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Intérprete de Libras

Cristiane Seimetz Rodrigues

Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,

Flávia Valente

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Cristiane Seimetz Rodrigues Flávia Valente

Intérprete de Libras

IESDE Brasil S.A. Curitiba

2011

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© 2010 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais.

R696i

Rodrigues, Cristiane Seimetz; Valente, Flávia. / Intérprete de Libras. / Cristiane Seimetz Rodrigues; Flávia Valente. – Curitiba : IESDE Brasil S.A., 2011. 232 p.

ISBN: 978-85-387-1726-3

1. Interpretação. 2. Libras. 3. Estudo da tradução. I. Título.

CDD 419

Capa: IESDE Brasil S.A. Imagem da capa: IESDE Brasil S.A.

Todos os direitos reservados.

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Cristiane Seimetz Rodrigues

   

Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Graduada em Letras Português/Inglês pela Universidade do Extremo Sul Catarinense. Atua como tutora de alunos surdos, orientando e revisando produ- ções acadêmicas da graduação e pós-graduação, com ênfase nas áreas de Letras, Linguística, Tradução e Educação.

 

Flávia Valente

   

Especialista em Educação Bilíngue para Surdos pelo Instituto Paranaense de Ensino – Maringá. Graduada em Letras Português/Inglês pelo Centro Universitá- rio Campos de Andrade. Sua prática profissional envolve a formação continuada dos profissionais da educação de surdos da rede estadual de ensino do Paraná, a valorização da participação social dos surdos e a difusão da Língua Brasileira de Sinais(Libras).

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Sumário

Panorama e perspectivas da tradução

e interpretação em Libras

.....................................................

13

Considerações iniciais

13

Uma distinção necessária e, por vezes, incômoda: tradutor X intérprete

14

O surgimento da profissão no Brasil

15

Perfil e competências do TILS

18

Código de ética

22

Formação profissional

24

O fazer tradutório

35

O que significa traduzir

35

37

41

45

O fazer da interpretação

57

No que consiste interpretar

57

60

A (in)visibilidade do intérprete

64

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

79

Diferença entre saber uma língua e conhecer sua estrutura

79

80

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A questão da variação linguística e do neologismo em Libras

83

As implicações da modalidade de língua na tradução e interpretação

86

Tradução acarreta o recorte de uma realidade

...............................................................

90

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

101

O que é gênero discursivo

101

Discursos da esfera cotidiana

109

Áreas de atuação

119

Intérprete no contexto social

119

Intérprete no contexto educacional

123

Intérprete na Educação Especial, na Educação Básica regular

e no Ensino Superior

125

128

Intérprete

religioso

128

Práticas de tradução e interpretação em Libras

141

Estratégias para a interpretação simultânea

141

Uma ponte entre as teorias da tradução

e a prática de interpretação

163

Como as teorias da tradução se revelam na prática da interpretação

163

Escrita de língua de sinais

183

Escrita de língua de sinais para quê?

183 ................................................................................

Natureza e abrangência da escrita em língua de sinais

185

Escrita de língua de sinais

187

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Algumas especificações sobre as combinações de configurações de dedos

193 ......................................................................

SignWriting

196

203

Contribuições do tradutor e intérprete

no desenvolvimento da Libras

213

O papel dos tradutores no desenvolvimento das línguas nacionais

213

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Apresentação

Ao longo desta disciplina, estudante, você terá a oportunidade de entrar em contato com as mais recentes produções acadêmicas sobre interpretação e tradu- ção em Libras, bem como com teorias mais gerais sobre tradução e interpretação que podem ser aplicadas a essa língua. São apresentados e discutidos pontos teó- ricos e práticos pertinentes à atuação do profissional de tradução e interpretação em Libras. A intenção, em cada aula, é levar não apenas ao conhecimento da área, mas também a uma reflexão sobre como o perfil desse profissional vem se mol- dando e sobre os requisitos necessários para o exercício da atividade.

O seu material impresso está organizado em dez aulas, que contemplam con- teúdo, atividades, texto complementar e dicas de estudo. Na primeira aula, você será introduzido ao mundo de atuação do Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais (TILS). A visão apresentada é panorâmica, de forma a prepará-lo para os próximos conteúdos. As aulas 2 e 3 são dedicadas a distinguir a função do intér- prete da do tradutor, não perdendo de vista o elo comum entre elas, a tradução. Em seguida, na aula 4, você encontrará uma exposição sobre os motivos – alguns óbvios, outros nem tanto – pelos quais ambas as línguas envolvidas no processo de tradução e interpretação devem ser dominadas pelo TILS. Seguindo a linha de proficiência e fluência linguística, a aula 5 apresenta as vantagens de pensar a tra- dução e interpretação não apenas como textos, mas como gêneros discursivos. A aula 6 volta-se para a análise dos campos de atuação para o TILS, indicando as principais exigências e condições de trabalho.

Ao se deparar com as aulas 7 e 8, você, possivelmente, sentirá que tudo começa a fazer mais sentido em relação à prática diária do TILS. Isso porque essas aulas se dedicam a expor relatos de experiência profissional ou acadêmica sobre os desafios do trabalho diário desse profissional, apresentando algumas estratégias de enfrentamento e aliando a parte empírica da profissão a um aporte teórico, de forma que você possa fundamentar suas escolhas durante o ato interpretativo e/ou tradutório. No texto seguinte, lhe é dada a oportunidade de conhecer dois sistemas de escrita para as línguas de sinais, os quais poderão ser muito úteis não só para o exercício da sua profissão, mas também para o seu crescimento pessoal, à medida que um novo recurso de instrução chega ao seu conhecimen- to. Finalmente, na aula 10, há um histórico sobre a atuação do TILS no Brasil e o importante papel que vem desempenhando, juntamente com surdos e outros interessados na área da surdez, para o enriquecimento e a padronização linguís- tica da Libras.

Para um melhor aproveitamento do material disponibilizado, leia-o com aten- ção, tome notas, procure estabelecer vínculos entre os conteúdos explorados a cada aula, reflita sobre como esses conteúdos se manifestam ou podem se ma- nifestar na sua trajetória de formação; dedique ao texto complementar a mesma

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atenção dada ao texto da aula, afinal, ele é também parte da aula. Neste ponto, você pode estar certo de que dispõe de tudo o que necessita para tirar o máximo de proveito deste material, investindo, com isso, na excelência de sua formação profissional. Bom estudo!

As autoras.

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Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras

O presente capítulo tem por objetivo expor informações, conheci- mentos e reflexões referentes à área de tradução/interpretação da Língua Brasileira de Sinais (Libras), de forma a possibilitar ao leitor a apropriação dessa área/profissão ainda em formação e em franca expansão. Espera-se que ao final da leitura o interlocutor deste texto seja capaz de discernir entre as funções, responsabilidades, direitos, perfis, condições de trabalho e formação de tradutores e intérpretes de Libras, bem como tenha alcance dos rumos que ainda se delineiam para a área.

Considerações iniciais

A primeira coisa a se considerar no estudo da tradução e interpretação da Libras é que se trata de um campo ainda muito pouco explorado, por razões variadas, estando entre as principais: a Língua Brasileira de Sinais ter sido reconhecida apenas recentemente; tratar-se de uma língua des- conhecida e usada por uma minoria; o fato de que a área dos Estudos da Tradução, na sua condição de campo disciplinar, é ainda muito nova. Por isso, ainda são escassos os estudos envolvendo a Libras, quanto mais a tradução/interpretação dessa língua. Mesmo em literatura estrangeira, a temática é ainda explorada de forma incipiente.

Dessa forma, o tema deste capítulo é explorado a partir de questões que se consideram essenciais na formação e atuação do tradutor e intér- prete, questões estas exploradas nos últimos anos em documentos ofi- cias, tal como a lei regulamentadora da profissão (a ser sancionada pelo presidente da República), e artigos científicos produzidos no Brasil e para a realidade do país. Nesse sentido, muito do apresentado aqui se trata de uma coletânea dos conhecimentos fundamentais e, ao mesmo tempo, bá- sicos para o desempenho da função de tradutor e intérprete. Procurou-se privilegiar fontes relacionadas, seja na teoria ou na prática, à esfera da tra- dução e interpretação em Libras. Contudo, devido à já citada “falta” de re- ferências nesse campo, lançou-se mão também de textos sobre tradução e interpretação de línguas orais, estabelecendo comparações de modo a clarificar e enriquecer as discussões propostas.

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Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras O presente capítulo tem por objetivo expor

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras

Uma distinção necessária e, por vezes, incômoda: tradutor X intérprete

Uma vez que a abordagem científica da tradução/interpretação em Libras é ainda inicial, pouco se tem tratado da diferença entre tradutor e intérprete. Em termos práticos, e mesmo nas rodas de conversa entre os profissionais dessa área, costuma-se associar a figura do tradutor à do intérprete, como se desem- penhassem o mesmo trabalho. Não raro, são encontradas menções ao “tradutor- -intérprete” de Libras como a figura – observe bem que se fala de “a figura”, e não “as figuras” – responsável por verter em Língua Brasileira de Sinais a língua portuguesa (ou outro idioma) e vice-versa. No que diz respeito à tradução e in- terpretação nas línguas orais, essa identificação, ou confusão, também existe:

“Os intérpretes existem desde a Antiguidade, assim como os tradutores, com quem são frequentemente confundidos; o tradutor trabalha com a palavra escrita, o intérprete com a palavra falada.” Assim começa o livreto da União Europeia (Commission of the European Communities, s/d) com informações para os candidatos a seus cursos de formação de intérpretes que atendem às necessidades da instituição, o maior empregador de tradutores e intérpretes do mundo. (PAGURA, 2003, p. 210)

O autor continua em seu esclarecimento de que, mesmo havendo o processo de tradução de um idioma ao outro na interpretação – tanto na simultânea, em que a língua-fonte vai sendo vertida para a língua-alvo em paralelo ao discur- so proferido, ao “mesmo tempo”, quanto na consecutiva, na qual o intérprete escuta uma fala e, após a conclusão de um trecho significativo ou do discurso inteiro, assume a palavra e repete todo o discurso na língua-alvo –, a maioria dos estudiosos e praticantes das duas áreas reserva o uso das nomenclaturas citadas para duas atividades diferentes: o tradutor trabalha com texto escrito e o resultado de sua tradução é um “outro” escrito; o intérprete lida com a fala, e o resultado de seu trabalho é uma “outra” fala. Transpondo tal conceituação para a língua de sinais, deve-se assumir que o profissional responsável por transpor discursos falados para Libras, ou o contrário, é o intérprete. Já o que transpõe um discurso escrito para Libras é o tradutor.

Convém notar que a Libras, embora já possua um sistema gráfico de repre- sentação, uma escrita, não costuma ser traduzida nessa modalidade, indepen- dente de ser o texto de partida ou de chegada. Isso significa que a tradução envolvendo a Libras se dá, majoritariamente, no contexto de discursos escritos em outros idiomas (o português, por exemplo) sendo vertidos para a Libras si- nalizada, equivalente à língua oral, e não para a escrita de sinais, modalidade equiparada à língua escrita. Observe-se que não se está falando de uma impos-

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras Uma distinção necessária e, por vezes, incômoda:
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Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras

sibilidade de tradução de textos escritos para escrita de sinais, apenas se está registrando a rara observância dessa prática.

Estabelecida a necessária diferenciação entre tradutor e intérprete, resta tratar do incômodo que a mesma causa aos profissionais da área. Como dito anteriormente, não são raras as referências ao “Tradutor-Intérprete” de Língua de Sinais, identificado sob a sigla TILS. O uso desse termo tem ganhado um sig- nificado desnecessário, tornando dúbio o que deveria ser claro: a distinção entre duas atividades interdependentes, relacionadas, mas de natureza diversa. Ao que parece, pois ainda não há um estudo sobre isso, considerando apenas o que a prática cotidiana e o convívio com os profissionais revela, muitos Intérpretes de Língua de Sinais (ILS) acreditam que, se lhes for usurpada a nomenclatura de “tradutor”, ficam diminuídas a complexidade, seriedade e mesmo a profissio- nalização de sua atividade. Para muitos, não ser chamado de “tradutor” é uma forma de subalternização, como se interpretar fosse mais fácil do que traduzir. Possivelmente esse sentimento, crença, se justifique e derive do entendimen- to pejorativo do termo “interpretar” quando empregado na atividade de tradu- ção em Libras, já que é associado – não sem motivo, é verdade, mas de maneira apressada e equivocada – à faculdade de “compreender”, ou seja, elaborar para si um sentido e passar para o outro, seu cliente, um significado que é seu, e não do “autor” do discurso traduzido/interpretado, resultando numa fuga à tão alme- jada fidelidade da mensagem, da qual se tratará mais à frente.

Todavia, será visto ao longo dessa discussão que ambas as atividades, tra- dução e interpretação, são complexas em demasia, exigindo dos profissionais capacidades, características e conhecimentos que ora se entrecruzam e ora se distanciam. Também não é o intuito aqui proceder numa dicotomia entre os dois campos, como se o profissional tivesse de escolher na sua atuação entre um deles. Somente se quer propor uma reflexão para fundamentar uma escolha feita para este curso: a de que tradução e interpretação são áreas diferentes de atividade, pelas quais os profissionais podem transitar, sem, contudo, esquece- rem das demandas exigidas por cada uma. Por isso, toda vez que se fizer menção ao TILS, ela deve ser lida como o tradutor e o intérprete.

O surgimento da profissão no Brasil

De modo geral, tanto aqui como em outros países, a formação de tradutores e intérpretes de línguas de sinais está vinculada à prática de atividades volun- tárias, que, com o decorrer do tempo e com o avanço das conquistas sociais do

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Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras sibilidade de tradução de textos escritos para

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras

surdo, foram sendo valorizadas em sua condição de atividade trabalhista. Nesse sentido, a luta do surdo por espaços nas esferas sociais, como na educação, no trabalho, na saúde etc., e, principalmente, pelo reconhecimento de sua língua como língua de fato e da qual ele poderia se valer nos espaços sociais conquista- dos, deflagrou a necessidade pelo Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais, uma vez que as instituições precisaram, por uma questão de acessibilidade, que uma ponte fosse estabelecida entre elas e o surdo.

No Brasil, as atividades voluntárias de tradução e interpretação de que se falou anteriormente foram notavelmente observadas no meio religioso a partir de 1980. Não é errado dizer que está aí, em nosso país e também em outros, o nascedouro da profissão de intérprete e tradutor de Libras. No âmbito religioso, a atividade de tradução e interpretação se inicia com base num objetivo final: evangelizar o surdo. Contudo, na busca de tal intento, era necessário ao intérprete formar-se a si mesmo, uma vez que, à época, não se contava com cursos profissionalizantes, tampouco com espaços onde a língua de sinais fosse ensinada. Dessa forma, a atividade de tradução e interpretação, a princípio, foi exercida principalmente por pessoas que tinham contato com algum parente, amigo ou cônjuge surdo. Nesse sentido, essas pessoas tiveram de aprender a língua de sinais em contato com o surdo e ir estabelecendo, ao longo desse contato e da prática, um conjunto de conhecimentos e estratégias – linguísticas, culturais, sociais, tradutológicas etc. –, o que lhes permitiu viver e exercer o papel de intérprete de Libras.

Ademais, conforme relato de Masutti e Santos (2008, p. 155), de forma a evitar o isolamento e a exclusão social do surdo, “instituições com fins religiosos, edu- cativos, sociais e de ajuda em geral ofereciam diferentes serviços para a comu- nidade surda”. Por meio das trocas efetuadas entre intérpretes e surdos, aqueles, passando a serem os representantes e interventores dos surdos, auxiliaram a comunidade surda em suas lutas sociais por melhores condições de trabalho, educação, reconhecimento linguístico e cultural, entre outras. O avanço das po- líticas educacionais, linguísticas etc. voltadas à comunidade surda trouxe à tona a necessidade do reconhecimento e também de políticas que balizassem a nova profissão que se delineava. Cientes disso, muitos daqueles intérpretes que atua- vam voluntariamente

se tornaram, ao longo dos anos, líderes da categoria e, atualmente, participam do cenário nacional enquanto articuladores do movimento em busca da profissionalização desse grupo, como membros e presidentes das associações de intérpretes de Língua de Sinais no país. (MASUTTI; SANTOS, 2008, p. 153)

O aparecimento de associações de intérpretes originou-se e, igualmente, re- sultou de um movimento organizativo da categoria, muitas vezes em parceria

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras surdo, foram sendo valorizadas em sua condição
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Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras

com a comunidade surda, que, aos poucos, foi e vem ganhando fôlego em even- tos tais como: o I Encontro Nacional de Intérpretes de Língua de Sinais, realizado no Rio de Janeiro e organizado pela Federação Nacional de Educação e Integra- ção dos Surdos (Feneis), em 1988, que propiciou, pela primeira vez, o intercâm- bio entre alguns intérpretes do Brasil e a avaliação sobre a ética do profissional intérprete; o II Encontro Nacional de Intérpretes de Língua de Sinais, também organizado pela Feneis, realizado em 1992 no Rio de Janeiro, que possibilitou a troca de diferentes experiências entre os intérpretes do país, discussões e vo- tação do regimento interno do Departamento Nacional de Intérpretes, funda- do mediante a aprovação do mesmo; I Encontro Nordestino de Intérpretes de Libras, realizado em João Pessoa, em 1998; I Seminário de Intérpretes, realizado em São Paulo, em 2001; I e II Encontro de Intérpretes do estado de Santa Catari- na, realizados em Florianópolis, respectivamente, no ano de 2004 e 2005.

Muito desse avanço organizacional foi possível graças ao estabelecimento, a partir dos anos 1990, de unidades de intérpretes e tradutores ligadas aos escri- tórios regionais da Feneis. Em 2000, o contato entre os TILS de todo o Brasil foi facilitado pela disponibilização da página dos Intérpretes de Língua de Sinais (<www.interpretels.hpg.com.br>.) e pela abertura de um espaço para partici- pação dos intérpretes através de uma lista de discussão via e-mail. Essa lista é aberta para todos os intérpretes interessados e pode ser acessada através da página dos intérpretes. Além disso, a Feneis, a partir de 2002, passou a sediar escritórios em São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Teófilo Otoni, Brasília e Recife, além da matriz no Rio de Janeiro, permitindo que a luta pelos direitos do surdo e, em sua esteira, do intérprete, alcançasse realmente um patamar nacio- nal, podendo articular movimentos em prol da educação, saúde, trabalho, direi- to a intérprete etc. de maneira descentralizada, de forma a atingir outras áreas que não apenas o Rio de Janeiro.

No dia 24 de abril de 2002, foi homologada a Lei Federal 10.436 que reconhece a Língua Brasileira de Sinais como língua oficial das comunidades surdas brasi- leiras, porém, sua regulamentação viria apenas três anos depois, com o Decreto 5.626/2005. A partir de então, houve um avanço na aplicação das políticas linguís- ticas em relação à Libras, fazendo com que ela alcançasse gradativamente um lugar próprio enquanto objeto de interesse científico, sendo estudada sob pers- pectivas várias – antropológica, educacional, tradutológica, linguística, literária, entre outras. Portanto, essa lei e sua respectiva regulamentação representam um passo fundamental no processo de reconhecimento e formação do profissional Intérprete de Língua de Sinais no Brasil, bem como a abertura de várias oportuni- dades no mercado de trabalho, que são respaldadas pela questão legal.

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Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras com a comunidade surda, que, aos poucos,

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras

Até o ano de 2010, ainda não se tem uma diretriz nacional sobre o perfil e as exigências para a formação profissional do TILS. O que há é um conjunto de princípios, baseado no código de ética da atividade, a ser seguido, sendo que cada estado estabelece a regulamentação da prática de tradução e interpreta- ção. Esse quadro, contudo, está em via de ser alterado, já que foi aprovado, em julho de 2010, pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado (CAS), o projeto de lei que regulamenta a profissão de tradutor e intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras), faltando somente a sanção do presidente da República, haja vista o caráter terminativo da decisão tomada pela CAS. Com a sanção presidencial, finalmente se poderá tratar da prática de tradução e interpretação como uma profissão de fato e de direito, o que levará, consequentemente, ao estabeleci- mento de políticas públicas para a “nova” atividade, seja no tocante a melhorias nas condições de trabalho, seja no que tange à formação desse profissional. O referido projeto de lei, que tramitou no Senado como PLC 325/2009 (na Câmara, tramitou como Projeto de Lei 4.673/2004), entre outras coisas, estabelece como exigência para exercer a profissão uma das três formações:

curso superior de tradução e interpretação com habilitação em Libras (lín- gua portuguesa);

nível médio, com formação em cursos (obtida até 22 de dezembro de 2015) de educação profissional reconhecidos pelo sistema que os creden- ciou, ou cursos de extensão universitária, ou cursos de formação continua- da, esses dois últimos promovidos por instituições de Ensino Superior e instituições credenciadas por Secretarias de Educação;

certificação de proficiência, sendo que a mesma será fornecida até o dia 22 de dezembro de 2015 pela União, que, diretamente ou por intermédio de credenciadas, promoverá, anualmente, exame nacional de proficiência em Tradução e Interpretação de Libras – Língua Portuguesa.

Além disso, o projeto prevê a elaboração de uma norma específica que es- tabelecerá a criação de Conselho Federal e Conselhos Regionais responsáveis pela aplicação da regulamentação da profissão, em especial da fiscalização do exercício profissional.

Perfil e competências do TILS

Necessário dizer que embora se faça menção ao TILS aqui, a maior parte das asserções desta seção são feitas em torno do intérprete, uma vez que os mate-

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras Até o ano de 2010, ainda não
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riais de consulta disponíveis se remetem principalmente a ele. Ainda assim, será possível ao leitor vislumbrar os pontos em que tradução e interpretação se apro- ximam e se distanciam. Esclarecido isso, o primeiro requisito para um candidato a TILS é o pleno domínio da Libras, bem como da sua própria língua materna, nesse caso, o português. Porém, só o domínio das línguas envolvidas no proces- so de tradução não basta para que alguém atue como tradutor ou intérprete. Segundo aponta Quadros (2007, p. 29), também não se deve cair no mito de que professores de surdos ou filhos de pais surdos têm predisposição e/ou maior facilidade, tornando-se intérpretes mais bem preparados por conta disso.

O domínio da Libras, ser filho de surdos, ou professor de surdos, nada disso garante, por si só, que alguém possa ser intérprete. É preciso, na verdade, que haja uma conjunção de características que envolvem, além do conhecimento profundo da estrutura das línguas envolvidas e a responsabilidade de manter- -se fiel e neutro em relação ao objeto de interpretação, o conhecimento cultu- ral suficiente da língua-alvo e da língua-fonte para fazer as devidas adaptações linguísticas de cunho idiomático e cultural. Aí, entrecruzam-se habilidades lin- guísticas próprias e inferências que ocorrem durante o próprio ato interpretati- vo, que levam intérpretes a usarem diferentes recursos para expressar os mais diversos significados, seja nas palavras, em nível lexical, ou nas frases, em nível sintático. Por tal razão, a abertura ao aprendizado contínuo, tanto em cursos de formação quanto em convívio com surdos, usuários da Libras e colegas de profissão, é imprescindível. As práticas de autoavaliação e de autocrítica e o feedback de seus clientes também são importantes componentes auxiliadores na excelência do desempenho da profissão.

Até agora se falou de questões relativas a escolhas lexicais e estrutura sintáti- ca, no entanto, a ação do intérprete não se limita a isso. Há ainda a semântica e a pragmática, que são componentes naturais do discurso e certamente devem ser contemplados nessa atuação. Por exemplo, o falante tem intenções discursivas que são entendidas por seus ouvintes, por compartilharem o mesmo campo lin- guístico; os surdos, porém, só percebem tais sutilezas se o intérprete utilizar-se de recursos para tanto. Isso implica em superar a dificuldade imposta pela mo- dalidade da Libras. Sabendo que esta é uma língua de modalidade espaço-visual e a língua portuguesa de modalidade oral-auditiva, há uma incompatibilidade da estruturação gramatical, ou dizendo melhor, são sistemas organizados distin- tamente. E isso se torna um complicador, conforme afirma Quadros (2007), pelo fato dos profissionais desconhecerem as particularidades da língua.

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Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras riais de consulta disponíveis se remetem principalmente

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras

Ademais, a autora afirma que o intérprete ao intermediar um processo intera- tivo deve ser responsável pela veracidade e fidelidade das informações. A ética é um ponto muito importante, mas apenas ela (como a própria autora, aliás, men- ciona em outras passagens) não garante a fidelidade de interpretação em rela- ção às intenções discursivas dos envolvidos no ato comunicativo. É preciso que o intérprete tenha excelente domínio da língua de partida, bem como da língua de chegada, que ele reconheça as diferentes intenções discursivas do indivíduo e tenha ainda a capacidade de perceber certas sutilezas semânticas e pragmáti- cas na língua-fonte (a de partida) e saber como expressá-las na língua-alvo (a de chegada). Entretanto, a fidelidade, tão almejada, é difícil de alcançar, se pensada como sinônimo de exatidão, por isso cabe aqui uma citação acerca da questão da fidelidade em tradução que capta o que se julga pertinente pensar sobre a interpretação (guardadas as devidas diferenças):

Só se poderia falar em tradução literal se houvesse línguas bastante semelhantes para permitirem ao tradutor limitar-se a uma simples transposição de palavras ou expressões de uma para outra. Mas línguas assim não há, nem mesmo entre os idiomas cognatos. As inúmeras divergências estruturais existentes entre a língua do original e a tradução obrigam o tradutor a escolher, de cada vez, entre duas ou mais soluções, e em sua escolha ele é inspirado constantemente pelo espírito da língua para a qual traduz. (RÓNAI, 1987, p. 21)

Isso significa que, assim como na tradução, durante a interpretação não há uma única maneira de se dizer na língua-alvo o que foi dito na língua-fonte e isso leva ao fato de que não há apenas uma maneira ideal, boa, de interpretação, mas muitas. Então, cabe ao TILS construir “maneiras adequadas” de transmitir ao seu cliente as informações que a ele são dirigidas onde e com quem estiver – consultórios médicos, reuniões de trabalho, júri, conferências, sala de aula, entre outras possibilidades. Evidentemente, quão mais bem formado for o profissio- nal, mais chances de sucesso terá na execução de sua tarefa. A formação municia o TILS, por meio de teorias e prática, a lidar com os desafios de sua atividade. No entanto, tal como em outras áreas do saber e do fazer, não existem fórmulas, ou receitas infalíveis, que possam ser seguidas e aplicadas indiscriminadamente. Existem, sim, teorias que subsidiam a prática e práticas que alimentam a teoria, as quais, quando entrelaçadas, conforme se espera fazer ao longo deste curso, oferecem ao tradutor e intérprete a autonomia necessária para ir moldando sua atuação e criando suas próprias estratégias de tradução e interpretação.

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras Ademais, a autora afirma que o intérprete
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As exigências específicas à tradução e à interpretação da Libras

Ao intérprete da Libras cabe a responsabilidade de transmitir o que foi dito. Para tanto, não precisa manter a mesma forma gramatical apresentada na lín- gua-fonte, mas deverá garantir que o conteúdo chegue aos surdos (que natu- ralmente são os receptores dessa língua) na mesma proporção qualitativa que chega aos que ouvem o que é proferido. Porém, para realizar tal feito, o intérprete deve fazer escolhas lexicais adequadas, estruturar a língua-alvo respeitando sua organização gramatical, bem como desenvolver técnicas de recepção-emissão simultâneas, ou seja, sua agilidade em ouvir deve ser relevante para não perder informações mencionadas no discurso falado.

Além de assimilar o que ouve e fazer a acomodação em sua mente, o intér- prete deve processar a informação, o que, nesse caso, significa julgar qual sina- lização da Libras corresponde a dada sentença do português. É uma tomada de decisão que acontece rapidamente.

Os tradutores, por sua vez, dispõem de tempo suficiente à obtenção de um texto final técnica e linguisticamente correto. A atividade de interpretação, por outro lado, encontra-se associada a um forte componente de imprevisibilidade, o que obriga o intérprete a preocupar-se sobretudo com a mensagem essencial do discurso transposto, e não tanto com a sua transposição integral. Esse fator leva também a que esta profissão seja muito exigente do ponto de vista físico e mental, pois o intérprete necessita estar altamente concentrado e acompanhar o ritmo das falas, ouvindo e sinalizando ao mesmo tempo. Por envolver questões pertinentes à proficiência linguística, à cultura, à ética, ao emocional, à acuidade intelectual, à compreensão de texto e outros, é que a interpretação simultânea apresenta-se como um grande desafio a quem se dispõe a atuar como mediador entre os indivíduos da situação comunicativa.

Não menos complexa ou árdua é a tarefa do tradutor, entendido nesse mo- mento como o que executa o ofício de transpor para Libras textos escritos. Claro que o contrário, a transposição da Libras para textos escritos, também é passível de ser realizado, mas, claro, numa proporção muito menor, já que a demanda por esse tipo de trabalho ainda é pequena.

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Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras As exigências específicas à tradução e à

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras

Um estudo bastante interessante é o empreendido por Quadros e Souza (2008) quanto à prática de tradução de textos escritos em português para a Língua Brasileira de Sinais. Em sua pesquisa, os autores relatam o processo tra- dutológico empregado na confecção dos materiais de ensino (DVDs e Ambien- te Virtual) do curso Letras Libras ofertado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e seus polos. A leitura do relato interessa na medida em que é possível traçar a diferença da natureza da tarefa executada pelo tradutor e pelo intérprete. Destaque para a preparação prévia de que dispõe o tradutor, poden- do se valer de recursos de consulta, avaliar a qualidade de sua tradução (gravada em DVD) e lapidá-la no confronto com o texto original, coisas impensáveis para o contexto da interpretação simultânea, em que o profissional precisa resolver seus “problemas” no ato. Aqui, como na interpretação, exige-se o domínio das técnicas arroladas nos parágrafos anteriores.

Código de ética

Ética é o conjunto de princípios morais que se devem observar no exercí- cio de uma profissão. O estabelecimento do conjunto a ser seguido por cada profissão é feito por aqueles que a exercem, de forma a respaldar sua prática e também orientá-la, assim como fornecer parâmetros para a formação daqueles que integrarão a categoria. Dessa forma é que se estabelece o código de ética de uma atividade profissional. Com a tradução e interpretação não é diferente. A existência do código justifica-se a partir do tipo de relação que o intérprete esta- belece com as partes envolvidas na interação. O intérprete está para intermediar um processo interativo que envolve determinadas intenções conversacionais e discursivas. Nessas interações, o intérprete tem a responsabilidade pela veraci- dade e fidelidade das informações. Assim, a ética deve estar na essência desse profissional e permear todas as suas decisões no momento de sua atuação. A seguir é transcrito o código de ética que é parte integrante do Regimento Inter- no do Departamento Nacional de Intérpretes (Feneis):

(Registro dos Intérpretes para Surdos – em 28-29 de janeiro de 1965, Washington, EUA). Tradução do original Interpreting for Deaf People, Stephen (ed.) USA por Ricardo Sander. Adaptação dos Representantes dos Estados Brasileiros – Aprovado por ocasião do II Encontro Nacional de Intérpretes – Rio de Janeiro/RJ/Brasil – 1992.

Capítulo 1. Princípios fundamentais

Artigo 1. o São deveres fundamentais do intérprete:

1.º O intérprete deve ser uma pessoa de alto caráter moral, honesto, consciente, confidente e de

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras Um estudo bastante interessante é o empreendido
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Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras

equilíbrio emocional. Ele guardará informações confidenciais e não poderá trair confidências, as quais foram confiadas a ele;

2.º O intérprete deve manter uma atitude imparcial durante o transcurso da interpretação, evitando interferências e opiniões próprias, a menos que seja requerido pelo grupo a fazê-lo;

3.º O intérprete deve interpretar fielmente e com o melhor da sua habilidade, sempre transmitindo o pensamento, a intenção e o espírito do palestrante. Ele deve lembrar dos limites de sua função e não ir além de sua responsabilidade;

4.º O intérprete deve reconhecer seu próprio nível de competência e ser prudente em aceitar tarefas, procurando assistência de outros intérpretes e/ou profissionais, quando necessário, especialmente em palestras técnicas;

5.º O intérprete deve adotar uma conduta adequada de se vestir, sem adereços, mantendo a dignidade da profissão e não chamando atenção indevida sobre si mesmo, durante o exercício da função.

Capítulo 2. Relações com o contratante do serviço

6.° O intérprete deve ser remunerado por serviços prestados e se dispor a providenciar serviços de interpretação, em situações onde fundos não são possíveis;

7.° Acordos em níveis profissionais devem ter remuneração de acordo com a tabela de cada estado, aprovada pela Feneis.

Capítulo 3. Responsabilidade profissional

8.° O intérprete jamais deve encorajar pessoas surdas a buscarem decisões legais ou outras em seu favor;

9.º O intérprete deve considerar os diversos níveis da Língua Brasileira de Sinais bem como da Língua Portuguesa;

10.° Em casos legais, o intérprete deve informar à autoridade qual o nível de comunicação da pessoa envolvida, informando quando a interpretação literal não é possível, e o intérprete, então, terá que parafrasear de modo claro o que está sendo dito à pessoa surda e o que ela está dizendo à autoridade;

11.º O intérprete deve procurar manter a dignidade, o respeito e a pureza das línguas envolvidas. Ele também deve estar pronto para aprender e aceitar novos sinais, se isso for necessário para o entendimento;

12.° O intérprete deve esforçar-se para reconhecer os vários tipos de assistência ao surdo e fazer o melhor para atender às suas necessidades particulares.

Capítulo 4. Relações com os colegas

13.° Reconhecendo a necessidade para o seu desenvolvimento profissional, o intérprete deve agrupar-se com colegas profissionais com o propósito de dividir novos conhecimentos de vida e desenvolver suas capacidades expressivas e receptivas em interpretação e tradução.

Parágrafo único. O intérprete deve esclarecer o público no que diz respeito ao surdo sempre que possível, reconhecendo que muitos equívocos (má informação) têm surgido devido à falta de conhecimento do público sobre a área da surdez e a comunicação com o surdo. (QUADROS, 2007, p. 28)

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Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras equilíbrio emocional. Ele guardará informações confidenciais e

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Formação profissional

Em virtude das novas exigências do mercado de trabalho, aliadas à difusão da Libras e ao crescente número de pessoas que conhecem e desejam utilizá-la profissionalmente, vê-se cada vez mais a especialização desta profissão. Desse modo, quem inicia uma carreira de tradutor e/ou de intérprete deverá contar com um mercado de trabalho exigente cujo acesso não é garantido pelo mero conhecimento da língua em questão. Deverá adquirir, por isso, técnicas espe- cializadas em tradução e/ou interpretação e é essencial que invista em conheci- mentos técnicos e conhecimentos gerais, através, por exemplo, de estágios, de contato com a comunidade surda em variados âmbitos e de um esforço cons- tante na investigação e na autoformação.

Há vários níveis de formação de intérpretes para surdos no mundo. Desde o nível secundário ao nível de mestrado, podem-se encontrar pessoas especia- lizando-se para se tornarem profissionais mais qualificados. Essa variação em níveis de qualificação reflete um desenvolvimento sociocultural da comunidade surda. A preocupação em formar intérpretes surge a partir da participação ativa da comunidade surda na comunidade em que está inserida. Além dos níveis de formação, começam a se delinear também as especialidades, ou áreas, de atu- ação do TILS. Assim, além de uma formação mais geral, necessária a todo pro- fissional, ainda há a possibilidade, transformada, sem dúvida, futuramente, em necessidade, de uma formação específica a cada esfera de atuação: educacional, jurídica, médica, empresarial-trabalhista, religiosa etc. Para o momento, aborda- se, por meio do texto complementar, a formação do intérprete educacional, o qual é ainda o mais requisitado no mercado de trabalho atual.

Texto complementar

O intérprete educacional

(QUADROS, 2007, p. 55-59)

O intérprete educacional é aquele que atua como profissional Intérprete de Língua de Sinais na educação. É a área de interpretação mais requisita- da atualmente. Na verdade, essa demanda também é observada em outros países:

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras Formação profissional Em virtude das novas exigências
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Nos Estados Unidos, em 1989, estimava-se que 2 200 Intérpretes de Língua de Sinais estivessem atuando nos níveis da educação elementar e no ensino secundário. [ ] ... Atualmente, mais de um terço dos graduados nos cursos de formação de intérpretes são empregados em escolas públicas. Mais da metade dos intérpretes estão atuando na área da educação. (STEWART et al. 1998)

Considerando a realidade brasileira na qual as escolas públicas e parti- culares têm surdos matriculados em diferentes níveis de escolarização, seria impossível atender às exigências legais que determinam o acesso e a per- manência do aluno na escola observando-se suas especificidades sem a pre- sença de Intérpretes de Língua de Sinais. Assim, faz-se necessário investir na especialização do Intérprete de Língua de Sinais da área da educação.

O intérprete especialista para atuar na área da educação deverá ter um perfil para intermediar as relações entre os professores e os alunos, bem como entre os colegas surdos e os colegas ouvintes. No entanto, as competências e responsabilidades desses profissionais não são tão fáceis de serem determi- nadas. Há vários problemas de ordem ética que acabam surgindo em função do tipo de intermediação que acaba acontecendo em sala de aula. Muitas vezes, o papel do intérprete em sala de aula acaba sendo confundido com o papel do professor. Os alunos dirigem questões diretamente ao intérprete, comentam e travam discussões em relação aos tópicos abordados com o intérprete, e não com o professor. O próprio professor delega ao intérprete a responsabilidade de assumir o ensino dos conteúdos desenvolvidos em aula ao intérprete. Muitas vezes, o professor consulta o intérprete a respeito do desenvolvimento do aluno surdo, como sendo ele a pessoa mais indicada a dar um parecer a respeito. O intérprete, por sua vez, se assumir todos os papéis delegados por parte dos professores e alunos, acaba sendo sobrecar- regado e, também, acaba por confundir o seu papel dentro do processo edu- cacional, um papel que está sendo constituído. Vale ressaltar que se o intér- prete está atuando na educação infantil ou fundamental, mais difícil torna-se a sua tarefa. As crianças mais novas têm mais dificuldades em entender que aquele que está passando a informação é apenas um intérprete, é apenas aquele que está intermediando a relação entre o professor e ela.

Diante dessas dificuldades, algumas experiências têm levado à criação de um código de ética específico para Intérpretes de Língua de Sinais que atuam na educação. Em alguns casos, ao Intérprete de Língua de Sinais é per- mitido oferecer feedback do processo de ensino-aprendizagem ao professor, por exemplo. Se essa possibilidade existe, poder-se-ia prever que o intérprete assumiria a função de tutoria mediante a supervisão do professor, o que em

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Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras Nos Estados Unidos, em 1989, estimava-se que

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outras circunstâncias de interpretação não seria permitido. No entanto, isso

poderia gerar muitos problemas

Os intérpretes-tutores deveriam estar pre -

... parados para trabalharem com as diferentes áreas do ensino. Se a eles fossem atribuídas as responsabilidades com o ensino, eles deveriam ser professores, além de serem intérpretes. E se estiverem assumindo a função de professo- res, por que estariam sendo contratados como intérpretes? Considerando tais questões, poder-se-ia determinar que o intérprete assumirá somente a função de intérprete, que em si já se basta, e caso seja requerido um professor que domine língua de sinais, que este seja contratado como tal.

Conforme apresentado em <www.deafmall.net/deaflinx/.edcoe.html>. (2002), nos Estados Unidos já houve tal discussão e foi determinado ser an- tiético exigir que o intérprete assuma funções que não sejam específicas da sua atuação enquanto intérpretes, tais como:

tutorar os alunos (em qualquer circunstância); apresentar informações a respeito do desenvolvimento dos alunos; acompanhar os alunos; disciplinar os alunos; realizar atividades gerais extraclasse.

Em <www.deafmall.net/deaflinx/useterp2.html>. (2002), apresentam-se alguns elementos sobre o Intérprete de Língua de Sinais em sala de aula que devem ser considerados:

Em qualquer sala de aula, o professor é a figura que tem autoridade absoluta.

Considerando as questões éticas, os intérpretes devem manter-se neutros e garantirem o direito dos alunos de manter as informações confidenciais.

Os intérpretes têm o direito de serem auxiliados pelo professor através da revisão e preparação das aulas que garantam a qualidade da sua atuação durante as aulas.

As aulas devem prever intervalos que garantam ao intérprete descan- sar, pois isso garantirá uma melhor performance e evitará problemas de saúde para o intérprete.

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras outras circunstâncias de interpretação não seria permitido.
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Deve-se também considerar que o intérprete é apenas um dos ele- mentos que garantirá a acessibilidade. Os alunos surdos participam das aulas visualmente e precisam de tempo para olhar para o intér- prete, olhar para as anotações no quadro, olhar para os materiais que o professor estiver utilizando em aula. Também, deve ser resolvido como serão feitas as anotações referentes ao conteúdo, uma vez que o aluno surdo manterá sua atenção na aula e não disporá de tempo para realizá-las. Outro aspecto importante é a garantia da participa- ção do aluno surdo no desenvolvimento da aula através de perguntas e respostas que exigem tempo dos colegas e professores para que a interação se dê. A questão da iluminação também deve sempre ser considerada, uma vez que sessões de vídeo e o uso de retroprojetor podem ser recursos utilizados em sala de aula.

Ainda se podem levantar outros problemas que surgem em relação aos in- térpretes em sala de aula. Por exemplo, o fato dos intérpretes interagirem com os professores pode levar a um problema ético, pois é natural travar comentá- rios a respeito dos alunos durante os intervalos. O código de ética prevê que o intérprete seja discreto e mantenha sigilo, não faça comentários, não compar- tilhe informações que foram travadas durante sua atuação. Assim, o código de ética dessa especialidade deveria também prever que ao intérprete fosse permitido apenas fazer comentários específicos relacionados à linguagem da criança, à interpretação em si e ao processo de interpretação, quando estes forem pertinentes para o processo de ensino-aprendizagem.

Outro aspecto a ser considerado na atuação do intérprete em sala de aula é o nível educacional. O Intérprete de Língua de Sinais poderá estar atuan- do na educação infantil, na educação fundamental, no ensino médio, no nível universitário e no nível de pós-graduação. Obviamente que em cada nível de - ve-se considerar diferentes fatores. Nos níveis mais iniciais, o intérprete estará diante de crianças. Há uma série de implicações geradas a partir disso. Crianças têm dificuldades em compreender a função do intérprete puramente como uma pessoa mediadora da relação entre o professor e o aluno. A criança surda tende a estabelecer o vínculo com quem lhe dirige o olhar. No caso, o intér- prete é aquele que estabelece essa relação. Além disso, o intérprete deve ter afinidade para trabalhar com crianças. Por outro lado, o adolescente e o adulto lidam melhor com a presença do intérprete. Nos níveis posteriores, o intér- prete passa a necessitar de conhecimentos cada vez mais específicos e mais

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Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras  Deve-se também considerar que o intérprete

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aprofundados para poder realizar a interpretação compatíveis com o grau de exigência dos níveis cada vez mais adiantados da escolarização.

De modo geral, aos Intérpretes de Língua de Sinais da área da educação é recomendado redirecionar os questionamentos dos alunos ao professor, pois dessa forma o intérprete caracteriza o seu papel na intermediação, mesmo quando esse papel é alargado. Nesse sentido, o professor também precisa passar pelo processo de aprendizagem de ter no grupo um contexto diferen- ciado com a presença de alunos surdos e de Intérpretes de Língua de Sinais. A adequação da estrutura física da sala de aula, a disposição das pessoas em sala de aula, a adequação da forma de exposição por parte do professor são exemplos de aspectos a serem reconsiderados em sala de aula.

Cabe apresentar uma outra questão, há vários professores que também são Intérpretes de Língua de Sinais. O próprio MEC está procurando formar professores enquanto intérpretes. Isso acontece, pois alguns professores acabam assumindo a função de intérprete por terem um bom domínio da língua de sinais. Nesse caso, esse profissional tem duas profissões: a de pro- fessor e a de Intérprete de Língua de Sinais. A proposta do MEC em formar in- térpretes selecionando professores da rede regular de ensino objetiva abrir esse campo de atuação dentro das escolas. Assim, o “professor-intérprete” deve ser o profissional cuja carreira é a do magistério e cuja atuação na rede de ensino pode efetivar-se com dupla função:

  • 1. Em um turno, exercer a função de docente, regente de uma turma seja em classe comum, em classe especial, em sala de recursos, ou em es- cola especial (nesse caso, não atua como intérprete).

  • 2. Em outro turno, exercer a função de intérprete em contexto de sala de aula, onde há outro professor regente.

Dicas de estudo

Despertar do Silêncio, de Shirley Villalva, Editora Arara Azul.

Esse livro retrata a trajetória de vida de uma surda parcial que procura en- tender o mundo à sua volta, significá-lo por meio de uma língua, mas a questão que se coloca à autora é que língua empregar em tal significação, uma vez que, durante muito tempo, a Libras nada comunicava aos que estavam ao seu redor, nem a ela própria. O relato da autora permite a reflexão sobre como a tradução

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras aprofundados para poder realizar a interpretação compatíveis
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e interpretação de uma língua dependem, em certa medida, da maneira como o mundo é visto, apreendido, recortado.

A Intérprete (2005), dirigido por Sydney Pollack.

O filme apresenta o drama de uma intérprete das Nações Unidas, Silvia Broome, que ouve, por acaso, uma ameaça de morte a um chefe de estado afri- cano, planejada para acontecer na Assembleia Geral das Nações Unidas. A con- versa é ouvida num raro dialeto que poucas pessoas, além de Silvia, nascida na África, podem entender. A abordagem do filme permite refletir sobre os limites da atuação do intérprete, as implicações éticas, bem como apresenta um pouco da rotina de trabalho desse profissional.

Atividades

  • 1. Você viu ao longo do texto que existe no Brasil um código de ética que estabe - lece os princípios de conduta para a atividade. E quanto ao que o código não prevê diretamente? Afinal, é impossível prever todas as situações inusitadas pelas quais um intérprete pode passar. Como agir em relação a isso? Abster-se quando não há uma conduta clara e específica recomendada?

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2.

Discorra sobre os motivos pelos quais apenas o domínio da Libras e da lín- gua portuguesa não garante que alguém possa atuar como intérprete e/ou tradutor dessas línguas.

  • 3. Fundamentando-se nas discussões estabelecidas ao longo da aula a respei- to da atuação do tradutor e do intérprete, é possível dizer que interpretar e traduzir são atividades de natureza diversa, embora relacionadas entre si? Justifique sua resposta.

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Referências

BRASIL. Projeto de Lei 4.673-C de 2004. Regulamenta a profissão de Tradutor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Disponível em: <wwwlegis. senado.gov.br/mate-pdf/72153.pdf>. Acesso em: 14 jul. 2010.

MAGALHÃES, Ewandro Junior. Sua Majestade, o Intérprete: o fascinante mundo da tradução simultânea. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

MASUTTI, Mara Lúcia; SANTOS, Silvana Aguiar. Intérpretes de Língua de Sinais:

uma política em construção. In: QUADROS, Ronice Müller de (Org.). Estudos Surdos III. Petrópolis: Arara Azul, 2008.

PAGURA, Reynaldo. A interpretação de conferências: interfaces com a tradução es- crita e implicações para a formação de intérpretes e tradutores. DELTA [on-line], 2003, v. 19, n. spe, p. 209-236. Disponível em: <www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0102-44502003000300013>. Acesso em: 14 jul. 2010.

QUADROS, Ronice Müller de. O Tradutor e Intérprete de Língua Brasileira de Sinais e Língua Portuguesa. 2. ed. Secretaria de Educação Especial; Brasília:

MEC; SEESP, 2007.

QUADROS, Ronice Müller de; SOUZA, Saulo Xavier de. Aspectos da tradução/en- cenação na Língua de Sinais Brasileira para um ambiente virtual de ensino: prá- ticas tradutórias do curso de Letras Libras. In: QUADROS, Ronice Müller de (Org.). Estudos Surdos III. Petrópolis: Arara Azul, 2008.

RÓNAI, P. Escola de Tradutores. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1987.

SILVA, Lídia da; RODRIGUES, Cristiane Seimetz. Marcas aspectuais na interpreta- ção simultânea do português para a Língua de Sinais Brasileira (Libras). Revista Eletras [on-line], Curitiba, v. 20, jul. 2010. Disponível em: <www.ctp.br/eletras/

textos/Artigo_livre_20.2_Marcos_aspectuais_na_interpretação_simultanea_

do_portugues_SILVA_RODRIGUES.pdf>. Acesso em: 14 jul. 2010.

Gabarito

  • 1. Na sua condição de conjunto, o código de ética tenta alcançar, por meio de princípios gerais, situações mais específicas do cotidiano do TILS. Entre - tanto, por se tratarem de princípios, os preceitos estabelecidos no código

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Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras Referências BRASIL. Projeto de Lei 4.673-C de

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de ética funcionam como um norte a seguir mesmo quando algumas situ- ações não são contempladas diretamente por ele. Nessa hora, vale o bom senso de cada um, e ter em mente que, na condição de uma profissão com suas responsabilidades, a não observância de certas condutas pode resul- tar em prejuízos não apenas para o cliente, mas também para si.

  • 2. Apenas o domínio das línguas envolvidas no ato tradutológico não pos- sibilita a alguém ser um TILS, pois há muito mais exigências que preci- sam ser satisfeitas e que compõem o perfil do profissional. Nesse sentido, para o indivíduo tornar-se um tradutor e intérprete ele precisa apresen- tar características tais como responsabilidade de manter-se fiel e neutro em relação ao objeto de interpretação, o conhecimento cultural sufi- ciente da língua-alvo e da língua-fonte para fazer as devidas adaptações linguísticas de cunho idiomático e cultural, investir em formação, estar aberto a aprendizados, manter o convívio com surdos, procurar feedback do trabalho realizado, empenhar-se em desenvolver suas próprias estra- tégias de tradução, ter boa audição, pensamento rápido para julgar as escolhas lexicais, sintáticas, semânticas e pragmáticas mais adequadas à mensagem pretendida por aquele que a produziu etc.

  • 3. Resposta mínima deve contemplar o reconhecimento de que são de fato duas tarefas diferentes, com exigências e características de atuação di- versas, mas que se entrecruzam na medida em que consistem em verter um conteúdo de uma língua-fonte para uma língua-alvo, sendo que as habilidades exigidas na tradução podem estar presentes na interpreta- ção e vice-versa.

Panorama e perspectivas da tradução e interpretação em Libras de ética funcionam como um norte a
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O fazer tradutório

Neste capítulo a intenção é adentrar no mundo da tradução, definir o termo “traduzir” enquanto conceito fundamental que atravessa o ato in- terpretativo. A proposta é de aprofundamento no que seja a atividade de traduzir, os meios de executá-la, daí a apresentação de tipos de tradução, as implicações e limites de tal tarefa, as quais têm a ver com a questão da fidelidade. Esta, muitas vezes, buscada através da tradução cultural. Será discutido, nesse sentido, que, embora toda proposta de tradução lide com a cultura em que o texto do original foi produzido, existe uma vertente teórica a defender uma tradução que não apenas considere a cultura, mas que traduza de forma cultural, lançando uma ponte entre culturas diferen- tes, mais do que meramente entre línguas diferentes.

O que significa traduzir

A palavra traduzir apresenta diferentes conceituações. Segundo o di- cionário Aurélio (1986, p. 2.745), etimologicamente, significa “conduzir além”, “transferir”. Todavia, hoje em dia, também abrange sentidos como “transpor, trasladar de uma língua para outra”, “revelar, explicar, manifes- tar, explanar”, “representar, simbolizar”. Como se pode depreender das acepções apresentadas, traduzir designa, especificamente, uma operação de transferência linguística e, de modo mais geral, qualquer operação de transferência entre códigos ou, inclusive, dentro de códigos. Isso implica que a atividade de tradução pode assumir naturezas diversas de acordo com o que se está transferindo. Deriva daí a possibilidade de diferentes tipos de tradução, como se verá posteriormente. Antes, porém, além das acepções dadas pelo dicionário, úteis, é verdade, é preciso considerar o que estudiosos e teóricos da tradução têm a discutir sobre as definições comumente atribuídas à palavra traduzir.

Paulo Rónai, em A Tradução Vivida, avalia que:

Ao definirem “tradução”, os dicionários escamoteiam prudentemente esse aspecto e limitam-se a dizer que “traduzir é passar para outra língua”. A comparação mais óbvia é fornecida pela etimologia: em latim, traducere é levar alguém pela mão para o outro

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O fazer tradutório Neste capítulo a intenção é adentrar no mundo da tradução, definir o termo

O fazer tradutório

lado, para outro lugar. O sujeito desse verbo é o tradutor, o objeto direto, o autor do original a

quem o tradutor introduz num ambiente novo [

...

]

Mas a imagem pode ser entendida também

de outra maneira, considerando-se que é ao leitor que o tradutor pega pela mão para levá-lo

para outro meio linguístico que não o seu. (RÓNAI, 1976, p. 3-4)

Do excerto acima, é possível entender que a tradução pode adotar pelo menos dois movimentos, duas direções. De um lado, o original a ser traduzido é levado, conduzido até o leitor em sua língua de chegada, adaptando-se, para tanto, os “costumes”, características do original ao novo meio linguístico. Esse processo, não raro, leva a esquecer que a tradução se trata de um original vindo de uma realidade distante, fundamentalmente diferente. Nesse caso, tem-se o que Rónai (1976) chama de “tradução naturalizadora”. De outro lado, há o que o autor de- nomina de “tradução identificadora”. Movimento no qual o leitor (público-alvo da tradução) é conduzido para o país da obra que lê, entrando em contato com as peculiaridades dela, o que acentua sua origem distante, estrangeira.

A visão adotada por Rónai (1976) é reforçada por Bassnett (2003, p. 9), para quem a tradução não é somente a transferência de textos de uma língua para outra, mas um processo de negociação entre textos e entre culturas, um pro- cesso em que ocorrem todos os tipos de transações mediadas pela figura do tradutor. Com isso, percebe-se que há muito mais por trás das acepções dadas à palavra traduzir, posto que não se trata apenas de “trasladar”, como se esse pro- cesso fosse automático, ou facilmente exequível. Há muitas implicações no ato de traduzir, bem como há diferentes maneiras de fazê-lo e também variedades de tradução. Fala-se em variedades de tradução, já que ela se verifica não apenas entre línguas – embora essa seja a mais lembrada e aceita em relação ao que, geralmente, no senso comum, se entende ser tradução –, mas também em dife- rentes sistemas semióticos. Por sistemas semióticos, entende-se a articulação de uma dada mensagem por meio de signos verbais e não verbais, com os diversos sistemas de sinais, de linguagem e suas relações.

Dessa forma, pode-se dizer que também se trata de tradução, por exemplo, uma obra literária adaptada ao formato cinematográfico, em que há uma “trans- ferência” entre sistemas semióticos diferentes, bem como o mesmo se aplica a filmes/séries que ganham o formato de histórias em quadrinhos ou obras lite- rárias, ou ainda, mais modernamente, jogos eletrônicos que são transformados em filmes ou desenhos animados – como exemplo deste último tem-se o Super Mario Bros.: Peach-Hime Kyushutsu Dai Sakusen!, o primeiro longa-metragem ba- seado em um jogo de videogame. A seguir, será visto que esse tipo de tradução foi uma das contempladas por Roman Jakobson.

O fazer tradutório lado, para outro lugar. O sujeito desse verbo é o tradutor, o objeto
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O fazer tradutório

Tipos de tradução segundo Roman Jakobson

Nesta seção, o intuito é tratar dos diferentes tipos de tradução a partir da di- visão proposta por Roman Jakobson (1896-1982), para quem existem três tipos de tradução:

A tradução intralingual, ou reformulação, consiste na interpretação dos signos verbais por meio de outros signos da mesma língua.

A tradução interlingual, ou tradução propriamente dita, consiste na inter- pretação dos signos verbais por meio de alguma outra língua.

A tradução intersemiótica, ou transmutação, consiste na interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não verbais.

A tradução intralingual, atente para a prefixação da palavra – intra, significa dentro, nesse caso, dentro da língua – envolve uma única língua. Desse modo, não há uma língua-fonte diferente de uma língua-alvo para a qual o texto deverá ser vertido. Grosso modo, esse tipo de tradução pode ser entendido como uma paráfrase, uma explicação em palavras diferentes – consideradas sinônimas –, sobre algo dito ou escrito. Um exemplo prático disso tem relação com uma ati- tude muito difundida no cotidiano das pessoas. Ao se depararem com situações em que não entendem o que lhes foi dito, muitas pessoas não se furtam à brin- cadeira, sempre com fundo de verdade, de disparar um “traduza, por favor”.

Nas palavras de Jakobson (1975, p. 65), “a tradução intralingual de uma pala-

vra utiliza outra palavra, mais ou menos sinônima, ou recorre a um circunlóquio.

Entretanto, via de regra, quem diz sinonímia não diz equivalência completa [

...

]”.

Ao dizer que a sinonímia não leva à equivalência completa, o autor pretende chamar a atenção para o fato de que não existem, qualquer que seja a língua, sinônimos perfeitos, haja vista que cada palavra da língua detém associações e conotações únicas, são valoradas diferentemente pelos usuários do idioma. Nesse sentido, por exemplo, “pássaro” não corresponde completamente a “ave”, a depender do contexto elas não são intercambiáveis. Da mesma forma, problema parecido se verifica no par “objetivo X intenção”, em que a palavra “intenção” se apresenta na língua de forma mais carregada de intencionalidade, não substi- tuindo bem a palavra “objetivo” em muitos contextos.

A tradução intralingual também ocorre quando um texto do passado, como a “Carta de Pero Vaz de Caminha”, é lido por um leitor dos dias atuais, pois há a necessidade de buscar equivalências, dentro da mesma língua, para o que foi

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O fazer tradutório Tipos de tradução segundo Roman Jakobson Nesta seção, o intuito é tratar dos

O fazer tradutório

dito numa outra época. Ou ainda, quando se trata de um texto contemporâneo ao leitor, mas complexo, em que as palavras são usadas fora de seu significado usual, tal qual o poema de João Cabral de Mello Neto “Educação pela Pedra”. Sobre essa segunda possibilidade, o leitor se vê diante de uma tarefa que pode ser descrita da seguinte maneira:

ao vazarmos em palavras um conteúdo que em nosso pensamento existia apenas em

[

]

... estado de nebulosa, fenômeno constante em todos os momentos conscientes da vida, estamos também traduzindo, mas praticamos a tradução intralingual, operação esta que tem as próprias dificuldades e cujo resultado muitas vezes nos deixa insatisfeitos. (RÓNAI, 1976, p. 1)

A verdade é que existem muitos exemplos de tradução intralingual, os quais evidenciam o seu uso cotidiano nas mais diversas situações, seja na conversa entre um adolescente e um idoso, entre pessoas de um mesmo país, mas de regiões ou classes sociais diferentes. Muito disso se deve ao fato de que não há como usar as mesmas palavras ou regras gramaticais para expressar a mesma coisa. Cada pessoa, ao se expressar, tem à disposição pelo menos duas fontes de recursos linguísticos, a língua usada em seu país e compartilhada por todos e a sua “própria língua”, que lhe é única, cujas características mesclam as experiên- cias culturais, sociais, psíquicas e linguísticas vividas pelo indivíduo ao longo de sua vida. Experiências estas que influenciam também a compreensão e interpre- tação atribuída ao mundo, ao que ouve, ao que lê e vê, determinando, assim, o resultado daquela tentativa de “explicar em outras palavras” sobre a qual se falou no início desta explanação. Isso significa, então, que compreensão e interpretação são, portanto, palavras-chave no fenômeno da tradução intralingual.

Quando há a transposição da mensagem de uma língua para outra, carac- teriza-se a tradução interlingual – observe o prefixo inter, que remete à noção de “relação”, “entre” –, tipo mais facilmente reconhecido no senso comum como tradução. Jakobson acredita que:

[

...

]

no nível da tradução interlingual, não há comumente equivalência completa entre as

unidades de código, ao passo que as mensagens podem servir como interpretações adequadas

das unidades de código ou mensagens estrangeiras [

].

Mais frequentemente, entretanto, ao

... traduzir de uma língua para outra, substituem-se mensagens em uma das línguas, não por

unidades de códigos separadas, mas por mensagens inteiras de outra língua. Tal tradução é uma forma de discurso indireto: o tradutor recodifica e transmite uma mensagem recebida de outra fonte. Assim, a tradução envolve duas mensagens equivalentes em dois códigos diferentes. (JAKOBSON, 1975, p. 65)

Como se vê, a tradução interlingual pode ser considerada um fato de bilinguis- mo, pois envolve o domínio de duas línguas diferentes. O fenômeno compreendi- do nesse tipo de tradução muitas vezes não tem reconhecida a importância que merece. Considerando que todo e qualquer texto, independentemente da língua,

O fazer tradutório dito numa outra época. Ou ainda, quando se trata de um texto contemporâneo
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pode sofrer a tradução interlingual, tem-se à disposição um recurso riquíssimo para se ter acesso ao conhecimento produzido por outras culturas, conhecimen- to essencial para o desenvolvimento das sociedades, tanto na esfera científica quanto na econômica, bem como na religiosa ou médica, entre tantas outras. O mundo ocidental, da forma como é conhecido, existe graças aos trabalhos de tra- dução do grego para o latim e daí para outras línguas. Sem sombra de dúvida, a tradução lança uma ponte entre culturas diferentes e permite que a cultura-leitora da cultura-fonte se aproprie de certas características, torne “seu” o que é do outro, mas não numa espécie de cópia, e sim numa troca, negociação, reformulação.

Não apenas no passado a tradução entre línguas foi de suma importância, ainda hoje o é, e talvez mais, tendo em vista o mundo globalizado em que vive- mos, com o diferencial de que o papel da tradução no desenvolvimento dessa “aldeia global” vem, cada vez mais, sendo sentido como crucial. Isso graças, em parte, à expansão da internet, pois agora existem on-line milhões de documen- tos em quase todas as línguas e uma boa parte dessa enorme massa textual é, de uma ou outra forma, tradução. No Brasil, por exemplo, calcula-se que a tradução interlingual representa cerca de 60 a 80% dos textos publicados e que 75% do saber científico e tecnológico provém das traduções, alimentando vários setores da vida nacional. Sem a tradução, muitos setores simplesmente não funciona- riam, como, por exemplo, o de softwares, medicamentos, automobilístico etc.

A verdade, no entanto, é que, nesse tipo de tradução, a transposição literária sempre concentrou a atenção dos escritores e críticos. No Ocidente, comple - mentando o dito acima, os primeiros grandes pensadores da tradução foram romanos, e não por acaso, já que a civilização romana é, em grande parte, o produto de um projeto consciente de tradução e adaptação da civilização grega antiga. Assim, encontram-se em Cícero (106-43 a.C.) e Horácio (65-8 a.C.) os primeiros escritores a estabelecer a distinção entre “tradução literal” e “tradução do sentido”, distinção que salta naturalmente aos olhos de qualquer observador do fenômeno tradutório. Para ambos, preocupados em criar uma cultura romana, não se deve traduzir palavra por palavra, mas o sentido; no caso o sentido textualizado pelos gregos deveria, para eles, receber uma co - loração romana. Trata-se do “apropriar-se, tornar seu o que é do outro” citado anteriormente. Cícero e Horácio, conforme relata Bassnett (2003), entendem a tradução dentro do contexto alargado das duas funções principais do poeta: o dever humano universal de adquirir e disseminar a sabedoria, e a arte especial de fazer e dar forma ao poema. A posição deles sobre tradução teve grande influência em gerações posteriores de tradutores.

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O fazer tradutório pode sofrer a tradução interlingual, tem-se à disposição um recurso riquíssimo para se

O fazer tradutório

Outra posição em relação ao ato de traduzir que marcou a história da tradu- ção e o fazer tradutório foi a empreitada de tradução da Bíblia. Se a preocupação de Cícero e Horácio era o texto de chegada para o enriquecimento da língua e da literatura latina, com a tradução da Bíblia, a preocupação do tradutor se volta para o texto de partida, posto que o desejado era “espalhar a palavra de Deus”, evangelizar, e, para tanto, estar o mais próximo possível da palavra divina. Por isso, as religiões, especialmente as religiões de tipo universalista, sempre traba- lharam com a tradução, elemento-chave para sua expansão entre os diferentes povos. Entre elas, talvez a que mais se dedicou às questões de tradução foi o cristianismo. De fato, a tradução da Bíblia constitui um dos mais ricos capítulos da história da tradução e também deu sua contribuição à discussão da oposição entre tradução literal e tradução livre. Como exemplo disso, pode-se mencionar São Jerônimo, que, ao traduzir o Novo Testamento, diz ter optado por traduzir o sentido, e não palavra por palavra. A propósito, essa questão de traduzir de forma literal ou livre atravessa a história da tradução, sendo tratada, por vezes, sob nomenclaturas diferentes, com avanços teóricos e práticos, mas que guar- dam, essencialmente, relação com esses primeiros conceitos formulados. Por tal razão, não se poderá deixar de discutir neste capítulo sobre o tema, bem como sobre a fidelidade da tradução e a tradução cultural, as quais estão interligadas àqueles conceitos de verter um texto livremente ou de forma literal. Contudo, antes, ainda há que se discutir a tradução intersemiótica.

Ela pode ser definida, segundo Jakobson, como a transmutação de uma obra de um sistema de signos a outro. A forma mais corriqueira se dá entre um siste- ma verbal e um não verbal, como acontece com a passagem de um romance ou conto ao cinema, vídeo e história em quadrinhos; de poemas para ilustrações de livros; com a passagem de textos em geral para anúncios publicitários. No entanto, ela pode acontecer também entre dois sistemas não verbais, como por exemplo, entre música e dança e música e pintura. Sobre esse tipo de tradução, Rónai a estabelece como:

[

...

]

aquela a que nos entregamos ao procurarmos interpretar o significado de uma expressão

fisionômica, um gesto, um ato simbólico mesmo desacompanhado de palavras. É em virtude dessa tradução que uma pessoa se ofende quando outra não lhe aperta a mão estendida ou

se sente à vontade quando lhe indicam uma cadeira ou lhe oferecem um cafezinho. (RÓNAI, 1976, p. 2)

A semiótica, para Jakobson, está no centro da discussão sobre a tradução, pois esta é uma forma de interpretação de signos. A procura por equivalentes também acontece na tradução intersemiótica, assim como na tradução intra e interlingual, ou seja, trata-se da busca, em um determinado sistema semió- tico, de elementos cuja função se assemelhe à de elementos de outro sistema

O fazer tradutório Outra posição em relação ao ato de traduzir que marcou a história da
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de signos. Entretanto, esse procedimento ainda leva em conta a existência de um sentido no texto, que deve ser transportado/traduzido para um outro texto/ sistema, isto é, se for considerado que o sentido esteja subjacente ao texto, pro- venha de sua estrutura. Na tradução intersemiótica, mas também nos demais tipos de tradução discutidos anteriormente, não é possível traduzir tudo. Por isso, desde o início, numa tradução intersemiótica, é preciso traçar uma estra- tégia de tradução para determinar quais são os componentes mais característi- cos do texto a ser traduzido entre dois códigos diferentes, pois quando um dos textos de uma tradução não é verbal, a seleção entre as partes que se traduzem e as que se sacrificam é muito mais evidente. Nesse sentido, toda tradução – os três tipos de que se falou – irá sempre oferecer algo além ou aquém do texto fonte, sendo que o sucesso da tradução, alcançar a mensagem pretendida, não depende apenas da criatividade ou da habilidade do tradutor, mas, antes, das decisões tomadas por ele, seja sacrificando algo, ou encontrando a todo custo um equivalente. Nesse ponto, há o embate entre tradução literal e tradução livre, que leva à questão da fidelidade.

A polêmica da tradução literal versus tradução livre

O problema da tradução livre face à tradução literal se coloca de forma mais contundente e visível na tradução interlingual. Segundo Rónai, em Escola de Tra- dutores, é um equívoco pensar que qualquer tradução que não seja literal seja livre e que apenas a primeira se constituiria como uma tradução fiel. Na verdade, como se verá adiante, o conceito de fidelidade em tradução não é algo fácil de alcançar e tampouco de delimitar. Mesmo assim, é comum encontrar menção de autores a dizer que não existe apenas uma possibilidade de tradução para um texto e, consequentemente, que não é possível ser completamente “fiel” porque na tradução nunca se diz a mesma coisa, mas quase a mesma.

Na seção anterior, ao abordar a tradução interlingual se falou sobre a tradu- ção literal, em que o tradutor prioriza o texto de partida, procurando ficar o mais próximo possível do original, e também da tradução livre, em que a preocupação recai sobre o texto de chegada, de forma que seja acessível ao seu público-alvo, priorizando-se a tradução do sentido. Essa discussão pode ser vista e tomada também a partir dos conceitos de correspondência formal e equivalência dinâ- mica empregados por Gabel e Wheeler quando da discussão sobre a tradução literária da Bíblia – convém notar que a prática de tradução da Bíblia, mesmo nos

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O fazer tradutório de signos. Entretanto, esse procedimento ainda leva em conta a existência de um

O fazer tradutório

dias atuais, ainda tem muito a contribuir com a área dos Estudos da Tradução. De acordo com os autores, na correspondência formal a ênfase recai na forma do original e na equivalência dinâmica, sobre a capacidade do leitor de entender a realidade. Nenhuma dessas duas práticas é boa ou ruim em si mesma, pois, ao se dar início ao processo de tradução, os tradutores devem decidir se favorecem as exigências da forma ou as necessidades do leitor. Mas essa decisão não é nada fácil, como se pode depreender do excerto abaixo:

Podem os tradutores ir longe demais numa ou noutra direção? Sem dúvida. Na direção da correspondência formal, eles podem chegar a produzir um texto mais hebraico ou grego do que inglês. Na direção da equivalência dinâmica, podem gerar um texto mais simples e fácil para os leitores modernos do que o original foi para seus primeiros leitores. Neste último caso, a preocupação dos tradutores com as limitadas capacidades de seus leitores pode levá-los a interpretar em vez de traduzir o texto. Há uma tênue linha a separar o que é deixar claro o sentido do original e o que é interpretá-lo – e os tradutores devem ter cuidado para não cruzá- -la. (GABEL; WHEELER, 2003, p. 220)

Os autores tratam da tradução dos originais da Bíblia, no hebraico e no grego, para o inglês e chamam a atenção para o fato de que uma tradução literal/cor- respondência formal pode resultar num texto distante demais da língua-alvo por vezes ao ponto da incompreensão, e que o excesso na outra direção, tradução livre/equivalência dinâmica, pode levar à produção de um texto muito diverso, sem as peculiaridades do original, em que, por querer ajudar o seu leitor, o tradu- tor acaba empobrecendo o texto do original. Ao dizer que há de se ter cuidado para não interpretar o texto, os autores se referem a essa ânsia por “tornar tragá- vel, palatável” certos originais, fazendo com que eles percam – no caso da lite - ratura – o que os torna únicos. A intenção dos autores, de forma alguma, é fazer crer que não haja interpretação no ato da tradução, mas interpretação entendida como leitura, como compreensão do original. Sob tal perspectiva, é útil refletir sobre o que Gabel e Wheeler defendem para a tradução de textos literários:

Uma das coisas mais importantes de uma passagem é saber, se ela for poética, que ela o é: estamos preparados para compreender uma passagem que consideramos poética de um modo diferente daquele pelo qual compreendemos uma passagem que consideramos prosa. Por isso, é importante que as traduções de poesia ao menos pareçam poesia, mesmo que muitos efeitos poéticos do original não possam ser representados na tradução. (GABEL; WHEELER, 2003 p. 217, grifo nosso)

Após essas reflexões, alguns de vocês podem estar construindo o entendi- mento de que o ideal, na tradução, é ficar no meio termo entre tradução lite- ral/correspondência formal e tradução livre/equivalência dinâmica, posição por meio da qual se alcançaria a tão perseguida “fidelidade”. Será? Para saber, impor- ta discutir o que deve ser entendido por “ser fiel ao original”.

O fazer tradutório dias atuais, ainda tem muito a contribuir com a área dos Estudos da
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O fazer tradutório

A questão da fidelidade da tradução

A “fidelidade” é comumente usada como categoria avaliativa da qualidade dos trabalhos de tradução e interpretação. Contudo, poucos pensam sobre o que significa a fidelidade, qual sua acepção. Ser fiel é ser igual? É procurar a exati- dão? Existe algo que possa ser chamado de “padrão de fidelidade” a ser alcança- do? São perguntas como essas que se procura responder neste momento. Para tanto, serão empregadas as discussões de cunho mais filosófico da pesquisadora brasileira Arrojo (1986), que, a partir do final da década de 1980, problematizou o conceito de fidelidade e também as contribuições de Rónai (1976; 1987), cujas críticas de tradução baseadas em sua experiência prática se entrelaçam às ques- tões filosóficas apontadas por Arrojo.

A autora discute a fidelidade a partir dos principais problemas teóricos que envolvem a pergunta: “a que devemos ser ‘fiéis’ quando realizamos uma tradu- ção?” A pesquisadora questiona a possibilidade de uma tradução ser inteiramen- te fiel ao texto “original”, propondo uma redefinição do conceito. Por meio de suas reflexões, ela procura construir com seu leitor o entendimento da natureza do conceito de “fidelidade” de tal forma a possibilitar a compreensão da autono- mia do tradutor – cuja leitura do texto de partida é, inevitavelmente, um produto de sua época, suas concepções teóricas, suas realidades.

A “fidelidade” é o conceito mais invocado para avaliar traduções, e, segundo a autora, tradicionalmente, ela tem sido conceituada como uma correspondência literal ao texto fonte, o que muitos consideram positivo. No entanto, dos usuá- rios desse termo, poucos se preocupam em defini-lo, fazendo, então, com que qualquer avaliação de tradução pautada nesse conceito seja vaga, geral em de- masia, limitando a avaliação da tradução a apenas um de seus aspectos, a sua relação com o texto de partida. Isso, aliás, mostra o problema mais óbvio com essa atitude, que tem a ver com o fato de as línguas não serem isomórficas, ou seja, não existe correspondência um a um entre os seus elementos constitutivos. Além desse problema, existe a questão da inevitável intervenção do tradutor, como consequência de seu contexto histórico e social.

Relacionado ao problema de as línguas não seres isomórficas, Arrojo apro- funda a questão ao discutir o processo de construção de significado, mostrando que uma palavra, mesmo dentro de uma mesma língua, não tem um sentido fixo e único, imediatamente decifrável por qualquer indivíduo. Assim, não existe uma linguagem capaz de neutralizar as ambiguidades, os duplos sentidos, as

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O fazer tradutório A questão da fidelidade da tradução A “fidelidade” é comumente usada como categoria

O fazer tradutório

variações de interpretação, as mudanças trazidas pelo tempo ou pelo contexto.

No campo da tradução, essa discussão, diz a autora, leva ao questionamento do conceito de fidelidade na condição de transferência total dos significados de um texto em uma língua, para outro texto em outra língua, argumentando que nenhuma tradução é capaz de recuperar a totalidade do “original”, já que revela, inevitavelmente, uma leitura, uma interpretação desse texto, e não o “transpor-

te” de seu conteúdo para uma nova língua: “[

]

o que acontece não é uma trans-

... ferência total de significado, porque o próprio significado do ‘original’ não é fixo

ou estável e depende do contexto em que ocorre” (ARROJO,1986, p. 23).

Olhar similar sobre a questão é lançado por Rónai (1987, p. 22-23) no que diz respeito à impossibilidade de significados estanques nas palavras:

[

...

]

ao tradutor não lhe basta um conhecimento aproximativo da língua do autor que está

vertendo. Por melhor que maneje o seu próprio instrumento, não pode deixar de conhecer a fundo o instrumento do autor. O tradutor deve conhecer todas as minúcias semelhantes da língua de seu original a fim de captar, além do conteúdo estritamente lógico, o tom exato, os efeitos indiretos, as intenções ocultas do autor. Assim a fidelidade alcança-se muito menos pela tradução literal do que por uma substituição contínua. A arte do tradutor consiste justamente em saber quando pode verter e quando deve procurar equivalências. Mas como não há equivalências absolutas, uma palavra, expressão ou frase do original podem ser frequentemente transportadas de duas maneiras, ou mais, sem que se possa dizer qual das duas é a melhor.

Para Rónai (1987), inclusive, a dificuldade da tradução reside justamente nas palavras traduzíveis: são essas que enganam ou alimentam a ilusão de ser possí-

vel a “fidelidade” da tradução. Por isso, é preciso compreender que o sentido não preexiste à compreensão, entretanto, é constituído por ela; todavia, o tradutor mais constrói, reconstrói, transforma e recria do que simplesmente transporta algo que estava a princípio imutável no texto dito como original. A tradução obriga o tradutor a investigar detalhadamente a função de cada palavra, esqua- drinhar atentamente o sentido de cada frase e, finalmente, reconstruir a paisa-

gem mental do autor e descobrir-lhe o que o autor quis dizer–“[ um mundo de minúcias” (RÓNAI, 1987, p. 43).

...

]

a tradução é

Com base no dito por Rónai e Arrojo, se aceitamos que “o tradutor não poderá evitar que seu contato com os textos seja mediado por suas circunstâncias, suas concepções e seu contexto histórico e social” (ARROJO, 1986, p. 38), como fica a questão da fidelidade? Uma resposta possível, ainda em construção pelos teó- ricos dos Estudos da Tradução, está relacionada ao reconhecimento de que a leitura de um original é, sim, dirigida por diversos fatores, tais como experiência e conhecimento de cada leitor e condições de produção de cada texto, tanto na língua de partida quanto na língua de chegada. Entretanto, isso não significa

O fazer tradutório variações de interpretação, as mudanças trazidas pelo tempo ou pelo contexto. No campo
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O fazer tradutório

que o tradutor deva renunciar à busca de um sentido, ou seja, da compreensão da obra original; sem isso, não haveria razão para traduzir. Porém, o tradutor não pode restringir-se a buscar um único sentido, como se estivesse predetermina- do: é necessário considerar que toda obra é algo aberto, que pode ser cortado e recortado por múltiplas leituras e interpretações e que a tradução não deve fechar essas leituras, limitando-se a apenas uma, quando existe a possibilidade de se obter mais de um sentido. Isso implica que nenhuma tradução (ou leitura) de um texto é definitiva e unanimemente aceita por todos, em qualquer época e em qualquer lugar. Exemplo disso é o livro, sem dúvida, mais traduzido na his- tória da civilização: a Bíblia.

Embora seja um texto milenar, e também em função disso, a Bíblia continua sendo traduzida, seus tradutores – os atuais e os anteriores – esforçam-se para verter o texto de forma a respeitar o sentido do original, mas sem perder de vista as concepções textuais e teóricas da comunidade a que o tradutor perten- ce e os objetivos estabelecidos na tradução. Evidência disso são as “diferentes” traduções resultantes dessa “obra” ao longo dos séculos. Uma tradução dirigida a leitores atuais difere substancialmente de uma dirigida aos leitores do século XVIII, por exemplo. Todavia, isso não implica que qualquer uma das versões – a dos dias atuais ou a do século XVIII – seja mais ou menos “fiel” ao original, signi- fica apenas que elas procuraram/procuram o difícil ponto de equilíbrio em que se respeita o sentido do original sem deixar de considerar, no entanto, as con- cepções e condições históricas e sociais que atravessam a cultura de uma época – a do tradutor e seu público, a qual, em última análise, é o que permite que um significado seja atribuído a tudo que chega até nós. Essa questão de equilíbrio entre o sentido e a cultura preservada num original e a cultura e concepções do público-alvo é um dos pontos discutidos pela tradução cultural, desenvolvida nas últimas décadas, sobre a qual se trata a seguir.

Tradução cultural

O campo de tradução cultural remete a questões de identidades e diferen- ças, de veracidade e falsidade, de fidelidade e traição, enfim, de poder, repre - sentação e historicidade. De forma a ilustrar isso, Corrêa (2009) lança como exemplo a obra de um escritor da Costa do Marfim, Ahmadou Kourouma, Alá e as Crianças Soldados, cuja tradução brasileira, segundo a pesquisadora, recebeu o prêmio Fnac de melhor obra traduzida do francês no ano de 2003, quan do de seu lançamento.

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O fazer tradutório que o tradutor deva renunciar à busca de um sentido, ou seja, da

O fazer tradutório

Conforme a pesquisadora, o narrador – a obra tem um caráter metalinguístico e metatradutório à medida que o autor cria um personagem que escreve numa língua diferente da sua língua materna, precisando para tanto se valer de diferen- tes dicionários e de métodos de tradução –, numa espécie de prólogo atravessado pela crítica e pelo deboche, faz uma advertência no sentido de chamar a atenção para toda a dificuldade que teria passado para tornar sua mensagem compreen- sível a mais de um universo cultural, ou seja, o dos africanos e suas diversidades intrínsecas, e o dos francófonos da França e possivelmente de ou tras colônias. Abaixo está transcrito um dos exemplos de Corrêa para ilustrar a mencionada difi- culdade do narrador e o comentário que a pesquisadora faz sobre o mesmo:

“As crianças soldados estavam furiosas, vermelhas de tão fu riosas (A gente não deve dizer vermelho de furioso no caso dos pretos. Os pretos nunca ficam vermelhos, eles ficam carrancudos)”. Ao longo do romance, o narrador usará parêntesis todas as vezes que uma expressão lhe parecer difícil ou estranha a cada uma dessas possíveis culturas, ou quando desejar que suas re ferências culturais, sobretudo as africanas, sejam bem entendidas. (CORRÊA, 2009, p. 40-41)

O exercício que Kourouma faz com a linguagem explicita o embate, a ruptura e o esforço pelo encontro entre duas culturas, aquela em que se expressa, outra que lhe é materna. Isso mostra, e corrobora o discutido anteriormente, que duran- te a tradução o tradutor é obrigado a fazer escolhas. De um lado, pode optar por veicular elementos culturais do original de que parte, sem correlação imediata em sua própria língua-cultura. De outro modo, o mesmo tradutor poderá optar por fazer certa assimilação desses elementos, buscando adaptar em seu texto referências similares, caso as en contre em sua própria cultura. Essas escolhas re - metem ao que em tradução cultural se denomina por traduções estrangeiras ou domesticadoras. Na primeira, o tradutor opta por manter-se próximo ao original, oferecendo como resultado da tradução um texto que carrega referências, figu- ras de linguagem, estruturas reconhecidas pelo público-alvo como estrangeiras, podendo a partir disso fazer uma leitura da cultura com a qual entra em contato, mas, claro, sempre correndo o risco de não alcançar o entendimento de algo que é alienígena a sua própria cultura. Na segunda, a escolha do tradutor fará com que prime por aproximar o texto-fonte de seu público-alvo, tendo como resulta- do um texto nacionalizado, de fácil compreensão, mas que, possivelmente, não permitirá ao leitor entrever as referências culturais que atravessavam o original.

Essas escolhas, é preciso entender, são não apenas possíveis, mas necessá- rias, não se pode escapar delas no ato tradutório. Conforme esclarece Venuti (2002), o tradutor, ao comunicar um texto estrangeiro, interpreta fatores domés- ticos, utilizando a tradução como colaborador à formação de atitudes domés- ticas em relação a países estrangeiros ou não. Assim, a complexidade do ato

O fazer tradutório Conforme a pesquisadora, o narrador – a obra tem um caráter metalinguístico e
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O fazer tradutório

tradutório leva ao fato de que a valorização ou apagamento de etnias, raças e nacionalidades específicas são atitudes capazes de favorecer tanto o respeito pela diferença cultural quanto o ódio baseado no etnocentrismo, no racismo ou no nacionalismo.

Nesse sentido, a tarefa de traduzir mantém íntima relação com questões de domínio, ruptura e poder:

Uma tradução, ao circular na igreja, no estado e na escola, pode ter poder de manter ou revisar a hierarquia de valores na língua-alvo. A escolha calculada de um texto estrangeiro e da estratégia tradutória pode mudar ou consolidar cânones literários, paradigmas conceituais, metodologias de pesquisa, técnicas clínicas, e práticas comerciais na cultura doméstica. (VENUTI, 2002, p. 131)

Com isso, percebe-se que as traduções constituem um dos elementos essen- ciais ao processo de formação de uma nova identidade. Podem, conforme a in- tenção de quem as pratica, manter o estado de coisas vigente numa dada área do saber, ou em qualquer outra esfera da sociedade que dependa da tradução, bem como trazer mudanças em relação a tal estado, deflagrando um verdadeiro movimento de resistência cultural. Uma pergunta interessante que você, leitor, deve estar se fazendo seria pensar em como tudo isso se aplica à tradução em Libras. Para que você possa fazer uma relação mais concreta entre tradução cul- tural e a prática de tradução em Libras, o assunto é abordado no texto comple- mentar. Portanto, boa leitura.

Texto complementar

Tradução cultural: uma proposta de trabalho para surdos e ouvintes

(RAMOS, 2000, p. 7-10)

De que princípio parte a ideia da tradução cultural? Tudo pode ser tra- duzido, ou, em função da própria natureza da linguagem, nada se traduz? Segundo Paes (1990, p. 13), “os partidários dessa teoria têm apontado com razão que as palavras isoladas não têm sentido em si mesmas: a sua signifi- cação é determinada, de cada vez, pelo respectivo contexto. Por contexto entende-se a frase ou o trecho em que a palavra se encontra no momento,

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O fazer tradutório tradutório leva ao fato de que a valorização ou apagamento de etnias, raças

O fazer tradutório

tornados entendíveis por um conjunto de centenas de outras frases lidas ou ouvidas anteriormente pelo ouvinte ou leitor, e que subsistem no fundo de sua consciência”.

Quando se fala em duas línguas/culturas estabelecidas e reconhecidas, com indivíduos capazes de realizar com eficiência o trânsito entre esses dois quase “universos”, já existe o impasse sugerido pela posição acima exposta. É evidente que há uma certa impossibilidade de se traduzir, ao imaginarmos também um ponto a ponto perfeito. Partimos de um conceito de língua que não separa língua e cultura. Exatamente por isso nos abre a possibilidade de tudo se traduzir. Reescrever, em última instância.

Em relação à língua de sinais poder ser língua-alvo de uma tradução, uma das questões da pesquisa que levei adiante foi justamente demonstrar a possibilidade de se efetivar um trabalho de tradução textual de uma obra literária, não apenas um recontar de história, mas uma criação autêntica de tradução. No Brasil existem estudos sobre as línguas de sinais, sua importân- cia para a educação dos surdos, as consequências psicológicas da recusa da Libras e outros tantos trabalhos acadêmicos. Muitos e muitos trabalhos prá- ticos também vêm sendo realizados por educadores, fonoaudiólogos, psico- pedagogos espalhados por todo o Brasil, buscando cada vez mais inserir a língua de sinais na vida das comunidades surdas.

Porém, não existem ainda manifestações desse “pensar” em Libras livres do jugo colonialista do ouvinte. Uma das falas mais emocionantes nos discur- sos acadêmicos e/ou políticos em defesa da Libras é que a língua de sinais, enquanto língua natural, pode discursar filosoficamente, poetar, ironizar. Mas a realização desse discurso ainda não tem seu registro disponível organizada- mente. Não existem centros de cultura surda, nem videotecas para o arquiva- mento dessas manifestações. Fala-se sobre a Libras e sua potencialidade, mas a Libras, realizada pelos surdos, não está disponível para consulta…

Existe no Rio de Janeiro um surdo (Nelson Pimenta) que lançou em 1999 um trabalho denominado Literatura em LSB: poesia, fábula, histórias infantis em vídeo, com produção e direção de profissionais americanos (o vídeo foi realizado nos Estados Unidos, onde o ator/criador participou de cursos de teatro e outros em várias ocasiões). A influência da cultura surda americana é facilmente notada, até mesmo no título do trabalho, que utiliza a termi- nologia LSB (Língua Brasileira de Sinais), seguindo os padrões “internacio-

O fazer tradutório tornados entendíveis por um conjunto de centenas de outras frases lidas ou ouvidas
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O fazer tradutório

nais”, em oposição à denominação tupiniquim Libras. Essa forte influência, evidentemente, não invalida ou deprecia o trabalho do surdo brasileiro, mas o aproxima sobremaneira de uma releitura de outro tipo de colonialismo ... Mas essa discussão não nos interessa no momento.

A situação dos surdos brasileiros enquanto minoria linguístico-cultural hoje pode ser resumida em sua luta para colocar a Libras no currículo das escolas para surdos, para ter sua língua reconhecida. O exercício da tradução pode acontecer de inúmeras maneiras, evidentemente. Uma primeira dife- renciação que deve ser discutida seria a oposição entre a tradução literal e a tradução “livre”.

Um dos maiores teóricos sobre tradução no Brasil, Paulo Rónai (1987), defensor das traduções literais, aponta para a possibilidade de uma tradu- ção “ótima”, com a utilização do trabalho de vários tradutores em conjunto, ou com especialização/aprofundamento no tema ou autor a ser traduzido. No fundo dessa proposta está a busca da perfeição, do conceito de pureza, do original, do datado, do assinado. Do outro lado da trincheira estariam as chamadas “belles infidèles” francesas, que dominaram até o final do século passado. Traduções adaptadas ao gosto nacional, que muitas vezes corriam o risco de se transformar em narrativas, e não traduções propriamente ditas. O tradutor passa a ser coautor efetivo do texto, muitas vezes funcionando também como censor.

O conceito de tradução cultural por si só rejeita o papel da origem en- quanto valor, já que pressupõe uma estrada de duas mãos em fluxo cons- tante. Assim, a possibilidade de interferência do tradutor existe e é espera- da. No caso dessa tradução realizada, por exemplo, quando Alice dentro do túnel ouve os passos apressados (pisadinhas) do Coelho se aproximando, a sugestão de Marlene foi a visualização da sombra das orelhas Coelho Branco, tremendo de nervoso. A opção de Marlene foi “ensurdecer” Alice e seus com- panheiros pelo texto afora. Em sua mente, mesmo quando isso não transpa- rece, a história de Alice é uma história de um mundo surdo, do seu mundo surdo. Mas também de um mundo de uma mulher carioca etc. etc.

Ainda no início do texto, Alice discute consigo mesma sobre a questão da latitude e longitude, referindo-se à Inglaterra e Nova Zelândia. Marlene optou por falar sobre o Brasil e o Japão. E quando Alice descreve o sabor do líquido delicioso que a garrafa mágica continha (“um tipo de mistura de

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O fazer tradutório nais”, em oposição à denominação tupiniquim Libras. Essa forte influência, evidentemente, não invalida

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torta de cereja, creme de ovos, leite e açúcar, abacaxi, peru assado, toffy e torradas quentes”), Marlene optou por traduzir por uma mistura de bolo de chocolate, bife e coca-cola.

Por que não? Nessa tradução absolutamente datada, pelos motivos que já esmiucei, o texto se constituiu da maneira que relato. Em outra tradução, em outro momento, quem sabe? Não desejarão os surdos, talvez, uma tra- dução o mais fiel possível ao autor? Talvez não venha a ser uma opção dos surdos o conhecimento profundo de outras culturas? É evidente que ao se dar continuidade ao projeto de traduções culturais, quando da formação de uma equipe de profissionais para dar conta de uma pequena biblioteca de clássicos da literatura universal em Libras, por exemplo, outras variantes en- trarão em cena. O que realizamos nesse Alice no País das Maravilhas foi uma experiência laboratorial, nunca é demais repetir.

O tradutor tem uma responsabilidade bastante grande, sua formação bi- língue e bicultural é imprescindível, seu nível educacional deve ser o suficien- te para dar conta da maioria das questões que são tocadas em qualquer tipo de literatura. Isso é inegável e não estou aqui defendendo que a tradução cul- tural permaneça sendo realizada da maneira que esta foi produzida. Porém, acredito que ela deverá ser conduzida primordialmente pelos surdos envolvi- dos, e como ela se desenvolverá não tenho condições de avaliar por hora.

Dicas de estudo

“O significado da tradução e a tradução do significado”, de Kanavillil Rajago- palan. Revista Letras, Curitiba, n. 56, p. 67-76, jul./dez. Editora UFPR, 2001. Dispo- nível em: <www.letras.ufpr.br/revista_letras/numeros/56.html>.

O artigo traz discussões e contribuições feitas pelo autor em uma mesa-re- donda de mesmo título. Nele Rajagopalan trata do entrelace entre significado e tradução, e do significado da tradução. São, então, dois movimentos: como a tradução alcança o significado e qual o significado/papel/importância da tradução.

Conversas com Tradutores: balanços e perspectivas da tradução, de organiza- ção de Benedetti e Sobral, publicado pela Parábola Editorial, 2003.

O fazer tradutório torta de cereja, creme de ovos, leite e açúcar, abacaxi, peru assado, toffy
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Como o título bem representa, o livro é uma coletânea de conversas sobre tradução que aborda seus aspectos teóricos e práticos no Brasil. De fácil leitura, apresenta as perspectivas de tradutores renomados e outros nem tanto, falando sobre a sua atuação e opções metodológicas.

Atividades

  • 1. Em sua tipologia sobre a tradução, Jakobson apresenta três tipos de tradu- ção: a intralingual, a interlingual e a intersemiótica. Com base nas definições tecidas pelo autor, é possível dizer que elas se entrelaçam, apresentam um fator em comum? Que fator comum seria esse e como ele se revela em cada tipo de tradução?

O fazer tradutório

  • 2. Problematize a noção de fidelidade, apoiando-se nas reflexões elaboradas ao longo da aula, partindo da asserção de Gabel e Wheeler (2003, p. 217) de que “é importante que as traduções de poesia ao menos pareçam poesia, mesmo que muitos efeitos poéticos do original não possam ser representa- dos na tradução.”

  • 3. Discorra sobre a noção de tradução domesticadora e a opção da tradutora surda, relatada por Ramos, de ensurdecer o Alice no País das Maravilhas, de modo a considerar as possíveis consequências dessa opção em termos de manutenção e criação de identidade, conforme problematizado na discus- são sobre tradução cultural.

O fazer tradutório

Referências

ARROJO, Rosemary. Oficina de Tradução: a teoria na prática. São Paulo: Ática,

1986.

BASSNETT, Susan. Estudos da Tradução. Tradução de: FIGUEIREDO, Vivina de Campos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.

CORRÊA, Mônica Cristina. Tradução e referências culturais. Cadernos de Tradu- ção, UFSC, 2009.

GABEL, John B.; WHEELER, Charles B. A Bíblia como Literatura. 2. ed. São Paulo:

Edições Loyola, 2003.

JAKOBSON, Roman. Linguística e Comunicação. 8. ed. Tradução de: BLIKSTEIN, Izidoro; PAES, José Paulo. São Paulo: Cultrix, 1975.

KOUROUMA, Ahmadou. Alá e as Crianças Soldados. Tradução de: NASCIMEN- TO, Flávia. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.

RAMOS, Clélia Regina. Tradução Cultural: uma proposta de trabalho para surdos e ouvintes. Disponível em: <www.editora-arara-azul.com.br/pdf/artigo5.pdf>. Publicado em: 2000. Acesso em: 14 ago. 2010.

RÓNAI, Paulo. A Tradução Vivida. Rio de Janeiro: Educom, 1976.

_____.

Escola de Tradutores. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

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O fazer tradutório Referências ARROJO, Rosemary. Oficina de Tradução : a teoria na prática. São Paulo:

O fazer tradutório

TRADUZIR. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 2. ed. rev. e amp. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

VENUTI, L. Escândalos da Tradução. Tradução de: PELEGRIN, Laurino et al. Bauru:

EDUSC, 2002.

Gabarito

  • 1. O fator em comum entre os tipos de tradução estabelecidos por Jakobson se trata do ato de “traduzir” visto de maneira fundamental, em que algo precisa ser “dito”, preservando o conteúdo, significado, de maneira diferente daquela empregada no original. Característica revelada de diferentes, mas aparenta- das, formas nos três tipos de tradução. Inicialmente, os três lidam com “o que traduzir”, isto é, que parte do original interessa ser traduzida. Todas precisam pensar nas estratégias de “como traduzir” e em quão compreensível será o resultado de sua tradução, bem como devem lidar também com a questão de até que ponto podem e querem fazer “justiça” – equivaler – ao original.

  • 2. A partir do excerto ofertado para discussão, o estudante deve abordar o fato de que equiparar “fidelidade” à correspondência completa entre original e tradução é uma leitura equivocada, até porque inalcançável, da desejada “fidelidade” de que falam os autores discutidos. Sobretudo, a “fidelidade” é um objetivo bastante flexível, seu alcance está no entremeio, no limite, entre “respeitar” o original e “considerar” o público-alvo e a própria natureza lin- guística do idioma para o qual traduz. Característica, ou empreendimento, que pode ser visto na recomendação feita por Gabel e Wheeler sobre, ao menos, deixar transparecer ao leitor-alvo que um dado gênero discursivo foi empregado, que uma palavra, às vezes mesmo sem tradução possível numa dada língua, possa ter mais força, mais conteúdo, do que a alternativa dis- ponível na língua de chegada, podendo o tradutor, então, tentar transportar isso de alguma outra forma em sua tradução. Finalmente, é desejável que o estudante reconheça que o conceito de “fidelidade” está atrelado ao conjun- to de concepções históricas, sociais e culturais de uma época, razão pela qual uma tradução pode ser considerada mais ou menos “fiel”.

O fazer tradutório TRADUZIR. In : FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua
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O fazer tradutório

  • 3. Resposta mínima deve contemplar que a decisão tradutória tomada na ver- são em Libras de Alice no País das Maravilhas é domesticadora à medida que traz o original para dentro da cultura de seu público-alvo, apagando traços da cultura estrangeira. O que de modo algum deve ser tachado como nega- tivo, posto que se trata de uma alternativa possível de tradução. Além dis- so, o aluno deve ser capaz de reconhecer que a opção da tradutora surda acarreta um movimento de criação e afirmação, mais especificamente, da cultura surda em face à do ouvinte. Levando em conta que a cultura do ou- vinte – independente da língua – geralmente oprime o surdo – como ocorre naturalmente com qualquer cultura e língua que é majoritária frente à ou- tra –, a alternativa de tradução adotada representa também resistência a tal opressão e é fator que pode causar mudança no estado vigente em relação à cultura literária do surdo e do ouvinte.

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O fazer tradutório 3. Resposta mínima deve contemplar que a decisão tradutória tomada na ver- são

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O fazer da interpretação

O objetivo desta aula é construir, de maneira gradual, o entendimen- to sobre a tarefa do intérprete, sobre as características próprias aos tipos de interpretação, e como esses conceitos podem ser vistos na atuação do Intérprete de Língua de Sinais. Para cumprir tal objetivo, parte-se de uma discussão que se propõe mais geral sobre o ato interpretativo, sua origem e histórico até chegar à prática da interpretação em língua de sinais.

No que consiste interpretar

Entre as atividades mais antigas da história, com certeza encontra-se a interpretação. Os primeiros intérpretes foram os hermeneutas, que se pro- punham a traduzir a vontade divina para o povo. No entanto, a atividade de interpretação carece de documentação que explique sua trajetória ao longo dos séculos:

Na Antiguidade, antes do Renascimento, os intérpretes raramente eram mencionados; uma possível causa para esse fato era a primazia dada ao texto escrito em relação à palavra oral. A posição social dos intérpretes pode também explicar sua omissão nos anais da história: híbridos étnicos e culturais, muitas vezes do sexo feminino, escravos ou membros de um grupo social desprezado, isto é, cristãos, armênios e judeus que viviam na Índia Britânica, esses intermediários não receberam nos registros históricos o tratamento devido. (ROSA, 2008, p. 109)

Sob essa perspectiva, Rosa (2008) avalia que muito do conhecimento sobre o trabalho que os intérpretes realizaram no passado chegou até os dias atuais por meio de fontes tais como: cartas, diários, memórias e bio- grafias dos próprios intérpretes. O que os pesquisadores dos Estudos da Tradução apontam como consenso na história dos intérpretes – e também dos tradutores – é o fato de os primeiros intérpretes atuantes terem sido formados na prática. Na verdade, apesar da existência, atualmente, de cursos de formação para intérpretes e tradutores, muitos profissionais ainda começam na carreira por meio do “método” chamado pelos profis- sionais da área “de sink or swim, expressão em inglês que significa literal- mente ‘afogue-se ou nade’, e que se refere ao fato de que os intérpretes simultâneos eram colocados na cabine para interpretar sem que recebes- sem previamente qualquer treinamento formal” (PAGURA, 2003, p. 216).

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O fazer da interpretação O objetivo desta aula é construir, de maneira gradual, o entendimen- to

O fazer da interpretação

De modo geral e de forma a iniciarmos a discussão proposta para esta aula, pode-se dizer que o ato de interpretar envolve um processo cognitivo-linguísti- co, ou seja, estão implicadas no ato interpretativo capacidades linguísticas (que não deixa de ser uma capacidade cognitiva, porém mais específica) e capacida- des cognitivas mais gerais, como o armazenamento da informação na memória de curto prazo, por exemplo. Durante a interpretação, o intérprete estará diante de pessoas que apresentam intenções comunicativas específicas e que utilizam línguas diferentes. Assim, ele é completamente envolvido na interação comu- nicativa (social e cultural) que se estabelece entre dois “mundos”, com poder completo para influenciar o objeto e o produto da interpretação. Esse poder de pôr “realidades” diferentes em comunicação em tempo real – diferentemente da tradução escrita, a interpretação lida com seu público-alvo e com a língua de partida no momento exato da interação verbal, “tudo” tem de ser resolvido ali, perante os envolvidos no ato comunicacional e em tempo real – muitas vezes ganha uma aura de magia:

Vista de longe, a tradução simultânea parece mágica. Vista de perto, parece loucura. O intérprete tem que ouvir e falar ao mesmo tempo, repetindo em outra língua palavras e ideias

que não são suas, sem perder de vista o conteúdo, a intenção, o sentido, o ritmo e o tom da mensagem transmitida por seu intermédio. Não tem qualquer controle sobre a complexidade,

a velocidade, a clareza ou a lógica do apresentador. [

...

]

Precisa tomar decisões instantâneas,

ininterruptamente. Precisa administrar uma comunicação silenciosa com um colega de cabine, trocando olhares e anotações, fazendo consultas a documentos e dicionários, retardando a tradução de alguns trechos até que o entendimento esteja completo. Como não bastasse, está a metros de distância do apresentador, impossibilitado de qualquer interrupção para esclarecimentos. Dá mesmo pra duvidar que seja possível. E, no entanto, é. (MAGALHÃES JUNIOR, 2007, p. 20)

Em termos de procedimento, do que é preciso fazer no ato interpretativo, como se pode constatar no relato de Magalhães Junior (2007), o intérprete pro- cessa a informação dada na língua-fonte e faz escolhas lexicais, estruturais, se- mânticas e pragmáticas na língua-alvo que devem se aproximar o mais apropria- damente possível da informação dada na língua- fonte. Todavia, a atividade de interpretação é por demais dinâmica, exige, muitas vezes, não apenas conheci- mento das línguas ou boa capacidade para armazenamento de informação, mas também bom senso, jogo de cintura, rápida tomada de decisões e, sobretudo, autocontrole e calma, para lidar com situações tão adversas como a apontada por Magalhães Junior na prática da interpretação consecutiva:

Um dignatário internacional pode pedir a palavra e deixar-se levar por cinco minutos, esquecido da necessidade de tradução. E enquanto isso o intérprete vai ficando amarelo, verde, azul, lilás e roxo, como aquele bonequinho do Super Mario que nada desesperado embaixo d’água tentando chegar à superfície. Quando a palavra finalmente lhe é passada, não adianta apelar. A estrela fez o show, e o intérprete agora que se vire. A depender do convidado, uma interrupção ou outra para esclarecimento talvez seja possível, mas alguém se arrisca a uma simpática cotovelada nas costelas do Comandante Fidel durante um de seus infindáveis discursos? Só se for você! (MAGALHÃES JUNIOR, 2007, p. 59)

O fazer da interpretação De modo geral e de forma a iniciarmos a discussão proposta para
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O fazer da interpretação

Como se não bastasse, o intérprete também precisa ter conhecimento téc- nico para que suas escolhas sejam apropriadas tecnicamente. Portanto, o ato de interpretar envolve processos altamente complexos. O que não significa que esta seja uma profissão impossível de se exercer com qualidade. A verdade é que por ser um fenômeno tão complexo, tão dinâmico, que coloca o profissional em confronto durante todo o tempo, ora com seu cliente, ora com o discurso a interpretar, ora com seus medos – alguns justificáveis e esperados, outros nem tanto –, o ato interpretativo é visto como algo no qual não se pode incorrer em erro, afinal, do desempenho do intérprete depende o de outras pessoas. Não se pode negar que o desempenho de outras pessoas (alunos, conferencistas, polí- ticos, empresários etc.) depende, até certo limite, do desempenho do intérprete. Contudo, tal como em outras profissões e também pelo fator humano, o risco do erro existe, erros atravessam o processo de comunicação entre as pessoas o tempo todo – independente de elas precisarem de um intérprete –, mas a pos- sibilidade do erro, ou melhor, a eventualidade do erro deve ser vista como uma oportunidade de aprender, de rever processos, tomadas de decisões e quaisquer outras atitudes que possam influenciar a desenvoltura do intérprete, sem perder de vista que o erro pode, e muitas vezes é, ser de responsabilidade de outro en- volvido no processo de interpretação (mais sobre esse assunto pode ser encon- trado no texto complementar desta aula), o conferencista, por exemplo. Quanto à possibilidade de erro inerente ao desempenho da função e aos medos que ela provoca, vale a pena, para além da discussão elaborada aqui, que você, estudan- te aspirante a intérprete ou já atuante na profissão, reflita sobre o seguinte:

Se analisarmos bem os temores mais frequentes na mente de um intérprete iniciante, veremos

que são, em sua maioria, sociais e circunstanciais, e não receios técnicos. [

]

O problema,

... mais uma vez, reside em nosso desconhecimento, em nossa ignorância em relação ao que se espera de nós e até ao que de fato vem a ser tradução simultânea. Aqui, como na maior parte das circunstâncias da vida, a expectativa condiciona os resultados. Se eu imagino que todos esperam de mim um desempenho impecável, digno de uma máquina perfeitamente construída para substituir palavras e conceitos, trasladando-os com precisão a um outro universo semântico, sofro a cada pequena hesitação e ao primeiro lapso de memória ou pronúncia. Se imagino que não posso errar, e que todos estão ali na plateia para me julgar, crio um nível de tensão absurdo. No início da carreira, o que mais nos mete medo é o público. Quanto mais gente na plateia, pior. E se alguém vira a cabeça para trás, então, para procurar o intérprete dentro da cabine, aí aquele restinho de confiança que ainda resistia escorre pelo ralo. E bem podia ser um olhar de admiração! (MAGALHÃES JUNIOR, 2007, p. 64-65)

Pelo exposto até aqui, você deve ter observado a dificuldade de se falar em interpretação sem associá-la a um tipo de interpretação – a simultânea ou con- secutiva. Isso porque, essas modalidades de interpretação demandam exigên- cias diferentes, levando a práticas diferenciadas do ponto de vista das condições de atuação, processos empregados na realização da atividade, entre outros. Por- tanto, agora a intenção é esclarecer, mais especificamente, no que consistem a interpretação consecutiva e a simultânea.

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O fazer da interpretação Como se não bastasse, o intérprete também precisa ter conhecimento téc- nico

O fazer da interpretação

Interpretação simultânea e interpretação consecutiva

Para aprofundamento nas modalidades de interpretação, serão tratados aqui dois modelos teóricos. O primeiro, chamado de Teoria Interpretativa da Tradução, proposto por Danica Seleskovitch e seguido por Marianne Lederer, foi elaborado a partir de análises e considerações em torno da interpretação consecutiva; o outro, Teoria dos Modelos dos Esforços na Interpretação, proposto por Daniel Gile, foi construído tendo como objeto de estudo a interpretação simultânea. Em comum, ambos os modelos tentam chamar a atenção para a necessidade de interpretar em vez de meramente traduzir, ou seja: ressaltam a importância da construção própria do sentido na transposição do discurso oral de um idioma para outro. Antes do início da exposição, convém dizer que as considerações sobre esses dois modelos tomaram por base o estudo de Freire (2008) e são, portanto, releituras de uma leitura em particular, o que justifica a referenciação apenas desse autor, e não a dos autores dos originais.

Conforme Freire (2008), as autoras da Teoria Interpretativa da Tradução consi- deram que o processo interpretativo envolve três etapas:

a fusão dos elementos do sentido linguístico com o conhecimento extra- linguístico para obter o sentido;

a desverbalização desse sentido à medida que ele surge;

a expressão espontânea desse sentido de modo linguístico (SELESKOVI- TCH; LEDERER, 1989, p. 21 apud FREIRE, 2008, p. 153).

Essa teoria também é chamada de Teoria do Sentido por procurar alcançar o sentido expresso no discurso oral na língua de partida em vez do significado das palavras empregadas. Sob tal perspectiva, a tradução na língua-alvo é feita a partir do significado do discurso como um todo, e não a partir do significado de cada palavra. Na verdade, segundo Freire (2008), as autoras argumentam que para preservar o sentido/significado veiculado no discurso de partida os intér- pretes utilizam um recurso denominado pelas autoras de desverbalização que consiste em “memorizar o sentido do que foi dito sem supervalorizar a memo- rização das palavras com que esse sentido foi expresso. Assim, torna-se menos dificultosa e mais precisa a reprodução espontânea do sentido expresso no dis- curso oral em língua estrangeira na língua materna” (FREIRE, 2008, p. 154).

O fazer da interpretação Interpretação simultânea e interpretação consecutiva Para aprofundamento nas modalidades de interpretação, serão
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O fazer da interpretação

Pode-se dizer, em outras palavras, que a Teoria Interpretativa encoraja os intérpretes a dissociarem as ideias das palavras usadas para dar forma a essas mesmas ideias. Isto é, uma ideia emitida numa língua-fonte não precisa encon- trar expressão na língua-alvo com as mesmas palavras empregadas na língua fonte. Daí as autoras afirmarem que: “O propósito da interpretação é apreender o que foi expresso em uma língua e transportar essa mesma realidade, ou sentido, de modo fidedigno em outra língua” (SELESKOVITCH; LEDERER, 1989, p. 21, grifo das autoras, apud FREIRE, 2008, p. 154).

Esse processo de desverbalização de que falam as autoras conta com o au- xílio de outros elementos como o conhecimento prévio, que elas denominam por “complementos cognitivos”. Nesse sentido, conhecimento de mundo, do momento, do lugar, das circunstâncias nas quais um discurso é formulado, da memória do que foi dito anteriormente, do conhecimento de quem é o locutor e de quem são os ouvintes é o que permite que o intérprete receba a mensa- gem na língua de partida e a compreenda, construa para ele um sentido, mas um sentido que é antes uma ideia, um pensamento, não ligado a palavras es- pecíficas, e sim ao conteúdo, ao contexto da comunicação. Isso é o que se pode encarar como uma espécie de sentido formulado a partir de uma memória não verbal sobre o que foi dito, tratando-se este último recurso do conceito chama- do pelas autoras de contexto cognitivo. Esse recurso dá conta do fato de que ao ouvir ou ver vários minutos de um discurso o que o intérprete retém é a ideia do que foi expresso, uma ideia que não vem “formatada” em palavras, uma vez que “os intérpretes de formação empregam sua memória a respeito do que foi dito anteriormente para compreender as frases ao passo em que são enunciadas, pode-se inferir que, muitas vezes, as palavras ditas anteriormente perderam sua forma verbal” (FREIRE, 2008, p. 155). Dessa maneira, de acordo com as autoras, o intérprete ao transladar um discurso se pergunta sobre “o que significam estas palavras, esta frase, aqui e agora?” (SELESKOVITCH; LEDERER, 1984, p. 104-105, apud FREIRE, p. 158).

Até aqui, foi exposto do que se trata e, minimamente, como ocorre a interpre- tação consecutiva, as capacidades mobilizadas para tal e como se manifestam. Agora, a atenção se volta à Teoria dos Modelos dos Esforços na Interpretação, de Daniel Gile, cujo ponto de apoio para o desenvolvimento foi o estudo da in- terpretação simultânea. De acordo com Freire (2008, p. 160), Gile aponta que há três esforços compreendidos no ato interpretativo:

esforço de audição e análise (no caso da Libras, esforço de visão e análise);

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O fazer da interpretação Pode-se dizer, em outras palavras, que a Teoria Interpretativa encoraja os intérpretes

O fazer da interpretação

esforço de produção; esforço da memória de curto prazo.

Então, conclui-se que na interpretação simultânea o profissional deve enten- der o discurso em língua-fonte produzido pelo palestrante, reformulá-lo em um discurso equivalente na língua-alvo e armazenar em sua memória de curto prazo o que foi dito anteriormente. Quanto ao esforço de captar o discurso proferido pelo palestrante, Freire (2008, p. 168) observa, oportunamente, que:

O intérprete deve ser capaz não só de relacionar os sinais linguísticos a seu próprio conhecimento de mundo como, também, de eliminar a ambiguidade que pode surgir de erros cometidos pelo palestrante em relação à correção gramatical (forma) e discursiva (conteúdo). O esforço de audição e análise não compreende a mera apreensão de um sentido que existe de per se, mas sim a reconstrução do sentido expresso em língua estrangeira na língua materna do intérprete.

Quanto ao esforço de produção, diz-se que compreende operações que vão desde a representação mental da mensagem a ser apresentada, passando pelo planejamento do discurso a ser reproduzido, até a concretização desse planeja- mento. Esse processo, por sua vez, revela que as combinações entre as palavras de um idioma são muito diferentes das apresentadas em outro idioma. Daí o in- térprete ter de armazenar em sua memória de curto prazo, o terceiro esforço, as ideias e informações relevantes durante o evento de interpretação em que está envolvido, de forma que ele possa recuperar esse conteúdo sempre que isso for necessário ao entendimento do trecho a ser traduzido. Por fim, convém observar que deve haver o que Gile (apud FREIRE, 2008, p. 160) chama de coordenação, que, atuando paralelamente aos três esforços, desenvolve a tarefa de elemento moderador entre eles.

Além disso, a discussão do estudo de Gile também é útil para os objetivos desta aula ao evidenciar a complexidade, a responsabilidade, as expectativas e a relação desigual entre o intérprete, o palestrante e o público, pois o profissional envolvido no ato de interpretação simultânea:

não controla a produção do discurso da mesma forma que o palestrante, já que é este quem dita o ritmo;

não pode ter, geralmente, o mesmo alcance de compreensão do assunto tratado se comparado ao público, posto que este, usualmente, se interes- sa por palestras e conferências que têm a ver com sua formação profis- sional, acadêmica, com seus anseios e experiências pessoais (comumente

O fazer da interpretação  esforço de produção;  esforço da memória de curto prazo. Então,
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O fazer da interpretação

uma pessoa não vai a um congresso técnico sobre engenharia ambiental, por exemplo, se não tiver alguma afinidade com a área, o intérprete, com- parado a essa pessoa, pode possuir menor bagagem de conhecimentos e termos próprios da área);

deve contar com uma memória de curto prazo muito mais ampla do que a do palestrante e do público, haja vista que estes podem lançar mão de anotações a qualquer momento da palestra; e

deve ser capaz de coordenar de modo adequado a compreensão do dis- curso na língua-fonte até a produção do discurso na língua-alvo e a utiliza- ção da memória de curto prazo ao passar do estágio do que recebe (input) para o estágio do que produz (output) durante toda a interpretação.

Claro que, na interpretação simultânea, se o intérprete puder ter acesso ao conteúdo da palestra antecipadamente, tanto melhor, pois poderá se preparar, estudando o texto, construindo seu significado, procurando equivalentes na língua-alvo dos termos empregados na língua-fonte. Já na interpretação con- secutiva, que envolve a interpretação de discursos/textos que não gozam do mesmo nível de planejamento dos empregados em palestras e conferências que implicam a interpretação simultânea, o profissional precisa se organizar, criar estratégias para, a cada turno de fala, poder usar em seu favor o momento de “intervalo”.

Para concluir esta seção, cabe dizer que tanto interpretação simultânea quanto consecutiva exigem a mobilização de capacidades variadas, são tare- fas complexas, entremeadas de pormenores, mas que, no fim, dizem respeito a se poder “transpor” uma mensagem da forma mais fidedigna possível de uma língua a outra. Assim, por terem uma característica fundamental em comum, essas modalidades de interpretação se entrecruzam, pois uma, de certa forma, é evolução da outra, posto que os primeiros trabalhos de interpretação, por razões históricas, circunstanciais, de evolução de tecnologia e de objetivos persegui- dos, foram consecutivos. Muito posteriormente na história da humanidade é que se fez necessária a interpretação simultânea. Atualmente, esta predomina no cenário interpretativo, contudo, como relata Pagura (2003, p. 211), “a con- secutiva tem papel preponderante no treinamento de intérpretes simultâneos, uma vez que nesse modo se desenvolvem as técnicas que serão fundamentais para o desempenho da simultânea, tais como a capacidade de compreensão e análise do discurso de partida”.

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O fazer da interpretação uma pessoa não vai a um congresso técnico sobre engenharia ambiental, por

O fazer da interpretação

A (in)visibilidade do intérprete

Até esta seção, falou-se do ato interpretativo e do intérprete de forma mais geral, abrangendo tanto intérpretes de línguas orais quanto de línguas de sinais. A partir daqui, o foco estará na atuação do Intérprete de Língua de Sinais, nas es- pecificidades de seu trabalho, nos desafios, enfim, nas características que justifi- cam um tratamento em separado para os Intérpretes de Línguas de Sinais. Para dar início à reflexão, resgata-se aqui um excerto da obra de Magalhães Junior já citado anteriormente nesta aula: “No início da carreira, o que mais nos mete medo é o público. Quanto mais gente na plateia, pior. E se alguém vira a cabeça para trás, então, para procurar o intérprete dentro da cabine, aí aquele restinho de confiança que ainda resistia escorre pelo ralo” (2007, p. 65, grifo nosso).

Evidentemente, a primeira grande diferença entre intérpretes de línguas orais e de línguas de sinais é o canal de recepção e produção das línguas envolvidas. No primeiro caso, audição e aparelho fonador, no segundo, visão e o uso das mãos, do corpo. Se o canal de recepção das línguas de sinais é a visão, o Intérpre- te de Línguas de Sinais não pode se “‘refugiar’ dentro de uma cabine lá atrás”. Seu trabalho, devido à natureza da língua com que lida, o expõe à plateia o tempo todo. Durante todo o ato interpretativo o profissional está lá, sob o olhar de seu público. Como, então, falar de invisibilidade do intérprete? Em que sentido? É o que se pretende esclarecer. Para tanto, são empregadas aqui as reflexões tecidas por Andréa Silva Rosa (2008).

Além da evidente visibilidade física do intérprete, se procura falar aqui de uma visibilidade que, em termos simples, se poderia definir como as marcas que o intérprete deixa no produto de sua interpretação/tradução, isto é, quanto do intérprete, de sua contribuição, pode ser visto na interpretação. Em princípio, partindo do senso comum, e de algumas vertentes mais literais de tradução, o esperado é que o intérprete seja invisível no resultado do ato interpretativo. Mas o desejo dessa invisibilidade, muito acalentado em traduções escritas de verten- te mais literal, se já é paradoxal na própria tradução escrita, da qual o público-al- vo recebe apenas o produto – o texto impresso ou digitalizado –, o que dizer da interpretação, em que o público “acompanha”, talvez intua, o processo de inter- pretação. Mais ainda, o que pensar sobre a interpretação em língua de sinais, na qual, além da presença corpórea, o intérprete – daqui por diante tratado apenas como ILS (Intérprete de Língua de Sinais) –“viabiliza a comunicação entre surdos e ouvintes, identificando-se com o orador, exprimindo- se na primeira pessoa” (ROSA, 2008, p. 115)?

O fazer da interpretação A (in)visibilidade do intérprete Até esta seção, falou-se do ato interpretativo e
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O fazer da interpretação

Tanto na tradução quanto na interpretação, é preciso, por vezes, que o tradu- tor ou intérprete, para lançar uma ponte entre duas culturas, explicite, ou mesmo explique, conhecimentos que não são comuns ao público da tradução ou inter- pretação. Na tradução escrita, o tradutor se utiliza de notas de rodapé, glossários e outros recursos. Na interpretação, esses esclarecimentos têm de estar ao longo do discurso traduzido, integrando-o, e não como um anexo. Alguns recursos usuais, geralmente bem-sucedidos na interpretação da Libras, consistem em empregar exemplos, estabelecer comparações, fornecer definições de termos ou palavras que se pressupõem como desconhecidas do surdo, tudo isso duran- te o fluxo interpretativo. No que diz respeito ao ILS, essa necessidade de esclare- cimentos é ampliada, já que o seu público-alvo, o surdo, muitas vezes não tem acesso ao patrimônio cultural, ao conhecimento e às informações veiculadas para os ouvintes – basta pensar, para se ter uma ideia, no quanto a programa- ção da televisão brasileira está adaptada para que surdos possam acompanhá-la integralmente, afinal, poucos programas, em horários específicos, detêm a fer- ramenta de closed caption (legenda oculta), quanto mais traduções em língua de sinais. Acontece, porém, que nesse processo de “explicitar” o intérprete deixa marcas, vestígios de sua presença. Isso é natural, inerente ao fenômeno de tra- dução e interpretação, mas há certos limites a se respeitar:

O intérprete necessita fornecer pistas suficientes à interpretação e à reconstrução do sentido na língua de sinais, tendo o cuidado, entretanto, de não explicar excessivamente, para não restringir a compreensão dos surdos, além da preocupação em não deixar conceitos totalmente desvinculados, que vão dificultar ou até impedir o estabelecimento da coerência do discurso na língua de sinais, ou seja, na língua de chegada. (ROSA, 2008, p. 120)

A autora cita um exemplo prático disso ao relatar o caso do uso do sinal de “inclusão” numa palestra, por não entenderem o conceito, por não o vincularem ao restante do conteúdo da palestra, muitos surdos interpelaram o intérprete sobre o significado do mesmo. O ILS, então, interrompeu o fluxo de interpre- tação para explicar o significado da palavra “inclusão” empregada pelo orador. Ao término da palestra, um surdo dirigiu ao palestrante uma pergunta relacio- nada ao tema da inclusão, empregando de forma correta o termo que acabara de aprender. Isso significa que, de um lado, a interrupção na interpretação foi positiva, pois ao se apropriar de um novo conceito o surdo pôde vinculá-lo ao universo de conhecimentos que já detinha e compreender a matéria, a ideia, da palestra. De outro lado, nas palavras da autora:

Porém, dessa opção, advém um questionamento frequente: e o que o palestrante disse, durante o tempo em que o intérprete estava dando os devidos esclarecimentos sobre a palavra inclusão, os surdos perderam? Em meu ponto de vista, a minha resposta para essa situação específica é não. A perda estaria, a meu ver, em não compreenderem o contexto, a ideia da

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O fazer da interpretação Tanto na tradução quanto na interpretação, é preciso, por vezes, que o

O fazer da interpretação

mensagem do orador, em não poderem expor a sua opinião sobre a sua própria educação, em não poderem estar incluídos pela palavra. O não esclarecimento ocasionaria uma suposta fidelidade e a ilusão de ser possível transmitir tudo, durante o ato interpretativo. (ROSA, 2008, p. 121)

De forma a justificar a escolha com a qual o ILS se depara e saber que atitude tomar – até onde explicar o significado –, a autora lança mão da diferença esta- belecida por Humberto Eco (1987, p. 50, apud ROSA, 2008, p. 124) entre usar um texto e interpretá-lo: “Se há algo para ser interpretado, a interpretação deve falar de algo que deve ser encontrado em algum lugar, e de certa forma respeitado”. Nesse sentido, ao interpretar, se pressupõe que há um sentido pretendido pelo autor do discurso interpretado e esse sentido deve ser respeitado, contempla- do, alcançado. No uso de um texto, ou discurso, o sentido é estendido, não há a preocupação de respeitar uma coerência interna ao texto ou discurso original. Você, estudante, deve estar se perguntando “como serei fiel ao sentido preten- dido pelo autor do discurso interpretado?”. Pois saiba que essa é uma excelente questão, para a qual há, igualmente, uma ótima resposta.

Embora o significado de uma mensagem seja construído pelo receptor da mesma e ainda que não haja nela apenas um sentido a desvelar, isso não faz com que não seja possível uma tradução que contemple o sentido pretendido pelo autor dessa mensagem. Afinal, o sentindo buscado pelo autor da mensagem, aquele que espera que seja alcançado, deixa pistas ao longo do discurso, pistas por meio das quais se pode confirmar se o sentido que está sendo construído se aproxima ou se distancia do sentido pretendido. Ou dito de outra forma, a inter- pretação/compreensão de uma parte do texto será válida se estiver de acordo com todo o texto/mensagem. É preciso, então, respeitar a coerência interna do discurso que se está interpretando, conforme explicação de Humberto Eco em- pregada por Rosa:

qualquer interpretação feita de uma certa parte de um texto poderá ser aceita se for confirmada por outra parte do mesmo texto, e deverá ser rejeitada se a contradisser. Neste sentido, a coerência interna do texto domina os impulsos do leitor, de outro modo incontroláveis. (ECO, 1993, p. 76, apud ROSA, 2008, p. 127)

[

...

]

Um outro problema a considerar é quando se incorre em erro na interpreta- ção, seja ao se desviar do conteúdo pretendido pelo palestrante, seja ao empre- gar um termo técnico erroneamente, ou ainda omitir, por exemplo, numa des- crição detalhada sobre um objeto, um ou dois adjetivos. Como visto em outra passagem desta aula, erros são eventualidades, o que significa que podem e vão ocorrer. Além de aprender com os mesmos, é preciso ainda que o intérpre-

O fazer da interpretação mensagem do orador, em não poderem expor a sua opinião sobre a
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O fazer da interpretação

te tenha discernimento para saber quando e como se corrigir. Não há receitas nem guias para tanto, o intérprete, como muitos outros profissionais, terá de aprender na prática, e também pela troca de experiência, quando e como se cor- rigir. Nesses momentos, é bom ter em mente que em uma interpretação podem haver erros gravíssimos, que comprometem o conteúdo interpretado, e erros perdoáveis, que não chegam a comprometer a qualidade do conteúdo do dis- curso interpretado.

No caso de um erro gravíssimo, é responsabilidade ética do profissional se corrigir, sem perder de vista que, a depender da estratégia empregada, ele pode, às vezes, intencionalmente ou não, se eximir da culpa, incorrendo, da mesma forma, em falta de ética. Considere, por exemplo, uma situação de interpreta- ção em que você, estudante, é o cliente e não tem domínio da língua-fonte, não podendo, portanto, checar as informações recebidas do intérprete. Num dado ponto da interpretação, o intérprete sinaliza algo que equivaleria em português a “Perdão, na verdade, eu quis dizer problemas sociais, e não políticos.” Nesse momento, a quem você atribuiria essa correção? Ao intérprete ou ao palestran- te? A verdade é que não é possível saber. Esse é um caso em que o intérprete pode se eximir da culpa de um erro que pode ter sido dele. Em casos assim, o recomendado é encontrar ocasião oportuna durante a interpretação e se retirar do papel de primeira pessoa do palestrante e se corrigir na terceira pessoa: “o intérprete, na verdade, quis dizer problemas sociais e não políticos”. Essa saída de personagem é também uma manifestação de visibilidade, pois explicita que não há neutralidade possível nesse papel.

Certamente, você deve estar pensando que não é tarefa fácil equilibrar-se entre a visibilidade e invisibilidade no discurso interpretado, e, de fato, não é. Todavia, a discussão empreendida aqui foi feita no sentido de que você, aspi- rante a intérprete ou intérprete, reflita sobre o fato de que não há invisibilidade possível, não totalmente, mas isso não acarreta que então o intérprete deva se deixar presente ao longo da interpretação, extrapolando o sentido do original. A verdade sobre a (in)visibilidade do intérprete reside numa característica atribuí- da a muitas áreas da vida humana: o equilíbrio. E este só se busca na prática e na reflexão crítica sobre a prática. Claro, aprender com os erros e acertos dos outros profissionais de áreas afins também ajuda, por isso, a seguir, você encontra um texto complementar sobre quão feliz ou infeliz um intérprete pode ser em suas tentativas de (in)visibilidade. Boa leitura!

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O fazer da interpretação te tenha discernimento para saber quando e como se corrigir. Não há

O fazer da interpretação

Texto complementar

O intérprete: de “mal necessário” a “salvador da pátria”

Palestra proferida no evento comemorativo do Dia do Tradutor, 1.º de outubro de 2004

(QUENTAL, 2004)

O tema que proponho desenvolver é a percepção do trabalho do intér- prete pelos atores envolvidos no processo: o cliente, os ouvintes, os colegas – mas também a imprensa, que, apesar de não fazer parte do processo de interpretação, também reflete seus ecos. Vejo essa percepção ao longo de um contínuo, cujos extremos seriam as ideias que coloquei no título: numa ponta o intérprete como sendo um mal necessário e, na outra, o intérprete como salvador da pátria – metáfora que será explicitada mais adiante.

Parece-me que, bem ou mal, esse contínuo é a experiência de todos nós que trabalhamos no campo da interpretação de conferência, assim como da tradução, uma área profissional que, apesar das inegáveis diferenças, é objeto de percepções extremamente semelhantes: tradutores e intérpretes, todos nós já vivemos alguma situação em que nos sentimos em um extremo ou outro.

Começando pela ponta do mal necessário, temos uma visão tradicional do tradutor que se manifesta através de algumas expressões, como traduttori traditori. Através desse jogo de palavras, o que está dizendo o senso comum? Que todo tradutor é inerentemente traidor. Que não há escapatória, pois o próprio traduzir implica em trair. Outra expressão clássica para se referir à tradução é les belles infidèles, “as belas infiéis”, ou seja, para ser bonita, a tra- dução tem que ser infiel; ou, quando a tradução é boa, significa que o tradu- tor foi infiel. São percepções que relativizam o papel do tradutor e diminuem sua importância. Outro exemplo dessa percepção é aquela frase atribuída ao escritor Robert Frost: “poesia é o que se perde na tradução”. Nessa definição, a tradução é usada para explicar aquilo que a linguagem tem de mais especial, a poesia, e essa coisa especial é justamente aquilo que se perde na tradução, justamente aquilo que a tradução não consegue capturar. Na interpretação,

O fazer da interpretação Texto complementar O intérprete: de “mal necessário” a “salvador da pátria” Palestra
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O fazer da interpretação

essa percepção aparece mais comumente com a expressão “mal necessário”. O intérprete é necessário, sem dúvida, mas é um mal porque, afinal, seria muito melhor não precisar de intermediários e estabelecer um canal de co- municação direto com a outra parte. É comum essa ideia aparecer a partir do ponto de vista do cliente, aquele que contrata e que paga. Todos nós já enfrentamos algum grau de dificuldade, na hora da negociação, por causa do custo. O cliente reluta em reconhecer a importância daquele profissional e, portanto, em aceitar pagar o valor justamente elevado daquela atividade. Isso pode ocorrer na hora da negociação, mas também durante o próprio evento. No caso de empresas que precisam realizar reuniões frequentes com estrangeiros, por exemplo, e em que se faz necessária a ajuda de intérpretes, é normal haver uma certa hostilidade por parte do cliente, com o qual somos obrigados a ter um contato estreito dada a natureza do evento.

Outro ponto de vista seria o do próprio conteúdo, da língua, girando em torno da questão do erro, que já tive ocasião de discutir no trabalho “Ética profissional e erro em interpretação de conferência”, que apresentei no I

Congresso Nacional de Tradução da Abrates. Refiro-me aos erros aos quais nós estamos sujeitos apesar de todo preparo e profissionalismo, erros que acontecem devido a uma série de circunstâncias, que tentei descrever no trabalho citado. É o caso de atos falhos decorrentes de expectativas frustra- das ou da interferência da nossa ideologia e das nossas circunstâncias pesso- ais; é o caso dos números, sempre um desafio para o intérprete; do discurso original truncado, complexo, pouco claro, com sotaque, dificultando a com- preensão; é a questão dos nomes próprios (de pessoas, produtos, empresas) que aparecem no discurso e que não foram fornecidos com antecedência. No caso dos oradores brasileiros, é comum o uso de termos em inglês com a pronúncia incorreta, mesmo quando a língua portuguesa tem equivalen- tes perfeitos, como aconteceu em um evento em que um dos participan- tes falava algo que soava como “mart” (market) para referir-se a “mercado”. Acredito que são todos tipos de erros que podemos tentar minimizar, mas é inegável que eles acontecem apesar de nossos esforços. O pior de todos é o jogo de palavras, justamente a “poesia” da interpretação, digamos assim, a parte mais surpreendente, a parte onde a forma assume papel de destaque para transmitir um conteúdo. E é justamente para perguntar sobre o jogo de palavras, a parte “divertida” da linguagem, que os participantes nos procuram no intervalo. Quem ainda não teve que responder à famosa pergunta: “Como

você traduziu aquela expressão

...”

(e segue-se uma metáfora, um provérbio,

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O fazer da interpretação essa percepção aparece mais comumente com a expressão “mal necessário”. O intérprete

O fazer da interpretação

um jogo de palavras, uma expressão idiomática)? E nós somos obrigados a responder que, nos poucos segundos que tínhamos para pensar, não foi possível recriar a forma, mas que o conteúdo foi transmitido – ou seja, reco- nhecemos que a graça se perdeu. Inevitavelmente a pessoa que perguntou fica desapontada.

O terceiro ponto de vista é o do ouvinte, o usuário do serviço de interpre- tação. Ele também, em certas experiências, nos vê como mal necessário. Uma vez trabalhei em um evento de mulheres, em que foram discutidas questões, dificuldades e desafios relacionados à mulher. No final elas se reuniram em círculo, colocaram uma lata de lixo no meio e perguntaram a cada uma o que gostaria de jogar ali. Não faltaram ideias como “a injustiça”, “a discriminação” etc., até que uma delas disse: “eu quero jogar esses malditos fones que tive que usar a semana inteira, porque não aguento mais!”. Os fones, portanto, chegavam a ser um desconforto físico. Não era da tradução que ela estava se queixando, era do incômodo de ter que usar os fones por períodos pro- longados. Nós, que estamos acostumados, também nos cansamos, imagina quem não está ...

A esse propósito, uma vez tive uma experiência como usuária de interpre- tação que foi muito rica, pois me permitiu me colocar do outro lado. Foi uma palestra de um orador que tinha sido muito importante na minha formação acadêmica. Eu pertencia à comunidade que falava aquela linguagem, eu co- nhecia o jargão, mas a palestra foi em francês, uma língua que não domino perfeitamente, de modo que precisei da tradução simultânea. Pois sou obri- gada a confessar que a experiência de ser usuária de tradução simultânea foi extremamente desconfortável, eu simplesmente não me conciliei com os fones de ouvido, e fiquei me perguntando por quê. Afinal, a tradução estava correta de um modo geral, o conteúdo estava correto (como entendo um pouco de francês, pude conferir). Identifiquei alguns problemas pontuais de jargão, de terminologia, que talvez pudessem ser justificados por circunstân- cias específicas, mas não era esse o transtorno maior. O maior problema era a entonação. A interpretação saía com um tom absolutamente casual, desinte- ressado, distante. Para mim aquela era uma oportunidade única de ouvir um pensador brilhante, que, falando com ênfase e com paixão, demonstrava um sincero respeito pelo público, que reservou aquele tempo para ouvi-lo, que pagou antecipado para garantir sua vaga. Já para os intérpretes aquilo não passava de mais um evento, um trabalho como outro qualquer. Havia uma

O fazer da interpretação um jogo de palavras, uma expressão idiomática)? E nós somos obrigados a
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O fazer da interpretação

clara discrepância de interesses: para mim, como ouvinte, aquela era uma ocasião muito especial, e para eles era apenas mais um dia de um trabalho. A tradução simultânea, ali, foi para mim um mal necessário. E me causou des- conforto saber que eu também poderia estar naquele papel.

Em compensação, tive outra experiência como usuária que foi redentora daquela experiência ruim e que me mostrou como é possível mudar esse papel. Dessa vez eu estava trabalhando num evento onde havia oradores ja- poneses que eram traduzidos consecutivamente para o português por uma colega. Eu e minha colega de cabine, então, precisamos da tradução para o português para poder verter para o inglês. Não pude cotejar o conteúdo com o original, por razões óbvias, mas posso afirmar que era absolutamente coerente e que o jargão e as siglas estavam corretos, o que passou, a nós e ao público, uma impressão geral de correção. Independentemente disso, porém, a grande diferença foi a ênfase, o envolvimento, o interesse e a ca- pacidade da intérprete de captar até o humor dos oradores, um desafio que facilmente se baseia no jogo de palavras. O discurso da intérprete era con- vincente e atraente, ela conseguiu de fato se apropriar do discurso, e é isso que fez a diferença. Além de melhorar a entonação, acredito que esse movi- mento de apropriação minimiza os erros, porque para se apropriar é preciso se envolver, e ao se envolver, alguns erros são naturalmente evitados. Na- quela situação, então, nós intérpretes nos sentimos salvos pela intérprete de japonês, o público agradeceu emocionado ao final, e essa gratidão efusiva é prova de que aquela intérprete não foi vista como um mal necessário.

Não faltam exemplos de reações do público nesse mesmo tom. Uma vez eu e uma colega traduzimos um orador extremamente claro e expressivo, daqueles que encantam a plateia. Nós conseguimos nos apropriar do ritmo e da emoção de sua fala e, no final, enquanto ele era aplaudido de pé, uma pessoa no fundo da sala virou-se para a cabine para aplaudir a nós, numa clara demonstração de ter percebido a abrangência da nossa participação.

Outra vez foi mais surpreendente. Era uma consecutiva, uma situação mais tensa, uma dinâmica mais difícil, e um assunto mais complexo: filosofia. Eu usei a estratégia de tentar me apropriar do discurso, mas no meio da con- ferência, por um problema de anotação, cometi um lapso e troquei o nome de um filósofo: em vez de “Hegel” falei “Heidegger”, um erro indiscutivelmen-

te grave

As pessoas na mesa perceberam e me corrigiram imediatamente.

... Desculpei-me e segui em frente, me esforçando para manter a apropriação.

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O fazer da interpretação clara discrepância de interesses: para mim, como ouvinte, aquela era uma ocasião

O fazer da interpretação

No final julguei que aquele erro tinha estragado completamente o meu es- forço e, no entanto, para minha surpresa, as pessoas me procuraram para me agradecer efusivamente, o cliente se mostrou muito satisfeito, e depois ainda elogiou meu trabalho para outros colegas. Parece, então, que o meu enga- jamento chegou a compensar o erro, que passou a ser visto como um lapso passível de acontecer com qualquer um, “desculpável”, portanto, dentro do contexto maior de apropriação.

Essa é, então, a outra ponta, a ponta de salvador da pátria, esse intérprete engajado, que brilha, que se apropria do discurso. Os tradutores também têm seu dia de salvador da pátria, como aconteceu com o colega Paulo Henriques Britto, a julgar por uma resenha publicada na revista Época de 02/08/2004. O livro em questão é Mason & Dixon, de Thomas Pynchon, autor americano sabidamente difícil de ler, que dirá de traduzir. Mas o foco parece estar tão concentrado na tradução – ou, como veremos, no tradutor – quanto

no original, a começar pelo fato de que a resenha apresenta uma foto grande

do tradutor, com uma foto bem menor do autor

É verdade que esse escritor

... vive recluso e não divulga fotos, de modo que supostamente só existe essa foto antiga do autor, mas mesmo assim chama atenção a escolha de publicar uma foto grande do tradutor, com uma foto 3x4 do autor embaixo. E a re- senha percorre um caminho curioso, um caminho muito semelhante a esse contínuo que descrevi, de mal necessário, de bela infiel, a salvador da pátria. Começa assim: “O tradutor é, acima de tudo, um infiel. Ele tem consciência de que deixa de fora a própria textura original da língua em que o texto foi redi- gido.” Após dizer que é um mal necessário, porém, a resenha passa a elogiar a tradução, avalia que “É um caso raro de tradução que acrescenta ao original” e finalmente conclui: “Trair às vezes vale a pena.” Trocando em miúdos: o tra- dutor traiu, mas o resultado ficou até melhor.

Voltando para a interpretação, o caso emblemático do salvador da pátria aconteceu na viagem do presidente Lula para a Namíbia. Para quem não lembra, em 2003, Lula visitou a Namíbia, na África, como sempre acompa- nhado de seu intérprete oficial, o colega Sergio Xavier Ferreira, que, aliás, em fato inédito na história da República, tem o cargo de assessor especial do presidente. Ao saudar o presidente da Namíbia na chegada à capital do país, num discurso improvisado, Lula afirmou: “estou mais surpreso ainda porque quem chega a Windhoek não parece estar num país africano, ne-

nhuma cidade é tão limpa e bonita [

...

]”.

De acordo com o que foi noticiado

O fazer da interpretação No final julguei que aquele erro tinha estragado completamente o meu es-
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O fazer da interpretação

na imprensa, o intérprete nessa hora gaguejou e interrompeu o presidente (atrapalhando seu discurso, a rigor) para dizer: “desculpe, presidente, não estou entendendo.” Mas, ao invés de criticar a interrupção, a imprensa disse que o intérprete ajudou o presidente a corrigir o que poderia se tornar uma gafe diplomática, ou seja, salvou a pátria ...

Finalmente, gostaria de concluir com mais um exemplo, que encontrei enquanto procurava o caso da Namíbia na internet. Trata-se de uma outra re- ferência ao trabalho do intérprete num contexto político. A notícia referia-se a um congresso onde discursou o político Miguel Arraes. O trecho diz assim:

“Miguel Arraes também foi vaiado na abertura do Congresso de Jornalistas. Aliás, quando começou a falar, muitos colocaram o fone nos ouvidos. Os da terra também preferiram a fluência da intérprete à voz engrolada, entre pi- garros, do governador”. Casos como esse, em que o público prefere a voz do intérprete à do orador, não são raros – mais uma prova de que nem sempre o intérprete é um mal necessário. Às vezes ele salva a situação.

Dicas de estudo

Os Tradutores na História, de Delisle e Woodsworth, tradução de Sérgio Bath. São Paulo: Ática, 1995.

A leitura da obra é recomendada para quem tem interesse em acompanhar o surgimento e a evolução dessa profissão. Embora foque o tradutor em seu título, o livro também conta com contribuições ao entendimento da atuação do in- térprete ao longo dos anos. O interessante no livro é sua divisão em temas ou áreas nas quais tradutores e intérpretes tiveram papel relevante: disseminação do conhecimento; desenvolvimento de literaturas nacionais, desenvolvimento das línguas nacionais, entre outros.

Matéria da revista Aventuras na História intitulada “Malinche, a Judas mexi- cana”. Disponível em: <http://historia.abril.com.br/gente/malinche-judas-mexi-

cana-473346.shtml>.

O interesse reside no fato de ser um retrato histórico de quão antiga e, desde então e até hoje, fortuita é a profissão de intérprete. Também leva à reflexão com base em um caso verídico de como a interpretação pode influir na evolução ou não de uma civilização, em quanta responsabilidade ética o ato de interpretação implica.

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O fazer da interpretação na imprensa, o intérprete nessa hora gaguejou e interrompeu o presidente (atrapalhando

O fazer da interpretação

Atividades

  • 1. Discuta no que consiste o ato de interpretar e a diferença que ele apresenta em relação ao ato tradutório.

  • 2. Embora a interpretação simultânea seja uma espécie de evolução da con- secutiva, as duas práticas apresentam diferenças consideráveis do ponto de vista de sua execução. Com base no exposto sobre a Teoria do Sentido e so- bre a Teoria dos Modelos dos Esforços na Interpretação, discorra sobre as diferenças entre interpretação consecutiva e simultânea.

O fazer da interpretação

  • 3. Considere o excerto retirado do texto complementar:

O pior de todos é o jogo de palavras, justamente a “poesia” da interpretação, digamos assim, a parte mais surpreendente, a parte onde a forma assume papel de destaque para transmitir um conteúdo. E é justamente para perguntar sobre o jogo de palavras, a parte “divertida” da linguagem, que os participantes nos procuram no intervalo. Quem ainda não teve que

responder à famosa pergunta: “Como você traduziu aquela expressão

...”

(e segue-se uma

metáfora, um provérbio, um jogo de palavras, uma expressão idiomática)? E nós somos obrigados a responder que, nos poucos segundos que tínhamos para pensar, não foi possível recriar a forma, mas que o conteúdo foi transmitido — ou seja, reconhecemos que a graça se perdeu. Inevitavelmente a pessoa que perguntou fica desapontada. (QUENTAL, 2004)

Com base nele, usando-o como recurso argumentativo, discuta a noção de desverbalização do sentido formulado na língua-fonte e sua apresentação na língua-alvo, respeitando o significado do original.

Referências

FREIRE, Evandro Lisboa. Teoria interpretativa da tradução e teoria dos modelos dos esforços na interpretação: proposições fundamentais e inter-relações. Ca- dernos de Tradução, UFSC, v. 2, n. 22, 2008. Disponível em: <www.periodicos. ufsc.br/index.php/traducao/article/view/9279/9413>. Acesso em: 9 ago. 2010.

MAGALHÃES JÚNIOR, Ewandro. Sua Majestade, o Intérprete: o fascinante mundo da tradução simultânea. 1. ed. São Paulo: Parábola, 2007.

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O fazer da interpretação 3. Considere o excerto retirado do texto complementar: O pior de todos

O fazer da interpretação

PAGURA, Reynaldo. A interpretação de conferências: interfaces com a tradução

escrita e implicações para a formação de intérpretes e tradutores. DELTA [on- line], 2003, v. 19, n. spe, p. 209-236. Disponível em: <www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=s010244502003000300013>. Acesso em: 27 ago.

2010.

ROSA, Andréa Silva. Entre a Visibilidade da Tradução da Língua de Sinais e a Invisibilidade da Tarefa do Intérprete. Petrópolis: Arara Azul, 2008.

QUENTAL, Raffaella de Filippis. O Intérprete: de “mal necessário” a “salvador da pátria”. publicado em: 2004. Disponível em: <www.sintra.org.br/site/index. php?p=c&id=18&codcat=13>. Acesso em: 27 ago. 2010.

Gabarito

  • 1. Resposta mínima deve reconhecer que embora tradução e interpretação se- jam processos interdependentes, esta requer do intérprete capacidades es- pecíficas que envolvem tanto o aspecto cognitivo quanto linguístico, como por exemplo, boa capacidade de uso da memória de curto prazo, boa ca- pacidade de processamento e análise da mensagem recebida, ser capaz de se ater à ideia do autor da mensagem, sem perder de vista o tom, o ritmo, a velocidade, as intenções discursivas etc.

  • 2. Aqui o esperado é que o estudante apresente os três postulados básicos das duas teorias, cotejando-os de maneira a demonstrar distinções como: na interpretação consecutiva, mais do que na simultânea, o intérprete precisa, pela própria natureza do ato, reconstruir o discurso a partir da ideia nele vei- culada e a partir do contexto a que tal ideia estava associada na mensagem transmitida, o chamado processo de desverbalização. Já a interpretação si- multânea, mais do que a consecutiva, exige a tomada de decisões em ques- tão de segundos, sendo que o planejamento do discurso segue, basicamen- te, o ritmo imposto pelo palestrante. Na consecutiva, por haver um período entre a fala do palestrante e a do intérprete, há um pouco mais de tempo para planejar o discurso.

O fazer da interpretação PAGURA, Reynaldo. A interpretação de conferências: interfaces com a tradução escrita e
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O fazer da interpretação

  • 3. Com base no excerto, o aluno deve argumentar que se o intérprete se pren- der à forma das palavras, ao desejo de usar palavras na língua-alvo “equiva- lentes” na língua-fonte, não conseguirá transmitir ao público o conteúdo da mensagem. Ater-se à ideia, uma ideia que não se prende a formas verbais, é um recurso muito útil para reconstruir sentidos da língua-fonte na língua- -alvo, sendo que a materialização desse sentido na língua-alvo não precisa se submeter a um ideal de correspondência entre forma e forma. Afinal, como aponta Quental, nos poucos segundos que o intérprete tem à disposição, não é possível recriar a forma, de modo a conseguir, por exemplo, na língua- -alvo o mesmo efeito – sonoro, estético – de um jogo de palavras produzido na língua-fonte, o que é possível garantir é o sentido.

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O fazer da interpretação 3. Com base no excerto, o aluno deve argumentar que se o

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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

A proposta deste capítulo é refletir sobre a necessidade de não apenas fazer uso das línguas envolvidas no processo de tradução – e isso já não é pouco –, mas também de conhecê-las em sua estrutura e funcionamento. Portanto, noções relativas à diferença entre saber uma língua e conhecer sua estrutura, ao que se entende por conhecer a estrutura de uma língua, ao contraste entre línguas orais e de sinais, aos desafios advindos da dife- rença de modalidades de línguas e do estabelecimento, ainda em curso, de uma variedade padrão da Libras são abordados com o fim de alcançar o propósito estabelecido.

Diferença entre saber uma língua e conhecer sua estrutura

A diferença entre saber uma língua e conhecer sua estrutura pode ser esclarecida, mais facilmente, por meio da metáfora da diferença entre um motorista e um mecânico. Um motorista pode usar muito bem seu carro sem conhecer como ele funciona por dentro, quais são as peças do motor, como elas trabalham em conjunto, como acontece o processo de arranque ou de frenagem. O bom motorista sabe que para parar seu carro precisa acionar o pedal da embreagem e do freio, não precisa saber o que ocorre sob o capô. Esse é o trabalho do mecânico, que é quem precisa ter o conhecimento sobre como funcionam os mecanismos de acionamento do freio e da arrancada, por exemplo, pois apenas por meio desse conhe- cimento poderá desempenhar seu trabalho: descobrir por que o carro não arranca, por que não freia etc.

Pode haver um mecânico que não saiba conduzir um carro, embora isso seja bastante incomum, pois saber usar o carro e detectar as falhas em seu uso lhe dá indícios de onde procurar o problema de funcionamento, e é seu conhecimento técnico do funcionamento que lhe permitirá resolver adequadamente o problema. Poucos motoristas conhecem o funciona- mento de um carro a ponto de resolverem sozinhos os problemas que ele

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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação A proposta deste capítulo é

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

pode apresentar, mas a questão é que o motorista não precisa conhecer o fun- cionamento da máquina no que não diz respeito ao seu uso. Assim é saber falar uma língua, sabe-se dela o que é necessário para “fazê-la andar”, para pô-la em uso. Conhecer a estrutura da língua é ir além do uso, é conhecer os mecanismos que possibilitam o uso. O trabalho do intérprete se compara ao do mecânico- -motorista, com a diferença crucial de que o intérprete tem, necessariamente, que saber usar-conduzir as línguas envolvidas na tradução. Por meio do saber a língua – o uso, o implícito –, o intérprete pode verificar dificuldades no processo de tradução e encontrar, através de seu conhecimento técnico, a solução.

Com isso, percebe-se que ser usuário de uma língua dá ao indivíduo um co- nhecimento intuitivo sobre ela, conhecimento muito importante e útil, é ver- dade, mas que, sozinho, não é suficiente para exercer a função de tradutor e intérprete, que exige um conhecimento técnico, consciente e sistemático da língua a ser traduzida, interpretada ou ensinada. Discorrendo sobre o tema e empreendendo uma discussão em torno do tradutor ideal, no sentido daquele que se deveria ter à disposição – não entenda, estudante, “ideal” como “perfeito”, pois são conceitos muito diferentes –, e suas capacidades, Rónai afirma:

Esse conhecimento sólido da própria língua, critério certo de toda educação humanística, consegue-se – já se vê – mediante a leitura atenta e contínua de bons autores, pela frequentação de livros inteligentes sobre o próprio idioma, pelo estudo incessante dos meios de expressão.

[

...

]

Em resumo, o tradutor deve conhecer a língua estrangeira o bastante para desconfiar de

cada vez que a compreensão insuficiente de uma palavra ou de um trecho obscurece o sentido

do conjunto. (RÓNAI, 1976, p. 10-11, grifo do autor)

Entendida a diferença entre uso e conhecimento da língua, parte-se agora para a definição sobre o conhecimento da estrutura das línguas envolvidas, como pode ser alcançado e por que motivo é requerido.

O domínio da estrutura linguística na tradução e interpretação

Quadros (2007, p. 73) ao falar das competências exigidas do Tradutor e Intér- prete de Língua de Sinais arrola em primeiro lugar a competência linguística, de- finida pela autora como a habilidade de manipular com as línguas envolvidas no processo de interpretação, de modo a “distinguir as ideias principais das ideias secundárias e determinar os elos que determinam a coesão do discurso”. Domi- nar as línguas envolvidas, então, é a primeira condição necessária ao exercício da profissão. Mas esse domínio, como visto anteriormente, não se resume ao saber usar, é preciso conhecer a estrutura, o funcionamento das línguas.

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação pode apresentar, mas a questão
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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

É importante ter em mente que esse conhecimento não deve ser encarado como o domínio de uma série de estruturas e suas respectivas nomenclaturas. Ele deve permitir ao profissional analisar o uso que faz das línguas envolvidas na tradução para encontrar os pontos a melhorar em interpretações futuras, para descobrir soluções aos problemas encontrados durante o trabalho, deve ser útil como uma caixa de ferramentas é ao mecânico de que se falou antes.

Para não ficar apenas no campo da argumentação sobre a utilidade do domí- nio da estrutura, apresenta-se, a seguir, alguns casos ilustrativos. Uma catego- ria linguística que costuma ser um fator complicador entre línguas, sejam quais forem, é a de tempo, pois cada língua recorta essa categoria de uma determi- nada maneira. Um exemplo entre línguas orais pode ser encontrado na tradu- ção do Present Perfect, do inglês, para o português. O Present Perfect é uma das formas do tempo presente em inglês que serve para expressar situações ante- riores (passadas em relação a um ponto de referência específico) mas relacio- nadas ao momento presente. Em português, não há um substituto formal para esse tempo. Não há, na língua portuguesa, um tempo verbal que substitua esse tempo verbal inglês preservando todos os significados que ele agrega. Ainda assim, o bom tradutor do inglês para o português sabe que, a depender do con- texto, a forma do Present Perfect pode ser traduzida para o pretérito perfeito sim- ples, para o presente, para o pretérito perfeito composto. Mas a escolha vai ser determinada pelo nível de entendimento que o tradutor possui sobre o tempo inglês e sobre as possibilidades de tradução desse tempo. Por exemplo, se o sig- nificado relevante, o qual foi destacado no contexto, é a relação com o momento presente, a melhor opção em português é o tempo presente. Por outro lado, se o destacado é uma situação com início no passado e ainda válida para o tempo presente, a melhor opção é o pretérito perfeito composto. Por fim, se a intenção é chamar mais a atenção para o fato de a situação ser anterior, ainda que man- tenha alguma relação com o momento presente, a possibilidade de tradução adequada é o pretérito perfeito simples.

O sistema temporal também representa um desafio para os intérpretes du- rante a tradução do português para a Libras. Essa língua possui as três divisões básicas de tempo: passado, presente e futuro. Como nos outros sistemas tempo- rais de outras línguas, a Libras organiza a categoria de tempo a partir do momen- to presente como revela o excerto abaixo:

[

...

]

o sinalizante sempre está no momento presente, visto que o seu corpo está presente. Nesse

sentido, as referências temporais são feitas a partir do eixo do corpo – para frente, indicando

o futuro, para trás, referindo-se ao passado e, no centro, indicando o momento presente, que também representa o espaço neutro. (QUADROS; SOUZA, 2008, p. 176)

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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação É importante ter em mente

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

É possível depreender, então, que a Libras organiza seu sistema temporal com base nesses três momentos – futuro/tronco para frente, passado/tronco para trás, presente/tronco no centro –, correspondentes a três formas. Inicialmente, não se pode concluir que a Libras tenha subdivisões temporais para esses momentos aos quais corresponderiam outras formas de tempo. Nesse sentido, o passado, em português, pode ser subdividido, possuindo formas específicas para veicular essas subdivisões, já o mesmo não ocorre na Libras. Ela pode dar conta de re- lações temporais complexas, mas não possui formas na língua específicas para isso. Analise o seguinte caso em português e depois reflita sobre a Libras:

Nos casamos muito jovens, eu era professora, ele estava desempregado, fora soldado por algum tempo, mas desistiu da carreira militar para se casar comigo.

No enunciado acima, há pelo menos cinco situações diferentes que se distri- buem distintamente na linha do tempo. Como você pôde perceber, há referên- cia às situações de: casar jovem, ser professora, estar desempregado, ser soldado e desistir da carreira. Se lhe pedissem para organizar os fatos referidos no enun- ciado pela ordem de acontecimento, você chegaria a:

  • 1. No passado, ele foi soldado.

  • 2. No passado, ele desiste de ser soldado.

  • 3. Ele fica desempregado.

  • 4. No passado, entre o tempo de ele ser soldado e se tornar desempregado, ela era professora.

  • 5. Quando ela era professora e ele desempregado, eles se casaram.

A partir desse esquema, você pode compreender quantas relações complexas de organização temporal dos fatos o ser humano pode fazer. Disso, importa res- saltar o fenômeno de algumas relações serem codificadas em formas específicas de expressão. Por exemplo, para expressar que o fato de ser soldado é um fato passado anterior a outros fatos também passados (casar, desistir de ser soldado, ficar desempregado), a língua portuguesa possui a forma do tempo verbal de- nominada de pretérito mais-que-perfeito (fora soldado), que não encontra equi- valente formal na Libras. Entretanto, o bom conhecedor da língua portuguesa, ciente da organização temporal expressa por essa forma verbal, procurará, em sua tradução para a Libras, transportar o significado de que ser soldado é uma situação que precede todos os outros acontecimentos.

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação É possível depreender, então, que
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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

Com esses dois exemplos, você pode avaliar por si mesmo em que sentido o conhecimento da estrutura das línguas envolvidas é uma ferramenta auxiliadora no exercício da profissão. Como dito antes, esse conhecimento não deve ser do tipo classificatório – identificar e nomear estruturas –, e sim funcional – agir sobre os fatos da língua. Para além da estrutura, para além do já estabelecido nas gra- máticas, há ainda a variação e inovação linguística, exploradas na próxima seção.

A questão da variação linguística e do neologismo em Libras

Ter o conhecimento implícito e explícito de uma língua garante ao tradutor e intérprete sanar problemas das mais distintas ordens, inclusive os relacionados à variação e à inovação linguística. Estar muito bem aparelhado linguisticamente, seja via uso da língua, seja via seu estudo, possibilita ao profissional “desconfiar” das palavras que não conhece, das estruturas que lhe parecem atípicas. Descon- fiar do que não soa natural numa dada língua é um recurso instintivo que pode ser adquirido no uso e no estudo da mesma. Além de se preocupar com o que é ou não próprio da língua, o intérprete precisa estar atento ao que é da língua mas não de uma determinada variedade da língua que se está interpretando. “Como assim, variedade da língua interpretada?”, você deve estar se perguntando.

As línguas, além de serem diferentes entre si, apresentam diferenças, varia- ções em relação a elas mesmas. As variações numa mesma língua podem aconte - cer em níveis diferentes, no lexical, no fonético, no sintático, e serem derivadas de fatores como região, nível social do usuário, o público a quem o falante se dirige, a situação de comunicação – se formal ou informal – e ainda do funcionamento interno das regras da própria língua. A fruta tangerina, por exemplo, recebe dife - rentes nomes conforme a região do Brasil: “mexerica” ou “bergamota” em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, “mimosa” na capital paranaense. Em Santa Catarina, diferentemente do constatado no Paraná, há uma variação entre as formas “tu” e “você” conforme o nível de intimidade entre os envolvidos numa conversa.

No nível sintático, é comum detectar a variação na marcação de plural na fala de pessoas em situação informal de comunicação ou na fala de pessoas com baixo nível de escolaridade: Eles são rebelde mesmo. Já variações como menino X minino se devem a regras fonéticas de funcionamento interno da língua. A Libras, enquanto língua viva e em plena evolução como o português, também

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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação Com esses dois exemplos, você

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

apresenta variações. Trata-se de uma variação regional da Libras, por exemplo, o sinal de “mãe” usado no Rio de Janeiro e o usado na região Sul. No Sul, o sinal de “mãe” é realizado pela junção dos sinais de “mulher” e “bênção”, no Rio de Janeiro o sinal é realizado com o dedo indicador tocando a lateral do nariz.

Também existem na Libras variações no nível fonético, que envolve os pa- râmetros de formação de sinais. Nesse sentido, o sinal de “conhecer” apresen- ta pelo menos duas realizações possíveis. Numa, a mão em B toca o queixo de forma que a lateral exterior do dedo indicador entre em contato com o queixo, noutra o indicador, com a mão também em B, mas os dedos entreabertos, toca o queixo de forma que o contato é estabelecido pela ponta do dedo.

IESDE Brasil S.A.
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Essa variação não é específica de uma região, nem apresenta relação com o nível de escolaridade do sinalizante. Aparentemente, trata-se de uma variação individual, de uma maneira particular de sinalização de algumas pessoas, que altera um detalhe na formação do sinal, não implicando, contudo, mudança de significado. Sim, a variação também pode ocorrer de pessoa para pessoa como marca de individualidade, mas essa variação não deve representar obstáculo à comunicação entre sinalizadores de uma mesma comunidade de fala.

Comunidade de fala é um conceito cunhado pela sociolinguística. Ele dá conta de que os falantes de um grupo compartilham traços linguísticos que os diferenciam de falantes de outros grupos; comunicam-se mais entre si do que com os outros; e compartilham normas e atitudes diante do uso da linguagem.

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação apresenta variações. Trata-se de uma
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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

Na verdade, a variação linguística, independentemente do fator, geralmente não apresenta obstáculo à comunicação dos usuários de uma mesma língua, a maior parte das variações passa despercebida no dia a dia. Mas as variações no léxico – nas palavras, nos sinais – podem gerar ambiguidades, ou incompreen- são. Em relação à Libras, Avelar (2009) discute que em certos ambientes, como o de ensino-aprendizagem a distância, a variação de sinais presente na sinalização de professores e tradutores oriundos de diferentes partes do Brasil dificulta o entendimento dos alunos quanto aos conteúdos tratados. Esse é um caso de situação de comunicação formal, em que o desejado seria o emprego de uma variante padrão da Libras, ou ao menos que os sinais variantes fossem padroni- zados, em comum acordo, entre professores, tradutores e alunos. O problema da padronização também é discutido por Avelar (2009), que aponta ainda uma certa resistência por parte dos sinalizantes de sua pesquisa, pois cada um, em maior ou menor grau, defendia a sua identidade regional. O problema de uma varie- dade padrão da Libras é bastante complexo. Claro que há relatos, você mesmo, estudante, pode já ter vivenciado isso, sobre uma espécie de intolerância dos surdos quanto à variação regional de sinais, posto que ao se depararem com sinais variantes, embora entendam perfeitamente do que se trata, empreendem logo a “correção” do sinal. Porém, não se pode atribuir a essa resistência a “falta” de uma variedade padrão, já que o estabelecimento de uma variedade padrão em qualquer língua está diretamente relacionado à escrita. As formas de uma língua são cristalizadas e disseminadas por meio da escrita e estando a Libras ainda em processo de aperfeiçoamento e divulgação de sua escrita é difícil falar na existência, de fato, de uma variedade padrão dessa língua.

Isso não significa, por outro lado, que a Libras seja apenas um conjunto de variedades linguísticas espalhadas pelo Brasil, significa apenas que, comparada às línguas com sistemas de escrita, ela ainda não possui um instrumento facilita- dor do processo de padronização, capaz de alcançar os usuários dessa língua em qualquer região do país, com uso mínimo de tecnologia – sem precisar de DVDs, por exemplo. Em sua atuação profissional, o intérprete deve levar em conta a questão da variação linguística. Deve fazer suas escolhas lexicais e de estrutura levando em conta o público para o qual se dirige, tomando como critério se as escolhas podem ou não dificultar a compreensão do público ou se a variação foi intencional na fala de quem está traduzindo, precisando, assim, ser respeitada. Sob tais circunstâncias, no contexto de sala de aula, se o professor está tratando justamente do tema da variação linguística, é evidente que as variações apre- sentadas pelo professor devem ser repassadas ao estudante surdo, pois há um objetivo específico, intencional, no uso das variantes. De forma diferente, numa

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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação Na verdade, a variação linguística,

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

palestra que reúne surdos do Sul do Brasil para assistir a uma palestra sobre o tema “família”, na ocorrência da palavra “mãe”, por uma questão de bom senso, a sinalização mais adequada é aquela mais conhecida e usada pelo público, nesse caso, o sinal MULHER^BÊNÇÃO.

Além da variação linguística, outra situação que exige a competência linguís- tica, técnica e o bom senso do intérprete é a criação de sinais, os neologismos. Sem dúvida, sinais podem e devem ser criados quando as necessidades de co- municação assim requererem, mas não de forma aleatória, sem discussão num grupo maior, envolvendo usuários fluentes da língua. O fenômeno do neologis- mo na Libras tem sido verificado, de modo mais evidente, no âmbito dos cursos de licenciatura e bacharelado em Libras. Por precisarem trabalhar com muitos conceitos e termos técnicos até então não vistos na Libras – por uma simples questão de não terem sido necessários –, professores, tradutores, intérpretes e alunos se veem cunhando novos sinais para se apropriarem dos conhecimentos produzidos pelas áreas da linguística, tradução, literatura etc. Ademais, os sinais criados precisam estar de acordo com os parâmetros de formação de sinais, res- peitando, assim, a estrutura interna da língua. O intérprete, sozinho, não tem como cunhar novos sinais, mas faz parte de sua responsabilidade estar atento, na medida do possível, às inovações conceituais e terminológicas que estão se estabelecendo em sua língua de trabalho. Por fim, a Libras, assim como as lín- guas orais, pode sofrer aumento de vocabulário, e consequente enriquecimento conceitual, também por meio de empréstimos de outras línguas de sinais ou da própria língua portuguesa escrita. Um exemplo de empréstimo da língua portu- guesa escrita é o N-U-N-C-A, cuja soletração recebeu um movimento próprio da Libras, passando a pertencer a essa língua.

As implicações da modalidade de língua na tradução e interpretação

Não bastassem as dificuldades advindas do próprio ato de tradução quando as línguas são de uma mesma modalidade, isto é, quando língua-fonte e alvo são orais ou visuais, há ainda os desafios instaurados na tradução de línguas de modalidades distintas. No caso da Libras e da língua portuguesa, a primeira é de modalidade visual-espacial, e a segunda, oral-auditiva. Isso significa que a Libras apreende as coisas do mundo com base nas experiências visuais das comunida- des surdas, por meio das trocas culturais e linguísticas dessas comunidades. Já a língua portuguesa constitui-se baseada nos sons. Por ser uma língua visual-espa-

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação palestra que reúne surdos do
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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

cial, a Libras apresenta uma sintaxe espacial. Isso significa, por exemplo, que pro- cessos anafóricos são estabelecidos por meio de pontos estabelecidos no espaço, a cada vez que o sinalizante volta a esse espaço preestabelecido está fazendo uso da anáfora. Em português, um dos recursos anafóricos são os pronomes. Então, numa frase como “você não respeita minhas ideias e eu não gosto disso”, o pro- nome “disso” estabelece uma relação anafórica com “você não respeita minhas ideias”. Também no campo dos processos sintáticos, a Libras emprega a estrutura tópico-comentário de uma forma mais recorrente do que na língua portuguesa. Um exemplo de estrutura tópico-comentário na Libras é o seguinte:

<COMIDA>top EU GOSTAR MACARRÃO

IESDE Brasil S.A. IESDE Brasil S.A.
IESDE Brasil S.A.
IESDE Brasil S.A.

No caso acima, o tópico, assunto, retomado no discurso sobre o qual se falará, recebe como marca a elevação das sobrancelhas, por isso a representação <COMIDA>top. Ainda em relação à estrutura sintática, a estrutura de foco é em- pregada na Libras por meio de repetições sistemáticas, processo incomum na língua portuguesa. No campo intermediário, entre morfologia e sintaxe, a Libras não apresenta marcação de gênero. Ao falar em marcação, há que se distinguir marca formal de gênero, entendida como morfema, e referência ao gênero en- quanto significado. Mesmo não possuindo morfologia para gênero, a Libras é capaz de diferenciar a noção de masculino e feminino por outros recursos. Assim, a frase do português “João encontrou minha bolsa ontem” apresenta marca de gênero – morfologia própria para referir-se ao gênero – no pronome possessivo

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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação cial, a Libras apresenta uma

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

“meu”, concordando com o substantivo “bolsa”. Numa tradução dessa frase para a Libras, o pronome possessivo ficaria sem a marca de feminino, antes presente no português, na verdade, ficaria sem marca nenhuma de gênero. Afinal, não se pode concluir que na ausência de marca de feminino restaria a de masculino.

Em português, os falantes usam muitas expressões faciais, mas elas, diferen- temente da Libras, não desempenham um papel gramatical. Na Libras, por sua natureza visual-espacial, as expressões faciais, além de expressarem emoções, cumprem papéis como marcar se uma frase é interrogativa, exclamativa, im- perativa, afirmativa, o que em português é codificado através da entonação da frase. Também é possível marcar estruturas sintáticas como o condicional e a oração relativa. Ainda a marca de grau dos substantivos e adjetivos é composta por meio da expressão facial, como retratam os exemplos abaixo:

IESDE Brasil S.A.
IESDE Brasil S.A.

Carrinho

IESDE Brasil S.A.
IESDE Brasil S.A.

Coitadinho

IESDE Brasil S.A.
IESDE Brasil S.A.

Carro

IESDE Brasil S.A.
IESDE Brasil S.A.

Coitado

IESDE Brasil S.A.
IESDE Brasil S.A.

Carrão

IESDE Brasil S.A.
IESDE Brasil S.A.

Muito coitado

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação “meu”, concordando com o substantivo
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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

A diferença de modalidade da Libras requer, inclusive, uma escrita que não tenha base sonora. Todavia, escritas que não se pautam pelo som não são privi- légio das línguas de sinais. O japonês, a propósito, é uma língua de escrita que não se baseia no som, seu sistema de representação da língua é o ideográfico. Numa forma simplificada, isso significa que eles possuem símbolos que reme- tem às ideias e significados por eles pretendidos. O sistema de escrita da Libras se assemelha um pouco ao sistema japonês, posto que ambos lidam com uma representação da língua que não é guiada pelo som. No entanto, a Libras, devido às suas características visuais e espaciais, precisa codificar em sua escrita coisas como: configuração de mão, orientação, ponto de articulação, movimento e ex- pressão facial. Nesse caso, se bem pensado, pode-se dizer que a escrita de sinais segue um princípio fonológico à medida que representa os sinais com base nos cinco parâmetros de composição de sinais. Esclarecendo que fonológico é en- tendido como o nível onde as línguas possuem elementos distintivos, sejam eles sonoros ou visuais, que, sozinhos, não veiculam significado. Nesse sentido, o parâmetro movimento sozinho não atribui significado, da mesma forma que o fonema /b/ isolado também não, são apenas elementos distintivos que combi- nados com outros elementos distintivos da língua vão formar uma palavra ou sinal. A junção dos parâmetros configuração de mão em S, ponto de articulação no peito, orientação da palma na direção do peito, movimento circular e expres- são facial resultam no sinal SAUDADE. Justamente por procurar essa representa- ção baseada num princípio fonológico, a Libras se afasta da escrita do japonês, em que o sistema de representação não tem base fonológica.

Até aqui, foram abordados alguns dos reflexos da modalidade de língua na estruturação da Libras, cabe agora discutir as implicações da diferente modali- dade nas condições de trabalho de tradutores e intérpretes dessa língua. A pri- meira questão, já que se trata de uma língua visual-espacial, diz respeito à expo- sição física dos intérpretes e tradutores ao verterem da língua portuguesa para a língua de sinais. Como os canais de recepção e produção são diferentes por conta de os surdos não terem a audição à disposição, eles não têm como checar a interpretação feita pelo intérprete. No caso de interpretação entre duas lín- guas de sinais, desde que se entenda razoavelmente a língua traduzida, o surdo pode checar o quanto de informação está recebendo e o nível de adequação da mesma. Isso também ocorre na interpretação de línguas orais, nas quais o público, com entendimento razoável da língua, pode conferir as informações re- cebidas pela interpretação.

Contrastando com as interpretações de línguas orais, os intérpretes de lín- guas de sinais estabelecem um vínculo com os surdos através do olhar, depen-

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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação A diferença de modalidade da

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

dendo da disposição física dos participantes. Esse vínculo permite também o acesso a comentários e indagações durante a interpretação sem interferência direta no discurso do falante, uma vez que ao traduzir do português para a Libras o intérprete não interfere (não atrapalha) a fala do palestrante. Ademais, esse contato intenso leva a uma relação de confiança, que ultrapassa o nível profissio- nal. Até porque, para se manterem usando a Libras, praticando e aprendendo, os intérpretes precisam conviver com os surdos, pois não há outra forma de acesso a essa língua. Sob tal circunstância, Quadros (2007, p. 85) revela:

Muitos surdos que apresentam trabalhos têm o seu intérprete particular e não aceitam outros profissionais por não confiarem em seu trabalho. Um profissional sem credibilidade certamente não será bem-sucedido. Diante dessas informações, considera-se fundamental que o intérprete reveja o seu processo de aquisição da língua de sinais e reflita sobre qual o seu desempenho na tradução e interpretação de uma para outra língua.

Por isso é imprescindível considerar as diferenças suscitadas pela modalidade da língua no processo de domínio e interpretação da mesma sob pena de ser taxado como um profissional não confiável, despreparado, portanto, sem “uso” no mercado de tradução e interpretação da Libras. Não se deve desconsiderar, ainda, o fato de que línguas diferentes, a despeito da modalidade, fazem leitu- ras distintas da realidade, as quais se refletem no ato tradutório e interpretativo como você constatará a seguir.

Tradução acarreta o recorte de uma realidade

Para compreender por que a tradução é o recorte de uma realidade, é pre- ciso ter em mente o fato de o uso da língua ser um instrumento de recorte da realidade. Em outras palavras, isso significa que a realidade, ela mesma, é uma, mas a leitura feita dela pelas mais variadas culturas e línguas pode escolher real- çar certos aspectos, e não outros. Para ilustrar, pense numa realidade que pode ser considerada, ela mesma, como aplicável a qualquer ser humano: ter irmãos. Parece muito aceitável que ter irmãos é algo passível de acontecer a qualquer pessoa. Aqui no Brasil, as pessoas podem ter irmãos e irmãs, isto é, o falante do português chama o filho homem de seu pai de irmão e a filha mulher de seu pai de irmã. Esse recorte é feito pela língua portuguesa e muitas outras línguas (o inglês, o espanhol, o francês), mas não por todas as línguas. Há línguas, confor- me Malmberg (1976, p. 67):

[

...

]

que não conhecem os conceitos, tão naturais para nós, de irmão e irmã, mas os classificam,

dando-lhes distintos nomes, entre “irmãos maiores” e “irmãos menores” (ou irmãs). [

]

... povos para os quais essa denominação de irmão, por si só, comporta uma imprecisão a que

lhes é muito difícil habituarem-se quando têm que expressar-se em outra língua que não tem essa distinção.

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação dendo da disposição física dos
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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

Observe que a diferença não está nas coisas do mundo, mas na maneira como elas são apreendidas e categorizadas. Essas distinções, codificadas nas línguas, se revelam um verdadeiro desafio ao tradutor e intérprete no desempenho de sua função. Isso não leva, todavia, à conclusão de que é impossível dar conta das variações de recortes no translado de uma língua para outra. Chama a atenção, isso sim, para a necessidade de o profissional estar atento a que aspectos real- çados por uma dada língua-fonte transportar para a língua-alvo. A depender do contexto, do objetivo, não há prejuízo do sentido da mensagem como um todo em se traduzir algo que denomine “irmão maior” apenas por “irmão”, mas é tarefa do tradutor, por intermédio de seu bom senso e, principalmente, pelo domínio das línguas envolvidas, julgar quando isso é possível. Ao encontro desse posicio- namento, tem-se que:

[

...

]

todo texto é alguma coisa mais do que a simples soma das palavras que o compõem. O

que devemos traduzir é sempre algo mais, isto é, a mensagem. E não há duas línguas que

exprimam uma mensagem de certa complexidade de modo completamente igual. A língua A ora explicita algo que na língua B fica subentendido; ora deixa de exprimir, por óbvio, algo que naquela exige uma ou várias palavras. (RÓNAI, 1976, p. 48-49)

O autor cita como exemplo disso o emprego de palavras não nocionais, sem sentido, que servem “apenas” como instrumentos gramaticais e que, em teoria,

não oferecem problemas ao tradutor. Para ilustrar, Rónai toma o caso do artigo

definido, “essa palavrinha tão inexpressiva [

...

]”.

O problema estaria posto, segun-

do ele, quando se traduz de uma língua-fonte sem essa categoria de palavra para uma língua-alvo possuidora do artigo definido. Assim é o caso de uma tra- dução do latim para o português. “Cada vez que num texto latino ocorre um substantivo o tradutor opta, ainda que inconscientemente, entre três soluções:

fazendo-o preceder de artigo definido, ou indefinido, ou deixando-o sem artigo

nenhum” (1976, p. 49).

Além disso, o autor cita o caso de um filme francês cujo título teve que ser mudado pelo autor, obrigado pela censura. O título original “La femme mariée”, modificado para “Une femme mariée”, podia passar a ideia, segundo o censu- rador, de que todas as mulheres casadas praticavam o adultério pela presença do artigo definido “La”. Agora imagine, se isso pode ocorrer com o artigo, con- siderado por muitos como “sem sentido”, que outros problemas um tradutor ou intérprete não encontra no momento de pôr dois mundos em contato. Afinal, esse contato não é direto, é feito por meio do trânsito entre duas línguas. Como as línguas recortam o mundo ao seu redor de modos diferentes, também a tra- dução e interpretação é um recorte de mundo. Recorte à medida que precisa “descobrir” qual a mensagem central a ser passada, qual o significado preten- dido, e também deve eleger as formas (palavras, estruturas gramaticais, o tom)

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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação Observe que a diferença não

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

nas quais incrustar tal mensagem, sem perder de vista, contudo, o impacto que as escolhas da forma podem gerar sobre o conteúdo, como bem ilustra o caso citado por Rónai. A seguir, no texto complementar você pode refletir sobre o as- sunto desta aula em relação ao domínio da Libras e do português. Boa leitura!

Texto complementar

Contrastes entre a Língua Brasileira de Sinais e a língua portuguesa

[ ] ...

(QUADROS, 2007, p. 68-71)

Estes dois trechos de tradução e interpretação simultânea do português para a Língua Brasileira de Sinais evidenciam a grande perda de informação durante o processo, bem como a distorção da informação em vários momen- tos. Não há observância da estrutura da língua de sinais em várias passagens, as escolhas lexicais são inadequadas e o conteúdo semântico é mudado, por exemplo:

(1)

...

TEMPERATURA DIMINUIR BAIXO FRIO MUITO C-I-L-I-C-A MUITO CO-

LOCAR G-S MISTURAR (versão do intérprete)

baixa temperatura, altas quantidades de celíaca, altas quantidades de gases nestas celíacas (versão em português)

...

Na língua brasileira de sinais, a estrutura equivalente seria:

(1a)

...

T-E-M-P-E-R-A-T-U-R-A

IX<CELIACA>

BAIXA,

C-E-L-I-A-C-A

ALTO,

G-S ALTO

O intérprete escolheu o sinal DIMINUIR ao invés do sinal BAIXA, acres- centou a informação FRIO que não consta na versão original, não utilizou o anafórico para indicar que na celíaca havia altas quantidades de gases, modi-

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação nas quais incrustar tal mensagem,
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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

ficando o significado da sentença dizendo que os gases se misturaram com a celíaca. Além disso, utilizou o sinal MUITO para indicar ALTO.

Em quase todas as passagens encontram-se distorções graves desse tipo. Isso evidencia a falta de domínio das línguas utilizadas pelos intérpretes e a falta de habilidade em realizar a tradução e interpretação simultânea.

Também foram observados acréscimos de informações. O intérprete faz uma interpretação do que está sendo dito e oferece explicações pessoais a respeito do conteúdo que está sendo ministrado pelo professor. Veja a se- guinte passagem:

A medida que vai diminuin- do, começa a aumentar a quan- tidade dos outros. Olha aqui ó ... Principalmente porque há ferros magnesianos.

JUNTO SURGIR M-A-G-M-A-S TAMBÉM PEDRA G- R-A-N-I-T-I-N-0 <HN> POR CAUSA M-A-G-M-A-S TER MAIS MAIS SURGIR Q-U-A-R-T-Z-O C- I-L-I-C-A DIMINUIR DIMINUIR COME- ÇAR OUTRO AUMENTAR AUMENTAR C-I-L-I-C-A DIMINUIR

0 que são ferros magnesianos?

Temos os minerais. Eu vou falar dos minerais magnos e feltono (?)

Ferro M-A-G-N-E-S-I-A-N-0 au- mentar junto mais mais mais N-I-Q- U-E-L diminuir

Vejam que nessa passagem, o intérprete tirou conclusões sobre o conteú- do ministrado pelo professor e ofereceu suas conclusões na língua-alvo.

Outra constatação da pesquisa se refere à qualidade da interpretação. Na medida em que o tempo passa, se perde qualidade na interpretação. Os erros nas escolhas lexicais, os erros nas decisões quanto ao significado são progressivamente muito maiores após a primeira hora de interpretação simultânea.

Um problema comum observado entre os intérpretes em sala de aula, principalmente após algum tempo de interpretação simultânea, embora tenha sido encontrado em alguns casos também no início da atuação, foi a simplificação das informações. A amostra de Amy evidencia esse aspecto:

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93

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação ficando o significado da sentença

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

A medida que vai diminuin- do, começa a aumentar a quan- tidade dos outros. Olha aqui ó ... Principalmente porque há ferros magnesianos.

JUNTO SURGIR M-A-G-M-A-S TAMBÉM PEDRA G- R-A-N-I-T-I-N-0 <HN> POR CAUSA M-A-G-M-A-S TER MAIS MAIS SURGIR Q-U-A-R-T-Z-O C- I-L-I-C-A DIMINUIR DIMINUIR COME- ÇAR OUTRO AUMENTAR AUMENTAR C-I-L-I-C-A DIMINUIR

0 que são ferros magnesianos?

Temos os minerais. Eu vou falar dos minerais magnos e feltono (?)

Ferro M-A-G-N-E-S-I-A-N-0 au- mentar junto mais mais mais N-I-Q- U-E-L diminuir

E o que eu tenho?

TEM SINAL (SIGNIFICADO) MEU <HN>

Aquilo que tem um significado para mim. O que não tem signifi- cado, eu não vou selecionar.

ASPAS TEM SINAL MEU <HN> CO- LOCAR PEGAR COLOCAR PEGAR

Como se forma isso?

Então, como é?

Eu já tenho um conhecimento prévio e adquiro um conhecimen- to novo.

AGORA CONHECER NOVO PRECI- SA APRENDER MELHOR

Essas amostras ilustram os seguintes problemas identificados no proces- so de tradução e interpretação da língua portuguesa para a língua de sinais:

  • 1. omissão de informações dadas na língua-fonte;

  • 2. acréscimos de informações inexistentes na língua-fonte;

  • 3. distorções semânticas e pragmáticas em menor ou maior grau do con- teúdo veiculado na língua-fonte;

  • 4. escolhas lexicais inapropriadas.

Os comprometimentos gerados a partir destes problemas são tão gran- des que as questões estruturais ficaram em segundo plano. As estruturas lin-

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação A medida que vai diminuin-
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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

guísticas utilizadas apresentam inadequações, mas o comprometimento no nível semântico é tão maior e as escolhas lexicais são tão equivocadas que inviabilizaram a análise no nível puramente estrutural.

A existência de problemas dessa ordem evidencia que a necessidade de profissionalização do Intérprete de Língua de Sinais através de formação e qualificação permanente é urgente. Os intérpretes precisam de instrumen- talização formal para atuar nessa profissão.

Dicas de estudo

Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Cintra, editora Lexikon, 2008.

Celso Cunha e Lindley

Obra de referência sobre a norma culta do português do Brasil. Pode e deve ser usada como recurso de consulta e estudo para o melhor domínio das estru- turas da língua portuguesa.

Língua de Sinais Brasileira: estudos linguísticos, de Ronice Müller de Quadros e Lodenir Becker Karnopp, editora Artmed, 2004.

Embora se recomende a leitura de toda a obra, os capítulos de 2 a 4 se cons- tituem em valiosa ferramenta de estudo e consulta para o desenvolvimento do domínio das estruturas linguísticas da Libras, principalmente porque os exem- plos são dados em língua de sinais, e não apenas em glosas da Libras.

Atividades

  • 1. Discuta a necessidade de domínio das línguas envolvidas no ato interpreta- tivo e tradutório levando em consideração (1) distorções semânticas e prag- máticas em menor ou maior grau do conteúdo veiculado na língua-fonte e (2) escolhas lexicais inapropriadas identificadas por Quadros (2007) nas amostras de interpretação da língua portuguesa para a língua de sinais que serviram de base para o seu trabalho.

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

  • 2. Discuta a diferença de marcação anafórica na Libras e no português e a que se deve tal diferença.

  • 3. Com base no discutido na aula sobre variação linguística regional na Libras, qual seria o posicionamento adequado do tradutor e intérprete quanto ao uso de uma “variedade padrão”?

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

Referências

AVELAR, Thaís Fleury. Entrevista com tradutores surdos do curso de Letras Libras da UFSC: discussões teóricas e práticas sobre a padronização linguística na tra- dução de Língua de Sinais. In: QUADROS, Ronice Müller de; STUMPF, Marianne Rossi (Orgs.). Estudos Surdos IV. Petrópolis: Arara Azul, 2009.

MALMBERG, Bertil. A Língua e o Homem. Tradução de: LOPES, M. Rio de Janeiro:

Nórdica Ltda., 1976.

QUADROS, Ronice Müller de. O Tradutor e Intérprete de Língua Brasileira de Sinais e Língua Portuguesa. Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos. MEC, 2007.

QUADROS, Ronice Müller de; KARNOPP, Lodenir Becker. Língua de Sinais Brasi- leira: estudos linguísticos. Porto Alegre: Artmed, 2004.

QUADROS, Ronice Müller de; SOUZA, Saulo Xavier de. Aspectos da tradução/en- cenação na Língua de Sinais Brasileira para um ambiente virtual de ensino: prá- ticas tradutórias do curso de Letras Libras. In: QUADROS, Ronice Müller de (Org.). Estudos Surdos III. Petrópolis: Arara Azul, 2008.

RÓNAI, Paulo. A Tradução Vivida. Rio de Janeiro: EDUCOM, 1976.

_____.

Escola de Tradutores. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

Gabarito

  • 1. O esperado é que o aluno reconheça que essas falhas seriam mais facilmente evitadas se os profissionais tivessem pleno domínio das línguas envolvidas na interpretação. Pleno domínio que consiste em usar as línguas e conhecer como funcionam, sua estrutura, de forma a usar esses conhecimentos como instrumentos de trabalho, solucionando problemas.

  • 2. O aluno, preferencialmente, deve mostrar os recursos empregados para o emprego da anáfora em cada língua e usar exemplos, reconhecendo que a diferença de recursos se deve à modalidade divergente de língua. No portu- guês, as relações anafóricas podem ser estabelecidas por meio de pronomes. Como no seguinte caso “Eu falei com Maria, ela me disse que estava tudo

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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação Referências AVELAR, Thaís Fleury. Entrevista

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

bem”, em que “ela” retoma “Maria”. Na língua de sinais, essa relação é estabe- lecida através do uso do espaço. A partir do momento que se estabelece uma posição no espaço para um referente, toda vez que for necessário retomá-lo o sinalizante volta àquele espaço preestabelecido. Assim, na Libras, o “eu” é referenciado no corpo do próprio sinalizante, e o “Maria” pode ser referencia- do à esquerda de seu corpo, no espaço neutro, assim, quando precisar falar de Maria novamente, o sinalizante apontará para a sua esquerda.

  • 3. A resposta mínima deve contemplar o fato de a Libras ainda não ter o que se possa chamar, a rigor, de uma variedade padrão, mas que o desejável é que o intérprete leve em consideração que deve usar os sinais comuns à co- munidade de fala para a qual se dirige, empregando regionalismos só se o objetivo do palestrante estiver especificamente relacionado a eles, podendo ser alcançado apenas por meio do emprego dos mesmos.

O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação bem”, em que “ela” retoma
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O domínio das línguas envolvidas no ato de tradução e interpretação

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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

Não poucas vezes, estudante, você encontrou menções à tarefa do tra- dutor e intérprete como a de traduzir discursos, enunciados, aquilo que outro (palestrante, professor, médico, advogado etc.) profere. Até então, não se havia, contudo, discutido do que se trata o objeto de tradução e interpretação, não foi explicitado até aqui o que se entende por discursos, enunciados, sobre aquilo que tradutor e intérprete devem transpor para a língua-alvo. Esta aula traz como objetivo a compreensão da natureza em que se apresenta o objeto de trabalho do tradutor e do intérprete: os gêneros discursivos. Assim, ao longo deste texto, a intenção é levar você à reflexão sobre a adequação necessária da interpretação ao gênero discur- sivo, assim como estabelecer diretrizes para a realização dessa tarefa.

De modo a alcançar o objetivo proposto, a problemática do gênero discursivo será apresentada sob a óptica bakhtiniana, base sobre a qual se desenvolverão as orientações para o trabalho prático de interpretação e tradução dos gêneros.

O que é gênero discursivo

O conceito de gêneros do discurso encontra-se inextricavelmente re- lacionado ao de enunciado, visto que Bakhtin concebe os gêneros do dis- curso como tipos relativamente estáveis de enunciado, elaborados con- soante as necessidades comunicativas advindas de diferentes interações sociais nos mais variados campos da atividade humana (esferas sociais).

O autor, ao se referir a tipos relativamente estáveis, tem em vista que os enunciados, por serem construídos historicamente, apresentam certa normatividade quanto a suas características, podendo, todavia, sofrer al- gumas modificações devido ao desenvolvimento ou surgimento de novas esferas sociais, a fim de cumprirem novas necessidades oriundas desse desenvolvimento. Daí a riqueza e a diversidade infinita dos gêneros dis- cursivos, pois, uma vez que são ligados às situações sociais de interação, qualquer mudança nessa interação gerará mudanças no gênero.

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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar Não poucas vezes, estudante, você encontrou menções à tarefa do

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

Segundo Bakhtin (2003, p. 262), nossas trocas comunicativas (interação verbal) se dão apenas por intermédio dos gêneros discursivos, posto que “[ ] ... cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso”. Em outras palavras, isso significa que o discurso se apre- senta na forma de enunciados, que são sempre construídos conforme determi- nados gêneros. Cada gênero discursivo, por sua vez, vincula-se a uma determi- nada situação social de interação, dentro de uma esfera social; tem sua finalidade discursiva, sua própria concepção de autor e destinatário. Nesse sentido,

[a] vontade discursiva do falante se realiza antes de tudo na escolha de um certo gênero de discurso. Essa escolha é determinada pela especificidade de um dado campo da comunicação

[

...

]

discursiva, por considerações semântico-objetais (temáticas), pela situação concreta da comunicação discursiva, pela composição pessoal de seus participantes etc. (BAKHTIN, 2003, p. 282, grifo do autor)

Nesse caso, ao se falar ou escrever algo, o autor do discurso, ao dar forma ou expressão a um tema, precisa partir de uma escolha primária: o gênero discur- sivo em que vai incrustar o seu tema. Essa escolha é balizada por vários fatores, como o próprio conteúdo a respeito do qual se pretende discorrer, chamado na teoria bakhtiniana de objeto do discurso. Certos temas são mais bem explorados dentro de determinados gêneros, que também são eleitos conforme o públi- co com o qual a interação verbal é estabelecida, bem como os objetivos perse- guidos na interação – expor, convencer, emocionar, justificar-se, interpelar etc. – e também são determinados pela esfera social em que a troca comunicativa ocorre. Um discurso de convencimento produzido na e para a esfera política não se apresentará no mesmo gênero discursivo de um discurso de convencimento produzido no campo da religião. Isso é o que se pretende dizer ao afirmar que a esfera social determina, também, o gênero discursivo. Do mesmo modo, na esfera política, um discurso de convencimento dirigido a líderes do governo não tomará a mesma forma de um dirigido a sindicalistas opositores ao governo.

Com o exposto até aqui, pode-se dizer que os gêneros discursivos pertencem à esfera social na qual são produzidos, havendo, inclusive, a possibilidade de um dado gênero não se materializar em outras esferas, bem como não ser útil ao tratamento de determinado objeto do discurso. Na esfera do campo científico – é bom observar que dentro de cada esfera há subdivisões –, por exemplo, há diferentes gêneros que servem para o cumprimento de objetivos específicos, para o tratamento de determinados temas, que se dirigem a diferentes públicos. Nesse sentido, a diferença entre uma tese e uma resenha, não se considera aqui a resenha literária, pode, grosso modo, ser traçada de acordo com as caracterís- ticas do quadro a seguir:

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar Segundo Bakhtin (2003, p. 262), nossas trocas comunicativas (interação verbal)
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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

Determinantes do

     

gênero discursivo

 

Tese

 

Resenha

Esfera social

Acadêmico-Científica.

 

Acadêmico-Científica.

 

Objeto do discurso

Conteúdo inovador, inexplora-

Conteúdo

explorado

por

do no campo do saber no qual a tese se insere.

outrem.

Objetivo

Comprovar

uma

hipótese

Resumir, apresentar a ideia de

científica e, claro, obter o título de doutor.

um dado autor sobre um de- terminado assunto desenvol- vido em um livro, um artigo, uma tese, dissertação etc.

Público

O apreciador imediato de uma tese é a banca que a julga, além de considerar um leitor ideal, posterior, o autor da tese pre- cisa considerar como os seus leitores imediatos percebem o tema tratado, em que pon- tos pode haver conflito, como dissolvê-los. É um texto produ- zido, na maioria das vezes, na e para a academia. Avalia-se o autor em relação a quão bem conseguiu explorar o tema es- colhido, quão bem-sucedido foi na comprovação de sua hipótese. O leitor imediato de uma tese não tem como obje- tivo principal adquirir conheci- mento, mas antes julgar quão bem o autor da tese construiu conhecimento.

Pode ser elaborada apenas como um trabalho de curso de graduação, em que o público é o professor avaliador, ou pode ser elaborada para divulgação de obra científica, lidando, nesse caso, com um público já iniciado no tema tratado, que tenha interesse no mesmo e cujo objetivo é avaliar não a resenha enquanto gênero ou o autor da resenha, mas deci- dir se o livro resenhado é inte- ressante para ele a ponto de querer lê-lo. O autor da rese- nha não constrói conhecimen- to, ele o torna conhecido, seu leitor tem como objetivo saber se esse conhecimento lhe inte- ressa ou não.

Não se assuste, estudante, com afirmações como a de que um dos objetivos da tese é a obtenção do grau de doutor. Em termos práticos, isso é assim. Na esfera da produção do saber científico, para avançar em graus de “quão entendi- do” – especializado – alguém é em um assunto, é necessário passar pelas institui- ções de Ensino Superior e atender aos requisitos estipulados por elas. Não fosse a exigência de uma tese para a obtenção do título de doutor, possivelmente esse gênero discursivo não existiria. Isso está de acordo com o que diz Bakhtin ao afirmar que gêneros discursivos nascem e se modificam conforme as novas necessidades das esferas sociais. E se não houvesse o gênero tese, também não significa a impossibilidade de se tratar de assuntos inovadores na área da ciên- cia; há para isso o ensaio científico, que compartilha com a tese a característica de comprovação de uma hipótese, mas que se diferencia em aspectos como, por exemplo, público-alvo.

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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar Determinantes do gênero discursivo Tese Resenha Esfera social Acadêmico-Científica. Acadêmico-Científica.

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

Voltando ao início dessa discussão, se Bakhtin concebe os gêneros do dis- curso como tipos relativamente estáveis de enunciado, isso implica que cada gênero apresenta formas de enunciação que lhes são típicas, dito de outro modo, apresenta formas linguísticas que devem corresponder de maneira ade- quada a seu projeto discursivo. O gênero, então, determina, em certa medida, o que se esperar em termos de construções sintáticas e de campo semântico das palavras empregadas.

Sabendo que o gênero discursivo é o corpo e a vestimenta de uma ideia, uma identidade para o objeto do discurso, a pergunta que você deve estar fazendo é: o que isso tem a ver com o desempenho do meu trabalho na condição de tradutor e intérprete?

Por que levar em conta o gênero discursivo na interpretação

Por mais de uma vez, estudante, na leitura dos textos desta disciplina, você se deparou com a afirmação de que a tarefa do intérprete e tradutor é traduzir discursos, seja na forma oral ou na forma escrita. Isso significa que o objeto do discurso do intérprete é o discurso produzido por uma outra pessoa, um discur- so elaborado num gênero específico, com suas características e fins próprios. É preciso estar clara, então, a necessidade de respeito ao projeto discursivo construído pelo autor que está sendo traduzido. Sobre isso, convém apreciar o seguinte:

[

...

]

o tradutor é aquele que vai transformar e produzir significados, gerar formas recriadas na

língua para a qual traduz. A tarefa neste caso é um refazer o texto numa outra voz; voz que

faz ecoarem as significações culturais que trabalharam essa língua. Vale a pena saber algo sobre as convenções do tipo ou do gênero textual para saber traduzir o texto da maneira mais adequada. (ROSA, 2008, p. 103)

Embora haja uma divergência de nomenclatura, gênero discursivo e gênero textual, em termos práticos, Rosa está se referindo à necessidade de levar em conta a identidade do discurso e mantê-la, na medida do possível, durante a interpretação. Vem em socorro dessa questão da identidade do gênero, o escla- recimento de Rodrigues:

para Bakhtin os gêneros também são formas de ação: na interação, eles funcionam como

[

]

... índices de referência para a construção dos enunciados, pois balizam o autor no processo

discursivo, e como horizonte de expectativas para o interlocutor, no processo de compreensão e interpretação do enunciado (a construção da reação-resposta ativa). (RODRIGUES, 2004, p. 423)

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar Voltando ao início dessa discussão, se Bakhtin concebe os gêneros
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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

É possível depreender que o gênero não só serve de referência para a constru- ção dos enunciados, determinando sua apresentação linguística, mas também faz com que o interlocutor crie expectativas que o auxiliam no entendimento do enunciado. Sob tal perspectiva, o intérprete precisa ter em mente que o interlo- cutor do gênero discursivo interpretado imaginado pelo autor não é ele, e sim o público para quem o intérprete traduz, daí o dever do intérprete de manter o discurso do autor no gênero escolhido por ele. É o conhecimento desse gênero que permitirá, primeiro ao intérprete, depois ao público-alvo, fomentar estra- tégias de compreensão sobre a mensagem recebida. Assim, por exemplo, uma ironia é entendida de forma diferente no bojo do gênero discursivo piada da- quela como é compreendida no gênero da carta de diplomacia, principalmente entre países cujas relações não são amistosas.

Tudo isso leva à conclusão de que, para poder atuar bem na interpretação, o profissional precisa dominar, assim como o autor da mensagem traduzida, os gêneros do discurso de várias esferas, haja vista que “muitas pessoas que domi- nam magnificamente uma língua sentem amiúde total impotência em alguns campos da comunicação precisamente porque não dominam na prática as formas de gêneros de dadas esferas” (BAKHTIN, 2003, p. 284). Imagine-se, es- tudante, tendo de interpretar uma situação de defesa de tese, você não atuaria como na interpretação de uma discussão de ponto de vista ocorrida nos cor- redores da universidade. De modo similar, no campo religioso, interpretar uma parábola de Cristo não é o mesmo que interpretar uma carta/epístola a um dos discípulos de Jesus.

Tendo consciência disso, são expostos nas seções a seguir alguns dos gêne- ros mais usuais nas esferas sociais em que a atuação do intérprete é requisitada. A ideia é fazer com que você se familiarize com esses gêneros de forma a poder usar esse conhecimento quando preciso for. Tendo em mente que seu processo de formação é contínuo e construído, validado, na prática, é recomendável que durante a leitura das definições e exemplos você reflita, estudante, sobre como respeitar, manter a identidade discursiva do gênero interpretado, como chegar ao ponto de fazer com que poesias, resumos, convites, pronunciamentos, contos infantis etc. sejam reconhecidos na língua-alvo como tais.

Discursos da esfera científica

Entende-se esfera como o campo da atividade humana em que a troca entre os indivíduos ocorre, onde se estabelecem as interações verbais, então a esfera científica abrange gêneros desenvolvidos no campo de atuação científico. Essa

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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar É possível depreender que o gênero não só serve de

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

denominação funciona, nesse caso, como um guarda-chuva, abrigando gêneros discursivos desenvolvidos nas mais diversas áreas de atuação científica.

Tendo em vista que o intérprete de Libras é muito requisitado atualmente nas universidades, tanto em nível de graduação como pós-graduação, nesse mo- mento interessa tratar dos gêneros que circulam na universidade e que servem à investigação científica. Por uma questão de demanda, a discussão se focará nos gêneros discursivos orais, já que o intérprete precisa trabalhar muito mais com discursos orais do que com os escritos. O primeiro deles é o seminário.

O seminário, geralmente, envolve mais de um aluno e consiste num trabalho de exposição sobre um livro, um filme, um artigo científico, em que se procu- ra destacar a ideia principal da obra, seus argumentos, seus pontos fracos. Para tanto, é preciso que o aluno empregue um discurso com início, meio e fim, com citações que demonstrem o que está sendo dito. Também é desejável que ele empregue expressões linguísticas mais próximas da variedade padrão, bem como que atrele seu discurso, o conteúdo dele, ao do autor da obra em discus-

são no seminário. Usará, portanto, construções como: segundo o autor; para ele; conforme a ideia do texto; de acordo com o que o autor defende; o autor entende etc.

É esperado, ainda, que em seminários os alunos sejam capazes de fazer relações com outros temas já vistos em aula, citando o nome do autor, ano da obra etc. Assim, ao interpretar um seminário, seja do português para a Libras ou o contrá- rio, o intérprete deve se esforçar para que fique claro que as ideias ali expostas não são do aluno, são, na verdade, a compreensão construída pelo aluno. Preci- sa, então, respeitar as marcas do discurso relatado, listadas acima. Conhecer a dinâmica de um seminário auxilia nas estratégias empregadas na interpretação.

O segundo gênero a ser abordado é o debate. Nele, há uma ideia de parti- da, geralmente fornecida pelo professor, que precisa ser defendida ou criticada pelos alunos. Para tanto, eles podem empregar argumentos das mais variadas ordens, o de autoridade, que consiste em citar alguma pessoa que tenha um estudo sobre o tema ou dados de pesquisa de órgãos oficiais do governo, por exemplo; o baseado no senso comum das pessoas; pode apelar, inclusive, para crenças pessoais das pessoas envolvidas no debate, uma vez que a intenção é

convencer. Expressões como: eu acredito; com base nos dados publicados; tendo em vista a teoria tal; é possível questionar a ideia; esse argumento não tem funda- mento; há contradição entre os argumentos apresentados; é preciso seguir a linha

de raciocínio etc. são usuais em debates, que costumam ser muito mais dinâmicos do que seminários, exigindo muito do intérprete, que precisa se desdobrar para

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar denominação funciona, nesse caso, como um guarda-chuva, abrigando gêneros discursivos
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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

dar conta de traduzir as réplicas àquilo que foi dito, e que também é necessário interpretar. O ideal é que num gênero como esse trabalhassem dois intérpretes, cada um interpretando um lado, o que defende e o que critica.

Por fim, há de se tratar do gênero palestra. Ele extrapola o limite da sala de aula, envolve, muitas vezes, alunos de vários cursos, ou de níveis diferentes de um mesmo curso. O palestrante pode ser da instituição em que o intérprete tra- balha ou não. O gênero palestra consiste, fundamentalmente, numa exposição, que, a depender dos objetivos do palestrante e do evento no qual ela é apresen- tada, pode versar sobre um tema com base nas ideias do próprio palestrante, de- senvolvidas em pesquisa anterior; sobre um tema na óptica de um determinado teórico, por exemplo, a concepção de língua para Chomsky; sobre um tema na perspectiva de vários teóricos, por exemplo, a concepção de língua para Saus- sure, Chomsky, Humboldt, Bakhtin; ou ainda vários temas abordados na óptica de um teórico, por exemplo, língua, literatura e crítica literária no pensamento bakhtiniano; entre outras possibilidades. Aqui também há um discurso que será entremeado por citações, considerações do palestrante sobre o que está sendo abordado, além da própria exposição em si.

Em comum entre todos esses gêneros, há pontos como a exigência de uma linguagem mais formal, que deve ser considerada; o fato de serem discursos pre- parados previamente e, consequentemente, terem uma versão escrita, a qual, de preferência, o intérprete deve ter acesso; de lidarem com a exposição de saberes, que é uma forma de construir e adquirir conhecimento, característica que justi- fica a importância de os intérpretes procurarem traduzir o que é dito no gênero em que é dito, pois a escolha de um dado gênero discursivo, como visto anterior- mente, não se dá aleatoriamente.

Discursos da esfera literária

Assim como a esfera científica recobre uma variedade de gêneros, o mesmo acontece com o campo literário. Ainda que se tenham poucos trabalhos nessa área, já que envolve a tradução de textos escritos para Libras, é interessante se acercar das possibilidades que podem ser encontradas também no trabalho reali- zado em universidades e escolas. Afinal, tal como os campos de atuação dos indi- víduos se entrecruzam, também alguns gêneros discursivos podem ser encontra- dos em contextos que não o de sua origem. Nesse sentido, não raro, intérpretes se veem às voltas durante uma aula de literatura, por exemplo, em que textos como poemas, crônicas, contos, romances, teatro, entre outros, são abordados.

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107

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar dar conta de traduzir as réplicas àquilo que foi dito,

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

Para o momento, considera-se mais proveitoso a análise de poemas, posto que estes são mais frequentemente citados na íntegra durante uma aula. Crôni- cas, contos, novelas, peças teatrais são geralmente comentadas, não há, também, como se apropriar da unidade de uma obra como um romance apenas por meio de um trecho. Os poemas – excetuando-se os épicos, como Os Lusíadas –, por sua extensão, se prestam mais facilmente a uma análise de um todo completo.

O grande problema da tradução da literatura, aqui considerada somente em relação ao gênero poema, é que, enquanto a linguagem cotidiana busca a con- vergência, trabalhando no sentido da redução das diferenças, a fim de facilitar a comunicação, a literatura busca a divergência – sendo o campo por excelên- cia das individualidades, da busca do singular e do inaudito. Como a literatura busca a singularidade, a sua tradução não pode desconsiderar esse aspecto. É necessário, então, lidar com uma linguagem com características especiais na in- terpretação de poemas. Vale dizer que mesmo ao falar do gênero poema está-se ainda num nível abrangente, pois há diferentes gêneros no campo poético. Há sonetos, quadras etc. que são chamados de poemas de forma fixa, pois precisam respeitar certas regras de composição, como número de versos, estrofes, tipos de rima e também há poemas de forma livre, em que não se têm regras a seguir quanto ao limite de estrofes, versos, tipos de rima etc.

A tradução de literatura é problemática porque muitos dos recursos estilísti- cos disponíveis numa língua não o são em outra, nem sempre é possível encon- trar equivalências para jogos de palavras, rimas, certas construções sintáticas. Mesmo assim, a função do intérprete é, ao menos, levar ao conhecimento do público-alvo da interpretação que o objeto do discurso se trata de uma poesia, que detém características linguísticas especiais. Não se pretende, com isso, dizer que o intérprete deve encontrar meios de reproduzir rimas em Libras, por exem- plo, mas sim se esforçar para manter, quando possível, a metaforização da lin- guagem, sua beleza, a emoção que percorre o poema. Nesse sentido, saber a diferença entre um poema modernista e uma epopeia é de uma ajuda inestimá- vel durante o processo de interpretação, pois o profissional sabe o que esperar, cria expectativas que o auxiliam na interpretação. Nesse caso, o intérprete pode formular hipóteses como:

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar Para o momento, considera-se mais proveitoso a análise de poemas,
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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

 

Epopeia

Poema modernista

Linguagem rebuscada

 

Linguagem do dia a dia

Tema: feitos heroicos, grandio- sos

Tema: assuntos da vida coti- diana; problemas universais da humanidade, engajamento político etc.

Características esperadas quanto à forma, conteúdo e objetivos dos gêneros discursivos epopeia e po- esia modernista

Uma narrativa extensa na for- ma de versos

Sem forma fixa: pode ser em verso, ou não, narrativo ou não etc.

A rima pode ocorrer ou não

A rima pode ocorrer ou não

Envolve uma espécie de elo- gio e narrativa de uma época, de uma nação, de um herói nacional

Envolve reflexão sobre a vida, galhofa, ironias, língua etc.

Sem

experimentalismo

esté-

Experimentalismo estético

tico

Você percebe com isso, estudante, que uma das tarefas do profissional intér- prete, para o bom exercício de sua função, é ler tanto quanto puder, de forma a conhecer os diferentes gêneros a interpretar. Quanto mais conhecer, tanto melhor, pois nunca se sabe quando precisará interpretar levando em conta um gênero discursivo pouco usual.

Discursos da esfera cotidiana

Conforme Silvestri e Blanck (1993), pode-se falar de tipos específicos de rea- lização de gêneros da linguagem cotidiana somente onde existam formas de intercâmbio comunicativo cotidiano que sejam de algum modo estáveis, fixadas pelo hábito e pelas circunstâncias. Conclui-se, assim, que não se pode chamar de gênero discursivo a toda e qualquer conversação do dia a dia, é mister que elas sejam de algum modo estáveis, fixadas pelo hábito e pelas circunstâncias.

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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar Epopeia Poema modernista Linguagem rebuscada Linguagem do dia a dia

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

Pense no caso de apresentação de pessoas, há uma forma um tanto estável de apresentar pessoas desconhecidas, de fazê-las adentrar a um dado círculo social. Também apresentam formas fixadas pelo hábito a despedida, ao final de um encontro; um convite para participar de algum pequeno evento social ou mesmo um passeio; justificativa ao faltar a um compromisso etc. Se você pensar bem, conseguirá vislumbrar expressões típicas dessas situações interacionais

que se constituem em gêneros da esfera cotidiana, tais como: esse é o fulano; ele trabalha há tantos anos na empresa tal; é um prazer conhecê-lo; o prazer é meu;

nos vemos em breve; é sempre um prazer falar com você; você não pode falar; você não ir seria como uma desfeita; eu lamento; me desculpe pelo inconveniente; não foi minha intenção etc.

Os gêneros da esfera do cotidiano são tão variados quanto as trocas comuni- cativas estabelecidas no dia a dia. Talvez por se tratar de discursos vivenciados a todo momento, sejam os que menor complexidade apresentam ao intérpre- te. Mesmo assim, requerem também apreciação do profissional. Imagine que você acompanha um cliente numa entrevista de emprego, ali ocorrerão enun- ciações, com construções sintáticas e vocabulário específicos, que não se veem em outras circunstâncias. O nível da linguagem a ser empregado nos gêneros da esfera cotidiana depende de com quem a interação social ocorre, onde e com que objetivo.

Para concluir, cabe a observação de Quadros (2007, p. 80) sobre a visão a ser adotada pelo intérprete no desenvolvimento de seu trabalho, a interpretação, “uma visão que enfatiza o discurso, que entende que as pessoas usam a lingua- gem para fazer coisas e que sempre acontece com objetivos específicos através de convenções sociais, linguísticas, interativas e estilos conversacionais, deve ser considerada”. Portanto, a escolha dos gêneros não é mero detalhe, antes, de- termina e revela muito sobre as intenções discursivas do falante, que persegue objetivos específicos, por meio de estratégias discursivas específicas, adequadas ao seu público e ao contexto histórico vivenciado. Se o intérprete pretende ser fiel ao conteúdo do que traduz, um bom começo é tentar considerar as caracte- rísticas preservando-as, tanto quanto possível, do gênero discursivo eleito pelo autor para o projeto discursivo que tem em mente.

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar Pense no caso de apresentação de pessoas, há uma forma
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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

Texto complementar

Os gêneros do discurso na perspectiva bakhtiniana

(LIMA, 2009, s/p)

A comunicação é indispensável para os seres humanos. Ela pode se dar por meio de diversas manifestações linguísticas, como a escrita, a oralida- de, os sons, os gestos, as expressões fisionômicas etc. Segundo Bakhtin, tais manifestações são bastante diversificadas, pois estão relacionadas às muitas esferas da atividade humana. Bakhtin (1997, p. 290) trata do uso da língua nas atividades humanas:

Todas as esferas da atividade humana, por mais variadas que sejam, estão sempre relacionadas com a utilização da língua. Não é de surpreender que o caráter e os modos

dessa utilização sejam tão variados como as próprias esferas da atividade humana [

]

A

utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos,

que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera da atividade humana. O enunciado

reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas [

cada esfera

]

isso que denominamos gêneros do discurso.

Neste trecho podem-se perceber três conceitos principais: língua, enun- ciado e gêneros do discurso. Essas entidades, para Bakhtin, estão intimamente relacionadas, para o bom funcionamento da comunicação. As vastas varieda- des das esferas da atividade humana dão origem a vários gêneros do discur- so, que segundo Bakhtin resultam em formas-padrão “relativamente está- veis” de um enunciado, determinadas sócio-historicamente. Bakhtin vai mais além, ao referir que só nos comunicamos, falamos e escrevemos por meio de gêneros do discurso. Os gêneros estão no dia a dia dos sujeitos falantes, os quais possuem um infindável repertório de gêneros, muitas vezes usados in- conscientemente. Até nas conversas mais informais, por exemplo, o discurso é moldado pelo gênero em uso. Tais gêneros, segundo Bakhtin (1997, p. 282), nos são dados “quase da mesma forma com que nos é dada a língua mater-

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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar Texto complementar Os gêneros do discurso na perspectiva bakhtiniana (LIMA,

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

na, a qual dominamos livremente até começarmos o estudo da gramática”. Os gêneros do discurso sofrem constantes atualizações ou transformações. A este respeito, Bakhtin (1997, p. 106) diz que “o gênero sempre é e não é ao mesmo tempo, sempre é novo e velho ao mesmo tempo.” Essa passa- gem, de certa forma, explica o “relativamente estável”, pois, bem como a sociedade, os gêneros também se modificam para atender às necessidades dessa sociedade. Como, por exemplo, a carta, meio de comunicação bastan- te usado em épocas anteriores. Hoje, de certa forma, perdeu espaço para o e-mail, haja vista que a sociedade atual necessita de agilidade e rapidez na transmissão das informações; necessidade esta que a carta não é capaz de suprir. No entanto, a carta não deixou de existir. O que houve foi uma modi- ficação, uma atualização do gênero carta, para melhor atender à sociedade. A este respeito Bakhtin (1997, p. 284) diz que:

Cada esfera conhece seus gêneros, apropriados à sua especificidade, aos quais correspondem determinados estilos. Uma dada função (científica, técnica, ideológica, oficial, cotidiana) e dadas condições, específicas para cada uma das esferas da comunicação verbal, geram um dado gênero, ou seja, um dado tipo de enunciado, relativamente estável do ponto de vista temático, composicional e estilístico.

Sabe-se que os gêneros vão sofrendo modificações em consequência do momento histórico em que estão inseridos. Cada situação social dá origem a um gênero com suas características peculiares. Levando-se em consideração a infinidade de situações comunicativas e que essas só são possíveis graças à utilização da língua, pode-se perceber que infinitos também serão os gê- neros. Bakhtin relaciona a formação de novos gêneros ao aparecimento de novas esferas da atividade humana, com finalidades discursivas específicas. Essa imensa heterogeneidade fez com que Bakhtin propusesse uma primeira grande “classificação”, dividindo os gêneros do discurso em dois grupos: pri- mários e secundários. Os primários relacionam-se às situações comunicativas cotidianas, espontâneas, informais e imediatas, como a carta, o bilhete, o diá- logo cotidiano. Os gêneros secundários, geralmente mediados pela escrita, aparecem em situações comunicativas mais complexas e elaboradas, como o teatro, o romance, as teses científicas etc. Tanto os gêneros primários quanto os secundários possuem a mesma essência, em outras palavras, ambos são compostos por fenômenos da mesma natureza, os enunciados verbais. O que os diferencia é o nível de complexidade em que se apresentam.

Segundo Bakhtin (1997, p. 281):

Não há razão para minimizar a extrema heterogeneidade dos gêneros do discurso e a consequente dificuldade quando se trata de definir o caráter genérico do enunciado.

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar na, a qual dominamos livremente até começarmos o estudo da
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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

Importa, nesse ponto, levar em consideração a diferença essencial existente entre o gênero do discurso primário (simples) e o gênero do discurso secundário (complexo). Os gêneros secundários do discurso – o romance, o teatro, o discurso científico, o discurso ideológico etc. – aparecem em circunstâncias de uma comunicação cultural mais complexa e relativamente mais evoluída, principalmente escrita: artística, científica, sociopolítica. Durante o processo de sua formação, esses gêneros secundários absorvem e transmutam os gêneros primários (simples) de todas as espécies, que se constituíram em circunstâncias de uma comunicação verbal espontânea. Os gêneros primários, ao se tornarem componentes dos gêneros secundários, transformam-se dentro destes e adquirem uma característica particular: perdem sua relação imediata com a realidade existente e com a realidade dos enunciados alheios ...

Além dos aspectos sócio-históricos, devem-se levar em consideração outros aspectos, como espaço e tempo, tratados por Machado (2008, p. 158-159):

O gênero não pode ser pensado fora da dimensão espácio-temporal. Logo, todas as formas de representação que nele estão abrigadas são, igualmente, orientadas pelo

espaço-tempo [

]

O cronotopo trata das conexões essenciais de relações temporais e

... espaciais assimiladas artisticamente na literatura. Enquanto o espaço é social, o tempo é sempre histórico. Isso significa que tanto na experiência quanto na representação estética o tempo é organizado por convenções. Os gêneros surgem dentro de algumas tradições com as quais se relacionam de algum modo, permitindo a reconstrução da imagem espácio-temporal da representação estética que orienta o uso da linguagem: ‘o gênero vive do presente mas recorda o seu passado, o seu começo’, afirma Bakhtin. A teoria do cronotopo nos faz entender que o gênero tem uma existência cultural, eliminando, portanto, o nascimento original e a morte definitiva. Os gêneros se constituem a partir de situações cronotópicas particulares e também recorrentes por isso são tão antigos quanto as organizações sociais.

Nesse trecho percebe-se a relação dos gêneros com o espaço e o tempo, característica que Bakhtin denomina cronotopos. O gênero não surge do nada, ele está ligado a uma origem cultural, delimitada por aspectos sociais que estão relacionados ao espaço, e toda cultura possui sua própria história relacionada ao tempo. Daí, o gênero, que nasce dentro de tal cultura, sofrer modificações de acordo com o espaço e tempo.

Dicas de estudo

Linguagem e Diálogo: as ideias linguísticas do círculo de Bakhtin, de Carlos Alberto Faraco, Curitiba, Criar Edições, 2003.

A leitura da obra é indicada para quem ainda não teve contato com o pen- samento bakhtiniano tanto quanto para quem já o conhece. Tal como indica o título, o trabalho centra sua atenção especificamente nas ideias linguísticas do círculo de Bakhtin, apresentando os seus integrantes e os projetos a que se dedicavam.

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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar Importa, nesse ponto, levar em consideração a diferença essencial existente

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

SOUZA, Saulo Xavier. Traduzibilidade poética na interface Libras-Português:

aspectos linguísticos e tradutórios com base em “Bandeira Brasileira” de Pimenta (1999). In: QUADROS, Ronice Müller de Quadros; STUMPF, Marianne Rossi (Orgs.). Estudos Surdos IV. Petrópolis: Arara Azul, 2009.

Nesse artigo, Souza expõe e avalia sua experiência de traduzir para a língua portuguesa escrita o poema “Bandeira Brasileira”, cuja língua de partida é a Libras. É um ótimo exemplo de trabalho de tradução de gênero discursivo que prima pelo respeito à forma do original, tentando superar os obstáculos impos- tos também pela diferença da modalidade de língua.

Atividades

  • 1. Defina gêneros do discurso segundo a perspectiva bakhtiniana.

  • 2. Tome como ponto de partida o excerto fornecido a seguir sobre a evolução dos gêneros discursivos e reflita como o surgimento do e-mail, em compara- ção à carta, é um gênero “novo e ao mesmo tempo velho”.

Os gêneros do discurso sofrem constantes atualizações ou transformações. A esse respeito, Bakhtin (1997, p. 106) diz que “o gênero sempre é e não é ao mesmo tempo, sempre é novo e velho ao mesmo tempo.” Essa passagem, de certa forma, explica o “relativamente estável”, pois, bem como a sociedade, os gêneros também se modificam para atender às necessidades desta sociedade. Como, por exemplo, a carta, meio de comunicação bastante usado em épocas anteriores. Hoje, de certa forma, perdeu espaço para o e-mail, haja vista que a sociedade atual necessita de agilidade e rapidez na transmissão das informações; necessidade esta que a carta não é capaz de suprir. No entanto, a carta não deixou de existir. O que houve foi uma modificação, uma atualização do gênero carta, para melhor atender à sociedade. (LIMA, 2009, s/p)

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

  • 3. Como visto durante a aula, alguns gêneros se prestam mais facilmente ao tratamento de determinados assuntos, cumprindo dados objetivos frente a um público-alvo específico. Tendo isso em mente, discuta por que razão o gênero artigo científico é mais adequado à divulgação dos resultados de uma pesquisa à comunidade científica do que o recurso de uma carta.

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

Referências

BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes,

2003.

LIMA, Anderson. Os Gêneros do Discurso na Perspectiva Bakhtiniana. 2009. Disponível em: <http:\\recantodasletras.uol.com.br/artigos/1705374>. Acesso em: 14 set. 2010.

QUADROS, R. M de. O Tradutor e Intérprete de Língua Brasileira de Sinais e Língua Portuguesa. Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos. MEC,

2007.

RODRIGUES, Rosângela Hammes. A análise de gêneros do discurso na teoria bakhtiniana: algumas questões teóricas e metodológicas. Revista Linguagem em (Dis)curso, v. 4, n. 2, jan./jun., 2004.

ROSA, Andréa Silva. Entre a Visibilidade da Tradução da Língua de Sinais e a Invisibilidade da Tarefa do Intérprete. Petrópolis: Arara Azul, 2008.

SILVESTRI, Adriana; BLANCK, Guilhermo. Bajtín y Vigotsky: la organización se- miótica de la conciencia. Barcelona: Anthropos, 1993.

Gabarito

  • 1. Resposta mínima deve contemplar que os gêneros discursivos são tipos re- lativamente estáveis de enunciados, os quais são construídos tendo como norteadores o tema do discurso, a esfera social em que são produzidos, o público a que se destina e o objetivo.

  • 2. O aluno deve reconhecer que o e-mail é ao mesmo tempo novo e velho por- que, embora surgido recentemente, sendo possível apenas pelo avanço da tecnologia, guarda semelhanças com a carta. É novo porque sua forma de envio é diferente, chega quase que em tempo real a seu destinatário, apre - senta certas características peculiares de linguagem (abreviações, reduções, emoticons), suporte para uso de vídeos etc. Mas é velho porque apresenta ainda elementos como remetente e destinatário, expressão de saudação e de despedida, é datado, automaticamente, mas é datado, elementos presentes nas cartas. Assim como as cartas, os e-mails podem ser usados para fins pes- soais ou comerciais, e podem apresentar uma linguagem informal ou formal.

Os diferentes gêneros discursivos a interpretar Referências BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal . 4. ed.
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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar

  • 3. Espera-se que o estudante analise o que foi solicitado levando em conta a melhor adequação do tema, esfera social, público-alvo e objetivo a ser alcan- çado. Nesse sentido, sua argumentação deve considerar que o gênero artigo científico é o adequado para o objetivo pretendido, pois por meio dele o es- tudo ganhará argumento de autoridade, já que publicado em revista própria da esfera científica alcançará maior número de pessoas em menos tempo, assegurará a autoria de quem fez o estudo, o que por carta não se pode ga- rantir. Na condição de gênero da esfera científica, o artigo científico suporta o tratamento de dados, sua análise, emprego de tabelas, gráficos, seções es- pecíficas para explicitar a metodologia e resultados da pesquisa, por exem- plo. Além disso, a carta é inapropriada, pois o indivíduo precisaria descobrir os destinatários a quem seu estudo interessaria; já o artigo científico, por ser publicado em revistas especializadas, alcança as pessoas interessadas no assunto sem maiores problemas.

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Os diferentes gêneros discursivos a interpretar 3. Espera-se que o estudante analise o que foi solicitado

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Áreas de atuação

Conforme Rosa (2008), a presença do Intérprete de Língua de Sinais (ILS) nas mais diversas áreas da sociedade representa um ganho para as comunidades surdas, que podem ter acesso a esses setores e interagir com eles por meio da garantia do respeito ao seu direito linguístico. Isso também é positivo para o próprio ILS, pois quanto mais se expandem as áreas de atuação das comunidades surdas, mais os intérpretes têm seu campo de atuação estendido. Nessa perspectiva, a proposta desta aula é traçar o panorama de áreas em que o ILS vem sendo mais requisitado, bem como identificar as exigências e características básicas de cada área, sem perder de vista, quando necessário, críticas sobre melhorias que ainda podem ser feitas nas áreas apontadas.

Intérprete no contexto social

Primeiramente, a ideia é olhar para os trabalhos da categoria num ho- rizonte mais aberto, denominado aqui genericamente de contexto social. Esta seção, então, é o espaço para expor generalidades e especificidades sobre o ILS, bem como para agrupar a explanação sobre a atividade em certos setores da sociedade.

No Brasil, não são encontradas agências de Tradutores e Intérpretes de Língua de Sinais tal como de Intérpretes de Línguas Orais, porém essa é uma realidade que tende a mudar, considerando-se o processo ocorrido em outros países:

Existem muitas semelhanças na atuação dos Intérpretes de Línguas Vocais (ILV) e dos Intérpretes de Língua de Sinais (ILS) e em alguns países a categoria reconhece-se como uma só, apenas tendo diferentes línguas de trabalho. É comum, nos Estados Unidos e na Europa, encontrarem-se agências em que são oferecidos os serviços de tradução e interpretação não só de línguas vocais como também da língua de sinais local. Entretanto, em países em que as pessoas surdas são vistas como incapacitadas ou prejudicadas em sua capacidade de tomar decisões, a interpretação de língua de sinais assume um caráter predominantemente caritativo e assistencial, um favor ou uma missão divina que pressupõe trabalho voluntário, sacrifício e abnegação. (PEREIRA, 2008, p. 140)

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Áreas de atuação Conforme Rosa (2008), a presença do Intérprete de Língua de Sinais (ILS) nas

Áreas de atuação

Sobre as diferenças entre os Intérpretes de Línguas Vocais e de Línguas de Sinais, Rodríguez e Burgos 1 (2001, p. 30 apud PEREIRA, 2008, p. 140) apresentam o seguinte quadro:

Quadro1 – Diferenças entre Intérpretes de Línguas Vocais e Intérpretes de Língua de Sinais

Intérpretes de Línguas Vocais

Intérpretes de Línguas de Sinais

 
  • 1. Interpretam de/para alguma língua

  • 1. Interpretam de/para as línguas orais.

de sinais.

  • 2. Seus clientes são pessoas ouvintes de dife-

  • 2. Seus clientes são pessoas surdas e ouvintes

rentes entornos geográficos.

do mesmo entorno geográfico.

  • 3. Seu campo de trabalho limita-se,

  • 3. Seu campo de trabalho é tão amplo quanto

normalmente, a encontros internacionais.

as necessidades comunicativas e de informa- ção de seus clientes.

Além dessas características, Pereira (2008) aponta que uma grande diferença na atividade profissional entre os intérpretes dessas duas modalidades de língua encontra-se no fato de que os ILS atuam muito mais em instituições de ensino, o que praticamente não se vê em relação aos intérpretes orais. A autora também apresenta um quadro comparativo sobre os campos de atuação desses profis- sionais que é citado a seguir (RODRÍGUEZ; BURGOS, 2001, p. 30 apud PEREIRA, 2008, p. 141):

Quadro 2 – Diferenças na atuação de Intérpretes de Línguas Vocais e In- térpretes de Língua de Sinais

Intérpretes de Línguas Vocais

Intérpretes de Línguas de Sinais

  • 1. Tradução escrita.

  • 1. Educação.

  • 2. Conferência.

  • 2. Trâmites e acompanhamento.

  • 3. Trâmites e acompanhamento.

  • 3. Conferência.

  • 4. Educação.

  • 4. Tradução escrita.

Também acontece de o ILS apresentar atuações diferenciadas conforme o cliente ou as circunstâncias de para quem está interpretando. São apresentadas a seguir algumas categorias diferenciadas de atuação do ILS, todas retiradas de Pereira (2008, p. 142-144):

Áreas de atuação

Interpretação relé (relais/relay) – existe entre línguas vocais, mas é distintiva no caso em que, por exemplo, uma palestra em inglês seja interpretada diretamente para a Libras e só então para a língua portuguesa. Nesse caso o ILS é o intérprete relé.

Intérprete tátil – chamado, no Brasil, de guia-intérprete para pessoas surdo-cegas que utilizam a língua de sinais tátil. Se o mediador estiver utilizando outras técnicas para surdo- -cegos como, por exemplo, desenhar na palma da mão as letras do alfabeto latino ou tocar nas falanges de acordo com o sistema braille, então não se trata de uma interpretação interlíngue, mas sim de uma transliteração.

Intérprete surdo – uma pessoa surda pode atuar normalmente como intérprete entre duas línguas de sinais. No caso em que uma pessoa surda não é falante competente da Libras e um ILS não consegue estabelecer um entendimento com ela, pode ser chamada outra pessoa surda que por meio gestual consiga uma comunicação primária, mas satisfatória. Não se trata, nesse caso, de uma interpretação interlíngue, e sim de uma comunicação gestual ou mímica.

Comunicador pidgin 2 – nesta categoria está o uso do português sinalizado em que o léxico da língua de sinais é encaixado na estrutura da língua vocal, gerando, inclusive, a criação de sinais artificiais para suprir a equivalência literal entre as duas línguas.

Espelhamento – quando um intérprete, ao invés de interpretar, copia a sinalização de outro intérprete. Esse é o caso em que, por motivos de localização no espaço, a plateia surda tem que se posicionar em diversos locais onde não seja possível a visualização de somente um intérprete.

Duplicador ou replicador vocal – é chamada assim a pessoa que duplica a fala vocal de outra pessoa para deficientes auditivos que não se sentem proficientes ou confortáveis com a língua de sinais. Não é uma interpretação interlíngue, pois o duplicador posiciona-se de frente para a pessoa deficiente auditiva e, literalmente, reproduz, na mesma língua, tudo o que ouve, com uma articulação cuidadosa.

Esses são alguns papéis que o ILS pode acabar desempenhando, mas nem todos consistem propriamente numa tradução entre línguas. São, na verdade, atuações em que o profissional procura facilitar o acesso ao código linguístico.

Pereira aponta que em alguns países a classificação das atividades desem- penhadas pelo ILS é muito elaborada. Nos Estados Unidos, por exemplo, há um órgão de registro e supervisão da atuação do ILS atuante nesse país, existindo, para tanto, duas grandes áreas de classificação, subdivididas em várias catego- rias (2008, p. 144):

Certificação Nacional de Intérprete (National Interpreter Certification – NIC).