
parte do povo hebreu, a reencarnação de um dos sábios antigos?
E por que, em vez de corrigir o possível erro, ele se contenta
em responder: “Mas, para vocês, quem sou eu?".

Ao leitor atento, não parecerá surpreendente que alguns
dos primeiros cristãos possam ter sido adeptos da reencarnação,
se lembrar que estes eram, antes de mais nada, judeus
convertidos ao cristianismo. Foi somente a partir do século 6
de nossa era, no segundo co n cilio de Constantinopla, que essa
idéia foi condenada oficialmente pela Igreja. Esse concilio, eixo
de articulação na história da cristandade, viu a condenação de
um dos principais Pais da Igreja: Orígenes. Orígenes ensinava
a idéia da preexistência da alma e da multiplicidade dos
mundos; idéia cara aos neoplatônicos, para os quais ele pendia.
Uma tradução de um texto de Orígenes, feita por São Jerónimo,
faz transparecer sua convicção: “Os que têm necessidade do corpo
revestem~se de um e, ao contrário, quando almas caídas se elevam
e s e tom am melhores, seu corpo é d e novo aniquilado. Assim, elas
desaparecem e reaparecem incessantem ente".

Até hoje, os judeus continuam aceitando essa idéia. O
movimento do hassidismo, que existe desde o século 18, afirma
sua crença na reencarnação. Segundo uma crença persistente
entre muitos judeus, crianças que morrem com baixa idade
são a reencarnação de pessoas que deixaram este mundo
prematuramente. A tradição esotérica ocidental afirma que os
primeiros cristãos também estavam familiarizados com essa
doutrina. Como compreender, no contexto da época, relatado
por Flávio Josefo, esta frase de Jesus e seu comentário em
Mateus 17,9-13: “Sim, Elias deverá vir e colocar tudo em ordem ;
em verdade, eu vos digo, Elias já veio e eles não o reconheceram ,
mas o trataram com o bem entenderam . Do m esm o m odo, terá o

O origenismo (que já mencionamos num capítulo
precedente) foi condenado pelo imperador Justiniano, que
convocou o co n cilio contra a von ta d e d o Papa Virgilio. Todo o
ceticismo de nossa civilização ocidental, em relação ao tema
das vidas sucessivas, remonta à época em que esse cutelo caiu.
Teria a idéia incomodado o imperador da época, que, contra a
opinião do Papa, queria fazer do cristianismo uma religião de
Estado? Foi esse mesmo imperador, aliás, que fechou, em 529,
a escola de Atenas, último reduto do neoplatonismo no
Ocidente. De lá, os mestres neoplatônicos fugiram para a Pérsia
e transmitiram suas doutrinas ao esoterismo muçulmano.

Nossa investigação deve, então, prosseguir na esfera do islã.
Uma das três grandes correntes islâmicas foi influenciada pela
filosofia neoplatônica. Respeitadíssimos no mundo árabe, os
sufis são em geral considerados como mediadores entre os
sunitas da Meca e os xiitas iranianos. Um de seus maiores
representantes, Djalal-od-Din Rümi, expressou-se claramente,
no século 13, sobre a reencarnação: "Como o segundo estágio
sem pre f o i m elhor que o prim eiro, morre, pois, alegrem en te e
rejubila-te à idéia de tom ar uma form a nova e m elhor [...]. Como
o sol, som ente quando fiz eres teu ocaso, nascerás novam ente em
todo esplendor, no oriente".
Os su fis consideram-se detentores do conhecimento
esotérico do islã, mas os druzas do Líbano também professam
a mesma fé. Para eles, um druza corresponde geralmente à
reencarnação de um outro druza que morrera. Afirmam que
todas as almas foram criadas pela Inteligência Universal, que
o número de seres humanos é sempre o mesmo, e que as almas
passam por diferentes corpos. Abaixo, apresentamos o texto
de uma profissão de fé druza, expresso numa seqüência de
perguntas e respostas.
P: Q uejulgam ento Hamza (o enviado divino para os druzas,
que apareceu na terra no ano 400 da hégira ou era maometana)
exercerá sobre os indivíduos de diferentes seitas e religiões?
R: Cairá sobre eles com o glá d io e com rigor, e fa rá todos
perecerem .
P: Que acontecerá depois que todos p erecerem ?
R: Eles voltarão ao tnundo, renascendo uma segunda vez, pela
reencarnação; em seguida, ele os ju lga rá com o bem lhe aprouver.

Mais adiante, encontramos uma afirmação bastante
surpreendente:
P: Quantas vezes Hamza apareceu e quais fora m seus nom es?
R: Ele apareceu em todas as revoluções, desde Adão até o profeta
Maomé, sete vezes ao todo. No tem po de Adão, cham ou-se Schatnil;
no de Noé, Pitágoras; no de Abraão, seu n om e f o i Davi; cham ouse Schoaib no tem po de Moisés; no tem po de Jesus, ele f o i o
verdadeiro messias e seu n om e f o i Eleazar...
Mais adiante ainda:
P: Como se realiza a reencarnação ou transm igração da alma
num corpo?
R: Sem pre que m orre um indivíduo, um outro nasce; é assim
que o m undo existe.
Essa idéia, porém, não é defendida apenas por algumas
correntes das tradições monoteístas. Na África, está bem
implantada nos povos animistas. Entre os iorubas da Africa
ocidental, por exemplo, algumas crianças, tidas como pais que
voltaram à terra, recebem o sobrenome B abatundê, para os
meninos, e Ietundê, para as meninas. Esses termos podem ser
traduzidos como “Pai (ou Mãe) que voltou”. Em Gana, o
sobrenome Abadio significa “Ele voltou”. Os bam baras
consideram que Dya cN i, dois componentes da alma, podem
reencarnar no corpo de um recém-nascido. Uma superstição
talvez tenha criado a seguinte prática, que os iniciados das
autênticas sociedades secretas africanas rejeitam: fazer um corte
ou estigma qualquer no corpo do morto, para depois tentar
constatar se o mesmo pode ser reconhecido no corpo de um
recém-nascido.

A África não é o único continente cujo culto da natureza
recorre à reencarnação. Certos ameríndios, e mesmo os
esquimós, acreditam poder recordar suas vidas passadas. Na
Europa, desde a Idade Média, parece ser mais difícil encontrar
escritores que professem abertamente o princípio das vidas
sucessivas. Os cátaros, herdeiros de correntes gnósticas, como
também os b ogom iles, acreditavam nele. Entretanto, face à
inquisição reinante, era perigoso divulgar suas crenças.
Contudo, não dizer nada sobre alguma coisa não significa que
não se seja partidário dela.
Como compreender que o conde de Saint-Germain tenha,
em pleno século 18, deixado correr, tão indulgentemente, o
boato de que ele tinha 500 anos de vida? Essa história
inacreditável não estaria escondendo alguma outra coisa? Como
explicar também essa declaração de Cagliostro, feita no decorrer
do seu processo: “Não sou de nenhum a época nem de nenhum
lugar; fora do tem po e do espaço, m eu ser espiritual vive sua eterna
existência, e, se estendo m eu espírito a um m odo de existência
afastado desse que percebeis, tom o -m e aquilo que desejo [.../.
Eis a í m inha infância, m inha ju ven tu de, tal com o vosso espírito
inquieto e ansioso de palavras a reclam am ; mas que ela tenha
durado mais anos ou m enos anos, que tenha se passado no país de
vossos pais ou em outras regiões, que vos im porta isto?".
Ainda no século 18, impossível resistir à tentação de
reproduzir o famoso epitáfio de Benjamín Franklin: “A quijaz
Benjam ín Franklin, tipógrafo, com o a capa de um livro velho, as
páginas arrancadas, abandonado aos verm es; com o título e os
dourados esm aecidos. A obra não se perderá, pois, co m o ele
acreditava, reaparecerá mais uma vez, numa edição nova e mais
requintada, revisada e corrigida p elo autor".

Um pouco mais perto de nós, o doutor C. G. Jung,
psicanalista tão famoso quanto Freud, manifestou-se a esse
respeito. Apesar de nenhuma experiência comprovadora tê-lo
levado a concluir a seu favor, sua primeira atitude cética foi
modificada graças a uma série de sonhos. Neles, como mostra
no livro “Memória, Sonhos e Reflexões”, ele observou o processo
de reencarnação de uma pessoa morta, que ele havia conhecido.
Explica que, estudando certos aspectos daqueles sonhos, seria
possível demonstrar de modo empírico a realidade da
reencarnação, e isto com uma probabilidade nada negligenciável. Desde o início do século 19, várias pessoas se
manifestaram no Ocidente a favor dessa convicção. Pessoas
como, por exemplo, Walt Whitman, o filósofo Emerson, Kant,
Hegel, Victor H ugo...
Corolário da idéia de renascimento, as noções de carma e
darma também tiveram um equivalente no Ocidente. Carma
ou krm, palavra sánscrita que significa “ação”, representa a
noção de justiça ou lei de causa e efeito. Já a palavra darm a,
antes de representar o ensinamento do Buda, pode ser
traduzida como “lei universal”. Essas duas noções estão
indissociavelmente ligadas à reencarnação. De fato, todo seu
sentido como instrumento de evolução está em que ela atue
no âmbito da lei universal que, no caso, m a n ifesta-se através
da lei de compensação ou de justiça.
O Egito antigo conhecia muito bem esses dois princípios,
visto que a pesagem do coração, representada no Livro dos
Mortos, põe em cena a balança da justiça, na qual é colocada
a pluma de M aat, deusa da verdade e da lei universal. O
próprio Platão, em toda sua obra, fala de uma justiça universal
que visa o aperfeiçoamento e a evolução da alma humana.

Ao justo, o ato justo e a justa compensação. A cada um, suas
ações e suas compensações. Não é exatamente assim o princípio
do carma?
Existem diferentes pontos de vista no que se refere à duração
dos ciclos de encarnação. Para os egípcios, 3.000 anos
separariam duas vidas. Platão, em “Phedo", fala de 10.000 anos,
já na "República", cita uma jornada de 1.000 anos. Os tibetanos,
no Bardo Thõdol, estimam que a espera no outro mundo varie
de 0 a 49 dias. A primeira constatação que salta aos olhos em
relação a esses números reside em sua natureza simbólica.
H. Spencer Lewis, Imperator da Ordem Rosacruz,
AMORC, no começo do século 20, alude a um ritmo de 144
anos, valor médio entre dois nascimentos. Se por acaso esse
valor causa surpresa, convém ressaltar que a medicina afirma
hoje que o homem estaria geneticamente programado para viver
entre 130 e 140 anos. 144 corresponde de fato a um número
importante na tradição ocidental. O Apocalipse de João referese a ele, e até as tradições chinesas o têm como um número
nefasto, símbolo de morte. Louis-Claude de Saint-Martin,
filósofo do século 18, afirma que esse número baseia-se nas
dimensões ternárias, quaternárias e setenárias da essência
sagrada do ser humano, sobre as quais deve se elevar a
Jerusalém celeste da paz.
Enfim, de qualquer ângulo que a abordemos, o que
percebemos é que a doutrina da reencarnação se impôs em
todo o planeta. De norte a sul, do oriente ao ocidente, ela guia
e ilumina muitos povos. Na Europa, hoje, indivíduos e
movimentos filosóficos, como a AMORC, mantêm acesa a
chama. Parece, portanto, que, longe de ser apanágio dos povos
orientais apenas, ela representa um valor universal.

Abordemos o tema, porém, na forma como é defendido pelos
orientais. O budismo e o hinduísmo têm concepções divergentes
acerca da reencarnação. Por fortes razões, a idéia popular da
reencarnação, no Ocidente, está a anos-luz da abordagem feita
pelas grandes tradições autênticas. Em que consiste o problema?
O problema está nas diferenças de conceitos oponentes sobre a
natureza do eu, ou seja, sobre a natureza daquilo que reencarna.
Vimos que a índia admite a presença, no ser humano, de uma
alma universal ou atinan. Já o budismo, acentua a doutrina do
anatnam, que afirma não existir nenhum eu, nenhuma alma no
ser humano. Alguns budistas chegam mesmo a negar a existência
de uma Alma Universal, ao passo que, no Ocidente, o valor
absoluto é o do indivíduo.
Mais exatamente, o budismo thcravada do sudeste asiático
(Ceilão, Camboja, Tailândia, etc.) corresponde ao pequeno
veículo ou hinayana. Esse é o que mais se aproxima dos
conceitos originais do Buda. Poderia ser denominado budismo
ortodoxo, em oposição ao que se desenvolveu na China, no
Tibete e no Japão. Essa expressão religiosa compara o eu do
indivíduo a um rio: o rio, em si, não existe; corresponde apenas
a um conjunto de gotinhas de água que se sucedem numa
corrente, até que alguma coisa desvie seu curso. Assim também,
o eu, como unidade, não passaria de uma ilusão. Cor­
responderia simplesmente a uma seqüência de instantes de
consciência, mantidos de maneira coerente pela memória.
Essa imagem, que é defendida igualmente pelos tibetanos,
baseia-se no ensinamento do Buda, que explicou que o eu
constitui o produto de cinco coisas agregadas: a forma, a
sensação, a percepção-concepção, o instinto e a consciência.
Certo dia, o mestre interrogou seus monges:

— Que pensais, ó monges, a form a é eterna ou p erecível?
— Perecível, ó Senhor!
— Que é perecível, o sofrim ento ou a alegria?
— O sofritnento, ó Senhorl
— Então, o que é p erecível, cheio de sofrim ento e sujeito à
transformação, deduz-se que seja eu, m eu próprio ser?
— Não, Senhorl
E, dessa forma, o guia espiritual prosseguiu explorando,
um a um, todos os cinco agregados, mostrando a imper­
manencia e a ausência de realidade estável de cada um deles.
A conclusão conduz à doutrina de anatm am nenhum eu,
nenhuma alma individual. O eu representa, portanto, uma
ilusão e, pela doutrina do budismo, ninguém reencarna.
Somente as tendências, os hábitos, como um carro sem freio e
à toda velocidade, reencarnam. Em outras palavras, o que nasce
de novo é o carma, uma série de potencialidades herdadas do
passado, que vão processar sua energia (que quase se poderia
chamar de cinética) no presente e no futuro.
Buda nunca quis se pronunciar sobre a natureza pessoal
ou impessoal do carma. Tanto quanto não quis se pronunciar
sobre a natureza última do eu. Hoje, o budismo retoma a
posição do filósofo da Antiguidade grega, Heráclito —essa não
é, portanto, uma questão desconhecida. Para essa religião, tudo
está em perpétua transformação. O universo é análogo a um
rio: nada é, tudo se torna. Por conseguinte, não existe nem o
grande nem o pequeno eu estático; apenas um processo, uma
sucessão de causas e efeitos existentes. E a doutrina da
impermanência. A meta do budista consiste em se libertar dessa

roda cega de causas e efeitos, da roda das encarnações, para
atingir um estado de não-ação, no nirvana.
O próprio Dalai Lama tem plena consciência da dificuldade
de sustentar uma tese como essa, visto ter declarado que
ensiná-la a pessoas despreparadas poderia levá-las ao niilismo.
De fato, como compreender o sofrimento de uma pessoa aqui
e agora, se seu futuro consiste num aniquilamento? A mente
moderna perguntaria: para que serve tudo isso, então?
A questão, aliás, não é tão simples assim. A um jornalista
que o questionou a respeito de sua futura encarnação, o Dalai
Lama respondeu, para espanto da platéia presente, que sua
futura encarnação era uma criança já viva e que estava sendo
preparada para sua função. Estaria ele se referindo ao fato de
que, como líder espiritual, ele é sempre considerado, no Tibete,
como a manifestação do bodhisattva da compaixão, Cherenzi\
ou teria querido ressaltar para o Ocidente a impessoalidade da
noção de reencarnação dos cinco agregados? Na qualidade de
Cherenzi, nada impede que outra pessoa possa receber o influxo
espiritual, depois da morte do veículo anterior. Mas, pela
concepção de anatman, nada impede também que duas pessoas
muito íntim as, do ponto de vista de suas tendências
inconscientes e de seu carma, sejam consideradas uma única e
mesma entidade.
Para complicar ainda mais as coisas, há uma crença budista
segundo a qual os agregados que constituem uma dada
personalidade podem reencarnar separadamente, em corpos
diferentes. Assim, uma pessoa pode herdar as tendências físicas
do morto; outra, suas inclinações intelectuais; uma outra ainda,
ser a depositária de sua compreensão espiritual.

A posição do Buda situa-se no lado oposto em relação à dos
brâmanes hindus, que sustentam o princípio da reencarnação
ào atinan, a alma individual. Não é impossível que sua doutrina,
considerada pelos indianos como uma traição, tenha
contribuído para fazer evoluir a dos brâmanes. Nos Upanishads,
contemporâneos de Gautama, vemos de fato aparecer a noção
de que a natureza essencial de atm an, longe de ser individual,
é um componente do Universal, de B rahm an, a Alma do
Universo. “A quele que m edita repetidam ente sobre as três letras
do n om e sagrado, sobre a Alma Universal, é transportado para a
luz, para o sol. Assim com o a serpente desveste-se de sua pele, ele
se desveste do pecado. E elevado, p elos mantras do Sama-Veda, ao
m undo de Brahma. Lá, ele é a alma que é m aior que a som a total
das alm as individuais e que infunde todos os corpos. Isso é o que
ensinam os dois versos que d evem estar sem pre na m em oria ".
Assim, o Buda, que se recusou a falar sobre a natureza da
alma humana, talvez visasse direcionar os seres humanos para
noções mais impessoais ou universais. Sua ação, assim como a
do Cristo, visava regenerar a religião que a tinha precedido
diretamente e da qual era filha.
No Ocidente, o indivíduo é tido como o valor supremo da
existencia. A morte é considerada nada menos que um drama.
A reencarnação, revisada, corrigida, emendada, absorvida e
digerida pelo Ocidente, torna-se o meio ideal para o eu
egocéntrico imaginar sua apaziguadora sobrevivência. A morte
do ego é vivida como urna segunda morte, após a do corpo.
Diante disso, a verdade é que o desenrolar do budismo no
Ocidente nada mais é que um modismo superficial, na medida
que suas verdadeiras doutrinas não são levada em conta. A
chave reside numa diferença de atitude interior, psicológica
ou mental. O eu individual é considerado pelo Ocidente como

um tesouro, enquanto a luz do Oriente coloca a vida, como
corrente impessoal, acima de tudo. A síntese corresponde à
doutrina de Plotino e a dos iniciados de todas as épocas. As
almas individuais são segmentos inseparáveis do Ser eterno e
universal. Não existem almas, mas, sim, uma única Alma,
desempenhando bilhões e bilhões de papéis diferentes,
encarnando bilhões de dramas ditos individuais, manifestando
seus atributos através dos mundos e das criaturas, em formas
cada vez mais superiores.
Com a morte, o indivíduo funde-se à sua Mãe Universal,
da mesma forma como as cores se fundem na luz solar. Acaso
as cores perdem sua identidade na luz branca? Se a alma
individual conserva sua identidade, esta só pode ser concebida
como um componente inseparável da Alma Universal.
Os verdadeiros iniciados buscaram sempre se colocar acima
das divergências das culturas, realizando uma síntese sutil. Toda
luz vem do Oriente e adquire sentido no Ocidente. A Tradição
dos Rosacruzes designa a morte pelo termo “transição"'. Essa
palavra indica a passagem de um estado para outro. Nesse termo
estão contidos “transitório” e “trânsito”. Isso desdobra um
sentido de intermédio, de mudança, de transformação. Sua
origem latina significa “ação
de passar, passagem gradual de
/
um estado para outro”. E a palavra ocidental que mais se
aproxima da palavra tibetana bardo\ estado intermediário.
Podemos, então, explicar que o eu, a consciência, muda de
estado, e compreender por que os cultos são tão divergentes
em relação a uma transformação tão impalpável.
A crença dos budistas é que a existência aparente acaba se
fundindo na vacuidade, ao passo que, para as tradições
ocidentais, a personalidade transfigurada conserva sempre sua

identidade. Na realidade, raros são os seres que sabem
verdadeiramente o que aguarda a personalidade humana após
sua jornada de milhões de anos. Quer seja uma fusão com perda
de identidade ou de uma alquimia sutil em que a alma humana
é, a um tempo, unida a Deus e distinta dele, estas são palavras
incapazes de descrever a natureza da experiência suprema.
Somente um sentimento interior, advindo de uma longa busca
que transcende as faculdades do cérebro, pode dar acesso a
algumas informações. Teria a alma a possibilidade de se fundir
com seu Criador, para além do bem e do mal, para além de
toda forma, num vazio etéreo? Talvez ela possa manter a
capacidade de voltar a descer, para reen con tra r sua identidade
numa relação dual, frente a frente com o Indizível. Graças a
isso, ela teria a possibilidade de cantar lou vores à sua fonte no
Ser eterno. Entretanto, a única certeza que temos e que
ultrapassa as divergências de linguagem é que, quaisquer que
sejam os mestres espirituais, seus ensinamentos encerram uma
promessa de libertação das limitações e do mal. Todos eles falam
de uma felicidade suprema. E essa promessa que constitui a
chave e o guia da evolução, bem como a solução da verdadeira
doutrina da reencarnação.
Corolário dessa doutrina, o princípio do carma dá-lhe
sentido. Um não pode ficar sem o outro, e a reen carn açã o seria
esvaziada de sua substância e de sua razão de ser se uma lei
específica não canalizasse seu processo. Muitos dos escritores
que se expressaram sobre o assunto não estavam enganados
em seu raciocínio. Eles fundam entaram sua a rgu m en ta çã o na
idéia de uma justiça universal. A maioria das religiões e filosofias
baseiam seu sistema nessa mesma concepção de justiça.
Observando as crianças, é fácil constatar que essa noção de
justiça exprime-se de maneira inata no ser humano. Basta notar

a reação escandalizada de uma delas diante de algo que
considera uma injustiça. A justiça possui u m valor universal
sobre o qual estão fundadas nossas próprias sociedades. Em
função da máxima, "O que está em cim a é com o o que está em
baixo", os seres humanos sempre pensaram que a Divindade
reina sobre o mundo graças à sua justiça espiritual im ánente.
O carma é uma expressão particular dessa justiça. Como
acreditar, co n ceb en d o -se D eus co m o o arquétipo do justo, que
uma única vida de atos bons ou de erros possa receber como
san ção um a etern id a d e d e sofrim en to ou, ao con trário, de
felicidade? Como acreditar no paraíso ou no inferno eternos,
en sin am en to oficial das religiões monoteístas, ao m esm o tempo
em que essas mesmas religiões nos dizem que Deus é amor?
Orígenes foi mais co er en te ao afirmar que vamos todos para o
paraíso. Mas, nesse caso, onde ficam os princípios morais?
A reencarnação e o carma correspondem a leis cujos efeitos
residem no fato de que cada ação traz em si sua conseqüência
exatamente proporcional. O resultado poderá se fazer sentir na
vida presente ou numa vida futura, tendo em vista a educação
da personalidade. Tomemos uma imagem: quando uma criança
se queima, aprende uma lição sobre a natureza do fogo e da
reação de suas células quando expostas a este elemento. Da
mesma forma, as conseqüências dos pensamentos, palavras e
atos humanos nos ensinam sobre sua natureza lícita ou ilícita,
positiva ou negativa, em relação às leis universais. E tido como
lícito tudo aquilo que favorece a evolução da pessoa e do seu
ambiente. O ilícito é tudo aquilo que bloqueia o desenvolvimento.
Assim, a reencarnação, concebida dessa maneira, representa uma
oportunidade de evolução para o ser humano, que se v ê
confrontado com as leis do carma. São essas leis que balizam e
iluminam seu caminho.

Em matéria de educação infantil, o bom senso diz que, para
evoluir em perfeito equilíbrio, ela tem necessidade de ser
confrontada com um quadro claramente definido, justo e
estável. Explorando o permitido e o proibido em relação a esse
quadro que, inicialmente, pôde ser negociável, ela constrói aos
poucos os valores que edificarão sua personalidade. O que
muitas vezes se esquece é que o adulto se confronta com as
leis universais da mesma maneira que a criança diante das leis
paternais. O carma representa uma lei imutável, estável,
impessoal e não-arbitrária. E nesse sentido que ela ilumina a
vida e se torna a prova evidente da Misericórdia Divina. O ser
humano, portanto, é responsável por seu futuro, cuja vinda
ele pode preparar através de suas escolhas presentes, e que ele
deseja que seja o melhor possível, para se libertar de toda
dependência.
Como já dissemos, a idéia do carma foi conhecida também
em outros lugares, além do Extremo Oriente. A psicostasia
egípcia, a famosa pesagem do coração, simboliza o carma de
maneira bastante exata. Não é o cérebro nem o corpo do morto
que é pesado, mas seu coração ou ab. Em outras palavras, o
que Thot, o sábio, avaliava não era tanto os atos mas as intenções.
Essas eram comparadas com a pluma de Maat, a verdade e a
lei universais. Essa lei, leve como uma pluma, é feita de
harmonia, por isto se diz que bastam poucas coisas para romper
seu sutil equilíbrio.
Platão, no mito de Er, descreve ainda mais claramente o
princípio do carma. Ele apresenta o futuro das almas que são
levadas a renascer. Explica, então, que esse futuro depende
das escolhas feitas pelas almas, pouco antes de seu retorno à
terra. Mas especifica que "o espetáculo das almas escolhendo sua

condição, segundo Er, valia a pena ser visto, pois era digno de
pena, ridículo e estranho. Na verdade, elas faziam suas escolhas,
na m aior parte do tem po, de acordo com os hábitos da vida
anterior”.
E as escolhas quase sempre dependiam de suas atrações e
aversões. Platão explica, além disso, que o filósofo tinha mais
chances que os outros de escolher certo, devido ao discer­
nimento adquirido. A escolha não se faz de maneira livre e
voluntária, pois o passado, para muitos, interfere nela, como
acontece na doutrina do carma.
Uma vez feita a escolha, as almas tinham de passar pelo
turbilhão do fuso da necessidade, representado pela
configuração do astros, a fim de cumprirem o destino das
existências escolhidas. Na verdade, Platão apresenta a
retribuição, a compensação ou a justiça, de duas maneiras. A
primeira, na ocasião do julgamento da alma, que decide quanto
a sua permanência no céu ou no Tártaro, por mil anos. A
segunda, em seqüência à escolha não fortuita da vida futura.
E acrescenta: “A responsabilidade é daquele que escolhe; Deus
não é o responsável”.
Um argumento importante, relativo à reencarnação, e
geralmente evocado é: se já vivemos várias existências, por que
não nos lembramos delas? A ausência de recordação leva a
crer que a reencarnação constitui uma quimera. Entretanto,
longe de advogar contra ela, o esquecimento representa um
trunfo para a evolução da personalidade humana. A primeira
explicação para a amnésia já foi evocada: é mitológica. Cada
alma que volta do outro mundo, segundo o gregos antigos,
banha-se nas águas do Letes, o rio do esquecimento. Mas o

outro mundo também pode ser o do sonhos. É assim tão fácil,
depois que acordamos, recordarmos nossa vida noturna, com
suas milhares de imagens oníricas e imprecisas?
Poderíamos igualm ente nos perguntar sobre o quê
realmente se reencarna. Em muitas culturas, acredita-se que,
depois da morte, a alma passa por uma espécie de purificação.
O trigo é separado do joio. Purificação - isto significa supressão
de uma parte da antiga experiência de vida. Em outras palavras,
a reencarnação não seria completa. Do mesmo modo, quando
uma pessoa morre, as lembranças de sua vida passada voltam à
sua consciência. Não tudo, com certeza! Somente aquelas que
m arcaram profundam ente a personalidade, porque os
acontecimentos que foram sua fonte geraram um poderoso
impacto emocional. Analogam ente, só transm igram as
informações que marcaram fortemente a personalidade e
contribuíram para sua moldagem. Os agregados dos tibetanos,
que constituem o eu, só formam um todo homogêneo no
momento da encarnação. Nada prova que as leis universais
conservem todo o conjunto idêntico às encarnações prece­
dentes. Se o fio condutor se conserva, é preciso ainda que ele
sirva a algum desígnio cósmico, senão há uma chance de que
partes consideradas estéreis sofram a segunda morte.
Esquecemos, é verdade; e, para muitos, isto leva a supor
que não existimos antes desta vida. Então, enquanto lê este
livro, participe deste pequeno jogo:
— Tente lembrar um acontecimento que você viveu quando
era criança... depois, faça uma pausa.
— Feito? Você era um menino ou uma menina, alegre ou
triste, e a experiência foi agradável ou desagradável ou, ainda,
neutra.

— Agora, faça um esforço. Concentre-se e ... tente lembrar
o que você fez na véspera desse acontecimento.
E difícil, não é? Talvez mesmo impossível. E por causa disso,
devemos concluir, então, que você não existia?
Da mesma forma, por razões bem precisas, cinqüenta por
cento das pessoas são incapazes de recordar acontecimentos
vividos antes da idade de três anos. No entanto, sua mãe
provavelmente lembra-se muito bem de você com essa idade.
Alguns elementos mostram nossa capacidade para esquecer.
Nosso cérebro, por intermédio dos cinco sentidos físicos, é
constantemente bombardeado por milhares de informações.
Se todos esses estímulos não fossem selecionados e apenas uns
poucos memorizados, correríamos o risco de ficar loucos,
esmagados por essa imensa quantidade de dados. Todavia, os
estudos do inconsciente, graças à hipnose ou aos sonhos,
mostram que muitas informações são armazenadas em nossa
consciência, num nível subliminal. Mas existe uma barreira.
Trata-se de uma segurança, para garantir que a atividade de
vigília seja eficaz. Sabemos que esses dados ficam disponíveis
nas camadas profundas da consciência, mas não facilmente
acessíveis. A mesma coisa vale para níveis ainda mais ocultos,
no que concerne as personalidades de encarnações passadas.
Alguns elementos de bom senso ajudam a compreender a
lógica do esquecimento. Em toda vida humana normalmente
constituída e suficientemente lúcida para não ignorar a si
mesma, surgem períodos nada interessantes que preferiríamos
esquecer. Uma pequena covardia aqui, uma maldadezinha ali,
uma tendência inconfessável acolá... coisas muito humanas e

que constituem o que a psicologia profunda, seguindo os passos
dos grandes mitos, denomina "sombra”. Diz certo provérbio
que o sábio sabe esquecer seu passado, porque ninguém é
perfeito. Ele pratica a "m em oriapura” no que lhe diz respeito.
Ai está você, calmamente instalado em sua honesta vida de
pessoa tranqüila. Imagine agora que, de repente, recordações
de um passado infernal venham à sua lembrança. Suponha
que, em alguma vida anterior, você foi um crim in o so , e que
todo o remorso dessa condição, revivido com clareza e
intensidade, afluí à sua consciência... Você não acha que é
mesmo muito sábio manter um compartimento estanque entre
vidas diferentes?
Na verdade, o esquecimento assim feito constitui outra prova
da Misericórdia Divina. Ela sabe passar uma esponja sobre o
passado consciente, a fim de salvaguardar as condições da
evolução espiritual da humanidade. Esse relativo esquecimento
corresponde a uma espécie de catarse. Embora as tendências
mais profundas continuem sempre ativas, sua ação não mais
intervém diretamente no nível da consciência objetiva.
Não é raro encontrar pessoas que, ao envelhecer, perdem
toda capacidade de se auto-analisarem, de se questionarem.
Estão travadas em seus hábitos ou mesmo preconceitos. Sua
visão do mundo, m ais cedo ou m ais tarde, acaba se
esclerosando, fossilizando-se num estado imutável. Que
aconteceria então se, de encarnação em encarnação, o ser
humano tivesse de reproduzir sempre os mesmos esquemas
conscientes e estáticos? A imortalidade material, segundo
nosso atual modo de pensar, constituiria a verdadeira morte,
a morte de fato. Mas a morte que provoca medo, essa de que
o ser humano padece no corpo no final de sua jornada na

terra, longe de ser negativa, representa a condição sine qua
non de uma catarse no nível das atitudes que deixaram de ser
portadoras de futuro.
/

E preciso morrer para continuar crescendo. Aí está a chave
que, a duras penas, ousamos reconhecer. Nesse sentido, o
banho nas águas do esquecimento possibilita certa continuidade
entre as encarnações, sem que estas se tornem sinônimo de
impasse e esterilidade. Por extensão, pode-se considerar que,
se uma pessoa se dispõe a ter outras vivências, a modificar seus
pontos de vista sobre a vida, a se abrir a outras culturas, ela
tem maior chance de viver mais longamente, porque o projeto
da vida que se expressa através dela fica favorecido. Ela evolui,
permite que as capacidades latentes de seu ser exteriorizem
cada vez melhor seu talento. Para isso, o ser necessita de um
veículo preparado, disponível e maleável.
Inversamente, a pessoa que se fecha em seus hábitos já está
cavando sua futura cova. A vida e o ser provavelmente a
abandonarão mais rápido; não por punição, mas por seguirem
um destino engendrado aqui pela preguiça humana. Uma
pessoa pode ser velha aos trinta anos, enquanto nos olhos de
alguns velhos brilha a chama da eterna juventude. O ponto
supremo que explica o esquecimento está no simples fato de
que, se nos lembrássemos perfeitamente de nossas vidas
passadas, provavelmente passaríamos o tempo simplesmente
contemplando o on tem , negligenciando a vida presente.
Esquecemos nossas vidas anteriores; esta é uma evidência
que ninguém ousa negar. No entanto, as lembranças estão
sempre lá, presentes em algum recôndito de nossa consciência.
As vezes, uma impressão de “já sei isto” pode nos assaltar

durante uma viagem ou numa situação nova com que nos
defrontamos. Esse fenômeno pode ser explicado pela repentina
reminiscência de uma encarnação antiga, mas também pela
capacidade que o inconsciente tem de perceber um acon­
tecimento de modo mais rápido do que a consciência objetiva.
Uma mesma manifestação poderia ser percebida primeiro por
uma fase mais profunda da consciência e só depois pela
consciência objetiva, o que provocaria a impressão de “já sei isto”.
Sonhos perturbadores sobre lugares distantes ou sobre um
passado misterioso podem igualmente nos assaltar. Alguns
grandes avatares, como o Buda ou Pitágoras, falaram de suas
antigas encarnações, dando inúmeros detalhes.
Como explicar certos talentos afluindo repentinamente na
vida de um indivíduo praticamente despreparado? Eis a
história real de M. Esse homem, inicialmente, é um sujeito
totalmente comum, empregado de uma grande empresa. Um
dia, ele encontra um conselheiro que, através de um
procedimento especial, revela que ele possui um dom muito
desenvolvido para a escultura, herdado de uma vida muito
antiga. Essa pessoa, que exercia forte influência sobre sua vida,
aconselha-o a se lançar num estudo de entalhe de pedras; o
que ele faz com toda confiança. Ele nunca havia esculpido em
toda sua vida. No fim do estágio de estudos para adultos, de
quatro meses, seu instrutor fica cheio de inveja do talento de
seu aluno, que se revelou numa velocidade alucinante. Mas a
aventura não acaba aqui, e M. decide bater às portas da
associação dos artesãos da França, a elite. Fato raríssimo, ao
mostrar suas habilidades, os associados pedem-lhe que crie
uma obra-prima em sua arte, por meio da qual poderá ser aceito
como Mestre talhador de pedra. Depois de apenas quatro

meses de estudos (fato incrível), sem passar pela escola da
associação, M. consegue cumprir o desafio e se torna Mestre
talhador de pedra, aos quarenta anos. Conhecendo o rigor da
associação dos artesãos da França e sabendo que a única
informação que M. possuía no começo era que ele trazia oculto
um dom herdado de uma vida passada, isto dá o que pensar...
Como explicar o caso de Mozart, que, aos quatros anos,
apresentou seu primeiro concerto em público? Conhecemos
igualmente o caso de certas crianças autistas, que, incapazes
de se comunicarem normalmente, desenvolveram capacidades
extraordinárias. Uma delas pintava, desde a infância, tão bem
quanto mestres que treinaram toda sua vida; uma outra
interpretava com mãos de virtuose trechos de música dos mais
árduos, sendo que nunca havia aprendido música.
Foi o caso do jovem negro americano, Tom Blind. No século
19, aos quatro anos de idade, ele foi notado pelo homem de
quem seu pai era escravo, numa fazenda na Geórgia, EUA.
Esse senhor, verdadeiro melomaníaco, constatando seu dom
de pianista espontâneo, fez com que ele tomasse aulas. Não
demorou muito para que o professor desistisse: Tom tocava
melhor que ele, quando nem mesmo sabia ler uma partitura.
Aos sete anos, já havia se apresentado na maioria das grandes
cidades dos Estados Unidos. Aos quinze, era capaz de tocar
de memória milhares de obras dos grandes mestres da música
clássica. Era capaz de reproduzir um concerto inteiro, após
tê-lo escutado uma única vez. E, no entanto... Tom era cego e
deficiente mental de nascença. Provavelmente ele seria
qualificado hoje como autista. A ciência atual ainda é incapaz
de explicar proezas assim, que se exprimem por intermédio de
um ser considerado débil. Para nós, existe uma explicação
evidente que possui uma palavra: reencarnação.

Um dos indícios que permitem considerar essa solução é
que o jovem em questão era totalmente fechado em si mesmo.
Em outras palavras, vivia em estreitíssimo contato com seu
mundo interior, situação que ocorria em detrimento da
comunicação externa. Em casos assim, a criança está, portanto,
permanentemente numa relação com seu subconsciente, que
representa a memória das vidas anteriores. Não importa que o
autista não saiba isso, o resultado se expressa por si mesmo
através do dom inexplicável. A explicação simples, a de um
cérebro desequilibrado, não é suficiente, já que aquela criança
tocava piano com a sensibilidade e a criatividade de um
verdadeiro mestre da música, coisa que nenhuma máquina,
desarranjada ou não, é capaz de fazer.
Mas existem outros testemunhos, ainda mais claros em
lembranças. O professor Stevenson estudou quatorze mil casos
espalhados pelo mundo. Como bom cientista, teve o cuidado
de descartar todo excesso ou fraude. Eis o caso do jovem turco
Emrullah Turkan, nascido em 1949. Aos dois anos, disse aos
seus pais que tinha lembranças de uma antiga vida e que, na
verdade, chamava-se Cheikh M aruf Cinco anos mais tarde, o
pai de Emrullah, que era fazendeiro, emprega um casal de
agricultores que dizem ter conhecido Cheikh Maruf, morto
em 1948. A pedido do pai, o casai tenta desmascarar a criança
fazendo-lhe diversas perguntas. Como se chamava a esposa
de Cheikh Maruf? Quantos filhos ele tinha? Todas as respostas
dadas pela criança foram corretas e cheias de detalhes. Ele
forneceu o nome dos quinze filhos e disse que sua mulher
tinha uma pinta na face direita. Mais tarde, quando estava no
serviço militar, Emrullah explicou a um oficial, estupefato, que
ele já havia servido sob suas ordens, há muito tempo, quando
se chamava Cheikh Maruf. D escreveu-lhe então suas

campanhas, os perigos enfrentados... O Doutor Doksat,
professor da clínica psiquiátrica de Istambul, foi posto a par
do caso e confrontou o jovem Emrullah com um dos filhos de
Cheikh MarufJ que era deputado no parlam en to. M esm o
ignorando a quem iria encontrar, Emrullah, tão logo avistou o
deputado, reconheceu-o como sendo um de seus filhos,
chamou-o pelo nome e evocou lembranças
íntimas de família,
*
que ninguém tinha como saber. E interessante notar que o
jovem Emrullah conservou memórias exatas, dos sete até os
vinte anos, sendo que, segundo o Doutor Stevenson, que
reportou essa história, a duração média das recordações não
ultrapassa os sete anos de idade. Via de regra, as crianças
esquecem suas encarnações anteriores por volta dos dez anos.
Um outro caso estudado pelo professor Stevenson foi o de
William Georges Junior. William G eorges era um jovem índio
tlingite. Os tlingites habitam o sudeste do Alaska e acreditam
na reencarnação (mais uma prova da extensão mundial dessa
convicção), que constitui uma característica fundamental de
seus costumes religiosos e sociais. William Georges Junior,
nascido em 5 de maio de 1950, seria, por certos detalhes
conhecidos, a reencarnação de seu avô William Georges Sénior.
Este último, pouco antes de sua morte no mar, em agosto de
1949, tinha anunciado ao seu filho que, se a reencarnação fosse
um fenômeno real, ele renasceria no corpo de um de seus
futuros filhos; ou seja, renasceria no corpo de um neto seu.
William G eorges S én ior a crescen to u ainda que esse neto
apresentaria os mesmos sinais de nascença que ele tinha. Pouco
tempo depois de seu desaparecimento, num barco, sua nora,
Sra. Reginald Georges, ficou grávida e certo dia sonhou que
dava à lu z... ao seu sogro. A criança, nascida mais tarde,
apresentava, como anunciado, marcas no ombro esquerdo e

na parte interna do antebraço esquerdo. A criança só começou
a falar bem tarde, aos três ou quatro anos. Seu comportamento
era estranhamente parecido com o do seu avô. Manifestava os
mesmos gostos e aversões. Depois de um acidente esportivo,
passou a mancar, com o pé direito voltado para dentro, o que
lhe emprestava o caminhar típico do avô. Chamava seus
familiares segundo os laços de parentesco existentes entre eles
e William Georges Sénior. Por exemplo, chamava sua tia-avó
de “irmã” e considerava seus tios e tias como filhos dele.
Reconhecia pessoas e lugares. O fenômeno mais marcante
aconteceu entre quatro e cinco anos, quando reconheceu como
sendo seu um relógio que pertencera ao seu ancestral. Antes
dessa época, ninguém havia lhe mostrado ou sequer falado do
objeto. Sua mãe estava apenas lhe mostrando, certo dia, as jóias
da família, que ficavam guardadas em seu quarto. A criança
reconheceu o relógio espontaneamente, em meio aos objetos,
e o reclamou para si obstinadamente, até a idade adulta. Várias
testemunhas puderam atestar essa história intrigante.
Trata-se de um valioso testemunho sugerindo a reencarnação.
Nele, encontramos um caso de identificação através de sinais
corporais, uma anunciação por meio de um sonho, o reconhe­
cimento de lugares e laços de parentesco. Finalmente, como é o
caso de alguns lamas tibetanos, o reconhecimento de objetos. A
prática no Tibete, quando se procura um tulfyu (mestre espiritual
reencarnado) consiste, de fato, em apresentar a algumas crianças
os objetos que pertenceram ao mesmo. As crianças podem ser
escolhidas graças a sonhos, visões, estudos astrológicos,... Se uma
delas reconhece três objetos do falecido como sendo seus, é
considerada como sua reencarnação. Foi assim com o atual décimo
quarto Dalai Lama, que reconheceu o rosário, o tambor e a bengala
de sua anterior décima terceira vida.

No caso de William Georges e das coisas que permitiram
identificá-lo, Stevenson considerou a hipótese de transmissão
de características hereditárias. Isso, porém, não exclui
totalmente a noção de reencarnação, na medida em que William
foi o único dos dez filhos da família a apresentar os sinais
preditos pelo avô.
Entretanto, o Doutor Stevenson, com toda prudência científica,
escreveu um livro intitulado "20 Casos Sugerindo a Reencarnação ".
Ele não escreveu "provando", mas somente "sugerindo", já que, na
realidade, nenhum desses testemunhos prova a reencarnação num
sentido estritamente científico. Se a autenticidade dos
testemunhos não pode ser posta em dúvida, deve-se, contudo,
admitir que sua interpretação pode ser discutível.
Do ponto de vista científico, a reencarnação não é a única
coisa que pode ser evocada quando uma pessoa relata um
passado supostamente vivido. Pode-se verificar que os lugares
descritos são bem reais e que a pessoa nunca pisou ali antes,
que os nomes de pessoas e laços familiares evocados refletem
efetivamente uma época distante, etc. Mas, para explicar o
fenômeno da harmonização com o passado, da telepatia, um
contato com o inconsciente coletivo ou com almas desen­
carnadas, da reencarnação, etc. podem ser indistintamente
considerados, sem que seja possível escolher apenas uma dentre
todas as explicações possíveis.
Em suma, lembremos que, mesmo que a ciência possa
esclarecer alguns de seus aspectos, a reencarnação não é tanto
uma questão de provas científicas quanto de compreensão
filosófica e convicção interior. Quem efetivamente consegue
se lembrar sabe a verdade, e isto lhe basta; mesmo que não
possa apresentar provas definitivas da sua memória.

A única coisa que a honestidade intelectual proíbe é negar
a veracidade dos testemunhos colhidos, quando estes realmente
são comprovados em relação a lugares, épocas e pessoas
envolvidas. No caso Bridey Murphy, por exemplo, a pessoa,
Ruth Simón, uma jovem americana do século 20, de trinta anos,
hipnotizada por um psicólogo, relata uma experiência muito
singular. Numa vida anterior, relatou, ela se chamava Bridey
Murphy e vivia na Irlanda, em 1806. Ele deu o nome de seus
pais, descreveu sua casa, deu a data de seu falecimento e traçou
o mapa da Irlanda daquela época. Mais tarde, uma averiguação
independente foi realizada, para verificar suas afirmações, por
juristas, bibliotecários e pessoas que não conheciam o psicólogo
nem o assunto. Embora nem tudo tenha podido ser verificado,
nomes, lugares e costumes revelaram-se exatos.
Mas aqui poderíamos nos perguntar por que os testemunhos
relativos a vidas passadas são obviamente mais numerosos no
Oriente do que no Ocidente. A razão é simples e tem suas
raízes na cultura dessas regiões. No Oriente, a reencarnação
sempre foi mais facilmente admitida e tem grande influência
na psicologia humana. No Ocidente, se uma criancinha se
expressasse nos seguintes termos: "Quando eu era grande, eu
era indiano" ou “Eu trabalhava embaixo da terra, juntando pedras
pretas m uito sujas", ninguém lhe daria ouvidos. Se persistisse,
os que a cercam considerariam sua imaginação como sendo
transbordante. Se continuasse persistindo, seus pais se
inquietariam quanto ao seu equilíbrio mental e a mandariam
calar a boca.
Ainda que as lembranças de antigas encarnações, segundo
o professor Stevenson, possam ser vividas entre as idades de
dois e dez anos apenas, a criança, confrontada com a hostilidade

de seu ambiente, acaba sempre se convencendo de que as
lembranças vagas que ela percebe são miragens de sua
imaginação; depois, pouco a pouco, ela as esquece.
Pode ser perigoso forçar as portas do inconsciente. Confiar­
se a mãos inexperientes já gerou mais desordens mentais do
que curas, em muitos casos. Se a natureza previu uma barreira
entre passado e presente, certamente há uma boa razão. A
emergência brusca do ontem no hoje é como misturar água no
vinho, talvez pior. Somente métodos suaves, que respeitem a
personalidade e a integridade de cada indivíduo, são válidos.
Para isso, não é preciso que o estudante se coloque à disposição
de um outro operador que não ele mesmo. O passado só se
revela se possuir alguma utilidade no sentido de favorecer a
evolução da pessoa. A curiosidade, o modismo ou o fenômeno
exótico não tem vez no que concerne as leis espirituais.
Agora, seria justo questionarmos as razões da reencarnação.
Como já foi explicado, a idéia primordial da reencarnação é a
de que existe uma justiça imánente que foi, aliás, pressentida
pela maioria das religiões e das filosofias da terra. Se admitirmos
que a alma se manifesta somente uma vez, irá ela eternamente,
como explicam as religiões monoteístas, para o interno ou o
paraíso? Seria possível que uma única vida destrutiva ou
construtiva, aos olhos das leis naturais, levasse a uma eternidade
de sofrimentos ou, ao contrário, a uma perpetuação de
felicidade? Nosso senso inato de justiça nos inclina a pensar
que o destino humano não é assim tão simples. A idéia
primordial da reencarnação é a de que a personalidade-alma é
perfectível e que conserva, após a morte, uma enorme
potencialidade de evolução. Voltando à terra, ela pode
compensar seus erros passados e usufruir as alegrias geradas

por suas antigas consecuções. Do mesmo modo, confrontada
com o principio do carma, ela vai tecer a trama de suas vidas
futuras. Essa doutrina, portanto, torna o ser humano o único
responsável por aquilo que ele vive, aos olhos dos principios
do universo. Na verdade, ela ressalta seu sentimento de
dignidade e confere-lhe um lugar importante na marcha da
Criação. Aqui não há um Deus vaidoso ou vingador a se invocar,
nem um diabo chifrudo e terrível controlando os seres humanos
como marionetes. E também não há um universo cego, sem
propósito nem sentido. Somente o homem é responsável por
seu futuro, graças ao seu conhecimento das leis justas da
Criação.

nos e observando nossos concidadãos, logo nos damos conta
de que, em uma única vida, estamos longe de atingir o nível de
evolução de pessoas como Mahatma Gandhi, Albert Einstein
e outros. No entanto, possuímos o mesmo veículo físico. Em
outras palavras, nós estaríamos em nosso corpo como
aprendizes ao volante de uma Ferrari, ao passo que eles seriam
pilotos experientes.

Ao longo da História, outras explicações foram dadas para
a necessidade da reencarnação. Evocou-se o fato de que a alma
não poderia ficar eternamente na presença da luz perfeita,
devido a suas imperfeições. Foi dito que, cedo ou tarde, ela
sentiria a necessidade de experiências tangíveis. Sentiria
saudade da terra, de um mundo feito de carne e sangue.
Outros, ainda, explicaram que não era a saudade da terra que
motivaria o retorno da alma, mas a lei da necessidade; numa
palavra, carma.

Como compreender, então, que a Criação tenha preparado
esse veículo físico, perfeitamente adaptado para permitir o
desenvolvimento, a um altíssimo nível, da alma que ele encerra?
Se a ferramenta não é progressivamente explorada pelas
personalidades, por que, podemos perguntar, a natureza a teria
criado? Que absurdo isso seria! A experiência prova que uma
única vida não basta para explorarmos todas as potencialidades
colocadas à nossa disposição pelo corpo e o mundo físico. O
tempo destruidor exerce sua ação desde o nascimento e impede
que o trabalho do ser seja feito até o fim. E aí que a reencarnação
adquire todo seu sentido. Trata-se de uma sutil alquimia
espiritual. Ela considera a alma como uma matéria bruta que
deve evoluir até o ouro mais puro e perfeito. O ouro já está
oculto no grosseiro, basta revelá-lo aos poucos.

Sabemos hoje que, embora as células do cérebro morram a
partir dos vinte anos, elas têm a capacidade de compensar o
envelhecimento criando mais e mais conexões umas com as
outras. O cérebro, portanto, possui uma geometria flexível e
evolutiva que lhe permite disfarçar os estragos do tempo. E o
único órgão do corpo que consegue apresentar essa capacidade.
Constatando essa capacidade de adaptação do cérebro, vemos
que o veículo físico do ser humano está perfeitamente adaptado
hoje para abrigar almas de níveis muito elevados. Observando-

Outras razões explicam a necessidade de reencarnações.
Uma delas diz que a alma, para aperfeiçoar sua própria
natureza, para exteriorizar sua vontade e suas diversas
faculdades, precisa da experiência do mundo. Se admitimos
que a natureza humana possui uma potencialidade quase
infinita de expressão e criatividade (que sentimos con­
fusam ente), percebemos paralelam ente que uma vida
circunscrita a um determinado século e um determinado meio
ou cultura não representa uma suficiente oportunidade de

desenvolvimento da alma. Na medida em que ela faz várias
estadas na terra, isto explica as diferenças fundamentais que
existem entre os seres humanos, alguns dos quais estão
provavelmente mais avançados que outros em conhecimento
inato e em sabedoria. E, aliás, apoiando-se nessa bagagem de
nascença que todos os seres humanos possuem, em maior ou
menor grau, que Platão baseou sua argumentação a respeito
da reencarnação. A capacidade humana de relembrar, de que
falou o filósofo, presume a presença em nós desse patrimônio
anterior.
Poderíamos supor que a alma continue a evoluir no outro
mundo, sem a necessidade de voltar à terra, mas isto seria
negligenciar o fato de que a evolução requer uma dimensão
feita de dualidade para se afirmar. O sujeito tem de se
confrontar com os objetos, o eu com o não-eu, a vontade com
a resistência, antes de finalmente chegar a tomar consciência
da unidade de todas as coisas. Só o mundo material apresenta
essas condições.
Poderíamos igualmente imaginar que a evolução da alma
contente-se com o progresso coletivo e histórico da huma­
nidade, sem, contudo, exigir uma reencarnação de indivíduos.
Em outros termos, poderíamos considerar que o crescimento
dos conhecimentos humanos, que fecundarão as inteligências
de amanhã, seria suficiente para cumprir os desígnios da Alma
Universal. Isso, porém, seria negligenciar o fato de que, se a
evolução individual acompanha ou mesmo se nutre dos
progressos coletivos, não pode estar subordinada a eles. A
coletividade humana, no sentido material do termo, não é a
priori um ser consciente de si mesmo ou do universo. Somente
os indivíduos, por seu processo voluntário, podem se elevar

até um nível de compreensão infinita. É por isso que a evolução
deve se produzir no nível do indivíduo consciente, até a
perfeição. Somente o múltiplo pode concretizar a unidade. Vale
ressaltar que o termo evolução não é, aliás, o melhor, já que
não se trata tanto de fazer crescer alguma coisa, mas, sim,
manifestar cada vez mais uma perfeição latente.
Quando as pessoas, superando os preconceitos habituais,
aceitam abordar de maneira imparcial a idéia da reencarnação,
ocorre-lhes uma pergunta perfeitamente justa. Essa pergunta,
que vem a seguir, denota, porém, uma espécie de inquietude.
Mas, então, se a alma realmente reencarna, tem de faze-lo
eternamente, sem um objetivo final, como um círculo sem fim,
reproduzindo sempre os mesmos dramas? Para essas pessoas,
trata-se de perguntar qual é o propósito das encarnações, e o
fazem de maneira muito lúcida.
Bem conscientes do que está em jogo, os budistas
consideram a reencarnação não como uma vantagem, mas
como uma maldição que a alma conjura contra ela mesma. O
Buda ensinou a realidade do sofrimento. Para ele, tudo é
sofrimento. Mesmo o ato de respirar é sofrimento, ainda que
não tenhamos consciência disto. Disso decorre que o budismo
ensina a possibilidade do fim do sofrimento pela cessação da
roda de samsara ou círculo das encarnações. Pela prática do
caminho do meio dos oito preceitos, o ser se libera progres­
sivamente de todo apego e das conseqüências negativas de seu
carma. Ele alcança então o nirvana, que é a cessação do
sofrimento. Não estando mais apegado, ele tem a experiência
de shunyata, o vazio ou a ausência de existência inerente às
coisas e aos seres. Shunyata corresponde à realidade última que
se oculta atrás dos fenômenos aparentes. Por isso, o ser não
precisa mais reencarnar.

Se o budismo eleva ao mais alto grau o ideal do anacoreta,
urna casta da India, por outro lado, admira entusiasticamente
o do guerreiro. Assim, a meta e o meio de alcançá-lo são
formulados porcada um deles de forma ligeiramente diferente.
O Bhagavad-G ita, o livro mais estimados pelos hindus, afirma
que retirar-se do mundo não é o melhor meio de se chegar ao
fim das encarnações. A via da ação é superior à outra: “Realiza
a ação tal com o te prescrevi, pois a ação ésuperior à inação; m esm o
tua vida física não saberia se m anter sem ação". Entretanto, o
discípulo é convidado a realizar a ação sem apego. Ou seja, ele
se situaria como observador não identificado aos próprios atos.
E dessa forma que, liberto da ação, ele se emancipa do carma.
Não sendo mais, como indivíduo, uma causa eficiente, ele não
tem mais necessidade de reencarnar. Ele atinge mokfisa, o estado
daquele que se libertou da ilusão. “Assim, sem apego, realiza
sem pre a obra que d eve ser feita . Pois, fazen d o a obra sem apego,
o ser hum ano atinge o S uprem o”. Como um eco, respondemlhe essas frases de Lao Tsé, o sábio chinês:
“Sem cruzar a porta, con h ecer o universo;
sem olhar pela janela, en trever a vida do céu.
Assim o sábio con h ece sem ter de se mover,
com preen de sem ter de ver,
realiza sem ter de agir.
O universo se conquista p elo não-agir.
Agir sem agir, ir ao encontro sem se unir,
saborear sem degustar.
Assim o sábio que busca o grande
con segu e se tom ar grande. ”
O Ocidente, por sua vez, aborda a questão a partir de uma
diferença sutil. Mas que ninguém se engane, não se trata de

uma divergência, mas de uma forma complementar de resolver
a questão. Para o ocidental, a reencarnação não é concebida
inicialmente como uma maldição, mas como uma opor­
tunidade para a alma de se aperfeiçoar e de cantar as glórias de
seu Criador. O sufi Ibn Arabi aponta, como termo da obra
humana, a união do amor, do amante com o ser amado. Outro
grande mestre do sufismo, Djalâl-od-Dín Rümi, também afirma
o amor ao Divino como valioso meio: “Pelo am or a Deus, não
podes ser derrotado. Como podes não ter alma, se te tom arás a
Alma. Primeiro, vieste do céu para a terra; no fim , partirás da
terra para o céu ”.
Em sua magistral obra “M asnavi”, ele descreve a evolução
progressiva da alma: “Mineral, m orrietom ei-m eplan ta;p la n ta ,
m orri e nasci animal; animal, m orri e m e fiz hom em . Por que
haveria eu de ter m edo? Alguma vez f u i dim inuído pela m orte?
Não obstante, um a vez mais, m orrerei com o hom em para m e
eleva r aos anjos bem -aven tu rad os; mas, m esm o esse estado
angelical, precisarei deixar. .."
O estado que marca o fim das encarnações foi descrito por
todos os grandes místicos em termos simbólicos. Uns falam de
união; outros, de casamento; outros ainda, de esquecimento
do eu. E assim que mil imagens se sucedem:
“Pela união do Sol e da Lua, o casam ento será consum ado.
A gran de conjunção m arcará o sinal do fim dos tempos, a
submissão perfeita do cordeiro ao pastor.
A luz brilhará sem em pecilho, expulsando as trevas.
O ouro e o diam ante ocultos se revelarão em seu esplendor, e a
filh a reconhecerá sua mãe.
O véu que encobria o abismo se rasgará, deixando a descoberto
a verdade suprema.

A cnança-rei, armada com seu poderoso cetro, precipitará no
lago de fo g o os últim os servidores do mal.
H averá danças e ranger de dentes, contudo, som ente a alegria
in efável e incondicionada reinará nos corações.
Quando os hom ens aprenderem a língua dos pássaros, quando
a sensível gazela se deitar em paz entre as patas do leão,
quando Maia, a ilusão, não tiver mais fio s para tecer sua
trama,
o am or fecu n d a rá os corações.
Então, o m oinho da necessidade suspenderá sua rotação, e a
goela escancarada da m orte se fech a rá para sempre. ”
Qualquer doutrina filosófica prova seu valor quando é capaz
de tornar seus adeptos mais felizes. Muitas vezes, consideramos
a reflexão filosófica como um passatempo intelectual, o que
significa negar seu valor pragmático. No entanto, no que
concerne a reencarnação, muitos pensadores se debruçaram
sobre qual seria seu papel no cotidiano, e você verá que ele
merece ser levado em consideração.
Em primeiro lugar, um dos principais atrativos da
reencarnação vem do fato de que ela fornece ao ser humano
uma compreensão da vida baseada numa verdadeira justiça e
aponta sua responsabilidade perante seu futuro. O futuro é
considerado como sendo vasto e tendente à perfeição. Ele é
tecido a partir de pensamentos, intenções, discursos e atividades
do passado e do presente; não como produto da decisão
arbitrária de um Deus, mas como resultado de uma
confrontação clara com leis estáveis, senão imutáveis. Assim,
relacionando-se com a idéia de sua reencarnação, a perso­
nalidade pode ser edificada na luz e na responsabilidade.
Ninguém duvida que a dignidade, a retidão e o equilíbrio
psicológico do indivíduo saiam fortalecidos.

O adepto da reencarnação só muito raramente se deixaria
arrastar ao estado de dúvida tão formidavelmente descrito no
livro de Jó, do Antigo Testamento. Jó o justo escandalizou-se
do fato de que, tendo servido a seu Deus durante toda sua
vida, parecia que Ele o havia abandonado naquele momento.
Desiludido, ele constata que neste mundo os criminosos muitas
vezes ficam sem punição, enquanto muitos inocentes sofrem
provações cujo motivo não compreendem. Jó 21, 7: "P orq u e
os maus continuam vivos, en velh ecem e aum entam seu pod er?
Sua posteridade se fortifica diante deles e sua descendência subsiste
ante seus olhos. A paz de sua casa não tem o que temer, os rigores
de Deus os p ou p a m ... ”.
Jó põe em dúvida e maldiz seu Senhor, como muitas pessoas
afirmam hoje que, se existe mesmo um Deus, então não devia
haver guerras e a felicidade devia reinar indistintamente. Quem
adere à idéia da reencarnação fica definitivamente “vacinado”
contra essa tentativa de imputar a um longínquo Deus a
responsabilidade da injustiça e da violência humana. O adepto
da reencarnação sabe que há leis naturais e espirituais e que
ele “colherá con form e sem ear”. Para ele, o universo é portador
de um sentido que, cedo ou tarde, conduz à felicidade e ao
amor desabrochados. Mas eis que no livro de Jó intervém Elias,
o sábio que vem tirar do erro o desesperado. Jó 34, 10: “Q uese
afaste de Deus o mal; de Shaddaí, a injustiça! Pois Ele dá ao
h o m em segu n d o suas obras, trata cada q u al segu n d o sua
c o n d u t a . Jó 36,6: “Ele não deixa viver o mau, m asfazjustiça
aos pobres; Ele não abandona o ju sto de visão. Com os reis em
seus tronos, Ele os instala para reinarem para sempre, e eles são
exaltados. Mas se Ele os ata com correntes, eles fica m presos nos
laços da aflição. Ele lhes revela seus atos, os pecados de orgulho
que com etera m ... ”. Mas antes desse discurso, Elias acentua a

misericordia e a idéia de reencarnação: “Pequei e perverti o certo:
Ele não m e pagou na mesma m oeda. Ele isentou m inha alma de
passar p elo fosso (a segunda m orte) e fa z minha vida usufruir da
luz. Tudo isso Deus faz, duas vezes, três vezes p elo hom em , a fim
de extirpar do fosso sua alma e fa z er brilhar sobre ele a luz dos
vivos" Jó 33, 26. Assim, a co m p en sa çã o d os erros e d os acertos
pode acontecer numa vida posterior.
O segundo aspecto prático da reencarnação expressa-se no
fato de incitar o ser humano a aprender durante toda sua vida,
até a idade avançada e mesmo até seu último suspiro. Nela, ele
não é concebido simplesmente como um produtor-consumidor,
mas se✓ torna uma matéria em evolução através dos ciclos de
vida. E tão espantoso que no Ocidente (que em sua maioria
aposta numa única existência) as pessoas acima dos quarenta
anos sejam consideradas como “acabadas”? Quarenta anos, a
idade da maturidade, quando o indivíduo deveria consumar
os frutos de tudo o que aprendeu antes. A partir dessa idade,
nossas sociedades geralmente acham que a pessoa pode apenas
regredir. Podemos, porém, nos perguntar se isso não passaria
de uma poderosa auto-sugestão que as massas fariam nelas
mesmas, com todos os efeitos devastadores que conhecemos.
Inversamente, entre as pessoas que apostam na reencar­
nação corretamente compreendida, não é raro encontrar
aquelas que iniciam estudos aos cinqüenta anos ou mais. Elas
estão convictas de que todo trabalho iniciado hoje dará frutos
amanhã, de um modo ou outro.
Existe um argumento muitas vezes evocado e oposto à
reencarnação, o qual se costuma usar após uma observação
superficial da índia. Esse argumento diz que aderir a essa idéia

seria inútil, porque acreditaríamos poder deixar para amanhã
o que poderia ser feito hoje mesmo. Trata-se aqui de uma falsa
interpretação do princípio, que é também de uma cegueira
total no que concerne as condições de vida no universo
estritamente material.
A reencarnação assenta-se no princípio da evolução da
Criação. Todas as observações científicas, históricas e
psicológicas pleiteiam em favor dessa evolução. Assim, elas
deixam claro que as leis do universo operam para favorecer
esse desenvolvimento. O provérbio popular explica que “tudo
que estagna, regride” e “o que não avança, recua”, pois a lei do
universo se exprime pela mudança rumo ao sum m um bonum .
A respeito do possível impacto psicológico da educação
reencarnacionista, uma antropóloga, Margaret Mead, estudou
o caso de dois povos: os balinais e os manus. O primeiro acredita
na reencarnação da alma numa mesma família, enquanto o
segundo considera que, depois da morte, o ser humano
sobrevive, sob a aparência de um fantasma, por um período
muito breve, depois do quê se ele degenera em formas de nível
mais ou menos baixo, até chegar à de um verme ou de uma
alga. Margaret Mead observou, então, a evolução desses dois
povos a partir da maturidade. Notou, como particularmente
surpreendente, o fato de que entre os balinais o indivíduo pode
continuar aprendendo até a id a d e avançada. As pessoas
permanecem jovens, belas e risonhas por muito mais tempo
do que em nossas regiões. Inversamente, entre os m anus, o
intelecto e o corpo enfraquecem a partir dos quarenta anos.
Então, Margaret Mead colocou a seguinte pergunta: "Poderia
a relação que existe entre aprendizagem e teoria do nascim ento e
da im ortalidade constituir um fa to r-ch a ve? ”.

Cranston e Head, que reportam esse estudo no livro
intitulado “Livro da Reencarnação", também fazem e c o ao estudo
de um psiquiatra da Marinha nacional americana, o qual se
desenrolou durante a Segunda Guerra M undial. Essa
informação foi publicada pela revista “Times”. Esse psiquiatra
descobriu que o equilíbrio mental da maioria dos habitantes
da ilha de Okinawa (situada no norte do arquipélago nipônico)
é superior ao da média das outras populações. Esse povo
acredita que o espírito volta à terra depois de sete gerações e se
encarna num indivíduo que se parece fortemente com sua
antiga encarnação. Em seguida a um terrível bombardeio, o
psiquiatra notou que, de cada cinco habitantes da ilha, apenas
um ficava mentalmente desequilibrado, ao passo que,
submetidos a condições semelhantes, soldados americanos e
japoneses foram levados ao suicídio ou ao asilo psiquiátrico.
Ele explica que a estrutura mental da criança de Okinawa é
tão segura e forte, desde os cinco anos de idade, que pode
enfrentar as piores catástrofes. D eve-se v er aí a influência da
educação reencarnacionista?

çyy /noite n a
/ liâto iia o àc/ en ial
“A m orte é a verdadeira meta fin a l de nossa vida; depois de alguns
anos, estou tão fam iliarizado com essa verdade, essa maravilhosa
am iga do ser humano, que sua im agem não apenas nada tem de
assustadora, mas, ao contrário, é m esm o m u ito ca lm a n te e
confortadora."
W A. Mozart

Há várias dezenas de milhares de anos, o ser humano,
tomando consciência de si mesmo, simultaneamente tomou
consciência de sua morte. Desse fenômeno fundamental para
a evolução humana, decorreram algumas crenças relativas à
sua sobrevivência. As primeiras convicções assumiram a forma
do sobrevivencialismo, freqüentemente ligado a uma fé
animista. Em outras palavras, o primitivo achava que o morto
continuaria a viver sob uma forma invisível, quer num mundo
paralelo, quer sob a terra ou, ainda, em nosso próprio mundo.
Foi apenas bem mais tarde que a noção de um reino
espiritual se imprimiu no pensamento humano. Paralelamente
às primeiras crenças, enterrava-se, queimava-se, imergia-se ou
jogava-se aos animais o cadáver. Alimentos, armas, bens
materiais ou humanos (escravos, família, jó ias...) acom­
panhavam-nos em sua viagem. Eram enterrados ou queimados
junto com ele.
AJternadamente, na História, as tumbas e outras sepulturas
situaram-se em locais afastados dos vivos ou, ao contrário,

próximos aos mesmos, conforme o medo que estes sentiam ou
não em relação aos mortos. Viu-se aparecer a preocupação em
relação à sobrevivência do eu e do outro. Depois, os nomes
fizeram seu florescimento nos túmulos. A familiaridade com a
morte evoluiu igualmente no curso da História. Festas foram
organizadas em cemitérios que, em outras épocas, ficavam
abandonados.
Mas por que desenvolver uma tal reflexão sobre as diferentes
atitudes dos seres humanos ante a morte? Muito simplesmente
porque, na maioria dos casos, qualquer que seja nossa cultura,
se não são frutos de uma reflexão profunda e pessoal, nossos
ritos e crenças transformam-se quase sempre em preconceitos.
A morte representa um tema cercado de um respeito quase
supersticioso, que a torna intocável. Muito freqüentemente,
querer pôr em causa um costume implica o risco de se passar
por sacrílego. Essa atitude conservacionista an iq u ila
regularmente toda reflexão em torno do assunto ou quanto ao
sentido a ser dado aos nossos ritos.
Uma meditação sobre as posições assumidas pelo ser
humano no curso da História permite tomar consciência de
sua relatividade. Após uma viagem ao espaço das crenças, uma
outra, no tempo, ajuda a compreender as ligações que existem
entre a evolução das sociedades e a de seus costumes, quer
sejam laicas ou religiosas. Aqui, nada é neutro e poder-se-ia
facilmente afirmar: “D iz-me quais são tuas crenças em term os
de ontologia e te direi para onde vais. Inversam ente, fa la -m e de
tua sociedade, de teus hábitos de consum o, etc., e adivinharei teus
costum es e cerim ôn ias”.
Não se trata de destruir as convicções do presente, mas de
se conscientizar do fato de que outros puderam defender

pontos de vista diferentes e igualmente válidos. Assim, quando
se sabe contemplar seus próprios costumes com objetividade,
pode-se extrair deles o sentido mais profundo, num primeiro
momento, e depois superá-los, para se chegar a verdades mais
amplas que transcendem o tempo e o espaço de todos os ritos.
E a esse jogo que este capítulo o convida. Começaremos
apresentando a pré-história do tema, depois examinaremos as
diversas atitudes vividas apenas no Ocidente. Essa amostragem
deve ser suficiente para alimentar uma boa reflexão.
Os primeiros ritos mortuários de que temos prova
remontam ao paleolítico superior, desde a época do homem
de Cro-Magnon. Os antropólogos descobriram tumbas e
ossaturas, acompanhadas de jóias e objetos diversos. Ainda que
antes desse tempo provavelmente tenha existido um culto dos
crânios, alguns dos quais sofreram trepanação, os sinais de uma
veneração organizada são menos evidentes. A primeira religião
da terra foi, sem dúvida, o culto dos mortos. A atitude dos
vivos diante dos agonizantes sempre foi composta de certa
ambigüidade. O respeito ladeia o medo dos fantasmas, a
esperança muitas vezes acompanha a angústia do pós-vida.
No período ariano da Grécia, por volta de 1300 a.C., os
corpos podiam ser até mesmo enterrados em casa. Com o
avanço da civilização, passou-se a enterrá-los fora das cidades.
Os cemitérios ainda não existiam e as tumbas, como no caso
da Via Apia em Roma, eram arranjadas por alinhamentos. Na
verdade, enterrava-se onde dava, desde que isso fosse feito fora
da cidade, pois os mortos suscitavam medo. Além disso, apenas
as pessoas importantes usufruíam de uma tumba. Nessa época,
os epitáfios floresceram nos túmulos, com o nome das pessoas
gravados neles. A preocupação com a identidade individual
após a morte era bem real.

Somente a partir dos séculos 2 e 3 d.C., começaram a
surgir os embriões dos cemitérios organizados, sempre fora
das cidades. Uma arquitetura de sarcófagos, pedras e fossas
com cobertura fez sua aparição, e as pessoas comuns
começaram a usufruir deles com o início da era cristã. Por
volta do século 5, a prática da inumação tomou o lugar da
mais usual, a da incineração. Aliás, datando desse período
de transição, foram encontrados esqueletos encerrados em
ánforas, em lugar das cinzas habituais.
No cemitério rural, os túmulos eram orientados. Um dos
meios usados hoje pelos arqueólogos para datar um
cemitério consiste em observar a orientação dos túmulos.
Norte-sul, no período galo-romano; leste-oeste no período
merovíngio. Os primeiros cristãos adotaram a orientação
para Jerusalém, enquanto os muçulmanos até hoje voltam
o rosto para a Meca ou K ibla. Mais que um destino a ser
atingido, essa posição parece sugerir que mesmo na morte
o ser humano não perde sua orientação e que esta possui
um sentido ou meta.
Por volta do século 5, desfez-se a preocupação da
conservação da identidade da pessoa, na morte. O retrato e o
nome do morto colocados no túmulo foram desaparecendo
gradualmente (embora alguns casos tenham se conservado),
para reaparecerem cinco séculos mais tarde. Mártires e santos
estão enterrados em alguns desses primeiros cemitérios. Perto
deles, igrejas foram construídas para lhes render culto. Essas
igrejas aos poucos tornaram-se, elas próprias, locais de
sepultamento, porque os fiéis queriam ser enterrados ad
san ctos, isto é, na companhia dos santos. Um novo tipo de
cemitério, então, organizou-se ao redor da igreja.

Em torno do século 11, a morada final fixou-se ao redor
de igrejas, os velhos tabus envolvendo a morte caíram por
terra, as tumbas fizeram sua aparição dentro das cidades e o
cemitério perdurou nessa forma até o século 18. Esse
cemitério medieval não tem nada a ver com o que conhecemos
hoje; Tratava-se de um local público, onde se praticava o
comércio, as pessoas marcavam encontros, às vezes até
moravam lá. Até hoje ainda existe no Cairo, Egito, um
cemitério que pode dar uma boa idéia do velho recinto
medieval. Na Tunísia, até alguns atrás, as pessoas iam aos
cemitérios para fazer piqueniques. Os vivos viviam, por assim
dizer, numa verdadeira promiscuidade com os mortos. Nesses
locais, podia-se dar festas, banquetes, fazer encontros
amorosos, praticar o comércio... Ainda hoje, no México, em
certos períodos do ano, festas multicoloridas são dadas ali. O
Ocidente, entre os séculos 11 e 18, domesticou a morte, apesar
de temê-la. Para o homem da Idade Média, ela fazia parte de
suas preocupações costumeiras.
Nessa época, a antiga ordenação do espaço desapareceu, os
corpos confiados à.igreja eram enterrados em qualquer local,
desordenadamente. O local importava menos que a proteção
dos religiosos. No entanto, no que concerne as pessoas
importantes, a preocupação da identidade retida pela
autoconsciência voltou à tona. Aos poucos, os túmulos viram
reflorescer os epitáfios. A representação física da pessoa ganhou
força na forma jacente. Os nomes voltaram a ser gravados nos
túmulos. No século 12, curiosamente, a palavra “morte”
personificou-se: a Morte tornou-se a “Dama da Foice”,
representada nas danças macabras. Preocupava-se então muito
mais com a questão da conservação da identidade após a morte.
A segunda face dessa preocupação traduziu-se no medo dos

mortos-vivos. Uma iluminura do período medieval, “O encontro
de três m ortos e três vivos", mostra três cavaleiros próximos a
um cemitério, apavorados pela visão de três cadáveres saindo
dos túmulos.
Como nas velhas crenças de nossos antepassados, os
indivíduos mortos tornaram-se novamente suscetíveis de
perturbar os vivos. As representações de danças macabras e da
Dama da Foice sucederam-se numerosamente. Nessas imagens,
as personagens aparecem, duas a duas, numa ronda infernal.
Um homem (ou uma mulher) estupidificado é arrastado por
um morto-vivo, do qual pedaços de carne podem ser vistos.
Trata-se aqui de representar a igualdade dos homens diante
da morte (nela, prelados e nobres ficam lado a lado com artesãos
e gente simples do povo) e a decrepitude do corpo, como
também a sobrevivência do indivíduo.
Essa foi também a época do surgimento dos testamentos,
pelos quais o indivíduo transmitia uma parte de si mesmo à
posteridade, estando o eu estendido, sem dúvida, às posses. A
preocupação com a boa morte surgiu então. A “A ve M aria",
cujo último verso diz “Orai p or nós pecadores, agora e na hora de
nossa m o rte" , surgiu igualm ente nessa época. Sobre o
testamento, a História antiga conhecia essa prática de
transmissão de um patrimônio. Entretanto, a ele somava-se a
transmissão de um influxo espiritual. Na Grécia, o culto da
lareira e dos ancestrais era transmitido de pai para filho. Esse
último tornava-se, então, o sacerdote do culto doméstico. No
Antigo Testamento, Jacó transfere ao seu irmão Esaú a bênção
que seu pai Isaac teria dirigido ao seu filho primogênito, pouco
antes de morrer. Essa bênção fazia dele o favorito do Divino,
em suas terras e entre sua gente.

O historiador Philippe Ariès adotou diversos parâmetros
de análise da evolução dos comportamentos humanos ante a
morte. O primeiro implica a tomada de consciência do eu. Em
função do valor atribuído ao ego, no curso da História (dado
basicamente variável), as concepções da morte variam.
O segundo parâmetro diz respeito à atitude da humanidade
ante a natureza e os fenômenos. A morte e a sexualidade
representam fenômenos naturais aceitos de maneiras diversas.
Uma a uma, as culturas foram tentando domá-los ou tornálos diabólicos, ou simplesmente ignorá-los, em consonância
com a atitude geral que o ser humano foi assumindo perante a
totalidade do meio natural. Por exemplo, a era industrial
freqüentemente colocou-se em oposição à natureza, que
precisava ser domada. Assim sendo, a morte, último fenômeno
indomável, foi então afastada das preocupações do homem
moderno.
Outros acontecimentos externos a ele —epidemias, fomes,
guerras e catástrofes naturais —também transformaram suas
atitudes e sua compreensão do fenômeno. Ao menos, é o que
explica o historiador Michel Vovelle, que cita testemunhos bem
do começo do século 17, numa época em que a expectativa de
vida era relativamente curta: “Mortal, pensa que, sob a cobertura
de uma câmara mortuária, há um corpo com ido p or vermes, sem
carne, sem nervos, cujos ossos à mostra despojam-se, desconjuntamse, perdem suas articulações. Ali uma das mãos cai podre, acolá
os olhos revirados destilam hum or vítreo, e os diversos m úsculos
servem , aos verm es vorazes, de ordinário repasto. ..".A imagem é
certamente repugnante, mas fazia parte do cotidiano daqueles
homens e mulheres que se confrontavam diariamente com a
morte, nas epidemias e na miséria.

O terceiro parâmetro de análise implica as crenças ou
convicções sobre a imortalidade da alma. O modelo cristão
da Idade Média era que as almas dormiam, à espera do
Julgamento Final. A propósito, a verdadeira definição
etimológica da palavra cemitério traduz-se por “dormitório”.
Considerava-se, porém, que esse sono podia ser intranqüilo
por causa dos erros passados, e que os maus podiam voltar
para implicar com os vivos. Convinha, então, canalizar esse
retorno e exorcizá-lo por ocasião de determinados festejos,
como o carnaval.
O último método de compreensão diz respeito à noção de
bem e mal relativa à morte. O cristianismo considera-a como
um resultado do pecado original. Pecado, mal e morte, no
sentido de infelicidade, são sinônimos, mas não para os judeus,
por exemplo. Para os epicurianos e os estoicos, a morte, pelo
contrário, correspondia a uma submissão, de natureza boa.
A esses quatro parâmetros superpõe-se uma evolução
histórica das mentalidades. Até o século 11, a morte era
concebida em seus aspectos coletivos; o ser humano era então
considerado como um elemento de uma corrente vital. A partir
do século 11, surgiu a noção de individualidade, que perdurou
até o final do século 18. Com o advento do Iluminismo e, depois,
da sociedade burguesa do século 19, a morte alheia adquiriu
dimensão mais importante. A família e a noção de espaço
privado tomaram a dianteira sobre a antiga comunidade e o
individualismo da Idade Média. O romantismo tendia a fazer
da morte algo muito belo.
No livro '"Atala", de 1801, Chateaubriand assim se expressa:
"No inicio da noite, transportamos seus preciosos restos a té uma

abertura da gruta, que dava para o norte. O erem ita os havia
enrolado num a peça de Imho da Europa, tecido p or sua mãe: era
o único bem que lhe restara de sua pátria e, após tanto tempo,
estava destinado ao seu próprio túm ulo. Atala f o i deitada sobre
um canteiro de mimosas das montanhas; seus pés, sua cabeça, seus
om bros e parte de seus seios estavam descobertos. Em seus cabelos,
via-se uma flo r de m agnolia descolorida [ ...] a mesma que eu
havia depositado no leito da virgem , para tom á-la fecu n da . Seus
lábios, com o um botão de rosa colhido há duas manhãs, pareciam
m u rchar e sorrir. Em suas fa ces, d e esplendorosa brancura,
distinguiam -se umas veias azuis. [ ...] Ela parecia encantada p elo
anjo da m elancolia e p elo duplo sono da inocência e do túm ulo.
Nunca eu havia visto nada mais celestial. Quem quer que ignorasse
que essa jo v em donzela houvesse usufruído da luz poderia tom ala pela estátua da virgindade adorm ecida”.
É a primeira tentativa de ocultação do assunto, num quadro
primordialmente fantasmagórico. A morte alheia gerava
também o desejo de estabelecer contato com ele, no
transcendente desconhecido. O século 19 viu nascer, assim, o
espiritismo.
No século 20, a noção do mal perdeu todo sentido, a relação
com a natureza selvagem não representava mais um problema,
porque, graças à tecnologia e a medicina, ela foi banida ou
domada (ao menos, é o que se crê). As noções de imortalidade
foram sendo progressivamente negadas, como restos de uma
infantilidade passada que se recusava a aceitar morte em sua
realidade. Os comportamentos diante dela foram então
invertidos: ela foi banida da sociedade e entrincheirada nos
hospitais que, a duras penas, a aceitavam (hoje, 70% das pessoas
morrem em hospitais).

Antigamente, a morte se fazia anunciar. Não raro (e isto
sabemos graças às ações familiares da época), sentindo-se perto
de partir, a pessoa convocava sua família e lhe comunicava sua
última vontade. Tinha-se então a necessidade de morrer com
a consciência limpa. Partir sem estar pronto dava medo. A
partida de uma pessoa envolvia também toda a coletividade.
Hoje, a maioria das pessoas prefere partir rapidamente, quase
brutalm ente. A morte anunciada é considerada uma
calamidade. Ela se tornou também um assunto absolutamente
privado. Do mesmo modo, os tempos não são mais chegados
aos grandes cortejos fúnebres ou às representações da morte.
Adornos, danças macabras, jacentes, carpideiras, epitáfios e
outros apelos à meditação tornaram-se extremamente raros. A
morte não dá mais sinais.
No século 17, a arte de se preparar para morrer era
freqüentemente lembrada e praticada, como aconselhavam os
antigos pitagóricos: "Por uma sábia antevisão, preparai-vos para
a morte, de m edo que ela vos surpreenda: m orrei antes de vossa
morte, m orrei para o mundo, m orrei para todas as criaturas, entrai
num estado em que possais dizer com o São Paulo: “quotidie
m orior" (m orro todos os dias). A arte de m o r r e r santam ente é tão
im portante que, para consegui-la uma vez, é preciso apreender
toda a vida, porque asfaltas que com etem os nesse m om ento são
irremediáveis". Jacques Nouet: “R ecolhe-te, afim de te preparares
para a m orte”, 1684.
O século 18 e suas luzes assistiram a uma primeira tentativa
de eliminar a morte. Voltaire ridicularizou as antigas práticas e
as velhas pompas, em seu ‘A deusà Vida". Fazendo piadas sobre
a morte, os próprios padres negavam a imortalidade da alma.
O Marquês de Sade apresentou-a c o m o sendo um nada. A

matéria é que era então considerada eterna. Em meio a essa
concerto, Montesquieu apresentou a imortalidade da alma
antes como uma necessidade que uma verdade: "Quando a
im ortalidade da alma f o r um erro, fica r ei m uito desolado de não
acreditar nela". Os que chamamos de filósofos do iluminismo,
como Louis-Claude de Saint-Martin ou Joseph de Maistre,
reagiram contra esse baixo materialismo.
Desde o final do século 18, assistimos a um refluxo dos
cemitérios, fora ou na periferia das cidades. Por exemplo, o
cemitério de Père Lachaise, em Paris, situou-se por algum
tempo fora dos muros, até que a metrópole o abarcou. O
cientificismo do século 20 progressivamente rejeitou a morte,
um dos últimos desafios incontornáveis a se erguer perante a
onipotente ciência. Quando uma pessoa falece num hospital,
isto se torna sin ôn im o de fracasso para todo o corpo médico.
A saída do corpo é feita da maneira mais discreta possível, às
vezes até secretamente. Certa enfermeira de repente percebeu
que, em dez anos de serviço, ela nunca tinha ficado ciente de
por onde os corpos passavam para deixarem o hospital.
Os mortos deixam de ter direito de cidadania e, segundo os
sociólogos, deixam de ter função social. Os sinais que lembram
a morte - mausoléus, jacentes, adornos, fanal dos mortos, etc.
- estão cada vez mais discretos, porque sua produção está
parada. Nas mídias, as imagens só mostram as mortes de
estrangeiros. As dos nossos, dos que fazem parte da família
nacional, dos que nos tocam de perto, são cuidadosamente
veladas. O historiador P Ariès chama a isso "a grande inversão
“Um pesado silên cio ”, escreveu ele, “estende-se, assim, sobre a
morte. Quando ele se rompe, com o algum as vezes na América do
Norte, hoje, épara reduzira m orte à insignificância de um evento

qualquer, do qual se fin g e fa la r com indiferença. Nos dois casos, o
resultado é o m esm o: nem o indivíduo nem a com unidade tem
su ficiente consistência para recon h ecer a m orte”.

<y? experiência
de nw iíe ¿/nmrnte

Felizmente, há umas três décadas, um vento de lucidez
começou a soprar na civilização, através do meio médico. As
longas agonias do câncer e o surgimento da AIDS vêm
favorecendo esse processo. Entretanto, a mudança de
mentalidade ainda não tocou todas as camadas da sociedade.
Quando a tomada de consciência se generalizar, pode-se apostar
que nossas sociedades sairão daí transformadas e mais
maduras...

“Vejo-Te coroado e, com Tua ?nassa e Teu disco, d ifícil de
discernir, porque és, etn toda parte à m inha volta, uma massa
luminosa de energia, um incêndio ili?nitado, um Incom ensurável
brilho, com o o do Sol, estrepitoso com o o fo g o [ ...]

Armado do poder que a ciência lhe confere, o ser humano
enfim se reconciliará com a natureza, pela aceitação de sua
própria m ortalidade. A morte, fenômeno reconhecido
socialmente e não mais rejeitado, convidará o indivíduo e as
sociedades a se questionarem sobre seu futuro, porém, sobre
bases totalmente novas.

Contemplo-Te, ó sem fim nem m eio nem com eço, de fo rça
i infinita e braços inum eráveis; Teus olhos são sóis e luas, tens um
sem blante de fo g o ofuscante e consom es eternam ente o universo
inteiro nas cham as de Tua energia. ”
Bhagavad-Gita

“Há umas duas décadas, fiq u ei gravem en te doente depois de ter
tomado uns remédios, e tenho certeza deque, naquele m omento, eu
quase m oni. (Quem fala é a Sra. O.) Sentindo vertigens, deite-m e
na cama, em m eu quarto, e perdi a consciência. No fim de alguns
instantes, (não posso dizer com precisão quanto tem po foi), voltei à
consciência, mas, para m eu profundo horror, vi m eu corpo deitado
na cama, com o se eu estivesse flu tuan do acim a e separada dele.
Ah, d evo explicar que m e senti perfeitam en te bem nesse novo
estado indefinível. Eu sabia que estava m orrendo e, no entanto,
não sentia medo. Estava com pletam ente serena. Depois, senti uma
espécie de oscilação etn minha consciência e m e vi indo para um
tún el m uito escuro, ou melhor, era o tún el que vinha na minha
direção. B em no com eço desse túnel, com ecei a perceber um ponto
de luz verm elha que com eçou a crescer cada vez mais e se tom ar

mais brilhante, a té invadir totalm ente m eu ca?npo de consciência.
De repente, tom ei a perder a consciência, caindo num outro buraco
escuro. Algum tem po depois, acordei penosam ente em m eu corpo
físico, com m eu m arido ao m eu lado, tentando desesperadam ente
m e reanimar. ”
Quando a Sra. O. me relatou sua história, vinte anos já
haviam se passado e ela se lembrava dela como um acon­
tecimento marcante que tivesse acontecido ontem. Zeloso da
honestidade intelectual e da verdade, perguntei-lhe então se
aquela experiência não podia ter sido um sonho. Para ela, a
hipótese do sonho devia ser excluída. Ele não tem a mesma
“textura” que esse tipo de fenômeno. Durante um sonho,
ninguém nunca vê seu corpo físico (ou muito raramente, já
que a experiência prova que toda regra tem sua exceção), não
se tem consciência desse desdobramento. Para a Sra. O., a
separação entre o ser físico e o ser espiritual era uma coisa tão
óbvia e real quanto qualquer acontecimento cotidiano,
percebido no estado de vigília. Acrescentamos que essa pessoa
nunca tinha estudado nada de esoterismo, cuja existência ela
quase que ignorava, que sua aventura se desenrolou numa
época em que ainda não se falava, na Europa, sobre histórias
de estados vizinhos à morte, e que ela não estava predisposta a
passar por isso.
O que provocara a situação foi a iminência da morte,
causada pela ingestão de medicamentos. Os americanos
chamaram esse estado de consciência singular de “Near Death
Experience (NDE)”, ou Experiência de Morte Iminente
(EMI). Várias investigações realizadas em todo o mundo
revelaram que milhões de pessoas já vivenciaram esse fenômeno
surpreendente. Só nos Estados Unidos, o instituto de pesquisa
Gallup contou oito milhões.

Como a Sra. O., que o marido achou que estava louca
quando contou a ele sua história, a maioria das pessoas que
passam por essa experiência, no Ocidente, guardou para si
mesma a perturbadora narrativa dessa viagem a uma outra
dimensão da consciência. Preferiram se calar, para evitar serem
tratadas como loucas ou mentirosas, até q u e... médicos,
enfermeiros, psiquiatras, começaram a levar a sério esses
testemunhos que voltavam várias e várias vezes sob formas
muito parecidas, nos lábios dos que haviam tocado a morte.
Mas vejamos mais claramente do que se trata. De uns trinta
anos para cá, o progresso da medicina não parou de se acelerar.
Graças à utilização da química medicamentosa, da cirurgia de
ponta, da eletrônica... os médicos estão sendo capazes de fazer
pesquisas com as pessoas que chegaram perto das fronteiras
do além. Muitas vezes, quando o coração e o cérebro não dão
mais sinais de atividade nos aparelhos registradores, quando
os médicos que cuidam delas as declaram mortas, essas pessoas,
contra toda expectativa, voltam à vida. Em alguns casos, tudo
que receberam foi simplesmente, por exemplo, uma descarga
de desfibrilador cardíaco, que acionou novamente toda a
mecânica vital. Para espanto dos que lhes prestam assistência,
cerca de quarenta por cento desses viajantes de um outro
mundo se põem a contar uma história extraordinária, que se
desenrola em cinco etapas.
1. Enquanto se encontram numa mesa de operação ou
caídos por terra depois de um acidente ou, ainda, em qualquer
outra situação gravemente traumatizante para a vida, essas
pessoas sentem que estão deixando nosso mundo e indo para
um reino totalmente diferente. A situação, para elas, é sempre
muito agradável e elas não sofrem nada, mesmo que seu corpo

físico esteja numa condição dolorosa, doente ou acidentado.
De forma surpreendente, ao regressarem, não têm mais medo
da morte, sentem-se totalmente confiantes e tranqüilas.
2. De repente, para seu espanto, na segunda fase da
experiência, elas percebem nitidamente seu corpo físico estirado
sob elas ou ao seu lado. Vivenciam, assim, a experiência íntima
da dualidade de sua natureza, a mente fica separada do corpo.
Essas pessoas provam a veracidade da situação recordando fatos
concretos que perceberam enquanto estavam nesse estado
singular. Descrevem aos médicos que cuidaram delas, por
exemplo, cada um dos gestos e atos que eles fizeram para
reanimá-las. De acordo com esses testemunhos, parece que
nesse estado a mente pode se deslocar instantaneamente para
outros lugares. Uma pessoa acidentada, que estava pela
primeira vez naquele hospital onde estava sendo tratada, pôsse a descrever, às suas espantadas enfermeiras, os quartos e
outros locais do estabelecimento, onde ela nunca tinha pisado.
Entretanto, ela visitara aqueles locais desconhecidos durante
sua experiência. Após prudentes averiguações, suas declarações
se revelaram exatas.
3. Depois da viagem da mente, separada do corpo, pelo
mundo material, há uma mudança da consciência para uma
outra dimensão. Um túnel sombrio se apresenta diante das
pessoas e elas entram nele a uma velocidade vertiginosa. Tudo
se passa como se elas atingissem então uma outra dimensão do
universo. A saída do túnel, os narradores explicam que foram
recebidos por algo que eles entenderam ser criaturas que vieram
acolhê-los. Mas aqui os testemunhos adquirem uma natureza
excessivamente simbólica, formulada incorretamente nos
conceitos limitados do nosso mundo.

É o caso da aventura do Dr. Philip Simpson, relatado por P
van Eersel no livro “A Fonte Escura”'. “Seres aproximaram-se de
m im . .. Eles não eram cúbicos com o eu, mas esféricos. Queriatn
que eu m e tom asse com o eles, e uma onda de terror m e engolfou.
Gritei: “Vão emboraI" O mais espantoso tem a t/er com a natureza
do que os tom ava tem íveis. A coisa é quase inexprimível. A única
palavra que p od e traduzir vagam ente o que elas m e inspiravam é
ironia. Aquelas esferas em anavam para m im algu m a coisa
zombeteira. Finalmente, sem desaparecerem, ficaram a uma certa
distância. Constatei, então, que eu estava numa paisagem árida e
fechada, com o as terras no fu n d o de um canyon, em p len o deserto.
Por últim o, m eu “cu b o ” im plodiu e f u i parar em m eu leito no
hospital. Com m uito custo despertei, e uma espécie de luz difusa
encheu minha cabeça. R evi toda a cena. De repente, p erceb i que
m e en ga n ara to ta lm en te: em n en h u m m o m en to a qu elas
“en tid a des” estranhas quiseram m e fa z er mal. Ao contrário,
revendo-os em minha mem ória, m e d ei conta de que elas tinham
sido, na verdade, extrem am ente bem intencionadas. Apenas um
pouquinho “divertidas” com o m eu medo. Foi esse “divertim ento"
que eu não con segu i suportar. Apesar de estar con scien te das
aparências totalm ente fantasiosas do m eu relato, tenho a dizer
aqui que essa b reve e fu lg u ra n te experiência alterou m inha
concepção do m u n do”.
4. Na quarta etapa, as pessoas contam que perceberam uma
luz imensa ou um palácio de cristal bruto. Explicam que
daquela onda luminosa irradiava um amor incomensurávei.
16% dos que relatam uma EMI atingem essa quarta fase.
Apenas 10% vão além.
5. E esse além é a entrada na luz, uma fusão que, segundo
elas, imprime um êxtase indizível. Luz sobre luz, amor, alegria,

sentimento de infinito e eternidade, experiência mística ou
noética, conhecimento absoluto. Todos esses termos repre­
sentam esforços infrutíferos para revestir de palavras algo que
se vive primordialmente no nível da emoção.
A maioria que alcança esse patamar sai dele perma­
nentemente transformada. Toda dificuldade que resta a essas
pessoas é traduzir esse novo conhecimento em atos ligados ao
concreto cotidiano. Ao voltarem dessa viagem, algumas delas
até recriminam os médicos por terem-nas trazido de volta.
Tendo gozado de um instante de eternidade, retomam contato
com um corpo limitado, pesado e com todas as contingências
materiais. Elas prefeririam continuar naquele novo lugar.
Outras têm a convicção de que, “lá de cima”, receberam a
ordem de voltar a este mundo.
Neste ponto, vale notar que, longe de constituírem um novo
mito, como pretendem alguns escritores, as EMI sempre foram
vividas pelos seres humanos. A extraordinária vitalidade das
religiões e místicas diversas vêm, aliás, desse fato. Na verdade,
as pessoas saem dessa experiência não com uma simples fé,
mas com um conhecimento ou gnose inabalável, que elas
buscam compartilhar. O mito de Er, descrito por Platão, se
não representa uma EMI (até prova em contrário, nenhuma
EMI pode durar doze horas, nem mesmo mais que alguns
minutos, sem se transformar em morte de fato), com certeza
tira sua força das narrativas reais vividas naquela época.
Há também outras experiências que se assemelham às EMI,
sem serem de fato. Assim, certa mulher que narrou sua aventura
nos mesmos termos de uma EMI (sentimento de amor
incondicional, eternidade, expansão da consciência...) explicou

depois que a alteração de consciência aconteceu enquanto ela
passeava num jardim, extasiando-se com a beleza das flores
que via. Pessoas que sofrem um coma também podem dar esse
tipo de testemunho. Assim, uma jovem que, depois de um
acidente de carro, ficou seis meses em coma profundo relatou,
ao sair dele: "De todo esse tem po, que não p u d e m edir porque,
quando acordei, parecia que o acidente tinha acontecido na véspera,
não m e lem bro de absolutamente nada. Ah, sim !... só tenho certeza
de uma coisa. Antes de recuperar a consciência, “alguém ” m e deu
uma escolha: partir definitivam ente ou voltar ”.
Há dois elementos fundamentais no que diz respeito às
EMI que fizeram a comunidade científica pender a seu favor.
0 primeiro reside nos relatos de percepções extra-sensoriais.
Por algum tempo, pôde-se acreditar que durante a incons­
ciência aparente, o subconsciente das pessoas pode, por
intermédio dos sentidos físicos, perceber eventos que se
desenrolam nas imediações. Lembremos que a audição é o
último sentido que permanece ativo na morte, na perda de
consciência ou no sono. Essas explicações, porém, são muito
fracas para justificar percepções verificáveis e verificadas de
acontecimentos que ocorrem em lugares distantes. A História
relata um caso vivido pelo sábio Apolônio de Tiana, no século
1 d.C., no momento do assassinato do imperador Domiciano,
a centenas de quilômetros dali. Filóstrato conta que, entregue
a um discurso, Apolônio “estancou, com o quem p erd e o f i o de
seu discurso, lançou ao solo um olhar apavorado, deu três passos à
fren te egritou : ‘A taque o Urano, ataquei”. Dizem que ele viu não
a im agem do fa to com o num espelho, mas o próprio fa to em toda
sua realidade. Os efesianos fora m tom ados d e espanto. Apolônio
se deteve, assim com o alguém que tenta ver a conclusão de um
a co n tecim en to duvidoso. Por fim , g rito u : “Tende coragem ,

efesianos/O Tirano f o i m orto hoje. O que estou dizen do... hoje?l
Por Minerva!, ele acaba de ser m orto neste exato instante, enquanto
m e in terrom p i”. Podia Apolonio estar em dois lugares ao
mesmo tempo? Segundo seus proprios testem unhos,
verificados por membros do corpo médico, as pessoas que
passam por uma EMI, a exemplo de Apolônio, também
parecem perceber eventos à distância.
O segundo —e mais importante —fenômeno que se levou
em conta, se, por um lado, é aparentemente menos espetacular,
por outro, apresenta caráter mais profundo e prático. Seu
sentido é também infinitamente mais eloqüente para o místico
sincero, que se recusa a deixar-se levar pelo meramente
espetacular. Quanto mais longe as vítimas vão na experiência
(até a quinta fase), mais regeneradas elas retornam, tanto do
ponto de vista físico quanto mental, emocional e espiritual.
Pessoas totalmente egoístas, que toda a vida sempre foram
centradas na satisfação de seus interesses pessoais, passam
espontaneamente a se interessar e a amar o próximo. Outras,
cuja vida não tinha outro sentido senão o consumismo e a busca
de prazeres, de repente passam a ter aspirações mais elevadas.
Outras, ainda, descobrem nelas mesmas dons de cura ou uma
vontade de reorientar sua vida para a manutenção da saúde
física ou mental. Tudo isso constitui, inegavelmente, sinais de
uma expansão da consciência. Essas pessoas parecem ter
experimentado uma verdadeira conversão. Conversão essa que
se traduz por um crescente amor à vida e às pessoas, bem como
por um maior serviço prestado ao próximo e, por mais
paradoxal que pareça, pela abolição de todo o medo da morte.
Vale acrescentar que, para elas, a idéia do suicídio “só para
ver” torna-se um completo absurdo. Daí a frase enigmática de

üm ocidental que passou pela EMI após uma tentativa de
suicídio —“Quando se está lá em cima, a gen te com preen de o que
realm ente o suicídio significa; aí, então, acreditem -m e, a gen te
realm ente não tem a m enor vontade de fa z er isso de n o v o ”.
Pessoalmente, posso atestar sem quebrar nenhum segredo,
que indivíduos que viveram uma EMI encetaram estudos
espirituais que, em alguns casos, conduziram-nos aos portais
da Rosacruz. Por vontade própria, desejavam compreender,
através da sabedoria Rosacruz, a natureza daquilo que viveram
de maneira tão emocionante. O ponto comum de todas essas
vidas transformadas exprime-se por uma grande alegria, um
crescente otimismo frente à vida e uma abertura mais ampla
em relação às outras pessoas.
Mas há ainda outra coisa no que tange sua regeneração física.
Algumas delas parecem rejuvenescer. Lesões graves saram mais
rapidamente. Vítimas de câncer em fase terminal, que a
medicina tinha condenado a um brevíssimo desfecho, vêm suas
metástases regredirem relativamente e o desfecho fatal adiado
em seis meses ou mesmo um ano. Se ainda não chegamos a
declarações como: “paralíticos andam, cego s vêem e surdos
passam a o u vir”, não estamos muito longe disto, tanto do ponto
de vista físico como psicológico ou espiritual.
O meio médico está se questionando sobre a transformação
psicológica radical efetuada em tão pouco tempo. Nenhuma
lei psicológica conhecida pode, em tais condições, explicar essa
transformação. Logo, alguma coisa acontece, a um tempo
profunda, prática e real, que a ciência não consegue explicar
por suas análises habituais. Os médicos que querem se manter
objetivos ficam tão contra a parede, que um deles, um psiquiatra

alemão que estudou o assunto profundamente, declarou: “Se
as experiências de m orte im inente não dem onstram de maneira
absoluta o principio da sobrevivência da alma depois da morte, os
que hoje ainda se recusam a adm itir essa sobrevivência não tiraram
as m elhores cartas". Vale ressaltar, aliás, que as EMI não são
mortes provisórias, mas unicamente estados próximos da morte.
Tirar conclusões sobre a experiência da morte a partir de uma
EMI seria um pouco abusivo. Embora seja válido apreender o
desconhecido a partir do conhecido, essa extrapolação, para
chegar à condição de conhecimento verdadeiro, necessitaria
de uma verificação objetiva. Se tivesse ocorrido morte nesses
casos, as últimas ligações que unem o ser humano à vida teriam
se rompido. Ninguém teria podido fazer uma reanimação. As
únicas informações que se pode tirar daí dizem respeito aos
estados da consciência na proximidade da morte.
Para compreender o evento, o fato é que cada um tenta
adaptar as EMI aos seus próprios parâmetros analíticos. Um
vê nela um modelo psicanalítico, outro a interpreta como
reações psicoquímicas do cérebro... em todos os casos, as EMI
não deixam ninguém indiferente; tanto que o governo francês
teve de chamar atenção para os termos da lei: “A m orte definitiva
de um a pessoa p od e ser declarada som ente após m edidas tomadas
p or eletroencefalogram a, efetuadas duas vezes, com m eia hora de
intervalo".

químico seria produzir uma última sensação agradável, antes
de se mergulhar... no nada. Se, por um lado, não há razão
para negar essa explicação, por outro, vale observar que ela
sozinha não basta para justificar as transformações psicológicas
das pessoas e muito menos suas percepções à distância.
Acrescentemos, porém, que isso absolutamente não entra em
contradição com a noção de descorporificação real. Os místicos
que seguem a via da alquimia espiritual aceitam a idéia de
associar um fenômeno físico a um evento de natureza espiritual.
A máxima hermética, “O que está em cim a é com o o que está em
baixo, e o que está em baixo é c o m o o que está em cim a ", implica
que um fenômeno físico pode ser o reflexo ou o indício de um
fato espiritual, assim como a ponta do iceberg indica a presença
de um volume imerso duas vezes maior. O fato de que o amor,
por exemplo, possa ser medido ou refletido por secreções das
nossas glândulas endocrinas (tanto é que já se pôde falar em
“molécula do amor”) não impede que ele constitua uma emoção
real e muito prática, sem a qual a vida com nossos congêneres
se transformaria num inferno. Entretanto, o papel dos
neurotransmissores na gênese de uma EMI ou quaisquer
outras experiências semelhantes nunca foi comprovado pela
ciência; até hoje, isso não passa de uma hipótese. Para encerrar,
vale acrescentar que nunca se viu um restabelecimento ou
regeneração tão espetacular, tanto do ponto de vista físico
quanto psíquico, pelo uso de medicamentos clássicos.

O modelo psicoquímico explica que as sensações de
descorporificação, a visão da luz, a passagem no túnel, os sons
ouvidos, etc., são resultados de uma experiência alucinatória.
Segundo essa versão, o cérebro, na iminência da morte, sofreria
uma gigantesca descarga de drogas, secretando alucinógenos
em forma de neurotransmissores. A função desse orgasmo

Na mesma ordem de coisas, existe uma teoria chamada “três
cérebros”. Segundo essa idéia, na medida de sua evolução, a
natureza teria dotado os seres vivos de estruturas cognitivas
cada vez mais complexas. Assim sendo, o ser humano de hoje
possuiria um cérebro composto de três cérebros superpostos.
O cérebro superior ou neo-córtex; o cérebro médio,

correspondente ao rinencéfalo ou sistema lím b ico; e o cerebro
inferior ou reptiliano, formado pelo hipotálamo, que, por sua
vez, está ligado à glândula pituitária.
Cientistas puseram em evidência reações semelhantes aos
estados de consciência mística, que se enquadram igualmente
na linguagem das EMI, pela estimulação artificial de cada uma
dessas partes do cérebro. Durante a excitação do rinencéfalo
por meio de eletrodos, os pacientes experim entaram
sentimentos de amor universal. Durante a estimulação do
hipotálamo, descrição de luz e sensação de fusão no grande
Todo foram relatadas. Não demorou para que uma interessante
teoria da transição viesse à tona. Assim, ao morrer, a pessoa
assistiria a uma desativação progressiva de cada um de seus
cérebros, começando pelo neo-córtex. No nível da consciência,
ela faria, então, o caminho inverso da evolução, até chegar aos
níveis de consciência mais primitivos. Tratar-se-ia, portanto,
de um retorno às origens da evolução. Isso explicaria as
experiências da descorporificação, do túnel, da luz, do amor
universal e da fusão na luz.
R Dewavrin, por sua vez, desenvolveu um explicação
psicodinâmica. Frente à irrupção do medo da morte, “o
inconsciente dissocia o corpo e a autoconsciência, o q u e”, segundo
ele, “gera a impressão de desligam ento corporal. Da mesma form a,
ele dilata o tem po e isola o ambiente, que então parece distante. E
uma verdadeira fu g a espaço-tem poral o que se produz; p or esse
processo, a realidade da m orte é lançada fora da consciência ”.
Segundo ele, a percepção do ser de luz representa um
arquétipo da vida... Essa interpretação pura e simplesmente
nega o fenômeno, para levá-lo ao nível do fantasma
reconfortante, sem se apoiar em nenhum fato.

Existem ainda outras teorias para explicar as EMI. Uma
delas é a de Régis Dutheil, o pesquisador francês, autor do
livro “O H om em Supra-lum inoso”. Ele é autor de uma teoria
matemática muito respeitada, segundo a qual existiriam
partículas muito especiais, os táquions, capazes de ultrapassar
a velocidade da luz (barreira supostamente intransponível até
então). O Instituto de Física de Colônia observou alguns que
ultrapassam de três a quatro vezes a velocidade da luz, e
resultados similares foram obtidos depois na França e nos
Estados Unidos. Segundo Régis Dutheil, cujos trabalhos são
até agora hipóteses revolucionárias ainda a serem confirmadas,
existiriam, portanto, dois mundos. Um sub-luminoso e o outro,
um “alhures” supra-luminoso. O termo “alhures” foi dado por
Einstein, que havia previsto sua existência.
Assim, a teoria da relatividade, estendida a essas novas
concepções, consideraria o universo segundo três seções. Uma
seção sub-luminosa, reino do mundo da dualidade, da
causalidade e do tempo; um mundo supra-luminoso ou campo
taquiônico, reino da inseparabilidade e da simultaneidade, para
além do tempo. Por último, a barreira da luz, participante dos
dois mundos simultaneamente.
Como deixar de ver aqui uma ligação (como um piscar de
olhos) com o primeiro capítulo da Gênese: “No com eço, a terra
era inform e e vazia e o espirito de Deus pairava sobre as águas...
Depois, Deus disse: “Fiat lux! (Faça-se a lu z !)”... e esse f o i o
prim eiro dia. Em seguida, Ele criou o universo, as estrelas, os
vegetais, os animais e, p or últim o, o h o m em ”. No começo, teria
havido, portanto, um mundo supra-luminoso de onde emanou
a luz e, depois, o mundo que conhecemos.

E Régis Dutheil procurou comparar os testemunhos de
pessoas que passaram por uma EMI ao seu "cam po taquiônico”.
De fato, todas falam do cruzamento de uma barreira de luz e de
uma aceleração súbita e vertiginosa da experiência; depois, de
uma sensação de chegar ao coração de um mundo sem espaço
nem tempo, gerando nelas a impressão de terem se tornado
onipresentes. Essa viagem não seria, portanto, do corpo, mas da
consciência, uma experiência noética (relativa à consciência) de
algum tipo. Assim, o mundo supra-luminoso seria o habitáculo
de todas as consciências e, de acordo com o próprio Régis
Dutheil, o campo da Consciência pura de onde proviriam e para
onde voltariam as consciências individuais, após a morte do
corpo. Nesse campo, a ordem e a informação aumentariam sem
parar, merecendo, em suma, o qualificativo de inteligência. Mas,
vamos com calm a... O próprio pesquisador acrescentou: “Sou
o prim eiro a dizer que m eu m odelo é provavelm ente falso e, de
qualquer m odo, será superado um dia. Ele é tão-som ente um
esquema provisório, destinado a nos ajudar a faz er avançar nossas
idéias sobre a consciência".
Mas, à parte o lado interessante das muitas histórias sobre o
assunto que, aliás, pode ser abordado por outros livros, as EMI
possuem um caráter de fato interessante para os místicos e, em
especial, para os Rosacruzes. Seu interesse reside principalmente
no fato de que elas vêm confirmar aquilo que o estudante aprende
gradualmente sobre as fases iniciáticas atravessadas pelo adepto
na senda da evolução espiritual.
As etapas de uma EMI ou NDE “Near Deal Experience” de
fato correspondem muito fielmente às diferentes fases da
iniciação. A necessária separação do iniciando em relação aos
preconceitos do mundo, a fim de atingir uma nova consciência,
pode ser comparada à separação entre o ser físico e o ser espiritual

numa NDE. O acesso ao reino da consciência só pode ser obtido
através da separação dos elementos mais pesados da existência,
ou seja, o corpo físico. A admissão, pela meditação, aos estudos
de certos mistérios equivale à passagem no túnel, fronteira entre
dois mundos. Nas NDE, outras personagens também assistem
o “iniciando” em sua viagem a uma outra dimensão. Da mesma
forma, o iniciando nunca está só em sua busca de mais luz. A
passagem no túnel pode ser comparada também à noite negra
da alma, à qual muitos místicos cristãos se referiram. Escuro, o
túnel o é forçosamente e, para alguns, até mesmo assustador.
Tal como a gruta do eremita, ele é o local onde a alma se prepara
e se despoja gradualmente de suas antigas escórias e impurezas.
Nosso mundo parece estar descobrindo as NDE. Os místicos,
os iniciados e os sábios de todos os tempos conheceram-nas no
símbolo e, algumas vezes, na experiência direta da consciência;
em todos os casos, em sua carne e em sua alma.
A revelação preside, no iniciando, o acesso a um conhecimento
superior. Aqui, os maiores mistérios lhe são revelados. Mas, acaso
há mistério maior que o do amor? E esse conhecimento que os
experimentadores de NDE percebem no mais profundo de seu
coração, tanto que chegam a rejeitar os esforços desesperados dos
médicos que tentam traze-los de volta à vida. “Por quem e trouxeram
de volta?’\ lamentam alguns, “Eu estava bem lá em cima, era tão
b elo... não preciso de vocês... deixem-me em paz!". Mas há um
outro mistério que essa gente percebe, como uma revelação, e este
é o da unidade, na qual aqueles que vão mais longe esquecem-se
de si mesmos por algum tempo, como numa aura de luz inefável,
até chegarem à regeneração e à conversão.
Todos esses termos empregados ao se falar das EMI são
conceitos que podem ser assinalados também numa via de

alquimia espiritual. Assim conta uma mulher que deu à luz
um de seus filhos através de cesariana: “Foi uma em ergência,
numa sala de operação não aquecida; fazia m uito frio, e lem brom e de ter esperado o sono anestésico com im paciência, pois eu
estava sofrendo. De repente, abri os olhos; um sentim ento de
felicid a d e inexprim ível m e invadiu, igual ao de um pássaro a
quem devolveram a liberdade. Pensei: “Estou entrando em mimV*
Eu estava n u m tú n el im en so, vaporoso, co m u m a agu da
consciência de m im mesma; estava m e deslocando à velocidade da
luz!(1) e m e dirigia a um a maravilhosa claridade, da qual m e
aproxim ei num a felicid a d e total, banhada no am or divino que é
“con hecim en to perfeito, alegria pura e am or p u ro ”. Eu estava no
m undo do espírito, sem corpo, mas mais viva do nunca. De repente,
senti que havia uma discussão a m eu respeito, m eu trabalho ainda
não estava term inado; eu precisava m e reintegrar ao m eu corpo
hum ano. Supliquei em vão que m e deixassem seguir em fren te,
mas, com m uito amor, f u i mandada de volta. Entrei de novo no
m eu corpo físico, p elo m eio do m eu crânio; aquele corpo m e
parecia m inúsculo, eu tinha de m e acostum ar a ele outra vez, na
dor. Depois, sobressaltei-me, ou vi um b eb ê que chorava. Era o
m eu filh o ; eu tinha de viver p or am or a e le ”.
Essa pessoa acrescentou que depois desse acontecimento
ela adquiriu uma aguda intuição e que “algum as coisas se
m odificaram do pon to d e vista b iológico”. De fato, várias décadas
mais tarde, aos sessenta anos de idade, ela ainda menstruava,
o que era incompreensível para os médicos. Ela atribuía isso à
sua experiência de um dia numa outra dimensão, como uma
pedra misteriosa assinalada em seu caminho.

(1)A fam osa velocidade da luz. (Nota do Autor)

Finalmente, ao final de uma EMI, há sempre o retorno a
um corpo que, apesar de relativamente regenerado, muitas
vezes continua doloroso ou enfermo. Em todo caso, de acordo
com os próprios experimentadores, a sensação não tem caráter
agradável. A reintegração se realiza, na verdade, numa
dimensão grosseira, em vista da experiência vivida.
Pouco antes do retorno, algumas pessoas explicam que viram
toda sua vida passar ante sua consciência, como que numa tela
de cinema. Ao que parece, com a aproximação da morte, todos
nós nos encontraríamos ante essa constante, relatada pelos
agonizantes. Uma necessidade da mente de fato impele a
pessoa a fazer um último balanço. Isso pode acontecer num
piscar de olhos, mas sempre com extraordinária acuidade.
Lembranças esquecidas voltam à superfície; a consciência
demonstra, então, uma aguda percepção. Tudo se passa como
se a memória da pessoa, antes de passar a uma outra dimensão,
fosse rebobinada, como uma fita cassete, a fim de conservar
melhor suas preciosas informações.
Sabemos que a alma, depois da morte, faz um balanço de
sua vida. Podemos deduzir isso, racionalmente, a partir dos
testemunhos das pessoas que vivenciaram uma EMI e dos
agonizantes. Na momento de partir, tudo se passa, como
pensavam sabiamente os pitagóricos, como no momento do
sono. Em sua sabedoria, eles consideravam que não há sono
bom se a alma não está em paz. Para eles, essa paz só poderia
ser obtida através de um balanço do dia que passou: “Não
perm itas que o d oce sono se insinue sob teus olhos, antes de teres
examinado cada uma de tuas ações do dia. Que faltas co m eti?
Que fiz eu ? Que deixei de fa z er e que deveria ter fe ito ? Começa
pela prim eira e p ercorre todas as tuas ações. Em seguida, se

descobnres que com etestes algum a falta, repreenda-te; mas se
a gistes bem , a leg r a -te". Na iminência da morte, uma lei
psicológica implica que o indivíduo acha-se exatamente nessa
mesma disposição de espírito.
Mas voltemos à questão do retorno. Toda a dificuldade, para
as pessoas envolvidas, reside na necessidade de traduzir em
ações concretas a revelação que receberam em outro plano.
Para o observador, um dos meios de saber se uma EMI foi
realmente vivida, ou se tudo não seria apenas uma fantasia,
consiste justamente em observar as transformações do
comportamento da pessoa em questão. E inegável que a
experiência da dualidade corpo-alma ou a da luz e do amor
inefáveis não deixa ninguém incólume. Cedo ou tarde, uma
alegria de viver contagiosa acaba transparecendo, bem como a
vontade de ir ao encontro das outras pessoas... Um
conhecimento obtido pelas vias espirituais, se válido, vai se
traduzir infalivelmente em fatos objetivos, muitas vezes voltados
ao serviço voluntário. E a lei do retorno, vivida também pelo
iniciado armado do privilégio de uma iniciação simbólica.
Vale acrescentar aqui um ponto que os espiritualistas
conhecem bem. Existem EMI de diversas naturezas. Uma vez
chegados ao outro plano, alguns passam o tempo considerando
a idéia da morte. A experiência pode adquirir caráter
essencialmente simbólico, como no caso do Dr. Simpson, já
citado. Há registros, porém, de uma minoria de EMI de caráter
negativo e desagradável. Por se tratar de uma experiência noética
(termo emprestado de Teilhard de Chardin), presume-se que
ela dependa, em primeiro lugar, do estado de consciência da
pessoa. Nessa esfera, percebemos somente aquilo que estamos
prontos a perceber. Uma parte da experiência, assim como

ocorre em muitas meditações, corresponde a uma projeção dos
conteúdos da consciência. A exemplo do espírito de um texto
do Bardo Thõdol, o Livro dos Mortos tibetano, poderíamos
dizer ao experimentador: “Contempla as visões que se apresentam
a ti: são a p rojeção de teus próprios pensamentos, precon ceitos e
fantasmas. R econhece que essas visões vêm de ti e te libertarás
delas".
A natureza da EMI, portanto, será sempre formulada com
termos ligados à cultura e às imagens familiares à pessoa. Podese até apostar que a descorporificação não seja forçosamente
uma separação entre o ser espiritual e o ser físico, que o túnel
não seja um túnel, que a luz seja algo intraduzível. A intimidade
da experiência torna-a incomunicável em sua natureza
profunda, ainda que os milhares de testemunhos recolhidos
concordem de maneira surpreendente. Então, como explicar
as experiências de NDE e a conscientização de fenômenos
extracorporais?
1. Podemos, num primeiro tempo, partir do princípio de
que, em seguida a uma comoção, alguma coisa sai do corpo e
vai perceber um fenômeno situado em outro lugar. Em várias
tradições, essa “coisa” é conhecida: denomina-se corpo
psíquico, corpo astral, perispírito, etc. Tratar-se-ia de uma
oculta dimensão do ser humano, uma emanação da vida que
nele circula e que estaria ligada ao seu corpo físico. A essa,
somamos as experiências de bilocação, aquelas dos xamãs da
América e da Ásia do Norte...
2. A exemplo dos cientistas céticos, poderíamos imaginar
que, no momento da morte, o cérebro se saturaria de
neurotransmissores, um sistema de segurança que, ante a

iminência da morte, permitiria à consciência viver um último
momento agradável... mas ilusório. Isso é muito interessante,
mas não basta para explicar o fato de que pessoas em estado de
inconsciência aparente tenham podido perceber cenas que se
situavam bem fora dos limites de seu corpo e mesmo do local
em que se encontravam. Sem nunca terem visitado fisicamente
os lugares que, após voltarem à consciência, descreveram
detalhadam ente, essas pessoas relataram eventos que
ocorreram à distância.
3.
Enfim, a terceira hipótese, que não é forçosamente a mais
simples, mas a mais sutil, constitui um ponto intermediário
entre as duas precedentes. Admitamos que, no todo da Criação,
exista uma Grande Consciência Universal que é onipresente,
onisciente, etc. Não precisaríamos mais invocar nenhuma
experiência de “saída do corpo”. O verdadeiro fenômeno que
interviria, então, seria o de uma harmonização momentânea
entre essa Grande Consciência Universal e a consciência
individual da pessoa em situação crítica.
Pessoalmente, conheci o caso de um amigo que, de repente,
vivia essa experiência subitamente, enquanto estava sentado
ou dormindo calmamente. Dava-lhe a sensação de que tudo o
que estava afastado parecia ser percebido como próximo, e o
que estava próximo se tornava afastado. Os médicos disseram
simplesmente que ele estava com o cérebro cansado, quando
provavelmente tratava-se de uma experiência psíquica.
Se essa hipótese se mostrasse válida em experiências como
as de NDE, dois tipos de consciências interagiriam: a Grande
Consciência Universal e a do cérebro. As informações de uma
verteriam para as da outra por intermédio de determinados

centros, cuja existência os Rosacruzes conhecem há séculos.
Da mesma forma, note que, durante esses fenômenos, a alma,
no sentido de princípio animador e fonte de vida, não sai
efetivamente do corpo. Se assim fosse, a morte ocorreria
irremediavelmente. Poderíamos, porém, nos perguntar se, no
instante da morte, um outro princípio, diferente da consciência
da alma, pudesse talvez desenvolver uma existência autônoma.
Em função de determinadas leis, que a Tradição Rosacruz
conhece, aquilo a que chamamos autoconsciência ou
personalidade, na qualidade de expressão manifesta e ativa no
mundo, é a resultante da relação estabelecida entre a alma —
princípio universal —e o corpo. A morte corresponde à
separação de ambos. Temos, então, o direito de nos perguntar
sobre o devenir da autoconsciência quando seu sinônimo, isto
é, o relacionamento entre a alma e o corpo desaparece.
Tudo o que sabemos é que a conscientização de um
fenômeno extracorporal produz-se por ocasião de uma
experiência de morte iminente. Mas essa mesma experiência já
foi vivida igualmente em outras situações. O Padre Pio, por
exemplo, já foi visto em dois lugares ao mesmo tempo. A
História relata também que os antigos mestres Rosacruzes
conseguiam essas mesmas proezas. Durante as guerras,
institutos de pesquisas psíquicas de todo o mundo conseguiram
colher testemunhos de mães que afirmavam ter visto e ouvido
seus filhos lhes falarem, enquanto estes se achavam feridos a
centenas e até milhares de quilômetros de distância.
Os xamãs,
/
mas também muitos místicos, como os iogues da índia, dizem
poder exercer essa faculdade, sem precisarem sofrer um
acidente, um coma ou uma doença. Um dos termos utilizados
para designar o fenômeno é “bilocação”. Nele, o indivíduo não
se contenta apenas em perceber o que se passa a quilômetros

dele; uma parte de seu ser se cristaliza nesse lugar distante e
pode até ser observado. Assim, as explicações dadas acima para
justificar essas manifestações são apenas hipóteses práticas. A
explicação verdadeira talvez seja muito mais complexa, ou
requeira uma combinação de todas essas interpretações.

(9 aco/zipa/i/uv/u/i/o
c/e agorriza/iíej

Resta uma pergunta: por que as NDE existem hoje?
Lembre-se, as NDE ou EMI não datam de ontem. É
justamente a evolução sem precedente das técnicas médicas
que têm produzido todos esses retornos antecipados. O que
foi anunciado antigamente está se desenrolando ante nossos
olhos. Hoje, é a ciência que preside a evolução da humanidade
e constitui o novo âmbito de seu desenvolvimento. As
manipulações genéticas e a clonagem impõem ao ser humano
uma reflexão sobre a ética e sobre sua própria natureza. A
informática o obriga a reformular seu lugar no universo
produtivo. E a medicina abre para ele as portas da morte; ou,
pelo menos, obriga-o a se questionar a respeito dela. Seja como
for, pessoas testemunharam e seus testemunhos constituíram
a fonte de numerosas pesquisas, que põem em xeque muitas
idéias estabelecidas.

A companhar, eis um termo cujo sentido recente traduz a
melhor compaixão que nosso mundo é capaz de demonstrar
ante alguém que está morrendo. Trata-se do último ato de amor
de alguém que, segurando por um tempo a mão de um ser às
portas da passagem, só vai soltá-la quando o outro tiver partido.
Gesto gratuito por excelência, porque sem lucro no plano
terreno, ele inicia tanto os que partem quanto os que ficam.
Acompanhar é a palavra mais exata, pois o ser de partida está
sempre um passo à frente de seu companheiro ou companheira
dos últimos dias. Gesto de humildade, ação silenciosa, ele apela
à qualidade de uma presença que, por sua natureza, ajuda o
agonizante a levar a termo sua transmutação. Nada de
discursos; não se trata de convencer do contrário a quem tem
medo ou, ao incrédulo, de que existe alguma coisa depois. A
importância ou a urgência do momento faz com que as certezas
do acompanhante pesem bem pouco ante o inelutável com que
se defronta o ser que parte. Assim, o acompanhante precisa
aprender a se calar, para ser mais intensamente no amor e no
respeito ao outro.
Mas mudemos de tom e falemos tecnicamente, porque um
pouco disto é necessário se queremos que o coração se expresse
sem as suas ilusões. Há três ou quatro tipos de acompanhamento.
O primeiro, e mais conhecido, é o praticado nas unidades
de tratamentos paliativos. É um produto da ciencia, na medida

em que esta está sabendo, cada vez melhor, analisar as
condições de uma enfermidade e fixar os sinais da aproximação
do inevitável. O câncer em fase terminal, a aids e outras doenças
confrontam a medicina com a sua impotência natural, e é
possível dizer se uma pessoa tem ou não chances de sobreviver.
Nos casos em que a resposta é negativa, convém, então, auxiliálos. Enquanto na Idade Média podia-se tranqüilamente falar
da morte, depois do século 18 e da era industrial ela foi relegada
ao nível dos assuntos que é preferível evitar. Foi apenas há umas
quatro décadas, graças a pessoas como Elisabeth Kübler-Ross,
que se passou a ousar encará-la. Resta, porém, um longo
caminho a ser percorrido. Por ora, e isto já é fato, as unidades
de tratamentos paliativos têm por missão oficial acompanhar
os seres até o grande portal.
A segunda forma de acompanhamento, menos conhecida,
foi praticada no curso de nossa História passada. Consiste não
em esperar a chegada do fim para se pensar no assunto, mas
num convite a que se faça um exame regular do sentido do fim
derradeiro do ser humano. Assim, quando o dia da transição
se apresenta, a pessoa já está preparada.
O terceiro método de acompanhamento diz respeito a todos
os ritos, meditações, preces, etc., que ajudam na libertação dessa
borboleta que é a alma da pessoa. Se o primeiro método pode
ser qualificado de p re-m ortem , este atuapost-m ortem .
Há, enfim, um quarto acompanhamento, que está longe de
ser inútil: o que é feito pela família ou por amigos daquele que
vai morrer ou que já está morrendo.
Voltemos agora à primeira forma. Elisabeth Kübler-Ross foi
quem conseguiu, pela primeira vez, formular em termos de

psicologia as fases de consciência que a pessoa desenvolve, via
de regra, quando fica sabendo ou pressente que está
condenada.
Que é que normalmente acontece ao descobrirmos que uma
pessoa, atingida por uma doença grave, vai nos deixar? Todo
mundo se revolta. A família, os amigos e, obviamente e com
mais forte razão, o próprio interessado. Mas antes dessa revolta
mais ou menos óbvia, há uma reação geral de estupefação e
embotamento. "Ele (ou e la ) ... morrer, com o é possível? Era tão
sorridente e tão forte!" “Se ele (ou ela) morrer, então a m orte vai
faz er uma irrupção em minha vida, o que é im pensável e sinônim o
de desm oronam ento de todo um m undo". Essa fase importante
chama-se de?iegação. A pessoa não admite a possibilidade da
morte. A morte parece-lhe enorme demais, totalmente em
contradição com tudo aquilo que a pessoa foi até então. O
inconsciente nega a morte; ele está programado para a vida.
Sua inteligência dedutiva recebeu a missão de assegurar, custe
o que custar, a sobrevivência do indivíduo.
O Dr. Freud pôs em evidência, desde o começo do século
20, a incompatibilidade entre a morte e o inconsciente.
Deduziu, então, muito precipitadamente, que os sonhos nos
quais uma pessoa aflita vê seu próprio cadáver não passam de
uma brincadeira do inconsciente, significando, assim, sua
negação e sua incompreensão do fenômeno “morte . De fato,
todos nós acreditamos que somos imortais, e vivemos como se
isso fosse fato evidente.
A denegação pode assumir formas totalmente diferentes.
Uma pessoa atacada de uma doença incurável repete
incessantemente: “Mas o que éq u e está acontecendo com igo, logo

eu, que Jiunca fiq u ei d oen te?”. Uma outra se recusa a ouvir a
verdade sobre seu estado. Embora não caiba a todo mundo
tornar-se psicólogo encarregado de desenredar situações como
essas, o fato é que ter uma compreensão do que está em vias
de acontecer pode ajudar a pessoa a viver esses acontecimentos.
A morte é para todos, agonizante e familiares, uma espécie de
iniciação. Cada um sai dela mais ou menos duradouramente
transformado. Compreender ou conhecer as diferentes fases
dessa iniciação contribui para atenuar suas etapas de crise, e
até mesmo triunfar sobre elas. Seria prejudicial deixar
totalmente a cargo dos especialistas a questão da morte e do
acompanhamento. O conjunto da sociedade deve se sentir
implicado ou envolvido, sob pena de estagnar num estágio
infantil de desenvolvimento espiritual.
O segundo estágio que sucede a denegação manifesta-se
numa reação de cólera. E o período em que se questiona Deus.
"Por que eu e não os outros? Por que ju sto a gora ?... ” A revolta
aumenta e cada um acaba levando sua parte. "Esses m édicos
que são incapazes d e m e cu ra r.. . ", a família que decididamente
não consegue entender nada da gravidade da situação, os
padres e todas as crenças inúteis que de nada servem quando
se tem de dar o primeiro passo rumo ao desconhecido, esses
filhos que tomam uma atitude compassiva e escondem a
verdade, quando, na maioria das vezes, o doente sabe
perfeitamente onde é que ele está...
E a recusa. “Não, eu não quero morrer, nem m e fa lem disso”.
O próprio Deus pode ser incriminado e uma certa agressividade
em relação à sociedade dos saudáveis vem na seqüência. Na
verdade, cada indivíduo reage nessa hora com sua psicologia e
sua história particular. Alguns não se revoltam, enquanto outros

permanecem definitivamente nesse estágio de recusa crispada
que torna os mortos hediondos. Entretanto, a maioria dos seres
possui em si os recursos para superar esse estágio. Segundo as
próprias palavras de alguns agonizantes, a morte não precisaria
ser assim tão terrível. É a recusa que gera a dor para todos
(acompanhantes e doente).
Enfermeiras conseguiram recolher as ultimas palavras de
pessoas que partiram e que se exprimiram no instante do
último suspiro. Dizem elas: “É bem com o contam : a luz, a
música, o am or e tudo o mais. E m aravilhoso! .
B. perdeu sua mãe no hospital. Alguns anos antes, seu irmão
mais velho morrera num acidente. Quando a mãe de B. deu o
seu último suspiro, uma enfermeira estava presente e relatou o
que viu acontecer com essa senhora. Nos últimos instantes, a
velha senhora estava sentada, os olhos voltados numa direção
específica do quarto onde se achava, como se estivesse vendo
alguém. Depois, pronunciou as seguintes palavras: “E você,
L uc... (Luc era o nome de seu primeiro filho, coisa que a
enfermeira não sabia) Você veio m e buscar, que b o m ”. Em
seguida, o corpo da velha senhora tombou, para não mais se
levantar.
O Dr. Osis, psicólogo, intrigado com essas cenas repetidas
de pessoas que, no momento da passagem, comportam-se
como se alguém tivesse ido buscá-las, tentou saber se tratavase de alucinações, de projeções de desejos mais ou menos
conscientes, de alteração da consciência ou outros sinais devidos
a um cérebro deficiente. Sem rodeios, armado de seus testes,
seus interrogatórios e sua técnica de psicologo, concluiu que
não se trata de nada disso. Por alguns detalhes, ele pôde

descartar a explicação alucinatória. Pelo exemplo, pelo fato de
uma alucinação ser sempre o reflexo de um conflito ou um
desejo latente, que ela vem então preencher. As visões de
personagens, à aproximação da morte, não têm nada a ver com
esse tipo de desejo, porque parecem animadas de certa
autonomia independente do visionário. Para ele, tudo se passa
como se essas pessoas conversassem realmente com uma
personalidade invisível aos olhos dos demais. As investigações
foram realizadas entre pessoas de culturas diferentes. Se é
difícil concluir de modo definitivo, de um ponto de vista
científico, pela veracidade do fenômeno, o fato é que essa
mesma ciência continua incapaz de explicá-lo. Para nós, parece,
contudo, que algumas portas da percepção se abrem no
momento da morte.
A História relata o falecimento de Jacob Boehme, filósofo
do século 17. No meio da noite, Boehme chamou seu filho
Tobias e perguntou se ele estava ouvindo aquela música
magnífica que enchia a casa. A despeito de seu filho ter
respondido negativamente, ele pediu-lhe para abrir todas as
portas, a fim de poder ouvir melhor os cantos harmoniosos.
Terminou dando seu adeus à sua família, pronunciando estas
palavras: “E agora, vou ao p a r a í s o Depois, fechou os olhos
para sempre.
O terceiro estágio que todo acompanhante (ou sim­
plesmente todo ser de compaixão) deve conhecer corresponde
a uma espécie de negociação. O indivíduo exauriu sua cólera e
começa a admitir o inevitável. Então, um tipo de jogo
inconsciente começa a ser jogado. A pessoa pode, por exemplo,
tentar fazer um trato com seu médico. Certa mulher disse que
seu filho iria se casar dentro de alguns meses. Então, perguntou

ao seu médico se ele não poderia ajudá-la a agüentar até lá,
graças às suas drogas e remédios. Constatando o desejo e os
olhos brilhantes da senhora, o médico aceitou. A ciência
fornecia-lhe os meios e a vontade da paciente parecia forjada
em aço. Ela ganharia alguns meses... ao preço do sofrimento.
Mas no dia do casamento, lá estava ela, de pé, para abraçar sua
nora. Alguns dias depois, foi procurar seu médico e agradeceu
a ele, mas o jogo recomeçou. Seu segundo filho estava a um
passo de se casar também. Mas a velha senhora, no fim de suas
forças, já não tinha tempo de esperar até lá... A conclusão
desse acontecimento real é que o ser humano, confrontado
com a morte, pode ganhar algum tempo, se quiser. Ele pode
jogar por algum tempo uma espécie de pôquer, mas a aposta
será paga em termos de sofrimento. De maneira diferente, ele
mesmo pode organizar sua partida, depois de pôr tudo em
ordem.
Uma mulher esquimó sentiu a proximidade de sua morte.
Assim, convocou, para determinada data, um amigo seu, um
padre que ela adorava. No dia fixado, pediu ao seu amigo para
que fosse buscar um de seus filhos, de modo a que ele estivesse
presente na hora de sua partida. Seus desejos cumpridos, ela
morreu em seis horas, depois de ter assistido a uma cerimonia
religiosa. Essa mulher queria decididamente rever seu filho
antes de partir, o qual ela não via há muitos anos.
Um homem doente estava convicto de que, aos olhos de
sua esposa, ele era um fracassado e que sua própria morte
representaria, para ela, seu último disparate. Nos dois casos,
foi preciso que os acompanhantes encontrassem, no primeiro
caso, o filho para convidá-lo a ir ver sua mãe, e, no segundo, a
esposa para exortá-la a explicar ao seu marido o quanto ela o

amava. Enquanto o desejo do agonizante, muitas vezes
inconsciente, não for atendido, não haverá separação ou, então,
depois de uma forte negociação implícita, essa separação poderá
ser dolorosa. O papel de qualquer pessoa que queira ajudar
consiste em compreender e resolver a situação, o que requer
muito tato e não é tão fácil.

papéis (e não o menor) do testamento que a pessoa redigia
consistia em ajudar a pôr seus assuntos em ordem e permitir
que ela sentisse que seu papel na terra estava cumprido. Podia,
então, partir em paz. Pedir a um condenado à morte que
expresse seu último desejo, oferecendo-lhe um último cigarro,
é uma cena caricatural que esconde princípios mais profundos.

A negociação pode assumir formas muito sutis. Um doente
toma seus remédios escrupulosamente, nos horários deter­
minados, com gestos quase maníacos, como se fosse uma questão
de conjurar a sorte através desse ritual. Um outro sente que lhe
falta fazer alguma coisa em sua vida ou que precisa resolver um
conflito familiar. Para partir em paz, o ideal não está nessa ou
naquela crença religiosa. O problema é sempre muito mais
profundo que uma simples cultura superficial. Já se pôde ver
padres, que falaram do Reino de Deus a vida toda, ficarem
paralisados de angústia e completamente desarmados no
momento de passar para o outro lado do espelho. A experiência
cotidiana dos acompanhantes mostra que os que têm o
sentimento de terem vivido bem sua vida aqui na terra passam
pelo evento mais facilmente e em paz. Tudo se desenrola como
se cada pessoa houvesse recebido uma missão de vida e como se
o sentimento de missão cumprida fosse o melhor passaporte para
o além. Ante o umbral ou com uma idade avançada, as pessoas
em geral tendem a analisar seu passado. Antes da hora, fazem
uma espécie de balanço inconsciente. Portanto, é bom, ante o
limiar, ajudar uma pessoa convidando-a a falar de sua vida e dos
atos praticados, e valorizar suas atividades.

Um velho lenhador não queria morrer. De fato, ele levou
seis meses para compreender que o inevitável estava chegando
para ele. Na véspera de sua morte, aconteceu uma coisa que
mostrou à sua família que ele a havia finalmente admitido. Essa
aceitação, com certeza, ajudou-o a fazer sua transmutação. O
indício foi muito simples: o velho lenhador indicou um nome,
o da pessoa a quem ele legara suas madeiras e os terrenos que
ele explorava, e que ele tanto adorava.

O outro aspecto do período de negociação consiste em que
a pessoa, antes de admitir a idéia da passagem, sinta-se em paz
consigo mesma, os outros e o mundo. No século 17, um dos

Outra forma de negociação implica os familiares. Ante o
umbral, a pessoa muitas vezes tende a ficar inquieta quanto ao
futuro de seus descendentes. Alguns filhos, alias, não hesitam
em dizer: “Não quero que v o cê morra; sem você, não vou saber
v iv e r ’. Sem uma aceitação de fachada por parte da família, o
trabalho não é facilitado. Um homem, que perdera sua filha
de quinze anos por causa de uma doença incurável, contou
que, até o fim, os parentes haviam mantido a menina na
ignorância do desenlace fatal de sua doença. Esse pai contou
que, até o último momento, sua filha parecia feliz. Nem por
um instante, ele considerou que sua filha podia perfeitamente
conhecer seu real estado e que ela pudesse ter fingido felicidade
para evitar que sua família sofresse. Aqui, não se sabe mais
quem negocia com quem. A mais dramatica situação, difícil
de resolver, é aquela em que um filho deficiente vai ser deixado.
A paz fica difícil de ser obtida, na medida em que o agonizante
angustia-se com o destino do filho.

Você descobre que a negociação pode levar a retardar a
data de uma partida. A situação inversa existe igualmente.
De fato, num casal, não é raro assistir à partida de um, depois
de o outro já ter feito o mesmo alguns meses antes. O livre arbítrio existe igualmente nesse sentido. Como bem disse
Jacques Brel em sua música “Os Velhos”, quando um dos dois
se vai, o mundo pode se tornar o inferno para o outro, com o
sentimento de que não resta mais nada que valha a pena ser
feito nesta terra.
Outra forma de comportamento que se poderia associar à
negociação é aquela em que as forças de vida tentam ficar por
cima mais uma vez. Uma mulher vai, então, quererse perfumar,
se maquiar, se fazer bela e atraente; um homem vai aplicar,
uma última vez, seus talentos de sedução sobre as enfermeiras.
Aqui se pode realmente falar do elo que une Eros e Tanatos.
As pessoas ao redor às vezes percebem e compreendem o jogo,
às vezes não; reminiscência do velho medo de ser devorado
pela morte. Foi esse o caso de um jovem pastor, relatado por
Louis Vincent Thomas. Diante de uma jovem mulher
totalmente cheia de metástases, esse homem de Deus falavalhe, à sangue frio, de imortalidade. Então, ela o interrompeu,
para dizer-lhe que o amava. Assustado, o pastor fugiu.
O quarto estágio corresponde a uma depressão. Passadas a
revolta e a negociação, o agonizante sente uma imensa solidão.
E então que todo calor dos que o cercam deve intervir e, em
todos os casos, é aí que a arte de quem cuida requer o máximo
de delicadeza. A pessoa, sobretudo nos casos de câncer, está
em conflito com seu próprio corpo. A imagem que ela conserva
de si mesma está desvalorizada. Um simples carinho pode
contribuir para reconciliá-la com seu corpo geralmente

emaciado, o qual, com o passar do tempo, tornou-se pesado
de suportar. Algumas palavras de valorização para quem não
se aceita mais podem restituir-lhe a confiança.
Durante esse período, percebe-se o quanto o silêncio é
valioso. Às vezes, algumas pessoas dizem que gostariam de
ajudar, mas, segundo elas, não se sentem capazes porque não
saberiam encontrar as palavras certas para expressar o consolo.
Mas quem disse que é preciso falar? Vivemos numa civilização
de ação, de ruídos, de agitação. Temos de ser barulhentos para
nos sentirmos vivos. Não dizer nada representa muito
freqüentemente um incômodo. Assim, temos medo do olhar
do outro não expresso em palavras. No entanto, em harmonia
consigo mesmo, basta simplesmente que a pessoa se cale, para
ser mais intensamente e tornar tudo mais simples.
As relações com aqueles que estão chegando às portas da
morte são geralmente mais despojadas. Muitas vezes é só uma
questão de dizer: “Estou aqui com v o cê. M esmo que eu não diga
nada, viverem os ju n tos esses momentos. Podemos conversar, se você
quiser, senão, vam os usufruir em silên cio a presença um do outro,
pois é um grande prazer estar com v o c ê ... ” Aqui, naturalmente,
é preciso vencer suas próprias angústias e pensar primeiro e
sobretudo no outro.
O quinto estágio por que passa o agonizante, quando sua
psicologia e seu ambiente o permitem, corresponde à aceitação
do inevitável. Para alguns deles, a aceitação pode até mesmo
tomar a forma da paz interior de quem compreendeu o que
está em jogo. Nesse estágio, muitas vezes acontece de assistirse a uma relativa melhora no nível
da energia da pessoa. Trata✓
se da última comoção de vida. E como se a natureza, em sua

imensa sabedoria, houvesse previsto essa comoção, pois,
segundo os próprios médicos, é preciso energia para poder
morrer. Algum as vezes, os médicos chegam mesmo a
administrar um tonico fortificante para que a pessoa possa
partir nas melhores condições.
Nem todo mundo consegue perfazer esses cinco estágios.
Alguns permanecem centrados no primeiro, o da denegação;
outros chegam até o da negociação. Às vezes, a ordem dos
estágios pode ser mudada ou o ciclo pode se repetir. Uma paz
relativa se instala, mas depois, de repente, ocorre um brusco
retorno da raiva. Nada é absolutamente previsível nesse campo,
principalmente porque as pessoas à volta interferem fortemente
através de sua relação com o agonizante. A própria família
enfrenta as cinco passagens, especialmente quando se vê
confrontada com seus próprios problemas, no caso de uma
longa agonia. As situações conflituosas que opõem o doente
aos membros de sua fam ília também têm um papel a
desempenharem sua possível aceitação ou recusa. Um parente
pode se recusar a aceitar a idéia da partida do outro e, assim,
complicar as modalidades. O agonizante sofre ao ver os outros
sofrendo. O acompanhante, ou simplesmente o amigo, tem
uma função a cumprir aqui, tentando obter pelo menos uma
aceitação de fachada por parte da família.
Os problemas de herança não ajudam as coisas e podem
contribuir para uma negociação plenamente legítima... Na
verdade, há uma multidão de casos diferentes, cabendo ao olhar
observador perceber e compreender com a sensibilidade do
coração. Não pode haver dogmas em matéria de acom­
panhamento, como, aliás, em nenhuma outra relação humana
realmente autêntica.

A essa altura, poderíamos tentar responder a pergunta
tantas vezes feita: deve-se dizer a verdade ao doente? De fato,
quem não conhece ou não quer conhecer o desfecho lógico
de seu estado ficará preso ao estágio da denegação ou ao da
raiva. Será que se deve, então, impor-lhe a realidade de sua
morte próxima ou, ao contrário, como se fazia antigamente,
pôr-se no lugar dele e mante-lo na ignorancia? Afinal, como
se costuma acreditar, guardar silêncio evitaria ao doente o
sofrimento proporcionado pela consciência lúcida do
desfecho fatal. Os partidários da verdade sem disfarces se
insurgem contra essa atitude que retira toda dignidade ao
doente e que sobretudo veta-lhe a oportunidade de ter em
seus últimos momentos a chance de um desenvolvimento
importante em sua personalidade. A lucidez versus um
procedimento que se diz misericordioso... qual se deve
escolher?
A esse dilema aparente, os concidadãos franceses já
responderam, em forte maioria, que preferem ouvir a verdade,
custe o que custar. Quando interrogados, respondem que
preferem saber, a fim de poderem viver esses dias claramente,
desenganados. Para eles, trata-se de uma questão de dignidade.
Sentir-se humano e informado, e não apenas paciente, eis o
que exige a maioria das pessoas hoje.
Podemos acrescentar que, uma vez atingido determinado
grau de certeza quanto ao desfecho de uma doença, manter a
pessoa na ignorância pode ser prejudicial pára ela. Afirmar,
contra toda expectativa, que: “Você vai sair dessa, os m édicos
ainda têm algum as cartas na manga \ é o mesmo que alimentar
na pessoa uma negociação inconsciente que poderia perdurar.
Na verdade, a maioria das pessoas sente por si mesma o que

está acontecendo, as crianças igualmente ou até mais que os
adultos. O sentimento de que se vai morrer pode ser intuitivo
ou ser revelado através de sonhos. O fato de não se ousar dizer
a verdade, de agir “como se”, enquanto o interessado sabe muito
bem o que está havendo, cultiva um erro coletivo. O doente
pode, da mesma forma, sofrer com o silêncio reinante,
perturbado apenas por olhares que dizem muito. A sua própria
necessidade de transmutação, eis que ele tem de somar o
sentimento de perder toda dignidade, porque os outros sabem
aquilo que tentam esconder dele próprio. Então, todo mundo
se põe a disfarçar, a começar pelo próprio doente: “Olhem,
hoje estou bem m elh or... estou m uito fe liz ”. Ele não quer que
ninguém sofra à sua volta. Bando de tolos, quando a urgência
da hora exigiria que se ousasse encará-la de frente. Frente à
frente com a morte, a vida adquire toda sua relevância, toda
sua intensidade.
Mas será que é preciso, como afirmam os partidários mais
firmes, dizer absolutamente a verdade, mesmo que o outro se
recuse a ouvi-la e diga isto em alto e bom tom?
Mareei, engenheiro de telecomunicações, foi acometido de
um câncer. Ele se arrastou durante meses, violentamente
agredido por seu mal. Um dia, seu médico o auscultou e, de
repente, disse-lhe a verdade nua e crua: ele atingira agora a
fase terminal da afecção; a ciência não podia fazer mais nada
por ele. Dentro de alguns meses, estaria morto. Dois dias depois
desse anúncio, a enfermeira de plantão encontrou Mareei em
seu leito, morto. A polícia concluiu que fora suicídio. Mareei
não queria ouvir a verdade. Sua estrutura psicológica
provavelmente não lhe permitia assumi-la; ele preferiu encurtar
sua estada no mundo.

O caso desse engenheiro é raro. Entretanto, sem chegar a
cometer o ato irreparável, algumas pessoas caem em depressão
profunda, o que é preferível evitar. Não é bom dizer toda a
verdade de uma só vez, em geral basta simplesmente proceder
por meio de sugestões e questionamentos sutis. “E então, com o
ficaram seus problem as de saúde, os m édicos lhe explicaram tudo?
Já pediu para eles lhe darem o progn óstico? Alguma vez v o cê já
pensou na m o rte? ... ”
Questionar um doente sobre sua atitude face a morte
proporcionará, a partir de suas respostas, informações acerca
do diálogo que se deve ter com ele sobre seu real estado. Em
80% dos casos, a verdade será amplamente preferida; em 20%,
será melhor ser prudente e deixar que se desenvolva e
amadureça o que tiver de ser. Nesta, como em muitas outras
áreas, as posições extremas são sempre perigosas. Está claro,
segundo o que afirma a maioria dos interessados, que a
preferência pende para o lado da verdade ou, pelo menos, da
informação com a máxima transparência possível.
Acompanhar também não é ir contra as convicções das
pessoas, nem mesmo pensar em convencê-las. Consiste
simplesmente (e já é muito) em trilhar uma parte do caminho
com eles, dando-lhes, se possível, uma qualidade de contato,
de calor, até mesmo de cumplicidade. As flores desabrocham
graças ao calor do sol, as almas evoluem graças ao calor de seus
semelhantes. A primeira virtude a se desenvolver aqui é a
capacidade de ouvir... sem fazer comentários.
Vale ressaltar aqui que, no quadro dos trabalhos desen­
volvidos na Universidade Rosacruz Internacional, associada a
esse movimento de espiritualidade profunda que é a Ordem

Rosacruz, AMORC, as cinco fases precedentes correspondem
a uma espécie de iniciação. Mvalimu Imara escreveu: "O ato de
m orrer é a últim a etapa do crescim en to”. Trata-se, assim, de
lembrar que, diante da morte, defrontamo-nos também com
uma escolha. Podemos, como na Idade Média, considerá-la
uma oportunidade de coroar uma vida inteira e, desta maneira,
dar-lhe um sentido por meio de um ato consciente do instante
vivido. Podemos, ao contrário, sofrer a situação ou até mesmo
fugir. Confrontadas com a AIDS e o prazo derradeiro que
despontava no horizonte, algumas pessoas conseguiram, em
alguns meses, realizar um processo de desenvolvimento interior
infinitamente superior a tudo que haviam vivido ao longo de
todos os anos anteriores.
Mais precisamente ainda, os cinco estágios, que são
compostos de denegação, raiva, negociação, depressão e
aceitação, correspondem a um processo de despojamento
progressivo da pessoa. A denegação e a raiva, por exemplo,
refletem a reação de um ego terreno que não quer deixar de
ser. Como meio humano de desenvolvimento e distinção, ele
também tem seus reflexos de sobrevivência. Assim como o corpo
desenvolve reações de salvaguarda, o eu, diante da perspectiva
de seu desaparecimento ou de sua transmutação provisória,
pinoteia. Primeiro, ele age como se fosse eterno, depois se
revolta, negocia e, por fim, se deprecia. O que é válido no plano
físico das células tem sua contraparte no campo psicológico.
A aceitação final traduz a profunda compreensão do
indivíduo do fato de que ele não representa somente um ego
provisório. O ser humano é um algo mais que muitos
agonizantes devem perceber confusamente, mesmo que isto
seja incompreensível para o intelecto. É por essa razão que a
morte pode representar um tipo de iniciação.

A velha arte da alquimia mostra bem, em sua linguagem
singular, esse processo de despojamento e de crescimento
contínuo. A obra em negro ou nigredo está associada à morte
ou noite saturnina. Nela, a matéria-prima sofre uma putrefação
e uma calcinação, em preludio a sua transformação em um
estado superior. Claro que, neste caso, a matéria-prima é a
própria alma que, confrontada com seu futuro, vai sofrer uma
transmutação sem precedente. Seguramente, não foi à toa que
C. G. Jung viu nos símbolos alquímicos uma representação
daquilo a que ele chamou processo de individuação.
O título deste capítulo é "Oacompanhamento de agonizantes’.
No entanto, poderíamos nos perguntar se intervir nos últimos
meses de vida é suficiente. A essa pergunta, a maioria das
organizações tradicionais e espirituais já responderam,
explicando que a preparação para o bem morrer deve começar
quando o indivíduo é jovem e saudável.
Nossa civilização positivista excluiu do campo da ação diária
toda reflexão sobre a morte. Qualquer um que se dedicasse a
uma meditação diá,ria sobre o assunto seria suspeito de ter mente
mórbida e malsã. Agimos como se a vida e a morte fossem
irreconciliáveis, ao passo que a mínima análise superficial
demonstra que uma se nutre da outra, até mesmo que uma
tem sua fonte viva na outra. E possível pensar, por exemplo,
no desenvolvimento do corpo, fazendo-se abstração do
metabolismo que assiste a contínua troca das células gastas por
novas?
A menos que se comporte como uma inteligência artificial,
estritamente dedutiva e que nunca se pergunta sobre os motivos
de seus atos, o ser humano sente necessidade de uma analise

indutiva que o leve às causas e razões primeiras de sua
existencia. As perguntas: “Qual é minha o rigem ? ” e “Q ualserá
m eu fim ? " fazem parte das interrogações fundamentais sem
as quais o ser humano se perde no ativismo e na agitação
estéreis. Ao se familiarizar com a idéia de sua morte, ele acha
seu lugar dentro do universo imenso. Ele pesa o valor de suas
realizações e de seus problemas, dos quais grande parte resulta
de seus estados de consciência. O nascimento e o desen­
volvimento, associados à morte, podem servir de semente ou
de referência, permitindo relativizar tanto as dificuldades como
as glórias em meio às quais evoluímos. Mas há mais. Acostumarse a considerar que cada dia pode ser o último familiariza o eu
com a idéia de sua futura viagem. Isso contribui para manter,
sem dramatizações, uma reflexão sobre a ontologia, a ciência
do ser e seu devenir. Não apenas não se trata mais de um
processo mórbido, mas, como explica o professor Louis
Vincent Thomas: “E absolutam ente correto dizer que se amamos
a vida mas não am am os a morte, éporq u e não am am os realm ente
a vid a ”.
O interesse de uma concentração na morte encerra, na
verdade, um paradoxo raramente reconhecido: isto traz alívio,
sabor e alegria verdadeira à vida. Meditando regularmente sobre
sua própria morte, o indivíduo se despoja progressivamente
dos aspectos mais agressivos do ego. Ele enceta, bem cedo, um
processo de desapego. Mircea Elíade relata que, no xamanismo
esquimó, existe um tipo de iniciação pela qual o aprendiz,
instruído pelo mestre, passa horas e horas em solidão. Depois,
deve passar pela experiência da morte e da ressurreição místicas.
Ele cai “morto” e permanece inanimado por três dias e três
noites, durante os quais é devorado por um enorme urso
branco. “Então”, diz-lhe o mestre, “o urso devorará toda sua

ca m e e o transformará num esqueleto, e v o cê morrerá. Mas reaverá
sua carne, despertará e suas vestes voarão até v o c ê ”. O aprendiz
xamã penetra assim nos mistérios de sua própria morte e essa
tomada de consciência fará dele o intermediário privilegiado
entre os homens e as forças invisíveis da Criação.
Também em nossos países ocidentais, certa familiaridade
com a morte era aconselhada antigamente. O pregador jesuíta
Bourdaloue escreveu, no século 17: “A lguma vez fizestes sobre
ela, cristãos, não digo toda a reflexão necessária, mas algum a
reflexão? Agora mesmo, em que vos fa lo da m orte, pensais na
m orte ou pensais bem dela? Pensais nela atentam ente? Pensais
cristãm ente? Pensais eficazm ente? Mas se não pensais nela, em
que pensais? E se não pensais nela presentemente, quando pensareis
ou quem haverá de pensar p or vós? Feliz daquele que não espera
para pensar nela quando não hou ver mais tem po de fa z e-lo ; feliz
daquele que nela pensa em vida! É assim que a morte, castigo do
pecado, será para nós o remédio. Ela entrou no m undo p elo pecado;
mas se a considerarm os com o os santos, ela nos fa rá entrar, com o
eles, pela graça, na eternidade venturosa que desejo para vós... ”
Até agora, abordamos o tema do acompanhamento antes
da morte. Esse assunto é habitualmente tratado pela psicologia
e pela medicina modernas, eventualmente pela filosofia. Em
seguida à morte de uma pessoa, existe igualmente uma
possibilidade de acompanhamento ou de ajuda espiritual, feito
pelas civilizações tradicionais e, sob forma intemporal, pelas
ordens esotéricas.
O objetivo de determinadas cerimônias, como entre os dogões
da África, é convidar a alma do morto a se elevar e deixar este
mundo. Os cantos, as danças e os ritos criam condições

favoráveis a essa elevação. O ambiente dessas práticas se
exprime no efeito que produzem tanto no falecido como nos
vivos. Nesse sentido, elas favorecem o processo de luto da
fam ília através do estabelecimento, por algum tempo, de uma
relação simbólica (e, em alguns casos, real) entre os dois
mundos.
No Tibete, para acompanhar o processo, o lama lê ao ouvido
do morto o texto do Bardo Thõdol. Quando não é possível
fazer a leitura na presença do corpo, ele toma o lugar do corpo
da pessoa e continua seu trabalho espiritual. No islã, os fiéis
lembram ao morto os principais artigos de sua fé, que ele tem
de conhecer para responder a um exame post-m ortem . Uma
história relata que, na morte do Negus da Etiópia, seu amigo, o
profeta Maomé, fez uma prece pela paz de sua alma. Por causa
da distância que separava a Arábia da Etiópia, essa prece foi
repetida durante vários dias após o falecimento do Negus. Essa
prática de preces e invocações pela paz dos que partem possui
caráter quase universal.
Antigamente, os cristãos mandavam rezar missas durante
quarenta dias e, depois, uma um ano após o falecimento. De
fato, na medida em que a alma da pessoa fica presente de três
a sete dias nos locais onde viveu, os vivos podem favorecer sua
partida graças à sua atitude mental. E óbvio, porém, que uma
pessoa totalmente deprimida no momento da morte de um
ente próximo fica impossibilitada de ajudá-lo, mesmo que
desejasse faze-lo. O sofrimento extremo pode vir da
incapacidade de suportar a ausência ou do ceticismo em relação
à imortalidade. A pessoa que, no mais íntimo de seu ser, não
tem absoluta convicção da imortalidade da alma não pode
pretender auxiliar ninguém, num plano em cuja existência ela

não acredita. De maneira ligeiramente diferente, a pessoa que
sofre pela ausência do morto tende a retê-lo, em vez de ajudálo. Os ritos e as atitudes externas não fazem nada. Só a intenção
secreta conta. E mbora o lu to seja um a realidade inevitável, a
melhor atitude poderia ser expressa em poucas palavras, assim:
“Vá para onde d eve ir, pen etre na luz e na paz, você, que rom peu
os vínculos com este m undo".
Até hoje em algumas regiões, como era costume antigamente,
faz-se o velório do morto, cujo objetivo, às vezes mal
compreendido, consiste em criar em torno da pessoa um
ambiente harmonioso e enviar-lhe pensamentos de amor e
encorajamento. Em todo caso, longe de ser uma prática
mórbida, o velório deve servir a esse propósito. Segundo as
culturas, ele pode ser acompanhado de cantos e salmos, cujos
efeito s calm a n tes sob re as consciências são bem conhecidos.
Via de regra, uma vela é mantida acesa por um ou dois dias (o
tempo que durar o velório). Durante esse período, entre alguns
camponeses, o costume antigo requer que todos os pêndulos
dos relógios da casa sejam parados e os espelhos, cobertos; que
um ramo de alecrim seja colocado na sala do velório e uma
jarra de água, junto ao leito.
Cada um desses sinais altam ente significativos foi
interpretado de diversas maneiras. As superstições explicam
que os espelhos são cobertos para que a alma do morto não
fique angustiada por não ver sua imagem refletida. O recipiente
com água permitiria que a alma se lave antes de partir. A
suspensão do tempo é simbolizada pela parada dos relógios.
Um tempo que não tem mais nenhuma razão de ser no além,
reino do eterno presente. O espelho coberto representa a
transição da autoconsciência para um outro estado. A água

manifesta a idéia da purificação da alma na ocasião da morte, e
a vela, sua imortalidade. As flores que também são colocadas
na sala mostram o futuro florescimento da alm a, sua
imortalidade e sua regeneração, ou seu retorno cíclico a este
mundo. Seu perfume se espalha no ambiente como a alma em
sua onipresença. Seu murchar lembra a impermanencia de
todas as coisas neste mundo.
Resta, enfim, apresentar uma última forma de acom­
panhamento, mais místico, que transcende toda manifestação
externa. Consiste em utilizar o poder criador do pensamento,
de acordo com técnicas de meditação. É também possível emitir
forças reconfortantes ao morto. Mas aqui poderíamos fazer a
seguinte pergunta: é sempre possível ajudá-lo desta forma? Se
representamos o mundo como uma hierarquia que tem sua
fonte no centro do Divino e que forma diversos planos até
chegar ao plano terreno, é simples compreender intuitivamente
que os antepassados fiquem simbolicamente em alguma parte
entre o ser humano e Deus. Se, para eles, o período “crítico”
situa-se nos primeiros dias após a morte, em seguida eles
devem passar a uma condição que ultrapassa as limitações
terrenas.
Ao longo desse primeiro período, feito de claro-escuro, a
família terrena pode contribuir para a elevação dessa alma em
devenir, porque ela está então participando simultaneamente
dos dois mundos. Uma vez passada essa fronteira, podemos
considerar que o inferior não pode mais ajudar o superior, ao
passo que o contrário poderia acontecer. Disso decorre,
naturalmente, que o acompanhamento após a morte só tem
razão de ser durante os três ou sete dias que se seguem ao
último suspiro.

(9 âito
“Ele (ou ela) partiu para sempre, não posso mais m e com unicar
nem rir com ele {ou com ela) com o antes. .. Ele (ou ela) não pode
mais m e consolar ou p reen ch er em m im uma insatisfação. Sua
presença deixou de ser, é com o se todo um m undo desm oronasse...
Procuro minha respiração, ele (ou ela) deixou com o que um grande
vazio em mim, o vazio do am or insaciado. Ele (ou ela) podia ser
o am igo (ou a amiga), o pai (ou a mãe), o esposo (ou a esposa), o
filh o (ou a filha). Ouem quer ele (ou ela) fosse, a cum plicidade,
o laço afetivo, consciente ou não, parece rom pido p or essa partida.
Terei de m e habituar à nova situação, reconstruir um m undo sem
sua presença patente, apesar de que ele (ou ela) form asse boa parte
de m eu próprio m undo interior. ”
A esse período de desordem interior, de habituação e de
readaptação à vida, que tem de continuar apesar de tudo,
chamamos luto, do latim luctu, que significa dor ou aflição
pela morte de alguém. Os povos da terra o expressam de formas
aparentemente muito diferentes, até radicalmente diferentes.
Mas, antes de mais nada, num livro decididamente vinculado
à espiritualidade, convém explicar uma coisa fundamental. Se
consideramos o ser humano segundo sua dupla natureza,
exterior e interior, percebemos que o luto é coisa unicamente
da primeira. Quem sente uma carência relativa à separação?
Quem não pode mais se comunicar? Quem, enfim, está, por
sua vez, sujeito à morte e à transformação? O ser exterior, físico,
material, é claro! Limitado às percepções dos cinco sentidos,
ele não consegue conceber outras formas de existência. Privado

da direção da dimensão espiritual, a morte representa para ele
um desastre irrem ediável, uma catástrofe cósmica. O
desaparecimento do outro não manifesta apenas o fim de urna
relação afetiva, mas aponta-lhe sua própria partida da terra. E
de espantar, então,yque algumas manifestações de sofrimento
,t
sejam histéricas? E a não aceitação que gera o sofrimento, a
oposição rígida de um eu exterior exclusivamente entregue a si
mesmo.
O ser interior, por sua vez, não teme a morte. Evoluindo
perpetuamente no coração da luz eterna, ele está sempre em
contato com a Realidade Suprema. Nada de ausencia de
comunicação para quem está a todo instante em comunhão
com todas as criaturas visíveis e invisíveis. Nada de carencia
afetiva numa esfera em que o Amor Divino abarca e transcende
todo amor das criaturas. Em suma, o problema do luto
definitivamente não se aplica aos dominios do eu interior. Disso
decorre que o iniciado saberá elevar-se sobre o sofrimento do
luto, mesmo estando ainda ligado e relativamente sujeito ao
processo psicológico do ser físico.
Numa formulação totalm ente diferente, mas cujas
conclusões convergem, o professor Sigmund Freud mostrou
que o inconsciente desconhece a morte. Nos sonhos, ele faz
o morto aparecer, para a pessoa em luto, rejuvenescido e com
roupa de festa, como quem diz: “Veja só, ele está bem vivo,
jo v em e con ten te. Para m im , o inconsciente, a m orte não existe,
os m ortos guardam sua eternidade em m im ”. Um homem disse
o seguinte sobre o período posterior à morte de seu pai: “Nos
anos segu intes à sua m orte, tive m uitos sonhos com m eu pai.
Ele saía de seu túm ulo, usando suas roupas costum eiras, chegava
em casa e eu fica v a m uito fe liz d e revê-lo. Ele dizia: “Ah, com o

tive m ed o !”, e eu espanava a terra que havia fica d o sobre seus
o m b r o s " . Se comparamos essas inform ações com as
declarações de C. G. Jung, outro grande psicólogo que
explicou que o inconsciente é o reino dos mortos, então
podemos ter certeza de que o ser interior concebe tãosomente a eternidade.

O luto do ser físico
Se não se pode realmente falar do luto no que concerne a
dimensão espiritual do ser humano, este capítulo não tem,
então, nenhuma razão de ser. Isso, se não fosse o fato de ser
necessário (até vital, em alguns casos) compreender o processo
de luto pelo qual deve passar o homem físico.
Possuímos hoje certa soma de conhecimentos em matéria
de psicologia, os quais levam a crer que o luto seja um processo
necessário ao equilíbrio da pessoa que sofreu uma perda. A
sabedoria popular não usa a expressão “estar de luto (por
alguma coisa)”, quando o desejo ou a expectativa de realizar
alguma coisa (uma viagem, uma festa, um projeto, etc.) morre?
Isso bem pode sugerir que o luto consiste em admitir separar­
se do objeto de seus desejos.
Quando uma pessoa sofre um acidente cujas conseqüências
acabam na amputação de um membro (um braço ou uma
perna), a prática prova que essa pessoa passa por um período
de depressão, nos dias ou meses que se seguem a essa perda.
Os médicos falam do necessário trabalho que o luto pela parte
amputada demanda. A vítima terá de aprender a viver sem
aquela parte de seu corpo e reconstruir uma vida adaptada a
essa ausência.

Não se diz que o pai, a irmã, o filho, etc., são os membros
de uma família? Se a observação de um periodo de luto é
necessário e útil quando da perda de um braço ou de urna
perna, então, por analogia, a perda de um parente próximo
implica uma atitude bastante parecida.
Eis aqui um outro exemplo: os psicólogos há muito tempo
vêm observando o estado mental de mães que acabam de trazer
um filho ao mundo. Eles notaram que, ñas semanas ou mesmo
nos meses seguintes ao parto, algumas mulheres passam por
um periodo depressivo. Aqui também, podemos levantar a
hipótese de um trabalho de luto. O feto, que foi valentemente
carregado durante nove meses, representa uma parte do corpo
da mãe. Foi ela que o nutriu. Ele extraía sua vida do sangue e
da respiração de sua mãe. O nascimento da criança corres­
ponde, para ela, à perda de uma parte física de si mesma, a
qual, no sentido próprio do termo, deixa um vazio. Via de regra,
o período depressivo não dura muito, mas há alguns casos
excepcionais nos quais a mulher, extremamente fragilizada,
chega a suicidar-se. Na verdade, nesta questão como em muitas
outras, o ambiente é fundamental na orientação da natureza
da experiência.
Temos aqui exemplos de separações físicas comparáveis ao
luto que parecem sugerir a necessidade de levarmos em
consideração esse processo. Conseqüências negativas, que se
seguem à sua não consumação após a morte de alguém
próximo, orientam no sentido das mesmas conclusões. Eis um
exemplo real: uma mulher há anos consultava um médico após
outro, porque as glândulas lacrimais não umedeciam mais seus
olhos suficientemente. Quando a medicina alopática se provou
impotente, ela foi consultar um psicólogo. Graças à análise, o

psicólogo acabou desconfiando da existência de um luto mal
resolvido. Um dia, a mulher perdeu seu animal de estimação.
Sofreu então, com uma intensidade desproporcional, a perda
daquele pequeno companheiro e se pôs a chorar como uma
fonte inesgotável. Surpresa, reencontrou o dom das lágrimas,
perdido há tantos anos. O psicólogo conseguiu faze-la
lembrar que, na ocasião da morte de seu pai, ela tinha
reprimido as lágrimas e refreado toda manifestação de luto.
O terapeuta estabeleceu, então, um relação de causa e efeito
entre a doença e esse luto mal resolvido. Ele viu na reação
extrema diante da perda do animal um substituto da perda
do pai. Concluiu, assim, que a cura da paciente só podia ser
alcançada pela resolução do luto pelo pai, transferido para o
do animal de estimação. Trata-se aqui de um exemplo entre
milhares que parecem sugerir que o luto representa uma
energia psíquica que é perigoso negar ou reprimir.
Na verdade, numa grande parte da Terra, os povos
imaginaram ritos cujo objetivo consistia em facilitar a elevação
do morto. Além disso, esses ritos podiam acompanhar o
processo de luto dos que ficavam. Segundo Alexandra David
Neel, os tibetanos desaconselham os vivos a chorarem os que
partiram para o outro plano. Eles explicam que o morto,
constatando o sofrimento que sua partida causou nos
membros de sua família, tendem a ficar em contato com eles,
em vez de se libertarem dos vínculos da terra. Nessa mesma
cultura, os cadáveres das pessoas do povo eram antigamente
abandonados na montanha, a fim de que os lobos e os rapaces
os devorassem. Longe de mim a idéia de ju lgar tais
comportamentos. Trata-se apenas de salientar que cada
cultura definiu seus próprios ritos, às vezes diametralmente
opostos aos de outros povos.

Nos países norte-africanos, por exemplo, é de bom tom
que mulheres carpideiras acompanhem o morto até sua
última morada terrena. Trata-se de mostrar o quanto era
importante para a familia e o grupo social aquela pessoa que
partiu.
A cultura ocidental pratica o luto há milenios. Seria fonte
de desequilibrio para a pessoa no outro plano, quer se goste
ou não desse costume, agir como se ela não existisse mais. Nós
não somos tibetanos. No entanto, é necessário insistir
veementemente no fato de que luto e lágrimas não são, ipso
fa cto , sinônimos de sofrimento. O indivíduo esclarecido convive
com os processos inerentes ao seu ser físico, mas não é
prisioneiro deles. Ele não rejeita o processo de transição ✓da
alma, que implica o desaparecimento do corpo físico. E a
negação que gera a dor. Para usar uma imagem: o ser interior
observa de cima as reações do ser exterior, mas não participa
nelas forçosamente.

Alguns ritos de luto e seus significados
No Ocidente, onde a morte representa normalmente o
oposto da vida, a pessoa em luto veste-se de negro, o que já
não acontece na China, por exemplo, onde os habitantes se
vestem de branco. Entre os judeus ortodoxos de hoje, a prática
consiste em rasgar uma ponta da camisa, símbolo do corte do
vínculo familiar que unia o morto e os que estão de luto por
ele. Essa ação, aliás, tem origem na prática dos hebreus do
Antigo Testamento, que rasgavam suas vestes. Entre os judeus,
muitas práticas bem diferentes são utilizadas, como aquela de
acender uma vela à cabeceira do leito do morto, durante sete
dias. Quando alguém morre, três períodos de luto são

respeitados. O primeiro dura sete dias; o segundo, trinta e um;
o terceiro termina após um ano do falecimento. Durante o
primeiro período, o praticante judeu não come carne, não bebe
vinho, não trabalha e não se diverte. Ele reconhece que o Eterno
deu e retomou, e o crente aceita a separação. A comunidade
compartilha dessa dor indo à casa da família enlutada, para
recitar salmos e consolá-la. Ao contrário dos ritos cristãos, o
caixão nunca entra na sinagoga e os ofícios regulares não são
alterados. No momento do enterro, o viúvo ou a viúva recita a
prece Kaddish. Na verdade, ela é recitada durante todo o tempo
do luto. No dia do aniversário do falecimento, um ofício
religioso é realizado no cemitério.
Há um determinado número de costumes que, tendo o
morto como destinatário, tem por missão ajudar os vivos a
realizar sua própria transmutação. Na maioria das culturas,
efetua-se uma toalete, embora inicialmente fosse apenas uma
prática necessária à manutenção da higiene do corpo. Em
alguns casos, a toalete é feita por pessoas especializadas nessa
função. No islã, é obrigatório banhar o corpo três vezes. O
primeiro banho deve ser feito com uma mistura de água e folhas
de bagas; o segundo, com uma mistura de água e cânfora; o
terceiro, com água pura. O viúvo ou a viúva pode executar os
banhos. Assim, Ali, genro do Profeta Maomé, banhou, ele
próprio, sua esposa.
Em outras culturas, costuma-se vestir o cadáver com suas
melhores roupas, maquiá-lo e até mesmo, como na índia, cobrilo de flores. O propósito de todas essas ações consiste em
apresentar o morto numa atitude jovial e bela que evoque a
imortalidade. Como vimos antes, hoje em dia, nos Estados
Unidos, não raras vezes o corpo é embalsamado e igualmente

maquiado, visando ocultar a morte. Mais que isso, não se trata
mais de sugerir a imortalidade, mas de negar a morte. Em outras
partes, os cantos, as salmodias e as músicas, quando utilizados,
servem tanto para convidar o morto a se elevar às esferas etéreas
quanto para amenizar a tristeza dos que ficam.
Os psicólogos conseguiram pôr em evidência o fato de que
não ver o corpo do morto pode representar, para a família,
uma dificuldade em reconhecer a morte. Assim, crianças que
perderam os pais num acidente de avião sofreram as seqüelas
psicológicas muitos anos mais tarde. Os corpos dos pais nunca
puderam ser encontrados. Para essas crianças, a ausência dos
pais era algo irreal e sem vínculo com seu desaparecimento. A
morte ficou no campo do fenômeno teórico, capaz de deixar a
porta aberta a todos os fantasmas possíveis. Em alguns casos
de catástrofes aéreas ocorridas em países estrangeiros, as
autoridades locais chegaram a financiar a viagem dos parentes
para que eles vissem com seus próprios olhos os escombros do
avião. Todo esse “ritual” visava ajudar o processo de luto.
Em alguns países, como a índia, o morto é transportado
em caixão aberto ou sobre esteira, à vista de todos. Na Idade
Média, procedia-se da mesma maneira na Europa. Não raro,
cruzava-se com uma procissão indo para o cemitério. Ela
acompanhava o corpo de uma pessoa, à vista de todos. Em
outras palavras, a morte não era ocultada. Todo mundo podia,
portanto, entregar-se a uma meditação sobre a impermanência
das coisas, ao cruzar com um daqueles cortejos.
Por que é que hoje não se permite que uma criança veja,
por exemplo, o corpo de seu avô, quando ela manifesta esse
desejo? Muitos testemunhos de adultos falam das frustrações

que sentiram, quando crianças, por terem sido impedidas de
ver o cadáver. Inversamente, outros reclamam de terem sido
obrigados a ver uma coisa que lhes dava medo. Alguns dirão
que a experiência pode ser cruel. A esses, respondo que
numerosas experiências provam que ocultar a morte não facilita
o luto nem a compreensão da criança. Ela pode, inclusive,
conservar as seqüelas disso por muitos e muitos anos. Na
verdade, na maioria dos casos, a criança sofre silenciosamente
quando lhe ocultam a realidade. O silêncio dos adultos a
emparedam dentro de seu próprio luto. Para ela, a morte
representa uma noção muito mais vaga do que para o adulto.
Em conseqüência, é muito difícil para ela separar-se do ser
amado quando lhe impedem todo contato com o morto. Ao
passo que, bem preparada (isto é, deixada de fora das angústias
dos adultos), a visão do morto pode ajudá-la em seu
amadurecimento. Com a condição, claro, de que a deixem
escolher ver ou não. Mais uma vez, da atitude do ambiente
dependerá, via de regra, a reação da pessoa em questão. A
prática mostra, com efeito, que, diante da morte, o ser humano
se apoia geralmente na presença da coletividade, que a ajuda a
suportar a provação. A outra face dessa moeda é que essa
mesma coletividade tem um peso suplementar que pode
influenciaros comportamentos individuais.
Voltemos à questão da visão do corpo. Hoje, em que
ocultamos a morte nos países ditos “civilizados”, imaginar um
cortejo fúnebre acompanhando um caixão aberto, com o corpo
do defunto à vista de todos, seria considerado indecente.
Preferimos viver o fenômeno por procuração, nas telas da
televisão. Jornalistas, à guisa de sensações fortes, não hesitam
em filmar pessoas morrendo, no próprio local dos acidentes.
A televisão se deleita com imagens de chacinas. Mas isso é uma

apresentação da morte, a um tempo, disfarçada e apelando ao
voyeurismo do telespectador. Essa, sim, é uma morte muito
“católica”, que pode ser mostrada sem que ninguém levante
as verdadeiras questões. Cruzar com um caixão aberto, na
esquina de uma rua, eis o que levaria o ser humano às suas
autênticas interrogações. Por que a vida, se devo acabar entre
quatro pranchas de madeira? Mas poucas pessoas querem se
questionar sobre tais assuntos, numa época em que o ativismo
predomina. Preferimos nos deixar entorpecer pela ação
desenfreada. A verdadeira preguiça do Ocidente manifesta-se
da seguinte maneira: agir incessantemente do lado de fora, a
fim de evitar uma interiorização meditativa sobre o sentido
último da vida. Vivemos um período de tabu da morte. A visão
crua de um cadáver é considerada obscena (salvo na televisão).
No que se refere a esse assunto, preferimos nos comportar
como as avestruzes. Até quando, o cortejo banalizado?
Assim também, as manifestações de luto estão ficando cada
vez mais discretas e se tornando sinônimo de tradições
ultrapassadas. No entanto, antigamente na Europa (e ainda
hoje, algumas vezes), mandava-se celebrar uma missa no oitavo
dia, no quadragésimo dia e no primeiro aniversário de
falecimento da pessoa. Observava-se também um período de
quarenta dias de luto, durante o qual a família vestia-se de
preto. O numero quarenta representa um ciclo completo de
afastamento, purificação e preparação, antes de se reintegrar à
luz. A mulher muçulmana tem a obrigação de observar o luto
por seu marido até quatro meses e dez dias. Na África negra,
durante o período dos quarenta dias, o viúvo ou a viúva era até
mesmo proibido de falar. Há um profundo espírito presidindo
a essas práticas: observar um período de adaptação à nova
situação e mandar um sinal à sociedade circundante a fim de

que ela deixe a pessoa em paz ou então que compartilhe do
seu processo. Freqüentemente, porém, o espírito vivificante
foi substituído pela letra morta e essas
práticas tornaram-se

obrigações cujo sentido se perdeu. E tão espantoso que nosso
século rejeite as manifestações de luto? Em alguns países, como
também na França do século 19, as regras a serem respeitadas
eram tão estritas que quem encurtasse seu luto tornava-se
suspeito de falta de respeito. Já quem o prolongasse demais
era tido como marginal, mórbido ou mesmo agressivo para com
a coletividade. Por sua vez, as mulheres que voltavam a se casar
rapidamente eram tachadas de “viúvas alegres”, de pouca
virtude.
Um exemplo da rigidez de algumas práticas. Um africano,
que não ia ao seu país há muitos anos, foi até lá por ocasião do
falecimento de seu pai. Para seu grande desespero, não pôde
falar com sua mãe nessa época, pois ela tinha de observar a lei
do silêncio por um longo tempo. Ele teve de fazer novamente
a longa viagem Europa-África alguns meses mais tarde, para
finalmente poder conversar com sua mãe. Segundo sua
declaração, a situação fora verdadeira e horrivelmente
frustrante. Aí está uma aplicação estúpida e dogmática de uma
prática cuja nobreza de espírito é inquestionável.
Mas será que devemos rejeitar as tradições? Certamente
que não, pois elas têm algo a nos ensinar. O luto representa
um período em que aquele que fica vai poder interiorizar a
presença do morto, a fim de faze-lo passar do mundo externo
material ao seu mundo interno subconsciente. “Os mortos vivem
e têm um a parcela de eternidade em nós". Mas, para que esse
processo possa se realizar, o vivo deve admitir o desapa­
recimento físico e a sobrevivência, pelo menos, na memória.

Trata-se de uma espécie de alquimia sutil. A pessoa que perdeu
um pai precisa se tornar seu próprio pai. Em outras palavras, a
dimensão paterna deve se exprimir nela mesma. Há um filme
excelente que ilustra esse fenômeno, “A Históna Sem Fim”, que
é a história de um menino que perdeu sua mãe e cujo mundo
interior psicológico desmorona, devorado pelo nada. Fantasia
(o nome desse mundo) só consegue se salvar quando o menino
dá o nome de sua mãe à im peratriz, que representa a
personagem principal. O filme, baseado num romance, é bem
mais rico que isso, mas, em síntese, o que ele descreve, de modo
bem simbólico, é um processo de luto. A criança só consegue
conservar seu equilíbrio quando assimila sua própria mãe a
uma personagem que representa uma dimensão fundamental
da psique. Talvez seja muito interessante comparar essa
alquimia a determinados ritos mortuários antropofágicos. Entre
alguns povos da Nova Guiné, por exemplo, come-se o cérebro
do morto, com a idéia de assimilar suas características. Na
América do Sul, o povo dos arvaques reduz a pó os ossos de
seus chefes. Em seguida a essa operação, as mulheres e os
guerreiros da tribo fazem uma infusão com o pó e tomam a
beberagem, guardando assim em suas entranhas aqueles que
foram, em vida, o objeto de sua afeição.
Para o místico, a idéia de que “os m ortos vivem e têm uma
p a rcela d e etern id a d e em n ó s” representa uma realidade.
Realmente, quem pode dizer que nosso campo de consciência
se limite às percepções recebidas por nossos cinco sentidos e
aos pensamentos elaborados dentro de nosso cérebro,
qualificado de superior? A consciência objetiva, a psicanálise
já demonstrou que representa somente uma pequena parte da
nossa consciência real. E teve de lutar muito, no início do século
20, para fazer com que essa idéia revolucionária fosse admitida.

No entanto, há milênios, os místicos foram mais longe ainda.
Afirmaram, e continuam afirmando, que a consciência humana
não passa de uma ínfima parcela de uma consciência
infinitamente mais vasta, que interpenetra todos os seres vivos.
A consciência objetiva é, na verdade, apenas uma das muitas
formas de expressão dessa Consciência. E sua ponta visível e, de
algum modo, consciente de si mesma. Ora, esse imenso campo
de consciência universal constitui, a um tempo, o local de
elaboração do futuro e a memória do passado, fundidos num
eterno presente. Em outras palavras, determinados níveis da
consciência humana teriam acesso tanto ao passado como ao
futuro. A consciência do morto se incorpora a esse campo de
consciência mais vasto. Ou seja, os vivos estão a todo instante
em contato com os mortos, sem o saberem. Nós acreditamos
que somos nós mesmos a todo instante, afetados unicamente
pelos eventos do mundo objetivo. Em parte, isso é falso. Um
pouco de humildade nos ajuda a perceber que podemos ser
afetados por outros níveis de manifestação, cuja existência nem
sempre percebemos claramente. A consciência do indivíduo está
a todo instante se relacionando com a de toda a coletividade
viva, mas também com a dos que “estão dorm indo”. Isso não
significa que sejamos marionetes dessas forças, mas sim­
plesmente que elas fazem parte dos elementos que se apresentam
à nossa consciência, assim como toda e qualquer informação
objetiva, que podemos ou não levar em consideração.
O processo de luto, nesse quadro que acabamos de
apresentar, é duplo. Prim eiram ente, consiste em uma
habituação ao desaparecimento do ser físico do morto e dos
contatos afetivos que o uniam ao enlutado. Em segundo lugar,
a questão é admitir a passagem do morto para um plano de
consciência diferente, no qual participam mortos e vivos, ainda

que num plano subliminal. Por conseguinte, "os mortos têm uma
parcela de eternidade em n ós”. Os psicólogos, via de regra,
ocupam-se apenas da primeira parte do luto, em casos de
situações patológicas. A segunda parte, até o presente, recebe o
acompanhamento e o apoio dos rituais religiosos ou es­
piritualistas. Devemos admitir que, nos dias atuais, mais e mais
pessoas negligenciam ou mesmo negam essa segunda fase.
Poderia isso explicar o tabu que hoje envolve a morte? Sem o
reconhecer, nossa sociedade está sofrendo de um luto insatisfeito
- o luto por milhões de homens e mulheres mortos nas guerras
ou de velhice e doenças. Um luto não é resolvido completamente
se rejeitamos a idéia de uma existência post-m ortem . Um dos
sinais de luto patológico consiste em negar a morte. Não é
justamente isso que sonha em fazer nossa sociedade, a ponto de
os mais extremistas pensarem em congelar seus corpos na
esperança de que a ciência vá ressuscitá-los um dia?
Costuma-se dizer que perder um parente torna o indivíduo
adulto. Isso quer dizer que a criança que há dentro de todo
homem ou mulher deve procurar em si mesma a força de viver
por seus próprios meios. Ela deve se tornar o pai, a mãe e “toda
a santa família”. Nesse sentido, o primeiro luto por um parente
constitui uma espécie de iniciação, na medida em que faz a
morte entrar bruscamente no campo da consciência. O evento
coloca cruelmente o ser humano frente a frente com a realidade
que dificilmente ele conseguiria continuar negando. Daí em
diante, passa a existir, para o enlutado, um antes e um depois
da separação que geralmente não o deixa incólume, mesmo
nos casos em que a harmonia tenha prevalecido.
Da parte de alguns povos animistas, encontramos práticas
complementares em numerosas regiões da terra. Elas
conservam uma função de auxiliar no luto. Quando uma pessoa

acaba de morrer, costuma-se observar uma série de cerimônias
bastante codificadas e de preces. Sacrifícios de animais são
realizados em honra do morto, em função de seu nível social.
Os membros da tribo podem também levar-lhe alimentos.
Trata-se de entrar em acordo com ele, através dessas ações, e
cair em suas boas graças. No caso de o protocolo sofrer algum
impedimento, esses povos temem que o morto se transforme
em demônio, venha assombrar os vivos e lhes traga doenças e
até a morte. Tudo isso diz respeito ao primeiro degrau das
crenças sobre a sobrevivência da alma e a possível inter-relação
entre os dois mundos. Contudo, podemos tirar daí um
ensinamento mais sutil referente ao processo do luto.
Se fica uma controvérsia afetiva entre a família e aquele que
parte, essa pendência pode perseguir o vivo por um longo
período, gerando remorsos, tristeza e frustrações. Quando
alguém tem de partir (e os acompanhantes bem o sabem), existe
um interesse recíproco em acertar velhas contas, no sentido
positivo. Caso contrário, o morto pode se transformar num
demônio psicológico para quem fica. Certa mulher declarou:
"Minha descoberta do principio de reencam ação m e ajudou m uito
quando m eu filh o morreu. Mas eu conservo um arrependim ento
[que a fazia sofrer visivelmente]: que ele tenha partido num
m om en to em que estávam os em co n flito ”. No momento da
partida, é preciso que a família honre a memória do falecido e
cumpra as cerimônias honoríficas, a fim de que não subsista
nenhum sentimento de ter esquecido alguma coisa. “Só se
morre uma vez”, diz o provérbio popular. Razão de sobra para
que tudo seja consumado e que se parta em harmonia. Uma
única chance é dada para que as coisas sejam feitas
corretamente. Senão, a separação acontece como dois velhos
amigos que se separam sem dizer o quanto se amam.

Uma outra função dos sinais que cercam o luto consiste em
restabelecer a harmonia onde a morte rompe a ordem das
coisas. A morte, para o ser físico, marca a ruptura de todos os
vínculos e a intrusão do relativo caos na consciência dos vivos.
O luto, por seus ritos próprios, tende a reinstalar pouco a pouco
a ordem. Depois do enterro, em geral a família se reúne para
uma refeição ritual. O falecimento de uma pessoa tende a cortar
o apetite e imobiliza os vivos na própria atitude dos mortos.
Pelo alimento, demonstra-se que a vida deve continuar e reaver
seus direitos. Alimentar-se é uma das funções primordiais, que
conserva a pessoa em vida e chama-a para a realidade física e
cotidiana. Quando a refeição é feita em conjunto, o indivíduo
é posto ante seus deveres sociais, reforçando os laços que unem
a coletividade confrontada com a morte de um dos seus.
No momento da divulgação de um falecimento, a pessoa
que recebe a notícia pode passar por diversas fases de
conscientização, análogas àquelas pelas quais passa a pessoa
ao saber que está condenada. Primeiramente, todo seu ser se
orienta para uma denegação do acontecido: "O quê? Não é
possível fu la n o ter m orrid o!”. Receber a notícia da morte de
uma outra pessoa significa considerar a sua própria. Mas como,
se todo mundo acha que seu ser físico é imortal! E de espantar,
então, que a primeira reação seja tingida de incredulidade?
Mas, em seguida, podem vir a rejeição e a cólera. Então, Deus
e todos os santos da terra serão amaldiçoados, e às vezes até o
próprio morto que tão covardemente nos abandonou. E então
que a morte caótica pode assumir toda sua dimensão, caso a
rejeição e o sofrimento que a acompanham adquiram uma
intensidade insuportável. Em casos extremos, algumas pessoas
chegaram até mesmo a cair em coma profundo por várias
semanas, a fim de esquecer sua dor “cortando os circuitos”.

Não obstante, o papel dos ritos de luto consiste em reconciliar
familiares e amigos com a vida, e a experiência demonstra que
o falecimento de uma pessoa pode até ajudar os que ficam a
obterem certa paz.
O estágio seguinte vê a emergência de um tipo de depressão.
Os prantos ajudam então a exprimir a emoção e o vazio interior.
Mas, como na maioria das depressões, o estado emocional se
torna instável e versátil, com mergulhos no sofrimento seguidos
de relativas calmarías ou mesmo euforias efêmeras. Perda de
apetite ou mesmo anorexia pode acompanhar o fenômeno, e o
sono se torna de má qualidade. A obsessão pelo morto pode
fazer emergirem sonhos; é o inconsciente indicando ao
sonhador sua compreensão pessoal da morte. Em alguns casos,
a pessoa pode desenvolver um sentimento de culpa: "Porque
eu não estava lá na hora em isso a con teceu ? Com certeza, eu
poderia ter a ju dado!”. Assim confessou uma mulher, anos
depois da morte de sua mãe: "Eu m e culpo p o r tê-la deixado
partir num hospital, tão sozinha!”. Na pior hipótese, a seguinte
idéia pode assaltar o enlutado: "Por que f o i ele (ou ela) quem
partiu, p orq u e não eu ? ”. A culpabilidade pode resultar também
de relações ambíguas, baseadas em amor e ódio simultâneos
pelo agonizante. O tempo e a verbalização do sofrimento
permitem o desapego necessário ao retorno à normalidade e à
evacuação das energias psíquicas negativas acumuladas. O
emprego de pensamentos positivos, apoiados no reconhe­
cimento de suas próprias imperfeições (no caso de se ter tido
pensamentos de raiva em relação ao morto), é um recurso que
não deve ser negligenciado.
Um dos lutos mais difíceis de assumir é, sem dúvida, o da
criança falecida. Insuportável, porque a criança representa uma
dupla promessa. Primeiro, a de vê-la crescer, conversar com

seus pais e realizar a obra que constituirá sua vida. Depois,
uma promessa de imortalidade para seus pais. O filho
representa em geral uma dádiva que os pais dão ao mundo.
Não é incomum, aliás, vê-lo seguir as pegadas de seus genitores,
contribuindo assim para uma forma de imortalidade. Quando
a progenitura, carne de nossa carne, desaparece... nada mais
resta. A frustração é total; o sentimento de injustiça absoluta;
o esvaecimento da vida, flagrante. Ao longo de diversas
conferências, tive a chance de encontrar várias mulheres que
perderam um filho. Nenhuma me pareceu ter ficado incólume.
Ninguém está verdadeiramente preparado para esse tipo
de provação, pois num país em paz (No Oriente Médio, em
contrapartida, famílias inteiras foram dizimadas pela guerra)
via de regra são os avós que partem primeiro. O falecimento
de um descendente representa uma inversão da ordem
“normal” das coisas. Quando um ancião abandona o navio para
ir nadar nas águas celestes, é sempre possível invocar a
fatalidade e a sucessão natural dos eventos da vida. Aqui,
nenhuma fatalidade desponta no horizonte e as pessoas podem,
então, revoltar-se à vontade.
Já que tocamos na questão dos anciões, talvez seja útil notar
que, em muitos lugares do globo, as pessoas
ainda mantêm, na
/
intimidade do lar, um altar dos ancestrais. E o caso, em especial,
do Japão e da China. Os japoneses usam o pequeno altar
budista, que abriga os retratos dos últimos falecidos e o livrinho
onde está escrito os nomes de todos os ancestrais falecidos.
Parentes e amigos vão ali saudar essas almas, para as quais
contam-se os últimos acontecimentos que envolveram a família.
Em alguns restaurantes vietnamitas, pequenos altares com
oferendas são dedicados aos ancestrais. Ali se acham também
as fotos dos avós.

Essa prática remonta, na verdade, aos antigos arianos, que
praticavam o culto dos manes (os manes eram as almas dos
ancestrais), cujo sacerdote do lar era o primogênito da família.
Naquela época, os mortos despertavam medo. Era preciso,
então, cativá-los. Essa “religião dos ancestrais”, porém, visava
também vincular os vivos a uma longa linhagem. Assim, graças
aos sacerdotes dos manes, a família podia se sentir um produto
dos que haviam partido. Uma grande cadeia de solidariedade
unia então os vivos e os mortos.
Não representaria a forma atual de pesquisa genealógica
uma necessidade inconsciente de vinculação do indivíduo aos
seus ancestrais e, por meio deles, a Deus? Hoje, alguns velhos
álbuns de fotos da família preenchem uma relativa função de
“altar dos ancestrais”.
Pode ser útil conservar em casa um local consagrado à
memória dos ascendentes: isto ajuda no processo do luto. Aqui
vão, então, algumas dicas para se construir esse altar:
— Arrume uma mesinha redonda ou quadrada, com mais
ou menos quarenta centímetros de lado (conforme você
preferir o símbolo ou a forma do círculo ou do quadrado).
— Coloque sobre ela suas fotos preferidas de seus parentes
falecidos.
— Coloque também um castiçal com uma vela, que você
acenderá em uma ou mais ocasiões específicas do ano (no Dia
dos Mortos, se você é cristão).
— Você pode ainda acrescentar objetos especiais que
pertenceram a eles, flores e símbolos religiosos de sua escolha.

— Você poderá se dirigir a esse local, que foi consagrado
por sua atitude de respeito, toda vez que sentir necessidade. E
você que dará a esse local todo seu valor. Nunca deixe ninguém
profaná-lo. Essa prática pode ajudar muito na ocasião de um
luto.
Não raras vezes, as pessoas vão aos cemitérios para conversar
com a pessoa ausente (mas fazem isso mesmo?). Sem o saber,
estão aplicando a uma velha prática milenar, datando da época
em que se acreditava que as almas evoluíam embaixo da terra.
Mas o cemitério muitas vezes fica numa cidade distante,
principalmente no caso em que a família tenha se mudado para
outro país. O altar dos ancestrais, por sua vez, tem a vantagem
de ficar no lar, ao alcance da mão. Sua presença ou sua
confecção pode ajudar no trabalho do luto, mas algumas
técnicas de visualização criativa podem igualmente contribuir
para minimizar o drama de um falecimento difícil.
Uma pessoa confessou que, depois da morte de seu pai,
não parava de pensar nele, até chegar à obsessão. Foi-lhe então
aconselhada a imaginar, durante várias noites seguidas, seu pai
se elevando numa grande luz, e a se despedir dele. Aos poucos,
os pensamentos obsessivos desapareceram, dando lugar às
atividades cotidianas.
Com toda certeza, o luto de uma pessoa que não crê na
sobrevivência da alma, de qualquer forma que seja, será sempre
mais duro de viver. Para ela, a morte significa a ruptura
definitiva de uma comunicação e de uma presença. “Nunca
m ais” torna-se, então, sinônimo de vazio insondável e de
angústia. Assim, tudo o que puder colocá-la em contato com o
cotidiano será vital para ela, tanto que alguns estudiosos

consideraram a instauração de rituais laicos, cujas formas
poderiam se basear nas grandes leis da psicologia. Mas, na
verdade, para essa pessoa, o retorno às contingências da vida é
que vai anestesiar o sofrimento. Quanto mais identificamos as
pessoas com seu corpo físico e as reações fisicoquímicas de seu
cérebro, mais completo torna-se para nós o seu desaparecimento.
Parece que as mulheres atravessam melhor que os homens
os processos de luto, porque elas falam mais espontaneamente.
O homem também engole mais suas lágrimas, porque em geral,
desde a mais tenra infância, ele aprende que homem que é
homem não chora. No entanto, hoje sabemos que o riso, a
verbalização, a raiva e as lágrimas são alguns dos meios de
expurgar uma energia psíquica que, sem isto, tomaria caráter
destrutivo. Então, chore o quanto quiser, escondido ou às
claras. A Dra. Elisabeth Kübler-Ross, para ajudar a solucionar
situações de luto não resolvido, dava uma almofada a cada
participante de seus seminários, para que ele descarregasse sua
violência no pobre objeto, socando-o. Isso, no fim, desembocava
nos gritos e nas lágrimas.
Uma psicóloga, que cuidava de uma unidade de tratamentos
paliativos, disse que às vezes tinha a impressão de que se poderia
afogar nas lágrimas dos que ficavam. A cascata de lágrimas
podia dar a sensação de ser inesgotável, mas, na verdade,
segundo ela, havia sempre um fim para as lágrimas aliviadoras.
Os que sofrem sem possibilidade momentânea de consolo são
os que se recusam a chorar, mesmo sentindo necessidade. O
choro representa uma função psicológica de descarga. Seria
tão tolo querer passar sem ele quanto privar-se de rir. Isso faz
lembrar o famoso debate: “Jesus ria?”. Debate que, no caso do
pranto, não teria razão de ser, visto que a passagem do Novo

Testamento sobre a ressurreição de Lázaro mostra Jesus
chorando a sina de seu amigo, que ele vai “ressuscitar” alguns
instantes depois.
Contrariamente a uma idéia muito difundida, é proibido,
no islã, anunciar um falecimento bradando pelas ruas e às
portas das mesquitas, e se derramar em lamentações. A
propósito, não se deve confundir a cultura árabe com a
muçulmana. O próprio Maomé assim se expressou: “A m orte
sofre gritos e lam entações que o vivo solía por causa déla [ ...] A
m orte chorada em voz alta recebe um castigo equivalente”. Numa
outra ocasião, acrescentou: “Separo-m e de toda m ulher que solta
gritos, arranca os cabelos ou rasga as vestes”. Um pouco de
dignidade, que diabo! E preciso que se diga que, na época do
profeta, o povo tinha urna forma um tanto escandalosa de
manifestar sua dor. Algumas pessoas urravam, rasgavam as
roupas, rolavam pela terra e cobriam o rosto com terra ou cinzas.
Outras chegavam até a ficar sem comer por um longo tempo,
proferindo queixas dirigidas a Deus.

tronco comum e geral (se bem que não exaustivo) dos costumes
imaginados pelo ser humano, no curso dos milênios. Podemos
facilmente deduzir daí que, se encontramos essas constantes
tão amplamente difundidas, é porque provavelmente possuem
um sentido. Poderia significar também que elas são úteis a todo
homem e a toda mulher no processo de amadurecimento de
seu ser, ao se confrontarem com o falecimento de um ente
querido.
1. A primeira atitude de luto consiste em observar um tempo
de habituação à ausência do outro e ao cultivo de sua memória.
Esse período varia, segundo os povos, de vinte e quatro horas
a três anos. Alguns casos extremos podem durar toda a vida.
2. Esse tempo algumas vezes é acompanhado da ação que
consiste em raspar os cabelos e a barba ou, ao contrário, deixálos crescer, bem como às unhas.
3. Uma roupa especial, preta ou branca, indica à comu­
nidade que a pessoa está de luto; em alguns casos, usam-se
roupas velhas. Em alguns países orientais, proibia-se
antigamente o uso da seda. Em culturas mais tribais, é costume
pintar uma parte do rosto ou do corpo.

No entanto, o muçulmano não é efetivamente proibido de
chorar. Quando seu filho morreu, Maomé declarou: “Os olhos
vertem lágrimas, o coração está pesado, mas nada dizem os que
ofenda Deus. Estamos m uito aflitos com tua perda, Ibrahim l”.
E por ocasião da perda de sua neta, respondeu assim aos
companheiros que o repreenderam por chorar: “Estas são as
lágrim as da com paixão que Deus coloco u no coração de seus
servidores. Deus se com padece dos que têm com paixão”.

4. Um período de jejum pode ser observado; assim, o vivo
se associa, por algum tempo, ao morto, pela suspensão de uma
importante atividade vital. Contudo, enormes banquetes
podem se seguir a esse jejum ou, na ausência deste, encerrar
as solenidades funerárias.
'

Agora é possível apresentar uma espécie de síntese dos
diferentes ritos de luto que podem ser encontrados por todo o
planeta, com infinitas variantes. O que se segue representa o

5. Cerimônias são realizadas mais ou menos repetidamente,
em períodos determinados (após três dias, sete dias, quarenta
dias, um ano, etc.).

6. Via de regra, a comunidade participa dos rituais,
principalmente no caso de falecimento de pessoas importantes,
quando toda a coletividade fica de luto. Os enterros católicos
antigos contavam com a participação de uma importante
personagem eclesiástica. Nos países ortodoxos e árabes, usavase o serviço das carpideiras.
7. Em datas regulares, festas são dedicadas à comemoração
da memoria dos mortos. Trata-se aí, de maneira mais ampla,
do culto dos mortos. O nosso “Dia de Todos os Santos”,
seguido do “Dia dos Mortos”, representa essa prática. Se, por
um lado, a morte se tornou assunto tabu nas sociedades
modernas, por outro, nenhuma coletividade consegue esconder
totalmente o fenômeno. Sempre haverá um período especial
do ano durante o qual o contato entre os dois mundos será
tolerado (ainda que considerado irracional). Nessa época, aliás,
os anglo-saxÕes festejam o H alloween. Uma bela oportunidade
de ver pessoas fantasiadas de esqueletos perambulando pelas
ruas. Na realidade, o “Dia de Todos os Santos” e o H alloween
têm origem na festa celta de Samain, de que já falamos. O ano
novo dos celtas caía no dia Ia de novembro, e a noite
representava um período durante o qual o mundo dos vivos e
o dos mortos podiam se comunicar.
Se a religiosidade parece estar em baixa na era moderna (82%
dos franceses disseram-se católicos, em 1989, mas apenas 12%
deles disseram ser praticantes), parece que o culto dos mortos
conserva um valor inabalável. Para se convencer, basta lembrar
os escândalos que se seguiram às diversas profanações de
túmulos, em Carpentras e outros lugares. O espírito religioso,
que começou provavelmente com o culto dos mortos, conserva,
portanto, este culto como um último baluarte na era moderna.

8. Outro ponto comum, no que tange o luto, consiste em
erigir um monumento concreto em memória do morto. Esse
tanto pode ser o túmulo como a foto colocada no altar budista.
9. E, é claro, há as diversas manifestações do sofrimento,
mais ou menos reprimidas segundo as culturas. Os judeus,
por exemplo, recusam-se a ocultar essas emoções fundamentais,
enquanto os tibetanos são mais inclinados a abafá-las.
Em nove pontos, ficamos diante da grande maioria das
práticas relativas ao luto. Sem sombra de dúvida, as variantes
são inumeráveis. Mas com um pouco de perspicácia, é possível
inseri-las quase sistematicamente num desses nove pontos.
Também é verdade que algumas sociedades suprimem algum
desses aspectos (entre nós, o luto não causa nenhuma reação
na pele...), enquanto outras os incrementam. Até a metade
do século 20, quando um homem morria na índia, sua viúva
tinha de se jogar sobre a pira onde o cadáver estava se
queimando.
A essa altura, poderíamos nos fazer a seguinte pergunta: se
a alma possui o dom da imortalidade, poderia aquele que
passou para o outro lado do espelho ajudar os vivos em seu
período de luto? H. Spencer Lewis aborda o assunto no livro
“As Mansões da A lma”. Explica ele que o morto, por alguns
dias, permanece junto a seu corpo e assiste às cenas do luto da
família. A única coisa que ele pode fazer então é enviar ondas
de conforto aos seus entes queridos. Os vivos recebem
impressões sob forma de intuições ou de pensamentos, que
eles acham que são seus, mas que são inspirados pelo morto.
Essas afirmações de um grande iniciado poderiam, talvez,
suscitar riso nos livres pensadores. Não é, porém, incomum

encontrar pessoas muito racionais contando que, na ocasião
em que perderam um amigo, ao entrarem na sala onde o corpo
estava, sentiram ali uma poderosa presença, que eles atribuíram
ao amigo falecido. Viúvos e viúvas também costumam contar
que sentiram, por alguns dias, a presença de seu cônjuge junto
a eles.
C.
G. Jung, em sua autobiografia, relata sua própria
experiência: "Naquela noite, não conseguia dorm ir epensava na
m orte súbita de um am igo que tinha sido enterrado na véspera...
De repente, tive o sentim ento de que ele estava em m eu quarto.
Tive a impressão de que ele estava ao p é da m inha cam a e m e
pedia para acom panhá-lo. Segui-o em imaginação. Ele m e levou,
então, para fo ra da casa... a té chegarm os à casa dele. Ele m e fe z
entrar em seu escritório. In dicou-m e o segundo volu m e de uma
série de cinco, encadernados em verm elho, que se achavam no alto
d e um a estan te em sua b ib lioteca . D epois disso, a visão se
esvaneceu. ”
“Esse evento p areceu -m e tão estranho, que, na manhã seguinte,
f u i a té a casa da viúva de m eu am igo e p ed i-lh e que m e deixasse
entrar na biblioteca dele, para uma averiguação. Realmente, lá
estavam, no alto da estante, os cin co volum es encadernados em
verm elho. Subi no tam borete para ler os títulos. O título do
segundo volu m e de Zola era: "O Voto de uma M orta”. O título
era m uito significativo em relação ao que se passara. ”
Claro que para ser totalmente, senão imparcial, ao menos
objetivo, é bom explicar que a ortodoxia, em matéria de
psicologia, rejeita toda possibilidade de contato com os mortos.
(Esse, aliás, foi o pomo da discórdia entre Jung e Freud). Para
eles, sonho ou sensação de presença de um morto são produtos

da obsessão de uma consciência que exterioriza seus desejos,
até a alucinação. A realidade está longe de ser simples nessa
área, como em tantas outras. Uma prova? A história relata que
uma das canções de Dante Allighieri (autor de “A Divina
C om édia”) foi encontrada por seu filho, graças a um sonho.
Nele, ele viu seu pai indicando-lhe um quadro atrás do qual
ele próprio havia escondido o texto, antes de morrer. Arquivos
de criminologia também reportam histórias em que o assassino
foi apontado por sua vítima durante um sonho ou de uma visão
intencional, recebido por um parente.

Luto e simbolismo astrológico
O tema da morte expressa-se na astrologia através de três
signos: peixes, câncer e escorpião (todos signos de água). O
tema do luto, por sua vez, tem uma relação com os signos de
câncer e peixes. Câncer está relacionado ao passado, à história,
à ancestralidade. Encerra, portanto, o culto dos ancestrais e a
memória. Ocupando a posição mais baixa do Zodíaco, câncer
simboliza a tumba, tão associada ao diálogo com os mortos e à
interiorização no recolhimento. Domicílio da Lua (seu local
de predileção), ele representa a ilusão do luto. Os reflexos da
Lua, grandes ilusionistas, iluminam a noite com seus raios
enganadores. Da mesma maneira, o luto representa a ilusão
de uma consciência objetiva (a Lua) que crê na separação. Ela
fica entregue à sua própria ignorância sobre o que a morte
realmente significa. A memória que acompanha a lembrança
também é simbolizada por este signo.
Já o signo de peixes, associado à décima segunda casa do
Zodíaco, representa a dor e a provação da separação, quando
o luto tarda a se desfazer. Pode também representar o estado

psíquico da pessoa enlutada, instável e emocionalmente
fragilizado pelo acontecido. As lágrimas, líquido salgado como
o oceano onde nadam os peixes, fazem parte do simbolismo
deste signo.

(9

contato com

oj

/t w z I o j

O contato com os mortos é um grande problema que muitas
vezes opôs ocultistas e espíritas. Os primeiros, seguros de sua
ciência, alegam que os segundos, contentando-se com fatos
desordenados, correm o risco de enganar a si mesmos. Todo
mundo conhece, hoje, o aparato espirita: das mesas que giram,
intervenção de um médium, psicografia, manifestações de
ectoplasmas, aos aparelhos eletrônicos (gravadores, televisores)
que fizeram sua aparição mais recentemente, em substituição
aos médiuns —a modernidade obriga...
O fenômeno espírita surgiu no século 19, nos Estados Unidos,
em pleno período do vôo do romantismo. Quando o ser humano
toma consciência da morte alheia, sente necessidade de
estabelecer um contato com ele ou ela, após sua partida —daí o
espiritismo. De lá, o movimento propagou-se por toda Europa,
e muitos estudiosos da Sociedade Real da Inglaterra, como
também da França e dos Estados Unidos, debruçaram-se sobre
a questão. Citamos, de memória, Sir Oliver Lodge, o coronel de
Rochas, Camille Flammarion, o professor Newbold, William
James, um dos pais do pragmatismo...
Se as tentativas de contato com os mortos sempre existiram,
o século 19 assistiu ao seu desenvolvimento em grande escala.
Hoje, curiosamente, há duas correntes espíritas que, por
lógica, deveriam se excluir mutuamente. Uma é adepta da
doutrina das reencarnações sucessivas; a outra, não.
Poderíamos questionar qual a razão dessa divergência de
opiniões, se a informação, afinal, vem realmente dos próprios

mortos. É que, na verdade, a questão não se deixa abordar
assim tão facilmente, e presume que se tenha respondido a
mais que uma simples pergunta: Podem os mortos realmente
falar com os vivos? Qual é o estado da alma depois da morte?
De qual natureza a consciência se reveste depois da passagem?
Sabemos hoje que 90% das manifestações de espíritos são
coisas de charlatães que querem somente abusar do público,
por dinheiro. Alguns médiuns famosos, como Edouard Kelley
e seu parceiro, John Dee, no final do século 16, depois de terem
produzido uns tantos fenômenos surpreendentes, foram pegos
depois em plena trapaça. E para se ver o quanto o terreno é
minado. Entretanto, restam 10% de fenômenos autênticos até
hoje inexplicados. Temos, então, o direito de perguntar: em
que consistem realmente esses fenômenos?
A questão do espiritism o é delicada. A experiência
demonstra que, a partir do momento em que se toca nas
possibilidades de contato com nossos entes queridos falecidos,
as reações adquirem postura passional. Aí então, a vontade da
pessoa vai se contentar mais em fazer perguntas do que em
questionar opiniões que, aliás, pertencem mais ao campo do
emocional que do racional.
Comecemos lembrando-nos da aventura de Ulisses, narrada
por Homero na "litada’. Na passagem da invocação dos mortos,
ele fala de "cabeças sem fo r ça s”. As sombras também parecem
ignorar a peregrinação dos vivos. Assim, a mãe de Ulisses, uma
das sombras invocadas, fica feliz ao saber que seu filho ainda
vive, como se esta informação não tivesse chegado até ela antes.
Do mesmo modo, testemunhos colhidos de pessoas que
afirmam ter feito contatos deixam transparecer que as almas

parecem singularmente voltadas para o passado. Aqui está
um relato surpreendente, de uma mulher que afirmava ter
tido vários contatos com os mortos: “Jú lia era um a velha
am iga de m inha mãe, um a am izade de lon ga data. Não sei
dizer com o se esta b eleceu o con ta to en tre nós. Não creio qu e
tenha sido eu, p orq u e nunca p en sei nela e não tinha nenhum a
cu riosid ad e nem interesse; f o i ela qu e se im pôs a m im . Ela
estava preocu p ad a e chorosa; p ed iu -m e para qu e eu entrasse
em con ta to com sua nora (viva) e qu e fo sse recuperar, em seu
ja rd im , p er to d e um a caban a, um p a c o te q u e ela tin ha
en terra d o , em b ru lh a d o em a lgu m a coisa branca. Caixa,
dinheiro, jóias, cabana e local, tudo m e f o i bem in dicado; eu
d everia recu p era r essas coisas. Co?no recu p era r essas coisas?
C omo resolver esse p roblem a ? “Vá ao en con tro dos vivos e digalhes q u e sua m orta lhes transm ite um a m en sagem ; eles vão n r
na sua cara e vão tachá-la d e louca. Mas é tam bém p ossível
qu e o atrativo do ga n h o os fa ça irem p rocu ra r nesse lo ca l”.
Mas só q u e o p rob lem a não f o i esse. A m eu ver, m esm o se
inventássem os aparelhos para contatar os m ortos, isto não daria
em nada. Os con h ecim en tos qu e os m ortos possuem são os que
eles tinham ao partir, e param aí, não avançam mais. Para
eles, há algu m a coisa d e estagnação, p ois Jú lia ignorava que
seu terreno tinha sido vendido, que p erten cia agora a um a outra
pessoa e que era im possível ir a té lá sem im ensas com plicações. ”
Assim, segundo esse testemunho e muitos outros, tudo
indica que os mortos existem em estado estático, no estado de
sua última obsessão. Parecem saber apenas do passado, como
se existissem em forma de memória. Para eles, o tempo parece
ter parado e os assuntos dos vivos lhes são desconhecidos. Mas
tratar-se-iam realmente de pessoas mortas ou de uma simples
vibração planando na atmosfera ambiente?

Veja este outro testemunho, de uma pessoa contatada por
uma senhora falecida havia alguns anos: “Vi a casa dela, tal
com o era antes de sua morte. Eu via tudo aquilo e ela m e falava;
estava preocupada com uns papéis que ela tinha escondido sob o
telhado de um a cocheira, atrás da casa. O curioso nesta história é
que a cocheira não existia mais, um trator tinha sido passado lá e
tinha nivelado tudo. Isso f o i fe ito depois de sua m orte; logo, ela
ignorava a coisa toda. ”
O espírita invoca, na maioria dos casos, a intervenção dos
mortos para explicar certas manifestações paranormais. Não é
uma conclusão um tanto precipitada, em vista do que outras
ciências conseguiram verificar? Aqui vão algumas pistas para
reflexão, que podemos indicar ao leitor imparcial e em busca
da verdade.
Que dizer das casas ditas assombradas, por exemplo? A
experiência provou que o pensamento dos seres vivos pode
impregnar tanto um lugar, que uma pessoa sensível pode,
depois de anos, captar as cenas que se desenrolaram ali.
Sabemos também que a emoção humana, em momentos de
violências intensas ou de traumatismos, é capaz de “carregar”
uma casa de vibrações desagradáveis, até mesmo, e sobretudo,
inconscientemente. A origem das manifestações de espíritos
causadores de ruídos ou “p oltergeist” situa-se quase sempre
nas emoções desgovernadas de deficientes mentais. Anos depois
da morte de uma pessoa, nada impede que as últimas obsessões
que ela tinha pouco antes de seu falecimento impregnem por
muito tempo o lugar de suas perambulações. Trata-se de um
fenômeno psíquico que nada tem a ver com a suposta presença
de um morto. O testem unho que se segue pode ser
interpretado dessa maneira.

“Vivi numa casa durante três anos. Muito antes da minha chegada,
havia no m eu quarto uma presença. Barulhos nas paredes, armános
habitados, todo m undo fech a va as portas instintivamente. Passos de
uma pessoa subindo escadas de madeira, quando, na verdade, elas
eram de cim ento coberto com tecido de tapete. D eslocamentos de
objetos... Cada manifestação importante precedia um acontecimento
marcante de nossa vida. Manifestação m uito fo r te antes da nossa
mudança, quando estávam osprocurando outra casa. Na ocasião da
assinatura do contrato da que tínhamos escolhido, tudo cessou. Mais
nenhum a presença fo i sentida, desde a assinatura até a mudança .
E que dizer da aparição de fantasmas (fenômeno bem mais
raro do que nossos espectros poderiam nos levar a crer, e
percebidos somente por pessoas muito sensíveis psi­
quicamente)? A alma, por definição, corresponde a um
princípio totalmente abstrato, que não tem nada a ver com a
m atéria. Dessa lei decorre que os ocultistas de várias
civilizações consideraram que deveria existir um mediador
sutil entre a alma e o corpo. Ele permitiria à alma agir e, assim,
animar seu invólucro material, no curso de uma vida. Com a
morte, esse intermediário, útil unicamente durante a vida
material, não teria mais, portanto, nenhuma razão de ser.
Sendo um princípio composto, assim como o corpo físico,
ele vai pouco a pouco se desagregando, para retornar à matriz
de onde saiu. O fantasma, quando percebido (não com os
olhos, mas através de um sentido sutil), corresponde, então,
simplesmente a uma concha vazia, a cuja existência os
cabalistas fazem referência, e que está em vias de de­
composição (provavelmente mais lenta, aliás, que a do corpo
físico). Isso não tem nada a ver com a alma de um morto.
Em todos os casos de intervenção com manifestações
materiais (pancadas, aparições), eventualmente poderíamos

pensar tratar-se de mortos recentes que ainda con serva ssem
alguns meios de ação na terra. Mas, depois de certo tempo, a
alma não volta mais à terra; ela rompeu as amarras. O astrônomo
Camille Flammarion, que estudou essas manifestações, extraiu
delas esta conclusão, entre outras: “A sapariçõese m anifestações
são relativam ente freq ü en tes nas horas que se seguem im edia­
tam ente ao fa lecim en to . Seu núm ero dim inui à m edida que se
vai afastando daquele m om ento, e atenua-se a cada dia que passa”.
As lendas populares muitas vezes im aginaram esses
fantasmas em form a de grandes lençóis brancos, arrastando
correntes. Tomo de outra pessoa a interpretação tão poética
dessas co r ren tes. Elas seriam o símbolo do apego desses
fantasmas às vibrações mais baixas da energia psíquica, tão
baixas que dizemos que eles estão “presos à terra”.
Podemos também questionar o perigo de uma invocação
dos mortos. Afinal, o que é chamado ou contatado? Ao lermos
os escritos espíritas, temos de admitir que, quando personagens
famosos são invocados, seus discursos parecem-se mais com
uma conversa no balcão do bar da esquina do que com a idéia
que fazemos do discurso de tal sumidade. O segundo elemento
que conseguimos perceber é que pessoas sob efeito de álcool
ou de drogas parecem ter a curiosa capacidade de interagir
com a experiência.
Relatórios de pesquisas psíquicas fazem pouco caso dos
conhecimentos transmitidos através de um médium. Ora,
acontece que, na sala, há sempre apenas uma pessoa que está
ao par dos fatos relatados, enquanto o assim chamado médium
os ignora. Disso se deduz geralmente a intervenção de um
morto, alguém próximo à pessoa em questão. Contudo, no
caso de contato através da consciência de um médium, antes

de inferirmos a presença de um morto, poderíamos n os
perguntar se aí não se trataria de um fenômeno de telepatia.
Enfim, o último tema que dá o que pensar, e que é menos
conhecido do grande público, está nas informações trans­
mitidas por pessoas mortas, admitindo-se que esse contato
realmente exista. Nós admitimos o fato de ser possível a uma
pessoa viva elevar-se até a alma de uma pessoa morta para obter
informações dela (isto não é a mesma coisa que a teoria espírita,
segundo a qual os próprios mortos é que descem até nosso
plano terreno). A experiência apresentada por institutos de
pesquisas psíquicas prova que os mortos referem-se, via de
regra, apenas a acontecimentos de seu passado terreno.
Curiosamente, eles nada dizem sobre sua experiência no além
e nem sobre uma projeção no futuro. Eles parecem mesmo
totalmente ignorantes do que se passa na terra, no presente.
Veja esse um testemunho relatado por Maeterlinck, no livro
"A M orte". O Dr. Hodgson fora um cientista, membro da
Sociedade Americana de Estudos Psíquicos. Após sua morte,
seus colegas tentaram, é claro, estabelecer contato com ele. Ao
longo de várias sessões, “ele” respondeu a várias perguntas mais
ou menos íntimas, e suas respostas pareciam perfeitamente
corretas. De repente, William James, eminente pesquisador,
perguntou-lhe: —"Hodgson, o qu e v o cê tem a nos dizer sobre a
outra vida?" O “contato”, então, mostrou-se vacilante em suas
respostas: —“Não é um a vaga fantasia, mas um a realidade” —
"Hodgson", insistiu a esposa de William James, “vo cê vive com o
nós, com o as pessoas?" - “Que f o i qu e ela disse?", respondeu o
espírito, parecendo não ter compreendido a pergunta. - “Você
vive com o nós?", repetiu William James. - “Vocês a í usam roupas,
moram em casas?", acrescentou sua esposa. —“Sim, casas, sim;
mas não roupas. Não, que absurdo! Esperem um pouco, tenho de

ir agora.” —“Mas v o cê vai voltar? ” —“Sim .” —“Ele f o i tom ar
fô le g o ”, disse um outro espírito, chamado Rector, que interveio
de repente.
Em suma, nada de muito convincente. Por que tanta
ignorância acerca do além? Outras pessoas já conseguiram
fazer os mortos falarem sobre o assunto. Mas as respostas
parecem-se mais com descrições de coisas terrenas que
qualquer pessoa viva pode fazer. Disso poderíamos inferir que
a experiência no outro plano é mais semelhante a um sono que
a um estado de consciência ativo. Os que estão lá em cima
desconhecem o que estão fazendo os daqui de baixo. Enfim,
poderíamos considerar que as personalidades desencarnadas
deixam de passar por experiências novas e que existem apenas
como memória.
Maeterlinck, que estudou bem o fenômeno espírita, faziase as seguintes perguntas em relação à natureza surpreendente
dos contatos. Por que eles escolhem essa maneira (essa forma
de relacionamento) ? Por que se limitam a isso? Por que ficam
tão obstinadamente acantonados na estreita faixa de terreno
que a memória ocupa, nos confins de dois mundos, e de onde
não nos podem chegar senão testemunhos indecisos e
suspeitos? Não têm, então, outras saídas nem outros
horizontes? Por que ficam tanto tempo vegetando ao nosso
redor, em seu pequeno passado, quando, desembaraçados da
carne, poderiam vagar livremente nas extensões virgens do
espaço e do tempo? Será que ainda não sabem que não é entre
nós, mas neles mesmos, do outro lado do túmulo, que irão
encontrar o sinal que nos mostrará que eles sobreviveram? Por
que voltam de mãos e palavras vazias? E só isso que se encontra
ao se banhar no próprio infinito? Tudo é nulo, sem forma e
sem luz do outro lado da nossa última hora? De que serve

morrer se todas as mesquinharias da vida continuam... ? Será
que realm ente vale a pena passar pelos assustadores
desfiladeiros que desembocam nos campos eternos, para
lembrarmos que nosso tio chamava-se Fulano e que Beltrano,
nosso primo, sofria de varizes e de um problema estomacal?
Poderíamos, então, pensar que os chamados espíritos
contatados sejam, na verdade, resíduos da passada experiência
desses seres, gravados naquilo que os ocultistas de antigamente
denominavam “luz astral”? A alma, por sua vez, bem poderia
estar muito além e incomunicável por esses meios. Lembre-se
da lenda que narra o contato entre Ulisses e Hércules. Ulisses
só consegue se encontrar com a sombra de Hércules, enquanto
o verdadeiro Hércules está lá no Olimpo, fora de alcance. Se
esse ponto de vista tem algum conteúdo de veracidade (e cabe
a cada um determiná-lo), os chamados contatos com os mortos,
portanto, parecem ser apenas quimeras. Que pensar, então,
daquelas pessoas que usam o sofrimento de lutos mal resolvidos
para fazer brilhar, num familiar pesaroso, a esperança de um
contato tão fugaz quanto ilusório?
Grande parte da incompreensão que existe acerca do
contato com os mortos reside na imprecisão do uso dos termos
comunicação e comunhão. Esses termos não têm o mesmo
sentido. Há entre eles a mesma diferença que existe entre os
conceitos de unidade e dualidade. Querer a todo custo ver em
certos fenômenos a prova da comunicação com o outro plano
eqüivaleria a considerar este último como sendo igual ao plano
terreno. Trata-se de uma persistência muito sutil das crenças
sobrevivencialistas, segundo as quais a vida no além é igual à
vida na terra. Na mesma ordem de coisas, a conscientização
da própria morte implica, para muitos, que esse eu, que nos é
tão caro, tenha de continuar sua existência de modo idêntico

no outro plano. O que está em cima não é igual ao que está em
baixo, mas unicamente “como” o que está em baixo. Como
poderia ser de outro modo?
O termo “comunicação” pertence, na verdade, à terra, ao
mundo da dualidade, das relações do eu e do tu. A palavra
“comunhão”, por sua vez, implica uma fusão, uma unidade
indescritível com o outro (ainda que, no retorno, a experiência
possa ser qualificada de “com unicação”). A noção de
comunhão casa-se magnificamente bem com a noção de
transição ou de mudança do estado da consciência. Nesses
domínios, o tempo e o espaço deixam de existir, como também
as noções de separação e de dualidade. A comunhão implica
uma elevação, da parte de quem deseja realizá-la, além do plano
das contingências materiais. Trata-se de um exercício espiritual.
Impossível resistir a citar aqui Ralph M. Lewis, antigo
dirigente supremo da AMORC: "Os Rosacruzes afirm am que a
fo rm a de consciência, se esta categoria de fen ô m en o existe após a
morte, é totalm ente diferente de tudo o que o ser hum ano jam ais
ex p erim en to u aqu i, en q u a n to m o rta l. E les a d ecla ra m
inexplicável. E im possível descrever, com palavras, um estado de
existência ao qual nada p od e se com parar na terra. O ser, declaram
eles, continua a existir, mas sua qualidade, sua natureza, difere
de toda im agem visível p ela consciência mortal. Isso não quer
dizer que o ser perca sua identidade, isto é, que ele se dilua
com pletam en te no Universal, tam bém denom inado o Cósmico.
E, antes, um a sensação nova de unidade com toda a realidade,
que é, quando m uito, uma experiência fu ga z para o ser humano,
e que só a experimenta aqui em baixo um pequeno núm ero de
m ortais*.

(u u iíc u e (f/i/ú /o /o i

do /nedo da /nozte
Dizer que a Velha Dama da Foice amedronta constitui quase
uma obviedade. Quando sua evocação se torna realista, muitas
pessoas, confrontadas diretamente com sua própria morte,
sentem necessidade de respirar mais profusamente, como que
para provarem a si mesmas que a vida as está animando e que
tudo nelas está funcionando bem. Como se a própria idéia da
m orte incitasse as células a inspirar mais profundamente essa
vida que circula através delas.
Parte do sofrimento sentido na perda de um ente querido
tem sua fonte no fato de que essa partida nos incita diretamente
a considerar, mais ou menos conscientemente, a nossa própria
m o rte. N o entanto, a morte, segundo nossos próprios
contemporâneos, não provocaria tanto medo assim. O que mais
inquieta o ser humano de hoje seria, sobretudo, todo o
sofrimento. Graças à mudança de mentalidade e à evolução
dos tratamentos analgésicos, logo poderemos erradicar a maior
parte do espectro do sofrimento físico, tornado inútil. De fato,
por que continuar a aceitar suportar tormentos atrozes, desde
que a dor já tenha sido levada em consideração, como
advertência?
Entretanto, sofrimento físico ou não, para muitas pessoas vai
continuar existindo o medo de morrer e ir ao encontro ou do
nada ou de um outro mundo. Vejamos, então, quais poderiam
ser as causas dessa angústia e quais seriam seus antídotos.

Bom número de n ossos tem ores poderia, em últim a análise,
ser imputado em parte àquela inquietude fundamental. Medo
de perder o emprego, de fracassar, de falhar, sentimento de
solidão, inquietude frente a mudanças, medo do escuro, falta
de autoconfiança, etc. Na maioria desses casos, o medo da
morte está à espreita em alguma parte obscura da consciência.
Assim, poderíamos tomar o caminho oposto a essa idéia,
adiantando que o verdadeiro medo que move muitos dos
nossos contemporâneos é, acima de tudo, o de viver. Vida e
morte estão indissociavelmente ligadas, inclusive na esfera da
inquietude. Suprima essa angústia e você volta a ter confiança
na vida. O melhor meio de superá-la consiste, primeiramente,
em tomar consciência de sua natureza e de sua fonte. Em outras
palavras, em lançar luz sobre ela.

os cristãos ou nas religiões monoteístas que o inferno assume
tal importância. O Oriente, tanto taoísta como budista,
imaginou centenas de formas para o inferno, do gelo ao fogo.
Outros povos desenvolveram em sua cultura idéias terríveis
sobre o além. Em geral, em todas as concepções, há sempre
mil vezes mais motivos para se acabar no fogo eterno do que
no jardim das delícias, e a culpa vai de arrasto. Nessas
condições, a pessoa essencialmente honesta não consegue
considerar que seu futuro seja no paraíso. Conhecendo a si
mesma e conhecendo as imperfeições latentes de todos os seres
humanos, ela seguramente visualiza
uma pequena estada no

coração das fornalhas do Hades. E tão espantoso, então, que
ela tenha medo da morte?

Um dos primeiros motivos que torna a passagem tão
assustadora tem origem no medo do desconhecido. Uma
mentalidade geralmente inquieta desenvolve a tendência de
projetar toda sorte de fantasmas mais ou menos deliberados
no desconhecido. Imaginado como um lugar sombrio, ele se
povoa, então, de criaturas informes e, de preferência,
am eaçadoras. Teias de aranha e outros obstáculos impedem o
acesso a ele. Se tivesse tido essa atitude medrosa, Cristóvão
Colombo com certeza nunca teria tentado fazer sua viagem à
índia. O vasto oceano representava então o desconhecido mais
hermético. Pensar no misterioso com angústia acaba sendo o
mesmo que fazer uma aposta audaciosa em sua natureza. A
origem de muitas superstições situa-se quase sempre nesse tipo
de atitude. Veremos, porém, que o desconhecido pode ser
encarado de outra maneira.

Elisabeth Kübler-Ross relata a história de uma menina
sofrendo de câncer e que não “podia” morrer. Procurando
solucionar a situação, ela perguntou: “L., há algum a coisa que
não deixa v o cê partir? Parece que v o cê não con segu e m orrer e eu
não consigo im aginar o porquê. Quer m e con tar?”. Com visível
alívio, ela m e respondeu: “Sim. Eu não posso m orrer porque não
posso ir para o c é u ”. Afra se m e causou um choque, e pergu nteilhe se ela já tinha ouvido alguém dizer algum a coisa parecida.
Ela m e respondeu que os padres e outros religiosos que vieram
vê-la muitas vezes disseram -lhe que a pessoa não vai para o céu
quando não ama a Deus sobre todas as coisas. Reunindo suas
últimas forças, ela se ergueu, passou os bracinhos m agros em volta
do m eu p escoço e sussurrou, com o que para ser perdoada: “Sabe,
o que eu am o mais que tudo ép a p a i e m am ãe”. Depois de uma
sólida explicação para restabelecer a verdade, com a ajuda d e
parábolas, L. m orreu em paz p ou co tem po depois".

As idéias de inferno ou paraíso levaram muitas pessoas, ao
longo dos tempos, a temer o desfecho final. E somente entre

O sentimento de que resta algo a ser feito neste mundo, o
sentimento do inacabado, também não facilita em nada a

passagem. Enquanto tudo não está consumado numa vida,
em consonância com a própria consciência interior, o
sentimento de paz é dificilmente imaginável. A disponibilidade
mental é necessária para tornar menos terrível a morte. Podese, aliás, somar a tudo isso a angústia da separação ligada à
perda do contato afetivo com os entes queridos.
Um outro tipo de perda tem origem ainda mais profunda,
ligada ao sentimento humaníssimo da identidade. O ser
humano, produto de uma evolução milenar, tanto do ponto
de vista do corpo como da alma, desenvolveu uma autoconsciência. Observando o corpo de um morto, os indícios
desse “eu sou” parecem ter desaparecido. Bem poucos seres
humanos aceitam imaginar o desaparecimento desse eu a que
eles tanto se apegam. Raros são os que poderiam se contentar,
para o futuro, com a imagem de uma fusão num todo coletivo
ou universal. O tormento que pode sentir alguém que imagine
a morte como um acesso ao nada pode, conseqüentemente,
ser considerado concomitante ao medo de perder a identidade.
Há, na verdade, dois instintos de sobrevivência que recorrem
a um medo natural em caso de perigo, a fim de permitir uma
fuga ou uma ação salvadora. O primeiro está associado ao corpo
e ao impulso irreprimível, de cada uma de nossas células, para
conservar e expandir sua existência. O instinto de sobrevivência
física é compartilhado por todos os reinos da natureza, e se
exprime diferentem ente segundo sua natureza e suas
características. Há, ainda, um outro instinto de sobrevivência,
ligado à psicologia e relativo à autoconsciência. Assim como a
vida das nossas células procura se expandir, o eu procura
constantemente progredir e anexar cada vez mais capacidades
a si mesmo. Seu sentimento de existir aumenta, então,

proporcionalmente às consecuções que resultam de seus
esforços. Logo, esse eu vai se recusar a morrer e verá o desfecho
final com inquietação. Ele vai se debater até o fim e isto acabará
provocando angústia.
Depois dessas rápidas pinceladas sobre a angústia diante
da morte, nada mais construtivo que considerar os possíveis
meios de se precaver contra ela. O primeiro método consiste
em encarar de frente a morte e sua angústia. Tomar consciência
de um fenômeno é, de certo modo, exorcizá-lo e tirar dele um
pouco de sua força desarmonizadora. Trata-se de defender a
atitude inversa à do mundo moderno que, apesar de algumas
mudanças terem ocorrido em algumas camadas da população,
continua a ocultar a morte. Ao mesmo tempo em que se
desenvolve o acompanhamento no fim da vida, o Dr. X
apresenta uma pílula anti-envelhecimento, à base de secreções
supra-renais. O velho sonho da ciência em busca a imortalidade
está relançado.
Sejamos lúcidos e adultos. O ser humano nunca vai vencer a
morte por meios materiais. No máximo, conseguirá retardar seu
desfecho. Além do mais, seria isso desejável? Imagine, por um
instante, que você fosse presenteado com a imortalidade neste
mundo. Todas as manhãs, eternamente, você teria de se levantar
e ir trabalhar. Sua possível aposentadoria teria igualmente uma
natureza infinita. Você poderia explorar o universo material, mas
sendo este limitado, a exploração e o sentimento de novidade
chegaria forçosamente ao fim. Reproduzir eternamente os
pequenos atos banais do cotidiano... Seria mesmo tão divertido?
Cedo ou tarde, o tédio não acabaria se instalando, transformando
em inferno essa vida pela qual o agonizante tantas vezes tem os
mais ardentes desejos? Se, no limitado período de setenta e
cinco anos, a maioria das pessoas se acomoda numa mesmice,

como se comportariam elas se tivessem um infinito de tempo à
sua frente?
A ciência afirma que urna única bactéria, sob condições
favoráveis, poderia, em oito dias, sintetizar uma massa de
matéria viva igual à da terra. A realidade, porém, é que ela
sempre se depara com limites. Se o processo não tivesse fim,
não haveria mais nenhuma matéria para produzir células vivas.
A vida, portanto, deve se nutrir da morte. Para que a existência
se tornasse eterna, seria preciso também que todas as causas
de doenças ou de acidentes fossem erradicadas. Estamos longe
disso. Por conseguinte, ao invés de considerar a morte como
uma horrível fatalidade, a humanidade poderia concebê-la
como uma lei natural portadora de sentido e propósito, na
manutenção do equilíbrio universal. Assim, ela se reconciliaria
com uma parte da natureza.
O segundo antídoto do medo age sobre as idéias religiosas
ou supersticiosas que circulam a respeito da vida depois da
morte. Não há nenhum inferno e nenhum paraíso depois da
morte. O único lugar onde o ser humano pode experimentar
essas condições é na terra. Para imaginar um sofrimento no
além, mesmo que de ordem espiritual, teríamos de admitir que
a consciência lá é a mesma daqui. Ora, as condições em que
nossa consciência evolui, definitivamente, não são semelhantes.
Não há mais nem corpo físico nem sistema nervoso cérebroespinal ou autônomo. Como, então, conceber a consciência
futura de outro modo que não o desconhecido?
Temer o desconhecido é entregar-se prematuramente a uma
idéia negativa, em vez de uma outra. A priori, o desconhecido
possui natureza neutra. Ele não é nem positivo nem negativo,
justamente por ser desconhecido. Disso decorre que nada nos

impede de abordá-lo com confiança e serenidade. Por que ter
medo do urso escondido em sua toca, sem ter sido atacado por
ele? Não é apostar um tanto precipitadamente numa suposta
natureza agressiva, quando as próprias crianças fizeram dele
seu melhor companheiro?
Na verdade, trata-se aqui de operar uma verdadeira alquimia
mental. Há milhares de anos, os seres humanos têm oscilado
entre a aceitação de superstições que correm a respeito do reino
invisível e a rejeição pura e simples, considerando-o como um
nada. Quaisquer que sejam as opiniões que os seres humanos
tenham a seu respeito, elas em nada mudam sua verdadeira
natureza. O que pode mudar é a atitude mental que temos em
relação a ele. Nem terror nem fascínio, mas nada impede que
uma atitude de serenidade torne-se um fato no horno
duplamente sapiens.
E depois, façamos por um instante o papel de advogado de
uma visão pessimista: do que é que temos medo, afinal? O
nada que se afigura no horizonte do materialismo não seria
mais vantajoso do que vidas e vidas de sofrimentos inumeráveis,
de nascimentos no sangue, de mortes em espasmos, de
preocupações incessantes, de pesares e de fracassos? O medo
da morte é um luxo dos que vivem no conforto, suficientemente
cegos ou sem compaixão para não verem o sofrimento deste
mundo. Buda ensinou que tudo é sofrimento. (Este é, aliás,
um dos principais artigos de fé do budismo: a realidade do
sofrimento e a possibilidade de seu fim, no nirvana). Só a
familiaridade pode nos fazer esquecer esse fato. Mas o budismo,
que ensina a doutrina da vacuidade, não se juntaria ao
materialismo? Que diferença há entre determinada concepção
da vacuidade e o nada? O materialista não deveria temer a
morte, já que ela conduz ao nada.

Mas outros métodos contribuem igualmente para diminuir
o medo da Velha Dama. Poderíamos considerar, como no
século 17, que cada dia pode ser o último, cultivando o
sentimento de que fazemos o melhor que podemos, em
consonancia com nossa consciencia. Elisabeth Kübler-Ross,
que dedicou sua vida ao acompanhamento de agonizantes,
explicou que o tema da morte devia ser abordado desde a
infancia, ñas escolas.
As crianças são geralmente mais maduras do que pensamos.
A atitude do ser humano frente à própria morte não se decreta
do dia para a noite; ela resulta de uma cultura e de uma longa
maturação que tem origem na infância. Não é tanto uma prova
de morbidez quanto de familiaridade com ela. Ao contrário,
trata-se de se impregnar da evidência de nossa mortalidade e
disto tirar resultados em termos de qualidade de vida. Via de
regra, as pessoas que chegam perto da morte transformam suas
concepções da vida. Quem sabe se parte da intolerância não
provenha do esquecimento do inelutável desfecho para todos?
Por outro lado, quem procura viver de maneira construtiva,
com o sentimento constante do dever cumprido, está sempre
pronto, sem o saber. Quando sua vida desfila ante sua
consciência, ele confia nela e, depois de se despedir de sua
família, pode partir em paz. Do mesmo modo, quem orienta
sua vida para o próximo dá menos importância à perda de seu
ser pessoal.
Para terminar, se você quiser métodos ainda mais radicais,
lembre-se dos tibetanos. Todos os dias, seus lamas fazem uma
meditação sobre a morte e alguns se visualizam na forma de
um esqueleto. Um tratado samurai, o “H agafyirê”, expressa-se
de modo bem marcial:

“Todo dia aguarda a morte, afim de que, quando a hora chegar,
possas m orrer em paz. A desdita, quando vem, não é tão m edonha
quanto se c r ê ... Trabalha, toda manhã, no sentido de acalm ar tua
m ente, e im agina o m om en to em que talvez p o s s a s s e r dilacerado
ou m utilado p or flechas, afogado p or enorm es ondas, lançado às
chamas, fu stiga d o p o r um raio, soterrado p o r um terrem oto,
caindo num precipício, ou em que estejas m orrendo doente. Morre
em pensamento, toda manhã, e nunca mais terás m edo de morrer. ”

¿Szeve óictfeu/o da a/ma
Seria possível falar da morte sem procurar compreender a
natureza da alma? Foi respondendo negativamente a essa
pergunta que a idéia deste capítulo se impôs. Difícilmente se
conseguiria apreender o fenômeno da separação entre a alma
e o corpo, sem se ter definido o que o termo “alma” encerra,
de onde vem ela, de quais ingredientes é composta, etc.
Quando se começa a pensar no assunto, logo se percebe
que a alma não se deixa desvendar facilmente. Os diversos
pensadores que já se expressaram sobre o tema deixaram, cada
qual, uma doutrina diferente. Os povos e as culturas parecem
igualmente ir no sentido de urna patente divisão. De simples,
o assunto vai se tornando cada vez mais complexo, à medida
dos estudos. A origem de sua diafaneidade artística está no
fato de o tema da alma constituir uma abstração por excelência.
A alma não se deixa capturar. Sobre ela, comentou um
cirurgião: “Nunca encontrei a alma sob a lámina do m eu bistu rí’.
No entanto, o termo é usado habitualmente por todos,
materialistas e espiritualistas, com diferentes acepções. Para os
primeiros, ela corresponde a um construto mental que não
possui substancia própria, ou, então, eles a isolam no campo
da psicologia (que vem â ep sych é, um dos termos gregos para
“alma”). A psicologia humana é o resultado da evolução das
faculdades de seu cérebro material, num dado ambiente
cultural, social e familiar.
Num pequeno tratado sobre a alma, naturalmente só se pode
abordar a questão psicológica de forma resumida. No alvorecer

da consciencia humana, o tema certamente não era tão
complexo. Os primeiros seres humanos da pré-história
descobriram uma dimensão invisível em seu ser, provavelmente
por intermédio de seus sonhos ou observando seu sono.
Tomando consciência da morte de seus companheiros, eles
imaginaram a sobrevivência de um princípio invisível a que
deram o nome de “alma”, pois era desse princípio que o corpo,
assim acreditavam eles, extraía sua energia, seu calor e sua
consciência. Mas nessa remotíssima época, o ser humano era
concebido apenas como uma dualidade, isto é, uma alma
invisível que impregnava um corpo físico.
Encontramos em Platão essa mesma concepção dualista da
natureza humana. Nessa época, a alma era concebida, entre os
gregos, como um alento oupneum a. Depois, esse princípio se
tornou gradualmente mais complexo. A palavra “alma” vem
do latim anim a, que significa “alento’ ou “ar” e que remonta à
palavra sánscrita aditi ou “ele respira”. O latim distinguía um
princípio superior masculino, denominado a nim us, e um
princípio feminino, anima ou “a alma” propriamente dita. A
palavra anim us foi mais tarde rivalizada por spiritus.
Assim, de uma concepção dualista do ser humano, a
civilização passou a uma idéia de trindade: espírito, spiritus;
alma, anim a; e corpo físico. Os gregos desenvolveram uma
compreensão paralela. Pneum a significa “alento espiritual” e
abrange a noção de espírito. A divina e toda feminina p sych é
abrange a anim a, na qual C. G. Jung viu o arquétipo da mãe.
Os filósofos gregos desenvolveram, então, noções do ser
humano com dois, três e até quatro níveis, como o fez Platão
em sua “R epública”. Com os progressos da análise intelectual,
outras concepções nasceram, como as de Tomás de Aquino ou

as dos escolásticos da Idade Média. Para eles, três divisões
compunham o mundo anímico: a alma vegetativa, que comanda
as funções de nutrição e reprodução; a alma sen cien te, que
governa os cinco sentidos físicos; e a alma racional, vinculada
ao intelecto e às emoções superiores. Os Pais da Igreja, como
Orígenes ou Clemente de Alexandria, retomaram, por sua vez,
os princípios de Plotino, que dividia os seres humanos em três
grupos: sensíveis, racionais e inteligíveis.
A posição oficial da Igreja Católica de hoje faz da alma o
princípio espiritual por excelência, graças ao qual o ser
humano torna-se imagem de Deus. Acrescenta, ainda, que
ela veicula a vida e a personalidade humana. Aqui, o homem
é realmente concebido como um todo, e essa unidade é tão
profunda que a alma é considerada como tendo a forma do
corpo. A originalidade desse dogma está em que essa alma
não morre com o corpo, mas voltará a se unir a ele no dia do
Julgamento Final do Cristo ou da ressurreição dos corpos.
Nessa concepção, reconhece-se uma espécie de dualidade
entre a matéria e a alma. Não obstante, o ser humano só pode
ser concebido como uma unidade reencontrada. Eis por que
a vida da alma depois da morte não pode ser imaginada senão
como um sono. Essa é toda a ambigüidade da posição cristã,
que oscila entre uma visão saducéia da alma e uma concepção
platônica.
Na África, diz-se que há no ser humano um ou vários
princípios espirituais. Na morte de uma pessoa, sua alma ou
nia (o duplo) não morre. Ela guarda sua personalidade
eternamente, leva uma vida independente e pode transmigrar
para qualquer corpo. Consulta-se o ancestral, através de seu
nia, para pedir conselhos.

Entre os bambaras, a ni ou alma é distinta do dya ou duplo,
que é como a sombra da pessoa. A ni viaja durante o sono.
Mas há também dois outros princípios: o terê ou caráter —
eventualmente maligno —e o wanzo ou mácula, produto de
uma espécie de pecado original. Esses princípios circulam no
corpo por meio do sangue ou até da saliva. No momento da
morte, dya volta à água com Deus, enquanto m\ pelo sacerdócio
do chefe da família, integra-se ao altar da família. Juntos, dya e
ni podem reencarnar num recém-nascido.
Os d o gõ es diferenciam a sombra estúpida da sombra
inteligente (o anjo mau e o anjo bom, respectivamente). Alguns
povos africanos estimam que todos os seres vivos possuem
quatro almas: a clara, a opaca, a invisível e o espírito. Já os
iorubas contam apenas três. Na República Democrática do
Congo, a parte da alma que permanece em contato com o
mundo é a sombra. Uma outra parte pode perambular: é a luz
do olho. Uma terceira parte pode se situar na orelha. Para os
quicuius, uma das duas almas retorna aos ancestrais, enquanto
a outra, símbolo do espírito da família, reencarna numa criança
da comunidade. Na África do Sul, o alento e a carne são
distintos. Na índia, existem concepções em sete níveis, e é na
tradição cabalística que o Oriente foi mais longe em termos de
análise e complexidade.
Mas tudo isso pode passar uma imagem falsa de uma
evolução linear das concepções, no curso da História. Na
verdade, o corpo completo das idéias mais elevadas foi elaborado
nas antigas escolas de mistérios da índia e do Egito, há milhares
de anos. O restante foi composto pelos comentários de mestres
mais ou menos talentosos e mais ou menos ligados à antiga
tradição. Os escolásticos da Idade Média inspiraram-se em

Aristóteles, que foi discípulo de Platão. Aristóteles postulou
que a alma era dotada de três qualidades: a vegetativa, a
senciente e a racional. Os Pais da Igreja parafrasearam os
neoplatônicos. Os próprios muçulmanos inspiraram-se nos
filósofos gregos, nos judeus e nos cristãos que os precederam.
Os d ogões, por sua vez, afirmam que sua origem encontra-se
no Egito antigo.
Platão, no Livro IV da “R epública”, apresenta uma grade
de leitura da alma em três partes ou domínios. Esses domínios,
segundo ele, devem ser relacionados às divisões da sociedade
ideal: religião ou filosofia, justiça e economia. Assim, ele
distingue na alma o elemento racional, o sensual e o irascível.
Ao primeiro, ele associa os aspectos superiores da alma, que
levam à pratica da virtude e à busca da beleza e da harmonia
em todas as coisas. O domínio da sensualidade é o dos instintos
e dos desejos fundamentais, que podem ficar entregues a si
mesmos. Finalmente, o elemento irascível, que corresponde à
justiça e à cólera, auxilia a razão em sua missão de manter os
desejos no caminho certo. Se o elemento racional aconselha, é
o irascível que leva a rejeitar as tentações dos desejos ilegítimos,
no indivíduo e na sociedade.
Através dessa aparente mixórdia de doutrinas, é possível,
no entanto, encontrar uma constante no tema, mesmo
abordado por diferentes povos. Em primeiro lugar, a alma pode
ser concebida como masculina ou feminina, ativa ou passiva.
Os chineses têm uma concepção dupla: sen , o gênio, e chue,
que formam os desejos mais molestos. Esses dois princípios
remontam ao Yin positivo e ao Yang negativo. A alma pode ser
também intelectual ou instintiva, ativa ou vegetativa. Pode
aparecer na forma do pássaro Ab, no Egito, e da sombra. O

princípio superior é o único que se eleva ao céu, enquanto a
sombra continua em contato com a terra. Por extensão, ela pode
ser considerada ou perfeita ou em devenir. Os grandes
princípios que ela contém são a inteligência, sob forma
consciente ou vegetativa, e a vitalidade. Disso pode-se inferir
que a mesma alma pode ser dividida no sentido horizontal
(positivo-negativo, masculino-feminino, direita-esquerda) e no
sentido vertical (superior, perfeito, sombra e devenir).
A sede da alma vegetativa supõe-se geralmente estar no
fígado ou no sangue (o fígado é o principal local de elaboração
do sangue). É assim na África do Norte e na Sibéria. Os povos
dessas regiões consideram os ossos como o local de circulação
da alma sutil, cuja sede seria o coração. Algumas vezes,
acontece uma inversão de símbolos, mas, via de regra,
encontramos a constante osso, sangue, alento e coração como
suportes das diversas partes da alma. Entre os maias quichés e
os índios naspaki do Canadá, a alma sai do corpo pela boca.
Igualmente, um ritual importante no Egito antigo era “a
abertura da boca”, depois da morte. Aristóteles, que se apoiava
na experiência, situava a sede da alma no coração, ao passo
que seu mestre, Platão, a colocava no cérebro. Ao longo da
história, figuras ilustres como Leonardo da Vinci e o filósofo
Descartes entregaram-se à tarefa de determinar o local da sede
da alma. Suas pesquisas sobre o cérebro permitiram aos
trabalhos mais modernos estabelecerem suas conclusões. Hoje,
tudo indica que o local privilegiado de contato entre o corpo e
a consciência da alma pode ser o cérebro médio ou diencéfalo.
As glândulas hipófise e epífise, o hipotálamo e o tálamo fazem
parte do diencéfalo. Juntos, eles possuem um controle
importante sobre o sistema neurovegetativo. Seu papel no
controle do estresse, por exemplo, já foi evidenciado. O mesmo

já foi feito no tocante à influência da exposição à luz e seu
efeito sobre a pineal (epífise), que atua sobre os ritmos vitais
do corpo. A função do tálamo é igualmente importante na
consciência e nas reações emocionais do indivíduo.
Voltemos à alma propriamente dita. Geralmente ela é
associada à sombra, à imagem e ao nome, como, por exemplo,
entre os africanos ou os índios da América do Sul, e até entre
os delawares. A sombra corresponde à parte da alma passível
de evolução. Na China, a lenda dos Imortais explica que estes
não têm mais a sombra. Isso indica que, tendo atingido a
perfeição, a luz circula livremente através deles, sem ser
ocultada. A sombra é, portanto, uma projeção imperfeita do
plano divino na terra. Ela corresponde àquilo que deve ser
purificado no ser humano. Para C. G. Jung, são esses os traços
de caráter inferiores reprimidos e que podem se manifestar
através dos sonhos. Entre os zelandeses, a alma ou alento
denomina-se waidoua. No momento da morte, a parte mais
pura de waidoua eleva-se às regiões de glória, enquanto a parte
impura precipita-se nas trevas.
Simbolicamente, a alma pode ser representada por uma
borboleta, um pássaro, uma fita, uma corda ou um espectro.
Mas há também uma alma do mundo que se supõe vivificar o
universo. E ela que regeria o movimento dos astros. Os Antigos
transformaram-na no éter. Diga-se, de passagem, que nossa
ciência não conhece a natureza da força de atração que rege o
movimento dos planetas, apesar de conseguir mensurá-la.
Prossigamos, agora, apresentando as concepções caba­
lísticas. Essas idéias baseiam-se na frase bíblica: “Deus fe z o
hom em do húm us da terra, insuflou n ele o alento de vida e o

h o m em to rn o u -se alm a v ív e n t e ”. Os hebreus cabalistas
representam a alm a segundo três princípios, que são:
neschamah, a parte divina ou espiritual do ser humano, m a ch ,
que corresponde ao alento de vida ou dimensão vital, e nephesh,
que é a alma viva ou parte terrena da humanidade.
Assim, “D eus fe z o h o m em ” corresponde a n escham ah,
“insuflou n ele o a len to ” é traduzido por ruach, e o homem
tornou-se n ep h esh , a alma vivente. Esses três princípios
correspondem, portanto, ao espírito, à alma e ao corpo dos
romanos e gregos. Papus (o Dr. Gerard Encausse), no início
do século 20, acrescentou que cada um desses componentes,
por sua vez, divide-se em três partes, todas elas formando um
único indivíduo. Assim, a parte corporal do ser humano
{nephesh) possui uma consciência, uma vitalidade e um corpo
que é a matéria. A parte vital (ruach) possui uma consciência
que dirige o funcionamento vegetativo dos órgãos. E ela que
os vivifica com sua energia e, segundo os cabalistas, possui um
corpo. Do mesmo modo, a parte divina (neschamah) é composta
de Alma Universal, consciência divina e corpo espiritual. Se
neschamah é o domínio da inteligência do coração, ruach é o
dos instintos que o ser humano deve subjugar. A árvore
cabalística das sephiroth fornece uma imagem dessa concepção
da alma. Por sua vez, a via tradicional da Rosacruz aborda, de
forma muito mais exata e detalhada, essa constituição oculta
do ser humano, em nove princípios.
Passemos agora à concepção desenvolvida por Sri
Aurobindo, famoso mestre hindu do início do século 20. Esse
filósofo incontestável exprimia-se através de idéias bem
próximas às da cabala, apesar de sua terminologia ser um pouco
diferente. Para ele, a alma se divide em três partes: a mental, a

vital e a física. Cada uma dessas divisões, por sua vez, é
composta de três subprodutos. Há o mental no mental, o vital
no mental e o físico no mental. Depois, o mental no vital, o
vital no vital, e assim por diante. Assim como na cabala, não há
uma separação nítida entre cada um desses reinos, mas, sim,
uma interpenetração progressiva. O domínio do mental puro
está vinculado aos aspectos mais elevados do ser humano. Sua
parte vital corresponde à mentalização dos desejos, quando
estes atrapalham a reflexão objetiva ou quando são sonhados
mentalmente, ao passo que a parte mental do vital corresponde
a uma temporização do desejo pela razão. O domínio do vital
puro é o dos instintos e desejos gerados pela própria natureza
da força vital. Se tudo isso parece muito complicado à primeira
vista, o olhar experiente pode ver aí correspondências com
experiências bem concretas.
Na índia, as almas humanas são consideradas como
imanentes da Alma Universal e Suprema, como inumeráveis
centelhas brotando de um fogo imenso. Mas, nunca nasceram
e, portanto, não podem morrer. Elas vêm de Brahman e
retornam a ele. Sua essência é a da Divindade que, por
conseguinte, dota-as de inteligência, razão, sensibilidade e
imortalidade. Segundo os hindus, a alma pode experimentar
cinco estados em seu contato com o corpo.
1. O estado de vigília, no qual está ativa sob a direção da
Divindade.
2. O estado de sonho, ilusão intermediária entre a vigília e
o sono, no qual pode ter premonições.
3. O estado de sono profundo, no qual ela está como que
mergulhada na Essência Divina, até voltar a imprimir sua ação
no corpo.

4. O estado de desfalecimento ou de insensibilidade, ponto
medio entre o sono e a morte, no qual a alma fica tempo­
rariamente separada do corpo.
5. Finalmente, o estado de morte, no qual a alma deixa
definitivamente seu involucro material.
O filósofo Plotino, nascido no Egito por volta do ano 203,
apresentou uma concepção da alma que exerceu importante
influencia em todo o Ocidente, tanto cristão como muçulmano.
Ele foi o fundador da filosofía neoplatonica. Em sua “Enéade”,
ele aborda o assunto de maneira bastante completa. Segundo
ele, a alma corresponde a urna substancia imortal e invisível,
intermediaria entre o mundo sensível e o das idéias arquetípicas.
Ele a considera como a última das divindades. Saída do Deus
Supremo, ela produz o mundo engendrando o tempo, em
relação com a Justiça Universal. Portanto, ela é a causa primeira
de todas as coisas.
A alma não fica completamente encerrada no corpo, mas,
ao contrario, contém todos os seres ao mesmo tempo,
permanecendo sempre idêntica a si mesma. E ela que fornece
o corpo, ordenando a matéria na qual se infunde. Ela, então,
individualiza-se, mas essa particularização resulta do subemprego de sua forma primeira. Algumas faculdades da alma
atuam, portanto, em algumas pessoas unicamente em função
das diferenças de corpo e órgãos. A alma age sem reflexão, em
função de sua natureza própria e imperativa.
O vício e a maldade das almas têm seu lugar na perfeição
do universo e contribuem para seu equilíbrio. Mas a alma imóvel
é um ser absolutamente simples, que não é responsável pelas

faltas cometidas pelo ser humano. O culpado é, na verdade, o
objeto mais ou menos iluminado por ela; um ser composto de
alma e corpo, que vive tão-somente por ela e com ela. E, assim,
a alma recebe seu quinhão segundo as escolhas que faz, sem o
menor acaso.
A alma dos sábios subjuga o corpo, elevando-se sobre as
contingências materiais. Sua purificação, pelo sábio, consiste
em isolá-la do corpo. Sem a alma superior e perfeita,
acompanhada da razão que ela confere, o ser humano ficaria,
portanto, sujeito ao destino cego. Ela entra no corpo no
momento oportuno, por meio de uma atração irresistível ou,
melhor, apenas sua natureza mais audaciosa, imprudente e
maldosa contém o corpo, enquanto a parte superior permanece
em contato com o domínio dos arquétipos. Portanto, também
em Plotino encontramos essa divisão da alma, em superior e
inferior, em única e múltipla.
Segundo Plotino, a alma é semelhante a raios luminosos
emitidos por um ser. Sua natureza é propriamente luminosa e
ela faz nascer uma obscuridade nos limites de sua luminosidade.
Ela dá, então, uma forma a essa obscuridade, que corresponde
ao corpo. Ela se sente feliz somente em sua relação com o bem
com o qual vibra em afinidade, consumindo-se de desejo por
ele. Toda sua função visa guiar o ser humano, ensiná-lo e
iluminar seu pensamento, dirigindo-o no caminho do bem,
do justo, do belo e do verdadeiro. Em suma, para Plotino, a
perfeição da alma consiste em se tornar semelhante aos deuses
pela prática das virtudes superiores.
Enfim, e isto encerrará este tratado da alma, diversas culturas
imaginaram o momento em que a alma se encarna e toma posse

de seu corpo. Aliás, parte das proibições relativas ao aborto
provêm desse debate. Para os cristãos, embora não saibam ainda
claramente se a alma é criada ou preexistente ao corpo, admitese de modo geral que ela está presente desde o primeiro
desenvolvimento das células fetais.
O budismo tibetano, pelos lábios do Bardo Thõdol, afirma,
no Bardo do devenir, que a alma penetra no corpo no momento
da concepção: “E nessas con dições que tu penetras na matriz e,
no exato instante em que o óvu lo e a sem ente se encontram , sentes
a alegria inata e, nesta felicida de, desfaleces”.
Mas as tradições esotéricas têm uma posição muito mais
lógica, que resulta do próprio conceito da alma. Elas partem
do princípio de que a alma, como princípio vivificante, é aquilo
que realmente dá autonomia ao corpo. Em outras palavras, ela
só pode se introduzir no corpo no instante da primeira
respiração. Antes desse momento, o corpo da criança é
vivificado e nutrido pelo corpo, pelo sangue, pela respiração e
pela alma de sua mãe. Ele não possui nenhuma autonomia. O
conceito de pessoa é um absurdo ao se referir ao feto, pois esse
corpo ainda por nascer não possui nenhuma das características
autônomas. Como analogia, poderíamos usar a imagem de um
carro. Que é ele de fato? Um amontoado de ferragens, dotado
de rodas, motor e volante? Na realidade, um carro só é
realmente digno deste nome quando a energia que lhe permite
deslocar-se e o seu condutor estão presentes. Antes disso, ele
não passa de um conjunto de lâminas de ferro e plástico mais
ou menos bem modeladas.

0 7 m ozie: co/npazaçõe)
com o sono e o najc¿/nen¿o
O sono e a morte
“B em -aventurados os humildes, porque verão a D eus”.
O Sermão da M ontanha, Evangelho de Mateus

Quem não ouviu, alguma vez na infância, alguém lhe dizer,
para tranqüilizá-lo: "Morrer éco m o dorm ir”} Essa comparação
entre a morte e o sono é muito difundida no planeta. H ipnos, o
sono, cujo filho chamava-se M orfeu, era irmão de Tanatos, a
morte. Alguns muçulmanos chamam o sono de "a pequena
m o rte”. Entre os cristãos, a morte era considerada um sono da
alma. Quando você ouviu essa comparação pela primeira vez,
provavelmente achou a imagem bonita, mas sem realidade e
sem importância. Pois, sim!
Os tibetanos consideram que há seis bardos ou estados
intermediários, dos quais dois pertencem à morte, sendo os
outros três o da meditação, o do sono e sonhos, e o do
nascimento. Poderíamos acrescentar também os estados
intermediários que adornam a vida nas diversas transformações.
Dessa constatação bastante geral, veio a idéia de comparar
todos esses estados intermediários ao da morte. Por que e como
o sono pode ser seu irmão? Se a morte representa uma porta
para o espírito, então, o nascimento conduz para o mundo.
Em quê possuem eles um ar de parentesco?

Estabelecer essas comparações poderá parecer sem
significação para alguns, enquanto, para outros, assumirá um
caráter bem eloqüente. Seja como for, devemos faze-las.
Muitas culturas comparam o sono e a morte, mas raros são os
exploradores que ousam “ir lá ver”, de maneira mais direta e
sistemática.
O que se segue provavelmente não tem um suficiente valor
científico para a inteligência zelosa de exatidão; todavia, as
comparações aí estão, muito significadvas. Basta se deixar levar.
Agora, se você quiser saber mais, siga o guia e comece a
entranhar-se no reino do sono.
Imagine que você se transportou para 35.000 a.C. Você
está numa choupana de sapé. E noite. O fogo acaba de se
apagar. Entretanto, ainda restam algumas brasas rubras na
fogueira. Perto dela, há dois homens deitados, que
apresentam traços parecidos com os do homem moderno.
Eles estão vestidos com peles de animais. Um deles dorme.
Seu tórax sobe e desce regularmente, no ritmo de sua calma
respiração. Seu vizinho vigia, olhando os arredores. De
repente, a pessoa adormecida se agita e começa a dizer
palavras desordenadas, quase inaudíveis. O outro observa,
meio intrigado, mas fica em silêncio. A noite passa assim,
tranqüilamente, sem mais incidentes. Na manhã seguinte, já
acordados, os dois homens conversam. O que dormiu conta
ao seu companheiro que, durante a noite, seu espírito viajou.
E caçou um caribu nas grandes estepes desertas. O outro
escuta, pensando profundamente. De repente, como um
relâmpago ou uma revelação, ocorre-lhe uma idéia: e se,
quando a gente morre, alguma coisa nossa sobrevive e sai
viajando, como nosso espírito durante a noite?

Deixemos agora essa cena, para voltar ao nosso tempo atual.
Esses dois seres do paleolítico acabaram de emitir a hipótese da
existência de uma alma imortal. A experiência do sono e do sonho
foi talvez, naqueles tempos distantes, o meio pelo qual a
humanidade considerou, pela primeira vez, a existência de uma
parte invisível no ser humano. Essa parte invisível também pode
ser definida como a face noturna do indivíduo. Na mente dos
primeiros povos, tratava-se bem mais do que o inconsciente
redescoberto em nossa época. Essa fase noturna, uma parte do
mundo cristão nunca cessou, desde seu surgimento, de combatêla, perseguindo os então chamados pagãos. Até hoje, ela incomoda
a mente racionalista do mundo moderno, onde só se acredita
naquilo que se vê. As pessoas esquecem, porém, que nossos
próprios sentidos físicos estão sujeitos à ilusão e à manipulação.
Essa dimensão lunar foi a fonte das maiores criações
artísticas. No início do século 20, ela rebentou na forma do
surrealismo. E ainda hoje ela causa confusão, pois sobre ela
nenhum ser humano consegue ter poder, ao passo que a
inteligência diurna pode ser facilmente condicionada. O espírito
sopra onde e quando bem entende. O ser humano não é
somente um cérebro montado sobre duas patas; é também uma
alma unida ao seu subconsciente.
De modo surpreendente, essa dimensão do ser humano,
que nos parece noturna e pouco compreensível, corresponde,
na verdade, à sua verdadeira parte luminosa. Os egípcios
antigos não se enganaram; eles a chamaram de o Divino Rosirê,
o Sol dos mortos. Como se a verdadeira luz pertencesse a esse
mundo situado atrás do espelho. Rosirê reina no mundo do
além, como o grande juiz das almas, mestre da psicostasia. De
qualquer modo, todos os que viveram uma experiência de morte
iminente normalmente citam essa luz que perceberam.

Mas voltemos ao ser humano e ao seu aspecto secreto.
Cinqüenta por cento de seu ser lhe é um total desconhecido,
mesmo com todo o progresso da psicologia. E foi provavelmente
isso o que descobriram os seres humanos a quem chamamos
primitivos, há uns 35000 anos, observando seu sono e seus
sonhos. Isso foi o início da civilização e de uma evolução da
consciência, sem precedente.
Passemos, então, à exploração do sono e sua comparação
com a morte. Analisemos, prim eiram ente, aquilo que
poderíamos qualificar de mecanismo do sono. Quando o
indivíduo deseja dormir, sente necessidade de deitar seu corpo.
Para que o mergulho no sono se faça nas melhores condições,
é bom também que a pessoa se livre do estresse, das
preocupações cotidianas e do fluxo dos pensamentos que
invadem seu cérebro incessantemente. Em outras palavras, um
relaxamento prévio, tanto interna como externamente, ou tanto
mental como fisicamente, constitui uma boa preparação para
o sono.
No momento da morte, existe igualm ente uma fase
preparatória, que consiste numa espécie de liberação do
passado. O ser humano tem necessidade de sentir que sua
tarefa neste mundo foi cumprida, que está encerrada, e que
seus negócios estão em ordem. Para partir em paz, a pessoa
tem de poder se soltar, sem ser retida por nenhuma obrigação
ou inquietação. O andamento é idêntico, para o sono. E por
isso que, na Idade Média e mesmo mais tarde, ao se preparar
para o sono, a pessoa era aconselhada a fazer um exame de
consciência, tendo em mente que o dia que passou podia ser o
último. E por isso também que os muçulmanos chamam o sono
de “apeq u ena morte".

Mas, vejamos a seqüência. A pessoa acaba relaxando.
Pedaços de frases interrompidas, pensamentos desconexos
assaltam a consciência. Imagens truncadas se sucedem
rapidamente, invadem a mente entre a vigília e o sono. As
palavras ou as cenas que se apresentam podem corresponder
àquelas estocadas na memória pré-consciente ou semi­
consciente do cérebro. Para a maioria, essas palavras ou cenas
têm relação com o que foi ouvido ou visto durante o dia, mas
às quais não se deu atenção. Parece, então, que nesse momento
o cérebro libera parte de seu conteúdo subconsciente. No
momento da morte, defrontamo-nos com um processo similar.
A alma revê sua vida passada, é igualmente posta diante de
seus conteúdos subconscientes. Isso explica o porquê de muitas
tradições afirmarem que as últimas experiências da vida são
cruciais nesse instante. Assim como o estado mental de uma
pessoa condiciona seu modo de dormir, seu estado psicológico
nos anos que precedem a morte influenciará a natureza da
experiência “vivida” no momento da passagem.
Prossigamos nossa viagem gradual pelo sono. Com o
relaxamento, a pessoa se harmoniza com os grandes ritmos
vitais de seu corpo. Via de regra, salvo problemas de saúde
graves, a respiração se torna ampla, calma, relaxada, e
proporciona uma sensação de liberdade. Isso se chama
“respiração do bebê”. Para observá-la, basta olhar para um bebê
e constatar o relaxamento de seu corpo e a confiança absoluta
que ele demonstra.
No estado de vigília, a respiração é muitas vezes truncada
ou sem ritmo. A pressão da mente e das preocupações
respondem por grande parte disso. O indivíduo raramente está
em harmonia com os ritmos naturais de seu corpo. O tempo

todo há tensões que impedem a energia vital de circular
livremente. No pior dos casos, essa condição pode se tornar
fonte de enfermidades. No momento da morte, a alma também
entra em harmonia com os grandes ritmos do universo. Ela
intensifica seu contato com sua Mãe, a Grande Alma Universal.

através do sonho não é aquilo de que a pessoa se lembra ao
acordar. A consciência de vigília já terá feito uma seleção a partir
de seus preconceitos e de seus próprios códigos e hábitos de
pensamento. Portanto, já terá traduzido a experiência nos
termos lhe convém.

Mas avancemos mais ainda sono adentro. Nesse momento,
o estado de consciência do indivíduo sofre uma alteração. Sua
consciência se expande progressivamente, a própria noção de
limite desaparece. Seu eu de vigília se dissolve cada vez mais, e
ele mergulha realmente no sono, perdendo totalmente
consciência de si mesmo. A morte corresponde também a uma
alteração da consciência. O eu exterior desaparece progres­
sivamente e uma espécie de sono da alma se segue. Após o
primeiro sono, o ser vai se expressar com sua linguagem
própria. A recordação dos sonhos dá uma idéia dessa
linguagem.

Esses elementos deveriam nos tornar prudentes na
interpretação de experiências de morte iminente. Na realidade,
os relatos são dificilmente compreensíveis no que concerne o
aspecto oculto da experiência. Da mesma maneira, tudo o que
diz respeito à morte deveria ser tomado num sentido simbólico.
As melhores linguagens que podem descrever uma experiência
da alma, após a morte, são o símbolo e o mito. O símbolo mais
conhecido é, sem dúvida, o da balança onde é feita psicostasia
(pesagem da alma e julgamento). No que tange as idéias de
justiça, balanço da vida e purificação, temos de recorrer,
inegavelmente, aos símbolos. Esse é um princípio mais fácil de
ser compreendido quando o abordamos fazendo comparações
com os sonhos.

No curso de uma noite, sonhamos de acordo com várias
fases, chamadas de sono paradoxal. Cinco desses períodos, de
duração variável, adornam nossas noites, segundo os cientistas.
O mais importante deles, o quarto, ocorre entre quatro e seis
horas da manhã, que é um dos períodos durante o qual as
mortes são mais freqüentes. Segundo alguns pesquisadores,
no curso de uma noite, viveríamos apenas um único sonho,
com uma simbólica diferente a cada vez.
É difícil interpretar um sonho por ser ele o modo de
expressão preferido da alm a, por intermédio de nosso
subconsciente. O Dr. Freud, à sua maneira, descobriu e
demonstrou isto: que o inconsciente possui uma linguagem
constituída de símbolos. O que o ser interior tenta comunicar

Há um outro ponto muito interessante, comum à morte e
ao sonho. Trata-se do fenômeno do eu. O eu, no estado de
vigília, está normalmente vinculado ao corpo físico. Ora, nem
no momento da morte nem no sonho, a consciência está
vinculada ao corpo físico. Na morte, a alma se separa do corpo,
enquanto, no sonho, o sistema nervoso está relativamente
adormecido, tanto que o corpo fica como que paralisado
durante algumas fases do sono paradoxal. Que acontece, então,
quando observamos o sonho? Primeiro, o sonhador nunca vê
seu corpo físico. Segundo, sua consciência do eu consegue
saltar de uma personagem para outra. Ela possui a faculdade
de se metamorfosear em qualquer coisa. Uma sonhadora

contou que uma vez sonhou que ela era uma chaleira. Isso
significa que, num sonho, a pessoa se confronta com o self,’
isto é, um eu difuso que se estende a todas as coisas. No
momento da morte, segundo os dados tradicionais, o mesmo
fenômeno se produz. A consciência do eu vinculada ao corpo
desaparece pouco a pouco, para dar lugar a um tipo de
consciência nova, mais próxima da universalidade.
Outro elemento intrigante e rico de significado: a noção de
tempo, no sono e no sonho, desaparece ou se torna totalmente
relativo. O mesmo ocorre com a noção de espaço. Se acordamos
alguém que está sonhando e lhe pedimos para contar seu sonho
e estimar o tempo que ele durou, ele fica surpreso ao constatar
que sua aventura onírica, que parece ter se estendido por horas
a fio, na verdade, não durou mais que uns poucos minutos ou
mesmo segundos. A pessoa que sai de um coma profundo
geralmente não consegue determinar a duração do período
em que ela viveu inconsciente. Depois de uma boa noite de
sono, é fácil avaliar as horas passadas nos braços de Morfeu,
sem olhar o relógio? E bem conhecido também o fato de que o
sonhador pode viajar instantaneamente de um ponto a outro
do planeta, como num filme de cinema. A lógica que o sonho
segue não tem nada a ver com a do nosso mundo diurno.
Como ficam os elementos de tempo e espaço no fenômeno
da morte? Muita vezes, as pessoas fazem a seguinte pergunta:
admitindo-se a doutrina da reencarnação, quanto tempo o se
humano passa do outro lado? Invariavelmente, pode-se
responder: do ponto de vista da terra, vários anos, conforme o
caso; mas, do ponto de vista do céu, essa pergunta não faz o
menor sentido. Um piscar de olhos ou uma eternidade são a
mesma coisa, pois, nesses domínios, o tempo e o espaço são

abolidos, como também as noções de dualidade e de separação.
Os celtas, lembre-se, haviam descrito esse fenômeno contando
que, na noite de Samain, o Dagda tinha perdido seu território
para seu filho. Na noite de Samain (Todos os Santos), o tempo
e o espaço cessam de existir, não é?
Mas, então, se não há tempo nem espaço, que são as
descrições fantasiosas e infantis que algumas pessoas fazem
do além? Devemos buscar a realidade de outro modo? Nos
domínios da alma, portanto, estamos lidando com uma
dimensão nova que, para ser apreendia, exige uma nova lógica
e novos conceitos. Mais uma vez, recorrendo ao Bardo Thõdol,
podemos acrescentar que as experiências encontradas pelo
morto assemelham-se a um sonho. Todos os ingredientes estão
lá e, em especial, as projeções dos conteúdos da consciência.
Do ponto de vista da alm a, a morte acontece sem
sofrimento. Nas EMI, os testemunhos reportam que, após a
separação entre o ser físico e o ser espiritual, a pessoa pára de
sofrer e que a sensação é muito agradável. Em geral, a mesma
coisa acontece no sono e nas formas mais profundas de coma.
Em alguns casos, o corpo físico pode até estar doente ou
ferido, e a pessoa gemer porque o instinto de sobrevivência
está inscrito na memória de todas as suas células. Entretanto,
a consciência não se solidariza com a experiência vivida no
nível do corpo. Logo, não há conscientização do sofrimento,
visto que uma parte do sistema nervoso está relativamente
dormente. Pessoas que estiveram em coma dizem não se
lembrar mais de nada, ao passo que observadores externos
jurariam que elas estavam sofrendo. Assim também, na morte,
onde ficaria o sofrimento físico se não há mais nenhum
sistema nervoso para senti-lo?

Agora que o aspecto puramente mecânico do sono e do
sonho, comparativamente à morte, foi abordado, há uma
pergunta que os cientistas se fazem e que também poderíamos
fazer: para que servem o sono e o sonho? Ao responder essa
pergunta, é possível que descubramos, sempre por analogia,
valiosas informações acerca da utilidade da morte. E, para
respondê-la, é útil abordá-la segundo três pontos de vista:
físico, mental e espiritual.
Pelo relaxamento que proporciona, o sono traz o repouso e
a regeneração física. Favorece a produção de diversos
hormônios, dentre os quais o do crescimento. Setenta e cinco
por cento desses hormônios são produzidos durante o sono
profundo, tanto que a insônia pode provocar retardo de
crescimento nas crianças. Esse hormônio favorece também a
reparação de fraturas e a cicatrização. Vale lembrar que a
produção de hormônios é dirigida pelo sistema nervoso
autônomo. No bebê, já se comprovou o papel do sonho no
amadurecimento do cérebro. Regeneração e desenvolvimento
físico, estas parecem ser as palavras-chaves que definem o sono.
O mesmo vale para a morte, ainda que essa imagem possa
parecer engraçada. O ser humano troca o co rp o usado de um
velho, o qual não lhe permite mais realizar todas as suas
funções, por outro, regenerado, de um recém-nascido, cheio
de potencialidades. Sem essa restauração, a alma não poderia
mais evoluir nem manifestar as infinitas riquezas que ela
encerra.
Os cientistas concordam em pensar que, se o sono tivesse
apenas o papel de reparação física, o ser humano não teria
necessidade de tantas horas de repouso e, sobretudo, não
precisaria sonhar, mas simplesmente relaxar. E preciso, então,

perseguir e abordar o papel do sono no plano mental. Nesse
quesito, as descobertas mostram que o sono e o sonho ajudam
a pôr em ordem as impressões recebidas e memorizadas pelo
cérebro. Contribuem também para a execução de uma triagem
na enorme massa das informações conscientes ou subliminares
recebidas diariamente pelo cérebro. Têm, portanto, um efeito
benéfico na assimilação das informações adquiridas no estado
de vigília. O sono paradoxal tem imensa importância na
memorização e na maturação do sistema nervoso. Ele protege
as lembranças de todas as interferências que possam perturbálas e propicia um verdadeiro tratamento das informações.
Uma pesquisa realizada com crianças em idade escolar
mostrou que quanto mais a criança dorme, aproximando-se
das doze horas, mais sua taxa de rendimento escolar aumenta
estáticamente. Quanto mais a criança dorme, mais facilidade
ela apresenta para aprender e reter. Além disso, como explicam
os psicanalistas, o sonho possui uma função de liberação das
frustrações acumuladas no estado de vigília. Ele teria, assim,
uma relativa função de purificação.
E quanto à morte? Purificação, balanço (que vem da palavra
italiana b a la n d o: balança), pesagem da alma, julgamento...
Todos esses termos não se parecem com um tratamento da
informação? A alma, nesse caso, seria considerada como um
conjunto de informações a serem ordenadas, estocadas,
selecionadas... Aliás, talvez seja a esse preço, pago ciclicamente,
que a personalidade humana pode continuar sua evolução.
As explicações que acabamos de dar sobre as funções do
sonho nos planos físico e mental não satisfazem plenamente
os cientistas que trabalham no campo da pesquisa. Isso não é

de espantar, já que muitos deles se recusam a levar em conta a
dimensão espiritual do ser humano. Essa, aliás, é urna das
características do processo científico atual, que propo­
sitadamente deixa de lado, quando não nega, a faceta espiritual
do ser humano. Somente uns poucos pioneiros, como C. G.
Jung, tentaram fazer um processo unificador, associando o
científico e o espiritual. Esse processo, aliás, era bem mais
sistemático no Egito antigo, que tinha certo avanço no
desenvolvimento científico de seu tempo. O fascínio que essa
civilização exerce no mundo moderno vem, entre outras coisas,
desse desenvolvimento. Hoje, apenas movimentos como a
Ordem Rosacruz, AMORC, parecem ousar, contra ventos e
correntezas, restabelecer essa unidade entre a análise científica
dos fenômenos e a espiritualidade.
Analisemos, então, o papel espiritual do sono e do sonho,
comparando-o sempre à função cumprida pela passagem para
o outro lado do espelho. O sono possui uma função
regeneradora no plano espiritual, da mesma forma que no
plano físico. Os efeitos produzidos por um simples sono de
um minuto são bastante espetaculares, quando prestamos
atenção neles. A pessoa assiste a uma sensação de aquecimento
do sangue, a circulação sangüínea melhora visivelmente e os
sentidos físicos passam por uma espécie de limpeza. A pessoa
vê melhor, as cores se reavivam, ela ouve melhor, seus reflexos
e sua vitalidade retornam. E quase impossível obter resultados
como esses, em tão pouco tempo, através de outro proce­
dimento que não o sono.
Que outra explicação, que não seja estritamente física,
poderíamos dar ao fenômeno, partindo do princípio de que o
físico é apenas a ponta emergente de um iceberg infinitamente

maior? Provavelmente, que a alma do ser humano necessita se
recolher ao seu mundo próprio, alguns momentos todo dia,
para se revigorar. E é exatamente isso que ela faz no fim de sua
vida terrena. A diferença reside em que, durante o sono, não
há separação definitiva entre a alma e o corpo. Seria mais uma
espécie de re-harmonização do ser psíquico. Isso se traduziria
numa energia vital renovada, através de uma reativação do
sistema nervoso autônomo, o que explicaria as inúmeras
conseqüências endocrinas.
Vale lembrar que a energia vital é um atributo da alma,
representando a consciência uma outra característica. Quando
dormimos, a mente analítica fica entorpecida. Ora, essa mente,
em muitos casos, constitui uma das fontes do bloqueio da
circulação da energia no corpo e do mau funcionamento dos
órgãos. Deve-se ver aqui a origem do estresse destruidor.
Durante o entorpecimento da mente analítica, o corpo se põe
a vibrar, naturalmente e sem entraves, em uníssono com os
grandes ritmos universais. Isso se traduz numa respiração mais
plena, numa diminuição do ritmo cardíaco, num relaxamento
do sistema nervoso, etc.
Pesquisadores demonstraram que cinco dias sem sono dão
lugar a alucinações; mais uns dias e a loucura se instala, na
forma de uma paranóia. Parece, todavia, que viver sem sono
não mata diretamente. O mesmo vale para os sonhos. Uma
pessoa que fosse sistematicamente impedida de sonhar
caminharia para a loucura. O sonho desempenha um papel
importante na manutenção dos instintos de sobrevivência e da
integridade psíquica da personalidade. Tudo se passa como se
o eu, paradoxalmente, para sobreviver, necessitasse se refugiar
no mundo do seIf ou numa zona de não-eu. A paranóia de

quem não dorme é uma perversão do ego, que se sente
constantemente agredido. Para manter seu equilíbrio, ele
precisa se soltar de tempo em tempo. Só o sono torna possível
esse abandono que permite à alma evoluir em seu mundo
próprio.
Pierre Fluchaire, autor de "AR evolução do S ono”, explica,
numa audaciosa conclusão, que uma pessoa que vivesse em
harmonia com as leis universais não precisaria dormir, pois
sua alma não sentiria necessidade desse recolhimento. Em
outras palavras, a pessoa a que os místicos se referem como
tendo alcançado a iluminação poderia passar sem o sono. Em
seu caso, a energia vital circularia sem entraves, não tendo,
portanto, necessidade de ser normalizada. O fato é que houve
realmente, ao longo da História, pessoas reconhecidas como
santas e que não dormiam ou o faziam muito pouco. Por
exemplo, Marthe Robin, na França, ficou cinqüenta anos sem
dormir. Francisco de Assis, também viveu, durante boa parte
de sua vida, dormindo muito pouco.
Se estabelecemos um paralelo com a idéia de reencarnação,
apercebemo-nos de que os períodos que separam a morte de
uma nova encarnação são muito variáveis. Os tibetanos, quando
falam da reencarnação de seus mestres espirituais, situam-na
entre zero e quarenta e nove dias após a morte. Haveria pessoas
que não precisariam ficar um período longo no outro plano,
para se revigorarem? Tendo percebido e compreendido a
unidade entre os planos terreno e espiritual, sua consciência
não teria nenhuma necessidade de ser purificada.
Comparando a morte ao sono, percebe-se que a primeira,
assim como a segunda, representam necessidades para o ser

humano. Sem essa oscilação de sua verdadeira natureza para
outros mundos ou outras dimensões, o ser humano, e mesmo
o animal, não consegue continuar vivendo eficazmente. Graças
a essa compreensão, o medo da morte se desfaz, para dar lugar
à aceitação. Algumas vezes, como no caso dos mestres
espirituais, ele se transmuta em compreensiva aquiescência.
Muitos animais fogem de seus predadores enquanto têm uma
chance de escapar deles. Mas, ao serem pegos, eles parecem se
entregar à sua fatalidade, mas não trágica, apenas destinada.
O ser humano, em ruptura com a natureza, possui o triste
privilégio de se debater até o último suspiro. Um dos melhores
serviços que se pode prestar aos nossos contemporâneos,
consiste em lhes restituir a concepção de uma morte útil e
portadora de sentido. Isso pode lhes ajudar frente à sua própria
morte ou em situações de luto, não obstante continuar
necessário que se faça, no dia D, um acompanhamento com
amor e encorajamento.
O sono é irmão da morte. Seria por essa razão que, o
momento mais comum do dia, no qual os agonizantes soltam
seu último suspiro, situa-se incontestavelmente entre quatro e
seis horas da manhã? Curiosamente, essas horas são as da fase
mais importante do sono paradoxal. Seria o sono também a
antecámara da morte?
Freqüentemente, os mortos intercambiam com seus entes
queridos por intermédio dos sonhos. “Do reino de Hades, os
sonhos sobem , passando pela porta de ch ifre ou pela porta de
marfim ”, assim dizem os mitos gregos. Uma pesquisa, realizada
no País de Gales, em 1971, mostrou que, de 295 viúvos e viúvas,
47% afirmaram ter vivenciado uma manifestação do cônjuge
falecido, quer por sua presença, seu contato ou sua voz. O
astrônomo Camille Flammarion realizara, em 1899, uma

pesquisa semelhante com 4.280 pessoas, obtendo resultados
idênticos. Vários desses contatos foram obtidos também através
de sonhos.
A psicanálise explica que trata-se de um processo psicológico
inerente a um trabalho de luto. Toda e qualquer possibilidade
de contato com uma pessoa morta estaria, sem dúvida, excluída
para essa disciplina. Sua mais avançada explicação é que o
inconsciente desconhece a morte e que demonstra isto através
dos sonhos. Com toda certeza, em alguns casos, a posição da
psicanálise é válida, mas não em todos. Nas tradições antigas,
considerava-se que o sonho constitui um meio de comunicação
com outros mundos. Isso ainda é praticado em muitas tribos
da África e da América do Sul. Entre os bondos da África do
Sul, por exemplo, Deus é considerado muito distante para
ajudar os seres humanos no cotidiano. Eles, então, recorrem
aos ancestrais, que têm o dever de ampará-los. Para isso, existe
na tribo uma pessoa considerada pela comunidade como
predestinada a receber a orientação dos ancestrais, através de
sonhos. Acredita-se que esse personagem faça parte do povo
da luz. Ele recebe, dos ancestrais, conselhos para curar ou guiar
seu povo. O xamã, na Sibéria e no Canadá, cumpre uma função
similar. Durante o contato com outras esferas de existência, o
xamã tem acesso ao passado, ao presente e ao futuro. Para os
bantus do Congo, a alma sai do corpo no momento do sono.
Dessas viagens, ela traz os sonhos que lhe foram transmitidos
pelos ancestrais com quem conversou.
No Ocidente, é bastante comum encontrar pessoas que
contam que sonharam com um parente falecido. Aqui está o
testemunho de uma senhora que perdera sua nora: “O contato
f o i fe ito durante o sono, sem que eu o tivesse buscado ou desejado
ou, de outro modo, intencionado conscientem ente. Na verdade, a

tdéia de entrar em contato com ela nunca tinha m e passado pela
cabeça. Como era o lugar onde isso a con teceu ? Bem, nada de
paisagem bonita, nem luz, nem m esm o um lugar especifico.
S im plesm ente f o i ; nem tem po, nem espaço, nem lu ga r a ser
definido concretam ente. Mas o contato gerou uma reação física,
pois quando minha nora sentiu que tinha sido reconhecida, ela
m anifestou toda sua alegria apertando-m e fo rtem en te em seus
braços. E não f o i uma sim ples sensação, f o i tão forte, tão con creto
e tão real quanto p od e ser um contato com qualquer pessoa viva,
aqui na terra. Eu a a ch ei então idêntica, psíquica e p sico ­
logicam ente, ao que ela era em vid a ... Minha nora queira m e dar
um a m ensagem para transmitir à sua fa m ília ... ”
Testemunhos como esse existem aos milhares e é impossível
relatar todos eles. Em todo caso, eis aqui um último, breve
mas comovente: "Uma noite, p ou co tem po depois da m orte de
m eu filh o, sonhei com ele. Ele não era o bebê que eu tinha perdido,
mas um jo v em m uito bonito, de uns vinte anos. Quando ele falou ,
ouvi sua voz m e dizendo: “Como v o cê p od e ver, mamãe, eu estou
bem, não chore m ais”.
Existem também sonhos nos quais se vê uma pessoa
morrendo ou que são compostos de imagens ligadas à morte.
Freqüentemente esses sonhos informam de uma transformação
que ocorrerá no relacionamento com aquela pessoa. Podem
também anunciar uma possível mudança de vida para ela ou
uma transformação em sua personalidade.

O nascimento e a morte
Há algum tempo, o escritor Arnaud Desjardins contou,
num de seus livros, que dedicou-se um dia a uma espécie de
sondagem. A públicos orientais e ocidentais, ele dirigiu essa

única e mesma pergunta: qual é, para você, o contrário da palavra
“m orte”? A maioria dos ocidentais respondeu “vida”, ao passo
que os orientais responderam “nascimento”. Essas respostas
sintetizam bem as diferentes sensibilidades dos povos em
relação ao assunto. A morte é um fim ou somente uma
passagem? Nossa aposta aqui é de que existe apenas uma única
vida eterna, composta de uma sucessão de dias e noites, como
no caso do movimento diário do sol. A manhã de cada dia
corresponde ao nascimento e a noite, à morte. Ambos
representam passagens entre o dia e a noite. O que está em
cima comunica-se, assim, com o que em baixo, para realizar o
milagre de uma só coisa. Nascimento e morte corresponderiam,
então, às duas faces de um mesmo rosto, como um Jano.
No instante do falecimento, o ser humano se desintegra em
seus diversos componentes, sendo cada um deles eterno em
essência. O corpo físico retorna ao pó da terra e prossegue seu
périplo na forma de átomos e de moléculas diferentes. Os
componentes mais sutis ou psíquicos do ser também se
dispersam no âmago de sua essência primitiva. Os egípcios
admitiam a dispersão dos componentes da alma, como o B a c
o K a, que até então estavam unidos no corpo vivo. Na verdade,
cada elemento integrado no ser humano vivo volta a se unir à
Essência Universal que lhe deu origem. A integridade do ser
humano alma ou ser vivente” é perdida momentaneamente.
Com o nascimento, o processo adquire caráter rigorosamente
inverso. Há a reconstituição de um ser de síntese física, psíquica,
anímica e cármica, encarnado na terra.
Se quiséssemos designar esses fenômenos em termos de
alquimia, designaríamos a morte pelo termo “dissolução”, ao
passo que o nascimento seria qualificado de “coagulação”.

“Solve et coa gu la ”, diz o alquimista, expressão que significa:
“purifica e integra”. A purificação corresponde à morte,
enquanto a integração representa o nascimento.
A ontologia Rosacruz e a ciência do ser explicam que a
encarnação da alma, no nascimento, ocorre no momento do
primeiro alento; estando alma e alento vinculados. Inver­
samente, a morte ocorre no último alento. “Ele deu seu último
suspiro”, isto é, “seu último alento”, “ele entregou a alma”, são
expressões que escutamos muitas e muitas vezes. Mas há outros
pontos de comparação menos conhecidos.
Muitas descrições da passagem fazem referência a uma
segunda morte, na passagem de uma fronteira, como a do túnel
nas experiências de EMI. Sabe-se que, do mesmo modo, a
criança vive um segundo nascimento, ligado à sua evolução.
Em seguida ao nascimento, sua tomada de consciência do
mundo ocorre de maneira gradual, da mesma forma que, na
morte, a separação é gradual. No nascimento, a criança, se não
é totalmente cega, também não possui, antes de um mês, uma
boa acuidade visual, e seu sistema nervoso não é totalmente
eficiente. No entanto, está cientificamente provado que todos
os órgãos do corpo estão presentes e operacionais desde o
nascimento. Mas, então, como explicar essa aparente
contradição? Explicando que a alma ainda não tomou plena
posse de seu veículo físico?
Devemos crer que, no nascimento, a alma tome posse do
corpo da mesma forma que um objeto entra num outro objeto
ou devemos considerar que ela intensifique seu contato com
ele, assim como qualquer coisa abstrata influencia o concreto?
Observe uma criança em pleno desenvolvimento: e uma

maravilha vê-la despertar pouco a pouco para o mundo. Mas,
afinal, onde está aquele segundo nascimento prometido? Os
psicólogos afirmam que entre um ano e meio e três anos a
criança toma consciência de si mesma. Ela diz “eu”. Eles
chamam isso de o estágio do espelho. A criança reconhece sua
imagem no espelho, ao passo que a maioria dos animais adultos
não se reconhecem espontaneamente quando colocados na
frente de um. Este é o segundo nascimento: a tomada de
consciência do eu, a partir da qual a relação com o mundo
nunca mais será a mesma. Nesse exato momento, a consciência
se cristaliza em torno do ser físico, ao passo que, antes disso, a
distinção entre
o eu e os objetos (ou a mãe) é muito mais

nebulosa. E, aliás, em torno dessa idade que a criança perde a
memória do meio espiritual de onde veio. Todos esses motivos
conjugados explicam por que é geralmente tão difícil recordar
o passado anterior aos primeiros três anos de vida. Assim
também, na segunda morte, o ser esquece pouco a pouco o
meio terreno de onde saiu.
Mas ainda outros pontos de comparação merecem ser
ressaltados. Nunca é demais repetir que nascimento e morte
correspondem a dois portais, separando dois mundos. Parece
(sem querer ver nisso um discurso sexista, infinitamente
distante das intenções do autor) que os seres que guardam
esses portais são, com mais freqüência, as mulheres. O símbolo
aqui é admirável. São a mãe e a parteira que assistem (o e ao)
nascimento do recém-nascido. Hoje em dia, na maioria dos
casos, são as enfermeiras e as auxiliares de enfermagem que
prestam ao defunto os últimos serviços ou que acolhem seu
último suspiro. Na grande maioria dos seminários de reflexão
sobre a morte e dos seminários sobre acompanhamento, a
participação das mulheres é quase sempre numericamente

superior à dos homens. O fato de um homem se interessar
pela morte mostra que ele tomou consciência e deixou que se
expressasse nele a dimensão feminina, feita de receptividade.
Face à morte, evento do qual se padece, só nos resta sermos
receptivos, o que explica o porquê de as mulheres sentirem
menos repulsa pelo assunto.
No instante da morte, o corpo retorna à sua mãe Terra,
enquanto a personalidade reúne-se à sua Mãe, a Alma
Universal. Em outras palavras, o humano retorna à sua
existência essencial. Inversam ente, no nascim ento, a
personalidade deixa sua Mãe Universal, para reassumir sua
natureza individual, no mesmo instante em que o corpo do
bebê sai de sua mãe humana. Nascimento e morte invocam o
simbolismo da gruta. Gruta uterina da mãe, túmulo da terra.
O túnel de acesso, nas experiências de morte iminente, também
nos leva a pensar na entrada de uma gruta. Essa é a razão pela
qual alguns psicólogos se enganam grandemente ao com­
pararem as EMI e determinadas experiências sob efeito de
psicotrópicos às reminiscências do nascimento. Não é nem um
pouco espantoso que essas experiências sejam similares na
forma. Contudo, o sentido do nascimento e o da morte são
estritamente inversos.
No tratado da alma, falamos de uma representação simbólica
da alma, na forma de uma corda. Na imaginação popular, a
alma muitas vezes é representada como uma espécie de cordão
que se une ao corpo. A morte seria, então, a ruptura desse
cordão. Mas, e quanto ao bebê, não está ele ligado à sua mãe
pelo cordão umbilical, que é cortado no nascimento? Um
cordão substituiu o outro, e o ser está sempre atado a alguma
coisa. No nascimento, essa ligação sutil intensifica gradual­
mente seu contato com a dimensão psíquica da pessoa. Alguns

pesquisadores explicaram que, antes dos vinte e oito anos, o
ser humano ainda não tomou consciência de todas as
potencialidades incluídas em sua alma. O ser humano, afinal,
pode ser comparado a um sol. Seu percurso noturno
corresponde à vida p o s t- m o r te m , seu percurso diurno
representa a existência terrena.
Nem o nascimento nem a morte são repentinos. O ser
humano se dirige lentamente para seu zênite e sua maturidade,
despertando pouco a pouco para o mundo manifesto. Depois
do zênite, a fase espiritual do ser começa a despontar e o ser
humano se dirige progressivamente para sua morte. O
momento exato da morte não foi definido com exatidão pelo
mundo médico. Se a morte biológica é definida como a parada
definitiva das funções vitais, principalmente no nível do
triângulo cérebro, coração e pulmões, ainda é difícil situar no
tempo a passagem da vida para a morte. Segundo L. V Thomas,
"se não fo sse a urgência em determ inar com exatidão o m om ento
propício para a extração de órgãos e o da inumação ou da cremação,
provavelm en te não haveria uma definição legal do que é m orrer".
Q uanto m ais a ciên cia p ro grid e no assunto, m en o s se sabe
quando e como a morte ocorre. Ela não é um estado, mas um
processo; permanece, portanto, inapreensível. No nível do
corpo, ela é onipresente nas manifestações de destruição das
células; fenômeno que se acelera em caso de doença. Basta, na
verdade, uma perda de vitalidade, e as forças da morte entram
em ação. Assim, a morte é, antes de mais nada e principalmente,
ausência de vida. Ela não corresponde a uma manifestação
positiva. Após a morte biológica, o corpo, porém, não se torna
inerte, mas continua a se transformar.
A essa altura, podemos considerar não mais uma com­
paração entre nascimento e morte, mas a onipresença desta

última na própria vida. Com efeito, a compreensão da função
da destruição é muito importante para nos ajudar a viver melhor.
Se assim não fosse, a utilidade de uma reflexão sobre o tema
ficaria seriamente reduzida. A principal lei do mundo m anifesto
é a da perpétua transformação. "Nada se perde, nada se ena, tudo
se transforma”. A morte representa essa transformação sempre
presente na existência e nas atividades terrenas. Como você
acabou de ver, o metabolismo do corpo humano representa um
reflexo dessa lei. Continuamente, há criação de células novas
para substituir as foram destruídas. Na verdade, boa parte do
corpo humano terá sido inteiramente substituída no fim de
alguns anos. Isso ilustra o aspecto físico da questão.
Na vida social de um indivíduo, essa lei também afirma sua
presença. Os grandes eventos familiares - nascimento, casamento,
mudança de casa, mudança d e emprego, etc. - constituem
algumas dessas transformações. Em outras palavras, a situação
anterior morre no advento da nova. As próprias sociedades
humanas sofrem essas mutações e os períodos de crise implicam
uma resistência às mudanças ou uma dificuldade de dar à luz ao
futuro. Em todos os processos de morte, perde-se alguma coisa,
para se ganhar outra num nível superior. Mas é preciso aceitar
perder antes de ganhar; a evolução jamais implica um ganho
perpétuo ou linear. O ser humano abandona um corpo físico e
uma consciência física, para ganhar vida e consciência espirituais.
As almas ditas “presas à terra” não querem perder nem esse corpo
físico nem as percepções de seus cinco sentidos. Elas se privam,
assim, de prazeres superiores. Na vida cotidiana e na das sociedades,
se o indivíduo não quiser abandonar nada, sejam seus
preconceitos, seu modo de pensar ou seus processos esclerosados,
não poderá continuar progredindo - ou, então, isto se dará apenas
no sentido do sofrimento. O velho homem teima em não morrer.

Este termo, “velho homem”, permite passarmos agora
diretamente à questão da iniciação. Os Rosacruzes chamam
a morte de "a gra n d e i n i c i a ç ã o Trata-se exatamente de uma
iniciação, posto que, quando ela sobrevem, a alma passa por
diferentes etapas que a levam gradualmente a deixar a zona
tenebrosa do mundo material, para alcançar a luz celeste.
O term o in iciação , do latim in itia r e , que sign ifica
“começar”, descreve bem esse processo que implica ritos
de passagem, de transformação, de conhecimento, de
habituação progressiva e, por fim, de ilum inação da
consciência. Trata-se de uma mudança de estado, de
condição e de dimensão. Podemos reduzir uma iniciação,
de maneira mais ou menos arbitrária, a quatro partes ou
fases de desenvolvimento. Essas quatro fases já foram
nomeadas: separação, admissão, revelação e retorno. Elas
valem também para uma iniciação terrena, que, na verdade,
supõe uma morte simbólica.
Antigamente, no Egito, uma tradição relata a existência
de uma cerimônia que era praticada e que depois desa­
pareceu, pelo menos no Ocidente. O postulante aos graus
superiores do conhecimento era colocado num sarcófago.
Antes disso, oficiantes o tinham feito beber um elixir ou uma
droga. O iniciando assistia então, num estado secundário
induzido pelo produto, à separação momentânea entre seu
ser espiritual e seu ser físico. Ele fazia de fato a experiência
da alm a e da im ortalidade. E, aliás, justam ente essa
experiência que vivem as pessoas que, sem o quererem, sofrem
uma EMI, depois de um acidente, uma doença ou um coma.
Hoje não há mais iniciações desse tipo, pois acontecia às vezes
de a pessoa morrer mesmo, devido a uma excessiva fraqueza
ou a uma excessiva impressionabilidade.

É preciso acrescentar que práticas como essa seriam
perigosas hoje, pela simples razão de que, antigamente, as
iniciações eram feitas dentro de sociedades tradicionais
extremamente fortes. Desde que nasciam, os postulantes
estavam acostumados a práticas de cultos bem estritos, e o uso
de drogas e outros “cogumelos mágicos” era comum nessas
práticas. Hoje, nas sociedades materialistas, as pessoas que
fazem uso de psicotrópicos fazem isto unicamente pelo prazer,
o que as leva aos piores excessos autodestrutivos. Mesmo que
alguns estejam em busca, mais ou menos conscientemente, de
estados de consciência diferentes, eles o fazem num âmbito
definitivamente inadequado.
Nos anos sessenta, na Tchecoslováquia, um psicoterapeuta
e pesquisador tentou utilizar a droga para explorar as zonas
de consciência superiores ou paralelas do ser humano. Stanislas
Grof utilizou o LSD, que ele próprio absorvia ou fazia ser
absorvido por voluntários. A observação das reações que se
seguiam e as operações sucessivas obedeciam a um protocolo
científico muito estrito. Não demorou muito para que essas
experiências fossem proibidas. Não obstante, a corrente de
psicologia que leva o nome de “transpessoal” saiu dessas
primeiras explorações. Curiosamente, essa nova escola confirma
os elementos transmitidos pelas mais antigas tradições acerca
do ser humano. Fenômenos como a telepatia, a projeção da
consciência à distância e as reminiscências de prováveis vidas
anteriores foram observados. Qualquer uma das matrizes
perinatais de Grof envolvem, aliás, o conflito e a experiência
de morte-nascimento.
De fato, os iogues da índia, os sábios chineses e algumas
raras escolas ocidentais, dentre elas a Ordem Rosacruz,

AMORC, há séculos vêm ensinando técnicas seguras e
inofensivas, cujo objetivo é realizar essas investigações, sem
fazer uso de drogas e sem que a pessoa precise sofrer um coma
ou um acidente. Contudo, a verdade é que anos de prática são
necessários para que o estudante alcance um resultado desse
tipo. Longe de nós sermos mercadores de promessas
inalcançáveis.

(9 M lícíctío
As cifras falam: hoje há cada vez mais suicídios entre jovens
e aposentados. Esse aumento da autodestruição interroga nossa
sociedade, como o fez em todas as épocas. Platão já se
pronunciara sobre a questão, há dois mil e quinhentos anos. E
disse formalmente: o suicídio é proibido. A originalidade de
sua posição, ou de sua ambigüidade, está no fato de que ele
considerava o derradeiro fim do ser humano totalmente
desejável. Segundo ele, a morte marca o fim de todas as ilusões
e todos os apegos às paixões terrenas. Ainda assim, insistia em
que o ser humano não tem o direito de adiantar esse evento,
pelo suicídio.
De fato, nenhuma espiritualidade realmente válida jamais
encorajou a autodestruição ou suicídio. O budismo, que leva
ao mais alto grau o respeito para com toda forma de vida,
ensina: "não m a t a r á s Essa frase aplica-se, em primeiro lugar,
à pessoa a quem ela se dirige. Essa recusa à autodestruição
corresponde, na verdade, a uma atitude ecológica. Isso implica
que a natureza, por intermédio de sua criatura humana,
cumpre uma função de inteligência e de consciência ímpares.
Eliminar-se significa frustrar a natureza da oportunidade de
realizar uma experiência por intermédio do fator humano. O
suicídio seria, portanto, anti-ecológico.
Vale ressaltar aqui, todavia, que, em pleno século 21, os
velhos tabus e as atitudes de rejeição para com os suicidas e
suas famílias não podem mais estar em circulação. Antigamente,
a comunidade excluía as famílias dos que cometiam o ato
considerado abominável e negava o enterro religioso aos

culpados. Assim, o grupo economizava fazer uma reflexão
sobre seus próprios comportamentos e normas, os quais
poderiam ter levado a pessoa a fazer o irreparável. Tratar-seia, talvez, de um meio de autoproteção frente a um ato
percebido como uma agressão à sociedade, feita por um de
seus membros?
Hoje, sem desenvolver um sentimento de culpa, que
corresponderia ao pólo inverso da questão, podemos conduzir
uma reflexão inédita sobre o sentido desse gesto. Há uma
infinidade de razões que levam uma pessoa a cometer o
irreparável. O desespero, a solidão, um pedido mudo de
socorro, o medo do futuro, uma necessidade de iniciação, uma
atitude filosófica, o sentimento de inutilidade, a sensação de
estar esmagado pelo peso das provações, um mal-estar geral
resultante da perda do sentido de viver, etc.
Não obstante ser impossível pretender cobrir todo o
conjunto das motivações que levam algumas pessoas ao
suicídio, visto que cada criatura é uma história e um caso únicos,
podemos, todavia, explorar algumas delas. Os dois períodos
da vida onde uma grande recrudescência do fenômeno pode
ser observada são, segundo pesquisas econômicas feitas na
França, a adolescência e a aposentadoria.
Com a aposentadoria, sabemos que um certo sentimento
de solidão geralmente se instala. A pessoa se sente também
aposentada da sociedade. Na era moderna, o velho, que não
produz mais, geralmente é considerado simplesmente “o
aposentado”. Em outras palavras, ele não tem mais nenhuma
função reconhecida, está fora do circuito ativo. Eis o que
significa, in f i n e , a palavra “aposentado”. Pior, esse termo

muitas vezes se compara à “derrota militar”, e muitas pessoas
ficam angustiadas quando começam a ver despontar o dia em
terão de se aposentar.
Um mapeamento da França (mas que também poderia ser
aplicado ao mundo) dos locais onde as taxas de suicídio são as
mais altas faz ver que as regiões mais atingidas são aquelas
onde a comunicação entre os indivíduos é mais fraca.
Sentimento de inutilidade, falta de comunicação, afastamento
das famílias, são alguns dos ingredientes que favorecem o
desespero.
Há também, se bem que infinitamente mais raros, suicídios
por razões filosóficas ou culturais. Todo mundo se lembra dos
kamikazes japoneses, capazes de se lançarem com seus aviões
sobre os porta-aviões americanos, em 1945. Seppufyu, o suicídio
ritual do Japão, era, até o início do século 20, o meio de acabar
com a própria vida quando a honra do sam urai era maculada.
Do mesmo modo, filósofos materialistas, ante um universo
que lhes parecia desprovido de sentido, concluíram que a única
saída possível, face ao absurdo, residia no suicídio. Tratava-se,
na verdade, da resposta filosófica fornecida por seres centrados
em si mesmos, para os quais a corrente da vida universal pouco
importava. Não está evidente que a atual perda do sentido da
vida, que, inclusive, repercute na educação das crianças, seja
uma das razões do crescimento do fenômeno.
Conclusão filosófica para uns, porta de saída das provações
para outros, essa forma de suicídio negligencia o seguinte fato:
de acordo com a idéia de encarnações sucessivas, não há
escapatória possível. Segundo o princípio do renascimento,
teremos de voltar à terra para enfrentar nossas questões e
dificuldades.

O suicídio de adolescentes, por sua vez, possui uma multidão
de explicações. Angústia frente ao desconhecido que o mundo
dos adultos representa, crise de crescimento, falta de referenciais,
medo de futuras dificuldade econômicas... Todas essas razões
já foram diversa e fartamente evocadas por psicólogos e
sociólogos. Mas há uma que praticamente nunca foi objeto de
reflexão, e é a seguinte: a passagem da adolescência corresponde
a uma fase iniciática. A psicóloga Françoise Dolto evocou, para
descrever esse período, aquilo que ela chamou de “complexo de
lavagante”. Como esse crustáceo do grupo das lagostas, o
adolescente sofre uma muda que o torna excessivamente frágil e
sensível. Alguma coisa nele precisa morrer (sua infância), antes
que ele possa chegar ao estado adulto. Mal acompanhada pelo
ambiente (família, escola, sociedade), essa iniciação pode se
transformar em algo crítico. Antigamente, as sociedades
tradicionais, como na Africa, instauraram ritos (a circuncisão,
por exemplo) cuja finalidade era ajudar a criança a se tornar
adulto. Nossas sociedades ocidentais abandonaram todos os ritos
e o jovem ficou entregue a si mesmo. Num período de prova e
de surda competição escolar, no qual boa parte de seu futuro
está em jogo, o jovem se sente muitas vezes desarmado.
Podemos, então, considerar a seguinte idéia: alguns
adolescentes tentariam, mais ou menos conscientemente,
provocar uma espécie de experiência iniciática, que antigamente
era simbólica, inclinando-se à tentativa de suicídio. Viveriam,
assim, no plano do corpo, a morte produzida nos domínios da
personalidade e da fisiologia, durante a passagem da infância à
maturidade. Alguns (felizmente mais numerosos) saem dela
fisicamente incólumes. Outros recomeçam, porque a tentativa
física de suicídio não resolve o problema psicológico. Mas uns
tantos acabam cometendo mesmo o irreparável.

A solução consistiria, entre outras, em instaurar um rito
moderno de passagem, adaptado à mentalidade dos jovens de
hoje, mas ainda estamos longe disso. Um dia chegará, talvez,
em que o pensamento moderno se reconciliará com a
mentalidade iniciática, com base não no misterioso nem no
demoníaco, mas num conhecimento profundo da psicologia
humana.

óí/ti6o/oj
c/a a//na e c/a //totfe
Algumas vezes, o emprego de símbolos é mais eloqüente
do que longos discursos. Eles permitem que as faculdades
inteligentes mais profundas do ser humano sejam mobilizadas
para uma compreensão do tema em questão, no mais íntimo
de seu coração. O símbolo desperta também a intuição,
mostrando a outra face das coisas, aquela diante da qual a razão
pura emudece. O ser humano imaginou uma multidão de
representações da morte. Apresentaremos aqui apenas algumas
delas.

O taro dos iconógrafos da idade média
1 - 0 Arcano Sete, A Carruagem: um Símbolo da Alma

Essa carta do famoso jogo de tarô apresenta um rei
coroado, sob um dossel, conduzindo uma carruagem cujas
rédeas estão ausentes. O rei, jovem, porta o cetro do poder
e da autoridade. A carruagem é puxada por dois cavalos,
um de cor azul e o outro de cor vermelha, que parecem ir
em direções opostas, mas que fitam o mesmo objetivo. Na
realidade, a carruagem avançaria segundo uma direção
mediana em relação à visada pelos dois cavalos. Duas letras,
S e M, estão inscritas na frente da carruagem. A tradição
que acompanha esse jogo de cartas explica que a carruagem
do triunfo é de fato um símbolo da alma. Mas qual é a origem
dessa representação?

Vejamos, então, o que diz Platão sobre a alma, em “Fedra
“Eu dina, da alma, que ela se assemelha a um a força , com posta
de uma parelha e um cocheiro alados. Nos deuses, cavalos e cocheiro
são igualm ente bons e d e boa raça; nos outros seres, têm valores
desiguais; em nós, o cocheiro dirige a parelha, mas um dos cavalos
éex celen te e de excelente raça, enquanto o outro éju sto o contrário,
p or si m esm o e p or sua origem . Disso decorre, fatalm ente, que é
tarefa penosa e árdua ter as rédeas de ?iossa alma".
Para Platão, o cavalo vicioso faz a alma pender para a térra,
se tiver sido mal adestrado pelo cocheiro, e, assim, a alma tem
de lutar para se conservar na direção do bem. Por conseguinte,
ele distingue na alma três partes, sendo uma delas o cocheiro e
as outras duas são representadas pelos cavalos. “O prim eiro, à
direita, é correto e bem talhado, tem p escoço alongado, ventas
aquilinas, p êlos brancos e olhos negros; é am ante da honradez, da
tem perança e do pudor, arraigado à opinião verdadeira; a palavra
e a razão, sem os golpes, são o que basta para conduzi-lo. O outro
é torto, grosseiro, m al talhado, tem corpo pequetio egordo, p escoço
curto, ventas achatadas, p êlos negros, e olhos azuis e injetados de
sangue; é am igo da violência e da fanfarronice, é p elu d o em volta
das orelhas, surdo, e só ob ed ece, com m uito custo, a chicotadas e
aguilhões". Em seguida, o filósofo tece as relações que os dois
cavalos mantêm com o cocheiro; um facilmente submisso, o
outro rebelde ao comando.
Poderíamos, então, crer que o tarô reproduz simplesmente
esse símbolo platônico, visto que em algumas cartas os dois
cavalos são branco e preto, e não azul e vermelho. Entretanto,
um texto hindu, o Katha Upanishad, assim se expressa: "Vede a
alma (que vivifica o corpo) com o aquela que está montada na
carruagem , e o corpo com o a carruagem ; vede o entendim ento

com o o condutor, e o espirito com o as rédeas. Os sentidos são os
cavalos e os objetos que se lhes apresentam, as rotas. A alma dotada
do corpo, dos sentidos e do espírito desfruta daquilo que lhe cerca;
assim dizem os sábios. A pessoa desprovida de sabedoria e que não
fa z uso das rédeas tem sentidos indomáveis, com o os cavalos ariscos
que puxam a carruagem ... Aquela cuja carruagem é dirigida
p or um sábio condutor e cujas rédeas (do espírito) são habilm ente
utilizadas alcança a m eta colocada na extremidade da rota, a
morada superior de Vishnu".
No B hagavad-G ita, uma famosa carruagem é também
descrita. A que conduz o divino Krishna pelas mãos de Arjuna,
o arqueiro. O primeiro representa a consciência e o segundo,
a vontade. Juntos, eles guiam a carruagem da alma e sua ação
neste mundo. Mas a vontade deve ser submissa e educada pela
consciência superior.
2 - 0 Arcano Sem Nome
A décima terceira carta do tarô é a única que não tem nome.
Por esse motivo, foi batizada "Arcano Sem Nome". Aquilo que
tem nome pode ser designado na qualidade de fenômeno
palpável, portador de vida. A morte não faz parte dessa
categoria; ela é inapreensível em sua qualidade de passagem
evanescente. Na compreensão popular, ela se tornou sinônimo
de supressão do ser. Quando a morte sobrevem, entre alguns
grupos africanos, ninguém pode pronunciar o nome do morto
por algum tempo.
Na carta do tarô, a personagem esquelética, com a foice,
corta mãos, pés e cabeças coroadas, em meio a ramos de ervas.
Ela manifesta, assim, a igualdade de todos diante da morte. O
chão é de cor preta, que lembra a fase negra da alquimia. A

cabeça representa a consciência, e as ervas, a vida vegetativa. A
morte, portanto, corta consciência e vida, livrando-se de
riquezas. A foice, da cor do sangue, despreza o inútil para
conservar apenas o que é verdadeiramente produtivo. Apenas
as extremidades dos membros são cortadas. A morte tem,
portanto, uma função purificadora.
Associada ao número treze, ela marca (ao menos na França)
esse número com uma idéia de infortúnio. Pode-se ver aí uma
ligação com o número do Cristo e seus apóstolos, em torno da
mesa da Ceia, e dentre os quais um deles era um traidor. Não
há quartos de número treze nos hotéis, ter treze convidados à
mesa traz desgraça e a sexta-feira 13 é um dia nefasto. Na
China, o número quatro, redução teosófica de 13 (1 + 3 ),
constitui um presságio de morte. A superstição que acompanha
essa cifra é a mesma da que envolve a morte. Trata-se, na
verdade, da exacerbação de uma resistência à mudança.

renascimento do ser humano muito além da morte, no fim dos
tempos. A palavra “julgamento” refere-se aqui ao primeiro
Julgamento dos Justos, do Apocalipse de São João.
Mas houve, na História, outros túmulos famosos que foram
abertos, entre os quais o do Cristo e o de C hristian
Rosenkreutz.

3 - 0 Arcano Vinte, O Julgamento - Túmulos Célebres

O túmulo da personagem mítica C. R. C. foi aberto por
buscadores, segundo a lenda, cento e vinte anos após sua morte.
Nele, eles encontraram o corpo, conservado intacto, do
presumido fundador da Fraternidade dos Rosacruzes. Na
realidade, o túmulo, ele próprio um livro de conhecimento,
encerra tesouros, manuscritos, obras de sabedoria... A abertura
desse túmulo marcava o ressurgimento da Ordem num
determinado país, depois de um necessário período de sono,
de mais de um século. O “Fama Fraternitatis”, texto que narra
a história de sua descoberta, sugere que aquele ou aqueles que
conhecem a natureza dessa cripta e dos tesouros que ela encerra
tornam-se capazes de restaurar de novo a Ordem ou a
Fraternidade. E isso, mesmo que, após centenas de anos, ela
tenha sido reduzida a nada. Essa lenda simbólica sugere, na
verdade, que a Ordem Rosacruz, AMORC, identificada por
C.R.C., é uma Organização que sabe ficar sempre jovem e atual.
Não obstante permaneça tradicional, ela sabe também morrer
a fim de melhor se regenerar, como uma fênix que renasce
perpetuamente de suas próprias cinzas.

O túmulo representa o local de um processo de renas­
cimento, após a morte. Nesse arcano, uma personagem,
desenhada de costas, é despertada pela trombeta do anjo do
Julgamento. Dois indivíduos, um homem e uma mulher,
assistem religiosamente à ressurreição. Esse símbolo marca o

O túmulo do Cristo, por sua vez, foi encontrado vazio pelos
discípulos do mestre. “Cristo ressuscitou! ”, exclamaram. O
túmulo estava vazio, seu ocupante só podia mesmo estar vivo.
A morte foi para ele o local de maturação de uma obra que

O verdadeiro sentido do arcano indica o despojamento
extremo (os ossos representados são brancos) que acompanha
uma transformação. Ela marca o fim de um ciclo, para uma nova
primavera. Esse arcano (por ser um princípio invisível mas ativo)
sugere que o processo morte-transição é onipresente em toda
existência. Assim, o ser humano e as sociedades sofrem contínuas
transformações que constituem outras tantas “mortes”.

cobriu dois milênios. Ela sinalizou uma mudança por meio da
qual o homem Jesus foi transformado em um deus por seus
discípulos. Muitas vezes, e é o caso da Alsácia, calvários são
colocados sobre um crânio ou sobre o caixão de alguém, cujo
esqueleto pode ser visto. Isso faz alusão ao Gólgota ou “local
do crânio”, em Jerusalém, onde a cruz do sacrifício cristão se
realizou. Trata-se também do velho Adão, cujo caixão se
encontra sob a cruz. A cabeça freqüentemente é associada à
morte (cf. o Arcano Sem Nome, cortador de cabeças). As
ornamentações da Renascença usam bastante essa repre­
sentação. Em alguns ritos maçônicos, cabeças da morte estão
presentes e uma é colocada na câmara da reflexão. Tudo isso
sugere, na simbologia cristã, que o ser humano que morreu
em Adão é regenerado no Cristo, graças à obra da cruz e a do
tümulo tornado vazio. A própria cruz pode ser representada
pelo número treze, como na Rosacruz Hermética. Em cada
ponto cardeal, três elementos estão representados, mostrando
doze princípios. O décimo terceiro encontra-se no centro da
cruz, no qual se realiza o ato sacrificial.

de Languedoc, na Idade Média. Uma nova vida, então, ganha
raízes na caverna. Ela pode conduzir à terra, como no caso de
um recém-nascido, ou dar acesso à vida eterna, rumo ao céu.
Corresponde, portanto, ao local de passagem por excelência.
“Visita o interior da terra e, retificando-o, encontrarás a Pedra ”,
diz, em suma, a Tábua de Esmeralda. Em cima dessa bíblia
dos alquimistas, estava gravada a palavra "vitriol”. Não é no
topo de uma montanha, mas numa gruta, lugar subterrâneo,
que se realiza a primeira transmutação, a “obra em negro” ou
a nigredo do alquimista, associada à morte e à putrefação.

4 - A Gruta

Existem outros instrumentos utilizados nas cerimônias,
tanto cristãs como de outras religiões, cujo valor simbólico é
inegável. A água, benta ou em outras formas, representa a idéia
de purificação da alma. Antigamente, entre os camponeses,
costumava-se colocar um jarro com água no quarto do morto.
Acreditava-se então que a alma devia se banhar antes de alçar
vôo. O fogo também estava presente na forma das chamas das
velas, que eram acesas ao lado do caixão. Ele simboliza a
imortalidade do princípio invisível do ser humano. O incenso
que perfuma os templos e as igrejas, e cujas volutas envolvem
os corpos, representa, neste mundo, a essência etérea da alma
do morto. Ele se insinua progressivamente em todos os cantos,

Outro símbolo, a gruta, também é freqüentemente associado
à idéia de morte-renascimento. Platão utilizou o mito da
caverna, em cuja entrada o habitante percebe a luz que vem de
fora. As representações cristãs fazem da gruta o local do
nascimento e da morte de Jesus. O presépio do nascimento é
uma gruta, o túmulo do Cristo é outra. Foi numa gruta que a
Virgem Maria apareceu para Bernadete, em Lourdes, e lhe
confiou sua revelação.
Lugar de trevas, é nela que o ser atinge a maturidade. Pode
também se tornar um local de iniciação, como entre os cátaros

As civilizações que precederam os celtas na Europa
reconstituíram a gruta através dos dólmens. Esses prova­
velmente deviam servir como local de iniciação. Representação
da matriz materna, serviam igualmente como campos de
sepultura. Pode-se entrar num dólmen como na morte ou dele
sair rumo ao sol do oeste, para um novo nascimento. Vemos
aqui o quanto a idéia da morte é inseparável da idéia do
nascimento.

a exemplo do elemento ar ao qual está associado. Enfim, quem
não se lembra do punhado de terra que tradicionalmente era
jogado sobre o caixão, no cemitério, antes da inumação
definitiva? As flores, que lembram a juventude eterna, a beleza
e o renascimento cíclico, também fazem parte dos principios
freqüentemente utilizados.
Ao contato da morte, tudo se torna símbolo. Tradi­
cionalmente, há quatro maneiras de devolver o corpo à
natureza, assim como quatro são os princípios que regem nosso
universo: pela terra, na forma da inumação mais ou menos
direta; pelo fogo, através da cremação; pela água, como fazem
os marinheiros e também no Oriente, onde os corpos
desmembrados são lançados num rio; e, finalmente, pelo ar,
quando é exposto, sem sepultura, ao ataque dos animais de
rapina. Pouco importa o método utilizado, contanto que um
rito sagrado seja realizado.

(9

c/atí/w c/a a////a

Somos inclinados a nos apegarmos ao ego e à sua
sobrevivência. Não obstante, outras concepções, que podem
ser muito valiosas, foram apresentadas aqui à guisa de reflexão.
O universo pode ser imaginado como um grande ser em
devenir, cada componente do qual executa uma função antes
de morrer definitivamente. Enquanto as partes desaparecem,
o Ser supremo, o propósito, prossegue seu desenvolvimento —
esta é a posição saducéia. Tomemos o ca so de um form igu eiro:
cada formiga executa uma tarefa específica, quase meca­
nicamente. Quer sofra ou não, ao final de sua existência, a
formiga se retira e desaparece definitivamente como entidade
constituída. Uma vez esgotada a energia que lhe permitiu
desempenhar seu papel, ela morre. Nada de reencarnação, nada
de sobrevivência, simplesmente uma obra a ser feita enquanto
a criatura está viva, em perfeita harmonia com o plano criador
do formigueiro. Nada impede que seja exatamente assim para
o ser humano, e ponto final. O ego é ilusão, o sofrimento pouco
importa, a alegria pouco importa, somente a obra viva e criativa
possui algum valor.
Isso bem poderia representar a verdade final do nosso futuro
e da nossa razão de ser (por que não?). No entanto, o ego do
ser humano não se satisfaz com isso. Ele não aceita ser tãosomente a engrenagem utilizada por um imenso ser vivo, uma
engrenagem da qual o todo se livra depois que ela cumpriu
sua função.
A visão acima, para um ser consciente e dotado de livre
arbítrio, exige uma capacidade de abnegação sobre-humana

para ser aceita. A concepção budista de anatman (sem alma)
aproxima-se dessa visão, e o próprio Dalai Lama, embora a
defenda, explica que ela pode levar pessoas não preparadas ao
niilismo.
O que, provavelmente, levou alguns filósofos a considerarem
outras soluções, baseadas nos dois fatos abaixo.
1. O ser humano é um ser consciente de si mesmo; ele tem
consciência de sua alegria e de sua dor, e busca sua felicidade.
2. Sua consciência altamente desenvolvida proporciona-lhe
um poder de discriminação e discernimento, e o livre-arbítrio.
Disso decorre que o fenômeno humano, em sua grande
maioria, dificilmente aceita que um demiurgo ponha no mundo
criaturas para faze-las desaparecer para sempre, sendo que
muitas são chamadas a sofrer. Esse arquiteto seria, então, uma
espécie de Moloque ou de monstro arbitrário que se serviria
de suas criaturas, antes de se livrar delas, como a lenço de papel
usado. O ser humano não consegue apreender os fundamentos
de uma ação como essa, que o criou na luz, fazendo-o sofrer,
para no fim faze-lo desaparecer através de uma morte absurda.
Mesmo que possamos admitir que a coletividade, por sua
evolução científica, tenha se libertado progressivamente da
fatalidade do sofrimento, nem por isso essa dor deixa de ser
inteira para o indivíduo, num dado instante de sua história. A
ciência, a despeito de seu desenvolvimento, nunca triunfará
sobre a morte.
Então, veio a idéia de um desígnio mais vasto reservado ao
ser humano. Ele não está mais na Terra unicamente para

cumprir uma função quase mecânica, mas tornou-se a
testemunha do Deus criador. Assim, foi concebido como um
ser em devenir. Um ser livre, cujos atos podem ser sancionados
e cuja morte não mais constitui o fim. Sua vida, portanto,
enquadra-se num esquema mais vasto, em consonância com
as faculdades por ele demonstradas.
Das particularidades de seu ser inteligente, veio a idéia de
que a liberdade por ele manifesta presume a possibilidade de
agir segundo o aspecto destruidor da lei universal. Alguns atos
foram concebidos como justos e outros como falsos ou
inarmônicos em vista de uma progressão da Criação, entregue
às tendências construtivas de sua natureza. A fim de que o ser
humano não ficasse mais sujeito ao seu próprio arbítrio, à sua
própria desordem, veio-lhe a revelação de que seus atos podem
ser julgados por uma Justiça Universal que mantém o equilíbrio
na Criação; uma harmonia rompida pela ação desordenada,
cega e egoísta do ser humano. Se, a despeito de tudo, ele é um
produto da natureza, pode igualmente edificar a si mesmo em
acordo ou desacordo com a corrente construtiva geral que
preside ao alçamento de sua consciência e de todo seu ser. Foi
em função das idéias de livre-arbítrio, de justiça retribuidora e
de consciência organizada e abstrata, que germinou a
convicção de que esse ser excepcional não pode desaparecer
tão simplesmente como uma formiga.
O conceito deatm an, a alma individual dos hindus, emergiu.
Com os conhecimentos adquiridos hoje em matéria de
psicologia profunda, essa alma pode ser qualificada de
personalidade-alma ou eu individual. Porque o ser humano
pode declarar “eu sou”, à imagem do “eu sou Aquele que é ” do
Deus bíblico, presumiu-se que um núcleo de seu ser pode,

após purificação, participar na imortalidade divina. Melhor
ainda, esse “eu sou” humano só pode ser um produto do “Eu
Sou” divino e, por conseguinte, sua verdadeira identidade foi
concebida como divina. Então, uma centelha, um fogo sagrado
depositado no coração do ser humano pode continuar aceso, a
despeito do desaparecimento do corpo que a continha.

(Soncáuão
“Há um vivo p on to d e interrogação ante a vida em geral, mas
igualm ente em fa c e de todo ensinamento. Nunca aceite, a priori,
um conhecim ento; ponha-o em prática, experimente, trabalhe com
ele e tire as conclusões necessárias ao seu progresso. .. "
Essa reflexão Rosacruz pode se tornar uma fonte de
meditação para cada um.
O tema da morte geralmente é objeto de exclusão nas mentes
racionais, que consideram que nunca poderemos saber o que
ela representa realmente. “Ninguém nunca voltou para nos
contar o que viu lá em cima (ou lá em baixo)”, dizem, com ar
de sabedoria douta. No entanto, a experiência prova que uma
verdadeira pesquisa pode fornecer alguns indícios. As
experiências de morte iminente ensinam sobre os estados
vizinhos à morte, o acompanhamento ajuda a compreender
aquilo por que passam os agonizantes. A possibilidade de
contato ou de influência entre os vivos e os mortos é sempre
evocada. Contudo, nada disso nos ensina
coisa alguma sobre a

realidade da experiência derradeira. E como se nós opusés­
semos nossa possibilidade de conhecer as coisas e as leis do
nosso mundo ao desconhecido que é a morte.
Estamos nós tão seguros de poder conhecer tudo neste
mundo? Nós nos interrogamos sobre a natureza da consciência
depois da morte, mas que sabemos sobre o estado de
consciência de um simples animal, sem falar da consciência do
nosso próximo? Nós conseguimos determinar o tamanho de

um cão, suas necessidades, seus humores, seus modos de
reprodução e comunicação... mas isto não nos informa nada
sobre a intimidade de seus modos de conscientização. Tudo
isso, portanto, não passa de conhecimentos externos. No
entanto, saciamos nossa ignorância contentando-nos com esses
indícios externos. A maior parte dos nossos conhecimentos
neste mundo é exatamente assim. Moldamos matematicamente
as leis naturais (pelo menos aquilo que acreditamos ter
compreendido), desenvolvemos tecnologias, mas as coisas em
si continuam desconhecidas. Ignoramos, por exemplo, qual é
a natureza intrínseca do átomo, exceto que ele corresponde a
um conjunto de partículas cada vez menores, como num jogo
de bonecas russas. Usamos e calculamos os campos magnéticos,
mesmo ignorando sua verdadeira natureza. Acaso sabemos ao
menos o que é uma vibração em sua natureza profunda? Um
fóton é considerado ora uma onda ora um corpúsculo. Uma
onda é uma vibração. Que é que vibra, então? Que é que dá a
polaridade positiva ou negativa ao elétron ou ao ímã? Nossa
ciência ainda não sabe. Mesmo assim, ela explora suas
propriedades em nossos eletrodomésticos.
Se somos tão pouco informados acerca de nosso mundo,
por que ficarmos chocados com a ignorância sobre a morte?
No fim das contas, também em relação a ela, temos os indícios
já citados. Tentar empreender pesquisas sobre ela possui
também interesse prático. Poderia ela, talvez, nos dar as
respostas para todas as outras perguntas? A longo termo, para
nossa surpresa, percebemos que, com a prática da meditação,
o estado da consciência se transforma progressivamente.
Finalmente, ao fim de alguns meses ou anos, a necessidade de
obter um conhecimento objetivo sobre ela adquire cada vez
menos importância, para dar lugar a um estado de paz. A

verdade é que a reflexão sobre o tema desloca progressivamente
os pólos de interesse principais, do ter para o ser. Tudo se passa
como se, paradoxalmente, ela tornasse a vida mais bela, a
exemplo daquilo que vivenciam os que passam por uma EMI.
A diferença está em que, para eles, a transformação se produz
em alguns minutos.
Se um conhecimento produz tantos resultados práticos, é
porque possui um interesse real, num sentido pragmático. Foi
exatamente isso, aliás, que C. G. Jung pressentiu: “O ser humano
d eve pod er ter a prova de q u efez todo o possível para form a r uma
con cepçã o ou uma im agem da vida após a morte, ainda que isto
seja uma declaração de sua im potência. Quem já não sofreu uma
perda? Pois a instância interrogativa q u efa la n ele é uma herança
m uito longínqua da humanidade, um arquétipo rico de vida
secreta, que quer se unir à nossa para aperfeiçoá-la. A razão nos
im põe lim ites excessivamente estreitos e nos convida a viver apenas
o con hecid o (ainda que com m uitas restrições) e numa esfera
conhecida, com o se conhecêssem os a verdadeira amplitude da vida”.
Se apenas com muita dificuldade conseguimos compreender
a morte intelectualmente, podemos tentar nos familiarizar com
ela, para descortinarmos intuitivamente sua função. Mas, para
isso é preciso ousar cercá-la em todas as suas manifestações
mais ou menos discretas. A imortalidade da alma representa
um fenômeno e as condições que o enquadram já foram
definidas. O obstáculo à sua compreensão talvez venha de
nosso modo de abordá-lo; sua natureza é incompreensível, se
não for acompanhado da ativação da inteligência do coração e
de certa dose de poesia.
Não creio que o além possa ser descrito em termos do nosso
mundo. Tudo o que dizem as lendas, as tradições, as religiões

e os filósofos são apenas símbolos da experiência da alma.
Permitem unicamente pressentir a verdade, mas esta está
sempre alhures. Podemos sonhar com a preservação do ego,
da autoconsciência e de quaisquer outras coisas que possam
ser conservadas; n ossos desejos e, talvez a razão, sigam nessa
direção. A realidade, porém, provavelmente é mais sutil.
Quando um homem ou mulher morre, a experiência de sua
vida é conservada em algum recôndito da memória universal
(um dia chegará em que a própria ciência provará a existência
desta memória). A imagem do disquete que permite conservar
o trabalho feito no computador simboliza bem essa idéia da
conservação dos feitos humanos. Entretanto, a identidade é
conservada de modo impessoal, até ser utilizada na terra numa
futura encarnação.
O ser humano, desde sempre, num recôndito de sua
consciência, está em contato com o infinito. O passado, o
presente e até o futuro não têm segredos para ele. E bem nesse
nível da consciência que cada um encontra seus ancestrais;
eles vivem em nós. O período de luto permite a cada um
compreender e realizar esse fato. Para muitos, passar pelo luto
é o mesmo que esquecer, quando, na verdade, trata-se de
integrar simbolicamente em si a alma do antepassado. Então,
o vivo pode ser inspirado por aqueles com quem está em
harmonia. Isso, aliás, não significa forçosamente um contato
entre duas pessoas, mas uma harmonização momentânea (e
talvez involuntária) entre duas vibrações simpáticas. Os grandes
ancestrais correspondem aos mestres das tradições esotéricas;
e o Mestre, como se costuma dizer, só se expressa quando o
discípulo se eleva até ele.

A morte corresponde a uma fusão naquilo que os
Rosacruzes denominam O Cósmico. Quantos sábios já
explicaram que, nessa fusão, o ser humano perde momen­
taneamente a consciência de sua identidade, como as cores
perdem a sua na luz branca do sol. A identidade continua lá,
adormecida, até que uma nova vida leve-a a se manifestar. Com
a morte, o ser humano funde-se na luz, unindo-se ao amor
incondicional, perfeito, infinito, e ... nele se perde. Da mesma
forma como ele se perde no sono. Mas isso não dura, pois nesse
plano o tempo é abolido. Parte do medo da morte pode,
portanto, ser comparado ao medo daquele tipo de pessoa que
se angustia perante o sono, porque não quer perder o controle
nem abandonar sua consciência de vigília. Para aceitar o sono,
a pessoa precisa primeiro ter confiança no fato de que, na
manhã seguinte, ela vai acordar, e, em seguida, deixar-se levar.
É a mesma coisa em relação à morte. Confiança é a palavrachave.
Assim, entre uma morte e um nascimento, há uma
continuidade de consciência. No intervalo, a alma passa pela
purificação que se segue ao seu julgamento ou pesagem
simbólica. Com toda certeza, é isso que acontece, senão, para
que serviria morrer, no plano da alma?
No curso dos tempos, outras versões mais materialistas
foram inventadas. Em sua angústia, o ser humano não queria
considerar outro modo de existência, bem diferente do que ele
conhecia. O espiritismo representa uma tentativa moderna,
muito elaborada, nesse sentido. Para muitas pessoas, é difícil
ficar numa abstração que não as satisfaz. Os grandes
fundadores de religião souberam levar em conta esse fator,
sugerindo o conhecimento e, ao mesmo tempo, respondendo

às aspirações dos povos. Mas a humanidade até hoje não
compreendeu que a realidade é muito mais bela que as ficções
inventadas pelos seres humanos. Os experimentadores de EMI
falam da luz e da unidade que encontraram nela. Basta ouvir
os testemunhos que eles dão ao retornarem.
Uma história sufi usa o símbolo da borboleta da noite, que
gosta tanto da luz da vela que tenta se aproximar dela, até que
acaba queimando as asas e, por fim, morrendo. A alma é como
essa borboleta, com uma diferença: sua própria natureza é a
luz. Assim, longe de se aniquilar em seu contato, ela se encontra
consigo mesma, em sua natureza suprema e verdadeira. Longe
de morrer para sempre, ela se põe a viver sua vida própria.
Longe de se deslumbrar na pequenez de um ego ilusório, ela
abre suas asas imensas e voa rumo à eternidade.
No continente norte-americano, existe uma raça de
borboletas, as monarcas, que voam, a cada dois anos, do Canadá
até o México. A migração, uma das mais extraordinárias de
todas na Terra, abrange várias gerações desses insetos. Aos
milhões, elas levantam vôo para uma viagem de vários milhares
de quilômetros, cujo circuito é conhecido dos observadores.
Em sua chegada ao México, elas são objeto de grandes festejos,
pois os mexicanos acreditam que essas borboletas são as almas
de seus ancestrais voltando ao país.
Observando as manifestações de sofrimento, destruição e
morte neste mundo, comparáveis às nossas atividades e à
incessante competição, ficamos tentados a acreditar que
vivemos no planeta da agitação, ao largo dos verdadeiros valores
da vida. Podemos viver e agir dentro do mundo, mas a meta de
todas as atividades é e será sempre nos fazer tomar consciência

do incrível esplendor das dimensões espirituais. São desejáveis
essas esferas onde não reina nem sofrimento nem morte, onde
todas as coisas correm de sua fonte numa harm onia
intraduzível. Estamos na Terra para melhor aspirar ao céu.
Trata-se de uma escolha voluntária. A escolha da pessoa que
compreende que este mundo é apenas "vaidade e perseguição
de ven to”.
A busca do Único e o esforço para guiar outras pessoas rumo
a Ele são louváveis e provavelmente louvadas... em algum outro
lugar. Neste mundo aqui, nada é estável. Tão logo a pessoa
acha que se apossou de uma situação, esta lhe escapa. Perdese um amigo, sofre-se uma provação terrível. Num dado
momento, as pessoas se questionam sobre o sentido de suas
dificuldades e depois esquecem, até que a aspereza do mundo
as apanhe de novo. De tempos em tempos, uma guerra é
disparada, elevando o nível do so frim en to humano. Não
obstante, muitos vivem às cegas nesta terra. Os mais lúcidos,
porém, sabem que não há muito o que esperar. Somente uma
atitude plena de espiritualidade e de gratidão para com o
Criador santifica a passagem neste mundo.
A vida só pode ser verdadeiramente feliz e bela se o ser
humano situá-la no coração de um desígnio mais vasto que ele
mesmo. Senão, ela corresponde tão-somente a uma busca de
vãs quimeras. A felicidade não pode ser puramente um produto
da matéria. Ela pode vir somente da contemplação do espiritual,
inclusive do espiritual contido - por que não? - na matéria. A
ação sem a contemplação não é nada.

£ S ¿6 / w < / ia / ía
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realização hum ana. Essa profunda e prática sabedoria,
cuidadosamente preservada e desenvolvida pelas Escolas
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sincera, de mente aberta e motivação positiva e construtiva.
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despertar o potencial interior do ser
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fraternidade, respeitando a liberdade
individual, dentro da Tradição e
da Cultura Rosacruz.

morte constitui, tanto no plano individual

S

"

é um

como no social, um dos principais eventos da
vida. Em todas as crenças, épocas e lugares, ela
p o rt a l cu ja

p a ssa g em

su scita

p e rg u n ta s

fundamentais: que há depois da morte? Que acontece
com a alma e a personalidade? Seria a morte apenas uma
espécie de sono? Que existe no “intervalo'' entre duas
vidas? E possível preparar-se para m orrer ou ajudar
alguém a faze-lo? C om o combater o medo da morte? E
possível contatar os mortos? Se a reencarnação existe,
qual parte de nós reencarna?
Este livro , s in g u la rm e n te c o m p le to , é fr u to de
p e s q u is a s e fe tu a d a s na U n i v e r s i d a d e R o s a c ru z
Internacional. É um a síntese não apenas cultural e
sociológica, mas tam b ém filosófica e espiritual, de
reflexões sobre a morte e seus mistérios. Ele nos incita,
pela riqueza das análises apresentadas, à compreensão
da alma e do destino humano.

\ s è DIFFUSION
VROSICRUCIENNE