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A democracia sai arranhada

10/11/2016 09h59
Começo pela correta avaliação de Neil Munshi, colunista do Financial Times: "Trump
subverteu não apenas o mundo político, mas também a indústria de pesquisas, a mídia, os
mercados de previsões, os establishments Republicano e Democrata e toda a ordem
geopolítica".
Ante tamanha revolução, é prudente deixar a poeira baixar antes de aventurar­se a
qualquer previsão sobre como será o seu governo.
Mas, de saída, a sua campanha já minou o prestígio da democracia que parecia inabalável
no Ocidente. Antes mesmo da eleição, o filósofo Daniel Bell, radicado em Pequim, já
escrevia para o "World Post", publicação do site Huffington Post, que algumas
características do sistema de partido único chinês, como a meritocracia, produziam líderes
mais competentes do que nos Estados Unidos.
"Ninguém chega nem perto do topo sem primeiro ser testado durante longos anos como
governador de uma província chinesa", explicava.
É uma tese absurda. A meritocracia na China depende, para ser premiada, de
incondicional fidelidade ao Partido Comunista, o que é a antítese da democracia.
Mas o fato de um filósofo contrapor a democracia ao autoritarismo mostra o tamanho do
problema. O que é assinalado também, sem essa comparação, por um colunista de
excelência, como John Carlin ("El País"), já após a vitória de Trump: "Que uma nação tão
próspera, com uma democracia tão antiga, tenha cometido semelhante disparate põe em
questão como nunca a noção sagrada no Ocidente de que a democracia representativa é o
modelo de governo a seguir pela humanidade".
Reforça editorial do "Financial Times" : "A vitória de Trump parece representar um desafio
para o modelo democrático ocidental".
É sintomática a euforia com que Marine Le Pen e Geert Wilders, líderes da extrema­direita
autoritária na França e na Holanda, receberam a vitória do magnata.
De fato, o modelo, pelo menos o norte­americano, foi absurdamente incapaz de "capturar a
efervescente raiva de uma grande fatia do eleitorado americano que se sentiu deixado
para trás por uma recuperação [econômica] seletiva, traída por acordos comerciais que
eles vêem como ameaça a seus empregos e desrespeitado pelo establishment de
Washington, de Wall Street e da mídia 'mainstream", como escreveu Jim Rutenberg,
analista de mídia do "New York Times".
Foi precisamente a essas pessoas que se dirigiu Trump em seu primeiro pronunciamento
após decidido o pleito, ao dizer que "os homens e mulheres esquecidos de nosso país não
serão mais esquecidos".
O problema com essa frase e com toda a campanha de Trump contra o establishment é
que ele é a quintessência do mundo dos negócios, sem regras e sem limites, que surfa em
todas as crises e sai delas sempre airoso.
Está longe, portanto, de ser a pessoa indicada para corrigir as políticas que provocaram o
sentimento de abandono que, por sua vez, levaram metade do eleitorado a votar por

 sem autorização escrita da Folha de S. Se. Se não. o golpe poderá ser fatal. Endereço da página: http://www1.br/mundo/2016/11/1830760­midia­dos­eua­volta­a­medir­de­forma­errada­o­pulso­do­ eleitor. Paulo.folha. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicaçao. vai polir a imagem da democracia.uol. Todos os direitos reservados. em todo caso.br/colunas/clovisrossi/2016/11/1831109­a­democracia­sai­arranhada. Paulo.Trump.uol.shtml Copyright Folha de S. .shtml Links no texto: escreveu Jim Rutenberg. eletrônico ou impresso.com.folha. conseguir o milagre. analista de mídia do "New York Times" http://www1.com.