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A violência eleitoral e o crime que vai às

urnas
RENATO SÉRGIO DE LIMA
ilustrações EMMANUEL NASSAR
09/10/2016 02h06
RESUMO O texto aborda a presença crescente do crime organizado no processo eleitoral
e na tentativa de ocupar postos no Estado. Um dos temas das eleições municipais, a
violência conecta­se com um sentimento difuso de "pôr fim à bagunça" e explicita o
fortalecimento de um novo coronelismo que coage o eleitor em prol do crime.
Reprodução

 a violência mais uma vez mostrou sua face durante as eleições e nos lembra de que ela é um dos nossos maiores e mais persistentes dilemas civilizatórios. a novidade não é o recurso à violência durante as eleições. fortalecendo o clã familiar.O saldo do primeiro turno das eleições municipais de 2016 tem sido realçado por muitos analistas a partir da inédita derrocada do Partido dos Trabalhadores e/ou em função do êxito da ideologia da antipolítica enquanto estratégia eleitoral. com destaque para os candidatos Conte Lopes (PP). Para se ter uma ideia desse quadro. A novidade é que o crime organizado em torno do tráfico de armas e de drogas trouxe novos atores para a cena política e perdeu o pudor de mostrar força e reivindicar publicamente legitimidade para o controle que faz de territórios e populações. O medo e a vontade de vingança assumem o protagonismo. Os números podem parecer pequenos frente aos quase 60 mil assassinatos anuais registrados no Brasil (segundo dados do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública relativos a 2014). e o segundo em especial diz muito sobre o tempo presente. que por sinal supera nossas fronteiras e se manifesta também na aprovação da saída da Inglaterra da União Europeia. seja lá o que isso de fato signifique no plano da realidade. no Rio de Janeiro –nesse último caso. notadamente na disputa de vagas nas câmaras municipais. os dois fenômenos merecem reflexão. Se antes os donos dos morros e favelas. o crime organizado não sobrevive sem vínculos com o Estado e exige investimentos em lideranças políticas capazes de ocupar espaços e garantir seus interesses. que não avançou no monopólio do uso legítimo da força por parte do Estado. que parece operar um forte deslocamento ideológico do pensamento médio brasileiro em direção a posições políticas conservadoras e reivindicatórias de uma concepção de ordem pública que explora o medo e não oferece uma teoria de mudança que vá além de mais do mesmo. basicamente. Há um sentimento difuso e generalizado de que é preciso "pôr fim à bagunça". Mas. que não pode ser minimizada e precisa ser vigorosamente investigada e enfrentada. A lógica não é a dinâmica democrática. para além desse deslocamento ideológico. aos poucos. na medida em que visa. Não há Estado paralelo; há Estado compartilhado. Eliminaram­se os intermediários. não há problemas em também eliminarem­se os adversários. e Carlos Bolsonaro (PSC). Não à toa. . em São Paulo. os casos ocorridos nesta campanha de 2016 nada mais sejam do que a tradução de um novo patamar na forma de organização do crime no país. Sem dúvida. mas a colonização do Estado. Historicamente. 28 políticos foram assassinados no Brasil. Por essa razão. mas eles dão pistas do quanto a violência é permeada por indícios do fortalecimento de facções criminosas e de milícias que. dificultando em muito a construção plena da cidadania e a garantia de direitos civis e políticos. na adesão de parcela significativa do eleitorado dos EUA às bandeiras de Donald Trump e na rejeição do acordo de paz na Colômbia. os banqueiros do jogo do bicho ou os coronéis do sertão davam bênçãos aos candidatos para que eles pudessem pedir votos nos locais por eles controlados. Para conquistar tais cargos. agora há relatos de milicianos e traficantes de armas e drogas sendo eleitos. foram substituindo os coronéis da nossa história na função de controle territorial e moral de parcelas crescentes da população brasileira. apenas nos últimos quatro meses. Talvez como fruto da nossa modernização às avessas. Colonização que está na origem do que hoje podemos compreender como eixo estruturador das modernas organizações criminosas. a facilitar a corrupção. porta­vozes dessas posições tiveram votações expressivas e ficaram entre os mais bem colocados em várias cidades do país. a lavar dinheiro e a obter influência política e social.

 Em termos comparativos. Não só os direitos civis. o crime organizado pressupõe. O Estado não está simplesmente ausente nos territórios; sua presença pode se dar de forma ambígua e arbitrária –o que. A violência política observada nas eleições de 2016 sugere. mais fortalece as facções do que as enfrenta. AMEAÇA Na prática. mas das milícias e facções.De acordo com o cientista político Guaracy Mingardi. apenas 32% da população brasileira concorda que a democracia é sempre a melhor forma de governo. aquelas imediatamente disponíveis. mais como simulacros do que como realidade. muito provavelmente. Segundo pesquisa do Instituto Latinobarómetro. a violência simbólica e real vai sendo tolerada e aceita. As ações que efetivamente farão a diferença serão aquelas que optarem menos por pirotecnias e discursos e mais por inteligência e investigação. Para completar tal retrocesso. em 2016. a violência e o crime emergem como elementos adicionais de um contexto de profundas carências estruturais e de ilegalismos. que o Brasil vivencia a democracia e. Em um turbilhão de tensões e carências da paisagem urbana. o Brasil parece alheio ao debate sobre segurança pública (delegando às polícias a gestão da vida da população) e encontra­se fragilizado por disputas em torno de sua agenda de direitos. o Brasil é o país com menos confiança interpessoal do continente. o planejamento de ações. mas os direitos políticos estão ameaçados hoje no Brasil. portanto. com a anuência e com o consentimento dos líderes do crime. a divisão do trabalho e. No momento em que o crime organizado exibe musculatura e reforça a violência e a crueldade como linguagens. agora repaginada na imposição não mais dos interesses das oligarquias do passado. com muitos segmentos concebendo a restrição de garantias e a retirada de direitos sociais. um dos mais renomados estudiosos da matéria no país. como consequência. a grande maioria dos atentados políticos registrados durante as eleições só ocorreu. só nos falta a dimensão da efetivação da alteração de resultados eleitorais em grande escala. abandona­se a legitimidade do Estado como o meio mais eficaz de mediação e resolução de conflitos. Por tudo isso. especialmente. porém. Por outro lado. Nesse caso. a democracia é defendida como a melhor forma de governo por 71% dos argentinos e por 54% dos chilenos –só ficamos atrás da Guatemala. não é exagero afirmar que as reações das autoridades aos crimes políticos praticados durante o período eleitoral foram. com somente 3% da população declarando ter confiança nos outros. regressamos ao período entre o século 18 e o início do 19. CONFIANÇA Até por ostentar tais índices. quando 54% dos brasileiros confiavam nesse regime de governo. Trata­se de uma redução de 22 pontos percentuais em relação a 2015. a segurança pública. por um lado. já que estamos falando de eleições municipais e de cidades. Em nome da manutenção da ordem. a dependência de vínculos dessas atividades com o Estado. enquanto a média da América Latina é de 17%. necessariamente. Um Estado que . onde apenas 31% da população crê na democracia. No limite. em muitas ocasiões. a previsão de lucros. que se caracterizava pela falta de liberdade dos eleitores e pela possibilidade constante de uso da violência para determinar os rumos da política. a existência de estruturas hierárquicas. Por essas características. a mobilização de tropas federais não atinge o cerne do problema e funciona mais como medida paliativa e midiática. esse movimento vai minando a crença dos brasileiros na democracia e retroalimenta nossas tradições autoritárias; retroalimenta a defesa de respostas públicas e privadas que fazem uso da violência como linguagem.

RENATO SÉRGIO DE LIMA. é artista plástico. O faroeste caboclo da música da Legião Urbana ganha forma. doutor em sociologia pela USP. Todos os direitos reservados.não consegue se fazer presente no espaço urbano –a não ser pelo lado muitas vezes conflituoso da ação policial– não consegue legitimidade para se habilitar como instrumento de pacificação social. e a segurança pública mais uma vez fica dependente de um dever­ser; ficamos dependentes de um xerife salvador da pátria e da nação.br/ilustrissima/2016/10/1820802­a­violencia­eleitoral­e­o­crime­que­vai­as­urnas. eletrônico ou impresso. A vida perde seu valor moral. Paulo. Endereço da página: http://www1. é diretor presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor de gestão pública da FGV­EAESP.uol.com. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicaçao.shtml Copyright Folha de S. EMMANUEL NASSAR. . Paulo. sem autorização escrita da Folha de S. 67. 46.folha.