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CARTA DOS CENTROS TRADICIONALISTAS

À II CONFERÊNCIA MUNDIAL DA AYAHUASCA

Agradecemos, inicialmente, aos organizadores desta Conferência pelo honroso
convite para dela participarmos, que nos fizeram por meio da Câmara Temática de
Culturas Ayahuasqueiras do município de Rio Branco. Para nós, esse convite é um
reconhecimento ao trabalho e aos ensinamentos de nossos Mestres fundadores,
pelos quais procuramos zelar para que permaneçam como referência de
respeitabilidade no uso religioso da Ayahuasca. Agradecemos também pela
autonomia que tivemos para relatar nossas experiências e expor nossos princípios
e critérios, pela excelente e organizada condução do evento e pela cordialidade e
respeito que nos dispensaram.
Agradecemos aos representantes dos povos indígenas originários, seus líderes
espirituais e suas comunidades, que se constituem como verdadeiros guardiões da
floresta e herdeiros das culturas e tradições que nela se desenvolveram desde os
tempos de seus ancestrais.
Agradecemos às demais denominações religiosas e a todas as pessoas e
organizações que têm a Ayahuasca como referência importante em suas vidas e
seus trabalhos, pelo debate fraterno e a convivência respeitosa mesmo nos
momentos de expor diferenças ou divergências.
Agradecemos aos cientistas, pesquisadores e estudiosos da Ayahuasca por
compartilharem conosco e com todos os participantes da Conferência os
resultados de seus estudos.
Em nossa participação nesta Conferência, procuramos apresentar – com toda
clareza e simplicidade – quem somos e o que fazemos. Entendemos que a
afirmação de nossa identidade e a manutenção de nossos princípios não ofende
os direitos de qualquer pessoa, organização ou comunidade. Não nos
consideramos superiores, nem cultivamos inimizades com ninguém. Se, em
qualquer momento, demonstramos diferenças e divergências, nossa intenção
sempre foi e continua sendo de manter um relacionamento honesto e transparente,
sem nos omitirmos na defesa de nossos princípios e valores. Nossos Mestres nos
ensinam a guardar coerência entre as palavras e a prática, para nos mantermos no
caminho da Verdade.
Por isso reafirmamos – nesta ocasião, como em outras – os princípios que nos
regem. E nos sentimos no dever de alertar quanto aos riscos e problemas que
podem ocorrer quando as práticas não estão de acordo com os cuidados que
consideramos necessários no uso e distribuição da Ayahuasca. Esses cuidados,
que hoje são reconhecidos e recomendados pelo Estado brasileiro em textos e
atos de diversos organismos oficiais, já foram delineados há 25 anos, na Carta de
Princípios das organizações religiosas usuárias da Ayahuasca, em 1991, tratandose de balizamentos éticos fundamentais. Entre outros, queremos destacar três
pontos:

a) A identidade pública do centro ou igreja que usa ayahuasca, com
autonomia e autodeterminação para pensar, agir e organizar-se livremente, sem
tutela ou restrições. A essa liberdade corresponde a responsabilidade de assumir
seus atos perante a sociedade, as autoridades públicas e às leis vigentes no país.
b) A utilização exclusiva de ayahuasca – feita de cipó (Banisteriopsis caapi),
folha (Psychotria viridis), e água –, sem associação de qualquer substância em sua
preparação e ingestão.
c) Nenhuma forma de comercialização. Os associados de cada centro ou
igreja arcam com os custos de manutenção de suas instituições, inclusive da
confecção e transporte da ayahuasca, sem repassar esses custos para não
associados.
A experiência nos ensina que a observância desses princípios éticos e morais
reduz os riscos de problemas e traz benefícios. A saúde de nossas comunidades é
a prova disso. Com tais princípios, queremos dialogar com todos, especialmente
com os povos indígenas, cujas tradições afirmam, desde suas origens, princípios
semelhantes de cuidado e respeito pela Ayahuasca e pela floresta em que ela
nasce.
Depois de décadas de exploração predatória das duas espécies vegetais que
compõem a Ayahuasca, é evidente o comprometimento da Floresta Amazônica. O
que mostra a necessidade de nos unirmos em torno de ações de proteção,
mapeamento dos impactos já causados e de recuperação, a curto prazo.
Conclamamos todos os ayahuasqueiros, especialmente os que vivem fora da
Amazônia, para a conscientização da necessidade e importância da
responsabilidade ética, ambiental e social da produção e distribuição da
Ayahuasca, em face da expansão internacional e das pressões econômicas
envolvidas no processo.
Acreditamos que a conquista de liberdade para o uso religioso da Ayahuasca no
Brasil foi e está sendo possível pela existência dos povos e comunidades – entre
as quais nos incluímos – que demonstraram equilíbrio e responsabilidade,
credibilidade e legitimidade social. Outras comunidades de outros países podem
conquistar tudo isso e ainda mais, como já se tem notícias de conquistas. Nossa
contribuição é mostrar nossa experiência e a excelência dos ensinamentos do
Mestre Irineu, Mestre Daniel e Mestre Gabriel, a quem rogamos para que nos
dêem a luz da sabedoria e que abençoem a todos.
Somos gratos pelo respeito e pela atenção.
Rio Branco-AC, 22 de outubro de 2016.