Tv Cultura - A Saúde como Prioridade da Tv Pública

Simone Bortoliero1

Resumo
Um resgate histórico dos programas de Saúde produzidos pela TV Cultura de São Paulo na
década de 80 até meados dos anos 90. Os dados foram coletados junto aos profissionais da
emissora através de entrevistas e documentos como parte da pesquisa de doutorado, cujo
título é Saberes Profissionais : os programas de Saúde da TV Cultura de São Paulo(1999).

As experiências diárias dos profissionais de comunicação - principalmente jornalistas,
que atuam com Saúde na mídia brasileira, as vezes se perdem no universo quase que
intransponível do saber científico. No campo teórico discutimos quase sempre as
dificuldades do profissional quanto à linguagem utilizada pelo especialista. Os relatos de
experiências bem sucedidas na divulgação do tema Saúde pela TV, transformados em
artigos são poucos. Este artigo é um breve resumo do capítulo de tese de doutorado , cujo
título é “ Saberes profissionais: os programas de Saúde na TV Cultura de São Paulo”,
construído a partir da visão, das concepções ou representações de diferentes profissionais
entrevistados. O relato oral destes profissionais, além de contribuir para tornar claro seus
saberes sobre saúde/doença,

permitiu ainda um resgate histórico de programas como :

“Receita de Saúde”, “Programa de Saúde” e “Aids: perguntas e respostas”, veiculados pela
TV Cultura entre 1983 até início dos anos 90.
No Brasil, nas duas últimas décadas, está se configurando novas linhas de pesquisas
que envolvem a aplicação de métodos das ciências sociais no campo da saúde coletiva.
Nesta reconstrução teórica, surge como elemento de intervenção as políticas de Educação

1

Professora do departamento de Jornalismo da PUCCAMP a partir de 1998, nas áreas de Telejornalismo e
Jornal Laboratório. Entre 1983-93 - jornalista e produtora de vídeos de divulgação científica da UNICAMP.
De 1994-97 jornalista da Universidade Federal de Uberlândia, responsável pelos programas de saúde na TV
Universitária. Mestre e Doutoranda em Comunicação Científica e Tecnológica na Universidade Metodista de
São Paulo - SBCe-mail: iact@acad.com.br

2

em Saúde, de Comunicação para a Saúde, bem como as análises sobre a produção da
informação em Saúde.
No âmbito mundial, as discussões sobre Educação em Saúde são bem mais antigas e
quando

associadas a Comunicação acabam estimulando e encorajando os cidadãos a

planejar sua própria saúde.
A idéia de “ensinar saúde ao povo” , “promover a saúde” e “prevenir a doença” está
associada a necessidade de combater a ignorância. Foram muitos os esforços, no final do
século passado, para divulgar informações e orientações em saúde.
A atuação de diferentes profissionais no trato da Saúde, vem mostrando através dos
séculos que são muitos os saberes que se entrelaçam :“esta área do saber fundamenta um
âmbito de práticas transdisciplinar, multiprofissional, interinstitucional e transetorial “
(PAIM, 1998: 310).
Muitas pesquisas almejam , no campo da Comunicação e Saúde, modificar práticas e
hábitos, bem como comportamentos, associadas as práticas médico sanitárias . A mudança
de comportamento se daria através de informações no campo da prevenção, atraíndo o
consumidor para ser mais participativo. Este tipo de visão ainda tem sido muito utilizado
nas práticas de Comunicação em Saúde. Já no início dos anos 90, desde a implantação do
Sistema Único de Saúde - SUS e da nova constituição de 88, tem se discutido o acesso à
informação, onde a Saúde passa a ser destaque nas programações das emissoras. Mas de
que forma?
A partir da década de 80, estamos assistindo pelo noticiário nacional das redes de
Televisão no Brasil , a situação de “caos” no sistema de saúde pública, a volta de doenças
endêmicas (dengue, malária e cólera) em diferentes regiões do país, as mortes de pacientes
durante tratamento de hemodiálise em Caruaru, a morte de idosos em clínicas no Rio de
Janeiro, as cenas dos corredores dos pronto - socorro sempre lotados em cidades de grande
porte, o assassinato de pacientes dentro dos hospitais. Os telejornais diários utilizam um
discurso com ênfase em denúncias sobre o descaso no atendimento hospitalar público , além
de divulgar a “espetacularização” da doença, em detrimento de informações que possam
cobrar maiores investimentos no campo da prevenção e de infra-estrutura que possibilitem
água e esgoto para as regiões mais carentes do país.

3

A mídia ao priorizar a

doença em detrimento da saúde, colabora de maneira

irresponsável para ampliar o “caos da saúde” no país. Para Mendes (1997), “a mídia
nacional cria um ‘aqui, agora’ sanitário por onde se vem construíndo no imaginário social, a
idéia do caos da saúde “. Desta forma, o cotidiano da mídia vem se sustentando quase que
exclusivamente através de escândalos nos serviços públicos, servindo como área e campo
privilegiado para a produção de polêmicas , as vezes sem importância para o panorama da
saúde pública.
Na opinião de vários jornalistas, experientes no campo da saúde, há outros
problemas, como: os saberes que se cruzam nos programas de entrevistas são antagônicos,
os telejornais divulgam tecnologias sofisticadas no lugar de informações preventivas, há uso
excessivo de jargão científico pelos médicos ( polêmica discutida no campo da Comunicação
Científica e Tecnológica) , a imprensa produz a “espetacularização da doença” e valoriza o
sensacionalismo, além da falta de ética dos profissionais da Saúde e da Comunicação na
escolha do que deve ser veiculado, principalmente se verificarmos o conteúdo de programas
como do Ratinho pelo SBT.
Pesquisas e estudos multidisciplinares em Comunicação e Saúde questionam os
modelos adotados pela mídia, resgatando a interface dos veículos com o sistema de saúde
implantado no país nas últimas décadas. Sem dúvida, isto possibilita conhecer as fronteiras
entre os dados da epidemiologia no Brasil e a estreita ligação deste campo como fonte de
informação constante para os veículos de massa. Porém, isto não nos garante afirmar que o
mesmo modelo tenha sido reforçado pelas televisões educativas e culturais no Brasil.
Entre estudiosos da Comunicação há posições semelhantes quanto a importância da
divulgação diária de informações sobre Saúde para minimizar alguns sofrimentos entre os
brasileiros, mas também há outras vertentes que afirmam que a veiculação por si só não é
suficiente. Para os especialistas da Saúde, o problema não se resolve com a boa vontade dos
meios ou com competência no trato deste tipo de informação. Há problemas de ordem
estrutural e a gravidade da Saúde no Brasil está associada ao contexto de uma nova ordem
econômica , recentemente agravada pelo neo liberalismo.
Este novo campo de pesquisa junto a Comunicação traz “luz” sobre a
responsabilidade dos meios com aquilo que se convencionou chamar de público, e fortalece

4

a visão de que é necessário continuar divulgando a Saúde dentro da agenda semanal das
programações da emissora, e não somente dentro do formato do telejornalismo brasileiro
que luta pela audiência.
Outro aspecto, são os trabalhos de cunho acadêmico e científico, bem como os de
relatos de experiências de jornalistas na cobertura de Saúde que convergem em sua maioria
para análise dos veículos comerciais, que detém sem dúvida nenhuma parcelas maiores de
audiência (jornais e revistas de grande circulação nacional e TVs comerciais, como a Globo,
SBT, Bandeirantes e Record).
Neste universo das “tragédias humanas”, de “dramas”, de “espetáculos sobre a pior
doença” é quase impossível verificar experiências bem sucedidas no campo da Comunicação
e Saúde.
O presente trabalho faz este recorte, quando resgata a memória e as experiências
positivas da TV Cultura de São Paulo ao veicular programas de saúde nas últimas duas
décadas.
As contribuições da TV Cultura de São Paulo

para a Saúde Pública, podem ser

consideradas como experiências inovadoras a partir da metade dos anos 80, época de uma
‘guinada’ da emissora e de sua conquista pela audiência.2 Existe do ponto de vista histórico,
a constatação de que o conceito de TV pública abordado pela nova direção junto a
Fundação Padre Anchieta em 1986, contribuiu de forma explícita para que o tema Saúde
passasse a ser uma das prioridades na nova programação.
Desde o surgimento da TV Cultura de São Paulo em 16 de junho de 1969, a
audiência tem sido de um público diferenciado culturalmente. Somente no início da década
de 80

um processo de modernização possibilitou, inovação tecnológica , oriundo de

maiores recursos financeiros de fora do sistema estatal, elevando ainda mais a qualidade dos
programas 3. É durante a administração do governo de Franco Montoro, que surgem
2

A ‘guinada’a que me refiro está associada com a entrada de uma nova direção em 1986, quando o então
presidente da Fundação Padre Anchieta, Roberto Mulayert , possibilitou uma discussão sobre conceito de TV
Pública, aumentou o poder de transmissão de seus programas em bairros periféricos de São Paulo e
conseguiu recursos próprios e apoios culturais (através da lei Sarney).
3
Esta é a proposta central da dissertação de mestrado de Dulce Márcia Cruz, onde publica um artigo
intitulado Ä Nova TV Cultura de São Paulo: a TV Pública entra na Modernidade”. Apresenta , desde o
nascimento da emissora em 26 de setembro de 1967, as diversas posições políticas que governaram o estado
e que acabaram tendo fortes momentos de ingerência política junto a TV Cultura.

5

mudanças na Fundação Padre Anchieta. Em 1986 sob a direção de Roberto Mulayert,
inicia-se uma ampla discussão sobre conceito de emissora pública, que tem por objetivo
principal manter uma estreita ligação com a comunidade e com a sociedade civil.
“Lave as mãos para não contrair cólera” . Campanhas como essa não teriam
sentido se a TV Cultura continuasse a atingir somente um público de nível elevado
culturalmente . Significava que entre o discurso de uma TV diferenciada das comerciais,
existia um problema crucial a ser resolvido na prática. No final dos anos 80, são realizadas
pesquisas na grande São Paulo, que permitem a emissora analisar a falta de penetração em
bairros da periferia . Com baixo poder de alcance , foi necessário a construção de um novo
transmissor em local apropriado para que campanhas dessa natureza e os programas de
cunho social, atingissem verdadeiramente as classes C, D, e E. Já em 93, o universo de
telespectadores nestas classes sociais somavam 54%, enquanto as classes A e B se tornavam
minoritárias. Com uma mudança significativa de audiência, a TV Cultura de São Paulo se
consolidava como uma emissora preocupada com a comunidade.
Mas isso ocorreu somente em 15 de março de 1992,

data da instalação da nova

antena, dobrando os índices de audiência da emissora. A partir deste período conquistou os
telespectadores da periferia de São Paulo, enfatizando o alto nível de qualidade da
programação. Enquanto a TV Cultura atingia a periferia de São Paulo, diminuía os espaços
dos programas específicos sobre Saúde, tanto devido a crise financeira no início da década
de 90 como pela opção em atingir um público infanto-juvenil.
Nas publicações da emissora , o tema saúde é descrito somente em 1989, período de
lançamento da revista CULTURA 20 ANOS, realizada pela Fundação Padre Anchieta.
Alguns programas de Saúde, com horários e dias fixos foram veiculados entre 85 a
93, tais como: Receita de Saúde, Programa de Saúde, Plantão de Saúde, Aids: Perguntas e
Respostas, entre outros.4

1985 - no ar “Receita de Saúde”

4

Os profissionais entrevistados na TV Cultura, trabalharam nestes programas como jornalistas e produtores.
Estes programas foram escolhidos respectivamente: o 1O. é o mais antigo, o 2o. maior número de produções
e anos de veiculação e o 3o. 1o. programa a falar sobre Aids diariamente. Neste artigo só foi possível tecer
poucas observações sobre a história destes programas, devido ao limite de páginas.

6

Ainda em 1984, havia exibições dos programas em videotape para os censores da
divisão de censura federal. É neste mesmo ano, que encontramos registros de uma relação
de programas, “Palavra de Mulher” (1984) e “Receita de Saúde” com 23 produções,
associados ao departamento de Ensino. Sua estréia foi somente em 27 de março de 1985 e
foi veiculada até 17 de fevereiro de 1986. Num total foram realizados 47 programas de
aproximadamente 17 minutos em formato quadruplex, que atualmente podem ser assistidos
em formato Beta, bem como solicitados para cópia. Com custo baixo e equipe reduzida,
ficava sob responsabilidade de Celso Hatori que dirigia, roterizava e produzia. O programa
era todo editado , numa linha de documentário, não contava com a participação de
jornalistas e se baseava em depoimentos de especialistas.
A série “tinha o objetivo de difundir princípios básicos de saúde, além de orientar
o espectador a preservar-se de doenças, ensinar o doente a conviver com sua doença e a
minimizar sofrimentos”(TV Cultura, 1985)
Ao verificar a relação de temas apresentados nesta série, é possível perceber uma
preocupação com a saúde da criança e da mulher ( cólicas menstruais, câncer de mama e de
colo uterino, doenças sexualmente transmissíveis, higiene). Há também o enfoque em
algumas doenças, como: asma, hipertensão, varizes, epilepsia , diabetes e aqueles que
visam a prevenção, como: higiene e estimulação do bebê, cuidados com a visão, cuidados
com os dentes, animais peçonhentos, vacinação, entre outros.
A série evitava as novidades médicas e divulgava orientações comprovadamente
científicas, não havendo espaço para o saber popular e a medicina alternativa. Havia grande
preocupação com a linguagem utilizada, que era desprovida de termos tecno-científicos. A
responsabilidade sobre o conteúdo era do diretor científico do programa, o médico Irany
Novah Moraes, presidente da Academia de Medicina de São Paulo e integrante do conselho
de curadores da Fundação Padre Anchieta.
A linha adotada nesta série não foi além da prática preventiva preditiva dentro da
saúde pública conhecida no país. Acaba informando as medidas preventivas e seus efeitos,
ao invés de apontar para uma saúde coletiva capaz de “propor reflexões”.
Ligados ao Departamento de Jornalismo aparece também o Palavra de Mulher, que
já tratava saúde de forma esporádica.

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Em 1987 novas linhas de atuação redefinem o papel da TV Cultura. É neste ano que
viabilizam a colaboração com diversas secretarias do governo estadual, para realizar
programas de interesse da comunidade ou que possam divulgar projetos e/ou campanhas de
utilidade pública.
Adota-se também uma política mais ofensiva para obtenção de recursos, que se
expressam na venda de patrocínios culturais, prestação de serviços para terceiros e venda de
programas para outras emissoras (preservadas pela Lei Sarney)
Para a programação em saúde, o ano de 1987 marca três momentos importantes:
n Nas transmissões de eventos, relacionados ao campo da prestação de serviços já
aparecem a transmissão de boletins informativos ao vivo na Campanha de Vacinação
Anti-Pólio.
n Associados aos programas de caráter educativo, tem início a produção dos primeiros da
série Programa de Saúde, em colaboração com a Secretaria de Saúde.
n criação e produção da campanha do Sarampo.
A democratização do Brasil viabilizou várias mudanças nas direções das principais
emissoras educativas do país, gerando maior parceria entre as educativas e públicas.
Também é neste ano, que a TV Cultura investe na linguagem gráfica da programação, que é
um dos itens de maior exigência da TV moderna até os dias atuais.
Em 1988 novos investimentos em Saúde:
“Iniciamos em 1988 uma série de ações que terão grande repercussão em 89: a II ª
Teleconferência Internacional de Aids do Rio de Janeiro, transmitida para todo o mundo
pela Cultura”.(TV Cultura,1985)
O acontecimento porém ocorreu no final de 88, quando a TV Cultura foi contratada
pela Organização Pan - Americana de Saúde e pelo Ministério da Saúde , para transmitir
para mais de 40 países este acontecimento, realizado em dezembro. Continuou produzindo
boletins de interesse público sobre a campanha de vacinação anti - pólio e dentro do
programa semanal “Repórter Especial”, realizou o programa “Cinco anos de Aids no
Brasil”, realizado pela própria emissora. Este programa ganhou o prêmio Wladimir Hersog,
como o melhor de pesquisa de 88 pela APCA, do sindicato dos jornalistas de São Paulo e
ainda um prêmio especial em Cuba.

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Também neste mesmo ano é veiculado o “Programa de Saúde”, a mais importante e
longa série a tratar desta temática na TV Cultura de São Paulo. Em convênio com a
Secretaria de Saúde de São Paulo, a série divulgou assuntos ligados a prevenção de
doenças, qualidade de vida e o atendimento nos postos de saúde e hospitais da rede pública.
O “Programa de Saúde” tratou de temas tão relevantes que serviu como fonte de
informação e pautas confiáveis para outras emissoras do país. Outro aspecto geral é sua
receptividade junto ao público, que através de cartas e telefonemas mantinham com a
produção do programa estreita ligação, solicitando reprises.
Há duas fases nesta série: a primeira foi patrocinada pela Secretaria de Saúde e
veiculou temas preventivos, curativos, porém assessorados pela visão da medicina
tradicional.. O público era amplo, mas as cartas enviadas à produção confirmavam um
público na 3a. idade , além de mulheres e crianças.
A 2a.fase tem início em 91 e vai até meados de 93 , sem o apoio da secretaria,
quando passa a ser chamada de “Saúde”. Ocorre mudança na direção dos programas e os
temas apresentados pela 1a. vez divulgam de forma sistematizada as terapias da medicina
alternativa, homeopatia, acupuntura , além da saúde mental associada aos grandes centros.
A série “Saúde” produziu aproximadamente 30 programas, ao vivo, com uma média de 30
minutos de duração, sendo veiculados a partir das 18 horas .
1989 . Este foi um ano excepcional para a Saúde na Cultura. Iniciado em abril
(22/04/89 até 17/02/90),

o projeto “Plantão de Saúde”, também patrocinado pela

Secretaria de Saúde, foi o primeiro programa da emissora direcionado ao treinamento e
reciclagem dos funcionários da rede de saúde pública do estado e teve por objetivo em sua
1a. fase, orientar o público sobre o funcionamento do Sistema Unificado de Saúde -SUS e
discutir com os profissionais de saúde a descentralização. A 2a. fase representou um canal
de diálogo ao vivo , com os usuários dos serviços e com os profissionais de saúde.
Nas séries estrangeiras, a Saúde esteve presente, com: “A coragem de errar”, sobre
os pioneiros da cirurgia moderna, “Os micróbios e o Homem”, sobre a vida e as

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experiências dos homens que criaram vacinas e desenvolveram o controle das infecções
bacteriológicas, “As artes da Cura”, sobre medicina alternativa no Mundo.5
As pesquisas realizadas pela TV Cultura junto ao público em 89, foram responsáveis
no início dos anos 90, por alterações na grade de programação. Daí resultou um
investimento maior na área infantil e infanto-juvenil. Programas como Rá-tim-bum se
consagraram com a medalha de ouro em Nova York.
Em 1990, a mulher foi beneficiada com a produção de 10 módulos sobre “Saúde da
Mulher” . No campo preventivo, o vídeo educativo de 10 minutos sobre prevenção do
“Cólera” foi exibido em postos de saúde, associação de bairros e escolas.
Em abril, pela 1a. vez na história da TV Brasileira, a TV Cultura passou a veicular
em sua programação, informações instantânea (“hard-news”), notícias quentes, veiculadas
no formato de telejornal, com duração média de 5 minutos, durante as tardes e noites. Entre
os programas jornalísticos, há o Repórter Especial sobre “A Droga da Aids” e na linha dos
estrangeiros, foram veiculados “Câncer I e II”.
A saúde também esteve presente na programação especial como “Semana de
Prevenção à AIDS” e no espaço reservado para séries culturais e científicas com o
programa “O Século da Saúde”.
Segundo dados da emissora, 1991 foi

marcado pela reformulação de alguns

programas e poucas estréias. A programação infanto-juvenil com o apoio do SESI (FIESP)
foi ampliada, bem como os programas estrangeiros. Dentro da programação infantil, ligados
ao depto de Produção Executiva III, foram discutidos 10 interprogramas com 1 minuto de
duração, cujo objetivo foi prevenir acidentes domésticos com crianças.
A crise financeira do estado , repercute na TV Pública. Ocorre um aumento da
veiculação de produções estrangeiras em relação ao ano anterior 6e com a ajuda de empresas
ocorre a melhoria na produção visual de vários programas. Apesar da crise, implanta-se a
nove torre de transmissão, há aumento de audiência e muitos programas são premiados.

5

Estas informações estão na pág. 48 do relatório de 89.As poucas fotos que aparecem na revista de
comemoração dos 20 anos da Cultura sobre temas de saúde tratados pela emissora, são relativas as estas
séries estrangeiras.
6
Isto não implica no total de produções próprias veiculados diariamente. Foram realizados 1.156 programas
e a produção responde por 47% em média, do horário total da programação.

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1992 - ano histórico - mais de um milhão de casas ligadas em programas educativos na
maior capital do país.
Ano histórico para o Brasil: impeachment de Fernando Collor de Melo.
Ano histórico também para a TV Cultura de São Paulo. Com a inauguração do novo
transmissor e aumento da audiência nas camadas pobres, mais de um milhão de casas, numa
medida do Ibope, estiveram ligados na TV Cultura, só na capital, assistindo a um programa
educativo. Os objetivos da TV Cultura, enquanto rede preocupada com a comunidade,
estavam sendo alcançados, além de prestígio e credibilidade.
Um ano repleto de novidades na programação. Estréia do 1o. telejornal diário da
TV especializada em assuntos sobre meio ambiente e ecologia, com 4 edições diárias de 3
minutos de duração - no ar - Repórter ECO.
o
1 . Programa permanente sobre Aids na TV brasileira.
Em 27 de julho , estréia o interprograma

Aids - perguntas e respostas (boletins

diários sobre a doença) , “o primeiro espaço permanente na televisão brasileira dedicado a
informar a população sobre esta doença”, além da série de 5 módulos de 1 minuto sobre
Prevenção de acidentes domésticos com crianças, um alerta para os adultos, com destaque
para a participação de Lucas e Juquinha (Mundo da Lua).
Quase 10 anos depois do surgimento dos primeiros casos de Aids, é que uma
emissora teve a ousadia de se propor ao esclarecimento de questões básicas e a divulgação
de informações para o maior número de pessoas, pois já era sabido que a Aids não atingia
apenas os chamados grupos de risco, tão propagados pelo jornalismo eletrônico. O
programa realizado em estúdio , com 3 minutos de duração era produzido para ser veiculado
entre os programas da emissora. Estes boletins, chamados de “pílulas”, trouxeram dados
importantes sobre formas de prevenção, contágio, sintomas, exames e tratamentos através
de reportagens e entrevistas em estúdio. Era apresentado pela jornalista Maria Lins- atual
apresentadora do jornal da Cultura 60 minutos- e teve a consultoria científica do médico
Sérgio Luiz Bartczak, especialista em Aids.
O programa Aids: perguntas e respostas foi veiculado no período em que o Brasil
liderava o ranking de portadores do vírus. Já havia cerca de 25 mil casos em todo o País até

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maio de 1992 e as estimativas apontavam 700 mil pessoas portadoras da doença sem saber
que estavam contaminadas.
Também no campo da saúde, estréia o documentário “Ivo Pitanguy, o outro lado do
espelho” além da finalização da série ENERGIA , constituída de 52 programas de 30
minutos cada, “sobre técnicas e exercícios específicos para todo o corpo, fortalecimento da
musculatura e alongamento, visando a melhoria da qualidade de vida”.

1993 - Prevenção de acidentes domésticos ganha prêmio internacional
A TV Cultura que até então dependia da TVE do Rio para veicular seus programas a
nível nacional, conquista nesse ano um canal do satélite Brasilsat A-2. Surge a Rede Cultura
de Televisão.
Novamente a Saúde teve espaço na programação. Estréia a série ENERGIA - sobre
os benefícios da atividade física planejada e bem orientada para a melhoria da qualidade de
vida, em qualquer idade e com qualquer condição física. Tem início uma fase de veiculação
de temas alternativos no campo da saúde.
São realizados os 10 programas finais da série semanal “Saúde” e a TV Cultura
produz um episódio da série estrangeira alemã chamada “Medicina Tradicional”.
A série Perigo! Perigo! Perigo! - prevenção de acidentes domésticos é uma das
vencedoras do Prêmio Japão, uma dos mais importantes prêmios internacionais, tendo
também recebido a medalha de ouro no Festival de Cinema e TV de Nova York.
São iniciadas as produções de 6 novos projetos , entre eles: “Os pioneiros da
Saúde”- programa sobre a luta de cientistas como Oswaldo Cruz, Adolfo Lutz, Vital Brasil,
Carlos Chagas e Emilio Ribas para implantar o saneamento básico no Brasil , numa época de
total desinformação da população.
1994 - 25 anos de Cultura
maior enfoque jornalístico para a Saúde
A grande surpresa deste ano para a Saúde foi a mudança editorial ocorrida no
Jornal

da Cultura 60 Minutos, priorizando maior enfoque para as áreas de saúde e

educação, com realização de matérias especiais. Durante o ano foram produzidas e
veiculadas mais de 100 matérias sobre Saúde, além de cerca de 30 somente sobre o aumento

12

da Aids. Vários personagens do X-Tudo realizaram chamadas para Campanhas de
Vacinação.

1995- Crise econômica afeta programação
Saúde aparece diluída , mas se mantém no telejornal
Neste ano, o Relatório de Atividades Anuais da TV Cultura passa a ser assinado pelo
novo Presidente da Fundação Padre Anchieta, Jorge da Cunha Lima. É conhecido como o
ano da crise.
Apesar da grave crise que se abateu na emissora, com corte de pessoal no
jornalismo, congelamento e diminuição das verbas estaduais, necessidade de aumento do
apoio cultural e das parcerias externas, falta de recursos para novas produções,
cancelamento de projetos, a TV Cultura manteve os índices de audiência e a qualidade de
seus programas.
No panorama nacional e internacional os avanços tecnológicos na Comunicação
foram imensos. A multiplicação de canais, através das TVs à Cabo, Direct TV, Pay Tv,
acesso a Internet e a processos digitais de imagem, segmentaram o público. A crise
impossibilitou que a TV Cultura desse saltos tecnológicos, como outras emissoras do país
assim o fizeram.
.

No campo da Saúde, os programas de jornalismo continuaram a tratar de diferentes

assuntos de interesse da população. A Aids foi pauta para muitas matérias do Jornal da
Cultura e foi discutida dentro do Opinião Nacional . Dentro do Roda Viva, o jornalista
Matinas Suzuki entrevistou o Ministro da Saúde, na época, Adib Jatene.
O Jornal da Cultura 60 minutos

teve equipe reduzida e sofreu várias

reformulações. Realizaram reportagens especiais, amplas e profundas, de interesse da
população. ”São reportagens que tem obtido grande repercussão por discutir mais
seriamente assuntos que em outras emissoras recebem tratamento superficial, ou , às vezes,
nem merecem atenção” ( Cunha Lima) Na área de saúde, temos exemplos como: campanha
de doação de órgãos, dependência de café e cigarro pelo organismo, câncer infantil e
cuidados com a gravidez , foram temas de pautas.

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Apesar das reprises fazerem parte da política da emissora, muitos programas foram
novamente reprisados.

1996 - Saúde - métodos alternativos
estréia de LIANGONG
Diferente dos relatórios anteriores, em 1996 o relatório de Atividades é um balanço
sobre a crise na emissora e as políticas implementadas para uma tentativa de sair dela.
Consolida-se a participação do estado com uma verba anual de 45 milhões para o ano
seguinte. A emissora troca seus débitos por serviços e apoios culturais e arrecada 15
milhões, aumentando o número de reprises. Através de permuta adquire o equipamento Beta
do SBT e consegue manter 18 horas de programação no ar. Em convênio com a FAPESP
entra na Internet, com a criação de sua home page( www.TVCultura.com.br)
Apesar de um ano praticamente sem estréias, as crianças ganham com o premiado
COCORICÓ (prêmio da Associação dos Críticos de Arte como o melhor infantil de 96) e a
Saúde ganha também com o surgimento do programa alternativo - LIANGONG - sobre
ginástica terapêutica chinesa que auxilia na harmonização e em tonificar pessoas tensas e
sedentárias. Esta série é composta de 7 programas de 30 minutos.
Em comemoração aos 5 anos no ar - o Jornal da Cultura 60 minutos - faz matérias
especiais sobre o avanço da Aids no país. Este tema também é tratado novamente no Jornal
da Cultura - telejornal noturno - tendo dedicado uma semana inteira ao tema da Aids. No
Opinião Nacional o tema Saúde foi enfocado com reportagens especiais sobre o problema
das drogas, convidando ex-dependentes e psiquiatras para debater um assunto em evidência
neste final de século. As drogas foram destaque de pauta para os diferentes telejornais da
emissora.
O departamento de Ensino, que produziu todos os programas de Saúde , nos anos
80 e 90, devido a crise passou a atuar com terceiros, gerando recursos para a Fundação
Padre Anchieta. No campo da divulgação da ciência , produziu - Minuto Científico - projeto
original da Estação Ciência da USP que teve sua estréia somente no ano seguinte.
Em 1997, a saúde pública se mantém como pauta nos programas jornalísticos, e é
prioridade também dentro das semanas temáticas

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Enquanto definitivamente os temas de Saúde perderam espaço nas produções
próprias da emissora, junto ao departamento de ensino da emissora, o jornalismo passou a
tratar o assunto em profundidade. O Jornal da Cultura veiculou temas relacionados a saúde
pública, discutindo o ressurgimento de várias doenças, antes consideradas sob controle.
Enfocou temas polêmicos como aborto, educação sexual nas escolas, drogas em geral,
particularmente crescimento abusivo do consumo de álcool , especialmente entre os jovens.
Relatou experiências positivas sobre a humanização de partos e cuidados preventivos para
redução de riscos durante a gestação.
Mesmo em tempos de crise financeira, a emissora passa a abordar a temática
Saúde no interior de alguns programas ao longo do dia. Prova disso, está em - Turma da
Cultura - programa voltado para discutir temas de interesse dos adolescentes. Os relatórios
de edição , indicam que entre 1997 e 1998 foram produzidos para Turma da Cultura, 285
programas. São veiculados ao vivo, todos os dias às 19 horas, com 30 minutos de duração.
São convidados músicos, artistas, professores, médicos e uma gama muito variada de
profissionais que conversam com os adolescentes ao vivo. Outra política adotada desde 98,
foi veicular produções no campo da Saúde, realizadas por produtores independentes
nacionais ou internacionais, além de reprisar programas como Energia e Liangong.
Para os profissionais de comunicação da TV Cultura, responsáveis pelas séries
“Receita de Saúde”, “Programa de Saúde” e “Aids: Perguntas e Respostas” , a emissora
deverá encontrar mecanismos para continuar a produção de programas que tratem da Saúde
como um direito à cidadania no século XXI.

Referências Bibliográficas
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Pública, 9(3) 263-271, jul/set. , 1993.
ATKIN, C. E Wallack, L. Mass Communication and Public Health. Complexities and
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BELTRÁN, L.R. “Salud y Comunicación en Latinoamérica. Políticas, Estratégias y
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las

15

Naciones Unidas para la Educación, la Ciencia y la Cultura. Serie documentos de
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Cara Profa. Isaltina M. Gomes – GT Comunicação e Ciência.

Estou enviando trabalho para ser apreciado por este GT, para apresentação no INTERCOM
em setembro. Entretanto, se receber o aceite, só poderei autorizar a publicação do artigo,
após defesa de tese do doutorado que será no início de agosto. Este artigo é um pequeno
resumo de um dos capítulos da tese de doutorado , cujo título é: Saberes profissionais – Os
programas de Saúde da TV Cultura de São Paulo. A tese será defendida junto ao curso de
Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP – SBC, na área de Comunicação
Científica e Tecnológica.

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Creio que nâo haverá maiores problemas, pois o INTERCOM ocorre somente em setembro.
FONE para contato: 019 – 2874433 (casa), 019- 7567192 (trabalho).
e-mail: iact@acad.com.br (PUC de Campinas
endereço para correspondência
Prof. Simone Bortoliero
– Departamento de Jornalismo – IACT
Rodovia D. Pedro I – Km 136 , caixa postal 317
CEP 13.020.904 – Parque das Universidades
Campinas – Sâo Paulo