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UNIÃO LIVRE E O NOVO CÓDIGO CIVIL

Francisco das Chagas Lima Filho

SUMÁRIO: I. Introdução - II. União estável: 1. Noções introdutórias; 2.
Suporte conceitual; 3. Direitos e deveres dos companheiros; 4.
Regime patrimonial; 5. Dissolução da união estável. Efeitos; 6.
Conversão da união estável em casamento; 7. União estável no direito
comparado; 8. União livre entre pessoas do mesmo sexo - III.
Conclusão - Referências bibliográficas.

I. INTRODUÇÃO

Escrever sobre o instituto da família é antes de tudo um exercício de
memória, uma tarefa das mais árduas, porquanto se trata de uma das mais
antigas instituições da humanidade, senão a mais antiga. 1

Fundada na agregação de indivíduos em torno da propriedade
agrária, a história da família se confunde com a própria história e,
juntamente ao pólo econômico, é ela quem estrutura o desenvolvimento
das diversas civilizações. 2

Estando vinculada às transformações sociais, a família teve sua
evolução ligada à evolução da própria sociedade.
1

Na história dos agrupamentos humanos, é a família o que precedeu e todos os outros, como
fenômeno biológico e como fenômeno social.
2
BRANDÃO SOARES. Sônia Barroso. Famílias monoparentais: aspectos polêmicos. Problemas de
Direito Civil-Constitucional. Gustavo Tepedino (coord.). São Paulo: Renovar, 2000, p. 547.

1

Várias foram as formas pelas quais a família se apresentou ao longo
da história.

A doutrina costuma dividir a evolução do instituto da família em três
fases, a saber: inicialmente, prevalecia o estado selvagem, passando a
seguir para a barbárie e finalmente, a civilização.

Na fase inicial o homem apropria-se da natureza e dela se utiliza.
Surgem o arco e a flecha e, conseqüentemente, a caça. Começa também a
ser articulada a linguagem.

No

segundo estágio

desenvolvimento

da

- o estado de

agricultura,

da

barbárie

pecuária

e

- tem início
do

o

artesanato

(especialmente a cerâmica).

No terceiro período - o da civilização - aprende o homem a
desenvolver muito mais a elaboração dos produtos da natureza, tendo este
período como marca predominante, a indústria e a arte. 3

Importante frisar que as mudanças ocorridas a partir deste último
período,

tiveram

como

fator

primordial

os

aspectos

religiosos

e

econômicos. 4

3

Idem. p. 548.
A origem da família antiga não está apenas na geração. A prova disso encontramos no fato da irmã
na família não se igualar ao seu irmão, em que o filho emancipado ou a filha casada deixarem
completamente de fazer parte dela, e temo-la, enfim, nas numerosas disposições importantes das leis
greco-romanas, como adiante teremos ocasião de constatar. O princípio da família não o
encontramos tão-pouco no afeto natural. O direito grego e o direito romano não levavam em
consideração esse sentimento. Podia esse realmente existir no âmago dos corações, porém para o
direito nada representava. O pai podia amar muito sua filha, mas não podia legar-lhe os seus bens.
As leis da sucessão, isto é, aquelas leis de entre as demais que com maior exatidão traduzem as
idéias formadas pelos homens sobre a família, essas estão em flagrante contradição tanto com a
ordem de nascimento como o afeto natural. CULANGES, Fustel de. A cidade antiga. Trad. Jonas
Camargo e Eduardo Fonseca. São Paulo: HEMUS - Livraria Editora Ltda., 1975, p. 33.

4

2

Na Idade Contemporânea, a organização da família, na grande
maioria dos países ocidentais, teve como base a estrutura do Código Civil
francês de 1804, conhecido como Código de Napoleão.

A estrutura referencial dessa família, sob o ponto de vista jurídico é
a família romana, que lançou suas bases e modelo de organização patriarcal - para todo o ocidente.

Entre nós, o modelo referencial de família é o vetusto Código Civil de
1916, cuja aprovação deu-se após cerca de dezesseis anos de discussão. 5

Este Diploma teve como modelo de inspiração, no âmbito do Direito
de Família, o Código de Napoleão, de concepção do Século XVIII.

Levando em conta que muito embora o Código Civil tenha sofrido
muitas modificações e até retaliações, a concepção do Direito de Família
por meio de seus textos normativos continua a mesma. 6

Assim, não se torna difícil perceber que os princípios estruturadores
do Direito de Família no Brasil, e em muitos outros países do ocidente,
ainda

se

encontram

embasados

em

concepções

de

uma

falsa

e

ultrapassada moral sexual, o que, aliás, continua a se repetir no Código
Civil recentemente aprovado - Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. 7

Foi a partir da Revolução Industrial, com uma espécie de redivisão
sexual do trabalho, com o movimento feminista e do declínio da ideologia
patriarcal, que os paradigmas da família começaram a sofrer alterações.

5

O novo Código, cuja vigência dar-se-á a partir de janeiro de 2003, levou cerca de 20 anos
tramitando no Congresso Nacional, o que demonstra uma ausência de vontade do legislador em
atualizar as leis em nosso País.
6
Agora alterado parcialmente com o novo Código - Lei 10.406, de 10.01.2002.
7
Vide o disposto nos art. 1.511 e seguintes do novo Código.

3

Assim, a família perde a característica principal de núcleo econômico
e de reprodução para, gradativamente, vir se tornando um espaço de
companheirismo, camaradagem e livre expressão do amor e do afeto.

A Constituição de 88 refletindo essas mudanças trouxe um grande
avanço legislativo no âmbito do Direito de Família, em que pese à
resistência de alguns "moralistas" desapegados da realidade social.

Com efeito, estabeleceu no art. 5º, inciso I, a igualdade entre
homens e mulheres perante a lei, passando o Estado a reconhecer outras
formas de família além daquela tradicional constituída pelo vínculo do
casamento (art. 226). 8

Ficaram proibidas todas e quaisquer discriminações entre filhos
havidos dentro e fora do casamento.

Mesmo assim, essas modernas concepções, reflexos de uma nova
época, ainda não foram totalmente aceitas pelos operadores do Direito. E
isso se dá porque traduzem, principalmente, outras concepções morais e
novas formas de relacionamentos sexuais. A proteção do Estado a outras
formas de família e de filiação e a igualização dos gêneros, pelo menos
teoricamente, evidencia o rompimento de uma moral sexual (hipócrita)
instituída e institucionalizada que não tem mais condições se subsistir face ao afrouxamento dos costumes e ao avanço da ciência - e de
determinar as relações como atualmente ainda alguns tentam manter,
8

Para a doutrina são três as espécies de família, conforme sua fonte seja o matrimônio, o
companheirismo ou a adoção, pois, juridicamente, pelos arts. 226, § 4º, e 227, § 6º, da Constituição
Federal, pelo art. 20 da Lei nº 8.069/90, e pelo art. 1.596 do novo Código Civil, não há mais que se
fazer tal discriminação, de modo que para todos os efeitos legais o filho será simplesmente filho, seja
qual for o tipo de relacionamento de seus pais. A família matrimonial é que tem por base o
casamento, sendo o grupo composto pelos cônjuges e prole; não-matrimonial, aquela oriunda de
relações extraconjugais, e a adotiva estabelecida pela adoção, nos termos do dos arts. 1.618 e 1.629
do Código Civil. DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. Direito de Família. São Paulo:
Saraiva, 5º vol., 2002, p. 12.

4

provenham ou não do matrimônio.deu legitimidade familiar a um novo modo de convivência que por muito tempo discriminatório. ou uniões concubinárias. p. libertação e integridade dos sujeitos. 9 A nova ordem constitucional . recebeu embora nem tratamento sempre dispersivo condenatório: e as incerto. A Sexualidade vista pelos Tribunais. é preciso entender suas concepções morais. Somente assim estaremos mais próximos do ideal de justiça e da possibilidade da liberdade. Sob todos os aspectos. 34. legitimar a liberdade nas relações sexuais. De qualquer forma. e buscar o princípio de tudo para entender o presente e fazer o futuro. mudar paradigmas. Para que se possa pensar as ralações humanas. a partir das quais se constituem famílias sem necessidade do vínculo solene do matrimônio. Rodrigo da. As transformações por que passou a família 9 CUNHA PEIXOTO. 2000. uniões senão livres estáveis. 5 . essa é a demanda jurídica desse novo século.implantada a partir de 04 de outubro de 1988 .especialmente aqueles ligados a certas religiões pregadoras "da moral e dos bons costumes". a relatividade dos conceitos. verifica-se o interesse do Estado moderno em legitimar as uniões estáveis. razões e sustentáculos da ciência jurídica. Entender e absorver esses princípios constitucionais significa também permitir e legitimar mudanças nas estruturas das relações afetivas e. as relações de família juridicamente protegidas. de poder. conseqüentemente. Importa menos o ato solene de constituição da família do que a vontade contínua de manter os vínculos afetivos que sustentam a conservação do grupo familiar. Belo Horizonte: Del Rey. enfim.

União Livre à Luz da Lei 8. 12 Foi essa a visão do constituinte de 88 quando no art. 10 GOMES. que tragam garantias econômicas no âmbito das relações familiares. como núcleos básicos da organização social. Reconhecendo os Tribunais. 1999. Direito de Família. Forense. Enfim. assim. Orlando. que proporcionem ou pelo menos facilitem a educação dos filhos pelos pais. atribuise à união livre os mesmos efeitos do matrimônio. que ajudara a formar e agora com o novo Código. e por isso. 1. 226 do Texto Maior declarou que a família é base da sociedade. 11 Como sabemos.790). tem proteção especial do Estado. uma "família informal". 41-42.278/96. 12 Para concretizar esse amparo. atinge-se. 9ª edição. o Direito de Família tem como objetivo primordial viabilizar e instrumentalizar a função fundamental do Estado proteger e amparar as famílias. por outro lado. o Estado edita normas que têm por escopo fortalecer a íntima vinculação existente entre seus integrantes. o direito à herança (art. de forma a criar mecanismos que assegurem e facilitem a assistência entre eles. ao lado da família oriunda do vínculo matrimonial. o reconhecimento dos "filhos ilegítimos" e se permitindo. que a condição de companheira fosse declarada. como ocorre para fins assistenciais e previdenciários. Tendo-se facilitado. embora em grau menor. p. ainda quando trata de distantes relações de parentesco ou de afinidade. aquela certeza das relações jurídicas que constitui a finalidade precípua do direito matrimonial. essa proteção. que a companheira faz jus ao recebimento de parte do patrimônio do concubinário. mormente nos países em que vigora o princípio da indissolubilidade do vínculo matrimonial. para certos efeitos. que se origina e subsiste sem o casamento.971/94 e da Lei 9. São Paulo. p. Curitiba: Juruá Editora. 11 6 .favorecem sua organização a latere do matrimônio. 10 Há. 41. no âmbito jurídico. por fim.

2ª edição. da Parte Especial.2003: "É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher. mas de cuja íntima convivência tenha nascido filho. pelos meios que forem possíveis. pelas normas próprias de filiação. 42. 1991. 7 . O Estado.723 no novo Código Civil. porque a mesma gerou e está a educar (de forma conveniente. BITTAR. p. excluindo-se as entidades familiares e as demais uniões livres de caráter estável que não são provenientes do matrimônio.hoje parece manifesto equívoco continuar a se pensar que elas protegem apenas a união decorrente desse vínculo.. p. 1999. citando doutrina estrangeira. a importância política do organismo familiar. de 10.406/2002. um cidadão.01. inclusive para fins de proteção do Estado. que trata do Direito de Família. 13 De acordo com o art. Carlos Alberto. É nisto que reside.O conjunto dessas normas . 13 Assim. o novo Código Civil ao disciplinar a união estável no Título III. União livre.723 do novo Código Civil.2002.aquela originária do casamento . do Livro IV. 1.. fundamentalmente. O direito civil na constituição de 1988. configurada na convivência pública. há de amparar aquela entidade familiar. forma uma família? É evidente que sim! Há o vínculo biológico da filiação e o vínculo afetivo da comunhão de vida e da união de propósitos. o que agora é reafirmado através da norma constante do art. em relação aos pais. São Paulo: RT. Rainer Czajkowski. até prova em contrário). Curitiba: Juruá. Vale dizer: a relação pessoal não é matéria de Direito de Família". a dispender esforços para seu desenvolvimento. aprovado pela Lei 10. 67. Discordando totalmente desse posicionamento. não se pode colocar em dúvida que atualmente sob o ponto de vista jurídico existem dois tipos de família: aquela decorrente do vínculo matrimonial e outra proveniente das uniões livres estáveis e que se encontram sob a incidência das normas de proteção do Direito de Família. e ambos o reconheçam e se dediquem a educá-lo. contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família".sempre providas de forte tônus protetivo . 14 "Enquanto simples união. 1. 14 De outro lado.01. com ou sem casamento".se inicialmente tinha como destinatário um único tipo de família . Isso porque é a própria Constituição de 88 que expressamente legitimou as uniões estáveis entre homem e mulher como entidade familiar. assevera que "um homem e uma mulher não casados entre si. cuja vigência terá início em 10. o regime jurídico da convivência é o Direito comum. regulando-se dos filhos.

porém. já que as leis que regem o casamento devem se aplicar àquelas. considerado que a união estável sempre se constituiu um fato presente em nossa sociedade. Haja vista que a metade ou mais de nossa população vive sob tal regime.727 do novo Codex.278/96. etc. 8 . aliás. falta de coragem para a vinculação matrimonial e ainda a postura discriminatória de certas empresas e entidades que não aceitam mulheres casadas em seu quadros. crenças religiosas. apesar do divórcio. que não admite a vitória do fato sobre o direito do jus naturalis. antes mesmo do advento da Lei 9.723 a 1.pôs fim a toda e qualquer dúvida que ainda pudesse existir a respeito da incidência das normas de proteção do Direito de Família à união estável. resistindo a sua ratificação legal pela via do seu ordenamento. filiando-se àquela corrente conservadora ultrapassada. com os seguintes argumentos: "Os que se opõem ao reconhecimento da família natural como Instituto do Direito de Família. não se compadece com a nossa índole e realidade sociocultural. era defendida por Basílio de Oliveira. conveniência. formada à imagem do casamento. 15 Essa posição. Tal posição. e como de resto ocorre nos demais países da América Latina. o fazem por mero preconceito.” E tal fenômeno se explica por razões econômicas e psicosociais diversas: as próprias leis esparsas que estimulam as uniões livres favorecendo as mulheres solteiras e as viúvas pensionistas. 15 A união estável se encontra disciplinada nos arts. não se justifica mais que as questões sobre a sua dissolução continuem a ser da competência do Juízo Cível. elevada a união estável ao patamar de entidade familiar. De outra parte. como forma alternativa de organização familiar. falta de fé na instituição casamento. 1.

do Adolescente e do Idoso. as questões delas decorrentes devem passar para a alçada do Juízo de Família. uma postura inconstitucional que afrontaria os princípios de equidade pela nova Carta. porque têm o know-how e porque tratam de matéria de família. base da sociedade. proclama que "a família. até porque acha-se reconhecida no próprio Capítulo VII da Constituição atual. por especializadas. nas comarcas que dispõem de Vara de Família constitui hoje.971/94. no caput do art. que nada mais representa do que um Juízo Cível especializado em assuntos de família. da Família. de 13. Todos os tabus e preconceitos já foram expurgados do nosso Direito de Família. o que mesmo ocorre com as demais Varas das grandes comarcas. assim também designada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.060. Se estão assoberbadas ou desaparelhadas. Acrescem.As normas do Direito de Família são de ordem pública. Vamos então ampliá-las para a solução dos casos oriundos das uniões estáveis. em cujo 9 . Logo. e o espírito da nova Lei nº 8. porquanto mais preparadas e eficientes para o trato das questões familiares. 226. A entidade familiar é hoje uma instituição do Direito de Família. da Criança. tem especial proteção do Estado e. passando tais relações a ser regidas pelo Direito de Família. Por que porfiamos então na discriminação do concubinato estável? Manter a competência do Juízo Cível. sem dúvida. razões de ordem pragmática e técnica: as Varas de Família (nas comarcas que as têm).07. são as apropriadas naturalmente.90). ainda. já que as questões atinentes à entidade familiar deixaram de pertencer ao Direito das Obrigações. O que vem a ser a entidade familiar senão a família natural. que.

ratione materiae. do Livro IV.Título "Entidade Familiar" . são todas as questões do Direito de Família.com. 10 . 18 16 O Concubinato e a Constituição Atual . portanto. modificando a competência interna. acha-se reconhecida união estável como entidade familiar. para efeito dessa proteção estatal (§§ 3º e 4º). Visão Geral do Código Civil. prescrevendo que: "Regem a competência em razão do valor e da matéria as normas de organização judiciária. referente ao Direito de Família.contexto. livres para baixar provimento ou introduzir normas em seu Código de Organização Judiciária. estão afetas às Varas de Família. 3ª edição.home page www. ao teor do art. cuida-se de ação de estado da pessoa. a jurisprudência pretoriana já vinha se encaminhando no sentido de que as questões ligadas à "união familiar". 91 do CPC.” Diante desse novo quadro jurídico-constitucional.miguelreale. não mais se podendo cogitar de qualquer confusão com concubinato. 17 Agora com a inclusão do instituto da união estável no Título III. 16 Embora ainda não totalmente pacificado na doutrina o entendimento de que as controvérsias decorrentes da união estável estivessem sob o abrigo do Direito de Família. 226 do Texto Maior. de caráter. como de resto. é isso o que Miguel Reale deixa evidenciado ao afirmar que o Código veio disciplinar a união estável como nova entidade familiar que. 17 Ajuris.478/68. Capturado na internet . 18 Aliás. São Paulo: Aide Editora.Instituição do Direito de Família. regida pela Lei nº 5. só pode ser entre o homem e a mulher. entendendo que os Tribunais de Justiça estaduais estão.br. hoje. publicístico. não se pode mais pôr em dúvida que as controvérsias decorrentes da união estável estejam sob a proteção das normas do Direito de Família. determinando que as questões relativas à entidade familiar sejam da alçada da Justiça de Família. filiamo-nos à corrente mais liberal. do novo Código Civil. ressalvados os casos expressos neste Código". 47/133. de acordo com o § 3º do art. 1994. E no caso específico da ação de Alimentos entre concubinos.

Tem este trabalho o objetivo de analisar as uniões livres. benefícios previdenciários. Propõe o direito à herança. 11 . a união de pessoas de sexos diferentes. ainda que sintéticos. de casamento entre os parceiros do mesmo sexo. também. constituição de família e adoção de criança como casal. seguro-saúde conjunto. sem preconceitos ou falsa moral. o que se encontra proposto através do Projeto de Lei de autoria da ex-Deputada Federal Marta Suplicy. declaração conjunta do imposto de renda. 19 II. que tem por objetivo a "Disciplina da Parceria Civil entre Pessoas do mesmo Sexo". Nessa análise tomarei como referência. UNIÃO ESTÁVEL 1. ao contrário do que foi divulgado por uma parte da imprensa. é bastante antiga. sobre o que desinformada e pejorativamente passou a se chamar de "casamento entre homossexuais". Esse Projeto é composto de 18 artigos. No direito romano não era simples união de fato. Inicialmente. aí compreendidas a união estável e as uniões entre pessoas do mesmo sexo. mas uma espécie inferior ao casamento porque se tinha a coabitação sem a affectio maritalis de um cidadão com uma mulher de baixa condição. sucessão. direito à nacionalidade no caso de estrangeiros. fora do matrimônio. não tratando. como a mulher escrava 19 PL 1151-A/95. para depois tecer comentários. atualmente em lenta e desinteressada tramitação no Congresso Nacional. objetivando. uso do sobrenome do parceiro. mudança do estado civil na vigência do contrato. demonstrar que o instituto da família não pode e nem deve ficar limitado à instituição do matrimônio. Noções Introdutórias Como fato social. farei uma análise da união estável à luz da legalidade nacional e do Direito Comparado.

a declaração de 26 de novembro de 1639 e o édito de março de 1697 negaram vocação sucessória aos filhos nascidos de casamentos contraídos in extremis por quem tivesse vivido em união concubinária. Torna-se. O antigo direito francês não apenas reconheceu seus efeitos jurídicos. influenciado pelo direito canônico. todavia. 20 BELLUSCIO. Tanto assim. negados efeitos jurídicos. Augusto César. conseqüentemente. essas uniões sempre foram consideradas como contrárias à moral. Como este Código terminou por influenciar praticamente toda a codificação moderna. 5º edição. Através desta espécie de união patrícios e plebeus se uniam. Santo Hipólito. por sua vez. bem assim.ou a mulher liberta. 20 Entretanto. exceção quando ela o houvesse traído. que Santo Agostinho admitiu o batismo da concubina desde que ela se obrigasse a não abandonar o companheiro. t. 422. sendo-lhes. Com efeito. mas. a Ordenança de 1604 veio considerar inválidas as doações entre concubinos. porque entre eles não era permitido o matrimônio. Manual de derecho de família. compreensível porque o chamado Código de Napoleão tenha silenciado a respeito desta questão. 12 . nº 635. adotou medidas tendentes a combatê-la. o direito canônico não poderia desconhecer o concubinato como instituição legal. 2. inclusive o Código Civil Brasileiro de 1916. Buenos Aires: Depalma. aos contraentes de tais matrimônios. negava o matrimônio a quem o solicitasse para abandonar sua concubina abrindo. pois.

21 Mas é a partir da primeira metade do século XIX. por um longo período na história. elemento base que informa o matrimônio. a base da organização da sociedade em famílias tomou por base a implantação e utilização de um instituto aperfeiçoado denominado matrimônio. foi autorizado o concubinato com a condição de que tivesse o caráter de perpetuidade. tendo o critério da sociedade de fato sido acolhido pela Corte de Paris em julgado de 1872. que é possível sentir de forma mais acentuada a preocupação da legislação com esse tipo de relação. depois ao Estado 21 Ob. em 1883. foi alterada a partir do momento em que se passou a admitir o dogma do matrimônio-sacramento e foi imposta a forma pública de celebração. em 1912 que surgiu a primeira lei dispondo que o concubinato notório gerava o reconhecimento de paternidade ilegítima. Na França os tribunais foram chamados a se pronunciar sobre pretensões fundadas nas relações concubinárias. Inicialmente vinculado à religião. no ano de 400. cit. em plena Idade Contemporânea. 637. terminou por assegurar a retribuição por serviços prestados. O Tribunal de Rennes. No Concílio de Trento foi definido que incorriam na pena de excomunhão os concubinos que não se separassem após a terceira advertência. Foi também na França. p. 13 . como sacramento. Como se pode ver.No Primeiro Concílio de Toledo. todavia. Essa posição do direito canônico.

a e certeza deveres dos conjugais. a desvinculação cada vez mais cedo dos filhos em relação ao poder paterno. o que terminou por provocar uma verdadeira revolução no Direito de Família. o predomínio do individualismo nas relações familiares e o retorno à afetividade como valor predominante nesse patamar. base da instituição familiar que agora passa a ter outro colorido. progresso e segurança das relações familiares. 22 Essa era a visão que Clovis de Beviláqua.pelo menos no âmbito da civilização ocidental . vínculos de os efeitos parentesco. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves. especialmente quanto à filiação. essa concepção da família fundamentada apenas na instituição do matrimônio. as relações pessoais e econômicas da sociedade conjugal.adquiriu o caráter de instituição. a descoberta dos meios anticoncepcionais. da curatela e ausência". 11ª edição. o vínculo de parentesco e os institutos complementares da tutela. a partir do casamento. Agregue-se a tudo isso. 02. 22 Ocorre que todo esse "arsenal jurídico". terminaram por solidificar o conteúdo do Direito de Família. montada com o objetivo de estruturar certo tipo de sociedade . em que os meios de comunicações diminuíram as distâncias trazendo uma grande evolução e afrouxamento dos costumes. e com o passar do tempo terminou por se tornar anacrônica. especialmente nas últimas décadas em que ocorreu uma total alteração dos padrões de conduta. a dissolução desta. com uma sensível igualação entre o homem e a mulher.praticamente calcada no patriarcalismo. Vol. o aborto. 06. as relações entre pais e filhos. 1956. 14 . porquanto era uma garantia de existência. Esse patrimoniais conjunto - de graves direitos -. agora obrigado a repensar seus conceitos e valores.não teve forças ou condições para subsistir. sua validade e os efeitos que dele resultam. autor do Projeto do Código Civil Brasileiro de 1916 tinha do Direito de Família. o divórcio. totalmente hierarquizada . quando o conceituou como: "o complexo dos princípios que regulam a celebração do casamento. especialmente quanto ao instituto do matrimônio. Código Civil Comentado. p.

incontinenti. Está se transformando sob os nossos olhos. elabora-se a sua nova organização". ampliando-se seus efeitos. com efeito. Como organismo jurídico. que se constrói em nossos dias. 3. sem proclamar-se verdadeiramente uma crise. ultimamente. V . Ainda não se podem definir as suas linhas de contorno precisas. com razão não ver nessa alteração das estruturas do Direito de Família uma crise e menos ainda um perigo de extinção da família. Mas a tendência para facilitar o divórcio. resumidos em seguida. Tem-se desenvolvido. Um mundo diferente imprime feição moderna à família. 7ª edição.Direito de Família. Todas as legislações se preocupam com sua existência. p. Funda-se o casamento na vontade inicial. e irretratável. falar em desagregação. Instituições de Direito Civil. a tendência para intensificar a disciplina do concubinato. dentro do conflito de aspirações. é que novas formas de união passaram a ser regulamentadas e protegidas pelo Estado. mas existe também a que não se origina do ato solene instituído pelo Estado para legalizá-la. Afirma Orlando Gomes. ao tratar do concubinato e a realidade natural do casamento: "A proteção à família não se exaure. 23 Nesse quadro de alteração. da qual nasce. permitido por mútuo 23 Caio Mário da Silva Pereira. vol.Muitos passaram a ver nisso uma verdadeira crise de existência da própria família. Rio de Janeiro: Forense. nas disposições concernentes ao matrimônio. porém. Pelo casamento constitui-se a família legítima. a família não acaba. a família legítima. Pondera o jurista mineiro: "Há uma concepção nova de família. Não se deve. 15 . Fala-se na sua desagregação e no seu desprestígio. solenemente declarada ao juiz. A família modifica-se profundamente. Fala-se na crise da família. principalmente em relação à prole. Concorrem para a adoção dessa política legislativa diversos fatores. Não há tal. de repensar do Direito de Família. subordinada a relações assim criadas a normas inderrogáveis pela vontade das partes. Como organismo natural. 1991.

ao mesmo tempo em que ordenou que a lei devesse facilitar sua conversão em casamento. dos quais nascia e se cimentava o mundo de afetos mais vasto que é a família. a partir das quais se constituem famílias sem casamento". do art. 40-41. CZAJKOWSKI. 226. p. 226 reconheceu "a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar". ou uniões concubinárias. 24 Foi nesse quadro de intensas e contínuas mudanças de ordem social que a Constituição de 88 (art. 1. uma vez que se possibilita o rompimento do vínculo matrimonial se seu desaparecimento torna intolerável a vida em comum". Exige-se.723 e 1.consentimento em muitas legislações e favorecido pela multiplicação de suas causas.726 do novo Código Civil. refletindo o que a sociedade de há muito vinha almejando e que a jurisprudência pretoriana reconhecia. p. Reiner. que perdurem os sentimentos determinantes da união conjugal. embora nem sempre condenatório: as uniões livres estáveis. Visando regulamentar o preceito constitucional. Direito de Família. foi editada a Lei 8. entretanto.971/94. 41-42. o que foi agora reiterado pelas normas dos art. 25 Assim. é que a Carta Suprema no § 3º. evidentemente. de 29 de dezembro de 1994. que vinculava seus efeitos à combinação de dois elementos: a convivência e a affectio maritalis. 16 . regulamentando "o direito dos companheiros a alimentos e a sucessão". ainda que timidamente. 24 25 GOMES. está deslocando o fundamento do matrimônio para uma vontade contínua. União Livre. à concepção romana. Não se regride. Orlando. deu legitimidade familiar a uma forma de vida que por muito tempo "recebeu tratamento dispersivo e incerto. Rio de Janeiro: Forense. § 3º). 1997.

visando regular "o § 3º do art. Suporte Conceitual De acordo com o disposto no art. 1. acolhida no art. 25 da Lei 8.723 do novo Código Civil. desde logo. a união estável vem a ser a chamada "família natural". a convivência entre duas pessoas de sexos diferentes e que seja: . . foi reconhecida como "entidade familiar a convivência duradoura. Tomando-se como suporte conceitual o contido no § 3º do art. . .duradoura.069/90 "Entende-se por família natural a comunidade formada pelos pais ou qualquer deles e seus descendentes".278/96 e 1. da Constituição e os arts.05. 17 . de um homem e uma mulher. 1º da Lei 9. que para a configuração da entidade familiar.com o objetivo de constituir uma família.contínua. 226.pública. 1º da citada Lei 9.96).723 do novel Código Civil verifica-se.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente). estabelecida com o objetivo de constituição de família" o que foi repetido no art. 2. Assim. fundamentalmente. 226 da Constituição Federal". pública e contínua. exige-se. que repete o conceito de entidade familiar previsto no Texto Constitucional.278/96 (DOU de 13.278/96.Esse Diploma Legal foi alvo de duras críticas e terminou por ser alterado através da Lei 9. 26 26 Nos termos da Lei 8.

p.971/94 havia fixado um período mínimo de cinco anos de duração (salvo o advento de prole) para que se pudesse aferir a estabilidade da união livre e como condição para aquisição de direitos a alimentos e sucessão entre os companheiros. nasce de forma espontânea das mais variadas circunstâncias e para os mais diversos fins. E aí temos a união duradoura. no que foi seguida pelo art. 1. 18 . se realiza perante a autoridade estatal que o celebra.278/96 aboliu tal exigência para a configuração da entidade familiar formada pela união estável. são exigidos pela Lei atos indispensáveis e que se destinam não apenas à sua publicidade. mas igualmente à garantia da manifestação do consentimento dos nubentes. como também para constituição de família. passando assim. essencialmente informal. a união livre ou extramatrimonial. contínua e pública.Basílio de Oliveira. ato essencialmente solene. Mas o que se deve entender por convivência duradoura? Como se sabe a Lei 8. Já para o casamento.723 do 27 Concubinato. a entidade familiar "a ser um gênero de família cujas espécies são hoje a família matrimonial e a união estável". com base em Álvaro Villaça de Azevedo entende que "a união estável nada mais representa do que o ressurgimento do casamento de fato em resposta à popularidade que goza entre nós". Embora seja ato eminentemente consensual. e com sua celebração a lei o reveste das formalidades indispensáveis à sua própria validade. A Lei 9. 27 Assim. Pode objetivar apenas a satisfação de necessidades sexuais. 6-7.

Porém. condiciona a equiparação de uniões livres a entidades familiares ao preenchimento do requisito da estabilidade ou durabilidade. para ser entidade familiar. A duração de tal relação por si demonstra que resistiu a momentos difíceis. A segunda razão advém de uma constatação bastante lógica. o que me parece incompatível com um simples namoro. deve ser estável. 92. A primeira é a previsão literal da Constituição que. considerando-se que a estabilidade se caracteriza especialmente pela sua durabilidade e permanência. coerentemente. não é lícito considerar entidade familiar para fins de proteção legal. deve-se examinar cada caso concreto a fim de se verificar a existência de uma convivência em comum. a união passageira ou efêmera (ainda que eventualmente pactuada). 28 28 União Livre. Daí a ponderação de Rainer Czajkowski no sentido de que: "União livre. 19 . extraída da observação das relações humanas. Relação estável é aquela que subsistiu aos arroubos da paixão. ultrapassando fronteiras de simples namoro inconseqüente ou satisfação puramente sexual". prolongarse por certo tempo. tanto aquela como este reclamam que a convivência entre o homem e a mulher seja duradoura. cristaliza até presuntivamente uma noção de seriedade. que pode muito bem se prolongar por muitos anos. vale dizer: que seja revestida do caráter da estabilidade. p. que são aqueles que melhor propiciam o reconhecimento profundo dos parceiros. Ao contrário. isto é. por duas razões distintas. Tal qualidade deve ser considerada imprescindível na formação das chamadas famílias informais. de solidez.novo Código Civil. A subsistência de uma relação íntima entre um homem e uma mulher. É evidente que essa estabilidade não pode e nem deve ser aferida com base no elemento cronológico. Logo. com o passar do tempo.

A idade pode influir na apreciação crítica do tempo. porque oportuno. independentemente de ter advindo filhos".como o novel Código Civil .no art. Para nós.mencionam convivência duradoura e contínua. 20 . de acolher os cinco anos da voz popular. principalmente se adveio filho. como o sinal de estabilidade.Mário Aguiar Moura também comunga desse entendimento salientando: "Que referente ao lapso de tempo necessário. se o companheiro. terá em desfavor o critério de durabilidade. A despeito da tendência legislativa sublinhada. mas foi o que permitiu a vida do concubinário. sessenta ou setenta anos. todavia. uma pessoa de idade. que as Leis 8. 29 Concubinato. vem a falecer. De salientar. De outro lado. 1º . ainda. Já. três ou quatro anos.069/90.97 (Regulamento destes benefícios). 1. que se concubina poderá ter computado como duradoura uma comunidade de vida que tenha permanecido por dois. não se reportam mais aos cinco anos. decorridos cerca de dois anos. que a Lei 8. estando. Em realidade. tudo depende das circunstâncias que envolvem a comunhão.009/90 que regulamenta a impenhorabilidade do bem de família e o Estatuto da Criança e do Adolescente . depois de estabelecida união extramatrimonial. O vigente Regulamento do Imposto de Renda também não.278/96 . 29 Tanto a Lei 9.ao se referirem à união estável.723 . tais Diplomas Legais. de lege lata. 1.art.212/91 (Lei Orgânica da Seguridade Social) e 8.278/96 e com o art. é certo que não deve o intérprete a eles atrelar-se. dentro da razoabilidade do concreto. em plena harmonia com as disposições da Lei 9. assim.213/91 (Planos de Benefícios da Previdência Social) e o Decreto 2.723 do novo Código Civil. posto que o falecimento pode ter interrompido um concubinato que estaria destinado a durar muito. Uma pessoa jovem que se concubina. trata-se de tempo um tanto breve na existência de uma pessoa. não fixam como requisito algum tempo da relação. para em poucos anos pôr termo à união. uma união para além de dois anos pode ser indicativa de estabilidade. 48.172. Deve ser frisado.Lei 8. não há de se negar a estabilidade. dando a entender que se trata de união "sem interrupção". p.

ou seja. pois em razão da índole das pessoas. exemplificativamente. pois eventual rompimento temporário. É evidente que a viagem a negócios. não é motivo para subtrair da convivência a sua posição conquistada de entidade familiar. não se pode perder de vista que o conceito extensivo do termo público tem merecido o interesse de estudiosos. de união que demonstra a sua estabilidade. Por público. De outro lado. 21 . A essa pode-se série de atribuir pessoas a aqui compreensão mencionadas genérica de "público". esta publicidade precisa ser entendida com cautela. sendo assim a publicidade requisito indispensável para a configuração da entidade familiar. etc. ou mesmo justificadamente prolongado. não se pode de forma alguma exigir que a união livre seja sempre pública ou notória. a ausência temporária para trabalho ou para estudos. Todavia. devem os companheiros se apresentar perante a sociedade como se casados fossem. significando apenas intervalos na convivência física. que privam com ambos. os amigos. deve ser pública. Parece ser generalizado o entendimento de que por público não se pode exigir a inclusão de todos os moradores sequer de uma pequena cidade. não podem afetar a continuidade da relação entre os companheiros. parentes que mais amiúde tratam com eles. ser esta a interpretação do termo. hão de ter-se aquelas pessoas que mantêm relações de amizade ou conhecimento mais chegado com os companheiros. mas não ruptura.. do constitucional direito à intimidade e privacidade. então. Outro requisito exigido pelas citadas normas é que além da convivência satisfazer aos requisitos da durabilidade e continuidade.Não deve. todavia. São os vizinhos. sobretudo quando presentes dos demais requisitos do convívio.

278/96 e nos art. Leciones de Derecho Civil. 22 . vol. mas conhecida por várias pessoas. III. faz com que a união se torne pública e notória. a notoriedade e a publicidade do concubinato são os principais elementos que conferem ao casal "a posse de um estado de casados". naturalmente. por exemplo. 1959. 226 da Suprema Carta.Dessa publicidade da convivência decorre. Os irmãos Mazeaud assim se pronunciam a respeito da questão: "El concubinato debe ser notório: ciertas relaciones. vale dizer: exige-se que a união não seja mascarada. O direito francês. usa a expressão "concubinage notorie".725 e 1. para os fins previstos no art. La Corte de Casación precisa que el concubinato notorio implica una cierta continuidad de relaciones concorda del público. A exteriorização das relações maritais entre terceira pessoa. que haya considerar como amantes e quienes vive concubinato y a presumir la fidelidad de la mure haya sua amante". 1a parte. para dizer que as relações não devem ficar em segredo. a sua notoriedade. incluso estables. 30 Como se vê.726 do novel Código Civil. inclusive para que possam ser exercitados os direitos e faculdades previstos e regulados pela Lei 9. 1. Buenos Aires: Ediciones Jurídicas EuropaAmérica. Entretanto. aliado à publicidade desse relacionamento. a entidade familiar que o Texto Maior se refere é o chamado concubinato qualificado. vale dizer: aquele em que se exige comunhão de 30 MAZEAUD Henri Leon et alli. o convívio social. no resultarían suficientes cuando fueren "furtivas".

de que a prova acabou por revelar. M. 31 No concubinato qualificado.724 do novo Código. 93. estabelece que o casal manteve um concubinato não ostensivo.427-1/12-TJSP. cumprimento pelos companheiros dos deveres de fidelidade. O comportamento dos companheiros ou concubinos. Rio de Janeiro. as relações pessoais obedecerão aos deveres de lealdade. 32 Para J. não escondem seu relacionamento da sociedade em que vivem. que o finado sempre quis manter em torno de sua vida em comum com a apelante". frequentam-na ostentando sua situação fática.vida e interesse. 23 . 1. a convivência estável mantida pelo casal. mantendo fidelidade recíproca". tem de ser analisado em meio ao ambiente social em que mantiveram vida em comum. nem com a publicidade do casamento. j. amigos ou vizinhos.. A jurisprudência tem reconhecido a união estável e comunhão de vida. sustento e educação dos filhos. E.92).521. não se pode descartar o caráter de recato ou de resguardo à privacidade desta união. mesmo havendo conduta recatada dos parceiros. Parece desimportante que o círculo de parentes. 1995. com tais comportamentos. aquela já pré-falada comunhão de interesses. Lumen Júris. coabitação. Civ. Leoni Lopes de Oliveira. que em verdade é apenas uma característica secundária. salvo aquele do inciso VI quando a pessoa casada se achar separada de fato ou judicialmente. com certa continuidade e notoriedade. 176. assistência material e relações sexuais implícitas. 1. necessariamente. inclusive pelos próprios parentes. pode-se afirmar quanto ao requisito da publicidade da união livre que não se confunde com vida em comum. não se constituindo união estável se ocorrerem os impedimentos previstos no art. p. e também de molde a que a privacidade de ambos jamais fosse invadida. Ao contrário. o conceito em sentido lato é a "união entre pessoas de sexos diferentes que apresentam um relacionamento sexual. em verdade. os concubinos. e de guarda. tais como os esposos. (Ap.10. Alimentos Decorrentes do Casamento e do Concubinato. respeito e assistência. inclusive porque nos termos dos art. 22. como marido e mulher. tenha ciência que os companheiros não são casados. pois o que deve ser 31 "Assim. resultando. more uxorio.. mas velado. 32 Assim. no caso. de forma recatada.

não pode ser fator determinante da união estável. a que maior discussão tem provocado. vale dizer: a publicidade deve ser entendida no sentido de conhecimento da união por outras pessoas e não necessariamente a aparência de casamento. Além dos elementos essenciais para a configuração da união estável. os companheiros não precisam passar por este estado. É claro que a aparência de casamento ou a convivência sob o mesmo teto. pois com certeza existem outros que na realidade são peculiares a cada caso concreto. Passemos. Apesar de não ser exigida esta parece ser a característica mais difundida e aplicada. Já a notoriedade da união livre é gradativa. apenas para se falar em três. Não há qualquer disposição legal exigindo a aparência de casamento para a configuração da união estável e seria manifesto equívoco se assim o fizesse. é ao mesmo tempo. porém. trazida pela ordem constitucional de 88. pois hoje com a nova concepção da união livre. a dependência econômica e a existência de filhos. temos ainda os elementos acessórios: a convivência more uxorio aparência de casamento .incluindo a questão da residência comum e da fidelidade. A publicidade do casamento é presumida e surge com o ato de celebração e com o registro. a convivência more uxorio ou aparência de casamento.levado em consideração é que saibam que existiu ou existe uma união estável entre eles. e só se estabelece com a continuidade da relação. pois. não há mais o dever de serem compelidos a ele por restrições de ordem legal ou 24 . Primeiro. a análise de cada um deles.

sustento e educação dos filhos. e de guarda. Exatamente por ser livre.724 na medida em que estabelece que as relações pessoais entre os companheiros obedecerão aos deveres de lealdade. 25 . pois quando se fala que as relações íntimas entre um homem e uma mulher precisam ser exclusivas. erigindo este elemento como condição para a configuração da entidade familiar. é a questão da fidelidade entre os parceiros. de caráter estável e o relacionamento entre eles de forma alguma precisa imitar ao dos cônjuges no matrimônio. 1. respeito e assistência. a união estável é caracterizada pela vinculação de caráter afetivo. a solenidade do matrimônio e assim o fazem até mesmo para se livrar de pelo menos um dos deveres do casamento: a coabitação sob o mesmo teto. Também bastante difundida e polêmica. mas a comunhão de vida sem a necessidade de se recorrer a analogia com o matrimônio. o que agora está expresso no art. sem o vínculo do matrimônio. psicológico. isso porque a vinculação existente entre os companheiros ou parceiros. entre um homem e uma mulher. porque não acharam necessário para a estabilidade de sua união. uma entidade familiar "informal". ainda fale em um dever próprio do casamento para a configuração da união livre estável. Assim. outra característica que decorre da "aparência de casamento". para que se possa cogitar de uma união livre. mesmo após a nova ordem constitucional. parece extremamente contraditório que parte da doutrina e a jurisprudência. vez por outra. O que faz nascer daí a entidade familiar não é a aparência de casamento. E optam precisamente porque não querem casar. material e estável. Aqui é preciso se ter cautela.religiosa. em face dessa voluntariedade.

de promiscuidade entre diversas pessoas e que. mas é. não pode pretender formar com nenhuma delas uma união livre no sentido familiar da expressão. pode explicar a ruptura. 26 . essa exclusividade revela. ob. 33 CZAJKOWSKI. Esse elemento é encontrado mais nas regiões rurais e nas pequenas cidades e mesmo assim. É aquela tradicional situação em que mulher cuida da casa e dos filhos enquanto o companheiro trabalha para manter o lar comum. Como se ver. Em síntese. Essa lealdade. agora pela norma do art.724 do novo Código. p. 1. quase sempre é a mulher quem depende do homem. objetivam apenas satisfazer a concupiscência. cit. a dedicação de um para com o outro: exercício de respeito e consideração recíprocos. Porém. a lealdade e a fidelidade aparecem como uma das características das uniões livres estáveis. a bem da verdade. 100-101. Reiner. em si. no sentido de que as relações íntimas entre o homem a mulher tenham caráter de exclusividade para ambos. 33 Quanto à dependência econômica parece que somente circunstancialmente pode ser encontrada na união livre. "a fidelidade entre os conviventes é aspecto de importância porque sinaliza a seriedade e a profundidade da união. em regra. A prova da infidelidade. insuficiente para descaracterizar a união livre e a sua estabilidade como entidade familiar".estar-se pretendendo evitar a abrangência desta concepção sobre situações de licenciosidade. É evidente que uma pessoa que se dedica a manter relações sexuais com várias outras pessoas concomitantemente. no máximo.

por oportuno. 27 . A assistência material e a moral integram o conteúdo mínimo de uma união estável se constituindo dever recíproco entre os companheiros. alguma assistência material sempre continua existindo. mantém. mas mesmo assim.724 do novo Código Civil. especialmente quando resolvem fixar residência comum em que a união de esforços econômicos quase sempre resultará em melhores condições de vida para ambos. Vale salientar. e isso vem se acentuando nos últimos anos em que muitos homens perderam o emprego em virtude da crise financeira que se abateu sob o País. se um dos hipótese em que ambos são quando financeiramente ativos e independentes. que não se deve dependência econômica com o mero auxílio ou assistência financeira. Se os rendimentos de cada um dos companheiros são desiguais. comum e justo que. É claro que em condições como estas. Porém.nada impede que ocorra exatamente o oposto. nos termos do art. É evidente que companheiros é necessita outro do existe dependência financeiramente que o econômica hipossuficiente. aquele com melhores condições auxilie financeiramente o outro. enquanto a companheira passou a trabalhar fora ou continuou trabalhando para manter a família. Não conseguindo nova colocação no mercado de trabalho. 1. ainda que um possa eventualmente contribuir mais significativamente do que o outro. o confundir a companheiro fica em casa cuidando desta e dos filhos. não há cogitar de necessidade. não se pode cogitar propriamente de dependência econômica. nada mais lógico.

Mesmo assim e em que pese a nova visão do instituto da família. ainda vêem a família fincada no pilar da procriação. A prova de dependência econômica ainda continua a ter certa relevância perante a legislação trabalhista. a chamada "família informal" decorrente de uma união livre configura-se até mesmo sem relações sexuais.278/96. 5º instituiu a presunção de condomínio entre os companheiros. o que em certa medida torna irrelevante o elemento dependência econômica para a configuração da união livre estável. à existência de filhos não pode ser considerada como elemento essencial à configuração da união estável. no seu art. Com efeito. para sua caracterização independe a existência de filhos. o regime da comunhão parcial de bens. 1.725 do novo Código estabelece que salvo contrato escrito entre os companheiros. por exemplo. legitima ao recebimento da pensão e até mesmo de eventuais haveres trabalhistas em razão de óbito do companheiro trabalhador (Lei 6. existem aqueles que quase sempre aferrados a preceitos religiosos que se encontram em manifesto descompasso com a realidade social atual. de perpetuação da espécie pela descendência. especialmente após o advento da ordem constitucional de 88. Agora a regra do art. 34 A inscrição da companheira ou do companheiro como dependente junto ao INSS.858/80 28 . aplica-se às relações patrimoniais. ao contrário do sistema anterior em que a divisão de bens entre os parceiros dependia da prova de colaboração conjunta para a formação do acervo patrimonial.A Lei 9. Logo. no que couber. previdenciária e do imposto de renda. uma espécie de instituto do ser humano. 34 Finalmente.

a Lei 9. ostentam e são titulares dos mesmos direitos inerentes aqueles de pais casados. o sustento e a educação. havidos ou não do casamento. havidos ou não da relação do casamento. quando o filho é apenas de um dos companheiros. pois em que pese o fato de que a maioria das uniões livres termine por acarretar o nascimento de filhos.Mas esta concepção não mais se sustenta. o que agora fica mais evidente pelo disposto no art. criar e educar os filhos menores. 226 do Texto Maior. 1. o mesmo ocorrendo com o novo Código Civil. 1. ou por adoção. proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação". a família já existe entre o ascendente e o descendente.596 do novel Código Civil estabelece que "Os filhos. que entende também "como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes". independente do outro parceiro ou desta união ser estável. 226 do Texto Constitucional. 35 Por outro lado. 35 Nos termos do § 6º do art. 29 . 229 da Constituição os pais têm o dever de assistir.724 do novo Código. não menos verdadeiro que muitas delas nascem e se fortalecem ao longo de anos apenas da intensa comunhão de vida de um homem e uma mulher. que segundo as normas da Lei 9.278/96. em momento algum se referiu à existência de filhos. seria manifesto equívoco exigir-se a filiação como uma das condições ou características essenciais para que a união livre seja elevada à condição de entidade familiar. 36 De acordo com o disposto no art. existindo filhos comuns. Prevalece. pois os filhos mesmo que os pais não sejam casados. Desta forma. ou por adoção. terão os mesmos direitos e qualificações. ao passo que o art. o disposto no § 4º do art. são direito e dever dos companheiros. "Os filhos. 36 Por outro lado. a guarda. Tanto assim.278/96 ao definir os elementos identificadores da entidade familiar formada pela união livre estável. proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação". nessa hipótese. terão os mesmos direitos e qualificações.

37 É claro que o dever de respeito e consideração mútua é inerente a uma união monogâmica estável.assistência moral e material recíproca. 30 . 231 do Código Civil de 1916 e 1. guarda e educação dos filhos (art.724 do Código de 2002). mútua assistência. sustento e educação dos filhos comuns". 3.guarda. § 5º da Constituição estabelece que: "Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher". 226. em sintonia com o princípio constitucional da isonomia na esfera da sociedade conjugal. Como se observa do enunciado acima a Lei impõe aos companheiros da entidade familiar decorrente da união livre estável. Direitos e Deveres dos Companheiros A Lei 9. III . fidelidade recíproca. ou seja.especialmente nos dias atuais em que muitos casais. sustento. 2º dispondo que: "São direitos e deveres iguais dos conviventes: I . vida em comum no domicílio conjugal. submete os companheiros a obrigações recíprocas e os contempla com direitos análogos aos dos cônjuges no matrimônio. unidos ou não pelo vínculo solene do matrimônio. II . os mesmos direitos e deveres que são exigidos dos cônjuges na sociedade conjugal. E assim procedeu o legislador por pretender que a união estável seja plasmada à imagem do casamento e como tal.respeito e consideração mútuos. sequer cogitam ter filhos.278/96 trata dos direitos e deveres dos "conviventes" da entidade familiar decorrente da união livre estável no art. em que não se pode cogitar da quebra ao 37 O art.

dever de fidelidade. 161 do Código Civil da Bolívia. nas horas de dor.478/68 para postularem um do outro pensão alimentar. que no entendimento doutrinário se constitui a segunda classe dos deveres contidos no conceito de mútua assistência. nas vicissitudes da vida.278/96. 38 Vale lembrar. direito-dever este 38 Nos termos do art.278/96.278/96 e no art. 7º da Lei 9. vale destacar o de prestar alimentos. É. no que se refere à união de fato. ao mero auxílio mútuo que os cônjuges ou parceiros devem reciprocamente. neste aspecto não revogado pela Lei 9. 1º da Lei 8. etc. de doença. Aliás. tem um fundamento moral muito forte independentemente do que dispõe a norma legal. infortúnio. Quanto à assistência moral e material prevista no art. 1. corresponde ao dever de mútua assistência previsto na união conjugal e se traduz no auxílio e amparo permanente que um companheiro deve ao outro. atualmente a cargo de ambos os "conviventes".971/94. transcendendo assim. na vigência da união estável ou na constância da sociedade conjugal. Por ser um dos deveres de primeira categoria. pois assim os autoriza o disposto no art. 31 . Quanto ao dever de assistência material. compartilhando de suas dores e alegrias. 2º da Lei 9.724 do novo Código. a assistência material prevista nesta Lei será prestada por um dos conviventes ao que dela necessitar. a título de alimentos". que atualmente os conviventes da entidade familiar podem inclusive se valer da Lei 5. ainda. como dizia Eduardo Espínola. o dever de cuidar do cônjuge enfermo. "Dissolvida a união estável por rescisão. confortá-lo na adversidade. prestando-lhe auxílio econômico quando as circunstâncias o exijam. este dever encontra-se expressamente previsto no art.

que penso pode também ser extraído da norma do art. e a esta recusa voltar. 1.278/96. da regra do art. por analogia.694 e 1.708 do novo Código). pode-se aplicar à dissolução da união estável esse entendimento: o convivente ou companheiro culpado pela 32 . é claro que o culpado perderá o direito de ser pensionado pelo outro (inocente). 1. Igualmente me parece cabível na espécie a aplicação. não fica o companheiro inocente privado desse direito apenas porque o legislador dele não tenha cuidado quando editou a Lei 9.515/77 Lei do Divórcio e 1. Parece evidente que com relação à obrigação alimentar na união estável devem ser observados os princípios que impõem condições para a continuidade do pensionamento. tais como os requisitos da honestidade e necessidade. 234 do Código Civil de 1916 ao estabelecer que a obrigação de sustentar a mulher cessa. Assim.724 no novel Código. Ora. a ser fixada pelo juiz na sentença. para o marido. o que agora resta suprido pelas normas dos arts. analogicamente. É claro que muito embora a Lei tenha sido omissa quanto ao direito aos alimentos na hipótese de dissolução da união estável.702 do Código Civil. abstenção de novo relacionamento concubinário ou matrimonial à exemplo do que ocorre com pensão arbitrada na separação contenciosa no âmbito da sociedade conjugal (arts. se na separação judicial litigiosa o cônjuge culpado responde pela pensão ao outro que dela necessitar. 19 da Lei 6. quando ela abandona sem justo motivo a habitação conjugal.

Relativamente ao dever de coabitação. cumprindo todos os demais deveres inerentes à entidade familiar.estabelece que "O cônjuge responsável pela separação judicial prestará ao outro.dissolução da entidade familiar não pode reclamar alimentos do inocente. o "jus corpus in ordine ad actos per se aptos ad prolis generationem". enfatiza que esse dever não é de caráter absoluto. pois. tais como fidelidade. aliás. assistência recíproca. Não só convivência. O jus in corpus. Pode haver situações em que embora residindo sob tetos diversos.694 do Código de 2002.Lei Divórcio . podem os parentes. de acordo com o disposto no art. inclusive para atender às necessidades de sua educação. os companheiros ou conviventes demonstrem viver numa comunhão de vida. a pensão que o juiz fixar. decorre da Lei e da própria Carta Suprema na medida em conferem à entidade familiar "um status de casamento". no âmbito da sociedade conjugal decorrente do matrimônio. Ouçamos. de 39 Art." 33 .” É. 1. se torna mais comum nos dias atuais. discorrendo sobre questão da coabitação sob o mesmo teto. sustento e educação dos filhos quando os tiverem. 19 da Lei 6. os cônjuges ou companheiros pedir uns aos outros alimentos de que necessitem para viver de modo compatível com a sua condição social. 39 Ademais. mas união carnal. Orlando Gomes. sobretudo. pode em certas condições ser dispensado. É evidente que o dever da vida em comum "sob o mesmo teto" não é absoluto. inclusive. reconhecendo. se dela necessitar. os direitos de assistência mútua. o mestre baiano: "A coabitação representa mais do que a simples convivência sob o mesmo teto.515/77 . o que.

O art. o débito conjugal. por idade ou saúde. quando conceitua a união estável como convivência. no lado passivo. 1º da Lei 8. Nada impede que o homem prefira ter residência separada. note-se que ela é típica daquelas uniões more uxorio. p. a obrigação de satisfazer o debitum cunjugale. a despeito do que continua a rezar o art. que apresentam o estado de casados. não estão em condições de prestá-lo.278/96. Por outras palavras. 231. Hoje em dia. 42 40 Direito de Família. que tem de ser cumprido para que a sociedade conjugal se mantenha íntegra. 42 "A caracterização do concubinato não exige a comunhão de residência sob o mesmo teto. começa a tornar-se menos 41 34 . 40 Do mesmo sentir. 125. nº II. que é eufemismo empregado para significar o efetivo exercício das relações sexuais entre os cônjuges.cada cônjuge sobre o outro. Tal opção não prejudica a sociedade do relacionamento. tendo o marido o direito de autorizar a mulher a residir fora do teto conjugal. quer significar entrosamento de vidas. É exercício de liberdade. não quer dizer moradia comum. União livre. de autonomia da vontade. incisivamente. e se admite sua dispensa em determinadas circunstâncias. Importa assim a coabitação a permanente satisfação desse débito. no entanto. Permite a lei que o casamento de pessoas que. Fatos existem que justificam a recusa de coabitar". 41 A Jurisprudência também se encaminha nessa direção. Não precisa sempre estar presente nas uniões livres estáveis. 114. não compromete a desejável exclusividade das relações sexuais entre eles. Não é absoluta. do Código Civil. Necessário é que haja acordo de vontades nesta decisão". Diz-se. o modo pudico de designar as relações sexuais. ou a mulher. Reiner Czajkowski. ao asseverar: "Quanto à moradia comum. p. implica. que não pode retirar dos conviventes.

em verdade tais direitos e deveres decorrem do poder familiar.EAP 4. Para a configuração do concubinato.Assim.244/88. da Constituição .11. Relativamente à guarda. independendo se a família é constituída pelo casamento ou decorrente de uma união livre estável (arts. a entidade familiar formada da união livre estável pode perfeitamente existir. havido de outra união. guarda e educação apenas recairá sobre aquele que tem a guarda e o genitor verdadeiro. é necessário ter em mente que o dever de coabitação não é absoluto. § 5º da Carta Suprema). raro que até marido e esposa prefiram viver cada um em sua casa. Logo. em 07. 226. (TJRS . são na realidade aqueles previstos na norma do art. pela constância dos laços afetivos. Rel. § 3º. se o filho é de apenas um dos companheiros.união caracterizada por duração considerável. Entretanto. pela dedicação recíproca e. previsto nos arts. 1. em regra.630 e seguintes do novo Código. Des.90). educação e sustentação dos filhos comuns. a moradia sob o mesmo teto não pode ser considerada como dever de caráter absoluto. Julg. embora com observância das outras normas que determinam os deveres recíprocos dos cônjuges. até certo ponto enfraquecer o elemento fidelidade e o dever de guarda e educação dos filhos. uma união estável. quando existentes. é suficiente que se estabeleça. 1. 1. exclusiva". Os deveres e direitos e os deveres dos companheiros sobre os filhos comuns. são exercidos conjuntamente pelos pais em pé de igualdade. entre homem e mulher não casados. na dicção do art. Ac.634 do Código Civil de 2002.631 do novo Código e 226. do 4º Grupo de Câmaras Cíveis. pois com ou sem ela. embora se possa entender que a fixação de residências separadas possa. 35 . Barbosa Moreira. é claro que a responsabilidade pelo seu sustento. cuja titularidade independe do estado civil dos genitores ou da natureza de suas relações materiais. Por serem direitos e deveres inerentes ao poder familiar.

salvo contrato escrito em contrário. na união estável passa a vigorar no direito positivo pátrio o regime da comunhão parcial de bens. 1. nenhuma obrigação. 36 . 64. 43 4. salvo contrato escrito entre os companheiros. 43 OLIVEIRA. previsto no art. esta presunção cessa se a aquisição patrimonial ocorrer com o produto de bens adquiridos anteriormente ao início da união.278/96 os bens adquiridos por um ou por ambos os conviventes. Entretanto. separado ou divorciado que eventualmente tenha ficado com a guarda do filho da união anterior. evidentemente não assume o novo companheiro qualquer obrigação com este. na constância da união estável e a título oneroso.725 do Código de 2002. senão de ordem moral ou afetiva. não sendo. 1. Regime Patrimonial Nos termos do art. Concubinato Novos Rumos. em condomínio e parte iguais. no que couber. 5º da Lei 9. Basílio de. Como se pode ver dos termos dos dispositivos anteriormente mencionados.Em caso de companheiro viúvo. são considerados frutos do trabalho e da colaboração comum.658. solteiro. passando a pertencer a ambos. dele exigível juridicamente. pois. p. o regime da comunhão parcial de bens. Agora nos termos do art. aplica-se às relações patrimoniais entre os companheiros. salvo estipulação contrária em contrato escrito.

único. Deverão ainda. Esse poder decorre da isonomia entre os cônjuges ou entre os companheiros encontrando-se prevista no § 5º do art. 1. envolve apenas atos de gerência que não importem em alienação. 37 . prevalece aquilo que for convencionado pelos conviventes. a prática de demais atos de disposição patrimonial. Quanto à administração dos bens comuns. que devem ser sempre interpretados de forma restritiva. Entretanto. 226 do Texto Constitucional. havendo contrato escrito dispondo de forma contrária à prevista na lei. não se podendo presumir incluídos nos poderes de administração. Portanto. mas em que a decisão possa repercutir sobre o patrimônio da sociedade. ou seja. salvo a hipótese de alienação de bens de fácil deterioração. salvo estipulação válida em contrato escrito. deve ser interpretado de forma restritiva. necessita de poderes especiais. fica sob a responsabilidade de ambos os conviventes. do art. Todavia. Em se tratando de contrato que se limite a permitir a administração dos bens comuns. 10 e 47. este regime é afastado através de contrato escrito dispondo de forma diversa.Com este regime pode-se dizer que há bens comuns a ambos os conviventes quando adquiridos na constância da união estáveis ressalvadas as exceções previstas nos incisos I a VII. Penso também que as ações judiciais envolvendo o patrimônio comum devam ser promovidas contra ambos os companheiros. par.658. do CPC). pena de ineficácia da em relação a aquele que não integrou a lide (arts. ambos ser citados naquelas movidas contra apenas um.

enquanto viver ou não constituir nova união ou casamento. caso isso tenha sido estipulado no pacto constitutivo da união. a regra do art. o companheiro sobrevivo ficará com a posse dos bens até a partilha. § 1º do Código Civil de 1916 e 1. a existência de contrato escrito. por analogia.797. e no Parágrafo Único foi previsto que a dissolução da união em caso de morte de um dos companheiros o sobrevivo terá direito real de habitação.579. a assistência material prevista nesta Lei será prestada por um dos conviventes ao que dela necessitar". aplicando-se nesta hipótese. Como se pode ver. inciso I do novo Código. ou judicialmente por meio de acordo ou ainda pela via contenciosa. pressupondo-se neste caso. Dissolução da União Estável. relativamente ao imóvel destinado à residência da família. quando existentes e arbitramento de alimentos. Tal dissolução poderá se dar consensualmente através do distrato.278/96. 38 . dissolvida "a união estável por rescisão. Nessa hipótese os bens ficarão na posse do sobrevivo que assumirá a sua administração. A união será extinta em caso de falecimento de um dos conviventes.5. 7º da Lei 9. através da ação de dissolução da união estável que inclusive pode ser cumulada com a partilha dos bens comuns. foi adotado o termo rescisão como forma de dissolução da união estável. Efeitos De acordo com o art. 1. Não havendo pacto de constituição da união.

8º) e o novo Código Civil (art. prevalecerá a respeito dos bens. frutos e rendimentos. que os conviventes ou companheiros podem. Finalmente. E quanto a aqueles adquiridos na constância da união permanecem indivisos comunicando-se. ainda. E isso se dá porque a destinação do imóvel é para residência do companheiro e não para qualquer outra finalidade. 1. requerer ao Oficial do Registro Civil a conversão da união estável em casamento. 6.278/96 (art. não há falar em posse dos bens com subseqüente partilha. extinta a união estável pela conversão em casamento. aquilo que for convencionado na dissolução. pois permanecerão na posse dos conviventes. direito personalíssimo e temporário. da forma igual a que ocorre na dissolução da comunhão universal de bens no matrimônio. o direito real de habitação ao convivente sobrevivo. a qualquer tempo. devendo integrar a partilha as acessões. não utilizar o imóvel para residência. Portanto. a posse dos bens caberá ao convivente que já a exercia. mas apenas enquanto não constituir nova união ou contrair matrimônio. mesmo não tendo constituído nova união ou contraído núpcias. É claro que este direito deve ser considerado extinto quando o cônjuge sobrevivo. 39 . Se judicial a dissolução.726). Conversão da União Estável em Casamento Por último dispõem a Lei 9. Tal direito incide sobre o imóvel destinado à residência da família. A Lei regente da união estável prevê.Em caso de dissolução da união por acordo.

países como Cuba. mas também prevêem em algum deles o ordenamento legal. não apenas reconhecem o dever de assistência mútua entre os consortes. de origens históricas e formações socioculturais semelhantes ao do Brasil. Há na conversão. inclusive através de estatuto próprio. devendo atender as exigências constantes do Código Civil. é que não vamos encontrar no direito positivo da Argentina. Guatemala e Panamá. Venezuela. Assim. amparada pela jurisprudência. o casamento dos conviventes ou companheiros sem a respectiva celebração posto que sua concretização basta declaração do juiz. a seguir. 40 .É claro que este pedido deve ser formalizado por escrito. ao assento no registro. México. Chile e Colômbia. procedendo-se. e seus efeitos são retroativos sobre situações jurídicas criadas até a data do início da união estável. inclusive quanto aos impedimentos. são mais afeitos ao reconhecimento do regime de concubinato como fato jurídico e como fenômeno gerador da organização familiar dentro do universo hegemônico do matrimônio. o juiz declarará casados os conviventes. sendo a união estável ou a chamada unión de hecho. Bolívia. Todavia. disposição legal prevendo expressamente o direito de alimentar entre os conviventes. União Estável no Direito Comparado Os ordenamentos jurídicos dos países latino-americanos. 7. Atendidas as exigências legais. Peru. porém dispensada a solenidade de celebração. Paraguai.

embora não seja dispensado tratamento legal às uniões livres. conceitos ou preconceitos morais. ao contrário. e aí está incluída a sociedade de fato. União Livre entre Pessoas do Mesmo Sexo O problema da homossexualidade sempre existiu na história da humanidade. Na Itália. na medida em que esta protege todas as formações sociais. "La Repubbulica riconosce i diretti della famiglia come sicietà naturale fundata sul matrimonio". se despir de seus pudores. 44 8. religiosos ou filosóficos para o enfrentamento da questão que deve ser tratada como um fato social merecedor de tratamento jurídico. 41 . contanto que haja coabitação.Na Escócia se admite o chamado casamento irregular. Penso que não deve o jurista discutir quais as possíveis causas do problema. 29 da Constituição Italiana. No Império romano. pois as uniões entre pessoas do mesmo sexo. a figura do imperador Nero continua sendo o protótipo. com hábitos de reputação. a doutrina vem sustentando que a família de fato encontra seu embasamento na própria Constituição do País. 44 De acordo com o art. sem formalidades ou registros. quaisquer que sejam as opiniões que delas possamos ter geram conseqüências na ordem jurídica. Deve.

evidentemente.Perante o Direito a união entre pessoas do mesmo sexo costuma ser enquadrada dentro das chamadas "uniões marginais" que ainda sofrem a reprovação social e jurídica. impedimentos e obrigações mútuas". Há hoje. Nos termos do art. inobstante. não podemos desconhecer que existem uniões entre pessoas do mesmo sexo que se protraem no tempo tornando-se duradouras. propõe o seguinte: direito à propriedade e à sucessão. a exemplo da união adulterina e a incestuosa. benefícios previdenciários. especialmente ligados a Igreja católica que se intitulam "defensores da moral e dos bons costumes". embora sem objetivo de gerar filhos. uma certa sensibilidade do legislador para regulamentar este tipo de união. deveres. sendo livremente pactuado" e versará "sobre disposições patrimoniais. direitos de curatela em caso de incapacidade civil de um dos contratantes. Tudo isso. contínuas e estáveis. direito à nacionalidade no caso de estrangeiro. Este Projeto é composto de 18 artigos e. Existe atualmente em tramitação no Congresso Nacional o Projeto de Lei 1. impenhorabilidade do imóvel comum dos contratantes destinado à residência. de autoria da ex-Deputada Federal Marta Suplicy. propondo a "Disciplina da Parceria Civil entre Pessoas do mesmo Sexo". 42 .151-A/95. em que pese os protestos de alguns grupos. formando núcleo sócio-familiar atípico. 3º do Projeto o contrato de união civil entre pessoas do mesmo sexo "será lavrado em Ofício de Notas. possibilidade de imposto de renda conjunta e composição para a compra e venda ou aluguel do imóvel. basicamente.

ainda. PARTILHA DO BEM COMUM. Responsabilidade Civil. viúvas ou divorciadas que estejam em plena capacidade civil.Por ele podem celebrar o contrato as pessoas solteiras. 6º e 7º do Projeto). A dissolução pode ainda ser requerida por ambos os contratantes. conterá a partilha dos bens dos parceiros. Essa preocupação me parece louvável e já vinha sendo objeto de discussão na doutrina e aceita pela jurisprudência pretoriana. Todavia. Dano Moral. Assistência ao Doente com AIDS. não altera o estado civil dos contratantes e será extinta em virtude de óbito de um dos contratantes ou mediante decisão judicial.363 do C. Improcedência da pretensão de receber do pai do parceiro que morreu com AIDS 43 . Da análise do Projeto fácil constatar que a proposta se preocupa essencialmente com os efeitos patrimoniais decorrentes da união civil de pessoas do mesmo sexo. 1. Pelo Projeto a extinção ou a dissolução da união civil entre pessoas do mesmo sexo somente poderá se dar mediante decisão judicial. HOMOSSEXUAIS. A união. Poderá. levando em conta o que houver disposto o contrato de sua constituição e será averbada no Registro Civil (arts. 45 45 "SOCIEDADE DE FATO. Civil. A sentença que puser termo a união civil. qualquer uma das partes requerer judicialmente a dissolução da união civil demonstrando infração às cláusulas do contrato ou alegando desinteresse na sua continuidade (art. todavia. O parceiro tem o direito de receber a metade do patrimônio adquirido pelo esforço comum. 5º). a dissolução da união por iniciativa unilateral somente poderá ser admitida após dois anos da sua constituição. qualquer que seja o motivo. reconhecida a sociedade de fato com os requisitos do art.

RS .6ª Turma. Art. da CF. concedeu liminar garantindo a um homossexual o a indenização pelo dano moral de ter suportado sozinho os encargos que resultaram da doença. inadmissível é o Estado deixar sem qualquer proteção os parceiros desse tipo de união.044144 .Entretanto. 226 da Carta Suprema e no art. Isso. Entretanto. Dano que resultou da opção de vida assumida pelo autor e não da omissão do parente. onde questão foi examinada entendeu que: "É possível a abrangência de dependente do mesmo sexo no conceito de companheiro previsto no art. para que o homossexual que comprovadamente vive em dependência de outro não fique relegado à miséria após a morte de quem lhe provia os meios de subsistência". § 3º. no AI 2000.Recurso Especial nº 14897/MG). cuja regulamentação o Projeto pretende. 1. Miguel Angel Alvarenga Lopes. especialmente no campo do auxílio previdenciário e partilha dos bens amealhados na constância da união. 226. Recentemente o juiz da 10ª Vara Federal de Minas Gerais. frente à Previdência Social.e não como equivocadamente muitos desinformados apregoam. O 4º TRF. (STJ .723 do novo Código Civil. faltando o nexo de causalidade. jamais poderá ser denominada de "casamento entre homossexuais". não se pode deixar de dizer que essa união. à evidência não iguala esse tipo de relacionamento à união estável que pressupõe diversidade de sexos entre os parceiros . pois aqui a diversidade de sexos é condição indispensável para a sua configuração. 44 . como equivocadamente afirmam alguns desinformados.01. 159 do C. Cível". Também não pode ser considerada ou equiparada à união estável prevista no art.

precisam ser disciplinados pelo ordenamento jurídico. merece aprovação. apesar de algumas imperfeições de ordem técnica e terminológicas que podem e devem ser corrigidas. trouxe à tona a discussão sobre esse tipo de relacionamento. fatalmente 46 Boletim Síntese nº 406.2002.03. Ademais. 28.direito de usufruir o plano de saúde do parceiro. tendo sido decidido no interesse do menor com a concessão da guarda à companheira da polêmica cantora. a figura da companheira é de criação pretoriana e decorreu de corajosas invectivas contra o conservadorismo de antanho que pretendia ver nas uniões não sacramentadas pelo matrimônio um risco à existência da instituição. A análise da questão sob o ponto de vista moral. 46 E o caso do filho da cantora Cássia Eller. Entretanto. 45 . Newsletter Síntese. pois na medida em que o relacionamento íntimo entre essas pessoas gera efeitos jurídicos relevantes. penso que o Projeto que pretende regulamentar a união civil entre pessoas do mesmo sexo. independentemente de preferências sexuais. esses efeitos. com quem mantém relação estável há cerca de quinze anos. especialmente aqueles de ordem patrimonial. cuja guarda foi disputada pelo avô materno e pela companheira da falecida artista. além de excessivamente subjetiva. socorrendo aqueles que lhes procuram na defesa de seus legítimos direitos. o que demonstra uma certa evolução na visão da justiça quanto a essa espécie de união. Por último. cumpre aos julgadores com galhardia a responsabilidade histórica promover a evolução do Direito. quase sempre repleta de preconceitos.

Desconhecer e desrespeitar os efeitos a essas uniões civis é no mínimo negar validade ao princípio do respeito à dignidade da pessoa humana. reconhecer judicialmente uma sociedade de fato entre parceiros do mesmo sexo. baseada em laços de afeição ou interesse comum. 3º e 5º). apenas porque "são diferentes" ou não se enquadram no nosso padrão moral ou cultural. resultou do esforço e da cooperação e até mesmo da dedicação afetiva de ambos. embora em nome de um deles. É perfeitamente possível. Não se pode. CONCLUSÃO Do que foi exposto. Hoje temos legalmente três espécies de família: aquela decorrente do vínculo matrimonial. III. a originária da união livre estável e aquela que doutrinariamente se denomina família monoparental. se o patrimônio adquirido. e isso a jurisprudência tem proclamando. negar respeito à dignidade de pessoas que por nutrirem preferência pelo mesmo sexo que se juntam em uma espécie de sociedade civil. moral ou filosófico. fácil concluir que a "tradicional família" originária dos "sagrados laços do matrimônio" embora não tenha desaparecido. 46 . 226 do Texto Constitucional. prevista no § 4º do art.concluirá pela negativa de qualquer efeito às uniões civis entre pessoas do mesmo sexo. o que o Texto Maior não tolera (arts. que ao longo de anos se respeitaram e dividem um mesmo teto. 1º. constituída pela comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes. fundado em mero preceito religioso. especialmente a partir da promulgação da Constituição de 88. adquiriu nova roupagem.

226 da Constituição. preferência sexual. muitas vezes originária de laços de afeição entre os parceiros. 47 . Assim. Afinal. Anais da XVII Conferência Nacional dos Advogados. fazendo com que. nunca na inteligência aprisionada no vislumbre do próprio espelho. O Princípio da dignidade da pessoa humana e exclusão social. pudores morais ou filosóficos todos possam ter sua dignidade e direitos respeitados. de fraternidade. Carmem Lúcia. chegando mesmo a apenar comportamentos discriminatórios (arts. excluirmos do exercício da cidadania este ou aquele cidadão. o qual. a união livre de pessoas do mesmo sexo. merece ser objeto de regulamentação em razão dos efeitos jurídicos que gera. com caráter duradouro. ah! Coração cabe tudo. Vivemos em um País que se pretende democrático e que tem dentre um dos seus princípios básicos. 47 Enquanto pregarmos igualdade de direitos e pluralismo e na prática. Brasília: Vol. é necessário que aprendamos a conviver com as diferenças. 1º. 3º e 5º da Constituição). independentemente de credo político ou religioso. só cabe a imagem isolada. 47 ANTUNES ROCHA. I. prometendo erradicar toda e qualquer forma de preconceito e discriminação. se às vezes se ensaia solapar pelo interesse de um outro ganho. mesmo de ouro que seja o espelho. nem por isso destrói a certeza de que o centro de tudo ainda é a esperança de que a transcendência do homem faz-se no coração do outro. o respeito à dignidade da pessoa humana.Também não podemos deixar de reconhecer como uma realidade social. por preconceito ou qualquer outra razão. Até porque a dignidade da pessoa humana é a prova de que o homem é um ser de razão compelido ao outro pelo sentimento. certamente não estaremos praticando a verdadeira e tão almejada democracia. e que embora não possa ser equiparada à entidade familiar prevista no § 3º do art. Justiça: Realidade e Utopia. Já o coração.