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SábADO, 12 DE NOvEMbRO DE 2016

HHH

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PLANTÃO
MÉDICO
JULIO ABRAMCZYK

julio@uol.com.br

RAIO-X
Nome
Yuval Noah Harari
Nacionalidade
Israel, cidade de Haifa
Idade
40 anos (24.fev.1976)
Formação
Doutorado na Universidade
de Oxford (2002)
Trajetória
Professor de história na
Universidade Hebraica de
Jerusalém; autor do best-seller
“Sapiens, uma Breve História
da Humanidade”, que vendeu
mais de 2 milhões de cópias

Os cientistas, hoje, estão se
saindo muito melhor do que
o Deus do Velho Testamento.
Outra capacidade que o
Deus da Bíblia tinha era a de
criar vida de acordo com seus
desejos. Neste século nós já
estamos no ramo de modificar vida e mesmo de criar formas de vida que o próprio
Deus nunca conseguiu criar.
O livro adverte que os desenvolvimentos delineados pelo
sr. não devem ser tomados como profecias, mas sim como
cenários. Várias passagens, no
entanto, dão a entender que
esses cenários vão necessariamente acontecer. Críticas
como as suas à biotecnologia
e à inteligência artificial poderiamimpedirahumanidadede
tomar esse rumo?

Há alguns desenvolvimentos que são inevitáveis. Quando se considera o progresso
da biotecnologia, acho inevitável que no século 21 isso vá
continuar e que a humanidade ganhe imensos novos poderes para remodelar a vida.
Isso no nível mais fundamental. Além dele, começam
a aparecer opções e escolhas.
Atecnologianãoédeterminista. Pode-se usar biotecnologia
para propósitos diferentes.

Para dar um exemplo do
passado: há muitas décadas
temos a capacidade de transplantar órgãos, e as pessoas
imaginavam que o resultado
seria um mercado livre para
órgãos humanos.
Embora a gente veja alguns
desses fenômenos perturbadores, em lugares como a China e a Coreia do Norte, no geral se pode dizer que isso não
aconteceu, embora a tecnologia e fortíssimos incentivos de
mercado estivessem presentes. Os humanos ainda têm a
capacidade ética e política de
impedir o que consideram os
piores usos da tecnologia.
“Novas tecnologias matam
deuses antigos e dão origem a
deuses novos”, diz o livro. Por
queéquenecessitamossubstituir a religião do humanismo,
como o sr. diz, por uma nova
religião, e não por uma ética
secular, baseada em evidências, de baixo para cima?

Quando falo em dar vida a
novos deuses não penso em
reviver algum tipo de politeísmo antigo, ou hinduísmo.
De meu ponto de vista, o
próprio humanismo não está
baseado em evidências, também é um tipo de religião, de
história de ficção. As ideias
centrais do humanismo são
apenas invenções humanas,
basta pensar na ideia de que
todos têm direitos iguais à vida e à liberdade, e assim por
diante – são histórias que inventamos, não está nas leis da
natureza ou no DNA.
Não me inclino a dizer que
isso seja ruim. Histórias são
essenciais para unificar as
pessoas e tornar uma sociedade funcional.
Algumas histórias são melhores que as outras. Digo que
se pode medir o valor de uma
história por quanto sofrimento ela causa ou alivia. No século 20, se compararmos as
histórias do liberalismo e do
humanismo com as do nazismo e do comunismo, veremos
que, de longe, as primeiras
são muito melhores.
Só não acho que sejam histórias relevantes no século 21,

por causa das imensas mudanças na tecnologia que trarão mudanças na sociedade e
na economia. Vamos precisar
de uma nova história, de uma
nova ideologia ou uma nova
religião, se quiser, muito mais
bem adaptada para a sociedade do século 21.
Há uma seção no livro dedicada a desmontar a noção de
livre arbítrio, mas daí o sr.
afirma que a maior ameaça ao
liberalismo e ao humanismo
não é essa ideia filosófica de
que não existe livre arbítrio,
e sim as tecnologias que vão
aboli-lo. O sr. está de luto pelo
liberalismo?

De certo modo, sim. O liberalismo está como a história
dominante por dois ou três séculos, e em vários sentidos foi
uma história muito melhor do
que qualquer outra que a humanidade tenha inventado.
Não acho que devamos ficar
contentes com o fato de que o
humanismo liberal esteja
mais difícil de se manter.
Devemos ser realistas, porém. Com a ascensão de novas tecnologias, agarrar-se a
noções do século 18, como a
de livre arbítrio, não vai nos
ajudar muito. Nenhum sistema, nem mesmo a Igreja ou a

Falo de
tornar-se Deus
e não de brincar
de Deus porque
não se trata
de brincadeira,
é para valer.
Algumas pessoas
acham que é
uma metáfora.
Neste século nós
já estamos no
ramo de modificar
vida e mesmo de
criar formas de
vida que o próprio
Deus nunca
conseguiu criar

CrítiCa

Obra exagera em cenários distópicos,
mas explora bem futuros problemas

HÉLIO SCHWARTSMAN

COLUNISTA DA FOLHA

“Homo Deus”, do historiador israelense Yuval Noah Harari, é um livro surpreendente desde o subtítulo: uma breve história do amanhã. Num
mundo onde até o passado é
incerto, é arriscado fazer previsões sobre o futuro.
O histórico de acertos dos
profetas, sejam eles utópicos, distópicos ou preocupados apenas com a tecnologia,
também recomenda ceticismo. Não vivemos no paraíso socialista, nem sob o tacão do Big Brother e ainda
estou à espera de um carro
aéreo como o dos Jetsons.
Harari tira isso de letra e
ainda produz uma obra extremamente informativa, deliciosamente bem-escrita e que
levanta alguns dos mais sérios problemas da humanidade para as próximas décadas. Tudo isso mobilizando
conceitos de história, filosofia, biologia, psicologia etc.
Curiosamente, Harari consegue ser, ao mesmo tempo,
utópico e distópico.
O autor inicia a obra navegando sob o vento do otimis-

mo. Fala como vencemos ou
estamos perto de vencer as
chagas que nos assombram:
fome, doença e guerra.
“Pela primeira vez na história, mais pessoas morrem hoje por comer demais
do que por comer de menos; mais pessoas morrem
de velhice do que de doenças infecciosas; e mais pessoas cometem suicídio do
que são mortas por soldados, terroristas e criminosos
somados”, escreve Harari.
É só a ponta do iceberg. A
tecnologianãovai parar e, como uma espécie ambiciosa,
nossos próximos alvos serão
a imortalidade, a felicidade
e a divindade.
Sim, parece exagerado,
mas Harari, redefinindo um
pouco esses termos, consegue mostrar de forma razoavelmente convincente um
certo sentido neles. Não é impossível que desenvolvamos
tecnologia para o homem viver até os 150 anos. Talvez sejamos capazes de fazer download de nossas consciências,
a derrota da morte.
A felicidade é ainda mais
fácil de atingir, seja por pílulas ou engenharia genética.

Quanto à divindade, nossa tecnologia atual já entrega
muito mais do que os poderes
atribuídos aos deuses pelos
antigos, aí incluído Jeová no
Antigo Testamento. Os avanços que virão nos tornarão
cada vez mais o Homo Deus,
título do livro.
Mas o mundo nunca é
tão simples. A partir deste
ponto, Harari prepara sua
guinada distópica.
Convém qualificar esse
“distópico”. O historiador
não se considera um profeta. Pretende apenas apontar
tendências. Paradoxalmente,
quanto mais sucesso um autor como Harari tiver em mostrar problemas, de modo que
se possa preveni-los, menos
preciso o livro se torna.
Ciência e tecnologia correspondem a um modo de
pensar. Nos últimos séculos,
a ideologia que prosperou, à
custa das velhas religiões, foi
o humanismo liberal, a ideia
de que a vida humana está
acima de tudo e que são os
valores que criamos que dão
sentido à existência.
Harari aposta que o humanismo não resistirá ao avanço tecnológico. Ele será dina-

KGB, ainda que coletando e
analisando informação sobre
você, podia entender o que se
passa dentro de você.
Estamos chegando em um
ponto em que teremos conhecimento biológico e capacidade de computação para criar algoritmos para entender os humanos melhor
que eles podem entender a
si próprios.
O algoritmo vai levar em
conta seu DNA, sua pressão
arterial, sua função cerebral,
tudo, para entender seus sentimentos e escolhasmuito melhor do que você. Ele poderá
dizer: você quer isso e eu posso dizer por quê.
Isso é diferente dos grandes cenários tipo Big Brother
do século 20. O medo do liberalismo era que algum sistema exterior, algum ditador, fosse esmagar sua individualidade. Agora o grande perigo é o oposto, que o
indivíduo vá se desintegrar
a partir de dentro.
Do ponto de vista científico,
não há indivíduo. O ser humano é uma coleção de subsistemas biológicos. Vai desintegrar-se e ser substituído por
essa coleção de subsistemas,
que poderia ser compreendida e manipulada de fora.
Se isso soa muito abstrato
ou teórico, eis um exemplo: os
aparelhos Kindle. Antes,
quando se queria escolher um
livro para ler, ia-se à livraria.
Ninguém sabia quem você era
nem lhe recomendava nada.
Agora a Amazon faz isso
por você, e vai se tornar cada
vez melhor nisso. Se você conectar um Kindle a software
de reconhecimento facial ou
a sensores biométricos no seu
corpo, estaremos muito perto
do ponto em que a Amazon
poderia saber o impacto emocional exato de cada sentença que você ler no livro.
Com esse conhecimento,
ela será capaz de dizer não
apenas o que fazer na vida,
mas também pressionar seus
botões emocionais e manipulá-lo numa extensão muito
maior que qualquer ditador
com que pudéssemos sonhar.

mitado, à medida que ficar
mais claro que noções basilares para a ética humanista,
como livre-arbítrio e autonomia, não são mais sólidas do
que os deuses dos antigos.
Esses conceitos que fundam instituições como a democracia, o mercado, a Justiça, estão prestes a ser implodidos também pela popularização de programas de computador que nos conhecem
melhor do que nós mesmos.
O robozinho da Amazon
sabe bem os livros que eu
gostarei e provavelmente
comprarei. Logo saberá como reajo emocionalmente
a cada passagem das obras.
Inteligência e consciência
já não são um par indissociável, e as máquinas estão
ficando mais inteligentes
do que o homem.
Esse é provavelmente o
ponto mais fraco do livro. Não
estou tão convencido de que
o humanismo vá sucumbir
ao dataísmo, possível religião
do futuro na visão de Harari.
Ele parece menosprezar a
incrível capacidade humana de acreditar no que bem
deseja, apesar de evidências
em contrário. A persistência
das religiões e a eleição de
Donald Trump são ótimos
exemplos disso.
Há pontos em que ele chega a ser superficial. O estilo
límpido de Harari, que torna a leitura fluida, esconde

Estamos
chegando
em um ponto
em que teremos
conhecimento
biológico e
capacidade de
computação para
criar algoritmos
para entender
os humanos
melhor que eles
podem entender
a si próprios.
Ele poderá dizer:
você quer isso
e eu posso
dizer por quê

No final do livro o sr. lança outra questão –se a inteligência
é mesmo mais valiosa que a
consciência. Minha conclusão
é que ele foi escrito com consciência e a favor da consciência. Na superfície parece um
livro muito pessimista, mas
também pode ser visto como
uma convocação às armas – as
armas da filosofia.

Eu enfatizo repetidamente
que não se trata de um livro
de profecias, porque ninguém
sabe com que o mundo se parecerá em um século. Ele traça diferentes possibilidades.
Num certo sentido, é mesmoumaconvocaçãoàsarmas:
se você não gosta dessas possibilidades, então faça algo a
respeito. Ainda há tempo parapensarsobreessasquestões
e moldar nosso futuro.
Éresponsabilidadedehistoriadores, filósofos e pensadores pensar nas possibilidades
maisnegativaseassustadoras.
Se você questionar o povo do
Vale do Silício sobre como será o futuro, eles vão pintar esselindoquadrodecomoavida
será boa com todas essas tecnologias. Eles têm um poder
tremendo e um monte de dinheiroparapôrnessessonhos.
O repórter especial MARCELO LEITE viajou a
Londres a convite da Companhia das Letras

controvérsiasesutilezasargumentativas em torno desses
complexos problemas.
O autor vai mais longe
em seus cenários “distópicos”. Para o autor, nós delegaremos voluntariamente aos computadores as decisões mais importantes sobre nossas vidas, porque
eles o farão melhor do que
nós. Isso talvez não seja um
mal, mas é definitivamente
um mundo pós-liberal.
A igualdade também poderá sofrer estresse. Harari vislumbra um cenário
em que uma pequena elite terá recursos para adquirir melhoramentos genéticos e talvez a imortalidade, enquanto a grande massa de pessoas se contenta
com muito menos.
Talvez consigam experimentar um pouco da felicidade em drogas, mas apenas
se a elite não considerar que
esses humanos, já não necessários para os processos
produtivos e para a guerra, já
perderam a razão de existir.
“Homo Deus” talvez peque pela hipérbole, mas é
certamente uma obra que
vale a pena ler.
HOmO DEus: umA brEvE
HistóriA DO AmAnHã

EDitOrA Companhia das Letras
AutOr Yuval Noah Harari
trADuçãO Paulo Geiger
prEçO R$ 54,90 (448 págs.)

Os riscos
de uma
cirurgia
bariátrica
AS primeirAS cirurgias
bariátricas aconteceram
em 1974 e, desde então, ganharam o mundo. O lugar
onde mais é praticada são
os eUA, seguidos de perto
pelo Brasil, segundo colocado, que soma 95 mil intervenções anuais da tentativa de promover a redução da obesidade e de
doenças metabólicas.
No editorial da revista
“ABCD —Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva”, os médicos Josemberg
Campos, Almino ramos e
ricardo Cohen apontam o
crescimento em 300% no
número de casos com esse tratamento cirúrgico da
obesidademórbidanosúltimos dez anos. O risco, explicam,equivaleaodacirurgia
abdominal de porte médio.
Uma das possíveis complicações é a síndrome de
dumping, que também esteve presente no antigo tratamento cirúrgico das úlceras de estômago —quando
havia na retirada total do
órgão. (Atualmente, o tratamento da úlcera gástrica
é medicamentoso apenas).
O dumping da cirurgia bariátrica é o resultado da súbita presença do
conteúdo gástrico no início do intestino delgado,
esclarecem na mesma revista Yasmin Silva Chaves
e Afrânio Destefani.
A consequência da invasão inesperada é a liberação de substâncias como
bradicinina e serotonina,
entre outras, que provocam
palpitação, sudorese e tontura. Outra consequência é
hipoglicemia, horas depois,
por excesso de insulina
produzida pelo corpo.

SAÚDE
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al. Barão de Limeira, 425,
São Paulo, CEP 01202-900

Alguém com artrose no
dedão do pé pode correr?
Isso piora o quadro?
E.J.

No caso da leitora, a corrida
poderia sim acelerar a
progressão da doença.
A artrose é o desgaste da
cartilagem que protege as
extremidades dos ossos.
A condição é comum após
a menopausa. O fator
hereditário e a obesidade
também são fatores de
risco, além de traumas
e lesões anteriores.
“Se você faz uma atividade
física de impacto, pode
acelerar a doença”, afirma
Fábio Jennings, presidente
da comissão de reabilitação
e exercícios físicos da
Sociedade Brasileira
de Reumatologia.
Bicicleta e natação são
algumas possibilidades
de exercício com menos
impacto, sugere Jennings.
A prática de exercícios
físicos, acompanhada por
um especialista, é utilizada
como tratamento para a
artrose, afirma o médico.